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Situações especiais de intervenção nutricional na gestação Professor(a) autor(a)/conteudista Dra. Daniela Caetano Gonçalves Professor(a) revisor(a) Profa. Ma. Ana Paula Fioreti Parreira Lima É vedada, terminantemente, a cópia do material didático sob qualquer forma, o seu fornecimento para fotocópia ou gravação, para alunos ou terceiros, bem como o seu fornecimento para divulgação em locais públicos, telessalas ou qualquer outra forma de divulgação pública, sob pena de responsabilização civil e criminal. Sumário Unidade 1 – Fatores clínico-sociais: adolescência e anemia ..........................4 1 A gestante adolescente ................................................................................ 4 1.1 Avaliação nutricional .............................................................................. 6 1.2 Recomendações nutricionais ............................................................... 11 2 A gestante com anemia .............................................................................. 14 2.1 Diagnóstico e conduta ......................................................................... 16 Unidade 2 – Fatores clínico-sociais: diabetes e hipertensão gestacional ......18 3 A gestante com diabetes ............................................................................ 18 3.1 Diagnóstico do diabetes gestacional ................................................... 21 3.2 Terapia nutricional para DMG............................................................... 22 3.3 Terapia nutricional para gestante com DM .......................................... 24 4 A gestante com síndrome hipertensiva gestacional (SHG) ........................ 25 4.1 Classificação das SHG ......................................................................... 26 4.2 Diagnóstico .......................................................................................... 28 4.3 Tratamento ........................................................................................... 29 Unidade 3 – Fatores nutricionais: desnutrição e obesidade .........................31 5 A gestante desnutrida ................................................................................ 31 5.1 Necessidades energéticas ................................................................... 31 5.2 Conduta nutricional .............................................................................. 31 6 A gestante obesa ........................................................................................ 32 6.1 Necessidades energéticas ................................................................... 33 6.2 Conduta nutricional .............................................................................. 33 Unidade 4 – Fatores comportamentais: atividade física e vegetarianismo ....34 7 A gestante ativa/atleta ............................................................................... 34 7.1 Fontes energéticas para a contração muscular ................................... 35 7.2 Metabolismo e exercício aeróbio na gestação ..................................... 37 7.3 Recomendações de nutrientes para gestantes ativas ......................... 39 7.4 A grávida atleta e de elite ..................................................................... 41 8 A gestante vegetariana ............................................................................... 43 8.1 Riscos e benefícios relacionados à dieta vegetariana na gestação .....44 8.2 Conduta nutricional .............................................................................. 44 Conclusão...................................................................................................... 49 Glossário ....................................................................................................... 50 Referências bibliográficas ............................................................................. 50 Bibliografia clássica ................................................................................... 50 Bibliografia geral ........................................................................................ 54 4/54 Unidade 1 – Fatores clínico-sociais: adolescência e anemia A gestação é um período constituído por, aproximadamente, 40 semanas, que se inicia com a concepção e termina com o parto. Desde o primeiro trimestre ocorrem grandes modificações biológicas, por ação de hormônios, tais como progesterona, estrogênio, insulina e hormônio lactogênio placentário. As principais alterações fisiológicas correspondem à dinâmica cardiovascular, às funções respiratória, renal, gastrointestinal, gustativa e olfativa e ao metabolismo glicídico. Tais mudanças predispõem a gestante a situações especiais como náuseas e vômitos, pirose, constipação intestinal, anemia, hiper- tensão arterial, pré-eclâmpsia e diabetes. Além do que já foi citado, o período gestacional é marcado por alterações profundas no estilo de vida da mulher, provocando mudanças na vida pessoal, na dinâmica do casal e de toda a família, além de influenciar em questões psicológicas. Para que tais alterações não ocasionem risco à saúde da mulher ou do feto, uma atenção pré-natal adequada deve ser iniciada precocemente (no primeiro trimestre) e incluir atitudes como solicitação de exames indicados, avaliação de queixas e riscos, e verificação do entendimento das informações pres- tadas. A partir das informações coletadas no cuidado pré-natal e identificadas as situações especiais de intervenção nutricional na gestação, podem ser instituídos tratamentos individualizados. Nas consultas posteriores é possível analisar os tratamentos instituídos e sua adesão por parte da gestante. Este material tem como objetivo apresentar algumas situações especiais que requerem intervenção nutri- cional na gestação, tais como desnutrição, obesidade, anemia, diabetes e síndromes hipertensivas na ges- tação, assim como as necessidades diferenciadas das gestantes adolescente, vegetariana e ativa/atleta. 1 A gestante adolescente A gestação na adolescência é considerada gestação de risco por inúmeros fatores. A taxa de mortali- dade materna encontrada em adolescentes grávidas varia de acordo com o país. Entretanto, sabe-se que há uma estimativa de 20% nos Estados Unidos contra 50% na América Latina. Cerca de 80% das gestan- tes adolescentes encontradas vivem em países em desenvolvimento (ACCIOLY; SAUNDERS; LACERDA, 2010). Dessa forma, verifica-se que a incidência de gestantes adolescentes e a taxa de mortalidade materna estão relacionadas diretamente a condições socioeconômicas. A gestante adolescente apresenta maior risco, pois é considerada em estado de imaturidade biológica para atingir o termo (40 semanas gestacionais). Além disso, considerando a má nutrição um impor- tante fator de risco gestacional, adolescentes costumam apresentar hábitos alimentares inadequados, bem como deficiência de importantes micronutrientes como ferro, vitamina A, ácido fólico, vitamina B6, cálcio, zinco e magnésio. Outros problemas importantes que devem ser considerados na adolescente gestante estão relacionados a aspectos psicossociais, pois se sabe atualmente que mães adolescentes estão mais sujeitas a apresentar problemas de saúde mental do que as adultas. 5/54 Os fatores que influenciam o resultado obstétrico entre gestantes adolescentes são: • idade materna (gestantes caucasianas com idade inferior a 15 anos têm maior risco); • condições socioeconômicas (mulheres não brancas, solteiras, com baixo nível socioeconômico e baixa escolaridade têm maior risco); • estado nutricional (gestantes com baixo peso têm maior risco); • consumo alimentar (hábitos alimentares inadequados, como baixo consumo de FLV (frutas, legumes e verduras), alto consumo de carboidratos refinados e gorduras indicam maior risco gestacional); e • outros fatores (algumas características como doenças sexualmente transmissíveis, estresse, pequeno intervalo intergestacional e multiparidade podem aumentare devem ser considerados antes da prescrição da dieta. O valor energético da gestação considerado normal é calculado em cerca de 300 kcal por dia além do necessário para uma mulher não grávida. Considerando que cerca de um terço das calorias é respon- sável pelo acréscimo de gordura materna, o restante é utilizado essencialmente para o metabolismo de novos tecidos originados na mãe e no feto. Porém, a ingesta de calorias e o ganho de peso variam grandemente. O peso da mãe antes da gravidez e o consumo energético diário são elementos influencia- dores no apetite e que se refletem no consumo de energia e no ganho de peso materno. https://player.vimeo.com/video/837024900 35/54 Em nenhum outro momento da vida adulta ocorrem extensas modificações fisiológicas tão significa- tivas quanto no período gestacional. As funções maternas têm sua regularização conduzida por um grande número de hormônios, incluindo os hormônios gestacionais produzidos na placenta: estrogê- nio, progesterona, prolactina e lactogênio placentário. Esses hormônios têm a importante função de assegurar o substrato correto que abastece o feto por meio de catabolismo dos depósitos de energia da mãe, e são secretados autonomamente de acordo com as solicitações diárias e variáveis do meta- bolismo materno. 7.1 Fontes energéticas para a contração muscular A energia para a manutenção de nossas funções fisiológicas é derivada do alimento que consumimos. Ao serem digeridos, os nutrientes (proteínas, carboidratos e gorduras) liberam energia, que é armaze- nada como trifosfato de adenosina (ATP – adenosine triphosphate), única forma de energia com a capa- cidade de ser transformada em outros estados de energia utilizados por células vivas. Havendo ATP acessível, o movimento ocorre como contração muscular esquelética. No decorrer do exercício, a fabricação de energia nas células musculares é alcançada por meio da hidró- lise do ATP em difosfato de adenosina (ADP, adenosine diphosphate) e fosfato inorgânico (iP, inorganic phosphate) (ADP + iP) por meio da enzima ATPase. Essa quebra leva à liberação da energia contida nas ligações químicas dos grupos fosfato, permitindo a contração muscular por meio do deslizamento entre os filamentos de actina e as pontes cruzadas de miosina. A quebra e a ressíntese do ATP se fazem necessárias constantemente durante o exercício, e três meca- nismos são utilizados para esse objetivo: o sistema fosfagênio e o sistema glicolítico (ambos anaeró- bios, ou seja, não utilizam o oxigênio para produzir energia) e a fosforilação oxidativa, em que a presença de oxigênio é obrigatória para que aconteçam a quebra e a ressíntese de ATP. O sistema fosfagênio compõe um abastecimento imediato de energia específico para estímulos máxi- mos como os de força máxima e explosão. A fadiga acontece rapidamente, a exemplo dos levantamen- tos de peso e corridas de 100 metros. É uma fonte de energia imediata, porém com capacidade limitada. O sistema fosfagênio consta das reservas intramúsculo de ATP e fosfocreatina (PCr). O agrupamento de ATP na musculatura esquelética humana é diminuto, por isso o sistema fosfagênio consegue doar energia para somente 1 a 2 segundos de contração muscular vigorosa. O PCr, por sua vez, apresenta estoques de 3 a 5 vezes mais altos do que o APD no citoplasma da célula muscular e grande potencial de transferência do fosfato, sendo a liberação de energia catalisada pela enzima creatina cinase. Essa energia liberada é usada para unir o fosfato a uma molécula de ADP, produzindo ATP. A produção de PCr durante a recuperação é veloz e ocorre em cerca de 30 segundos para a ressíntese de 50% da reserva do repouso. Conforme a contração muscular no exercício físico continua, outras origens de produção de energia são exigidas. O sistema glicolítico ou glicose anaeróbia é outro recurso de reposição rápida de ATP e envolve uma série de reações sequenciais de oxidação da glicose do sangue ou do glicogênio conservado no músculo, em um processo que acontece no citosol das fibras musculares, sem a presença de oxigênio. 36/54 A degradação da glicose intracelular das fibras musculares tem como resultado a produção inconversí- vel de glicose 6-fosfato (G6-P) através da enzima hexocinase. A formação da glicose a partir do glicogê- nio ocorre por meio da glicogenólise, tendo como produto final a glicose 1-fosfato (G1-P) e uma molécula de glicogênio com um resquício de glicogênio a menos. Esta G1-P é transformada em G6-P e continua na via glicolítica, resultando na produção de duas moléculas de piruvato após uma sequência de reações. O piruvato, então, pode prosseguir por dois caminhos: produzir lactato por glicólise anaeróbia – o que resultará no emprego de aproximadamente 10% da energia absoluta da glicose – ou formar acetil-CoA, que adentra na mitocôndria e é metabolizado na via oxidativa. A formação de lactato é primordial para o músculo gerar nicotinamida-adenina dinucleotídeo (NAD+) para sustentar a regeneração constante de ATP da glicólise. A glicólise anaeróbia tem pouca capacidade em ATP, assim como o sistema fosfagênio, e é a fonte básica de energia para exercícios vigorosos com duração de 1 a 2 minutos, em que as reservas de glico- gênio muscular são utilizadas rapidamente e com grande formação de lactato, a exemplo das corridas de 400 e 800 metros. Conforme os sistemas respiratório e circulatório são requisitados, a fosforilação oxidativa para a ressín- tese de ATP se torna dominante. Simultaneamente à oxidação completa da glicose, aumenta o abaste- cimento de ácidos graxos livres (AGL) para a musculatura, em um procedimento dependente da atuação da adrenalina no tecido adiposo. No metabolismo aeróbio, grande parte do piruvato culmina na produção de acetil-CoA. Esse piruvato é consequente da oxidação segmentada dos AGL, da glicose, do catabolismo de gorduras (lipídeos) e, em quantidades mais baixas, dos aminoácidos. Na mitocôndria, ingressa no ciclo de Krebs (ou ciclo do ácido tricarboxílico) e se combina com o oxaloacetato, produzindo citrato, que após inúmeras reações forma o trifosfato de guanosina (GTP, guanosine triphosphate), cujo parâmetro energético é o mesmo do ATP. O oxaloacetato é continuamente recuperado ao término de cada sequência do ciclo de Krebs, que pode oxidar acetil-CoA incessantemente sem consumo real do oxaloacetato. O ciclo de Krebs não cria sozinho o ATP em grande volume, porém colabora para a produção de grande porção do ATP formado pela célula. A energia produzida pela oxidação do acetil-CoA é mantida como coenzimas de nome NAD+ e flavina adenina dinucleotídeo (FAD). Essas coenzimas recebem átomos e elétrons de hidrogênio formados pelo ciclo de Krebs, convertendo-se em NAD reduzido (NADH) e FAD reduzido (FADH2). Sua oxidação é feita impreterivelmente pela cadeia de transportes de elétrons, em que o oxigênio aceitará os elétrons nela mantidos para ligar-se aos íons H+, produzindo água. Esse amplo volume de energia aplicada para fosforilar ADP é o que conduz à regeneração do ATP. É relevante destacar como as vias metabólicas na formação de ATP interagem conforme o exercício ocorre. Cada um dos três sistemas é requerido com variações em sua contribuição para a totalidade de energia exigida na maior parte do tempo em que a atividade física ocorre. O suprimento de energia segue continuamente e obedece às solicitações de duração e intensidade do exercício. 37/54 Figura 3 – Contribuição dos três sistemas produtores de energia durante a progressão do exercício físico Energia imediata: sistema fosfagênio Energia a longo prazo: processos aeróbios Tempo (min) Energia a curto prazo: glicólise anaeróbia 0 0,5 1 0 2 3 4 Fonte: Lopes e Zugaib (2010). Quando o exercício é de esforço máximo e de curta duração, o sistema de fosforilação oxidativa é lento e diminutamente ativado, não conseguindo prover as necessidades de energia da contração muscular. Consequentemente, o metabolismo anaeróbio se converte na origem dominante de energia.Quando os exercícios têm características moderadas e prolongadas, a energia é conquistada através das vias oxidativas em porções relativamente iguais de oxidação dos lipídeos e carboidratos. Caso o exercício prossiga por horas, a oxidação dos AGL admite destaque crescente conforme os estoques de glicogênio muscular decrescem. De outra forma, as proteínas apresentam pequeno papel como substrato no decor- rer do exercício, porém sua função pode ter discreto aumento durante o exercício prolongado. Os indivíduos aerobiamente treinados economizam estoques de glicogênio muscular, pois apresentam maior eficiência na oxidação de lipídeos em comparação aos carboidratos decorrentes do acréscimo das enzimas vitais, da degradação de AGL no acetil-CoA para o ciclo de Krebs, do incremento na eficiên- cia de captação de AGL da circulação e do aumento na eficácia de translado de AGL do citoplasma para as mitocôndrias. Ademais, acontecem modificações no funcionamento das enzimas participantes no ciclo de Krebs e na cadeia de transporte de elétrons, elevando a eficiência para produzir ATP aerobiamente. É notório o acréscimo de tamanho e da quantidade de mitocôndrias no sítio, aprimorando a função oxidativa da musculatura e sua performance durante o exercício. 7.2 Metabolismo e exercício aeróbio na gestação A função da glicose é essencial tanto para a musculatura esquelética materna em exercício quanto para o feto em desenvolvimento, e o metabolismo energético na gravidez ativa deve ser bem compreen- dido. Logo na gravidez inicial observa-se acréscimo da captação de glicose circulante e diminuição da lipólise: esse mecanismo colabora para a armazenagem de gorduras, que são importantes reservas de energia para suprir condições de maior demanda, como o período final da gestação, quando o feto requer mais energia para seu desenvolvimento. 38/54 Conforme a gravidez evolui (e, como consequência, o gasto energético também aumenta), outros recur- sos de conservação de glicemia colaboram para sua preservação, como o aumento da resistência à insulina, que diminui a captação de glicose na célula e conserva sua concentração no sangue. Esses processos garantem que a glicemia da grávida se mantenha adequada durante as altas demandas de energia impostas pela fisiologia da gravidez. Durante o exercício, o equilíbrio da glicemia entra em estresse, pois a musculatura esquelética solicita glicose, podendo diminuir a glicose circulante e privar o feto de uma quantidade suficiente de nutrientes. Com efeito, o exercício físico incentiva a captação continuada de glicose do sangue e a amplitude da captação se eleva conforme a intensidade da atividade. Figura 4 – Intensidade do exercício e metabolismo de energia VO2 (%) x Metabolismo energético predominante AGL 1 2 3 AGL + Glicose Glicose Estágios 100 80 60 40 20 0 1 - Predominância da utilização de ácidos graxos livres (AGL). 2 - Maior utilização da glicose como substrato de energia, por glicogenólise e neoglicogênese. 3 - Elevação de glucagon, com predomínio de glicose como fonte energética. Dados não específicos para grávidas, e sim para população geral. Fonte: Lopes e Zugaib (2010). Em exercícios aeróbios considerados leves, a 40% do VO2, a diminuição de insulina combinada ao acrés- cimo de catecolaminas compreende o aumento da mobilização de ácidos graxos livres (AGL). Em con- sequência, a gordura é fator significativo no aporte energético em exercícios mais leves, contribuindo na preservação da glicemia. No entanto, conforme ocorre a elevação de intensidade do exercício, a glicose tem maior atividade na contribuição energética: nos exercícios físicos leves a moderados (entre 40% e 60% do VO2) o ajuste glicêmico ocorre dividido entre o metabolismo no fígado por glicogenólise ou neoglicogênese e a captação periférica. Tais mecanismos são em geral mantidos durante a gestação. 39/54 Em exercícios físicos considerados intensos – acima de 70% do VO2 máximo – observa-se elevação do hormônio estimulante que libera glicose, o glucagon. Dessa forma, ocorre aumento na taxa glicêmica, o que faz aumentar disparadamente a obtenção de glicose periférica, induzindo certa preocupação quanto ao decréscimo de energia efetiva para o feto. Alguns estudos em animais apontam baixo glicogênio hepático no feto, promovendo a ideia de que o exercício físico extenuante pode diminuir o acesso de substrato energético para o feto, comprometendo assim o seu desenvolvimento em longo prazo. É lícito ponderar que a intensidade e a duração do exercício físico participam no decréscimo de glicose, porém considera-se que o exercício regular e controlado causa adaptações atuantes no acionamento e na utilização de substrato energético. O treinamento aeróbio acarreta modificações na liberação de substratos energéticos, gerando proces- sos de captação e metabolização mais efetivos. Contudo, é necessário ponderar que o aumento na mobilização de glicose do sangue para a célula tem consequências importantes, pois submete a grávida a uma suscetibilidade maior a eventos hipoglicêmicos, especialmente no final da gravidez. O benefício do exercício somente será válido enquanto a gestante mantiver ingestão calórica constante e adequada. 7.3 Recomendações de nutrientes para gestantes ativas Em relação à prescrição de exercício para gestantes e sua dieta, são primordiais a saúde e a segurança da gestante e do feto, analisando a relação entre a alta demanda do metabolismo materno-fetal e os fatores externos. As necessidades nutricionais das grávidas ativas não foram conclusivamente estudadas, pois existe variação em relação ao tipo e à quantidade de exercício físico que elas praticam. Para uma estimativa sobre as necessidades de energia para a gestante que faz exercícios físicos, é preciso somar a energia correspondente àquela gasta no decorrer da prática da atividade física com aquela necessária à manu- tenção dos estoques energéticos maternos, levando ainda em consideração seu peso corporal anterior à gravidez. Se a curva do aumento de peso materno-fetal apresentar queda anormal em qualquer estágio do desenvolvimento da gravidez, devem ser adicionadas mais calorias à dieta, e a grávida fisicamente ativa precisa ter estímulos para comer de acordo com o seu apetite, porém essa ingesta deve ser con- trolada e com ajustes diários. Aconselha-se uma dieta rica em carboidratos complexos para melhor reposição do glicogênio muscular utilizado durante o exercício. A gestação requer mais necessidades proteicas, e é útil apoiar a orientação de consumo de proteínas para assegurar uma dieta rica em energia proveniente não somente de carboidratos e gordura. A pro- teína é utilizada como energia muscular e como substrato para a gliconeogênese durante o repouso ou exercício, e esse consumo pode ser aumentado com a atividade física. O ferro está presente na hemoglobina e mioglobina, que são utilizados para transportar oxigênio, e parti- cipa na liberação de energia nos citocromos. Esses elementos são aumentados durante o treinamento, e é esperado que a utilização de ferro também aumente. A recomendação é que a ingesta de ferro deve ser garantida à gestante fisicamente ativa com reserva aproximada de 800 mg de ferro na metade da gravidez até seu término. Entretanto, a literatura não indica necessidades extras de ferro à grávida ativa em relação à grávida sedentária. Ambas devem garantir os estoques maternos de ferro com um suplemento de 30 mg. 40/54 Tabela 6 – Gasto aproximado de energia em alguns exercícios de alta intensidade Atividade Gasto energético (kcal/kg/h) Andar no plano sem sobrecarga 3 km/h 4 km/h 4,5 km/h 2,6 2,9 3,3 Andar ladeira acima, 3 km/h inclinação de 10% inclinação de 20% 5,4 8,3 Correr Cross country (4,5 a 6,5 km/h) Pista (16 km/h) 9,7 16,7 Andar de bicicleta 8,5 km/h 16 km/h Corrida 3,4 6,5 10,1 Dançar Valsa Quadrilha Aeróbica 5,0 8,0 10,0 Nadar Pausadamente Livre rápido De peito ou costas 4,5 9,3 9,6 Fonte: Artal, Wiswelle Drinkwater (1999). A gestante ativa tem necessidade maior de reposição de água para garantir o controle de temperatura do corpo, a hidratação corporal durante o exercício e a expansão do volume de água corporal total inerente à gestação. Em uma sessão de exercícios físicos extenuante, até 4% de água do corpo pode ser perdida, o que se equipara a 2.700 g em um indivíduo de 70 kg. Essa diminuição de água corporal acarreta uma perda no volume sanguíneo circulante, levando à redução da capacidade de dissipação de calor em um próximo momento de exercício, o que pode ser prejudicial à mulher grávida. A hipertermia causada por exercícios físicos pode causar anomalias congênitas, em especial defeitos no tubo neural. A gestante deve ser estimulada a consumir pelo menos um copo de líquido a cada 15 minutos de treino. O consumo de sódio deve ser orientado principalmente para a gestante ativa, pois as perdas acentuadas de sódio durante o exercício são prejudiciais e as bebidas com reposição de eletrólitos podem ser úteis durante e após o treino para reidratação, principalmente em temperaturas elevadas, para garantir a expansão do líquido extracelular, tão importante no desenvolvimento gestacional. 41/54 7.4 A grávida atleta e de elite As atletas profissionais são exigidas a manter seus treinamentos durante as temporadas de competição e, mesmo durante os períodos de descanso, continuam com um programa de exercícios, ainda que adap- tado. Se a atleta deseja a gravidez, esse período parece ser o mais indicado. Alguns pontos integram as grandes preocupações das atletas em relação à gestação, como a conse- quência da gestação em sua capacidade esportiva, a repercussão do treinamento de elite no desen- volvimento da gravidez e no feto e o modo de retornar ao condicionamento físico anterior à gestação. O fato é que muitas atletas gestantes se expõem a riscos por estarem acostumadas ao treinamento de alta intensidade. Uma grande preocupação da maioria das atletas está na contenção do aumento de peso durante a gravidez, fator que pode levar algumas gestantes a reduzir a ingesta de gorduras, carboidratos e até de proteínas. A dieta da atleta gestante deve incluir recomendações específicas, além do valor de uma alimentação adequada. A dieta não adequada pode levar ao baixo peso na gravidez, fator que está rela- cionado a um crescimento intrauterino inadequado, defeitos no tubo neural e má-formação congênita. A recomendação para a gestante atleta é a de que ela disponha de acompanhamento nutricional contínuo no decorrer da gravidez para assegurar o ganho de peso correto para ela e o feto, diminuindo assim possíveis danos ao feto. Outra questão refere-se ao uso de esteroides anabolizantes durante a gravidez. Ainda que grande parte das mulheres que os utilizam se apresentam amenorreicas e não ovulem, sempre existe a possibilidade de acontecer a gravidez e, neste caso, os fetos femininos apresentam masculinização relevante. Existe uma grande preocupação com exercícios intensos no início da gravidez em relação à hipertermia e seus efeitos no tubo neural em formação no feto. A desidratação também deve ser contida, pois contribui no aumento da temperatura corporal. A gestante deve estar atenta para que sua tempera- tura não se eleve para além de 38,5 °C. Os impedimentos mais comuns no início da gestação – e que podem impactar a habilidade na competição da atleta – são os vômitos e náuseas característicos desse período. Outra preocupação se refere ao aborto espontâneo em decorrência da atividade física vigorosa, mas os estudos são inconclusivos em relação a qualquer intensidade do exercício, bem como ao período gestacional. Um fator impactante para a manutenção do treinamento e competição das atletas de elite grávidas são as modificações atuantes em ligamentos e articulações, que em alguns casos levam à total incapaci- dade física. Um exemplo é a frouxidão que pode acontecer na sínfise púbica, com variação de alguns milímetros até dois centímetros, em casos mais acentuados. O grau de frouxidão determina a incapaci- dade. Nesses casos, o treinamento deve ser modificado em busca da manutenção de condicionamento aeróbio, e os exercícios aquáticos são recomendados como melhor opção. 42/54 Quadro 3 – Possíveis riscos do exercício intenso para a atleta de elite grávida Riscos Orientações Maternos Lesões musculoesqueléticas Com evidência de frouxidão de articulações e ligamentos, individualizar e modificar o treinamento. Complicações cardiovasculares Pode exceder 140 bpm, mas apenas depois de exame médico. Sinais de alerta: palpitações e taquicardia em repouso, qualquer sinal de hipotensão ortostática. Ameaça de trabalho de parto prematuro Parar de treinar. Hipoglicemia Seguir nutrição adequada. Fetais Sofrimento fetal Estar atenta à atividade fetal. Na presença de qualquer complicação, parar de treinar e retomar depois de exame médico. Crescimento intrauterino retardado Parar de treinar. Má-formação fetal Evitar hipertermia e desidratação imediatamente após a concepção e semanas seguintes. Lesões fetais Evitar esportes com alta probabilidade de traumatismo fechado após a 16ª a 20ª semana de gestação. Fonte: Artal, Wiswell e Drinkwater (1999). Estudos sugerem que o aumento do peso placentário por efeito do exercício intenso acarretaria maior peso corporal do recém-nascido, pois o desenvolvimento da placenta é um fator importante no cres- cimento do feto. Por outro lado, estudos com gestantes indicam que volumes altos de treinamento no decorrer da gravidez podem estar associados ao menor peso fetal no nascimento. Fortes indícios demonstram que o baixo ganho de peso da gestante acarreta diminuição do peso do recém-nascido. O estresse fetal que pode acontecer durante e imediatamente ao final do exercício é um fator de grande preocupação associado ao exercício durante a gestação. Por causa da redistribuição do fluxo sanguí- neo para a musculatura em exercício, ocorre uma demanda concorrente às necessidades da gravidez que pode ter como resultado um dano da corrente sanguínea para o feto e a placenta. A resposta mais comum ao exercício intenso é a taquicardia fetal, caracterizada por frequência cardíaca fetal maior do que 100 batimentos por minuto, como resposta à diminuição do volume uterino e elevação das cateco- laminas no sangue, ou seja, hipóxia fetal. A maior parte dos conselhos sobre atividade física na gravidez advertem para os perigos de quedas e lesões, recomendando evitar alguns esportes como handebol, vôlei, basquete e artes marciais, pois essas modalidades têm elevado risco inerente de quedas e até de possíveis traumatismos abdominais. Modalidades esportivas que requerem equilíbrio podem aumentar o risco de quedas por conta das con- 43/54 tínuas modificações corporais que alteram o centro de gravidade da gestante (especialmente no último trimestre). Somadas à frouxidão ligamentar e articular natural da gestação e ao aumento do peso corpo- ral, tais modificações corporais tornam a atleta mais suscetível a lesões. A gestante atleta deve ser atendida e avaliada continuamente por uma equipe multidisciplinar. 8 A gestante vegetariana Vídeo: Vegetarianismo na gestação https://player.vimeo.com/video/837025513 A Sociedade Vegetariana Brasileira (SVB) define vegetariano como todo indivíduo que exclui de sua ali- mentação todos os tipos de carne, aves e peixes e seus derivados, podendo ou não utilizar laticínios ou ovos. Além disso, “o vegetarianismo inclui o veganismo, que é a prática de não utilizar produtos oriundos do reino animal para nenhum fim (alimentar, higiênico, de vestuário etc.)” (SLYWITCH, 2012, p. 7). São diversos os motivos que levam os indivíduos a se tornarem vegetarianos. Pode ser por questões éticas, de saúde, ecológicas, familiares, espirituais ou religiosas, filosóficas e até mesmo por não aceita- ção do paladar. A literatura internacional indica como principal motivo para adesão ao vegetarianismo a preocupação com a saúde.Entretanto, de acordo com alguns estudos realizados, no Brasil, a realidade é outra. São as questões éticas, ligadas ao juízo de valor do indivíduo, que movem os brasileiros a serem vegetarianos (SLYWITCH, 2012; SIQUEIRA; MENDES; ARRUDA, 2007). E o número de vegetarianos no Brasil vem aumentando nos últimos anos, especialmente em algumas regiões metropolitanas, com crescimento de 75% de 2012 para 2018. De acordo com uma pesquisa de opinião encomendada pela SVB para o Ibope Inteligência, em abril de 2018, 14% da população brasileira se declarou vegetariana, representando quase 30 milhões de adeptos a essa opção alimentar (SOCIE- DADE VEGETARIANA BRASILEIRA, 2018). Diante disso, os profissionais de saúde devem estar preparados para aconselhar, de maneira responsá- vel, tais indivíduos de modo a promover-lhes saúde, diante de uma decisão já tomada por outros moti- vos. Cabe aos nutricionistas, portanto, tornar o espaço do aconselhamento dietético num espaço de acolhimento, atenção, apoio, reconhecimento da pessoa e da sua cultura, e incrementar aceitação, tole- rância e compreensão, além de gerar relações de amizade e afeto. Somado a isso, é claro, o profissional deve estudar as práticas alternativas de alimentação de forma honesta e séria, compreendendo-as como uma busca por um sentido na vida e não simplesmente como modismos e atitudes pseudocientíficas (BOOG, 2013). https://player.vimeo.com/video/837025513 44/54 De acordo com a American Dietetic Association (ADA), Associação Dietética Americana, as dietas vegetarianas, se bem planejadas, são apropriadas durante todos os estágios dos ciclos de vida, incluindo a gravidez. Uma afirmação semelhante é compartilhada pela Associação Dietética Cana- dense (PICCOLI, 2015). 8.1 Riscos e benefícios relacionados à dieta vegetariana na gestação Os riscos relacionados à dieta vegetariana inadequada durante a gestação são: baixo peso ao nascer; más-formações, especialmente, das vias urinárias; distúrbios neurológicos; síndromes hipertensivas (pré-eclâmpsia, eclâmpsia, hipertensão, com ou sem proteinúria); ganho de peso materno inadequado; ruptura prematura das membranas; aborto e parto prematuro. Entretanto, os resultados dos estudos são heterogêneos e controversos. Além disso, é demonstrado que, se as gestantes vegetarianas recebem acompanhamento profissional, os resultados da gravidez são semelhantes aos relatados nas gestantes onívoras (SILVA et al., 2018; PICCOLI, 2015). As gestantes vegetarianas também estão mais suscetíveis ao risco de deficiência de nutrientes, quanto mais restrita ou desequilibrada for a dieta. Os principais déficits nutricionais nessa fase são de proteína, ferro, cálcio, zinco, ácido fólico, vitamina B12, vitamina D e ômega-3 (SILVA et al., 2018). Por outro lado, [...] um crescente número de evidências científicas tem indicado que as dietas vegetarianas oferecem vantagens significativas em relação às dietas onívoras, principalmente, devido ao reduzido teor de gorduras saturadas, de colesterol, de proteína animal, além de apresentarem maior conteúdo em fibras, carboidratos complexos e antioxidantes, que exercem impacto positivo na prevenção e no controle de doenças crônicas não transmissíveis (SIQUEIRA; MENDES; ARRUDA, 2007, p. 230). Sempre foram motivo de preocupação as grandes quantidades de fitato (um composto capaz de quelar minerais, reduzindo a absorção destes no intestino) que as dietas vegetarianas contêm. Entretanto, “estudos mais recentes têm demonstrado o papel do fitato no combate à carcinogênese, às doenças cardiovasculares e na inibição da produção de radicais livres” (SIQUEIRA; MENDES; ARRUDA, 2007, p. 230). 8.2 Conduta nutricional A adequação das dietas vegetarianas ocorre pela variedade de alimentos que as compõem. Quanto maior a diversificação, maior é a chance de que todos os nutrientes sejam fornecidos. É possível que todos os tipos de vegetarianos, incluindo os estritos, sejam saudáveis, mesmo as mulheres em período de gravidez. 45/54 8.2.1 Proteínas A grande preocupação com relação às proteínas nas dietas vegetarianas, especialmente nas estritas, consiste no fato de as proteínas provenientes de vegetais não conterem em sua composição todos os aminoácidos essenciais. Elas tendem a ser deficientes em um ou mais dos aminoácidos indispensáveis. Já as proteínas encontradas em fontes de origem animal, nomeadamente carne, aves, peixes, ovos, leite, queijo e iogurte fornecem todos os nove aminoácidos indispensáveis e são referidas como proteínas completas. Uma dieta inadequada em qualquer aminoácido essencial limita a síntese de proteínas no organismo (MAROTE, 2013). Além disso, outra diferença entre as proteínas de origem animal e as de origem vegetal é com relação à sua digestibilidade. As proteínas de origem vegetal são de 10% a 30% menos digeridas do que as de origem animal e, por isso, não são aproveitadas com a mesma eficiência (MAROTE, 2013). “O Índice de Aminoácidos Corrigido por Digestibilidade de Proteína (PDCAAS) é um método que avalia a propriedade de uma proteína alimentar baseando-se na sua composição em aminoácidos e respectiva digestibilidade” (GUIMARÃES; VIEIRA, 2018, p. 13). Foram calculados os PDCAAS do trigo, grão-de-bico e leite e os resultados foram 42%, 80% e 100% respectivamente, evidenciando a melhor qualidade das pro- teínas animais. Mas os resultados evidenciam, também, que as leguminosas (no caso, o grão-de-bico, 80% de PDCAAS) aproximam-se muito bem da qualidade de uma proteína de origem animal como o leite (100%). Outras fontes de proteínas vegetais que apresentam alta qualidade proteica comparada às pro- teínas de origem animal são a soja, a quinoa e o amaranto (MAROTE, 2013; GUIMARÃES; VIEIRA, 2018). Portanto, para atender à demanda proteica das gestantes veganas, é de extrema importância a ingestão variada de proteínas vegetais, equilibrando o consumo entre cereais e leguminosas diariamente, a fim de equilibrar os aminoácidos deficientes em um ou outro grupo. Vale ressaltar que os dois grupos alimenta- res não precisam estar na mesma refeição, mas precisam ser ingeridos no mesmo dia. Deve-se orientar sobre o consumo dos cereais com alta qualidade proteica (quinoa e amaranto). E lembrar sempre que o grupo das carnes deve ser substituído pelo grupo das leguminosas pelo melhor valor de PDCAAS. 8.2.2 Ferro A absorção de ferro não heme é inibida: pelo ácido fítico, encontrado nos grãos não fermentados, legu- mes, nas lentilhas e nos frutos secos; pelos polifenóis, encontrados no chá, café, vinho tinto, vários cereais, vegetais e especiarias; pela proteína de soja; e pelos ovos. O cálcio é também considerado um inibidor da absorção de ferro heme e não heme (MAROTE, 2013). Inúmeros estudos realizados nas décadas de 1980 e 1990 verificaram que as reservas de ferro, avalia- das pelos níveis de ferritina plasmática, tendem a ser mais baixas em vegetarianos, especialmente em mulheres. Nos mesmos estudos, foram encontrados valores inferiores de hemoglobina e hematócrito nos vegetarianos, comparativamente aos grupos não vegetarianos, estando, no entanto, dentro dos limi- tes da normalidade. Tais dados sugerem que há uma resposta adaptativa do organismo à absorção de ferro não heme: há redução da absorção de ferro em uma dieta com alta biodisponibilidade de ferro, enquanto há aumento da absorção de ferro em uma dieta com baixa biodisponibilidade (MAROTE, 2013). 46/54 Não são conhecidos efeitos deletérios na saúde decorrentes de baixas reservas de ferro sem anemia. Dessa forma, a suplementação com ferro deve ser preferencialmente individualizada e realizada de acordo com os níveis de hemoglobina, e não generalizada a todos os que praticam dietas vegetarianas (MAROTE, 2013). De acordo com Slywitch (2012), as dietary reference intakes (DRIs) sugerem que o profissional de saúde prescreva o dobro de ferro para vegetarianos do que prescreveria para onívoros, com base em estudos populacionais que indicam que a biodisponibilidademédia de ferro na dieta vegetariana é de 5% a 12%, contra 14% a 18% na dieta não vegetariana. Assim, a gestante vegetariana deve consumir 54 mg de ferro por dia, independentemente da idade. A absorção de ferro proveniente das dietas vegetarianas pode ser otimizada por meio da seleção e com- binação adequada dos alimentos, assim como por técnicas de preparação alimentar: • Frutas e legumes em abundância: a vitamina C e os ácidos orgânicos melhoram a disponibilidade do ferro ingerido e amenizam o efeito do ácido fítico (que dificulta a absorção do ferro, cálcio e zinco) presente nos grãos. • Numa refeição rica em ferro, evitar consumir alimentos que contenham componentes que difi- cultam a absorção desse mineral: chás (mesmo que seja de ervas), café, ácido fítico e laticínios. • Algumas proteínas presentes em ovos e derivados lácteos prejudicam a absorção do ferro. • O cálcio dificulta a absorção de ferro. É quase impossível separar os alimentos ricos em ferro dos ricos em cálcio (especialmente quando se trata de verduras), mas como o importante é a quan- tidade de cálcio ingerida, atentar-se às doses: menos de 40 mg de cálcio não inibem a absorção do ferro. A inibição máxima só ocorre quando há 300 mg de cálcio na refeição (SLYWITCH, 2014, p. 12). Além disso, deixar feijões, cereais e sementes de molho na água durante oito horas antes do cozimento para reduzir o teor de ácido fítico. Mesmo com as orientações apresentadas, dificilmente a gestante vegetariana atingirá a recomendação de ferro pela alimentação. Portanto, é recomendável sua suplementação, assim como a de ácido fólico. Para isso, revisar o tópico “A gestante com anemia”. 8.2.3 Cálcio O cálcio pode ser pobremente absorvido a partir de alimentos ricos em oxalatos (como os espinafres, a batata-doce e os feijões) e fitatos (como pão fermentado, sementes, frutos secos, grãos de soja e outros). Também a cafeína e o fósforo, se ingeridos em excesso, podem reduzir a absorção de cálcio. A cafeína, as proteínas e o sódio podem interagir com o cálcio, aumentando as perdas pela urina. Por outro lado, as frutas e legumes ricos em potássio e magnésio produzem uma carga renal alcalina elevada, que diminui a reabsorção óssea e diminui as perdas renais de cálcio (MAROTE, 2013). Entretanto, a maioria dos estudos sugere que os vegetarianos não conseguem atingir a recomendação de cálcio diária e têm maior risco de fraturas (MAROTE, 2013). Por esse motivo, pode ser necessária a suplementação de cálcio a gestantes vegetarianas com dietas pobres em cálcio. 47/54 Essa avaliação deve ser feita individualmente, baseada no consumo alimentar e com o auxílio de exa- mes laboratoriais. A dose pode variar de 600 a 1.000 mg de carbonato de cálcio por dia. É importante lembrar que a suplementação de cálcio deve ser feita sempre em combinação com a vitamina D, que tem papel primordial no metabolismo do cálcio e na regulação dos seus níveis plasmáticos, atuando por meio da promoção da absorção intestinal de cálcio e da reabsorção óssea. 8.2.4 Vitamina D Apesar de resultados discordantes de vários estudos realizados, a população vegetariana e, principal- mente, a vegana, parece estar mais sujeita a déficit de vitamina D do que a população onívora. Assim, o nutricionista deve estar alerta para esse risco e, caso a exposição solar e o aporte dietético de vitamina D não forem adequados às necessidades, devem ser recomendados suplementos de vitamina D às ges- tantes vegetarianas. A forma mais comum de suplementação de vitamina D e mais eficiente para elevar os níveis sanguíneos dessa vitamina é a vitamina D3 (colecalciferol). Entretanto, por ser de origem animal, não deve ser pres- crita aos vegetarianos. Dessa forma, a vitamina D deve ser prescrita na forma de vitamina D2 (ergocalci- ferol), que é obtida a partir de fontes vegetais, na dose de 10 a 15 µg/dia ou de 400 a 600 UI/dia, ou de acordo com os exames laboratoriais da gestante. 8.2.5 Zinco O zinco é um mineral que tem suas recomendações facilmente atingidas em uma dieta onívora, visto que os produtos de origem animal, principalmente a carne bovina, fornecem metade das necessidades desse nutriente. Entretanto, o zinco também pode ser encontrado em alimentos de origem vegetal, especialmente nos cereais integrais, nas oleaginosas e nas sementes. O problema é que nesses alimentos a biodisponibi- lidade é menor devido ao elevado teor de fitatos. Para reduzir o teor de fitato presente nos alimentos, os feijões, os cereais e as sementes devem ser deixados de molho na água por oito horas, pelo menos, antes de utilizá-los. O processo de fermentação do pão também reduz o teor de fitato. Devido à baixa absorção do zinco nas dietas vegetarianas, sugere-se que, para aqueles que as adotam, a necessidade de zinco seja de 50% a mais do que os não vegetarianos (MAROTE, 2013). Assim, as gestantes adolescentes vegetarianas devem consumir quantidades ≥ 18 mg/dia e as gestantes adultas ≥ 16,5 mg/dia. O fornecimento de zinco ao organismo pode ser avaliado pela quantificação do zinco dietético ou por meio de marcadores biológicos, como a determinação da concentração plasmática de zinco (MAROTE, 2013). 48/54 8.2.6 Ômega-3 Os estudos demonstram que os vegetarianos costumam ter ingestão maior de ômega-6 e menor de ômega-3. Quando isso acontece, a conversão do ômega-3 nas formas ativas, ácido eicosapentaenoico (EPA) e ácido docosahexaenoico (DHA) pode ficar comprometida. Portanto, muitas vezes indica-se a correção do ômega-3 pela alimentação (SLYWITCH, 2012). Pelo fato de o ômega 3 ter de se converter em EPA e DHA (fatores já encontrados nos peixes e em alguns poucos alimentos de origem animal), determina-se que na dieta vegetariana deve-se prescrever o dobro do que se prescreve para onívoros. Assim, a recomendação de ômega-3 para gestantes vegetarianas é de 2,8 g/dia, independentemente da idade (SLYWITCH, 2012). Os alimentos vegetais que contêm boa quantidade de ômega-3 são: a linhaça e seu óleo, as nozes e demais oleaginosas e os óleos de canola e soja. Uma colher de sopa (15 g) de sementes moídas de linhaça contém de 1,9 a 2,2 g de ômega-3, e uma colher de chá (5 mL) de óleo de linhaça contém 2,7 g de ômega-3. 8.2.7 Vitamina B12 Estima-se que 50% a 60% dos vegetarianos apresentam níveis séricos baixos dessa vitamina. Apesar disso, as dietas ovolacto e lactovegetarianas podem oferecer a vitamina B12 necessária ao organismo. Entretanto, na dieta vegetariana estrita, mesmo que inclua alimentos enriquecidos, deve haver suple- mentação (SLYWITCH, 2012). A vitamina B12 é sintetizada por bactérias, e como as plantas não necessitam de B12 para seu cres- cimento e desenvolvimento, não a incorporam, por isso as plantas não contêm sua forma ativa (SLYWITCH, 2012). Ao contrário do que muitos pensam, as algas não devem ser utilizadas como fonte de B12. “Um estudo com 326 algas demonstrou que 171 delas contêm B12 obtida por processo simbiótico com bactérias, mas que, na totalidade ou quase, é metabolicamente inativa em mamíferos” (SLYWITCH, 2012, p. 38). Estima-se que, mesmo com o consumo recomendado, a maioria dos indivíduos não tenha reserva sig- nificativa de B12. Assim, seja qual for o tempo de vegetarianismo, todo vegetariano, consumindo ou não derivados de animais, deve ser avaliado. E como é elevada a prevalência de deficiência nos onívoros, todo indivíduo que come carne também deve ter o nível sanguíneo avaliado, para fins de prevenção (SLYWITCH, 2012). A forma mais simples de avaliar e acompanhar a vitamina B12 é pelo nível sérico. Os níveis séricos são considerados baixos quando sua concentração é inferior a 200 pg/mL. 49/54 Durante a gravidez, a deficiência de vitamina B12 é um fator de risco independente para defeitos do tubo neural, pré-eclâmpsia e outras complicações, como alterações no sistema nervoso por hiperho- mocisteinemia. Na deficiência de vitamina B12, assim como de ácido fólico (B9) e piridoxina (B6), não há conversão de homocisteínaem metionina e cisteína, elevando os níveis de homocisteína no sangue. Por sua vez, a hiperhomocisteinemia está relacionada ao aumento do risco de doenças cardiovascu- lares, pré-eclâmpsia e má-formação fetal (MAROTE, 2013). Além disso, quando a mãe tem déficit de B12, o recém-nascido é hematologicamente normal à nascença. Contudo, as suas reservas estão significativamente diminuídas e o déficit vitamínico manifesta-se, habi- tualmente, entre os 4 e 12 meses de idade, por vômitos, atraso de crescimento, letargia, hipotonia, regres- são do desenvolvimento e, em 50% dos casos, movimentos involuntários. Nesses casos, a alimentação exclusiva com leite materno contribui largamente para a ocorrência da deficiência no recém-nascido, porque a concentração de vitamina B12 no leite materno corresponde, aproximadamente, à plasmática. Não obstante, é de extrema importância a identificação precoce desses casos, uma vez que o trata- mento da deficiência pode prevenir danos neurológicos permanentes (MAROTE, 2013). A recomendação de vitamina B12 durante a gestação é de 2,2 µg/dia, independentemente da idade. Devido às particularidades do metabolismo da B12, doses de até 1.000 µg/dia podem ser prescritas pelo nutricionista (de acordo com a Anvisa e o Conselho Federal de Nutrição). Assim, como complementação alimentar, é recomendado ao nutricionista que prescreva para a gestante vegana, pelo menos, 10 µg/dia de vitamina B12, podendo atingir até os 1.000 µg/dia (autorizados para a prescrição nutricional), conforme acompanhamento laboratorial. Pode-se aplicar a mesma posologia a indivíduos ovolacto e lactovegetarianos que necessitem suplementação (SLYWITCH, 2012). A suplementação pode ser feita sob a forma de cápsulas vegetais ou gotas. Atenção às cápsulas no caso de manipulação, pois as comumente utilizadas pelas farmácias são de origem animal. A vitamina B12 dos suplementos é obtida por cultura de bactérias em laboratório (SLYWITCH, 2012). Conclusão Por ser um fenômeno fisiológico, a evolução da gestação se dá, na maior parte dos casos, sem intercor- rências. Entretanto, as grandes alterações que ocorrem durante esse período podem trazer risco à saúde da mulher e do feto. Dessa forma, o processo fisiológico evolutivo da gravidez consiste em uma atenção prioritária e medidas de promoção à saúde. Nesse sentido, políticas públicas são necessárias para diminuir a prevalência das doenças e garantir um suporte nutricional efetivo nas situações especiais de intervenção na gestação. Consulte materiais complementares na sua plataforma de aula. 50/54 Glossário Adolescentes puérperas Adolescente que acabou de dar à luz ou que teve o bebê há pouco tempo. Anabolizantes Drogas derivadas do hormônio testosterona que contribuem para um aumento significativo da massa muscular. Picamalácia Transtorno alimentar caracterizado pela ingestão de substâncias não alimentares e combinações atípicas de alimentos. Referências bibliográficas Bibliografia clássica ACCIOLY, E.; SAUNDERS, C.; LACERDA, E. M. A. Nutrição em obstetrícia e pediatria. 2. ed. 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As principais repercussões maternas da gravidez na adolescência são: • síndrome hipertensiva gestacional; • anemia; • risco de parto prematuro; • ganho de peso gestacional inadequado; • placenta prévia; • aumento da incidência de cesarianas; • disfunção uterina; • desproporção cefalopélvica; • anomalias congênitas; • HIV; • fístulas; • retenção de peso pós-parto; e • mortalidade materna e perinatal. As principais repercussões da gravidez na adolescência para o concepto são: • restrição de crescimento uterino; • recém-nascidos pequenos para a idade gestacional; e • Apgar abaixo do 5° minuto e sofrimento fetal agudo. Dessa forma, a assistência pré-natal da adolescente gestante deve começar o mais cedo possível, a fim de evitar os principais problemas relacionados. A avaliação dos riscos nutricionais, clínicos e psicossociais durante a gestação e o período de lactação das adolescentes requer cuidados e medidas de suporte especiais. É muito importante a avaliação da idade ginecológica (intervalo de tempo entre a menarca e a gestação), o peso pré-gravídico para altura e o índice de massa corporal (EISENSTEIN et al., 2000, p. 272). 6/54 Citada como um dos fatores que influenciam o resultado obstétrico entre gestantes adolescentes, a sífilis é uma doença sexualmente transmissível que ainda se configura como um grave problema de saúde pública em todo o mundo, especialmente entre as adolescentes, pela alta incidência. Vale res- saltar que, se a gestante não for tratada ou não for tratada adequadamente, durante o pré-natal, pode transmitir a infecção para seu concepto, podendo causar morte fetal, morte neonatal, prematuri- dade, baixo peso ao nascer ou infecção congênita (PADOVANI; OLIVEIRA; PELLOSO, 2018; MONTEIRO et al., 2015). As complicações tardias para os recém-nascidos com sífilis congênita, que não têm o diagnóstico pre- coce, são “tíbia em lâmina de sabre”, fronte olímpica e surdez neurológica, entre outras (PADOVANI; OLIVEIRA; PELLOSO, 2018). 1.1 Avaliação nutricional Vídeo: Avaliação nutricional e do ganho de peso da gestante adolescente – parte I https://player.vimeo.com/video/364116052 Vídeo: Avaliação nutricional e do ganho de peso da gestante adolescente – parte II https://player.vimeo.com/video/364115612 A avaliação nutricional da gestante adolescente deve seguir os mesmos passos da avaliação voltada a uma gestante convencional. No entanto, terá seu enfoque nos principais riscos gestacionais dessa faixa etária. Assim, o peso pré-gestacional, aferido a não mais de dois meses antes da gestação, ou até o primeiro trimestre de gestação, é utilizado para a determinação do ganho de peso total, por meio do cálculo do IMC pré-gestacional. Por se tratar de gestante adolescente, a classificação do estado pré-gestacional deverá seguir classifi- cação de IMC por idade da Organização Mundial da Saúde (OMS) (WHO, 2007) para meninas de 5 a 19 anos, como representado na figura a seguir. https://player.vimeo.com/video/364116052 https://player.vimeo.com/video/364115612 7/54 A utilização dessa referência tem como objetivo o traçado da curva, com o IMC de consulta a con- sulta dessa adolescente. No entanto, é possível verificar em qual escore-z o IMC se encontra para posterior classificação nas tabelas de IMC por idade, disponibilizadas no site do Ministério da Saúde (figura a seguir). Figura 1 – IMC por idade para meninas de 5 a 19 anos. Valores em escores-Z. Fonte: http://189.28.128.100/dab/docs/portaldab/documentos/graficos_oms/maiores_5anos/imc_por_idade_meninas_escores.pdf. Obs.: o Ministério da Saúde adotava o uso do sistema percentil para avaliação do crescimento de crian- ças e adolescentes. Contudo, a partir da versão de 2010 da Caderneta de Saúde da Adolescente, foi incorporada a classificação do escore-z nos gráficos de avaliação antropométrica. Por esse motivo, esse material aborda somente a classificação em escore-z. http://189.28.128.100/dab/docs/portaldab/documentos/graficos_oms/maiores_5anos/imc_por_idade_meninas_escores.pdf 8/54 Tabela 1 – Modelo da tabela de classificação de IMC para idade para meninos e meninas, segundo curvas da OMS (2007). Valores em percentil e escores-Z IMC (kg/m2) para idade (meses) segundo curvas da OMS (2007) (1: sexo masculino; 2: sexo feminino) PERCENTIL ESCORE-Z Sexo idade (meses) P 0,1 P 3 P 5 P 10 P 15 P 50 P 85 P 97 P 99,9 -3 -2 -1 0 1 2 3 1 61 12,0 13,1 13,4 13,8 14,0 15,3 16,7 18,1 20,4 12,1 13,0 14,1 15,3 16,6 18,3 20,2 1 62 12,0 13,1 13,4 13,8 14,0 15,3 16,7 18,1 20,4 12,1 13,0 14,1 15,3 16,6 18,3 20,2 1 63 12,0 13,1 13,4 13,8 14,0 15,3 16,7 18,1 20,4 12,1 13,0 14,1 15,3 16,7 18,3 20,2 1 64 12,0 13,1 13,4 13,8 14,0 15,3 16,7 18,1 20,5 12,1 13,0 14,1 15,3 16,7 18,3 20,3 1 65 12,0 13,1 13,4 13,8 14,0 15,3 16,7 18,1 20,5 12,1 13,0 14,1 15,3 16,7 18,3 20,3 1 66 12,0 13,1 13,4 13,8 14,0 15,3 16,7 18,1 20,6 12,1 13,0 14,1 15,3 16,7 18,4 20,4 1 67 12,0 13,1 13,4 13,8 14,0 15,3 16,7 18,2 20,6 12,1 13,0 14,1 15,3 16,7 18,4 20,4 1 68 12,0 13,1 13,4 13,8 14,0 15,3 16,8 18,2 20,7 12,1 13,0 14,1 15,3 16,7 18,4 20,5 1 69 12,0 13,1 13,4 13,8 14,0 15,3 16,8 18,2 20,7 12,1 13,0 14,1 15,3 16,7 18,4 20,5 1 70 12,1 13,1 13,4 13,8 14,0 15,3 16,8 18,2 20,8 12,1 13,0 14,1 15,3 16,7 18,5 20,6 1 71 12,1 13,2 13,4 13,8 14,0 15,3 16,8 18,3 20,8 12,1 13,0 14,1 15,3 16,7 18,5 20,6 1 72 12,1 13,2 13,4 13,8 14,0 15,3 16,8 18,3 20,9 12,1 13,0 14,1 15,3 16,8 18,5 20,7 1 73 12,1 13,2 13,4 13,8 14,0 15,3 16,8 18,3 21,0 12,1 13,0 14,1 15,3 16,8 18,6 20,8 1 74 12,1 13,2 13,4 13,8 14,1 15,3 16,9 18,4 21,0 12,2 13,1 14,1 15,3 16,8 18,6 20,8 Fonte: Ministério de Saúde (BRASIL, 2011, p. 58). Após a verificação do IMC pré-gestacional na curva por escore-z, utiliza-se a tabela a seguir para classi- ficar o estado nutricional: Tabela 2 – Diagnóstico nutricional de acordo com IMC para Idade estabelecido para meninas de 5 a 19 anos, segundo escore-Z Valores de escore-Z Diagnóstico nutricional +3 Obesidade grave Fonte: Ministério da Saúde (BRASIL, 2011, p. 20). 9/54 É importante ressaltar que a Organização Mundial da Saúde apresenta na curva de IMC para idade os valores até 19 anos completos, já que a partir desta idade a instituição considera os indivíduos como adultos. Já o Ministério da Saúde considera que a fase adulta se inicia apenas com 20 anos completos, portanto, sugere a adoção dos mesmos valores de 19 anos completos para a avaliação de indivíduos com 19 anos e 1 mês até 19 anos e 11 meses (BRASIL, 2011). Com a classificação do IMC pré-gestacional, determina-se o ganho de peso total da gestante adoles- cente, conforme as mesmas recomendações para gestante adulta. Adolescentes jovens (como de baixo peso. Nesses casos, o mais importante é acompanhar o traçado, que deverá ser ascen- dente. Deve-se tratar a gestante adolescente como de risco nutricional, reforçar a abordagem nutricional e aumentar o número de visitas à unidade de saúde (BRASIL, 2006a, p. 76). É importante ressaltar que a altura deve ser mensurada em todas as consultas ou, pelo menos, trimes- tralmente, pois se encontram ainda em fase de crescimento (BRASIL, 2006a). Também nesses casos o mais importante é acompanhar o traçado da curva de ganho de peso, que deverá ser ascendente. A preocupação com a estatura relaciona-se com o fato de que a ação dos hormônios gravídicos con- solidaria mais rapidamente a cartilagem de conjugação óssea, influenciando no crescimento, espe- cialmente, de adolescentes grávidas com idade ginecológicaQuanto aos minerais, há maiores necessidades de cálcio e fósforo na adolescente grávida do que na mulher adulta. Já não há diferenças importantes para ferro, magnésio, iodo e zinco entre os dois grupos. Apesar disso, um aspecto que deve ser destacado é o risco da deficiência de ferro, muito comum em meninas de baixa condição socioeconômica. Isso faz com que a garota inicie a gestação com depósitos depletados de ferro (VITOLO, 2008). 1.2.4 Orientações nutricionais gerais • Esclarecer à adolescente quanto à importância do ganho de peso. • Esclarecer à adolescente quanto à importância de uma alimentação equilibrada, rica em FLV e pobre em açúcares e gordura. • Dar ênfase à seleção de alimentos ricos em micronutrientes. • Sugerir fontes de vitamina C. • Estimular o uso de alimentos fortificados. • Desencorajar o consumo regular de fast-foods. • Desencorajar o consumo de “calorias vazias”. • Reforçar a necessidade do desenvolvimento de hábitos alimentares mais saudáveis. • Monitorar o consumo de alimentos diet e light. • Estimular o aleitamento materno. • Caso seja necessário, estimular a inclusão da adolescente em grupos para a assistência multiprofissional. • Se necessário, incluir suplementação medicamentosa quando não for possível alcançar a inges- tão dietética adequada. 14/54 2 A gestante com anemia Vídeo: A gestante com anemia – parte I https://player.vimeo.com/video/364115044 Vídeo: A gestante com anemia – parte II https://player.vimeo.com/video/364113932 A anemia na gestação é um dos principais fatores de risco nesse grupo. Estima-se que a prevalência de gestantes anêmicas seja de 41,8% no mundo todo e, pelo menos, metade dos casos pode ser atri- buída à deficiência de ferro. Os demais casos são resultantes de outras condições como deficiência de folato, vitamina B12 ou vitamina A, inflamação crônica, infecções parasitárias e distúrbios hereditários (OMS, 2013). SAIBA MAIS A anemia é uma doença bastante usual em gestantes por quatro razões distintas: • baixo consumo dietético de fontes alimentares de ferro; • baixas reservas de ferro pré-concepcionais; • elevada necessidade de ferro no período gestacional; e • não utilização de suplemento de ferro profilático. Fonte: Ministério da Saúde (BRASIL, 2013, p. 8). A anemia é definida como a condição na qual a concentração de hemoglobina no sangue está abaixo do normal. As baixas concentrações de hemoglobina, indicando anemia moderada ou severa, durante a gestação estão associadas com maior risco de: parto prematuro; mortalidade materna e da criança; doenças infecciosas, por comprometimento do sistema imune; e crescimento e desenvolvimento afe- tado, tanto intrauterino como no longo prazo, associado ao baixo peso ao nascer e a reservas de ferro do recém-nascido insuficientes (SBP, 2018; BRASIL, 2013; OMS, 2013). https://player.vimeo.com/video/364115044 https://player.vimeo.com/video/364113932 15/54 A deficiência de ferro é a principal causa de anemia na gestação. Diante disso, foi instituído no Brasil, em 2005, o Programa Nacional de Suplementação de Ferro (PNSF), a fim de estabelecer ações de prevenção e controle da anemia ferropriva no país (BRASIL, 2013). Inicialmente, o programa focava somente a suplementação universal com suplementos de ferro em doses profiláticas. Atualmente, as ações incluem, além da suplementação, “a fortificação dos alimentos preparados para as crianças com micronutrientes em pó; a fortificação obrigatória das farinhas de trigo e milho com ferro e ácido fólico e a promoção da alimentação adequada e saudável para aumento do consumo de alimentos fontes de ferro” (BRASIL, 2002, p. 7), por meio de ações de educação alimentar e nutricional, conforme pode ser observado no quadro a seguir (BRASIL, 2013). Pelo PNSF, todas as gestantes, ao iniciarem o pré-natal, independentemente da idade gestacional, até o terceiro mês pós-parto, devem receber suplementação profilática de ferro (40 mg de ferro elementar/dia) e ácido fólico (400 µg de ácido fólico) diariamente, distribuídos gratuitamente nas farmácias das Unida- des Básicas de Saúde, em todos os municípios brasileiros (BRASIL, 2013). Vale ressaltar que as recomendações profiláticas apresentadas são para prevenir a anemia como um problema de saúde pública. Quando há a possibilidade de avaliação individualizada da gestante, das suas práticas e consumo alimentar, a necessidade de suplementação, bem como a dose e o tipo de suplemento a ser utilizado (sulfato ferroso, fumarato ferroso, gluconato ferroso, hidróxido de ferro, ferro quelato), devem ser considerados com cautela e de forma personalizada. Quadro 1 – Estratégias de prevenção e controle da anemia na gestação; no parto e nascimento; nos primeiros seis meses de vida; e a partir dos seis meses até dois anos de idade Gestação 1. Suplementação profilática com ferro e ácido fólico. 2. Ingestão de alimentos que contenham farinhas enriquecidas com ferro e ácido fólico. 3. Alimentação adequada e saudável com ingestão de ferro e alta biodisponibilidade. Parto e nascimento 1. Clampeamento tardio do cordão umbilical. 2. Amamentação na primeira hora de vida. Primeiros seis meses de vida 1. Aleitamento materno exclusivo até os seis meses de vida. 2. Suplementação profilática de ferro para crianças prematuras e que nasceram com baixo peso. A partir dos seis meses até dois anos de idade 1. Alimentação complementar saudável e adequada em frequência, quantidade e biodisponibilidade de ferro. 2. Suplementação de ferro profilática. 3. Fortificação dos alimentos preparados para as crianças com micronutrientes em pó. Fonte: Ministério da Saúde (BRASIL, 2013, p. 10). 16/54 2.1 Diagnóstico e conduta Exames laboratoriais específicos oferecem diagnóstico precoce às manifestações clínicas da deficiên- cia de ferro (apatia, cansaço, irritabilidade, taquicardia e outros). Por isso, são mais indicados para o diagnóstico da anemia ferropriva (SBP, 2018). A depleção de ferro (primeiro estágio da deficiência) é caracterizada por diminuição dos depósitos de ferro no fígado, baço e na medula óssea, e pode ser diagnosticada a partir da ferritina sérica, que é o principal parâmetro utilizado para avaliar as reservas de ferro armazenado nos tecidos (SBP, 2018). Devido à maior demanda de hemoglobina circulante e de ferro para o desenvolvimento fetal, os depósi- tos de ferro acabam reduzidos durante a gravidez. Assim, há uma redução fisiológica normal da porcen- tagem de saturação de transferrina (BRASIL, 2010). Portanto, na gestação, esse parâmetro pode não ser um bom indicativo do estado nutricional de ferro (VITOLO, 2008), apesar de alguns autores sugerirem que a ferritina sérica seja utilizada tanto para diagnóstico como indicador das necessidades de suple- mentação de ferro na gestação. Diante disso, o exame utilizado para o diagnóstico da anemia ferropriva é o hemograma, e os parâme- tros a serem considerados são as reduções de hematócrito e hemoglobina, com presença de hemácias hipocrômicas e microcíticas (BRASIL, 2010). O quadro a seguir apresenta os valores de hemoglobina e o diagnóstico de anemia leve a grave na ges- tação, e descreve a conduta a ser realizada, de acordo com o diagnóstico. Quadro 2 – Valores de hemoglobina e diagnóstico da anemia ferropriva durante a gestação. Descrição da conduta a ser realizada, de acordo com o diagnóstico Valor de Hb e diagnóstico Conduta ≥ 11 g/dL: ausência de anemia Manter a suplementação com 40 mg/dia de ferro elementar e 400 µg de ácido fólico, a partir da 20ª semana. Ingerir uma hora antes das refeições. > 8 g/dL eaté atingir Hb de 11 g/dL. Depois, utilizar dose de manutenção (60 mg/dia) e repetir o exame em torno da 30ª semana. ≤ 8 mg/dL: anemia grave A anemia deve ser investigada e tratada em serviço especializado. Fonte: Ministério da Saúde (BRASIL, 2010, p. 172-173). 17/54 Com relação ao hematócrito, valores 95 fL) (BRASIL, 2010). A resposta ao tratamento deve ocorrer em um mês, quando se espera uma correção de 2/3 do déficit da hemoglobina. A suplementação de ferro deve permanecer por mais dois a três meses nessa dosagem e prosseguir com doses de manutenção após sua regularização. Se não houver melhora da hemoglobina durante o período de suplementação, é fundamental investigar outras causas antes de dar continuidade com a suplementação, pois se deve evitar o acúmulo do ferro. Os maiores problemas enfrentados atualmente em relação ao tratamento da anemia são: • dificuldade de adesão por causa dos longos períodos de suplementação; e • efeitos colaterais causados pela suplementação mais comumente utilizada (sulfato ferroso): vômitos, diarreia, constipação intestinal, fezes escuras e cólicas. As orientações dietéticas para prevenção e tratamento da anemia ferropriva na gestação são: • ingerir carne em duas refeições diárias, pois são alimentos fontes de ferro heme (carnes verme- lhas, principalmente vísceras, carnes de aves, suínos, peixes e mariscos); • ingerir diariamente feijão ou outras leguminosas; • ingerir hortaliças folhosas verde-escuras; • para melhorar a baixa biodisponibilidade do ferro não heme dos vegetais, recomenda-se a inges- tão na mesma refeição de alimentos: ricos em vitamina C, como: laranja, acerola, limão e caju; e ricos em vitamina A, como: mamão e manga e hortaliças como abóbora e cenoura. • preferir alimentos fortificados com ferro; • evitar o consumo de leites e derivados, aveia e cereais integrais e bebidas à base de cola, conco- mitantemente à ingestão dos alimentos descritos há pouco. 18/54 Unidade 2 – Fatores clínico-sociais: diabetes e hipertensão gestacional Vídeo: Situações especiais durante o período gestacional https://player.vimeo.com/video/837024163 3 A gestante com diabetes O diabetes mellitus (DM) representa um conjunto de distúrbios metabólicos caracterizados por hipergli- cemia consequente à deficiência insulínica. Atualmente, aproximadamente, 415 milhões de adultos apresentam Diabetes Mellitus (DM) em todo o mundo e 318 milhões de adultos possuem intolerância à glicose, com risco elevado de desenvolver a doença no futuro. Sabe-se que, para mulheres, o principal fator de risco para o desenvolvimento de diabetes do tipo 2 e de síndrome metabólica é o antecedente obstétrico de Diabetes Mellitus Gesta- cional (DMG) (OPAS, 2016, p. 9). Considerando o período gravídico-puerperal, é possível a ocorrência de hipergli- cemia tanto em mulheres já sabidamente diagnosticadas como portadoras de DM previamente à gestação quanto em gestantes sem esse diagnóstico prévio (OPAS, 2016, p. 11). A hiperglicemia inicialmente detectada em qualquer momento da gravidez deve ser categorizada e dife- renciada em DM diagnosticado na gestação ou em DM gestacional. Dessa forma, pode-se definir, de acordo com o documento Rastreamento e diagnóstico de diabetes mellitus gestacional no Brasil, da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS, 2016, p. 12): Diabetes mellitus gestacional (DMG): mulher com hiperglicemia detectada pela primeira vez durante a gravidez, com níveis glicêmicos sanguíneos que não atin- gem os critérios diagnósticos para DM. Diabetes mellitus diagnosticado na gestação (overt diabetes): mulher sem diag- nóstico prévio de DM, com hiperglicemia detectada na gravidez e com níveis gli- cêmicos sanguíneos que atingem os critérios da OMS para a DM na ausência de gestação (glicemia de jejum ≥ 126 mg/dL e 2 horas após TTOG [teste de tolerân- cia oral à glicose] 75 g ≥ 200 mg/dL). https://player.vimeo.com/video/837024163 19/54 A prevalência de hiperglicemia durante a gravidez pode variar dependendo dos critérios diagnósticos utilizados e da população estudada. Na atualidade, estima-se que um em cada seis nascimentos ocorra em mulheres com alguma forma de hiperglicemia durante a gestação, sendo que 84% desses casos seriam decorrentes do DMG […] As estimativas populacionais de frequência de hiperglicemia na gestação no Brasil são conflitantes, porém estima-se que a prevalência de DMG no Sistema Único de Saúde (SUS) seja de, aproximada- mente, 18%, utilizando-se os critérios diagnósticos atualmente propostos na literatura (OPAS, 2016, p. 10). As alterações no metabolismo materno são importantes para suprir as demandas do feto. Essas alte- rações estão associadas, na gravidez, à presença ou aumento de hormônios que têm ação diabetogê- nica, tais como: hormônio lactogênio placentário (HPL); prolactina; estrogênio e progesterona; cortisol e insulina. O desenvolvimento de resistência à insulina (RI) durante a segunda metade da gestação é resultado de adaptação fisiológica, mediada pelos hormônios placen- tários anti-insulínicos, para garantir o aporte adequado de glicose ao feto. Entre- tanto, algumas mulheres que engravidam com algum grau de RI, como nos casos de sobrepeso/obesidade, obesidade central e síndrome dos ovários policísticos, este estado fisiológico de RI será potencializado nos tecidos periféricos. Parale- lamente, impõe-se a necessidade fisiológica de maior produção de insulina, e a incapacidade do pâncreas em responder à RI fisiológica ou à sobreposta favo- rece o quadro de hiperglicemia de intensidade variada, caracterizando o DMG (BOLOGNANI; SOUZA; CALDERON, 2011, p. 14). Dessa forma, na maioria dos casos, após o parto, tais hormônios são regularizados e ocorre a regu- larização da insulina e da glicemia, cessando o diabetes gestacional. Vale ressaltar que “ainda que a tolerância à glicose se normalize rapidamente após o parto, na maioria das mulheres que desenvol- veram DMG, o risco de desenvolvimento de DM do tipo 2 ou de intolerância à glicose é significativo” (OPAS, 2016, p. 25). Para reavaliação, indica-se a realização do exame de glicemia de jejum e teste de tolerância à glicose seis semanas após o parto, para todas as mulheres que tiveram DMG. A realização de TOTG (teste oral de tolerância à glicose) com 75 g de glicose, seis semanas após o parto, é considerada o padrão-ouro para o diagnóstico de diabetes após a gestação (OPAS, 2016). Os principais fatores de risco para hiperglicemia na gravidez são: • idade (aumento progressivo do risco com o aumentar da idade); • sobrepeso/obesidade (IMC ≥ 25 kg/m²); • antecedentes familiares de DM (primeiro grau); 20/54 • antecedentes pessoais de alterações metabólicas: • HbA1c ≥ 5,7%; • síndrome dos ovários policísticos; • hipertrigliceridemia; • hipertensão arterial sistêmica; • acantose nigricans; • doença cardiovascular aterosclerótica; e • uso de medicamentos hiperglicemiantes. • antecedentes obstétricos: • duas ou mais perdas gestacionais prévias; • diabetes mellitus gestacional; • polidrâmnio; • macrossomia fetal (recém-nascido anterior com peso ≥ 4.000 g); • óbito fetal/neonatal sem causa determinada; e • má-formação fetal. As principais repercussões maternas associadas ao diabetes gestacional são o aumento da incidência das seguintes complicações: • síndromes hipertensivas gestacionais (SHG); • polidramnia (produção excessiva de líquido amniótico); • infecções urinárias e pielonefrite; • candidíase; • hipoglicemia; • cetoacidose; • trabalho de parto prematuro; • necessidade de parto cirúrgico; • risco de desenvolvimento de DM tipo 2; • lesões vasculares nos rins e na retina; e • maior risco de abortamento. As principais repercussões ao recém-nascido associadasao diabetes gestacional são: • macrossomia; • restrição do crescimento intrauterino retardado; • asfixia; • sofrimento fetal durante o parto; • prematuridade; • óbito fetal; 21/54 • complicações pulmonares e síndrome da angústia respiratória; • distúrbios metabólicos (hipoglicemia fetal, hipocalcemia, hiperbilirrubinemia, hipomagnesemia e policitemia); • má-formação congênita (exemplos: anencefalia, hidrocefalia, atresia retal, anomalias renais, hipertrofia cardíaca, organomegalia e aumento do volume sanguíneo); e • sequelas tardias (obesidade, diabetes, anormalidades no desenvolvimento psicomotor). 3.1 Diagnóstico do diabetes gestacional Após vários critérios diagnósticos serem propostos e validados por órgãos/entidades nacionais e inter- nacionais, ficou demonstrada a necessidade de um consenso nacional para o diagnóstico do DMG. Portanto, em 2017, a Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD), em associação com a Organização Pan-Americana de Saúde (Opas), o Ministério da Saúde (MS) e a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo), passou a adotar os novos critérios para rastreamento e diag- nóstico do DMG em todo o território nacional (OLIVEIRA; MONTENEGRO JUNIOR; VENCIO, 2017). Considerando-se as especificidades do Brasil, foram propostas duas estratégias de diagnóstico de DMG, na dependência da viabilidade financeira e disponibilidade técnica de cada região (OPAS, 2016). Dessa forma, ficou estabelecido um critério diagnóstico de DMG em situação de viabilidade financeira e dispo- nibilidade técnica total e outro critério diagnóstico de DMG em situação de viabilidade financeira e/ou disponibilidade técnica parcial. De acordo com a Opas (2016, p. 25): Em situações de viabilidade financeira e disponibilidade técnica total: • Todas as mulheres devem realizar a glicemia de jejum (até 20 semanas de idade gestacional) para diagnóstico de DMG e de DM diagnosticado na gestação. • Todas as gestantes com glicemia de jejum inferior a 92 mg/dL devem realizar o TOTG (teste oral de tolerância à glicose) com 75 g de glicose de 24 a 28 semanas. • Se o início do pré-natal for tardio (após 20 semanas de idade gestacional) deve- -se realizar o TOTG com a maior brevidade possível. • Estima-se que assim sejam detectados 100% dos casos. wPara as regiões em situações de viabilidade financeira e/ou disponibilidade técnica parcial, todas as gestantes devem realizar a glicemia de jejum no início do pré-natal para diagnóstico de DMG e de DM diagnosticado na gestação e caso o resultado do exame apresente valores inferiores a 92 mg/dL, antes de 24 semanas de idade ges- tacional, deve-se repetir a glicemia de jejum de 24 a 28 semanas (OPAS, 2016, p. 26). É possível perceber que nessa situação retira-se o TOTG. Com isso, estima-se que assim seja detectado um menor número de casos (86%) (OPAS, 2016). 22/54 3.2 Terapia nutricional para DMG Segundo Oliveira, Montenegro Junior e Vencio (2017, p. 219), evidências sugerem que a intervenção em gestantes com DMG pode diminuir a ocorrência de eventos adversos na gravidez. O tratamento inicial do DMG con- siste em orientação alimentar que permita ganho de peso adequado e controle metabólico. 3.2.1 Recomendações energéticas De acordo com Vitolo (2008, p. 101): A determinação energética para gestantes com diabetes gestacional pode ser feita pelo cálculo de energia por quilograma de peso, podendo ser usados valores entre 30 e 35 kcal/kg de peso ideal para a idade gestacional. Há indicações para o uso de 24 kcal/kg de peso ideal se a gestante apresentar excesso de peso. O valor calórico total da dieta visa ao ganho de peso em torno de 300 a 400 g por semana, a partir do segundo trimestre de gravidez (OLIVEIRA; MONTENEGRO JUNIOR; VENCIO, 2017). 3.2.2 Recomendações de macronutrientes De acordo com a Sociedade Brasileira de Diabetes (2017), o valor calórico total prescrito deve conter: • 40% a 55% de carboidratos, dando preferência aos alimentos com baixo índice glicêmico (IG), pois uma dieta com baixo IG no DMG está associada à menor necessidade de indicar o uso de insulina e menor ganho de peso ao nascer; • 15% a 20% de proteínas; e • 30% a 40% de gordura. 3.2.3 Fracionamento da dieta Com relação ao fracionamento da dieta, um estudo mostrou menor risco de macrossomia fetal e com- plicações em gestantes que seguiram uma dieta com distribuição da energia total em seis vezes, sendo (VITOLO, 2008, p. 101): • desjejum: 10%; • colação: 10%; • almoço: 30%; • lanche da tarde: 10%; • jantar: 30%; e • ceia: 10%. 23/54 3.2.4 Recomendações de micronutrientes Deve-se controlar a ingestão de sódio, porém não restringi-lo. Caso necessário, fornecer suplementação de ferro e ácido fólico, oferecer fontes de vitamina A pré-formada (fontes de origem animal) e adequar quantidades de potássio, magnésio, zinco e cromo. 3.2.5 Outras recomendações dietéticas • Estimular o consumo de fibras, especialmente, as solúveis. • Desencorajar o uso de álcool. • Evitar o consumo excessivo de cafeína. • Desestimular o consumo de gordura trans. • Estimular o consumo de peixes duas a três vezes por semana para aumentar a ingestão de ômega-3. • Realizar a contagem de carboidratos, quando indicado, por meio de tabelas contendo porções e o respectivo valor de carboidratos em gramas ou por meio de tabelas de equivalentes. A quantidade de carboidrato total da dieta deve ser estabelecida e fracionada ao longo do dia e das refeições. • Não consumir sucos de frutas como rotina. • Restringir a quantidade de açúcar simples a 10% da quantidade total de carboidratos. Dar prefe- rência aos carboidratos complexos. • Respeitar os horários das refeições, inclusive nos finais de semana. • Todas as refeições devem conter carboidratos com a presença de proteína, lipídeo ou fibra. 3.2.6 Utilização de edulcorantes na gestação A sacarose pode ser utilizada de forma equilibrada na dieta (em quantidade inferior a 10% do VCT). De acordo com a Sociedade Brasileira de Diabetes (2017), os dados sobre a utilização de substitutos do açúcar durante a gravidez são limitados, mas não sugerem aumento do risco de toxicidade ou resulta- dos adversos na gravidez ou no período neonatal. Recomenda-se, de qualquer modo, que os adoçan- tes artificiais sejam consumidos apenas quando necessário e moderadamente, sempre respeitando os limites diários determinados pela OMS e aceitos pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa): • sacarina: 2,5 mg/kg de peso corporal; • ciclamato: 11 mg/kg de peso; • aspartame: 40 mg/kg de peso; • acessulfame-k: 15 mg/kg de peso; • esteviosídeo: 5,5 mg/kg de peso; • sucralose: 15 mg/kg de peso. 24/54 3.2.7 Outras recomendações gerais (OLIVEIRA; MONTENEGRO JUNIOR; VENCIO, 2017) • A prática de atividade física deve fazer parte do tratamento do DMG, respeitando-se as contrain- dicações obstétricas. • Recomenda-se o monitoramento das glicemias capilares pré e pós-prandiais quatro a sete vezes por dia, especialmente nas gestantes que usam insulina. • Após duas semanas de dieta, se os níveis glicêmicos permanecerem elevados, deve-se iniciar tratamento farmacológico. • A dose inicial de insulina deve ser ajustada para cada caso. Em geral, associam-se insulinas humanas de ações intermediária e rápida. • Medicamentos orais: • Metformina: número crescente de estudos não mostra efeitos deletérios materno-fetais de seu uso na gestação. • Glibenclamida: dados recentes mostram que está associada a aumento do risco de hipoglicemia neonatal, maior ganho de peso materno, maior ganho de peso neonatal e macrossomia, sugerindo que deva ser utilizada com precauções. Outros agentes orais são contraindicados. 3.3 Terapia nutricional para gestante com DM Gestantes com diagnóstico de diabetes devem receber orientação dietética individualizada, desde o início da gestação, a fim de atingir as metas do tratamento (OLIVEIRA; MONTENEGRO JUNIOR; VENCIO, 2017). A distribuiçãorecomendada do conteúdo calórico pela Sociedade Brasileira de Diabetes (2017) é de: • 40% a 45% de carboidratos; • 15% a 20% de proteínas (no mínimo 1,1 g/kg/dia); e • 30% a 40% de gorduras. A dieta também deve ser planejada e distribuída ao longo do dia, objetivando-se evitar episódios de hiperglicemia, hipoglicemia ou cetose. Para isso, é necessário fracionar a ingestão alimentar em três refeições grandes e três pequenas. A ceia tem grande importância e deve conter 25 g de carboidratos complexos, além de proteínas ou lipídeos, para evitar hipoglicemia durante a madrugada (OLIVEIRA; MONTENEGRO JUNIOR; VENCIO, 2017). Deve-se ter atenção especial quanto à adequação de doses de insulina, aos horários de sua administra- ção e ao conteúdo dos nutrientes fornecidos em cada refeição. Mulheres que utilizam insulina podem ser orientadas a fazer o ajuste da dose prandial de insulina de ação rápida pelo cálculo do conteúdo de carboidrato de cada refeição. A relação insulina/carboidrato deve ser individualizada (OLIVEIRA; MONTENEGRO JUNIOR; VENCIO, 2017). 25/54 4 A gestante com síndrome hipertensiva gestacional (SHG) As síndromes hipertensivas intercorrentes na gestação constituem um dos capítulos mais relevantes dentro da obstetrícia, pois são uma das maiores causas de mortalidade materna e perinatal no Brasil. Embora ainda se afirme que há subestimação das estatísticas, a sua incidência calculada para o nosso país é de 1,5% para a pré-eclâmpsia (PE) e 0,5 % para a eclâmpsia. Ela se reveste de grande importância do ponto de vista médico, pois além das altas taxas de mortalidade, pode levar a limitações definitivas na saúde materna e a graves consequências ao feto e recém-nascido, sendo a maior causa de prematuridade no Brasil (FEBRASGO, 2017, p. 6). O maior grupo de risco consiste em mulheres nulíparas, gestações múltiplas, histórico de hipertensão arterial sistêmica (HAS) há 4 anos, histórico de HAS em outras gestações e doença renal. Os fatores de risco para SHG incluem: constituição física (obesas e baixa estatura); histórico pessoal ou fami- liar; fatores mesológicos (distribuição geográfica, clima e nutrição); idade (acima de 35 anos e abaixo de 15 anos); hereditariedade; etnia; tabagismo; grau de escolaridade; grupo sanguíneo; polidramnia (excesso de líquido amniótico); altitude; inserção placentária; neoplasia trofoblástica; e mudança de parceiro. As principais consequências da SHG para a gestante são: • alterações hematológicas (trombocitopenia); • alterações renais (isquemia de glomérulo); • alterações hepáticas (necrose hemorrágica); • alterações cerebrais (hemorragia cerebral); • alterações pulmonares (edema pulmonar); • alterações oftalmológicas (diplopia, visão turva); • alterações uteroplacentárias (placenta anormal); e • alterações hormonais (T4). As principais consequências das gestantes com SHG para o feto são: • baixo peso ao nascer; • asfixia; • morte fetal; • restrição do crescimento intrauterino (RCIU); • aumento da necessidade de partos cirúrgicos; • taxa de mortalidade perinatal de 51%. 26/54 4.1 Classificação das SHG Existem várias classificações descritas para os distúrbios hipertensivos na gestação. Serão considera- das neste material as classificações revisadas pela International Society for the Study in Hypertension and Pregnancy (ISSHP) e adotadas pela Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obste- trícia (FEBRASGO, 2017). 4.1.1 Hipertensão arterial crônica A hipertensão arterial crônica na gravidez refere-se à ocorrência de HAS precedendo a gestação. Como muitas vezes não há regis- tros de medidas de pressão arterial (PA) antes da gestação, considera-se HAS crônica quando a HAS é constatada no 1º trimestre da gestação ou, no máximo, até a 20ª semana. Na maioria dos casos a hipertensão crônica refere-se à hiper- tensão essencial, em geral associada à história familiar de hipertensão e fre- quentemente acompanhada de sobrepeso ou obesidade. Mais raramente pode haver hipertensão secundária. Pela faixa etária das gestantes, a hipertensão secundária, quando presente, em geral se deve à doença renal parenquimatosa subjacente, tais como glomerulonefrite e ou nefropatia de refluxo (FEBRASGO, 2017, p. 18). 4.1.2 Hipertensão gestacional É a hipertensão arterial que surge pela primeira vez após a 20ª semana de gestação, sem estar acompanhada de nenhum sinal, sintoma ou alteração laboratorial que caracterize a pré-eclâmpsia (FEBRASGO, 2017). 4.1.3 Hipertensão do avental branco Cerca de 25% das pessoas que apresentam medidas aumentadas de PA no consultório têm hipertensão do avental branco. O diagnóstico pode ser confirmado por medidas seriadas (preferencialmente, feitas por enfermeiras) ou por monitorização ambulatorial da PA. Há poucos estudos sobre a repercussão desse tipo de distúrbio na gestação, alguns apontando que em até 50% dos casos haja evolução para hipertensão gestacional ou PE (FEBRASGO, 2017). 4.1.4 Pré-eclâmpsia (PE) O diagnóstico de PE deve ser presumido nas gestantes em que hipertensão arterial e proteinúria signifi- cativa surgirem após a 20ª semana de gestação (FEBRASGO, 2017). 27/54 Levando em conta o conceito atual de síndrome PE, conceitos rígidos têm sido abandonados. Assim, na ausência de proteinúria, o diagnóstico de PE pode ser baseado na presença de cefaleia, turvação visual, dor abdominal ou exames laboratoriais alterados como plaquetopenia (menos que 100 mil/mm3), elevação de enzimas hepáticas (o dobro do basal), comprometimento renal, ou ainda, edema pulmonar e distúrbios visuais ou cerebrais (FEBRASGO, 2017). “Se o aumento da PA e a proteinúria ocorrerem após a 20ª semana em uma primigesta com história familiar (principalmente, irmã ou mãe) de PE ou eclâmpsia, a probabilidade de acerto no diagnóstico de PE será maior do que 90%” (FEBRASGO, 2017, p. 19). Contudo, há situações nas quais o diagnóstico pode tornar-se difícil. 4.1.5 Pré-eclâmpsia sobreposta Quando a PE ocorre em gestante com HAS crônica, considera-se como tendo pré-eclâmpsia sobreposta (FEBRASGO, 2017). 4.1.6 Pré-eclâmpsia grave Pré-eclâmpsia grave (PEG) é definida como a PE associada a complicações materno-fetais que são gra- ves o suficiente para que haja risco iminente de comprometimento materno-fetal. A PAS (pressão arterial sistólica) persistente ≥ 160 mmHg ou PAD (pressão arterial diastólica) ≥ 110 mmHg caracterizam uma gestante como tendo PEG (FEBRASGO, 2017). Em geral, gestantes com sinais ou sintomas de PEG têm enfermidade descom- pensada, podendo evoluir rapidamente para morbimortalidade materna e perina- tal. Os níveis de proteinúria não devem ser considerados critérios de gravidade na PE. A presença de PE, independentemente de sua gravidade, determina risco fetal e materno aumentado (FEBRASGO, 2017, p. 15). 4.1.7 Eclâmpsia É a ocorrência de convulsões motoras generalizadas (tipo grande mal) em gestante com PE. Tais convulsões não são causadas por doença neurológica coincidente, estão relacionadas com vasoes- pasmo que dificulta o fluxo uteroplacentário, com intensidade variável, e com ativação e consumo progressivo de plaquetas, que leva a uma coagulação disseminada. Dessa forma, o cérebro pode ser afetado por isquemia, agravado por edema difuso, resultando nas convulsões (eclâmpsia) ou acidentes vasculares (FEBRASGO, 2017). As convulsões podem ocorrer no período pré-parto (50%), durante o parto (20%) e no período pós-parto (11%-44%). Pacientes que exibem quadros graves, particularmente eclâmpsia, devem receber cuidados diferenciados em face da limitação funcional progressiva de múltiplos órgãos (FEBRASGO, 2017). 28/54 4.1.8 Síndrome HELLP O acrônimo HELLP significa hemólise, aumento de enzimas hepáticas (elevate liver enzimes) e plaque- topenia (low platelets). A fisiopatologia dessa doença não está esclarecida, mas pode ser considerado o comprometimento hepato-hematológico da PE (FEBRASGO, 2017). A síndrome HELLP desenvolve-se em 10% a 20%das gestantes com pré-eclâmpsia grave/eclâmpsia. Cerca de um terço dos diagnósticos de síndrome HELLP é realizado no período pós-parto e nas pacien- tes com diagnóstico anteparto; 10% dos diagnósticos foram realizados antes da 27ª semana; 20% após a 37ª semana; e 70% entre a 27ª e 37ª semana (FEBRASGO, 2017). O grau de suspeita clínica dos casos de síndrome HELLP é muito importante. Na presença de trombo- citopenia em uma paciente com PE, deve-se pensar fortemente em síndrome HELLP. Muitos casos pas- sam dias com uma sintomatologia vaga de mal-estar, com a paciente referindo sintomas inespecíficos, semelhante a um resfriado, com dolorimento generalizado, náuseas e dor epigástrica. Alguns estudos apontam prevalências variáveis dos principais sintomas como sensação de mal-estar (50% a 90%), dor em hipocôndrio direito ou epigastralgia (30% a 90%), náuseas e vômitos (20% a 50%), sendo que a pro- teinúria pode estar ausente (FEBRASGO, 2017). 4.2 Diagnóstico É definida como hipertensão arterial a presença de pressão arterial sistólica maior ou igual a 140 mmHg e/ou pressão arterial diastólica maior ou igual a 90 mmHg, considerando o 5º ruído de Korotkoff (desa- parecimento da bulha) (FEBRASGO, 2017). A medida deve ser feita com a paciente sentada, em um dos antebraços elevado à altura do átrio (metade do osso esterno), devendo ser repetida em um ou dois intervalos de cinco minutos. Os mangui- tos habitualmente disponíveis fazem a leitura para braços com perímetro ao redor de 30 cm. Pacientes obesas necessitam de manguitos apropriados ou tabelas de correção segundo seu perímetro braquial (FEBRASGO, 2017). Para a definição de proteinúria, deve ser considerada a perda de 300 mg ou mais de proteínas em urina de 24 horas. Diferente de recomendações anteriores, a intensidade da proteinúria não deve mais ser associada ao prognóstico materno ou pautar decisões isoladamente (FEBRASGO, 2017). A confirmação diagnóstica da síndrome HELLP é laboratorial, conforme pode ser visto na tabela a seguir. 29/54 Tabela 5 – Critérios diagnósticos da Síndrome HELLP Critérios Exames Parâmetros Hemólise Bilirrubinas > 1,2 mg/dL DHL ≥ 600 U/L Alteração da função hepática TGO ≥ 70 U/L Plaquetopenia Plaquetasde programação fetal. O primeiro estudo relacionado ao tema foi feito com homens que se tornaram jovens obesos aos 19 anos de idade, cujas mães passaram fome durante a gestação (LEANDRO et al., 2009). Há décadas, outros pesquisadores concluíram que a origem da síndrome metabólica e das doenças cardiovasculares, em alguns adultos, pudesse ser embrionária ou fetal (GOTTLIEB; CRUZ; BODANESE, 2008). 5.1 Necessidades energéticas Gestantes que apresentam peso insuficiente para a semana gestacional cujo consumo calórico médio está em torno de 1.200 a 1.500 kcal devem aumentar seu consumo para um adicional de 500 kcal/dia na primeira consulta e, após estabilizar o peso, calcular seu gasto energético de forma tradicional (VITOLO, 2008). 5.2 Conduta nutricional Devido à presença de inapetência e volume gástrico reduzido, que limitam a intervenção dietética, devem-se fracionar as refeições e aumentar a densidade energética das preparações sem modificação do volume. O fracionamento pode ocorrer de 6 a 12 vezes ao dia ou de 2 em 2 horas, o que for mais bem aceito pela gestante. A oferta de alimentação frequente, na forma de lanches nutritivos que agradem as pacientes, tais como sanduíches, bebidas lácteas e bolos, pode aumentar a ingestão de energia, proteína e nutrientes. 32/54 Para o aumento da densidade energética podem ser utilizados suplementos alimentares hipercalóricos ou acrescentar 1 colher de sopa de óleo vegetal a cada refeição. Incluir uma bebida nutritiva após a ceia pode aumentar a ingestão do suplemento oral. Verificar possíveis carências nutricionais e indicar suplementos polivitamínicos, se for necessário. Ave- riguar a causa do baixo peso (inapetência, náuseas e enjoos, medo de engordar, condições financeiras desfavoráveis) e atuar na causa. Modificar a apresentação e a consistência das preparações, utilizando os conhecimentos de técnica dietética. Colocar no plano alimentar alimentos do consumo habitual da paciente e sugerir novas formas de preparo práticas, simples e acessíveis. 6 A gestante obesa Vídeo: Obesidade e gestação https://player.vimeo.com/video/837024348 Mulheres obesas apresentam diminuição da fertilidade decorrente de disfunção ovulatória, pela maior prevalência da síndrome dos ovários policísticos (SOP). Por sua vez, “a SOP ocorre pela maior resistên- cia à insulina inerente à obesidade, que leva a acúmulo de andrógenos no microambiente ovariano, o que dificulta a maturação folicular e a ovulação” (MELO, 2011, p. 5). Outra comprovação do efeito da obesidade na fertilidade está relacionada aos resultados pós cirurgia bariátrica, que comprovam que a perda de peso melhora a fertilidade e a regularidade dos ciclos mens- truais na maioria das pacientes (MELO, 2011). Entretanto, estudos que analisaram desfechos em gestações de pacientes submetidas à cirurgia bariá- trica apresentaram “maior risco de complicações nutricionais tanto para gestante quanto para o feto. […] Em virtude dessas potenciais complicações, é recomendado um intervalo mínimo de 12 a 18 meses entre a cirurgia bariátrica e a concepção” (MELO, 2011, p. 6). O sobrepeso e a obesidade podem aumentar as chances de gravidez de risco, principalmente no final da gestação, desencadeando outros problemas como diabetes e hipertensão, além de favorecer o ganho de peso do feto excessivo. Além disso, crianças de gestantes obesas têm maior prevalência de defeitos do tubo neural, independentemente da quantidade de ácido fólico durante a gestação. O ganho de peso materno excessivo também aumenta a incidência de partos cirúrgicos (VITOLO, 2008). A macrossomia fetal é a complicação mais frequente em filhos de gestantes obesas. Além disso, fetos macrossômicos têm mais distocia de ombro e predisposição à obesidade na vida adulta (MELO, 2011). https://player.vimeo.com/video/837024348 33/54 6.1 Necessidades energéticas O ganho de peso ideal na gestação é baseado nas recomendações do Institute of Medicine (IOM, 2009) e leva em consideração o IMC pré-gestacional da paciente. Assim: • Gestantes que iniciaram a gestação com sobrepeso (IMC 25,0-29,9 kg/m2) devem ter ganho de peso total: • na gestação, de 7 a 11,5 kg; • até 0,9 kg no primeiro trimestre; e • até 0,3 kg/semana no segundo e terceiro trimestres. • Gestantes que iniciaram a gestação com obesidade (IMC ≥ 30,0 kg/m2) devem ter ganho de peso total: • na gestação, de 5 a 9 kg; • não necessitam ganhar peso no primeiro trimestre; e • devem ganhar 0,2 kg/semana no segundo e terceiro trimestres. Dessa forma, a gestante obesa não deve fazer dieta nessa época, porém o controle do consumo caló- rico é essencial. Deve-se calcular a necessidade energética sem acrescentar o adicional energético da gestação, ou calcular um gasto calórico em torno de 36 kcal por kg de peso ideal por dia (VITOLO, 2008). A dieta hipocalórica pode ser recomendada caso a gestante obesa apresente diabetes ou hipertensão. Neste caso, recomenda-se o consumo de 25 a 30 kcal por kg de peso ideal por dia (VITOLO, 2008). 6.2 Conduta nutricional • Realizar avaliação dietética detalhada. • Orientar “uma alimentação adequada na gravidez, que não seja hipercalórica para que não se agrave a condição de obesidade, nem demasiado hipocalórica a ponto de desencadear o jejum celular” (JOB; PASSINI JÚNIOR; PEREIRA, 2005, p. 506). • Fracionar as refeições, de preferência, seis vezes ao dia, sendo três principais (desjejum, almoço e jantar) e três lanches intermediários (colação, lanche da tarde e ceia). • Priorizar a oferta de carboidratos complexos em todas as refeições. • Ingerir mais frutas, verduras e legumes. • Diminuir a ingestão de fast-foods, alimentos gordurosos, frituras, doces e carboidratos refinados. • Evitar a ingestão de refrigerantes e bebidas adoçadas industrializadas. • Orientar preparações mais saudáveis utilizando recursos da técnica dietética (técnicas de pré- -preparo e preparo). • Apresentar novos alimentos e novas combinações práticas, simples e acessíveis que tragam saciedade. • Orientar sobre o balanço entre os elementos para a montagem dos pratos. Atenção a texturas e cores corretas. • Fornecer dicas para as idas ao supermercado, para os dias de festa, para as refeições fora de casa, para datas comemorativas. • Orientar sobre a importância da finalização da “refeição”. 34/54 Unidade 4 – Fatores comportamentais: atividade física e vegetarianismo 7 A gestante ativa/atleta Vídeo: Prática esportiva na gestação https://player.vimeo.com/video/837024900 Na gestação é necessário aumentar a contribuição de energia materna para suprir os ajustes e as necessidades nutricionais materno-fetais, como desenvolvimento fetal, síntese tecidual materna para aumento do útero, mamas e depósitos de gordura, aumento do volume de sangue circulante e aumento das solicitações dos sistemas materno-fetais. A orientação nutricional na gestação objetiva a avaliação do estado nutricional, as necessidades nutri- cionais da mãe e do feto e a programação de instrução nutricional para evitar o estado nutricional materno inadequado, o que reflete grandemente no desenvolvimento do feto e do recém-nascido. Se o fornecimento de nutrientes da dieta da gestante não for suficiente, o crescimento do feto tende a ser mais lento e pode levar a um recém-nascido com alto risco de morbidade e aumento da mortalidade. O atraso do crescimento fetal é bastante presumível se o abastecimento materno da dieta for limitado. A alimentação adequada ainda provê auxílio para as gestantes ativas sem depletação do suprimento de energia para ela e o feto. A gestante que pratica atividade física vigorosa pode privar o feto da energia essencial para seu desenvolvimento, se não fizer as reposições nutricionais corretas. Não se pode afir- mar com veracidade as reais necessidades nutricionais da grávida fisicamente ativa, pois fatores como duração, frequência, tipo de atividade, peso anterior à gravidez e oferta nutricional atual são condições individuais