Prévia do material em texto
Sistema Notarial e Registral Material Teórico Responsável pelo Conteúdo: Prof. Dr. Tercius Zychan de Moraes Revisão Textual: Prof.ª Dr.ª Selma Aparecida Cesarin Emolumentos • Emolumentos; • Natureza Jurídica dos Emolumentos. • Entender o que são os emolumentos e sua fi nalidade como garantidores do desempenho das Atividades Notarias e Registrais; • Apreciar as características dos emolumentos, de acordo com a Constituição Federal, a Legislação, a Jurisprudência e a Doutrina; • Verifi car a real natureza jurídica atribuída aos emolumentos, bem como a inexistência de unanimidade a respeito do tema. OBJETIVOS DE APRENDIZADO Emolumentos Orientações de estudo Para que o conteúdo desta Disciplina seja bem aproveitado e haja maior aplicabilidade na sua formação acadêmica e atuação profissional, siga algumas recomendações básicas: Assim: Organize seus estudos de maneira que passem a fazer parte da sua rotina. Por exemplo, você poderá determinar um dia e horário fixos como seu “momento do estudo”; Procure se alimentar e se hidratar quando for estudar; lembre-se de que uma alimentação saudável pode proporcionar melhor aproveitamento do estudo; No material de cada Unidade, há leituras indicadas e, entre elas, artigos científicos, livros, vídeos e sites para aprofundar os conhecimentos adquiridos ao longo da Unidade. Além disso, você tam- bém encontrará sugestões de conteúdo extra no item Material Complementar, que ampliarão sua interpretação e auxiliarão no pleno entendimento dos temas abordados; Após o contato com o conteúdo proposto, participe dos debates mediados em fóruns de discus- são, pois irão auxiliar a verificar o quanto você absorveu de conhecimento, além de propiciar o contato com seus colegas e tutores, o que se apresenta como rico espaço de troca de ideias e de aprendizagem. Organize seus estudos de maneira que passem a fazer parte Mantenha o foco! Evite se distrair com as redes sociais. Mantenha o foco! Evite se distrair com as redes sociais. Determine um horário fixo para estudar. Aproveite as indicações de Material Complementar. Procure se alimentar e se hidratar quando for estudar; lembre-se de que uma Não se esqueça de se alimentar e de se manter hidratado. Aproveite as Conserve seu material e local de estudos sempre organizados. Procure manter contato com seus colegas e tutores para trocar ideias! Isso amplia a aprendizagem. Seja original! Nunca plagie trabalhos. UNIDADE Emolumentos Emolumentos As Serventias são os locais destinados por delegação nos quais são realizados os Serviços Notariais e Registrais. Os Agentes Delegados e seus prepostos realizam tais serviços de acordo com a forma prescrita em Lei. Quanto aos Notariais, eles firmam Atos e Negócios Jurídicos sedimentados pelas partes que os envolvem; já os Registradores promovem a inscrição ou a transcrição de atos, orientando-se pelo formalismo definido em Lei, com o fulcro de dar validade a determinado ato ou fato jurídico relevante para o direito ou dando segurança jurídica no tocante à pessoa ou às pessoas que integram tais situações de relevância jurídica. Desse modo, podemos dizer que Fatos Jurídicos relevantes são submetidos à atu- ação dos Notariais e dos Registradores, como Certidões de Nascimento, Casamen- to ou de Óbito e, ainda, a compra e a venda de imóveis ou de automóveis, sendo certo que tais serviços fornecem às partes, que de alguma forma estão envolvidas, o resguardo de seus direitos. Por exemplo, um casamento deve seguir os preceitos descritos no atual Código Civil. Uma questão preliminar, com relação ao casamento, é que ele estabelece, propriamente dito, duas relações entre os nubentes, uma de caráter afetivo e outra de perspectiva econômica. Com relação ao caráter afetivo, trata-se de uma relação ligada a um sentimento humano, mas, no tocante às relações econômicas, elas possuem grande relevância jurídica, pois estão voltadas a questões de interesse patrimonial. A escolha de como o patrimônio dos cônjuges se comunica entre eles é um Fato Jurídico, relevante para o Direito, pois o que se decide não é somente a questão da gestão dos bens durante o casamento, mas também no findar dele, nas hipóteses de separação judicial, divórcio ou morte de um dos cônjuges. Durante o casamento, podemos adotar como exemplo, o instituto da outorga uxória ou, como outros preferem chamar, da outorga marital. Nela, alguns Atos ou Negócios Jurídicos, seguindo o impositivo legal, não po- derão ser praticados por um dos cônjuges sem a anuência do outro, como, por exemplo, o descrito no Artigo 1647 do Código Civil: Art. 1.647. Ressalvado o disposto no art. 1.648, nenhum dos cônjuges pode, sem autorização do outro, exceto no regime da separação absoluta: I – alienar ou gravar de ônus real os bens imóveis; [...] Isto é, para alienar (vender) um bem de natureza imóvel, adquirido, por exemplo, durante a vida conjugal, será necessária a autorização de um cônjuge com relação ao outro. 8 9 Figura 1 Fonte: pixabay Tal relação econômica é estabelecida com a confirmação do enlace, pela autori- dade constituída pelo Estado para a realização do Casamento Civil, ou seja, o Juiz de Paz. Será no Registro de Casamento que ficará descrito o Regime de Bens adotados pelo casal, podendo ser: • Regime da separação parcial de bens: neste caso, comunicam-se entre os cônjuges os bens adquiridos na constância do casamento, mas não os anterio- res a ele; • Regime da comunhão universal de bens: aqui, todos os bens se comunicam, os anteriores e os adquiridos na constância do casamento; • Regime da separação total de bens: aqui, fica definido que os bens que cada um possui ou adquire mesmo na constância do casamento não se comunica ao outro. Essa relação fica reconhecida pelo Estado e por toda a Sociedade por intermé- dio de uma Certidão, que irá comprovar, quando necessário o “estado civil” das pessoas e qual o regime de bens assumido em razão do casamento. Como já exaustivamente tratado, vimos que, na conformidade do Artigo 236 de nossa Constituição Federal de 1988, os Serviços Notariais e de Registros são exercidos por particulares (concursados), sob delegação do Poder Público. Acompanha, junto com a delegação ao particular do exercício das Atividades Notariais e de Registro, a boa-fé, conferida ao Estado, que certifica a realização das atividades em estudo como cumpridoras dos exatos termos da Legislação pertinen- te ao objeto tratado: Selo de Autenticidade: http://bit.ly/2LkJqZr Ex pl or 9 UNIDADE Emolumentos O selo acima é um exemplo da natureza pública, por delegação, das Atividades Notariais e Registrais no Brasil, vez que ostenta em seu conteúdo o Tribunal que fiscaliza e acompanha as atividades desenvolvidas pelas Serventias. Notadamente, o Supremo Tribunal Federal – STF tem jurisprudência reconhe- cendo que, mesmo sendo a Atividade Notarial e Registral exercida por particular. Em razão da natureza de delegação, trata-se de um “serviço público”. Tal reconhecimento está manifesto no julgamento da Ação Direta de Inconstitu- cionalidade nº 2602/02 – MG. AÇÃO DIRETA DE INCONSTITUCIONALIDADE. PROVIMENTO N. 055/2001 DO CORREGEDOR-GERAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE MINAS GERAIS. NOTÁRIOS E REGISTRADORES. REGIME JURÍDICO DOS SERVIDORES PÚBLICOS. INAPLICABILIDADE. EMENDA CONSTITUCIONAL N. 20/98. EXERCÍCIO DE ATIVIDADE EM CARÁTER PRIVADO POR DELEGAÇÃO DO PODER PÚBLICO . INAPLICABILIDADE DA APOSENTADORIA COMPULSÓRIA AOS SETENTA ANOS. INCONSTITUCIONALIDADE. [...] 2. Os serviços de registro públicos, cartorários e notoriais são exercidos em caráter privado por delegação do Poder Público – serviço público não-privativo. 3. Os notários e os registradores exercem atividade estatal, entretanto não são titulares de cargo público efetivo, tampouco ocupam cargo público. [...] 4. Ação direta de inconstitucionalidade julgada procedente. (STF – ADI 2002, Relator(a): Min. Joaquim Barbosa, Relator(a) p/ Acódão: Min.Eros Grau, Tribunal Pleno, julgado em 24/11/2005). Fonte: http://bit.ly/2Ztgusc Se a atividade é de natureza jurídica de serviço público, mas desenvolvida por particular, como ele será remunerado mediante a contraprestação de seus serviços? Devemos recordar que o particular recebe a delegação mediante aprovação em Concurso Público, podendo ter prepostos que o representem (escreventes), os quais mantêm com o agente delegado uma relação firmada em Contrato de Trabalho, ocorrendo a mesma coisa no que se refere aos demais funcionários da Serventia. Além dessa relação com os funcionários, a sede, os equipamentos, ou seja, toda a estrutura da Serventia é de responsabilidade do Notarial ou Registrador que re- cebe a delegação. É evidente que os custos descritos devem ser ressarcidos ao agente delegado, a fim de garantir a efetiva continuidade dos Serviços Públicos a ele atribuídos. A Lei nº 8935/94, em seu Artigo 28, trata da contraprestação recebida pelos Notariais e Registradores como relação ao serviço prestado: Art. 28. Os notários e oficiais de registro gozam de independência no exercício de suas atribuições, têm direito à percepção dos emolumentos integrais pelos atos praticados na serventia e só perderão a delegação nas hipóteses previstas em lei. Destarte, serão os denominados “emolumentos” a forma de retribuir os Notariais e Registradores em razão do serviço público que prestam: 10 11 Art. 236. Os serviços notariais e de registro são exercidos em caráter privado, por delegação do Poder Público. (...) § 2º Lei federal estabelecerá normas gerais para fixação de emolumentos relativos aos atos praticados pelos serviços notariais e de registro. Em resumo, os emolumentos podem ser entendidos como sendo o pagamento frente às despesas que o agente delegado assume, quando da prestação do serviço público do qual é competente. A Constituição, como visto, preconiza que os emolumentos terão seu regramento estabelecido por intermédio de Lei Federal específica. No tocante à Lei Federal mencionada pela Constituição trata-se, atualmente, da Lei nº 10169, de 29 de dezembro de 2000. Logo no Artigo 1º da mencionada Lei, veremos que ela delega aos Estados e ao Distrito Federal, obedecidos os termos descritos na norma em comento, os regra- mentos sobre os emolumentos: Art. 1º Os Estados e o Distrito Federal fixarão o valor dos emolumentos relativos aos atos praticados pelos respectivos serviços notariais e de re- gistro, observadas as normas desta Lei. Parágrafo único. O valor fixado para os emolumentos deverá corres- ponder ao efetivo custo e à adequada e suficiente remuneração dos ser- viços prestados. Para fixação dos emolumentos, como forma remuneratória das Serventias Nota- riais e Registrais, vamos destacar os requisitos a serem observados pelos Estados e pelo Distrito Federal ao estabelecerem os valores referentes a eles: Art. 2º Para a fixação do valor dos emolumentos, a Lei dos Estados e do Distrito Federal levará em conta a natureza pública e o caráter social dos serviços notariais e de registro, atendidas ainda as seguintes regras: I – os valores dos emolumentos constarão de tabelas e serão expressos em moeda corrente do País; II – os atos comuns aos vários tipos de serviços notariais e de registro serão remunerados por emolumentos específicos, fixados para cada espécie de ato; III – os atos específicos de cada serviço serão classificados em: a) atos relativos a situações jurídicas, sem conteúdo financeiro, cujos emo- lumentos atenderão às peculiaridades socioeconômicas de cada região; b) atos relativos a situações jurídicas, com conteúdo financeiro, cujos emolumentos serão fixados mediante a observância de faixas que esta- beleçam valores mínimos e máximos, nas quais enquadrar-se-á o valor constante do documento apresentado aos serviços notariais e de registro. Preliminarmente, reconhecemos que a integralidade dos emolumentos arrecada- dos pelos serviços prestados fica recolhida à disposição das Serventias que presta- ram o respectivo Serviço Notarial ou de Registro. 11 UNIDADE Emolumentos Mas é essa a realidade com relação à retribuição dos serviços prestados pe lo delegante? A resposta é “não”, pois as legislações estaduais ou do Distrito Federal distri- buem os valores arrecadados a título de emolumentos de modo diverso. Por exemplo, no estado de São Paulo, a norma estadual, Lei nº 11,331, de 26 de dezembro de 2002, trata, em parte de seu texto, da distribuição dos emolumentos arrecadados, concernentes aos atos de “Notas, de Registro de Imóveis, de Registro de Títulos e Documentos e Registro Civil das Pessoas Jurídicas e de Protesto de Títulos e Outros Documentos de Dívidas”. Observe a Figura a seguir: 62,5% – Serventias da Notas e Registros 17,7% – Receita do Estado 13,15% – Carteira de Precidência das Serventias não O�cializadas da Justiça do Estado 3,2% – Fundo... 3,2% – Com... 62,5% – Serventias da Notas e Registros 17,7% – Receita do Estado 13,15% – Carteira de Precidência das Serventias não O�cializadas da Justiça do Estado 3,2% – Compensação dos atos gratuitos do registro civil das pessoas naturais e complementação da receita mínima das serventias de�citárias 3,2% – Fundo Especial de Despesa do TJ Figura 2 – Distribuição de Emolumentos Estado de São Paulo Natureza Jurídica dos Emolumentos O papel de uma natureza jurídica é o enquadramento de determinado Instituto Jurídico no ramo específico do Direito com o qual mantém relação e, ao mesmo tempo, absorve seus princípios e fundamentos. Com relação à natureza jurídica dos emolumentos, muito embora o Supremo Tribunal Federal – STF já tenha jurispru- dência reconhecendo a natureza tributária dos emolumentos, ainda existem interpretações jurisprudenciais e mesmo doutri- nárias que divergem desse posicionamento. Assim, cabe-nos avaliar os dois posicionamentos. Inicialmente, vejamos uma jurisprudência do STF, que asse- vera a natureza jurídica tributária aos “emolumentos”: Figura 3 Fonte: pixabay 12 13 [...] A jurisprudência do STF firmou orientação no sentido de que as custas judiciais e os emolumentos concernentes aos serviços notariais e registrais possuem natureza tributária, qualificando-se como ta- xas remuneratórias de serviços públicos, sujeitando-se, em consequência, quer no que concerne à sua instituição e majoração, quer no que se refere à sua exigibilidade, ao regime jurídico-constitucional pertinente a essa especial modalidade de tributo vinculado, notadamente aos princípios fundamentais que proclamam, dentre outras, as garantias essenciais (a) da reserva de competência impositiva, (b) da legalidade, (c) da isonomia e (d) da anterioridade [...]. (ADI 1378 MC, Relator(a): Min Celso de Mello, Tribunal Pleno, julgado em 30/11/1995). Fonte: http://bit.ly/2Zvg18M Como pode ser visto, o Relator Ministro Celso de Mello reconhece a natureza tributária dos emolumentos, atribuindo sua inserção na espécie tributária denomi- nada “taxa”, na condição de prestação de um serviço público. Entretanto, como já anunciado, existem divergências quanto a esse posicionamento. Por exemplo, existem julgados que reconhecem que a natureza dos Serviços Notariais e Registrais não permite que sejam remunerados por intermédio de co- brança de “taxa”, pois, em razão do exercício privado do Serviço Público, os emo- lumentos teriam natureza jurídica de preço público. No Acordão emitido pelo Tribunal de Justiça de Minas Gerais, em recurso de apelação, no qual foi relator o Desembargador Nepomuceno Silva (Ação nº 1.0701.04.064856-3/001), esse magistrado reconhece que a atividade desempe- nhada pelas Serventias Notarias e Registrais são privadas, nas quais os Agentes Delegados exercem suas tarefas, com a perspectiva econômica de que a remune- ração por seus serviços decorra dos emolumentos percebidos. Assim, o sucesso ou não no desempenho desses serviços correm por conta e risco dos notórios ou dos registradores. Por fim, faz uma analogia em relação aos serviçosprestados pelas Serventias, em relação aos serviços públicos executados pelas concessionárias. Sob o ponto de vista desses argumentos, em que os emolumentos percebidos têm por objeto remunerar o Notarial ou o Registrador, com o objetivo de cobrir as despesas e gerar lucro ao agente delegado, o melhor é considerar a atividade ser remunerada por “preço público” e não por “taxa”. Por preço público podemos entender que este se trata de uma forma de remune- ração ao Poder Público, em virtude de um bem ou serviço consumido diretamente por alguém. Importante ressaltar que o preço público depende de adesão do usuário, não tendo caráter compulsório, mas sim contratual. 13 UNIDADE Emolumentos Figura 4 Fonte: pixabay Com relação ao que vem a ser o preço público, apreciemos a jurisprudência inserida na Revista Trimestral de Jurisprudência do STF1: Preço público é o preço contratual, que constitui contraprestação de serviços de natureza comercial ou industrial – e que, por isso mesmo, podem ser objeto de concessão para particulares –, serviços esses prestados por meio de contrato de adesão. Para haver preço público é necessário existir contrato, ainda que tacitamente celebrado, e o contrato ainda que de adesão, dá a quem pretende celebrá-lo, se aderir às condições dele, a liberdade de não contratar, atendendo a sua necessidade por outro meio lícito. Quem não quiser tomar ônibus, e aderir, portanto, ao contrato de transporte, poderá ir, licitamente, por outros meios, ao lugar de destino. O que não tem sentido é pretender-se a existência de contrato quando o que deve aderir não tem sequer a liberdadede não contratar, porque, licitamente, não tem meio algum para obter o resultado de que necessita. (RTJ/STF nº 98). Em outra decisão, em sede de Recurso de Agravo de Instrumento proferido pelo Desembargador Voltaire de Lima Moraes, determinou-se a penhora de emolumen- tos, em face a um processo de execução, promovido em desfavor de uma Serventia: Processo de Execução. Ausência de bens passíveis de constrição judicial. Penhora sobre faturamento de tabelionato. Possibilidade reconhecida. Ante a contratação de que não bens suficientes para sal- dar a dívida judicialmente reclamada, e inexistindo vedação legal de que o faturamento de serventia extrajudicial, que se realiza os serviços notariais em caráter privado, possa ser objeto de penhora, é de ser admitida essa constrição, mas até o limite de 30% de sua receita, pois percentual maior poderia comprometer o seu fundamento e o adimplemento de obrigações trabalhistas com seus empregados e de encargos sociais. Agravo de instrumento parcialmente provido. (AGI nº 198101255, 11ª Câmara Cível, TARFS, Relator: Des. Voltaire de Lima Moraes, julgado em 19/08/1998). Fonte: http://bit.ly/2LllNzP 1 Taxa e preço público. Caderno de Pesquisa Tributária, n. 10, São Paulo: Resenha Tributária, 1985, p. 174. 14 15 Mesmo existindo posicionamentos contrários ao do Supremo Tribunal Federal com relação à natureza jurídica de taxa dos emolumentos referentes aos Serviços Notariais e Registrais, é importante frisar que o que tem prevalecido é o reconhe- cimento da natureza tributária deles. Desse modo, iremos fundamentar essa posição, para termos um maior entendi- mento do posicionamento dado pelo Supremo Tribunal Federal – STF. Inicialmente, temos de reconhecer que os serviços prestados pelos Notariais e Registradores podem ser qualificados como serviços públicos, realizados de manei- ra, específica e divisível, enquadrando-se no que preconiza a Constituição Federal no que concerne às denominadas taxas de serviço. Mas o que é um serviço público? Figura 5 Fonte: pixabay O eminente administrativista Hely Lopes Meirelles, assim conceitua o que vem a ser um serviço púbico: Serviço público é todo aquele prestado pela Administração ou por seus delegados, sob normas e controles estatais, para satisfazer necessidades essenciais ou secundárias da coletividade ou simples conveniência do Es- tado. (MEIRELLES, 2003, p. 131) Nas palavras de Meirelles, pode-se reconhecer que serviço público se trata de uma determinada atividade a ser prestada diretamente pelos Órgãos e pelas Institui- ções Públicas, sejam eles, órgãos da Administração Pública direta ou indireta, bem como aqueles decorrentes de delegação, como a atividade prestada pelos notários e pelos registradores. A doutrinadora Maria Helena Diniz, ao tratar dos serviços dos registradores, reconhece a natureza jurídica que qualifica os serviços por eles prestados: 15 UNIDADE Emolumentos Portanto, serventuário ou servidor significa “o que serve num ofício ou cargo”. É a pessoa que, como o oficial de Registro de Imóvel, exerce uma função pública, tendo suas atribuições determinadas pelas normas especiais, por atender interesse público. O registro de imóveis, por ser obrigatório, transforma-se num serviço público e, pelo regime jurídico do Brasil, perfaz uma função de publicidade, pois, ante a mutação jurídico- -real do bem de raiz, investe a propriedade ou o direito real na pessoa de seu titular, tornando o direito oponível erga omnes. O registrador, em seu cargo, terá a tarefa de atribuir autenticidade, segurança e eficácia aos atos e aos documentos que leva ao assento. (DINIZ, 2004, p. 594) Fica, então, evidente que as Atividades Notarias e Registrais são serviços públicos. Pode-se, ainda, reforçar essa condição ao reconhecermos que toda a atividade segue uma uniformidade determinada pelo Estado, que promove a escolha mediante Concurso Público dos que serão responsáveis pela prestação desses serviços. Superada a discussão sobre a natureza jurídica das atividades, bem como a qua- lidade dos emolumentos reconhecidos na condição de “taxas”, iremos nos ater na busca do que efetivamente são as tais taxas. A atual Constituição Federal, em seu Artigo 145, identifica quais são as espécies tributárias existentes no país, muito embora tanto a doutrina como a jurisprudência sejam unânimes em entender que existem outras espécies tributárias, além das enumeradas no mencionado Artigo. São consideradas espécies tributárias, por exemplo: empréstimos compulsórios, contribuições sociais de intervenção econômica e contribuições profissionais (Arti- gos 147 e 148 da Constituição Federal). Vamos conhecer, neste nosso estudo, somente as espécies descritas no mencio- nado Artigo 145: Art. 145. A União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios pode- rão instituir os seguintes tributos: I – impostos; II – taxas, em razão do exercício do poder de polícia ou pela utilização, efetiva ou potencial, de serviços públicos específicos e divisíveis, presta- dos ao contribuinte ou postos a sua disposição; III – contribuição de melhoria, decorrente de obras públicas. Pela simples leitura do dispositivo constitucional, fica evidente que podemos en- quadrar a Atividade Notarial e Registral na qualidade de taxas de serviços. Tal enquadramento parte das seguintes premissas: • Serviço público específico; • Serviço público divisível; • Serviços públicos prestados ao contribuinte. 16 17 Quanto à primeira característica, ou seja, relativa ao serviço público específico, podemos dizer que existem reconhecidamente duas espécies de serviços públicos relativos à forma de prestação. O primeiro é denominado uit univesi, sendo este o prestado a um número indeterminado de pessoas, como ocorre, por exemplo, no serviço de iluminação pública, que não beneficia tão somente os moradores de determinado logradouro, mas, também, todas as pessoas que circulam naquela via. A outra modalidade de prestação de serviço público, com relação aos beneficiá- rios, são os denominados uti singuli. Vamos conhecer as palavras de Matheus Carvalho sobre o que vem a ser: Serviços públicos uti singuli ou individuais são aqueles em que é possível mensurar quanto cada usuário usufruiu na sua prestação, ou seja, são serviços divisíveis. (CARVALHO, 2016, p. 670) A próxima premissa é a divisibilidade e, quanto a ela,podemos dizer que se trata da capacidade do prestador do serviço estatal distinguir a pessoa que será benefi- ciada em virtude dos serviços prestados. É por intermédio da divisibilidade que será possível definir a base de cálculo e, na sequência, determinar o valor a ser remunerado o Ente Público, em razão do serviço prestado. Vamos nos lembrar de que, nos termos da Lei nº 8935/94, os Serviços Notariais e Registrais são serviços desenvolvidos com técnica e organização, e objetivam dar aos usuários de tais serviços publicidade, autenticidade, segurança jurídica e eficácia jurídica, nos estritos termos do Artigo primeiro da Lei mencionada: Art. 1º O Registro Público de Empresas Mercantis e Atividades Afins, observado o disposto nesta Lei, será exercido em todo o território nacio- nal, de forma sistêmica, por órgãos federais, estaduais e distrital, com as seguintes finalidades: I – dar garantia, publicidade, autenticidade, segurança e eficácia aos atos jurídicos das empresas mercantis, submetidos a registro na forma desta lei; Em virtude da forma pela qual os emolumentos são exigidos, é evidente que se pode determinar o beneficiário deles, bem como é possível aferir o valor da obriga- ção tributária, em razão dos serviços públicos prestados. Outra questão que desperta a atenção é que os valores a serem auferidos pela arrecadação das taxas de prestação de Serviços Notariais e Registrais, ou seja, os emolumentos, não serão destinados diretamente aos cofres públicos, sendo que eles, em razão de determinação legal, terão o condão de remunerar o agente dele- gado das despesas de manutenção do serviço público prestado, o que colabora em sedimentar de vez o entendimento de que os emolumentos são espécies de taxas de prestação de serviços públicos. 17 UNIDADE Emolumentos Para encerrar o assunto, concluímos com o posicionamento do Supremo Tribu- nal Federal, ao julgar a Ação Direta de Inconstitucionalidade ADI 1444-PR, a qual teve como relator o Ministro Sidney Sanches: DIREITO CONSTITUCIONAL E TRIBUTÁRIO. CUSTAS E EMOLUMENTOS: SERVENTIAS JUDICIAIS E EXTRAJU- DICIAIS. AÇÃO DIRETA DE INCONSTITUCIONALIDADE DA RESOLUÇÃO Nº 7, DE 30 DE JUNHO DE 1995, DO TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DO PARANÁ: ATO NORMATIVO. Já ao tempo da EC 1/69, o STF firmou entendimento no sentido de que “as custas e os emolumentos judiciais ou extrajudiciais”, por não se- rem preços públicos, “mas, sim, taxas, não podem ter seus valores fixados por decreto, sujeitos que estão ao princípio constitucional da legalidade. Esse entendimento persiste, sob a vigência da Consti- tuição de 1988. O art. 145 admite a cobrança de “taxas, em razão do exercício do poder de polícia ou pela utilização, efetiva ou potencial, de serviços públicos específicos e divisíveis, prestados ao contri- buinte ou postos a sua disposição”. Tal conceito abrange não só as custas judiciais, mas, também, as extrajudiciais (emolumentos), pois estas resultam, igualmente, de serviço público, ainda que prestado em caráter particular (art. 236). Mas sempre fixadas por lei. STF – ADI 1444-PR, Paraná, Relator: Min. Sidney Sanches, Tribunal Pleno, julgado em 12/02/2003). Fonte: http://bit.ly/2Lmf5tA 18 19 Material Complementar Indicações para saber mais sobre os assuntos abordados nesta Unidade: Leitura Emolumentos cartorários http://bit.ly/2ZuJorH A incidência da gratuidade da justiça para os emolumentos: possibilidade e procedimento pelo Novo Código de Processo civil http://bit.ly/2Zvr4ip Constituição Federal de 1988 http://bit.ly/2LUKnti Jurisprudência – STF: Serviços Notariais e Registrais – Emolumentos – Recolhimento http://bit.ly/2ZsLqZm 19 UNIDADE Emolumentos Referências ALMEIDA JÚNIOR, J. M. de A. J. Órgãos da Fé Pública. 2.ed. São Paulo: Saraiva, 1963. AMARAL, S. do. Falsidade Documental. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 1989. ARAUJO, L. A. D.; NUNES JÚNIOR, V. S. Curso de Direito Constitucional. 9.ed. São Paulo: Saraiva, 2005 BASTOS, C. R. Curso de Direito Constitucional. 2.ed. São Paulo: Saraiva. 2001. BRANDELLI, L. Teoria Geral do Direito Notarial. São Paulo: Saraiva, 2007. BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil, de 5 out. 1988. Bra- sília: Senado Federal. Disponível em: . BRASIL. Lei 10.169, de 29 de dezembro de 2000. Estabelecimento de normas gerais para a fixação de emolumentos relativos aos atos praticados pelos servi- ços notariais e de registro. Disponível em: . BRASIL. Lei 10.406, de 10 de janeiro de 2002 – Código Civil. Disponível em: . BRASIL. Lei 13.105, de 16 de março de 2015 –. Código de Processo Civil. Disponível em: . BRASIL. Lei 6.015, de 31 de dezembro de 1973. Dispõe sobre os registros públicos. Disponível em: . BRASIL. Lei 8.935, de 18 de novembro de 1994. Regulamenta o art. 236 da Constituição Federal, dispondo sobre serviços notariais e de registro. Disponível em: . CARVALHO, M. Manual de Direito Administrativo. 3.ed. Salvador: Juspodvim, 2016. CENEVIVA, W. Lei dos Notários e Registradores comentada. 18.ed. São Paulo: Saraiva, 2008. ________. Lei dos Notários e Registradores comentada. 4.ed. São Paulo: Sarai- va, 2002. CRETELLA JÚNIOR, José. Curso de direito administrativo. 12.ed. Rio de Ja- neiro: Forense, 2003. DINIZ, M. H. Sistema de registro de imóveis. 5.ed. São Paulo: Saraiva, 2004. JUSTEN FILHO, M. Curso de Direito Administrativo. 13.ed. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2018. (E-Book) 20 21 KELSEN, H. Teoria geral do direito e do Estado. 3.ed. Tradução de Luis Carlos Borges. São Paulo: Martins Fontes, 2000. LINS, C. M. de A. A Atividade Notarial e de Registro. São Paulo: Companhia Mundial de Publicações, 2009. MARTINS, C. apud SANDER, T. A Atividade Notarial e sua Regulamentação. Disponível em: . MEDAUAR, O. Direito Administrativo. 4.ed. São Paulo: Editora Revista dos Tri- bunais 2016. (E-Book) MEIRELLES, H. L. Direito Administrativo. São Paulo: RT, 2003. PUGLIESE, R. J. Direito Notarial Brasileiro. São Paulo: LEUD, 1989. REALE, M. Lições Preliminares de Direito. 24.ed. São Paulo: Saraiva. 1998. SANTOS, M. S. Primeiras linhas de Direito Processual Civil. São Paulo: Saraiva, 1987. SILVA, De P. e. Vocabulário jurídico. 3.ed. Rio de Janeiro: Forense, 1991. SILVA, J. A. da. Aplicabilidade das normas constitucionais. 6.ed. Malheiros: São Paulo, 2003. ________. Curso de Direito Constitucional Positivo. São Paulo: Malheiros, 2013. 21