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ANÁLISE DA VIOLÊNCIA DOMÉSTICA E FAMILIAR INFANTO JUVENIL SOB A LEI HENRY BOREL Nº 14.344/22 LAMIN, Ana Beatriz FLORIANO, Lucas Carneiro RESUMO Este artigo apresenta dados de 2020 e 2021 sobre violência doméstica e familiar contra crianças e adolescentes, bem como uma revisão da literatura nacional sobre o tema. Os artigos disponibilizados pela UNICEF e Fórum Brasileiro de Segurança Pública compunham as principais fontes utilizadas junto das literaturas nacionais de Venosa, Serra, Madaleno, Dias e Gagliano e Filho. A violência intrafamiliar possui tolerância social, ou seja, são tratados de forma natural e como um meio de educação, sendo de extrema importância abordar a forma que a violência se perpetua no ambiente familiar visando a sua repressão. A violência é perpetuada de geração em geração de forma crônica resultando em alguns casos o óbito do ofendido, como ocorreu com Henry Borel Medeiros, que dá nome à Lei n. 14.344/2022. A Lei Henry Borel torna exequível os mecanismos para a prevenção e enfrentamento da violência doméstica e familiar contra crianças e adolescentes visando reduzir os índices de violências contra esta faixa da população. PALAVRAS-CHAVE: Abuso. Adolescentes. Crianças. Lei Henry Borel. Prevenção. Violência. ABSTRACT This article presents data from 2020 and 2021 on domestic and family violence against children and adolescents as well as a review of the national literature on the topic. The articles made available by UNICEF and Fórum Brasileiro de Segurança Pública were the main sources used along with the national literatures of Venosa, Serra, Madaleno, Dias and Gagliano e Filho. Intrafamily violence is socially tolerated that is it is treated in a natural way and as a means of education and it is extremely important to approach the way violence is perpetuated in the family environment aiming at its repression. Violence is perpetuated from generation to generation in a chronic way resulting in some cases in the death of the victim, as occurred with Henry Borel Medeiros who gave his name to Law n. 14.344/2022. The Henry Borel Law makes feasible the mechanisms for preventing and confronting domestic and family violence against children and adolescents, aiming to reduce the indices of violence against this population group. KEY-WORDS: Abuse. Adolescents. Children. Henry Borel Law. Prevention. Violence. 1. INTRODUÇÃO A proteção a crianças e adolescentes passou a ser versada a partir da Declaração dos Direitos da Criança de Genebra (1924), seguida da Declaração Universal dos Direitos da Criança (1959), entre outros, sendo que a Convenção Internacional sobre os Direitos da Criança, proposta pela ONU em 1989, detém grande importância, visto que ratificada pelo Brasil em 1991, através do Decreto Legislativo nº 28/1990. A Convenção Internacional sobre os Direitos da Criança consolida a teoria da proteção integral, que foi adotada pela Constituição Federal de 1988 e pelo Estatuto da Criança e do Adolescente de 1990. Diante do desenvolvimento físico, psicológico e moral das crianças e adolescentes, a teoria parte da ideia que é dever de todos assegurar pleno desenvolvimento, como bem prevê a Constituição Federal no artigo 227. Ainda que tenhamos essas previsões legislativas e tratados internacionais, vivemos em uma sociedade com extraordinária tolerância a episódios de violência contra crianças e adolescentes e apesar da implementação do Estatuto da Criança e do Adolescente e da Lei Menino Bernardo (conhecida, popularmente, como Lei da Palmada), a violência infanto juvenil ainda é banalizada, sendo certo que a sua extinção não é visível em um destino próximo. O caso do infante Henry Borel Medeiros paralisou o Brasil, sendo, inclusive, editada a Lei 14.344/22, que prevê mecanismos de prevenção e enfrentamento da violência doméstica e familiar contra crianças e adolescentes. Para tanto, o artigo aborda de que modo a violência se dá no ambiente intrafamiliar e o avanço legislativo ao longo dos anos, sendo redigido a partir do método de pesquisa bibliográfico, colecionando informações a partir de doutrinas e complementando com fontes primárias do direito. 2. DESENVOLVIMENTO FAMILIAR E RELAÇÕES DE PODER A família é, sem sombra de dúvida, o elemento propulsor de nossas maiores felicidades e, ao mesmo tempo, é na sua ambiência em que vivenciamos as nossas maiores angústias, frustrações, traumas e medos (GAGLIANO e FILHO, 2016, p. 40). Ainda, a Constituição Federal de 1998 define que a família é a base da sociedade, tendo especial proteção do Estado (art. 226 da CF/88), bem como é dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança, ao adolescente e ao jovem, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão, conforme estampado no art. 227. No mesmo caminho, a Constituição Federal de 1988 elenca diversos princípios constitucionais da família, sendo o princípio da dignidade humana o principal. Neste viés, esclarece Pereira (apud Dias, 2016, p.47), é o princípio maior, o mais universal de todos os princípios. É um macroprincípio do qual se irradiam todos os demais: liberdade, autonomia privada, cidadania, igualdade e solidariedade, uma coleção de princípios éticos. Ainda, nas palavras de Gama (ap;ud Dias, 2016, p.49), a dignidade da pessoa humana encontra na família o solo apropriado para florescer. A ordem constitucional dá-lhe especial proteção independentemente de sua origem. A multiplicação das entidades familiares - o afeto, a solidariedade, a união, o respeito, a confiança, o amor, o projeto de vida comum -, permitindo o pleno desenvolvimento pessoal e social de cada partícipe com base em ideais pluralistas, solidaristas, democráticos e humanistas. Toda esta explanação nos remete ao poder de família, que com todo o conhecimento que lhe é peculiar, Madaleno (2013, p 677) assim o define: A origem do poder familiar está na razão natural de os filhos necessitar da proteção e dos cuidados de seus pais, com absoluta dependência com o seu nascimento e reduzindo essa intensidade na medida de seu crescimento, desligando-se os filhos da potestade dos pais quando atingem a capacidade cronológica com a maioridade civil, ou através da sua emancipação pelos pais ou juiz no caso de tutela e para tanto ouvido o tutor (CC, art. 5, parágrafo único). No mesmo caminho, Mazzinghi (apud Madaleno, 2013, p. 678), o filho precisa da proteção e dos cuidados de seus pais porque precisa ser alimentado e educado pelos progenitores, e ele nasce indefeso e dependente, e assim permanece durante muito tempo, impedido de atender diretamente às suas necessidades pessoais. Aqui, é importante destacar que o poder familiar é exercido de forma igualitária entre o homem e a mulher, independente da formação da entidade familiar escolhida. O que ocorre é que os genitores utilizam os filhos como uma extensão de abuso, por muitas vezes não lidarem com as próprias frustrações e depositarem isso na prole. Os pais, por muitas vezes, passaram por uma infância violenta e lamentavelmente continuam reproduzindo os comportamentos violentos. Sob a visão do adulto, o comportamento violento “funciona”. De certo modo funciona, visto que gera uma obediência, porém, é uma obediência gerada pelo medo e não pelo respeito entre seres, sendo que o ambiente familiar é onde a criança deveria se sentir segura e acolhida. O comportamento violento não gera na criança consciência dos próprios atos tampouco a responsabilidade de lidar com eles. Esta aprendizagem consequente do medo traz diversos transtornos psicológicos. A educação punitiva é utilizada há muito tempo e vem sendo reproduzida, às vezes, de forma inconsciente, pois a pessoa que passou pelo mesmo na infância possui a visão de quetal comportamento direcionado à prole é “normal”. Importante destacar que a educação punitiva não é apenas a violência física, podendo ser praticada de outras formas, como: sendo impaciente, gritando, repreendendo, atribuindo xingamentos à criança. Buscasse mostrar que a violência física, por muitas vezes, pode decorrer de vários episódios como os citados anteriormente. A violência infanto juvenil é ignorada pois os adultos possuem a visão de que o intuito é educar, porém desconsideram que estes “pequenos” atos podem desencadear comportamentos mais violentos por parte dos genitores, como a violência física. Portanto, é necessário que haja mudança da visão social em relação ao que, de fato, significa educar. 3. VIOLÊNCIA As violências contra crianças e adolescentes são um fenômeno complexo e multifacetado, que está ligado a fatores culturais, sociais e econômicos. As violências são praticadas em qualquer contexto geográfico, em qualquer classe social, vitimam crianças e adolescentes de qualquer idade e, na maioria das vezes, partem de pessoas próximas e da confiança das crianças e adolescentes (UNICEF). A violência contra crianças e adolescentes, portanto, afeta toda a sociedade, seja direta ou indiretamente. E sendo crianças e adolescentes pessoas em peculiar condição de desenvolvimento, seus direitos devem ser garantidos com absoluta prioridade pela família, comunidade, sociedade e poder público. Isso significa que todos têm um papel fundamental na proteção de crianças e adolescentes contra as violências (UNICEF). A violência se dá, na maioria dos casos, no seio familiar, portanto denominada de violência intrafamiliar, e é cometida por familiares ou pessoas do convívio familiar. De acordo com Dias: (...) a Violência Intrafamiliar Infantil é definida como aquela que acontece dentro da família ou até mesmo no lar onde a criança convive; cometida por algum parente ou pessoas que tenham função parental, ainda que sem laço de consanguinidade, e pode ser caracterizada de formas diferentes como: física, psicológica, sexual e negligência (DIAS, 2014, p.134) Este tipo de violência normalmente possui o escopo de reprimir os desejos da criança ou adolescente e impor a vontade familiar através da autoridade que os genitores em tese possuem. Violência física e maus-tratos é um tipo de crime comum contra crianças e adolescentes. Casos como estes, além de sequelas e marcas que acompanham essas vítimas por toda a vida, com certa frequência se agravam e geram internações e mortes (FBS, 2022). O Anuário de Segurança Pública, demonstra o aumento da taxa de crimes de maus-tratos com vítimas de 0 a 17 anos por 100 mil habitantes variou de 29,8 para 36,1 entre 2020 e 2021, um aumento de 21,3% Enquanto em 2020 foram registrados, aproximadamente 15 mil casos, em 2021, foram 19 mil (FBS, 2022). Nota-se que houve uma evolução negativa no número de casos registrados referente à violência contra crianças e adolescentes e somente após a tragédia anunciada do menino Henry Borel é que os olhos se voltaram à prevenção de casos de violências, com a promulgação da Lei 14.344 de 24 de maio de 2022. 4. CASO HENRY BOREL Henry Borel Medeiros, de apenas 4 anos e 10 meses, veio a óbito na data de 08 de março de 2021, após dar entrada no Hospital Barra D`Or, no bairro da Tijuca na cidade do Rio de Janeiro/RJ. Conforme relato da equipe médica, o infante Henry estava em estado de parada cardiorrespiratória. Conforme relato da equipe médica e que se extrai do livro Caso Henry Morte Anunciada: Maria Cristina cortou a roupa de Henry para examiná-lo. O corpo de pele clara do menino estava gelado. Ela percebeu equimoses na região toracoabdominal supra pubiana (embaixo da barriga e acima do pênis). Viu lesões com as mesmas características – circunferências roxas de cerca de um centímetro cada – no antebraço esquerdo, próximas ao punho, e nas duas coxas, nas partes anterior e superior. Também chamou atenção uma escoriação no rosto, na altura do nariz. (...) Viviane observou que a criança apresentava palidez, com coloração azulada, por conta da oxigenação insuficiente do sangue. (...) Henry não respirava e seu coração não batia; a médica sequer conseguiu contar seu pulso periférico. (SERRA, 2021, p. 14) Após inúmeras tentativas de reanimação, a morte do infante foi confirmada às 5h42 do dia 08/03/2021. Ainda, conforme relatado no livro acima citado, após o óbito, a cardiologista e diretora operacional do Barra D’Or, sra. Taissa Coelho Rezende, em conversa com a pediatra Fabiana, concluíram que a morte seria suspeita e decidiram por não fornecer o atestado de óbito, sendo, portanto, que o corpo fosse encaminhado ao Instituto Médico Legal, já que não foi descoberta a causa da parada cardiorrespiratória. Ao fim do laudo da necropsia, concluiu-se como causa da morte “hemorragia interna e laceração no fígado provocada por ação contundente” (SERRA, 2021, p. 109). O médico responsável pelo laudo detectou diversas lesões, entre elas a infiltração hemorrágica no cérebro e trauma na contusão pulmonar. Ainda, este mesmo médico respondeu a sete quesitos formulados pela autoridade policial, sendo que em uma delas apontou que a morte se deu por ação contundente, pelo trauma hepático. Foi realizada a reprodução simulada dos fatos, que consiste em encenar, reproduzir a conduta delituosa da forma em que foi relatada. Durante a reconstituição da cena do crime e diante das perícias complementares realizadas no apartamento, o laudo pericial apontou que a suposta queda da cama que o infante sofrera em hipótese alguma produziria lesões externas e internas em diversas partes do corpo. Diante dos depoimentos dos suspeitos, de testemunhas e das provas colhidas, “os delegados acrescentaram que ficava evidente uma rotina de terror psicológico imposta por Jairinho a uma criança de apenas 4 anos”. (SERRA, 2021, p. 154) Após apurações preliminares, a genitora e o padrasto foram presos temporariamente na data de 08 de abril de 2021, apontados como suspeitos da morte do infante Henry Borel. O pedido da prisão foi necessário visto que ambos agiam de forma a obstruir as investigações do caso. Na data de 12 de abril de 2021 foi apresentado laudo pericial definitivo do caso. Conforme se extrai do livro Caso Henry Morte Anunciada: O legista Leonardo Tauil, do IML, foi novamente o responsável pelos exame complementares de necrópsia. Num documento de 15 páginas, em que respondeu a 16 questionamentos, o profissional descreveu 23 lesões no corpo da criança. Garantiu que não foram causadas por acidente doméstico e revelou que Henry morrey entre 23h30 de 7 de março e 3h30 da madrugada do dia 8, confirmando que o menino chegou sem vida ao hospital. (...) o perito explicou, por exemplo, que diferentes equimoses não podem ter sido causadas por uma única ação. Por isso, afirmou que elas eram “sugestivas de diversas ações contundentes e diversos graus de energia” (SERRA, 2021, p. 170) Conclusas as investigações, o Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro denunciou Monique e Jairo por tortura qualificada, homicídio triplamente qualificado, coação e fraude processual, sendo que a genitora foi também denunciada por falsidade ideológica. Jairo foi denunciado três vezes pelo crime de tortura devido a episódios distintos de violência contra o menor Henry, enquanto a genitora duas vezes pois manteve-se omissa. No dia 1º de novembro de 2022, Jairo e Monique foram pronunciados pela juíza Elizabeth Machado Louro, da 2ª Vara Criminal do Rio de Janeiro/RJ e titular do 2º Tribunal do Júri da Capital do Tribunal de Justiça Rio de Janeiro (TJ-RJ), acolhendo a denúncia realizada pelo Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro para julgar Jairo por homicídio triplamente qualificado com emprego de tortura, motivo torpe e impossibilidade de defesa da vitima, enquanto Monique será julgada por homicídio e omissão, contudo, ainda não há data designada para a realização do Tribunal do Júri, uma vezque os recursos interpostos pelos Réus estão pendentes de julgamento junto ao Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro. Desde que foram pronunciados, Monique foi afastada do cargo que exercia na Secretaria de Educação do Rio de Janeiro no dia 25 de janeiro de 2023 via Decreto Municipal publicado no Diário Oficial do Município, sendo que o afastamento será mantido até a conclusão do processo administrativo que a mesma responde. No que tange a Jairo, o Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio de Janeiro, de forma unânime, decidiu em 15 de março de 2023 pela cassação do registro de Jairo, ou seja, o mesmo está impedido de exercer a medicina em território nacional. 5. PROTEÇÃO TARDIA O artigo 227 da Constituição Federal contém regras destinadas à proteção das crianças e dos adolescentes e são disposições havidas como direitos fundamentais, tal qual o artigo 227, §6, também da Carta Política, proíbe qualquer discriminação entre os filhos, e o artigo 229, ainda da Carta Federal, dispõe terem os pais o dever de assistir, criar, e educar os filhos menores, numa clara percepção de constitucionalização do Direito de Família e de atenção ao princípio da proteção integral e do melhor interesse da criança (MADALENO, 2013, p. 100). Diante da disposição Constitucional, crianças e adolescentes gozam de proteção total, uma vez que o artigo 227 da CF prevê que aos mesmos a plena proteção, ou seja, “os pais e mães, devem propiciar o acesso aos adequados meios de promoção moral, material e espiritual das crianças e dos adolescentes viventes em seu meio.” (GAGLIANO e FILHO, 2016, p. 102). Para Paulo Lôbo (apud, DIAS, 2016, p. 53), o princípio da proteção integral não é uma recomendação ética, mas diretriz determinante nas relações da criança e do adolescente com seus pais, com sua família, com a sociedade e com o Estado. Desta forma seria inconcebível admitir pudesse qualquer decisão envolvendo os interesses de crianças e adolescentes fazer tábula rasa do princípio dos seus melhores interesses, reputando-se inconstitucional a aplicação circunstancial de qualquer norma ou decisão judicial que desrespeite os interesses prevalentes da criança e do adolescente recepcionados pela Carta Federal (Madaleno, 2016, p. 100). No decorrer dos anos, em 13 de julho de 1990, foi promulgado o Estatuto da Criança e do Adolescente, o qual reforça a previsão constitucional no que tange a proteção integral da criança e adolescente. O Estatuto, em que pese apresente diversas medidas de proteção em seu Título II - Capítulo II, fato é que ao longo dos anos a violência contra criança e adolescente continuava, inclusive, com casos de grande repercussão nacional, a exemplo do caso do menino Henry Borel. Um retrato desse panorama é que, “entre 2016 e 2020, 35 mil crianças e adolescentes de 0 a 19 anos foram mortos de forma violenta no Brasil – uma média de 7 mil por ano. Além disso, de 2017 a 2020, 180 mil sofreram violência sexual – uma média de 45 mil por ano. É o que revela o Panorama da Violência Letal e Sexual contra Crianças e Adolescentes no Brasil, lançado nesta sexta-feira pelo UNICEF e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), com uma análise inédita dos boletins de ocorrência das 27 unidades da Federação” (UNICEF, 2021). É válido destacar que em muitas ocasiões o agressor é alguém próximo ou da própria família, “a maioria das violações é praticada por pessoas próximas ao convívio familiar. A mãe aparece como a principal violadora, com 15.285 denúncias; seguido pelo pai, com 5.861; padrasto/madrasta, com 2.664; e outros familiares, com 1.636 registros. Os relatos feitos para a ONDH são, em grande parte, de denúncias anônimas, cerca de 25 mil do total” (GOV.BR, 2021). Nota-se que a violência contra criança e adolescente é um problema crônico na sociedade, pois mesmo com a Constituição e o Estatuto da Criança e do Adolescente em vigor, a violência não teve fim e tão pouco viu seus índices diminuírem, muito pelo contrário, os índices aumentam a cada ano. Desta forma, com a promulgação da Lei n. 14.344/2022 (Lei Henry Borel) a qual realizou diversas alterações em legislações no âmbito penal e no próprio Estatuto da Criança e do Adolescente, visando enrijecer às penas previstas aos agressores, as quais serão tratadas no tópico seguinte, fez reacender a chama da esperança de que os índices de violência contra esta classe venha a ruir. 6. AVANÇO LEGISLATIVO Antes da promulgação da Lei Henry Borel a violência contra crianças e adolescentes ficava “restrita” aos maus tratos, delito tipificado no artigo 136 do Código Penal. As mudanças surgiram com a Lei n. 9.455/97, que definiu como crime de tortura a conduta de submeter alguém, sob sua guarda, poder ou autoridade, com emprego de violência ou grave ameaça, a intenso sofrimento físico ou mental, como forma de aplicar castigo pessoal ou medida de caráter preventivo (artigo 1º, inciso II). Nota-se que, ao longo dos anos, as legislações no âmbito penal sofreram diversas alterações com o intuito de garantir maior segurança à criança e ao adolescente, contudo, a violência tornou-se mais frequente, uma vez que ainda não eram contundentes, demonstrando certa impunidade. Apesar da existência do Estatuto da Criança e do Adolescente e da Lei Menino Bernardo (conhecida popularmente como Lei da Palmada), estes dispositivos abordam a violência infanto juvenil de modo superficial, não apresentando mecanismos eficientes para a devida proteção. Assim, com a entrada em vigor da Lei Henry Borel, legislação específica sobre a violência contra crianças e adolescentes, esta classe vulnerável da sociedade pode ser considerada protegida pela legislação, visto que possui mecanismos aptos a isto. A Lei n. 14.344/2022 (Lei Henry Borel) apresenta novos mecanismos para prevenção e enfrentamento da violência doméstica e familiar contra criança e adolescente, estabelecendo novo sistema de garantia de direitos a eles e também às testemunhas de violência. A lei trouxe alterações para outros dispositivos legais, como o Estatuto da Criança e do Adolescente, incluindo programas para o fortalecimento da parentalidade positiva. Com relação às alterações realizadas no âmbito do Estatuto da Criança e do Adolescente, tem-se que as três esferas do governo devem atuar em conjunto, promovendo campanhas educativas e capacitando profissionais da educação, conselho tutelar e policiais para que passem a identificar sinais de agressão de forma ágil, com o intuito de prevenir futuros danos ao agredido. Com a promulgação da Lei n. 14.344/2022, o homicídio praticado contra menores de 14 anos passou a ser considerado crime hediondo, portanto inafiançável e não podendo ser concedida anistia, indulto ou graça. Ainda, a contagem da prescrição inicia-se quando a criança ou adolescente completar 18 anos. Em paralelismo com a Lei Maria da Penha, a Lei Henry Borel também dispõe sobre a aplicação de medidas protetivas de urgência, o que será abordado em tópico à parte. No mesmo caminho, em casos onde há iminente risco à integridade física da criança ou adolescente, o agressor deverá de imediato ter o seu afastamento concedido pelo juiz, como previsto no artigo 16 da Lei n. 14.344/2022. Durante o inquérito policial ou instrução criminal, o agressor poderá ser recolhido preventivamente, devendo o representante do agredido ser comunicado tanto do recolhimento quanto da liberação do agressor, conforme previsão do artigo 18 da lei acima mencionada. Ainda, a Lei Henry Borel atribui o dever de denunciar a violência a todo aquele que tenha ciência do ocorrido, seja presencialmente ou não, em local público ou privado, sob pena de responder por omissão e se condenada cumprir pena de detenção de 6 meses a 3 anos, resguardado a possibilidade do caso concreto possuir agravante e majorar o período. No mesmo caminho, o artigo 226, § 1º e § 2º, prevê que os crimes cometidos contra crianças e adolescentes, independente dapena prevista, não caberá a utilização da Lei nº 9.099/1995 (Lei dos Juizados Cíveis e Criminais), bem como que as penas aplicáveis não podem ser fixadas em cesta básica, prestação pecuniária ou ser aplicada a substituição de pena para pagamento isolado de multa. No âmbito civil, as alterações ficaram restritas ao Estatuto da Criança e do Adolescente, apresentando, em especial, novas atribuições ao Conselho Tutelar e novas ações de prevenções, com destaques para o artigo 70-A, inciso XI, que apresenta a seguinte redação: XI - a capacitação permanente das Polícias Civil e Militar, da Guarda Municipal, do Corpo de Bombeiros, dos profissionais nas escolas, dos Conselhos Tutelares e dos profissionais pertencentes aos órgãos e às áreas referidos no inciso II deste caput, para que identifiquem situações em que crianças e adolescentes vivenciam violência e agressões no âmbito familiar ou institucional; O destaque do inciso acima citado ocorre pelo fato de prever a capacitação, entre outras classes, dos profissionais que atuam nas escolas para que os mesmos consigam identificar os casos de violência, sendo certo que estes profissionais por conseguirem manter um contato constante com a classe violentada, poderá agir com uma maior celeridade para cessar a progressão da violência eventualmente sofrida pelas crianças e adolescentes. 6.1 Medidas Protetivas de Urgência Em consonância com a Lei Maria da Penha, há previsão de medidas protetivas de urgência para crianças e adolescentes na Lei Henry Borel, podendo ser concedidas a requerimento do Delegado de Polícia, do Ministério Público, do Conselho Tutelar ou a pedido de pessoa que atue em favor destas vítimas, como prevê os artigos 15 e 16 da Lei n. 14.344/2022. Em comparação com as medidas cautelares criminais, Rogério Sanches Cunha e Thiago Pierobom de Ávila pontuam que: As medidas protetivas de urgência podem ser concedidas independentemente da configuração criminal do ato de violência. Esta possibilidade é especialmente relevante para atos de violência psicológica que não tenham imediata correspondência criminal, mas que certamente constituem-se em ato jurídico ilícito, que gera uma obrigação de fazer ou não fazer pelo autor da violência, no sentido de abster-se de atos que elevem o risco de reiteração da violência, bem como de fazer determinadas condutas que reduzam este risco (como o comparecimento a programas reflexivos). (CUNHA e ÁVILA, 2023, p. 132). Ainda, conforme o art. 25, §1ª da Lei Henry Borel, as medidas não se limitam ao juízo criminal, ou seja, podem ser concedidas pelo juízo cível. Pode-se acrescentar que: (...) as medidas protetivas de urgência são guiadas pelo princípio da precaução e pela lógica in dubio pro tutela. (...) Se o relato da vítima já traz a verossimilhança da alegação da situação de violência, há que se privilegiar a proteção. Cria-se uma verdadeira inversão do ônus da prova ao suposto ofensor. Exatamente por estas razões é que a concessão de medida protetiva de urgência não pode ter efeitos deletérios permanentes sobre o suposto ofensor (como, v.g., impedir posse em concurso público), porque ela não exige um juízo de certeza, mas de mera possibilidade razoável. (CUNHA e ÁVILA, 2023, p. 133) Em relação à concessão de ofício das medidas, há divergência doutrinária. A primeira corrente entende que é necessária a provocação do juízo, enquanto a segunda entende que o juiz pode conceder de ofício pois trata-se de uma medida de natureza protetiva e não punitiva. (...) uma vez sendo o juiz comunicado da situação de violência, nos limites de sua competência territorial e ratione materiae, ele possui o poder-dever de zelar pela melhor proteção à criança e adolescente, podendo, para tanto, deferir outras medidas protetivas de urgência, ainda que diversas das que foram inicialmente solicitadas. (CUNHA e ÁVILA, 2023, p. 140) As medidas protetivas estão previstas no art. 20 da Lei n. 14.344/2022 e nele estão elencadas: I - a suspensão da posse ou a restrição do porte de armas, com comunicação ao órgão competente, nos termos da Lei nº 10.826, de 22 de dezembro de 2003; II - o afastamento do lar, do domicílio ou do local de convivência com a vítima; III - a proibição de aproximação da vítima, de seus familiares, das testemunhas e de noticiantes ou denunciantes, com a fixação do limite mínimo de distância entre estes e o agressor; IV - a vedação de contato com a vítima, com seus familiares, com testemunhas e com noticiantes ou denunciantes, por qualquer meio de comunicação; V - a proibição de frequentação de determinados lugares a fim de preservar a integridade física e psicológica da criança ou do adolescente, respeitadas as disposições da Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990 (Estatuto da Criança e do Adolescente); VI - a restrição ou a suspensão de visitas à criança ou ao adolescente; VII - a prestação de alimentos provisionais ou provisórios; VIII - o comparecimento a programas de recuperação e reeducação; IX - o acompanhamento psicossocial, por meio de atendimento individual e/ou em grupo de apoio. 6.2 Dever de Comunicação No art. 227 da Constituição Federal, o legislador atribuiu à família, à sociedade e ao Estado o dever de assegurar à criança, ao adolescente e ao jovem o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, entre outros. Ainda, o Estado assumiu obrigações internacionais, devendo adotar medidas que garantam os direitos humanos das crianças, dos adolescentes e dos jovens. Há um serviço denominado Disque Direitos Humanos - Disque 100 para denunciar casos de violação de direitos humanos, sendo que estas denúncias são repassadas para as autoridades competentes. O descumprimento deste dever de comunicação pode configurar o delito previsto no art. 26 da Lei n. 14.344/2022: Art. 26. Deixar de comunicar à autoridade pública a prática de violência, de tratamento cruel ou degradante ou de formas violentas de educação, correção ou disciplina contra criança ou adolescente ou o abandono de incapaz: Pena - detenção, de 6 (seis) meses a 3 (três) anos. Como bem pontuado na obra de Rogério Sanches Cunha e Thiago Pierobom de Ávila (p. 217), “trata-se de crime omissivo próprio e, por consequência, de mera conduta e unissubsistente.” 7. CONCLUSÃO Apesar de diversas previsões legislativas e tratados internacionais, a violência intrafamiliar contra crianças e adolescentes ainda é muito presente. Apesar da implementação do Estatuto da Criança e do Adolescente e da Lei Menino Bernardo, a proteção não se dava de forma adequada, tampouco apresentava mecanismos para coibir a violência. Infelizmente, ocorreu uma vez mais um episódio de violência que repercutiu, sendo posteriormente editada a Lei n. 14.344/2022 (Lei Henry Borel), prevendo mecanismos de prevenção e enfrentamento da violência doméstica e familiar contra crianças e adolescentes. Diante do que foi apresentado ao longo do artigo, permite-se concluir que a violência intrafamiliar é estrutural e que se prolonga durante as gerações, já que é vista como uma maneira de educar e impor respeito. A evidência disso é a proteção legislativa tardia, que apenas após o Caso Henry Borel tornou factível o acolhimento necessário, prevendo mecanismos para a prevenção e enfrentamento. Com a edição da Lei Henry Borel, que busca prevenir e coibir novos casos, a expectativa é que o número de casos diminua. REFERÊNCIAS: ARAÚJO, Thayana. Vereador Dr. Jairinho e mãe do menino Henry são presos no Rio de Janeiro. CNN Brasil, Rio de Janeiro, 08/04/2021. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/vereador-dr-jairinho-e-mae-do-menino-henry-sa o-presos-no-rio-de-janeiro. Acesso em: 01/04/2023. AVELAR, Michael Procopio. Aspectos penais da Lei n. 14.344/2022, a Lei Henry Borel. Estratégia. Disponível em: https://www.estrategiaconcursos.com.br/blog/1062463-2/ Acesso em: 23/04/2023. BRASIL. Agência Senado. Sancionada Lei Henry Borel, que torna homicídio de criança em crime hediondo. [Brasília]: Senado Federal, 25 mai. 2022. Disponívelem:https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2022/05/25/sancionada-lei-henry-bo rel-que-torna-homicidio-de-crianca-crime-hediondo Acesso em: 08/04/2023. BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988, de 05 de outubro de 1988. Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, ano 191-A, p. 1. BRASIL. Lei nº 14.344, de 24 de maio de 2022. Cria mecanismos para a prevenção e o enfrentamento da violência doméstica e familiar contra a criança e o adolescente, nos termos do § 8º do art. 226 e do § 4º do art. 227 da Constituição Federal e das disposições específicas previstas em tratados, convenções ou acordos internacionais de que o Brasil seja parte; altera o Decreto-Lei nº 2.848, de 7 de dezembro de 1940 (Código Penal), e as Leis nºs 7.210, de 11 de julho de 1984 (Lei de Execução Penal), 8.069, de 13 de julho de 1990 (Estatuto da Criança e do Adolescente), 8.072, de 25 de julho de 1990 (Lei de Crimes Hediondos), e 13.431, de 4 de abril de 2017, que estabelece o sistema de garantia de direitos da criança e do adolescente vítima ou testemunha de violência; e dá outras providências. Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, ed. 98, p. 1. BRASIL. Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990. Dispõe sobre o ESTATUTO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE, e dá outras providências. 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