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Autoria: Fábio Costa Julião – Revisão técnica: Edmundo Fonseca Machado Junior HISTÓRIA AFRO-BRASILEIRA E INDÍGENA UNIDADE 1 – HISTÓRIA DA ÁFRICA 02/12/24, 13:14 História afro-brasileira e indígena https://student.ulife.com.br/ContentPlayer/Index?lc=0LKIugBXGo%2b3zDIe4i2wOA%3d%3d&l=3sND%2f2KdE3jxuArr81Q9Sw%3d%3d&cd=4hs… 1/46 Introdução Olá, caro estudante. O grande historiador e político africano Joseph Ki-Zerbo (1922-2006) apregoa “[...] que a história (e a cultura) da África devem pelo menos ser vistas de dentro, não sendo medidas por réguas de valores estranhos” (KI-ZERBO, 2010, p. LII). É com base nessa premissa que esta unidade apresenta discussões historiográ�cas que se pautam na contribuição africana para o desenvolvimento do homem. Aqui, analisaremos a importância da história da África e o seu aporte, enquanto campo de conhecimento, para o entendimento da evolução do homem. Além disso, estudaremos o problema do preconceito. Bons estudos! No pensamento social mais abrangente, promovido por séculos de opressão e violência contra as mais diferentes sociedades africanas, vigora a percepção de que ali, naquele continente onde se originou a espécie humana, haveria um atraso cultural signi�cativo, representado pela a�rmação de que os povos africanos não produziram história ou – pior – simplesmente não a teriam. Ademais, há também a naturalização da pobreza e da violência civil observada em disputas territoriais entre os jovens Estados-nação, símbolo de sua pretensa inferioridade frente a outros povos e culturas do mundo globalizado. Também não podemos ignorar o peso das representações sociais racistas, oriundas das teses presentes na obra do geólogo suíço Agassiz (1807-1873) e do diplomata francês Gobineau (1816-1882), que fundamentariam o caminho para a conquista e exploração predatória dos povos e das riquezas africanas pelas sociedades europeias (SCHWARCZ, 1994). 1.1 História da África: retomando olhares sobre a África e em diálogo com o pensamento africano 02/12/24, 13:14 História afro-brasileira e indígena https://student.ulife.com.br/ContentPlayer/Index?lc=0LKIugBXGo%2b3zDIe4i2wOA%3d%3d&l=3sND%2f2KdE3jxuArr81Q9Sw%3d%3d&cd=4hs… 2/46 Figura 1 - Continente africano representado pela multiplicidade de suas jovens Estados-nação Fonte: Bardocz Peter, Shutterstock, 2020. #PraCegoVer: trata-se da representação cartográ�ca do continente africano com a bandeira de cada país delimitando seu respectivo território. É importante lembrarmos que as sociedades americanas, construídas sob os espólios das civilizações ameríndias e com o trabalho cativo de milhões de indivíduos das mais diferentes regiões e etnias africanas, só se tornaram possíveis sob o sistema socioeconômico que perpetuava crimes contra a humanidade. Dessa forma, é sob a guerra e a deslegitimação dos valores culturais desses sujeitos e de suas coletividades que foi construída a civilização ocidental de matriz europeia. 02/12/24, 13:14 História afro-brasileira e indígena https://student.ulife.com.br/ContentPlayer/Index?lc=0LKIugBXGo%2b3zDIe4i2wOA%3d%3d&l=3sND%2f2KdE3jxuArr81Q9Sw%3d%3d&cd=4hs… 3/46 A história da África não se inicia com os primeiros contatos e transações comerciais com europeus por volta dos séculos XIII e XIV, tampouco com o estabelecimento de grupos semitas na foz do rio Nilo ou nas encostas do litoral norte-africano; ela se dá pela própria urgência da espécie humana, que se originou, evoluiu e se expandiu a partir do continente africano. Para aprofundar seu olhar a respeito da ideia do genocídio, leia a matéria Genocida: termo que ganhou cunho político é recente e cercado de polêmicas, que apresenta o trabalho do advogado polonês Raphael Lemkin (1900-1959) e a história por trás do termo. Acesse (https://tab.uol.com.br/noticias/redacao/2020/04/25/genocida- termo-que-ganhou-cunho-politico-e-recente-e-cercado-de-polemicas.htm) VOCÊ QUER LER? Cheikh Anta Diop (1923-1986), originário do Senegal, foi historiador, antropólogo, físico, egiptólogo e político. Parte de suas pesquisas e obras publicadas foi dedicada às origens da raça humana e às diversas sociedades africanas pré-coloniais, destacando, com seus escritos, a enorme in�uência africana na consolidação de sociedades da Antiguidade Oriental, como a civilização egípcia e o reino da Núbia (atual Sudão). Quer conhecer de perto o pensamento cientí�co e africanista de Diop? Assista a uma entrevista em que o senegalês conversa a respeito da origem da espécie humana e da civilização egípcia, disponível no ícone a seguir. Acesse (https://www.youtube.com/watch?v=XpqzEytY4Bc) VOCÊ O CONHECE? 02/12/24, 13:14 História afro-brasileira e indígena https://student.ulife.com.br/ContentPlayer/Index?lc=0LKIugBXGo%2b3zDIe4i2wOA%3d%3d&l=3sND%2f2KdE3jxuArr81Q9Sw%3d%3d&cd=4hs… 4/46 https://tab.uol.com.br/noticias/redacao/2020/04/25/genocida-termo-que-ganhou-cunho-politico-e-recente-e-cercado-de-polemicas.htm https://tab.uol.com.br/noticias/redacao/2020/04/25/genocida-termo-que-ganhou-cunho-politico-e-recente-e-cercado-de-polemicas.htm https://tab.uol.com.br/noticias/redacao/2020/04/25/genocida-termo-que-ganhou-cunho-politico-e-recente-e-cercado-de-polemicas.htm https://www.youtube.com/watch?v=XpqzEytY4Bc https://www.youtube.com/watch?v=XpqzEytY4Bc Vários estudos genéticos, paleontológicos e arqueológicos sugerem que espécies de hominídeos (e, depois, humanos anatomicamente modernos) teriam surgido ou no leste do continente, na atual Etiópia, ou no sul, onde está localizada a África do Sul. Um dos mais importantes cientistas e humanistas africanos, Cheikh Anta Diop (1923-1986), senegalês, explica que: Ki-Zerbo (2010) nos convida a compreender a etimologia do termo África e as suas mais diferentes origens. Além disso, tem a preocupação de trazer à tona os elementos explicativos que dão destaque às enormes contribuições da África e dos africanos para o conjunto da humanidade. A seguir, com a ajuda das contribuições de Ki-Zerbo, estudaremos a historiogra�a africana. As evidências científicas indicam, em resumo que a evolução humana se iniciou na África há cerca de 5,5 milhões de anos. Entre quatrocentos mil e quinhentos mil anos atrás, o , ser humano arcaico, saiu da África e migrou em direção à Ásia e à Europa. Foi, então, extinto e não deixou descendentes. O homem moderno, , surgiu na África há aproximadamente duzentos mil anos e, cerca de cem mil anos depois, em uma segunda onda migratória, povoou a Eurásia e chegou às Américas. homo erectus homo sapiens (DIOP, 1986 p. 326) 02/12/24, 13:14 História afro-brasileira e indígena https://student.ulife.com.br/ContentPlayer/Index?lc=0LKIugBXGo%2b3zDIe4i2wOA%3d%3d&l=3sND%2f2KdE3jxuArr81Q9Sw%3d%3d&cd=4hs… 5/46 Fugindo do olhar tipicamente europeu e também de metodologias excessivamente alinhadas ao desenvolvimento historiográ�co que se deu naquele continente, devemos colocar em evidência as fontes materiais e imateriais, os dados iconográ�cos e etnográ�cos, assim como a história oral, pois são capazes de romper com o imaginário que se construiu nos últimos séculos de que o continente africano e suas diversas sociedades não produziram nada de relevante para a análise historiográ�ca. Do ponto de vista geográ�co, o continente africano se apresenta de forma extremamente heterogênea. Ligada ao restante do “velho mundo” pelo istmo de Suez, a África traz uma diversidade de paisagens naturais, muitas delas inóspitas. Há o imenso deserto do Saara; no Centro, predominam as savanas; o continente possui um emaranhado de �orestas equatoriais; o Sul, igualmente diverso, tem desertos, savanas e uma vegetação de características mediterrâneas (KI-ZERBO, 2010). Encontramos também cordilheiras enormes, onde a neve nunca descansa, tal qual a Cordilheira do Atlas, ao Norte, e o Vale do Rift, na costa Leste, quase no litoral índico, cujo maior destaque é o Kilimanjaro (montanha branca em Masai). Figura 2 - Monte Kilimanjaro. Destaque da geografia física africana em um continente de múltiplas paisagensmundo e do próprio pensamento do homem sobre seu mundo e realidade. A análise da história da África nos mostra que aquele enorme continente é bastante rico. Sua complexidade cultural merece ser estudada, sem qualquer tipo de estigma, porque isso nos ajuda a entender, inclusive, a história do Brasil. Nesta unidade, você teve a oportunidade de: CONCLUSÃO conhecer a centralidade do pensamento de intelectuais africanos a respeito da história e da historiogra�a do continente; compreender a importância da historiogra�a africana recente, com metodologias de pesquisa e interdisciplinaridade, que tornam possível o conhecimento acerca da África a partir da contribuições de africanistas e de pensadores nativos, que expõem a diversidade das culturas e das sociedades africanas; conhecer algumas discussões a respeito de importantes civilizações africanas, tais como a do Egito antigo, Núbia, Axum, Gao, Mali, Kongo, povos iorubanos e bantus; entender o impacto da diáspora africana e do discurso racista na naturalização dos problemas sociais, políticos e econômicos do continente; compreender a necessidade do conhecimento a respeito da África e de suas sociedades para a compreensão e 02/12/24, 13:15 História afro-brasileira e indígena https://student.ulife.com.br/ContentPlayer/Index?lc=0LKIugBXGo%2b3zDIe4i2wOA%3d%3d&l=3sND%2f2KdE3jxuArr81Q9Sw%3d%3d&cd=4… 41/46 refutação do racismo estrutural e seus efeitos nefastos no cotidiano de afrobrasileiros e de outros descendentes de africanos da diáspora nos países americanos e em outras sociedades. Clique para baixar conteúdo deste tema. ADAM, S.; VERCOUTTER, J. A importância da Núbia: um elo entre a África Central e o Mediterrâneo. In: MOKHTAR, G. (ed.). História geral da África – África Antiga. Brasília: Unesco, 2010. p. 192-213. ANFRAY, F. A civilização de Axum do século I ao século VII. In: MOKHTAR, G. (ed.). História geral da África – África Antiga. Brasília: Unesco, 2010. p. 375-399. CURTIN, P. D. Tendências recentes das pesquisas históricas africanas e contribuição à história em geral. In: KI-ZERBO, J. (ed.). História geral da África I: metodologia e pré-história da África. Brasília: Unesco, 2010. p. 37-58. DIOP, C. A. Origem dos antigos egípcios. In: MOKHTAR, G. (ed.). História geral da África – África Antiga. Brasília: Unesco, 2010. p. 1-36. DOCUMENTÁRIO: SOTIGUI KOUYATÉ, UM GRIOT NO BRASIL. [S. l.: s. n.], 6 ago. 2014. 1 vídeo (57 min). Publicado pelo canal SescTV. 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Em primeiro plano, há uma paisagem em um chão de vegetação rasteira que aparenta estar seca. 1.1.1 Um pouco sobre historiografia africana e aspectos gerais de sua geografia 02/12/24, 13:14 História afro-brasileira e indígena https://student.ulife.com.br/ContentPlayer/Index?lc=0LKIugBXGo%2b3zDIe4i2wOA%3d%3d&l=3sND%2f2KdE3jxuArr81Q9Sw%3d%3d&cd=4hs… 6/46 A paisagem humana também é marcada pela diversidade. Hoje, o continente possui 54 Estados-nação independentes, com 7 grandes grupos linguísticos distribuídos de forma bastante heterogênea. Há uma diversidade linguística que abrange mais de 1600 línguas faladas ao longo de todo o continente e por africanos da diáspora, localizados nas Américas. É importante lembrarmos que cada uma das diferentes sociedades nacionais africanas encontra um volume de diversidade étnica única no mundo. As civilizações africanas do passado, tanto aquelas ligadas ao processo de sedentarização às margens do Rio Nilo quanto as que se desenvolveram no “mar” do Sahel (do árabe sahil, que signi�ca “margens”), organizaram-se em terras abertas, com acesso a vastos recursos, capacidade de domesticação de grandes manadas e prática de agricultura alinhada a um modo de vida inicialmente seminômade, que foi sendo deixado de lado diante de processos de sedentarização e de comunicação com outras sociedades africanas (KI-ZERBO, 2010). Vivendo entre as possibilidades do seminomadismo e de uma sedentarização única na história da humanidade, foi possível a criação de grandes contingentes populacionais, mas sem ameaçar estruturas sociais avessas às profundas divisões de classe ou ainda à urgência de um Estado mais centralizado. Por isso, as sociedades africanas conseguiram organizar unidades de parentesco e de a�nidade alinhadas a arranjos ainda mais vastos, daí a coexistência de nações étnicas que chegam à casa dos milhões, convivendo com realidades estatais que abriram diferentes etnias. Ki-Zerbo (2010) ainda assinala que epidemias constantes, guerras intestinas, invasões estrangeiras, o comércio de escravos (acentuado com a entrada de europeus no processo), também ajudaram a desestabilizar o continente. Desse modo, não resta dúvida de que a escravização, intensi�cada do século XV até meados do século XIX, foi impactante para a derrocada econômica das sociedades multiétnicas africanas, cujos efeitos, não só na sua depopulação, são sentidos até hoje (KI-ZERBO, 2010). O cerne da pesquisa historiográ�ca é a aplicação de metodologias de trabalho com as fontes históricas. Os pilares do conhecimento são a leitura de documentos escritos, a análise dos registros arqueológicos e a pesquisa da tradição oral. O trabalho do historiador também é amparado por disciplinas a�ns, tais como a Linguística, a Antropologia Social e a Geogra�a, que permitem aprofundar a leitura e a interpretação das fontes materiais e imateriais. 1.1.2 Fontes históricas 02/12/24, 13:14 História afro-brasileira e indígena https://student.ulife.com.br/ContentPlayer/Index?lc=0LKIugBXGo%2b3zDIe4i2wOA%3d%3d&l=3sND%2f2KdE3jxuArr81Q9Sw%3d%3d&cd=4hs… 7/46 No que tange à África, quando pensamos em uma história mais quantitativa, há uma massa documental ainda não inteiramente analisada, ou mesmo inexplorada, que tem como base a África negra. São documentos disponíveis em bibliotecas e outros acervos de países como Mauritânia, Marrocos, Argélia, assim como na Europa, em bibliotecas particulares, nas Américas ou ainda nos arquivos do antigo Império Turco-Otomano (KI-ZERBO, 2010). A arqueologia, por sua vez, contribuiu de forma única para resgatar a história africana. Vestígios de objetos de ferro, cerâmica e vidro, além de outras estruturas mais monumentais, como resquícios de canais de irrigação megalíticos, comprovam ligações e antigas relações comerciais entre povos (KI- ZERBO, 2010). Finalmente, precisamos pontuar a importância das tradições orais, que reforçam toda a cosmologia e cosmogonia especí�cas da mentalidade africana, dos seus mais diferentes povos e culturas, localizados tanto ao norte como ao sul do Sahel. Você sabe a diferença entre cosmologia e cosmogonia? Não?! Então, clique nos ícones a seguir e descubra. Os guardiães dessas fontes históricas são os anciães e anciãs, verdadeiras “bibliotecas vivas” em meio ao “mar da modernidade” que pressiona as populações tradicionais africanas (KI-ZERBO, 2010). É o estudo da origem e evolução do Universo a partir de métodos cientí�cos. É o estudo do Universo a partir de doutrinas, princípios, teorias e mitologias. Cosmologia Cosmogonia 02/12/24, 13:14 História afro-brasileira e indígena https://student.ulife.com.br/ContentPlayer/Index?lc=0LKIugBXGo%2b3zDIe4i2wOA%3d%3d&l=3sND%2f2KdE3jxuArr81Q9Sw%3d%3d&cd=4hs… 8/46 Assim, o imaginário, o misticismo religioso e a fantasia se misturam aos relatos e processos. As diversas narrativas dos griots de cada etnia e de comunidades divergentes e contrárias no plano dos con�itos políticos tornam polissêmica a interpretação histórica. As modernas abordagens linguísticas e antropológicas re�etem a própria autocrítica dessas diferentes ciências humanas, que tiveram como arcabouço teórico original o socioevolucionismo à sombra do neocolonialismo. A renovação de muitas ideias foi in�uenciada pelo marxismo ou pelo estruturalismo francês, com metodologias e perspectivas que se propuseram a considerar as sociedades africanas e suas multiplicidades como “sobrecarregadas” de história – e, por isso, igualmente importantes para o progresso da humanidade. Outra corrente, baseada no estruturalismo de Claude Lévi-Strauss (1908-2009), propôs desvendar a lógica interna e os mecanismos inconscientes que governam a ação dos seres humanos em sociedade. O inconsciente universal levistraussiano apregoa a igualdade no pensamento e na ação de toda e qualquer coletividade, com uma crítica ao racismo. 1.2 História e historiografia e seu lugar nas sociedades africanas contemporâneas Os griots são �guras mundialmente reconhecidas nas sociedades tradicionais africanas. Para conhecer a importância e o papel social dos griots e de suas contrapartes femininas, as djeli, assista a uma interessante produção brasileira. Acesse (https://www.youtube.com/watch?v=sJd1te_3pjI) VOCÊ QUER VER? 02/12/24, 13:14 História afro-brasileira e indígena https://student.ulife.com.br/ContentPlayer/Index?lc=0LKIugBXGo%2b3zDIe4i2wOA%3d%3d&l=3sND%2f2KdE3jxuArr81Q9Sw%3d%3d&cd=4hs… 9/46 https://www.youtube.com/watch?v=sJd1te_3pjI https://www.youtube.com/watch?v=sJd1te_3pjI Boubou Hama (1906-1982) foi um importante poeta, �lósofo, escritor, político e historiador nigeriano cuja contribuição para a divulgação e debate historiográ�co africano é inestimável; seu trabalho como pesquisador divulgou a signi�cativa história do império do Gao e da região da África Ocidental. Em seu texto “Lugar da história na sociedade africana”, escrito em parceria com Joseph Ki-Zerbo, direciona nosso olhar para a superação dos desa�os da existência humana, como a manutenção das práticas agrárias, a farmacopeia tradicional, seu direito consuetudinário, a originalidade de suas instituições e organização social, atestados de sua vitalidade e inovação (HAMA; KI-ZERBO, 2010). Hama e Ki-Zerbo (2010) destacam que o lugar da história, na maioria das sociedades africanas, é a apreensão de um “tempo mítico” atrelado a uma visão única de si mesmas e das forças da natureza com as quais se relacionam. Daí, surge um especí�co “tempo social”, indissociável da primeira noção de temporalidade. O “tempo mítico”, fruto dos incontáveis anos de experiência coletiva, congela a história, em um sentido ocidental, sendo demarcado por uma “intemporalidade” que representa a maneira de ver e olhar a sociedade e o cosmos a partir de uma visão histórica bem particular (HAMA; KI-ZERBO, 2010). O tempo é, dessa forma, um domínio do coletivo que se entrelaça e se integra à eternidade. Os tempos míticosse re�etem no ajustamento de condutas e ações sociais. Não são apenas anedotas de tempos antigos e moralidades consideradas ultrapassadas, mas elementos simbólicos de organização do presente, e do preparo contínuo para o futuro: De uma forma ainda mais profunda, certas cosmogonias atribuem a um tempo mítico os progressos obtidos num tempo histórico, que não sendo recebido como tal por cada indivíduo, é substituído pela memória histórica do grupo. E o caso da lenda Gikuyu que explica o advento da técnica de fundição do ferro. Mogai (Deus) havia distribuído os animais entre os 02/12/24, 13:14 História afro-brasileira e indígena https://student.ulife.com.br/ContentPlayer/Index?lc=0LKIugBXGo%2b3zDIe4i2wOA%3d%3d&l=3sND%2f2KdE3jxuArr81Q9Sw%3d%3d&cd=4… 10/46 É com essa perspectiva, de abraçar uma história mais profunda em contato com a diversidade e a alteridade, que o historiador e africanista britânico John Donnelly Fage (1921-2002) demonstra que os trabalhos a respeito da história da África são tão antigos quanto a própria historiogra�a. Ele lembra que o esforço de se retomar sua história e especi�cidade, seja por meio de documentos ou narrativas tradicionais africanas, é um dos maiores eventos das ciências humanas e sociais de nossa época (FAGE, 2010). homens e as mulheres. Mas estas foram tão cruéis com seus animais que eles escaparam e tornaram‑se selvagens. Os homens então intercederam junto a Mogai em favor de suas mulheres, dizendo: “Em tua honra, nós queremos sacrificar um carneiro; mas não pretendemos fazê‑lo com uma faca de madeira, para não incorrer nos mesmos riscos que nossas mulheres”. Mogai felicitou‑os por sua sabedoria e, para dotá‑los de armas mais eficazes, ensinou‑lhes a receita da fundição do ferro. (HAMA; KI-ZERBO, 2010 p. 25) 02/12/24, 13:14 História afro-brasileira e indígena https://student.ulife.com.br/ContentPlayer/Index?lc=0LKIugBXGo%2b3zDIe4i2wOA%3d%3d&l=3sND%2f2KdE3jxuArr81Q9Sw%3d%3d&cd=4h… 11/46 Figura 3 - Chefe tradicional africano de Ho, região de Gana, em oração junto aos demais chefes e reis no festival Yam Fonte: James Dalrymple, Shutterstock, 2020. #PraCegoVer: na foto, aparecem vários chefes africanos negros, com roupas típicas, coloridas e alegres. No centro da imagem, o homem que preside o encontro segura, com a mão esquerda, um cajado com ponta dourada. Ele usa um relógio dourado no pulso esquerdo e está com a cabeça abaixada como se estivesse em oração. Fage (2010) trabalha a partir de fontes árabes e também pré-islâmicas e cria um quadro diverso, uma descrição quase etnográ�ca, dos povos que atravessavam o Saara para comercializar na região do Nilo, na atual Túnis, ou ainda os con�itos entre a expansão árabe muçulmana e a resistência dos Estados cristãos na atual Etiópia. Todavia, a fonte mais importante trabalhada por Fage é Ibn Khaldoun (1332- 1406), um “[...] legítimo pai da história africano” (FAGE, 2010, p. 3). Khaldoun, nascido em Túnis, atual Tunísia, dedicou-se a pesquisar a história da África a partir das relações entre os povos africanos, o Oriente e as demais populações do Mediterrâneo. Segundo Fage, Ibn Khaldoun retoma a ideia de que a história é um evento cíclico, o que, no contexto africano, signi�ca a�rmar que “[...] os nômades do deserto conquistam as terras aráveis dos povos sedentários e ali estabelecem vários reinos, que depois de três gerações, perdem sua vitalidade e se tornam vítimas de novas invasões” (FAGE, 2010, p. 3). 02/12/24, 13:14 História afro-brasileira e indígena https://student.ulife.com.br/ContentPlayer/Index?lc=0LKIugBXGo%2b3zDIe4i2wOA%3d%3d&l=3sND%2f2KdE3jxuArr81Q9Sw%3d%3d&cd=4… 12/46 Figura 4 - Estátua de Ibn Khaldoun na entrada da cidadela de Bejaia, na Argélia Fonte: MohamedHaddad, Shutterstock, 2020. #PraCegoVer: trata-se do busto de um senhor de olhos fechados, barba, túnica e turbante confeccionado em metal dourado. Embaixo, está escrito em relevo seu nome, Ibn Khaldoun. Atrás, a parede tem tijolos de cor vermelha. Ibn Khaldoun foi o primeiro historiador recuperado por Fage a retratar a história de grandes impérios africanos no Sahel. Ele relatou não apenas a expansão do Islã naquela região do continente, mas também um intenso trabalho de utilização de fontes orais tradicionais africanas junto aos textos árabes: 02/12/24, 13:14 História afro-brasileira e indígena https://student.ulife.com.br/ContentPlayer/Index?lc=0LKIugBXGo%2b3zDIe4i2wOA%3d%3d&l=3sND%2f2KdE3jxuArr81Q9Sw%3d%3d&cd=4… 13/46 A partir do século XV, começaram a surgir fontes escritas produzidas por europeus ou ligadas a eles devido ao seu contato com a África Ocidental e Central. Esses documentos de cronistas antigos extravasaram geogra�camente as contribuições dos árabes ao disponibilizarem registros a respeito de populações e terras até então totalmente desconhecidas dos europeus. Nos séculos seguintes, conforme se consolidava mais o comércio de escravos e a própria diáspora africana forçada, pensadores europeus compreendiam sua civilização como distinta das demais; acreditavam que a sua história, herança greco-romana, deveria ser a única a ser considerada. Esse imaginário, cada vez mais pautado por assimetrias, recusou o humanismo aos não europeus: Nenhum Estado vasto e poderoso como o Mali, nem mesmo os Estados de menor importância como os primeiros reinados haussa ou as cidades independentes da costa oriental da África, podiam manter sua identidade ou sua integridade sem uma tradição reconhecida relativa à sua fundação e ao seu desenvolvimento. Quando o Islã atravessou o Saara e se expandiu ao longo da costa oriental trazendo consigo a escrita árabe, os negros africanos passaram a utilizar textos escritos ao lado dos documentos orais de que já dispunham para conservar sua história. (FAGE, 2010 p. 4) 02/12/24, 13:14 História afro-brasileira e indígena https://student.ulife.com.br/ContentPlayer/Index?lc=0LKIugBXGo%2b3zDIe4i2wOA%3d%3d&l=3sND%2f2KdE3jxuArr81Q9Sw%3d%3d&cd=4… 14/46 O britânico Dalzel (1740-1811) também foi outro homem a julgar os africanos como selvagens, ideia que seria a raiz do pensamento raciológico e das teses racistas, principalmente ao veri�carmos que, no desenvolvimento da própria historiogra�a (notadamente, a de matriz alemã), há a preferência do trabalho com fontes escritas em detrimento de quaisquer outros recursos. As narrativas orais, as cosmologias e as cosmogonias seriam parte do campo de atuação do antropólogo, que, naquele momento, era o cientista social das “sociedades primitivas”. Esse debate, realizado entre os séculos XVIII e XIX, não pode ser separado da própria expansão da civilização europeia, do modelo vitorioso de progresso cientí�co e material que delineou, posteriormente, o desenvolvimento do próprio capitalismo e do imperialismo. No trabalho do africanista britânico Philip Dearmond Curtin (1922-2009), há um esforço para compreender a retomada da história da África diante da necessidade de as diferentes sociedades africanas projetarem um futuro distinto daquele herdado do imperialismo. Aqui, a pesquisa historiográ�ca também é vista como necessária para a readequação de políticas públicas educacionais e práticas pedagógicas que critiquem a visão eurocêntrica do mundo. Para Curtin Hegel [Georg Wilhelm Friedrich Hegel] (1770‑1831) definiu explicitamente essa posição em sua Filosofia da História, que contém afirmações como as que seguem: “A África não é um continente histórico; ela não demonstra nem mudança nem desenvolvimento”. Os povos negros “são incapazes de se desenvolver e de receber uma educação. Eles sempre foram tal como os vemos hoje. (FAGE, 2010 p. 8) 02/12/24, 13:14 História afro-brasileira e indígena https://student.ulife.com.br/ContentPlayer/Index?lc=0LKIugBXGo%2b3zDIe4i2wOA%3d%3d&l=3sND%2f2KdE3jxuArr81Q9Sw%3d%3d&cd=4… 15/46 (2010), os materiais didáticos e paradidáticos estariam atrasados em suas abordagens, ainda reproduzindo estereótipos, exotismos e o racismo hegemônico. Afastar uma história eurocêntrica e etnocêntrica deve sero caminho a ser trilhado por pesquisadores africanos desejosos de revisitar e trazer a público a riqueza humana e a inventividade social das diversas coletividades, sociedades, impérios e civilizações africanas. As povoações africanas teriam surgido pela urgência das chamadas “organizações hidráulicas” ou “civilizações hidráulicas”, hipótese proposta originalmente pelo �lósofo e sociólogo Karl August Wittfogel (1896-1988). Esse alemão, ao mesmo tempo que explica o processo de sedentarização – com a expansão da agricultura e o crescimento demográ�co –, salienta a profunda divisão e especialização do trabalho, que, sob o tacão de lideranças políticas e religiosas, resultou em organizações estatais cada vez mais centralizadas – e, na sua classi�cação, despóticas (SILVA, 2011). 1.2.1 Civilizações africanas em seu contato com a Antiguidade Oriental Edward Wadie Said (1935-2003), crítico literário e ativista político, tornou- se mundialmente famoso pelo seu engajamento em prol da causa palestina. Sua grande obra, Orientalismo: o Oriente como invenção do Ocidente, causou imensa polêmica. Nesse trabalho, Said a�rma que a visão ocidental do mundo “oriental”, mais precisamente do mundo árabe muçulmano, criou uma visão estereotipada dessa civilização que só servia aos interesses do próprio imperialismo. O texto de Said in�uencia até hoje gerações de pensadores, dispostos a revelar as armadilhas epistemológicas do pensamento hegemônico ocidental sobre outras civilizações com o pretexto de que, em nome da cristandade, da civilização ou da democracia, justi�cam-se processos violentos de expansão militar e econômica. VOCÊ O CONHECE? 02/12/24, 13:14 História afro-brasileira e indígena https://student.ulife.com.br/ContentPlayer/Index?lc=0LKIugBXGo%2b3zDIe4i2wOA%3d%3d&l=3sND%2f2KdE3jxuArr81Q9Sw%3d%3d&cd=4… 16/46 Contudo, conforme Silva (2011), muito antes do que imaginávamos, em um Saara completamente diferente daquele que nos habituamos a enxergar, houve civilizações sedentárias, que, além de caçarem em uma paisagem riquíssima, também pescavam nos antigos lagos e esboçavam uma organização social com conhecimento agrícola. Necessariamente, essa ordem não levou à criação de Estados e governos despóticos, mas criou comunidades que praticavam uma autogestão com base no parentesco e na defesa mútua. Silva (2011) também pontua que, ao contrário do que as correntes historiográ�cas mais tradicionais imaginam, o modo de vida sedentário e majoritariamente agrícola não suprimiu completamente a exigência da caça e da coleta, ações consideradas tipicamente de sociedades nômades e seminômades. Muito pelo contrário, a dieta promovida pelo modo de vida sedentário veio complementar e ser complementada pela caça e pela coleta (SILVA, 2011). Figura 5 - Pinturas rupestres pré-históricas de Tassili-N’Ajjer, Argélia Fonte: Dmitry Pichugin, Shutterstock, 2020. #PraCegoVer: trata-se de uma rocha em tons de vermelho com vários desenhos rupestres. Na pintura, aparecem caçadores com lanças e suas famílias, além de animais típicos das savanas africanas. As técnicas de plantio, especí�cas dessas civilizações do antigo Saara e, após sua completa deserti�cação, no Sahel, são bem distintas daquelas que surgiram no Crescente Fértil, havendo uma “[...] agricultura intensiva e cuidadosa, em estreitos e diminutos tratos de terra, a descer da montanha em incontáveis degraus” (SILVA, 2011, p. 38). Havia a utilização de técnicas avançadas de plantio em plataformas, o aproveitamento de terrenos inundáveis e outras 02/12/24, 13:14 História afro-brasileira e indígena https://student.ulife.com.br/ContentPlayer/Index?lc=0LKIugBXGo%2b3zDIe4i2wOA%3d%3d&l=3sND%2f2KdE3jxuArr81Q9Sw%3d%3d&cd=4… 17/46 formas de cultivo que protegiam a terra da erosão ou ajudavam quando o clima era incerto, às vezes com chuvas abundantes, mas também com grandes estiagens (SILVA, 2011). Cada região e etnia tinha seu plantio predileto. Nas savanas, por exemplo, havia o cultivo de cereais, armazenados em celeiros protegidos pelos “espíritos dos ancestrais”. Sorgo, milho, quiabo, banana, inhame, arroz e, com o aumento do contato comercial com as Américas, já na Idade Moderna, a produção de novos gêneros, como pimentas, milho, mandioca e o ananás. A partir das colônias árabes e persas do litoral oriental africano, sob o jugo do Oceano Índico, houve a introdução do cultivo de limões, berinjela, cana-de-açúcar, cebola e manga (SILVA, 2011). Durante muito tempo, questionou-se a originalidade das civilizações africanas e atribui-se ao Antigo Egito uma origem e desenvolvimento completamente alheios às demais formas civilizatórias do continente. Pensava-se que essa civilização seria mais aparentada com as cidades-Estado do vale dos rios Tigre e Eufrates, ou mesmo com o complexo semítico do seu entorno e dos oásis férteis que vão da periferia do Sinai, passando pelo rio Jordão até o norte do Golfo Pérsico. As pesquisas historiográ�cas e arqueológicas demonstraram justamente o contrário: um conteúdo fundamentalmente africano que veio a se colorir com contribuições do restante do Crescente Fértil e dos povos do Mediterrâneo. Nesse sentido, é importante frisarmos o papel de síntese africana da antiga civilização egípcia e expandir nossa imaginação historiográ�ca e sociológica para muito além da primeira catarata do Nilo, anexando terras que hoje se aproximam da moderna Cartum, do Sudão e das adjacências do Mar Vermelho. Diferentemente do que muitos ainda pensam, a expansão egípcia na região da Núbia, como eram chamadas essas terras na Antiguidade, não foi um ato de conquista unilateral, mas sim de interpenetração cultural, com trocas constantes durante séculos. Isso valia para a sua relação com o sobrenatural, sua religiosidade, com relação aos ritos fúnebres e às técnicas funerárias, mas também no que compete à agricultura e à pecuária: 02/12/24, 13:14 História afro-brasileira e indígena https://student.ulife.com.br/ContentPlayer/Index?lc=0LKIugBXGo%2b3zDIe4i2wOA%3d%3d&l=3sND%2f2KdE3jxuArr81Q9Sw%3d%3d&cd=4… 18/46 Silva (2011) apresenta uma hipótese bastante interessante com relação à religiosidade de matriz africana dos antigos egípcios ao associar a �gura dos chefes sagrados africanos do Sahel à natureza implacável, de poder e de soberania, atribuída ao faraó do Egito, que era, de fato, um líder sagrado: Em troca daqueles bens e de artigos de luxo [...], os núbios forneceriam aos egípcios [...]. Esse comércio era possivelmente conduzido pela gente de Assuã [...]. Talvez procurassem manter em suas mãos o controle do escambo com as populações meridionais e criassem empecilhos ao trânsito dos egípcios, aos quais interessava o livre acesso às fontes de matérias- primas. [...] Um desses choques ficou registrado numa placa de arenito, hoje exposta no Museu Nacional do Sudão, em Cartum [...]. Nela está gravado o nome do faraó Zer (ou Djer), o terceiro da Primeira Dinastia, e veem-se um barco egípcio, com o que talvez fosse um chefe núbio amarrado à proa, e vários cadáveres nas águas do rio. Num canto, o hieróglifo tradicional para a Baixa Núbia. (SILVA, 2011, p. 102-103) 02/12/24, 13:14 História afro-brasileira e indígena https://student.ulife.com.br/ContentPlayer/Index?lc=0LKIugBXGo%2b3zDIe4i2wOA%3d%3d&l=3sND%2f2KdE3jxuArr81Q9Sw%3d%3d&cd=4… 19/46 Silva conclui que: É de crer-se que as comunidades [...] dispusessem de chefes. Seria cada um deles, talvez, mais do que simples cabeça de linhagem, do que líder de uma família extensa. Talvez fosse semelhante a um senhor da chuva, das tribos mais ao sul, capaz de domar os elementos naturais [...] e de propiciar a fartura. [...] um ser em que o deus da natureza se encarnava. Por isso, controlava as chuvas, garantia a bondade das águas, assegurava a fertilidade do solo, do gado e dos homens. De tal modo estaria associada a sua vida à da terra, que a falta de vigor, a enfermidade ou a morte por doença trariam consigo a seca, a inundação ou as pragas. Porque a divindade se finaria, se falecesse inesperadamenteo corpo que tornara seu, não se deixava que o chefe se debilitasse ou envelhecesse, e lhe era dada morte ritual após algum tempo de mando. Assim o deus poderia transferir-se para um novo corpo vigoroso. (SILVA, 2011, p. 103) 02/12/24, 13:14 História afro-brasileira e indígena https://student.ulife.com.br/ContentPlayer/Index?lc=0LKIugBXGo%2b3zDIe4i2wOA%3d%3d&l=3sND%2f2KdE3jxuArr81Q9Sw%3d%3d&cd=4… 20/46 Assim, havia também um imenso complexo cultural que abrangia territórios imensos e um continuum antropológico em que se veri�cava a raiz africana das crenças mais fundamentais do antigo Egito e de povos onde hoje se localiza a faixa desértica do Saara e o próprio Sahel. Diop (2010) ainda reforça que uma parte signi�cativa, senão a totalidade da população do antigo Egito, da era pré-dinástica até o período helenístico, era composta principalmente por negros, e não apenas na base da pirâmide social (como muitos, de forma preconceituosa e até racista, imaginam), mas também ocupando papéis sociais signi�cativos em algumas dinastias: A ideia do líder como senhor da natureza está também nas raízes da concepção egípcia do faraó. Este era um rei divino. Era a encarnação de Hórus, um deus celeste, o primeiro soberano do baixo Egito, e de Set, o deus que fora o primeiro monarca do Alto Egito. Era filho de Rá, o deus do Sol. E, morto, identificava-se com Osíris. Era o eixo do mundo. Ninguém estranharia, portanto, que tivesse o poder de regular as cheias do Nilo, ou que, ao lavrar ritualmente os campos, lhes renovasse a uberdade e favorecesse as colheitas. (SILVA, 2011, p. 103) 02/12/24, 13:14 História afro-brasileira e indígena https://student.ulife.com.br/ContentPlayer/Index?lc=0LKIugBXGo%2b3zDIe4i2wOA%3d%3d&l=3sND%2f2KdE3jxuArr81Q9Sw%3d%3d&cd=4… 21/46 [...] Embora a melanina se localize principalmente na pele, os melanocitos que penetraram a derme no nível da epiderme, mesmo onde esta última tenha sido praticamente destruída pelos materiais de embalsamamento, indicam um nível de melanina inexistente nas ‘raças’ de pele branca. As amostras que eu mesmo analisei foram colhidas no laboratório de antropologia física no Museu do Homem, em Paris, das múmias provenientes das escavações de Marietta, no Egito. O mesmo método e perfeitamente utilizável para as múmias reais de Tutmes III, Seti I e Ramsés II, do Museu do Cairo, que estão em excelente estado de conservação. [...] Elas podem ser estudadas a luz natural ou sob luz ultravioleta, que torna os grãos de melanina fluorescentes. De qualquer forma, queremos simplesmente afirmar que a avaliação do nível de melanina através de exames de microscópio e um método de laboratório que nos permite classificar os antigos egípcios inquestionavelmente entre as raças negras. (DIOP, 2010 p. 11) 02/12/24, 13:14 História afro-brasileira e indígena https://student.ulife.com.br/ContentPlayer/Index?lc=0LKIugBXGo%2b3zDIe4i2wOA%3d%3d&l=3sND%2f2KdE3jxuArr81Q9Sw%3d%3d&cd=4… 22/46 Intelectuais africanos, como o egípcio Abd El Hamid Zayed, assinalam antigos contatos dessa civilização com povos do atual Congo e do Gabão, onde foi encontrada uma estatueta do deus Osíris datada do século VII a.C., estátuas egípcias do governo de Tutmés III, ao sul do rio Zambeze (c. de 1490-1468 a.C.) e indícios do contato do Egito cristão, sob domínio de Constantinopla com povos da região onde hoje localiza-se a moderna Gana (ZAYED; DEVISS, 2010). Os principais rivais africanos do Antigo Egito eram povos da atual Líbia, no Oeste, e outros povos que viviam às margens do Nilo, o que não impediu que dinastias de origem líbia ou núbia também viessem a governar posteriormente o Antigo Egito (ZAYED; DEVISS, 2010). Figura 6 - Estatueta da esfinge de Taharq do antigo reino núbio do Kush (Kerma) Fonte: N. Rotteveel, Shutterstock, 2020. 02/12/24, 13:14 História afro-brasileira e indígena https://student.ulife.com.br/ContentPlayer/Index?lc=0LKIugBXGo%2b3zDIe4i2wOA%3d%3d&l=3sND%2f2KdE3jxuArr81Q9Sw%3d%3d&cd=4… 23/46 #PraCegoVer: trata-se de uma es�nge de pedra de um rosto africano com uma espécie de ornamento que vai do topo de sua cabeça até as laterais do rosto. No que concerne à civilização núbia, é importante lembrar que ela é tão antiga quanto a egípcia. Referências arqueológicas antiquíssimas �zeram com alguns estudiosos acreditassem, erroneamente, que os artefatos fossem vestígios materiais de alguma colônia egípcia localizada mais ao Sul (SILVA, 2011). Esse engano, segundo pensadores africanos e africanistas, acontece porque muitos cientistas e o público ocidental não acreditam que existisse uma so�sticada civilização africana onde hoje está localizado o moderno Sudão. Objetos cerâmicos, câmeras funerárias, centenas de templos e de pirâmides, estelas comemorativas e centenas de outros artefatos demonstram justamente o contrário. Figura 7 - Complexo de pirâmides de Meroë, do atual Sudão Fonte: zampe238, Shutterstock, 2020. #PraCegoVer: em uma região desértica, com uma grande área coberta por areia alaranjada, há um completo de pirâmides. No fundo, aparecem algumas montanhas. Com o fortalecimento do Norte e sua crescente centralização política, os egípcios passaram a ter um maior protagonismo, seja no comércio ou na guerra contra os núbios ao Sul, forçando-os a abandonar importantes localidades às margens do Nilo e se refugiar nas savanas no entorno. Todavia, os núbios voltam a aparecer com altivez nos registros egípcios com a sua derrocada frente aos 02/12/24, 13:14 História afro-brasileira e indígena https://student.ulife.com.br/ContentPlayer/Index?lc=0LKIugBXGo%2b3zDIe4i2wOA%3d%3d&l=3sND%2f2KdE3jxuArr81Q9Sw%3d%3d&cd=4… 24/46 hicsos. Há registros de que deram suporte a dinastias egípcias no exílio e de que os ajudaram, gradativamente, a retomar o país das mãos desses guerreiros vindos da Anatólia e também de grandes con�itos com os líbios do Oeste. Com o �m do domínio hicso no Egito, há uma renovação do poder núbio em toda a região, da foz do Nilo até a sexta catarata, e o estabelecimento de uma dinastia de origem núbia no poder. São os chamados “faraós negros” (SILVA, 2011; ADAM, 2010). Muitos especialistas também chamam os Estados estabelecidos nessa região de Império do Kush ou, ainda, de “dinastia etíope”, formada pelos importantes Estados de Napata e, posteriormente, de Méroe (LECLANT, 2010). Outro fato importantíssimo associado ao domínio núbio sob todo o Egito é o confronto desse império africano contra a principal força militar do planeta, o império assírio, sob o governo do faraó Taharqa. Leclant (2010) utiliza-se da várias fontes materiais, iconográ�cas e até da Bíblia para descrever o terror dos exércitos egípcios e núbios sobre os assírios. Assaradão (681-669 a.C.) foi o monarca assírio derrotado por essa coligação. Seu sucessor, Assurpanibal, teria ocupado e saqueado uma das principais cidades egípcias, Tebas, no ano de 663 a.C. Com a morte desse soberano “etíope”, assume seu sobrinho, Tanutamon, o último faraó coroado em Napata e último representante do domínio núbio sobre o Egito, perdido posteriormente para os assírios (LECLANT, 2010). A partir do comando assírio, houve um momento de decadência, com novas guerras civis e um novo controle estrangeiro na foz do Rio Nilo e no Sul. Persas, gregos macedônios, romanos e o poder crescente de Constantinopla terminaram por abreviar a autonomia política de milênios da antiga civilização egípcia, que passou a ser controlada politicamente por povos do Mediterrâneo e, depois, pela Igreja cristã. Nos séculos VII e VIII, há a chegada dos árabes muçulmanos e a conversão dos egípcios ao Islã. Hoje, o Egito moderno e uma parte signi�cativa do Sudão, que abrigou as importantes civilizações núbias de Napata e de Méroe, são majoritariamente muçulmanos (SILVA, 2011). Agora, clique nos ícones para conhecer outras duas importantes civilizações africanas. Nok 1 Formada pelo grupo de populações do Sahel, que inclui uma faixa da atual Gana até as vizinhanças do Sudão do Sul, com populações egressas do Saara,surgiu em 2000 a.C. O 02/12/24, 13:14 História afro-brasileira e indígena https://student.ulife.com.br/ContentPlayer/Index?lc=0LKIugBXGo%2b3zDIe4i2wOA%3d%3d&l=3sND%2f2KdE3jxuArr81Q9Sw%3d%3d&cd=4… 25/46 centro �ca hoje entre os países do Níger e da Nigéria. A cultura foi importantíssima para o estabelecimento e renovação da agricultura nas longas e férteis terras da região, mas também para a expansão da metalurgia pelo continente e para a produção de esculturas em madeira e terracota (SILVA, 2011). Axum 2 Foi uma civilização que teria operado uma amálgama bastante original do mundo árabe com o africano, precisamente o sul da Península Arábica, com contribuições do reino núbio de Meroé e do Chifre da África. Localizada nos planaltos da atual Etiópia e no litoral da Eritéria, participou de uma intensa miscigenação étnica que envolveu africanos e árabes. A região era atraente devido ao grande aproveitamento de recursos naturais e, também, pela posição privilegiada ao comércio, porque ligava, pelo Mar Vermelho, o Antigo Egito e a Núbia ao Golfo Pérsico e o subcontinente indiano. Essas características tornaram essa região um espaço privilegiado para comerciantes e nativos e o primeiro Estado africano a cunhar sua própria moeda (SILVA, 2011). Muitos especialistas acreditam que nessa região haveria o antiquíssimo reino do Punt, muito referenciado em fontes egípcias. 02/12/24, 13:14 História afro-brasileira e indígena https://student.ulife.com.br/ContentPlayer/Index?lc=0LKIugBXGo%2b3zDIe4i2wOA%3d%3d&l=3sND%2f2KdE3jxuArr81Q9Sw%3d%3d&cd=4… 26/46 Por volta do século 1 d.C., há uma progressiva centralização política. Com isso, a região de Axum, o Egito e a Núbia passam por um processo de cristianização que atraiu comerciantes e viajantes de regiões como Palestina, Síria e Anatólias romanas. Figura 8 - Típico obelisco de Axum que relembra os grandes reis do passado. Essa e outras 125 estelas ficam localizadas no Parque das Estelas, na atual Etiópia Fonte: Almo2, Shutterstock, 2020. #PraCegoVer: na imagem, há um grande obelisco de pedra. É um ornamento retangular com vários desenhos entalhados que parece estar partido no meio sobre um muro de pedras. Atrás, há várias árvores. Segundo Anfray (2010), a maior parte dos axumitas era camponesa e criadora de rebanhos, mas também se notabilizava pelos feitos militares, construções e irrigação, com técnicas que possibilitavam o plantio no planalto etíope. Inicialmente descentralizado, Axum enfrentou uma série de con�itos internos até a formação de um Estado unido sob um só monarca. Esse processo progressivo de centralização política criou uma civilização belicosa que se espalhou, ocupando a antiga Méroe e o sul da Península da Arábia. Foi a conformação de um império que restabeleceria o comércio entre o Mar Mediterrâneo e o Oceano Índico (SILVA, 2011). Os reinos vassalos dentro do império axumita forneciam homens para o exército e guardavam as fronteiras. É dessa época que surgem registros acerca dos líderes das províncias e do título do imperador axumita: negus (ANFRAY, 2010). Também há registros de uma aliança formal entre Constantinopla, sob o governo do imperador Justiniano, e Axum (KOBISHANOV, 2010). 02/12/24, 13:14 História afro-brasileira e indígena https://student.ulife.com.br/ContentPlayer/Index?lc=0LKIugBXGo%2b3zDIe4i2wOA%3d%3d&l=3sND%2f2KdE3jxuArr81Q9Sw%3d%3d&cd=4… 27/46 A expansão do Islã no norte do continente africano, com consequente supressão do cristianismo, veio con�rmar a signi�cativa contribuição desse continente. A velocidade da conquista árabe e da “islamização” dos povos foi tamanha que, muitas vezes, é comparada a um verdadeiro tsunami que varreu, do litoral norte até os limites do Sahel, os vestígios de antigas civilizações, com o estabelecimento de novos marcos étnicos e relações com o restante do universo africano. Também não podemos nos esquecer do processo semelhante, mas não com tamanha energia, que aconteceu no litoral oriental do continente, às margens do Oceano Índico. Lá, também houve uma signi�cativa expansão islâmica, que foi do chifre da África até a ilha de Zanzibar, na região da moderna Tanzânia (EL FASI, 2010). Houve o estabelecimento de impérios islâmicos na costa noroeste do Oceano Atlântico e no norte africano, os quais entraram em confronto direto com a cristandade medieval. É desse período a expansão militar e econômica da civilização islâmica e o domínio de regiões para além da África, como o sul da Itália, as ilhas da Sicília e da Sardenha e a Península Ibérica, na qual a presença muçulmana é sentida até hoje (EL FASI, 2010). Os principais Estados guerreiros desse período de renovação africana pela ação do Islã foram os fatímidas, no atual Egito, rivais de outros herdeiros do califado islâmico original, que se deparou com as invasões dos mongóis, turcos e dos cruzados europeus, e os almorávidas, que surgiram na atual Mauritânia e dominaram o noroeste africano e a Ibéria muçulmana. Mais tarde, apareceram os almóadas, responsáveis pela uni�cação do Magreb ou “mundo ocidental muçulmano”, com novas investidas na Península Ibérica (EL FASI, 2010; NIANE, 2010). Esses Estados afromuçulmanos também estabeleceram importantes rotas de comércio ao Sul, por meio da ação de tuaregues e beduínos do Saara. Essa dinâmica colocou em contato regiões bastante diversas, como o Mar Mediterrâneo, o Oceano Atlântico, o Mar Vermelho, o Golfo Pérsico, o Oceano Índico e o subcontinente indiano com a África central e a equatorial. Também devemos lembrar que o domínio muçulmano de parte signi�cativa do continente africano possibilitou a expansão de rotas do comércio de escravos, tornando populações africanas reféns da rapina de Estados africanos aliados aos interesses econômicos centrados no Golfo Pérsico, no Cairo ou, ainda, em Damasco. Entre os séculos VII e XII, surgiram, no Sahel, e em profundo contato e escambo cultural com esse mundo muçulmano, importantes Estados africanos, como Gana, Ga (fundado por songhais) e o Império do Mali, um aglomerado 1.2.2 Os importantes impérios do Mali e o reino de Gao e seu contato com o mundo muçulmano e além 02/12/24, 13:14 História afro-brasileira e indígena https://student.ulife.com.br/ContentPlayer/Index?lc=0LKIugBXGo%2b3zDIe4i2wOA%3d%3d&l=3sND%2f2KdE3jxuArr81Q9Sw%3d%3d&cd=4… 28/46 multiétnico liderado pelo povo mandingo ou manden, erguido pela conjunção da força das armas e no carisma de seus governantes militares. Eles controlavam importantes rotas comerciais que ligavam a África Ocidental ao Mediterrâneo e o Cairo, tendo Meca e Medina como destinos certos das riquezas extraídas e da peregrinação de parte de seus povos (SILVA, 2011). Gao, por exemplo, dominou vastas regiões que vão hoje da Guiné ao norte da Nigéria, adentrando também em localidades ao Norte, no Mali e na Mauritânia contemporâneas. Foi pelo Islã que o povo songhai, fundador de Gao, tornou-se conhecido para além do Saara e na Península Ibérica. No califado de Córdoba, o próprio califa enviava o Alcorão para os governantes e incentivava o intercâmbio comercial e, ao mesmo tempo, religioso. O ouro africano inundava a Andaluzia muçulmana com seus comerciantes em troca da suserania do califa ibérico (SILVA, 2011). Figura 9 - Atual Mali, região em que se desenvolveram os poderosos reinos de Gao e o império do Mali Fonte: hyotographics, Shutterstock, 2020. #PraCegoVer: trata-se do desenho de um mapa da África Ocidental com destaque para o Mali contemporâneo, onde aparece sua bandeira com retângulos verticais nas cores verde, amarelo e vermelho. Do lado esquerdo, há uma grande região litorânea – o Oceano Atlântico – pintada de azul. No mapa, linhas de cor laranja dividem os países. Algumas regiões desérticas estão pintadas com tons de laranja, como o Saara, à direita de Mali. Os queitas – ou keitas – tornaram-se os líderes do Mali e foram eternizados por griots. Os governantes – ou mansas – ora adoravam o Islã, ora recusavam suas ideias, em uma hábil política que visava à expansão dos domínios doMali em 02/12/24, 13:14 História afro-brasileira e indígena https://student.ulife.com.br/ContentPlayer/Index?lc=0LKIugBXGo%2b3zDIe4i2wOA%3d%3d&l=3sND%2f2KdE3jxuArr81Q9Sw%3d%3d&cd=4… 29/46 seus con�itos contra pequenos reinos ou rivais. Nesse processo de crescimento, e por sua habilidade militar, o império do Mali, subjugado posteriormente por Gao, tornou-se, estranhamente, muito mais conhecido que este, abundando nas lendas locais e nos registros de comerciantes árabes e outros que visitavam a região. Figura 10 - Vista da mesquita de Djinguereber, em Timbuktu, Mali. A antiga cidade de Timbuktu, patrimônio histórico e arquitetônico da humanidade, é berço das mais antigas e importantes mesquitas da região Fonte: DemarK, Shutterstock, 2020. #PraCegoVer: em uma região com calçamento de pedras marrons, há uma grande edi�cação construída com argila. Do lado esquerdo e no meio, há pilares pontiagudos; no alto das paredes, há estruturas metálicas posicionadas horizontalmente. Gao e Mali digladiaram-se e se enfraqueceram nos diversos con�itos que travaram. Depois desses embates, foram dominados pela expansão muçulmana dos Almorávidas, tornando-se tributários de Estados muçulmanos localizados no Atlântico ou mais ao Norte, no atual Marrocos e Argélia. 1.3 O colonialismo e o neocolonialismo ou imperialismo 02/12/24, 13:15 História afro-brasileira e indígena https://student.ulife.com.br/ContentPlayer/Index?lc=0LKIugBXGo%2b3zDIe4i2wOA%3d%3d&l=3sND%2f2KdE3jxuArr81Q9Sw%3d%3d&cd=4… 30/46 Entre os séculos XIII e XIV, é gestado um projeto, até então único, de Estado europeu interessado na expansão marítima e comercial. Portugal, �nanciado por sua burguesia, foi ao mar objetivando converter e negociar com os in�éis que encontrasse, com um espírito cruzadista mesclado ao desejo de abrir novas rotas comerciais (RIBEIRO, 1995). Inicialmente, devido a questões tecnológicas e necessidades comerciais, as viagens portuguesas �caram presas à navegação próxima ao litoral africano. Os contatos eram esporádicos e, quando mais bem-sucedidos, eram feitas feitorias (entrepostos comerciais) com o intuito de manter contatos mais efetivos com os povos, sociedades e os grandes Estados africanos do Ocidente. Um dos primeiros locais de contato mais ativo entre portugueses e africanos foi na região da Guiné “[...] que vai da foz do rio Gâmbia ao delta do Níger” (PERSON, 2010, p. 130). Naquele momento, muitos dos navegadores portugueses desconheciam as terras que percorriam. Por isso, chamavam todos os nativos de “etíopes” ou se referiam à região como “país dos negros”. Além disso, diziam que o litoral ocidental da África Atlântica era o Golfo da Guiné. O objetivo português era obter, além de especiarias, o famoso ouro africano, produzido em regiões localizadas nos atuais Níger e Nigéria e em minas que �cavam no atual território da República Centro-Africana. Na região litorânea, também havia o contato com outros produtos, tais como ouro de aluvião, mar�m, especiarias, e o acesso ao trá�co de escravos (PERSON, 2010). Figura 11 - Vista exterior do Forte de São Jorge da Mina (Gana), fundado por portugueses em 1482. A fortificação retrata o interesse europeu no ouro e tráfico de escravos africanos Fonte: Homo Cosmicos, Shutterstock, 2020. 02/12/24, 13:15 História afro-brasileira e indígena https://student.ulife.com.br/ContentPlayer/Index?lc=0LKIugBXGo%2b3zDIe4i2wOA%3d%3d&l=3sND%2f2KdE3jxuArr81Q9Sw%3d%3d&cd=4… 31/46 #PraCegoVer: uma foto tirada no meio do mar mostra, no fundo, uma grande construção de paredes brancas, várias janelas pequenas e telhado de cor avermelhada. Dos lados esquerdo e direito, há várias palmeiras; na frente, o que parece ser uma faixa de pedras de cor cinza. O céu está azul e com muitas nuvens brancas. É inegável o peso que portugueses – e, depois deles, outros europeus – deram ao comércio de escravos. Eles �nanciavam parte signi�cativa de suas transações com che�as africanas locais, o que incentivava e promovia, direta ou indiretamente, con�itos entre os povos. No sistema escravagista ocidental, a utilização do trabalho escravo africano em larga escala se deu, inicialmente, nas ilhas atlânticas de Portugal e da Espanha. Alguns até foram embarcados para o continente europeu, onde trabalharam em Lisboa ou em Sevilha; outros africanos cativos, em um �uxo cada vez maior, vieram alimentar a construção do “Novo Mundo” e sua inclusão no espaço econômico que estava se desenhando nos primórdios da internacionalização da economia (RIBEIRO, 1995; INIKORI, 2010). Os primeiros povos que foram incorporados na lógica perversa do comércio de gêneros e de seres humanos supliciados foram os africanos ocidentais. Havia con�itos entre os nativos, que viviam em ilhas ao longo do litoral de regiões que hoje pertencem a Guiné, Gâmbia, Guiné Equatorial, Senegal e Serra Leoa. No interior, havia a presença de povos agricultores, como os ancestrais dos atuais tenda, conforme Person (2010). Registros náuticos portugueses, crônicas e outros documentos atestam que os primeiros europeus em contato com diversos povos africanos se detiveram na análise de seus costumes e religiosidade (PERSON, 2010). Além disso, as fontes mostram que as sociedades eram bem desenvolvidas economicamente: viviam da rizicultura no litoral ou mesmo da pesca; no interior, havia a prática da agricultura, da pecuária, do artesanato e da confecção e trabalho com metais, como o ouro ou o ferro, sendo incrivelmente hábeis (SILVA, 2011). No entanto, é importante lembrar que a chegada dos europeus e o incentivo à captura de homens e sua transformação em escravos seriam, nos séculos seguintes, elementos para a desestabilização das regiões onde �zeram feitorias. A escravização impactou regiões vizinhas, mas também atendeu a propósitos de Estados africanos mais centralizados, ansiosos por estabelecer e alargar contatos comerciais e adquirir produtos que os portugueses traziam de além- mar e de outros pontos da costa africana. Africanos que submetiam compatriotas ao destino da escravidão o faziam porque não enxergavam esses sujeitos, de outros grupos étnicos ou nações, como seus semelhantes, mas sim como cativos de guerra cujo destino estaria nas mãos dos seus próprios deuses (SILVA, 2011). Muitos embates foram travados em nome do comércio em expansão, especialmente por causa do 02/12/24, 13:15 História afro-brasileira e indígena https://student.ulife.com.br/ContentPlayer/Index?lc=0LKIugBXGo%2b3zDIe4i2wOA%3d%3d&l=3sND%2f2KdE3jxuArr81Q9Sw%3d%3d&cd=4… 32/46 crescente trá�co de escravos, atendendo a interesses africanos internos e de europeus. Com o estabelecimento vigoroso da monocultura agroexportadora nas terras que viriam a se tornar o Brasil, houve o gradativo aumento do número de cativos enviados às Américas (PERSON, 2010; INIKORI, 2010): Esse tráfico atendeu principalmente a região em torno do Mediterrâneo (inclusive a Europa Meridional), o Oriente Médio e algumas regiões da Ásia. Tal comércio durou vários séculos, haja vista que somente se extinguiu no começo do século XX. Todavia, as “quantidades” anuais assim exportadas nunca foram relevantes. Por outro lado, a partir do momento em que o Novo Mundo, após a viagem de Cristóvão Colombo, em 1492, abriu‑se a exploração europeia, um tráfico de escravos africanos, envolvendo números muito maiores, se superpôs ao antigo tráfico: trata‑se do tráfico transatlântico de escravos, praticado do século XVI até meados do século XIX. Os dois tráficos perpetuaram‑se simultaneamente durante quase quatro séculos e arrancaram milhões de africanos de sua 02/12/24, 13:15 História afro-brasileira e indígena https://student.ulife.com.br/ContentPlayer/Index?lc=0LKIugBXGo%2b3zDIe4i2wOA%3d%3d&l=3sND%2f2KdE3jxuArr81Q9Sw%3d%3d&cd=4… 33/46 A expansão comercial de Portugal, seguido pelas demais potências europeias nas décadas e séculos seguintes, cruzou o equador africano e se deparou com uma miríade de povos; a maioria dessas populações ágrafas constituía diferentes níveis organizacionais, com registrosda existência de reinos coexistindo com extensas nações que não possuíam a organização estatal (SILVA, 2011). Antes disso, porém, houve um contato signi�cativo com povos do atual Benim e sul da Nigéria. Os mais famosos são os iorubanos, que deixariam como legado à cultura brasileira parte signi�cativa de seu arsenal mítico- religioso na �gura dos futuros candomblés. A região do Benim, com diferentes reinos, tinha uma extensa rede de localidades e vilarejos ligados entre si e submetidos a um poder central altamente urbanizado (SILVA, 2011). O principal local, de acordo com achados arqueológicos e o registro tradicional, era Ilê Ifé, “terra de onde vem a luz”, a atual Ifé, na Nigéria, importante centro cerimonial, religioso e comercial que prosperou entre os séculos XII e XIV (SILVA, 2011). Os governantes do antigo Benim eram chamados de obás. Seu poder era decorrente de sua origem estrangeira, divina ou próxima das divindades. Por isso, o soberano era dotado de poderes sobrenaturais que o distinguiam do restante dos chefes e das pessoas comuns do povo. Eles também exerciam o poder de sacerdote, o ogiefa, e eram os primeiros entre aqueles que acessavam o sagrado (SILVA, 2011). Após inúmeros con�itos internos e externos, há um processo de fortalecimento da monarquia em detrimento dos poderes locais e das che�as tradicionais e de seus sacerdotes. Benim então passa a ser conhecida como Edo, uma espécie de refundação sob o governo do poderoso príncipe Eurare, grande interlocutor dos negócios com os portugueses no início do século XVI, que reconheceram sua capital como a maior de todo o “Golfo da Guiné”, isto é, de toda a África Ocidental (SILVA, 2011). Entre os demais reinos iorubanos, muitos resistiram à expansão do Benim, enquanto outros lhes prestavam contínuas homenagens. pátria. Até hoje, o papel desse comércio no desenrolar da história mundial ainda não foi devidamente evidenciado. (INIKORI, 2010, p. 91) 02/12/24, 13:15 História afro-brasileira e indígena https://student.ulife.com.br/ContentPlayer/Index?lc=0LKIugBXGo%2b3zDIe4i2wOA%3d%3d&l=3sND%2f2KdE3jxuArr81Q9Sw%3d%3d&cd=4… 34/46 O historiador e antropólogo Jan Vansina (1929-2017) assinala que há poucos registros escritos autóctones na região do Congo, outra importantíssima localidade africana. Por isso, é importante a utilização de fontes orais e registros estrangeiros que passaram pela região para a reconstituição de processos históricos mais longos (VANSINA, 2010). As mais utilizadas são as tradições orais do Kongo, recolhidas por cronistas e viajantes nos séculos XVI e XVII, que compreendem registros de dois ou três séculos de história (VANSINA, 2010). Por meio dessas notas orais, recolhidas por cronistas, aventureiros e mercenários a serviço, há a importante discussão das migrações dos bantus. Originalmente, esses povos habitavam a região que hoje �ca entre os Camarões e a República Centro-Africana e, por diversos motivos (con�itos militares, guerras de apressamento de escravos e aumento populacional, por exemplo), começaram a se aventurar no centro e no sul do continente, ora amalgamando- se com populações locais ora expulsando-as para outras regiões, tais como a densa �oresta equatorial no centro do continente ou ainda nos limites do deserto do Kalahari, atual Namíbia (SILVA, 2011). Nas tradições orais do Kongo, há importantes registros que tratam da migração de centenas de milhares de bantus e suas tradições de pastoreio e agrícola (VANSINA, 2010). Vansina recorre a dados etnográ�cos, linguísticos e à datação por carbono para traçar um per�l menos qualitativo dessa grande migração, articulando a presença bantu a inovações no plano do artesanato, agricultura e nas modi�cações que foram operando entre populações que se encontravam em um estágio “pré- agrícola”, sendo os próprios bantus considerados como os povos que ou introduziram a agricultura na enorme região do centro e sul do continente africano ou ali a criaram (SILVA, 2011; VANSINA, 2010). Quando os europeus visitaram a extensa costa que vai do atual Gabão até o limite norte da Namíbia, depararam-se com sociedades pluriétnicas, nas quais as maiores potências eram governadas por reinos que se sobrepunham a sociedades cuja organização social não permitia o surgimento do Estado. Essas associações dependiam principalmente da agricultura e da pecuária, da pesca e do importante comércio com a região da foz do rio Kongo a oeste e, no leste, junto às colônias árabes e persas de Zanzibar (SILVA, 2011). No centro, na densa �oresta equatorial, havia vários povos nos quais a che�a política era auxiliada por senhores da guerra e conselhos de anciães, que de�niam os rumos das ações coletivas e do relacionamento com os povos das savanas (VANSINA, 2010). Mais ao sul, onde hoje está localizado o Estado africano de Angola, sob o domínio dos povos Ovimbundu, houve a formação de diferentes Estados guerreiros, os kilombos, associados como em uma confederação, tanto para a defesa mútua como para a garantia de expansão e sujeição de seus rivais. Sua organização se dava, em pleno século XIX, em 12 estados nos quais chefes tradicionais estabeleciam sua corte e capital (VANSINA, 2010). 02/12/24, 13:15 História afro-brasileira e indígena https://student.ulife.com.br/ContentPlayer/Index?lc=0LKIugBXGo%2b3zDIe4i2wOA%3d%3d&l=3sND%2f2KdE3jxuArr81Q9Sw%3d%3d&cd=4… 35/46 O mais documentado desses Estados é o antigo reino do Kongo. Ele era dirigido por um monarca, o mani, que residia na localidade de MBanza, chamada por portugueses de São Salvador. Esse monarca era assessorado por um conjunto de anciães, funcionários do palácio e parentes próximos, indicando governadores locais para as diferentes “províncias” do Estado. Aos governadores, além das defesas das fronteiras, cabia o recolhimento de tributo, enviado ao rei e sua corte. Tais tributos eram uma mistura de moedas locais: o nzimbu (conchas), quadrados de rá�a, víveres, colheitas e peles de animais (VANSINA, 2010). Assim, mesmo nos primórdios do contato entre portugueses e africanos – e, depois, de outros europeus com a África –, encontramos as sementes do trá�co negreiro. Para aprofundar seu olhar a respeito da história da África e da atual Angola e a resistência diante do avanço do colonialismo e do escravismo português, pesquise a respeito da rainha Nzinga Mbandi (1582-1663). Vale a pena se aprofundar nesse assunto! VOCÊ SABIA? 02/12/24, 13:15 História afro-brasileira e indígena https://student.ulife.com.br/ContentPlayer/Index?lc=0LKIugBXGo%2b3zDIe4i2wOA%3d%3d&l=3sND%2f2KdE3jxuArr81Q9Sw%3d%3d&cd=4… 36/46 Figura 12 - Ruínas do Grande Zimbabwe, patrimônio histórico e arquitetônico da humanidade pela Unesco. Esse complexo de muralhas foi construído entre os séculos XI e XIII pelos ancestrais dos xona, povos de língua bantu, que estabeleceram na região um grande império Fonte: evenfh, Shutterstock, 2020. #PraCegoVer: a foto, tirada do alto, mostra uma série de muralhas concêntricas dispostas como em um sistema defensivo localizada em uma zona de mata. No fundo, há uma �oresta densa; à frente, há muitas árvores de copas altas. Embora não haja consenso entre os historiadores com relação aos impactos da escravidão, não há dúvida de que o trá�co de seres humanos tornados escravos enriqueceu europeus e bene�ciou seus interesses localizados nas Américas, mas com consequências danosas aos africanos: os modelos tradicionais foram enfraquecidos em detrimento de uma nova organização socioeconômica, cujo centro não se dava mais no continente, mas na ambição colonialista. Outrossim, é no período do colonialismo que se realizam, a um só tempo, a diáspora, com destino principalmente às Américas, e movimentos sociais e políticos que foram a base da África contemporânea. Às voltas com os fantasmas do colonialismo, os africanos, ao mesmo tempo, tinham esperanças nos processos de independência nacional (OGOT, 2010). 02/12/24, 13:15 História afro-brasileira e indígena https://student.ulife.com.br/ContentPlayer/Index?lc=0LKIugBXGo%2b3zDIe4i2wOA%3d%3d&l=3sND%2f2KdE3jxuArr81Q9Sw%3d%3d&cd=4…37/46 Todavia, não podemos nos esquecer de que a diáspora em si também foi a responsável direta pela viabilização das colônias europeias de ultramar, pelo fortalecimento dos Estados nacionais em formação na Europa e pelo surgimento do sistema econômico que ainda perdura, baseado na consolidação dos interesses burgueses. Ela auxiliou, também, na economia de capitais necessários à formação da sociedade industrial e capitalista contemporânea, pela ação direta do neocolonialismo ou imperialismo do século XIX (HOBSBAWN, 1988). O primeiro dos teóricos racistas foi o conde de Gobineau [Joseph Arthur de Gobineau (1816-1882)], que postulava distinções qualitativas – e biológicas – entre as diferentes “raças humanas”. Cada uma tinha suas qualidades, embora as populações europeias fossem consideradas superiores. As diferenças, se fossem mantidas distantes, não resultariam em abismos entre os vários grupos, mas a miscigenação que resultou na formação e desenvolvimento de “raças híbridas” ou mestiças trouxe à tona a decadência e a perda das qualidades originais de cada grupo racial, o que Gobineau chamava de “degenerescência das raças” (LÉVI-STRAUSS, 2017). Depois de Gobineau, surgiram outros ideólogos e ideologias deterministas que in�uenciaram o quadro do “racismo cientí�co”, tais como o darwinismo social e o positivismo, com o postulado de que há hierarquias entre as civilizações e suas respectivas “raças”. O resultado foram ações eugenistas, que visavam ao “melhoramento social e racial” e ao afastamento dos “indesejáveis de cor”, com a segregação espacial e o higienismo social (SANT’ANNA, 2005, LÉVI-STRAUSS, 2017). Outrossim, diante da expansão ocidental e dos resultados políticos desse crescimento, o racismo ganhou cada vez mais ares de cienti�cidade, atestando e justi�cando a “missão civilizatória” do homem branco europeu em sua tentativa de resgatar da “barbárie” e da “selvageria” populações além-mar, trazendo-as para o “seio do progresso”, cuja morada se estabelecia plenamente na civilização 1.3.1 Crítica e refutação das teorias racistas. Renascimento do pensamento africano e pós-colonial (ATIVIDADE NÃO PONTUADA) TESTE SUAS HABILIDADES 02/12/24, 13:15 História afro-brasileira e indígena https://student.ulife.com.br/ContentPlayer/Index?lc=0LKIugBXGo%2b3zDIe4i2wOA%3d%3d&l=3sND%2f2KdE3jxuArr81Q9Sw%3d%3d&cd=4… 38/46 ocidental. O racismo pseudocientí�co do século XIX e início do século XX tornou- se a ferramenta teórica mais amplamente e�caz para justi�car o expansionismo militar, político e econômico de países da Europa ocidental e dos Estados Unidos sobre as populações não europeias, seus recursos e territórios, subjugando-as em nome do “progresso”. En�m, esse é o “coração” daquilo que chamamos de imperialismo (HOBSBAWN, 1988). No século XX, com a chegada do nazifascismo ao poder, aconteceu o auge do pensamento racista. Sua derrocada militar custou centenas de milhares de vidas e causou uma destruição sem igual, embora ainda haja populações e políticos oportunistas – não só na Europa Ocidental, mas também nas Américas – que propagam a certeza absoluta da existência das “raças”, conforme se esboçou no século XIX. Há, ainda, uma crença profunda na superioridade da “raça branca” e de sua civilização sobre todas as demais “raças e civilizações” do globo terrestre. Hoje, a luta é contra os efeitos nefastos dessas pseudoteorias e de suas rami�cações no senso comum, enquanto discursos de poder e de deslegitimação do outro. Muitas ideias relativizam o peso da migração forçada e da extrema exploração do trabalho dos contingentes afrodiaspóricos; negam qualquer debate em relação à persistência do racismo e de outras tantas formas de discriminação (MUNANGA, 2005). Também é importante resgatar o pensamento afrodiaspórico e as instituições negras brasileiras de todo e qualquer movimento que vise ao “embranquecimento” das ações e contribuições do africano no Brasil e no mundo para desmisti�car a hegemonia cultural e o pensamento burguês e utilitarista (SANTOS, 2009). Um desses elementos de resistência é a retomada dos estudos africanos, da história do continente e da cultura afrobrasileira, vista sob os olhares de pesquisadores que se propõem a debater o pensamento hegemônico com uma re�exão crítica e pós-colonial (SANTANA, 2019; MBEMBE, 2018). Ao mesmo tempo, esses estudiosos resgatam a historicidade do continente, reatando as diversas narrativas acerca do passado africano que expõem o impacto do fenômeno da escravidão nessas sociedades (MANNING, 1988). No Brasil, o maior país africano fora do continente, veri�ca-se ainda a contundente crítica a uma educação eurocêntrica, processo que continua a reforçar diversos mitos racistas que alimentam posturas confusas e, por vezes, criminosas em relação a nós mesmos e, em particular, aos afrobrasileiros da diáspora (MUNANGA, 2005). Nesse sentido, ainda negamos, enquanto sociedade, a discussão pública, democrática e cidadã dessa odiosa força que segrega e torna imensos segmentos de nossa população cidadãos de segunda e terceira classes, con�gurando o reforço de nosso racismo estrutural contra as populações afrobrasileiras e indígenas, perpetuados por um de nossos maiores mitos: o “mito da democracia racial” (MUNANGA, 2005). 02/12/24, 13:15 História afro-brasileira e indígena https://student.ulife.com.br/ContentPlayer/Index?lc=0LKIugBXGo%2b3zDIe4i2wOA%3d%3d&l=3sND%2f2KdE3jxuArr81Q9Sw%3d%3d&cd=4… 39/46 O sistema o�cial de ensino ainda mantém o racismo e os olhares discriminatórios. Os livros e materiais didáticos tratam a diáspora de forma super�cial; muitas vezes, naturalizam a violência colonial contra as populações africanas, eternizando estereótipos sobre homens e mulheres africanos, que vivem sob o estigma da escravidão e não são reconhecidos por suas inúmeras outras contribuições à sociedade multiétnica brasileira (SILVA, 2005). O racismo presente nos discursos e instrumentos pedagógicos também é tratado super�cialmente. Não conhecemos sua história e sua profunda relação com os discursos hegemônicos e com as ideologias cunhadas contra africanos e seus descendentes (SANT’ANNA, 2005; MUNANGA, 2005). Há, portanto, a manutenção do imaginário colonial, que perpetua as assimetrias entre brancos e negros, brancos e indígenas, brancos e mestiços, brancos e quaisquer outros. Nega-se o valor da alteridade (MUNANGA, 2005) e se reduz a importância da atuação africana na construção de uma civilização global menos assimétrica, que valorize o relativismo cultural e a forma como se construiu, de fato, tal civilização, com enormes contribuições de civilizações e sociedades tão díspares quanto os coletivos indígenas sul-americanos às diversas sociedades africanas e tantas outras (LÉVI-STRAUSS, 2017). Segundo Claude Lévi-Strauss (2017), o abandono do racismo pelo simples acúmulo de dados cientí�cos não se basta; é preciso se aproximar dos sujeitos e realizar, no plano do cotidiano, o desmonte dessa máquina ideológica de assimetria entre as diferentes culturas e etnias (LÉVI-STRAUSS, 2017). Boaventura de Souza Santos, educador, jurista e sociólogo (2009), defende a “descolonização dos saberes”, pois entende que é por meio do diálogo que se constrói com mais efetividade democracias inclusivas enquanto sistemas políticos que valorizem a pluralidade e a diversidade culturais; é urgente resgatar a humanidade que se encontra mercantilizada em ações genocidas e ecocidas (SANTOS, 2009). (ATIVIDADE NÃO PONTUADA) TESTE SUAS HABILIDADES 02/12/24, 13:15 História afro-brasileira e indígena https://student.ulife.com.br/ContentPlayer/Index?lc=0LKIugBXGo%2b3zDIe4i2wOA%3d%3d&l=3sND%2f2KdE3jxuArr81Q9Sw%3d%3d&cd=4… 40/46 É urgente a discussão que critica e refuta as pseudoteorias racistas e toda e qualquer construção ideológica que visa à discriminação de quaisquer segmentos de nossa população e qualquer outra do planeta. A refutação das “teses” racistas é o cerne desse novo movimento rumo à efetividade da diversidade sociocultural e do respeito às diferentes formas de fruição do