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NECESSIDADE DE REFORMULAÇÃO DA ORGANIZAÇÃO DA POLÍCIA NO BRASIL.
Patrick Edemildes de Souza[footnoteRef:1] [1: Bacharel em Direito. Universidade Estácio de Sá de Santa Catarina. E-mail: patrickrsc@gmail.com
] 
Noemi Back Poffo2
Resumo
Este trabalho discute sobre a atual estrutura policial adotada no Brasil e a necessidade de reformulação desse sistema. A estrutura policial no Brasil foi dividida na Constituição Federal de modo que as atividades de ostensão e investigação ficam divididas entre duas instituições impossibilitando o acompanhamento da resolutividade de um crime do início ao fim. Frente à essa problemática e às altas taxas de criminalidade no país a expressão “ciclo completo de polícia” tem sido uma discussão recorrente nos debates sobre segurança pública. Há várias maneiras de implementar o ciclo completo de polícia no Brasil, no entanto não há uma estrutura ideal a ser seguida, tendo em vista que um novo modelo teria que se adequar à realidade e as demandas do país. 
Palavras-chave: segurança pública, criminalidade, ciclo completo, polícia.
INTRODUÇÃO
	Em um período de crise política e institucional no Brasil, pode parecer complexo pensar em alguma iniciativa eficiente para a redução da violência e controle da criminalidade, ainda mais frente ao aumento das taxas de homicídio apresentados pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública em 2018, cujas taxas apresentaram um aumento de 2,9% (30,3/100 mil habitantes em 2016 para 30,8/100 mil habitantes em 2017). 	
	Concomitantemente a esse aumento das taxas de criminalidade, o Brasil tem apresentado um baixo nível de resolutividade de crimes, e o atual modelo de estrutura policial do país parece ser um aspecto que influencia esse problema. Longe de atribuir às forças policiais a responsabilidade acerca dos processos que causam a violência e a criminalidade, frutos de diversos fatores de cunho social. Contudo, a eficiência do Estado no trato da criminalidade está intimamente condicionada ao modelo de gestão. 
	Não há uma total consonância, porém, são poucos os que ignoram o fato de que a divisão da polícia em ostensiva/investigativa tornou-se foco crônico de ineficiência na atuação do Estado na garantia da segurança pública. A conexão entre polícias civis e militares é muito mais uma exceção do que uma regra. Habituais conflitos na definição de competências, na provisão de recursos orçamentários e a desarticulação das ações operacionais são fenômenos cotidianos que impactam negativamente a capacidade do poder público em controlar a criminalidade no país.
	Frente à essa problemática, a expressão “ciclo completo de polícia” tem sido uma discussão recorrente nos debates sobre segurança pública no Brasil. De uma maneira breve, o ciclo completo traduz objetivamente a ideia de fusão, ou melhor, de complementariedade entre os dois eixos de operacionalização dos serviços policiais: a ação ostensiva e a ação investigativa. No âmbito estadual, essas funções são atribuídas, respectivamente, pelas Polícias Militar e Civil. Há várias maneiras de implementar o ciclo completo de polícia no Brasil, no entanto não há uma estrutura ideal a ser seguida, tendo em vista que um novo modelo teria que se adequar à realidade e as demandas do país. Diante disso, o presente trabalho busca através de uma revisão bibliográfica discutir sobre o atual modelo de segurança pública adotado no Brasil e a necessidade de uma reestruturação, com a apresentação de três propostas de implementação do ciclo completo de polícia.
2 ORGANIZAÇÃO DA POLÍCIA NO BRASIL
2.1 Organização das polícias na Constituição Federal de 1988
A Segurança Pública encontra-se disciplinada no Título V, Capítulo III da Constituição da República Federativa do Brasil. Em seu artigo 144, o legislador define todas as atribuições e órgãos responsáveis por esse sistema, sendo estes divididos em: (I) Polícia federal; (II) Polícia rodoviária federal; (III) Polícia ferroviária federal; (IV) Polícias civis; (V) Polícias militares e corpos de bombeiros militares (BRASIL, 1988).
Primeiramente, cabe destacar a diferença entre polícia administrativa e a polícia de segurança, sendo a primeira constituindo-se de limitações oriundas dos bens jurídicos individuais em detrimento ao interesse público, enquanto a segunda possui relação com a preservação dos bens jurídicos (SILVA ; GURGEL, 2016).
Pode-se elencar ainda, a divisão entre polícia ostensiva e polícia judiciária, sendo a primeira composta pelas Polícias Militares estaduais e Polícias Rodoviárias Federais, responsáveis por prevenir os crimes e por atuar com a utilização de fardamento e viaturas caracterizadas. Já a polícia judiciária é responsável pelas investigações, apurando as infrações penais que porventura não tenham sido evitadas, neste contexto entra a atuação das Polícias Civis estaduais e a Polícia Federal (SILVA ; GURGEL, 2016).
A organização estrutural atual do sistema policial compromete o desempenho das funções, tendo em vista que as polícias acabam não trabalhando de forma conjunta, pois atuam em etapas diferentes de um mesmo crime. Essa segmentação das atividades tem gerado discussões acerca das atribuições de cada uma, por não haver uma intervenção de maneira completa nos delitos, resultando na ineficiência da prevenção e resolutividade (FILHO; RIBEIRO, 2016).
2.2 Criminalidade e Resolutividade de Crimes no Brasil
As taxas de criminalidade no Brasil têm aumentado cada vez mais, superando problemas como a inflação, o desemprego, as taxas de juros e entre outros. É importante salientar que esse acontecimento sempre foi um dos principais reveses do país, porém ultimamente essa preocupação tem sido maior, pois a criminalidade vem, quase sempre, acompanhada de muita violência, fazendo com que o sentimento de insegurança se apodere por toda a sociedade brasileira (FERNANDES et al., 2017).
Segundo os dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, em 2017 houveram 63.880 mortes violentas intencionais (que incluem homicídio doloso, latrocínio, vitimização policial, letalidade policial e lesão corporal seguida de morte), atingindo uma taxa de 30,9 mortes para cada 100 mil habitantes no país, sendo o estado do Rio Grande no Norte apresentando a maior taxa (68/100 mil) e São Paulo (10,7/100 mil) a menor dentre todas as unidades federativas do país (FÓRUM BRASILEIRO DE SEGURANÇA PÚBLICA, 2018).
 Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o avanço da mortalidade por homicídios no país gera uma redução na expectativa de vida na população, tendo em vista que grande parte das vítimas se caracteriza por serem adultos jovens do sexo masculino (INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA, 2014). Além disso, a alta criminalidade demanda gastos públicos devido ao atendimento das vítimas, manutenção do sistema penitenciário e do sistema judicial. No ano de 2017, as despesas públicas em decorrência da segurança pública corresponderam a 84.7 bilhões, sendo 9.7 bilhões provenientes da União, 69.8 bilhões provenientes dos Estados e 5.1 bilhões do Municípios (FÓRUM BRASILEIRO DE SEGURANÇA PÚBLICA, 2018). 
As discussões acerca dos motivos da criminalidade no Brasil são diversas. Nesta perspectiva, incluem-se pouco investimento em educação e saúde, políticas públicas de segurança pouco efetivas, impunidade, número insuficiente de presídios, prisões que estimulam a prática de outros delitos e baixa eficácia na resolução dos crimes (BECKER; KASSOUF, 2017).
O processamento e investigação de homicídios pelas instituições que compõem a segurança pública no Brasil são ineficazes e ineficientes. De acordo com um levantamento realizado em 2012 pelo Conselho Nacional do Ministério Público, de 43.123 inquéritos monitorados pela equipe e finalizados entre março de 2010 e abril de 2012, 78% foram arquivados pela impossibilidade de identificação dos autores (CONSELHO NACIONAL DO MINISTÉRIO PÚBLICO, 2012).
	As baixas taxas de resolutividade dos crimes de homicídio são atribuídas à predominância de investimentos públicos ao policiamento ostensivo emdetrimento ao investigativo, fazendo com que as polícias que realizam o trabalho de investigação tenham recurso, estrutura e servidores insuficientes para desempenhar a função (CONSELHO NACIONAL DO MINISTÉRIO PÚBLICO, 2012). Em 2014, a Polícia Civil do país possuía um efetivo total de 117.642 membros, comparado à Polícia Militar, que possuía um quantitativo de 425.248, representando esta última 66,2% do efetivo de segurança pública do país (FÓRUM BRASILEIRO DE SEGURANÇA PÚBLICA, 2015).
O crescimento desordenado da criminalidade no país aliada à baixa resolutividade desses crimes tem gerado um colapso na segurança pública no Brasil (FILHO; RIBEIRO, 2016).
2.3 Ciclo Completo de Polícia no Brasil
A proposta descrita no artigo 144 da Constituição Federal de 1988 tem apresentado algumas disfunções relacionadas a estrutura organizacional, devido à falta de solução de continuidade no processo de atuação funcional junto à sociedade. Essa disfunção tem gerado a demanda por serviços mais ágeis, dinâmicos e com melhor qualidade que o atual modelo (BRASIL, 1988).
Diante do grande problema enfrentado no Brasil no tocante a segurança pública, aliado a baixa resolutividade dos crimes, surge a reflexão sobre qual o melhor caminho para reformar as estruturas policiais do Brasil (FILHO; RIBEIRO, 2016).
Para essa reflexão pode-se afirmar que o ciclo completo de polícia por si só não resolveria todos os problemas enfrentados na polícia brasileira, mas de certa forma, há um grande desejo de reforma do arcabouço institucional a partir desse modelo, tendo em vista que este padrão advém do sucesso de outros países como Estados Unidos, Canadá, França e Chile, cuja polícia é dividida somente em áreas territoriais, não existindo divisão funcional da polícia (FILHO; RIBEIRO, 2016).
Em âmbito nacional, é possível verificar que a Polícia Federal já atua de modo a abranger o ciclo completo, pois suas funções abrangem ações de polícia judiciaria da União, funções de patrulhamento de fronteiras, polícia marítima e aérea (BRASIL, 1988).
Se tratando do âmbito estadual, enquanto a polícia militar age de maneira ostensiva e preventiva, coibindo a ocorrência do crime, a polícia civil atua de forma investigativa, agindo após a ocorrência do delito. Essa forma estrutural não gera uma interligação entre as duas instituições e o resultado é uma sociedade com duas policias “pela metade” (BRASIL, 1988).
	
2.3.1 Formas de implementação de ciclo completo de polícia no âmbito estadual 
A literatura acerca da temática de ciclo completo de polícia traz diferentes maneiras de organização desse modelo. Segundo Sapori (2016 p. 53), três opções de implantação de ciclo completo seriam possíveis no âmbito estadual, que passam a ser expostas a seguir (SAPORI, 2016).
2.3.1.1 Unificação das Polícias
Uma proposta de implantação de ciclo completo seria a junção das Policias Civis e Militares em cada unidade da Federação, criando assim uma única polícia estadual. Cada polícia estadual estaria incumbida de realizar as funções de policiamento ostensivo, preservação da ordem pública e de polícia judiciária, exercendo dessa forma o ciclo completo. Para que isto ocorra, seria necessário a determinação de um tempo específico para que cada unidade da federação pudesse se adequar ao novo modelo constitucional (SAPORI, 2016).
O caminho mais fácil para essa criação, seria a junção de recursos humanos, materiais e logística das duas instituições, onde todo esse aparato passaria a compor uma nova polícia, que necessariamente receberia um nome alternativo (SAPORI, 2016). 
Com efeito, não é um processo simples, tal unificação afeta diretamente interesses de autoridades da área e vaidades institucionais. A cultura interna de cada corporação, representa uma grande dificuldade a ser alcançada para conseguir essa unificação (SAPORI, 2016).
2.3.1.2 Ciclo completo por tipo de crime
Outra opção para implementação do ciclo completo seria a divisão policial por tipo penal, de modo que cada instituição ficaria responsável por parte dos crimes e contravenções estabelecidas no código penal, concedendo atribuições ostensivas e investigativas, tanto as policias militares, quanto as polícias civis, atuando ambas na mesma cidade (SAPORI, 2016).
A literatura defende a ideia de que a Polícia Militar ficaria com os crimes de menor potencial ofensivo, cujo a pena máxima não ultrapasse dois anos e a Polícia Civil com os crimes mais violentos como os homicídios e latrocínios. No entanto, o grande problema dessa organização seria o prestigiamento de uma instituição em relação a outra, tendo em vista que determinados crimes se tornam mais relevantes do que outros, gerando, portanto, fortes oposições das autoridades polícias hierarquicamente superiores (SAPORI, 2016).
Embora haja críticas a esse modelo organizacional, atualmente é possível verificar uma aproximação às práticas dessa estrutura através dos termos circunstanciados lavrados pelas Polícias Militares em alguns estados da federação (SAPORI, 2016).
2.3.1.3 Polícias Militares e Policias Civis de Ciclo Completo
Uma terceira opção para implantação do ciclo completo seria o estabelecimento de funções tanto ostensivas quanto investigativas dentro de cada instituição policial, isto é, ambas as polícias, militares e civis, passariam a ter o seguimento fardado responsável pelo patrulhamento quanto o segmento investigativo, responsável pela condução dos inquéritos (SAPORI, 2016).
A principal crítica a esse sistema seria à distribuição das policias entre as cidades, já que não seria conveniente as duas polícias continuarem atuando em um mesmo espaço. Isto porque não haveria uma complementariedade de trabalho entre elas. O fato de ambas as polícias realizarem tanto os trabalhos ostensivos e de investigação na mesma cidade, causaria ainda mais conflito do que o sistema atual (SAPORI, 2016).
3 CONSIDERAÇÕES FINAIS
O presente trabalho trouxe uma abordagem acerca do estudo de reformulação da estrutura policial no país, tendo como proposta a implementação do ciclo completo de polícia e suas diferente formas. 
É importante destacar que a implementação do ciclo completo de polícia não irá resolver todos os problemas do sistema do sistema de segurança pública e justiça criminal brasileiro. E por isso, não deve ser pensada unicamente como a solução milagrosa para os graves casos de criminalidade ocorridos no país. A curto prazo a instalação de nova estrutura pode alavancar mudanças na resolutividade e prevenção dos crimes. No entanto, políticas públicas mais eficientes no país são necessárias. A segurança pública não deve ser pensada isoladamente, mas sim de maneira coletiva e interministerial, em conjunto com outros setores, como educação, saúde e desenvolvimento social.
REFERÊNCIAS
BRASIL, Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Disponível em: . Acesso em 02 fev. de 2020.
SILVA, Gabriela Galiza e; GURGEL, Yara Maria Pereira. A polícia na Constituição Federal de 1988: apontamentos sobre a manutenção de um órgão militarizado de policiamento e a sua incompatibilidade com a ordem democrática vigente no Brasil. Revista Brasileira Segurança Pública, São Paulo, v. 1, n. 10, p.142-158, mar. 2016.
FILHO, Cláudio Filho; RIBEIRO, Ludmila. Discutindo a reforma das polícias no Brasil. Civitas - Revista de Ciências Sociais. vol. 16, no. 4, 2016, pp. 174-204. Disponível em: . Acesso em: 02 fev. 2020.
FERNANDES, Ledimar, DE FARIAS, Joedson Jales, DA COSTA, Rodolfo Ferreira Ribeiro, DE LIMA, Francisco Soares. La criminalidade no Brasil: avaliação do impacto dos investimentos públicos e dos fatores socioeconômicos. Espacio Abierto, v. 26, n. 2, p.219-243, abr-jun, 2017. Disponível em: . Acesso em: 02 fev. 2020.
FÓRUM BRASILEIRO DE SEGURANÇA PÚBLICA. Segurança pública em números: Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2018. São Paulo. 2018. Disponível em: .Acesso em: 02 fev. 2020.
INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Tábua completa de mortalidade para o Brasil – 2013: Breve análise da mortalidade nos períodos 2012-2013 e 1980-2013. Rio de Janeiro. 2014. 26 p. Disponível em:. Acesso em: 19 ago. 2018.
BECKER, Kalinca Léia; KASSOUF, Ana Lúcia. Uma análise do efeito dos gastos públicos em educação sobre a criminalidade no Brasil. Economia e Sociedade, [S.l.], v. 26, n. 1, p. 215-242, jun. 2017. ISSN 1982-3533. Disponível em: . Acesso em: 02 fev. 2020.
CONSELHO NACIONAL DO MINISTÉRIO PÚBLICO. Estratégia Nacional de Segurança Pública, Meta 2: A impunidade como alvo - Diagnóstico da investigação de homicídios do Brasil. Brasília, 2012. p. 49. Disponível em: https://goo.gl/47oMv1. 10. Acesso em: 02 fev. 2020.
FÓRUM BRASILEIRO DE SEGURANÇA PÚBLICA. Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2015. São Paulo. 156 p. 2015. Disponível em: . Acesso em: 02 fev. 2020.
BEATO FILHO, Claudio; RIBEIRO, Ludmila. Discutindo a reforma das polícias no Brasil. Civistas, Porto Alegre, v. 16, n. 4, p.174-204, out. 2016. Disponível em: . Acesso em: 02 fev. 2020.
SAPORI, Luis Flávio. Como implantar o ciclo completo de polícia no Brasil? Revista Brasileira de Segurança Pública, São Paulo, v. 10, p.50-58, fev. 2016. Disponível em: . Acesso em: 02 fev. 2020.

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