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Centro Universitário das Américas
Projeto Interdisciplinar 2024.2 – Gestão e Negócios
"Matte e Biscoito Globo: Patrimônio Cultural e Desafios Gastronômicos da Identidade Local"
Wesley Moço da Silva
RA 00357491
wesleymsg@gmail.com 
Franthesco da Silva dos Santos
RA: E0539362
Professora e Orientadora: Mônica Menkaits
Ciências Econômicas
3º Período
RESUMO
Este trabalho analisa a importância do Matte e do biscoito Globo na identidade cultural do Rio de Janeiro e os desafios para seu reconhecimento formal como patrimônios culturais. Desde 2012, a prática dos vendedores ambulantes foi reconhecida como Patrimônio Cultural Carioca, mas os produtos em si ainda não receberam essa chancela. A pesquisa utilizou revisão bibliográfica e análise documental, abordando artigos acadêmicos, decretos e reportagens para entender como esses produtos se tornaram símbolos culturais resilientes, especialmente em momentos críticos, como a pandemia de Covid-19.
Os resultados indicam que, embora o Matte e o biscoito Globo sejam ícones de pertencimento e coesão social, seu reconhecimento oficial enfrenta barreiras políticas e culturais. A conclusão destaca que a patrimonialização desses elementos fortaleceria a identidade local e ajudaria a preservar tradições que são significativas para a memória e a cultura carioca.
PALAVRAS-CHAVE: Patrimônio cultural; Identidade carioca; Matte e biscoito Globo; Tradições locais.
DISCIPLINAS RELACIONADAS: 
Em História Econômica é relacionado como esses produtos refletem práticas econômicas informais que impactaram a economia local do Rio de Janeiro ao longo do tempo. A venda por ambulantes exemplifica a importância das economias informais na sustentação de comunidades e sua adaptação a crises, como durante a pandemia de Covid-19. A trajetória desses produtos mostra a interação entre fatores econômicos, sociais e culturais, destacando o papel do Estado em regulamentar e valorizar essas práticas por meio de decretos e políticas públicas. Assim, a História Econômica ajuda a entender a evolução e a resiliência da economia local e suas tradições. 
O trabalho é relacionado também com a disciplina Contabilidade de Custos, por que ao analisar os custos de produção e distribuição do Matte e do biscoito Globo, considerando fatores como matéria-prima, mão de obra e logística. A disciplina permite explorar como esses custos influenciam a viabilidade econômica dos vendedores ambulantes e pequenos negócios. Além disso, a resposta à crise da pandemia de Covid-19 e as estratégias de controle de custos adotadas podem ser discutidas, destacando a importância de parcerias e medidas de custo-benefício para a sustentabilidade das operações e preservação da tradição cultural.
Introdução
A cidade do Rio de Janeiro possui uma rica e diversificada cultura, refletida em práticas e hábitos que se tornaram símbolos de sua identidade. Entre esses elementos culturais, destacam-se o consumo de mate e o biscoito Globo, especialmente nas praias cariocas, que transcenderam sua função meramente gastronômica para se consolidarem como ícones da tradição local. Em 2012, a atividade dos vendedores ambulantes que comercializam mate, limonada e biscoito de polvilho foi reconhecida como Patrimônio Cultural Carioca por meio do Decreto n.º 35.179, destacando a importância da experiência de consumo na praia. No entanto, o reconhecimento formal abrangeu a prática e não os produtos em si, deixando uma lacuna sobre sua valorização oficial enquanto símbolos culturais. Diante disso, este trabalho tem como objetivo explorar como o mate e o biscoito Globo se tornaram parte integrante da identidade carioca, contribuindo para o senso de pertencimento e a coesão social. Além disso, busca-se analisar os desafios e as implicações do processo de patrimonialização, considerando os aspectos políticos e culturais que influenciam o reconhecimento de elementos simbólicos.
Patrimônio Cultural
A cidade do Rio de Janeiro possui uma rica e diversificada cultura, refletida em práticas e hábitos que se tornaram símbolos de sua identidade. Entre esses elementos culturais, destacam-se o consumo de mate e o biscoito Globo, especialmente nas praias cariocas, que transcenderam sua função meramente gastronômica para se consolidarem como ícones da tradição local. Em 2012, a atividade dos vendedores ambulantes que comercializam mate, limonada e biscoito de polvilho foi reconhecida como Patrimônio Cultural Carioca por meio do Decreto n.º 35.179, destacando a importância da experiência de consumo na praia. No entanto, o reconhecimento formal abrangeu a prática e não os produtos em si, deixando uma lacuna sobre sua valorização oficial enquanto símbolos culturais. Diante disso, este trabalho tem como objetivo explorar como o mate e o biscoito Globo se tornaram parte integrante da identidade carioca, contribuindo para o senso de pertencimento e a coesão social. Além disso, busca-se analisar os desafios e as implicações do processo de patrimonialização, considerando os aspectos políticos e culturais que influenciam o reconhecimento de elementos simbólicos."
 Neste artigo temos o interesse em dissertar sobre um dos patrimônios afetivos da cidade do Rio de Janeiro que se transformou legalmente um patrimônio cultural em 2012 e que se fala muito sobre a cultura carioca, um costume que de tão natural virou tradição, comer um biscoito globo e tomar um matte.
Para isso, é preciso pensar, ainda que momentaneamente, a despeito do Patrimônio Cultural, uma vez que o seu conceito pode se apresentar a partir de inúmeras vértices como mostra o Art. 216 da constituição brasileira promulgada em 1988. O intuito é preservar os bens de natureza material e imaterial que dizem respeito a identidade, à ação e principalmente à memória. Preservação dirá Arantes (2006), é uma prática simbólica e implica na construção social de cada sociedade. E por isso por ser o patrimônio parte que integra uma parte da memória de cada sociedade, é também uma representação a respeito dos acordos sobre os quais itens devem ou podem receber tais títulos. Afinal, quem determina o que cada grupo social considera importante? Dirá Arantes (2006) que essa negociação quase sempre é permeada por conflitos e necessita de um corpo técnico especializado (arquiteto, urbanistas, historiadores, antropólogos, sociólogos, turismólogos, entre outros). Por fim, nos lembra o autor que a negociação em torno dos itens que serão considerados patrimônios passam por um crivo e exercício de poder (Foucault, 2013), uma vez que depende da chancela do estado para postular os bens de natureza material ou imaterial.
Percebe-se com o tempo que a interação do homem na cidade produz e afeta a paisagem, afinal é a cidade uma das principais demonstrações sociais. A construção das ruas dita os caminhos por onde se urbanizou o espaço. As formas e arquiteturas impressas entre muros e calçadas são os reflexos do passado no presente. A cidade, já dizia Castells (1974) e Lefebvre (1999), é muito mais que cimento, concreto e edificações. Nesse sentido a cidade reflete práticas sociais e dinamismos, em que as competições e conflitos, comuns ao jogo da urbanidade, se fazem presentes. Ocorre que de tempos e tempos as peças se modificam, bem como as regras sociais, já dizia Geertz que a cultura “é uma teia de significados que o próprio homem teceu” (Geertz, 2008, p.15), portanto não existe linearidade. O que permanece, ainda que se modificando, são as funções simbólicas atribuídas aos itens selecionados que carregam em si, histórias, funções simbólicas e exportam identidade.
Tal identidade, dirá Roberto Cardoso de Oliveira (2000), é sempre um jogo de negociações. Afinal, qual o significado de ser brasileiro quando se está no exterior, ou de ser carioca quando se está em São Paulo? Identidade, identificar-se e ser identificado vão muito além de nascer em determinado território. Barth (2000) dirá que ela (a identidade) é acionada.
Ao tratarmos dos usos do alimento para refletir sobre a identidade de um determinado grupo, estamos falando de umdos diversos elementos identitários que envolvem esse grupo. Zuin & Zuin (2009) falam dos alimentos tradicionais e da dificuldade de defini-los por conta da sua relação com a memória afetiva dos indivíduos, sua origem geográfica e tradição. Afirmam que: "Diante disso, o alimento produzido e consumido em uma dada região passou a ser mais um atributo de diferenciação entre as inúmeras culturas, tornando costumes gastronômicos e os alimentos sinais de identificação de cada população" (Zuin & Zuin, 2009, p. 49). Os autores explicam que esses alimentos se tornam importantes por serem frutos e referências da história, tradição e cultura.
Esse seria o caso do consumo de matte e biscoito "O Globo" nas praias do Rio de Janeiro. Um hábito desenvolvido pelo carioca é ir à praia e consumir os dois produtos de forma conjunta, criando assim uma tradição carioca praiana com a qual outros cariocas se identificam, mas que não é compreensível para habitantes de outras regiões do país.
Sobre essa identidade carioca, Antônio Houaiss publicou em 1985 um artigo intitulado "Sobre a carioquidade" e diz que carioquidade, ou carioquicidade, é antes de tudo um sentimento: "Como qualquer fato cultural, ser carioca é ser unidade de diversidades" (Houaiss, 2011, p. 100). Ainda segundo o mesmo autor, a depender da faixa etária e temporal, tal identidade pode ter um significado divergente. Cardoso de Oliveira (2000), de maneira semelhante ao que Houaiss afirma, observa que, embora todos se apresentem como brasileiros, diversas são as microidentidades que compõem esses descaminhos, como as bonecas russas em que cada uma revela outra menor. Encontramos identidades nacionais, regionais e locais, e observamos que o morador da cidade do Rio de Janeiro é carioca, mas também pode se apresentar em referência a um bairro ou região, como "tijucano" ou "suburbano".
O caso é que os cariocas sentimos (ou supomos sentir) que algo nos "une" em face dos outros. Mas é algo tão estranho que, em lugar de sentirmos nossa carioquidade, sentimos primeiro a nossa vila-isabelidade ou vila-isabelensidade, nossa tijucanidade, nossa grajuensidade, gaveensidade (...), em suma, nossa ...sidade (...). Mas o que há de comum nessas diversidades que, juntas, fazem a carioquidade? (Houaiss, 1985, p. 100).
Segundo o Decreto Rio nº 39.797, de 1º de março de 2015, a condição carioca ou carioquice é um bem imaterial da cidade do Rio de Janeiro. Considerou-se que a condição carioca é um estado mental, espiritual, corpóreo, gestual e linguístico, antes de ser apenas o gentílico dos que nascem no município do Rio de Janeiro, permitindo que qualquer pessoa possa se converter em carioca quando assim desejar. Isso se conecta, portanto, ao que foi proposto por Houaiss em 1985.
O biscoito Globo e o Matte - identidades cariocas
É de conhecimento geral dos brasileiros que cada região do país tem seus próprios símbolos e patrimônios culturais declarados. O que nem sempre se sabe é como esses símbolos se tornaram patrimônios. Os valores culturais em torno dos alimentos são condicionantes na composição da identidade dessas regiões e, portanto, são fundamentais para compreender as construções culturais.
O que leva um adulto, que pode fazer escolhas alimentares, a optar por um alimento em detrimento de outro é o resultado do processo socializador pelo qual essa pessoa passou. No entanto, é necessário não esquecer que, como destaca DaMatta (2012, p. 3), "nem tudo que alimenta é sempre bom ou socialmente aceitável". Do mesmo modo, "nem tudo que é alimento é comida"
Biscoito Globo
O biscoito de polvilho, que mais tarde deu origem ao nome da marca "O Globo", surgiu, na verdade, em solo paulista, no bairro do Ipiranga, em 1953, como receita dos irmãos Milton, Jaime e João Fernandes Ponce. Segundo Porto (2017), a história por trás da rosquinha de polvilho mais famosa no Rio de Janeiro tem muito a ver com os "anos dourados". O biscoito, a princípio, surgiu sob o nome de "Biscoitos Felippe" e alcançava, em média, cinquenta quilos por dia. O marketing acontecia principalmente através de ambulantes que comercializavam o produto em grandes distâncias pela cidade. Em 1955, ocorreria no Rio de Janeiro o 36º Congresso Eucarístico Internacional, promovido pela Igreja Católica (Brito, 2019).
O evento duraria uma semana e seria realizado no Aterro do Flamengo, com a presença do presidente em exercício, Café Filho. Entre os destaques da programação estavam a imagem de Nossa Senhora de Fátima, trazida de Portugal, e uma mensagem transmitida, via rádio, pelo Papa Pio XII (Brito, Antônio. Biscoito Globo: Histórias de Botafogo, 2019, p. 73).
Ao perceberem uma oportunidade de potenciais clientes no evento, Milton Ponce e seus irmãos partiram para o Rio de Janeiro com cinco ambulantes para vender os biscoitos. O que estava planejado para os cinco dias do evento se esgotou nos dois primeiros, e foi ali na cidade carioca que Milton percebeu um potencial para seu biscoito. Segundo Ana Beatriz Manier (2017), ao iniciarem as vendas pela cidade do Rio de Janeiro, o biscoito foi ganhando mais admiradores, sendo possível encontrá-lo sendo degustado nas areias cariocas, bem como nos campos de futebol. Os irmãos se estabeleceram na cidade, e a cada dia mais o biscoito se popularizava. O fato de ser um produto leve e saudável, já que na receita vão apenas polvilho, gordura, leite e ovos, fez com que caísse no gosto dos cariocas. Era vendido na padaria Globo, localizada no bairro de Botafogo.
O biscoito logo conquistou os cariocas e era vendido na praia e no Maracanã pelos mesmos vendedores do mate Leão. Os pacotes leves e coloridos, de acordo com o sabor — doce (amarelo e vermelho) e salgado (amarelo e verde) — foram pensados para facilitar a visualização durante a venda. Assim, formava-se um pacote completo, com comida e bebida para o consumidor carioca em seus momentos de lazer. Entretanto, ainda faltava tornar o biscoito de polvilho uma "marca", ou seja, que, além de seu sabor, o nome atribuído também conquistasse os cariocas. Quando saiu de São Paulo, o biscoito era conhecido como "Biscoito Felippe". A primeira tentativa de mudança de nome foi para "Biscoitos Copacabana", mas uma empresa em Petrópolis já detinha os direitos sobre o nome. A padaria localizada em Botafogo, onde os biscoitos eram fabricados, tinha o nome fantasia de "Padaria Globo", e foi em homenagem a essa padaria que os biscoitos passaram a ser chamados de "Biscoito Globo", deixando de ser conhecidos como os biscoitos paulistas e, por fim, se tornando o biscoito carioca.
Imagem 1. Biscoito Globo doce e salgado
Fonte Veja Rio1•
Uma reportagem publicada em 2017 pelo jornal New York Times criticou o biscoito que foi chamado de "sem gosto" pelo jornalista David Segal. "Coloque um em sua boca e será como se seus dentes estivessem em uma festa para a qual sua língua não foi convidada", escreveu o repórter do jornal americano (GUIMARÃES, 2020). 
Isso foi o suficiente para causar uma revolta dos cariocas que consideram o biscoito como um ícone da cidade. Foi lançada a #SomosTodosBiscoitoGlobo e os cariocas, de nascimento e de espírito, correram as redes sociais para defender o petisco.
Imagem 2. Brasileiros reagem nas redes sociais à crítica do jornalista do NYT sobre o biscoito Globo. (Foto: Reprodução/Twitter).
Fonte site G l de notícias2 
Em 2020, com as medidas de isolamento adotadas por conta da pandemia de Covid-19, como o fechamento das praias e a realização de partidas de futebol sem público nos estádios, a fábrica de biscoitos Globo viveu a maior crise de sua história. (Guimarães, 2020). Após o anúncio do fechamento da fábrica, ela foi socorrida por um parceiro improvável: a cervejaria Ambev.
Não só de matte vive o biscoito Globo; outra dupla muito comum nas praias cariocas é o biscoito acompanhado de cerveja. Tanto o matte quanto a cerveja são o que a economia chama de "bens complementares", ou seja, o aumento do consumo de um leva ao aumento do consumo do outro. Portanto, socorrer o parceiro nesse momento também seria uma estratégiade sobrevivência para os próximos verões.
"Os combos biscoito + cerveja são a embalagem de uma estratégia corporativa que pressupõe criar ou reforçar o hábito de que cada mordida no biscoito estimule a vontade de tomar um gole de cerveja, ou vice-versa." (Brafman, 2020).
Além disso, a iniciativa da Ambev também serve para fortalecer a própria imagem da marca, afinal, está ajudando a manter a existência de um dos "ícones" do Rio de Janeiro. Além de gerar marketing positivo, ajuda na manutenção de empregos e da renda dos vendedores, que muitas vezes também são responsáveis pela distribuição do seu produto.
Olha o matte!
O Matte Leão, apesar de ser facilmente identificado como um produto carioca, é, na verdade, curitibano. A empresa foi fundada em 1901 por Agostinho Ermelino de Leão Júnior e, em 2007, foi vendida para a Coca-Cola Brasil. Em 2012, após a conclusão do processo de incorporação, a empresa ganhou o nome oficial de Leão Alimentos e Bebidas.
Os vendedores de matte utilizam um uniforme típico laranja, facilmente identificável. Esse uniforme era fornecido pela empresa Matte Leão com a compra de três caixas contendo copos do produto. Com a venda para a Coca-Cola, a distribuição do uniforme cessou. Porém, o uniforme já estava tão fortemente associado ao imaginário carioca que os vendedores passaram a fabricá-lo eles mesmos para continuar as vendas.
A Coca-Cola faz questão de dizer que não está relacionada de forma alguma com autônomos que comercializam o seu produto. "Os vendedores ambulantes de matte exercem suas atividades de maneira totalmente independente. Eles trabalham de forma autônoma, sem qualquer vínculo com a marca Leão. Não temos conhecimento sobre a procedência do produto (o matte em galão) ou a maneira como é preparado." (Mendonça, 2018).
Desde o lançamento do produto em 1901 até a forma atual de consumo, levou-se um tempo. Em função do calor da cidade do Rio de Janeiro, o produto passou a ser consumido de forma diferente do que na região Sul, onde foi lançado. Na década de 1950, os cariocas começaram a consumir o "matte" gelado, sendo vendido principalmente nas praias e no Maracanã. Coincidentemente, foi nessa época que o biscoito Globo aterrizou nas areias cariocas e passou a ser vendido pelos mesmos vendedores.
A venda de matte na praia foi proibida em 2009 por "problemas sanitários"; a alegação era que não seria possível à vigilância sanitária fiscalizar e garantir a qualidade do produto. Os cariocas se indignaram contra a medida e criaram um abaixo-assinado exigindo a volta dos vendedores. Eduardo Paes, então prefeito, voltou atrás na proibição e anunciou, na ocasião, que iria indicar o matte para ser transformado em patrimônio do Rio de Janeiro. Em 2012, o matte das praias do Rio foi declarado oficialmente Patrimônio Cultural e Imaterial da cidade. (Mendonça, 2018).
A forma de consumo do matte não parou no tempo, e a bebida continua em constante evolução. Em 2019, foi lançada uma linha de chás para preparo em água gelada, o que possibilitou combinar o produto com bebidas alcoólicas e facilitou sua entrada em novos ambientes, como bares e boates da noite carioca.
Podemos pensar o consumo de matte e biscoito Globo como sendo o que Eric Hobsbawm chama de "tradições inventadas". Inventar tradições é criar rituais e regras que busquem traçar uma continuidade com o passado, criando uma memória que funciona como um estoque de lembranças. Esse "passado histórico no qual a nova tradição é inserida não precisa ser remoto, perdido nas brumas do tempo." (Hobsbawm, 1997, p. 9 e 10).
Projeto de lei dos ambulantes
Se o que define uma identidade é esse jogo duplo no qual nos identificamos e somos identificados, podemos pensar o biscoito Globo e o matte como parte importante desse processo. A título de exemplo, encontra-se no interior do DECRETO Nº 35.179, de 2 de março de 2012, um dos elementos que compõem a tradição carioca, geralmente presente no espaço da praia, "local democrático de interação social": são os vendedores de biscoito Globo e chá matte, bens imateriais da cidade carioca. "Fica declarada Patrimônio Cultural Carioca a atividade de vendedor ambulante de matte, limonada e biscoito de polvilho nas praias cariocas".
Imagem 3. Decreto que declara vendedor de matte e biscoito globo patrimônio carioca.
Fonte: Leis Municipais do Rio de Janeiro3
A experiência de comer o biscoito Globo, tomar o matte ou comprar com ambulantes na praia, isoladamente, não faz parte da identidade carioca. É necessário o espaço, o local, e principalmente que ambos estejam conectados para convergir nessa experiência formadora da identidade "carioca". Pois, como disse Houaiss e como reforça o próprio decreto sobre a carioquice, é nesse momento que se compartilha do ethos carioca.
Análise de Resultados
A análise dos resultados deste estudo destaca que o Matte e o biscoito Globo são mais do que simples produtos consumidos nas praias do Rio de Janeiro; eles são símbolos de pertencimento e coesão social que refletem a identidade cultural carioca. Embora os vendedores ambulantes que comercializam esses produtos tenham sido reconhecidos como Patrimônio Cultural Carioca em 2012, a formalização do status de patrimônio dos próprios produtos ainda enfrenta desafios significativos. A pesquisa revelou que esses desafios estão intrinsecamente ligados a fatores políticos e culturais, incluindo a definição de critérios de valoração e o papel do Estado na chancela de elementos culturais.
O estudo também mostrou como a economia informal desempenha um papel crucial na manutenção dessas tradições, proporcionando uma fonte de sustento para as comunidades locais. Momentos críticos, como a pandemia de Covid-19, expuseram tanto a vulnerabilidade quanto a resiliência desse setor, com a fábrica do biscoito Globo enfrentando dificuldades que mobilizaram a solidariedade social e parcerias estratégicas para sua sobrevivência. Essa resiliência é um testemunho do valor simbólico que esses produtos têm para a população carioca.
Conclui-se que, para fortalecer a preservação e o reconhecimento formal desses elementos como patrimônio cultural, é essencial uma abordagem que combine apoio governamental e conscientização pública sobre a importância da valorização de símbolos culturais locais. Assim, o trabalho evidencia a necessidade de políticas públicas que promovam a inclusão de elementos gastronômicos na narrativa do patrimônio cultural brasileiro, garantindo a continuidade de práticas que transcendem o consumo e se consolidam como parte da memória coletiva.
Conclusão
Se o que é considerado como patrimônio pressupõe o compartilhamento da identidade cultural e dos valores de determinada região, e se os alimentos são, conforme demonstrado anteriormente, um dos diversos códigos pelos quais cada sociedade pode se manifestar, questionamos: o que exatamente traduz o que é tradicional e o que pode ser considerado patrimônio? Afinal, as comidas são tradicionais pelo que se compartilha ou são tradicionais apenas pelo seu modo de produção? Patrimônio é somente aquilo que um determinado grupo decide considerar como tal?
Se um determinado prato ou alimento se insere nos roteiros de turismo, como o acarajé, o queijo minas e o próprio biscoito Globo, por que este último ainda não foi considerado um patrimônio?
Procuramos demonstrar que o biscoito, combinado ao matte, faz parte da cultura carioca, bem como dos roteiros da cidade. Ademais, foi um dos pontos-chave para tornar o ofício do vendedor de matte um patrimônio carioca, uma vez que o Matte Leão gelado na praia e o biscoito Globo são indissociáveis. Também ressaltamos que, durante a pandemia de Covid-19, foi possível perceber, através das redes sociais, uma movimentação no sentido de colaborar com os vendedores de matte (vaquinhas virtuais, levantamento de vendedores, delivery da bebida) e, principalmente, de empresas que fizeram parcerias para que a fábrica dos biscoitos Globo não fechasse durante esse momento crítico de saúde no Brasil e no mundo.
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