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Resumo – Psicanálise – NP2 Desenvolvimento Emocional Primitivo de Winnicott – O que acontece com o bebê com 0-5 anos de vida? Para Winnicott, a partir dos 6 meses, pode-se dizer que o bebê já é capaz de mostrar, através do seu brincar, que ele compreende que tem um mundo interior, e que as coisas vêm do exterior. O bebê já construiu uma noção de realidade; diferenciação primitiva entre seu mundo interior e o mundo exterior. Winnicott considerava as contribuições de Klein sobre relações de objeto. Ele afirma que existem três processos que ocorrem muito cedo: integração, personalização e realização. A integração é dada quando dois eixos confirmam a sua tendência: a técnica de cuidados do bebê e aglutinação das experiências instintivas na personalidade. Klein diz que o bebê já nasce com um protótipo de ego (ego arcaico). Winnicott discorda, ele diz que o ego ainda vai ser construído a partir da relação com a mãe (0-5 meses). Personalização é a experiência instintiva e a reiteração das silenciosas experiências que os cuidados constroem de forma gradual. A psicose está ligada à um retardamento desta personalização. Os cuidados com o bebê fazem com que ele organize seus instintos. Exemplo de despersonalização: presença de amigos imaginários na infância; revelam outros eus da criança. Quando há fixação da criança, podemos supor que esse desenvolvimento está ocorrendo de maneira não esperada. Realização: apreciação do tempo e espaço, conhecimento da realidade. Está relacionado ao corpo localizado no self. Indica tomada de consciência de que o fenômeno não é produzido pela sua imaginação. Todos possuímos tendências à integração, porém essa tendência somente se confirmará com o ambiente cuidador. Quando a integração é falha ou parcial, há dissociação. A integração carrega a conquista de adaptação à realidade, um relacionamento primário com a realidade externa. Na experiência compartilhada da amamentação (vontades predatórias do bebê em relação ao seio e o desejo da mãe de amamentar), a mãe fornece ao bebê pequenos pedaços da realidade. A fantasia é mais primária que a realidade, que pode ser enriquecida com experiências da realidade pela ilusão. No caso das psicoses, existe uma regressão e o objeto existe quando desejado e desaparece quando não desejado. Para que a ilusão se estabeleça, o adulto deve apresentar a realidade ao bebê em pequenas porções, de modo adequado às suas necessidades. Winnicott diz que este desenvolvimento possui uma fase onde predomina a ausência primitiva de compaixão, antes que o bebê possa considerar o ambiente. Ele também estabelece a retaliação primitiva como um momento primário da vida do bebê, que precede a realidade e atribui ao objeto seu aspecto de retaliação. O objeto e os instintos do bebê estão emaranhados, onde o ambiente é ele mesmo. Isso está demonstrado na ambivalência entre amor e ódio quando o bebê chupada o dedo (prazer e desprazer). Ao invés de atacar o objeto, o ato de sugar o dedo simboliza o retorno do impulso ao eu (inversão da pulsão). Ilustra uma defesa contra a perda do controle sob o objeto externo. Winnicott aponta condições ambientais que favorecem a saúde mental e o desenvolvimento. O desenvolvimento ocorre numa soma entre as tendências inatas e um ambiente que provenha condições que estejam adaptadas as necessidades específicas. Graus de dependência: Dependência extrema; Dependência; Mesclas de dependência e independência; Independência-dependência; Independência; Sentido social. Winnicott considera fatores hereditários. Desenvolvimento: vida instintiva (ID) e personalidade. O desenvolvimento da personalidade abrange fenômenos essenciais quando se pensa em saúde mental do sujeito. Se o ambiente falhar em prover as condições para o desenvolvimento do ego (organização dos instintos) teremos condições mais severas de regressão e saúde mental. O bebê nasce desintegrado, não constituído. Para Winnicott, o desenvolvimento emocional está estritamente ligado a um princípio, a saber, de que o bebê não constitui uma unidade em si mesmo ou se é possível falar em unidade; ela se constitui como uma organização entre o indivíduo e o meio ambiente, inicialmente representado pela mãe. Este ambiente seria facilitador na medida em que provê cuidados ao bebê que serão a base da saúde mental. Realidade subjetiva: primeira construção do bebê, primeira noção de realidade, meio ambiente pessoal; entende a realidade criada como algo dele para ele. Todos nascemos na dependência, em rumo a independência. A condição disso acontecer ou não depende do ambiente, para uma organização própria de si mesmo (unidade integrada), do self. O papel da mãe é ser um ego auxiliar, ajudar o bebê a formar o seu si mesmo, eventualmente o seu eu; é ser um ambiente facilitador da criança com os objetos subjetivos. O bebê depende da adaptação de uma mãe suficientemente boa. Para Winnicott, a primeira relação de objeto é uma relação unificada mãe- bebê, formam uma unidade, simbiose. A mãe suficientemente boa protege das angústias impensáveis, aquelas que ocorrem nos estágios precoces do desenvolvimento, numa etapa em que o bebê não tem capacidade para compreender. Por meio da preocupação materna primária, a mãe consegue criar as condições dos desdobramentos do desenvolvimento. Ela vai suprir as necessidades do bebê e vai fazer com que ele se integre, que passe pelas 3 tarefas fundamentais. É necessário que a mãe tenha apoio para suportar, o parceiro tem um papel ativo e fundamental na constituição do ambiente ativo e facilitador. Primeira função materna: apresentação do objeto, oferta do seio nos momentos certos, dando a infusão ao bebê que ele é onipotente e criou o objeto; incorpora elementos reais do seio na sua alucinação. Segunda função materna: holding, sustentação, ação em que a mãe protege o bebê dos perigos pelos cuidados cotidianos, a mãe sustenta o bebê física e psicologicamente. Terceira função materna: handling, refere-se à manipulação do bebê enquanto ele é cuidado. É necessário que a mãe sinta raiva de ser mãe, para criar uma distância necessária para o bebê. Essa distância propicia um tempo de espera fundamental para o desenvolvimento. O bebê cria a capacidade de esperar se os cuidados na dependência absoluta forem suficientemente introjetados. O bebê tem confiança que a mãe vai aparecer e consegue suportar a espera. Esse especial trabalho de memória, registro de trabalhos recebidos, relativizando a dependência em relação ao meio, não se trata de rompimento e sim de um contato em rumo a independência. Distância gradual e não abrupta. Objeto transicional – ajuda a sustentar a desaptação da mãe. Dependência absoluta – bebê totalmente dependente da mãe, três tarefas, habita no mundo subjetivo criado por ele. Dependência relativa – o bebê deixa a ilusão de onipotência, mas conserva a ilusão básica. Bebê precisa lidar com as lacunas deixadas pela mãe, provendo amadurecimento (transicionalidade). Independência relativa – a criança estabelece contato com a realidade, sabe diferenciar o eu do não-eu. Conserva a internalização do ambiente dentro de si. Para Winnicott, a agressividade é inata, se integra a condição humanas de estar vivo. Se o bebê não tiver agressividade ao seio, ele não vive, a agressividade como função de sobrevivência. O papel do ambiente é de sustentar a agressividade do bebê. Só virá a desenvolver se ele puder experienciar essa agressividade na infância. Os impulsos agressivos devem ser integrados. Quando a integração não é possível, em função da mãe não estabelecer a fusão, essa agressividade será escondida pela timidez e autocontrole, ou negada, ou se manifestar na compulsão à destruição, comportamento antissocial. É necessário que a agressividade seja vivida, para aprender a repararé preciso aprender a destruir, para sentir culpa. A agressividade surge inicialmente como um impulso no bebê, impossibilidade de reconhecer amor e ódio. A criança só vai se sentir culpada quando ela estabelecer uma diferenciação entre eu e outro (o que eu faço provoca um efeito real no outro). Após o ego que a criança passa a sentir raiva perante às frustrações. Tendência antissocial não é um diagnóstico, pode ser encontrada em qualquer indivíduo de qualquer idade. Fenômeno Transicional e Espaço Potencial No estágio do uso do objeto a criança percebe objetos e uso como algo externo. O bebê passa a considerar o objeto como uma coisa em si mesma, externa e separada dela. Os fenômenos transicionais estão entre o sentido pessoal da existência e a realidade externa, e começam a ocorrer quando tem início o processo de desilusão. Ser capaz de eleger o objeto transicional indica por si só que algo da realidade objetiva foi introduzido vagarosamente na realidade subjetiva, especificamente na área da onipotência da criança. A origem dos fenômenos transicionais e do objeto transicional está no paradoxo de que ele foi criado pelo bebê quando foi oferecido pela mãe. Por ter sua origem em seu mundo subjetivo, no fenômeno da ilusão, e por estar sob controle do bebê, este objeto parece ter vitalidade própria. O objeto transicional também sofre os taques instintuais do bebê, mas sobrevive a eles. O OT é um objeto específico do qual a criança se apega, que possui certas características, muitas vezes a criança se recusa em larga-lo, pois transmite segurança. O objeto é tratado tanto com carinho quanto com brutalidade. O cheiro é muito importante, e o OT se torna indispensável nos momentos de solidão, tensão, inquietação e na hora de dormir. A criança se relaciona com o OT com a finalidade de transitar entre o mundo dos objetos subjetivos criados por ela no estágio de dependência absoluta e o mundo dos objetos objetivos descobertos por ela no estágio da dependência relativa. Os OTs representam uma etapa do desenvolvimento, a transição entre o subjetivo mundo interno e imaginário do bebê para o mundo real e objetivo. O OT é ao mesmo tempo criado pelo bebê e fornecido pelo ambiente; é algo que existe entre o mundo subjetivo e objetivo. O OT não é esquecido e não há luto por ele, o objeto perde o sentido. Podemos dizer que os fenômenos transicionais “representam” a mãe, é essencial que ela seja vivenciada como um objeto bom. Para transitar nesses mundos (subj. e objt.) é preciso que a criança crie o mundo transicional e tenha tempo suficiente para estabelecer sua criação e sua conquista segura pelo cuidado materno, que, por sua vez, precisa permanecer sustentando a continuidade desse processo. Ao conquistar etapas de seu desenvolvimento, o bebê sai do mundo subjetivamente concebido para o mundo objetivamente percebido. Essa passagem é sustentada pela ilusão da onipotência, a qual possibilita a instauração de confiança para com o ambiente. Para Winnicott, o espaço potencial é o lugar específico de um processo que acontece no indivíduo, iniciando-se em uma área intermediária. Com seus fenômenos e OTs, evolui para o brincar, para o brincar compartilhado e para as experiências culturais. O EP é uma área entre o interno e o externo, entre o subjetivo e o objetivo. O que está dentro está livre de comprovação, livre da tarefa de discriminar entre fato e fantasia. É uma área de descanso, é um lugar a partir do qual o indivíduo pode viver sua existência. “Área de descanso” porque durante toda nossa vida estamos diante da tarefa de precisar separar a realidade externa da realidade interna. E, é a transicionalidade que permite essa “área de descanso”, em que não temos que separar o que é de dentro e o que é de fora. Através da transicionalidade que existe uma tentativa de recuperar a ilusão que passou a perder. Não é o objeto que é transicional, ele representa a transição do bebê de um estado de fusão com a mãe para o relacionamento de objeto externa. No fenômeno transicional essa função de separar e juntar é também uma defesa contra a ansiedade depressiva. Ao viver os fenômenos transicionais, o bebê está criando seus alicerces para viver outras relações no decorrer da vida. Através do OT, o bebê passa a adquirir a capacidade de distinguir fantasia e fato, de simbolizar, de brincar, e, quando alcançar um estágio de maior integração do ego, ter acesso à cultura. O EP, por se localizar no terreno do mistério, constitui uma base propícia para o surgimento de toda a vida cultural do indivíduo, Gradativamente, o OT vai perdendo seu significado, diluindo-se nos fenômenos entre a realidade psíquica interna e a realidade objetiva, abrangendo e se manifestando nos fenômenos culturais. Seu destino é a ampliação, enriquecimento do mundo interno do bebê rumo ao amadurecimento. Falso e verdadeiro Self O verdadeiro self descreve um senso de si baseado na experiência autêntica, na sensação de estar vivo, de possuir um self real. Já o falso self, Winnicott observava como uma fachada defensiva, que em casos extremos apresentavam-se sem espontaneidade nenhuma, aludindo sentir mortos e vazios, atrás de uma mera aparência de ser real. Teoria do falso self: devido as falhas ambientais, a criança se submete às exigências dos pais e não desenvolve seu self verdadeiro, vivenciando uma vida “como se”. Na vida adulta surge nessas pessoas um sentimento de vazio e de futilidade, a pessoa se sente uma farsa. O falso self patológico, síndrome de despersonalização, é comumente encontrado em quadros psicopatológicos depressivos e borderline. Para Winnicott, os motivos dos adultos adoecerem psicologicamente está comumente atrelado ao fato de que, nos primeiros anos de vida lhe foi negado a possibilidade de ser si mesmo; não foi permitido ser difícil, agressivo, intolerante, egoísta como precisa ser. Para o autor, um desenvolvimento saudável requer a experiência de um período em que a criança não precisa se preocupar com os sentimentos e opiniões daqueles que cuidam dele. O verdadeiro self da criança em seus estágios primitivos é de natureza associal e amoral. Se um sujeito se sente autêntico como adulto, então deve ter vivenciado existir de modo verdadeiro de exigir atenção, pontapés, gritos e mordidas na raiva. O verdadeiro eu da criança tem que despojar da possibilidade de destruir os pais quando enfurecida e, posteriormente, testemunhar que eles sobreviveram. Isso garante para a criança um sentido de vida; um reconforto que o mundo não morre com seus desejos destrutivos. Quando o ambiente consegue sustentar a criança, gradualmente, a criança também desenvolve um falso self, no sentido de criar a capacidade de se comportar de acordo com as exigências da realidade externa, permitindo que a criança se submeta às regras escolares e se torne um adulto com uma vida profissional. Quando é sustentado pela possibilidade do verdadeiro self, a criança não precisa insurgir e manifestar necessidades constantemente. Ela segue a regra, porque, durante algum tempo pode ignorá-las inteiramente. Quando a criança não despoja da possibilidade de sua espontaneidade, como ausência do ambiente favorável, a criança cumpre obediências cedo demais, congelando a autenticidade. Para Winnicott, a mãe suficientemente boa é aquela que vai de encontro com os gestos espontâneos do bebê, proporcionando a ilusão do mundo mágico a ele. O conceito de verdadeiro self remeteria aos rudimentos – antes de haver uma separação entre interior e exterior – do que posteriormente constitui a realidade interna da criança. Winnicott via o verdadeiro self como enraizado desde a primeira infância na experiência de estar vivo, como o bombeamento de sangue e a respiração pulmonar, simplesmente ser/existir. A partir disso, o bebê cria a experiência deum senso de realidade, um sentimento de que vale a pena viver. Os gestos espontâneos e não verbais do bebê derivam desse sentido instintivo e, se respondidos pela mãe, tornam-se a base para o desenvolvimento contínuo do verdadeiro self. O verdadeiro self refere-se ao gesto espontâneo da criança, ou seja, o conjunto de expressões criativas do bebê desde o início da vida. Uma mãe suficientemente boa buscaria, em certa medida, se adaptar a estes gestos. Espontaneidade ≠ Reatividade Espontaneidade – impulsos que surgem no interior do bebê. Reatividade – reações do bebê ao ambiente, aos gestos da mãe. Quando a mãe não tem capacidade de compreender e satisfazer as necessidades da criança, ela passa a se submeter a mãe para sobreviver. Nesse caso, a mãe impõe ao bebê a sua própria gestão, submetendo-o ao que começa a ser um falso self. O falso self, por sua vez, aludiria a uma organização decorrente das ameaças ao verdadeiro self. Quando a função materna não é suficientemente boa, o gesto espontâneo do bebê não é continuado, sendo este submetido à necessidade de se adaptar ao ambiente. Assim, em um ambiente que não é suficientemente bom, o falso self constitui-se como uma defesa – e ao mesmo tempo uma proteção necessária – para a sobrevivência do verdadeiro self. Em alguns casos, o falso self cuida e garante a existência do verdadeiro self. Para Winnicott, isso significa uma interrupção do ser produzida pela reação a intrusão; a reação toma então lugar do desenvolvimento. As falhas maternas sentidas como invasões provocam reações que perturbam a continuidade de ser. Invasões intensas e reiteradas levam ao sentimento de aniquilamento do self e a defesa do tipo falso self não é do sujeito, é reativo. O reagir interrompe o ser o existir. Todo indivíduo tem experiências de “quebra da continuidade do seu ser” (ou de falhas maternas), por isso todo indivíduo desenvolve um falso self. O que diferencia o falso self operativo do patológico é o grau de domínio do falso self ou do verdadeiro self na condução da existência do indivíduo. O falso self é produto da educação e socialização, desta forma, por vezes poderá suprir ou proteger o verdadeiro self. Ele atua no desenvolvimento como uma defesa natural ante a necessidade de adaptação da criança ao ambiente em que ela vive. Tudo que é sentido pelo verdadeiro self é sentido como real, tudo aquilo que provém do falso self é sentido como irreal. O adulto maduro faz concessões à sociedade por meio de um falso self instrumental sem perder o fio que o liga a si mesmo. Para que um indivíduo venha a desenvolver um falso self, as falhas graves ambientais ocorreram num estágio primitivo do desenvolvimento, quando ainda não tinha um eu constituído. Essas falhas permanecem, no entanto, congeladas. Winnicott diz que o indivíduo que desenvolveu um falso self traz em si uma esperança de uma nova oportunidade para descongelar a situação da falha original. Para isso acontecer o psicólogo deve fornecer um holding adequado que propicie a regressão desse sujeito a independência precoce. Nesse sentido, Winnicott fala em regressão do eu e não do ID, o paciente precisa voltar ao período de falha original. Uma vez regredido, o paciente reage as falhas do psicólogo com raiva ou ataques violentos, talvez sentindo essa raiva pela primeira vez. O analista deve aceitar as críticas do paciente sem revidar, justificar ou interpretar, se os fizer, repetirá a falha original. Assim, pela primeira vez o a paciente poderá queixar-se do ambiente falho, até então, não reconhecia a exterioridade dos cuidados e isso fazia com que sentisse as falhas ambientais como fracassos pessoais. Winnicott percebeu que a tendência antissocial possui origem em uma deprivação, que expressa o pedido da criança para retornar aos períodos que tudo ia bem, a fase da vida anterior à deprivação que sofreu. Deprivação ≠ Privação Deprivação: perda ocorrida após um período em que foi possível a criança vivenciar uma experiência positiva. Privação: ato ou efeito de privar. Winnicott compreende que as rupturas, a descontinuidade dessa ordem e nessa fase podem desencadear dificuldades de desenvolvimento, entre as quais se situam as tendências antissociais. Para Winnicott, ocorre a deprivação quando a criança teve algo de bom em sua experiência é uma certa data, uma suficiência materna que lhe foi retirada de forma abrupta por um período maior do que aquele em que seria possível manter viva a lembrança dos cuidados bons. Após a deprivação, a criança se percebe roubada e passa a cobrar do ambiente o que este lhe deve. Ela provoca o ambiente com atos agressivos e destrutivos para chamar atenção, de modo a obriga-lo a leva-la em conta e tomar providências. Winnicott alerta para a necessidade de não se desperdiçarem os sinais lançados pela criança por intolerância ou incompreensão. Caso esse apelo não encontre eco no ambiente, a criança não terá condições de livrar-se do medo da aflição, decorrente da instabilidade, ou da confusão que ela viveu com a deprivação. Partindo-se do princípio que algo rompeu os cuidados que lhes possibilitem resgatar sua sustentação e manutenção, perdidas em decorrência de falhas abruptas em seu provimento ambiental. O ódio na contratransferência e o manejo e tipos de pacientes. Para Winnicott, no início da vida, nos estágios iniciais do desenvolvimento, o bebê é ruthless (implacável, cruel). Somente por volta de um ano de vida o bebê se torna capaz de concernimento. O autor diferencia a mãe objeto da mãe ambiente. A mãe objeto é alvo dos impulsos excitados do bebê, já a mãe ambiente fornece os cuidados que ele necessita. A integração dos estados tranquilos com os excitados (concernentes ao bebê) e das “duas mães” numa única pessoa é uma conquista no processo de amadurecimento. Para Winnicott o sentimento de culpa está relacionado, necessariamente, com a intenção. E ao falar em “intenção” devemos presumir que o processo de integração já alcançou um certo estágio de amadurecimento (integração do ego). O autor considera também que o sentimento de culpa é uma aquisição, é uma conquista do processo de amadurecimento emocional, uma conquista decorrente do processo maturacional que implica amadurecimento, integração do ego e da experiência de si mesmo como unidade. A culpa inoculada pelo meio ambiente, vinda de fora pelos meios educacionais, familiar, social, cultural, Winnicott endente que isso, rouba da criança a oportunidade de desenvolver sua capacidade de sentir culpa. Por outro lado, é através do ambiente facilitador que possibilita a oportunidade para o desenvolvimento emocional, e, assim a criança pode conquistar a experiência da culpa a partir de si mesma, e não inoculada pelo meio ambiente. Ao mesmo tempo que reage a falha ambiental, a criança alimenta a esperança de que o ambiente tome conhecimento desta falha e venha ressarci-la. Na prática clínica quando falamos de ódio na contratransferência, é importante verificar a falha ambiental que o paciente/bebê vivenciou. O bebê não possui capacidade de odiar aquele que não atende suas necessidades, ao invés de ódio, o bebê experimenta uma sensação de angústia e de ameaça iminente de ser destruído, uma falha ambiental grave, nesse sentido pode prenunciar delinquência, conduta antissocial ou de desenvolvimento de psicose. Por exemplo: um sujeito em fase adulta que, ao invés de externalizar o ódio no setting (ambiente facilitador) durante a sessão, expressa um sentimento de inutilidade, vazio, de que nada vale a pena nessa vida. É nesse ponto em que Winnicott fala sobre contratransferência, o analista ao esperar que o paciente sinta ódio, o próprio pode sentir ódio e indignação, por isso o analista deve ter a capacidade de identificar seu ódio para o bem da continuidade. Winnicott entende que o manejo dospacientes que vivenciaram falhas ambientais graves se difere do manejo de pacientes que sofreram falhas ambientais após constituição do Eu. O manejo se refere ao comportamento do analista diante um paciente, por exemplo, de falha grave na fase do desenvolvimento inicial, nesse caso o paciente comumente apresenta no setting, na transferência, sentimentos, emoções e fantasias não elaboradas pelo bebê, que não teve suporte ambiental. E, nesse ambiente facilitador e confiável onde o analista pode estabelecer a possibilidade de continuidade do ser em seu desenvolvimento emocional compatível a idade cronológica. Quando o analista é percebido como objeto suficientemente bom, que atende às necessidades do paciente, surge, a “esperança”, que encoraja o emergir do verdadeiro self. Nesse sentido, a característica pessoal do analista de ter empatia, sensibilidade e de sonhar com o paciente é fundamental para possibilitar a experiência do sentir a raiva e ódio, ao invés de viver. Winnicott através das suas experiências, identificou três categorias de pacientes que procuram ajuda psicológica: Neuróticos: pessoas que funcionam como pessoas inteiras, em que as dificuldades começaram a surgir no âmbito das relações interpessoais características da vida familiar. Nesse caso a análise desses pacientes, deverá lidar com o Édipo e interpretações. São pacientes que passaram a ter dificuldades no curso normal de sua vida em família, mas que tiveram um desenvolvimento satisfatório nos estágios iniciais da infância. Pacientes que sofrem de doenças afetivas, como depressão, mania, transtorno bipolar: são sujeitos que não fizeram uma boa passagem para posição depressiva, para Winnicott a análise desses pacientes deverá lidar com o estágio de concernimento (equivalente a posição depressiva) que significa lidar com a preocupação dos cuidados da mãe. Psicóticos: aqueles pacientes que não funcionam como pessoas inteiras, ou seja, os psicóticos, esses não tiveram desenvolvimento satisfatórios nos estágios iniciais do desenvolvimento. Winnicott deixa claro que não se deve aplicar psicanálise clássica com indivíduos psicóticos. Winnicott preconiza que a manutenção do holding adequada é a mais importante que as interpretações visando insights. É de holding ou apoio que esses pacientes precisam, um holding que lhes propicie a regressão à independência precoce. Numa linguagem de Winnicott o analista deve propiciar condições para que o paciente possa se descobrir, ter acesso ao verdadeiro self e a possibilidade da continuidade do amadurecimento.