Prévia do material em texto
Julia Ourique Narrativas Midiáticas 1º de março de 2024 Narrativa Literária • Jornalismo e literatura sempre caminharam juntos no Brasil; • Primeiros jornais no Brasil foram fundados em 1808, com a vinda de D. João VI e sua família, expulsos da França por Napoleão; • Primeiro jornal foi o Correio Braziliense, já o primeiro jornal impresso no Brasil foi a Gazeta do Rio de Janeiro; • Escritores eram pobres (será?) e o trabalho de jornalista garantia o sustento; • Por isso, a teoria literária é necessária para entender a narrativa literária. Narrativa de ficção • Narrativas dominadas por fatos reais têm como exemplo a história e a biografia; • Narrativas de ficção podem servir de roteiro para uma reportagem e incluem três perguntas: 1. Quem participa dos acontecimentos? 2. O que acontece? 3. Onde e quais circunstâncias acontecem? Atividade em Classe Um peão de 24 anos morreu neste fim de semana após ser pisoteado por um touro, durante uma montaria no distrito de Terra Boa em Alvorada do Oeste (RO), a 460 quilômetros de Porto Velho. Conforme informações do registro policial, o rapaz participava da montaria em uma festa, quando caiu e acabou sendo atingido pelas patas do animal Um vídeo gravado por espectadores do rodeio da festa mostra o momento em que o jovem, que era peão profissional, monta no touro e a porteira é aberta. Poucos segundos depois o peão se desequilibra, cai do animal e é pisoteado. Os palhaços então tentam afastar o touro do jovem, que ficou caído no meio da arena. Na sequência o boi volta na direção dos palhaços e rodopia novamente sobre a vítima. Assustado, o público da arquibancada começa a gritar e o locutor pede ajuda médica. Nas imagens também é possível ver que o peão não utilizava capacete de segurança durante a montaria, mas sim um chapéu. De acordo com testemunhas, o homem chegou a ser socorrido e encaminhado ao hospital, entretanto, não resistiu aos ferimentos. Disponível em: https://g1.globo.com/ro/ji-parana-regiao-central/noticia/peao-morre-apos-ser-pisoteado-por-touro-em-festa-de-alvorada-ro-video.ghtml https://g1.globo.com/ro/ji-parana-regiao-central/noticia/peao-morre-apos-ser-pisoteado-por-touro-em-festa-de-alvorada-ro-video.ghtml https://g1.globo.com/ro/ji-parana-regiao-central/noticia/peao-morre-apos-ser-pisoteado-por-touro-em-festa-de-alvorada-ro-video.ghtml Quem participa dos acontecimentos? • O peão, os palhaços, o locutor, o público e o boi. Os cinco são personagens, sendo o peão o protagonista; o boi, o antagonista; os palhaços e o locutor, personagens secundários; e o público assume o papel de coro (grupo homogêneo não individualizado) O que acontece? • Peão morre em decorrência dos ferimentos após ser pisoteado por um boi Onde e em quais circunstâncias o fato acontece? Foi no distrito de Terra Boa, em Alvorada do Oeste (RO), a 460 quilômetros de Porto Velho (onde), durante uma boiada (circunstâncias). O jovem peão, que não usava equipamentos de segurança, caiu. Na queda, foi pisoteado pelo animal, não morrendo no local graças às intervenções dos palhaços. O locutor do evento pediu ajuda médica pelo microfone, diante de um público aos gritos, mas o rapaz não resistiu aos ferimentos e morreu no hospital (circunstâncias detalhadas). Narrativas mídiáticas • As perguntas da narrativa de ficção se encaixam com as questões do lead da reportagem; • A narrativa no portal se diferencia por apresentar elementos multimidiáticos como vídeo da hora do acidente e fotos, além de uma intervenção publicitária; • A narrativa midiática reúne elementos típicos de todas as narrativas, inclusive as ficcionais e as factuais, e informações adicionais típicas da mídia (como fotos e vídeos); • No exemplo da reportagem temos além da figura do narrador (que seria a jornalista), temos o personagem, enredo e ambiente Elementos da narrativa Personagem Pessoa ou pessoas que aparecem em uma história ou que participam de uma ação Enredo É o que acontece, o conjunto de incidentes que compõem a narrativa Ambiente É o local onde os acontecimentos ocorrem. É o cenário, a localização ou mesmo a situação “Fast Car”, da Tracy Chapman • Quem são os personagens? • Qual é o enredo? • Qual é o ambiente? Disponível em: https://youtu.be/klJDiQIuNRI?si=kwqJcl6G0IU_3M3g Gênero narrativo • De acordo com Angélica Soares (1989), o gênero narrativo é formado pelos elementos que já aprendemos (tempo, lugar, enredo e personagens) e o narrador; • No gênero narrativo conta com variações de escritas, assim surgindo estilos e formas de contar uma história. Entre elas estão: epopeia (ou o épico), o romance, a fábula, o conto, a crônica, a novela e o ensaio; Epopeia De acordo com SOARES (2007), a Epopeia é uma longa narrativa literária de caráter heróico, grandioso e de interesse nacional e social; Apresenta juntamente com todos os elementos narrativos (o narrador, o narratório, personagens, tema, enredo, espaço e tempo) uma atmosfera maravilhosa; Se passa em torno de acontecimentos históricos passados, reúne mitos, heróis e deuses, podendo- se apresentar em prosa (como as canções de gesta medieval) ou em verso (como em Os lusíadas) Epopeia em prosa – Os sertões Publicado originalmente em 1902 como livro, por Euclides da Cunha; Fruto de uma série de 22 reportagens publicadas no jornal A Província de S. Paulo, hoje o Estado de S. Paulo; Fala sobre a Guerra de Canudos (1896-1897); É uma epopeia em prosa que deixa clara a ligação da narrativa literária e a narrativa midiática. Fechemos este livro. Canudos não se rendeu. Exemplo único em toda a história, resistiu até ao esgotamento completo. Expugnado palmo a palmo, na precisão integral do termo, caiu no dia 5, ao entardecer, quando caíram os seus últimos defensores, que todos morreram. Eram quatro apenas: um velho, dois homens feitos e uma criança, na frente dos quais rugiam raivosamente 5 mil soldados. Forremo-nos à tarefa de descrever os seus últimos momentos. Nem poderíamos fazê-lo. Esta página, imaginamo-la sempre profundamente emocionante e trágica; mas cerramo-la vacilante e sem brilhos. Vimos como quem vinga uma montanha altíssima. No alto, a par de uma perspectiva maior, a vertigem... Ademais, não desafiaria a incredulidade do futuro a narrativa de pormenores em que se amostrassem mulheres precipitando-se nas fogueiras dos próprios lares, abraçadas aos filhos pequeninos... E de que modo comentaríamos, com a só fragilidade da palavra humana, o fato singular de não aparecerem mais, desde a manhã de 3, os prisioneiros válidos colhidos na véspera, e entre eles aquele Antônio Beatinho, que se nos entregara, confiante — e a quem devemos preciosos esclarecimentos sobre esta fase obscura da nossa História? Caiu o arraial a 5. No dia 6 acabaram de o destruir, desmanchando-lhe as casas, 5.200, cuidadosamente contadas. CUNHA, 1984 Romance • Começa a existir a partir da Idade Média, com o romance de cavalaria, que tem como exemplo “O Rei Arthur e os Cavaleiros da Távola Redonda”; • Romances não tem compromisso nenhum com o relato de fatos históricos passados; • O romance moderno, publicado em folhetins a partir do século XIX, se caracteriza sobretudo pela crítica de costumes ou pela temática histórica (SOARES, 2007). Como exemplo, podemos citar “Orgulho e Preconceito” ou a série de livros “Bridgerton”; Folhetim • Folhetim é uma narrativa literária seriada, dentro dos gêneros prosa de ficção e romance; • Sua publicação é em partes ou inteira em um jornal ou revista; • Dividida em capítulos, para que o leitor possa esperar a próxima edição; • Conforme o jornalismo se industrializava, os folhetins ficavam populares. Exemplos brasileiros são “Quincas Borba”, de Machado deAssis; “A Moreninha”, de Joaquim Manuel de Macedo; ou “Os Três Mosqueteiros”, de Alexandre Dumas Conto e Crônica • O conto é a narrativa de fôlego, com personagens complexos, mas menor que o romance. Geralmente é uma história curta que “apresenta uma centelha, um momento, uma fatia temporal da existência de um personagem” (SODRÉ; FERRARI, 1986); • A crônica é ainda menor e apresenta um narrador em “posição observadora ou reflexiva – é raro que se intrometa nos pensamentos de personagens” (SODRÉ; FERRARI, 1986); • Em ambas as narrativas, desponta a figura do personagem que humaniza o relato dos fatos, pois gera identificação Novela • Ficção seriada centrada em personagens, dentro de narrativas dramáticas; • Situa-se em termos de extensão entre o conto e o romance; • Propensa à ação, o que a aproxima do gênero dramático; • Diferente do conto, que é conciso, ela traz um conflito principal, personagens planos (sem aprofundamento) e a trama se desenvolve em um espaço e tempo rígidos; • Inspira narrativas jornalísticas em série e a chamada fulanização, que aparece em noticiários sensacionalistas, que busca dramas pessoais para encher de carga emocional o Jornalismo “Beijinho, beijinho”, Luís Fernando Veríssimo Na festa dos 34 anos da Clarinha, o seu marido, Amaro, fez um discurso muito aplaudido. Declarou que não trocava a sua Clarinha por duas de 17, sabiam por quê? Porque a Clarinha era duas de 17. Tinha a vivacidade, o frescor e, deduzia-se, o fervor sexual somado de duas adolescentes. No carro, depois da festa, o Marinho comentou: ‒ Bonito, o discurso do Amaro. ‒ Não dou dois meses para eles se separarem ‒ disse a Nair. ‒ O quê? ‒ Marido, quando começa a elogiar muito a mulher… Nair deixou no ar todas as implicações da duplicidade masculina. ‒ Mas eles parecem cada vez mais apaixonados ‒ protestou Marinho. ‒ Exatamente. Apaixonados demais. Lembra o que eu disse quando a Janice e o Pedrão começaram a andar de mãos dadas? ‒ É mesmo… ‒ Vinte anos de casados e de repente começam a andar de mãos dadas? Como namorados? Ali tinha coisa. ‒ É mesmo… ‒ E não deu outra. Divórcio e litigioso. ‒ Você tem razão. ‒ E o Mário com a coitada da Marli? De uma hora para outra? Beijinho, beijinho, “mulher formidável” e descobriram que ele estava de caso com a gerente da loja dela. ‒ Você acha, então, que o Amaro tem outra? ‒ Ou outras. Nem duas de 17 estavam fora de cogitação. ‒ Acho que você tem razão, Nair. Nenhum homem faz uma declaração daquelas assim, sem outros motivos. ‒ Eu sei que tenho razão. ‒ Você tem sempre razão, Nair. ‒ Sempre, não sei. ‒ Sempre. Você é inteligente, sensata, perspicaz e invariavelmente acerta na mosca. Você é uma mulher formidável, Nair. Durante algum tempo, só se ouviu, dentro do carro, o chiado dos pneus no asfalto. Aí Nair perguntou: ‒ Quem é ela, Marinho? Até a próxima aula ☺ Slide 1: Julia Ourique Slide 2: Narrativa Literária Slide 3: Narrativa de ficção Slide 4: Atividade em Classe Slide 5: Um peão de 24 anos morreu neste fim de semana após ser pisoteado por um touro, durante uma montaria no distrito de Terra Boa em Alvorada do Oeste (RO), a 460 quilômetros de Porto Velho. Conforme informações do registro policial, o rapaz participa Slide 6: Na sequência o boi volta na direção dos palhaços e rodopia novamente sobre a vítima. Assustado, o público da arquibancada começa a gritar e o locutor pede ajuda médica. Nas imagens também é possível ver que o peão não utilizava capacete de segur Slide 7: Quem participa dos acontecimentos? Slide 8: Onde e em quais circunstâncias o fato acontece? Slide 9: Narrativas mídiáticas Slide 10: Elementos da narrativa Slide 11: “Fast Car”, da Tracy Chapman Slide 12: Gênero narrativo Slide 13: Epopeia Slide 14: Epopeia em prosa – Os sertões Slide 15 Slide 16 Slide 17 Slide 18: Romance Slide 19: Folhetim Slide 20: Conto e Crônica Slide 21: Novela Slide 22: “Beijinho, beijinho”, Luís Fernando Veríssimo Slide 23 Slide 24 Slide 25: Até a próxima aula