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Sistema Notarial e Registral Material Teórico Responsável pelo Conteúdo: Prof. Dr. Tercius Zychan de Moraes Revisão Textual: Prof.ª Dr.ª Selma Aparecida Cesarin Desenvolvimento, Princípios e Responsabilidades da Atividade Notarial e Registral • Finalidade da Atuação Notarial e Registral; • Princípios Gerais da Atividade Notarial e Registral no Brasil; • Responsabilidades do Notários e dos Registradores. • Entender quais são as fi nalidades com relação aos serviços prestados pelas Atividades Notariais e Registrais, na conformidade de nosso sistema jurídico; • Apreciar os Princípios que balizam o entendimento e a aplicação desses Serviços Públicos, tão relevantes, que contribuem como instrumento de pacifi cação social; • Verifi car quais são as responsabilidades a que estão sujeitos aos agentes delegados no desempenho das Atividades Notariais e Registrais. OBJETIVOS DE APRENDIZADO Desenvolvimento, Princípios e Responsabilidades da Atividade Notarial e Registral Orientações de estudo Para que o conteúdo desta Disciplina seja bem aproveitado e haja maior aplicabilidade na sua formação acadêmica e atuação profissional, siga algumas recomendações básicas: Assim: Organize seus estudos de maneira que passem a fazer parte da sua rotina. Por exemplo, você poderá determinar um dia e horário fixos como seu “momento do estudo”; Procure se alimentar e se hidratar quando for estudar; lembre-se de que uma alimentação saudável pode proporcionar melhor aproveitamento do estudo; No material de cada Unidade, há leituras indicadas e, entre elas, artigos científicos, livros, vídeos e sites para aprofundar os conhecimentos adquiridos ao longo da Unidade. Além disso, você tam- bém encontrará sugestões de conteúdo extra no item Material Complementar, que ampliarão sua interpretação e auxiliarão no pleno entendimento dos temas abordados; Após o contato com o conteúdo proposto, participe dos debates mediados em fóruns de discus- são, pois irão auxiliar a verificar o quanto você absorveu de conhecimento, além de propiciar o contato com seus colegas e tutores, o que se apresenta como rico espaço de troca de ideias e de aprendizagem. Organize seus estudos de maneira que passem a fazer parte Mantenha o foco! Evite se distrair com as redes sociais. Mantenha o foco! Evite se distrair com as redes sociais. Determine um horário fixo para estudar. Aproveite as indicações de Material Complementar. Procure se alimentar e se hidratar quando for estudar; lembre-se de que uma Não se esqueça de se alimentar e de se manter hidratado. Aproveite as Conserve seu material e local de estudos sempre organizados. Procure manter contato com seus colegas e tutores para trocar ideias! Isso amplia a aprendizagem. Seja original! Nunca plagie trabalhos. UNIDADE Desenvolvimento, Princípios e Responsabilidades da Atividade Notarial e Registral Finalidade da Atuação Notarial e Registral Como vimos na aula anterior, as Atividades Notariais e Registrais no Brasil, por força do mando constitucional, são Serviços Públicos por Delegação a Particulares, mediante Concurso Público, ou seja, a Constituição Federal de 1988, estabeleceu os Preceitos Básicos, em seu Artigo 236, para o exercício e organização, dessa tão importante Atividade de Notas e Registros dos Atos ou Negócios Jurídicos. Vejamos, de modo geral, todos os preceitos constitucionais das Atividades No- tariais e Registrais: • Serviço Público exercício por Particular por Delegação; • Atividade regulada por lei; • A Lei disciplinará a responsabilidade civil e criminal dos notários, ofi- ciais de registro e de seus prepostos; • A Lei definirá a fiscalização de seus atos pelo Poder Judiciário; • Lei Federal estabelecerá Normas gerais para fixação de emolumentos relativos aos atos praticados pelos Serviços de Registro; • O ingresso na atividade dependerá de Concurso Público de Provas e Títulos; • Não se permite que qualquer Serventia fique vaga, sem abertura de Concurso de provimento ou de remoção, por mais de seis meses. A expressão “Serventia”, empregada pela Constituição Federal, no Artigo co- mentado, é replicada nas Leis que regulam esse serviço (Lei n. 8.935/94 – “Lei dos Notários e Registradores” e Lei n. 6015/73 – “Lei dos Registros Públicos”). Podemos, nos termos da Constituição e das Leis mencionadas, entender que as Serventias se tratam de repartições, nas quais são delegadas competências do ente público para o exercício da Atividade Notarial e Registral. As Serventias exercem atividade “extrajudicial”, sendo mais conhecidas por sua denominação popular de “Cartórios”, que têm como responsável aquele que for aprovado em concurso, denominado “Tabelião” ou “Notário”, ambos dotados, na forma da Lei, de “fé-pública”. A atuação dos Tabeliães e dos Notários consiste em representar o Estado, na intervenção dos Negócios jurídicos, por intermédio de Registros. Tal fato é uma decorrência da postura do Sistema Jurídico, que elege alguns desses Negócios como aqueles que podem produzir efeitos tendentes a repercutir em interesses diversos; daí a necessidade de se tornarem públicos. Essa forma de atuação estatal interferindo nos Negócios públicos é denominada “Administração Pública dos Interesses Privados”, também conhecida como “Juris- dição Voluntária”. Embora de fato a atuação Notarial e Registral não sejam especificamente Atos relativos ao exercício da “Jurisdição Estatal”, que age quando provocada para pôr 8 9 fim aos conflitos de interesse (lide), alguns autores justificam essa denominação, em razão de uma influência histórica, relativa a uma antiga atividade desen- volvida pelos magistrados de serem responsáveis em documentar determinados Negócios Jurídicos. Por exemplo, qual a necessidade de ser feita em uma Serventia de Registro Civil das Pessoas Naturais uma “certidão de óbito”? Certidão de óbito: https://bit.ly/2kjdTgS Ex pl or O interesse jurídico desse registro, se faz pela necessidade, ante às “consequên- cias” jurídicas”, que podem advir com o óbito de uma pessoa, como, por exemplo, a abertura do direito de sucessão, direitos previdenciários, transmissão de certas obrigações ao espólio etc., ou seja, abre-se uma série de novas relações jurídicas ad- vindas da “morte” de uma pessoa natural, que repercutem no Direito e na atuação direta do Estado, sendo necessário o reconhecimento desse fato por intermédio de um Registro Público. Uma questão importante, até em virtude da quantidade de Atividades Notariais e Registrais existentes, é a possibilidade dos notários e dos registradores contrata- rem, mediante um Contrato de Trabalho regido pelas Leis Trabalhistas, prepostos denominados “Escreventes”, sendo que, entre eles, será designado um como seu substituto e os demais atuarão na condição de auxiliares. Princípios Gerais da Atividade Notarial e Registral no Brasil Os princípios mantêm íntima relação na interpretação e na aplicação de precei- tos fundamentais de várias Ciências, o que não é diferente no caso das Ciências Jurídicas, nas quais se encontra como Ramo aquela que faz parte de nosso estudo relativo ao Sistema Notarial e Registral. Antes de tratarmos, especificamente, dos Princípios que regem as Atividades Notariais e Registrais, segundo o Sistema Jurídico brasileiro, vejamos um bom con- ceito do que vem a ser um “Princípio”. Para tanto, iremos recorrer ao entendimento de Cretella Junior: [...] princípios de uma ciência são as proposições básicas, fundamentais, típicas, que condicionam todas as estruturações subsequentes. Situam-se entre os valores e as normas, isto é, representam o marco inicial na esca- la de concreção do direito. Por isso, eles são munidos do mais alto grau de abstração, o que lhes confere maior campo de abrangência. (CRETELLA JÚNIOR, 2003, p. 3) 9 UNIDADE Desenvolvimento, Princípios e Responsabilidades da Atividade Notarial e Registral Especificamente na “Ciência do Direito”, os princípios possuemtrês funções amplamente reconhecidas. São elas: 1. Os princípios são empregados como fornecedores de ideias fundamentais das normas positivadas em um Sistema Jurídico determinado; 2. Os princípios funcionam como orientadores, ou “bússolas”, que permitem ao intérprete dar a real compreensão da norma jurídica; Figura 1 Fonte: Getty Images 3. Os princípios podem ser empregados como “preenchedores” de lacunas jurídicas para aplicação do Direito, como mecanismo de solução de con- flitos de interesse, tendo, assim, uma função de integração da norma ao caso em concreto. Para fecharmos a compreensão do que são, de modo geral, os princípios, cabe destacar o entendimento de Miguel Realle, sobre eles: [...] Princípios são verdades fundantes de um sistema de conhecimento, como tais admitidas, por serem evidentes ou por terem sido comprova- das, mas também por motivos de ordem pratica de caráter operacional, isto é, como pressupostos exigidos pelas necessidades da pesquisa e da práxis. (REALLE, 1998, p. 305-22) O desprezo ao emprego correto dos “princípios”, principalmente, na Ciência do Direito, pode provocar o uso ilegal da Norma Jurídica, fazendo com que a parte prejudicada na defesa de seu direito utilize, por exemplo, de um dos remédios cons- titucionais, como é o caso do Mandado de Segurança, previsto em nossa Constitui- ção Federal em seu Artigo 5º inciso LXIX: 10 11 LXIX – conceder-se-á mandado de segurança para proteger direito líquido e certo, não amparado por habeas corpus ou habeas data, quando o responsável pela ilegalidade ou abuso de poder for autori- dade pública ou agente de pessoa jurídica no exercício de atribuições do Poder Público; De modo que o emprego da norma desprezando o princípio jurídico que lhe apon- ta a necessária interpretação poderá configurar uma ilegalidade e eventual abuso de poder, o que permitirá ao prejudicado o emprego do “Mandado de Segurança”. Com relação aos princípios que integram o Sistema Notarial e Registral, os quais passaremos a estudar, cabem algumas observações iniciais. É sempre necessário reforçar o entendimento já descrito de que as Atividades No- tarias e Registrais são de natureza pública, exercidas por delegação por particulares. Desse modo, mesmo não sendo prestados os serviços diretamente pela Admi- nistração Pública, não se perde a natureza pública deles serviços, ou seja, estão sujeitos ao mesmo tratamento se estivessem sob o manto direto da Administra- ção Pública. Na qualidade de Serviços Públicos, a primeira questão é que as Atividades Nota- riais e Registrais devem reverenciar os “Princípios Gerais da Administração”, enu- merados no caput do Artigo 37 de nossa Constituição Federal: Art. 37. A administração pública direta e indireta de qualquer dos Pode- res da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios obedece- rá aos princípios de legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência e, também, ao seguinte: Além desses, de caráter geral, existem Princípios específicos a serem observa- dos, tanto isoladamente, pela Atividade Notarial, como também para a Registral. Entretanto, caberá, neste nosso estudo, apreciarmos os princípios que, em razão do seu objeto, devem ser empregados em ambas atividades. Por fim, os Princípios que estudaremos são aqueles que destacamos como os que efetivamente merecem ser realçados, além de terem reconhecimento notória da Doutrina, mas nos quais, mesmo assim, ela não é unânime em relação à enu- meração precisa deles. Princípio da Publicidade Como já estudado, o fulcro da atuação Notarial e Registral é registrar Negócios Jurídicos ou Atos jurídicos que possam transcender aos interesses das partes, e repercutirem em novos Fatos jurídicos, sendo, nesse caso, a intervenção do Estado nos Negócios Públicos necessária para garantir segurança e estabilidade nas Rela- ções e no Sistema Jurídico de determinado Estado. 11 UNIDADE Desenvolvimento, Princípios e Responsabilidades da Atividade Notarial e Registral Sendo assim, além do controle dos Atos ou dos Negócios praticados, os Serviços Públicos Notariais e Registrais tem como uma de suas funções demonstrar à cole- tividade que, por intermédio deles, estão sendo cumpridos os mandamentos legais, referentes àquele fato relevante para o Direito, permitindo, inclusive, o controle social ou coletivo dos Atos Registrados e reconhecidos pelo Poder Público, ainda que não realizados diretamente por ele. Quanto ao Princípio da Publicidade, cabe referenciar Marçal Justen Filho: O princípio da publicidade impõe que todos os atos do procedimento sejam previamente levados ao conhecimento público, que a prática de tais atos se faça na presença de qualquer interessado e que o conteúdo do procedimento possa ser conhecido por qualquer um. (JUSTEN FILHO, 2016, E-book, Cap. 6) A publicidade dos Serviços Notariais e Registrais se dá com a simples prática do ato, pois, a partir de sua consumação, torna-se ele presumível ao conhecimento de todos, como ocorre com o averbação em certa Matrícula de Imóvel de um novo proprietário ou, ainda, com o Registro Civil de um casamento, no qual o registro da “Ata de Casamento” faz presumir que há o conhecimento de todos. Com relação à publicidade dos Atos praticados sob à ótica do Sistema Normati- vo do Estado, vale esclarecer, ainda, que esse princípio decorre também da figura do Estado Democrático de Direito, na qual o detentor do poder é o “povo”, vez que a própria Constituição faz menção a essa situação no parágrafo único do Artigo 1º, que assegura que “todo o poder emana do povo”. O doutrinador Walter Ceneviva, com relação à aplicação do Princípio da Publici- dade, no desenvolvimento dos Serviços Notariais e Registrais, assim, se posiciona: [...] O vocábulo publicidade compreende realidades jurídicas diversas, tan- to no direito público quando no direito privado, podendo ser obrigatória ou facultativa (...) Publicar, enquanto serviço público, é ação de lançar, para fins de divulgação geral, ato ou fato juridicamente relevante em livro ou papel oficial, indicando o agente que neles interfira (ou agentes que interfiram), com referência o direito ou ao bem da vida mencionado (...) A publicidade legal própria da escritura notarial registrada é, em regra, passiva, estando aberta aos interessados em conhecê-la, mas obrigatória para todos, ante a oponibilidade afirmada em lei. As exceções confir- mam a regra. Assim é com a publicidade do loteamento, prevista na Lei n. 6.766/79 – Lei do Parcelamento do Solo Urbano, cujo art. 19 impõe a divulgação ativado empreendimento, para assegurar aos tercei- ros o direito de impugnarem o pedido de registro. No mesmo sentido, a incorporação condominial. (CENEVIVA, 2002, p. 24-6) A garantia ao livre acesso às informações registradas pode ser vista na Lei de Registros Públicos – Lei n. 6,015/73 que, em seus Artigos 16 e 17, assim dispõe: Art. 16. Os oficiais e os encarregados das repartições em que se façam os registros são obrigados: 12 13 1º a lavrar certidão do que lhes for requerido; 2º a fornecer às partes as informações solicitadas. Art. 17. Qualquer pessoa pode requerer certidão do registro sem infor- mar ao oficial ou ao funcionário o motivo ou interesse do pedido. Parágrafo único. O acesso ou envio de informações aos registros públi- cos, quando forem realizados por meio da rede mundial de computadores (internet) deverão ser assinados com uso de certificado digital, que aten- derá os requisitos da Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira – ICP. Princípio da Boa-fé O Princípio da Boa-fé decorre, inicialmente, das palavras que a compõem, ou seja, a fé, esta, refere-se à crença da veracidade daquilo que se vê ou promete, po- dendo ter caráter subjetivo. Nela, há percepção da certeza, sem necessidade de qualquer prova, já com o emprego em conjunto da palavra “boa”, que nos impele a compreender aspectos relativos à legalidade e à conformidade do que se referenda, de estar em consonân- ciacom o ordenamento jurídico. No tocante às Atividades Notariais e Registrais, vejamos um conceito do que vem a ser “boa-fé”, segundo o entendimento de João Mendes de Almeida Júnior, ao tratar dos Serviços Notariais e Registrais: A ideia de fé tem como notas características a sinceridade de quem afirma e a adesão confiante do espírito de quem recebe a afirmação. Constituído pelo Estado para assegurar e transmitir a verdade da existência de certos fatos e atos jurídicos, os órgãos da fé pública têm por função a ‘afirmativa geral’[...] Os fins da sua organização são a segurança dos direitos individu- ais e a conservação dos interesses da vida social, fins esses que lhe dão, pela identificação com certos fins do Estado, o caráter público. Como instituição de direito público, esses órgãos estão investidos da função necessária para transmitir aos cidadãos aquela sinceridade indispensável para o equilíbrio social. (ALMEIDA JUNIOR, 1963, p. 5) Em pura consonância a este entendimento, a própria Lei dos Notários e Regis- tradores (Lei nº 8.935/94), reafirma esse atributo, a quem exerce estas atividades, em seu Artigo 3º: Art. 3º Notário, ou tabelião, e oficial de registro, ou registrador, são pro- fissionais do direito, dotados de fé pública, a quem é delegado o exercício da atividade notarial e de registro. Com relação ao Princípio da Boa-fé, o qual pode também ser denominado de “Fé-pública”, vejamos, em parte, a jurisprudência do Supremo Tribunal Federal, ao julgar o Agravo de Instrumento – AI n. 4.6785-DF, no qual foi relator o Ministro Celso de Mello, e que trata da “Fé-pública”: 13 UNIDADE Desenvolvimento, Princípios e Responsabilidades da Atividade Notarial e Registral PODER CERTIFICANTE DO SERVENTUÁRIO DA JUSTIÇA – FÉ-PÚBLICA A função certificante, enquanto prerrogativa institucional, constitui-se como emanação da própria autoridade estatal, destinando-se a gerar si- tuação de certeza jurídica, desde que exercida por determinados agentes a quem se outorgou, ministério legis, o privilégio da fé-pública. Fonte:http://bit.ly/2Awbvbk Princípio da Segurança Jurídica Inicialmente, podemos proclamar que os Serviços Públicos desenvolvidos nas Serventias, seja por intermédio de prestativos notariais, sejam eles registrais, vi- sam a dotar qualquer Negócio Jurídico ou Ato Jurídico, de Boa-fé e segurança às partes envolvidas. A Segurança jurídica não afeta somente a proteção das partes envolvidas em um negócio ou num ato jurídico; tem, também, por objetivo agregar aos Serviços Notariais e Registrais uma proteção mais ampla, quer a de terceiros de boa-fé, quer de toda a Sociedade. A este mister, ressaltam as palavras de João Mendes de Almeida Junior: Se a busca por segurança é comum a toda forma de vida e, portanto, também para o homem; se a sociabilidade é inerente à natureza humana; se os pactos (negócios jurídicos), em seu sentido amplo, são manifestação de sociabilidade, o notário, ao conferir certeza aos contratos, harmoniza essas duas dimensões características de todo ser humano: a sociabilidade e a segurança. (ALMEIDA JUNIOR, 1963, p. XXI) Princípio da Imparcialidade O Princípio da Imparcialidade guarda íntima relação com o Princípio da Impes- soalidade, prescrito este entre os Princípios Gerais da Administração, indicados no caput do Artigo 37 de nossa Constituição Federal de 1988. Sobre o princípio da impessoalidade, aplicado à matéria de Direito Administrati- vo, vejamos o que entende Odete Medauar: Com o princípio da impessoalidade, a Constituição visa obstaculizar atua- ções geradas por antipatias, simpatias, objetivos de vingança, represálias, nepotismo, favorecimentos diversos, muito comuns em licitações, concur- sos públicos, exercício do poder de polícia. Busca, desse modo, que pre- domine o sentido de função, isto é, a ideia de que os poderes atribuídos finalizam-se ao interesse de toda a coletividade, portanto a resultados des- conectados de razões pessoais (MEDAUAR, 2016, E-book, Cap. 7). Nesse passo, aplicando esses entendimentos sob o restrito aspecto da impar- cialidade que deve ter o representante delegado nos Serviços Públicos Notariais e 14 15 Registrais, este deve manter-se alheio, no desempenho de suas atividades, a quais- quer posturas de caráter pessoal ou atinentes a qualquer uma das partes. Sendo assim, o agente delegado deve promover um tratamento igualitário, prestando a todos os esclarecimentos sobre os Atos praticados. As normas relativas aos Serviços Notariais e Registrais apresentam preceitos que se enquadram nesse princípio, como, por exemplo, o descrito no Artigo 27 da Lei dos Notários e Registradores: Art. 27. No serviço de que é titular, o notário e o registrador não pode- rão praticar, pessoalmente, qualquer ato de seu interesse, ou de interesse de seu cônjuge ou de parentes, na linha reta, ou na colateral, consanguí- neos ou afins, até o terceiro grau. Quando tratamos da imparcialidade ou da impessoalidade, não podemos dei- xar de observar que, no desempenho de suas Atividades Notariais ou Registrais, os agentes delegados não podem se deixar influenciar, seja pelas partes, seja por terceiros interessados. A imparcialidade deve ser entendida como a não sujeição ou vinculação a quais- quer imposições, a não ser as da Lei e das Decisões Fundamentadas emanadas pelo Poder Judiciário, ou seja, devem, esses agentes, seguir os limites impostos pela legalidade de seus atos, gozando de total independência para praticá-los. Princípio da Cautela Como já vimos, a finalidade dos Serviços Notariais e Registrais no Brasil são no sentido de sedimentar e se tornarem públicas as Relações e os Atos Jurídicos. Assim, devemos reconhecer a natureza preventiva desses serviços, pois eles não podem ser fundados em qualquer nível de incertezas, que possam de alguma forma provocar qualquer prejuízo a direitos das partes envolvidas nas Atividades Notariais e Registrais ou que possam atingir terceiros e, até mesmo, a própria coletividade. Sobre esse princípio, vejamos as palavras de Leonardo Brandelli, com relação aos deveres da atividade de um Notário ou Registrador, e a importância do ato que praticam, frente à necessidade de formar prova e assegurar direitos: [...] o notário ajusta juridicamente os negócios privados, de modo que es- tes venham a se enquadrar no ordenamento jurídico vigente, prevenindo que vícios futuros sejam apontados, bem como evitando, ao máximo, a instauração de lides sobre referida questão. (BRANDELLI, 2007, p. 131) Diante de tal princípio, cabe aos Notários e aos Registradores, antes de executa- rem Atos de sua competência, adotarem todas as medidas pertinentes, para tanto. Eles devem utilizar sua prática e seu conhecimento jurídico, evitando que sejam realizados Atos que possam causar qualquer espécie de nulidades e, consequente- mente, prejuízos aos envolvidos na relação jurídica registrada. 15 UNIDADE Desenvolvimento, Princípios e Responsabilidades da Atividade Notarial e Registral Sem dúvida, que as Notas e os Registros fundados em Fatos e em Normas Jurí- dicas sedimentam direitos subjetivos das partes envolvidas em tais atos, o que tem por escopo, também, minimizar a busca da jurisdição para solução de eventuais conflitos de interesse, vez que os direitos ficam provados pelos documentos e pelas certificações produzidas. Assim, o Princípio da Cautela, é reconhecido por certos doutrinadores como uma atividade precatória essencial à Administração da Justiça. Princípio da Tecnicidade Sem dúvida, ao dispor no Artigo 1º da Lei nº 8935/94, sobre as Atividades Téc- nicas Notariais e Registrais, o Legislador reconhece a presteza que deve existir, no efetivo exercício dessas atividades, associando tal situação ao Princípio da Cautela. Para tanto, os Atos emanados pelos agentes delegados devem ser desempenha- dos com a devida técnica, no sentido de sedimentar a vontade das partes, ou com o propósito de criar relações jurídicas entre pessoas; o certo é que em ambas assituações, o escopo de garantir estabilidade e harmonia social: Art. 1º Serviços notariais e de registro são os de organização técnica e administrativa destinados a garantir a publicidade, autenticidade, segu- rança e eficácia dos atos jurídicos (grifo nosso). Leonardo Brandelli, ao tratar da tecnicidade da Atividade Notarial, assim, reco- nhece esse princípio: A função a cargo do notário tem acentuado caráter técnico. É evidente que grande parte da atuação notarial depende de perfeição do tecnicis- mo, isto é, depende do conhecimento por parte do notário dos institutos jurídicos e dos modos de realização do direito, por meio de suas formas, fórmulas, conceitos e categorias (...) É evidente que para lograr tal intento, não bastará que o notário seja somente um conhecedor dos institutos jurí- dicos (o que deverá ser), necessitando que seja ainda um hábil manejador da arte de implementação na práxis destes institutos; precisará conhecer os meandros da materialização dos institutos jurídicos. (BRANDELLI, 2007, p. 137) Princípio Rogatório Tal princípio também é denominado, por alguns doutrinadores, Princípio da Primeira Instância. Esse princípio, no que concerne à Atividade Registral, reconhece que esta so- mente ocorre mediante provocação dos interessados, não cabendo atuação de ofí- cio por parte do Registrador. A Lei dos Registros Públicos menciona outras hipóteses, que não as de praxe, relativas à provocação das atividades desenvolvidas pelos agentes delegados. 16 17 Vejamos, então, o Artigo 13 da Lei dos Públicos (Lei nº 6015/73), quanto a tal mister: Art. 13. Salvo as anotações e as averbações obrigatórias, os atos do re- gistro serão praticados: I – por ordem judicial; II – a requerimento verbal ou escrito dos interessados; III – a requerimento do Ministério Público, quando a lei autorizar. Aquele que requer a anotação é o que detém o direito, valendo observar que o requerimento verbal não será aceito quando existir previsão legal que exija a forma escrita pública ou mesmo particular, como, por exemplo, prevê o Inciso I do Pará- grafo único do Artigo 5º do Código Civil: Art. 5º A menoridade cessa aos dezoito anos completos, quando a pes- soa fica habilitada à prática de todos os atos da vida civil. Parágrafo único. Cessará, para os menores, a incapacidade: I – pela concessão dos pais, ou de um deles na falta do outro, mediante instrumento público, independentemente de homologação judicial, ou por sentença do juiz, ouvido o tutor, se o menor tiver dezesseis anos completos; Tal, posicionamento com relação ao princípio rogatório terá a mesma aplicabili- dade com os Notários, que também devem atuar quando provocados. Responsabilidades do Notários e dos Registradores Com relação ao desempenho de suas Atividades, os Notariais e os Registradores estão sujeitos à responsabilização, segundo três Ramos do Direito: • Direito Civil; • Direito Penal; • Direito Administrativo. A questão dessa sujeição está inclusive descrita tanto na Constituição Federal, quanto na própria Lei dos Serviços Notariais e Registrais. Constituição Federal: Art. 236. Os serviços notariais e de registro são exercidos em caráter privado, por delegação do Poder Público. § 1º Lei regulará as atividades, disciplinará a responsabilidade civil e cri- minal dos notários, dos oficiais de registro e de seus prepostos, e definirá a fiscalização de seus atos pelo Poder Judiciário. 17 UNIDADE Desenvolvimento, Princípios e Responsabilidades da Atividade Notarial e Registral No tocante à Responsabilidade Civil, vejamos o que trata o Artigo 22 da Lei nº 8935/94: Art. 22 – Os notários e oficiais de registro responderão pelos danos que eles e seus prepostos causem a terceiros, na prática de atos próprios da serventia, assegurado aos primeiros direitos de regresso no caso de dolo ou culpa dos prepostos. A doutrina e a jurisprudência, tem estabelecido que a responsabilidade civil dos notariais e dos registrais é a denominada “responsabilidade civil objetiva”, ou seja, para que haja a obrigação deles de reparar o dano, bastará ficar demonstrada a conduta (ação ou omissão), a existência do “dano” e do “nexo de causalidade”, não se faz necessária a demonstração de culpa (dolo ou culpa no sentido estrito). Já com relação aos Prepostos, aos Notariais e aos Registrais, eles poderão ingres- sar com uma ação regressiva contra eles, mas, nessa hipótese, deve ficar evidente a demonstração de culpa do preposto, pois, aqui, a responsabilidade será subjetiva. Com relação a essa responsabilidade, destacamos, que será a mesma prevista para os Agentes Públicos, de modo geral, na conformidade do § 6º do Artigo 37 da Constituição Federal: Art. 37 [...] § 6º As pessoas jurídicas de direito público e as de direito privado pres- tadoras de serviços públicos responderão pelos danos que seus agentes, nessa qualidade, causarem a terceiros, assegurado o direito de regresso contra o responsável nos casos de dolo ou culpa. O entendimento jurisprudencial consolida essa interpretação. Para tanto, deve- mos apreciar parte do relatório emanado pelo Ministro Marco Aurélio de Mello, em razão do julgamento do Recurso Extraordinário – RE 201595-SP: RESPONSABILIDADE OBJETIVA – ESTADO – RECONHECIMENTO DE FIRMA – CARTÓRIO OFICIALIZADO. Responde o Estado pelos danos causados em razão de reconhecimento de firma considerada assi- natura falsa. Em se tratando de atividade cartorária exercida à luz do arti- go 236 da Constituição Federal, a responsabilidade objetiva é do notário, no que assume posição semelhante à das pessoas jurídicas de direito privado prestadoras de serviços públicos – § 6º do artigo 37 também da Carta da República. (RE 201595-SP, Relator(a): Min. Marco Aurélio) Quanto à responsabilidade criminal dos notáriais e dos registradores, como já mencionamos, possui previsão de caráter constitucional. Vejamos, então, como se enquadra o exercício das atividades desempenhas por esses agentes delegados, com relação à responsabilidade criminal, nos termos da Lei n. 8.935/94: Art. 24. A responsabilidade criminal será individualizada, aplicando-se, no que couber, a legislação relativa aos crimes contra a administração pública. Parágrafo único. A individualização prevista no caput não exime os notá- rios e os oficiais de registro de sua responsabilidade civil. 18 19 Desse modo, os Notariais e os Registrais estarão sujeitos a serem responsabiliza- dos, pela prática de crimes, como, por exemplo, os previstos no atual Código Penal Brasileiro, descritos entre os Artigos 312 a 326, que tratam dos “crimes praticados por funcionários públicos contra a administração em geral”. Um exemplo é o tipo penal descrito no Artigo 324, do mencionado Código Penal: Exercício funcional ilegalmente antecipado ou prolongado Art. 324 – Entrar no exercício de função pública antes de satisfeitas as exigências legais, ou continuar a exercê-la, sem autorização, depois de saber oficialmente que foi exonerado, removido, substituído ou suspenso: Pena – detenção, de quinze dias a um mês, ou multa. No tocante à responsabilidade administrativa, esta possui previsão das condutas que se enquadram como infrações de caráter administrativo, entre os Artigos 30 e 31 da Lei n. 8.935/94: • Inobservância das prescrições legais e normativas; • Conduta atentatória às instituições notariais e de registro; • Cobrança indevida ou excessiva de emolumentos, ainda que sob a alegação de urgência; • Violação do sigilo profissional e o descumprimento de quaisquer dos deveres decorrentes da função. Com relação a essas infrações, os delegatários estarão sujeitos às seguintes penas: • Repreensão; • Multa; • Suspensão; • Perda da delegação. Em razão de a competência fiscalizatória das Atividades Notariais e Registrais ser do Poder Judiciário, o Processo Administrativo Disciplinar também se dará jun- to a esse Poder, ressaltando que a responsabilidade administrativa somente atinge a figura dos Delegatários (Notariais e Registradores)não podendo ser imputadas aos prepostos que são submetidos ao regime celetista. 19 UNIDADE Desenvolvimento, Princípios e Responsabilidades da Atividade Notarial e Registral Material Complementar Indicações para saber mais sobre os assuntos abordados nesta Unidade: Leitura Estado é responsável civilmente por erros cartorários http://bit.ly/2AuKW6e Serventias extrajudiciais como instrumento de pacificação social https://bit.ly/2miI7Bf Constituição Federal de 1988 http://bit.ly/2LUKnti Do princípio da publicidade notarial e registral. Aspectos doutrinários e jurisprudenciais http://bit.ly/2AquAvv 20 21 Referências ALMEIDA JUNIOR, J. M. de A. J. Órgãos da Fé Pública. 2.ed. São Paulo: Sa- raiva, 1963. AMARAL, S. do. Falsidade Documental. São Paulo: Editora Revista dos Tribu- nais, 1989. ARAUJO, L. A. D. NUNES JÚNIOR, V. S. Curso de Direito Constitucional. 9.ed. São Paulo: Saraiva, 2005 BASTOS, C. R. Curso de Direito Constitucional. 2.ed. São Paulo: Saraiva, 2001. BRANDELLI, L. Teoria geral do Direito Notarial. São Paulo: Saraiva, 2007. BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil, de 5 out. 1988. Se- nado Federal. Disponível em: . ________. Lei n. 10.406, de 10 de janeiro de 2002. Código Civil. Disponível em: . ________. Lei n. 13105, de 16 de março de 2015. Código de Processo Civil. Disponível em: . ________. Lei n. 6015, de 31 de dezembro de 1973. Dispõe sobre os Registros públicos. Disponível em: . ________. Lei n. 8935, de 18 de novembro de 1994. Regulamenta o art. 236 da Constituição Federal, dispondo sobre serviços notariais e de registro. Disponível em: . CENEVIVA, W. Lei n. dos Notários e Registradores comentada. 18.ed. São Paulo: Saraiva, 2008. ________. Lei n. dos Notários e Registradores comentada. 4.ed. São CRETELLA JÚNIOR, J. Curso de Direito Administrativo. 12.ed. Rio de Janeiro: Forense, 2003. JUSTEN FILHO. M. Curso de Direito Administrativo. 13.ed. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2018 (E-Book). KELSEN, H. Teoria Geral do Direito e do Estado. 3.ed. Tradução de Luis Carlos Borges. São Paulo: Martins Fontes, 2000. LINS, C. M. de A. A Atividade Notarial e de Registro. Companhia Mundial de Publicações, 2009. MARTINS, C. apud SANDER, T. A Atividade Notarial e sua Regulamentação. Disponível em: . 21 UNIDADE Desenvolvimento, Princípios e Responsabilidades da Atividade Notarial e Registral MEDAUAR, O. Direito Administrativo. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2016 (E-Book). Paulo: Saraiva, 2002. PUGLIESE, R. J. Direito Notarial Brasileiro. São Paulo: LEUD, 1989. REALE, M. Lições Preliminares de Direito. 24.ed. São Paulo: Saraiva. 1998. SANTOS, M. S. 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