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METODOLOGIA E PRÁTICA DE ENSINO DA MATEMÁTICA NA EDUCAÇÃO INFANTIL CAPÍTULO 1 - EDUCAÇÃO INFANTIL E MATEMÁTICA: DIÁLOGO POSSÍVEL? Jonatha Daniel dos Santos INICIAR Introdução Vamos começar este primeiro capítulo percebendo historicamente a função e importância da educação infantil a partir de um contexto em que cada vez mais pais, mães e responsáveis precisam de um local para deixar as crianças em função do trabalho. A Educação Infantil historicamente foi produzida como proposta assistencialista a crianças que durante o século XVI eram deixadas em lugares abertos, como ruas e vielas o que incomodava a classe burguesa. Mediante a necessidade de cuidados relacionados a saúde e higiene, foram criadas casas assistencialistas, também denominadas atualmente de Creches e pré-escolas. Durante a revolução industrial, e a crise econômica que assolou países europeus, Metodologia e Prática de Ensino da Matemática na Educação Infantil https://catalogcdns3.ulife.com.br/content-cli/EDU_MEPMEI_19/unida... 1 of 34 04/09/2022 12:32 https://catalogcdns3.ulife.com.br/content-cli/EDU_MEPMEI_19/unidade_1/ebook/index.html#section_1 https://catalogcdns3.ulife.com.br/content-cli/EDU_MEPMEI_19/unidade_1/ebook/index.html#section_1 mulheres voltaram-se ao mercado de trabalho, não tendo onde e com quem deixar suas crianças, as casas assistencialistas funcionavam como proposta de limpeza das impurezas das ruas e, do enfeiamento das ruas pela presença de crianças sujas e subnutridas. Por meio dessa necessidade, a educação infantil constitui, nos últimos anos, um palco amplo de discussão entre os profissionais da educação e entidades privadas, bem como das instituições públicas, gerando então políticas públicas educacionais voltadas para crianças de 0 (zero) a 5 (cinco) anos. Deste modo, este capítulo buscará analisar os aspectos sociais e educacionais que envolvem a educação infantil, além de integrar as políticas públicas educacionais que sancionam, implementam e corroboram com esta modalidade de educação básica. Buscando dar ênfase aos direitos, aprendizagem e desenvolvimento na Educação Infantil, as discussões presentes nesta sessão fazem uma articulação com conceitos matemáticos que se inserem como parte integrante do mundo infantil e suas percepções. Para isso, é preciso questionar: como pensam matematicamente as crianças? Como identificam os conceitos numéricos cotidianos? Como a escola, enquanto esfera instituída de conhecimentos de humanidade, neste caso a Matemática, pode estabelecer uma relação entre os modos de pensar das crianças e os conceitos e aplicabilidade específicos do conhecimento matemático? Cada tópico apresenta, de forma teórico-prático, possibilidades formativas para que o professor da Educação Infantil articule a Matemática cotidiana ao mundo inventivo da criança, aprimorando seu pensamento lógico matemático por meio da apresentação dos conceitos e funções dos números e sua aplicabilidade em conteúdos curriculares, tais como: número, medidas, geometria. 1.1 A Educação Infantil no contexto da Educação Básica Para iniciar, é importante perceber que as políticas públicas educacionais buscam construir elementos centrais que norteiam o trabalho docente. No âmbito da Metodologia e Prática de Ensino da Matemática na Educação Infantil https://catalogcdns3.ulife.com.br/content-cli/EDU_MEPMEI_19/unida... 2 of 34 04/09/2022 12:32 Educação Infantil, estas políticas públicas apresentam objetivos e tipos de sujeitos que serão atendidos por meio de creches e pré-escolas. Além de delimitar a idade das crianças atendidas, estas políticas descrevem os critérios que os educadores devem atender no âmbito de suas atividades docentes. Para isso, os conceitos de criança e infância também são levados em consideração na construção de estratégias de aprendizagem, além dos direitos correspondentes às crianças no contexto da Educação Infantil. As questões centrais buscam conceitos importantes para o processo de ensino e aprendizagem que corresponde ao ensino de Matemática, sendo que este tópico busca descrever, apresentar e conceituar os direitos de aprendizagem e o desenvolvimento da Educação Infantil. 1.1.1 Direitos e aprendizagem e desenvolvimento na Educação Infantil Historicamente o conceito de Infância e, principalmente, de Educação Infantil é amplamente estudado. Infância vem sendo entendida como processo histórico- social de produção de sujeitos-crianças. As múltiplas infâncias tentam dar conta dos diferentes modos de ser crianças da atualidade, tais como: infância do campo, indígena, urbana, abrigada, armada sem teto, quilombola, cyber, entre outras. Tais concepções estão ligadas, por exemplo, a questões sociais, culturais, econômicas, políticas, epistemológicas, entre outros. No Brasil, a lei que define o que é Educação Infantil, bem como estabelece objetivos para esse nível de educação escolar, é a Lei 9394/1996, intitulada Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional – LDB. Logo em seu Art. 1º é possível notar o conceito que essa lei traz para educação, afirmando que “a educação abrange os processos formativos que se desenvolvem na vida familiar, na convivência humana, no trabalho, nas instituições de ensino e pesquisa, nos movimentos sociais e organizações da sociedade civil e nas manifestações culturais”. A educação é dever da família e do Estado. Seguindo por este caminho, conforme a LDB, em seu Art. 21, a Educação Infantil compõe a educação escolar brasileira, estando dentro do que se define como Educação Básica. Esta lei aprofunda sobre esse nível de educação escolar no Art. 29. Nesse artigo, é possível encontrar o seguinte trecho: “A educação Infantil, primeira Metodologia e Prática de Ensino da Matemática na Educação Infantil https://catalogcdns3.ulife.com.br/content-cli/EDU_MEPMEI_19/unida... 3 of 34 04/09/2022 12:32 etapa da educação básica, tem como finalidade o desenvolvimento integral da criança de até 5 (cinco) anos, em seus aspectos físico, psicológico, intelectual e social, complementando a ação da família e da comunidade.” Esta lei é importante porque inova e expande o conceito de educação infantil para além do entendimento clássico, aquele que visava o espaço escolar como um local destinado a crianças que aguardavam o fim das atividades laborais de seus pais, mães ou responsáveis. A partir da LDB, é possível perceber que além desse momento de aguardo de seus responsáveis, a Educação Infantil deve estar alinhado ao desenvolvimento físico, psicológico, intelectual e social. Esses critérios identificam o que é importante para essa faixa etária, bem como colaboram para a aprendizagem e desenvolvimento na Educação Infantil. O Art. 30 da LDB aponta que a educação infantil deve ser ofertada em Creches ou entidades equivalentes para crianças de até três anos de idade e em Pré-escolas, para as crianças de 4 (quatro) a 5 (cinco) anos de idade. Esta divisão, entre creche e pré-escola, é estabelecida a faixa etária da Educação Infantil, bem como promove uma separação conforme as idades das crianças. Mas não existe apenas esta lei voltada para a educação infantil! No cenário brasileiro é possível destacar também as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil – Resolução nº 5, de 17 de Dezembro de 2009. Essa diretriz articula-se com as Diretrizes Curriculares Nacionais da Educação Básica e juntas reúnem princípios, conforme o Art. 2º da Diretrizes Curriculares Nacionais da Educação Básica. Este art. discorre que: “para orientar as políticas públicas na área e a elaboração, planejamento, execução e avaliação de propostas pedagógicas e curriculares. A Resolução nº 5 dá outro passo para as discussões sobre o currículo na Educação infantil, bem como articulahttp://penta3.ufrgs.br/midiasedu/modulo11/etapa2/construtivismo.pdf http://penta3.ufrgs.br/midiasedu/modulo11/etapa2/construtivismo.pdf http://penta3.ufrgs.br/midiasedu/modulo11/etapa2/construtivismo.pdf http://penta3.ufrgs.br/midiasedu/modulo11/etapa2/construtivismo.pdf http://penta3.ufrgs.br/midiasedu/modulo11/etapa2/construtivismo.pdf http://penta3.ufrgs.br/midiasedu/modulo11/etapa2/construtivismo.pdf http://penta3.ufrgs.br/midiasedu/modulo11/etapa2/construtivismo.pdf http://penta3.ufrgs.br/midiasedu/modulo11/etapa2/construtivismo.pdf http://penta3.ufrgs.br/midiasedu/modulo11/etapa2/construtivismo.pdf http://www.planalto.gov.br/Ccivil_03/leis/L9394.htm http://www.planalto.gov.br/Ccivil_03/leis/L9394.htm http://www.planalto.gov.br/Ccivil_03/leis/L9394.htm http://www.planalto.gov.br/Ccivil_03/leis/L9394.htm http://www.planalto.gov.br/Ccivil_03/leis/L9394.htm http://www.planalto.gov.br/Ccivil_03/leis/L9394.htm http://www.planalto.gov.br/Ccivil_03/leis/L9394.htm http://www.planalto.gov.br/Ccivil_03/leis/L9394.htm http://www.planalto.gov.br/Ccivil_03/leis/L9394.htm _______. 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Metodologia e Prática de Ensino da Matemática na Educação Infantil https://catalogcdns3.ulife.com.br/content-cli/EDU_MEPMEI_19/unida... 33 of 34 04/09/2022 12:32 https://presrepublica.jusbrasil.com.br/legislacao/108164/lei-de-diretrizes-e-base-de-1961-lei-4024-61 https://presrepublica.jusbrasil.com.br/legislacao/108164/lei-de-diretrizes-e-base-de-1961-lei-4024-61 https://presrepublica.jusbrasil.com.br/legislacao/108164/lei-de-diretrizes-e-base-de-1961-lei-4024-61 https://presrepublica.jusbrasil.com.br/legislacao/108164/lei-de-diretrizes-e-base-de-1961-lei-4024-61 https://presrepublica.jusbrasil.com.br/legislacao/108164/lei-de-diretrizes-e-base-de-1961-lei-4024-61 https://presrepublica.jusbrasil.com.br/legislacao/108164/lei-de-diretrizes-e-base-de-1961-lei-4024-61 https://presrepublica.jusbrasil.com.br/legislacao/108164/lei-de-diretrizes-e-base-de-1961-lei-4024-61 https://presrepublica.jusbrasil.com.br/legislacao/108164/lei-de-diretrizes-e-base-de-1961-lei-4024-61 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http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicaocompilado.htm http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicaocompilado.htm http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicaocompilado.htm http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicaocompilado.htm http://portal.mec.gov.br/observatorio-da-educacao/323-secretarias-112877938/orgaos-vinculados-82187207/13684-resolucoes-ceb-2009 http://portal.mec.gov.br/observatorio-da-educacao/323-secretarias-112877938/orgaos-vinculados-82187207/13684-resolucoes-ceb-2009 http://portal.mec.gov.br/observatorio-da-educacao/323-secretarias-112877938/orgaos-vinculados-82187207/13684-resolucoes-ceb-2009 http://portal.mec.gov.br/observatorio-da-educacao/323-secretarias-112877938/orgaos-vinculados-82187207/13684-resolucoes-ceb-2009 http://portal.mec.gov.br/observatorio-da-educacao/323-secretarias-112877938/orgaos-vinculados-82187207/13684-resolucoes-ceb-2009 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http://portal.mec.gov.br/observatorio-da-educacao/323-secretarias-112877938/orgaos-vinculados-82187207/13684-resolucoes-ceb-2009 EVES, H. 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Partindo desse entendimento, é válido mencionar o Art. 4º dessa Diretriz, onde é relatado que: as propostas pedagógicas da Educação Infantil deverão considerar que a criança, centro do planejamento curricular, é sujeito histórico e de direitos que, nas interações, relações e práticas cotidianas que vivencia, constrói sua identidade pessoal e coletiva, brinca, imagina, fantasia, deseja, aprende, observa, experimenta, narra, questiona e constrói sentidos sobre a natureza e a Metodologia e Prática de Ensino da Matemática na Educação Infantil https://catalogcdns3.ulife.com.br/content-cli/EDU_MEPMEI_19/unida... 4 of 34 04/09/2022 12:32 sociedade, produzindo cultura Por meio deste artigo, constrói-se uma ideia de criança que, enquanto ser humano e parte de nossa sociedade, é um sujeito histórico, ou seja, em seu cotidiano produz e constrói sua identidade, bem como sua história. Explorando mais as fontes que servem de base para a construção da Educação Infantil, chegamos à Declaração Universal dos Direitos da Criança e do Adolescente, proposta em 1959 e instituído no Art. 227 da Constituição Federal de 1988 e pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei 8.069/90). Graças aos esforços de movimentos sociais, atualmente é possível observar a educação infantil com direitos legais nos mais diversos documentos e leis. Mas nem sempre foi assim. Marcaram muito esse cenário as posições antagônicas e Figura 1 - Explorando e Incentivando a criatividade. Fonte: Monkey Business Images, Shutterstock, 2018. Metodologia e Prática de Ensino da Matemática na Educação Infantil https://catalogcdns3.ulife.com.br/content-cli/EDU_MEPMEI_19/unida... 5 of 34 04/09/2022 12:32 fragmentadas, que viam esse momento infantil escolar como um espaço assistencialista e até mesmo pautado sobre uma ótica de preparar para a próxima etapa, ou seja, educação infantil enquanto um processo preparatório, negando então possibilidades e potenciais que podiam ou podem ser gerados. Vamos ver um pouco sobre o histórico da educação infantil no mundo? O período histórico europeu que marcou a transformação de uma sociedade agrário- mercantil em urbano-manufatureira, consequentemente a Revolução Industrial, que exigia do segmento adulto menos favorecido horas de produção laboral, e também as condições higiênicas gerando condições sociais adversas, guerras e outros diversos fatores, favoreceram ao abandono de crianças, maus tratos e também a aceleração da pobreza. Em função dessa situação foram criados serviços de atendimentos aos menores desfavorecidos, posteriormente surgindo instituições de caráter filantrópico no intuito de gerar atendimento a faixa etária infantil. Segundo Oliveira (2011, p. 61), na fase avançada da Idade Moderna efetiva-se a construção da ideia de educação infantil na Europa. Ainda segundo a autora, “a discussão sobre a escolaridade obrigatória, que se intensificou em vários países europeus nos séculos XVIII e XIX, enfatizou a importância da educação para o desenvolvimento social”. Vários pensadores podem ser indicados como pessoas que colaboraram para a compreensão e desenvolvimento da educação infantil, por exemplo, Jean-Jacques Rousseau (1712-1778); Johann Heinrich Pestalozzi (1746-1827); Maria Montessori (1870-1952); Friedrich Wilhelm August Fröbel (1782-1852). E em relação ao Brasil, como este desenvolvimento ocorreu? O cenário brasileiro, apesar de ter acompanhado o processo evolutivo da educação infantil mundial, possui características próprias. As primeiras iniciativas de proteção à infância são evidenciadas a partir da proclamação da República (1889), quando foi fundada a primeira Instituição de Proteção e Assistência à Infância, localizada no Rio de Janeiro, e também quando ocorreu a abolição da escravatura no Brasil (1888). Após a abolição, por meio da Lei Áurea, assinada pela princesa Isabel, surgiram diversos problemas, como por exemplo: qual seria o destino dos filhos desses ex-escravos, que não assumiriam os destinos dos pais e mães? Como seriam criadas essas crianças em um cenário que se tornou, em muitas vezes, de muita pobreza? Outro fato também ocorrido, que colaborou com essa situação, foi o abandono de crianças, Metodologia e Prática de Ensino da Matemática na Educação Infantil https://catalogcdns3.ulife.com.br/content-cli/EDU_MEPMEI_19/unida... 6 of 34 04/09/2022 12:32 em função das dificuldades financeiras. Neste ponto, era necessário buscar soluções para estas crianças, e assim criaram-se creches, asilos e internatos destinados ao cuidado de crianças pobres. Outra possibilidade, exportada com influência americana e europeia, foi o jardim de Infância. Confere à professora pernambucana Emília Faria de Albuquerque Erichsen ter iniciado, na cidade de Castro, Paraná, em 1862, o primeiro jardim de infância no Brasil. O início do século XX, atrelado à urbanização e à industrialização, intensifica mudanças sobre as perspectivas da estrutura familiar brasileira. Tal fato ocorre quando a mão de obra masculina, em sua grande maioria, trabalhava em áreas agrícolas, promovendo uma falta de pessoas para o trabalho e manuseio das máquinas nas cidades. Em função da demanda por pessoal para a urbanização e industrialização, as fábricas admitiram um grande número de mulheres para o trabalho. E os filhos, como ficariam? A partir de reivindicações promovidas pela classe operária na década de 1920, uma das exigências referia-se ao atendimento das crianças durante o trabalho. Oliveira (2011, p. 97) escreve que “em 1923, a primeira regulamentação sobre o trabalho da mulher previa a instalação de creches e salas de amamentação próximas ao ambiente de trabalho [...]”. Nesta época, como escreve Oliveira (2011), o conceito de creche tinha como pressuposto o ideal assistencialista para uma população desprovida de cuidados domésticos. Nessa ótica “a creche se apresenta apenas como sua substituta, limitando-se a desenvolver atividades que restringem o olhar da criança a uma esfera muito imediata” (OLIVEIRA, 2011, p. 43). Já as ideias que prevaleciam a partir do contexto da pré-escola, mostravam concepções de ensino individualista e distante do ambiente social. Perpetuava também um ensino rígido, com rotinas fixadas e as turmas em modelos de seriação. Esse entendimento de Oliveira (2011) remete-se à criança enquanto sujeito passivo, sem voz e sem possibilidade de construir significados perante o universo apresentado cotidianamente. É importante saber que Oliveira (2011) escreve sobre quatro modelos que podem ser considerados no histórico da educação infantil, sendo eles: o modelo familiar/materno, o modelo higienista, o modelo recreacionista e o modelo escolar. O modelo familiar/materno não exigia competência profissional para cuidar de crianças, bastava apenas considerar o espaço de trabalho como uma extensão de Metodologia e Prática de Ensino da Matemática na Educação Infantil https://catalogcdns3.ulife.com.br/content-cli/EDU_MEPMEI_19/unida... 7 of 34 04/09/2022 12:32 suas casas, exigindo paciência para lidar com o grupo infantil. Por outro lado, o modelo higienista defendia a formação de pessoas para trabalhar com berçário, exigindo desse profissional habilidades para lidar com o desenvolvimento físico das crianças. Já no modelo recreacionista, um bom preparo como animador e especialista em lazer fazia-se suficiente. O modelo escolar exigia a formação de pessoal capacitado para atuar com aspectos pedagógicos, ou seja, professores polivalentes. A situação melhorou um pouco no governo de Getúlio Vargas(1930-1945), no qual houve reconhecimentos de alguns direitos dos trabalhadores com a consolidação das leis do Trabalho – CLT, e lá era abordada a obrigação do atendimento sobre os filhos das operárias. Até a década de 1950, as poucas creches fora da indústria eram de responsabilidade de entidades filantrópicas e religiosas. Porém, a primeira versão da LDB, Lei 4024/61, aprovada no ano de 1961, apontava, em seu Art. 23 que “a educação pré-primária destina-se aos menores de até 7 anos, e será ministrada em escolas maternais ou jardins de infância”. Já no Art. 24 dessa lei, as empresas que tinham, em seu quadro de funcionários, mães de menores de 7 anos deveriam manter, por iniciativa própria ou em colaboração com os poderes públicos, instituições de educação pré-primária. A grande questão é que, na década de 1970, com o aumento de crianças na faixa da pré-escola, teve início o processo de educação pública para as crianças no sistema dos municípios. “No entanto, o descrédito da educação pré-escolar enquanto política educacional com maior impacto continuou perdurando” (OLIVEIRA, 2011, p. 111). A partir da década de 1970 e principalmente na década de 1980, por meio de lutas de democratização da escola pública, movimentos feministas, movimentos sociais, possibilitam a inserção e promovem a garantia de creches na Constituição Federal de 1988 como um direito da criança e dever do estado. Já na década de 1990, com a Coordenadoria de Educação Infantil (COEDI), vinculada ao Ministério da Educação (MEC), foi desenvolvida a promoção de encontros e pesquisas no intuito de garantir à população de até seis anos uma educação de qualidade em creches e pré-escolas (OLIVEIRA, 2011). Você viu a grande importância de todos estes fatos históricos, que colaboraram para Metodologia e Prática de Ensino da Matemática na Educação Infantil https://catalogcdns3.ulife.com.br/content-cli/EDU_MEPMEI_19/unida... 8 of 34 04/09/2022 12:32 a aprovação da nova LDB, Lei 9394/1996, bem como as outras leis atuais, vistas no início do tópico. 1.2 A natureza dos números Entendendo que a numeração acompanha todo o processo de construção de conhecimento humano, sua discussão não poderia ficar fora das implicações curriculares no âmbito da Educação Infantil. Deste modo, discutir a construção do conhecimento, levando em consideração a natureza dos números como elemento central – para proporcionar o aprofundamento das crianças de 0 (zero) a 5 (cinco) anos –, inseridos no contexto da Educação Infantil na elaboração e disseminação do conhecimento lógico matemático, tornou-se foco deste tópico. Além de proporcionar discussões frente a produção do conhecimento matemático a partir da elaboração de elementos lógicos, o ensino de matemática, no âmbito da Educação Infantil, deve anexar em suas discussões curriculares a abstração reflexiva e empírica da construção do número, bem como estabelecer relações com a matemática cotidiana, que faz parte do mundo infantil social da criança. 1.2.1 A construção do conhecimento Você sabia que a numeração é tão antiga quanto a humanidade? Sua disseminação ocorre na medida em que os mais diversos povos e nações vão entendo a importância de se contar, guardar, trocar, entre outros processos necessários para a vida em sociedade. Desde os povos nômades até a constituição das primeiras cidades, é possível perceber, no contexto histórico, que o ser humano utiliza-se de técnica capazes de ir ao encontro de sua sobrevivência. Com isso, é possível afirmar que a matemática representava a capacidade do ser humano de construir possibilidades e lógicas inerentes à sobrevivência dos seus entes. Nesse sentido, a capacidade matemática, de pensar e resolver problemas diários, era extremamente um cálculo mental ou, em outras palavras, era mais uma manifestação do senso numérico e reconhecimento de modelos. De lá até os tempos contemporâneos, a matemática avançou significativamente em Metodologia e Prática de Ensino da Matemática na Educação Infantil https://catalogcdns3.ulife.com.br/content-cli/EDU_MEPMEI_19/unida... 9 of 34 04/09/2022 12:32 termos numéricos e tecnológicos. No entanto, continua tendo como premissa a necessidade de resolução de problemas no que compete à criação e desenvolvimento de objetos necessários à vida humana. Assim, colaborando com essa discussão, o historiador matemático Eves (1997) explica que o conceito de número e o processo de contar desenvolvem-se antes dos primeiros registros históricos e que, segundo evidências arqueológicas, o ser humano já era capaz de contar há cerca de 50 mil anos. Assim, “a história do homem sobre a terra mal devia ter começado quando ele começou a modelar instrumentos e objetos, pois estes são encontrados juntos de seus restos” (FORBES; DIJKSTERHUIS, 1963, p. 25). Para entender melhor, precisamos voltar à criação da escrita. De acordo com Forbes e Dijksterhuis (1963), a escrita foi inventada próximo ao Oriente, na Mesopotâmia, e posteriormente se estendeu ao Egito e outras nações. Seguindo com os escritos de Forbes e Dijksterhuis (1963, p. 30), “a escrita, segundo parece, foi inventada com o propósito de conservar os registros dos templos da Mesopotâmia nos tempos antigos e para registrar cereais, carneiros e outros tributos”. Como afirma Childe (1981, p. 183): “[...] a escrita era, na verdade, uma profissão, como a metalurgia, a tecelagem ou a guerra, e essa alfabetização era encarada como uma prosperidade e avanço social”. A criação da escrita foi importante porque, a partir daí, nossa evolução não encontrou mais obstáculos. Em Childe (1981) nota-se que por meio da escrita há os primeiros indícios de representação das ciências pelos sacerdotes e escribas. Nesse momento eles tinham como escrita aquela cuneiforme, na qual os símbolos representavam letras e poderiam ter diferentes valores. Com a sistematização do conhecimento por partes dos sacerdotes e escribas, tal conhecimento era repassado em ‘escolas’ dos templos com ensinamentos na arte de escrever. Forbes e Dijksterhuis (1963, p. 16) comentam: “[...] a ciência não constituía, por si própria, um assunto; consistia, sim, numa série de regras e métodos de cálculo utilizados no comércio e nos negócios, na engenharia, nos tributos ou na predição de fenômenos astronômicos.” Vamos relacionar isso com a Matemática? Eves (1997) escreve que as primeiras práticas matemáticas empregavam-se à correspondência biunívoca, utilizando os dedos das mãos, fazendo ranhuras no barro ou na pedra, entalhes em pedaços de Metodologia e Prática de Ensino da Matemática na Educação Infantil https://catalogcdns3.ulife.com.br/content-cli/EDU_MEPMEI_19/unida... 10 of 34 04/09/2022 12:32 madeira, fazendo nós em cordas. E com o aprimoramento da escrita vão surgindo os símbolos, com o intuito de representar os números. Com a aglomeração de pessoas em espaços fixos, deixando o perfil nômade, expansão dos reinados, e consequentemente a criação das primeiras cidades e por si só dos sistemas de organização social, tornou-se necessário criar sistemas de numeração para atender as trocas, compras e vendas de mercadorias entre os povos. A partir disso surge então um sistema de numeração muito avançado, denominado de sistema de numeração Indo-Arábico, o qual é utilizado até hoje. “Os mais antigos exemplos de nossos atuais símbolos numéricos encontram-se em algumas colunas primitivas de pedra erigidas na Índia por volta do ano 250 a.C” (EVES, 1997, p. 40). A obra “História da Ciência e da Técnica: obedecendo a natureza, conquistá-la: Da antiguidade ao século XVII”, de Forbes e Dijksterhuis (1963) aborda a história da matemática e das ciências naturais, dentro do contexto da história da ciência e da técnica. O objetivo é esclarecer sobre os “começos” da história da matemática e das ciências naturais,desde os antigos Caldeus aos Gregos. Mas a Matemática dos tempos modernos é um pouco diferente daquilo que vimos até aqui. Conforme Santos (2017), em tempos contemporâneos, no contexto da matemática, utilizamos o Sistema de Numeração Decimal (SND), ou seja, os algarismos 0, 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8 e 9 formam a base numérica que nos permite ler e escrever qualquer número com o uso de regras, agrupando-se de 10 em 10 unidades. E esse agrupamento de 10 em 10 denomina-se decimal. VOCÊ QUER LER? Metodologia e Prática de Ensino da Matemática na Educação Infantil https://catalogcdns3.ulife.com.br/content-cli/EDU_MEPMEI_19/unida... 11 of 34 04/09/2022 12:32 Então, por onde começar a aprender Matemática? Kamii e Joseph (1992) defendem a necessidade de que a criança, antes de operar com adição, subtração, multiplicação e divisão, tenha uma real compreensão acerca do sistema de numeração decimal, pois sem essa compreensão as operações serão meras técnicas de repetição, gerando, nesses casos, vários problemas com a Matemática e até mesmo com outras áreas que utilizam-se desta disciplina em sua construção de aprendizagem. Interessante compreender que o conceito de número para uma criança que recém entra na escola não é algo tão organizado quanto se pensa. Há diversos processos mentais sendo trabalhados pela mente dessa criança, entendendo a inteligência como um processo complexo que exige mais do que repetição e técnicas de como fazer. Exige certamente a compreensão sobre o objeto estudado, o que Piaget (1971) afirma em seus estudos. Assim, entramos em um questionamento: Como os seres humanos constroem Figura 2 - Base numérica para o sistema de numeração decimal. Fonte: Raywoo, Shuttrstock, 2018. Metodologia e Prática de Ensino da Matemática na Educação Infantil https://catalogcdns3.ulife.com.br/content-cli/EDU_MEPMEI_19/unida... 12 of 34 04/09/2022 12:32 conhecimento? Piaget (1971), por meio da Epistemologia Genética, buscou responder isto. E como as crianças são os seres que mais constroem conhecimento? Suas pesquisas foram realizadas essencialmente com crianças de 0 a 10 anos de idade. De acordo com Piaget (1971), a inteligência deve ser entendida como função e estrutura. Enquanto função, a inteligência é uma adaptação, ou seja, na busca de sobrevivência o ser deve se adaptar ao meio. Por outro lado, enquanto estrutura, a inteligência é uma organização de processos. Crescer é reorganizar e não apenas acumular. O que podemos perceber, Segundo Kamii e Declark (1995), é que a teoria piagetiana diz respeito à natureza do conhecimento matemático e preocupa-se em perceber como o conhecimento é construído por cada criança por meio da abstração reflexiva ligada ao meio físico e social. As crianças pequenas constroem um universo dentro de si mesmas, e por isso passam a inventar o conhecimento lógico-matemático, ou seja, “ele é construído por cada criança a partir de dentro de si mesma através de sua interação dialética com o meio ambiente”. (KAMII; DECLARK 1995, p. 45). Indo além, continua escrevendo que esse conhecimento “não pode ser descoberto ou aprendido por transmissão do ambiente, a não ser os sinais convencionais (como “=”) e o sistema de notação que constitui a parte mais superficial da aritmética” (KAMII; DECLARK, 1995, p. 16). Importante ressaltar que Piaget estabeleceu uma diferença entre invenção e descoberta. Descoberta, por exemplo, foi quando Colombo chegou às Américas, ou seja, o continente americano existia antes mesmo de sua chegada. Já a invenção pode ser pensada a partir da invenção de um carro, ou em outras palavras, anteriormente não existia um automóvel. Logo, as crianças inventam e reinventam a aritmética em seus momentos inicias de vida e principalmente na fase escolar, desde que sejam criadas condições favoráveis para que isso possa efetivamente acontecer. Partindo desse entendimento, é possível perceber que a partir da teoria de Piaget o número é uma estrutura mental que cada criança constrói a partir de uma capacidade natural de pensar. Kamii (1995, 2000) ressalta que Piaget, enquanto um epistemólogo genético, via elementos verdadeiros e não-verdadeiros quando observava as correntes de conhecimento denominadas de Empirismo e Racionalismo. A primeira defendia que a essência do conhecimento tem sua origem fora do indivíduo e que estevai interiorizando, por meio dos sentidos, uma Metodologia e Prática de Ensino da Matemática na Educação Infantil https://catalogcdns3.ulife.com.br/content-cli/EDU_MEPMEI_19/unida... 13 of 34 04/09/2022 12:32 experiência sensorial. Já a segunda, não negando à primeira, defendia a ideia de que a razão é mais poderosa que a experiência sensorial. Esses dois grupos, Empiristas e Racionalistas, tiveram grande influência no que compete à produção do conhecimento, bem como no próprio campo da Matemática. Meneghetti e Bicudo (2003, p. 2) afirmam que o primeiro grupo “buscou fundamentar o saber Matemático, exclusivamente, na intuição ou experiência” enquanto que o segundo “buscou fundamentar o saber Matemático, inteiramente, na razão”. Temos alguns pensadores importantes em cada grupo. Do lado do Empirismo é possível destacar Isaac Newton (1643-1727); John Locke (1621-1704); George Berkeley (1685-1753) e David Hume (1711-1776). Já do lado do Racionalismo Rene Descartes (1596-1650); Gottfried Wilhelm von Leibniz (1646-1716) e Immanuel Kant (1724-1804) se destacaram. Kamii e Declark (1995) escrevem que Piaget considerava importante a informação sensorial como a razão, mas tinha um apreço maior pelo lado racionalista. “Seus 60 anos de pesquisa com crianças foram motivados pelo desejo de provar a inadequabilidade do empiricismo, que é discutido a partir do exemplo da prova da conservação do número” (KAMII; DECLARK 1995, p. 25). A conservação do número foi na teoria de Piaget algo muito importante. Jean William Fritz Piaget (1896 - 1980) nasceu em Neuchâtel no dia 9 de agosto de 1896 e foi considerado um dos mais importantes pensadores do século XX. Sua importância é dada pelas diversas pesquisas realizadas em sua vida, que buscava responder como acontece o desenvolvimento da Inteligência e como funciona a construção do conhecimento. Também em suas obras são encontrados estudos nos campos da afetividade, moral e educação. Aprofundando nossos conhecimentos, entramos no conceito de conservação. Conservação pode ser entendida como uma habilidade de deduzir que a quantidade de uma determinada coleção permaneça a mesma, mesmo após a mudança VOCÊ O CONHECE? Metodologia e Prática de Ensino da Matemática na Educação Infantil https://catalogcdns3.ulife.com.br/content-cli/EDU_MEPMEI_19/unida... 14 of 34 04/09/2022 12:32 empírica dos objetos. No livro de Kamii e Declark (1995) e em Kammi (2000) há um modelo de um método chamado de ‘prova de conservação do número’, no intuito de expor ao leitor como as crianças percebem esse universo da matemática por meio da ordenação e quantificação. Esse modelo é subdivido em três procedimentos, sendo: Igualdade, Conservação e Contra-argumentação. O material utilizado para esse teste são 20 fichas vermelhas e 20 fichas azuis. Vamos ver como este método funciona? O primeiro procedimento, Igualdade, pode ser realizado da seguinte forma pelo docente: coloque 8 fichas azuis e peça à criança que insira o mesmo número de fichas vermelhas logo abaixo. Se necessário você pode colocar as fichas azuis e vermelhas na correspondência uma a uma, conforma a figura a seguir, e pergunte à criança se o total de fichas azuis corresponde ao número de fichas vermelhas. Após o procedimento de igualdade, o docente pode modificar a disposição das fichas diante das crianças, conforme a figura anterior, e questionar se há o mesmo número de fichas azuis e vermelhas. A seguir, pode realizar outro questionamento: como você Figura 3- Exemplo de procedimento de Igualdade. Fonte: Elaborado pelo autor, 2018. Figura 4 - Seguimento do exemplo do procedimento de Igualdade. Fonte: Elaborado pelo autor, 2018. Metodologia e Prática de Ensino da Matemática na Educação Infantil https://catalogcdns3.ulife.com.br/content-cli/EDU_MEPMEI_19/unida... 15 of 34 04/09/2022 12:32 sabe? O procedimento posterior, da contra argumentação, consiste em problematizar com as crianças alguns conceitos mediante suas respostas. Por exemplo, caso a criança responda que a quantidade de bolas azuis seja igual ao de bolas vermelhas, o professor pode perguntar da seguinte forma: seu colega disse que há mais fichas porque essa ficha é mais comprida. O que você acha? Agora, caso a criança responda que a quantidade de bolas azuis não é igual ao de bolas vermelhas, o professor pode perguntar da seguinte forma: na atividade anterior, colocamos as fichas azuis em frente a cada vermelha, lembra-se? Seu colega disse que as quantidades de bolas azuis e vermelhas são iguais, o que acha? Importante lembrar que ambos os questionamentos vão ao encontro de produzir conceitos que façam as crianças pensarem e repensarem sobre os objetos. A ideia também reside em confrontar os objetos matemáticos no intuito de colaborar com a construção de sua inteligência. Como foi possível observar, a conservação não é algo construído do dia para noite. Pelo contrário, é um conhecimento que segue uma linha que Piaget denominava de Estágios. As crianças adquirem essa capacidade quando constroem, até certo ponto, uma estrutura lógico-matemática do número. Crianças que já construíram essa estrutura conseguem diferenciar filas de diferentes comprimentos e quantidades de bolas de cores diferentes em sequências diversas. Mas o que é estrutura, ou conhecimento lógico-matemático? Também é importante você entender o que é conhecimento Físico e conhecimento Social (convencional). Conforme Piaget (1971), número é um exemplo de conhecimento lógico-matemático. O conhecimento físico e o lógico-matemático são dois tipos principais de Figura 5 - Estratégia para perceber o procedimento de Conservação. Fonte: Elaborado pelo autor, 2018. Metodologia e Prática de Ensino da Matemática na Educação Infantil https://catalogcdns3.ulife.com.br/content-cli/EDU_MEPMEI_19/unida... 16 of 34 04/09/2022 12:32 conhecimento classificados por Piaget. Conhecimento físico relaciona-se com objetos na realidade externa. Por exemplo, a cor e o peso de uma ficha são entendidos por crianças a partir de propriedades físicas que fazem parte dos objetos e podem ser notadas pela observação. Conhecimento lógico-matemático, por outro lado, consiste de relacionamentos feitos por cada indivíduo. Para melhor compreender esse conceito, pode-se lançar mão de uma citação de Kamii e Declark (1995, p. 29-30), que explica isso muito bem: Por exemplo, quando nos mostram uma ficha vermelha e uma azul e notamos que elas são diferentes, essa diferença é um exemplo do fundamento do conhecimento lógico- matemático. Na verdade, podemos observar as fichas, mas a diferença entre eles não. A diferença é uma relação criada mentalmente pelo indivíduo que faz o relacionamento entre os dois objetos. Aprofundando esta temática, em suas pesquisas, Piaget (1971) verificou que a natureza do conhecimento lógico-matemático e do conhecimento físico admitiam uma contextualização maior, denominada de Abstração empírica e Abstração reflexiva. A abstração da cor de um objeto é diferente da abstração de um número. Abstrair propriedades de objetos trata-se da abstração empírica. Abstrair um número e construir relações entre os objetos trata-se da abstração reflexiva. Porém, uma não existe sem a outra. “Por exemplo, a criança não consegue construir a relação ‘diferente’ se ela não puder observar propriedades diferentes dos objetos” (KAMII, 2000, p. 31). Assim, a estrutura lógico-matemática, construída pela abstração reflexiva (realidade interna), é necessária para o desenvolvimento da abstração empírica (realidade externa). Onde o conhecimento social (convencional) se encaixa nisso que viemos estudando? Piaget era contrário à ideia de que os conceitos de números podem ser ensinados pela transmissão social. O conceito de número deve ser ensinado pelo conhecimento lógico-matemático e social, não sendo possível para esse autor criar distinções entre eles. O conhecimento social trata-se de convenções instituídas por pessoas, logo, para que uma criança adquira conhecimento social é indispensável estar de acordo com essas convenções. Metodologia e Prática de Ensino da Matemática na Educação Infantil https://catalogcdns3.ulife.com.br/content-cli/EDU_MEPMEI_19/unida... 17 of 34 04/09/2022 12:32 “As palavras ‘um, dois, três, quatro’ são exemplos de conhecimento social. Cada língua tem palavras diferentes para contar, mas a ideia latente de número pertence ao conhecimento lógico-matemático que é universal” (KAMII; DECLARK,1995, p. 37). O conhecimento social é de conteúdo e, como o conhecimento físico, requer uma estrutura do conhecimento lógico-matemático para assimilar e organizar os objetos. Construir um conceito de número não é fácil para as crianças. Exige uma estrutura mental que leva muito tempo para ser construída. Por isso é desejável que o docente entenda essas questões, bem como promova situações didáticas no intuito de colaborar com as abstrações e consequentemente para a construção da estrutura mental. Aprofundaremos essa ideia no próximo tópico. 1.3 Objetivos para ensinar números A representação dos conceitos de números não pode ser discutida com crianças de 0 (zero) a 5 (cinco) anos de idade sem levar em consideração o modo como a construção cognitiva do pensamento humano, especificamente, na faixa etária infantil, é construído, refinado e ampliado no contexto social e educacional. A inteligência infantil é permeada de complexidade justamente porque o mundo infantil das crianças é inventivo e utiliza a imaginação abstrata como elemento central de construção. Deste modo, o conhecimento lógico matemático deve proporcionar estratégias que envolvem estruturas mentais longo do processo de ensino e aprendizagem matemática. Tal aprendizagem poderá ampliar o nível de complexidade da criança. À medida em que a compreensão matemática da criança vai sendo ampliada, sua percepção lógica vai se desenvolvendo, permitindo que os conceitos de números sejam expandidos. 1.3.1 A representação dos conceitos de números Como dito anteriormente, a construção do número para crianças necessita de tempo para a constituição da estrutura mental. Vimos também que o número é construído por meio da abstração reflexiva (realidade interna) atrelada ao conhecimento lógico- matemático. Voltemos a pensar nas fichas azuis e vermelhas e imaginemos a Metodologia e Prática de Ensino da Matemática na Educação Infantil https://catalogcdns3.ulife.com.br/content-cli/EDU_MEPMEI_19/unida... 18 of 34 04/09/2022 12:32 seguinte questão: quais são as relações que o sujeito pode realizar entre as fichas? Pode ser de semelhança, de peso e de dois. Então é possível inferir que as fichas tanto podem ser semelhantes como diferentes. A distinção entre um ou outro será produzida por meio do indivíduo, ou seja, o ponto de vista pode ser igual para um, para outro pode ser diferente. Se o indivíduo perceber os objetos, ele dirá que são ‘dois’, porém ele não vê o 2, mas sim 2 fichas, ou seja, dois objetos. É possível inferir que o número é uma relação criada mentalmente pelas crianças em suas subjetividades. Perceba a complexidade que constitui os primeiros anos de vida, bem como a construção da inteligência, por si só permeada pelo conhecimento lógico-matemático. Indo além, nos deparamos com mais reflexões. Piaget, em seusestudos, por meio da epistemologia genética, buscou responder ao seguinte questionamento: como os seres humanos constroem conhecimento? E como as crianças são os seres que mais constroem conhecimento? Suas pesquisas foram realizadas essencialmente nesse nível de idade. De acordo com Piaget, a inteligência deve ser entendida como função e estrutura. Enquanto função a inteligência é uma adaptação, ou seja, na busca de sobrevivência o ser tem que se adaptar ao meio. Por outro lado, enquanto estrutura, a inteligência é uma organização de processos. Crescer é reorganizar, e não apenas captar informações, mas produzir conhecimento. No entanto, o conhecimento só ocorre se houver o sujeito e o objeto. De acordo com Piaget (1971, p. 14): O conhecimento resultaria de interações que se produzem a meio caminho entre os dois, dependendo, portanto, dos dois ao mesmo tempo, mas em decorrência de uma indiferenciação completa e não de intercambio entre as formas distintas. De outro lado, e, por conseguinte, se não há, no início, nem sujeito, no sentido epistemológico do termo, nem objetos concebidos como tais, nem, sobretudo, instrumentos invariantes de troca, o problema inicial do conhecimento será, pois o de elaborar tais mediadores. VOCÊ SABIA? Metodologia e Prática de Ensino da Matemática na Educação Infantil https://catalogcdns3.ulife.com.br/content-cli/EDU_MEPMEI_19/unida... 19 of 34 04/09/2022 12:32 Nessa ideia, o conhecimento é gerado por meio das interações de sujeito – objeto. Piaget busca a gênese do conhecimento, onde, por meio de suas pesquisas, cria a epistemologia genética. Assim, de acordo com Argento (2013), a epistemologia genética pode ser entendida como estudo dos mecanismos de formação do conhecimento lógico – tais como as noções de tempo, espaço, objeto, causalidade etc. – e da gênese (nascimento) e a evolução do conhecimento humano. Piaget (1971), pela epistemologia genética, estabelece estágios de desenvolvimento da inteligência. O que podemos aprender com os pensamentos dele, então? O desenvolvimento da inteligência não é linear e acontece por rupturas. Os estágios de desenvolvimento também representam a qualidade de inteligência. É importante saber, segundo estas classificações, que O sensório-motor, que varia entre 0 a 24 meses, é uma fase extremamente rica. A inteligência começa a se estruturar antes mesmo da linguagem. Existe uma inteligência sem linguagem, de comunicação verbal com o outro. Também chamada de inteligência prática (ação), uma vez que a criança não emprega a linguagem, mas apenas as suas ações (sentido de motor) e percepções (sentido de sensório). É importante ressaltar que a passagem do sensório-motor para o pré-operatório não ocorre de forma brusca. Ao contrário, conforme Piaget (1971), “[...] a passagem da ação ao pensamento ou do esquema sensório-motor ao conceito não se realiza sob a forma de uma revolução brusca, mas pelo contrário, de uma diferenciação lenta e laboriosa, que se relaciona às transformações da assimilação”. (PIAGET, 1971, p. 24-25) No estágio pré-operatório a qualidade da inteligência se modifica. Esse estágio pode ser chamado de representação, onde representação é a capacidade de pensar um objeto por meio de outro objeto. É uma inteligência em ação. Nesse estágio, de acordo com Piaget, inicia-se a introdução à linguagem, à moralidade e ao egocentrismo. Esse estágio é dividido em dois subestágios, sendo que o primeiro vai de 2 a 4 anos de idade e o segundo varia entre os 5 e 6 anos de idade Antes de continuar para o próximo estágio, é valido ressaltar que no sensório motor, a operação se realizava por ações, ou seja, a criança já é capaz de manipular o mundo e agir sobre o mundo. Essa ação existe desde o nascimento. Já no pré- operatório, existe uma ação interiorizada, ou seja, a ação por meio da representação de mundo. Metodologia e Prática de Ensino da Matemática na Educação Infantil https://catalogcdns3.ulife.com.br/content-cli/EDU_MEPMEI_19/unida... 20 of 34 04/09/2022 12:32 O último estágio é definido por Piaget como sendo o Operatório. Nesse estágio, acontece um avanço na inteligência. Para Piaget (1971, p. 32) “a idade de 7 a 8 anos em média assinala um fato decisivo na elaboração dos instrumentos do conhecimento”. Isso acontece pois a ação interiorizada torna-se reversível, uma vez que a criança concebe a reversão do objeto. Por exemplo, no estágio anterior, se dizemos a uma criança que a distância de Porto Alegre a Canoas é de 20 Km, de acordo com Piaget, a criança, como ainda não construiu a reversibilidade, logo não saberá responder a distância de Canoas a Porto Alegre. Assim, no presente estágio, com a ação interiorizada reversível, é possível que a resposta seja dada. Esse estágio é dividido em duas operações. A operação concreta e a operação formal. A operação concreta é subdividida em dois níveis. O primeiro é entre os 7 e 8 anos e o segundo entre 9 e 10 anos. Para Piaget (1971, p. 42), no segundo subestágio da operação concreta, atinge-se o equilíbrio além das formas parciais já equilibradas desde o primeiro nível. A outra operação dentro do estágio operatório é a formal, que começa a se constituir por volta dos 11 a 12 anos. Para Piaget (1971, p. 47) essa é a: Fase do processo que leva as operações a se libertarem da duração, isto é, do contexto psicológico das ações do sujeito com aquelas que comportam dimensões causais além de suas propriedades implicadoras ou lógicas para atingir finalmente esse aspecto extemporâneo que é peculiar das ligações lógico-matemáticas depuradas. Esse estágio é o último dentre os três citados. No entanto, os estágios desenvolvidos por Piaget operam dentro de outros conceitos, que são conhecidos como Assimilação, Acomodação e Equilibração. O conceito de assimilação é retirado da biologia. Para haver uma interpretação do mundo, é necessária a assimilação, ou seja, significa assimilar algumas informações que convém e deixar outras informações de lado. O objeto a ser assimilado, aquele que fornecerá conhecimento, oferece resistências em seu aprendizado. Nesta resistência do objeto, a organização mental do sujeito se modifica para buscar a melhor informação a ser conhecida. Quando esta organização mental prevê um conhecimento adequado ao sujeito, é acomodado. Por isso que o processo de inteligência é sempre um processo de assimilação e acomodação. Metodologia e Prática de Ensino da Matemática na Educação Infantil https://catalogcdns3.ulife.com.br/content-cli/EDU_MEPMEI_19/unida... 21 of 34 04/09/2022 12:32 No entanto, do processo que ocorre entre a assimilação e a acomodação, está o que Piaget define como sendo a Equilibração. Como dito, ao assimilar um novo objeto, há uma resistência mental. Nestas resistências ocorrem desequilíbrios. Então, para este novo conhecimento se acomodar, é necessário a equilibração, ou seja, deve-se estar em equilíbrio para haver a acomodação. Então equilíbrio é a organização; é a estabilidade da organização mental que dá conta do conhecimento. Nesse processo de produção de novos conhecimentos, e entre assimilar e acomodar um objeto, equilibração é central. É um processo dinâmico. No campo da educação, o autor e professor Fernando Becker faz uma excelente união com as ideias de Piaget. Becker (2001) comenta que a pedagogia relacional é vista pela epistemologia como centrada na relação, ou na ação recíproca do sujeito sobre o objeto e do objeto sobre o sujeito. E a ponte de ligação entre sujeito e objeto é a ação. Para Piaget, a função da ação é a de superar a dicotomia sujeito-objeto. Figura 6 - Estágio de Piaget e a construção do conhecimento. Fonte: Elaborado pelo autor, 2018. Metodologia e Prática de Ensino da Matemática na Educação Infantil https://catalogcdns3.ulife.com.br/content-cli/EDU_MEPMEI_19/unida...22 of 34 04/09/2022 12:32 Logo, não existe consciência antes da ação. E como ele vê a compreensão, então? Segundo Piaget, compreender é construir estruturas de assimilação, e não proceder a intermináveis repetições. Estruturas de assimilação constroem-se por abstração reflexionante. Becker (2001) faz uma conceituação sobre o conceito de abstração reflexionante. O autor comenta que abstração é agir sobre as coisas, sobre as ações, e retirar, dessas ações, características materiais. Piaget chama essas abstrações de empírica. Quando realizadas estas ações, retiram qualidades “não mais desse meio, desses objetos, mas das próprias coordenações das ações” (BECKER, 2001, p. 38). Disso, vem a abstração reflexionante, ou uma ação de segunda potência. O conhecimento não se dá pelo sujeito em suas origens nem de objetos já constituído, pelo contrário, o conhecimento resulta de interações que ocorrem no meio do caminho entre os dois e é construído em ambientes naturais estruturado culturalmente. A partir disso que vimos, de acordo com Becker, na sala de aula é necessária a ação. Continua afirmando que quando não há a ação em sala de aula, o processo de aprendizagem ficará obstruído e, não havendo uma ação sobre determinado objeto e assimilação deste, não haverá a tomada de consciência, onde não favorece o crescimento cognitivo. Para Becker (2001, p. 45), “tomada de consciência significa apropriar-se dos mecanismos da própria ação, a possibilidade de o sujeito avançar no sentido de aprender o mundo.” CASO Rozane é uma professora e leciona para uma turma do quarto ano do Ensino Fundamental. Rozane participou de um projeto pedagógico oferecido pela escola em que trabalha, que visava o fortalecimento de distintas práticas pedagógicas em sala de aula abordadas por algumas teorias do conhecimento. Essa professora, durante sua graduação, já tinha mostrado interesse por assuntos dessa temática e, agora, por meio desse curso, decidiu ler mais sobre a Epistemologia Genética e principalmente como que as pesquisas de Piaget e seus discípulos poderiam colaborar com sua prática em sala de aula, principalmente com o ensino de língua portuguesa e matemática. Rozane presenciava cotidianamente, com os estudantes, situações em que estes repetidamente Metodologia e Prática de Ensino da Matemática na Educação Infantil https://catalogcdns3.ulife.com.br/content-cli/EDU_MEPMEI_19/unida... 23 of 34 04/09/2022 12:32 ‘erravam’ algumas questões, mesmo que aparentemente fácies. Viu nessa teoria um conceito chamado de erro construtivo. Essa docente verificou que o erro pode ser entendido como algo positivo, com capacidade de problematizá-lo e transformando-o em uma situação de aprendizagem. Trata-se então de perceber as ideias de assimilação, acomodação, equilibração e regulação, gerando novas possibilidades pedagógicas para os discentes com que trabalha. Vamos voltar um pouco para o número. Este, enquanto sistema convencional numérico, também pode ser chamado de notação numérica ou até mesmo de representação externa. Pode-se entender notação conforme Brizuela (2006, p. 19): “o valor posicional, o uso de sinais de pontuação nos números, frações, tabelas de dados, gráficos, vetores, fileiras de números s linguagem natural”. Crianças em seus primeiros anos de vida já desenvolvem certas compreensões sobre os números e, principalmente, com a escolarização, vão percebendo relações entre o número e quantidades, criando compreensões de como os números podem ser decompostos em unidades e dezenas. Também constroem percepções sobre as propriedades ordinais e cardinais dos números. Essas percepções e compreensões sobre o universo colaboram para a efetivação do senso numérico. Assim, “as crianças também criam maneiras de representar esse senso numérico e, gradualmente, se apropriam dos sistemas convencionais de notações usados no mundo de seu cotidiano” (BRIZUELA, 2006, p. 19). Bem, é possível notar que os primeiros anos de vida de qualquer criança são constituídos por diversas situações psicológicas que interferem na construção da inteligência e em suas relações sociais. Antes de entrar na escola a criança já produz conhecimento. O conhecimento mais nítido é a relação afetiva com seus pares, bem como a aquisição da fala. Entender a aquisição da fala e do conhecimento lógico- matemático são temas que devem fazer parte do contexto profissional dos docentes no intuito de não marginalizar esse momento tão rico e complexo das crianças. Pelo contrário, é latente, enquanto professores, dominarmos a teoria, mas também possibilitar recursos pedagógicos que possam promover as abstrações reflexivas e criatividade a partir das notações numéricas. Metodologia e Prática de Ensino da Matemática na Educação Infantil https://catalogcdns3.ulife.com.br/content-cli/EDU_MEPMEI_19/unida... 24 of 34 04/09/2022 12:32 1.4 Variedades de ideias matemáticas relativas a números, medidas e geometria na Educação Infantil A construção do conhecimento não é algo simples muito menos instantâneo quando tratamos de crianças da educação infantil. Suas vivências, bem como as leituras que fazem do mundo, são importantes para o avanço da aprendizagem matemática. Potencializar esse aprendizado torna-se tarefa do docente. Há diversas pesquisas apontando a necessidade e importância de situações didáticas que valorizem diferentes estratégias pedagógicas e, principalmente, o favorecimento de um diálogo com variedades matemáticas no intuito de colaborar com a evolução conhecimento. Assim, perceber as notações numéricas, sobretudo suas representações, alinha-se a uma educação infantil que entende a criança enquanto ser histórico e social, possibilitando uma ênfase na manipulação dos objetos reais para raciocinar sobre representações mentais constituindo então uma ação própria da matemática. 1.4.1 Possibilidades teóricas e pedagógicas Anteriormente vimos sobre notações numéricas, que também podem ser chamadas de representação externa ou simplesmente representação. Vimos também uma palavra chave que prevalece nos estudos que buscam compreender sobre aquisição do conhecimento. Essa palavra é Objeto. Vamos pensar em um exemplo. O número 6 pode ser representado por situações diferentes: . Perceba que cada uma dessas representações oferece o mesmo resultado, ou seja, o número 6. Temos uma representação de uma fração, soma e multiplicação. Embora o resultado seja o mesmo, cada um tem um sentido distinto. A expressão representa uma fração, enquanto que a expressão representa uma soma. Ambas as expressões, embora tenham como resultado o objeto “6”, os sentidos que apresentam são diferentes. Podemos deprender, destes exemplos, conforme Panizza (2006, p. 22), “desde as Metodologia e Prática de Ensino da Matemática na Educação Infantil https://catalogcdns3.ulife.com.br/content-cli/EDU_MEPMEI_19/unida... 25 of 34 04/09/2022 12:32 primeiras aprendizagens as crianças utilizam diversas representações de um mesmo objeto para fazer operações numéricas e o reconhecem (pelo menos implicitamente) em cada uma delas”. Corroborando com esse trecho, Duval (2012) escreve que é importante quanto trabalhado com a aprendizagem matemática o uso de diversos sistemas de representação. Esse entendimento parte da ideia de que há, como visto, várias representações para um mesmo objeto. Conforme vimos, então, uma prática pedagógica que busque expor outros conceitos sobre uma mesma expressão potencializa o aprendizado em matemática, uma vez que permite outros espaços para a resolução de problemas e, por conseguinte, é importante para pensar e resolver as situações problemas. Fazer isso possibilita a contraposição de posturas tradicionais, bemcomo auxilia na aceitação de procedimentos não convencionais. Entende-se por procedimento não convencional os aprendizados e vividos fora do espaço escolar, aquele aprendido na convivência com seus pares. O documentário "A matemática na Educação Infantil: pressupostos para o trabalho docente", produzido pela Univesp TV, foi realizado na Escola Municipal de Educação Infantil Owen Zílio, em Jundiaí, interior de São Paulo. A Profa. Kátia Stocco Smole, Doutora em educação pela USP e atuante nessa temática colaborou com as discussões. Um bom vídeo para assistir e aprender mais sobre a matemática. Disponível em: Aliado ao contexto da representação e objeto,é necessário alertar sobre os usos e abusos das representações simbólicas. Os sinais , usualmente usados em nossos dias e também em matemática, são exemplos de representações simbólicas. Nos primeiros anos de escolarização de crianças pequenas, o uso excessivo de simbolização pode prejudicar a compreensão sobre números, bem como rupturas necessárias frente aos estágios necessários ao VOCÊ QUER VER? Metodologia e Prática de Ensino da Matemática na Educação Infantil https://catalogcdns3.ulife.com.br/content-cli/EDU_MEPMEI_19/unida... 26 of 34 04/09/2022 12:32 http://tvcultura.com.br/videos/37459_d-14-a-matematica-na-educacao-infantil-pressupostos-para-o-trabalho-docente.html http://tvcultura.com.br/videos/37459_d-14-a-matematica-na-educacao-infantil-pressupostos-para-o-trabalho-docente.html http://tvcultura.com.br/videos/37459_d-14-a-matematica-na-educacao-infantil-pressupostos-para-o-trabalho-docente.html http://tvcultura.com.br/videos/37459_d-14-a-matematica-na-educacao-infantil-pressupostos-para-o-trabalho-docente.html http://tvcultura.com.br/videos/37459_d-14-a-matematica-na-educacao-infantil-pressupostos-para-o-trabalho-docente.html http://tvcultura.com.br/videos/37459_d-14-a-matematica-na-educacao-infantil-pressupostos-para-o-trabalho-docente.html http://tvcultura.com.br/videos/37459_d-14-a-matematica-na-educacao-infantil-pressupostos-para-o-trabalho-docente.html http://tvcultura.com.br/videos/37459_d-14-a-matematica-na-educacao-infantil-pressupostos-para-o-trabalho-docente.html http://tvcultura.com.br/videos/37459_d-14-a-matematica-na-educacao-infantil-pressupostos-para-o-trabalho-docente.html http://tvcultura.com.br/videos/37459_d-14-a-matematica-na-educacao-infantil-pressupostos-para-o-trabalho-docente.html http://tvcultura.com.br/videos/37459_d-14-a-matematica-na-educacao-infantil-pressupostos-para-o-trabalho-docente.html http://tvcultura.com.br/videos/37459_d-14-a-matematica-na-educacao-infantil-pressupostos-para-o-trabalho-docente.html http://tvcultura.com.br/videos/37459_d-14-a-matematica-na-educacao-infantil-pressupostos-para-o-trabalho-docente.html desenvolvimento numérico. Sobre isso, Panizza (2006, p. 29) escreve que: não se trata de ensinar os sistemas simbólicos à margem da atividade matemática, como se tratasse de um capítulo à parte do ensino da matemática, mas de compreender que, embora um sistema de representação não se confunda com o objeto matemático, constitui um objeto de conhecimento e de ter presente toda a complexidade que isso supõe para o sujeito que tenta se apropriar dele. Conforme a autora, um trabalho didático é necessário a longo prazo. No contexto da matemática existe um campo denominado de Educação Matemática. Esse campo discute várias questões pertinentes sobre o ensino e aprendizagem de matemática, sendo um deles chamado de Didática da Matemática. “O interesse principal da didática é estudar e descrever as condições necessárias para facilitar e otimizar a aprendizagem, por parte dos alunos, dos conteúdos de ensino de matemática” (MORENO, 2006, p.48). A didática da matemática tem como objetivo perceber condições que favoreçam os discentes a produzir novos conhecimentos matemáticos por meio de ferramentas que mobilizem e facilitem esse caminho. Uma das temáticas nas quais a didática da matemática aprofunda seus estudos é a Resolução de Problemas. E quando trata-se de problemas, não estamos falando de contas lançadas aos estudantes esperando um resultado positivo, muito menos qualificando suas soluções como conceitos ‘muito bom’, ‘regular’, ‘refazer’. Não é possível aprender e compreender matemática apenas resolvendo problemas. Muito mais que isso, é válido e indicado refletir sobre eles, bem como perceber as diferentes resoluções que ocorrem para uma mesma situação. Importante ressaltar que responder matematicamente um determinando problema expande o conceito de uma resposta única. Ao contrário, abre um leque de possibilidades que podem ser apropriadas pelos professores, no intuito de potencializar a compreensão sobre o objeto. Trata-se, então, de alinhar-se ao conhecimento lógico-matemático e à abstração reflexiva. Seria possível, então, trabalhar com resolução de problemas em uma idade baixa? Para Moreno (2006) sim. Para essa autora, trabalhar com problemas matemáticos nos primeiros dias de escolarização valida a ideia de que as crianças possuem conhecimentos necessários aprendidos fora do espaço escolar e tais podem Metodologia e Prática de Ensino da Matemática na Educação Infantil https://catalogcdns3.ulife.com.br/content-cli/EDU_MEPMEI_19/unida... 27 of 34 04/09/2022 12:32 colaborar com a aprendizagem dos conteúdos que fazem parte do currículo escolar. Importante ressaltar nesse momento que as crianças em idades pré-escolar normalmente trabalham com a numeração de 1 ao 9. Mas, muitas vezes as crianças já possuem certas habilidades desenvolvidas com a numeração antes da escola. Peça a uma criança de 4 ou 5 anos para contar. Possivelmente esta começa e continuará com números arbitrários, valendo a ideia de que as crianças não constroem a escrita convencional dos números tal qual a ordem da série numérica. Moreno (2006, p.58) relata em seu trabalho uma pesquisa realizada com crianças entre 5 e 6 anos de idade. A autora solicita que algumas crianças escrevam alguns números, por exemplo, 17. Uma criança chamada Luiza (5 anos e 10 meses) escreve 107. A pesquisadores pede que a criança escreva 24 e a criança escreve 204. Essa representação numérica expõe que Luiza conhece sobre a numeração, porém difere da numeração posicional. Ou seja, a numeração falada, aquele que estabeleceu em seu cotidiano, não se enquadra nos modelos escolares. Há então uma excelente oportunidade pedagógica para evocar a teoria para com ela produzir outras formas de conhecimento no espaço escolar com crianças. Sabemos que longo do processo escolar a notação numérica escolar fará parte do contexto dessas crianças. Isso não significa que a aquisição desse conhecimento sistematizado desfavoreça o espírito criativo e infantil que as crianças carregam consigo. Uma boa parte dos estudantes que finalizam o Ensino Médio mecanicamente conseguem realizar cálculos, todavia, apresentam dificuldades na compreensão de seus resultados, bem como não percebem a validade daquele conteúdo em suas vidas. A obra "Ensinar Matemática na Educação Infantil e nas Séries Iniciais: análise e propostas”, de Mabel Panizza e colaboradores (2006), é composta por capítulos oriundos de pesquisas acadêmicas com crianças da Educação Infantil e nas Séries Iniciais, relatórios de pesquisas, análise de registros em sala de aula, ente outros. Tem como objetivo ser um material destinado a professores e pessoas em formação. Uma boa leitura para compreender as aquisições numéricas (número e sistema de numeração). VOCÊ QUER LER? Metodologia e Prática de Ensino daMatemática na Educação Infantil https://catalogcdns3.ulife.com.br/content-cli/EDU_MEPMEI_19/unida... 28 of 34 04/09/2022 12:32 Nesse sentido, é importante que desde os primeiros anos escolares a utilização de resolução de problemas, bem como de situações que colaboram com a reflexão e ações frente ao contexto matemático. 1.4.1 Exemplos de resolução de problemas Como exemplo de possibilidades para trabalhar com crianças, a seguir apresentamos duas atividades extraídas do livro de Itacarambi (2010). A primeira, conforme a figura a seguir, por meio de relações lógicas, busca levantar hipóteses, bem como exige certo conhecimento em ordem numérica. O problema pede que seja feita a leitura das pistas e que se verifique de quem é cada casa. Seguem as pistas: • a casa dos duendes não é a mais baixa; • a casa da fada é a mais alta que a dos Duendes, mas é mais baixa que a casa do Dragão; • a bruxa gostaria de ter uma casa maior. Figura 7 - Relações lógicas na educação infantil. Fonte: ITACARAMBI, 2010, p. 25. Metodologia e Prática de Ensino da Matemática na Educação Infantil https://catalogcdns3.ulife.com.br/content-cli/EDU_MEPMEI_19/unida... 29 of 34 04/09/2022 12:32 A solução do problema acima da esquerda para direita do leitor: Dragão, Fada, Duende e Bruxa. O problema a seguir, conforme mostrado na próxima figura, tem como objetivo desenvolver o pensamento geométrico trabalhando a representação, direção e posição no espaço. Conforme instruções de Itacarambi (2010, p. 46), a atividade pode ser realizada distribuindo uma folha sulfite, 11 palitos e giz de cera colorido. O docente pode solicitar aos estudantes que montem uma casa colocando o Sol à esquerda e uma árvore à direita. Tal atividade é importante para o desenvolvimento das percepções espaciais. Tais atividades são importantes, pois trabalham com o lúdico e com a manipulação de objetos. VOCÊ SABIA? Conforme Oliveira (2005) Piaget preconiza que o espaço geométrico não é uma simples cópia do espaço físico. A abstração da forma é, na verdade, uma reconstrução a partir das próprias ações do Figura 8 - Exemplo do pensamento geométrico para utilizar com crianças. Fonte: ITACARAMBI, 2010, p. 27. Metodologia e Prática de Ensino da Matemática na Educação Infantil https://catalogcdns3.ulife.com.br/content-cli/EDU_MEPMEI_19/unida... 30 of 34 04/09/2022 12:32 sujeito, inicialmente no espaço sensório-motor e em seguida no espaço mental e representativo, que já é determinado pelas coordenações das ações espaciais. Refletindo sobre esta questão, Pires (2000, p. 30) escreve que “de um lado, a experimentação permite agir, antecipar, ver e explicar o que se passa no espaço sensível”. Ainda conforme a autora, por outro lado “vai permitir o trabalho sobre as representações dos objetos do espaço geométrico e, assim, desprender-se da manipulação dos objetos reais para raciocinar sobre representações mentais o que constitui enfim, a própria ação matemática”. Conforme escrevem Cerquetti-Aberkane e Berdonneau (2001, p. 4), ao trabalhar com matemática, antes de qualquer coisa, é necessário oferecer à criança oportunidades para agir e refletir sobre suas ações. A partir dessa ação e reflexão, podem “elaborar imagens mentais relativas a eles, e, ao vinculá-los e dar-lhes sentido, estruturar pouco a pouco os seus conhecimentos”. Agir a partir de práticas pedagógicas articuladas ao conteúdo e refletir sobre a mesma é um bom procedimento para trabalhar com matemáticas e crianças. Síntese Neste capítulo sinalizamos discussões que buscaram compreender a inclusão da Educação Infantil no processo histórico da Educação Básica, fazendo uma articulação com os direitos de aprendizagem e desenvolvimento na Educação Infantil. Mediante tais articulações, a teoria piagetiana foi sendo introduzida de maneira que suas estratégias de pensar e perceber a criança pudessem ser negociadas com a construção do conhecimento lógico-matemático de crianças entre zero e cinco anos de idade. Neste capítulo, você teve a oportunidade de: • acompanhar a evolução histórica sobre a educação infantil e conhecer as atuais políticas públicas que respaldam legalmente esse nível de ensino; Metodologia e Prática de Ensino da Matemática na Educação Infantil https://catalogcdns3.ulife.com.br/content-cli/EDU_MEPMEI_19/unida... 31 of 34 04/09/2022 12:32 • perceber que houve quatro modelos principais para a educação infantil, sendo eles: o modelo familiar/materno, o modelo higienista, o modelo recreacionista e o modelo escolar; • compreender a relevância das reivindicações de movimentos sociais e movimentos feministas para a inserção e garantia de creches na Constituição Federal de 1988 como um direito da criança e dever do estado; • apreender a natureza do conhecimento matemático na perspectiva da epistemologia genética de Jean Piaget; • identificar o que é conhecimento lógico-matemático, conhecimento Físico e conhecimento Social (convencional); • que representação e objetos são coisas diferentes. Bibliografia A MATEMÁTICA na Educação Infantil: pressupostos para o trabalho docente. Produção: Univesp TV. Vídeo, 17min29s. Disponível em: . Acesso em: 14/05/2018. ARGENTO, H. Teoria Construtivista. Disponível em: . Acesso em: 14/05/2018. BRASIL. Lei 9394/96 – Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Disponível em: . Acesso em: 20/05/2018. Metodologia e Prática de Ensino da Matemática na Educação Infantil https://catalogcdns3.ulife.com.br/content-cli/EDU_MEPMEI_19/unida... 32 of 34 04/09/2022 12:32 https://catalogcdns3.ulife.com.br/content-cli/EDU_MEPMEI_19/unidade_1/ebook/index.html# https://catalogcdns3.ulife.com.br/content-cli/EDU_MEPMEI_19/unidade_1/ebook/index.html# http://tvcultura.com.br/videos/37459_d-14-a-matematica-na-educacao-infantil-pressupostos-para-o-trabalho-docente.html http://tvcultura.com.br/videos/37459_d-14-a-matematica-na-educacao-infantil-pressupostos-para-o-trabalho-docente.html http://tvcultura.com.br/videos/37459_d-14-a-matematica-na-educacao-infantil-pressupostos-para-o-trabalho-docente.html http://tvcultura.com.br/videos/37459_d-14-a-matematica-na-educacao-infantil-pressupostos-para-o-trabalho-docente.html http://tvcultura.com.br/videos/37459_d-14-a-matematica-na-educacao-infantil-pressupostos-para-o-trabalho-docente.html http://tvcultura.com.br/videos/37459_d-14-a-matematica-na-educacao-infantil-pressupostos-para-o-trabalho-docente.html http://tvcultura.com.br/videos/37459_d-14-a-matematica-na-educacao-infantil-pressupostos-para-o-trabalho-docente.html http://tvcultura.com.br/videos/37459_d-14-a-matematica-na-educacao-infantil-pressupostos-para-o-trabalho-docente.html http://tvcultura.com.br/videos/37459_d-14-a-matematica-na-educacao-infantil-pressupostos-para-o-trabalho-docente.html http://tvcultura.com.br/videos/37459_d-14-a-matematica-na-educacao-infantil-pressupostos-para-o-trabalho-docente.html http://tvcultura.com.br/videos/37459_d-14-a-matematica-na-educacao-infantil-pressupostos-para-o-trabalho-docente.html http://tvcultura.com.br/videos/37459_d-14-a-matematica-na-educacao-infantil-pressupostos-para-o-trabalho-docente.html http://tvcultura.com.br/videos/37459_d-14-a-matematica-na-educacao-infantil-pressupostos-para-o-trabalho-docente.html http://penta3.ufrgs.br/midiasedu/modulo11/etapa2/construtivismo.pdf http://penta3.ufrgs.br/midiasedu/modulo11/etapa2/construtivismo.pdf