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EXMO. SR. JUIZ DE DIREITO DA 1ª VARA DO TRIBUNAL DO JÚRI DA COMARCA DE PORTO SEGURO/BA COMARCA DE PORTO SEGURO/BA Brutus, devidamente qualificado nos autos em epígrafe, por intermédio de seu advogado constituído, conforme procuração em anexo, vem, respeitosamente à presença de Vossa Excelência, apresentar PEDIDO DE REVOGAÇÃO DE PRISÃO PREVENTIVA Com fundamento no artigo 316 do Código de Processo Penal, pelos motivos de fato e de direito a seguir expostos. 1. DOS FATOS: Na audiência de custódia, realizada dentro do prazo legal, o acusado mencionou que os policiais militares entraram em sua residência sem sua autorização, tendo os policias o espancado e asfixiado, de forma a confessar o crime, o que fora comprovado pelo exame de corpo de delito. Cumpre salientar que o membro do Ministério Público, ao observar que Brutus tinha uma extensa ficha criminal, bem como pelos crimes que foram flagrados no momento de sua prisão em flagrante, requereu a conversão em prisão preventiva, uma vez que o acusado teria praticado crime hediondo, consistente no delito do art. 121, §2º, II (motivo fútil) e VIII (emprego de arma de fogo de uso estrito), do Código Penal, por duas vezes (duas vítimas), combinado com o crime do art. 16,caput (porte ilegal de arma de fogo de uso restrito), da Lei nº10.826/03, por duas vezes (fuzil e pistola 9 mm), e art. 33, caput (tráfico de drogas), da Lei nº 11.343/06, todos em concurso material de crimes, na forma do art. 69 do Código Penal, destacando que não era possível a concessão de liberdade provisória com fiança, pois a Lei nº 8.072/90, art. 2º, II, veda tal benefício legal. Não obstante, o Promotor de Justiça desacreditou que os policiais teriam espancado e asfixiado o acusado, bem como que os crimes praticados foram comprovados pela entrada em sua residência, sendo dispensável o consentimento do morador nessas situações de permanência do delito. A Defesa solicitou o relaxamento da prisão ilegal, argumentando que a detenção foi ilícita e irregular, pois os policiais militares cometeram crime de tortura e invadiram o domicílio do acusado. Além disso, foi ressaltado que os requisitos para a decretação da prisão preventiva não estavam presentes. Todavia, o Magistrado com atuação na audiência de custódia entendeu por bem decretar a prisão preventiva com base nos seguintes fundamentos: “Decido que o crime de tortura não foi claramente comprovado, devendo ser investigado em via própria; a invasão de domicílio feita pelos policiais é justificável, pois estava ali sendo praticado um crime hediondo, constituindo a ausência de consentimento mera irregularidade. Por isso, decreto a prisão preventiva com base na garantia da ordem pública, bem como pela hediondez dos delitos”. Dessa forma, o réu, nesse momento, encontra-se preso preventivamente na cidade de Porto Seguro/BA. É importante destacar que, até o momento, após 200 dias, não foi anexado o laudo preliminar das substâncias entorpecentes apreendidas, nem o relatório de eficiência e funcionamento das armas de fogo confiscadas. Os autos encontram-se sob a responsabilidade do Ministério Público para o oferecimento da denúncia, porém as diligências mencionadas ainda estão pendentes. Assim, vem requerer a liberdade do acusado, de acordo com os fundamentos a seguir expostos. 2. DOS FUNDAMENTOS: O Requerente pugna pela sua liberdade para que possa responder adequadamente ao processo, pela aplicabilidade do Princípio da Presunção de Inocência, até que se esgotem todos os recursos da ampla defesa e contraditório, onde a prisão cautelar é uma exceção. De início, deve ser alertado para o mandamento constitucional de que ninguém deve ser considerado culpado, senão depois do trânsito em julgado de uma sentença condenatória, com base no art. 5º, LVII, da CF, assim disposto: “Ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória”. De acordo com a Lei nº 12.403/2011, as prisões cautelares são a última ratio, ou seja, deve ser o ultimato final de todas as medidas cautelares disponíveis em nosso ordenamento jurídico. Art. 282. As medidas cautelares previstas neste Título deverão ser aplicadas observando-se a: I - Necessidade para aplicação da lei penal, para a investigação ou a instrução criminal e, nos casos expressamente previstos, para evitar a prática de infrações penais; II - Adequação da medida à gravidade do crime, circunstâncias do fato e condições pessoais do indiciado ou acusado. (...) § 6º A prisão preventiva será determinada quando não for cabível a sua substituição por outra medida cautelar (art. 319). (Grifo nosso) Art. 321. Ausentes os requisitos que autorizam a decretação da prisão preventiva, o juiz deverá conceder liberdade provisória, impondo, se for o caso, as medidas cautelares previstas no art. 319 deste Código e observados os critérios constantes do art. 282 deste Código. (Grifo Nosso) Ora, não é diferente a visão doutrinária acerca dessa matéria, sendo que a prisão preventiva deve ser decretada quando houver a existência de periculum libertatis e fumus comissi delicti, como bem preleciona o Professor Avena, in verbis: Como qualquer medida cautelar, a preventiva pressupõe a existência de periculum in mora (ou periculum libertatis) e fumus boni iuris (ou fumus comissi delicti), o primeiro significando o risco de que a liberdade do agente venha a causar prejuízo à segurança social, à eficácia das investigações policiais/apuração criminal e à execução de eventual sentença condenatória, e o segundo, consubstanciado na possibilidade de que tenha ele praticado uma infração penal, em face dos indícios de autoria e da prova da existência do crime verificados no caso concreto. (Avena, 2020, p. 1054). Na sistemática do Código de Processo Penal, mister se faz a conjugação clara de seus pressupostos legais (prova da existência do crime, indícios suficientes de autoria e perigo gerado pelo estado de liberdade do acusado) e de um dos requisitos também inseridos no citado art. 312 do CPP, tais como garantia da ordem pública, da ordem econômica, por conveniência da instrução criminal ou para assegurar a aplicação da lei penal. PA Como novidade inserida pelo Pacote Anticrime, tem-se a expressão “perigo gerado pelo estado de liberdade do acusado”. Esse pressuposto denota que a liberdade do acusado possa comprometer a segurança da sociedade, o que ocorre em casos de pessoas com alto grau de periculosidade, por exemplo, líderes de facções criminosas. Tal situação deve ser cabalmente comprovada com elementos concretos dos autos, não bastando a simples alegação de que ele é perigoso e, por isso, deve ficar recolhido. De forma a tornar clara a questão acerca da novidade legal inserta pela expressão “perigo gerado pelo estado de liberdade do acusado”, destaca-se o escólio na já citada obra OAB Esquematizado, nesses termos: Percebe-se que o intuito do legislador foi positivar uma situação que os Juízes comumente utilizavam como “garantia da ordem pública” para justificar a prisão preventiva de pessoas consideradas perigosas. Com a nova redação, acaba-se a celeuma jurídica, e os casos de acusados considerados socialmente perigosos poderão ser encaixados na parte final do artigo em comento. (Gonzaga, 2022, p. 675). DA INEXISTÊNCIA DOS REQUISITOS DO ART. 312 DO CPP Nesse contexto, o Código de Processo Penal prevê medidas que garantam o regular desenvolvimento do processo com a presença do acusado, sem necessidade de sacrificar sua liberdade, reservando a prisão cautelar apenas para situações de absoluta imprescindibilidade. Passa-se, então, à análise da ausência do requisito que justifica a prisão cautelar, conforme disposto no artigo 312 do Código de Processo Penal. O art. 312 do CPP demonstra os requisitos necessários para a realização da prisão preventiva. Nesses termos: Art. 312. A prisão preventiva poderá ser decretada como garantia da ordem pública, da ordem econômica, por conveniência da instrução criminal ou para assegurar a aplicação da lei penal, quando houver prova da existência do crime e indíciosuficiente de autoria e de perigo gerado pelo estado de liberdade do imputado. Ainda no contexto do primeiro requisito, que consiste na garantia da ordem pública, a doutrina majoritária faz críticas a esse fundamento que autoriza a medida cautelar, visto que o conceito dessa expressão é bastante amplo. Para alguns doutrinadores, como Leonardo Barreto Moreira Alves (2019, p. 117); “ Violam a ordem pública: aqueles que afetam a credibilidade do judiciário; os que contam com a divulgação pela mídia (não confundir com sensacionalismo, clamor público); Os crimes cometidos com violência ou grave ameaça ou com outra forma de execução cruel; se o agente delitivo possui longa ficha de antecedentes etc.”. É imprescindível que a fundamentação se baseie em elementos concretos contidos nos autos, demonstrando de forma exaustiva que a liberdade do indivíduo representa uma ameaça à ordem pública. A simples imputação de aspectos abstratos, como a natureza hedionda do delito ou a gravidade genérica do crime, não é suficiente. Esse é o entendimento consolidado pelo Superior Tribunal de Justiça. HABEAS CORPUS. TRÁFICO DE DROGAS. CONVERSÃO DA PRISÃO EM FLAGRANTE EM CUSTÓDIA PREVENTIVA. MOTIVAÇÃO INSUFICIENTE. PERICULUM LIBERTATIS NÃO EVIDENCIADO. ORDEM CONCEDIDA. 1. A prisão preventiva é compatível com a presunção de não culpabilidade do acusado desde que não assuma natureza de antecipação da pena e não decorra, automaticamente, do caráter abstrato do crime ou do ato processual praticado (art. 313, § 2º, CPP). Além disso, a decisão judicial deve apoiar-se em motivos e fundamentos concretos, relativos a fatos novos ou contemporâneos, dos quais se possa extrair o perigo que a liberdade plena do investigado ou réu representa para os meios ou os fins do processo penal (arts. 312 e 315 do CPP). 2. Não foram indicados, pelo Juízo singular, elementos idôneos para convolar a prisão em flagrante em custódia provisória, uma vez que se limitou a afirmar a gravidade abstrata e a hediondez do delito imputado à acusada. 3. A simples leitura do decisum combatido permite verificar que ficou consignado que a droga apreendida pertencia à irmã da paciente - fato admitido pelas duas autuadas, ao prestarem depoimento em âmbito policial. 4. Ordem concedida para confirmar a liminar tornar sem efeito a decisão que converteu a prisão em flagrante do acusado em custódia preventiva, ressalvada a possibilidade de nova decretação da medida caso efetivamente demonstrada a sua necessidade, sem prejuízo de fixação de cautelar alternativa, nos termos do art. 319 do CPP (HC 597376 / SP, STJ). DO DESCUMPRIMENTO DO MANDAMENTO LEGAL PREVISTO NO ART. 316 DO CPP Saliento mais a observação relevante para fins de análise da prisão preventiva é a regra inscrita no art. 316 do CPP, determinando-se ao juiz a necessidade de revisão da prisão preventiva decretada após o decurso do prazo de 90 dias, sob pena de ela ser classificada como ilegal, nesses termos: Art. 316. O juiz poderá, de ofício ou a pedido das partes, revogar a prisão preventiva se, no correr da investigação ou do processo, verificar a falta de motivo para que ela subsista, bem como novamente decretá-la, se sobrevierem razões que a justifiquem. (Redação dada pela Lei nº 13.964, de 2019) Parágrafo único. Decretada a prisão preventiva, deverá o órgão emissor da decisão revisar a necessidade de sua manutenção a cada 90 (noventa) dias, mediante decisão fundamentada, de ofício, sob pena de tornar a prisão ilegal. Trata-se de regra importante para que não persistam as famigeradas prisões sem prazo, em que o acusado permanecia preso à totalidade da persecução penal sem qualquer fundamentação robusta, não havendo, ainda, nenhuma revisão do decreto prisional. Com a novel modificação legal, o juiz que decretou a prisão preventiva deverá atentar-se, após o prazo de 90 dias, para a necessidade ou não de sua manutenção, conforme exposto no livro OAB Esquematizado, in verbis: Impor ao Requerente o cumprimento antecipado de uma pena equivale a ignorar os princípios fundamentais que orientam o ordenamento jurídico, especialmente no que tange à presunção de inocência e à dignidade da pessoa humana. É necessário considerar que outros acusados de envolvimento no crime encontram-se em liberdade, não sendo justificável que o Requerente, cuja participação no delito foi menor, seja mantido em custódia durante o andamento do processo. No que concerne à conveniência da instrução criminal, o Requerente não tem a intenção, tampouco irá, de qualquer forma, perturbar ou dificultar a busca da verdade real no andamento do processo. Não há, nos autos, quaisquer indícios que sustentem o entendimento contrário, conforme já reconhecido por este Juízo em sua decisão. Além disso, o Requerente está plenamente ciente de que a instrução criminal é o meio adequado para o exercício dos direitos constitucionais ao contraditório e à ampla defesa, bem como para demonstrar sua inocência. Assim, não se pode presumir que ele agirá contra o único mecanismo que lhe permite exercer sua defesa. DA APLICAÇÃO DE MEDIDAS CAUTELARES DIVERSAS DA PRISÃO – ART. 319 DO CPP No que se refere à aplicação da lei penal, cujo objetivo é garantir a finalidade útil do processo – assegurar ao Estado o exercício do jus puniendi, aplicando a sanção ao autor de uma infração penal, também não se verifica a necessidade de manutenção da prisão. Portanto, é perfeitamente viável a imposição de medidas cautelares diversas da prisão previstas no artigo 319 do Código de Processo Penal: Art. 319. São medidas cautelares diversas da prisão: I - comparecimento periódico em juízo, no prazo e nas condições fixadas pelo juiz, para informar e justificar atividades; II - proibição de acesso ou frequência a determinados lugares quando, por circunstâncias relacionadas ao fato, deva o indiciado ou acusado permanecer distante desses locais para evitar o risco de novas infrações; III - proibição de manter contato com pessoa determinada quando, por circunstâncias relacionadas ao fato, deva o indiciado ou acusado dela permanecer distante; IV - proibição de ausentar-se da Comarca quando a permanência seja conveniente ou necessária para a investigação ou instrução; V - recolhimento domiciliar no período noturno e nos dias de folga quando o investigado ou acusado tenha residência e trabalho fixos; VI - suspensão do exercício de função pública ou de atividade de natureza econômica ou financeira quando houver justo receio de sua utilização para a prática de infrações penais; VII - internação provisória do acusado nas hipóteses de crimes praticados com violência ou grave ameaça, quando os peritos concluírem ser inimputável ou semi-imputável (art. 26 do Código Penal) e houver risco de reiteração; VIII - fiança, nas infrações que a admitem, para assegurar o comparecimento a atos do processo, evitar a obstrução do seu andamento ou em caso de resistência injustificada à ordem judicial; IX - monitoração eletrônica. Portanto, a liberdade poderá ser concedida ao Requerente, decretando, subsidiariamente, as medidas cautelares diversas da prisão, conforme preconiza os artigos 319 e 320 ambos do Código de Processo Penal, isto porque, as suas circunstâncias e condições pessoais dão ensejo a aplicação de tais medidas. DA INEXISTÊNCIA DE LAUDO PERICIAL Quando há necessidade de perícia em arma de fogo e em drogas, o mandamento legal é imperioso no sentido de ser realizada a perícia para fins de constatar a prestabilidade da arma de fogo e que o material apreendido de fato constitui droga. Nesse espeque, cita-se o art. 158 do Código de Processo Penal, que assim elucida a questão: Art. 158. Quando a infração deixar vestígios, será indispensável o exame de corpo de delito, direto ou indireto, não podendo supri-lo a confissão do acusado. Parágrafo único. Dar-se-á prioridade à realização do exame de corpo de delito quando se tratar de crime que envolva: (Incluído dada pela Lei nº 13.721, de 2018) I - violência doméstica e familiar contra mulher; (Incluído dada pela Lei nº 13.721,de 2018) II - violência contracriança, adolescente, idoso ou pessoa com deficiência. (Incluídodada pela Lei nº 13.721, de 2018). Destaco que não houve manifestação do Ministério Público sobre as falas do requerente quanto as práticas de tortura sofridas por ele, tampouco da arma de fogo. Ademais, cumpre ressaltar que a Lei de Drogas exige a realização de dois laudos periciais para satisfazer o devido processo legal, sendo indispensáveis os laudos preliminares ou de constatação e o definitivo, uma vez que a ausência de um dos dois laudos ocorre situação de nulidade absoluta. Trata-se da disposição prevista nos arts. 50 e seguintes, a seguir transcritos: Art. 50. Ocorrendo prisão em flagrante, a autoridade de polícia judiciária fará, imediatamente, comunicação ao juiz competente, remetendo-lhe cópia do auto lavrado, do qual será dada vista ao órgão do Ministério Público, em 24 (vinte e quatro) horas. § 1º Para efeito da lavratura do auto de prisão em flagrante e estabelecimento da materialidade do delito, é suficiente o laudo de constatação da natureza e quantidade da droga, firmado por perito oficial ou, na falta deste, por pessoa idônea. § 2º O perito que subscrever o laudo a que se refere o § 1º deste artigo não ficará impedido de participar da elaboração do laudo definitivo. § 3º Recebida cópia do auto de prisão em flagrante, o juiz, no prazo de 10 (dez) dias, certificará a regularidade formal do laudo de constatação e determinará a destruição das drogas apreendidas, guardando-se amostra necessária à realização do laudo definitivo. (Incluído pela Lei nº 12.961, de 2014) § 4º A destruição das drogas será executada pelo delegado de polícia competente no prazo de 15 (quinze) dias na presença do Ministério Público e da autoridade sanitária. (Incluído pela Lei nº 12.961, de 2014) § 5º O local será vistoriado antes e depois de efetivada a destruição das drogas referida no § 3º, sendo lavrado auto circunstanciado pelo delegado de polícia, certificando-se neste a destruição total delas. (Incluído pela Lei nº 12.961, de 2014) Art. 50-A. A destruição de drogas apreendidas sem a ocorrência de prisão em flagrante será feita por incineração, no prazo máximo de 30 (trinta) dias contado da data da apreensão, guardando-se amostra necessária à realização do laudo definitivo, aplicando-se, no que couber, o procedimento dos §§ 3º a 5º do art. 50. (Incluído pela Lei nº 12.961, de 2014) Não é com outro pensamento que a jurisprudência exige perícia nesses dois tipos de crimes, nesses termos: AGRAVO REGIMENTAL EM AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. PORTE ILEGAL DE MUNIÇÕES DE USO PERMITIDO. VIOLAÇÃO DOS ARTS. 14 DA LEI 10.826/2003 E 386, III, DO CPP. PLEITO DE ABSOLVIÇÃO. MUNIÇÕES ISOLADAMENTE CONSIDERADAS. COMPROVAÇÃO DA LESIVIDADE. MAIOR REPROVABILIDADE DA CONDUTA. MUNIÇÕES APREENDIDAS EM VIA PÚBLICA. CRIME DE MERA CONDUTA. TIPICIDADE CONFIGURADA. PRECEDENTES DO STJ E DO STF. ALTERAÇÃO DO QUANTO DISPOSTO NO ACÓRDÃO. NECESSIDADE DE REEXAME DO ARCABOUÇO FÁTICOPROBATÓRIO. INVIABILIDADE. SÚMULA 7/STJ. 1. No que se refere ao pleito de afastamento do óbice da Súmula 7/STJ, visando a absolvição do agravante, o Tribunal de origem dispôs que a materialidade do crime do artigo 14 do Estatuto do Desarmamento está comprovada pelo auto de prisão em flagrante delito (fls. 02/08-v), pelo boletim de ocorrência (fls. 10/21-v), pelo auto de apreensão (fl. 26) e pelo laudo pericial de eficiência e prestabilidade das munições (fl. 85). [...] 2. O acusado admitiu perante a autoridade policial ter sido preso "portando uma arma de fogo calibre .38 municiada com dois cartuchos" (fl. 06). Em juízo, ele exerceu seu sagrado direito constitucional de permanecer em silêncio (audiência audiovisual - CD de fl. 208). [...] A confissão extrajudicial do réu foi confirmada em juízo pelo policial militar Marcelo Gonçalves da Silva, que relatou que apreendeu com o apelante um revólver calibre 38 com duas munições (mídia de fl. 208). O Tribunal de Justiça de Minas Gerais destacou, ainda, que para a tipificação do delito do artigo 14 da Lei 10.826/03, crime de perigo abstrato ou de mera conduta, basta a probabilidade de dano; não é necessária sua efetiva ocorrência. Entretanto, o simples fato de o crime de porte de munições de uso permitido ser de mera conduta ou de perigo abstrato não significa que é prescindível a realização de laudo pericial para aferir a eficiência e prestabilidade delas. Ou seja, é necessário atestar que as munições são aptas a ofender a incolumidade pública, independentemente de tal resultado ocorrer. [...] No caso em tela, a despeito de o laudo de fls. 81/82 não ter constatado a eficiência e a prestabilidade da arma de fogo, o laudo de fl. 85 constatou a eficiência e a prestabilidade das duas munições calibre 38 que foram apreendidas com o acusado. Ou seja, elas eram capazes de ofender a integridade física de alguém. [...] O bem jurídico tutelado pelo Estatuto do Desarmamento é a incolumidade pública, o que transcende a mera proteção à incolumidade pessoal, abrangendo a garantia e preservação do estado de segurança. 3. Para revisar o aferido pela Corte de origem, seria necessária a incursão em aspectos de índole fático-probatória, medida essa inviabilizada na via eleita pela incidência do óbice constante da Súmula 7/STJ. 4. Para o Superior Tribunal de Justiça, há tipicidade na conduta do porte de munição de arma de fogo, ainda que desacompanhada de artefato bélico. 5. A particularidade descrita no combatido aresto, atinente à apreensão das munições em via pública, demonstra uma maior reprovabilidade da conduta do agravante, o que impossibilita, no caso, o reconhecimento da atipicidade material de sua conduta. 6. Segundo a jurisprudência deste Superior Tribunal, o simples fato de possuir arma de fogo, mesmo que desacompanhada de munição, acessório ou munição, isoladamente considerada, já é suficiente para caracterizar o delito previsto no art. 14 da Lei n. 10.826/2003, por se tratar de crime de perigo abstrato. Nesse contexto, é irrelevante aferir a eficácia da arma de fogo/acessório/munição para a configuração do tipo penal, que é misto-alternativo, em que se consubstanciam, justamente, as condutas que o legislador entendeu por bem prevenir, seja ela o simples porte de munição, seja o porte de arma desmuniciada. 7. A conclusão do aresto impugnado está em sintonia com a orientação jurisprudencial desta Corte quanto à tipicidade da conduta de porte ilegal de munição desacompanhada de arma de fogo (EREsp n. 1.853.920/SC, Ministro Joel Ilan Paciornik, Terceira Seção, DJe 14/12/2020). 8. Agravo regimental improvido. (AgRg no AREsp 1544853 / MG, STJ). AGRAVO REGIMENTAL NO HABEAS CORPUS. TRÁFICO DE DROGAS E ASSOCIAÇÃO PARA O TRÁFICO. APREENSÃO DE DROGA. AUSÊNCIA DE CONSTATAÇÃO INEQUÍVOCA. MATERIALIDADE DO CRIME DE TRÁFICO DE DROGAS AFASTADA. ABSOLVIÇÃO. ART. 580 DO CPP. EFEITOS EXTENSIVOS. DOSIMETRIA DO CRIME DE ASSOCIAÇÃO PARA O TRÁFICO. PENA-BASE E AGRAVANTE DA REINCIDÊNCIA. PROPORCIONALIDADE. RECURSO PARCIALMENTE PROVIDO. EFEITO EXTENSIVO. 1. "É imprescindível para a demonstração da materialidade do crime de tráfico a apreensão de drogas" (REsp 1865038/MG, Rel. Ministro NEFI CORDEIRO, SEXTA TURMA, julgado em 25/8/2020, DJe4/9/2020). Ainda que ausente apreensão de droga em poder do acusado, mas sendo apreendido entorpecente em poder de corréu e havendo existência de liame subjetivo entre os agentes, devidamente comprovado, torna-se descabida a pretensão de afastamento da materialidade do crime do art. 33 da Lei 11.343/2006, hipótese que não se ferpaz no caso. 2. As instâncias ordinárias deixaram de indicar, de forma inequívoca, se houve apreensão de entorpecente em poder de algum dos acusados, tendo a condenação pelo crime do art. 33, caput, da Lei 11.343/2006, se dado somente com apoio em relatório investigativo, no qual foram reproduzidas conversas extraídas de aparelhos celulares, e na prova testemunhal obtida sob o crivo do contraditório, elementos que, na ausência de laudo de exame toxicológico, ainda que preliminar, não se mostram suficientes para fundamentara condenação, por cuidar-se de crime material (art. 50, §§ 1º a 3º - Lei 11.343/2006). 3. A lei não fixa parâmetros aritméticos para a exasperação da pena-base ou para a aplicação de atenuantes e de agravantes, cabendo ao magistrado, utilizando-se da discricionariedade motivada e dos critérios de razoabilidade e proporcionalidade, fixar o patamar que melhor se amolde à espécie. 4. No caso, a pena-base sofreu acréscimo de cerca de 1/5 do intervalo entre as penas máxima e mínima abstratamente cominadas ao delito do art. 35 da Lei 11.343/2006 para cada circunstância judicial desfavorável, considerando os maus antecedentes do acusado, que ostenta várias condenações, e as circunstâncias do crime (posição de liderança em associação criminosa, com atuação em pelo menos 3 municípios, que permitiu comercialização de drogas e movimentação de recursos financeiros expressivos), o que não se mostra desarrazoado. Não se revela desproporcional o aumento de 1/3, na segunda fase da dosimetria, em razão da dupla reincidência. 5. Agravo regimental parcialmente provido. Absolvição pelo crime do art. 33 da Lei 11.343/2006 (art. 386, VII - CPP), com efeito extensivo (art. 580 - CPP), mantido o restante da condenação (AgRg no HC 671058 / SC, STJ). 3. DOS PEDIDOS: Diante do exposto, respeitosamente, requer a revogação da prisão preventiva, haja vista que: a) Não foram preenchidos, de forma concreta, os requisitos do art. 312 do CPP, pois não se demonstrou com elementos hábeis a presença da garantia da ordem pública ou qualquer outro requisito autorizador. b) Não se cumpriu o mandamento legal do art. 316 do CPP, inexistindo razão para o seu descumprimento, uma vez que trata de imposição legislativa, bem como não se atentou para o exame de corpo de delito imposto pelo art. 158 do CPP. c) Requer, alternativamente, caso não seja revogada a prisão preventiva, pelo princípio da eventualidade, a aplicação das medidas cautelares diversas da prisão, conforme prudente arbítrio de Vossa Excelência, na forma do art. 319 do CPP. d) Requer, ainda, a imediata expedição de alvará́ de soltura em nome do acusado, para que ele possa, em liberdade, defender-se no curso da ação penal, comprometendo-se a comparecer a todos os atos processuais. e) Por fim, seja ouvido o ilustre representante do Ministério Público. Nestes termos, pede-se deferimento. Porto Seguro/BA Assinatura OAB