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AGRICULTURA INTERNACIONAL E O MEIO AMBIENTE Sumário 1. .......................................................................................................... INTRODUÇÃO .......................................................................................................................................... 3 2. POTÊNCIAS AGRÍCOLAS .................................................................................... 6 2.1. PRODUÇÃO AGRÍCOLA DOS EUA ................................................................. 7 2.2. PRODUÇÃO AGRÍCOLA NA UNIÃO EUROPEIA .......................................... 8 2.3. BRASIL PODE SE TORNAR A MAIOR POTÊNCIA AGRÍCOLA MUNDIAL 9 3. A AGRICULTURA ORGÂNICA NO MERCADO INTERNACIONAL ............ 10 4. O CENÁRIO MUNDIAL DE PRODUTOS ORGÂNICOS .................................. 12 4.1. ÁFRICA .............................................................................................................. 15 4.2. AMÉRICA DO NORTE ...................................................................................... 16 4.3. AMÉRICA LATINA ........................................................................................... 17 4.4. ÁSIA .................................................................................................................... 19 4.5. EUROPA ............................................................................................................. 21 4.6. OCEANIA ........................................................................................................... 22 5. AGROECOLOGIA E EDUCAÇÃO AMBIENTAL ............................................. 23 6. AGRICULTURA HISTÓRICA, AGRICULTURA CONVENCIONAL E PROBLEMAS CONEXOS ............................................................................................ 26 7. AGROECOLOGIA E EDUCAÇÃO AMBIENTAL: IMPORTANTES INTERFACES ................................................................................................................ 30 8. CONSIDERAÇÕES FINAIS ................................................................................. 34 4. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ................................................................... 35 1. INTRODUÇÃO Figura 1: Agricultura e meio ambiente. Fonte: http://www.neomondo.org.br/2018/06/28/agricultura-e-meio-ambiente/ A agricultura é uma prática econômica que consiste no uso dos solos para cultivo de vegetais a fim de garantir a subsistência alimentar do ser humano, bem como produzir matérias-primas que são transformadas em produtos secundários em outros campos da atividade econômica. Trata-se de uma das formas princi- pais de transformação do espaço geográfico, sendo uma das mais antigas prá- ticas realizadas na história. A história da agricultura sugere que essa prática existe há mais de 12 mil anos, tendo sido desenvolvida durante o período Neolítico, sendo um dos pro- cessos constitutivos das primeiras civilizações, uma vez que todos os agrupa- mentos humanos já encontrados praticavam algum tipo de manejo e cultivo dos solos. Em tempos pretéritos, a humanidade era essencialmente nômade. Com o passar do tempo, foram sendo desenvolvidas as primeiras técnicas de cultivo, elaboradas a partir do momento em que o homem percebeu que algumas se- mentes, quando plantadas, germinavam e que animais poderiam ser domestica- dos. Com isso, observou-se um lento processo de sedentarização das práticas http://www.brasilescola.com/historiag/neolitico.htm humanas, fruto das novas técnicas sobre o uso e apropriação do meio natural. Nascia a agricultura e, com ela, desenvolviam-se as primeiras civilizações. Portanto, podemos perceber que o meio rural sempre foi a atividade eco- nômica mais importante para a constituição e manutenção das sociedades. Quando as técnicas agrícolas permitiam a existência de um excedente na pro- dução, iniciavam-se as primeiras trocas comerciais. Assim, é possível concluir que, inicialmente, todas as práticas rurais e urbanas subordinavam-se ao campo. No entanto, com o advento da industrialização e da modernidade, essa concepção foi gradativamente se alterando. Cada vez menos as cidades depen- diam do campo e cada vez mais o campo dependia das cidades. As práticas agrícolas, mais modernas, mecanizaram-se e passaram a depender das indús- trias para o desenvolvimento do meio técnico. Com o passar das três revoluções industriais, a prática da agricultura atual fundamenta-se em procedimentos avançados, que denotam uma nova caracte- rística para o espaço geográfico, classificado como meio técnico-científico infor- macional. Hoje, existem técnicas avançadas em manejo dos solos, máquinas e colheitadeiras que realizam o trabalho de dezenas ou até centenas de trabalha- dores em uma velocidade maior, além de avanços propiciados pelo desenvolvi- mento da biotecnologia. Isso significa que as práticas agrícolas cada vez mais se subordinam à ciência e à produção de conhecimento. Mas é importante salientar que não há somente técnicas modernas sobre o meio rural. Podemos dizer que os diferentes tipos de avanços coexistem no espaço rural, embora as grandes e mais desenvolvidas propriedades ocupem a maior parte do espaço. Existem sistemas agrícolas modernos ao mesmo tempo em que existem formas de cultivos tradicionais, como a agricultura orgânica, a itinerante e a de jardinagem. A importância da agricultura é, assim, indiscutível, pois é a partir dela que se produzem os alimentos e os produtos primários utilizados pelas indústrias, pelo comércio e pelo setor de serviços, tornando-se a base para a manutenção da economia mundial. O desmatamento para atividades agropastoris e a necessidade de evitar a reestruturação da floresta natural para, então, atingir o ápice da produção de- sejada, são as consequências de impactos ambientais causados diretamente pelas atividades agropecuárias. E para que não ocorra a tal reorganização natu- ral do local, a agricultura se utiliza quase que totalmente, de materiais orgânicos e inorgânicos externos e tecnologias mecanizadas, assim a cultura é totalmente protegida em grandes áreas (RODRIGUES, 1999). Em sua maioria, estas grandes áreas são monoculturas, que mudam sig- nificativamente o ambiente, tanto sua fauna quanto flora. Além disso, as mono- culturas podem causar problemas pra si mesmos, como é o caso do milho em que as podridões das espigas e grãos ardidos são aumentadas na prática de monocultura (TRENTO; IRGANG; REIS, 2002). Afora isto sempre houve um uso indiscriminado e demasiado de substân- cias tóxicas (como fertilizantes, herbicidas e pesticidas) na agricultura, a partir daí há um decrescente índice de qualidade de vida das pessoas e um aniquila- mento dos recursos ambientais (DOBSON, 1994; MARTELL, 1994). Devido ao fato é necessário buscar alternativas para minimizar os impac- tos ambientais e não atrapalhar a economia, esse é o segredo da agricultura sustentável, a qual pode ser definida de tal forma: “Agricultura sustentável é o manejo e a utilização do ecossistema agrí- cola, de modo a manter sua diversidade biológica, produtividade, capacidade regenerativa, vitalidade e habilidade de funcionamento, de maneira que possa preservar – agora e no futuro – significantes funções ecológicas, econômicas e sociais na esfera local, nacional e global, e não cause danos em outros ecossis- temas” (LEWANDOWSKI et al., 1999, citando a Conferência de Ministros Euro- peus de Meio Ambiente). Mas para que haja e desenvolva a agricultura sustentável, é necessária a aplicação de Avaliação de Impacto Ambiental (AIA) sobre as atividades de ma- nejo de culturas, por que ela envolve a produção intensiva com uso de tecnolo- gias, não se importando em economizar (NEHER, 1992), e confere importância a conservação e recuperação da paisagem em si (BOWERS; HOPKINSON,1994), ressaltando que a AIA favorece e sustenta ambas as partes. Porter (1995) diz que não se pode abdicar para as atividades agropecuá- rias a aplicação da AIA ao seu desenvolvimento sustentável, por causa da inte- ração da tecnologia – meio ambiente e sociedade, envolvendo os mais variados valores e propósitos, isto resulta em menores impactos. 2. POTÊNCIAS AGRÍCOLAS Figura 2: Potência agrícola. Fonte: https://www.infoescola.com/geografia/potencias-agricolas-mundiais/ As grandes potências agrícolas mundiais, atualmente, são os Estados Unidos e a União Européia. Cada uma dessas potências apresenta modelos di- ferentes de políticas para a agricultura, variando de acordo com os contextos históricos, geográficos e geológicos de cada localidade. O que ambas têm em comum é o elevado grau de protecionismo implementado pelo governo aos agri- cultores nacionais, bem como a elevada mecanização do processo produtivo em todas as suas etapas. 2.1. PRODUÇÃO AGRÍCOLA DOS EUA Figura 3: Produção agrícola dos EUA. Fonte: https://novaescola.org.br/plano-de-aula/6038/a-politica-agricola-dos-eua-e-seus- impactos-nos-demais-paises-do-mundo Os EUA conheceram a implantação da agricultura a partir do processo de colonização de seu território, quando os imigrantes europeus formaram a classe dos farmers, que se dedicaram à produção agrícola em pequena e média escala. Como característica inicial, a agricultura estadunidense era marcada, so- bretudo, pela distribuição das terras em pequenas e médias propriedades para uma quantidade significativa de produtores. Contudo, com a Grande Depressão de 1929, muitos proprietários e fazendeiros tiveram que hipotecar as suas terras, que foram transferidas para a posse de bancos e grandes companhias. O resul- tado foi a concentração fundiária atual. Com os avanços tecnológicos e a intensificação do êxodo rural (migração em massa de pessoas do campo para a cidade), estima-se que menos de 3% da população norte-americana seja empregada no campo. Mesmo assim, os EUA são os maiores produtores agrícolas de todo o mundo. Atualmente, o cultivo agrícola norte-americano é caracterizado pelo zone- amento da produção, o que é assinalado pela formação dos belts, ou cinturões agrícolas. Existem o Dairy Belt (cinturão do leite), o Corn Belt (cinturão do mi- lho), o Wheat Belt (cinturão do trigo) e Cotton Belt (cinturão do algodão). É bom lembrar que a prática agrícola em cinturões não remete necessa- riamente à produção monocultora (um só produto agrícola em uma região). Existe uma alternância entre os produtos, os nomes dos cinturões são escolhi- dos a partir daqueles produtos cuja atividade se faz predominante na região. 2.2. PRODUÇÃO AGRÍCOLA NA UNIÃO EUROPEIA Figura 4: Produção agrícola da União Européia. Fonte: https://www.3tres3.com.pt/ultima-hora/a-produc%C3%A3o-agricola-total-na-ue- aumentou-em-2017_11942/ Na União Européia, a produção agrícola é significativamente menor que a dos Estados Unidos, em virtude do tamanho de sua área, da densidade demo- gráfica da região, bem como da concentração da economia nas atividades in- dustriais. Mesmo assim, a sua produção agrícola é considerada uma das maio- res do mundo. A agricultura na União Européia é caracterizada pela PAC (Política Agrí- cola Comum), que consiste no protecionismo aos agricultores da região através da imposição de taxas de elevação de tributos a produtos agrícolas importados. Assim, a PAC se caracteriza pela unificação do mercado europeu, com a fixação de preços mínimos para cada produto, a preferência na compra de pro- dutos do bloco econômico e implantação de tarifas para importações. A PAC foi muito importante para garantir a manutenção da produção agrí- cola, sobretudo, dos pequenos produtores. Entretanto, sua prática foi bastante questionada no âmbito da OMC (Organização Mundial do Comércio), principal- mente pelos países subdesenvolvidos, cujas economias são muito dependentes da exportação de produtos agrícolas e matérias-primas. Com isso, a partir de 2003, a União Européia praticou uma reforma na PAC, que mudou a ênfase da produção para a melhoria da qualidade da produ- ção e conservação do meio ambiente. Antes disso, a UE estabelecia metas para os produtores em termos quantitativos, a fim de garantir o abastecimento dos países-membros do bloco somente com produtos internos. Os grandes objetivos da política agrícola da União Européia giram em torno da manutenção familiar e da contenção do êxodo rural, o que evita o au- mento das densidades demográficas nos grandes centros urbanos e, assim, pre- vine ou diminui a ocorrência de problemas urbanos, como favelização e segre- gação urbana. 2.3. BRASIL PODE SE TORNAR A MAIOR POTÊNCIA AGRÍCOLA MUNDIAL Figura 5: Produção agrícola do Brasil. Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Agricultura_no_Brasil O Brasil também é destaque na produção agrícola mundial. Porém, por enquanto, o país ainda se encontra muito abaixo da União Européia e, principal- mente, dos EUA. Porém, ao contrário dos líderes agrícolas mundiais, o país tem grandes possibilidades de expansão nos próximos anos. A estimativa do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento é que o Brasil alcance a liderança mundial na safra de 2020/2021. Tal expansão deverá ser ocasionada, sobretudo, pela modernização do campo, pela melhoria nas condições da propriedade familiar e pelo aumento do volume de exportações. Os produtos que mais devem ter sua produção aumentada são a soja, o etanol, o algodão, o milho e o café. 3. A AGRICULTURA ORGÂNICA NO MERCADO INTER- NACIONAL Figura 6: Agricultura orgânica. Fonte: https://www.todamateria.com.br/agricultura-organica/ Mesmo após a revolução verde, a agricultura sem o uso de insumos quí- micos ainda era realizada em diversos países por pequenos agricultores que não tinham o conhecimento das tecnologias baseadas no uso intensivo desses insu- mos ou não tinham condições econômicas pra adotar tais técnicas. A partir da década de 70, com os impactos ambientais e a contaminação dos alimentos em evidência, a agricultura orgânica se caracterizou na Europa como um movimento que partiu do consumidor. Paralelo aos movimentos, ampliou-se o mercado de produtos orgânicos e foram sistematizados os princípios técnicos da produção orgânica. Na década de 70 a agricultura orgânica foi institucionalizada ao mundo pela International Federation of Organic Agriculture Movements (IFOAM) a qual publicou normas que serviram de referência para a comercialização de produtos orgânicos no mundo até a década de 90 e para o estabelecimento de outras normas e regulamentos técnicos locais em diversos países. O primeiro país a se regulamentar foi a França e atualmente mais de 80 países possuem alguma re- gulamentação implantada ou em discussão (FONSECA et al; 2009). O comércio internacional de produtos da agricultura orgânica é ainda difi- cultado pela pouca flexibilização das normas internacionais por conta de regula- mentos técnicos nacionais. A União Européia é uma grande importadora destes produtos e possui uma regulamentação que fornece padrões de produção e me- didas de inspeção que devem ser implementados para assegurar a integridade do produto. Segundo Ormond et al. (2002, p. 11) “Para que um produto seja comercializado como orgânico na União Européia é necessário que ele seja cer- tificado em algum país membro, o que permite a sua comercialização nos demais países da Comunidade.”. Por conta disso há uma grande preocupação por parte dos governos em estabelecer a harmonização e a equivalência das normas da agricultura orgânica buscando acordos de reconhecimento mútuo e respeitando as diversidades dos diferentes países. Em 2003, foi estabelecida na Feira Internacional de Negócios de Produtos Orgânicos (Biofach) em Nuremberg, Alemanha,a Força Tarefa In- ternacional que une forças da Food and Agriculture Organization (FAO), IFOAM e United Nations Conference on Trade and Development (UNCTAD). De acordo com Neves (2003) foram estabelecidas nesta Conferência medidas como rever padrões, regulamentações e sistemas de conformidade, formular propostas para consideração dos governos, dos órgãos e das organizações relacionadas e aconselhar os órgãos decisórios. Os objetivos são: determinar os impactos no mercado internacional dos produtos orgânicos, a harmonização e equivalência internacional dos padrões, regulamentações e sistemas de determinação de conformidade; criar mecanismos para facilitar o acesso ao mercado destes pro- dutos, principalmente dos países em desenvolvimento; e obter reconhecimento mútuo entre sistemas público e privado. Embora ainda incipiente no mercado de alimentos e com os grandes de- safios impostos, a agricultura orgânica é uma grande proposta para o futuro pois suas práticas estão relacionadas com um funcionamento sustentável. Desde a década de 90 a agricultura orgânica é a atividade agrícola que mais cresce no mundo. 4. O CENÁRIO MUNDIAL DE PRODUTOS ORGÂNICOS Figura 7: Produtos orgânicos. Fonte: https://contrafbrasil.org.br/noticias/crescimento-de-250-da-agricultura-organica- incomodou-a-industria-do-veneno-agric-71c2/ A Oceania é a região com a maior área sob manejo orgânico certificada do mundo com cerca de 12 milhões de hectares. A Europa e a América Latina ocupam o segundo e o terceiro lugar com cerca de 8 e 6,5 milhões de hectares. Entretanto, a Europa é a região onde a produção orgânica tem maior atenção, pois em Liechtenstein, Áustria e Suíça encontra-se a maior porção de área de produção orgânica com relação à produção convencional conforme Gráfico 1. Nesses países a porcentagem de área de produção orgânica é maior do que 10%, e em toda a União Européia a porcentagem é de 4%. Já nas demais regi- ões do mundo, com excessão da Oceania, a produção orgânica não chega a 1% de toda a área agrícola. Essa proporção demonstra que o mercado de orgânicos é fortalecido na Europa. Gráfico 1: – Países com maior porcentagem de agricultura orgânica em relação a con- vencional em 2007 Fonte: (WILLER; KILCHER, 2009, p. 30) Países em desenvolvimento têm destaque na produção de orgânicos e detêm aproximadamente um terço da área mundial. Argentina, Brasil, China, Ín- dia e Uruguai, nessa ordem de importância, são os países em desenvolvimento com a maior extensão de área sob manejo orgânico. O Brasil, inclusive, é um dos três países que possuem maior área de colheita de outros tipos de frutas como berries, nozes e castanhas, plantas medicinais e aromáticas, apicultura entre outros, que não foram considerados nas informações contidas neste capí- tulo. Contudo, em relação à proporção, os países em desenvolvimento com maior área de produção orgânica são Samoa, Timor Leste, Uruguai, Vanuatu e São Tomé e Príncipe. Esse cenário pode ser atribuído às exportações e aos suportes à produção orgânica nesses países. As estatísticas também mostram que a proporção de pastagens e culturas permanentes sob manejo orgânico é relativamente alta em comparação com Europa e América do Norte, em decor- rência das exportações de carne (principalmente da América Latina) e de cultu- ras permanentes. Entretanto, fora os relacionados, poucos países em desenvol- vimento possuem mais do que um por cento de área orgânica em relação a toda a área agrícola. Portanto, os países desenvolvidos detêm a maior área de agri- cultura orgânica. De toda a área mundial sob manejo orgânico, cerca de oito milhões são áreas cultivadas (terras aráveis e culturas permanentes). Dessas áreas, algumas culturas são relativamente mais cultivadas como o café e as azeitonas por exem- plo, em que mais de 5% da produção é orgânica. Em alguns países, a proporção é ainda maior, como é o caso do México, em que 30% da área de produção de café é de manejo orgânico. Dentre os oito milhões de área agrícola orgânica, a maior parte dela localiza-se na Europa. Quanto às pastagens, são cerca de vinte milhões de hectares sob manejo orgânico, dos quais, mais da metade encontra- se na Austrália. As áreas de extrativismo de produtos eminentemente florestais e de apicultura sob manejo orgânico correspondem a cerca de 31 milhões de hectares que não estão inclusos nos dados reportados neste capítulo. Os países com a maior dessas áreas são Finlândia com 7,4 milhões de hectares, Brasil com 6,18 milhões de hectares e Zambia com 5,37 milhões de hectares. (WIL- LER; KILCHER, 2009). Gráfico 2: Receitas em bilhões de dólares entre 1999 e 2007 do mercado global de orgâ- nicos Fonte: (WILLER; KILCHER,, 2009, p. 59) O mercado mundial de orgânicos cresce significativamente a cada ano. Como pode ser observado no Gráfico 2, as vendas triplicaram entre 1999 e 2007, crescendo em média 5 bilhões por ano. A demanda de consumo concentra-se na América do Norte e Europa, que são responsáveis por 97% das receitas glo- bais. Ásia, América Latina e Austrália são importantes produtores e exportadores de alimentos orgânicos. A produção nessas regiões favorece o fornecimento de alimentos orgânicos de quase todos os setores da indústria alimentícia como frutas, verduras, legumes, bebidas, cereais, grãos, sementes, ervas e especia- rias. (WILLER; KILCHER, 2009). Apesar das vendas alcançarem um saldo maior em 2007, a indústria de alimentos orgânicos ainda enfrentava escassez de oferta. Muitos agricultores não converteram a agricultura em decorrência da inflação no setor alimentício. Os produtos agrícolas atingiram recordes de preços devido ao aumento nos cus- tos de combustíveis e à competição por terras para produção de biocombustí- veis. 4.1. ÁFRICA Figura 8: Agricultura na África. Fonte: http://redesans.com.br/africa-poderia-alimentar-o-mundo-inteiro/ A África detém aproximadamente 3% da área mundial sob manejo orgâ- nico certificado. São 900 mil hectares e 530 mil produtores registrados. Uganda com 296 mil hectares, Tunísia com 154 mil hectares e Etiópia com 140 mil hec- tares são os países com maior área destinada à produção orgânica e são os únicos que possuem regulamentação. Com relação à agricultura convencional, os países que detêm a maior área sob manejo orgânico são São Tomé e Príncipe com mais de 5% de toda a área agrícola, Uganda com mais de 2% e Tunísia com quase 2%. As principais culturas são café e azeitonas e a maioria dos pro- dutos é destinada à exportação sendo o principal comprador a Europa. (WILLER; KILCHER, 2009). O mercado de orgânicos na África ainda é bastante pequeno, porém passa a contar com iniciativas como conferências que iniciaram em 2009 para apoiar e criar oportunidades de crescimento para o setor. Além dos três países citados que possuem regulamentação, mais sete países estão em processo de elaboração de regulamento. 4.2. AMÉRICA DO NORTE Figura 9: Agricultura na América do Norte. Fonte: https://www.gazetadopovo.com.br/agronegocio/colunistas/giovani-ferreira/com- uma-safra-por-ano-estados-unidos-produzem-meio-bilhao-de-toneladas-de-graos- d3l25baq7yolmsck66738f04n/ A América do Norte possui menos de 1% da área mundial sob manejo orgânico com 2,2 milhões de hectares e 7% de toda a área agrícola orgânica mundial. Existem mais de 12 mil produtores registrados e quase toda a área encontra-se nos Estados Unidos com 1,6 milhões de hectares registrados em 2005. Maior parte das terras cultiváveis sob manejo orgânico são utilizadas para a produção de cereais. (WILLER; KILCHER, 2009). Mesmo sendo o país do fast food, há uma forte demanda nos Estados Unidos por produtos mais saudáveis e nutritivos, e o aumento na disponibilidade de alimentos orgânicos em mercearias e supermercados tem impulsionado o crescimento do consumo de orgânicos.Além da maior disponibilidade, a dife- rença de preço entre os produtos orgânicos e os produtos convencionais é cada vez menor devido à dependência da produção convencional em combustíveis fósseis e subsídios do governo, entre outros fatores. Registrou-se em 2007 mais de 20 bilhões de dólares nas vendas de orgânicos que representaram 45% de toda a receita mundial e há muitos investimentos no setor principalmente com suporte técnico e certificação para incentivar agricultores a converterem para a produção orgânica. (WILLER; KILCHER, 2009). O Canadá possui boas perspectivas para aumento desse mercado que até 2009 seguia sem o suporte de uma regulamentação. Além de um importante consumidor, tem apresentado um crescimento também na produção de alimen- tos orgânicos, mas que ainda não segue o mesmo ritmo da demanda. A região da América do Norte é o lar de algumas das maiores indústrias de alimentos orgânicos do mundo. 4.3. AMÉRICA LATINA Figura 10: Agricultura na América Latina. Fonte: https://www.canalrural.com.br/noticias/agricultura/agricultura-familia-dificulda- des-pandemia/ De acordo com dados registrados em 2007, a América Latina detém 20% da área mundial sob manejo orgânico sendo 6,4 milhões de hectares e 220 mil produtores certificados. Quase toda a área concentra-se na Argentina, no Brasil e no Uruguai. A maior área de agricultura orgânica com relação à convencional encontra-se na República Dominicana e no Uruguai com mais de 6%, no México e na Argentina com mais de 2%. A maioria da produção orgânica é destinada à exportação e as vendas em mercados locais ocorrem principalmente em grandes cidades como Buenos Aires e São Paulo. Frutas tropicais, grãos e cereais, café, cacau e açúcar são cultivos de destaque na produção orgânica latino-americana. Muitos produtos são vendidos no mercado europeu, especialmente os que não são produzidos lá ou que estão fora da safra. (WILLER; KILCHER, 2009). Nos últimos anos, as importações de produtos que estão de acordo com o conceito de comércio justo aumentaram, e muitos produtos latino-americanos são vendidos com rótulo de orgânicos e de Comércio Justo. Quanto aos merca- dos locais latino-americanos, muitos produtos orgânicos como legumes, verdu- ras e frutas, leite e laticínios, mel, café, grãos e cereais são vendidos em super- mercados. Existem também as lojas especializadas, que vendem alimentos sau- dáveis e produtos orgânicos de agricultores locais, e as feiras informais onde não há intermediários, para as quais geralmente os governos cedem espaços públicos semanalmente, dão suporte e publicidade aos produtores. Embora o impacto dessas feiras locais possa ser economicamente insignificante, elas são o sustento de muitos pequenos agricultores e representam um percentual impor- tante do mercado de orgânicos. Quinze países da América Latina possuem legislação sobre agricultura orgânica e outros quatro estão desenvolvendo. Em decorrência da crescente im- portância do setor orgânico para a economia agrícola latino americana, os go- vernos passaram a desempenhar um papel importante no desenvolvimento desse setor. Os países passaram a tomar medidas para desenvolver programas que promovam a agricultura orgânica e dar suporte de acesso ao mercado pelas agências de exportação. Em alguns países existe um apoio financeiro para cus- tos com certificação durante o período de conversão. Com exceção de Argentina e Costa Rica, os produtores orgânicos latino americanos precisam ter certificação por algum órgão de certificação credenci- ado para entrar no mercado europeu. Entretanto, muitas companhias america- nas e européias certificam produtos exportados produzidos na América Latina, pois geralmente os compradores exigem a certificação. Organizações certifica- doras como The Organic Crop Improvement Association (OCIA), e Farm Verified Organic (FVO) dos Estados Unidos e Naturland, BCS Oeko-Garantie e Institute fur Marktoekologie (IMO) da Europa são as principais na região. Outros são Eco- cert, Control Union e Ceres. Alguns órgãos certificadores nacionais são muito bem reconhecidos como Argencert e Organización Internacional Agropecuária (OIA) na Argentina, IBD no Brasil, Bolicert na Bolívia e Biolatina no Peru e em outros países. 4.4. ÁSIA Figura 11: Agricultura na Ásia. Fonte: https://www.asiacomentada.com.br/2011/12/agricultura-na-asia-e-suas-diferencas- regionais-e-setoriais/ Aproximadamente 3 milhões de hectares de área orgânica estão localiza- das na Ásia, o que representa 9% da área mundial. Mais de 230 mil produtores foram registrados e os países com destaque são China com 1,6 milhões de hec- tares e Índia com 1 milhão de hectares. São produzidos principalmente cereais como o arroz, e algodão, do qual Índia e Síria são líderes na produção orgânica. (WILLER; KILCHER, 2009). O continente asiático é um dos maiores mercados do mundo e cenário de variados setores. Os orgânicos hoje são um conceito bem aceito e uma tendên- cia política e de mercado. Os alimentos orgânicos processados vêm sendo pro- duzidos na Ásia e ganhando espaço, embora a maioria da produção seja de alimentos frescos e de cultivos com processamento de baixo valor-agregado, tais como ingredientes crus secos ou processados. Embora a Ásia não possua uma vasta área de agricultura orgânica, a pro- dução de alimentos cresce gradativamente, pois é orientada basicamente à ex- portação. Países como Índia, China, Tailândia e Malásia são importantes expor- tadores de frutas, cereais, grãos, feijão, ervas e especiarias e adotam padrões da Europa, Estados Unidos e/ou Japão. A demanda local concentra-se nos paí- ses mais ricos como Japão, Coréia do Sul, Taiwan, Cingapura e Hong Kong, mas ainda é moderada em parte por causa dos altos preços dos produtos orgâ- nicos. Embora grande parte do setor seja impulsionado pelas exportações, tam- bém há um grande número de importações. Nos mercados locais, os preços dos orgânicos variam de 10 a 200 por cento sobre os preços dos alimentos conven- cionais, dependendo da localização, da qualidade e do tipo de produto. As normas e certificações de orgânicos são normalmente criadas em res- posta às exigências dos principais mercados importadores que são os EUA e a Europa, sem considerar as condições de produção e processamento locais e o desenvolvimento do setor. Existem instituições certificadoras que aprovam e re- gistram produtos orgânicos para o mercado local, para as importações e expor- tações, em países como China, Japão, Coréia, Israel, Filipinas e Taiwan. Na Ín- dia há regulamentação aplicável apenas às exportações até o momento e, assim como Israel, tem acordo de reconhecimento estabelecido com os EUA e com o United States Department of Agriculture (USDA). O grande desafio do setor é o consenso entre o setor privado, sociedade civil e parcerias do setor público, de- vido ao conflito de interesses: de um lado existe uma corrente a favor da susten- tabilidade e melhoria da renda rural e de outro uma corrente composta por gran- des empresas entrando no mercado. 4.5. EUROPA Figura 12: Agricultura na Europa. Fonte: https://meioambiente.culturamix.com/agricultura/agricultura-na-europa Até o final de 2007 registrava-se que 24% da área orgânica mundial en- contrava-se na Europa. São quase 8 milhões de hectares gerenciados por mais de 200 mil produtores, sendo mais de 180 mil na União Européia com 7,2 milhões de hectares. Os países com a maior área de produção orgânica são Itália (1.150.253 hectares), Espanha (988.323 hectares) e Alemanha (865.336 hecta- res). De toda a área agrícola da União Européia 4% são de manejo orgânico. Os países que detém o maior percentual de área de produção orgânica com relação à convencional são Liechtenstein com 29%, Áustria com 13% e Suíça com 11%. Em 2007, o mercado europeu de produtos orgânicos alcançou aproximadamente16 bilhões de euros em vendas, sendo o maior volume de negócios na Alemanha com mais de 5 bilhões de euros, no Reino Unido com quase 3 bilhões de euros, na França e Itália com quase 2 bilhões de euros. As terras aráveis sob manejo orgânico são utilizadas principalmente para a produção de cereais, e de cultivo permanente, as principais culturas são azeitonas, nozes, frutas em geral e uva. (WILLER; KILCHER, 2009). A União Européia desenvolve um papel importante em apoio à agricultura orgânica por meio de programas de desenvolvimento rural, proteção jurídica e diversos planos de ação. Há uma grande preocupação em promover a agricul- tura biológica e conscientizar as pessoas sobre os problemas globais que envol- vem as mudanças climáticas e a segurança alimentar. Os Estados-membros têm lançado planos de ação a fim de impulsionar a pesquisa sobre agricultura orgâ- nica. Pesquisas tecnológicas unem esforços da indústria e da sociedade civil e revelam o potencial da produção orgânica em face aos problemas globais e os desafios socioeconômicos nas áreas rurais. Os países que não fazem parte da União Européia possuem políticas similares. A Europa possui o maior mercado de orgânicos do mundo e representa 54% da demanda mundial. Em alguns países os produtos orgânicos chegam a mais de 5% das vendas de produtos alimentícios. Os maiores consumidores são Alemanha, Reino Unido, França e Itália pois são grandes mercados consumido- res. No Reino Unido, os orgânicos são uma grande tendência no mercado vare- jista e chegam a representar 80% do total de vendas. Suécia e Dinamarca em- bora não sejam grandes mercados consumidores têm registrado um aumento no consumo de orgânicos. 4.6. OCEANIA Figura 13: Agricultura na Oceania. Fonte: http://menrvatemplodosaber.blogspot.com/2013/12/oceania-aspectos-economi- cos.html A Oceania detém 38% da área orgânica mundial. São mais de 12 milhões de hectares certificados administrados por mais de 7 mil produtores. Embora concentre a maior extensão de área sob manejo orgânico, o mercado é muito pequeno. Quase toda a extensão de área concentra-se na Austrália onde 97% corresponde a pastagens utilizadas para criação extensiva de animais. Além da carne, produtos como lã, kiwi, vinho, maçãs, peras, verduras e legumes são mais exportados. Há uma demanda de importação que impulsiona o aumento da in- dústria orgânica na Austrália, Nova Zelândia e Ilhas Pacifícas, porém ainda há uma deficiência na produção da Nova Zelândia em abastecer o mercado. O apoio dos governos também é recente, planos para o desenvolvimento da agri- cultura sustentável ainda estão em andamento. (WILLER; KILCHER, 2009). 5. AGROECOLOGIA E EDUCAÇÃO AMBIENTAL Figura 14: Agroecologia. Fonte: https://br.boell.org/pt-br/2018/09/02/agroecologia-no-brasil Para avaliar a importância da mudança para modelos de produção de base agroecológica, como resposta ao esgotamento do padrão convencional de agricultura, é mister entender, mediante uma abordagem sistêmica, como funci- onam as interações bióticas e abióticas dentro de um ecossistema. Segundo Purves et al. (2002), as dinâmicas de ecossistemas resultam das atividades de uma grande quantidade de organismos, que sofrem efeitos das mudanças no ambiente físico. A interação entre indivíduos de espécies distintas se dá pela absorção de energia e de materiais, convertendo-os ou retendo- -os, mas, de qualquer forma, transferindo-os para outros organismos. Esses autores obser- vam que os humanos manejam a produtividade dos ecossistemas por intermédio da agricultura, visando à produção de alimentos, sendo a energia necessária à realização desse trabalho na agricultura moderna muitas vezes fornecida por combustíveis fósseis. Os ecossistemas hoje conhecidos são resultado do processo evolutivo concomitante entre os organismos vivos e o ambiente abiótico, que se mantêm de acordo com as interações de ciclos biogeoquímicos, tais como o ciclo do car- bono, o ciclo da água e o ciclo do nitrogênio. O equilíbrio dinâmico desses ecos- sistemas pode ser perturbado devido à influência de atividades humanas no meio ambiente, como, por exemplo, as da agricultura, já que alterações bióticas ou abióticas podem interferir no equilíbrio estabelecido naturalmente. O desequi- líbrio causado pela intervenção humana no meio ambiente muitas vezes é irre- versível, o que, a longo prazo, põe em risco a sobrevivência humana. Faz-se, pois, necessário debater com a sociedade os problemas ambientais; é preciso pensar nos agentes evolutivos1 e num processo de desenvolvimento que ga- ranta a coexistência entre seres humanos, animais e plantas, componentes abi- óticos, e a manutenção dos processos ecossistêmicos. Para poder sonhar com um desenvolvimento sustentável, deve-se pensar no tipo de “desenvolvimento” que se pretende alcançar: aquele que valoriza a exploração do meio ambiente a qualquer custo, em busca de lucro, assentado em um cenário de injustiças socioambientais; ou aquele que preconiza a cons- trução de um sistema pautado em uma relação mais equilibrada com os ecos- sistemas, como processo natural e não degradante, atento à qualidade de vida das pessoas, em um ambiente mais justo e igualitário, no qual sejam mantidas as condições de existência da biodiversidade de cada ecossistema. Entre os problemas ambientais provocados pela agricultura convencional, Dal Soglio (2009) destaca: 1. As mudanças climáticas (efeito estufa e aquecimento global); 2. A contaminação com insumos químicos, que produzem a emissão de muitos gases2 e a destruição do equilíbrio climático; 3. As queimadas, que liberam grande quantidade de gás carbônico (CO2 ) e destroem os biomas através da conversão para monocultura; 4. A destruição da camada de ozônio pelo brometo de metila usado no manejo da produção agrícola e em outras atividades que emitem clorofluorcar- bono (CFC); 5. A destruição dos recursos naturais: a erosão do solo por erro de ma- nejo, o desmatamento, a drenagem de banhados, a falta de mata ciliar para pro- teção de cursos d’água, a destruição dos biomas pelo plantio de árvores exóti- cas; 6. A desertificação; 7. A eutrofização das águas; e 8. A poluição. Todos esses problemas estão associados ao modelo de crescimento eco- nômico estabelecido na agricultura empresarial e prejudicam a sustentabilidade dos ecossistemas, gerando perda da biodiversidade. Existem, porém, tecnologias comuns alternativas – tais como adubação orgânica, 135 cultivos de cobertura (adubo verde), rotação de cultivos, policultu- ras, plantio direto, eliminação de agrotóxicos, eliminação de insumos dependen- tes de petróleo –, que poderiam garantir produção de alimentos sem tantos efei- tos negativos. Este capítulo tem como foco principal o tema da produção agroe- cológica e a contribuição que a educação ambiental pode trazer para a constru- ção desses novos modelos e práticas. 6. AGRICULTURA HISTÓRICA, AGRICULTURA CON- VENCIONAL E PROBLEMAS CONEXOS Figura 15: Agricultura histórica. Fonte: https://conhecimentocientifico.r7.com/revolucao-agricola/ A agricultura sempre foi crucial para o desenvolvimento da humanidade. Ao longo da história da agricultura, por muito tempo se verificou uma vinculação direta entre produtores e consumidores, e certo grau de preocupação com a con- servação da natureza, pois a produção dependia em grande escala dos ciclos naturais de regeneração dos agroecossistemas. Particular importância era dada à conservação da fertilidade dos solos com base em sistemas de rotação e de uso de plantas recuperadoras de fertilidade, os adubos verdes. Essas caracte- rísticas possibilitaram aumentar substancialmente a produção de alimentos em diferentes partes do planeta, o que permitiu, paralelamente, sustentar popula- ções cada vez mais numerosas. Entretanto, muitas dessas característicascomeçaram a se diluir no início do século XX, especialmente após o fim da Segunda Guerra Mundial. Países industrializados foram gradativamente substituindo os processos biológicos por processos industrializados, incluindo a motomecanização, o uso de sementes patenteadas e de insumos agrícolas químicos. A esse processo de modificação drástica das práticas agrícolas ocorrido ao longo do século XX, deu-se o nome de modernização da agricultura, por vezes denominada de Revolução Verde. Como apontam Mazoyer e Roudart (2010, p. 28), a Revolução Verde estava [...] baseada na seleção de variedades com bom rendimento potencial de arroz, milho, trigo, soja e de outras grandes culturas de exportação, baseada também numa ampla utilização de fertilizantes químicos, dos produtos de trata- mento e, eventualmente, em um eficaz controle da água de irrigação e da dre- nagem. Embora esses tipos de cultivos estivessem originalmente associados a aumentos na produtividade, a maior resistência às pragas e às condições climá- ticas adversas, começaram a evidenciar-se paralelamente consequências nega- tivas derivadas do uso dessas novas tecnologias: erosão dos solos, diminuição da biodiversidade, aumento do consumo de energia, perda de nutrientes nos alimentos, dependência de insumos externos, elevação dos custos de financia- mento da agricultura, intensificação dos riscos à saúde, entre outras. Os pacotes tecnológicos da modernização da agricultura foram amplamente difundidos pelo mundo afora, chegando ao ponto de serem considerados o modelo convencio- nal, substituindo os modelos tradicionais de agricultura. Mas sempre houve re- sistências ao modelo convencional de agricultura, seja em nome da manutenção de práticas tradicionais, seja em nome do desenvolvimento de modelos de agri- cultura de base ecológica, que visavam, não apenas à produtividade, mas tam- bém à sustentabilidade dos sistemas. Segundo a FAO (2012), existem inúmeros benefícios associados à agri- cultura ecológica, incluindo benefícios ambientais, sociais e econômicos. Foi com vistas ao desenvolvimento desses modelos de produção de base ecológica, bem como de promoção da sustentabilidade dos agroecossistemas, que a agro- ecologia passou a se desenvolver. Conforme Gliessman (2000), a agroecologia estuda os processos econômicos e os agroecossistemas; por isso, atua como um agente das mudanças sociais e ecológicas complexas que necessitam ocor- rer no futuro a fim de conduzir a agricultura a uma base verdadeiramente sus- tentável. À medida que o termo agroecologia é incorporado em diferentes contex- tos, também passa a significar a forma de produzir alimentos e de relacionar-se com o meio, sendo o agricultor um agente ativo, e não mais passivo, da trans- formação. Além disso, por estar vinculada aos movimentos de resistência e de mobilização da sociedade em defesa de uma agricultura sustentável, a agroeco- logia assume hoje também uma dimensão de movimento social. Assim, como ciência, prática ou movimento, é referência central na questão da sustentabili- dade e do desenvolvimento sustentável. Caporal e Costabeber (2004a, p. 7) apresentam a seguinte análise retros- pectiva: O intenso processo modernizador da agricultura brasileira acarretou im- pactos ambientais e transformações sociais em magnitudes tão amplas que, por si só, justificam a revisão de todo o modelo de desenvolvimento imposto ao setor agrícola. Em decorrência desta crise causada pela modernização da agricultura, começaram-se as discussões à procura de uma agricultura que ainda fosse pro- dutiva, respeitasse o meio ambiente e estivesse ao alcance de todos os níveis de agricultores. Neste sentido, os mesmos autores (2004b, p. 7) afirmam que “os homens vêm buscando estabelecer estilos de agricultura menos agressivos ao meio ambiente, capazes de proteger os recursos naturais e que sejam duráveis no tempo”. Para a agroecologia, a agricultura é um sistema vivo e complexo inserido na natureza, rica em diversidade, dotada de múltiplos tipos de plantas, animais, micro-organismos e minerais e de infinitas formas de relação entre estes e outros habitantes do planeta 137 Terra. Segundo Costabeber e Caporal (2000), a agro- ecologia estabelece as bases para a construção de estilos de agriculturas sus- tentáveis e de estratégias de desenvolvimento rural sustentável. Emerge, nesse contexto, como um novo enfoque científico capaz de dar suporte a uma transição dos atuais modelos de desenvolvimento rural e da agricultura convencional a uma agricultura que atenda a todas as necessidades ambientais, sociais e polí- ticas. Mas não se pode resumir as bases científicas da agroecologia apenas à troca de práticas convencionais da agricultura pela produção sem agrotóxicos, a produção orgânica. De acordo com Altieri e Toledo (2011), a produção agroeco- lógica tem que ser vista como um todo, levando em conta os ciclos sazonais de produção, a biodiversidade e os aspectos sociais e culturais de cada região. A agroecologia posiciona-se frente às questões sociais geradas pelo des- locamento das comunidades tradicionais do campo para a cidade, por não se adaptarem ao modelo de modernização da agricultura e por não terem seus co- nhecimentos reconhecidos como válidos. Conforme Guterres (2006), vivemos uma crise conjuntural no atual sistema de desenvolvimento capitalista, desenca- deada pelo modelo de exploração natural e social do agronegócio, que incentiva a mercantilização da terra, as privatizações e a precarização das condições de trabalho no campo. Sustenta a autora que o resgate de saberes tradicionais e os avanços nos estudos científicos na área da agricultura ecológica alternativa são fundamentais para a construção de modelos de desenvolvimento mais susten- táveis. O resgate dos conhecimentos do homem do campo como uma das bases da agroecologia torna-se viável se se reconhecer o saber local, tradicional, com vistas à construção de um conhecimento que esteja sintonizado com a realidade. Nesta perspectiva, Altieri e Toledo (2011) ponderam que a agroecologia valoriza os conhecimentos e técnicas desenvolvidas pelos agricultores e os seus proces- sos de inovações para a agricultura. Destacam os autores a importância da par- ticipação das comunidades locais, das pesquisas realizadas pelos agricultores e das diferentes formas de troca de conhecimentos entre agricultores. Uma agricultura com bases ecológicas atuaria, portanto, não somente em uma produção mais limpa de alimentos, como também na preservação e recu- peração dos recursos naturais – aproximando o ser humano da natureza –, na transformação das relações sociais e na melhoria da qualidade de vida. Os sis- temas de produção agroecológicos, ao integrarem princípios ecológicos, agronô- micos e socioeconômicos, despontam como possibilidades concretas de imple- mentação de um processo democrático de desenvolvimento rural sustentável. 7. AGROECOLOGIA E EDUCAÇÃO AMBIENTAL: IM- PORTANTES INTERFACES Se, por um lado, a agroecologia nasce em um ambiente de busca e cons- trução de novos conhecimentos, com novo enfoque científico, capaz de dar su- porte a uma transição a estilos de agriculturas sustentáveis, por outro lado, a educação ambiental (EA) incorpora o debate sobre o papel da interdisciplinari- dade e do diálogo de saberes na construção do conhecimento e de uma nova relação entre ser humano e natureza em todos os espaços, rurais e urbanos. Diante disso, conforme propõem Crivellaro et al. (2008), não se pode deixar de discutir a educação ambiental quando se fala em agroecologia, pois ambas pro- cedem da implantação de mudanças e da adoção de novos estilos de vida ca- pazes de trazer melhor qualidade de vida, conservação da biodiversidade e ge- ração de trabalho, em um sistema econômico mais justo. Além disso, tanto a vertente agroecológica quanto a educação ambientalpreconizam a necessária conexão entre os diferentes saberes, não só no que diz respeito às diferentes áreas do conhecimento científico, como também em relação à valorização dos saberes tradicionais, às suas interfaces e às suas contribuições para o conheci- mento acadêmico. A educação ambiental tem sido vista como instrumento fundamental para se moldar uma nova forma de ver e de sentir o mundo ao nosso redor, pois insere elementos integradores nos sistemas educativos dentro da sociedade, para fa- zer com que as comunidades se conscientizem do fenômeno do desenvolvi- mento sustentável e de seus efeitos ambientais. Nesse contexto, importa ressal- tar que a educação ambiental não constitui um campo do saber neutro. Assim como o conhecimento agroecológico, a educação ambiental está impregnada de intencionalidades e se apresenta baseada em diferentes proje- ções e visões de mundo. Contrapondo-se a uma educação ambiental “compor- tamentalista”, que enfocasse exclusivamente a mudança de comportamentos in- dividuais ou a divulgação de uma ideia “biologizante” de entendimento dos pro- cessos socioecológicos, a perspectiva agroecológica está mais afinada com uma educação ambiental crítica, que se proponha a transformar e a questionar a re- alidade, pautando-se por mudanças geradas não somente no sujeito, mas tam- bém na coletividade. Segundo Loureiro (2006), a vertente crítica da educação ambiental propõe uma visão do mundo apreendido em sua complexidade, com base no entendimento das inter-relações existentes entre os aspectos ecológi- cos, sociais, econômicos, culturais e políticos vinculados à questão ambiental, compreendendo o ser humano como parte constituinte da natureza, e não dela apartada. Assim como a agroecologia se desenvolve a partir de uma apreensão complexa e sistêmica do mundo, a educação ambiental também deve prosperar estimulada por esse entendimento. Essa concepção está corporificada no Pro- grama Nacional de Educação Ambiental – ProNEA (Brasil, 2005, p. 34), nestes termos: A educação ambiental deve se pautar por uma abordagem sistê- 139 mica, capaz de integrar os múltiplos aspectos da problemática ambiental con- temporânea. Essa abordagem deve reconhecer o conjunto das inter-relações e as múltiplas determinações dinâmicas entre os âmbitos naturais, culturais, histó- ricos, sociais, econômicos e políticos. Mais até que uma abordagem sistêmica, a educação ambiental exige a perspectiva da complexidade, que implica em que no mundo interagem diferentes níveis da realidade (objetiva, física, abstrata, cul- tural, afetiva...) e se constroem diferentes olhares decorrentes das diferentes cul- turas e trajetórias individuais e coletivas (grifos nossos). Evidenciam-se, assim, as possíveis interfaces relevantes entre os campos da educação ambiental e da agroecologia, uma vez que ambas se pautam por princípios sistêmicos que buscam desvendar o mundo a partir das relações com- plexas entre os diferentes elementos e dimensões que o compõem. Como resultado de propostas surgidas com base em enfoques agroeco- lógicos, implementaram-se ações de sensibilização ou de formação próximas a práticas que adotam o viés da educação ambiental crítica, mas adaptadas à re- alidade no que concerne à agricultura, à alimentação, à gestão do território ou a determinados aspectos históricos do manejo dos recursos naturais. Isso tudo concebido dentro de um enfoque social, em que a atividade humana ocupa o lugar central da educação ambiental. Segundo Heras Hernández (2002), as in- tervenções mais abrangentes apresentadas com base na agroecologia também têm muito a ver com outras propostas provindas decorrentes inovadoras da edu- cação ambiental, que envolvem a participação da população local na solução de conflitos ambientais. De qualquer modo, as próprias metodologias de intervenção da agroeco- logia tentam incorporar estruturalmente ferramentas adequadas a uma melhor apreensão da realidade e à construção de um conhecimento coletivo sobre essa realidade que nos permita transformá-la. Nesse contexto, o entendimento da prá- xis como ação e como reflexão sobre o mundo com o intuito de transformá-lo, de acordo com Freire (1983), apresenta- -se como elemento constitutivo e fun- damental na consolidação de um processo educativo transformador e emanci- patório. É por meio da ação e da reflexão sobre a ação empreendida que o co- nhecimento sobre o meio vai sendo construído, através de uma relação dialética do sujeito com a sua realidade, em um movimento constante de conscientização. Essa dinâmica cíclica de ação-reflexão-ação pode ser compreendida como um processo “espiralado” de construção do conhecimento, em que, a cada nova re- flexão-ação, novos processos vão sendo criados e desenvolvidos. Essa ideia aparece esquematizada na figura abaixo, assim interpretada por Witt, Loureiro e Anello (2013, p. 97): O processo aberto de realização de uma ação de educação ambiental e a formação da consciência, por meio da práxis, podem ser compreendidos como uma espiral, em que os movimentos se sucedem continuamente. A cada nova “volta” da espiral, novos processos acontecem (representados pelas diferentes cores). E= experimentação; R= reflexão; P= proposição; A= ação. Figura 16: Ciclo de ação-reflexão-ação Fonte: WITT; LOUREIRO; ANELLO, 2013. Por outro lado, nos processos de sensibilização, pretende-se, concomi- tantemente, conforme propõem Vargas, Bustillos e Marfán (2001), assentar as bases para a superação dos conflitos que se identificam a partir da ação social coletiva, segundo a herança metodológica recebida da educação popular: Falar de um processo educativo popular é falar de uma forma especial de adquirir conhecimentos […], métodos e técnicas com que se pretende alcançar a apropriação dos conteúdos com o fim de gerar Ações Transformadoras que tragam realidade aos objetivos pretendidos (p.13). Assim sendo, a proposta da Agroecologia permite-nos avançar no debate que a educação ambiental suscita entre a sensibilização e a transformação da realidade e organizar processos que integrem ambos os aspectos ao se intervir na problemática ambiental. Essa 141 proposta de intervenção posiciona a comu- nidade no centro dos processos de transformação social. O que equivale a dizer que, através de processos participativos, se procura possibilitar passar da cons- ciência dos problemas para a sua superação. Para tanto, porém, é necessário que a construção coletiva do conhecimento esteja ligada a processos de fortale- cimento e empoderamento da comunidade, a fim de que ela se aproprie das capacidades técnicas e organizativas necessárias à desejada transformação da realidade. Segundo López García (2008), as intervenções agroecológicas em uma problemática ambiental podem ser entendidas como educação ambiental, já que os processos agroecológicos de desenvolvimento rural conjugam formação e transformação da realidade através de formas de sensibilização e de ação social coletiva. Nesse sentido, a Agroecologia constituiria uma abordagem a ser inclu- ída em intervenções de educação ambiental, especialmente no que diz respeito ao meio rural e/ou às atividades do setor primário (agricultura, pecuária, pesca, mineração, entre outras), precisamente porque o setor agrícola depende mais do com o ambiente. 8. CONSIDERAÇÕES FINAIS A relação entre agricultura e meio ambiente existe antes mesmo do ser humano criar essa concepção. Ou seja: há milênios desenvolvemos o cultivo do nosso alimento sempre buscando, mesmo que inconscientemente, o equilíbrio entre os dois fatores. Os lobbys apocalípticos de uma parcela dos ativistas busca apagar toda a histó- ria construída até aqui. Como dito ao longo do texto, atualmente todos sabem da importante re- lação entre meio ambiente e agricultura, buscando técnicas que não apenasevi- tem problemas causados a fauna, flora, solo, atmosfera, mananciais, e outros, mas que contribuam com elas, ampliando nossas possibilidades agrícolas. Se entendermos que a agricultura depende exclusivamente do meio am- biente, então nossas práticas serão concretas para preservação da natureza. 4. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ARAÚJO, Daline F. S.; PAIVA, Maria do Socorro Diógenes; FILGUEIRA, João Maria. Orgânicos: expansão de mercado e certificação. [Natal]: Holos, v.3, n.23, 2007. BORGES, Ana Lúcia et al. Aspectos Gerais da Produção Orgânica de Frutas. In: ______. Alimentos orgânicos: produção, tecnologia e certificação. Viçosa, MG: UFV, 2003. cap. 6, p. 235. COELHO, Carlos Nayro. A expansão e o potencial do mercado mundial de pro- dutos orgânicos. Revista de Política Agrícola. 2001. ALTIERI, Miguel Ángel; TOLEDO, Víctor Manuel. The agroecological revolution of Latin America: rescuing nature, securing food sovereignity and empowering peasants. The Journal of Peasant Studies, London, Routledge, v. 38, n. 3, p. 587- 612, July 2011. BRASIL. Programa Nacional de Educação Ambiental – ProNEA. 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