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Apostila 07 – Inquérito Policial (continuação) 1. Notitia Criminis (Cognição Mediata / Imediata / Coercitiva / Inqualificada) De diversas formas a autoridade policial pode vir a tomar conhecimento da existência de infração penal, momento a partir da qual instaurará o IP. Diz-se que há notitia criminis de cognição IMEDIATA/DIRETA/ESPONTÂNEA/INFORMAL quando a polícia toma ciência da infração penal por meio de suas atividades rotineiras. Ex.: investigação para apurar determinado fato criminoso, chegando-se ao conhecimento de outro crime / delegado que toma conhecimento de crime ocorrido nas imediações da delegacia. Atenção: é possível instauração de inquérito policial com base em matéria jornalística? R: STJ decidiu que sim. RCH 98.056-CE. Trata-se de notitia criminis de cognição espontânea. Diz-se que há notitia criminis de cognição MEDIATA/INDIRETA, quando a autoridade policial é comunicada da existência de crime através de expediente formal apresentado por qualquer pessoa. Ex.: registro de ocorrência feito pela vítima / requisição do MP / qualquer do povo que comunique à autoridade policial a existência de infração penal. Diz-se, ainda, que há notitia criminis INQUALIFICADA quando se toma ciência do suposto crime por meio de denúncia anônima. Nessa situação, não é possível a instauração imediata do processo, sob pena de violação do artigo 5º, IV, da CF/88. É necessário que a polícia verifique, previamente, a existência de indícios relacionados à denúncia anônima e, uma vez constatadas evidências de crime, poderá ser instaurado o IP. Ou seja, deverá a polícia realizar a chamada VPI (Verificação de Procedência das Informações). Por fim, há a notitia criminis COERCITIVA quando é apresentada pessoa presa em flagrante na delegacia. 2. Direitos do Indiciado Uma vez tendo ciência do IP, poderá ter acesso ao mesmo e requerer seu trancamento por meio de HC, caso entenda completamente inexistente qualquer motivação para o seu indiciamento. Pode, ainda, efetuar requerimento de diligências (oitiva de testemunhas / realização de perícias) e juntar documentos que comprovem sua inocência. É comum na doutrina a afirmação de que não há contraditório e ampla defesa no âmbito do IP. Porém, essa afirmação é uma meia verdade, pois sendo o indiciado chamado a depor, poderá exercer o contraditório e a sua autodefesa, negando, 2 por exemplo, a prática do crime. Além disso, é possível que se valha de atuação de advogado contratado, que poderá requerer diligências, pugnar pelo trancamento do IP etc. Necessário reforçar, contudo, que grande parte da doutrina defende que não existe contraditório nem ampla defesa no IP. 3. Investigação Diretamente pelo Ministério Público Em primeiro lugar, há que se falar que não há nenhum artigo de lei que considere atribuição privativa da polícia a da investigação de crimes. Pelo contrário, o artigo 129, VI, da CF/88, dispõe: Art. 129. São funções institucionais do Ministério Público: VI - expedir notificações nos procedimentos administrativos de sua competência, requisitando informações e documentos para instruí-los, na forma da lei complementar respectiva; A jurisprudência interpreta o inciso acima como clara autorização ao MP para promover investigação criminal por si próprio, até mesmo porque se ao MP cabe a propositura da ação penal pública, por qual motivo ficaria alijado da função de investigar os crimes que dão ensejo à existência da ação penal? O MP pode instaurar, portanto, o chamado PROCEDIMENTO INVESTIGATÓRIO CRIMINAL. Podemos lembrar, ainda, que a última palavra sobre a propositura ou não da ação penal será de órgão do MP, o Procurador-Geral, pois nas hipóteses em que o juiz discorda do pedido de arquivamento feito pelo promotor, vindo os autos a serem encaminhados ao Procurador-Geral e este concordando com o arquivamento, o juiz será obrigado a acatá-lo, vide antigo art. 28, CPP, ainda vigente enquanto não entrar em vigor o novo art. 28, alterado pela Lei 13.964/2019, que permite o arquivamento feito diretamente pelo MP, sem carecer de determinação judicial. OBS.: o MP NÃO pode presidir/gerenciar IP. Tal cabe ao Delegado. Mas pode dirigir procedimento investigativo próprio, instaurado sob sua alçada. O STF deixou claro, todavia, que a investigação direta pelo MP é marcada pela subsidiariedade e excepcionalidade. O ministro Celso de Mello fixou as bases da investigação direta do MP: “Sempre sob a égide do princípio da subsidiariedade, destinadas a permitir, aos membros do “Parquet”, em situações específicas (quando se registrem, por exemplo, excessos cometidos pelos próprios agentes e organismos policiais, como tortura, abuso de poder, violência arbitrária ou corrupção), ou, então, nos casos em que se verifique uma intencional omissão da Polícia na apuração de determinados delitos ou se configure o deliberado intuito da própria corporação policial de frustrar, em razão da qualidade 3 da vítima ou da condição do suspeito, a adequada apuração de determinadas infrações penais).” “Entre os requisitos, os ministros frisaram que devem ser respeitados, em todos os casos, os direitos e garantias fundamentais dos investigados e que os atos investigatórios – necessariamente documentados e praticados por membros do MP – devem observar as hipóteses de reserva constitucional de jurisdição, bem como as prerrogativas profissionais garantidas aos advogados, como o acesso aos elementos de prova que digam respeito ao direito de defesa. Destacaram ainda a possibilidade do permanente controle jurisdicional de tais atos”. 4. Termo Circunstanciado – Lei 9099/95 (Art. 61) Em relação às infrações de menor potencial ofensivo (contravenções e crimes cuja pena não ultrapasse 2 (dois) anos, não será instaurado inquérito policial, mas sim o termo circunstanciado, procedimento de menor complexidade e que serve de base à propositura de ação penal. 5. Prazos: art. 10, CPP; Art. 51, caput e P. Ú, da Lei 11.343/2006; art. 66, da Lei 5010/66; Art. 10, §1º, da Lei 1521/51. O IP é procedimento temporário. Tem prazo para ser concluído. 5.1 Regra geral. Art. 10, CPP. O CPP determina que o IP deve ser concluído no prazo de 10 dias quando o investigado estiver preso e 30 dias para concluir o IP quando o investigado estiver solto. Os prazos podem ser prorrogados? Em se tratando de investigado solto, é possível o alargamento do prazo, na forma do art. 10, §3º, CPP. “§ 3º Quando o fato for de difícil elucidação, e o indiciado estiver solto, a autoridade poderá requerer ao juiz a devolução dos autos, para ulteriores diligências, que serão realizadas no prazo marcado pelo juiz”. Aliás, o prazo de 30 dias, em tais situações, poderá ser prorrogado mais de uma vez. Trata-se de prazo impróprio, inclusive, pois mesmo não observado não trará efetivas consequências para o caso. Em relação à prorrogação do prazo de IP estando o investigado preso, importante lembrar que a Lei 13.964/2019 alterou o CPP e passou a prever a possibilidade de tal prorrogação: Art. 3º-B. O juiz das garantias é responsável pelo controle da legalidade da investigação criminal e pela salvaguarda dos direitos individuais cuja franquia tenha sido reservada à autorização prévia do Poder Judiciário, competindo-lhe especialmente: 4 VIII - prorrogar o prazo de duração do inquérito, estando o investigado preso, em vista das razões apresentadas pela autoridade policial e observado o disposto no § 2º deste artigo; § 2º Se o investigado estiver preso, o juiz das garantias poderá, mediante representação da autoridade policial e ouvido o Ministério Público, prorrogar, uma única vez, a duração do inquérito por até 15 (quinze) dias, após o que, se ainda assim a investigação não for concluída, a prisão será imediatamenterelaxada. Todavia, pelo fato de o referido artigo estar dentre os suspensos por decisão do STF (ADI’s 6298, 6299, 6300 e 6305), ainda não tem aplicação. Por enquanto, até que entre em vigor o referido artigo, permanece o debate, pois maior parte da doutrina defende que não cabe prorrogação do prazo do IP estando o investigado preso, haja vista que o art. 10 não abre espaço à interpretação extensiva. Doutrinadores mais recentes defendem a prorrogação, desde que por igual prazo. 5.2 Outros Prazos Previstos em Lei para Conclusão do IP: 5.2.1 Procedimentos Vinculados aos Crimes Apurados pela Justiça Federal Art. 66, da Lei 5010/66: 15 dias quando o indiciado estiver preso, podendo ser prorrogado por mais 15 dias. Art. 66. O prazo para conclusão do inquérito policial será de quinze dias, quando o indiciado estiver prêso, podendo ser prorrogado por mais quinze dias, a pedido, devidamente fundamentado, da autoridade policial e deferido pelo Juiz a que competir o conhecimento do processo. Parágrafo único. Ao requerer a prorrogação do prazo para conclusão do inquérito, a autoridade policial deverá apresentar o prêso ao Juiz. Nada diz sobre o investigado solto. Aplica-se o prazo do CPP – 30 dias, podendo ser prorrogado. 5.2.2 Procedimento da Lei de Drogas Art. 51, caput e P. Ú, da Lei 11.343/2006. No caso da Lei de Drogas, o IP será concluído em 30 dias se o indiciado estiver preso, podendo ser duplicado tal prazo pelo juiz. Em caso de réu solto, o prazo será de 90 dias, também podendo ser duplicado. 5 Art. 51. O inquérito policial será concluído no prazo de 30 (trinta) dias, se o indiciado estiver preso, e de 90 (noventa) dias, quando solto. Parágrafo único. Os prazos a que se refere este artigo podem ser duplicados pelo juiz, ouvido o Ministério Público, mediante pedido justificado da autoridade de polícia judiciária. 5.2.3 Crimes Contra a Economia Popular Art. 10, §1º, da Lei 1521/51 Art. 10. Terá forma sumária, nos termos do Capítulo V, Título II, Livro II, do Código de Processo Penal, o processo das contravenções e dos crimes contra a economia popular, não submetidos ao julgamento pelo júri. (Vide Decreto-lei nº 2.848, de 1940) § 1º. Os atos policiais (inquérito ou processo iniciado por portaria) deverão terminar no prazo de 10 (dez) dias. Não há previsão sobre prorrogação. Aplica-se o CPP. A depender da complexidade, pode postular o delegado pela prorrogação. 5.2.4 Prisão Temporária Decretada em IP que Apura Crimes Hediondos A prisão temporária tem base na Lei 7960/89 e dispõe que poderá ser decretada quando imprescindível para as investigações do IP, ou seja, sempre que o indiciado estiver a promover dificuldades à investigação, tais como a de constranger eventuais testemunhas que tenham que ser ouvidos pelo Delegado. Art. 1° Caberá prisão temporária: I - quando imprescindível para as investigações do inquérito policial; Em regra, o prazo da prisão temporária é de 5 dias, podendo ser prorrogado por mais 5. Art. 2° A prisão temporária será decretada pelo Juiz, em face da representação da autoridade policial ou de requerimento do Ministério Público, e terá o prazo de 5 (cinco) dias, prorrogável por igual período em caso de extrema e comprovada necessidade. Todavia, em se tratando de investigação de crimes hediondos e equiparados, a prisão temporária tem prazo alargado, sendo de 30 dias, podendo ser prorrogada por mais 30. Art. 2, §4º, da Lei 8072/90: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Decreto-Lei/Del3689.htm#livroiitituloiicapitulov http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Decreto-Lei/Del3689.htm#livroiitituloiicapitulov http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Decreto-Lei/Del2848.htm#art177 http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Decreto-Lei/Del2848.htm#art177 6 § 4o A prisão temporária, sobre a qual dispõe a Lei no 7.960, de 21 de dezembro de 1989, nos crimes previstos neste artigo, terá o prazo de 30 (trinta) dias, prorrogável por igual período em caso de extrema e comprovada necessidade. Pois bem. A pergunta que se faz é: se no caso de crimes hediondos, a prisão temporária, NECESSÁRIA À INVESTIGAÇÃO, tem prazo de 30 dias, podendo ser prorrogada por mais 30, isso significa que o IP poderá ser concluído, excepcionalmente, em 60 dias, mesmo estando o réu preso? Não haveria conflito entre o art. 2º, §4º, da Lei 8072/90 e o art. 10 do CPP? R: a doutrina majoritária vem entendendo que o IP em tais hipóteses passará sim a ter prazo majorado, de 30 ou 60 dias, a depender do prazo de prisão temporária que tiver sido decretado. Quadro Comparativo2 Investigado Preso Investigado Solto* CPP (art. 10, caput, cc/ art.3º-B, §2º) 10 + 15* (ainda não entrou Em vigor a hipótese de prorrogação) 30 dias Inquérito Policial Federal 15 + 15 30 dias Lei de Drogas 30 + 30 90 + 90 Crimes contra a Economia Popular 10 10 Prisão Temporária em IP que apura Crimes Hediondos e Equiparados 30 + 30 Não se aplica *Sendo investigado solto, doutrina e jurisprudência admitem a prorrogação sucessiva do prazo para a conclusão do IP. 2 DE LIMA, Renato Brasileiro. Manual de Processo Penal. 8ª ed. Salvador: JUSPODIVM, 2020, p. 230. http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L7960.htm http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L7960.htm 7 6. Relatório Final Art. 10, §1º, CPP O Delegado deverá fazer relatório final sobre o IP, sintetizando os fatos, apontando as diligências realizadas e oferecendo uma análise sobre a ocorrência ou não do crime. O Delegado, ainda, pode apontar em que crime incorreu o investigado, bem como apresentar requerimento de busca e apreensão ou prisão preventiva. Na hipótese da Lei de Drogas, o delegado deverá observar os requisitos do art. 52, I, da referida Lei 11.343/2006: Art. 52. Findos os prazos a que se refere o art. 51 desta Lei, a autoridade de polícia judiciária, remetendo os autos do inquérito ao juízo: I - relatará sumariamente as circunstâncias do fato, justificando as razões que a levaram à classificação do delito, indicando a quantidade e natureza da substância ou do produto apreendido, o local e as condições em que se desenvolveu a ação criminosa, as circunstâncias da prisão, a conduta, a qualificação e os antecedentes do agente; ou Nesse caso, o delegado estará emitindo um juízo de valor sobre a conduta. Trata-se de medida necessária, pois em se tratando de lei de drogas, deverão estar presentes circunstâncias que sejam capazes de diferenciar a simples posse da droga para consumo pessoal da posse da droga com fins de traficância. 7. Encaminhamento dos Autos do IP Finalizado A quem o Delegado encaminha o IP finalizado? Na verdade, diferentemente do que dispõe o artigo 10, §1º, CPP, os autos do IP concluído NÃO serão encaminhados ao JUIZ, mas SIM ao MP, titular da ação penal. A CF/88 ADOTOU O SISTEMA ACUSATÓRIO. SEPARAÇÃO DE FUNÇÕES ACUSATÓRIA E JUDICIAL. Trata-se de previsão legal, pois, não recepcionada pela CF/88. Nos IP em que são apurados crimes de ação penal privada, encaminhará sim ao juiz competente, aguardando-se manifestação do ofendido (querelante) sobre a propositura da ação penal privada. 8. Providências do MP 8.1 Realização de Acordo de Não Persecução Penal – Art. 28-A, CPP 8 8.2 Oferecimento da Denúncia: concordando com as conclusões obtidas em sede de IP, o MP denunciará o investigado, com base nas provas colhidas nas investigações. 8.3 Arquivamento do IP 8.4 Requerimento de Diligências Necessárias – art. 16, CPP O MP, caso entenda que o fato não esteja devidamente elucidado, pode requerer novas diligências ao delegado. As novas diligências devem ser imprescindíveispara a propositura da ação penal. Ex.: oitiva de testemunha essencial ao entendimento do fato investigado. 8.5 Requerer Declinação de Competência Chegando à conclusão o MP Estadual de que o fato diz respeito a crime federal, deverá pugnar pela declinação de competência para a Justiça Federal. E vice- versa. Juiz decidirá sobre remessa dos autos à Justiça competente. 8.5 Suscitar Conflito de Atribuições IP encaminhado a órgão do MP não especializado. Deverá ser encaminhado à promotoria especializada para a apuração daquele caso. O MP é bastante compartimentado internamente no tocante à atribuição de tarefas. Pode ser, portanto, que, concluído o IP relacionado a investigação de combate à corrupção, seja encaminhado o IP para o GAECC (Grupo de Atuação Especializada no Combate à Corrupção), mas verificará o promotor que naquele caso há indícios de atuação de crime organizado, o que ensejará o encaminhamento do caso ao GAECO (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado). 9. Arquivamento e Desarquivamento do IP CPP Art. 28. Se o órgão do Ministério Público, ao invés de apresentar a denúncia, requerer o arquivamento do inquérito policial ou de quaisquer peças de informação, o juiz, no caso de considerar improcedentes as razões invocadas, fará remessa do inquérito ou peças de informação ao procurador-geral, e este oferecerá a denúncia, designará outro órgão do Ministério Público para oferecê-la, ou insistirá no pedido de arquivamento, ao qual só então estará o juiz obrigado a atender. Alguns podem até fazer a seguinte indagação: se o domínio da ação penal pertence ao Ministério Público, por que o pedido de arquivamento deve passar pela análise do Poder Judiciário? A resposta surge de imediato. É bem verdade que o dominus 9 littis é do Ministério Público, mas em virtude de um princípio aplicado a ação penal pública, deve o pedido de arquivamento passar pela deliberação do Juiz. O princípio o qual nos referimos é o da obrigatoriedade da ação penal. Destarte, é necessário submeter o pedido de arquivamento ao judiciário, para que este fiscalize e faça valer se for o caso, o princípio da obrigatoriedade da ação penal. Princípio da obrigatoriedade: o MP tem o dever de oferecer a denúncia sempre que estiver diante de indícios de fato criminoso, dotado de punibilidade concreta. O MP é obrigado, pois, a promover a ação penal se estiver diante de fato que, a seu ver, configure infração penal. Não há, portanto, discricionariedade, ou seja, o MP não pode, por critério de conveniência ou oportunidade, escolher promover a ação penal ou não. O fato de o juiz, portanto, analisar o pedido de arquivamento tem direta relação com a fiscalização do cumprimento do princípio da obrigatoriedade pelo MP. O princípio da obrigatoriedade continua merecendo prestígio, mas devemos lembrar que com a redação do novo art. 28 do CPP, pela Lei 13.964/2019, não mais caberá ao juiz realizar tal tarefa de fiscalizar a observância a tal princípio. Eis o que diz o novo art. 28: Art. 28. Ordenado o arquivamento do inquérito policial ou de quaisquer elementos informativos da mesma natureza, o órgão do Ministério Público comunicará à vítima, ao investigado e à autoridade policial e encaminhará os autos para a instância de revisão ministerial para fins de homologação, na forma da lei. (Redação dada pela Lei nº 13.964, de 2019) § 1º Se a vítima, ou seu representante legal, não concordar com o arquivamento do inquérito policial, poderá, no prazo de 30 (trinta) dias do recebimento da comunicação, submeter a matéria à revisão da instância competente do órgão ministerial, conforme dispuser a respectiva lei orgânica. (Incluído pela Lei nº 13.964, de 2019) § 2º Nas ações penais relativas a crimes praticados em detrimento da União, Estados e Municípios, a revisão do arquivamento do inquérito policial poderá ser provocada pela chefia do órgão a quem couber a sua representação judicial. A partir da Lei 13.964/2019, o arquivamento será realizado por determinação do próprio promotor. Caberá à vítima, ao representante legal desta ou à chefia do órgão público (em crimes praticados contra a União, Estados ou Municípios) recorrer dessa decisão de arquivamento à órgão superior do MP, que deverá analisar a impugnação e emitir decisão concordando ou não com o arquivamento. Frisa-se, novamente, que o NOVO artigo 28 está com a vigência suspensa, haja vista decisão proferida pelo STF (ADI’s 6298, 6299, 6300 e 6305). 10 9.1 Fundamentos que Dão Ensejo ao Arquivamento O CPP não traz os motivos pelos quais o MP pedirá o arquivamento ou as situações em que o juiz poderá arquivá-lo. LACUNA LEGAL GRAVE. O CPP DEVERIA ESTABELECER QUANDO O MP ESTARIA AUTORIZADO A REQUERER/DETERMINAR O ARQUIVAMENTO E QUANDO DEVERIA PROPOR A AÇÃO PENAL. Desse modo, aplicam-se, por analogia, os artigos 395, que traz as hipóteses de rejeição da denúncia e 397 do CPP, que permitem a absolvição sumária. O art. 395, portanto, está presente no CPP de modo a orientar o juiz no momento de recebimento ou rejeição da denúncia, ou seja, já proposta a ação penal, o juiz poderá rejeitá-la por não estarem presentes requisitos mínimos para o processamento daquela ação, dentre os quais a justa causa, que, grosso modo, significa que não há indícios mínimos, sequer resquícios de materialidade ou autoria da infração penal, o que permitirá ao juiz sequer receber a denúncia. Aplicando-se tal artigo, por analogia, à hipótese de arquivamento de IP, o MP, portanto, se deparando com situação em que não há sequer resquício de dados que apontem a ocorrência do crime ou a autoria do indiciado, estará autorizado a pedir o arquivamento do IP, sendo tal requerimento analisado pelo juiz. (MATERIAL PROBATÓRIO INSUFICIENTE) De igual modo, em se tratando de hipótese de absolvição sumária, prevista no artigo 397 do CPP, também vamos aplicá-la por analogia para analisar se é a hipótese de requerer o arquivamento do IP. A absolvição sumária no processo já ajuizado pode ocorrer depois da apresentação da defesa pelo Réu, momento no qual o acusado pode apresentar ao juiz alegação de: i) excludente de ilicitude (legítima defesa, estado de necessidade, exercício regular do direito, estrito cumprimento do dever legal) – art. 23, I a III do CP; ii) excludente de culpabilidade (inexigibilidade de conduta diversa) – art. 22, CP; iii) o fato não constitui crime (fato atípico); iv) extinção de punibilidade. Desse modo, sempre que o MP se deparar com essas questões e se entendê- las presente no caso concreto, poderá, desde logo, pedir/determinar o arquivamento do IP. 11 9.2 Modalidades de Arquivamento (Levando-se em conta o Ainda Vigente Art. 28, anterior à Lei 13.964/2019) 9.2.1 Direto Formulado expressamente pelo MP, sendo acatado pelo juiz. OBS.: e se o juiz não concordar com o pedido de arquivamento feito pelo MP? Segue-se o artigo 28 do CPP, vindo o juiz a encaminhar os autos ao Procurador- Geral, órgão máximo do MP na respectiva jurisdição, vindo o Procurador a: a) propor a denúncia; b) designar outro promotor, para que a proponha; c) concordar com o pedido de arquivamento, situação em que o juiz a acatará. 9.2.2 Indireto O MP, em vez de oferecer a denúncia, o MP pede pela remessa dos autos ao juízo competente. Ocorre, por exemplo, se o MP Estadual entender que o crime apurado nos autos é de competência da Justiça Federal. O MP Estadual, então, pede que o IP seja encaminhado ao juízo competente (Justiça Federal), sendo lá submetido ao MPF que avaliará a viabilidade da ação penal. Haja vista que essa providência, caso acatada pelo juiz, encerra o procedimento no âmbito da Justiça Estadual, considera-se que é um arquivamento indireto. Seo juiz não concordar com a remessa dos autos à Justiça Federal, a solução será a mesma do 28 do CPP, ou seja, os autos serão encaminhados ao Procurador-Geral, que analisará o caso e poderá propor a denúncia, designar outro promotor para oferecê-la ou concordar com o promotor que pediu a remessa dos autos à Justiça Federal, situação em que o juiz terá de acatar a remessa. Ex.: notitia criminis sobre indivíduo em Campos que esteja utilizando documentos falsos (RG falso, por exemplo). Art. 304, CP. 2 a 6 anos. RG expedido pelo DETRAN/RJ. Em tese, pode se pensar que se o documento é expedido por órgão estadual, a competência será da Justiça Estadual, motivo pelo qual tramita o IP vinculado à uma Vara Criminal da Comarca de Campos. Porém, no decorrer do IP apura-se que o uso do documento falso somente ocorreu no âmbito do INSS (órgão federal). Há súmula do STJ sobre o tema: 12 Súmula 546-STJ: A competência para processar e julgar o crime de uso de documento falso é firmada em razão da entidade ou órgão ao qual foi apresentado o documento público, não importando a qualificação do órgão expedidor. Ou seja, nesse caso o MP Estadual, apurando que o documento falso somente foi usado no âmbito de autarquia federal, deverá requerer o encaminhamento do IP para a Justiça Federal. 9.3.3 Implícito (Previsão Doutrinária, somente) Ao oferecer a denúncia, o MP deixa de incluir algum fato ou um dos indiciados. IP que é concluído com relatório final do delegado, apontando, em tese, o envolvimento de três indivíduos na prática do crime. MP oferece denúncia somente contra dois dos envolvidos, deixando um deles livre da ação penal. (ARQUIVAMENTO IMPLÍCITO SUBJETIVO) Considera-se nesse caso que em relação ao terceiro ocorreu um arquivamento implícito, pois o MP nada disse, nada fundamentou, apenas o excluiu do polo passivo da ação penal. De igual modo, pode ser que estivessem sendo investigados dois crimes: peculato e corrupção passiva. O MP, no entanto, somente propõe ação penal abordando a tese de crime de peculato. Ora, nesse caso, considera-se que em relação ao crime de corrupção passiva, ocorreu um arquivamento implícito. (ARQUIVAMENTO IMPLÍCITO OBJETIVO) O que caracteriza o arquivamento ser implícito é justamente a ausência de fundamentação do MP para não propor a ação penal em face daquele indivíduo ou em relação a certo fato apurado no IP. ATENÇÃO: NÃO É ADMITIDA ESSA MODALIDADE EM NOSSO ORDENAMENTO JURÍDICO, HAJA VISTA QUE PELO PRINCÍPIO DA OBRIGATORIEDADE O MP TEM O DEVER DE PROPOR A AÇÃO PENAL E SE ESTIVER CONVENCIDO DA AUSÊNCIA DE PROVA OU DE FATO CRIMINOSO EM SI DEVE REQUERER EXPRESSAMENTE O ARQUIVAMENTO AO PODER JUDICIÁRIO. MP, CASO NÃO PROPONHA A AÇÃO PENAL CONTRA OS INVESTIGADOS, DEVE REQUERER EXPRESSAMENTE E APRESENTAR FUNDAMENTOS PARA TAL PROMOÇÃO. O juiz, portanto, deve analisar cuidadosamente o IP e eventual Denúncia, a fim de verificar se o MP abriu mão de propor ação penal em face de algum dos 13 indiciados ou diante de um eventual fato criminoso. Caso o juiz verifique que o MP não promoveu ação penal contra um dos indiciados, por exemplo, deve intimar o MP para que se manifeste expressamente, seja para denunciar o indiciado faltante, seja para requerer/determinar o arquivamento do IP em relação a tal investigado. Caso o juiz não perceba que o MP abriu mão de promover ação penal em face de um dos indiciados, por exemplo, poderá a vítima ou seu representante legal propor ação penal privada subsidiária da pública. Art. 29, CPP e 100, §3º, CP. TODAVIA, segundo doutrina minoritária (Afrânio Silva Jardim) que criou a tese do arquivamento implícito, se o MP não propõe ação penal em face de algum dos envolvidos apontados pelo IP ou deixa de propor ação em relação a uma das infrações penais apuradas, não verificando o juiz tal incongruência, ocorrerá sim o arquivamento implícito e não poderá o MP propor denúncia posteriormente, senão quando presentes novas provas. Na prática, contudo, o MP poderá sim aditar a denúncia a posteriori, pois para que se dê arquivamento, imprescindível decisão judicial a respeito. Ou, ainda, como dito acima, o ofendido poderá propor ação penal privada subsidiária da pública. Art. 29, CPP. 9.3 (I)Recorribilidade Contra a Decisão de Arquivamento Em regra, é decisão irrecorrível. Não cabe recurso. Imaginemos que a suposta vítima do crime, diante do pedido de arquivamento pelo MP e diante do efetivo arquivamento do IP pelo juiz, não se conforme? Nada poderá fazer. Não há recurso cabível para tal situação. Exceções: A) Recurso de Ofício (Crimes contra a Saúde Pública ou Economia Popular – Lei 1521/51, art. 7º): quando o juiz arquiva o IP, automaticamente remeterá o processo à 2ª instância, onde será reanalisada a decisão de arquivamento. Art. 7º. Os juízes recorrerão de ofício sempre que absolverem os acusados em processo por crime contra a economia popular ou contra a saúde pública, ou quando determinarem o arquivamento dos autos do respectivo inquérito policial. Exemplos de crimes contra a economia popular: vender mercadorias abaixo do preço de custo para eliminar a concorrência; gestão fraudulenta de bancos; B) atribuição originária do Procurador-Geral de Justiça: ex: crimes cometidos pelo governador do Estado. É da atribuição originária do PGJ a propositura da ação penal. Nesse caso, quando o PGJ postula pelo arquivamento, em havendo requerimento para revisão desse pedido, serão encaminhados os autos ao Colégio de 14 Procuradores, a fim de que estes analisem a viabilidade jurídica ou não do arquivamento. (Lei 8625/92 (Lei Orgânica do MP, Art. 12, XI)) Art. 12. O Colégio de Procuradores de Justiça é composto por todos os Procuradores de Justiça, competindo-lhe: XI - rever, mediante requerimento de legítimo interessado, nos termos da Lei Orgânica, decisão de arquivamento de inquérito policial ou peças de informações determinada pelo Procurador-Geral de Justiça, nos casos de sua atribuição originária C) Contravenção do Jogo do Bicho e Corridas de Cavalo Fora do Hipódromo Lei 1508/51 (Art. 6º, P. Ú): Art. 6º Quando qualquer do povo provocar a iniciativa do Ministério Público, nos têrmos do Art. 27 do Código do Processo Penal, para o processo tratado nesta lei, a representação, depois do registro pelo distribuidor do juízo, será por êste enviada, incontinenti, ao Promotor Público, para os fins legais. Parágrafo único. Se a representação fôr arquivada, poderá o seu autor interpôr recurso no sentido estrito. De acordo com o novo artigo 28, §1º (não vigente ainda), caso o MP ordene o arquivamento do IP, a vítima ou seu representante legal poderá requerer a reconsideração dessa determinação ao órgão revisor na estrutura do MP. De todo modo, essa revisão também será feita de forma automática, segundo o novo artigo 28, caput. 9.5 Retratação do Pedido de Arquivamento: é possível? STF já se manifestou contrariamente (STF – Inq. Nº 2028/BA) à possibilidade de retratação. Somente poderia o MP voltar atrás do arquivamento e propor a ação penal se surgissem novas provas. Seria aplicada nesse caso a Súmula 524 do STF: “Arquivado o inquérito policial, por despacho do juiz, a requerimento do promotor de justiça, NÃO PODE A AÇÃO PENAL SER INICIADA, SEM NOVAS PROVAS”. 10. Desarquivamento Arquivado o IP, não mais poderá ser investigado aquele fato supostamente criminoso? R: somente poderá ser novamente investigado se surgirem NOTÍCIAS de novas provas. http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Decreto-Lei/Del3689.htm#art27 15 Ou seja, a decisão que determina o arquivamento do IP não transita em julgado. ATENÇÃO à leitura do artigo 18 do CPP e da Súmula 524 do STF: “Art. 18. Depois de ordenado o arquivamento doinquérito pela autoridade judiciária, por falta de base para a denúncia, a autoridade policial poderá proceder a novas pesquisas, se de outras provas TIVER NOTÍCIA”. Súmula 524 do STF: “Arquivado o inquérito policial, por despacho do juiz, a requerimento do promotor de justiça, NÃO PODE A AÇÃO PENAL SER INICIADA, SEM NOVAS PROVAS”. Em surgindo NOTÍCIAS DE NOVAS PROVAS, é possível a reabertura do IP. Mas para propositura de ação penal, será necessário que a partir de tais notícias, SEJAM PRODUZIDAS, DE FATO, NOVAS PROVAS. Em resumo, sem NOTÍCIA de prova nova o inquérito policial não pode ser desarquivado, e sem PRODUÇÃO de prova nova não pode ser proposta ação penal. Então, o artigo 18 e a Súmula 524, STF, tratam de assuntos parecidos, mas não iguais. 10.1 Desarquivamento do IP – Impossibilidade em Certos Casos Cabe uma pergunta: sempre será possível o desarquivamento do IP? Veremos que em duas hipóteses, não será possível o desarquivamento do IP. 10.1.1 Em caso de arquivamento por atipicidade Seja o arquivamento em decorrência de atipicidade formal ou material (princípio da insignificância), não mais será possível o desarquivamento do inquérito, considerando-se que a decisão que determinou seu arquivamento fez coisa julgada material. O STF já decidiu que se o arquivamento se deu por ter sido reconhecida a ATIPICIDADE (FORMAL OU MATERIAL) do fato, a decisão de arquivamento faz coisa julgada material. (Crime: fato típico, antijurídico e culpável). Em se tratando de atipicidade formal, foi constatada a presença de um fato, houve especificamente prova do fato, mas tal acontecimento não está previsto 16 legalmente como crime. Ex.: prostituição. Prostituir-se não é crime. A exploração da prostituição alheia que o é (art. 230, CP – Rufianismo). 10.1.2 Em caso de arquivamento com fundamento em excludente de ilicitude ou culpabilidade A tese que prevalece hoje no STF (nem sempre foi assim, pois esse Tribunal já decidiu de modo diverso) é a de que pode ser desarquivado o IP que tenha sido arquivado com base em excludente de ilicitude, seguindo-se exatamente o que dizem os artigos 18 do CPP e a Súmula 524 do STF, não se fazendo distinção nesse particular se o fundamento que gerou o arquivamento do IP foi levado a efeito por excludente de ilicitude. (INFO 796 / INFO 858) Ou seja, para o STF a decisão de arquivamento do IP com base em excludente de ilicitude não faz coisa julgada material. “HABEAS CORPUS. PROCESSUAL PENAL. TRANCAMENTO DE AÇÃO PENAL. INQUÉRITO POLICIAL: ARQUIVAMENTO ORDENADO POR JUIZ COMPETENTE A PEDIDO DO MINISTÉRIO PÚBLICO, COM BASE NO ESTRITO CUMPRIMENTO DO DEVER LEGAL. EXCLUDENTE DE ILICITUDE. ANTIJURIDICIDADE. DESARQUIVAMENTO. NOVAS PROVAS: POSSIBILIDADE. SÚMULA 524 DO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL. ORDEM DENEGADA. 1. A decisão que determina o arquivamento de inquérito policial, a pedido do Ministério Público e determinada por juiz competente, que reconhece que o fato apurado está coberto por excludente de ilicitude, não afasta a ocorrência de crime quando surgirem novas provas, suficientes para justificar o desarquivamento do inquérito, como autoriza a Súmula 524 deste Supremo Tribunal Federal. 2. Habeas corpus conhecido e denegado. (HC 95211, CÁRMEN LÚCIA, Primeira Turma, julgado em 10.3.2009)”. Trecho de Voto de Gilmar Mendes (HC 125.101 - SP): “Não vislumbro razão para essa diferença de tratamento [possibilidade de desarquivamento no caso de arquivamento por falta de provas e impossibilidade de desarquivamento por ter ocorrido arquivamento com base em excludente de ilicitude]. E, como já afirmado, tenho que a prova, nessa fase processual, não pode ser tida por definitiva. Em suma, tenho que a eficácia preclusiva do arquivamento está limitada a impedir a propositura da ação penal em face da reavaliação dos mesmos fatos. Com novas provas, apontando para nova versão dos fatos, sempre é viável a retomada da investigação, independentemente do fundamento do arquivamento. Esse entendimento está em perfeita sintonia com a garantia contra dupla incriminação. O artigo 8º, 4, do Pacto de São José da Costa Rica estabelece que “o acusado absolvido por sentença transitada em julgado não poderá ser submetido a novo processo pelos mesmos fatos”. Trata-se de garantia institucional, a ser moldada pelo direito interno, de acordo com suas características. Em nosso direito, como visto, o arquivamento do inquérito ocorre justamente quando o Ministério Pública deixa de promover a ação penal. Assim, não há que se falar em “acusado” ou “absolvição”, na medida em que, naquele momento, a ação penal não foi intentada”. 17 Ou seja, o STF segue à risca o que dispõe o artigo 18 do CPP e a Súmula 524 do próprio Supremo, não enxergando distinção para hipóteses de desarquivamento de IP, sendo possível o desarquivamento diante de notícias de novas elementos probatórios. Há corrente jurisprudencial contrária no STJ (RESP 791.471), para o qual o arquivamento do IP com base em excludente de ilicitude faz sim coisa julgada material. (INFO 554) “Deste modo, não houve arquivamento por falta de suporte probatório mínimo (indícios de autoria e certeza de materialidade), mas por reconhecimento de causa excludente da ilicitude - questão de mérito, que faz coisa julgada e impede a rediscussão do caso penal. O mencionado art. 18 do CPP - e pertinente Súmula 524/STF - permite o desarquivamento do inquérito, pelo surgimento de provas novas, mas tal permissão legal somente pode ser compreendida nos limites do arquivamento por falta de provas. Pensar o contrário, concessa venia, permitiria a reabertura de inquéritos por revaloração jurídica e afastaria a segurança jurídica das soluções judiciais de mérito, como no reconhecimento da extinção da punibilidade (por morte do agente, prescrição...), da atipia ou, como na espécie, de excludentes da ilicitude. A decisão judicial que define o mérito do caso penal, mesmo no arquivamento do inquérito policial, gera efeitos de coisa julgada material. Note-se, aliás, que a decisão judicial que examina o mérito e reconhece a atipia ou a excludente da ilicitude, é prolatada somente em caso de convencimento com grau de certeza jurídica pelo magistrado. Na dúvida se o fato deu-se em legítima defesa, a previsão legal de presença de suporte probatório de autoria e materialidade exigiria o desenvolvimento da persecução criminal. Se reconheceu o juiz a legitima defesa, o fez com grau de certeza jurídica e sua decisão gera coisa julgada material. O STJ considera, portanto, que sempre que o arquivamento do IP ocorrer por falta de provas, em surgindo provas novas poderá ser desarquivado. Defende o STJ, contudo, que existindo arquivamento por ter sido analisada a situação e verificada a existência de excludente de ilicitude ou culpabilidade, por exemplo, o arquivamento não foi realizado com base em frágil arcabouço probatório, mas sim com fundamento em juízo certeza jurídica. O posicionamento do STJ está mais voltado ao princípio da segurança jurídica. O posicionamento do STF está mais voltado à interpretação literal do artigo 18 do CPP, que não faz distinção sobre as possibilidades de desarquivamento. Leva o STF em consideração, portanto, a regra de hermenêutica de que “onde o legislador não distinguiu, não cabe ao intérprete fazê-lo”. 18 11. Trancamento do IP IP instaurado contra a pessoa. O indiciado pode fazer algo? Obviamente, o trâmite IP gera sentimento de insegurança para o indiciado que pode ter sua liberdade/intimidade/privacidade restringida a qualquer momento a depender do rumo das investigações. Caso o indiciado considere que a instauração do IP se deu de forma abusiva, inexistindo qualquer motivo para que seja alvo de tal investigação, poderá se valer de HCpara trancamento do IP. Trata-se, certamente, de medida de natureza excepcional.