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Autoria: Fábio Costa Julião – Revisão técnica: Edmundo Fonseca Machado Junior
HISTÓRIA AFRO-BRASILEIRA E INDÍGENA
UNIDADE 1 – HISTÓRIA
DA ÁFRICA
02/12/24, 13:14 História afro-brasileira e indígena
https://student.ulife.com.br/ContentPlayer/Index?lc=0LKIugBXGo%2b3zDIe4i2wOA%3d%3d&l=3sND%2f2KdE3jxuArr81Q9Sw%3d%3d&cd=4hs… 1/46
Introdução
Olá, caro estudante.
O grande historiador e político africano Joseph Ki-Zerbo (1922-2006) apregoa
“[...] que a história (e a cultura) da África devem pelo menos ser vistas de dentro,
não sendo medidas por réguas de valores estranhos” (KI-ZERBO, 2010, p. LII). É
com base nessa premissa que esta unidade apresenta discussões
historiográ�cas que se pautam na contribuição africana para o desenvolvimento
do homem.
Aqui, analisaremos a importância da história da África e o seu aporte, enquanto
campo de conhecimento, para o entendimento da evolução do homem. Além
disso, estudaremos o problema do preconceito.
Bons estudos!
No pensamento social mais abrangente, promovido por séculos de opressão e
violência contra as mais diferentes sociedades africanas, vigora a percepção de
que ali, naquele continente onde se originou a espécie humana, haveria um
atraso cultural signi�cativo, representado pela a�rmação de que os povos
africanos não produziram história ou – pior – simplesmente não a teriam.
Ademais, há também a naturalização da pobreza e da violência civil observada
em disputas territoriais entre os jovens Estados-nação, símbolo de sua pretensa
inferioridade frente a outros povos e culturas do mundo globalizado.
Também não podemos ignorar o peso das representações sociais racistas,
oriundas das teses presentes na obra do geólogo suíço Agassiz (1807-1873) e
do diplomata francês Gobineau (1816-1882), que fundamentariam o caminho
para a conquista e exploração predatória dos povos e das riquezas africanas
pelas sociedades europeias (SCHWARCZ, 1994).
1.1          
História da África: retomando olhares
sobre a África e em diálogo com o
pensamento africano
02/12/24, 13:14 História afro-brasileira e indígena
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Figura 1 - Continente africano representado pela multiplicidade de suas jovens Estados-nação
Fonte: Bardocz Peter, Shutterstock, 2020.
#PraCegoVer: trata-se da representação cartográ�ca do continente africano com
a bandeira de cada país delimitando seu respectivo território.
 
É importante lembrarmos que as sociedades americanas, construídas sob os
espólios das civilizações ameríndias e com o trabalho cativo de milhões de
indivíduos das mais diferentes regiões e etnias africanas, só se tornaram
possíveis sob o sistema socioeconômico que perpetuava crimes contra a
humanidade. Dessa forma, é sob a guerra e a deslegitimação dos valores
culturais desses sujeitos e de suas coletividades que foi construída a civilização
ocidental de matriz europeia.
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A história da África não se inicia com os primeiros contatos e transações
comerciais com europeus por volta dos séculos XIII e XIV, tampouco com o
estabelecimento de grupos semitas na foz do rio Nilo ou nas encostas do litoral
norte-africano; ela se dá pela própria urgência da espécie humana, que se
originou, evoluiu e se expandiu a partir do continente africano. 
Para aprofundar seu olhar a respeito da ideia do genocídio, leia a
matéria Genocida: termo que ganhou cunho político é recente e cercado
de polêmicas, que apresenta o trabalho do advogado polonês Raphael
Lemkin (1900-1959) e a história por trás do termo. 
Acesse (https://tab.uol.com.br/noticias/redacao/2020/04/25/genocida-
termo-que-ganhou-cunho-politico-e-recente-e-cercado-de-polemicas.htm)
VOCÊ QUER LER?
Cheikh Anta Diop (1923-1986), originário do Senegal, foi historiador,
antropólogo, físico, egiptólogo e político. Parte de suas pesquisas e obras
publicadas foi dedicada às origens da raça humana e às diversas
sociedades africanas pré-coloniais, destacando, com seus escritos, a
enorme in�uência africana na consolidação de sociedades da Antiguidade
Oriental, como a civilização egípcia e o reino da Núbia (atual Sudão). Quer
conhecer de perto o pensamento cientí�co e africanista de Diop? Assista
a uma entrevista em que o senegalês conversa a respeito da origem da
espécie humana e da civilização egípcia, disponível no ícone a seguir.
Acesse (https://www.youtube.com/watch?v=XpqzEytY4Bc)
VOCÊ O CONHECE?
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https://tab.uol.com.br/noticias/redacao/2020/04/25/genocida-termo-que-ganhou-cunho-politico-e-recente-e-cercado-de-polemicas.htm
https://tab.uol.com.br/noticias/redacao/2020/04/25/genocida-termo-que-ganhou-cunho-politico-e-recente-e-cercado-de-polemicas.htm
https://tab.uol.com.br/noticias/redacao/2020/04/25/genocida-termo-que-ganhou-cunho-politico-e-recente-e-cercado-de-polemicas.htm
https://www.youtube.com/watch?v=XpqzEytY4Bc
https://www.youtube.com/watch?v=XpqzEytY4Bc
Vários estudos genéticos, paleontológicos e arqueológicos sugerem que
espécies de hominídeos (e, depois, humanos anatomicamente modernos) teriam
surgido ou no leste do continente, na atual Etiópia, ou no sul, onde está
localizada a África do Sul. Um dos mais importantes cientistas e humanistas
africanos, Cheikh Anta Diop (1923-1986), senegalês, explica que:
Ki-Zerbo (2010) nos convida a compreender a etimologia do termo  África  e as
suas mais diferentes origens. Além disso, tem a preocupação de trazer à tona os
elementos explicativos que dão destaque às enormes contribuições da África e
dos africanos para o conjunto da humanidade. A seguir, com a ajuda das
contribuições de Ki-Zerbo, estudaremos a historiogra�a africana. 
As evidências científicas indicam, em resumo que a evolução
humana se iniciou na África há cerca de 5,5 milhões de anos.
Entre quatrocentos mil e quinhentos mil anos atrás, o 
, ser humano arcaico, saiu da África e migrou em
direção à Ásia e à Europa. Foi, então, extinto e não deixou
descendentes. O homem moderno, , surgiu na
África há aproximadamente duzentos mil anos e, cerca de cem
mil anos depois, em uma segunda onda migratória, povoou a
Eurásia e chegou às Américas. 
homo
erectus
homo sapiens
(DIOP, 1986 p. 326) 
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Fugindo do olhar tipicamente europeu e também de metodologias
excessivamente alinhadas ao desenvolvimento historiográ�co que se deu
naquele continente, devemos colocar em evidência as fontes materiais e
imateriais, os dados iconográ�cos e etnográ�cos, assim como a história oral,
pois são capazes de romper com o imaginário que se construiu nos últimos
séculos de que o continente africano e suas diversas sociedades não produziram
nada de relevante para a análise historiográ�ca.
Do ponto de vista geográ�co, o continente africano se apresenta de forma
extremamente heterogênea. Ligada ao restante do “velho mundo” pelo istmo de
Suez, a África traz uma diversidade de paisagens naturais, muitas delas
inóspitas. Há o imenso deserto do Saara; no Centro, predominam as savanas; o
continente possui um emaranhado de �orestas equatoriais; o Sul, igualmente
diverso, tem desertos, savanas e uma vegetação de características
mediterrâneas (KI-ZERBO, 2010). Encontramos também cordilheiras enormes,
onde a neve nunca descansa, tal qual a Cordilheira do Atlas, ao Norte, e o Vale do
Rift, na costa Leste, quase no litoral índico, cujo maior destaque é o Kilimanjaro
(montanha branca em Masai).
Figura 2 - Monte Kilimanjaro. Destaque da geografia física africana em um continente de múltiplas
paisagensmundo e do próprio pensamento do homem sobre seu mundo e
realidade.
A análise da história da África nos mostra que aquele enorme continente é
bastante rico. Sua complexidade cultural merece ser estudada, sem qualquer
tipo de estigma, porque isso nos ajuda a entender, inclusive, a história do Brasil. 
Nesta unidade, você teve a oportunidade de:
CONCLUSÃO
conhecer a centralidade do pensamento de intelectuais
africanos a respeito da história e da historiogra�a do
continente;
compreender a importância da historiogra�a africana
recente, com metodologias de pesquisa e
interdisciplinaridade, que tornam possível o conhecimento
acerca da África a partir da contribuições de africanistas e
de pensadores nativos, que expõem a diversidade das
culturas e das sociedades africanas;
conhecer algumas discussões a respeito de importantes
civilizações africanas, tais como a do Egito antigo, Núbia,
Axum, Gao, Mali, Kongo, povos iorubanos e bantus;
entender o impacto da diáspora africana e do discurso
racista na naturalização dos problemas sociais, políticos e
econômicos do continente;
compreender a necessidade do conhecimento a respeito
da África e de suas sociedades para a compreensão e
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refutação do racismo estrutural e seus efeitos nefastos no
cotidiano de afrobrasileiros e de outros descendentes de
africanos da diáspora nos países americanos e em outras
sociedades.
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Referências
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polemicas.htm)https://tab.uol.com.br/noticias/redacao/2020/04/25/gen
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#PraCegoVer: no fundo, há uma grande montanha de topo plano coberto por
neve. Em primeiro plano, há uma paisagem em um chão de vegetação rasteira
que aparenta estar seca.
1.1.1 Um pouco sobre historiografia africana e aspectos gerais
de sua geografia
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A paisagem humana também é marcada pela diversidade. Hoje, o continente
possui 54 Estados-nação independentes, com 7 grandes grupos linguísticos
distribuídos de forma bastante heterogênea. Há uma diversidade linguística que
abrange mais de 1600 línguas faladas ao longo de todo o continente e por
africanos da diáspora, localizados nas Américas. É importante lembrarmos que
cada uma das diferentes sociedades nacionais africanas encontra um volume de
diversidade étnica única no mundo.
As civilizações africanas do passado, tanto aquelas ligadas ao processo de
sedentarização às margens do Rio Nilo quanto as que se desenvolveram no
“mar” do Sahel (do árabe sahil, que signi�ca “margens”), organizaram-se em
terras abertas, com acesso a vastos recursos, capacidade de domesticação de
grandes manadas e prática de agricultura alinhada a um modo de vida
inicialmente seminômade, que foi sendo deixado de lado diante de processos de
sedentarização e de comunicação com outras sociedades africanas (KI-ZERBO,
2010). Vivendo entre as possibilidades do seminomadismo e de uma
sedentarização única na história da humanidade, foi possível a criação de
grandes contingentes populacionais, mas sem ameaçar estruturas sociais
avessas às profundas divisões de classe ou ainda à urgência de um Estado mais
centralizado. Por isso, as sociedades africanas conseguiram organizar unidades
de parentesco e de a�nidade alinhadas a arranjos ainda mais vastos, daí a
coexistência de nações étnicas que chegam à casa dos milhões, convivendo
com realidades estatais que abriram diferentes etnias. Ki-Zerbo (2010) ainda
assinala que epidemias constantes, guerras intestinas, invasões estrangeiras, o
comércio de escravos (acentuado com a entrada de europeus no processo),
também ajudaram a desestabilizar o continente. Desse modo, não resta dúvida
de que a escravização, intensi�cada do século XV até meados do século XIX, foi
impactante para a derrocada econômica das sociedades multiétnicas africanas,
cujos efeitos, não só na sua depopulação, são sentidos até hoje (KI-ZERBO,
2010).
O cerne da pesquisa historiográ�ca é a aplicação de metodologias de trabalho
com as fontes históricas. Os pilares do conhecimento são a leitura de
documentos escritos, a análise dos registros arqueológicos e a pesquisa da
tradição oral. O trabalho do historiador também é amparado por disciplinas a�ns,
tais como a Linguística, a Antropologia Social e a Geogra�a, que permitem
aprofundar a leitura e a interpretação das fontes materiais e imateriais.
1.1.2 Fontes históricas
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No que tange à África, quando pensamos em uma história mais quantitativa, há
uma massa documental ainda não inteiramente analisada, ou mesmo
inexplorada, que tem como base a África negra. São documentos disponíveis em
bibliotecas e outros acervos de países como Mauritânia, Marrocos, Argélia,
assim como na Europa, em bibliotecas particulares, nas Américas ou ainda nos
arquivos do antigo Império Turco-Otomano (KI-ZERBO, 2010).
A arqueologia, por sua vez, contribuiu de forma única para resgatar a história
africana. Vestígios de objetos de ferro, cerâmica e vidro, além de outras
estruturas mais monumentais, como resquícios de canais de irrigação
megalíticos, comprovam ligações e antigas relações comerciais entre povos (KI-
ZERBO, 2010).
Finalmente, precisamos pontuar a importância das tradições orais, que reforçam
toda a cosmologia e cosmogonia especí�cas da mentalidade africana, dos seus
mais diferentes povos e culturas, localizados tanto ao norte como ao sul do
Sahel. Você sabe a diferença entre cosmologia e cosmogonia? Não?! Então,
clique nos ícones a seguir e descubra. 
Os guardiães dessas fontes históricas são os anciães e anciãs, verdadeiras
“bibliotecas vivas” em meio ao “mar da modernidade” que pressiona as
populações tradicionais africanas (KI-ZERBO, 2010).
É o estudo da origem e evolução do Universo a partir de
métodos cientí�cos. 
É o estudo do Universo a partir de doutrinas, princípios, teorias
e mitologias. 
Cosmologia Cosmogonia
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Assim, o imaginário, o misticismo religioso e a fantasia se misturam aos relatos
e processos. As diversas narrativas dos griots de cada etnia e de comunidades
divergentes e contrárias no plano dos con�itos políticos tornam polissêmica a
interpretação histórica.
As modernas abordagens linguísticas e antropológicas re�etem a própria
autocrítica dessas diferentes ciências humanas, que tiveram como arcabouço
teórico original o socioevolucionismo à sombra do neocolonialismo. A renovação
de muitas ideias foi in�uenciada pelo marxismo ou pelo estruturalismo francês,
com metodologias e perspectivas que se propuseram a considerar as
sociedades africanas e suas multiplicidades como “sobrecarregadas” de história
– e, por isso, igualmente importantes para o progresso da humanidade. Outra
corrente, baseada no estruturalismo de Claude Lévi-Strauss (1908-2009), propôs
desvendar a lógica interna e os mecanismos inconscientes que governam a ação
dos seres humanos em sociedade. O inconsciente universal levistraussiano
apregoa a igualdade no pensamento e na ação de toda e qualquer coletividade,
com uma crítica ao racismo.
1.2 História e historiografia e seu lugar nas
sociedades africanas contemporâneas
Os griots são �guras mundialmente reconhecidas nas sociedades
tradicionais africanas. Para conhecer a importância e o papel social
dos griots e de suas contrapartes femininas, as djeli, assista a uma
interessante produção brasileira. 
Acesse (https://www.youtube.com/watch?v=sJd1te_3pjI)
VOCÊ QUER VER?
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https://www.youtube.com/watch?v=sJd1te_3pjI
https://www.youtube.com/watch?v=sJd1te_3pjI
Boubou Hama (1906-1982) foi um importante poeta, �lósofo, escritor, político e
historiador nigeriano cuja contribuição para a divulgação e debate historiográ�co
africano é inestimável; seu trabalho como pesquisador divulgou a signi�cativa
história do império do Gao e da região da África Ocidental. Em seu texto “Lugar
da história na sociedade africana”, escrito em parceria com Joseph Ki-Zerbo,
direciona nosso olhar para a superação dos desa�os da existência humana,
como a manutenção das práticas agrárias, a farmacopeia tradicional, seu direito
consuetudinário, a originalidade de suas instituições e organização social,
atestados de sua vitalidade e inovação (HAMA; KI-ZERBO, 2010).
Hama e Ki-Zerbo (2010) destacam que o lugar da história, na maioria das
sociedades africanas, é a apreensão de um “tempo mítico” atrelado a uma visão
única de si mesmas e das forças da natureza com as quais se relacionam. Daí,
surge um especí�co “tempo social”, indissociável da primeira noção de
temporalidade. O “tempo mítico”, fruto dos incontáveis anos de experiência
coletiva, congela a história, em um sentido ocidental, sendo demarcado por uma
“intemporalidade” que representa a maneira de ver e olhar a sociedade e o
cosmos a partir de uma visão histórica bem particular (HAMA; KI-ZERBO, 2010).
O tempo é, dessa forma, um domínio do coletivo que se entrelaça e se integra à
eternidade.
Os tempos míticosse re�etem no ajustamento de condutas e ações sociais. Não
são apenas anedotas de tempos antigos e moralidades consideradas
ultrapassadas, mas elementos simbólicos de organização do presente, e do
preparo contínuo para o futuro:
De uma forma ainda mais profunda, certas cosmogonias
atribuem a um tempo mítico os progressos obtidos num tempo
histórico, que não sendo recebido como tal por cada indivíduo,
é substituído pela memória histórica do grupo. E o caso da
lenda Gikuyu que explica o advento da técnica de fundição do
ferro. Mogai (Deus) havia distribuído os animais entre os
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É com essa perspectiva, de abraçar uma história mais profunda em contato com
a diversidade e a alteridade, que o historiador e africanista britânico John
Donnelly Fage (1921-2002) demonstra que os trabalhos a respeito da história da
África são tão antigos quanto a própria historiogra�a. Ele lembra que o esforço
de se retomar sua história e especi�cidade, seja por meio de documentos ou
narrativas tradicionais africanas, é um dos maiores eventos das ciências
humanas e sociais de nossa época (FAGE, 2010). 
homens e as mulheres. Mas estas foram tão cruéis com seus
animais que eles escaparam e tornaram‑se selvagens. Os
homens então intercederam junto a Mogai em favor de suas
mulheres, dizendo: “Em tua honra, nós queremos sacrificar um
carneiro; mas não pretendemos fazê‑lo com uma faca de
madeira, para não incorrer nos mesmos riscos que nossas
mulheres”. Mogai felicitou‑os por sua sabedoria e, para dotá‑los
de armas mais eficazes, ensinou‑lhes a receita da fundição do
ferro. (HAMA; KI-ZERBO, 2010 p. 25)
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Figura 3 - Chefe tradicional africano de Ho, região de Gana, em oração junto aos demais chefes e reis no
festival Yam
Fonte: James Dalrymple, Shutterstock, 2020.
#PraCegoVer: na foto, aparecem vários chefes africanos negros, com roupas
típicas, coloridas e alegres. No centro da imagem, o homem que preside o
encontro segura, com a mão esquerda, um cajado com ponta dourada. Ele usa
um relógio dourado no pulso esquerdo e está com a cabeça abaixada como se
estivesse em oração.
 
Fage (2010) trabalha a partir de fontes árabes e também pré-islâmicas e cria um
quadro diverso, uma descrição quase etnográ�ca, dos povos que atravessavam o
Saara para comercializar na região do Nilo, na atual Túnis, ou ainda os con�itos
entre a expansão árabe muçulmana e a resistência dos Estados cristãos na atual
Etiópia.
Todavia, a fonte mais importante trabalhada por Fage é Ibn Khaldoun (1332-
1406), um “[...] legítimo pai da história africano” (FAGE, 2010, p. 3). Khaldoun,
nascido em Túnis, atual Tunísia, dedicou-se a pesquisar a história da África a
partir das relações entre os povos africanos, o Oriente e as demais populações
do Mediterrâneo. Segundo Fage, Ibn Khaldoun retoma a ideia de que a história é
um evento cíclico, o que, no contexto africano, signi�ca a�rmar que “[...] os
nômades do deserto conquistam as terras aráveis dos povos sedentários e ali
estabelecem vários reinos, que depois de três gerações, perdem sua vitalidade e
se tornam vítimas de novas invasões” (FAGE, 2010, p. 3).
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Figura 4 - Estátua de Ibn Khaldoun na entrada da cidadela de Bejaia, na Argélia
Fonte: MohamedHaddad, Shutterstock, 2020.
#PraCegoVer: trata-se do busto de um senhor de olhos fechados, barba, túnica e
turbante confeccionado em metal dourado. Embaixo, está escrito em relevo seu
nome, Ibn Khaldoun. Atrás, a parede tem tijolos de cor vermelha.
 
Ibn Khaldoun foi o primeiro historiador recuperado por Fage a retratar a história
de grandes impérios africanos no Sahel. Ele relatou não apenas a expansão do
Islã naquela região do continente, mas também um intenso trabalho de utilização
de fontes orais tradicionais africanas junto aos textos árabes:
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A partir do século XV, começaram a surgir fontes escritas produzidas por
europeus ou ligadas a eles devido ao seu contato com a África Ocidental e
Central. Esses documentos de cronistas antigos extravasaram geogra�camente
as contribuições dos árabes ao disponibilizarem registros a respeito de
populações e terras até então totalmente desconhecidas dos europeus. Nos
séculos seguintes, conforme se consolidava mais o comércio de escravos e a
própria diáspora africana forçada, pensadores europeus compreendiam sua
civilização como distinta das demais; acreditavam que a sua história, herança
greco-romana, deveria ser a única a ser considerada. Esse imaginário, cada vez
mais pautado por assimetrias, recusou o humanismo aos não europeus:
Nenhum Estado vasto e poderoso como o Mali, nem mesmo os
Estados de menor importância como os primeiros reinados
haussa ou as cidades independentes da costa oriental da
África, podiam manter sua identidade ou sua integridade sem
uma tradição reconhecida relativa à sua fundação e ao seu
desenvolvimento. Quando o Islã atravessou o Saara e se
expandiu ao longo da costa oriental trazendo consigo a escrita
árabe, os negros africanos passaram a utilizar textos escritos ao
lado dos documentos orais de que já dispunham para
conservar sua história. (FAGE, 2010 p. 4)
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O britânico Dalzel (1740-1811) também foi outro homem a julgar os africanos
como selvagens, ideia que seria a raiz do pensamento raciológico e das teses
racistas, principalmente ao veri�carmos que, no desenvolvimento da própria
historiogra�a (notadamente, a de matriz alemã), há a preferência do trabalho
com fontes escritas em detrimento de quaisquer outros recursos. As narrativas
orais, as cosmologias e as cosmogonias seriam parte do campo de atuação do
antropólogo, que, naquele momento, era o cientista social das “sociedades
primitivas”. Esse debate, realizado entre os séculos XVIII e XIX, não pode ser
separado da própria expansão da civilização europeia, do modelo vitorioso de
progresso cientí�co e material que delineou, posteriormente, o desenvolvimento
do próprio capitalismo e do imperialismo.
No trabalho do africanista britânico Philip Dearmond Curtin (1922-2009), há um
esforço para compreender a retomada da história da África diante da
necessidade de as diferentes sociedades africanas projetarem um futuro distinto
daquele herdado do imperialismo. Aqui, a pesquisa historiográ�ca também é
vista como necessária para a readequação de políticas públicas educacionais e
práticas pedagógicas que critiquem a visão eurocêntrica do mundo. Para Curtin
Hegel [Georg Wilhelm Friedrich Hegel] (1770‑1831) definiu
explicitamente essa posição em sua Filosofia da História, que
contém afirmações como as que seguem: “A África não é um
continente histórico; ela não demonstra nem mudança nem
desenvolvimento”. Os povos negros “são incapazes de se
desenvolver e de receber uma educação. Eles sempre foram tal
como os vemos hoje. (FAGE, 2010 p. 8)
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(2010), os materiais didáticos e paradidáticos estariam atrasados em suas
abordagens, ainda reproduzindo estereótipos, exotismos e o racismo
hegemônico.
Afastar uma história eurocêntrica e etnocêntrica deve sero caminho a ser
trilhado por pesquisadores africanos desejosos de revisitar e trazer a público a
riqueza humana e a inventividade social das diversas coletividades, sociedades,
impérios e civilizações africanas.
As povoações africanas teriam surgido pela urgência das chamadas
“organizações hidráulicas” ou “civilizações hidráulicas”, hipótese proposta
originalmente pelo �lósofo e sociólogo Karl August Wittfogel (1896-1988). Esse
alemão, ao mesmo tempo que explica o processo de sedentarização – com a
expansão da agricultura e o crescimento demográ�co –, salienta a profunda
divisão e especialização do trabalho, que, sob o tacão de lideranças políticas e
religiosas, resultou em organizações estatais cada vez mais centralizadas – e, na
sua classi�cação, despóticas (SILVA, 2011).
1.2.1  Civilizações africanas em seu contato com a Antiguidade
Oriental 
Edward Wadie Said (1935-2003), crítico literário e ativista político, tornou-
se mundialmente famoso pelo seu engajamento em prol da causa
palestina. Sua grande obra, Orientalismo: o Oriente como invenção do
Ocidente, causou imensa polêmica. Nesse trabalho, Said a�rma que a
visão ocidental do mundo “oriental”, mais precisamente do mundo árabe
muçulmano, criou uma visão estereotipada dessa civilização que só
servia aos interesses do próprio imperialismo. O texto de Said in�uencia
até hoje gerações de pensadores, dispostos a revelar as armadilhas
epistemológicas do pensamento hegemônico ocidental sobre outras
civilizações com o pretexto de que, em nome da cristandade, da
civilização ou da democracia, justi�cam-se processos violentos de
expansão militar e econômica.
VOCÊ O CONHECE?
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Contudo, conforme Silva (2011), muito antes do que imaginávamos, em um
Saara completamente diferente daquele que nos habituamos a enxergar, houve
civilizações sedentárias, que, além de caçarem em uma paisagem riquíssima,
também pescavam nos antigos lagos e esboçavam uma organização social com
conhecimento agrícola. Necessariamente, essa ordem não levou à criação de
Estados e governos despóticos, mas criou comunidades que praticavam uma
autogestão com base no parentesco e na defesa mútua. Silva (2011) também
pontua que, ao contrário do que as correntes historiográ�cas mais tradicionais
imaginam, o modo de vida sedentário e majoritariamente agrícola não suprimiu
completamente a exigência da caça e da coleta, ações consideradas tipicamente
de sociedades nômades e seminômades. Muito pelo contrário, a dieta promovida
pelo modo de vida sedentário veio complementar e ser complementada pela
caça e pela coleta (SILVA, 2011).
Figura 5 - Pinturas rupestres pré-históricas de Tassili-N’Ajjer, Argélia
Fonte: Dmitry Pichugin, Shutterstock, 2020.
#PraCegoVer: trata-se de uma rocha em tons de vermelho com vários desenhos
rupestres. Na pintura, aparecem caçadores com lanças e suas famílias, além de
animais típicos das savanas africanas.
 
As técnicas de plantio, especí�cas dessas civilizações do antigo Saara e, após
sua completa deserti�cação, no Sahel, são bem distintas daquelas que surgiram
no Crescente Fértil, havendo uma “[...] agricultura intensiva e cuidadosa, em
estreitos e diminutos tratos de terra, a descer da montanha em incontáveis
degraus” (SILVA, 2011, p. 38). Havia a utilização de técnicas avançadas de
plantio em plataformas, o aproveitamento de terrenos inundáveis e outras
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formas de cultivo que protegiam a terra da erosão ou ajudavam quando o clima
era incerto, às vezes com chuvas abundantes, mas também com grandes
estiagens (SILVA, 2011).
Cada região e etnia tinha seu plantio predileto. Nas savanas, por exemplo, havia o
cultivo de cereais, armazenados em celeiros protegidos pelos “espíritos dos
ancestrais”. Sorgo, milho, quiabo, banana, inhame, arroz e, com o aumento do
contato comercial com as Américas, já na Idade Moderna, a produção de novos
gêneros, como pimentas, milho, mandioca e o ananás. A partir das colônias
árabes e persas do litoral oriental africano, sob o jugo do Oceano Índico, houve a
introdução do cultivo de limões, berinjela, cana-de-açúcar, cebola e manga
(SILVA, 2011).
Durante muito tempo, questionou-se a originalidade das civilizações africanas e
atribui-se ao Antigo Egito uma origem e desenvolvimento completamente alheios
às demais formas civilizatórias do continente. Pensava-se que essa civilização
seria mais aparentada com as cidades-Estado do vale dos rios Tigre e Eufrates,
ou mesmo com o complexo semítico do seu entorno e dos oásis férteis que vão
da periferia do Sinai, passando pelo rio Jordão até o norte do Golfo Pérsico. As
pesquisas historiográ�cas e arqueológicas demonstraram justamente o
contrário: um conteúdo fundamentalmente africano que veio a se colorir com
contribuições do restante do Crescente Fértil e dos povos do Mediterrâneo.
Nesse sentido, é importante frisarmos o papel de síntese africana da antiga
civilização egípcia e expandir nossa imaginação historiográ�ca e sociológica
para muito além da primeira catarata do Nilo, anexando terras que hoje se
aproximam da moderna Cartum, do Sudão e das adjacências do Mar Vermelho.
Diferentemente do que muitos ainda pensam, a expansão egípcia na região da
Núbia, como eram chamadas essas terras na Antiguidade, não foi um ato de
conquista unilateral, mas sim de interpenetração cultural, com trocas constantes
durante séculos. Isso valia para a sua relação com o sobrenatural, sua
religiosidade, com relação aos ritos fúnebres e às técnicas funerárias, mas
também no que compete à agricultura e à pecuária:
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Silva (2011) apresenta uma hipótese bastante interessante com relação à
religiosidade de matriz africana dos antigos egípcios ao associar a �gura dos
chefes sagrados africanos do Sahel à natureza implacável, de poder e de
soberania, atribuída ao faraó do Egito, que era, de fato, um líder sagrado:
Em troca daqueles bens e de artigos de luxo [...], os núbios
forneceriam aos egípcios [...]. Esse comércio era possivelmente
conduzido pela gente de Assuã [...]. Talvez procurassem manter
em suas mãos o controle do escambo com as populações
meridionais e criassem empecilhos ao trânsito dos egípcios,
aos quais interessava o livre acesso às fontes de matérias-
primas. [...] Um desses choques ficou registrado numa placa de
arenito, hoje exposta no Museu Nacional do Sudão, em Cartum
[...]. Nela está gravado o nome do faraó Zer (ou Djer), o terceiro
da Primeira Dinastia, e veem-se um barco egípcio, com o que
talvez fosse um chefe núbio amarrado à proa, e vários
cadáveres nas águas do rio. Num canto, o hieróglifo tradicional
para a Baixa Núbia. (SILVA, 2011, p. 102-103)
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Silva conclui que: 
É de crer-se que as comunidades [...] dispusessem de chefes.
Seria cada um deles, talvez, mais do que simples cabeça de
linhagem, do que líder de uma família extensa. Talvez fosse
semelhante a um senhor da chuva, das tribos mais ao sul,
capaz de domar os elementos naturais [...] e de propiciar a
fartura. [...] um ser em que o deus da natureza se encarnava.
Por isso, controlava as chuvas, garantia a bondade das águas,
assegurava a fertilidade do solo, do gado e dos homens. De tal
modo estaria associada a sua vida à da terra, que a falta de
vigor, a enfermidade ou a morte por doença trariam consigo a
seca, a inundação ou as pragas. Porque a divindade se finaria,
se falecesse inesperadamenteo corpo que tornara seu, não se
deixava que o chefe se debilitasse ou envelhecesse, e lhe era
dada morte ritual após algum tempo de mando. Assim o deus
poderia transferir-se para um novo corpo vigoroso. (SILVA, 2011,
p. 103)
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Assim, havia também um imenso complexo cultural que abrangia territórios
imensos e um continuum antropológico em que se veri�cava a raiz africana das
crenças mais fundamentais do antigo Egito e de povos onde hoje se localiza a
faixa desértica do Saara e o próprio Sahel.
Diop (2010) ainda reforça que uma parte signi�cativa, senão a totalidade da
população do antigo Egito, da era pré-dinástica até o período helenístico, era
composta principalmente por negros, e não apenas na base da pirâmide social
(como muitos, de forma preconceituosa e até racista, imaginam), mas também
ocupando papéis sociais signi�cativos em algumas dinastias:
A ideia do líder como senhor da natureza está também nas
raízes da concepção egípcia do faraó. Este era um rei divino.
Era a encarnação de Hórus, um deus celeste, o primeiro
soberano do baixo Egito, e de Set, o deus que fora o primeiro
monarca do Alto Egito. Era filho de Rá, o deus do Sol. E, morto,
identificava-se com Osíris. Era o eixo do mundo. Ninguém
estranharia, portanto, que tivesse o poder de regular as cheias
do Nilo, ou que, ao lavrar ritualmente os campos, lhes renovasse
a uberdade e favorecesse as colheitas. (SILVA, 2011, p. 103)
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[...] Embora a melanina se localize principalmente na pele, os
melanocitos que penetraram a derme no nível da epiderme,
mesmo onde esta última tenha sido praticamente destruída
pelos materiais de embalsamamento, indicam um nível de
melanina inexistente nas ‘raças’ de pele branca. As amostras
que eu mesmo analisei foram colhidas no laboratório de
antropologia física no Museu do Homem, em Paris, das múmias
provenientes das escavações de Marietta, no Egito. O mesmo
método e perfeitamente utilizável para as múmias reais de
Tutmes III, Seti I e Ramsés II, do Museu do Cairo, que estão em
excelente estado de conservação. [...] Elas podem ser
estudadas a luz natural ou sob luz ultravioleta, que torna os
grãos de melanina fluorescentes. De qualquer forma, queremos
simplesmente afirmar que a avaliação do nível de melanina
através de exames de microscópio e um método de laboratório
que nos permite classificar os antigos egípcios
inquestionavelmente entre as raças negras. (DIOP, 2010 p. 11)
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Intelectuais africanos, como o egípcio Abd El Hamid Zayed, assinalam antigos
contatos dessa civilização com povos do atual Congo e do Gabão, onde foi
encontrada uma estatueta do deus Osíris datada do século VII a.C., estátuas
egípcias do governo de Tutmés III, ao sul do rio Zambeze (c. de 1490-1468 a.C.) e
indícios do contato do Egito cristão, sob domínio de Constantinopla com povos
da região onde hoje localiza-se a moderna Gana (ZAYED; DEVISS, 2010). Os
principais rivais africanos do Antigo Egito eram povos da atual Líbia, no Oeste, e
outros povos que viviam às margens do Nilo, o que não impediu que dinastias de
origem líbia ou núbia também viessem a governar posteriormente o Antigo Egito
(ZAYED; DEVISS, 2010). 
Figura 6 - Estatueta da esfinge de Taharq do antigo reino núbio do Kush (Kerma)
Fonte: N. Rotteveel, Shutterstock, 2020.
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#PraCegoVer: trata-se de uma es�nge de pedra de um rosto africano com uma
espécie de ornamento que vai do topo de sua cabeça até as laterais do rosto.
 
No que concerne à civilização núbia, é importante lembrar que ela é tão antiga
quanto a egípcia. Referências arqueológicas antiquíssimas �zeram com alguns
estudiosos acreditassem, erroneamente, que os artefatos fossem vestígios
materiais de alguma colônia egípcia localizada mais ao Sul (SILVA, 2011). Esse
engano, segundo pensadores africanos e africanistas, acontece porque muitos
cientistas e o público ocidental não acreditam que existisse uma so�sticada
civilização africana onde hoje está localizado o moderno Sudão. Objetos
cerâmicos, câmeras funerárias, centenas de templos e de pirâmides, estelas
comemorativas e centenas de outros artefatos demonstram justamente o
contrário. 
Figura 7 - Complexo de pirâmides de Meroë, do atual Sudão
Fonte: zampe238, Shutterstock, 2020.
#PraCegoVer: em uma região desértica, com uma grande área coberta por areia
alaranjada, há um completo de pirâmides. No fundo, aparecem algumas
montanhas.
 
Com o fortalecimento do Norte e sua crescente centralização política, os
egípcios passaram a ter um maior protagonismo, seja no comércio ou na guerra
contra os núbios ao Sul, forçando-os a abandonar importantes localidades às
margens do Nilo e se refugiar nas savanas no entorno. Todavia, os núbios voltam
a aparecer com altivez nos registros egípcios com a sua derrocada frente aos
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hicsos. Há registros de que deram suporte a dinastias egípcias no exílio e de que
os ajudaram, gradativamente, a retomar o país das mãos desses guerreiros
vindos da Anatólia e também de grandes con�itos com os líbios do Oeste.
Com o �m do domínio hicso no Egito, há uma renovação do poder núbio em toda
a região, da foz do Nilo até a sexta catarata, e o estabelecimento de uma dinastia
de origem núbia no poder. São os chamados “faraós negros” (SILVA, 2011;
ADAM, 2010). Muitos especialistas também chamam os Estados estabelecidos
nessa região de Império do Kush ou, ainda, de “dinastia etíope”, formada pelos
importantes Estados de Napata e, posteriormente, de Méroe (LECLANT, 2010).
Outro fato importantíssimo associado ao domínio núbio sob todo o Egito é o
confronto desse império africano contra a principal força militar do planeta, o
império assírio, sob o governo do faraó Taharqa. Leclant (2010) utiliza-se da
várias fontes materiais, iconográ�cas e até da Bíblia para descrever o terror dos
exércitos egípcios e núbios sobre os assírios. Assaradão (681-669 a.C.) foi o
monarca assírio derrotado por essa coligação. Seu sucessor, Assurpanibal, teria
ocupado e saqueado uma das principais cidades egípcias, Tebas, no ano de 663
a.C. Com a morte desse soberano “etíope”, assume seu sobrinho, Tanutamon, o
último faraó coroado em Napata e último representante do domínio núbio sobre
o Egito, perdido posteriormente para os assírios (LECLANT, 2010).
A partir do comando assírio, houve um momento de decadência, com novas
guerras civis e um novo controle estrangeiro na foz do Rio Nilo e no Sul. Persas,
gregos macedônios, romanos e o poder crescente de Constantinopla terminaram
por abreviar a autonomia política de milênios da antiga civilização egípcia, que
passou a ser controlada politicamente por povos do Mediterrâneo e, depois, pela
Igreja cristã.
Nos séculos VII e VIII, há a chegada dos árabes muçulmanos e a conversão dos
egípcios ao Islã. Hoje, o Egito moderno e uma parte signi�cativa do Sudão, que
abrigou as importantes civilizações núbias de Napata e de Méroe, são
majoritariamente muçulmanos (SILVA, 2011).
Agora, clique nos ícones para conhecer outras duas importantes civilizações
africanas.
Nok
1
Formada pelo grupo de populações do Sahel,
que inclui uma faixa da atual Gana até as
vizinhanças do Sudão do Sul, com populações
egressas do Saara,surgiu em 2000 a.C. O
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centro �ca hoje entre os países do Níger e da
Nigéria. A cultura foi importantíssima para o
estabelecimento e renovação da agricultura nas
longas e férteis terras da região, mas também
para a expansão da metalurgia pelo continente
e para a produção de esculturas em madeira e
terracota (SILVA, 2011).
Axum
2
Foi uma civilização que teria operado uma
amálgama bastante original do mundo árabe
com o africano, precisamente o sul da
Península Arábica, com contribuições do reino
núbio de Meroé e do Chifre da África. Localizada
nos planaltos da atual Etiópia e no litoral da
Eritéria, participou de uma intensa
miscigenação étnica que envolveu africanos e
árabes. A região era atraente devido ao grande
aproveitamento de recursos naturais e, também,
pela posição privilegiada ao comércio, porque
ligava, pelo Mar Vermelho, o Antigo Egito e a
Núbia ao Golfo Pérsico e o subcontinente
indiano. Essas características tornaram essa
região um espaço privilegiado para
comerciantes e nativos e o primeiro Estado
africano a cunhar sua própria moeda (SILVA,
2011). Muitos especialistas acreditam que
nessa região haveria o antiquíssimo reino do
Punt, muito referenciado em fontes egípcias. 
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Por volta do século 1 d.C., há uma progressiva centralização política. Com isso, a
região de Axum, o Egito e a Núbia passam por um processo de cristianização
que atraiu comerciantes e viajantes de regiões como Palestina, Síria e Anatólias
romanas. 
Figura 8 - Típico obelisco de Axum que relembra os grandes reis do passado. Essa e outras 125 estelas
ficam localizadas no Parque das Estelas, na atual Etiópia
Fonte: Almo2, Shutterstock, 2020.
#PraCegoVer: na imagem, há um grande obelisco de pedra. É um ornamento
retangular com vários desenhos entalhados que parece estar partido no meio
sobre um muro de pedras. Atrás, há várias árvores.   
Segundo Anfray (2010), a maior parte dos axumitas era camponesa e criadora de
rebanhos, mas também se notabilizava pelos feitos militares, construções e
irrigação, com técnicas que possibilitavam o plantio no planalto
etíope.  Inicialmente descentralizado, Axum enfrentou uma série de con�itos
internos até a formação de um Estado unido sob um só monarca. Esse processo
progressivo de centralização política criou uma civilização belicosa que se
espalhou, ocupando a antiga Méroe e o sul da Península da Arábia. Foi a
conformação de um império que restabeleceria o comércio entre o Mar
Mediterrâneo e o Oceano Índico (SILVA, 2011). Os reinos vassalos dentro do
império axumita forneciam homens para o exército e guardavam as fronteiras. É
dessa época que surgem registros acerca dos líderes das províncias e do título
do imperador axumita: negus (ANFRAY, 2010). Também há registros de uma
aliança formal entre Constantinopla, sob o governo do imperador Justiniano, e
Axum (KOBISHANOV, 2010).
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A expansão do Islã no norte do continente africano, com consequente supressão
do cristianismo, veio con�rmar a signi�cativa contribuição desse continente. A
velocidade da conquista árabe e da “islamização” dos povos foi tamanha que,
muitas vezes, é comparada a um verdadeiro tsunami que varreu, do litoral norte
até os limites do Sahel, os vestígios de antigas civilizações, com o
estabelecimento de novos marcos étnicos e relações com o restante do universo
africano. Também não podemos nos esquecer do processo semelhante, mas
não com tamanha energia, que aconteceu no litoral oriental do continente, às
margens do Oceano Índico. Lá, também houve uma signi�cativa expansão
islâmica, que foi do chifre da África até a ilha de Zanzibar, na região da moderna
Tanzânia (EL FASI, 2010).
Houve o estabelecimento de impérios islâmicos na costa noroeste do Oceano
Atlântico e no norte africano, os quais entraram em confronto direto com a
cristandade medieval. É desse período a expansão militar e econômica da
civilização islâmica e o domínio de regiões para além da África, como o sul da
Itália, as ilhas da Sicília e da Sardenha e a Península Ibérica, na qual a presença
muçulmana é sentida até hoje (EL FASI, 2010).
Os principais Estados guerreiros desse período de renovação africana pela ação
do Islã foram os fatímidas, no atual Egito, rivais de outros herdeiros do califado
islâmico original, que se deparou com as invasões dos mongóis, turcos e dos
cruzados europeus, e os almorávidas, que surgiram na atual Mauritânia e
dominaram o noroeste africano e a Ibéria muçulmana. Mais tarde, apareceram
os almóadas, responsáveis pela uni�cação do Magreb ou “mundo ocidental
muçulmano”, com novas investidas na Península Ibérica (EL FASI, 2010; NIANE,
2010).
Esses Estados afromuçulmanos também estabeleceram importantes rotas de
comércio ao Sul, por meio da ação de tuaregues e beduínos do Saara. Essa
dinâmica colocou em contato regiões bastante diversas, como o Mar
Mediterrâneo, o Oceano Atlântico, o Mar Vermelho, o Golfo Pérsico, o Oceano
Índico e o subcontinente indiano com a África central e a equatorial. Também
devemos lembrar que o domínio muçulmano de parte signi�cativa do continente
africano possibilitou a expansão de rotas do comércio de escravos, tornando
populações africanas reféns da rapina de Estados africanos aliados aos
interesses econômicos centrados no Golfo Pérsico, no Cairo ou, ainda, em
Damasco.
Entre os séculos VII e XII, surgiram, no Sahel, e em profundo contato e escambo
cultural com esse mundo muçulmano, importantes Estados africanos, como
Gana, Ga (fundado por songhais) e o Império do Mali, um aglomerado
1.2.2  Os importantes impérios do Mali e o reino de Gao e seu
contato com o mundo muçulmano e além
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multiétnico liderado pelo povo mandingo ou manden, erguido pela conjunção da
força das armas e no carisma de seus governantes militares. Eles controlavam
importantes rotas comerciais que ligavam a África Ocidental ao Mediterrâneo e o
Cairo, tendo Meca e Medina como destinos certos das riquezas extraídas e da
peregrinação de parte de seus povos (SILVA, 2011).
Gao, por exemplo, dominou vastas regiões que vão hoje da Guiné ao norte da
Nigéria, adentrando também em localidades ao Norte, no Mali e na Mauritânia
contemporâneas. Foi pelo Islã que o povo songhai, fundador de Gao, tornou-se
conhecido para além do Saara e na Península Ibérica. No califado de Córdoba, o
próprio califa enviava o Alcorão para os governantes e incentivava o intercâmbio
comercial e, ao mesmo tempo, religioso. O ouro africano inundava a Andaluzia
muçulmana com seus comerciantes em troca da suserania do califa ibérico
(SILVA, 2011).
Figura 9 - Atual Mali, região em que se desenvolveram os poderosos reinos de Gao e o império do Mali
Fonte: hyotographics, Shutterstock, 2020.
#PraCegoVer: trata-se do desenho de um mapa da África Ocidental com
destaque para o Mali contemporâneo, onde aparece sua bandeira com
retângulos verticais nas cores verde, amarelo e vermelho. Do lado esquerdo, há
uma grande região litorânea – o Oceano Atlântico – pintada de azul. No mapa,
linhas de cor laranja dividem os países. Algumas regiões desérticas estão
pintadas com tons de laranja, como o Saara, à direita de Mali.   
 
Os queitas – ou keitas – tornaram-se os líderes do Mali e foram eternizados por
griots. Os governantes – ou mansas – ora adoravam o Islã, ora recusavam suas
ideias, em uma hábil política que visava à expansão dos domínios doMali em
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seus con�itos contra pequenos reinos ou rivais. Nesse processo de crescimento,
e por sua habilidade militar, o império do Mali, subjugado posteriormente por
Gao, tornou-se, estranhamente, muito mais conhecido que este, abundando nas
lendas locais e nos registros de comerciantes árabes e outros que visitavam a
região. 
Figura 10 - Vista da mesquita de Djinguereber, em Timbuktu, Mali. A antiga cidade de Timbuktu, patrimônio
histórico e arquitetônico da humanidade, é berço das mais antigas e importantes mesquitas da região
Fonte: DemarK, Shutterstock, 2020.
#PraCegoVer: em uma região com calçamento de pedras marrons, há uma
grande edi�cação construída com argila. Do lado esquerdo e no meio, há pilares
pontiagudos; no alto das paredes, há estruturas metálicas posicionadas
horizontalmente.  
 
Gao e Mali digladiaram-se e se enfraqueceram nos diversos con�itos que
travaram. Depois desses embates, foram dominados pela expansão muçulmana
dos Almorávidas, tornando-se tributários de Estados muçulmanos localizados no
Atlântico ou mais ao Norte, no atual Marrocos e Argélia.
1.3 O colonialismo e o neocolonialismo ou
imperialismo
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Entre os séculos XIII e XIV, é gestado um projeto, até então único, de Estado
europeu interessado na expansão marítima e comercial. Portugal, �nanciado por
sua burguesia, foi ao mar objetivando converter e negociar com os in�éis que
encontrasse, com um espírito cruzadista mesclado ao desejo de abrir novas
rotas comerciais (RIBEIRO, 1995).
Inicialmente, devido a questões tecnológicas e necessidades comerciais, as
viagens portuguesas �caram presas à navegação próxima ao litoral africano. Os
contatos eram esporádicos e, quando mais bem-sucedidos, eram feitas feitorias
(entrepostos comerciais) com o intuito de manter contatos mais efetivos com os
povos, sociedades e os grandes Estados africanos do Ocidente. Um dos
primeiros locais de contato mais ativo entre portugueses e africanos foi na
região da Guiné “[...] que vai da foz do rio Gâmbia ao delta do Níger” (PERSON,
2010, p. 130). Naquele momento, muitos dos navegadores portugueses
desconheciam as terras que percorriam. Por isso, chamavam todos os nativos
de “etíopes” ou se referiam à região como “país dos negros”. Além disso, diziam
que o litoral ocidental da África Atlântica era o Golfo da Guiné. 
O objetivo português era obter, além de especiarias, o famoso ouro africano,
produzido em regiões localizadas nos atuais Níger e Nigéria e em minas que
�cavam no atual território da República Centro-Africana. Na região litorânea,
também havia o contato com outros produtos, tais como ouro de aluvião, mar�m,
especiarias, e o acesso ao trá�co de escravos (PERSON, 2010).
Figura 11 - Vista exterior do Forte de São Jorge da Mina (Gana), fundado por portugueses em 1482. A
fortificação retrata o interesse europeu no ouro e tráfico de escravos africanos
Fonte: Homo Cosmicos, Shutterstock, 2020.
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#PraCegoVer: uma foto tirada no meio do mar mostra, no fundo, uma grande
construção de paredes brancas, várias janelas pequenas e telhado de cor
avermelhada. Dos lados esquerdo e direito, há várias palmeiras; na frente, o que
parece ser uma faixa de pedras de cor cinza. O céu está azul e com muitas
nuvens brancas.
 
É inegável o peso que portugueses – e, depois deles, outros europeus – deram
ao comércio de escravos. Eles �nanciavam parte signi�cativa de suas
transações com che�as africanas locais, o que incentivava e promovia, direta ou
indiretamente, con�itos entre os povos. No sistema escravagista ocidental, a
utilização do trabalho escravo africano em larga escala se deu, inicialmente, nas
ilhas atlânticas de Portugal e da Espanha. Alguns até foram embarcados para o
continente europeu, onde trabalharam em Lisboa ou em Sevilha; outros africanos
cativos, em um �uxo cada vez maior, vieram alimentar a construção do “Novo
Mundo” e sua inclusão no espaço econômico que estava se desenhando nos
primórdios da internacionalização da economia (RIBEIRO, 1995; INIKORI, 2010).
Os primeiros povos que foram incorporados na lógica perversa do comércio de
gêneros e de seres humanos supliciados foram os africanos ocidentais. Havia
con�itos entre os nativos, que viviam em ilhas ao longo do litoral de regiões que
hoje pertencem a Guiné, Gâmbia, Guiné Equatorial, Senegal e Serra Leoa. No
interior, havia a presença de povos agricultores, como os ancestrais dos atuais
tenda, conforme Person (2010).
Registros náuticos portugueses, crônicas e outros documentos atestam que os
primeiros europeus em contato com diversos povos africanos se detiveram na
análise de seus costumes e religiosidade (PERSON, 2010). Além disso, as fontes
mostram que as sociedades eram bem desenvolvidas economicamente: viviam
da rizicultura no litoral ou mesmo da pesca; no interior, havia a prática da
agricultura, da pecuária, do artesanato e da confecção e trabalho com metais,
como o ouro ou o ferro, sendo incrivelmente hábeis (SILVA, 2011).
No entanto, é importante lembrar que a chegada dos europeus e o incentivo à
captura de homens e sua transformação em escravos seriam, nos séculos
seguintes, elementos para a desestabilização das regiões onde �zeram feitorias.
A escravização impactou regiões vizinhas, mas também atendeu a propósitos de
Estados africanos mais centralizados, ansiosos por estabelecer e alargar
contatos comerciais e adquirir produtos que os portugueses traziam de além-
mar e de outros pontos da costa africana.
Africanos que submetiam compatriotas ao destino da escravidão o faziam
porque não enxergavam esses sujeitos, de outros grupos étnicos ou nações,
como seus semelhantes, mas sim como cativos de guerra cujo destino estaria
nas mãos dos seus próprios deuses (SILVA, 2011). Muitos embates foram
travados em nome do comércio em expansão, especialmente por causa do
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crescente trá�co de escravos, atendendo a interesses africanos internos e de
europeus. Com o estabelecimento vigoroso da monocultura agroexportadora nas
terras que viriam a se tornar o Brasil, houve o gradativo aumento do número de
cativos enviados às Américas (PERSON, 2010; INIKORI, 2010):
Esse tráfico atendeu principalmente a região em torno do
Mediterrâneo (inclusive a Europa Meridional), o Oriente Médio e
algumas regiões da Ásia. Tal comércio durou vários séculos,
haja vista que somente se extinguiu no começo do século XX.
Todavia, as “quantidades” anuais assim exportadas nunca
foram relevantes. Por outro lado, a partir do momento em que o
Novo Mundo, após a viagem de Cristóvão Colombo, em 1492,
abriu‑se a exploração europeia, um tráfico de escravos
africanos, envolvendo números muito maiores, se superpôs ao
antigo tráfico: trata‑se do tráfico transatlântico de escravos,
praticado do século XVI até meados do século XIX. Os dois
tráficos perpetuaram‑se simultaneamente durante quase
quatro séculos e arrancaram milhões de africanos de sua
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A expansão comercial de Portugal, seguido pelas demais potências europeias
nas décadas e séculos seguintes, cruzou o equador africano e se deparou com
uma miríade de povos; a maioria dessas populações ágrafas constituía
diferentes níveis organizacionais, com registrosda existência de reinos
coexistindo com extensas nações que não possuíam a organização estatal
(SILVA, 2011). Antes disso, porém, houve um contato signi�cativo com povos do
atual Benim e sul da Nigéria. Os mais famosos são os iorubanos, que deixariam
como legado à cultura brasileira parte signi�cativa de seu arsenal mítico-
religioso na �gura dos futuros candomblés.
A região do Benim, com diferentes reinos, tinha uma extensa rede de localidades
e vilarejos ligados entre si e submetidos a um poder central altamente
urbanizado (SILVA, 2011). O principal local, de acordo com achados
arqueológicos e o registro tradicional, era Ilê Ifé, “terra de onde vem a luz”, a atual
Ifé, na Nigéria, importante centro cerimonial, religioso e comercial que prosperou
entre os séculos XII e XIV (SILVA, 2011). Os governantes do antigo Benim eram
chamados de obás. Seu poder era decorrente de sua origem estrangeira, divina
ou próxima das divindades. Por isso, o soberano era dotado de poderes
sobrenaturais que o distinguiam do restante dos chefes e das pessoas comuns
do povo. Eles também exerciam o poder de sacerdote, o ogiefa, e eram os
primeiros entre aqueles que acessavam o sagrado (SILVA, 2011).
Após inúmeros con�itos internos e externos, há um processo de fortalecimento
da monarquia em detrimento dos poderes locais e das che�as tradicionais e de
seus sacerdotes. Benim então passa a ser conhecida como Edo, uma espécie de
refundação sob o governo do poderoso príncipe Eurare, grande interlocutor dos
negócios com os portugueses no início do século XVI, que reconheceram sua
capital como a maior de todo o “Golfo da Guiné”, isto é, de toda a África
Ocidental (SILVA, 2011). Entre os demais reinos iorubanos, muitos resistiram à
expansão do Benim, enquanto outros lhes prestavam contínuas homenagens.
pátria. Até hoje, o papel desse comércio no desenrolar da
história mundial ainda não foi devidamente evidenciado.
(INIKORI, 2010, p. 91)
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O historiador e antropólogo Jan Vansina (1929-2017) assinala que há poucos
registros escritos autóctones na região do Congo, outra importantíssima
localidade africana. Por isso, é importante a utilização de fontes orais e registros
estrangeiros que passaram pela região para a reconstituição de processos
históricos mais longos (VANSINA, 2010). As mais utilizadas são as tradições
orais do Kongo, recolhidas por cronistas e viajantes nos séculos XVI e XVII, que
compreendem registros de dois ou três séculos de história (VANSINA, 2010).
Por meio dessas notas orais, recolhidas por cronistas, aventureiros e
mercenários a serviço, há a importante discussão das migrações dos bantus.
Originalmente, esses povos habitavam a região que hoje �ca entre os Camarões
e a República Centro-Africana e, por diversos motivos (con�itos militares, guerras
de apressamento de escravos e aumento populacional, por exemplo),
começaram a se aventurar no centro e no sul do continente, ora amalgamando-
se com populações locais ora expulsando-as para outras regiões, tais como a
densa �oresta equatorial no centro do continente ou ainda nos limites do deserto
do Kalahari, atual Namíbia (SILVA, 2011). Nas tradições orais do Kongo, há
importantes registros que tratam da migração de centenas de milhares de
bantus e suas tradições de pastoreio e agrícola (VANSINA, 2010). Vansina
recorre a dados etnográ�cos, linguísticos e à datação por carbono para traçar
um per�l menos qualitativo dessa grande migração, articulando a presença
bantu a inovações no plano do artesanato, agricultura e nas modi�cações que
foram operando entre populações que se encontravam em um estágio “pré-
agrícola”, sendo os próprios bantus considerados como os povos que ou
introduziram a agricultura na enorme região do centro e sul do continente
africano ou ali a criaram (SILVA, 2011; VANSINA, 2010). Quando os europeus
visitaram a extensa costa que vai do atual Gabão até o limite norte da Namíbia,
depararam-se com sociedades pluriétnicas, nas quais as maiores potências
eram governadas por reinos que se sobrepunham a sociedades cuja organização
social não permitia o surgimento do Estado. Essas associações dependiam
principalmente da agricultura e da pecuária, da pesca e do importante comércio
com a região da foz do rio Kongo a oeste e, no leste, junto às colônias árabes e
persas de Zanzibar (SILVA, 2011). No centro, na densa �oresta equatorial, havia
vários povos nos quais a che�a política era auxiliada por senhores da guerra e
conselhos de anciães, que de�niam os rumos das ações coletivas e do
relacionamento com os povos das savanas (VANSINA, 2010).
Mais ao sul, onde hoje está localizado o Estado africano de Angola, sob o
domínio dos povos Ovimbundu, houve a formação de diferentes Estados
guerreiros, os kilombos, associados como em uma confederação, tanto para a
defesa mútua como para a garantia de expansão e sujeição de seus rivais. Sua
organização se dava, em pleno século XIX, em 12 estados nos quais chefes
tradicionais estabeleciam sua corte e capital (VANSINA, 2010).
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O mais documentado desses Estados é o antigo reino do Kongo. Ele era dirigido
por um monarca, o mani, que residia na localidade de MBanza, chamada por
portugueses de São Salvador. Esse monarca era assessorado por um conjunto
de anciães, funcionários do palácio e parentes próximos, indicando
governadores locais para as diferentes “províncias” do Estado. Aos
governadores, além das defesas das fronteiras, cabia o recolhimento de tributo,
enviado ao rei e sua corte. Tais tributos eram uma mistura de moedas locais: o
nzimbu (conchas), quadrados de rá�a, víveres, colheitas e peles de animais
(VANSINA, 2010). 
Assim, mesmo nos primórdios do contato entre portugueses e africanos – e,
depois, de outros europeus com a África –, encontramos as sementes do trá�co
negreiro. 
Para aprofundar seu olhar a respeito da história da África e da atual
Angola e a resistência diante do avanço do colonialismo e do escravismo
português, pesquise a respeito da rainha Nzinga Mbandi (1582-1663).
Vale a pena se aprofundar nesse assunto!
VOCÊ SABIA?
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Figura 12 - Ruínas do Grande Zimbabwe, patrimônio histórico e arquitetônico da humanidade pela Unesco.
Esse complexo de muralhas foi construído entre os séculos XI e XIII pelos ancestrais dos xona, povos de
língua bantu, que estabeleceram na região um grande império
Fonte: evenfh, Shutterstock, 2020.
#PraCegoVer: a foto, tirada do alto, mostra uma série de muralhas concêntricas
dispostas como em um sistema defensivo localizada em uma zona de mata. No
fundo, há uma �oresta densa; à frente, há muitas árvores de copas altas.
Embora não haja consenso entre os historiadores com relação aos impactos da
escravidão, não há dúvida de que o trá�co de seres humanos tornados escravos
enriqueceu europeus e bene�ciou seus interesses localizados nas Américas,
mas com consequências danosas aos africanos: os modelos tradicionais foram
enfraquecidos em detrimento de uma nova organização socioeconômica, cujo
centro não se dava mais no continente, mas na ambição colonialista. Outrossim,
é no período do colonialismo que se realizam, a um só tempo, a diáspora, com
destino principalmente às Américas, e movimentos sociais e políticos que foram
a base da África contemporânea. Às voltas com os fantasmas do colonialismo,
os africanos, ao mesmo tempo, tinham esperanças nos processos de
independência nacional (OGOT, 2010).
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Todavia, não podemos nos esquecer de que a diáspora em si também foi a
responsável direta pela viabilização das colônias europeias de ultramar, pelo
fortalecimento dos Estados nacionais em formação na Europa e pelo surgimento
do sistema econômico que ainda perdura, baseado na consolidação dos
interesses burgueses. Ela auxiliou, também, na economia de capitais
necessários à formação da sociedade industrial e capitalista contemporânea,
pela ação direta do neocolonialismo ou imperialismo do século XIX (HOBSBAWN,
1988). 
O primeiro dos teóricos racistas foi o conde de Gobineau [Joseph Arthur de
Gobineau (1816-1882)], que postulava distinções qualitativas – e biológicas –
entre as diferentes “raças humanas”. Cada uma tinha suas qualidades, embora
as populações europeias fossem consideradas superiores. As  diferenças, se
fossem mantidas distantes, não resultariam em abismos entre os vários grupos,
mas a miscigenação que resultou na formação e desenvolvimento de “raças
híbridas” ou mestiças trouxe à tona a decadência e a perda das qualidades
originais de cada grupo racial, o que Gobineau chamava de “degenerescência
das raças” (LÉVI-STRAUSS, 2017).
Depois de Gobineau, surgiram outros ideólogos e ideologias deterministas que
in�uenciaram o quadro do “racismo cientí�co”, tais como o darwinismo social e o
positivismo, com o postulado de que há hierarquias entre as civilizações e suas
respectivas “raças”. O resultado foram ações eugenistas, que visavam ao
“melhoramento social e racial” e ao afastamento dos “indesejáveis de cor”, com
a segregação espacial e o higienismo social (SANT’ANNA, 2005, LÉVI-STRAUSS,
2017). Outrossim, diante da expansão ocidental e dos resultados políticos desse
crescimento, o racismo ganhou cada vez mais ares de cienti�cidade, atestando e
justi�cando a “missão civilizatória” do homem branco europeu em sua tentativa
de resgatar da “barbárie” e da “selvageria” populações além-mar, trazendo-as
para o “seio do progresso”, cuja morada se estabelecia plenamente na civilização
1.3.1  Crítica e refutação das teorias racistas. Renascimento do
pensamento africano e pós-colonial
(ATIVIDADE NÃO PONTUADA)
TESTE SUAS HABILIDADES
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ocidental. O racismo pseudocientí�co do século XIX e início do século XX tornou-
se a ferramenta teórica mais amplamente e�caz para justi�car o expansionismo
militar, político e econômico de países da Europa ocidental e dos Estados Unidos
sobre as populações não europeias, seus recursos e territórios, subjugando-as
em nome do “progresso”. En�m, esse é o “coração” daquilo que chamamos de
imperialismo (HOBSBAWN, 1988).
No século XX, com a chegada do nazifascismo ao poder, aconteceu o auge do
pensamento racista. Sua derrocada militar custou centenas de milhares de vidas
e causou uma destruição sem igual, embora ainda haja populações e políticos
oportunistas – não só na Europa Ocidental, mas também nas Américas – que
propagam a certeza absoluta da existência das “raças”, conforme se esboçou no
século XIX. Há, ainda, uma crença profunda na superioridade da “raça branca” e
de sua civilização sobre todas as demais “raças e civilizações” do globo
terrestre.
Hoje, a luta é contra os efeitos nefastos dessas pseudoteorias e de suas
rami�cações no senso comum, enquanto discursos de poder e de
deslegitimação do outro. Muitas ideias relativizam o peso da migração forçada e
da extrema exploração do trabalho dos contingentes afrodiaspóricos; negam
qualquer debate em relação à persistência do racismo e de outras tantas formas
de discriminação (MUNANGA, 2005). Também é importante resgatar o
pensamento afrodiaspórico e as instituições negras brasileiras de todo e
qualquer movimento que vise ao “embranquecimento” das ações e contribuições
do africano no Brasil e no mundo para desmisti�car a hegemonia cultural e o
pensamento burguês e utilitarista (SANTOS, 2009).
Um desses elementos de resistência é a retomada dos estudos africanos, da
história do continente e da cultura afrobrasileira, vista sob os olhares de
pesquisadores que se propõem a debater o pensamento hegemônico com uma
re�exão crítica e pós-colonial (SANTANA, 2019; MBEMBE, 2018). Ao mesmo
tempo, esses estudiosos resgatam a historicidade do continente, reatando as
diversas narrativas acerca do passado africano que expõem o impacto do
fenômeno da escravidão nessas sociedades (MANNING, 1988).
No Brasil, o maior país africano fora do continente, veri�ca-se ainda a
contundente crítica a uma educação eurocêntrica, processo que continua a
reforçar diversos mitos racistas que alimentam posturas confusas e, por vezes,
criminosas em relação a nós mesmos e, em particular, aos afrobrasileiros da
diáspora (MUNANGA, 2005). Nesse sentido, ainda negamos, enquanto
sociedade, a discussão pública, democrática e cidadã dessa odiosa força que
segrega e torna imensos segmentos de nossa população cidadãos de segunda e
terceira classes, con�gurando o reforço de nosso racismo estrutural contra as
populações afrobrasileiras e indígenas, perpetuados por um de nossos maiores
mitos: o “mito da democracia racial” (MUNANGA, 2005).
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O sistema o�cial de ensino ainda mantém o racismo e os olhares
discriminatórios. Os livros e materiais didáticos tratam a diáspora de forma
super�cial; muitas vezes, naturalizam a violência colonial contra as populações
africanas, eternizando estereótipos sobre homens e mulheres africanos, que
vivem sob o estigma da escravidão e não são reconhecidos por suas inúmeras
outras contribuições à sociedade multiétnica brasileira (SILVA, 2005). O racismo
presente nos discursos e instrumentos pedagógicos também é tratado
super�cialmente. Não conhecemos sua história e sua profunda relação com os
discursos hegemônicos e com as ideologias cunhadas contra africanos e seus
descendentes (SANT’ANNA, 2005; MUNANGA, 2005). Há, portanto, a
manutenção do imaginário colonial, que perpetua as assimetrias entre brancos e
negros, brancos e indígenas, brancos e mestiços, brancos e quaisquer outros.
Nega-se o valor da alteridade (MUNANGA, 2005) e se reduz a importância da
atuação africana na construção de uma civilização global menos assimétrica,
que valorize o relativismo cultural e a forma como se construiu, de fato, tal
civilização, com enormes contribuições de civilizações e sociedades tão
díspares quanto os coletivos indígenas sul-americanos às diversas sociedades
africanas e tantas outras (LÉVI-STRAUSS, 2017).
Segundo Claude Lévi-Strauss (2017), o abandono do racismo pelo simples
acúmulo de dados cientí�cos não se basta; é preciso se aproximar dos sujeitos e
realizar, no plano do cotidiano, o desmonte dessa máquina ideológica de
assimetria entre as diferentes culturas e etnias (LÉVI-STRAUSS, 2017).
Boaventura de Souza Santos, educador, jurista e sociólogo (2009), defende a
“descolonização dos saberes”, pois entende que é por meio do diálogo que se
constrói com mais efetividade democracias inclusivas enquanto sistemas
políticos que valorizem a pluralidade e a diversidade culturais; é urgente resgatar
a humanidade que se encontra mercantilizada em ações genocidas e ecocidas
(SANTOS, 2009).
(ATIVIDADE NÃO PONTUADA)
TESTE SUAS HABILIDADES
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É urgente a discussão que critica e refuta as pseudoteorias racistas e toda e
qualquer construção ideológica que visa à discriminação de quaisquer
segmentos de nossa população e qualquer outra do planeta.
A refutação das “teses” racistas é o cerne desse novo movimento rumo à
efetividade da diversidade sociocultural e do respeito às diferentes formas de
fruição do

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