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NEUROLINGUÍSTICA AULA 4 Profª Larissa Priscila Bredow Hilgemberg 2 CONVERSA INICIAL Nesta aula, iremos nos aprofundar mais nos conteúdos acerca da linguagem. Discutiremos de que forma ela evoluiu, como se forma, quais são as áreas cerebrais responsáveis pela linguagem, seus aspectos emocionais e suas dificuldades. Dessa forma, enfocaremos os seguintes tópicos: 1. Evolução da linguagem humana; 2. Cérebro responsável pela linguagem; 3. Estudos sobre a formação da linguagem; 4. Aspectos emocionais da linguagem; 5. Dificuldades na linguagem. TEMA 1 – EVOLUÇÃO DA LINGUAGEM HUMANA Uma das principais diferenças entre os animais e os humanos é a capacidade da linguagem. A capacidade de transformar emoções, dores, alegrias, conhecimentos, entre outras informações, em comunicação lógica a partir da linguagem nos difere dos demais animais, além de ser o fator que nos proporcionou evoluir para que chegássemos a ser o que somos hoje. Agamben (2017) afirma que o que distingue o humano do não-humano é a linguagem, uma vez que ela é marca do humano. Afinal, a linguagem desenvolvida como a humana não é encontrada em nenhuma outra espécie animal. Everett (2019) ratifica esta afirmação ao declarar que todos os animais se comunicam, porém, nem todos têm linguagem. Mas, como chegamos a esta distinção? De que forma evoluímos como humanidade e evoluímos com relação à nossa linguagem? É a partir da linguagem que nos localizamos no tempo e no espaço. É ela que difere o eu do outro. É por meio da linguagem que nos comunicamos e que sobrevivemos. Esta importância que a linguagem tem na nossa sobrevivência pode estar ligada às nossas relações sociais. Quanto mais complexa foi se tornando a relação entre os homens, maior a necessidade de encontrarem uma forma de comunicação (Everett, 2019; Luchesa, 2020). De acordo com Everett (2019), o trato vocal em consonância com o cérebro nos possibilita fazer uso da linguagem. O cérebro reutiliza sistemas já 3 existentes, explorando-os para outros propósitos diferentes daqueles para os quais eles evoluíram. Para o autor, o cérebro e o trato vocal não evoluíram exclusivamente para a linguagem, mas para dar suporte a ela. O autor ainda levanta que a evolução da linguagem é algo concreto, porém, a forma como se deu esta evolução é discutida por vários teóricos. Há diversas teorias que apontam as possíveis causas e formas deste desenvolvimento. Uma das vertentes teóricas que data do século XVIII é a imitativa. De acordo com teorias dessa perspectiva, a linguagem foi desenvolvida a partir das imitações que o homem realizava. Assim, a teoria onomatopaica afirma que teríamos adquirido a linguagem a partir da imitação de sons produzidos por outros animais e pela natureza, como quá-quá (patos), cuco, ou do barulho de água descendo pelo rio. Por outro lado, há outras teorias imitativas que alegam que havia também uma necessidade de expressar as emoções, de forma que gritos e grunhidos foram se transformando em fala. De acordo com essas correntes teóricas, a linguagem evoluiu junto com nossa espécie. Essas teorias imitativas, assim como outras, por serem inverossímeis, não são aceitas pelo meio acadêmico e de pesquisa (Franchetto; Leite, 2004). Na década de 1990, novas discussões e teorias começam a ser levantadas. Essas novas correntes teóricas são discutidas sob o viés científico e não-especulativo (Franchetto; Leite, 2004). Atualmente, a corrente teórica preferida dos estudiosos segue os pressupostos do interacionismo, de acordo com o qual a interação social é que colaborou para a evolução da linguagem. Além disto, acredita-se que a linguagem é uma “adaptação”, assim, ela teria evoluído por meio de uma seleção natural. Logo, “a linguagem deve, pois, constituir alguma coisa boa de se ter. E aquilo para o que a linguagem “é boa”, postula-se que constitua uma pressão seletiva para a linguagem evoluir” (Gontier, 2015, p. 149). Gontier (2015) ainda traz cinco pressões seletivas mais levantadas para a evolução da linguagem: • Razão política: os primeiros hominídeos viviam em sociedades hierarquicamente estruturadas e a linguagem representava sobrevivência em grupo; • Razão maquiavélica: a linguagem auxiliava os primeiros homens a comunicar suas estratégias de caça; 4 • Razão social: “permite que os hominídeos não apenas ajam de forma egoísta, mas também desenvolvam formas de altruísmo recíproco com membros não aparentados e estratégias de cooperação”; • Razão cultural: ritos e rituais sempre desempenharam um papel importante nas sociedades. A linguagem propiciava a transmissão desses conhecimentos e de trocas culturais; • Razão simbólica: nossa linguagem é composta por símbolos que são expressos por gestos ou pelo discurso. Há também teorias que apontam a aquisição da capacidade motora facial, manual e dos músculos da boca e garganta como o ponto de partida para o surgimento da linguagem (Luchesa, 2020). Por fim, Rousseau (2008) reitera a teoria de que nossa linguagem surgiu para que pudéssemos nos comunicar com os outros. Além disso, para o filósofo, a origem das primeiras palavras teria se dado pelas paixões, pelas emoções e sentimentos. TEMA 2 – CÉREBRO RESPONSÁVEL PELA LINGUAGEM Verificamos nas aulas anteriores a relação entre cérebro e linguagem. Agora, vamos nos aprofundar em teorias que explicam esta relação. Ahlsén (2006) cita cinco: o localizacionismo, o conexionismo, a teoria da localização dinâmica da função, as teorias holísticas e as teorias evolutivas. O teórico Paul Broca é um dos estudiosos que defende o localizacionismo. Para essa vertente teórica, a linguagem está representada em regiões cerebrais específicas. Essas regiões podem ser parecidas (“irmãs”), tendo a mesma importância, ou estarem subordinadas à outra. De acordo com os teóricos localizacionistas, a linguagem é o produto final da arquitetura cerebral de cada uma dessas regiões. Qualquer alteração ou lesão em um dessas regiões resulta em uma afasia (Ahlsén, 2006). A segunda corrente teórica levantada por Ahlsén e defendida por Wernicke é a do conexionismo. De acordo com esta teoria, as funções superiores dependem das conexões entre centros diferentes no córtex. A relação entre imagens e palavras, assim, resulta na habilidade linguística. Além disso, o cérebro possuiria um alto grau de flexibilidade e capacidade de preencher lacunas (Alhsén, 2006; Wiethan et al., 2012). 5 Para essa abordagem não existe qualquer tipo de conhecimento inato da linguagem que seja de domínio especifico ou localizado, porém adquirido por meio de processadores que, embora inatos e localizados, não são de domínio específico, ou seja, eles podem também processar informações de outros domínios. Além disso, defendem que o conhecimento linguístico não é localizado em regiões particulares do cérebro e que o cérebro infantil possui plasticidade e é altamente diferenciado no momento do nascimento. (Wiethan et al., 2012, p. 985) A teoria da localização dinâmica da função, defendida por Luria, sustenta que há diferentes subfunções localizadas em diferentes partes cerebrais. Em suas pesquisas, Luria verificou que essas subfunções se organizam em sistemas funcionais complexos e que várias áreas do cérebro participam dessa organização. Além disso, a existência de três principais unidades operando conjuntamente possibilitam que qualquer atividade mental ocorra (Alhsén, 2006; Rodrigues e Ciasca, 2010). Resumidamente, essas três unidades terão certas responsabilidades: a primeira unidade regula o tono, a vigílias e os estados mentais; a segunda unidade processa e armazena as informações que chegam do exterior; por fim, a terceira unidade programa, regula e verifica a atividade mental. Ao trabalhar em conjunto, estas unidadespossibilitam que funções corticais complexas sejam realizadas. Teorias holísticas partem do pressuposto de que o cérebro funciona como um todo, ao menos na realização de funções. Desta forma, o córtex cerebral não lida somente com a linguagem, mas também com o pensamento , sendo a afasia um sinal de perda cognitiva e não uma perda específica da linguagem (Ahlsén, 2006). Goldstein observa que a palavra azul não forma uma categoria ou uma ideia geral para o afásico e que, portanto, seu problema de linguagem é também um problema de pensamento, uma vez que, do ponto de vista fisiológico, a região do córtex cerebral permanece inteiramente ilesa. Ao reconhecer essa implicação do mecanismo da fala no processo intelectivo, Goldstein jamais adere, como aparentemente poderia se supor, à tese intelectualista. De saída, ele se adianta em problematizar o que seria um pensamento puro, mudo, absolutamente silencioso. Ora, esse pensamento não passaria de um vácuo, seria um puro nada, porque só podemos pensar quando pudermos falar. (Silva, 2012, p. 139) Por fim, teóricos evolutivos, como Jackson e Brown, defendem que o cérebro é desenvolvido em camadas, partindo de estruturas inferiores e mais primitivas para estruturas corticais e posteriores. Essas camadas são responsáveis pela linguagem e comunicação (Alhsén, 2006). 6 Cada uma dessas teorias traz um ponto de vista importante para o entendimento da formação da linguagem no cérebro. É importante relembrarmos o que vimos na primeira aula acerca dos conjuntos de estruturas neuronais. De acordo com Dámasio (2004), temos em nosso cérebro três conjuntos, cada um com uma responsabilidade: o primeiro trata das interações não linguísticas, representando tudo o que fazemos, sentimos, percebemos ou pensamos. O segundo refere-se às interações linguísticas, reunindo em frases e palavras os estímulos externos. Por fim, o terceiro coordena os dois anteriores, transformando conceitos em palavras e palavras em conceitos. Ainda não temos definido de forma conclusiva quais são todas as áreas responsáveis pela linguagem, entretanto, cientistas e neurolinguistas têm chegado cada dia mais perto da resposta. Huth et al. (2016) organizaram um atlas semântico, mapeando as áreas cerebrais responsáveis pela linguagem. Segundo os autores do atlas, o sistema semântico é distribuído por mais de cem áreas diferentes dos hemisférios cerebrais, em complicados padrões que se repetem. Ainda, de acordo com o estudo, há muito mais áreas cerebrais que representam pessoas e relações sociais do que conceitos abstratos, e a mesma palavra pode estar em mais de uma área do mapa, representando, assim, diferentes sentidos. TEMA 3 – ESTUDOS SOBRE A FORMAÇÃO DA LINGUAGEM A procura pela compreensão da formação da linguagem é antiga e ocorre a partir de diferentes perspectivas. Há relatos de estudos acerca da origem da linguagem que datam do século VII a.C. no Egito, de acordo com Borges Neto (1993). No passado, procurou-se descobrir qual seria o povo mais antigo a partir de diversos experimentos, como o da criação de duas crianças sem contato nenhum com a língua da época, a fim de observar qual língua elas falariam. Porém, os primeiros estudos sobre a formação da linguagem como uma questão importante para a sociedade remontam os séculos XVII e XVIII e continuam até os dias atuais. Essa busca não tem por objetivo a origem das línguas – de fato, não importa saber como o homem começou a falar ou qual foi a primeira língua –, a questão da origem das línguas deve ser entendida como um processo “histórico” de esclarecimento das leis que organizavam a linguagem humana, como um processo de explicação da existência de 7 línguas, e de sociedades, em diferentes estágios de desenvolvimento, etc., tudo com o fim de compreender a linguagem humana. (Borges Neto, 1993, p. 95) No século XVII, filósofos como Rousseau e Herder se inclinam sobre o assunto. Para Jean Jacques Rousseau, como já verificamos anteriormente, a língua surge com a socialização do homem, assim, ela não é natural, mas criada. A linguagem, desta forma, é originada das necessidades morais e das paixões, sendo a poesia o primeiro fruto da linguagem. De acordo com o filósofo, as línguas modernas seriam o resultado de um longo processo de mistura e união de línguas primitivas (Borges Neto, 1993). Por outro lado, Johann Gottfried Herder mostra que os homens e os animais compartilham um tipo de linguagem denominada linguagem da impressão, linguagem essa constituída de suspiros, gritos e sonoridades que manifestam as dores e as necessidades dos homens e dos animais. Contudo, essa linguagem não é a verdadeira raiz da linguagem humana (Borges Neto, 1993). Para Herder, portanto, a linguagem é um órgão natural do entendimento e surge com o próprio homem. Razão e linguagem são indissociáveis e caracterizam o gênero humano. A linguagem se constitui como o “verdadeiro caráter distintivo exterior da nossa espécie, tal como a razão constitui o interior” (Herder, apud Borges Neto, 1993, p.99). Adiante, encontramos nos estudos de Vygotsky a relação entre linguagem e pensamento. De acordo com o estudioso, há uma conexão entre palavra e pensamento, e ainda, entre aprendizagem e linguagem, que se dá de forma intrínseca e muda, emoldando-se a partir das necessidades e desafios propostos pelas relações sociais: As relações entre o pensamento e a palavra foram sempre consideradas como algo constante e imutável, estabelecido para sempre. A nossa investigação mostrou que tais relações são, pelo contrário, relações mutáveis entre processos, que surgem durante o desenvolvimento do pensamento verbal. (Vygotsky, 1934, p. 150) Desta forma, a palavra é fundamental na interação com o outro e para a aquisição de conhecimento. Mais do que isso, a primeira função da linguagem é social, é comunicar-se, é interagir com o outro. Assim, a criança desenvolve a linguagem para que possa se comunicar com o que a rodeia (Vygotsky, 2010). Em seu livro Marxismo e Filosofia da Linguagem, Bakhtin (2006) discorre acerca dos signos no campo socioideológico. Todo produto natural, tecnológico 8 ou de consumo pode vir a ser um signo e este signo não está sozinho ou alienado do seu entorno, porém, ele está contido em um universo, o alterando e sendo alterado por ele. Para compreendê-lo são necessários outros signos, continuamente. Além disto, todo signo está envolvido por ideologias, numa cadeia ideológica que vai de uma consciência individual a outra consciência individual, ligando-as, entretanto, esta ligação entre sujeitos, entre consciências só se dá se houver organização entre esses sujeitos, ou seja, se eles se relacionarem socialmente. A palavra, assim, é essencialmente um fenômeno ideológico, ela é o modo mais puro e sensível de relação social. Ela existe em função do signo e sem ele não é nada. A palavra assume a ideologia do signo ou se mantém neutra, a palavra, então, pode preencher diferentes funções ideológicas, inclusive compondo uma comunicação ideológica que não pode ser ligada à moral, ou à religião, ou à estética ou a nenhum outro campo ideológico, que é a comunicação diária, cotidiana, que é rica, que traduz-se nas relações humanas e que, ao mesmo tempo que não está ligada a nenhuma esfera ideológica, refere-se a todas (Bakhtin, 2006). Por fim, nos debruçamos sobre a teoria gerativa de Noam Chomsky (1998). De acordo com essa teoria, a linguagem humana é criada a partir de estruturas cognitivas universais que possibilitam a aprendizagem das línguas. Dessa forma, a manifestação da linguagem depende de estímulos linguísticos e de estruturas universais inerentes à espécie humana. É razoável considerar a faculdade de linguagem como um “órgão da linguagem”, no sentido em que os cientistas falam de um sistema visual ou sistema imunológico ou sistemacirculatório como órgãos do corpo. Compreendido desse modo, um órgão não é algo que possa ser removido do corpo, deixando o resto intacto. É um subsistema de uma estrutura mais complexa. Esperamos compreender a complexidade total investigando partes que têm características distintivas e suas interações. O estudo da faculdade de linguagem procede da mesma forma. (Chomsky, 1998, p. 18) TEMA 4 – ASPECTOS EMOCIONAIS DA LINGUAGEM Pense na expressão: “Bom dia”. Apenas a união das duas palavras não indica que realmente está sendo um bom dia na vida daquele que a pronuncia. A entonação, a forma, a emoção com que ela é dita mudará totalmente seu significado. Se ela é dita com alegria e voz alta, podemos dizer que o dia é mesmo bom; mas se ela é dita de forma “murcha”, tristonha, quase sem voz, 9 entendemos que a palavra “bom” não tem o significado real nessa expressão. Ou seja, a entonação dada à nossa fala e a emoção sentida mudarão completamente o sentido do que estamos dizendo. A emoção é uma forma de expressarmos o que sentimos que antecede a linguagem. Damásio (1996), afirma que as emoções desempenham uma função na comunicação de significados, não sendo apenas um luxo que nós seres humanos possuímos. Vygotsky, em Pensamento e Linguagem (1934), nos traz que: O pensamento propriamente dito é gerado pela motivação, isto é, por nossos desejos e necessidade, nossos interesses e emoções. Por trás de cada pensamento há uma tendência afetivo-volitiva, que traz em si a resposta ao último “por que” de nossa análise do pensamento. Uma compreensão plena e verdadeira do pensamento de outrem só é possível quando entendemos sua base afetivo-volitiva. (Vygotsky,1934, p. 129) Novaes (1962) indica que a organização verbal da emoção está atrelada à evolução do processo linguagem-comunicação. A autora reforça que a linguagem no início de nossas vidas tem caráter puramente emocional – o choro demonstra dor ou mal estar; o sorriso, satisfação, etc. – e que à medida que a criança cresce e aprende a se expressar verbalmente, as reações emocionais perdem força e dão lugar à reflexão e ao pensamento. Assim, [...] a emoção apreendida e representada pela palavra sofre através da evolução da linguagem uma metamorfose. [...]a representação chega à verdadeira objetividade, sem por isto perder a sua subjetividade, facilitando muito a comunicação com o meio exterior. (Novaes, 1962, p. 31) Conforme levantado por Novaes (1962), é no hemisfério direito que há tanto o controle da entonação de alguma atividade quanto os processamentos relacionados ao reconhecimento e expressão de diferentes estados emocionais. Dessa forma, o lado esquerdo do corpo possui maior capacidade de expressão que o direito, uma vez que o hemisfério direito do cérebro controla o hemisfério esquerdo do corpo. Aliás, a interpretação da fala necessita também da expressão facial e corporal para ser identificada. É por esse motivo que a comunicação verbal escrita é mais difícil de ser interpretada do que a falada. Quantas vezes você escreveu algo para alguém, como um e-mail ou uma mensagem, e essa pessoa entendeu o conteúdo de outra forma? 10 Quando utilizamos a linguagem verbal falada, nos apropriamos também de outras linguagens, utilizamos gestos, expressões faciais e tons de voz, os quais são ferramentas para que nosso interlocutor compreenda nossas emoções e sentimentos durante o diálogo. Ao escrevermos, temos apenas em nossas mãos a linguagem verbal, e a interpretação do que está sendo dito depende exclusivamente da leitura do outro. Há, entretanto, em nossa língua, expressões e palavras que reforçam a emoção que sentimos. As palavras que designam essas emoções nos auxiliam a identificar o que gostaríamos de passar ao nosso interlocutor: “eu estou triste”, ou “eu estou feliz” indicam diretamente o que se passa conosco. O uso do diminutivo, em geral, indica ou um grande carinho ou certo desprezo: “você é minha menininha”, nos soa carinhoso, enquanto que “ele é apenas um profissionalzinho” nos indica desprezo. Aliás, os advérbios nos orientam quanto ao objetivo da comunicação: apenas, muito, somente. As conjunções também: mas, contudo, entretanto. Quanto a essas palavras e expressões, Bakhtin (2006) as chama de signos, conforme verificamos anteriormente. Estes signos se alicerçam em um discurso dialógico e em relações dialógicas. Assim, o discurso de alguém nunca é só ou individual, mas leva em conta outros discursos e outros indivíduos. Deste modo, também, nenhum discurso é livre de ideologias, pois leva em conta todos e tudo aquilo que permeia este discurso. Assim, não há neutralidade na escolha do discurso e de cada palavra optada por ser utilizada, mas, leva-se em conta o outro, o ambiente, os outros muitos discursos anteriores e, claro, as emoções sentidas no momento da conversação. As tensões emocionais influenciam o processo de aprendizagem da linguagem. Vygotsky (1978) já afirmava que a criança se percebe no mundo a partir da própria fala, a linguagem permeia também as descobertas e as decisões acerca de diferentes questões. Nesse sentido, a linguagem é um aspecto do desenvolvimento da criança e está ligada diretamente ao desenvolvimento de outras habilidades, como inteligência, afetividade e socialização. 11 TEMA 5 – DIFICULDADES NA LINGUAGEM Encontramos na literatura diferentes dificuldades relacionadas à linguagem. Já analisamos alguns aspectos relativos à leitura e escrita na aula anterior. Agora, vamos entender outras dificuldades na linguagem. Dificuldades no processo de aquisição da linguagem diz respeito a algum tipo de retardo, que assola algumas crianças. Acredita-se que as dificuldades de aprendizagem estão ligadas diretamente a esse retardo, que pode ter diferentes causas, como fatores orgânicos, intelectuais e cognitivos e emocionais, além de dificuldades atreladas a outras condições, como retardo mental e problemas sensório-motores, ou, ainda, ligado a influências externas, como instrução insuficiente ou diferenças culturais (Schirmer et al., 2004). Schirmer et al., levantam três tipos de dificuldades na aquisição da linguagem: o atraso, que ocorre quando a criança adquire a linguagem de forma mais lenta que o considerado normal, desempenhando a linguagem como uma criança de idade inferior; a dissociação, que ocorre quando o desenvolvimento da linguagem encontra uma diferença significativa com o desenvolvimento de outras áreas e, por fim, o desvio, padrão de desenvolvimento em que há mais alterações e no qual verifica-se uma aquisição qualitativamente anômala à linguagem (Schirmer et al., 2004). A avaliação do atraso na aquisição da linguagem deve ser realizada a partir de aspectos cognitivos e emocionais, levando em conta a severidade do caso, a necessidade de orientação especializada e a terapia fonoaudiológica, que pode ser de fala, de voz, de motricidade oral, de linguagem oral e de linguagem escrita (Schirmer et al., 2004). Outras dificuldades identificadas relacionam-se a lesões em áreas cerebrais específicas. Damásio (2004) discute diferentes lesões e suas consequências: • Lesões nos córtices temporal posterior e parietal inferior esquerdo: dificuldade na pronúncia das palavras (pronunciam “zul” no lugar de “azul”); • Lesões no segmento temporal da quinta circunvolução occipital esquerda: impossibilidade de nomear ou recordar os nomes dos objetos, embora o paciente os perceba e os compreenda (chama a cor azul de verde, mas se pedir ao paciente para apontar para a cor azul, apontará corretamente); 12 • Lesões na região perisilviana posterior: perturbação na composição dos fonemas em palavras e da seleção das palavras (exemplo, trocar a palavra elefante por “efalante”) e substituição de palavras por outras com sentido mais geral (por exemplo, pessoa no lugar de mulher);lesões nessa região também alteram o processamento e compreensão das palavras e frases ouvidas; • Lesões na região perisilviana anterior: dificuldades no ritmo da elocução e da gramática. Pessoas com lesões nessa região tem uma fala com voz sem alteração, longos silêncios entre as palavras e estruturas gramaticais defeituosas. • Lesões do hemisfério esquerdo: dificuldades na formação de palavras e frases. O hemisfério esquerdo contém os centros de processamento da linguagem, é onde as estruturas linguísticas se localizam. Dessa forma, essa é a região mais estudada pelos especialistas da linguagem. Sujeitos com lesões no hemisfério esquerdo cerebral podem ter diferentes tipos de afasia, perdendo parte ou totalmente o uso da palavra. É importante ressaltar que ninguém nasce com uma afasia, a pessoa se torna afásica após doenças e outras condições, como um Acidente Vascular Cerebral (AVC), um tumor cerebral, a ausência ou diminuição de oxigênio no cérebro, entre outras condições. Iremos, agora, entender três tipos de afasias mais comuns: o automatismo consiste em um tipo de afasia em que há a emissão repetitiva de uma sílaba, uma palavra ou uma sentença. Um dos primeiros estudos acerca dessa afasia desenvolveu-se a partir do caso do paciente Leborgne, acompanhado por Paul Broca. Leborgne compreendia o que era falado a ele, mas conseguia responder apenas com a expressão tan-tan. Assim, um sujeito com automatismo produz um único segmento em resposta a qualquer estímulo de forma automática e involuntária (Luchesa, 2020). A parafasia é definida como substituição de uma palavra por outra que pode ser semanticamente ou fonologicamente relacionada. Alguns estudiosos ainda definem a parafasia como erro semântico e ela pode acontecer na fala – parafasia lexical ou fonêmica; na leitura – paralexia lexical ou fonêmica; e na escrita – paragrafia lexical ou fonêmica (Portal da Afasia, 2020). A anomia refere-se à dificuldade de acessar palavras complexas, afásicos com anomia, não conseguem estabelecer uma conversação fluída, necessitando 13 da utilização de gestos e palavras que expliquem a palavra que gostariam de utilizar. Sujeitos com anomia não dispõe de um acervo acessível de palavras ou formas corretas de palavras, mas sabem que determinada palavra existe e reconhecem seu significado (Portal da Afasia, 2020). Ainda não há medicamento ou cirurgia para o tratamento das afasias. Porém, é possível a reabilitação e a melhora da linguagem do afásico. Essa reabilitação não é fácil, nem rápida. É necessário descobrir as dificuldades, reinventar o jeito de se comunicar, encarar as limitações que a afasia traz consigo. Os sujeitos afásicos precisam de interação, precisam reconstruir o uso da linguagem e cognição, precisam também utilizar outras formas de comunicação, utilizando, além da linguagem verbal, a linguagem corporal, os gestos, as expressões faciais, os movimentos corporais, enfim, tudo aquilo que auxiliará em seu estar no mundo (Portal da Afasia, 2020). NA PRÁTICA Nesta aula, vimos que a linguagem está atrelada diretamente às emoções e que nos baseamos em outras habilidades no momento da conversação (os gestos, os movimentos corporais, as expressões faciais, o tom de voz) para nos fazermos entender e para expressarmos aquilo que sentimos. Mas, como fazer isto enquanto escrevemos e como identificar os sentimentos e emoções do outro pela palavra escrita? Vamos agora analisar três pequenos textos que poderiam ser utilizados em redes sociais ou mensagens particulares e identificar, por meio da forma escrita, as possíveis emoções de seu autor: Oi! Você vem hoje aqui em casa? É que eu tava esperando que você viesse pra gente conversar... eu sei que as coisas não estão fáceis pra nós, mas eu ainda tenho esperança que a gente possa dar certo! Sinto tanto sua falta... Me liga, vamos conversar! Um beijo com saudade! Boa noite! Eu vou falar só mais uma vez! EU NÃO QUERO MAIS QUE VOCÊ ME LIGUE! Está entendido? Se me mandar mais uma mensagem eu te bloqueio! 14 Amiga!!!!! Eu preciso de contar uma coisa! Nossa, eu estou muito animada com essa história! Mas não preciso te contar pessoalmente! Você não vai acreditar nesse babado!!!! Ao analisar os textos acima, indique qual emoção pode ser identificada e quais são os indicativos no texto para que você tenha chegado a essa conclusão. Depois, reflita sobre como a linguagem é importante para nossa interação com o outro e para nossa sobrevivência e vivências. FINALIZANDO Na aula de hoje, estudamos os seguintes conteúdos: • A evolução da linguagem e do homem; • A linguagem como habilidade que nos diferencia dos outros animais; • Diferentes correntes teóricas que procuram explicar a evolução da linguagem; • As cinco teorias acerca da relação linguagem e cérebro: localizacionismo, conexionismo, a teoria da localização dinâmica da função, as teorias holísticas e as teorias evolutivas; • Estudos sobre formação da linguagem: Herder, Rousseau, Vygotsky, Bakhtin, Chomsky; • Os aspectos emocionais da linguagem; • A linguagem verbal oral e escrita; • Os signos linguísticos de Bakhtin; • As dificuldades da linguagem; • Retardo na aquisição da linguagem; • Lesões cerebrais e as dificuldades atreladas; • Afasias: automatismo, parafasia e anomia. 15 REFERÊNCIAS AGAMBEN, G. O aberto: o homem e o animal. Tradução de Pedro Mendes – 2. ed. rev. Rio de Janeiro: Civilização brasileira, 2017. AHLSÉN, E. Introduction to neurolinguistics. Philadelphia. 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