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9. PARTES E PROCURADORES Sujeitos do processo e sujeitos da lide Independentemente das concepções angular (formação da relação processual entre cada uma das partes e o juiz, sem vínculo direto entre as partes) e triangular (formação da relação processual entre cada uma das partes e o juiz, bem como entre ambas as partes), os sujeitos da relação processual são indiscutivelmente o juiz e as partes, sendo estas denominadas, conforme o legislador, de reclamante (sinônimo de autor) e reclamado (sinônimo de réu). Portanto, as partes podem ser observadas à luz de dois conceitos: sujeito processual e sujeito da lide. O sujeito da lide é aquele envolvido na pretensão, ou seja, aquele que se sentiu ameaçado em seu direito. Já o sujeito processual é aquele que pleiteia no processo a respeito de um direito material ameaçado. Na maioria dos casos, o sujeito da lide é o mesmo sujeito processual. Contudo, para ser reconhecido como parte processual, alguns requisitos devem ser preenchidos. Existem casos em que os sujeitos da lide não coincidem com os sujeitos do processo, devido ao não preenchimento de requisitos necessários para o desenvolvimento do processo. Um exemplo é uma ação judicial em nome de um absolutamente incapaz. Neste caso, haverá substituição processual, visto que o sujeito da lide não possui capacidade processual. Litisconsórcio Nas reclamações trabalhistas, as partes normalmente são o reclamante (autor) e o reclamado (réu). Entretanto, é comum o chamado dissídio individual plúrimo, ou seja, reclamação trabalhista formulada por diversos reclamantes. Trata-se da pluralidade de pessoas no polo ativo ou passivo da relação processual, ou em ambos, em razão da cumulação de lides que se ligam no plano subjetivo. O litisconsórcio, conforme o artigo 113, caput, do CPC, pode ser classificado em ativo (pluralidade de reclamantes, artigo 842 da CLT) e passivo (pluralidade de reclamados). De acordo com o artigo 113, incisos I, II e III, do CPC, o litisconsórcio pode ser exercido quando: a) houver comunhão de direitos ou obrigações relativamente à lide; b) houver conexão entre as causas pelo objeto ou pela causa de pedir; c) ocorrer afinidade de questões por um ponto comum de fato ou de direito. Ainda, conforme o disposto no referido dispositivo legal, o litisconsórcio é facultativo. Contudo, de acordo com o artigo 114 do CPC, ele também pode ser necessário por disposição de lei ou em razão da natureza da relação jurídica controvertida, cuja eficácia da sentença dependa da citação de todos que devem ser litisconsortes. Quando o litisconsórcio comprometer a celeridade processual ou dificultar a articulação da defesa, o juiz poderá limitá-lo, com base no artigo 113, § 1º, do CPC, que dispõe: “O juiz poderá limitar o litisconsórcio facultativo quanto ao número de litigantes na fase de conhecimento, na liquidação de sentença ou na execução, quando este comprometer a rápida solução do litígio ou dificultar a defesa ou o cumprimento da sentença”. O pedido de limitação, nos termos do § 2º desse dispositivo legal, interrompe o prazo para resposta, que recomeça a partir da intimação da decisão. Observa-se que essa regra não se aplica ao litisconsórcio necessário; nesse caso, o juiz não poderá, em hipótese alguma, limitar o número de pessoas que integram o polo passivo. Não há fundamento legal para a limitação de litisconsortes no polo ativo. A limitação do litisconsórcio implica o desdobramento do processo em processos distintos a serem redistribuídos ou processados na mesma vara do trabalho, com a necessária compensação. Ainda, o litisconsórcio pode ser classificado em simples e unitário: o primeiro ocorre quando a decisão judicial não precisa ser uniforme para os litigantes, enquanto o segundo, conforme o artigo 116 do CPC, ocorre quando o magistrado deve decidir o mérito de modo uniforme para todos os litisconsortes em razão da natureza da relação jurídica. Na maioria dos casos, todo litisconsórcio necessário é unitário, pois a decisão deve ser unânime para os litisconsortes. Capacidade para ser parte e capacidade processual A capacidade para ser parte é a aptidão para figurar como parte em um dos polos da relação processual, conforme os artigos 1º e 2º do Código Civil. Essa capacidade está ligada à existência de personalidade civil. Para a pessoa física, a personalidade civil inicia-se com o nascimento com vida, embora a lei garanta, desde a concepção, os direitos do nascituro. Para a pessoa jurídica, a personalidade civil é adquirida a partir da inscrição do seu ato constitutivo no respectivo registro. Em determinados casos, a legislação atribui capacidade para ser parte a determinados entes despersonalizados, como a massa falida, o condomínio, o espólio, a herança jacente e certos órgãos públicos que não possuem personalidade jurídica. A capacidade processual, conforme o artigo 70 do CPC, diz respeito à possibilidade de a parte praticar atos processuais sem o acompanhamento de outra pessoa, ou seja, tem capacidade processual aquele que puder agir sozinho em juízo, realizando atos processuais de forma autônoma, sem o apoio de representante legal ou assistente. A capacidade postulatória é privativa do advogado regularmente inscrito nos quadros da OAB (artigo 1º do EOAB), mas essa capacidade comporta exceção no processo do trabalho, conforme o artigo 791 da CLT. Jus postulandi Conforme o artigo 103 do CPC, a parte deve ser representada em juízo por advogado regularmente inscrito na Ordem dos Advogados do Brasil. No processo do trabalho, visando facilitar a prestação jurisdicional, o legislador adotou critério diverso, acolhendo o chamado jus postulandi, ou seja, o direito de postular independentemente de advogado, conforme o artigo 791 da CLT, que dispõe: “Os empregados e os empregadores poderão reclamar pessoalmente perante a Justiça do Trabalho e acompanhar as suas reclamações até o final”. Seu maior significado está na condição social que proporciona, facilitando o acesso do hipossuficiente aos pretórios trabalhistas. Essa faculdade se estende também àqueles que, por força de lei, possam postular na Justiça do Trabalho, como, por exemplo, o empreiteiro operário ou artífice (artigo 652 da CLT). Contudo, não alcança aqueles que, alheios à demanda, venham a sofrer turbação ou esbulho na posse de seus bens por ato de apreensão judicial decorrente de penhora, arresto, sequestro, alienação judicial, entre outros, que, por consequência, devam interpor embargos de terceiro, para os quais é imprescindível a representação por advogados. O jus postulandi não impede que o empregado ou o empregador se façam representar por advogados, situação esta prevista no artigo 791, parágrafo 1º, da CLT, que dispõe: “Nos dissídios individuais os empregados e empregadores poderão fazer-se representar por intermédio do sindicato, advogado, solicitador (estagiário) ou provisionado, inscrito na Ordem dos Advogados do Brasil”. A redação dada ao artigo 133 da CF, considerando o advogado indispensável à administração da justiça, tem gerado interpretações no sentido de considerar revogado o artigo 791 da CLT, tornando imprescindível a presença de advogados nos feitos trabalhistas. Essa conclusão, todavia, não é pacífica, havendo divergências entre os juristas. Se for levado às últimas consequências o entendimento de que os advogados são indispensáveis, em razão do disposto no artigo 133 da CF, o jus postulandi deveria desaparecer também em outras esferas, como para impetrar habeas corpus, litigar perante os Juizados Especiais Cíveis e para ações de alimentos. A jurisprudência, em sua maioria, admite o jus postulandi na Justiça do Trabalho, entendendo que o artigo 791 da CLT não foi revogado pela Constituição Federal de 1988. Representação, assistência e substituiçãoprocessual Na representação, atribui-se a alguém a qualidade para agir em nome de outrem, manifestando a vontade do representado. O representante é distinto do titular do direito, sendo um terceiro, muitas vezes não parte da relação processual. A representação pode ser legal ou convencional: a primeira decorre de lei; a segunda, do ajuste de vontades entre o representado e o representante. Exemplos de representação legal incluem: os absolutamente incapazes representados pelos pais, tutores ou curadores, conforme a lei (artigo 71 do CPC); as pessoas jurídicas representadas por quem os estatutos designarem ou diretores (artigo 75, inciso VIII, do CPC); a categoria representada pelo sindicato (artigos 8º, inciso III, da CF e 513, alínea “a”, da CLT); o espólio representado pelo inventariante (artigo 75, inciso VII, do CPC); a massa falida representada pelo administrador (artigo 75, inciso V, do CPC); e o condomínio representado pelo síndico (artigo 75, inciso XI, do CPC). Exemplo de representação convencional é o empregador representado pelo preposto, conforme os artigos 843, § 3º, e 861 da CLT. Na assistência, a manifestação de vontade da parte relativamente incapaz deve ser suprida (não substituída) pelo assistente, conforme os artigos 4º e 1.634 do Código Civil. Exemplos de assistência incluem casos de menores de idade entre 16 e 18 anos. O artigo 792 da CLT dispõe que maiores de 18 e menores de 21 anos podem pleitear em juízo sem assistência. De acordo com o artigo 793 da CLT, a reclamação trabalhista do menor de 18 anos deve ser feita por seus representantes legais, ou, na falta destes, pela Procuradoria da Justiça do Trabalho, pelo sindicato, pelo Ministério Público Estadual ou por curador nomeado pelo juízo. A substituição processual ocorre quando alguém, por força de lei (artigo 18 do CPC), pleiteia judicialmente, em nome próprio, um direito alheio. O substituto processual é parte no processo, mas não é o titular do direito material em questão. No processo do trabalho, a substituição ocorre pela entidade sindical. Exemplo: reclamação formulada pelo sindicato, com base no artigo 195, § 2º, da CLT, visando o recebimento de adicionais de insalubridade ou periculosidade por parte de seus associados, ou com base no artigo 872, parágrafo único, visando ao pagamento de diferenças salariais decorrentes de norma coletiva, sempre em favor dos representados pela entidade de classe. 10. INTERVENÇÃO DE TERCEIROS Pessoas estranhas à lide podem ingressar no processo, por provocação de uma das partes ou, até mesmo, voluntariamente, para defender interesse próprio. O processo do trabalho, exceto no que tange à desconsideração da personalidade jurídica, é omisso quanto à intervenção de terceiros, aplicando-se subsidiariamente as regras do processo comum. Por se tratar de incidente processual que pode retardar a prestação da tutela jurisdicional, a intervenção de terceiros no processo do trabalho deve ser aplicada com cautela, de maneira excepcional, quando demonstrado efetivo interesse jurídico. As intervenções, exceto a desconsideração da personalidade jurídica, são as comuns do direito processual comum: assistência, denunciação da lide, chamamento ao processo e amicus curiae. A assistência está prevista no artigo 119 do CPC, que dispõe: “Pendendo causa entre duas ou mais pessoas, o terceiro juridicamente interessado em que a sentença seja favorável a uma delas poderá intervir no processo para assisti-la”. Havendo controvérsia em curso perante órgão judicial, pode ocorrer que terceiro tenha interesse em que a sentença a ser proferida seja favorável a um dos litigantes, intervindo na demanda como assistente. De acordo com o dispositivo legal acima e a Súmula nº 82 do TST, a assistência só é admissível se demonstrado o interesse jurídico, e não meramente econômico. Exemplo: sindicato que, por ter interesse jurídico, participa do processo assistindo o empregado. A assistência pode ser simples, quando há relação entre o assistente e a parte que assiste, ou seja, quando o terceiro ingressa em demanda na qual não se discute direito seu, mas em que a sentença pode afetar seu direito. Exemplo: uma empresa é vendida, comprometendo-se o sucessor a responder por débitos trabalhistas anteriores à sucessão. Ajuizada reclamação contra o sucessor relativa a dívida anterior, o sucedido pode requerer sua admissão no feito na qualidade de assistente do sucessor. A assistência pode também ser qualificada, quando se justifica a intervenção do terceiro porque o direito em litígio pertence tanto ao assistente quanto ao assistido, podendo ser debatido por si mesmo ou em litisconsórcio com outros titulares desse direito. Exemplo: empregador que deseja demolir imóvel onde residem vários empregados. Se um deles ajuizar reclamação para impedir essa medida, qualquer dos outros poderia ingressar na lide como assistente. De acordo com o artigo 125, incisos I e II, do CPC, é possível a denunciação da lide por qualquer das partes em relação “ao alienante imediato, no processo relativo à coisa cujo domínio foi transferido ao denunciante, a fim de que possa exercer os direitos que da evicção lhe resultam” e em relação “àquele que estiver obrigado, por lei ou por contrato, a indenizar, em ação regressiva, o prejuízo de quem for vencido no processo”. Seu objetivo é a reunião, num mesmo procedimento, de duas lides. A mesma controvérsia existente quanto à aplicação da oposição e da nomeação à autoria no processo do trabalho ocorre em relação à denunciação da lide, haja vista a dificuldade de caracterização de casos concretos em que pode incorrer a presença das hipóteses levantadas pela norma que trata da denunciação da lide. Mesmo assim, alguns doutrinadores, como Amauri Mascaro Nascimento, Carlos Coqueijo Costa e Christóvão Piragibe Tostes Malta, consideram possível a denunciação da lide no processo trabalhista, citando como exemplo a denúncia à lide pelo sucedido, quando o sucessor, por lei ou contrato, for obrigado a indenizar em ação regressiva o prejuízo decorrente da perda da demanda. O chamamento ao processo, conforme o artigo 130, incisos I, II e III, do CPC, pode ser requerido pelo réu “do afiançado, na ação em que o fiador for réu”, ainda “dos demais fiadores, na ação proposta contra um ou alguns deles”, e “dos demais devedores solidários, quando o credor exigir de um ou de alguns o pagamento da dívida comum”. No processo do trabalho, seria cabível apenas a hipótese prevista no inciso III, referente aos devedores solidários, no caso de empresas que formam um mesmo grupo econômico (artigo 2º, § 2º, da CLT). Contudo, considerando que, para o direito do trabalho, o grupo de empresas implica no reconhecimento de empregador único, a aplicação do chamamento ao processo não faz sentido. A desconsideração da personalidade jurídica, conforme preceitua o artigo 855-A da CLT, segue o disposto nos artigos 133 a 137 do CPC. Ainda, de acordo com o § 1º desse dispositivo legal, não será permitido recurso imediato quando o incidente de desconsideração da personalidade jurídica for acolhido ou rejeitado na fase de conhecimento. Quando o incidente ocorrer na fase de execução, independentemente de garantia do Juízo, poderá ser interposto agravo de petição, recurso cabível para tal fase processual. Caso o incidente seja instaurado originariamente no tribunal, caberá agravo interno. De acordo com o § 2º do mesmo dispositivo legal, o processo será suspenso com a instauração do incidente de desconsideração da personalidade jurídica, sem prejuízo, quando for o caso, da concessão de tutela de urgência de natureza cautelar. O amicus curiae, expressão latina que significa amigo da corte, conforme o artigo 138 do CPC, representa a possibilidade de o juiz ou relator, levando em conta a importância do tema objeto de discussão, bem como sua especificidade e repercussão social,admitir a intervenção no processo de pessoa natural ou jurídica, objetivando manifestar-se para fornecer subsídios fáticos, técnicos e/ou jurídicos para o julgamento. A figura da oposição, embora excluída da relação nominal das espécies de intervenção de terceiros, não perdeu a condição de intervenção de terceiros. Conforme o artigo 682 do CPC, “quem pretender, no todo ou em parte, a coisa ou o direito sobre que controvertem autor e réu poderá, até ser proferida a sentença, oferecer oposição contra ambos”. Há controvérsia entre os doutrinadores quanto ao cabimento da oposição no processo trabalhista, pendendo a balança em favor de uma resposta negativa, posto que é difícil configurar na prática uma situação em que ocorra a oposição. Mesmo assim, um exemplo seria o sindicato que apresenta oposição em ação de consignação em pagamento promovida por empresa contra outra entidade sindical, pleiteando o depósito de contribuições sindicais, alegando, na condição de opoente, ser o titular dos respectivos valores em razão da representação sindical. A nomeação à autoria estava prevista no artigo 62 do antigo CPC, que previa: “Aquele que detiver a coisa em nome alheio, sendo-lhe demandada em nome próprio, deverá nomear à autoria o proprietário ou o possuidor”. A nomeação à autoria era ato exclusivo do reclamado, que, por meio dela, visava livrar-se da demanda que lhe foi intentada. O cabimento da nomeação à autoria no processo do trabalho era, tal como a oposição, objeto de controvérsia, tendo em vista a dificuldade de configurar hipóteses em que se aplicava o disposto na norma. O novo CPC não reproduz a nomeação à autoria, substituindo-a pelos artigos 338 e 339 do CPC, que tratam da substituição do réu, modalidade semelhante. 11. PETIÇÃO INICIAL A provocação do Estado para a entrega da prestação jurisdicional exige do autor, no caso o reclamante, uma série de providências importantes, diretamente relacionadas com o êxito ou o insucesso da ação trabalhista. Pleno conhecimento dos fatos, exame da legislação, consulta à doutrina e pesquisa jurisprudencial são alguns dos atos preparatórios. A petição inicial, ato introdutório de qualquer demanda, ao lado da contestação, é peça fundamental, pois fixa o objeto do litígio e estabelece os limites da lide. Na sua redação, o advogado tem na linguagem o seu instrumento essencial por excelência, e o seu conhecimento é dever imposto pela profissão. Se a correção de linguagem é um dever de todos, a clareza é uma necessidade para que a petição seja eficaz. A clareza expressional para o advogado é condição fundamental, pois é exigência da lei expor com clareza e precisão os fundamentos do pedido. A petição inicial, também conhecida por “peça exordial”, “peça vestibular”, “peça de ingresso” ou “peça preambular”, deve ser redigida com correção de linguagem, obedecendo à disciplina gramatical, sem rebuscamento ou preocupação em compor peça erudita ou literária. Ao contrário, a peça inicial deve ser concisa, conter apenas o essencial, sem enunciação desnecessária de artigos de lei, pois às partes cabe alegar e fornecer a prova dos fatos. É dever do juiz conhecer o direito, especialmente o de âmbito nacional, independentemente da indicação pelas partes. Os artigos 839 e 840 da CLT utilizam a expressão “reclamação” para se referir à petição inicial, mostrando-se tecnicamente mais adequada a expressão “petição inicial”, conforme o artigo 319 do CPC. 11.1 Requisitos da petição inicial A petição inicial no processo trabalhista pode ser verbal ou escrita, não havendo necessidade de ser subscrita por advogado, em razão do jus postulandi, ou seja, o direito de postular no juízo trabalhista, podendo o interessado, por si mesmo, praticar os atos processuais. Nos casos que envolvem demandas com matérias eminentemente técnicas, é necessário que a petição seja escrita, como em mandado de segurança, ação rescisória e ação cautelar. A petição inicial do dissídio coletivo e do inquérito judicial para apuração de falta grave devem necessariamente ser escritas, conforme os artigos 856 e 853 da CLT, respectivamente. A petição inicial é regida pelo princípio da simplicidade, o que afastaria a aplicação de alguns requisitos formais previstos no CPC, como os fundamentos jurídicos do pedido, as provas e o requerimento para citação do réu. Nada obstante, a doutrina e a jurisprudência vêm exigindo a presença dos requisitos típicos do processo comum, descritos no artigo 319 do CPC. De acordo com o artigo 840, § 1º, da CLT, a petição inicial escrita nos dissídios individuais deverá conter: designação do juízo, qualificação das partes, breve exposição dos fatos de que resulte o dissídio, o pedido, que deverá ser certo, determinado e com indicação de seu valor, data e assinatura do reclamante ou de seu representante. Designação do Juízo ou endereçamento: é essencial, pois indica o órgão judicial competente para processar e julgar a demanda. O endereçamento está ligado à questão de competência do órgão jurisdicional, podendo um erro de endereçamento retardar o andamento da causa, devido a um incidente sobre a competência que, por certo, surgirá, por provocação ou de ofício. Não deve ser indicado o nome do juiz, mas o órgão judicial. Conforme o artigo 1º da Resolução CSJT 104/12, os vocábulos de tratamento dos magistrados de 1ª e 2ª instâncias foram uniformizados em “Juiz do Trabalho Substituto”, “Juiz Titular de Vara do Trabalho” e “Desembargador do Trabalho”. O artigo 840 da CLT menciona a designação do juízo, e não do juiz, titular ou substituto. A norma se fundamenta no princípio do juiz natural e tem por objetivo não personalizar o órgão judicial destinatário da petição inicial. Deve-se deixar um espaço em branco antes da expressão juiz do trabalho, pois o processo será sorteado nas jurisdições com mais de uma vara. Nos TRTs ou TST, a petição inicial deve ser dirigida ao respectivo presidente, sendo que, após a distribuição do processo ao relator, as petições subsequentes devem ser dirigidas a ele. Qualificação das partes: o artigo 840 da CLT é lacunoso quanto à qualificação das partes, aplicando-se, portanto, subsidiariamente, o disposto no artigo 319 do CPC. Assim, quando for pessoa física, a qualificação deverá conter nome completo, estado civil ou existência de união estável, profissão, número da CTPS, do PIS/PASEP e do CPF, evitando- se problemas com homônimos. Tratando-se de pessoa jurídica, a qualificação deve conter o nome ou razão social, indicando se é de direito público ou privado, o CNPJ e o endereço completo, além do endereço eletrônico, se houver. Havendo litisconsortes passivos, é necessária a inclusão de cada um no polo passivo, para que constem do título executivo e passem a figurar como executados. Na hipótese de grupo econômico (responsabilidade solidária), a Súmula nº 205 do TST foi cancelada, permitindo que a empresa participe diretamente apenas em fase de execução. Todavia, para evitar divergências, recomenda-se incluir todas as empresas do grupo econômico no polo passivo desde a fase de conhecimento. Não é necessário indicar o nome dos sócios, pois eventual responsabilidade será resolvida pela teoria da desconsideração da personalidade jurídica. Nas ações coletivas movidas pelo sindicato ou Ministério Público do Trabalho, não há necessidade de apresentar o rol dos substituídos, pois a Súmula nº 310 do TST foi cancelada, prevalecendo o disposto no artigo 8º, inciso III, da CF. Esses requisitos visam identificar as partes, fornecer critérios para definição da competência, possibilitar a citação, intimação ou encontro pelo oficial de justiça, bem como verificar a legitimação para a causa e para o processo. Breve exposição dos fatos de que resulte o dissídio ou causa de pedir: o sistema processual brasileiro adotoua teoria da substanciação da causa de pedir, segundo a qual a petição inicial deve conter a descrição dos fatos oriundos da relação de direito material e os fundamentos jurídicos do pedido. Esse princípio contrapõe-se ao princípio da individualização, que se contenta com a mera afirmação da relação jurídica material que fundamenta o pedido. Exemplo: pela teoria da individualização, o autor alega que é empregado e formula pedido de anotação em CTPS; pela teoria da substanciação, o autor alega ter sido empregado, que laborou com habitualidade, subordinação e recebimento de salário, formulando o pedido de anotação em CTPS. A indicação da causa de pedir é importante porque constitui um dos elementos da ação, ao lado das partes e do pedido, permite a observância do princípio da inalterabilidade da demanda, possibilita a verificação da possibilidade jurídica do pedido (uma condição da ação) e auxilia na análise de conexão, continência, litispendência e coisa julgada. A petição inicial da ação trabalhista individual deve conter os fundamentos fáticos e jurídicos; não há necessidade de indicação do fundamento legal, pois o juiz conhece o direito federal referente ao processo do trabalho. Os fatos narrados na petição inicial correspondem à causa de pedir próxima ou imediata, enquanto os fundamentos jurídicos do pedido compõem a causa de pedir remota ou mediata (o autor deve indicar a razão de seu pedido). Ex.: se postula aviso prévio, deve-se indicar na petição inicial que a dispensa foi sem justa causa. Se pleitear horas extras, deve-se indicar que cumpria jornada além do limite máximo permitido. A exposição dos fatos e dos fundamentos jurídicos possibilita ao juiz verificar as condições da ação, sem as quais o processo não se desenvolverá regularmente até a sentença de mérito. A fundamentação jurídica ou causa de pedir é obrigatória, o que não ocorre com a fundamentação legal. O pedido: o pedido é o objeto da ação, é o projeto da sentença. É sinônimo de mérito, objeto litigioso, lide e bem da vida. O artigo 852-B, inciso I, da CLT, faz referência ao procedimento sumaríssimo, expressando que o pedido deve ser certo ou determinado, com indicação do valor correspondente. Há uma atecnia na redação desse dispositivo legal, pois o mais adequado seria certo e determinado. O artigo 322 do CPC indica que o pedido deve ser certo, e o artigo 324 do CPC, que o pedido deve ser determinado. O artigo 840, § 1º, da CLT, expressa que o pedido deve ser certo, determinado e com indicação de seu valor. A expressão “certo” significa expresso, exteriorizado, inconfundível, enquanto “determinado” corresponde a definido e delimitado em sua qualidade e quantidade. A lei, precisamente o artigo 324, § 1º, do CPC, admite pedido genérico, sendo que, no processo do trabalho, tal hipótese pode ser identificada nas ações coletivas envolvendo direitos ou interesses individuais homogêneos, em que o quantum debeatur será apurado em liquidação por artigos. Da mesma maneira, aplica-se às ações de indenização por acidente do trabalho quando as consequências do ato ilícito não puderem ser apuradas de modo definitivo no tempo após o ajuizamento da ação. O pedido genérico deve ser certo quanto à existência e determinado quanto ao gênero, sendo indeterminado no aspecto quantitativo, o que será resolvido na fase de liquidação de sentença. No procedimento sumaríssimo, a não observância do pedido certo ou determinado com indicação do valor implica na extinção do processo sem resolução de mérito, conforme o artigo 852-B, § 2º, da CLT. No procedimento ordinário e sumário, conforme o artigo 840, § 3º, da CLT, haverá a extinção do pedido. Os pedidos podem ser classificados em simples ou cumulados, principal e acessório, alternativo e sucessivo. Será simples o pedido que contém uma única postulação na ação proposta, e cumulado quando reúne mais de um pedido na mesma demanda. De acordo com o artigo 327 do CPC, é lícita a cumulação, em um único processo, contra o mesmo réu, de vários pedidos, ainda que entre eles não haja conexão. No processo do trabalho, é mais frequente a cumulação de pedidos. O pedido principal corresponde ao primeiro pleito, o mais importante, enquanto o pedido acessório é o suplementar, que depende do primeiro. O pedido acessório segue a regra geral de que o autor deve formular expressamente o pedido, tanto o principal quanto o acessório. Alternativo é o pedido em que a obrigação, por força de contrato ou de lei, pode ser cumprida de mais de uma forma, conforme o artigo 325 do CPC. O pedido sucessivo aplica-se quando o primeiro pedido for prejudicado; se o primeiro pedido for acolhido, o juiz não poderá apreciar o segundo, o terceiro ou os demais pedidos sucessivos contidos na petição inicial. Data: corresponde à data em que a petição inicial for protocolada. Não é um requisito essencial, pois a data considerada é a do protocolo. No sistema processual eletrônico, a data da assinatura da petição inicial é feita automaticamente pelo advogado no momento da distribuição. A autuação é automática, e o próprio sistema fornecerá o recibo eletrônico do protocolo. Assinatura: O artigo 319 do CPC não exige assinatura do subscritor da petição inicial. O processo do trabalho, ao contrário, impõe a assinatura da parte ou de seu representante como requisito da petição inicial da ação trabalhista. A petição inicial apócrifa é inexistente. Isso inviabilizaria até mesmo a aplicação da possibilidade de emenda à petição inicial. Contudo, nada impede que o juiz, desde que não traga prejuízo para o réu, permita o saneamento do processo, em homenagem aos princípios da simplicidade e economia processuais. No sistema eletrônico, a assinatura só pode ser feita mediante aquisição de certificado digital de assinatura. A assinatura eletrônica possui a mesma validade jurídica da assinatura equivalente em papel assinado de próprio punho. Outros requisitos: conforme mencionado, o processo do trabalho é regido pelo princípio da simplicidade, não exigindo alguns requisitos previstos no artigo 319 do CPC, como valor da causa, as provas com que o autor pretende demonstrar a verdade dos fatos alegados e a opção do autor pela realização ou não de audiência de conciliação. Quanto ao valor da causa, há divergências quanto à sua exigência no processo laboral. Alguns consideram-no requisito essencial, enquanto outros o veem como desnecessário, pois o juiz pode, de ofício, fixar o valor quando a peça inicial for omissa. Para quem entende ser necessário, o valor da causa tem por objeto estabelecer o tipo de procedimento a ser adotado (ordinário, sumário ou sumaríssimo) e, consequentemente, possibilitar a interposição de recursos. Conforme a legislação, o valor da causa é requisito obrigatório apenas para os processos sujeitos ao procedimento sumaríssimo, conforme o artigo 852-A, combinado com o artigo 852-B, inciso I, § 1º, ambos da CLT, e deve corresponder ao valor do pedido. Nas ações que tramitam sob os procedimentos ordinário e sumário, se o autor não indicar o valor da causa, o juiz deverá fixá-lo para determinação da alçada. A questão do valor da causa deve ser analisada e interpretada à luz do artigo 5º, inciso XXXV, da CF, da mesma maneira que em relação ao pedido certo, determinado e com indicação do valor. A propósito, o artigo 12, § 2º, da IN 41/18 do TST, interpretando o § 1º do artigo 840 da CLT, assegura que o valor da causa será estimado, observando-se, no que couber, o disposto nos artigos 291 a 293 do CPC. O TST, portanto, passou a exigir o valor da causa estimado como requisito da petição inicial, contrariando o disposto no artigo 2º da Lei 5.584/70, que menciona que, se o autor não indicar o valor da causa, o juiz deve arbitrá-lo. Quanto à especificação das provas, não é necessária a aplicação subsidiáriado CPC, pois as provas são, em princípio, produzidas em audiência. O artigo 845 da CLT menciona que reclamante e reclamado deverão comparecer à audiência acompanhados de suas testemunhas, apresentando, nessa ocasião, as demais provas. No procedimento sumaríssimo, conforme o artigo 852-H da CLT, todas as provas serão produzidas na audiência de instrução e julgamento, ainda que não requeridas previamente. Mostra-se, pois, inócuo inserir na petição inicial a expressão “protesto por todos os meios de prova em direito admitidos”. Quanto ao requerimento para citação, não está previsto no artigo 319 do CPC como requisito da petição inicial. No processo do trabalho, o ato citatório é praticado pelo servidor público e não pelo juiz, conforme os artigos 838 e 841 da CLT. A notificação citatória do réu no processo do trabalho é automática, independentemente de requerimento do autor ou de despacho do juiz. 11.2 Documentos que devem acompanhar a petição inicial Segundo o artigo 787 da CLT, a petição escrita deverá ser confeccionada em duas vias e acompanhada dos documentos em que se fundar. Na prática forense laboral, dificilmente o autor da ação trabalhista, geralmente o trabalhador, dispõe dos documentos para comprovar os fatos pertinentes à relação empregatícia. Caso o juiz entenda que algum documento deve acompanhar a petição inicial, ele não poderá indeferi-la, mas conceder prazo para que o autor emende-a, indeferindo a petição ou o pedido pertinente caso o autor não o faça. 11.3 Aditamento e emenda da petição inicial Aditar significa adicionar, acrescentar, enquanto emenda significa corrigir. A CLT nada dispõe a respeito, aplicando-se o artigo 329 do CPC, que assegura a possibilidade de, até a citação, aditar ou alterar a causa de pedir e o pedido, independentemente do consentimento da parte contrária. Há entendimento de que a petição inicial poderá ser aditada antes de decorrido o prazo da resposta, em razão da dinâmica processual trabalhista, onde o juiz toma conhecimento do feito, em regra, na audiência inicial. 11.4 Indeferimento da petição inicial Indeferir a petição inicial significa rejeitá-la liminarmente antes do recebimento da defesa. Conforme o artigo 321 do CPC, o juiz, verificando que a petição inicial contém nulidade sanável, ou seja, que pode ser corrigida sem alteração da substância da inicial (ex.: erros materiais, falta de juntada de documentos, qualificação errônea das partes, endereçamento incorreto, etc.), deverá conceder prazo para emenda, nos termos do artigo 321 do CPC, sob pena de indeferimento da petição inicial. A decisão que indefere a petição inicial possui natureza terminativa, pois extingue o processo, de modo que cabe a interposição de recurso ordinário, conforme o artigo 895 da CLT, podendo o juiz se retratar, deferindo o recebimento da petição inicial, conforme assegura o artigo 331 do CPC. Caso o indeferimento ocorra após a apresentação da defesa ou designação de audiência, o recurso igualmente será o ordinário, porém sem possibilidade de retratação. 11.5 Efeitos processuais da petição inicial A petição inicial apta será válida para o desenvolvimento do processo e gera os seguintes efeitos processuais: a) determina os limites da lide (causa de pedir e pedido) e a natureza do provimento jurisdicional; b) serve de parâmetro para confronto com outras demandas já propostas (litispendência, conexão e coisa julgada); c) fixa a competência em razão da matéria, bem como pelo aspecto funcional e territorial; d) influi no procedimento a ser adotado no processo. 11.6 Antecipação de tutela A antecipação de tutela está atrelada à situação em que o direito não pode aguardar o regular andamento processual, sob pena de perecer. O artigo 5º da CF, em seus incisos XXXV e LXXVIII, faz referência, respectivamente, aos direitos fundamentais do amplo acesso ao Poder Judiciário, tanto nas lesões quanto nas ameaças a direito, e à duração razoável do processo e aos meios legais que garantam a celeridade de sua tramitação. As antecipações de tutela têm por escopo assegurar tais pressupostos. Conforme o artigo 294 do CPC, a tutela provisória funda-se em tutela de urgência e tutela de evidência, cuja natureza pode ser antecipada (satisfativa) ou cautelar (assegurar determinado resultado até o final do processo) e, conforme o momento, pode ser antecedente ou incidental. A tutela de urgência baseia-se no fumus boni iuris e no periculum in mora, enquanto a tutela de evidência exige o fumus boni iuris e os demais requisitos previstos pelo artigo 311 do CPC, independentemente da demonstração de perigo de dano ou do risco ao resultado útil do processo. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALMEIDA, Amador Paes de. 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