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W BA 06 01 _V 2. 0 CONSTRUÇÕES INTELIGENTES E SUSTENTÁVEIS 2 Paloma Regina Bueno dos Santos São Paulo Platos Soluções Educacionais S.A 2022 CONSTRUÇÕES INTELIGENTES E SUSTENTÁVEIS 1ª edição 3 2022 Platos Soluções Educacionais S.A Alameda Santos, n° 960 – Cerqueira César CEP: 01418-002— São Paulo — SP Homepage: https://www.platosedu.com.br/ Head de Platos Soluções Educacionais S.A Silvia Rodrigues Cima Bizatto Conselho Acadêmico Alessandra Cristina Fahl Ana Carolina Gulelmo Staut Camila Turchetti Bacan Gabiatti Camila Braga de Oliveira Higa Giani Vendramel de Oliveira Gislaine Denisale Ferreira Henrique Salustiano Silva Mariana Gerardi Mello Nirse Ruscheinsky Breternitz Priscila Pereira Silva Coordenador Mariana Gerardi Mello Revisor Cristiane Higueras Simó Editorial Beatriz Meloni Montefusco Carolina Yaly Márcia Regina Silva Paola Andressa Machado Leal Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)_____________________________________________________________________________ Santos, Paloma Regina Bueno dos Construções inteligentes e sustentáveis / Paloma Regina Bueno dos Santos. – São Paulo: Platos Soluções Educacionais S.A., 2022. 32 p. ISBN 978-65-5356-414-5 1. Construções sustentáveis. 2. Habitação autossuficiente. 3. Cidades inteligentes. I. Título. CDD 624.1 _____________________________________________________________________________ Evelyn Moraes – CRB 010289/O S237c © 2022 por Platos Soluções Educacionais S.A. Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida ou transmitida de qualquer modo ou por qualquer outro meio, eletrônico ou mecânico, incluindo fotocópia, gravação ou qualquer outro tipo de sistema de armazenamento e transmissão de informação, sem prévia autorização, por escrito, da Platos Soluções Educacionais S.A. 4 SUMÁRIO Apresentação da disciplina __________________________________ 05 Introdução às smart cities ___________________________________ 06 Sustentabilidade e soluções em cidades inteligentes ________ 17 Os desafios para a construção de cidades inteligentes _______ 27 Habitação autossuficiente e seus sistemas alternativos ______ 37 CONSTRUÇÕES INTELIGENTES E SUSTENTÁVEIS 5 Apresentação da disciplina Na atualidade em que vivemos, o uso da tecnologia está atrelado a praticamente todos os fatores da vida humana, não sendo diferente no meio da construção. Dessa forma, esta disciplina tem o propósito de abordar conceitos e caracterizar temas como smart cities, sustentabilidade nas cidades, os desafios de incorporar essas temáticas no planejamento e a habitação autossuficiente. Vamos trabalhar juntos diversos conceitos e problemáticas, a fim de contextualizar e entender os desafios que as cidades inteligentes e sustentáveis têm para serem implantadas no Brasil, além da importância do uso da tecnologia como aliada para combater os impactos ambientais. Durante a disciplina, veremos questões práticas, com situações-problema reais para gerarmos uma reflexão sobre o tema e fixarmos os conceitos aprendidos. Assim, conheceremos mais sobre essa temática que tem ganhado cada vez mais pauta de discussão e que usa a tecnologia como ferramenta para transformar nossas cidades em cidades mais sustentáveis e inteligentes. Bons estudos! 6 Introdução às smart cities Autoria: Paloma Regina Bueno dos Santos Leitura crítica: Cristiane Higueras Simó Objetivos • Conhecer os conceitos e definições acerca de smart cities, assim como as aplicações de suas tecnologias. • Compreender as motivações da implantação de cidades inteligentes. • Analisar e compreender o mercado das smart cities e alguns de seus principais focos de aplicação. 7 1. Introdução Atualmente quando se ouve o termo smart (inteligente) é difícil identificar um único objeto ligado diretamente a esse termo, pois afinal, tudo hoje é smart, desde equipamentos, eletroeletrônicos, eletrodomésticos, móveis, acessórios, enfim, até nossa casa pode ser smart! O significado da palavra inteligente no dicionário Michaelis (2022, [s.p.]), refere-se à “habilidade de aproveitar a eficácia de uma situação e utilizá-la na prática de outra atividade” e ainda “capacidade de resolver situações novas com rapidez e êxito, adaptando-se a elas por meio do conhecimento adquirido”. Na atualidade, contribuir com as facilidades do dia a dia seja no trabalho ou em qualquer aspecto social, possibilita com que um equipamento seja caracterizado, por exemplo, como inteligente, pois permite facilidades no seu manuseio e contribui para uma melhor qualidade de vida. Geralmente o termo smart é relacionado a conceitos positivos, “inteligentes” “sustentáveis” “engenhosos”, entre diversos outros, que nos remetem a propostas assertivas, que asseguram uma melhor funcionalidade, sem desperdícios e com reaproveitamento máximo. Como esses conceitos são desenvolvidos no âmbito das cidades? Vamos descobrir! 1.1 O que são as smart cities? Como a maior parte de coisas intituladas smarts, as smart cities não podem ser categorizadas com apenas uma definição, segundo Morozov e Bria (2019): [...] O que para alguns se refere em essência ao uso sensato e ecologicamente sustentável dos recursos da cidade, para outros significa 8 a instalação de dispositivos inteligentes e interativos que prometem uma experiência urbana livre de inconveniências e ajudam a tornar as cidades ambientes ainda mais atraentes para o que tietes das cidades como Richard Florida chamam de “classe criativa” [...]. (MOROZOV; BRIA, 2019, p. 15) De uma maneira ou de outra, a proposta das cidades inteligentes é melhorar a qualidade de vida da população, com um planejamento e gestão urbana adequados, e com o uso da tecnologia e de todas as inovações atuais, que traga não somente uma melhoria espacial, mas, também, que envolva uma diminuição do consumo de recursos naturais, reaproveitamento e descarte mínimo de insumos, além de outros tantos fatores que constroem uma cidade mais sustentável. A figura a seguir (Figura 1) representa a tecnologia aliada ao desenvolvimento das cidades. Figura 1 – Smart Cities Fonte: Shutterstock.com. As smarts cities surgem de uma aliança público-privada, com empresas que tem o interesse de implementar seus produtos nas cidades. E aqui 9 há um ponto crucial: além de muitos pontos positivos, é importante mencionar que as cidades inteligentes foram alvo, também, de muitas críticas. As críticas tinham como fundamento a visão utópica criada para solucionar os problemas das cidades, não havendo conexão com os problemas reais, de fato, atrelados às cidades. Além de uma crítica dura, a obsessão pelo controle e vigilância, em que não só não prioriza os cidadãos durante o desenvolvimento, mas sim as corporações e a iniciativa privada. Figura 2 – Vigilância das smart cities Fonte: Shutterstock.com. Com base no que será discutido nesse material, e segundo Morozov (2019), podemos definir que o termo smart se refere a toda e qualquer tecnologia avançada implementada em cidades com o intuito de otimizar o uso de seus recursos, transformar o comportamento e hábito dos usuários, produzir novas riquezas ou prometer novos tipos de ganho no que se refere, por exemplo, à flexibilidade, segurança e sustentabilidade. 10 1.2 Motivações para implantação de uma cidade inteligente Para entender o surgimento das cidades inteligentes, é necessário entender a forma como as cidades podem se reinventar, se transformar. A cidade pode ser vista como um reflexo de seu povo, conforme o tempo avança, vamos evoluindo enquanto sociedade, com novos hábitos, novos ideais, novas formas de pensar e agir, a vida se transforma, evolui, e as cidades acompanham a sua população nesse processo. E é com base nessas mudanças que se transformam também os problemas de uma cidade. Logo, é importante para o planejamento da ação entender qual é a dinâmica desse espaço para com as pessoas que habitam e transitam diariamenteem suas ruas, fazendo com que, assim, seja possível extrair um diagnóstico, a fim de traçar as diretrizes e soluções. Podemos dizer, então, que as motivações para o surgimento do conceito de smart cities vem não somente na etapa de soluções e diretrizes, mas, também, na etapa de diagnóstico. A esfera da sustentabilidade e meio ambiente, nesse quesito da motivação, é forte, como explicam Morozov e Bria (2019): [...] Os muitos predecessores que, em detrimento da dimensão tecnológica, enfatizaram a dimensão ecológica do caráter smart – a cidade verde, a cidade eco-friendly, a cidade sustentável, a cidade carbono- zero –, também são raramente evocados, mesmo que a necessidade de corte das emissões de poluentes e dos custos de energia tenha sido o principal motor a levar as cidades a experimentar tecnologias inteligentes e continue a ser o fator responsável por humanizar a pauta da smart city corporativa [...]. (MOROZOV, 2019, p. 26) Levando em conta a perspectiva da cidade, pode-se entender as motivações que levaram à escolha de soluções da smart cities, e elas são classificadas, de forma geral, em duas: normativas e pragmáticas. 11 As normativas se referem a esforços de longo prazo, levando em conta tecnologias capazes de atingir metas políticas, como criar ambientes mais agradáveis e inclusivos, com menos discriminação e que sejam capazes de aumentar o desenvolvimento econômico. Já as pragmáticas, há uma variedade muito grande dos objetivos, que vão mudar de cidade para cidade. Por exemplo, em uma cidade que deseja reforçar a segurança e policiamento, particularmente em época de Copa do Mundo, e opta pelo uso e implantação das câmeras smart. Nota-se que há uma situação pontual para ser implantada. Um exemplo interessante do uso inteligente da tecnologia foi na cidade de Rotterdã (Holanda), em que foi implantado um sensor semafórico para as bicicletas, um dos meios de transporte mais utilizados. Com isso, assim que os sensores ficam molhados, eles começam a priorizar os ciclistas, diminuindo o tempo médio de espera em 40 segundos. As figuras 3 e 4 a seguir exemplificam o sensor de Rotterdã (Holanda). Figura 3 – Sensores de chuva Fonte: https://www.hypeness.com.br/2016/03/semaforos-inteligentes-priorizam-ciclistas- em-dias-de-chuva/. Acesso em: 28 set. 2022 https://www.hypeness.com.br/2016/03/semaforos-inteligentes-priorizam-ciclistas-em-dias-de-chuva/ https://www.hypeness.com.br/2016/03/semaforos-inteligentes-priorizam-ciclistas-em-dias-de-chuva/ 12 Figura 4 – Sensor molhado Fonte: https://www.hypeness.com.br/2016/03/semaforos-inteligentes-priorizam-ciclistas- em-dias-de-chuva/. Acesso em: 28 set. 2022. 1.3 O mercado das smart cities O conceito de cidade inteligente precisa ser contextualizado no cenário em que se encontra. Por exemplo, analisar e avaliar as condições específicas de cada país, afinal, estes representam grandes diferenças em relação ao desenvolvimento e até mesmo as suas necessidades. O Brasil, um país em desenvolvimento, apresenta necessidades particulares relacionadas à avaliação de sua infraestrutura urbana em suas cidades, por exemplo, o que já não ocorre nas cidades de países desenvolvidos, que já possuem uma infraestrutura mais consolidada e funcional. A partir disso, existem alguns fatores importantes atrelados ao conceito de cidade inteligente, e um deles são as Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC). Segundo Neto (2018): [...] a criação de uma infraestrutura de TIC capaz de suportar o tráfego de informações provenientes de diferentes fontes e de suportar cidades https://www.hypeness.com.br/2016/03/semaforos-inteligentes-priorizam-ciclistas-em-dias-de-chuva/ https://www.hypeness.com.br/2016/03/semaforos-inteligentes-priorizam-ciclistas-em-dias-de-chuva/ 13 inteligentes que se esforçam pela construção inteligente aliada a sustentabilidade é um dos grandes desafios a ser percorrido. (NETO, 2018, p. 26) Para essa infraestrutura, a TIC a ser implantada deve abranger alguns pontos, tais como: a. Internet das Coisas. b. Segurança de dados. c. Redes de sensores. d. Tecnologia de informação e comunicação. e. Banda larga móvel. Muitas empresas têm se adiantado nesse aspecto. Vamos tratar, agora, sobre algumas multinacionais que estão moldando o mercado desse seguimento. 1.3.1 Siemens A Siemens trabalha com plataformas de manutenção prediais, desenvolvendo sistemas de transformação de inteligência integrada a infraestruturas, ou seja, sistemas automatizados que integram proteção contra incêndios, automação predial, ventilação, aquecimento, segurança, condicionamento de ar, além de administração de energia (MOROZOV; BRIA, 2019). 14 Figura 5 – Siemens Fonte: Shutterstock.com. 1.3.2 IBM A IBM oferece soluções para a segurança pública e policiamento, com base na tecnologia de centros de operação inteligentes, que combatem o crime em tempo real. Por exemplo, como descreve Morozov (2019): [...] Em Atlanta e em Chicago, por exemplo, a IBM usa tecnologias de reconhecimento facial, de monitoramento avançado por vídeo e de vigilância ostensiva para fornecer informações precisas à polícia, permitindo que as autoridades detectem padrões na prática de crimes com base na análise de Big Data [...]. (MOROZOV, 2019, p. 31) 1.3.3 Cisco A Cisco tem como solução a integração de dados de diversos tipos diferentes de sensores, a fim de administrar esses dados em prol de serviços urbanos. Esses serviços urbanos podem aparecer nas mais diversas categorias, como energia, e-governo e logística. Promove, 15 também, plataformas mais recentes da “Internet de todas as coisas”, que se baseia no conceito de que todos os dispositivos ou equipamentos do mundo, em algum dado momento, serão conectados. Figura 6 – Cisco Fonte: Shutterstock.com. 1.3.4 Phillips A Phillips também pode ser citada como uma empresa que vem crescendo muito no ramo de smart cities com a iluminação em LED conectada. Apresenta sistemas de controle inteligente da iluminação voltados à segurança e proteção nos espaços públicos. Já dentro das residências e edifícios, traz a promessa de eficiência energética, além da diminuição de gastos com manutenção. Pode-se concluir que, de forma geral, a tecnologia está muito presente na vida da sociedade, e cada vez mais fará parte de sua essência, seja em seus smartphones, computadores, em suas casas, ou até mesmo em suas cidades. 16 Referências CORTESE, Tatiana T. P.; KNIESS, Cláudia T.; MACCARI, Emerson A. Cidades Inteligentes e Sustentáveis. São Paulo: Manole, 2017. LEITE, Carlos; AWAD, Juliana di C. Cidades Sustentáveis: Cidades inteligentes – Desenvolvimento sustentável num planeta urbano. Porto Alegre: Bookman, 2012. MICHAELIS. Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa. Inteligência. [s.p.]. Disponível em: https://michaelis.uol.com.br/busca?id=PqO2A. Acesso em: 9 nov. 2022. MOROZOV, Evgeny; BRIA, Francesca. A cidades inteligente – Tecnologias urbanas e democracia. São Paulo: Ubu Editora, 2019. NETO, Vicente S. Cidades inteligentes: Guia para construção de centros urbanos eficientes e sustentáveis. São Paulo: Editora Érica, 2018. https://michaelis.uol.com.br/busca?id=PqO2A 17 Sustentabilidade e soluções em cidades inteligentes Autoria: Paloma Regina Bueno dos Santos Leitura crítica: Cristiane Higueras Simó Objetivos • Conhecer os conceitos e definições sobre o termo sustentabilidade, e suas aplicações dentro das cidades. • Compreender o formato da cidade sustentável e inteligente. • Analisar e compreender quais as soluções empregadas, com exemplos de soluções reais. 18 1. Introdução Neste tema será trabalhado o conceito de sustentabilidade que, literalmente, tem a ver com a capacidade de sustentação de um sistema. A sustentabilidade tem um vasto panorama de aplicação, sendo o foco aqui, trabalhar principalmente a aplicação desta na construção e principalmente nas cidades. A ideia, desde seu surgimento, é conseguir balancear dois pontos importantesnas nossas cidades: o desenvolvimento econômico e a conservação do meio ambiente. Dessa forma, pode-se definir de forma superficial, que a sustentabilidade é quando conseguimos ter um desenvolvimento que não esgote os recursos para o futuro. 1.1 Definição de sustentabilidade Sustentabilidade é um termo em destaque desde a década de 1990, e como menciona Cortese, Kniess e Maccari (2017): [...] está relacionada à busca da conciliação entre o desenvolvimento econômico, a preservação ambiental e os aspectos sociais, existentes em qualquer sociedade. As três dimensões do desenvolvimento sustentável (econômico, social e ambiental) devem estar presentes no segmento que pretende atingir esse objetivo [...]. (CORTESE, KNIESSE; MACCARI, 2017, p. 103) Essas três dimensões do desenvolvimento sustentável mencionada pelos autores são a base para garantir que a sustentabilidade esteja inteiramente presente, seja em uma construção, uma ação, ou até mesmo uma cidade. A Figura 1 demonstra o tripé da sustentabilidade mencionado acima. 19 Figura 1 – Tripé da sustentabilidade Fonte: https://meiosustentavel.com.br/sustentabilidade. Acesso em: 4 out. 2022. O seguimento da construção civil é um dos segmentos que mais consome recursos naturais e energéticos do mundo, e ainda gera um valor considerável de resíduos. Devido a isso, é um seguimento que precisa aplicar a sustentabilidade em seus processos, de forma a transformar o meio ambiente, gerando menos impacto ambiental, tanto em suas atividades, como na fabricação de seus materiais, e suas operações e usos. Durante o ciclo de vida da construção civil (Figura 2), muitas são as etapas em que se desprende o uso de recursos, que podem ser: o solo; a energia; a água; e os materiais utilizados. Todos eles interferem diretamente no nosso meio ambiente e, por isso, o impacto tão grande da construção civil na esfera ambiental. Diante disso tudo, Kilbert (2003 apud CORTESE; KNIESS; MACCARI, 2017) estabeleceu cinco princípios básicos da construção sustentável de edifícios: 1. Redução do consumo de recursos naturais que não sejam renováveis. https://meiosustentavel.com.br/sustentabilidade 20 2. Possível reutilização de recursos. 3. Reciclagem de materiais quando o edifício está em fim de vida e uso de recursos recicláveis. 4. Proteção dos sistemas naturais na realização de todas as atividades. 5. Eliminação de materiais tóxicos e subprodutos, em todo o ciclo de vida, de acordo com a lógica de produção mais limpa. Figura 2 – Construção civil Fonte: Shutterstock.com. 1.2 A cidade sustentável O conceito de cidade sustentável, assim como da sustentabilidade em si, como vimos anteriormente, visa uma cidade que atenda aos objetivos sociais, ambientais, políticos e culturais, assim como também os físicos e econômicos de sua população. A cidade deve ser balanceada, seguindo um modelo de desenvolvimento que encontre um equilíbrio de forma eficiente, entre os recursos que são primordiais para manter o seu funcionamento, tanto nas fontes de entrada, onde pode-se citar a terra 21 urbana e seus recursos naturais, como água, energia, alimento etc. quanto nos insumos de saída, onde se encontram os resíduos, esgoto, poluição, entre outros. Ou seja, podemos compreender que todos os recursos das cidades são utilizados da forma mais eficiente possível, em que os suprimentos, o manuseio e manejo de forma sustentável, além de uma distribuição igualitária para toda a população sejam atendidos, afinal são primordiais para a construção dessa nova forma de cidade, a cidade sustentável. A cidade sustentável deve buscar inovação, com novos modelos de gestão e desenvolvimento, diferentes dos modelos praticados anteriormente, levando em conta parâmetros advindos das cidades compactas. Observe a explicação de Leite (2012) sobre as cidades compactas: [...] Esse modelo é baseado em um eficiente sistema de mobilidade urbana que conecte os núcleos adensados em rede, promovendo maior eficiência nos transportes públicos e gerando um desenho urbano que encoraje a caminhada e o ciclismo, além de novos formatos de carros (compactos, urbanos, e de uso como serviço avançado) [...]. (LEITE, 2012, p. 136) A cidade compacta rompe com a modelo de desenvolvimento atual e a predominância do automóvel, pois ela tem o objetivo de “encurtar” distâncias, de trabalhar com bairros que possuem setorização funcional (Figura 3), ou seja, diversos usos compartilhando o mesmo espaço a fim de que a população tenha menores deslocamentos, e estes possam ser feitos a pé, onde o pedestre consiga desfrutar dos caminhos, com calçadas e passeios públicos confortáveis, acessíveis e que promovam o bem-estar ao cidadão. Afinal, um menor número de carros circulando, reduz o trânsito e, consequentemente, gera menos poluição, melhorando a qualidade do ar, ou seja, é uma cidade voltada a atender o indivíduo, que pensa na escala do pedestre. 22 Figura 3 – Esquema funcional de cidade compacta Fonte: https://www.researchgate.net/figure/FIGURA-2-Esquema-funcional-da-Cidade- Compacta_fig2_319364291. Acesso em: 4 out. 2022 De acordo com Leite (2012), a cidade sustentável baseia-se nesse modelo de desenvolvimento que faz a promoção de altas densidades, de um modo qualificado, utilizando um adequado e planejado uso misto do solo, integrando as funções urbanas de habitação, serviço e comércio. A ideia é que, com isso, a população residente possua mais oportunidades de interação social, mas com o sentimento de segurança pública, que nos dias atuais é algo muito debatido, estabelecendo, dessa forma, um senso de comunidade, com calçadas e espaços de uso coletivo vivos e dinâmicos, um mix de usos e proximidade entre eles. Para finalizar, outro ponto importante dessa nova forma de cidade, é pensar um crescimento ordenado do território, tendo como base o crescimento integrado ao sistema de mobilidade, como pode-se ver na Figura 4. https://www.researchgate.net/figure/FIGURA-2-Esquema-funcional-da-Cidade-Compacta_fig2_319364291 https://www.researchgate.net/figure/FIGURA-2-Esquema-funcional-da-Cidade-Compacta_fig2_319364291 23 Figura 4 – Sistema de mobilidade Fonte: Shutterstock.com. 1.3 Soluções sustentáveis Visto todos os problemas urbanos que as cidades enfrentam e pensando em soluções sustentáveis para melhorar a qualidade de vida e o bem- estar causando o mínimo de impacto possível, existem diversos fatores diferente que podemos nos apoiar para que essas mudanças ocorram. A primeira delas seria esse desenvolvimento sustentável que foi mencionado anteriormente, em que podemos citar medidas como a redução da emissão de gás carbônico, seguindo a premissa das cidades compactas onde a mobilidade é funcional e é fomentado o uso da bicicleta ou o próprio trajeto a pé, diminuindo o trânsito e o uso do carro. Outro problema atrelado às cidades são as enchentes, por exemplo, quando os bueiros entopem e a água fica sem escoamento. Dentro das propostas sustentáveis a ideia de aumentar as áreas verdes funciona não somente para uma melhora na qualidade do ar e do espaço, mas também para o próprio escoamento da água. Um bom exemplo é o bueiro inteligente, que consiste em um sistema de sensores instalados 24 que avisam quando ele está se enchendo, o que permite que o sistema alerte e contacte uma equipe de limpeza para o local para resolver o problema com muito mais eficiência. No Rio de Janeiro (RJ) já existem soluções semelhantes para essa implantação, como podemos observar na Figura 5. Figura 5 – Bueiros inteligentes Fonte: https://cbic.org.br/sustentabilidade/2018/11/12/startups-criando-solucoes-para- resolver-problemas-urbanos-e-tornar-cidades-mais-inteligentes-e-sustentaveis/. Acesso em: 4 out. 2022. Os prédios planejados e as edificações construídas de forma sustentável também podem ser considerados dentro da cidade inteligente. Exemplos disso são prédios projetados para tratamento de esgoto e para gerar sua própria energia,usando a luz do sol. Além de edificações bioclimáticas, que minimizam o consumo de energia, aproveita ao máximo a energia solar e, também, a diminuição com a climatização interna. Isso é possível com uma arquitetura bem planejada e estudada, aproveitando ventos predominantes, estudo solar, posicionamento de aberturas, entre outras formas de minimizar os gastos energéticos. Não podemos deixar de mencionar os materiais empregados na construção, e todos os processos de construção, que estes também devem se dar de forma sustentável, gerando o mínimo de resíduo possível e favorecendo https://cbic.org.br/sustentabilidade/2018/11/12/startups-criando-solucoes-para-resolver-problemas-urbanos-e-tornar-cidades-mais-inteligentes-e-sustentaveis/ https://cbic.org.br/sustentabilidade/2018/11/12/startups-criando-solucoes-para-resolver-problemas-urbanos-e-tornar-cidades-mais-inteligentes-e-sustentaveis/ 25 o fornecimento de produtos locais. A Figura 6 demonstra alguns fatores relevantes para uma construção sustentável. Figura 6 – Construção sustentável Fonte: https://sustentarqui.com.br/como-construcoes-sustentaveis-contribuem-para-os- ods-da-onu/. Acesso em: 4 out. 2022 A iluminação pública é um outro fator extremamente importante, o uso do LED e a automatização dos postes, por exemplo, são algumas das formas para melhorar a eficiência energética, diminuindo os gastos com energia, ou até mesmo transformando a energia gasta em uma energia limpa. Um exemplo são pontos de ônibus que possuem painéis solares para suprir a energia gasta durante o uso. Pode-se perceber, assim, que são muitos os fatores que transformam uma cidade em inteligente e sustentável, e há muitos desafios nesse percurso, mas a tecnologia é uma poderosa aliada capaz de tornar possível esse sonho. https://sustentarqui.com.br/como-construcoes-sustentaveis-contribuem-para-os-ods-da-onu/ https://sustentarqui.com.br/como-construcoes-sustentaveis-contribuem-para-os-ods-da-onu/ 26 Referências CORTESE, Tatiana T. P.; KNIESS, Cláudia T.; MACCARI, Emerson A. Cidades Inteligentes e Sustentáveis. São Paulo: Manole, 2017. LEITE, Carlos; AWAD, Juliana di C. Cidades Sustentáveis: Cidades inteligentes – Desenvolvimento sustentável num planeta urbano. Porto Alegre: Bookman, 2012. MOROZOV, Evgeny; BRIA, Francesca. A cidades inteligente – Tecnologias urbanas e democracia. São Paulo: Ubu Editora, 2019. NETO, Vicente S. Cidades inteligentes: Guia para construção de centros urbanos eficientes e sustentáveis. São Paulo: Editora Érica, 2018. 27 Os desafios para a construção de cidades inteligentes Autoria: Paloma Regina Bueno dos Santos Leitura crítica: Cristiane Higueras Simó Objetivos • Conhecer e compreender o cenário do Brasil no que diz respeito aos desafios para a construção de cidades mais sustentáveis e inteligentes. • Compreender o papel da construção civil no desenvolvimento das cidades. • Perceber como a construção civil é um setor importante para tal desenvolvimento. 28 1. Introdução Neste tema, vamos abordar sobre os desafios que são encontrados na implantação de cidades inteligentes, de forma geral em todo o globo, especificamente no Brasil, que é um país em desenvolvimento. É de grande importância entender o contexto em que estamos e identificar possíveis divergências quanto à problemática e até mesmo a solução proposta em diversas cidades diferentes, levando em consideração toda a questão social, econômica e cultural que fazem com que essas divergências se ampliem ou diminuam. Para isso, o primeiro passo é compreender esse contexto, o cenário brasileiro no que tange os conceitos urbanísticos e de planejamento urbano, suas leis e suas aplicações. Na sequência, falaremos de um setor que tem grande influência sobre esses desafios urbanos: a construção civil. 1.1 Cenário brasileiro O Brasil é um país que apresenta muitos problemas em suas cidades, decorrente muitas vezes do formato de como elas foram elaboradas, afinal, muitas cidades, se não a maior parte delas, foram acontecendo conforme sua população foi aumentando. Logo, existem grandes problemáticas no cenário atual, que surgiram devido à própria evolução da população como sociedade, a forma de vida, a dinâmica social, entre diversos outros pontos que sofreram uma transformação com o tempo. As cidades são dinâmicas, elas crescem, elas se transformam, junto a seu povo. A identificação e compreensão do cenário específico da regulação no Brasil tem o intuito de apresentar o desenvolvimento do direito urbanístico e, dessa forma, entender toda a sua evolução histórica, 29 verificando suas limitações frente aos grandes desafios na reformulação das cidades atuais para as cidades inteligentes e sustentáveis. Na maior parte dos textos e estudos referentes ao tema de direito urbanístico, nota-se uma compulsão pelo detalhamento técnico e vocabular dos termos e palavras que o compõem, que alguns autores denominam como “fetiche do conceito” (CORTESE; KNIESS; MACCARI, 2017). O trecho a seguir aborda esse conceito: [...] Essas referências doutrinárias pretendiam produzir o mesmo rigor empregado na descrição das competências e da atuação da administração pública, necessariamente minuciosa em razão da sensibilidade do “interesse público”, embora referida ênfase pouco contribuísse para a efetividade dos regramentos aos quais se submetia a atuação estatal. Cada palavra, cada expressão e cada derivação conceitual era tributária de longas explicações, amparadas em referencias do direito comparado mais avançado à época, ainda que ao custo da formação de verdadeira colcha de retalhos teórica, de duvidosa cientificidade [...]. (CORTESE; KNIESSE; MACCARI, 2017, p. 10) Para exemplificar, podemos citar o conceito de zoneamento. Com uma definição clássica temos “repartição do território municipal a vista da destinação da terra, do uso do solo ou das características arquitetônicas”, segundo art. 30, VIII, da Constituição Federal (BRASIL, 1988, [s.p.]). Mas, ainda, podemos interpretar como uma ação direta do Poder Público na ordem econômica e social, e, em consequência disso, na propriedade e direito de construir, com a finalidade de condicioná-los à sua função social. O que acabava gerando uma imprecisão conceitual, uma vez que o termo “função urbana elementar” não tinha definição, e justificativas como “interesse do bem-estar da população” ou “colocar cada coisa em seu lugar adequado” eram muito utilizadas sem algum aprofundamento. Podemos concluir, de fato, que o zoneamento não podia se orientar em satisfazer interesses particulares de determinados grupos, mas, devido a essas imprecisões se abriam brechas que permitiam esse determinado ato, enquanto a “função social” fora 30 deixada de lado, sem grandes aprofundamentos (CORTESE; KNIESS; MACCARI, 2017). A Figura 1, a seguir, é um exemplo de zoneamento para ilustrar o conceito. Figura 1 – Zoneamento de Toledo (PR) Fonte: https://www.clubealuno.com.br/blog/post/24/o-que-%C3%A9-zoneamento-urbano. Acesso em: 16 out. 2022. Na imagem, podemos perceber a cidade dividida em várias zonas, onde em cada uma delas há usos destinados, além de parâmetros para construção que seguem a função das atividades a que se destinam aquela determinada região. Apenas uma forma de exemplificar como o Poder Público, no caso municipal, apresenta a população, dentro do Plano Diretor da cidade, essas definições feitas pelo planejamento urbano. O que é necessário extrair desse exemplo do zoneamento, que não é um caso único, no planejamento das cidades, e que os debates acerca das definições do planejamento da cidade são muito técnicos e pouco políticos, muito menos participativo e alinhado com as demandas da 31 sociedade. Um grande problema era a forma desse debate, totalmente verticalizado, onde esferas do Poder decidiam o que seria feito, em uma política baseada em concessões de licenças, tanto de obras quanto de construções, chegando até mesmo na demolição das edificações,como cita Silva (2012 apud CORTESE; KNIESS; MACCARI, 2017): [...] conscienciosa e inteligentemente, com energia e justiça. Trata-se de tarefa que deve incumbir o órgão local composto de técnicos com especial conhecimento da situação sobre a qual incidem aquelas normas e atos fixadores das zonas. Sua eficácia requer vigilância e fiscalização constantes e rigorosas, mas, talvez, ainda exija mais orientação que sanção; mas esta deverá recair, sem vacilações, sobre infratores impertinentes [...]. (SILVA, 2012, p. 246 apud CORTESE; KNIESSE; MACCARI, 2017, p. 12) Há um consenso entre os estudiosos sobre o assunto, em meios acadêmicos especializados, que existe uma grande rede de movimentos sociais que tem como principal pauta a reforma urbana, e isso comprova a incapacidade de imposição de definições e formatos adequados de ocupação das cidades. Logo, podemos definir que as cidades cresceram, e ainda crescem, de forma desregrada, e muito se deve à submissão do direito urbanístico oscilar entra tradições privatista e a ordem pública do direito de construção. Inclusive, um dos principais fios condutores do Estatuto da Cidade foi a tentativa de contenção de inúmeras irregularidades urbanas (CORTESE; KNIESS; MACCARI, 2017). Para concluir, é importante salientar que essa doutrina do direito urbanístico, a dinâmica como ela acontece, não somente freia como em muitos casos bloqueia o avanço da implantação desse novo conceito de cidade. Podemos ter um exemplo disso, e das dificuldades que são enfrentadas para a regulação de aplicativos de mobilidade, no caso do Uber, sinalizando, assim, que é um problema que gera impactos diretos sobre a economia do país, isso além dos quesitos políticos e sociais (CORTESE; KNIESS; MACCARI, 2017). Por fim, um vamos entender o objetivo da implantação dessas cidades inteligentes, que não tem a premissa de resolver todos os problemas enraizados de nossa 32 sociedade, afinal, ela possui problemas bem mais amplos e profundos estruturalmente, e assim evitar o de atribuir a esse novo conceito um papel que não lhe pertence. 1.2 O setor da construção civil A construção civil é um dos setores que mais consome recursos nas cidades, além da geração de resíduos, por isso, a importância de entender o papel que esse setor desempenha e as formas como ele pode se contribuir em ser um agente transformador nesse aspecto. A construção sustentável (Figura 2 e 3) é um conceito amplamente discutido na sociedade, e vai além da preocupação ambiental, pois tem como pauta, também, a preocupação em melhoria na qualidade de vida da população, tanto individualmente quanto coletivo. Para isso, ela abraça a sustentabilidade econômica e social (CORTESE; KNIESS; MACCARI, 2017). Na Figura 3, há um exemplo de algumas decisões projetuais cabíveis para uma construção mais sustentável. Figura 2 – Construções sustentáveis Fonte: https://noventa.com.br/o-que-e-e-quais-sao-as-certificacoes-necessarias-para-a- construcao-civil-sustentavel/. Acesso em: 16 out. 2022 33 Figura 3 – Exemplo de construção sustentável Fonte: https://eescjr.com.br/blog/construcao-sustentavel-beneficios/. Acesso em: 16 out. 2022 Porém, implantar essas construções sustentáveis trazem inúmeros desafios à forma de construir, em que pode-se destacar, principalmente, reduzir e otimizar o consumo de energia e da matéria-prima, o que leva à redução dos próprios resíduos gerados e, com isso, favorecem o meio ambiente e a qualidade desse ambiente construído. Sob essa ótica, o setor da construção civil e os governos criam um ciclo de vida do ambiente que é feito em duas direções. A primeira, dos empresários, que incentivam o desenvolvimento de novas tecnologias, de forma inovadora e sustentável, com alternativas menos poluentes e mais preservativas ao meio ambiente, e claro, economicamente viáveis. Já a segunda direção se destina ao poder público, que administra, principalmente na esfera local, em que ele promove práticas sustentáveis dentro do planejamento urbano, a partir de ferramentas como a própria legislação e código de edificações, incentivos fiscais e parcerias juntamente com as concessionárias que oferecem os serviços públicos de energia, água e esgoto para a população (CORTESE; KNIESS; MACCARI, 2017). 34 A construção civil desempenha um papel importante no que tange o desenvolvimento econômico e social do Brasil, muito se deve ao fato de ser o setor responsável pela redução nos déficits de habitação e infraestrutura, além de ser um dos setores que mais gera empregos diretos e indiretos no país. Mas, apesar dessa figura importante, lembre-se que a construção civil é um dos setores que mais impacta o meio ambiente, devido à toda a sua cadeia produtiva. Como exemplo, podemos analisar a massa gerada diariamente de Resíduos Sólidos urbanos (RSU), em que grande parte provém das atividades ligadas a esse setor. Como forma de minimizar esses impactos, vale pontuar um dado bastante interessante, que a construção civil é um dos setores que mais investem em inovação tecnológica, com foco no desenvolvimento de ferramentas para minimização dos impactos ambientais que causam (CORTESE; KNIESS; MACCARI, 2017). Segundo John (2010 apud CORTESE; KNIESS; MACCARI, 2017), o desenvolvimento sustentável só poderá ser possível quando forem adotas as seguintes medidas: • Otimizar as técnicas executivas vigentes – Construir mais utilizando menos insumos. • Substituir matérias-primas naturais por materiais reciclados, dessa forma reduzindo o impacto ambiental e os resíduos descartados. Os aspectos de construções sustentáveis que podemos relacionar à construção civil estão associados a: energia e sua utilização; sistemas de automação; ar-condicionado (um dos grandes vilões de gastos energéticos); ao conforto ambiental (ex.: o isolamento térmico e acústico; a utilização de materiais com certificação ambiental; e a racionalização da logística. Logo, para atingir esses aspectos, a construção necessita ser mais “limpa”, minimizando os resíduos em obra e com um enfoque na 35 reciclagem desses resíduos, o que podemos denominar de construção enxuta. Segundo Peretti (2014 apud CORTESE; KNIESS; MACCARI (2017), a base da filosofia da construção enxuta está na “eliminação dos desperdícios e na redução dos estoques dos materiais, racionalizando tempo e melhorando o uso da mão de obra, com foco no processo e no ambiente de trabalho” (DAVE; KOSKELA, 2009 apud CORTESE; KNIESS; MACCARI, 2017). No trabalho original de Koskela (1992 apud CORTESE; KNIESS; MACCARI, 2017), ele cita onze princípios sobre esse tipo de construção: 1. Reduzir atividades que não agregam valor. 2. Aumentar o valor do produto. 3. Reduzir a variabilidade da matéria-prima, processo e demanda dos clientes. 4. Reduzir tempo de ciclo. 5. Simplificar/reduzir o número de etapas ou padronizar elementos construtivos. 6. Aumentar a flexibilidade de saída. 7. Aumentar a transparência do processo. 8. Fazer manutenção com foco no controle, visando eliminar perdas. 9. Gerar melhorias contínuas, visando reduzir desperdícios. 10. Criar balanceamento de melhorias entre fluxo e transformações. 11. Aplicar benchmarking. Portanto, percebe-se como a construção civil é um setor importante para o desenvolvimento de cidades sustentáveis. Referências BRASIL. Presidência da República. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília: D.O.U., 1988. CORTESE, Tatiana T. P.; KNIESS, Cláudia T.; MACCARI, Emerson A. Cidades Inteligentes e Sustentáveis. São Paulo: Manole, 2017. 36 LEITE, Carlos; AWAD, Juliana di C. Cidades Sustentáveis: Cidades inteligentes – Desenvolvimento sustentável num planeta urbano. Porto Alegre: Bookman, 2012. MOROZOV, Evgeny; BRIA, Francesca. A cidades inteligente – Tecnologias urbanas e democracia. São Paulo: Ubu Editora, 2019. NETO, Vicente S. Cidades inteligentes: Guia para construção de centros urbanos eficientes e sustentáveis. São Paulo: Editora Érica, 2018. 37 Habitaçãoautossuficiente e seus sistemas alternativos Autoria: Paloma Regina Bueno dos Santos Leitura crítica: Cristiane Higueras Simó Objetivos • Conhecer a importância das construções de habitações e edifícios autossuficientes. • Compreender a relevância das construções que visam a sustentabilidade. • Apresentar exemplos das ferramentas que podem ser implantadas para tal objetivo 38 1. Introdução É sabido que há décadas estamos enfrentando problemas relacionados ao forte impacto ambiental que o homem teve e, ainda, tem sobre a natureza, logo, o tema que será abordado tem o objetivo de trazer reflexões e de demonstrar formas eficazes de solucionar os problemas encontrados. Em um primeiro momento, serão levantados os principais problemas e a importância da conscientização para uma mudança na forma de pensar da sociedade, além de abordar meios eficientes para que isso ocorra, descrevendo um dos principais pilares: as construções autossuficientes. Na sequência, serão abordadas as principais ferramentas que podemos utilizar para atingir esse objetivo sustentável, descrevendo suas formas de aplicações e a minimização de seus impactos no meio ambiente. 1.1 Problemas ambientais Conforme Ferreira (2014), não podemos dizer que a preocupação com as questões ambientais é novidade, afinal, é uma pauta que está nas principais discussões no Brasil e no mundo, seja nas esferas do governo, de organizações não governamentais, órgãos internacionais, além de estar presente na discussão dos mais diversos segmentos da sociedade. Logo, os fatores causadores dos diversos tipos de impacto que temos são os mais variados, por exemplo, os desmatamentos, sem manejo e ilegal, o despejo in natura do esgoto doméstico e desperdício de água e energia, a ocupação humana nas cidades fruto de um não planejamento urbano e a industrialização cada vez mais acelerada. Todos esses fatores tornam preocupantes a situação das cidades tanto na atualidade quanto no futuro. 39 Sobre o clima, podemos citar questões que já foram comprovadas cientificamente sobre os efeitos danosos e nocivos a nossa atmosfera e a nossa saúde, como: o aumento na camada de ozônio; a precipitação da chuva ácida, principalmente em regiões extremamente industrializadas; o efeito estufa; e os diversos problemas respiratórios que são causados pela má qualidade do ar nas grandes cidades. Como explica Ferreira (2014): [...] Todos os problemas mencionados são claramente provocados pela intensa e crescente atividade humana nas sociedades mais desenvolvidas e também nos países que se convencionou chamar de emergentes, como é o caso do Brasil, porém com reflexos em todas as regiões do mundo, sem exceção. Há claros sinais de que as atividades humanas estão aumentando rapidamente a concentração dos gases do tipo efeito estufa “naturais” (CO² etc.), além de acrescentarem a atmosfera outros gases de efeito estufa, antes inexistentes, como o CFC, PFC, SF6, entre outros. Com isso, a temperatura da Terra aumenta muito rapidamente. As últimas décadas do século XX tiveram as mais altas temperaturas médias do último milênio, havendo claros indícios de intensificação das variações climáticas e da ocorrência de eventos extremos (secas, enchentes, furacões etc.) [...]. (FERREIRA, 2014, p. 3). Nas imagens a seguir (Figura 1 e 2), percebemos um caso de enchente e de seca, consequências das mudanças climáticas que estamos sofrendo em decorrência da ação humana sobre a natureza. 40 Figura 1 – Enchentes Fonte: Shutterstock.com. Figura 2 – Seca Fonte: Shutterstock.com. 41 1.2 A importância de soluções Devido a esse cenário, segundo Ferreira (2014), cada vez mais caótico que enfrentamos, a indústria da construção civil tem um papel importante como principal setor que gera impacto no meio ambiente, dado a isso, também é o que mais investe em tecnologia e desenvolvimento de sistemas sustentáveis, a fim de minimizar esses impactos causados, e com isso assume uma grande importância para a criação e desenvolvimento desse novo ideário de cidade sustentável. Alguns pontos podem ser levantados quando se trata desses sistemas sustentáveis, entre eles pode-se citar a utilização de forma mais racional dos recursos hídricos, principalmente no quesito do setor habitacional, com diversas formas alternativas de captação de água potável, armazenamento, distribuição e reuso. Outro sistema importante de ser trabalhado soluções é o sistema alternativo de coleta e tratamento do esgoto residencial, que pode ser trabalhado no próprio local, evitando, assim, o despejo em locais inapropriados. Com o mesmo afinco, conforme Ferreira (2014), é necessário pensar em uma fonte de energia mais limpa, que busca uma melhoria na integração entre o ser humano e a natureza. Esses sistemas mencionados, de água, esgoto e energia são sistemas primordiais para trazer qualidade e bem-estar, pois são elementos básicos do dia a dia do ser humano, logo, a importância de trazer a sustentabilidade para esses setores, transformando-os em sistemas mais limpos, que impactam menos no meio ambiente e que ao mesmo tempo consigam ter uma integração entre si, de forma sustentável e inteligente. É de suma importância traçar diretrizes com a finalidade de realizar construções, principalmente habitações autossuficientes, capazes de no próprio ambiente que estejam: obter água potável, coletar e tratar o próprio esgoto produzido e, por fim, gerar energia elétrica limpa, 42 que seja independente das concessionárias de abastecimento. Para isso, utilizando tecnologia existentes, de forma integrada, sustentável e inteligente. Ferreira (2014) explica que: [...] Uma primeira forma de interligação entre os sistemas reside na utilização da energia elétrica produzida por intermédio de painéis fotovoltaicos para acionar diretamente uma bomba de recalque que trabalha com corrente de natureza continua, para utilização nos sistemas de captação de água de chuva e de água subterrânea [...]. (FERREIRA, 2014, p. 5) O exemplo citado pelo autor é apenas uma forma de integração dos diversos sistemas. Para uma visão inicial acerca dos diversos aspectos que relacionam à habitação autossuficiente, observe na Figura 3, em formato esquemático, a relação entre os sistemas. Figura 3 – Esquema de habitação autossuficiente Fonte: adaptada de Ferreira (2014). 43 1.3 Construções autossuficientes Chegou o momento de entendermos um pouco melhor como esses sistemas de água, esgoto e energia, funcionam na prática, quais são as formas de implantação que podemos fazer e como são integrados. 1.3.1 Sistemas para captação de água de chuva A captação da água da chuva é uma forma eficiente de reaproveitar a água e reduzir o consumo em até 50%. Para Ferreira (2014), o tema chega a ter uma relevância nacional e é foco principal de políticas nacionais de incentivo, como por exemplo a Lei nº 13.501/2017, que estimula a criação de legislações estaduais e municipais fundadas no aproveitamento. Um exemplo que podemos citar é um método indicado para atividades que não exijam a utilização de água potável, como: descargas; irrigação; lavagem de calçada ou carro (Figura 4). Seu funcionamento se inicia nas calhas, que canalizam a água das chuvas diretamente para um recipiente, em que a água será filtrada, a fim de eliminar impurezas e resíduos, e logo após ela é encaminhada para a cisterna (normalmente fica abaixo da terra), onde é armazenada. A partir de uma bomba, a água é bombeada para a caixa d’agua, localizado na cobertura da habitação, e de lá é distribuída para os locais de uso, que normalmente incluem usos não potáveis. 44 Figura 4 – Sistema de captação de água da chuva Fonte: https://cedae.com.br/captacaoaguachuva. Acesso em: 25 outubro 2022 1.3.2 Sistemas para aproveitamento de energia solar O sistema visa o aproveitamento da energia gerada pelo sol, tanto como fonte de calor quanto como fonte de luz, e é uma das alternativas energéticas mais promissoraspara enfrentar a situação atual e os desafios contemporâneos. Temos duas formas de utilização, muito presentes atualmente, acerca da energia solar: a energia solar térmica e a energia solar fotovoltaica. A primeira utiliza o calor do sol para aquecer, principalmente, líquidos. Esse sistema é composto por coletores ou tubos a vácuo, normalmente 45 instalados em coberturas, onde captam os raios solares e direcionam para a água do banho, sendo responsáveis por esquentar a água dos chuveiros. São muito eficientes, chegando a reduzir até 80% dos gastos com aquecimento da água, e esse dado só não é maior por contar com resistências elétricas em seus sistemas, devido aos dias nublados em que o sol está menos intenso e, consequentemente, não consegue aquecer até as temperaturas normalmente exigidas. Já a segunda maneira resulta de melhorias no campo tecnológico dos módulos e sistemas fotovoltaicos que firmaram a energia solar fotovoltaica com uma energia alternativa que é ecológica, viável e demanda pouca manutenção. Para Ferreira (2014), o sistema consiste em placas/ painéis fotovoltaicos e inversores, onde com a conversão direta da luz em eletricidade através do efeito fotovoltaico, a energia é gerada e distribuída para toda a residência, ou seja, todo o gasto energético de uma casa, como luz, aparelhos eletrodomésticos e eletroeletrônicos serão usados utilizando uma energia limpa e renovável. Figure 5 – Energia solar Fonte: https://www.soltaic.com.br/os-tipos-de-energia-solar/. Acesso em: 25 out. 2022 46 1.3.3 Sistemas para coleta e tratamento de esgoto Por fim, temos os sistemas que visam tratar o esgoto, em que abordaremos dois sistemas usuais: a fossa séptica e o sanitário a seco, ou também chamado de fossa seca. A fossa séptica se trata de uma câmara que tem como objetivo reter os despejos domésticos dentro de um período já estabelecido, dessa forma, então, permite a separação dos sólidos, por meio da decantação, e o tratamento biológico do material, que consiste em bactérias digerirem a matéria orgânica. Normalmente, esse sistema é comum em locais em que não se tem uma rede de tratamento de esgoto próxima. Figura 6 – Fossa séptica Fonte: https://www.ecobacterias.com/como-funciona-uma-fossa-septica/. Acesso em: 25 out. 2022. Já o sanitário seco ou fossa seca (também conhecido como sanitário compostável ou composting toilet), usa um método de compostagem das fezes juntamente com serragem e papel higiênico, de forma a eliminar o uso da água para esgotá-lo e, com isso, gera um ótimo adubo orgânico. Como descreve Ferreira (2014), o mecanismo funciona com o 47 rolamento do material + serragem + papel por uma rampa no interior da câmara, onde se aloja no fundo dessa câmara. Do lado de fora, uma chapa pintada de preto aquece o material e acelera o processo de compostagem, o que gera a morte de agentes patogênicos, como demostrada na Figura 7. Figura 7 – Sanitário seco Fonte: adaptada de Ferreira (2014). Referências CORTESE, Tatiana T. P.; KNIESS, Cláudia T.; MACCARI, Emerson A. Cidades Inteligentes e Sustentáveis. São Paulo: Manole, 2017. FERREIRA, Antônio D. D. Habitação Autossuficiente – Interligação e integração de sistemas alternativos. Rio de Janeiro: Interciência, 2014. LEITE, Carlos; AWAD, Juliana di C. Cidades Sustentáveis: Cidades inteligentes – Desenvolvimento sustentável num planeta urbano. Porto Alegre: Bookman, 2012. MOROZOV, Evgeny; BRIA, Francesca. A cidades inteligente – Tecnologias urbanas e democracia. São Paulo: Ubu Editora, 2019. 48 Sumário Apresentação da disciplina Introdução às smart cities Objetivos 1. Introdução Referências Sustentabilidade e soluções em cidades inteligentes Objetivos 1. Introdução Referências Os desafios para a construção de cidades inteligentes Objetivos 1. Introdução Referências Habitação autossuficiente e seus sistemas alternativos Objetivos 1. Introdução Referências