Logo Passei Direto
Buscar
Material
páginas com resultados encontrados.
páginas com resultados encontrados.

Prévia do material em texto

Formação discursiva
Provavelmente você já ouviu a seguinte expressão do nosso 
folclore: “de boa intenção, o inferno está cheio”. Essa frase 
reverbera o discurso de que tudo que fazemos é estimulado por 
alguma intenção. Isso, por sua vez, nos remete à ideia de que, na 
prática discursiva, existem algumas marcas linguísticas que podem 
nos ajudar a entender as verdadeiras intenções dos enunciadores 
no momento da prática social. Tais marcas estão diretamente 
associadas à tríade sujeito do discurso, formação discursiva e 
coerência e coesão.
Quando falamos em discurso, estamos pensando na articulação 
entre implícito e explícito, em que o primeiro está ligado aos valores
ideológicos que nos movimentam socialmente e nos fazem 
concordar ou discordar de posicionamentos e princípios dos demais
sujeitos. Já o segundo é, na verdade, uma versão mais concreta do 
primeiro, em que é possível mobilizar os três conteúdos 
mencionados anteriormente. Por isso, entendemos que toda a 
superfície textual representa aspectos internos do discurso, que 
operam em nosso psicológico e nos fazem entender o mundo e as 
pessoas de maneira particularizada (Fiorin, 2011; Orlandi, 1999; 
Pereira, 2019). 
Sujeito
Quando entendemos que o discurso é uma entidade abstrata que 
viabiliza a interação social por intermédio da linguagem, estamos, 
automaticamente, entendendo o sujeito do discurso como a 
entidade que fala no discurso. Portanto, trata-se daquele que se 
movimenta nos domínios sociais, agrega valores ideológicos e 
dialoga com as práticas sociais vigentes, executando-as. Nesse 
caso, o sujeito traz consigo princípios ideológicos motivados pela 
família, pelos amigos, pelo trabalho, pelos lugares que frequenta 
etc. (Bakhtin, 2003; Fairclough, 2008; Fiorin, 2011; Orlandi, 1999; 
Pereira, 2019).
O sujeito, para a AD (análise do discurso), tem papéis determinados
pelas condições de produção de uma determinada situação 
comunicativa. Esse pressuposto nos ajuda a pensar no sujeito do 
discurso enquanto elemento dotado de sentidos, uma vez que 
agrega em si aspectos ideológicos do seu lugar de fala. Por 
exemplo, você, na condição de sujeito discursivo, traz um pouco de 
cada pessoa e dos contextos sociais a partir dos quais constrói uma
rotina. Pense nesta frase: “Não vou poder ir à festa, porque meus 
pais não deixam”. Essa construção frasal materializa um discurso 
maior, que proíbe o indivíduo de sair. Nesse enunciado, é possível 
construir sentidos que operam no nível mais básico (o fato de não ir 
à festa), ao mais complexo (os fatores que motivaram os pais a não 
autorizarem a saída do filho). Entre o primeiro sentido e o último, 
cabem vários significados interpretativos, ficando a cargo do sujeito 
do discurso optar por qual sensação sentir diante dessa proibição 
(raiva, desespero, alegria, alívio etc.). Assim, o sujeito do discurso 
assume função de coautor do discurso que o envolve, pois a sua 
interpretação acerca dele vai depender dos valores ideológicos que 
o ligam às práticas sociais (Fiorin, 2011; Orlandi, 1999; Pereira, 
2019).
Na prática social, o discurso pode ser representado de diversas 
formas a depender de aspectos pragmáticos, sociais, culturais e 
ideológicos. Nesse caso, imagine que você esteja na universidade 
assistindo a um vídeo sobre literatura portuguesa. Muito 
provavelmente, ou você está em uma sala reservada para essas 
atividades ou na própria sala de aula, porém com luzes apagadas. 
Depois da exibição do vídeo, a professora da referida disciplina fala 
para você: “A luz, por favor”. Ao ouvir esse pedido, você se depara 
com uma gama de possibilidades de leitura dependentes de vários 
aspectos que estão no nível do discurso e não propriamente do 
texto. Porém, a textualização vai representar as intenções por parte 
dessas forças discursivas (Fiorin, 2011).
Você, na condição de sujeito do discurso, tem liberdade discursiva 
de atender ou não ao pedido da professora. Isso ocorre porque o 
sujeito nem sempre é assujeitado nas práticas sociais. Com isso, 
você vai, mesmo que de maneira inconsciente, levar em 
consideração muitos fatores antes de estabelecer uma atitude 
responsiva ao pedido que lhe foi feito. Entre esses fatores, 
podemos mencionar: a sua relação com a professora, a sua relação
com a disciplina de literatura portuguesa, o seu estado de espírito 
ao ouvir o pedido, o fato de entender que a voz da professora 
representa poder pela posição que ela ocupa no momento etc. 
(Orlandi, 1999).
Formação discursiva
Podemos dizer que o sujeito do discurso interage com os demais 
sujeitos sociais de modo a proporcionar o que entendemos por 
formação discursiva. Trata-se de um mosaico sociocultural que 
construímos a partir de marcas estilísticas, pragmáticas e 
linguísticas, as quais semiotizam nossos valores, nossas 
concepções e nossos conceitos a respeito do mundo em si. Nesse 
caso, essas marcas ajudam a construir sentidos a partir do nosso 
lugar de fala, sendo, pois, indicativos da nossa posição ideológica e 
da nossa intenção real em um dado contexto de prática social 
(Bakhtin, 2003; Pereira, 2019).
Entretanto, muitas dúvidas podem ser levantadas se formos levar 
em consideração a formação discursiva dessa prática enunciativa. 
Isso acontece porque, do ponto de vista léxico-gramatical, o 
enunciado é permeado por uma dupla possibilidade de 
interpretação: retomando a situação anterior, será que a professora 
pede para acender a luz elétrica ou ela solicita que você leve uma 
lâmpada até ela? Evidentemente, a intenção da docente é que você
acenda a luz, uma vez que o vídeo da aula acabou e ela precisa 
que o ambiente esteja claro para prosseguir a aula. No entanto, é 
importante mostrar que isso não está evidente na formação do 
discurso devido às escolhas gramaticais apenas. Todavia, ao 
recorrermos ao contexto da situação enunciativa, é possível 
recuperarmos o propósito enunciativo (Bakhtin, 2003; Fiorin, 2011; 
Orlandi, 1999). É ele que vai auxiliar na quebra da ambiguidade e 
no direcionamento de sentidos. 
Coesão e coerência
Por fim, temos a coerência e a coesão como elementos que atuam 
na contextualização e na materialização dos nossos discursos. 
Aqui, cabe, então, diferenciarmos discurso e texto, uma vez que o 
primeiro está mais ligado às forças abstratas que nos ajudam a 
entender o mundo, enquanto o segundo se trata da materialização 
léxico-gramatical da ideologia discursiva, por intermédio da 
coerência e da coesão textuais, também chamadas de “elementos 
da textualidade” (Fairclough, 2008; Pereira, 2019).
Quando falamos em materialização verbal do discurso, estamos nos
referindo ao texto verbal em sua modalidade oral ou escrita. 
Quando falamos e escrevemos, estamos representando discursos 
por meio da coerência e da coesão, princípios textuais ligados à 
ideia de textualização dos enunciados, ou seja, das condições que 
esse enunciado tem de se fazer interpretar. Enquanto a coerência é 
responsável pela lógica do texto e para que o tema não seja 
quebrado ao longo do texto, a coesão lidará com aspectos 
gramaticais que estruturam as falas nesse contexto de diálogo 
familiar (Pereira, 2019).
Do ponto de vista da coerência e da coesão, enquanto elementos 
da textualidade, o referido enunciado textualiza a intenção da 
professora, embora os sentidos completos sejam recuperados 
apenas por intermédio de uma análise contextual. Entretanto, isso 
não representa o seu olhar no discurso. Assim, seria necessário o 
seu posicionamento no discurso, para que a coerência pudesse ser 
construída para além da sentença, e, com isso, os sentidos 
pudessem ser observados de maneira mais robusta. A coesão, por 
sua vez, observaria como as palavras são articuladas no seu ato 
responsivo, de modo que ajudaria no entendimento da formação do 
discurso (Fairclough, 2008; Pereira, 2019).
Por fim, a prática discursiva é dotada de muitas possibilidades de 
sentido, o que comprova a natureza orgânica do discurso. Com 
isso, é possível dizer que o discurso é vivo,já que sua formação 
pode se dar de diferentes maneiras.