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AULA 1 PERÍCIA COMERCIAL Profª Núbbia Mendonça Oliveira 2 INTRODUÇÃO Atos introdutórios à perícia contábil comercial Nesta etapa, vamos abordar aspectos conceituais introdutórios sobre a função do profissional da perícia, considerando a necessidade social e as oportunidades no mercado para a realização de perícia comercial pelas organizações. TEMA 1 – ASPECTOS CONCEITUAIS E LEGISLAÇÃO BÁSICA A Perícia Contábil no Brasil começou a ser divulgada por volta de 1924, no I Congresso Brasileiro de Contabilidade (CBC). Na ocasião, os participantes discutiram a necessidade de segregar as funções em três classes profissionais: contador, guarda-livros e perito (Sá, 2019). No mesmo evento, foram discutidos diversos temas relacionados, com destaque para os seguintes: • Oficialização da perícia judicial; • Fiscalização dos trabalhos do perito contador; • Correlação entre remuneração das atividades e horas despendidas de trabalho. A criação do Conselho Federal de Contabilidade (CFC), através do Decreto-lei n. 9.295, de 27 de maio de 1946, alterado pela Lei n. 12.249/2010, apresentou as atribuições do contador, instituindo a perícia contábil no Brasil. Embora o Código de Processo Civil (CPC), por meio do Decreto-lei n. 1.608/1939, já indicasse algumas regras sobre a perícia, foram diversas as alterações ao longo dos anos que permitiram um aperfeiçoamento da perícia brasileira. O Quadro 1 elenca algumas modificações históricas. Quadro 1 – Perícia contábil: modificações relevantes na legislação Legislação Introduções, Alterações e Descrições Decreto-lei n. 8.579 de 08/01/1946 Alterações introduzidas Normas periciais Decreto-lei n. 7.661 de 21/06/1945 (legislação falimentar) Em seus art. 63, inciso VI; 93, parágrafo único; 169, Estabelecimento de regras de Perícia Contábil, atribuindo esta definição ao contador. Em dias atuais, regras 3 Alterações dadas pela Lei n. 4.983 de 18/05/1966 inciso VI; 211 e 212, incisos I e II aplicadas pela Lei de Regularização de Empresas e Falência (Lei n. 11.101/05) Lei n. 5.869 de 11/01/1973 (segundo CPC) Modificações e complementações. Aperfeiçoamento nas perícias judiciais com ampla, clara e aplicável legislação Lei n. 13.105 de 16/03/2015 (Novo CPC, em vigor 17/03/2017) Decreto-lei n. 5.452 de 01/05/1943; Lei n. 5.584 de 26/06/1970; Lei n. 11.960 de 09/06/2008 Consolidações das Leis do Trabalho (CLT), atualizações da Lei Processual Trabalhista (LPT) e atualizações do Código Processual Penal (CPP), combinadas às jurisprudências de natureza processual Fonte: Magalhães, 2017. A conduta profissional, assim como as diretrizes relacionadas aos trabalhos desenvolvidos pela perícia, é descrita nas normas divulgadas pelo CFC. No site institucional do conselho, encontramos o conjunto de normas divididas em duas responsabilidades: profissional e técnica. A Resolução CFC n. 1.328/2011 dispõe sobre a estrutura das normas brasileiras de contabilidade, enquanto a Resolução CFC n. 1.548/2018 trata das revisões, alterando, incluindo e excluindo textos das normas exigentes, totalmente ou parcialmente, conforme o novo padrão estabelecido. As NBCs de caráter profissional disciplinam regras de exercícios para a conduta profissional, moral e ética do contador, auditor e perito, como vemos no quadro a seguir. Quadro 2 – Estrutura das normas de contabilidade profissional NBC Atribuição Legislação NBC PG Profissional Geral Resolução n. 803/96 e Resolução n. 1.307/10, revogadas pela NBC PG 01, de 14/02/2019 NBC PA Auditor Independente Resolução n. 1.201/09 aprova NBC PA 01, com base na International Standards on Quality Managment (ISQM) 2 da International Federation of Accountants (IFAC), da nova redação a NBC PA 02, em 09/02/2021 NBC PP Perito Resolução n. 1.244/09, revogada pela NBC PP 01 (R1) de 19/03/2020 Fonte: CFC, 2011. As NBCs técnicas apresentam regulamentação separadamente para cada ramo de atividade desempenhado na sociedade. Assim, garantem aos 4 profissionais um campo para a observação, em conformidade com as regras, além de uma melhor transparência e licitude das operações desenvolvidas pelas organizações. A seguir, o Quadro 3 apresenta as NBC publicada pelo CFC. Quadro 3 – Estrutura das Normas Brasileira de Contabilidade: técnica Norma Classificação Descrição a qual se destina NBC TG Completa Aborda diversas operações, como: ativo imobilizado, redução ao valor recuperável, arrendamentos etc. Simplificada Atente as pequenas e médias empresas Específicas Representa as entidades diversas e operações específicas, entidade desportiva, cooperativas, entidade sem finalidade de lucros etc.; NBC TSP Técnica Setor Público NBC TA Técnica Auditoria Independente de Informação Contábil Histórica NBC TASP Técnica Auditoria de Informação Contábil Histórica Aplicável ao Setor Público NBC TR Técnica Revisão de Informação Contábil Histórica NBC TO Técnica Asseguração de Informação não Histórica NBC TSC Técnica Serviço Correlato NBC TI Técnica Auditoria Interna NBC TP Técnica Perícia Fonte: CFC, 2011. 1.1 Perícia contábil O CFC apresenta um conteúdo atualizado e esclarecedor que disciplinam a Perícia Contábil. Os temas do CFC são variados de acordo com as necessidades apresentadas ao longo do tempo pela sociedade, com o intuito de uniformizar as divergências existentes, o CFC, no item 2 da NBC TP 01 (R1) de 19.03.2020, definiu a Perícia Contábil como: A Perícia Contábil é o conjunto de procedimentos técnico-científicos destinados a levar à instância decisória elementos de prova necessários a subsidiar a justa solução do litígio ou constatação de um fato, mediante laudo pericial contábil e/ou parecer perícia contábil, em conformidade com as normas jurídicas e profissionais, e a legislação especifica no que for pertinente. Continuando com as definições sobre perícia, sabemos que ao avançar dos anos foram altamente difundidas e apresentados diversos estudos acerca de sua definição, ainda assim não é possível expor um conceito definitivo sobre perícia, 5 nem em fontes bibliográficas nem incisivos em nossa legislação. Embora tenha ocorrido inúmeras edições do Comitê de Pronunciamentos Contábeis (CPC) auxiliando os trabalhos da perícia não há um conceito que expresse 100% de intelecção, ainda que haja normas e técnicas processuais que estabeleçam condições legais para a execução dos trabalhos da Perícia Judicial (Magalhães, 2017). Uma visão abrangente da perícia é o trabalho desenvolvido pelos profissionais, com a natureza empírica em cada situação existente. Com isso, a execução necessita de rigidez, conhecimento específico e profundo da área de trabalho, seja qual for a área científica pode haver perícia, no entanto, cada processo pode ser classificado de acordo com sua natureza, de origem operacional, administrativa, judicial, extrajudicial ou arbitral. Podemos citar também a natureza dos fatos e a natureza da regulamentação das profissões (Magalhães, 2017). Continuaremos com esse assunto em um tema mais adiante. 1.2 Perito No texto anterior foi apresentada uma breve introdução em Perícia Contábil, agora vamos iniciar a observação sobre o papel do Perito, que também possui suas classificações em perito oficial; perito do juízo; e perito- assistente. Vejamos a definição ampla de Perito segundo a NBC PP 01, item 2, 27.02.2015 de: “O Perito é um Contador regularmente registrado em Conselho Regional de Contabilidade, que exerce a atividade pericial de forma pessoal, devendo ser profundo conhecedor, por suas qualidades e experiência, da matéria periciada.” Em 2016, o Conselho Federal de Contabilidade por meio da Resolução CFC n. 1.502 de 19.02.2016 ealterado pela Resolução CFC n. 1.513 de 26.10.2016 criou o Cadastro Nacional de Peritos Contábeis (CNPC), visando oferecer ao judiciário e à toda sociedade uma lista de profissionais qualificados para atuarem como Peritos Contábeis, assim o sistema CFC e os Conselhos Regionais de Contabilidade (CRC’s) podem identifica-los e dar maior notoriedade à ação do poder judiciário, podendo selecionar profissionais por questões geográficas, especialidades e disponibilidade dos cadastrados. A NBC, apresenta as classificações de Perito presentes na disponibilidade do Juízo, conforme o Quadro 4. 6 Quadro 4 – Classificações de natureza profissional do perito Classificação Descrição Regulação Perito oficial O perito oficial é investido na função por lei, sendo pertencente a órgão especial do Estado destinado, exclusivamente, a produzir pericias, exercendo a atividade por profissão NBC PP 01, editada em 27/02/2015, item 3 Perito do juízo Perito do juízo é nomeado pelo juiz, árbitro, autoridade pública ou privada para o exercício da perícia contábil NBC PP 01, editada em 27/02/2015, item 4 Perito-assistente Perito-assistente é o contratado e indicado pela parte em perícias contábeis NBC PP 01, editada em 27/02/2015, item 5 Fonte: CFC, 2020. Considerando o novo CPC de 2016, o intuito do CNPC é fornecer aos juízes oportunidades para que sejam assistidos por peritos quando a prova do fato depende de conhecimento específico, disponibilizando aos tribunais consultas aos conselhos de classe para a formação de uma carteira com os profissionais desejados. Saiba mais Em 2017, o CFC realizou o primeiro EQT de Perícia Contábil para profissionais que não tinham experiência em perícia. A partir de 2018, para se inserir no Cadastro Nacional de Peritos Contábeis (CNPC), o profissional deve ser aprovado no Exame de Qualificação Técnica (EQT), mesmo que tenha experiência comprovada. Após inscritos no CNPC, os profissionais precisam cumprir o Programa de Educação Profissional Continuada, que comprova a realização de requisitos de qualificação técnica. Hoje em dia, encontramos mais de 5 mil inscritos no Cadastro. Saiba mais em: CFC – Conselho Federal de Contabilidade. CNPC. Disponível em: . Acesso em: 16 fev. 2023. TEMA 2 – ATO PERICIAL: PARA ALÉM DO DEVER PROFISSIONAL Neste tema, vamos tentar compreender a perícia para além do dever profissional, definindo o ato que leva à verdade e identificando os motivos que levam a sociedade a solucionar conflitos. 7 2.1 Busca pela verdade Podemos dizer que a verdade sobre fatos e atos empresariais é essencial para a sociedade como um todo, desde tempos muito antigos, pois são igualmente antigas as manifestações de interesse sobre a apuração da verdade dos fatos. Nesse contexto, os meios contábeis ajudam a averiguar a verdade. Com o passar do tempo, o conhecimento cresceu, até que a técnica de verificação para conseguir prova passasse a contar com tecnologias avançadas, um progresso de dimensão compatível às grandes metodologias, resultado de um fluxo de informação diária em volume expressivo, considerando os dados eletrônicos que são produzidos freneticamente todos os dias (Sá, 2002). A primeira menção literária à noção de perícia comercial recomenta a um famoso trabalho editado em 1921 pelo “Jornal do Brasil”, no Rio de Janeiro, intitulado “Perícia em Contabilidade Comercial”, de João Luiz dos Santos. Depois, em 1929, entrou em vigor o Decreto n. 5.746, que modificou a Lei de Fallencias. Embora não abrangente, ele serviu para regular a exigência de que as tarefas periciais deveriam ser de responsabilidade apenas do contador. Voltando à ideia de busca pela verdade, as incorporações dos profissionais de contabilidade na área da perícia proporcionaram o surgimento de diversas instituições por todas as regiões do Brasil. O ano de 1931 foi marcante para o desenvolvimento dos preceitos da perícia, em especial pela criação da Câmara de Peritos Contadores, que auxiliou os profissionais com as escritas em contabilidade. Essa influência foi marcante em estudos posteriores, desenvolvidos pelo Conselho Federal de Contabilidade. Assim, a perícia contábil entrou em maior evidência. A necessidade social de organização e desenvolvimento de uma boa convivência com os diversos grupos sociais fez com que a perícia buscasse minimizar conflitos existentes, agindo como mediador em cenários divergentes de normas, doutrinas e da legislação em vigor. Essas manifestações surgem da incerteza nas ações desenvolvidas por várias mãos em uma determinada entidade. A imperfeição e a inadequação levaram à necessidade de realização da perícia contábil (Magalhães, 2017). Vejamos algumas razões para que uma perícia seja contratada ou designada: • Métodos imperfeitos, ou seja, sujeitos a distorções e erros; 8 • Indivíduos imperfeitos ocasionalmente operam sistemas inadequados; • Existem diversas irregularidades administrativas e contábeis, de modo que toda entidade merece ser observada. O profissional de contabilidade busca manter em ordem os bens e as operações da entidade, conforme seus serviços são solicitados, uma vez que a confiabilidade é um princípio importante que deve ser seguido pelas partes. Ou seja, o perito contábil atende as necessidades sociais, em busca da verdade sobre os atos e fatos administrativos desempenhados por outros. Sendo assim, além do dever ético-profissional, o profissional precisa considerar normas que o guiam no desenvolvimento de ações honestas em seus trabalhos, buscando atender aos interesses públicos, a partir de um dever coletivo e pessoal. Saiba mais Desde 2017, o Brasil, por meio do CFC, passou a utiliza Noclar – Não Conformidade com Leis e Regulações, editada pelo International Ethics Standards Board for Accountants (Iesba) em 2016. Trata-se de uma norma internacional que obriga os profissionais contadores a denunciar aos órgãos de fiscalização quaisquer irregularidades contábeis que possam descobrir de seus clientes. O Noclar permite que as organizações deixem de lado o princípio da confidencialidade e denunciem atos ilegais, desde que seja para o benefício público. O contador é um valioso parceiro em qualquer projeto, seja qual for o seu estágio, econômico ou financeiro. Saiba mais: CFC – Conselho Federal de Contabilidade. Aplicação da Noclar no Brasil é tema de reunião na Ifac. 1 mar. 2018. Disponível em: . Acesso em: 16 fev. 2023. TEMA 3 – PERÍCIA CONTÁBIL: ANÁLISE DE IRREGULARIDADES Compreendemos anteriormente que a sociedade sempre busca pela verdade, o que fomenta a necessidade de realização de perícia contábil. Agora, vamos identificar os motivos implícitos para o atendimento a essa necessidade de solução de conflitos. A necessidade pela perícia contábil vem da busca pela verdade sobre os fatos e atos desenvolvidos pelas organizações. Diversos tipos de conflitos levam à necessidade da perícia, de modo que o uso de recursos legais faz com que a tomada de decisão por um juiz seja realizada com zelo. Nesse contexto, é preciso 9 considerar que muitas decisões requerem um profissional especializado capaz de efetuar uma análise técnica específica, a partir de um conhecimento amplo para desvendar as diversas irregularidades existentes em determinado caso (Magalhães, 2017). O quadro a seguir apresenta uma classificação das irregularidades que justificam o uso de uma perícia contábil na entidade. Quadro 5 – Irregularidades classificadas como administrativas e contábeis IRREGULARIDADES ADMINISTRATIVAS CONTÁBEIS 1) Adulterações 6) Imperfeições 1) Adulterações 6) Imperfeições técnicas 2) Culpas 7) Negligências 2) Culpas profissionais 7) Negligências profissionais3) Erros 8) Responsabilidades 3) Erros técnicos 8) Responsabilidades profissionais 4) Fraudes 9) Simulações 4) Fraudes 9) Simulações 5) Infrações 5) Infrações Fonte: Magalhães, 2017. As sociedades empresariais contam com profissionais que apresentam interesses próprios, normalmente ancorados em manifestações próprias da gestão econômico-financeiro da entidade. Os agentes pertencentes à administração utilizam técnicas para acompanhar os objetivos propostos pelo plano da empresa, agindo em conformidade com as normas profissionais e as regras legais, sempre observando a ética profissional de cada classe de indivíduos comprometida com a gestão da sociedade empresária (Magalhães, 2017). Os profissionais são levados a agir por conta de deficiências técnicas, falhas morais ou estados deturpados, ou ainda quando o comportamento da administração não apresenta a necessária perfeição material, infringindo regras legais, princípios profissionais e vivências éticas. Em outras palavras, são movidos por imperfeições, infrações, erros, fraudes, negligências no desenvolvimento dos trabalhos, além de adulterações e falhas nas simulações. 3.1 Irregularidades administrativas São as irregularidades responsáveis por danos a interesses particulares ou de outros, com consequências para a gestão administrativa e possibilidade de 10 punição ao causador, quando é feita a identificação dos indivíduos responsáveis pela verdade encontrada. As respostas que invocam culpabilidade podem acarretar responsabilidades diferentes, a depender dos, como sanções, ressarcimentos e punições, tudo em conformidade com leis e normas. O quadro a seguir define as responsabilidades em três decorrências. Quadro 6 – Responsabilidade das irregularidades da gestão administrativa Responsabilidade Decorrência Punições Criminal Ato ilícito penal São aplicadas ao culpado as sanções da lei penal Civil Ato ilícito civil O culpado deve ressarcir ou indenizar aquele que sofreu o dano moral Administrativa Falta, imprudência ou negligência Conforme a culpa implicada nos atos da gestão, são aplicadas as punições Fonte: Magalhães, 2017. Assim, sabemos que a perícia e a revisão levam a descobertas e à evidenciação de irregularidades administrativas, com aplicação de medidas ou sanções, o que leva ao estabelecimento da verdade dos fatos, com definição das responsabilidades por autoridade maior ou atribuição de obrigações pecuniárias e justiças aos de direito. Vejamos agora cada uma das irregularidades administrativas, ordenadas por Magalhães (2017). No entanto, é importante ressaltar que existem ainda outras situações, não mencionadas, que podem ser inseridas nesse conjunto de irregularidades, cada uma com as suas especificidades: 1) Adulterações, alteração de fatos e coisas com a finalidade de enganar outros em interesse próprio. Podendo ser adulteração de mercadorias, adicionado ingredientes ou retirando algo afim de diminuir o teor de qualidade dos produtos, alterando pesos e medias para ludibriar o consumidor, adulterar documentos, títulos de capitalização, créditos ou contratos para refletir em condições e valores. Qualquer adulteração que resulte na parte interessada um prejuízo, fazendo-a agir de forma amistosa, policial ou judicial, com exames perícias ou vistorias técnicas; 2) Culpas, o indivíduo que comete omissão por negligencia é culpado. Podemos separar a culpa, em levíssima: quando não se usava de todos os cuidados em fatos especiais; leve: quando há ausência de cuidados que deveriam existir para regular alguns atos da vida; grave: quando há culpa sem má-fé, o indivíduo que não cuidava das coisas dos outros como se fossem suas; e gravíssima: quando há excesso de negligencia ao ponto que culmina em má-fé. Em linhas gerais, a culpa causa dano a alguém, e faz com que seu autor responda moralmente, seja ineficiente e de boa-fé, de direito ao deixar de cumprir uma obrigação explícita ou mesmo de má-fé. Assim como a culpabilidade, também há o dano ocasionado a um patrimônio podendo ser classificado em perdas leves ou graves, próximas ou remotas, diretas ou indiretas. A apuração da 11 culpa fixará a responsabilidade como material ou moral, a perícia dará a resposta no sentido dessa indagação; 3) Erros, diversas irregularidades, em suma o que não está certo, que não é real ou verdadeiro está errado. Os erros podem ser considerados como voluntários, aqueles que caracterizam faltas, simulações, fraudes, crimes, culpas etc. ou involuntários quando há ignorância, boa-fé, falhas físicas ou psíquicas. Os erros podem ser classificados como: omissão, técnica mal desenvolvida, falsas situações de direito, imprevisão, incompreensão, decisões inconvenientes, cálculos inexatos etc. As consequências dos erros são sempre maléficos a gestão administrativas, quando os erros substanciais não atingem materialmente o patrimônio da entidade, os erros formais podem trazer efeitos morais e psicológicos com melhora próxima ou remota, direta ou indireta. Por isso a revisão contábil permite que os erros sejam encontrados e possam ser corrigidos; 4) Fraudes, o ato de enganar outro em benefício próprio ou burlar a lei em benefício próprio. Embora se admita “prova por indícios ou circunstancias” a fraude não se presume ela tem que ser provada por quem acusa. Na gestão administrativa econômica fraudes são atos como adulterações de peso ou medidas, substituição ou subtração de mercadorias, furtos, roubo ou desvio de produtos e valores, apropriação indébita, cálculos errados, documentos falsificados ou falsos, irresponsabilidade em prestação de contas, abuso de poder e funções. Fraude leva a falência quando atos praticados em detrimento aos interesses dos credores. A fraude contra os fisco, deixar de pagar impostos, taxas e contribuições, por meio de sonegação, declarações falsas, quaisquer formas de omissão pra escapar das obrigações fiscais. A perícia contábil desempenha a função de verificar ou investigar fraudes afim de culminar as sanções da lei; 5) Infrações, ação da administração deve estar de acordo com as normas instituídas. Os proprietários devem ter orientação e direção pelos administradores, assim como as leis regem a organização e os negócios, além das normas e diretrizes organiza as relações entre indivíduos e coisas, a ordem social sendo respeitada por meio de regras gerais. São tais princípios que a gestão dos negócios devem observar para a manutenção da ordem, as infrações são transgressões das normas que prejudicam o andamento administrativo. A infração pode ser o ato de violar o estatuto da empresa no que tange a posição jurídica dos sócios/investidores/associados e mais, podendo ser a inobservância de ordens e instruções, ou mesmo burlar ou desobedecer as leis impostas pela matéria administrativa, pessoas interessadas ou mesmo o poder público, podendo ser uma infração denunciada ou manifestada; 6) Imperfeições, são evidentes ou ocultas, sempre determináveis por suas causas e efeitos. A ação administrativa acontece para atender a finalidade patrimonial, praticando atos voltados para esses fins, seus colaboradores, administradores e todos que estão à disposição da empresa estabelecem uma relação com os negócios desempenhados pela mesma. Geralmente as ações administrativas tendem à cautela e à proteção dos interesses da entidade, sem desamparar os interesses de outros, e por várias causas e fatores divergentes a ação administrativa, em suas manifestações pode vir a se contaminar com imperfeições, conscientes ou inconscientes, que distorcem a normalidade da realização dos negócios. São imperfeiçoes administrativas o acúmulo de funções desencontradas e reverencia a parentes próximos, ações que afetam a integridade patrimonial própria e de terceiros; 7) Negligencias, para se alcançar os fins eleitos e não haver desordem na ação executiva, ou falhas nas operações patrimoniais,a administração deve zelar pela ordem e proteção dos atos e fatos da gestão. No entanto acontecem falhas humanas, sejam físicas ou psíquica, ausências de proteção e zelo com influência nos atos e fatos causadores do dano. Tais falhas debilitam a eficiência das ações resultando em imperfeições ou falta que desfavorecem a integridade da entidade. A negligência tem efeito imediato ou remoto, os quais exigem 12 apuração das causas e reconhecimento dos culpados. A negligência pode ser consciente, quando à responsabilidade dos causadores, é inconsciente ou ocasionados pela displicência quando tem fatores físicos ou psíquicos envolvidos; 8) Responsabilidades, em ação administrativa a responsabilidade corresponde aquele que guarda pela boa conservação dos atos e fatos dentro de uma organização, preza pelo litigio, conserva os bens patrimoniais, trata da execução dos atos como se fosse o real proprietário. E com a falta dessas obrigações o resultado é uma perda material para o agente, podendo ser atribuído a responsabilidade civil, ressarcindo o dano causado a outros, por omissão ou ação ilícita, mesmo que direta ou indiretamente. Cada ação de irresponsabilidade responde a uma medida de punição, cabe ao perito no ato da sua investigação apresentar os limites da obrigação monetária, justificá-la e comprovar todos os pontos de observação; 9) Simulações, consiste em mostrar os atos ou negócios de forma regular em determinado ponto, no entanto, a realidade das ações são simulados, contradizendo as normas jurídicas e a ética. A simulação são artifícios utilizados para encobrir irregularidades, podendo ser simulações denunciadas ou descobertas sendo necessário investigação extensa e profunda na congruência dos sinais, não se deixando levar por aparências inventadas, sendo a simulação premeditada, com características inerentes que buscam dificultar a averiguação dos profissionais de perícia. Normalmente o interesse monetário nos negócios, fazem com que obtenha sagacidade, engenho e ardis para enganar outros em benefícios próprio. Alguns exemplos de simulação são: credores inexistentes, títulos de favor, reservas ocultas, perdas inexistentes, operações fictícias, valores irregulares no saldo de caixa, dividas fantásticas, despensas irreais, e muito mais. A simulação também pode ser descoberta no ato de atrasar negócios ou protelações na execução de obrigações. 3.2 Irregularidades contábeis Assim como acontece com as irregularidades administrativas, as contábeis aparecem lado a lado com as falhas da organização, podendo causar prejuízos em pequenas e grandes proporções, comprometendo a estabilidade da entidade e até a reputação moral e ética do administrador. A contabilidade entra com o papel importante de averiguar e contatar a conformidade administrativa. No entanto, falhas administrativas resultam em irregularidades contábeis (Magalhães, 2017). Magalhães (2017) ainda considera que os gestores das organizações confiam nos serviços desenvolvidos pela contabilidade, colocando em ordem os aspectos administrativos e técnicos, até o limite de suas atribuições específicas, de forma direta. Afinal, sabemos que a contabilidade é a representação dos fatos empresariais. Neste contexto, seja por incapacidade ou conhecimento, imprudência ou confiança, o profissional contábil comete irregularidades, que variam conforme a causa e os danos resultam em culpa, a exemplo de advertência, multa, suspensão e cassação, de acordo com o Decreto-lei n. 9.295/46, que criou o CFC e 13 regulamentou a profissão contábil. Vale ressaltar que o art. 27 dá nova redação ao decreto, por meio da Lei n. 12.249/2010, que traz as descrições para multas (alíneas a, b, c), suspensão (alíneas d, e), cassação (alínea f) e advertência (alínea g). Vejamos agora as irregularidades contábeis citadas por Magalhães (2017), enfatizando o olhar profissional para as falhas administrativas: 1) Adulterações, elencadas não somente adulterações que alteram a escrituração em alguma parte, mas também alterações em ementas, eliminação de partes ou aumento de escritas em registros etc. Quando as escriturações possuem indícios de alterações antigas, pode ser consideradas uma escrituração pervertida, com proposito de falsificação. As adulterações podem ser encontradas em contas, datas, peças contábeis criadas, quantias, históricos, livros contábeis, inventários, balanços, resultados financeiros e econômicos, além de relatórios e mais peças. Pode-se descobrir as adulterações por meio de observações, representações gráficas, raciocínio logico, confronto de informações, escriturações e documentos, sendo que tudo deverá ser comprovado com exames profissionais, com vestígios materiais que podem ser encontrados, como: substituição de folhas, rasuras, borrões, emendas, erros de soma e cálculos, espaços em branco, páginas faltando, raspagem, escritas à margem, ocultações ou duplicidades de livros, e omissões de palavras, saltos de linhas ou entrelinhas, etc.; 2) Culpas profissionais, As imperfeições técnicas, a execução da contabilidade, erros técnicos e de escrituração, negligencia profissionais todos resultam em culpa profissional, causando direta ou indiretamente, prejuízos materiais e morais divergentes ao objetivo do patrimônio ou mesmo de terceiros envolvidos em negócios comerciais. Podemos citar algumas situações que levam a culpa profissional: um inventário de valores ou mercadorias, um levantamento de caixa com resultados inconsistentes podem trazer prejuízos; saldo de contas de terceiros que não correspondem à realidade das operações ou liquidações; registro errôneo, deixar de satisfazer as obrigações no dia de seu vencimento, tudo que é contrário ao correto traz inconvenientes para a gestão, informações erradas da contabilidade podem levar uma entidade a falência, infrações à legislação, ações imperfeitas importam culpa, quando executadas pela contabilidade, resultam prejuízo, devendo responder material ou moralmente pelos danos causados; 3) Erros técnicos e de escrituração, os erros podem ser considerado como: substancial quando refere-se à natureza, quando se organiza livros com defeitos de função, impropriedades ou mesmo quando se considera ou classifica fatos de modo que não reflitam a verdade ou realidade; e formal no que refere-se ao desempenho, características das coisas, ou seja, representação gráfica defeituosa ou corrompida dos fatos. É importante ressaltar que todos os erros são inconsciente, por isso quando analisado e comprovado como simulação, fraude ou adulteração passa a ser considerado intencional; 4) Fraudes, as fraudes na área contábil são motivadas pelo interesse próprio, com danos a terceiros. Neste ponto surge as falsificações, os lançamentos fraudulentos, classificações erradas de receita e despesa, duplicidades em saídas dinheiro ou omissão na entrada, até mesmo qualquer falsidade escrita que quando aplicada implica ação criminosa. O rigor matemático no processo de análise é notório, a contabilidade reflete os fatos reais e os meios informáticos, tecnológicos e analíticos corroboram no exame das provas. A existência de fraudes pode ser revelada em lançamentos que não espelham documentos ou mesmo comprovantes, lançamentos falsos que não se apoiam em operações 14 reais, por fim, todas as fraudes/erros que provem irregularidade instintiva de escrita, com intenção de enganar; 5) Infrações, quando não há cumprimento de uma determinação administrativa, legal, ou mesmo cumprir em partes, com distorção ou alteração, além de desconsiderar normas ou conceitos a serem observados pela contabilidade. A não observância das formalidades descritas pela legislação societária ou código comercial é uma transgressão que invalida dos preceitos contábeis; 6) Imperfeições, os trabalhos da área contábil devem obedecer os planos desenvolvidos e sua execução deveatender as normas vigentes. Mas uma vez que os planos estejam incompletos, normas incapazes ou inadequadas, causaram imperfeições, como desordem ou atraso nas escriturações, falta de evidências que justifique outras, repetição desordenadas como estornos, etc.; 7) Negligências profissionais, todo profissional de contabilidade tenha a responsabilidade pela ordem na entidade, deve manter em organizado a escrituração, é uma obrigação moral seguir os preceitos da profissão. Caso contrário, a má conservação de livros, má apresentação de trabalhos e confecção de relatórios ou demonstrativos, ausência de verificações, acumulo de trabalhos para escriturar, qualquer ato que resulte em negligencia profissional deve ser apurado e examinado com a devida importância. Sendo que as imperfeições ou mesmo as omissões de lançamentos por negligencia, confundem os trabalhos de revisão e exames da perícia, podendo comprometer a situação da entidade e do administrador; 8) Responsabilidades profissionais, mesmo que as falhas e culpas profissional sejam involuntárias, ou intencionais causando prejuízos por meio da fraude ou dolo, os responsável assumem os danos e pagam as consequências, com a perda da colocação profissional, ressarcimento do prejuízo ou mesmo ação criminal. Sendo assim o contador tem a responsabilidade profissional pelas ações e fundamentos irregulares que for praticado por ele, desde a culpa até a punição. Do mesmo modo citado nas irregularidade administrativas, podemos consultar as aplicações da responsabilidade profissional por culpa no Decreto-lei nº 9.295/46 e a nova redação na Lei nº 12.249/2010, alíneas a, b, c, d, e, f e g.; 9) Simulações, é caracterizada quando coisas e fatos administrativos não refletem a verdade, quando o profissional responsável contraria os conceitos e normas, com situações irreais ou irregulares. Podemos mencionar, as simulações de distribuição indevida, resultados falsos como déficit ou superávit, operações divergentes de débito ou crédito, despesas ou prejuízos, receitas ou lucros, dentre outras situações. Como vimos anteriormente, a necessidade de realização de uma perícia vem da verdade sobre as coisas, considerando os fatos administrativos apresentados pela contabilidade. Porém, são as irregularidades que mostram as ações que é preciso observar e a verdade que será revelada no desenvolvimento do exame pericial. Saiba mais Donald Ray Cressey realizou um estudo, nos anos 50, sobre a perda de confiança em pessoas com alto grau de responsabilidade em uma entidade, depois de entrevistas com fraudadores, a partir dos quais passou a conhecer os seus motivos. Em 1953, com a publicação de um livro, disseminou teoria do triângulo de fraudes. Essa tese está focada na ocorrência de fraudes, o que 15 segundo o autor está ligado à existência conjunta de três dimensões: pressão, oportunidade e racionalização. Para saber mais, procure pelo livro Other people’s money: a study of the social psychology of embezzlement. TEMA 4 – NICHOS DE MERCADO DO PERITO O termo perícia vem do latim peritia, que significa “conhecimento adquirido pela experiência”, tendo como palavras relacionadas: ciência, experiência, habilidade, sabedoria, prática ou arte. Podemos dizer que a perícia é um trabalho profissional realizado por um indivíduo que apresenta habilidades específicas e conhecimento especial em algum assunto, ou seja, um especialista (Lopes, 2018; Sá, 2019). O mercado da contabilidade e o mundo dos negócios têm se mostrado cada vez mais competitivos, tecnológicos e ativos. Nada diferente do mercado da perícia contábil, que exige que os profissionais sejam cada vez mais intrépidos, com habilidades diferentes, pensamentos inovadores, sempre alinhados com novas tecnologias e competências (Bueno; Franco, 2021). Essas particularidades da especialidade do profissional definem os nichos de mercado para os peritos. Tais segmentos consideram necessidades que vão ao encontro da experiência e da reputação. São muitas as oportunidades de atuação de um profissional perito, conforme exemplifica o quadro a seguir. Quadro 7 – Perito: possibilidades de serviços Exames periciais complementares e suplementares Laudo de perito nomeado por Juiz ou árbitro Parecer sobre laudo de outro perito Serviços de análises preliminares Notas técnicas de clarificação Avaliações de conformidade Testemunho técnico Junta de peritos Júri técnico Fonte: Hoog, 2012. A nomeação de um perito pela autoridade do juiz será acordada conforme as especialidades do perito. Por exemplo, conhecimento ligado a áreas trabalhistas, comercial, contábil e tributária. Um dos maiores contratempos 16 enfrentados pelos peritos está na adaptação às novas tecnologias, considerando a adoção do Processo Judicial Eletrônico, que fez com que os trabalhos de resolução de litígios passassem a ser executados e apresentados por meio eletrônico, o que exigiu diversas adaptações do profissional (Bueno; Franco, 2021). Os nichos de mercado do perito variam conforme o seu portfólio de conhecimento e a sua conduta profissional. Grandes possibilidades podem ser demandadas por um seleto grupo de pessoas com diferentes interesses econômicos, financeiros e contábeis, com prioridades específicas e notórias para o desenvolvimento da prestação de serviços (Hoog, 2012). Sabemos que o mercado de trabalho para o perito é muito lucrativo. No entanto, é menos explorado do que poderia. Isso acontece por conta dos desafios que precisam ser enfrentados para que a perícia se torne uma fonte de renda única. Podemos nos perguntar: “Quais são os desafios presentes na perícia contábil? O que o perito pode fazer para que esteja pronto para enfrentar esses desafios? São perguntas pertinentes, pois os desafios surgem no desenvolvimento da atividade, de modo que é preciso estar preparado para solucionar conflitos, pois essa atitude diferencia o profissional. Quando um perito se especializa em algo, ele expande o seu nicho de mercado, o seu portfólio profissional (Hoog, 2012). Hoog (2012) relata fatores que compõem o nicho de mercado, para além da especialização: • Qualidade do serviço: baixos, moderado, alto, estratégia e agilidade em resolução de conflitos; • Marketing profissional: publicações, educação continuada, infraestrutura, etiqueta profissional; • Área geográfica: cidades, estados ou países aptos para a atuação; • Preço: alto, moderado, baixo, descontos e formas de pagamento; • Garantia: conhecimento científico, autonomia, confiabilidade, independência de juízo, lealdade contatada. A NBC PP 01 (R1), de 2020, determina que o profissional deve se atentar às seguintes responsabilidades: 17 • Reconhecer obrigatoriedade ética e de direito, lealdade, honestidade, idoneidade na resolução de suas atividades, com ciência das penalidades e sanções; • Responsabilidades sociais, éticas, profissionais e legais presentes no ato de aceitação do trabalho solicitado pelo juiz; • Garantir imparcialidade no desenvolvimento de suas atribuições, além de igualdade de tratamento entre as partes, principalmente entre os peritos- assistentes. Para finalizar esta seção, todo profissional precisa estabelecer, de acordo com suas habilidades, o seu nicho de mercado. Além disso, por meio do Programa de Educação Continuada e de literaturas relacionadas à especialização, ele deve se aperfeiçoar. Saiba mais Muitos profissionais de contabilidade se perguntam sobre o mercado de trabalho de perícia, expressando receio quanto à área e muitas vezes não encontrando oportunidades de trabalho. O juiz arbitral, perito grafotécnico e professor Gleibe Pretti, em seu canal Jus Expert, destaca a importância de confiar no seu trabalho e de não sentir medo. O perito não deve ter receio da quantidade de pessoas que encontra na mesma profissão, poisse o profissional se dedica e dá o melhor de si, logo as portas se abrem. Saiba mais: COMO É o mercado de trabalho para o perito judicial? Jus Expert, 2022. Disponível em: . Acesso em: 16 fev. 2023. TEMA 5 – PANORAMA PROFISSIONAL DE EXCLUSIVIDADE NO BRASIL Nesta etapa, desenvolvemos conceitos fundamentais, considerando a finalidade de uma perícia, a busca social pela verdade dos fatos administrativos, as irregularidades administrativas e contábeis que justificam a perícia, além do nicho de mercado da área. Considerando esse contexto, vamos analisar o artigo publicado por Miranda et al. (2020), que trabalha o tema da exclusividade profissional. O objetivo dessa pesquisa é apresentar um panorama da atividade profissional do perito no Brasil. É importante destacar as especificidades apresentadas por essa pesquisa, que utilizou o banco de dados do Cadastro Nacional de Peritos Contábil (CNPC). 18 O levantamento desenvolvido encontrou 556 peritos em todas as regiões do país. Os autores utilizaram um enfoque quali-quanti, por meio de análise descritiva dos dados e uma análise das diferenças significativas na avaliação de variáveis não paramétricas. A pesquisa foi respondida de dezembro de 2019 a janeiro de 2020, com três ondas de envios por e-mail e questionários desenvolvidos pelo sistema Lime Survey. 5.1 Noções preliminares Primeiramente, ficou evidente que os homens são maiorias: 72,5% da amostra, somando 403 peritos, com faixa etária média de 47 anos e 11,5 anos de experiência média na área. O perito contábil costuma atuar individualmente na maior parte das vezes, principalmente na esfera judicial, com maior concentração nas áreas financeira, contábil e trabalhista. A exclusividade é o ponto de destaque desta seção. Antes, vale ressaltar a autonomia profissional. Em sua maioria, os pesquisados atuam como profissional autônomo no cadastro de peritos: 74,6% exercem atividade como pessoa física e 11,5% como pessoa jurídica. Podemos observar que 86,1% são autônomos e que 13,9% dos profissionais estão distribuídos entre funcionários de escritórios de perícia ou advocacia, sócios de escritórios de perícia e servidores públicos, como controladores e departamentos de polícia. A declaração dos profissionais mostrou, em janeiro de 2020, que mais da metade (53,6%) dos pesquisados não tem a perícia como sua atividade principal. Essa população justificativa esse fato por sua insatisfação com a remuneração da área. Figura 1 – Percentual de rendimentos da perícia versus exclusividade profissional Fonte: Miranda et al., 2020. 53,6% dos rendimentos 21,9% dos rendimentos 24,5% dos rendimentos Até 30% (baixa exclusividade) De 31% a 70% (média exclusividade) Acima de 70% (alta exclusividade) 53,6% dos rendimentos 19 5.2 Soluções levantadas sobre a exclusividade em perícia Os peritos pesquisados que se dedicam a essa função exclusivamente somam apenas 24,5% da amostra, o que nos leva a perguntar: Por que encontramos adesão tão baixa aos serviços periciais entre os profissionais registrados? Os profissionais pesquisados listam diversos problemas enfrentados no desenvolvimento da função, como falta de apoio dos conselhos de classe com aplicações e defesas de atividade; dificuldade de entendimento nos processos de nomeação de peritos; além de outras adversidades que não foram sanadas com a introdução do CNPC. Assim, podemos supor que, se os órgãos responsáveis pela normatização, fiscalização, regulação, além de outras entidades vinculadas, atuarem em busca da solução dos problemas levantados, certamente teremos uma melhor aderência profissional de novos peritos no CNPC. 5.3 Resultados De modo geral, os peritos concordam que a atividade de perícia é pouco considerada nas universidades. Por conta disso, os acadêmicos finalizam o curso de graduação sabendo pouco sobre o assunto. Contudo, admite-se que a perícia é valorizada na sociedade. Assim, aqueles que priorizam a profissão acreditam cada dia mais que verão melhorias na área, considerando que as novas tecnologias alteram as perspectivas de trabalho, aumentando a satisfação aos trabalhadores da perícia. Os resultados evidenciados no artigo, tendo em vista a responsabilidade atribuída ao perito contábil, nos levam a refletir sobre a fragilidade do fio que liga o perito à sua atividade profissional. Reflita sobre a questão da exclusividade. Avalie se concorda com os achados de Miranda et al. (2020) e pondere as suas expectativas para a atividade profissional de perícia contábil, levantando questionamentos sobre a atribuição de responsabilidades e a fixação de remuneração dos dias atuais. 20 REFERÊNCIAS BUENO, A. de M.; FRANCO, C. C. da S. A carreira e os desafios para se tornar um Perito-Contador. Revista Núcleo do Conhecimento, v. 1, p. 173-186, 2021. Disponível em: . Acesso em: 16 fev. 2023. CFC – Conselho Federal de Contabilidade. NBC PP 01 (R1), de 19 de março de 2020. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 20 mar. 2020. CFC – Conselho Federal de Contabilidade. Resolução CFC n. 1.328, de 22 de março de 2011. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 23 mar. 2011. HOOG, W. A. Z. Prova pericial contábil: Aspectos práticos e fundamentais. 10. ed. Curitiba: Juruá, 2012. LOPES, A. C. T. Perícia contábil sem enrolação. São Paulo: Editora Biblioteca 24 horas, 2018. MAGALHÃES, A. de D. F. Perícia contábil. 8. ed. São Paulo: Atlas, 2017. MIRANDA, J. et. al. Perícia Contábil: Um panorama de seus profissionais e de suas atividades no Brasil. In. CONGRESSO INTERNACIONAL DE CONTABILIDADE DA USP, 20, 2020, São Paulo. Anais... São Paulo, 2020. Disponível em: . Acesso em: 16 fev. 2023. SÁ, A. L. de. Perícia contábil. 11 ed. São Paulo: Atlas, 2019. _____. Teoria da contabilidade. 3. ed. São Paulo: Atlas, 2002.