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Relatório 2 Direito Civil I
Texto: Direito Internacional Privado de matriz legal e sua evolução no Brasil
Autor: André de Carvalho Ramos
Palavras-chave: Direito Internacional Privado - Evolução - Estrangeiro - Fontes -
Nacionalismo
Introdução
● O objetivo central do texto é analisar a evolução das leis sobre o Direito
Internacional Privado no Brasil, defendendo a edição de uma nova lei geral acerca
desse ramo do direito que promova um diálogo entre as fontes e os tratados
internacionais desse direito que o Brasil celebra;
As fontes do Direito Internacional Privado: entre o particularismo
nacionalista e a ambição universalista
● O Direito Internacional Privado (DIPr) rege fatos sociais que se relacionam com mais
de uma comunidade humana (transnacionais), sendo responsabilidade deste ramo do
direito definir a potencialidade de aplicação espacial de mais de um ordenamento
jurídico, fixar a jurisdição que deve ser estabelecida sobre conflitos de interesses que
contém vínculos com mais de um ordenamento e regular o reconhecimento e
execução de decisões estrangeiras a respeito de fatos transnacionais;
● De acordo com Hélène Gaudement-Tallon, a expressão pluralismo de fontes se
refere a diversidade da origem das normas do DIPr, fato que gera questões como a
coexistência e conflito entre fontes;
● Fontes do direito pode se referir tanto a forma como as normas são produzidas (fontes
formais) quanto aos eventos sociais que geram a necessidade de regulamentação
(fontes materiais), sendo esse último tipo de fonte uma consequência de uma
sociedade globalizada que não obedece fronteiras políticas (gerando os fatos
transnacionais que possuem vínculos de estraneidade);
● Vínculo de estraneidade (relação com mais de um ordenamento jurídico) pode ser
classificado como de fato, gerado por uma situação concreta, e como de direito,
gerado por um ato jurídico;
● As fontes formais são as normas que contém as regras dos fatos transnacionais,
podendo ser nacionais (contidas em normas produzidas em cada Estado) ou
internacionais (contidas em normas do Direito Internacional), evidenciando a
pluralidade de fontes do Direito Internacional Privado.
O Direito Internacional Privado de matriz legal
● Savigny foi um autor que defendia a doutrina universalista sobre o DIPr, defendendo
a existência de uma comunidade jurídica entre os povos, fazendo com que esse ramo
do direito fosse universal, contudo essa teoria só se concretizaria com a edição de
tratados que provassem valores comuns entre os Estados, o que não era possível
diante da necessidade dos Estados de organizarem suas próprias normas internas
sobre Direito Privado;
● Essa codificação nacional distanciou o DIPr da sua visão universal, gerando um
reconhecimento dos valores internos e consagração da ordem pública mas,
consequentemente, criando dificuldades para a aplicação o direito estrangeiro;
● Ao longo do século XX o DIPr nacionalista ganhou força por conta da criação de
novos Estados e uma conduta estatal intervencionista por conta da Crise de 29, mas
vale ressaltar que no final do século XIX houve um avanço da visão universalista do
Direito Internacional Privado com a elaboração de tratados sobre a matéria.
O Brasil e a pluralidade das fontes
● Na Constituição Federal constam, genericamente, dispositivos que regem o DIPr,
tendo como objetivo evitar a xenofobia no âmbito da aplicação de leis estrangeiras no
país e promover a cooperação jurídica internacional;
● No plano infraconstitucional há uma diversidade de fontes do Direito Internacional
Privado, como por exemplo a LINDB, os Códigos de Processo Civil e Penal, a Lei
n°9.307/1996, que fala sobre a escolha da lei e jurisdição, dentre outras;
● Constatados esses dados, é visível a pluralidade de fontes acerca do DIPr e sua “tríade
contemporânea”, que consiste no concurso de leis, determinação da jurisdição e
cooperacão jurídica internacional.
Da legislação portuguesa à introdução ao Código Civil de 1916
● Apesar da Independência do Brasil, houve uma manutenção da utilização da
legislação portuguesa no país, o que atrasou a formação de um Código Civil próprio e,
consequentemente, a formação de regulamentação nacional acerca do DIPr;
● O autor do artigo discorre acerca das legislações que precederam o Código Civil de
1916 nesse tópico, ressaltando que a demora para a consolidação de um direito
privado nacional mostra o desejo do Império de evitar um rompimento total com o
ordenamento português;
● Assim, com a proclamação da República passou a haver um desejo maior de se criar
um Código Civil, que simbolizaria um distanciamento com Portugal e a monarquia e,
finalmente em 1916 foi aprovado o Código Civil proposto por Clóvis Beviláqua,
sendo posto um ano depois.
O grande dissenso: o estatuto pessoal
● Uma discussão destacada por André Ramos foi sobre a escolha para reger o estatuto
da pessoa física, sendo essa disputa entre a lei da nacionalidade e a lei do domicílio;
● A defesa da regência desse estatuto pela lei da nacionalidade (apoiada pela maior
parte dos influentes europeus, como Mancini e, consequentemente, também pelo
Brasil) se baseia na ideia de que a lei pessoal era uma função da nacionalidade e, por
conta disso, a lei do país natal do indivíduo deveria regulamentar sobre temas do
estatuto pessoal;
● Em oposição, a defesa da lei do domicílio se baseava no pensamento de que a lei do
território no qual o indivíduo se encontra vivendo deveria regulamentar os assuntos
relacionados ao estatuto pessoal, como estado da pessoa, capacidade, poder pátrio e
outros;
● Como consequência da defesa da adoção do modelo que defendia a aplicação da lei da
nacionalidade para reger o estatuto da pessoa física no Brasil, dizendo que isso atrairia
imigrantes para o país, houve um afastamento do país em relação a codificação
sul-americana acerca do tema, já que a maioria dos países defendia a aplicação da lei
do domicílio;
● Assim, com a consolidação desse modelo de regência do estatuto da pessoa no Código
Civil brasileiro, houve um impulsionamento do DIPr no Brasil, por conta da grande
quantidade de imigrantes presentes no país e do aumento do uso da lei estrangeira no
país;
● Vale ressaltar que Rodrigo Octávio analisou a diferença de interesses entre Estados
que defendiam a lei da nacionalidade e Estados que recebiam imigrantes, já que
nesses últimos a lei estrangeira regularia a vida de uma parcela de seus habitantes,
concluindo que seria mais interessante para esses países a adoção da lei do domicílio
para reger o estatuto pessoal.
Rumo à Lei de Introdução ao Código Civil: a opção do Estado Novo
pela lei do domicílio
● Apesar de controvérsias, a proposta de reforma da Lei de Introdução ao Código Civil
durante a ditadura de Vargas (Estado Novo) foi aceita e, finalmente, a lei de domicílio
passou a substituir a lei da nacionalidade no Brasil;
● Essa aprovação aconteceu porque a aplicação do direito estrangeiro era contrária as
ambições nacionalistas de Vargas, que queria impulsionar a indústria nacional e
impunha barreiras em relação a imigrações estrangeiras para valorizar o trabalhador
brasileiro;
● Assim, a parte introdutória do Código Civil foi revogada e em substituição, foi
promulgada a Lei de Introdução ao Código Civil, tendo como mudança principal a
alteração na regência do estatuto da pessoa física.
Projetos após a LICC de 1942
● O autor destaca dois projetos fracassados de atualização da LICC de Vargas: um de
Haroldo Valadão e um Projeto de Lei;
● O primeiro, denominado Lei Geral de Aplicação de Normas Jurídicas, visava
substituir a LICC para tratar de DIPr, abrangendo em seu conteúdo regulamentações
acerca de outros ramos do direito também;
● Já o Projeto de Lei n° 4.905/1995, proposto por professores universitários, era menor
que o proposto por Valladão e reforçava a autonomia da vontade, a fim de estimular a
segurança jurídica de investidores estrangeiros.
A internacionalização das normas da DIPr● As fontes do Direito Internacional Privado, no ordenamento nacional brasileiro, são
em sua essência tradicionais, o que ocasiona lacunas em relação a temas novos como,
por exemplo, fatos transnacionais relacionados à defesa do consumidor;
● O mesmo não pode ser dito em relação às fontes internacionais do DIPr, uma vez que
os tratados internacionais são documentos feitos regularmente para regulamentar
matérias específicas (em sua maioria recentes) do Direito Internacional Privadob,
tentando sempre manter esse ramo atualizado e evitar lacunas;
● O autor conclui o tópico dizendo que há uma onda internacionalista no DIPr com a
tendência universalista dos tratados internacionais.
Conclusão
● Para André Ramos, o autor do artigo, o envelhecimento da LINDB, juntamente com a
dispersão das normas de DIPr, geram uma fragmentação desse ramo do direito de
matriz legal no Brasil, gerando uma falta de coerência entre os dispositivos e,
consequentemente, antinomias;
● Assim, conclui que é necessário um projeto de lei que sistematize o DIPr como uma
unidade (evitando conflitos) e que possua normas que organize e promova uma
comunicação entre os tratados internacionais celebrados pelo Brasil.
Observações
● O texto abrange diversos conceitos distintos que se relacionam com tema abordado,
contudo o texto traz uma abordagem majoritariamente histórica, sem aprofundar a
criticidade em relação a evolução histórica do DIPr;
● Além disso, o autor aborda extremamente superficialmente o “objeto amplo” do DIPr
proposto pelo anteprojeto de alteração da LICC de Valladão, o que torna difícil a
compreensão do próprio projeto;
● Por fim, a conclusão do autor torna-se insatisfatória, uma vez que ele diz ser a favor
de um novo projeto de lei mas não o caracteriza suficientemente, sendo que suas
sugestões poderiam ter sido mais exploradas e justificadas, não apenas citadas como
ele fez;
● Apesar dos pontos negativos, o artigo apresentou o que se propôs muito bem, um
histórico acerca da evolução do DIPr de matriz legal no Brasil bem detalhado e bem
explicado no geral.

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