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FARMACOGNOSIA PURA ORGANIZADOR FÁBIO DE PÁDUA Farm acognosia Pura GRUPO SER EDUCACIONAL Farmacognosia pura é um livro direcionado para estudantes dos cursos da área de farmácia e correlatos. Além de abordar assuntos gerais, o livro introduz a farmacognosia e traz conteúdo sobre metabolismo, metabólitos, metabólitos secundários de plantas e de importância farmacológica. Após a leitura da obra, o leitor vai saber os fundamentos da farmacognosia e sua importância (incluindo uma grande variedade de compostos naturais e suas aplicações); discutir as diferentes técnicas e métodos de extração, seus aspectos gerais e as vantagens e desvantagens associadas a cada técnica; identi�car os objetivos da �toquímica e conhecer os principais compostos obtidos a partir de espécies vegetais que apresentam importân- cia farmacêutica e industrial; aprender sobre �avonoides, sua caracteri- zação, métodos de extração, estrutura química, aplicações e propriedades; caracterizar taninos e seus derivados e discutir diferentes formas de utilização destes produtos naturais; dominar aspectos importantes sobre as saponinas, sua importância biológica, características estruturais e mecanismos de ação farmacológico; entender a importância da �toterapia e seu emprego nos dias atuais, desde a obtenção de compostos de interesse farmacológico a sua utilização na medicina popular; conhecer os principais compostos cardiotônicos e cianogênicos de origem natural, seu emprego, caracterização, obtenção, mecanismos de ação e toxicidade, e muito mais. Aproveite a leitura do livro. Bons estudos! FARMACOGNOSIA PURA ORGANIZADOR FÁBIO DE PÁDUA gente criando futuro I SBN 9786555581676 9 786555 581676 > C M Y CM MY CY CMY K FARMACOGNOSIA PURA Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida ou transmitida de qualquer modo ou por qualquer outro meio, eletrônico ou mecânico, incluindo fotocópia, gravação ou qualquer outro tipo de sistema de armazenamento e transmissão de informação, sem prévia autorização, por escrito, do Grupo Ser Educacional. Diretor de EAD: Enzo Moreira Gerente de design instrucional: Paulo Kazuo Kato Coordenadora de projetos EAD: Manuela Martins Alves Gomes Coordenadora educacional: Pamela Marques Equipe de apoio educacional: Caroline Guglielmi, Danise Grimm, Jaqueline Morais, Laís Pessoa Designers gráficos: Kamilla Moreira, Mário Gomes, Sérgio Ramos,Tiago da Rocha Ilustradores: Anderson Eloy, Luiz Meneghel, Vinícius Manzi de Pádua, Fábio. Farmacognosia pura / Fábio de Pádua. – São Paulo: Cengage – 2020. Bibliografia. ISBN 9786555581676 1. Farmácia Grupo Ser Educacional Rua Treze de Maio, 254 - Santo Amaro CEP: 50100-160, Recife - PE PABX: (81) 3413-4611 E-mail: sereducacional@sereducacional.com “É através da educação que a igualdade de oportunidades surge, e, com isso, há um maior desenvolvimento econômico e social para a nação. Há alguns anos, o Brasil vive um período de mudanças, e, assim, a educação também passa por tais transformações. A demanda por mão de obra qualificada, o aumento da competitividade e a produtividade fizeram com que o Ensino Superior ganhasse força e fosse tratado como prioridade para o Brasil. O Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego – Pronatec, tem como objetivo atender a essa demanda e ajudar o País a qualificar seus cidadãos em suas formações, contribuindo para o desenvolvimento da economia, da crescente globalização, além de garantir o exercício da democracia com a ampliação da escolaridade. Dessa forma, as instituições do Grupo Ser Educacional buscam ampliar as competências básicas da educação de seus estudantes, além de oferecer- lhes uma sólida formação técnica, sempre pensando nas ações dos alunos no contexto da sociedade.” Janguiê Diniz PALAVRA DO GRUPO SER EDUCACIONAL Autoria Fábio de Pádua Ferreira Licenciado em Química pela Universidade de Coimbra (UC) e pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU), Mestre em Química Analítica pela Universidade Federal de Uberlândia. Atuou no desenvolvimento de genossensor eletroquímico para quantificar bactérias e na purificação e caracterização de proteínas envolvidas em amiloidoses. SUMÁRIO Prefácio .................................................................................................................................................8 UNIDADE 1 - Introdução à Farmacognosia .....................................................................................9 Introdução.............................................................................................................................................10 1 Introdução à Farmacognosia .............................................................................................................. 11 2 Drogas obtidas de produtos naturais ................................................................................................. 12 3 Procedimentos utilizados no processamento de produtos vegetais ..................................................14 4 Métodos de extração ......................................................................................................................... 16 5 Alcaloides ...........................................................................................................................................19 PARA RESUMIR ..............................................................................................................................24 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ......................................................................................................25 UNIDADE 2 - Metabolismo e metabólitos .......................................................................................27 Introdução.............................................................................................................................................28 1 Aspectos gerais do metabolismo ....................................................................................................... 29 2 Fundamentos de Fitoquímica ............................................................................................................ 30 3 Cumarinas ..........................................................................................................................................32 4 Heterosídeos flavônicos ..................................................................................................................... 36 5 Heterosídeos antociânicos ................................................................................................................. 38 PARA RESUMIR ..............................................................................................................................41 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ......................................................................................................42 UNIDADE 3 - Metabólitos secundários de plantas ..........................................................................45 Introdução.............................................................................................................................................46 1 Importância dos metabólitos secundários ......................................................................................... 47 2 Taninos ...............................................................................................................................................48 3 Terpenos ............................................................................................................................................52 4 Esteroides...........................................................................................................................................55 5 Saponinas ...........................................................................................................................................57 PARA RESUMIR ..............................................................................................................................60REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ......................................................................................................61 UNIDADE 4 - Metabólitos secundários de importância farmacológica ............................................65 Introdução.............................................................................................................................................66 1 Metabólitos secundários utilizados no tratamento de doenças .......................................................67 2 Compostos cardiotônicos naturais ..................................................................................................... 70 3 Heterosídeos cardiotônicos ............................................................................................................... 71 4 Antraquinonas.................................................................................................................................... 73 5 Heterosídeos cianogênicos ................................................................................................................ 76 PARA RESUMIR ..............................................................................................................................80 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ......................................................................................................81 O livro Farmácia traz ao leitor, além de informações básicas da área, o conteúdo parcialmente descrito a seguir em suas quatro unidades. Para começar, a primeira unidade, Introdução à Farmacognosia, apresenta os princípios e fundamentos da farmacognosia, os procedimentos utilizados para o processamento de produtos naturais, os diferentes métodos para extração de compostos de interesse farmacêutico, e as principais características dos alcaloides. A segunda unidade, Metabolismo e metabólitos, trata dos processos metabólicos e as espécies moleculares envolvidas nestes processos, com ênfase nos metabólitos primários e secundários, incluindo métodos de obtenção e aplicações farmacológicas. Além disso, também são fornecidas informações sobre as cumarinas e os principais heterosídeos flavônicos. A terceira unidade, Metabólitos secundários de plantas, destaca a importância dos metabólitos secundários encontrados em plantas, sua classificação, distribuição, estruturas moleculares, reações, biossíntese, extração, obtenção, papel biológico e diferentes aplicações. O leitor conhecerá os principais aspectos dos taninos, terpenos, esteroides e saponinas, além de ter acesso a estudos referentes às principais aplicações de metabólitos secundários na indústria farmacêutica. Concluindo a obra, a quarta e última unidade, Metabólitos secundários de importância farmacológica, traz as principais biomoléculas oriundas de plantas que apresentam ação farmacológica, as características dos seus mecanismos de ação, estruturas químicas, importância biológica, métodos de identificação, extração, caracterização e o emprego dessas substâncias na farmacologia. Informações sobre metabólitos cardiotônicos e cianogênicos, suas características estruturais, distribuição, mecanismo de ação, toxicidade e métodos de obtenção e caracterização destes compostos também são apresentadas. Esta é apenas uma pequena amostra do que o leitor aprenderá após a leitura do livro. Agora é com você! Sorte em seus estudos! PREFÁCIO UNIDADE 1 Introdução à Farmacognosia Olá, Você está na unidade Introdução à Farmacognosia. Conheça aqui os princípios e fundamentos da Farmacognosia, sua importância e as principais características das drogas obtidas de produtos naturais. Conheça os procedimentos utilizados para o processamento de produtos naturais e diferentes métodos para extração de compostos de interesse farmacêutico, incluindo as vantagens e desvantagens de cada método. Veja também as principais características dos alcaloides, incluindo sua importância, classificação aplicação, estrutura química, métodos de obtenção, ensaios qualitativos e métodos de extração e caracterização dos alcaloides. Bons estudos! Introdução 11 1 INTRODUÇÃO À FARMACOGNOSIA Segundo Dutra et al. (2016), a Farmacognosia é o campo da ciência que estuda os principais aspectos relacionados às drogas de origem natural, investigando suas características químicas, biológicas e botânicas, incluindo produtos de origem vegetal, animal e microbiológica. A Farmacognosia pode ser dividida em geral ou pura, que envolve um conjunto de conhecimentos básicos e comuns necessários para estudar e pesquisar produtos naturais, ou especial e aplicada, que aborda um estudo particular e específico dos produtos de origem natural. Segundo Zhang et al. (2018), os produtos naturais apresentam em sua composição uma grande variedade de substâncias de interesse, em termos de grupos funcionais, quiralidade e complexidade estrutural. Estudos recentes buscam promover uma caracterização mais eficiente sobre os produtos naturais com aplicação na farmacologia e outros campos, além disso observa- se a utilização de instrumentação sofisticada para purificação destes compostos. Métodos modernos de química analítica são usados para caracterizar esses compostos, possibilitando elucidar e estudar a estrutura, analisar a reatividade química dos princípios bioativos, mecanismo de ação e toxicidade (KINGHORN, 2001). 1.1 Fundamentos da Farmacognosia De acordo com Tyler et al. (1988), a palavra Farmacognosia é uma combinação das palavras gregas pharmakon, que pode significar fármaco, veneno ou cosmético, e gnosis, que significa conhecimento. O primeiro uso do termo é encontrado no Lehrbuch der Materia Medica, livro de Johann A. Schmidt, publicado em Viena no ano de 1811. Como a maioria das drogas da época era derivada de preparações de origem vegetal e animal, a Farmacognosia, desde o início, tem sido associada a medicamentos de origem natural. A Farmacognosia é uma ciência que se preocupa em estudar aspectos químicos e farmacológicos de produtos naturais, incluindo compostos puros obtidos de fontes naturais e seus derivados sintéticos, bem como preparações de medicamentos botânicos. Trata-se de uma ciência interdisciplinar que incorpora elementos de química analítica, bioquímica, ecologia, microbiologia, biologia molecular, química orgânica, taxonomia e disciplinas relacionadas (JONES et al., 2006). Evans (2002) enfatiza que um entendimento completo das plantas medicinais envolve várias disciplinas, incluindo comércio, botânica, horticultura, enzimologia, genética, controle de qualidade e farmacologia. A Farmacognosia procura utilizar as contribuições de todas essas áreas buscando uma melhor compreensão e utilização das plantas medicinais. 12 1.2 A história e a importância da Farmacognosia De acordo com Cardenas (2008), o início da Farmacognosia remonta à origem da humanidade. O homem sempre teve a necessidade de explorar a natureza em busca de substâncias que proporcionem alívio para suas doenças. Nesta busca, ele acumulou conhecimento que foi transmitido de geração em geração, este estudo nasceu empiricamente. Dutra et al. (2016) enfatizam que existem registros do uso de plantas medicinais desde o período neolítico, aproximadamente há 10.000 anos. Os documentos conhecidos como tábuas da Suméria, com idade aproximada de 5.000 anos, descreviam o emprego de mais de 250 espécies vegetais, dentre elas a papoula, a canela, o meimendro e o salgueiro. Tyler et al. (1988) sugere que os antigos egípcios e os chineses também possuíam conhecimento dos usos medicinais de muitas plantas e produtos de origem animal. De acordo com Jones et al. (2006), os primeiros protótipos de medicamentos de produtos naturais puros foram identificados através da investigação de plantas vasculares, como a tropina, digitoxina, efedrina, morfina e ácido salicílico, e dos produtos derivados de animais terrestres, como a epinefrina e vários hormônios. As fontes microbianas começaram a contribuir com umnúmero significativo de drogas na segunda metade do século 20, organismos marinhos também começaram a fazer contribuições significativas para a medicina nas últimas décadas. Segundo Dutra et al. (2016), atualmente, as plantas medicinais e seus derivados representam uma parcela importante dos medicamentos utilizados pela população, entretanto, muitas vezes os derivados vegetais são utilizados sem a indicação adequada e com a crença de que tal produto não produz efeitos tóxicos. No entanto, as drogas vegetais, assim como outros medicamentos, têm toxicidade, efeitos colaterais e podem interagir com outros tratamentos. 2 DROGAS OBTIDAS DE PRODUTOS NATURAIS Kinghorn (2001) enfatiza que tem se observado um aumento no interesse dos pesquisadores dos países ocidentais em relação a produção de drogas à base de plantas nas últimas décadas. Essa nova conscientização dos produtos naturais trouxe benefícios, porém, são necessários estudos e avaliações, os possíveis usos e estudos sobre sua toxicidade. As drogas de origem natural constituem um importante componente das farmacopeias modernas. De acordo com Jones et al. (2006), a importância dos produtos naturais é evidente a partir da análise do número de drogas e medicamentos derivados de produtos naturais a cada ano incluídos nas farmacopeias e na lista modelo de medicamentos essenciais da organização mundial da saúde. Vários novos fármacos derivados de pequenas moléculas de origem natural estão sendo introduzidos em muitas formulações. 13 Devido à grande diversidade de organismos terrestres e marinhos, os produtos naturais tem se consolidado como algumas das fontes mais bem-sucedidas para produção de medicamento. Segundo David et al. (2014), os produtos naturais constituem uma fonte amplamente diversa de substâncias moleculares que podem ser utilizadas para a formulação de medicamentos. Com os avanços nas técnicas de purificação e caracterização molecular, os produtos naturais foram examinados mais atentamente, possibiltando compreender mecanismos e quais as substancias envolvidas nos processos biológicos. Historicamente, os farmacêuticos e as empresas farmacêuticas utilizavam extratos vegetais para produzir formulações terapêuticas relativamente brutas. Em meados do século XX, as formulações de medicamentos de produtos naturais parcialmente purificados tornaram-se comuns. 2.1 Produtos derivados de plantas Segundo Montanari e Bolzani (2001) a variedade e complexidade de metabólitos biossintetizados pelas plantas é fantástica. No contexto das plantas terrestres, estima-se que exista mais de 500.000 espécies distribuídas ao redor do planeta, sendo que cerca de 50% delas são constituídas pelas angiospermas. Nestas espécies é possível encontrar moléculas distintas e complexas, que apresentam vários centros estereogênicos e produzem uma grande variedade de substâncias de interesse farmacológico e fitoterápico. De acordo com Oksman-Caldentey e Inzé (2004), as plantas sintetizam uma extensa variedade de metabólitos secundários, geralmente com estruturas altamente complexas. Atualmente, a maioria dos metabólitos secundários farmaceuticamente importantes são isolados de plantas silvestres ou cultivadas, geralmente a síntese química destes metabólitos não é economicamente viável. A produção biotecnológica em culturas de células vegetais tem atraído a atenção de muitos pesquisadores e do mercado. Com os avanços recentes em genômica vegetal e na caracterização dos metabólitos, existem grandes possibilidades para explorar a extraordinária complexidade bioquímica da planta. As ferramentas genômicas de ponta podem ser usadas para produzir metabólitos específicos em maiores quantidades por meio da produção de metabólitos recombinantes em células vegetais cultivadas. Dutra et al. (2016) enfatizam que as espécies vegetais que apresentam propriedades medicinais podem ser empregadas de várias formas, entre elas, in natura, secas, na forma de extratos ou como medicamentos fitoterápicos. Segundo Kinghorn (2001) é provável que essa FIQUE DE OLHO O aumento do consumo de drogas vegetais transformou seu uso em um problema de saúde pública. No estudo intitulado Avaliação da contaminação microbiana em drogas vegetais, de Adriana Bugno et al. (2005), consta a verificação amostras de drogas vegetais comercializadas quanto à contaminação microbiana presente. Os resultados indicaram que 93,2% das espécies vegetais não cumpriram os parâmetros farmacopeicos de aceitação. 14 tendência continue no futuro, pelo menos para o tratamento de doenças como câncer e doenças infecciosas, com base na alta proporção de compostos envolvidos em ensaios clínicos que são obtidos de plantas. 2.2 Produtos derivados de microrganismos Segundo Conti et al. (2012), os microrganismos também são exímios produtores de substâncias químicas, sendo de grande utilidade para a indústria farmacêutica. Diversos antibióticos, anticancerígenos, imunossupressores e agentes redutores do colesterol sanguíneo têm sido produzidos a partir de produtos naturais microbianos. Os microrganismos apresentam uma surpreendente capacidade de produzir substâncias químicas com de atividade biológica. De acordo com Santos e Varavallo (2011), os fungos e outros microrganismos têm sido bastante utilizados para produzir de diferentes substâncias de interesse, tais como os já citados antibióticos, aminoácidos, enzimas, vitaminas, aminoácidos e esteroides. Os microrganismos são potenciais fontes de produtos naturais e bioativos, para a exploração em medicina e na agricultura. Conti et al. (2012) enfatizam que os metabólitos secundários de microrganismos são produzidos por diferentes razões, muitos fatores estão associados a produção desse tipo de substância. Microrganismos podem ser encontrados em praticamente todos os lugares, solo, ar, água, pedras, na superfície ou no interior de outros seres vivos, além de estarem em ambientes com condições extremas de temperatura, pH, oxigenação, entre outros. Esses seres microscópicos não apresentam defesas físicas e não se locomovem, portanto precisaram desenvolver estratégias adaptativas que permitiram sua sobrevivência no ambiente. A obtenção de substâncias de interesse econômico, como enzimas, antibióticos e drogas, a partir de microrganismos tem sido frequentemente relatada na literatura científica. Exemplo disso é o taxol, poderoso anticancerígeno usado em no tratamento de carcinoma de ovário, que anteriormente era obtido apenas da exploração da planta Taxus brevifolia, podendo atualmente ser obtido de diferentes gêneros de fungos endofíticos. Avanços como este reforçam a grande potencialidade biotecnológica de tais microrganismos (SANTOS; VARAVALLO, 2011). 3 PROCEDIMENTOS UTILIZADOS NO PROCESSAMENTO DE PRODUTOS VEGETAIS As plantas e outros produtos empregados no preparo de produtos fitoterápicos podem ser obtidos muitas formas, geralmente por meio de cultivo ou por extrativismo. No segundo caso, é necessária uma autorização do órgão competente e observar normas de coleta para conservar a biomassa, evitando sempre que possível a morte prematura do vegetal. Os fatores que devem ser levados em consideração são muitos, como o clima, pH, altitude e latitude, presença de 15 microrganismos no solo. Alguns fatores podem alterar a quantidade de princípio ativo na planta, dependendo da altitude, do tipo de solo, do índice pluviométrico, da umidade, da temperatura e qual o melhor momento para colheita. A espécie pode produzir um volume maior ou menor dos princípios ativos (DUTRA et al., 2016). De acordo com Evans (2002), o extrato bruto que chega à linha de fabricação farmacêutica muitas vezes passa por vários estágios e etapas, que podem influenciar a natureza, qualidade e a quantidade de constituintes ativos presentes, os procedimentos comuns podem incluir a coleta, secagem, armazenamento e processamento. Patel (2018) enfatiza que à medida que a comercialização dos fitoterápicos tem se intensificado, asegurança, a peculiaridade e a potência das plantas medicinais e dos produtos fitoterápicos tornaram-se uma questão essencial. A matéria-prima à base de plantas é suscetível a muitas variações, sendo importantes reconhecer os fatores que influenciam sua composição e qualidade do produto. Segundo Dutra et al. (2016), as drogas vegetais podem ser empregadas inteiras, trituradas ou moídas, sendo que a escolha do tamanho da partícula a ser empregada depende da planta e do princípio ativo presente nesta. A moagem pode ser realizada em moinhos de pinos, discos, martelos, facas ou jatos de ar. 3.1 Coleta e preparo A coleta deve ser supervisionada com todos os tipos de garantias, regras e precauções pelo pessoal preparado. O tempo propício para a colheita ou colheita é particularmente importante porque a natureza e a quantidade dos constituintes variam consideravelmente em algumas espécies ao longo do ano. A idade da planta também é muito importante, pois os medicamentos geralmente são derivados de produtos do metabolismo da planta. Assim, é necessário considerar o estágio do ciclo metabólico quando as quantidades são maiores, para coletar o material (CARDENAS, 2008). Existem algumas regras gerais para a coleta dos diferentes materiais de interesse farmacêutico. De acordo com Evans (2002), a estação em que cada planta é coletada geralmente é uma questão relevante. De um modo geral, as folhas são coletadas quando as flores começam a se abrir. Como a quantidade e a natureza dos constituintes ativos não é constante ao longo do ano, a idade da planta também deve ser considerada. Folhas, flores e frutas não devem ser colhidas quando cobertas de orvalho ou chuva, além disso, espécimes contendo alterações visíveis na cor ou indícios de ação de insetos ou lesmas deve ser rejeitada. Mesmo com a colheita manual, é difícil e certamente caro, obter folhas, flores ou frutos totalmente livres de outras partes da planta. As cascas são geralmente coletadas após um período de clima úmido, para a coleta de resinas o tempo seco é indicado e deve-se tomar cuidado para excluir os detritos vegetais o máximo possível. Ao remover raízes do solo, uma escovação pode ser suficiente para separar um solo 16 arenoso, mas em casos de argila uma lavagem pode ser necessária. Sementes extraídas de frutos mucilaginosos, são lavados sem polpa antes da secagem (EVANS, 2002). 3.2 Conservação O armazenamento e a preservação dos produtos naturais são essenciais para garantir sua qualidade. Cardenas (2008) enfatiza que a conservação visa preservar a integridade dos materiais após a coleta, pois luz, ar, calor e umidade alteram suas propriedades e caracteres. A conservação e o armazenamento de medicamentos de origem animal e vegetal dependem da natureza dos produtos. Podem ser utilizados recipientes herméticos e escuros, protegidos do calor excessivo, recipientes com vácuo ou com gás inerte e muitos outros. De acordo com Dutra et al. (2016), no caso de produtos derivados de plantas, muitas vezes tem sido realizado o procedimento de secagem, visando a eliminação da umidade. Existem muitos métodos empregados na secagem das plantas, no entanto, durante escolha da metodologia devem ser observados os custos, se o princípio ativo é termolábil, além do tempo de secagem, o espaço físico, o clima e ainda as características do vegetal. Entre os métodos comumente utilizados estão a secagem ao sol, à sombra, mista, com ar aquecido, à vácuo e a liofilização. 3.3 Comercialização Dentre os produtos naturais, aqueles obtidos de plantas desempenham sem dúvidas a parcela mais significativa no que diz respeito a utilização e comercialização. Lourenzani et al. (2004) argumentam que o mercado de medicamentos fitoterápicos é crescente e promissor. A demanda existe, e tende a crescer cada vez mais com o aumento das pesquisas e da consciência da população. O Brasil é considerado um país rico em biodiversidade, apresentando grandes vantagens nesse mercado. A produção de plantas medicinais por meio da agricultura familiar representa uma importante fonte de renda e desenvolvimento regional. Os compostos naturais contêm uma ampla gama de compostos bioativos, como lipídios, fitoquímicos, produtos farmacêuticos, sabores, fragrâncias, pigmentos e muitas outras substâncias de interesse. As técnicas de extração têm sido amplamente investigadas para obter esses compostos naturais valiosos de plantas para sua posterior comercialização (ABAH; EGWARI, 2011). 4 MÉTODOS DE EXTRAÇÃO Vários métodos de extração estão disponíveis para obter compostos de interesse de fontes naturais. A eficiência dos métodos de extração dependem de vários fatores, como instrumentação disponível, parâmetros adotados, conhecimento sobre a natureza da matriz e sobre a química dos compostos bioativos. A maioria das técnicas classicas é baseada no poder de extração de diferentes solventes em uso e na aplicação de calor ou reagentes, sendo também disponíveis 17 técnicas a temperatura ambiente (AZMIR et al., 2013). Um amplo espectro de técnicas de extração sólido-líquido tem sido utilizado para a purificação de produtos naturais a partir de material vegetal e micro-organismos. Classicamente, esses métodos são divididos em tradicionais e modernos (KAUFMANN; CHRISTEN, 2002). Tradicionais Os métodos tradicionais incluem extração de Soxhlet, maceração, percolação, turbolização e sonicação. Essas técnicas foram usadas por muitas décadas, no entanto, consomem muito tempo e exigem quantidades relativamente grandes de solventes poluentes. Modernos Os métodos modernos incluem a extração por fluido supercrítico, a extração assistida por microondas, cromatografia líquida de alta eficiência e a extração com líquidos pressurizados. Esses métodos oferecem algumas vantagens, como menor consumo de solvente orgânico, menor tempo de extração e maior seletividade. Utilize o QR Code para assistir ao vídeo: 4.1 Extração a quente As propriedades do solvente, a temperatura e a duração da extração afetam significativamente a eficiência da extração. Altas temperaturas aumentam a solubilidade e difusão, no entanto, temperaturas muito altas podem causar a perda de solventes, levando a extratos de impurezas indesejáveis e a decomposição de componentes termolábeis. Segundo Zhang et al. (2018), os métodos de extração usados na Farmacognosia que usam ou podem usar o aquecimento incluem: percolação, decocção, extração por refluxo, extração Soxhlet, extração líquida pressurizada, extração assistida por ultrassom, extração de campo elétrico pulsado, extração assistida por 18 enzima, extração assistida por enzima, destilação hidráulica, destilação a vapor. A Tabela 1 apresenta as vantagens e desvantagens do uso de técnicas de extração a quente. Tabela 1 - Vantagens e desvantagens das técnicas de extração a quente Fonte: Zhang et al., 2018 (Adptado). #ParaCegoVer: a imagem mostra uma tabela três de colunas e sete linhas apresentando diversos métodos de extração a quente com suas vantagens e desvantagens. Temperaturas elevadas podem promover melhorias significativas na eficiência da extração, pois podem aumentar a solubilidade dos analitos alvo, ajudar a quebrar as interações analito- matriz e incentivar a difusão do analito na superfície da matriz e a transferência em massa de compostos orgânicos para o solvente. Sob essas condições, os solventes aumentam o poder de solvatação e aumentam as taxas de extração. A alta pressão permite manter o solvente em estado líquido a alta temperatura e pode aumentar a penetração do solvente na matriz da amostra (GUARDIA; ARMENTA, 2011). 4.2 Extração a frio As técnicas de extração a frio trabalham em uma faixa de temperatura mais baixa ou a 19 temperatura ambiente. De acordo com Oliveira et al. (2016), os principais métodos de extração a frio incluem os métodos ultrassonográficos, a turbolização, maceração, a percolação e imersão do material intacto em solventes orgânicos. Outros métodos mais modernosde extração realizados a temperatura ambiente incluem extração de fluido supercrítico, extração assistida por microondas e extração de campo elétrico pulsado (ZHANG et al., 2018). A Tabela 2 apresenta as vantagens e desvantagens dos métodos de extração a frio. Tabela 2 - Vantagens de desvantagens de métodos de extração a frio Fonte: Oliveira et al., 2016; Zhang et al., 2018 (Adaptado). #ParaCegoVer: a imagem mostra uma tabela três de colunas e quatro linhas apresentando alguns métodos de extração a frio com suas vantagens e desvantagens. A escolha do método de extração deve considerar a natureza do componente a ser extraído, a viabilidade técnica e a instrumentação disponível, além da finalidade que se destina o produto extraído. Técnicas como a percloração e a extração assistida por ultrassom podem ser realizadas a temperatura ambiente ou sob condições de aquecimento. 5 ALCALOIDES De acordo com Evans (2002), as plantas que contêm alcaloides constituem um grupo extremamente variado, tanto taxonomicamente quanto quimicamente. Por esse motivo, questões sobre o papel fisiológico dos alcaloides, sua importância na taxonomia e na biogênese são frequentemente discutidas de maneira mais satisfatória no nível de uma classe específica de alcaloide. Uma situação semelhante diz respeito às atividades terapêuticas e farmacológicas dos alcaloides. Como a maioria dos alcaloides é extremamente tóxica, as plantas que os contêm são pouco utilizadas na fitoterapia, mas sempre foram importantes no sistema alopático, onde a dosagem é estritamente controlada e na homeopatia, onde a taxa de dose é tão baixa que é inofensiva. 20 Utilize o QR Code para assistir ao vídeo: Amirkia e Heinrich (2014) enfatizam que o processo de descoberta e desenvolvimento de medicamentos proveniente de produtos naturais, evoluiu acentuadamente nos últimos 30 anos para abordagens cada vez mais formuladas. Como uma classe principal de produtos naturais inicialmente descobertos e usados já há 4000 anos, os alcaloides e seus derivados têm sido utilizados em todo o mundo como fonte de fármacos para tratar uma grande variedade de doenças. Barbosa-Filho (2006) ressalta que os alcaloides são mais comuns em plantas com flores, e geralmente nas Papaveraceae (papoulas), Papilonaceae (tremoço), Ranunculaceae (acônitos) e Solanaceae (tabaco e batata), porém também podem ser encontrados em outros vegetais, insetos, organismos marinhos, microrganismos e animais. Segundo Evans (2002), os alcaloides apresentam grande variedade em sua origem botânica e bioquímica, em estrutura química e ação farmacológica. Consequentemente, muitos sistemas diferentes de classificação são possíveis. Para fins práticos, é útil classificá-los de acordo com suas estruturas químicas. Existem duas grandes divisões: FIQUE DE OLHO A cafeína é um alcaloide encontrado em grande quantidade nas sementes de café e nas folhas de chá verde. Também pode ser achado em outros produtos vegetais. Segundo Maria e Moreira (2007), uma xícara de café pode conter em média cerca de 80 mg de cafeína, enquanto uma lata de Coca-Cola em torno de 34-41 mg. 21 1 Alcaloides não heterocíclicos ou atípicos, às vezes chamados protalcaloides ou aminas biológicas. 2 Alcaloides heterocíclicos ou típicos, divididos em 14 grupos de acordo com sua estrutura em anel 5.1 Aspectos físico-químicos e moleculares Em relação às suas propriedades, a maioria dos alcaloides é básica, a característica de basicidade que eles possuem varia enormemente, dependendo da estrutura molecular do alcaloide e da presença e localização dos grupos funcionais. Alguns alcaloides são neutros, outros como a morfina, cocaína e cafeína se dissolvem em soluções alcalinas porque são levemente ácidos. Os alcaloides geralmente apresentam estrutura cristalina, embora algumas formem precipitados amorfos e algumas são líquidas à temperatura ambiente, como nicotina e esparteína, são inodoros e geralmente incolores, embora também haja exceções, como berberina. Muitos alcaloides são conhecidos por absorver raios UV, devido à presença de núcleos aromáticos em suas estruturas. A maioria é opticamente ativa, pois possui pelo menos um carbono assimétrico em sua estrutura (RINGUELET et al., 2013). Segundo Ringuelet et al. (2013), os alcaloides são geralmente divididos em três grupos, de acordo com a sua estrutura molecular e sua via Biossintética: Alcaloides verdadeiros Constituem o grupo principal; possuem nitrogênio intracíclico; são de natureza básica e normalmente ocorrem na natureza; formando sais com ácidos acético, oxálico, lático, lático, málico, tartárico e cítrico, entre outros. Talvez o que mais se diferencie dos outros grupos é que eles são formados a partir de aminoácidos. Protoalcaloides Podem ser consideradas aminas simples; têm reação básica e são formadas in vivo a partir de aminoácidos, mas, diferentemente dos alcaloides verdadeiros, possuem nitrogênio em uma cadeia lateral da molécula extracíclica, ou seja, que não faz parte do núcleo heterocíclico. Pseudoalcaloides Normalmente possuem todas as características dos alcaloides verdadeiros, mas não são formados a partir de aminoácidos. Na maioria dos casos conhecidos, são isoprenoides, por isso são chamados alcaloides terpênicos. 22 5.2 Ensaios fitoquímicos qualitativos Estão disponíveis uma grande variedade de ensaios fitoquímicos qualitativos para identificar alcaloides em diferentes amostras. A maioria dos alcaloides é precipitada a partir de uma solução neutra ou levemente ácida dos reativos gerais de alcaloides, estes reagentes incluem o reagente de Mayer, reagente de Wagner, reagente de Hager e reagente de Dragendorff. Estes precipitados podem ser amorfos ou cristalinos e apresentam coloração característica. Cafeína e alguns outros alcaloides não produzem esses precipitados. Deve-se tomar cuidado na aplicação desses testes alcaloides, pois os reagentes também produzem precipitados com proteínas (EVANS, 2002). Para realizar esses testes, Denny et al. (2007) sugerem dissolver 1 g da planta fresca triturada, em 10 ml de H2SO4 1%, a mistura deve ser aquecida em banho-maria por 2 minutos, em seguida filtrada e separada em alíquotas, onde devem ser utilizados os reagentes disponíveis. A presença de alcaloides é indicada pelo aparecimento de precipitado vermelho-alaranjado no teste de Dragendorff e o aparecimento de precipitado esbranquiçado no teste de Mayer foram considerados resultados positivos para a presença de alcaloides. 5.3 Microextração e identificação dos alcaloides De acordo com Saldaña (2002), as técnicas de extração de alcaloides usadas atualmente na indústria são constituídas principalmente pelas etapas de preparação da matéria-prima, extração e purificação. Para a purificação dos alcaloides a partir dos extratos, várias outras tecnologias, como destilação, cristalização entre outros têm sido utilizadas na indústria farmacêutica. Segundo Yang e Smetena (1998), o uso de microextração em fase sólida tem sido considerada uma técnica eficiente para isolar alcaloides, apresentando vantagens como baixo custo, simplicidade, sensibilidade e eliminação do problema de transição. Entre outros métodos analíticos utilizados para separação, identificação e quantificação de alcaloides estão as cromatografias de camada delgada, gás-líquido e líquida de alta eficiência, espectrofotometria, potenciometria com eletrodos e fotodensitometria. Técnicas mais recentes para caracterização de alcaloides utilizam a cromatografia líquida de alta eficiência acoplada com espectrômetro de massas (SALDAÑA, 2002). 23 Utilize o QR Code para assistir ao vídeo: 24 Nesta unidade, você teve a oportunidade de: • Conhecer fundamentos da Farmacognosia e sua importância, incluindo uma grande variedade de compostos naturais e suas aplicações. • Descobrir os procedimentos de coleta, preparo, conservação e aspectos do mercado dos produtos de origem natural. • Discutir as diferentes técnicas e métodos deextração, seus aspectos gerais e as vantagens e desvantagens associadas a cada técnica. • Conhecer as diferentes fontes de obtenção dos alcaloides, formas de classificação e características moleculares. • Aprimorar os conhecimentos sobre os alcaloides, características específicas, métodos de obtenção, identificação e quantificação. PARA RESUMIR ABAH, S. E.; EGWARI, L. O. 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Conheça aqui os processos metabólicos e as espécies moleculares envolvidas nestes processos, com ênfase nos metabólitos primários e secundários, incluindo métodos de obtenção e aplicações farmacológicas. Veja as características únicas dos metabólitos secundários e suas possíveis aplicações. Veja também informações relevantes sobre as Cumarinas, sua caracterização, aplicações e aspectos farmacobotânicos. Conheça os principais heterosídeos flavônicos, suas características, métodos de obtenção e aplicações dos mais importantes representantes do grupo. Bons estudos! Introdução 29 1 ASPECTOS GERAIS DO METABOLISMO Santos (2015) descreve que ao longo da história evolutiva dos vegetais, após várias situações de estresse e adaptação, as plantas foram desenvolvendo mecanismos para mitigar danos externos, que envolveu a produção de uma grande variedade de espécies químicas. Durante algum tempo acreditou-se que muitos desses compostos eram produzidos sem função específica, como resultado de erros metabólicos. Com os estudos recentes sobre metabolismo e metabólitos, observa-se a importância destas substâncias, suas funções e novas formas de uso. O estudo do metabolismo aborda um conjunto de reações químicas, mecanismos e vias pelas quais ocorrem as reações e os compostos que dela participam. Os metabólitos são compostos químicos, moléculas orgânicas que podem ser formados, degradados ou transformados, a partir de reações biológicas, estes produtos são divididos em dois grandes grupos, os metabólitos primários e metabólitos secundários. Braz (2010) enfatiza que metabolismo primário assume importância no crescimento e composição, compreende os principais elementos da construção biológica, enquanto o metabolismo secundário contribui com características como os aromas, as cores, resistência, mecanismo de defesa, e outros fatores que possibilitam sua sobrevivência nas condições ambientais. 1.1 Metabolismo primário Todos os seres vivos possuem um metabolismo geral comum designado metabolismo primário. De acordo com Almeida (2017), o metabolismo primário tem como objetivo principal a síntese de compostos essenciais para a sobrevivência das espécies. No caso das plantas, o metabolismo primário está associado a todos os processos fotossintéticos que originam a formação de ácidos carboxílicos do ciclo de Krebs, aminoácidos, carboidratos, ácido graxos, proteínas e ácidos nucleicos, e outros processos fundamentais. Basicamente, todos organismos convivem com os mesmos tipos de metabólitos primários e devem ser capazes de obtê-los (BRAZ, 2010). Segundo Rios (2016) os principais metabólitos primários incluem carboidratos, peptídeos, aminoácidos, vitaminas, ácidos graxos e ácidos nucleicos, que estão envolvidos no crescimento, desenvolvimento, respiração, fotossíntese e síntese de hormônios e proteínas. Esses metabólitos são essenciais e podem ser encontrados em praticamente todas as espécies de plantas dentro de amplos grupos filogenéticos. Os metabólitos primários são responsáveis pela estrutura e participam de grande maioria das reações que ocorrem no interior da célula. Trata-se de um conjunto de moléculas orgânicas que desempenham diferentes funções biológicas. Já os metabólitos secundários não estão diretamente envolvidos no crescimento ou desenvolvimento, sendo em sua maioria produzidos 30 por diferentes mecanismos e apresentam composição química característica. 1.2 Metabolismo secundário De acordo com Rios (2016), as plantas produzem naturalmente uma grande variedade de metabólitos secundários, estes compostos estão distribuídos diferencialmente entre grupos taxonômicos no reino vegetal. As funções de muitos desses compostos ainda são desconhecidas, no entanto, elestêm sido estudados por um número cada vez maior de pesquisadores, sendo considerada uma área promissora. Os metabólitos secundários geralmente são classificados em quatro grupos principais, os compostos fenólicos, terpenoides, alcaloides e compostos contendo enxofre, como os glicosinolatos. Os metabólitos secundários podem ser específicos de algumas espécies e participam de uma grande variedade de processos. Normalmente são substâncias produzidas em pequenas quantidades, são conhecidos por serem sintetizados em tipos celulares especializados e em distintos estágios de desenvolvimento, tornando seu isolamento e purificação mais trabalhosos. Estes constituintes químicos são extremamente diversos. Cada família, gênero, e espécie produz uma categoria química característica ou uma mistura delas, algumas dessas características podem ser utilizadas como caracteres taxonômicos na classificação das plantas (SILVA, C. 2014). 2 FUNDAMENTOS DE FITOQUÍMICA A Fitoquímica é a área da ciência que tem como objetivo principal o estudo dos constituintes químicos das plantas, este estudo abrange a elucidação de estruturas químicas, metabolismo, distribuição natural, função biológica, extração e avaliação de parâmetros físico-químicos. Esta especialidade é multidisciplinar, em relação à sua aplicação, a Fitoquímica tem sido uma ferramenta importante nas ciências agrícolas e florestais, apresenta também aplicações importantes em relação às ciências farmacêuticas e biotecnologia vegetal. A Fitoquímica engloba compostos orgânicos produzidos pelo metabolismo primário e secundário das plantas (RINGUELET et al., 2013). De acordo com Nwafor e Orabueze (2018), o conhecimento e a aplicação da Fitoquímica na taxonomia vegetal começaram do homem primitivo, quando o homem começou a classificar as plantas como comestíveis e não comestíveis, aromáticas, coloridas, saborosas e medicinais, baseadas em seus constituintes químicos. A quimiotaxonomia é um sistema de taxonomia que classifica os organismos com base em seus constituintes químicos. Marcadores fitoquímicos de importância taxonômica incluem as partículas diretamente visíveis, que incluem cristais, couro e grânulos de amido, metabólitos primários e metabólitos secundários. O estudo de extratos ou substâncias isoladas de espécies vegetais nativas pode revelar potenciais aplicações dessas espécies em diferentes formas, que variam desde suplementos 31 alimentares e cosméticos, a inseticidas naturais. Dentro dessa linha de pesquisa, a Fitoquímica busca encontrar e caracterizar metabólitos secundários de inúmeras plantas (SANTOS, 2015). Utilize o QR Code para assistir ao vídeo: 2.1 Óleos essenciais e resinas Os óleos essenciais são misturas de produtos naturais voláteis obtidos principalmente de plantas aromáticas, sendo encontrados como líquidos solúveis em solventes orgânicos. Os constituintes dos óleos essenciais podem ser sintetizados por todos os órgãos da planta, como flores, folhas, caules, galhos, sementes, frutos, raízes ou cascas (OSÓRIO, 2015). Segundo Osório (2015) os óleos essenciais apresentam diferentes usos. Pela sua fragrância apresentam utilidade para a indústria cosmética, perfumaria, alimentícia e farmacêutica. Mas são também conhecidas diversas propriedades medicinais, tais como antibacteriana, antifúngica, analgésica, anti-inflamatória e anticarcinogênica. Esses constituintes dos óleos essenciais podem ser divididos em dois grupos, um grupo é constituído por terpenos e terpenoides e o segundo, por compostos aromáticos e alifáticos. Bizzo et al. (2009) enfatizam que óleos essenciais são geralmente extraídos de plantas através da técnica de arraste a vapor e pela prensagem do pericarpo de frutos cítricos. São compostos principalmente de mono e sesquiterpenos e de fenilpropanoides, metabólitos que conferem suas características organolépticas. A produção de óleos essenciais no Brasil é viável e rentável, sendo considerada uma ótima oportunidade para o desenvolvimento de processos sustentáveis de exploração da biodiversidade brasileira. Segundo Kalemba e Kunicka (2003), as propriedades antimicrobianas dos óleos essenciais são conhecidas há muitos séculos. Nas últimas décadas, um número significativo de óleos essenciais e seus constituintes foram investigados por suas propriedades antimicrobianas contra algumas 32 bactérias e fungos. Tem-se verificado que os óleos essenciais de especiarias e ervas como o tomilho, hortelã, canela, sálvia e cravo possuem as propriedades antimicrobianas mais potentes entre muitos testados. 2.2 Glicosídeos e glicosinolatos De acordo com Ringuelet et al. (2013), os carboidratos representam uma importante classe de metabólitos primários, compostos úteis como reserva de energia, na forma de glicose, sacarose, amido e glicogênio. Apresentam função estrutural, como a celulose, pectinas, hemicelulose. Muitos deles são altamente solúveis em água e outros totalmente insolúveis em água e outros solventes. Os glicosídeos, consistem em moléculas orgânicas formados por um açúcar simples, geralmente um monossacarídeo no qual um dos átomos de hidrogênio de um grupo hidroxila é substituído por outra molécula que geralmente possui atividade biológica. Grande maioria dos compostos fenólicos, que desempenham funções essenciais nas plantas, encontram-se na forma de glicosídeo para favorecer sua afinidade com água. Segundo Carneiro (1989) os glicosídeos podem ser hidrolisados, fornecendo então o carboidrato e o composto ligado a este. Na formação do glicosídeo, deve-se considerar o tipo de monossacarídeo envolvido, se este for a glicose, o derivado é um glicosídeo, se for a frutose, um frutosídeo. Os glicosídeos ocorrem em abundância nas plantas e apresentam aplicação em farmacologia e na indústria. Os glicosídeos podem ser encontrados em abundância nas plantas, sendo amplamente empregados na farmacologia e na indústria dos corantes. Santos (2013) enfatiza que nas plantas, estes metabólitos estão envolvidos em processos de defesa, em especial, os glicosídeos cianogênicos e os glucosinolatos. Os glucosinolatos são compostos heterosídicos aniônicos responsáveis por odores fortes e irritantes e pelos sabores picantes característicos de espécies como mostarda, rabanete, agrião e outros. A estrutura básica de um glucosinolato contém açúcar, um grupo sulfato e uma parte não glicídica variável. A ação de enzimas específicas como mirosinases ou tioglucosidases induz a hidrólise, que resulta na liberação de moléculas de glicose e sulfato inorgânico, composto altamente reativo (RINGUELET et al., 2013). 3 CUMARINAS As Cumarinas compreendem uma classe muito diversificada de compostos encontrados nos reinos Vegetal, Monera e Fungi. Elas são encontradas em maiores quantidades em alguns óleos essenciais, particularmente óleo de casca de canela, óleo de folha de cássia e óleo de lavanda, sendo também encontradas em frutas, chá verde e outros alimentos, como chicória. A maioria das Cumarinas ocorre em plantas superiores, com as fontes mais ricas sendo as Rutaceae e as Umbelliferone. Embora distribuídos por todas as partes da planta, os Cumarinas apresentam-se 33 em maiores quantidades nos níveis mais altos, nos frutos, seguidos pelas raízes, caules e folhas (JAIN; JOSHI, 2012). De acordo com Thakur et al. (2015), as várias atividades farmacológicas das Cumarinas dependem basicamente do tipo de núcleo, suas atividades biológicas incluem ação antibacteriana, inibição da cicloxigenase, antimutagênico, eliminação de espécies reativas de oxigênio, anti-inflamatório, anticogulante, lipoxigenase, estimulantes do sistema nervoso central, antitrombótica, vasodilatadora e atividade anticâncer. 3.1 Aspectos gerais e classificação De acordo com Miranda (2001), as Cumarinas são benzo-derivados da pirona, de ocorrência natural ou sintética, classificadas como benzo-α-pironas. Constituem uma classe de metabólitos secundários amplamente distribuída, sendo identificadas mais de 1300estruturas diferentes. Podem ser encontradas isoladas ou combinadas com carboidratos pequenos ou ácidos. Suas características odoríferas possibilitam seu uso para fabricação de perfumes e agentes flavorizantes. Segundo Kumar et al. (2015), a fusão de um anel pirônico com o núcleo benzeno dá origem a uma classe de composto heterocíclico conhecido como benzopirona, da qual são reconhecidos dois tipos distintos. Eles são a benzo-α-pirona, comumente chamados de Cumarinas, e os benzo- γ-pirona, comumente chamados de cromonas, que diferem entre si apenas na posição do grupo carbonil no anel pirona. A Figura 1 apresenta a estrutura química geral das Cumarinas. Figura 1 - Estrutura química de uma Cumarina simples Fonte: StudioMolekuul, Shutterstock, 2020. #ParaCegoVer: Na figura 1 podemos ver a estrutura química de uma molécula de benzo-α- pirona Conforme Souza (2005), as Cumarinas podem ser classificadas em 5 grupos: 1 Cumarinas simples 2 Furano Cumarinas 34 3 Pirano Cumarinas 4 Cumarinas com substituintes no anel pirona 5 Cumarinas miscelâneas A Cumarina e seus derivados são altamente reativos, devido à porção alifática presente, sendo provável que ela sofra abertura pelo grupo acilo. Além disso, o carbono 6 no anel aromático pode sofrer ataque eletrofílico, como a acilação de Friedel-Crafts e a sulfonação, levando à formação de derivados (KUMAR et al., 2015). De acordo com Ribeiro e Kaplan (2002), a distribuição de Cumarinas nas Angiospermae apresentam Cumarinas simples em maiores quantidades, enquanto que os demais tipos cumarínicos como furanocumarinas lineares e angulares, piranocumarinas lineares e angulares, lignocumarinas e outras ocorrem mais especificamente em poucas famílias e tem mostrado uma tendência de diversificação nos táxons considerados mais primitivos. 3.2 Aspectos botânicos e biogênese De acordo com Souza (2005), as Cumarinas podem ser encontradas em diferentes partes das plantas, englobando raízes, flores e frutos de algumas famílias de Angiospermae como Apiaceae, Rutaceae, Graminae e Orquidaceae bem como em Fabaceae, Oleaceae, Moraceae, entre outras. Dentre os táxons que biossintetizam Cumarinas podem ser citadas espécies bastante diversificadas, como árvores, arbustos e ervas. Embora sintetizadas principalmente nas folhas, Cumarinas ocorrem em níveis mais altos, nas frutas, seguido pelas raízes e caule. A síntese dos metabólitos secundários de plantas deriva, principalmente, do metabolismo da glicose via dois intermediários principais, as vias do ácido chiquímico e acetato. A via do ácido chiquímico produz os três aminoácidos aromáticos, fenilalanina, triptofano e tirosina, que intermediam a biossíntese de numerosos produtos naturais aromáticos em plantas superiores entre eles, os alcaloides, taninos, lignanas, ligninas e Cumarinas. Acredita-se que as Cumarinas são derivadas do metabolismo da fenilalanina (SOUZA, 2005). 3.3 Extração e caracterização O uso cada vez maior de compostos cumarínicos tem sido acompanhado pelos avanços na instrumentação e análise molecular destas espécies, possibilitando avaliar novas matérias-primas, estudar mecanismos e rotas de síntese. Além disso as técnicas analíticas constituem ferramentas para monitorar a qualidade nas preparações envolvendo essas substâncias, possibilitando realizar uma grande variedade de estudos e elucidar mecanismos biológicos. 35 As metodologias para determinação de compostos cumarínicos em amostras biológicas incluem espectrometria de massa, ressonância magnética nuclear, eletroforese em gel e os métodos cromatográficos. A técnica padrão ouro para lidar com amostras biológicas é a cromatografia líquida de alta eficiência acoplada a espectrômetro de massas (MELLO, 2009). A Cumarina simples purificada apresenta-se na forma de cristais prismáticos, incolores e com fragrância característica. Quando em seu estado fundamental é solúvel em álcool e em outros solventes orgânicos como o éter, com os quais ela pode ser extraída. Em meio alcalino pode-se observar a abertura do anel lactônico, enquanto que em meio ácido ocorre a regeneração do anel. Para identificar quais Cumarinas estão presentes em extratos vegetais, podem ser utilizados procedimentos de microextração e cromatografia. A determinação estrutural das Cumarinas é feita através dos métodos espectroscópicos como as espectroscopias no infravermelho e de massas (SOUZA, 2005). 3.4 Propriedades farmacológicas As Cumarinas têm atraído muita atenção devido às suas propriedades terapêuticas. Suas atividades fisiológica, bacteriostática e antitumoral possibilitam seu emprego no tratamento de várias doenças. Vários estudos comprovaram o papel potencial múltiplo das Cumarinas, que inclui a prevenção de doenças, modulação do crescimento, efeitos antioxidantes e antitumorais (ROHINI; SRIKUMAR, 2014). Eles exibem atividade farmacocinética significativa devido à sua rápida absorção e metabolismo. De acordo com Souza (2005), quando ocorre a aplicação tópica de produtos contendo Cumarinas, a absorção é rápida e extensiva pela pele humana, permanecendo metabolicamente imutáveis durante a absorção. De forma oral, a Cumarina é rapidamente absorvida no trato gastrintestinal, distribuída pelo organismo e metabolizada extensivamente pela CYP2A6 hepática à 7-hidroxi Cumarina, que é excretada na urina sob a forma de conjugados sulfatados e glicuronídeos. Segundo Miranda (2001), sem dúvidas, dentre todas as propriedades terapêuticas das Cumarinas, a mais explorada tem sido na produção de anticoagulantes. Os estudos nessa área concentram-se fortemente na descoberta de novas drogas com atividade antiagregante de plaqueta. FIQUE DE OLHO O uso de Cumarinas no tratamento do câncer tem apresentado resultados animadores. Segundo Rohini e Srikumar (2014), as Cumarinas estão sendo usadas no tratamento do câncer de próstata, carcinoma de células renais e leucemia. 36 Utilize o QR Code para assistir ao vídeo: 4 HETEROSÍDEOS FLAVÔNICOS Camargo (2007) descreve que os flavonoides são fitocompostos polifenólicos, caracterizados quimicamente como heterosídeos flavônicos. Apresentam diversas funções biológicas, em especial, propriedades antioxidantes e habilidade de modular a atividade de diversas enzimas ou receptores celulares, tornando-os responsáveis pelo efeito protetor contra doenças relacionadas ao sistema cardiovascular, certos tipos de câncer e no tratamento de doenças de fotossensibilidade e fotoenvelhecimento. Diferentes estruturas químicas concedem aos flavonoides diferentes funções. De acordo com Camargo (2007), em plantas, os flavonoides são encontrados ligados a açúcares como glicosídeos e são bastante estáveis. São encontrados em maiores quantidades em sementes e frutos. Eles têm sido categorizados como antocianidinas, flavonóis, flavononas, flavonas, catequinas. As flavononas ocorrem predominantemente em frutas cítricas, conferindo-lhes o sabor característico. As flavonas distribuem-se em ervas e grãos, contribuindo para o sabor e coloração dos tecidos vegetais. As isoflavonas estão presentes em grãos, como a soja, onde possuem atividade estrogênica. As antocianinas são encontradas em frutos, produzindo coloração azul e vermelha, as catequinas também estão presentes em frutos. Segundo Gouvêa (2010), os flavonoides podem ser divididos em várias classes, os que se estão presentes na dieta humana estão divididos essencialmente em seis classes, de acordo com suas estruturas químicas, em flavonóis, flavonas, isoflavonoides, flavanonas e antocianinas. Mais de 8 mil compostos individuais já foram caracterizados, e a tendência é que esse número aumente. Essa diversidade está relacionada a diferentes combinações de grupamentos substituintes presentes nestes compostos. 37 4.1 Propriedades biológicas e fisiológicas Segundo Barros (2012), os flavonoides são uma das mais importantes classes de compostos fenólicos presentes na natureza, são abundantes no reino vegetal e são atribuídos a estes um amploconjunto de atividades biológicas. Entre elas, podem ser citadas a proteção contra raios ultravioleta e ação antioxidante, proteção contra microrganismos patogênicos, ação alelopática e inibição enzimática. Pigmentos derivados de antocianinas atraem insetos polinizadores. Os flavonoides são responsáveis pela coloração e sabor de muitos alimentos de origem vegetal como as frutas, o chá e o vinho (MACHADO et al., 2008). De acordo com Machado et al (2008), as atividades bioquímicas dos flavonoides e de seus metabólitos dependem de sua estrutura química, que podem variar com substituições incluindo hidroxilações, hidrogenação, glicosilações metilações, malonilações e sulfatações. 4.2 Propriedades farmacológicas Os flavonoides têm sido empregados para diferentes finalidades, seu interesse comercial é decorrente de suas diferentes propriedades. Segundo Machado et al. (2008), pesquisas tem reportado que os flavonoides têm demonstrando efeitos antimicrobiano, anti-inflamatório, antiplaquetário, antiviral, antiulcerogênico, antineoplásico, antioxidante, citotóxico e hipolipidêmico. Estes efeitos estão associados às propriedades inibitórias que os flavonoides desempenham nos vários sistemas enzimáticos incluindo hidrolases, isomerases, oxigenases, oxidoredutases, polimerases, fosfatases, proteínas fosfoquinases e outros. Antioxidantes são compostos que atuam retardando ou inibindo a oxidação de lipídios e outras moléculas, evitando o início ou propagação das reações de oxidação. De acordo com Barros (2012) estudos recentes descrevem que o importante papel dos flavonoides na proteção do sistema nervoso central contra a oxidação dos lipídios e o estresse oxidativo, prevenindo assim muitas doenças neurodegenerativas. FIQUE DE OLHO Barros (2012) descreve que as propriedades terapêuticas dos flavonoides associadas à sua ação como antioxidante têm sido extensivamente estudadas. Uma dieta rica em flavonoides, que inclua vários frutos e vegetais ajuda a prevenir o processo de oxidativo. 38 4.3 Caracterização e extração Segundo Barros (2012), os flavonoides são metabólitos secundários quimicamente caracterizados por apresentar baixo peso molecular, apresentando dois núcleos benzênicos ligado a um núcleo heterocíclico no meio. Machado (2008) descreve que estes metabólitos são biossintetizados a partir da via chiquimato e da via acetato. A biossíntese ocorre através da combinação dos ácidos chiquímico e acilpolimalonato. Segundo G. Silva (2012), os flavonoides podem ser identificados e quantificados a partir de extratos metanólicos e glicólicos. As técnicas de maceração e de ultrassom possibilitam obter os extratos de folhas em temperatura ambiente, no entanto muitas outras técnicas estão disponíveis. A presença de flavonoides específicos pode ser obtida pelo acoplamento de técnicas como microextração em fase sólida ou cromatográficas a um espectrômetro de massas. Outro método de caracterização amplamente utilizado é a eletroforese capilar, para a detecção podem ser usados espectrofotômetros e detector por arranjo de diodos. 5 HETEROSÍDEOS ANTOCIÂNICOS Segundo Gouvêa (2010), as antocianinas representam o mais importante grupo de pigmentos hidrossolúveis do reino vegetal. Como observado em outros flavonoides, a grande diversidade das antocianinas está relacionada com a possibilidade de várias combinações de grupos substituintes em sua molécula. Os pigmentos antociânicos sofrem transformações estruturais reversíveis com mudança de pH em solução aquosa, manifestada por espectros de absorbância diferentes. A mudança da coloração de uma mesma antocianina também pode estar relacionada à presença de cátions ou de outros flavonoides presentes na planta. O interesse nas antocianinas tem aumentado significativamente devido a suas propriedades e aplicações. Segundo Tian et al. (2018), as antocianinas são polifenóis solúveis em água, presentes em frutas e legumes. Os efeitos terapêuticos atribuídos às antocianinas estão principalmente associados à inibição do estresse oxidativo e à modulação da microbiota intestinal. As antocianinas na dieta sofrem um metabolismo complexo após a ingestão e interagem com enzimas endógenas e microbianas, levando à produção de grande número de metabólitos e produtos catabólicos. As antocianinas têm sido empregadas com sucesso pelas indústrias farmacêutica e alimentícia. De acordo com Valente (2017), as antocianinas possuem grande potencial em reduzir o risco de desenvolvimento da aterosclerose. Os mecanismos envolvidos neste processo são, principalmente, referentes às atividades antioxidantes das antocianinas e a capacidade destes compostos em reduzir fatores pró-inflamatórios. A síntese artificial de antocianinas é um processo complexo e dispendioso. Segundo 39 Valente (2017), em geral, a obtenção desses compostos tem se limitado a extrai-las a partir de espécies vegetais, principalmente frutas, nas quais o teor de antocianinas é mais alto. O valor de comercialização de antocianinas isoladas e quimicamente puras é muito alto. Recentemente, muitos estudos têm se dedicado a procurar novas fontes e sua produção em larga escala, de forma sustentável. 5.1 Características gerais As antocianinas estão presentes na natureza principalmente na forma de heterosídeos. As antocianinas são classificadas quimicamente como flavonoides. Segundo Pascual-Teresa e Sanchez-Ballesta (2007), além de serem utilizados pela indústria como corantes naturais, estudos recentes têm demonstrado o efeito potencial que essa família de flavonoides pode ter na redução da incidência de doenças cardiovasculares, câncer, hiperlipidemias e outras doenças crônicas. De acordo com Valente (2017), a biossíntese das antocianinas nas plantas e seu acúmulo dependem de alguns fatores como luz, temperatura, condição nutricional, hormônios, danos mecânicos e ataque de patógenos. A luz é o fator externo mais importante na biossíntese por fotoativar indiretamente as enzimas envolvidas no sistema fitocromo. 5.2 Aspectos farmacobotânicos As antocianinas estão presentes em diferentes órgãos vegetais, como frutas, flores, caules, folhas e raízes. De acordo com Pascual-Teresa e Sanchez-Ballesta (2007), estes compostos são normalmente encontrados dissolvidos uniformemente na solução vacuolar das células epidérmicas. No entanto, em certas espécies, as antocianinas estão localizadas em regiões discretas do vacúolo celular, chamados antocianoplastos. As principais fontes de antocianina são frutas vermelhas, uvas, cereais como milho roxo, legumes e vinho tinto. O conteúdo de antocianina pode variar de fruto para fruto do mesmo tipo devido a diferentes fatores externos e internos, como fatores genéticos e agronômicos, Intensidade e tipo de luz, temperatura, processamento e armazenamento. Pascual-Teresa e Sanchez-Ballesta (2007) enfatizam que as antocianidinas mais comuns em plantas superiores são nomeadamente a delfinidina, cianidina, petunidina, pelargonidina, peonidina e malvidina. Os glicosídeos das antocianidinas são os mais abundantes na natureza e podem representar 80% dos pigmentos das folhas, 69% nos frutos e 50% nas flores. De acordo com Escribano-Bailón et al. (2004), as funções das antocianinas nas plantas são semelhantes às funções gerais de todos os flavonoides, incluem funções antioxidantes, fotoproteção, mecanismos de defesa e outras funções ecológicas. Desempenham um papel interessante nos mecanismos reprodutivos, pois encontrados nas flores, servem para atrair polinizadores. Também foi observado que seu papel de inibidor de crescimento larval, podendo ser utilizadas como agentes de controle biológico. 40 5.3 Extração e caracterização Gouvêa (2010) enfatiza que as antocianinas, por apresentarem caráter hidrossolúvel, podem ser facilmente extraídas de plantas utilizando solventes polares. Quando sua extração não possui caráter quantitativo, a água e etanol são solventes recomendados, porém, quando o aspecto quantitativo é prioridade, ometanol é o solvente mais eficaz e indicado. A limitação do uso do etanol e água está relacionada com menor eficiência de extração de antocianinas. Metanol é 20% mais eficiente do que etanol e 73% mais efetivo que a água. Em casos de estudos envolvendo o mecanismo de ação ou para aplicações farmacológicas, deve- se fazer a purificação do extrato, visando isolar a antocianina a ser estudada. Após a extração em fase líquida, o extrato contém uma mistura de substâncias, que podem incluir antocianinas, outros compostos fenólicos, açúcares, polissacarídeos solúveis, proteínas, cátions e ácidos nucleicos. De acordo com Wu e Prior (2005), a extração em fase sólida é o método de purificação mais utilizado para a extração de antocianina antes da análise instrumental. A técnica possibilita remover produtos indesejáveis, como açúcares, ácidos, aminoácidos e proteínas, que poderiam interferir na análise de antocianinas. Segundo Gouvêa (2010), a técnica de extração em fase sólida consiste na aplicação do extrato bruto no cartucho contendo material sólido, denominado fase estacionária. As antocianinas ficam adsorvidas fortemente neste material devido à presença de hidroxilas livres. Dessa forma, as substâncias mais polares que as antocianinas, como açúcares e ácidos orgânicos, são eluídas primeiramente, em seguida, as antocianinas são removidas pela utilização de solvente alcoólico acidificado. Wu e Prior (2005) enfatizam que a caracterização das antocianinas pode ser realizada por meio de técnicas instrumentais sofisticadas de análise, como a cromatografia líquida de alta eficiência acoplada a um espectrômetro de ressonância magnética ou um espectrômetro de massa. Utilize o QR Code para assistir ao vídeo: 41 Nesta unidade, você teve a oportunidade de: • conhecer as principais características e composição química dos metabólitos primá- rio e secundário, assim como sua importância para os processos metabólicos. • identificar os objetivos da Fitoquímica e conhecer os principais compostos obtidos a partir de espécies vegetais que apresentam importância farmacêutica e industrial. • caracterizar as Cumarinas e conhecer diferentes métodos de obtenção, proprieda- des, mecanismo de ação e propostas de utilização. • aprender sobre flavonoides, sua caracterização, métodos de extração, estrutura química, aplicações e propriedades. • discutir aspectos importantes sobre os heterosídeos antociânicos, seu mecanismo de ação, obtenção e sua aplicação na produção de fármacos. PARA RESUMIR ALMEIDA, D. F. L. S. Estudo das Vias Metabólicas das Plantas na Síntese de Pigmentos Naturais. 2017. 61 f. Tese (Mestrado em Ciências Farmacêuticas) – Universidade Fernando Pessoa, Porto, 2017. BARROS, M. C. T. C. Preparação de novos derivados flavonoides com potencial atividade biológica. 2012. 78 f. Dissertação (Mestrado em Química Farmacêutica) – Universidade de Coimbra, Coimbra, 2012. BIZZO, H. R.; HOVELL, A. M. C.; REZENDE, C. M. Óleos essenciais no Brasil: aspectos gerais, desenvolvimento e perspectivas. Química Nova, São Paulo, v. 32, n. 3, p.588-594, 2009. BRAZ, R. F. Contribuição da Fitoquímica para o desenvolvimento de um país emergente. Química Nova, v. 33, n. 1, p. 229-239, 2010. CAMARGO, C. A. Efeito da quercetina nas atividades fosfatásicas e seu efeito protetor na hepatotoxicidade induzida pelo acetaminofeno em camundongos. 2007. 80 f. Dissertação (Mestrado em Fisiologia) – Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2007. CARNEIRO, E. Identificação de glicosídeos na hymenaea martiana hayne, arzeik: estruturas e atividades farmacológicas. 1989. 239 f. 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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS UNIDADE 3 Metabólitos secundários de plantas Introdução Você está na unidade Metabólitos secundários de plantas. Conheça aqui a importância dos metabólitos secundários encontrados em plantas, incluindo sua classificação, distribuição, estruturas moleculares, reações, biossíntese, extração, obtenção, papel biológico e diferentes aplicações. Conheça os principais aspectos dos taninos, terpenos, esteroides e saponinas. Veja também estudos referentes às principais aplicações de metabólitos secundários na indústria farmacêutica, além de técnicas modernas usadas para caracterização e estudos sobre os mecanismos de ação destes produtos naturais. Bons estudos! 47 1 IMPORTÂNCIA DOS METABÓLITOS SECUNDÁRIOS Akula e Ravishankar (2011) descrevem que os metabólitos secundários das plantas são considerados fontes únicas de uma vasta gama de espécies moleculares de interesse farmacêutico e industrial. Os metabólitos secundários desempenham papel de grande importância na perpetuação da espécie, mais especificamente no mecanismo de adaptação das plantas ao meio ambiente e na superação das condições de estresse, considerando que a acumulação de tais metabólitos ocorre frequentemente em plantas sujeitas a condições específicas. Fatores ambientais como temperatura, umidade, intensidade da luz, suprimento de água, minerais e CO2 influenciam o crescimento da planta e a produção de metabólitos secundários. As plantas desenvolveram processos sofisticados para melhorar e garantir sua sobrevivência, incluindo a produção de vários metabólitos secundários. De acordo com Shitan (2016), estes metabólitos servem a diversos propósitos, que geralmente estão associados a natureza química destas substâncias, que vão desde mecanismos de defesa contra predadores até a proteção contra luz violeta. Muitos metabólitos secundários têm atividades biológicas úteis para os seres humanos, seja na indústria dos alimentos ou na produção de fármacos. 1.1 Metabólitos secundários derivados de plantas As plantas vasculares contêm uma enorme variedade de compostos químicos que variam de acordo com a família e as espécies. A distribuição estrita de muitos desses compostos permite que sejam utilizados como marcadores taxonômicos. No passado, esses metabólitos secundários eram vistos como resíduos resultantes de erros do metabolismo primário e, portanto, de pouca importância para o metabolismo e crescimento das plantas. Tornou-se claro que tais visões são amplamente imprecisas e equivocadas, e que muitos produtos secundários são componentes- chave de mecanismos de defesa e estratégias da guerra química de longa data travada entre plantas e patógenos (BENNETT; WALLSGROVE, 1994). De acordo com Akula e Ravishankar (2011), os metabólitos secundários desempenham funções relevantes nos mecanismos de defesa contra herbívoros e patógenos. Muitas vezes, eles podem conferir proteção contra diferentes formas de estresses ambientais. 1.2 Distribuição e biossíntese De acordo com Pichersky e Gang (2000), um metabólito secundário pode ser definido como um composto cuja biossíntese é restrita a grupos de organismos. As plantas produzem uma incrível diversidade de metabólitos secundários de baixo peso molecular. Embora um número superior a 50 mil já tenham sido elucidadas, provavelmente existem muitos outros compostos a serem isolados e estudados. A capacidade de sintetizar 48 compostos secundários foi selecionada ao longo do curso da evolução em diferentes linhagens de plantas, quando esses compostos diante necessidades específicas. A capacidade de sintetizar produtos químicos tóxicos evoluiu para afastar patógenos e herbívoros, de bactérias e fungos a insetos e mamíferos. Compostos moleculares encontrados nas frutas evitam a deterioração e agem como sinais, na forma de cor, aroma e sabor e da presença de possíveis recompensas, que incluem açúcares, vitaminas e aminoácidos, para animais que comem as frutas possam dispersar as sementes. As soluções químicas para um problema comum são frequentemente diferentes em diferentes linhagens de plantas. 1.3 Caracterização e classificação Rhodes (1994) enfatiza que milhares de metabólitos secundários foram isolados de plantas e suas estruturas químicas elucidadas nas últimas décadas. Em contraste com os metabólitos primários, os compostos secundários individuais variam amplamente em sua distribuição entre as espécies vegetais, e alguns podem ocorrer apenas em uma única ou poucas plantas relacionadas. Nossa visão atual da complexidade da química das plantas surgiu em grande parte das atividades de pesquisadores de diversas áreas, adeptos da extração e purificação de compostos a um nível suficiente para determinar sua estrutura e atividade. Dentro de cada um dos principais grupos de metabólitos secundários, como alcaloides, fenilpropanoides e terpenoides, milhares de compostos individuais que podem ser encontrados nas plantas. Com as metodologias modernas para caracterização molecular tem sido possível elucidar a estrutura química dos compostos de interesse. Métodos modernos viabilizaram determinar e caracterizar componentes em menores quantidades nas plantas. Esses estudos têm revelado a imensa diversidade e complexidade da química das plantas. Neste sentido, as técnicas de cromatografia líquida de alta eficiência e microextração em fase sólida se destacam para o isolamento e purificação, enquanto as técnicas espectroscopia de massa e espectroscopia de ressonância magnética nucelar possibilitam caracterizar estruturalmente os compostos purificados (RHODES, 1994). 2 TANINOS Os taninos são encontrados em quase todas as plantas, de diferentes climas ao redor do mundo. Segundo Chung et al. (1998), estima-se que os taninos representem o quarto composto bioquímico produzido pelo tecido vegetal vascular mais abundante, ficando atrás da celulose, hemicelulose e lignina, dessa forma os taninos representam uma porção significativa da biomassa terrestre. 49 As folhas e a casca podem conter até 40% de compostos tanínicos. Especialmente nas folhas, as concentrações de taninos podem exceder os níveis de lignina. São moléculas complexas, estudos sugerem que estes compostos desempenham um papel importante na sobrevivência e evolução das plantas. Tradicionalmente, os benefícios alcançados através da defesa de herbívoros eram propostos como justificativa para o investimento de energia metabólica na produção de taninos. Os taninos podem ser encontrados em uma variedade de plantas utilizadas na dieta humana e de outros animais, como alimento e ração. Grãos integrais, como sorgo, milheto, cevada, feijão, ervilha, frutas como maçãs, bananas, amoras, mirtilos, tâmaras uvas, pêssegos, ameixas, framboesas e morangos também contêm quantidades apreciáveis. Os taninos são definidos como como compostos fenólicos solúveis em água com peso molecular entre 500 e 3 mil daltons. Esses polifenóis podem apresentar um número significativo de grupos hidroxila e outras funções orgânicas que possibilitam sua interação com proteínas e outras macromoléculas (CHUNG et al., 1998). Segundo Ashok e Upadhyaya (2012), como os taninos geralmente diminuem a absorção de alguns nutrientes pelo corpo, os taninos também são conhecidos como antinutrientes. 2.1 Classificação e distribuição De acordo com Kraus et al., (2003), os taninos podem ser classificados em duas categorias: hidrolisáveis ou condensados. Hidrolisáveis São poliésteres de ácidos fenólicos. Apresentam no centro da molécula um carboidrato poliol na sua estrutura e não são abundantes na natureza. Os grupos hidroxila dos carboidratosse encontram parcial ou totalmente esterificados com grupos fenólicos, como o ácido gálico nos galotaninos ou o ácido elágico nos elagitaninos. Os hidrolisáveis por hidrólise ácida liberam ácidos fenólicos como o gálico, cafeico, elágico e açúcar. Esses taninos são abundantes em folhas, frutas e vagens de dicotiledôneas e podem sofrer hidrólise por bases, ácidos e esterases. A hidrólise de ácido tânico (Figura 1) pode acontecer espontaneamente ou pela ação de enzimas e tem como resultado a glicose e o ácido gálico. Condensados Os taninos não hidrolisáveis ou condensados são polímeros dos flavonoides formados predominantemente por unidades de catequina e leucoanto-cianidina unidas através de ligações carbono-carbono, que não susceptíveis de quebra por hidrólise. Como consequência, estas substâncias não são absorvidas pelo trato gastrointestinal. (CORDÃO et al., 2010) 50 Figura 1 - Fórmula estrutural de um tanino simples, o ácido tânico Fonte: StudioMolekuul, shutterstock, 2020. #ParaCegoVer: Podemos ver na estrutura de um tanino simples, com a presença de um núcleo fundamental de glucose e vários resíduos de ácido gálico ligados a eles, que podem ser removidos pela hidrólise ácida. Cordão et al. (2010) mencionam que os taninos condensados são mais difíceis de serem degradados que os hidrolisáveis, podendo ser tóxicos para uma variedade de microrganismos. Paiva et al. (2002) enfatizam que a distribuição maciça de taninos se limita a determinados táxons. Os taninos condensados apresentam um padrão de distribuição mais vasto do que os demais, sendo encontrado em diversas famílias de angiospermas como Anacardiaceae, Annonaceae Apocynaceae, entre outras. Sabe-se que os taninos formam complexos não apenas com proteínas, mas também com celulose, pectina, amido e alcaloides. Em algumas plantas é extremamente difícil extrair quantitativamente os taninos (ZUCKER, 1983). A formação dos taninos hidrolisáveis envolve a rota do ácido chiquímico que é formado pela condensação aldólica de dois metabólitos da glicose, o fosfoenolpiruvato e a eritrose-4-fosfato, que posteriormente são metabolizados em ácido corísmico ou ácido gálico. Os taninos condensados, são formados pela hidroxilação de flavonas, seguida por uma redução (MARCHINI, 2015). 2.2 Identificação e caracterização De acordo com Magalhães et al. (1997), os métodos colorimétricos são os protocolos mais comuns, sensíveis e baratos utilizados para se determinar a presença de taninos. Existe uma 51 grande variedade de métodos utilizados para essa finalidade, a escolha da técnica muitas vezes é baseada na praticidade e no número de amostras a serem avaliadas. Os métodos colorimétricos podem ser divididos em dois grupos básicos, um utiliza reagentes gerais e envolve reações de oxirredução ou formação de complexos metálicos, e aquelas especificas para um grupo funcional específico a uma estrutura em particular dos taninos. A caracterização dos taninos tem sido realizada nos laboratórios de referência utilizando técnicas modernas instrumentais, que incluem ressonância magnética nuclear, espectrometria de massa, espectroscopia no infravermelho e ultravioleta, microextração em fase sólida e a cromatografia. A utilização de uma combinação dessas técnicas tem um grande potencial para ajudar a elucidar a estrutura e a abundância de taninos. Análises que podem ser realizadas em amostras de plantas inteiras têm a vantagem de evitar complicações associadas à extração e purificação (KRAUS et al., 2003). 2.3 Extração Segundo Silva (2001), a extração de taninos é uma etapa que pode ser realizada usando diversos métodos e solventes, as condições dependem das características físico-químicas do tanino a ser extraído. A qualidade e pureza dos taninos extraídos pode variar de acordo com o tipo de extração e parâmetros operacionais, desta maneira as condições de extração devem ser otimizadas. De acordo com Marchini (2015), a solubilidade dos taninos em água, álcool e acetona é explicada pelo fato dos taninos possuírem grupos hidroxilas. Segundo Kraus (2003), a acetona ou o metanol costumam ser usados para extrair taninos do material vegetal, mas uma fração significativa dos taninos, que varia de 5 a 50% não são extraídas utilizando estes reagentes. O método de extração, de secagem, processamento e a trituração da amostra podem levar a perdas do analito. Os recentes avanços nos métodos analíticos têm ajudado os pesquisadores a determinar com mais detalhes de diferentes estruturas e arranjos dos polímeros de taninos. Portanto deve ser realizado um estudo prévio sobre a fórmula estrutural e aspectos físico- químicos de taninos para escolher o solvente ideal e elaborar uma estratégia para a extração. FIQUE DE OLHO Segundo Falcão e Araújo (2011) uma das formas para identificar taninos é efetuar o teste com cloreto férrico, no qual o surgimento de coloração verde-preto identifica taninos condensados e azul-preto caracteriza os taninos hidrolisáveis. 52 2.4 Aplicações farmacológicas Ashok e Upadhyaya (2012) descrevem que os taninos podem ser empregados medicinalmente em compostos antidiarreicos, hemostáticos e anti-hemorroidas. Os efeitos anti-inflamatórios dos taninos ajudam a controlar gastrite, esofagite, enterite e outros distúrbios no intestino. Os taninos interrompem a infecção e auxiliam na recuperação. A capacidade dos taninos de formar uma camada protetora sobre o tecido exposto impede que a ferida seja infectada ainda mais. Suas propriedades antimicrobianas parecem estar associadas à hidrólise da ligação éster entre ácido gálico e polióis hidrolisados, que ocorre durante o amadurecimento de muitos frutos comestíveis. Assim, os taninos dessas frutas servem como um mecanismo de defesa natural contra infecções microbianas. Também foi relatado que os taninos exercem outros efeitos fisiológicos, como acelerar a coagulação sanguínea, reduzir a pressão sanguínea, diminuir o nível lipídico sérico, produzir necrose hepática e modular respostas imunológicas. A dosagem e os tipos de taninos são críticos para esses efeitos (CHUNG, 1998). 3 TERPENOS Terpenos e terpenoides constituem uma classe de produtos naturais com estrutura molecular cicloalifática e aromática. A maioria dos terpenos possui uma estrutura cicloalifática básica com unidade elementar de isopreno. Os terpenoides podem ser considerados terpenos modificados, em que os grupos metil foram movidos ou removidos ou adicionados átomos de oxigênio (WILBON et al., 2013). Sell (2006) descreve que a biossíntese de terpenos ocorre a partir do ácido mevalônico. Eles cumprem uma ampla gama de funções na natureza, incluindo resinas defensivas, feromônios, antioxidantes e proteção ultravioleta. Terpenoides voláteis têm sido empregados pela indústria de aromas e fragrâncias, podendo ser citados geraniol, linalol, citronelol, citral e iononas. Atualmente, o medicamento terpenoide mais conhecido é provavelmente o medicamento anticâncer paclitaxel. FIQUE DE OLHO De acordo com Chung (1998), os taninos apresentam potencial anti-carcinogênico e anti- mutagênico, que podem estar relacionados à sua propriedade antioxidante, importante na proteção dos danos oxidativos celulares, incluindo a peroxidação lipídica. 53 3.1 Aspectos gerais Segundo Felipe e Bicas (2017), quimicamente, os terpenos podem ser descritos como alcenos naturais, pois apresentam uma dupla ligação carbono-carbono, características dos hidrocarbonetos insaturados. Terpenos que contém átomos de oxigênio, são denominados terpenoides e podem apresentar diferentes funções químicas, que incluem ácidos carboxílicos, álcoois, aldeídos, cetonas, éteres, fenóis ou epóxidos terpênicos. De acordo com Sell (2006): 1 Terpenoides são constituídos por unidades repetidas de isopreno; dessa forma, o número de átomos de carbono em qualquer terpenoide será um múltiplo de cinco, embora processos degradativos e outros metabólitos possam afetar isso. 2 Por serem metabólitos secundários,terpenoides individuais podem ser comuns a várias espécies ou podem ser específicas a um organismo. 3 A comparação dos terpenoides produzidos por uma planta dará uma indicação de quais vias metabólicas operam nela e, portanto, pode ser usada para auxiliar na classificação de espécies, um procedimento conhecido como taxonomia química. Os terpenos também podem ser subclassificados em termos do grau de ciclização da molécula, como acíclicos, monocíclicos ou bicíclicos. Os monoterpenos e sesquiterpenos, com estruturas de menor massa molecular, apresentam volatilidade acentuada. Essa última característica tem apresentado grande importância para o aroma dos produtos naturais, particularmente de frutas cítricas, ervas aromáticas, especiarias e condimentos (FELIPE; BICAS, 2017). Os terpenos podem ser classificados pela quantidade de resíduos de isopreno que sua estrutura possui, conforme mostrado na Tabela 1. 54 Tabela 1 - Classificação dos terpenos Fonte: SELL, 2006, p. 15. #ParaCegoVer: A Tabela 1 apresenta a classificação dos terpenos de acordo com o número de átomos de carbono e quantas unidades de isopreno estão presentes em sua estrutura. Terpenos e terpenoides são os constituintes primários dos óleos essenciais de muitos tipos de plantas e flores. Embora o próprio isopreno não tenha sido encontrado na natureza, seus polímeros, hidrocarbonetos terpênicos e seus derivados de oxigênio estão frequentemente presentes em grandes quantidades em diferentes espécies vegetais. A resina produzida pela maioria das plantas é um líquido viscoso, composto principalmente por terpenos voláteis. Na natureza, os terpenos ocorrem predominantemente na forma de hidrocarbonetos, álcoois e seus glicosídeos, éteres, aldeídos, cetonas, ácidos carboxílicos e ésteres. Além da ampla diversidade estrutural, os terpenos também exibem uma ampla gama de ações biológicas (FERREIRA, 2014). Segundo Sell (2006), terpenoides podem ser analisados utilizando diferentes métodos instrumentais. Para os membros voláteis da família, a cromatografia gasosa acoplada a um espectômetro de massa constitui uma ferramenta particularmente útil. Para materiais recém- isolados da natureza, uma técnica de microextração ou cromatográfica acoplada a espectroscopia de ressonância magnética nuclear tem se sido uma das melhores soluções (SELL, 2006). 3.2 Propriedades biológicas e farmacológicas Segundo Ferreira (2014), a grande maioria dos monoterpenos é volátil e são constituintes básicos de óleos essenciais ou essências, como o mentol, linalol e citral, presentes na hortelã. Alguns são precursores de uma classe especial de substâncias, os iridoides. Alguns sesquiterpenos estão presentes em diversos óleos essenciais, como o β-cariofileno. Os diterpenos, em especial aqueles policíclicos com grupamento carboxila, estão presentes em várias resinas, como a de copaíba. Triterpenos são encontrados em certas resinas e desempenham atividades biológicas. Os tetraterpenos ou carotenoides são pigmentos importantes para diversas espécies vegetais, 55 ocorrendo em flores e em frutos, estão presentes no mamão, tomate, cenoura e laranja. De acordo com Souza et al. (2014), mais de 50 mil terpenos e terpenoides tiveram sua estrutura química elucidada e caracterizada, muitos deles classificados por várias unidades de isopreno. Os terpenos foram descritos como tendo atividades biológicas importantes, como analgésico, anticonvulsivante, anti-inflamatória e cardiovascular. Terpenos como o β-cariofileno, citral, α-pineno, citronelal, limoneno e surgiol têm sido estudados quanto ao uso como anti- inflamatórios. Desta forma, os terpenos se apresentam como fonte de matéria-prima para a descoberta inovadora de medicamentos. 4 ESTEROIDES De acordo com Castilla et al. (2009), as plantas podem sintetizar uma grande variedade de esteroides. A esses tipos de moléculas, bem como para esteroides de origem animal, foi atribuída uma função hormonal. Posteriormente, foram isolados numerosos compostos esteroides vegetais estruturalmente relacionados que promovem o crescimento das plantas. Os esteroides vegetais têm apresentado resultados promissores como anti-inflamatório. Os testes in vitro indicam que, apesar de suas diferentes estruturas, todos exercem uma ação inibitória, alterando essencialmente os processos de transcrição e replicação viral. Woyengo et al. (2008) descrevem que os esteroides ou fitoesteróis vegetais são estruturalmente semelhantes ao colesterol e existem de várias formas nas plantas, podendo ser citados como exemplos os β-sitosterol, campesterol, estigmasterol e cicloartenol. Fontes ricas de fitoesteróis incluem leguminosas de grãos, como gergelim, grão de bico, lentilha e ervilha, grãos de cereais como trigo, milho, milho, centeio e cevada, óleos vegetais, incluindo óleo de milho e nozes como nozes, pinho, pistache, amendoim, castanha de caju e amêndoas. 4.1 Aspectos gerais Os fitoesteróis são triterpenoides modificados contendo o sistema tetracíclico do ciclopentanoperidrofenantreno. Os esteroides são encontrados como álcoois, esterificados a ácidos graxos ou como glicosídeos. São constituintes das membranas em plantas, algas e fungos e afetam a sua permeabilidade (QUEIROZ, 2009). Fernandes (2015) enfatiza que foram descritos mais de 200 tipos de esteroides vegetais de diferentes tipos, sendo o mais abundante, o sitosterol seguido pelo campesterol. Os fitoesteróis provêm da fusão de unidades de isopreno e seu esqueleto de hidrocarboneto possui um hidroxil em C3 e geralmente incorpora uma cadeia alifática na posição 17. Os esteroides desempenham pelo menos três funções nas plantas, são componentes de membranas, reguladores de crescimento e precursores na formação de outros esteroides, como saponinas esteroides, 56 cardenólidos e ecdisteroides. Grande número de esteroides encontrados nas plantas está localizado em organelas intracelulares, sugerindo que eles podem interagir com fosfolipídios como estabilizadores de membrana e como reguladores de permeabilidade (LEYVA et al., 2011). Leyva et al. (2011) descrevem que os fitoesteroides apresentam diferentes formas de classificação. Uma delas é realizado de acordo com a substituição de metileno na posição C4, mas o mais comum é a classificação de acordo com a substituição na posição C3. A biossíntese começa com a combinação de duas moléculas de acetilcoenzima A que originam acetoacetilcoenzima A, aos quais uma terceira molécula de acetilcoenzima A é adicionada para obter mevalonato. Este último composto oxida e desidrata, convertendo em pirofosfato de isopentenil, que é o precursor de todos os terpenos. No caso de triterpenos como esteroides, o pirofosfato de isopentenil possui uma série de adições e modificações para produzir esqualeno. 4.2 Características biológicas e farmacológicas De acordo com Fernandes e Cabral (2007), os fitoesteroides são relevantes na produção de esteroides terapêuticos, nutrição, na forma de aditivos anticolesterol em alimentos funcionais, antioxidante e na indústria dos cosméticos, como cremes e batons. Podem ser obtidos a partir de óleos vegetais ou de resíduos industriais, o que lhes confere um valor agregado. Recentemente, esforços consideráveis foram dedicados ao desenvolvimento de processos eficientes para o isolamento de fitoesteroides de fontes naturais. Segundo Queiroz (2009), há evidências de que alguns fitoesteroides são eficazes contra doenças cardiovasculares, reduzindo os níveis de colesterol sendo, por isso, considerados alimentos funcionais e usados atualmente em alguns alimentos industrializados. Utilize o QR Code para assistir ao vídeo: 57 Bradford e Awad (2007) enfatizam que os fitoesteroides são absorvidos da dieta em quantidades pequenas, mas significativas. Dados epidemiológicos sugerem que o conteúdo de fitoesteroides na dieta está associado a uma redução de cânceres comuns, incluindo câncer de cólon, mama e próstata. Os meios pelos quais estes compostos podem alcançaresses efeitos estão se tornando mais claros a partir de estudos moleculares com modelos de pesquisa tumorigênica. Os fitoesteroides afetam os sistemas hospedeiros, possibilitando respostas antitumorais mais robustas, incluindo o aumento do reconhecimento imunológico do câncer, influenciando o crescimento dependente hormonal dos tumores endócrinos e alterando a biossíntese de esteroides. Além disso, os fitoesteroides têm efeitos que inibem diretamente o crescimento do tumor, incluindo a diminuição da progressão do ciclo celular, a indução de apoptose e a inibição da metástase do tumor. 5 SAPONINAS As saponinas são um grupo importante de metabólitos secundários que são comuns em todo o reino das plantas. O nome saponina é derivado do latim sapo, que significa sabão, uma vez que essas moléculas têm propriedades surfactantes e formam espumas estáveis, semelhantes a sabonetes, em solução aquosa. Quimicamente, o termo saponina tornou-se aceito para definir um grupo de moléculas estruturalmente diversas que consiste em esteroides glicosilados, alcaloides esteroides e triterpenoides. Esses metabólitos geralmente ocorrem nas plantas como misturas complexas, e o teor e a composição de saponina podem variar e dependem de fatores genéticos, do tipo de tecido, da idade, do estado fisiológico da planta e de fatores ambientais (HARALAMPIDIS et al., 2002). As saponinas têm sido empregadas para diversas finalidades, desde a produção de fármacos e drogas até aplicações nas indústrias alimentar e cosmética. Por apresentar propriedades surfactantes, são usadas na indústria para preparação de emulsões e cosméticos. São usadas na indústria alimentícia como flavorizante e agente espumante (CASTEJON, 2011). 5.1 Aspectos gerais De acordo com Castejon (2011), saponinas são glicosídeos de esteroides ou de terpenos policíclicos. Apresentam uma estrutura com caráter anfifílico, parte da estrutura com característica lipofílica, geralmente o triterpeno ou esteroide, e outra hidrofílica, referente a açúcares. Essa característica determina a propriedade de redução da tensão superficial da água e suas ações detergentes e emulsificante. As saponinas são classificadas de acordo com o número fundamental da aglicona, bem como pelo seu caráter ácido, básico ou neutro. Assim, quanto à aglicona, denominam-se saponinas esteroidais e saponinas triterpênicas, que podem ser ácidas, básicas ou neutras. 58 Segundo Desai et al. (2009), as saponinas ocorrem em plantas silvestres e culturas tradicionais, as saponinas triterpenoides são geralmente predominantes em culturas tradicionais, enquanto as saponinas esteroides são comuns em plantas silvestres. As fontes conhecidas saponinas são soja, ervilhas e algumas ervas, sendo muitas destas utilizadas para fabricação de produtos que exploram sua propriedade de surfactante (DESAI et al., 2009). Saponinas são conhecidas por formar soluções coloidais em água com espuma por agitação e por precipitar o colesterol, essas propriedades estão correlacionadas com o caráter anfifílico da molécula. Quando as saponinas estão próximas das membranas celulares, sua interação com o colesterol pode criar estruturas que podem levar eventualmente ao rompimento da membrana. A hemólise é um exemplo desse fenômeno (LACAILLE-DUBOIS; WAGNER, 2000) Segundo Castejon (2011), outra forma de classificar as saponinas faz uso do número de cadeias de açúcares ligadas na aglicona. Assim, saponinas monodesmosídicas possuem cadeia de açúcares, enquanto as saponinas bidesmosídicas possuem duas cadeias de açúcares, a maioria com ligação éter na hidroxila em C3. 5.2 Implicações biológicas e aplicações farmacológicas As saponinas desempenham múltiplos efeitos nas células vegetais, animais, nos fungos e bactérias, sendo considerada poderosa substância antimicrobiana, que inibe o mofo e protege as plantas do ataque de insetos. Os principais usos dos medicamentos à base de saponinas na terapia estão relacionados principalmente à antiedematose, antiflogística, veinotônica, expectorante e broncolítica (DESAI, et al., 2009). Utilize o QR Code para assistir ao vídeo: Castejon (2011) enfatiza que a capacidade de ligação das saponinas com esteróis, como o colesterol, tem sido amplamente investigada na medicina humana. Atividades 59 hipocolesterolemiantes têm sido frequentemente relatadas. O mecanismo da ação está associado ao aumento da excreção do colesterol por formação de complexo com as saponinas administradas por via oral, ou pelo aumento da eliminação fecal de ácidos biliares. De acordo com Lacaille-Dubois e Wagner (2000), foi demonstrado que as saponinas, tanto em sistemas de testes experimentais in vitro quanto in vivo, possuem um amplo espectro de atividades biológicas e farmacológicas. Tem sido reportado recentemente resultados promissores em relação às atividades de saponinas, no tratamento de câncer, atividades imunoestimulantes, imunoadjuvantes, anti-hepatotóxicas, antiflogísticas, antialérgicas, moluscicidas, hemolíticas, antifúngicas, antivirais e hipoglicêmicas. Além disso, os efeitos no sistema cardiovascular e no sistema nervoso central têm sido estudados. As saponinas também são importantes componentes para produção de drogas vegetais, destacando-se as tradicionalmente utilizadas expectorantes e diuréticas. Outros empregos destacados incluem adjuvantes para aumentar a absorção de medicamentos e como adjuvante para aumentar a resposta imunológica (CASTEJON, 2011). Utilize o QR Code para assistir ao vídeo: 60 Nesta unidade, você teve a oportunidade de: • Conhecer os principais metabólitos secundários, suas características, distribuição, obtenção e métodos de caracterização. • Identificar diferentes classes de metabólitos secundários, mecanismos de ação e propriedades farmacológicas. • Caracterizar taninos e seus derivados, assim como os terpenos e terpenoides, a nível molecular e discutir diferentes formas de utilização destes produtos naturais. • Aprender sobre os esteroides, sua estrutura, seu papel biológico, propriedades, formas de obtenção e aplicações. • Discutir aspectos importantes sobre as saponinas, sua importância biológica, carac- terísticas estruturais e mecanismos de ação farmacológico. PARA RESUMIR AKULA, R.; RAVISHANKAR, G. A. Influence of abiotic stress signals on secondary metabolites in plants. Plant signaling & behavior, v. 6, n. 11, p. 1720-1731, 2011. ASHOK, P. K.; UPADHYAYA, K. Tannins are astringent. 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(2011), desde os tempos antigos, humanos têm explorado a natureza, particularmente as plantas, em busca de novos medicamentos e produtos para outras finalidades. Isso resultou no estudo e uso de uma grande variedade de plantas, muitas delas com propriedades curativas para tratar várias doenças. Uma parcela representativa da população do mundo depende de medicamentos tradicionais para cuidados básicos de saúde, a maioria dos quais envolve o uso de extratos vegetais. Segundo Wink (2012): • Parasitas externos Podem ser reduzidos ou eliminados mecanicamente. • Parasitas internos Podem ser mais complicados de tratar. Os seres humanos usam plantas medicinais há milhares de anos para tratar distúrbios de saúde comuns. Ainda hoje, muitas infecções causadas por parasitas são frequentemente tratadas por produtos de origem vegetal e metabólitos secundários isolados deles. Evidências circunstanciais sugerem que os chimpanzés, nossos parentes primatas mais próximos, comem seletivamente plantas medicinais quando sofrem de infecções. O estudo das plantas nos dias atuais tem se dedicado principalmente a descoberta de novos metabólitos secundários e seu emprego em diferentes campos. Savithramma et al. (2011) descrevem que frutas adstringentes têm sido utilizadas a muitos anos para uma grande variedade de tratamentos. Estes metabólitos secundários apresentam potencial no tratamento de epilepsia, disenteria, problemas cardíacos, desmaios, constipação por infestação por vermes, hemorragia, diarreia, febre, sede, tumores malignos, úlceras, e muitas outras afecções. 1.1 Fitomedicamentos Segundo Wink (2012), o desenvolvimento de novos medicamentos antiparasitários não tem sido uma prioridade para a indústria farmacêutica, pois muitas das doenças parasitárias ocorrem em países pobres, onde as populações não podem pagar um preço alto pelos medicamentos. Com isso, uso de fitomedicamentos contra doenças parasitárias tem sido uma estratégia para populações mais vulneráveis, se tornando também um assunto de grande importância e relevância para os pesquisadores ao redor do mundo que buscam desenvolver medicamentos 68 para esta finalidade. Utilize o QR Code para assistir ao vídeo: Wink (2012) enfatiza que a busca por extratos de plantas ou metabólitos secundários deles derivados tem sido uma alternativa às drogas sintéticas, sendo considerada prática essencial para povos mais pobres de diferentes regiões do planeta como estratégia terapêutica para uma grande variedade de enfermidades. Segundo Bruning et al. (2012), a fitoterapia e o uso de plantas medicinais constituem um conjunto de saberes de grande importância acumulado por anos por diversas culturas, prática conhecida como medicina popular. Esta prática diminuiu frente ao processo de industrialização nas décadas de 1940 e 1950, além disso, muitas vezes os usuários desconhecem a possível existência de efeitos tóxicos, sem o entendimento correto quanto à sua ação terapêutica, qual a melhor forma de cultivo, como preparar, quais plantas são indicadas e em quais casos são contraindicadas. Savithramma et al. (2011) descrevem que produtos vegetais utilizados como fitomedicamentos podem ser obtidos de diferentes regiões da planta, como casca, folhas, flores, sementes e outras, qualquer parte da planta pode conter componentes ativos. É desejável o conhecimento dos constituintes químicos e biológicos das plantas. Torna-se claro a necessidade de discussões em torno da implementação da fitoterapia nos dias atuais, em especial, juntamente com os órgãos públicos de saúde, visando caracterizar o uso a nível regional e proporcionarmais informação da população sobre os fitomedicamentos. Desta forma a pesquisa sobre metabólitos secundários presentes em plantas, suas formas de obtenção, estudos e caracterização e possíveis aplicações farmacológicas e medicinais desempenham um papel de grande importância e relevância. 69 1.2 Detecção de metabólitos secundários em extratos de plantas Savithramma et al. (2011) descreveram procedimentos simples para verificar a presença de alguns dos principais metabólitos secundários em um extrato bruto de folhas. Para a extração, as folhas foram lavadas cuidadosamente de 2 a 3 vezes com água corrente, o material foi seco ao ar à sombra, após a secagem completa da sombra, o material da planta foi triturado no misturador, o pó foi mantido em pequenos sacos plásticos com etiqueta de papel. Um montante triturado foi diluído em solução aquosa estéril e aquecido a 50-60 °C por 30 minutos em banho-maria e posteriormente filtrado através de papel de filtro. Após centrifugação a 2500 rpm por 15 minutos e o sobrenadante foi armazenado em frascos estéreis a 5 °C para uso posterior. A Tabela 1 apresenta resumidamente o procedimento utilizado para identificar 5 metabólitos diferentes. Tabela 1 - Ensaios qualitativos para avaliar presença de metabólitos secundários Fonte: Savithramma et al., 2011, p. 10. #ParaCegoVer: A tabela contém duas colunas. A da esquerda apresenta o nome de cada um dos cinco metabólitos; e a da direita, o procedimento utilizado para identificar cada um. Métodos qualitativos e quantitativos modernos têm sido empregados para identificar a presença de metabólitos secundários em diferentes amostras biológicas, visando obter novas fontes e novos produtos. Segundo Sakamoto et al. (2018), os métodos que se destacam têm como base a cromatografia e espectroscopia. 70 2 COMPOSTOS CARDIOTÔNICOS NATURAIS De acordo com Souza et al. (2011), doenças do sistema cardiovascular são a principal causa de morte nos países desenvolvidos e em desenvolvimento, causando impactos econômicos e na saúde. Na tentativa de reduzir esses impactos, diversos grupos de pesquisa têm trabalhado visando buscando alternativas terapêuticas para lidar com essas doenças. Neste contexto, produtos derivados de plantas, em especial os óleos essenciais, de algumas plantas tem representado uma importante proposta e alternativa para o tratamento de doenças cardiovasculares. Drogas cardioativas de origem natural possuem em muitas vezes em sua composição glicosídeos cardiotônicos, que são compostos químicos conhecidos por atuar diretamente no miocárdio, sendo tradicionalmente utilizados no tratamento da insuficiência cardíaca congestiva. Quimicamente, as agliconas desse grupo são caracterizadas por um núcleo fundamental e são divididas em dois grupos de acordo com o anel lactônico insaturado, o primeiro são os pentacíclicos, também conhecidos como cardenólidos e o segundo grupo inclui os hexacíclicos, denominados bufadienólidos. Os glicosídeos do grupo cardenólido têm sido considerados como os compostos de grande importância na medicina (ROBBERS et al., 1997). 2.1 Aspectos gerais Os glicosídeos cardiotônicos constituem uma das principais classes de moléculas com atividade cardiovascular comprovada encontrados na natureza. De acordo com Elbaz et al (2012), de forma geral, os glicosídeos cardiotônicos partilham uma estrutura comum que inclui um núcleo esteroide, porções de açúcar de lactona. O núcleo esteroide é muitas vezes considerado a principal fração farmacologicamente ativa da molécula, no entanto o tipo de açúcar tem desempenhado uma função importante, indicando que diferentes açucares possibilitam cardiotônicos de maior potência. Para caracterização desses compostos, podem ser utilizadas reações que evidenciam isoladamente partes da molécula do glicosídeo, que inclui reações de caracterização dos esteroides, como as reações de Pesez e Liebermann, reações relacionadas com o anel lactônico pentacíclico, podendo ser usadas as reações de Baljet e Raymond ou identificação de desoxiaçúcares, podendo ser citadas as reações de Keller-Kiliani e xantidrol (ROBBERS et al., 1997). 2.2 Aspectos farmacológicos A ação farmacológica é observada quando o princípio ativo está sob a forma de glicosídeo, a atividade inata reside nas agliconas, mas os açúcares conferem maior solubilidade e aumentam o poder de fixação dos glicosídeos ao músculo cardíaco. A superdosagem desses compostos é geralmente tóxica, o que torna necessário um rigoroso controle da posologia dos princípios ativos. 71 A droga exibe como efeito a soma da ação dos vários constituintes ativos que são de difícil separação (ROBBERS et al., 1997). De acordo com Yano e Auricchio (2005), os medicamentos cardiotônicos exercem função diretamente sobre as fibras musculares cardíacas, aumentando a força contrátil do coração e consequentemente exercendo ações na excitabilidade, automaticidade, velocidade de condução e períodos refratários do coração. Tem sido similar o índice terapêutico de todos os fármacos cardiotônicos. Além disso, a margem de segurança é pequena, pois a dose terapêutica é apenas 50 a 60% inferior à dose tóxica. Superdoses ou uso prolongado de glicosídeos cardiotônicos levam à intoxicação. As doses tóxicas reduzem perigosamente o ritmo cardíaco, devido a uma ação direta sobre o centro regulador e o tecido condutor, e o coração acaba por parar em sístole. 3 HETEROSÍDEOS CARDIOTÔNICOS Os heterosídeos cardiotônicos são moléculas relacionadas a importantes processos biológicos cardiovasculares. De acordo com Marques et al. (2014), esses compostos são caracterizados estruturalmente por uma saponina triterpênica combinada a um oligossacarídeo e uma aglicona, estas substâncias são conhecidas por sua função cardiovascular e podem ser usadas no tratamento de arritmias e insuficiência cardíaca. Segundo Bagrov et al. (2009), existe uma grande diversidade natural na família química destes esteroides cardiotônicos. Os substituintes e sua orientação estereoquímica, principalmente no esqueleto esteroidal e na porção lactona, podem variar bastante. • A planta mais conhecida que contém esteroides cardíacos é a digitalis, comumente cha- mada de dedaleira, em especial as espécies Digitalis lanata e Digitalis purpúrea. • A palavra digitalis é um termo genérico que se refere a todos os esteroides cardiotônicos. • Várias plantas, mais particularmente as pertencentes às famílias Asclepiadacea, Apocy- naceae, Ranunculaceae e Scrophulariaceae são reconhecidamente por conter esteroides cardiotônicos. • Os esteroides cardiotônicos também podem ser encontrados em espécies animais e outros organismos. 3.1 Aspectos gerais Heterosídeos cardíacos ou cardiotônicos são componentes ativos que podem ser obtidos de algumas espécies de plantas, trata-se de substâncias esteroidais com esqueleto carbônico característico com unidades de açucares ligados. Através da hidrólise ácida destes heterosídeos, podem ser obtidos 3 tipos principais de algiconas, todas apresentam núcleo esteroidal do tipo ciclopentanto peridrofenantreno. O anel lactônico insaturado é formado por 5 membros e está 72 ligado ao carbono 17 (COSTA, 2008). Rodrigues e Almeida (2010) descrevem que uma grande variedade de métodos qualitativos pode ser usada para identificar os heterosídeos cardiotônicos, concentrando-se nas reações Liebermann-Buchard para identificar o núcleo esteroidal, a reação de Baljet e Kedde para o anel lactônico pentagonal, enquanto que a reação de Keller-Kiliani pode ser utilizada para identificar a porção osídica. Costa (2008) enfatiza que mais de 30 glicosídeos cardiotônicos já foram isolados das folhas de D. purpúrea e D. lanata, incluindo a digoxina e a digitoxina, que são considerados os principais cardiotônicos. Essas substâncias têm sido amplamente obtidas por extração das folhas, sendo observado constantemente melhorias no cultivo e manejo, além do aprimoramento genético, com o objetivo de aumentar seu rendimento.Segundo Wiegrebe e Wichtl (1999), os processos de extração, pré-concentração e caracterização dos heterosídeos cardiotônicos pode ser feita por uma variedade de técnicas. A extração tem sido feita por misturas alcoólicas aquosas, em especial o metanol, a extração por fase sólida tem sido utilizada como procedimento preliminar que precede a análise em cromatografia líquida de alta eficiência acoplada a um detector espectroscópico. Técnicas instrumentais como espectroscopia de ressonância magnética possibilitam caracterizar a estrutura do cardiotônico previamente purificado. Posteriormente, podem ser realizadas investigações quanto conformação, mecanismos de ação e modelagens para sua utilização para diferentes propósitos. 3.2 Mecanismos biológicos e propriedades farmacológicas De acordo com Hauptman e Kelly (1999), a maioria dos esteroides cardioativos compartilham a propriedade de serem potentes inibidores e altamente específicos da proteína adenosina trifosfatase de sódio e potássio (Na+/K+ ATPase), intrínseca da membrana celular. Acredita-se que glicosídeos cardíacos obtidos de folhas da Digitalis possuem efeitos inotrópicos positivos, isso permite que o cálcio se acumule nos miócitos, levando ao aumento da contratilidade cardíaca (BIACHI, 2017). FIQUE DE OLHO De acordo com Oliveira (2010), ao utilizar o reagente de Kedde e posterior aquecimento a 100° C por 5 minutos, o aparecimento de manchas de coloração rósea ou azul-violácea indicam a presença de heterosídeos cardiotônicos. 73 Segundo Mijatovic et al. (2007), os heterosideos cardiotônicos são abundantes na natureza, se apresentam em uma ampla diversidade de estruturas, apresentando potencial para modificação química e amplo uso em cardiologia para o tratamento da insuficiência cardíaca. Dados epidemiológicos, juntamente com relatórios baseados em demonstração in vitro e in vivo tem demonstrado a possibilidade de utilizar essa classe de compostos também como agentes antitumorais. No entanto, devido à sua estreita janela terapêutica, muitos destes trabalhos devem ser realizados até que seja estabelecido uma quantidade segura para sua aplicação em drogas anticâncer e para outras finalidades. 4 ANTRAQUINONAS As antraquinonas são um grupo de produtos químicos funcionalmente diversos, estruturalmente relacionados ao antraceno. As antraquinonas naturais e sintéticas têm aplicações amplamente difundidas na indústria e na medicina. Devido à estreita semelhança na estrutura entre as antraquinonas e o análogo tóxico, o antraceno, existe uma preocupação com os possíveis danos que esses compostos podem produzir (SENDELBACH, 1989). De acordo com Seigler (2012), derivados antraquinônicos constituem o maior grupo de quinonas naturais. As antraquinonas também constituem o maior grupo de pigmentos naturais com cerca de 700 compostos descritos. Grande parte deles são obtidos a partir de plantas com flores, enquanto o restante é produzido por líquenes e fungos. As antraquinonas podem ser encontradas em todas as partes das plantas, incluindo raízes, rizomas, frutas, flores e folhas. 4.1 Aspectos gerais As antraquinonas podem ser caracterizadas como substâncias aromáticas fenólicas. A maioria desses compostos são formados pela estrutura básica de 9,10-antracenodiona, um composto orgânico aromático tricíclico com a fórmula C14H8O2. A presença de hidroxilas ou de outras funções químicas nos anéis aromáticos induzem variação da cor do pigmento e de suas propriedades físico-químicas. A Figura 1 apresenta a fórmula estrutural de uma molécula de antraquinona básica. 74 Figura 1 - Fórmula estrutural da molécula de antraquinona básica Fonte: Chromatos, shutterstock, 2020. #ParaCegoVer: A Figura 1 apresenta a fórmula estrutural de uma molécula de antraquinona, observa-se a presença de dois grupamentos cetona na cadeia central e dois anéis aromáticos. Antraquinonas são geralmente encontradas em plantas e bactérias. Apresentam atividades antifúngicas, antibacterianas e laxativas, com isso, essas substâncias têm sido amplamente utilizadas na indústria farmacêutica (ARAGÃO, 2019). De acordo com Seigler (2012), muitas antraquinonas são especialmente comuns nas famílias Fabaceae (Cassia), Liliaceae (Aloe), Poligonaceae (Rheum, Rumex), Rhamnáceae (Rhamnus), Rubiaceae (Asperula) e Scrophulariaceae (Digitalis). Segundo Seigler (2012), as antraquinonas glicosiladas também estão presentes na planta, por exemplo nos rizomas, para favorecer seu acúmulo e armazenamento na planta, mas são posteriormente hidrolisadas e decompostas por glucosidases ou processos oxidativos. Alguns estudos relatam a presença de antraquinonas não glicosiladas em sementes variadas. De acordo com Duval et al. (2016), uma grande variedade de métodos de extração e análise podem ser usados para obtenção e estudo de antraquinonas em amostras biológicas, as técnicas extração assistida por ultrassom, micro-ondas e fluido pressurizado em especial constituem metodologias suficientes para realizar os estudos em uma etapa inicial. Posteriormente, o uso de técnicas cromatográficas e espectroscópicas fornecerá importante informação para análises e estudos de seus mecanismos. 75 Os parâmetros utilizados na extração devem ser otimizados, abordagens modernas possibilitaram aumentar a eficiência e reduzir o tempo e consumo de solvente. Estudos realizados por Duval et al. (2016) verificaram um conjunto de plantas quanto a presença de antraquinona utilizando métodos modernos de análise, as plantas contendo derivados de antraquinona eram principalmente de três famílias, nomeadamente Polygonaceae, Rubiaceae e Fabaceae. Os compostos moleculares mais abundantes derivados de antraquinonas encontrados em plantas incluem rhein, aloe emodin, emodin, physcion, crisopanol. As antraquinonas têm substituído os corantes sintéticos para a formulação de produtos de interesse pelas indústrias. 4.2 Mecanismos biológico e aplicações farmacêuticas Segundo Aragão (2019), a emodina é uma antraquinona caracterizada por ação laxante e tratamentos farmacológicos, o mecanismo de ação laxativo da emodina ocorre pela clivagem da emodina glicosídica pelas bactérias presentes no intestino, liberando emodina que pode reagir direta ou indiretamente com componentes de células epiteliais do cólon, levando as células musculares lisas a se contrair. Apesar de estar associada a atividades benéficas, alguns estudos têm demonstrado que as antraquinonas também podem apresentar atividades mutagênicas. Duval et al. (2016) enfatizam que estão disponíveis na literatura numerosos relatos do uso de antraquinonas naturais para um amplo espectro de aplicações farmacêuticas, estes compostos tem se destacado por suas atividades anticancerígenas, anti-inflamatórias, imunossupressoras, antimicrobianas, diuréticas, catárticas, laxantes, vasorrelaxantes, antioxidantes e fitoestrogenadas. Além disso, as antraquinonas também desempenham um papel importante na cadeia de transporte eletrônico em processos associados ao metabolismo primário. A presença de antraquinonas pode limitar a eficiência fotossintética. Os derivados de antraquinona podem ser preparados pela adição de uma grande variedade de compostos funcionais à sua estrutura, possibilitando desenvolver estruturas químicas com características específicas. A presença de grupamentos amino, nitro em antraquinonas foi estudada por Sendelbach (1989), buscando avaliar a relação entre a estrutura química dos compostos e uma resposta tóxica ou carcinogênica. A adição de um grupo amino ao anel de antraquinona produziu consistentemente lesões renais em ratos. No entanto, a substituição do grupo amino por um grupo metilamino pareceu aliviar a toxicidade. Embora um número limitado de estudos tenha sido relatado com a substituição nitro, a adição de um grupo nitro produziu consistentemente tumores em animais experimentais. Um grande conjunto de evidências sugere que os grupos laterais fenólicos são relativamente não tóxicos em animaisde laboratório. 76 Utilize o QR Code para assistir ao vídeo: 5 HETEROSÍDEOS CIANOGÊNICOS Segundo Francisco e Pinotti (2000), os heterosídeos cianogênicos são amplamente distribuídos entre diferentes famílias de plantas com flores. Eles também são encontrados em algumas espécies de samambaias, fungos e bactérias. Existem muitos produtos naturais economicamente importantes que são altamente cianogênicos, incluindo trevo branco, linum, amêndoa, sorgo, seringueira e mandioca. É comum encontrar plantas cianogênicas e acianogênicas dentro da mesma espécie, onde a função da cianogênese é revelada por suas características fenotípicas. A cianogênese pode não ser usada especificadamente para a sobrevivência das plantas, mas pode estar envolvida nos mecanismos de defesa e participa de processos metabólicos e excretores. Muitas plantas sintetizam glicosídeos cianogênicos, que são capazes de liberar ácido cianídrico em solução após hidrolise e decomposições. Segundo Chaouali et al. (2013), essa habilidade, conhecida como cianogênese, é reconhecida há séculos em plantas como damascos, pêssegos, amêndoas e outras plantas importantes para alimentos. Existem pelo menos 2650 espécies de plantas que produzem cianoglicósidos. Uma vez maceradas as partes comestíveis das plantas, a enzima intracelular catabólica glucosidase é liberada e entra em contato com os glicosídeos cianogênicos, promovendo sua hidrolise, que produzir cianeto de hidrogênio, glicose, cetonas ou benzaldeído. Grande número de pessoas é exposto diariamente a baixas concentrações de compostos cianogênicos em muitos alimentos, e esta exposição pode implicar um risco para a saúde humana. 77 A cada ano, têm sido reportadas novas vítimas humanas e outros animais pela intoxicação ocasional generalizada decorrente do consumo de plantas cianogênicas. A maioria dos casos de intoxicação por cianeto é causada pelo consumo de plantas membras da família Rosaceae, Euphorbiaceae, Fabaceae e Gramineae. Os íons cianeto liberados inibem a respiração celular de todos os organismos aeróbicos, bloqueando o transporte de elétrons mitocondriais e impedindo a captação de oxigênio. A alta exposição a esse potente agente tóxico em humanos pode causar náusea, vômito, diarreia, tontura, fraqueza, confusão mental e convulsões seguidas de coma terminal e morte (CHAOUALI et al., 2013). 5.1 Aspectos gerais Os heterosídeos cianogênicos são metabólitos secundários derivados de aminoácidos de plantas. Apesar da grande diversidade estrutural nos heterosídeos cianogênicos, acredita-se que quase todos sejam derivados de apenas seis aminoácidos diferentes, nomeadamente a L-valina, L-isoleucina, L-leucina, L-fenilalanina ou L-tirosina e ciclopentenil-glicina. Diferentes tipos de heterosídeos cianogênicos podem ser encontrados em diferentes plantas alimentares cianogênicas, por exemplo, taxifilina em brotos de bambu e linamarina na mandioca. Várias plantas comerciais, como sorgo, maçã, amêndoa e cevada são consideradas cianogênicas e acumulam quantidades significativas de heterosídeos cianogênicos, geralmente, a produção desses compostos depende da idade, espécie e de fatores ambientais (BOLARINWA et al. 2016). Chaouali et al. (2013) enfatizam que sob condições ambientais normais, muitas plantas sintetizam glicosídeos cianogênicos capazes de liberar ácido cianídrico após a hidrólise. Segundo Bolarinwa et al. (2016), glicosídeos cianogênicos são toxinas naturais das plantas que estão presentes em diferentes espécies e diferentes regiões da planta, muitas delas são consumidas direta ou indiretamente por seres humanos. A exposição ao cianeto pelo consumo não intencional ou intencional de glicosídeos cianogênicos pode levar a intoxicações agudas, caracterizadas por sintomas neurológicos resultantes de dano tecidual no sistema nervoso central. 5.2 Mecanismos biológicos De acordo com Francisco e Pinotti (2000), a cianogênese consiste na capacidade de algumas plantas de sintetizar heterosídeos cianogênicos que, quando hidrolisados enzimaticamente, liberam ácido cianídrico. Na maioria dos casos, a hidrólise é realizada pela glucosidase, produzindo açúcares e uma cianoidrina que se decompõe espontaneamente em ácido cianídrico, gerando FIQUE DE OLHO Os compostos cianogênicos podem ser encontrados em baixas quantidades em produtos normalmente consumidos pela população. De acordo com Ballhorn, eles são encontrados nas amêndoas, castanhas, nozes de macadâmia e linhaça. 78 uma cetona ou aldeído. Outra rota sintética para produção de ácido cianídrico pode envolver catalise da enzima hidroxinitrilaliase, que é difundida em plantas cianogênicas. Na planta intacta, a enzima e o glicósido cianogênico permanecem separados, mas se o tecido da planta é danificado, ambos são colocados em contato e o ácido cianídrico é produzido. Este ácido é extremamente tóxico para um amplo espectro de organismos, devido à sua capacidade de se ligar fortemente a metais, como Fe2+, Mn2+ e Cu2+, que são grupos funcionais e centros ativos de muitas enzimas, além de inibir processos oxidativos na cadeia respiratória do citocromo, transporte de elétrons na fotossíntese e na atividade de enzimas como catalase e oxidase. O consumo de plantas cianogênicas inadequadamente processadas pode levar a problemas de saúde crônicos e agudos. A compreensão dos métodos de processamento apropriados para plantas cianogênicas específicas ajudará a reduzir o problema da toxicidade não intencional do cianeto. Da mesma forma, para evitar efeitos adversos dos glicosídeos cianogênicos nas plantas alimentícias, os consumidores devem preparar os alimentos adequadamente antes do consumo. Recomenda-se que as plantas cianogênicas sejam cortadas em pedaços menores e cozinhe bem para liberar cianeto de hidrogênio tóxico antes do consumo, a fim de reduzir o nível da toxina (BOLARINWA et al., 2016). Revisões sobre os efeitos da cianogênese na saúde humana demonstram que essa é uma área de controvérsia científica. Existem diferenças na sensibilidade a doses letais em diferentes espécies animais, bem como no grau de produção de ácido cianídrico. Os efeitos da ingestão de glicosídeos cianogênicos incluem intoxicação aguda, desordens neurológicas, bócio endêmico, diabetes tropical e malformações congênitas (LOPES, 2001). De acordo com Amorim et al (2006), as plantas cianogênicas podem causar encefalopatias, além disso estão relacionadas a mecanismos de hepatotoxicidade e nefrotoxicidade. 5.3 Extração e caracterização Vários métodos analíticos são empregados para o estudar os heterosídeos cianogênicos. De acordo com Gleadow et al. (2011), estes compostos podem ser analisados direta ou indiretamente. Os métodos diretos incluem extração e separação usando cromatografia líquida de alta eficiencia seguida por espectroscopia de massa espextroscopia de ressonância magnética. Os métodos indiretos envolvem estudos sobre a degradação do glicosídeo cianogênico e, em seguida, a análise dos produtos degradativos, como o cianeto ou resíduo de açúcar. Segundo Gleadow et al. (2011), glicosídeos cianogênicos podem ser extraídos de produtos vegetais por aquecimento em solução contendo 85% de metanol. A ebulição garante a desnaturação das β-glucosidases, que evitam a degradação dos glicosídeos cianogênicos. O metanol aquoso facilita a desnaturação das proteínas, a ruptura da parede celular e garante a solubilidade dos glicosídeos. O procedimento pode ser usado com tecidos frescos e secos, e os extratos podem ser usados para medições quantitativas ou para purificação de compostos 79 cianogênicos. A análise pode ser realizada de forma quantitativa, onde são detectados os teores de cianogênicos nas amostras ou qualitativamente, usando papéis de teste ou reações e reagentes específicos, como por exemplo a reação de Feigl Anger. Utilize o QR Code para assistir ao vídeo: 80 Nesta unidade, você teve a oportunidade de: • conhecer alguns dos principais metabólitos secundários obtidosde plantas com aplicações em farmacologia e na indústria farmacêutica. • aprender diferentes metodologias para identificar e caracterizar compostos de ação farmacológica produzidos por plantas. • entender a importância da fitoterapia e seu emprego nos dias atuais, desde a obtenção de compostos de interesse farmacológico a sua utilização na medicina popular. • conhecer os principais compostos cardiotônicos e cianogênicos de origem natural, seu emprego, caracterização, obtenção, mecanismos de ação e toxicidade. • aprender importantes características das antraquinonas, características gerais, distribuição, funções, isolamento e purificação, mecanismos e aplicações farmacológicas. PARA RESUMIR AMORIM, S. L.; MEDEIROS, R. M. T.; RIET-CORREA, F. Intoxicações por plantas cianogênicas no Brasil. Ciência Animal, v. 16, n. 1, p. 17-26, 2006. 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Após a leitura da obra, o leitor vai saber os fundamentos da farmacognosia e sua importância (incluindo uma grande variedade de compostos naturais e suas aplicações); discutir as diferentes técnicas e métodos de extração, seus aspectos gerais e as vantagens e desvantagens associadas a cada técnica; identificar os objetivos da fitoquímica e conhecer os principais compostos obtidos a partir de espécies vegetais que apresentam importância farmacêutica e industrial; aprender sobre flavonoides, sua caracterização, métodos de extração, estrutura química, aplicações e propriedades; caracterizar taninos e seus derivados e discutir diferentes formas de utilização destes produtos naturais; dominar aspectos importantes sobre as saponinas, sua importância biológica, características estruturais e mecanismos de ação farmacológico; entender a importância da fitoterapia e seu emprego nos dias atuais, desde a obtenção de compostos de interesse farmacológico a sua utilização na medicina popular; conhecer os principais compostos cardiotônicos e cianogênicos de origem natural, seu emprego, caracterização, obtenção, mecanismos de ação e toxicidade, e muito mais. Aproveite a leitura do livro. Bons estudos! Capa E-Book_Farmacognosia Pura_CENGAGE_V2 E-Book Completo_Farmacognosia Pura_CENGAGE_V2