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Decifrando
a crase
CELSO PEDRO LUFT
Decifrando
a crase
Organização e supervisão:
Lya Luft
 
Revisão técnica e atualização:
Angela França
13-04422
Copyright © 1996 by Lya Luft, Susana Luft, André Luft e Eduardo Luft
 
Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta edição pode ser utilizada ou reproduzida –
em qualquer meio ou forma, seja mecânico ou eletrônico, por fotocópia, gravação, etc. –, nem
apropriada ou estocada em sistemas de bancos de dados sem a expressa autorização da editora.
 
Texto fixado conforme as regras do novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa
(Decreto Legislativo nº 54, de 1995)
 
 
Editor responsável: Carla Fortino
Editor assistente: Sarah Czapski Simoni
Revisão técnica e atualização: Angela França
Preparação de texto: Ricardo Antônio Silva
Revisão de texto: Laila Guilherme, Vanessa Rodrigues, Fabiana Medina
Projeto gráfico do miolo: Delfin (Studio DelRey)
Paginação: Linea Editora Ltda.
Capa: Axel Sande – Gabinete de Artes
Produção de ebook : S2 Books
 
1ª edição, 2005
2ª edição, 2013
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
Luft, Celso Pedro
Decifrando a crase / Celso Pedro Luft ; organização e supervisão Lya Luft ; revisão técnica e
coordenação Angela França. – 2. ed. – São Paulo : Globo, 2013.
 
ISBN 978-85-250-5715-0
 
1. Português – Acentuação 2. Português – Crase I. Luft, Lya. II. França, Angela. III. Título.
 
 
CDD-469.5
Índice para catálogo sistemático:
1. Acentuação : Português : Linguística 469.5
2. Crase : Português : Linguística 469.5
Direitos da edição em língua portuguesa para o Brasil
adquiridos por Editora Globo S.A.
Av. Jaguaré, 1485 – 05346-902 – São Paulo/SP
www.globolivros.com.br
SUMÁRIO
Capa
Folha de rosto
Ficha catalográfica
Apresentação
Abreviaturas e convenções
Lista de preposições
Crase & intuição
Primeira Parte - O problema do A com acento grave
Introdução
O acento grave índice de contração: crase
A crase da preposição com o artigo e os demonstrativos
O problema
Uma solução – sugestão para uma ortografia simplificada
Expedientes para tirar dúvidas
– Expediente gramatical (regência)
a) Presença da preposição [a]
b) Presença do artigo (a)
– Expediente de substituição
a) da, na, pela, para a, para
b) ao
c) a uma certa
– Outros expedientes
a) Diferença de significado
b) Plurarização
O acento grave índice de preposição: clareza versus
ambiguidade
Substantivo feminino subentendido
Substantivos próprios e o uso de crase
Crase e acento facultativos: casos relativos ao uso
– Com os possessivos
– Com a preposição até
– Com certos verbos
– Com nomes próprios
O a diante das palavras casa e terra
Segunda Parte - Dominando o A com acento grave
Aprendendo com as dúvidas e os erros alheios
Terceira Parte - Exercitando o domínio do A com acento grave
Exercícios
Comentários
Conclusão
APRESENTAÇÃO
Saber empregar o acento grave no a para indicar, na escrita da língua
portuguesa, a ocorrência do fenômeno crase é um problema clássico e atual em
nosso meio escolar. Além de atualizada a ortografia, segundo o Acordo
Ortográfico da Língua Portuguesa (1990), esta nova edição de Decifrando a
crase, de Celso Pedro Luft, é complementada por notas de rodapé que
acrescentam informações consideradas indispensáveis.
Corriqueiramente o estudante apresenta dificuldades de interpretação devido
à forma de linguagem usada por autores de livros didáticos sobre o
funcionamento da gramática portuguesa. O estilo jornalístico de Luft,
originário de textos elaborados para sua coluna no jornal Correio do Povo, de
Porto Alegre (1970-1984), tem efeito didático positivo ao público-alvo, seja
o leitor aluno comum (ensino médio) ou interessado em prestar concurso
público e/ou vestibular, seja estudante de graduação em Letras, seja, ainda,
professor. A linguagem de fácil compreensão permite que, sem grandes
tropeços, o objetivo proposto seja atingido: dominar o emprego do acento
grave no “a” na expressão escrita.
Para atingir a desejada competência, Luft enfrenta essa matéria crítica na
aprendizagem gramatical levando em conta as relações entre a Pedagogia e a
Linguística. Considerando que uma das metas do ensino sobre o funcionamento
da língua materna é a padronização da língua escrita, o ponto de vista adotado
é o da gramática descritiva, porém, afastado da atitude “purista” e da
complexa distinção entre o “correto” e o “incorreto”.
O papel da língua-padrão (ou norma linguística) torna-a um instrumento
essencial da cidadania na sociedade brasileira contemporânea, dado seu
contexto plurilinguístico. A norma gramatical apresentada no volume é
adequada à competência pretendida – desenvolver em ambiente formal do
ensino da língua o seu conhecimento explícito. É o que se entende por ensino
gramatical: explicitar as características, propriedades e funcionamento da
língua, objeto em estudo.
O título do prólogo, “Crase & Intuição”, fornece a base a partir da qual o
autor se fundamenta. Trata-se da hipótese gerativa, desenvolvida por Noam
Chomsky. Supõe que a criança já nasça com um programa que lhe permite,
rapidamente e sem ensino formal, logo em seus primeiros anos, adquirir sons,
vocabulário, construir palavras e frases da língua falada na comunidade em
que vive. No contexto atual da Linguística, essa hipótese é de consenso, e a
relação entre as línguas e a cognição é considerada decisiva para a área.
Fiz experiências com crianças ainda não desensinadas pelo ensino da crase [...]. Se
você der a uma criança pares contrastivos como: dirigir-se ao parque / dirigir-se à
praça; falar ao diretor / falar à diretora [...], ela terá dados para intuir (interiorizar) a
regra do “a” simples e do “a” composto, do a e do à. Ela “saberá” a crase e o
acento grave, intuitivamente. Um saber não explícito, não verbalizado em discurso
metalinguístico [...]. (Luft, 2013)
A partir daí, Luft sistematiza o fenômeno da crase, permitindo ao leitor
(estudante/professor) construir uma reflexão sobre a natureza e o
funcionamento desse assunto específico do português, além de tomar
consciência das operações que realiza nos atos de fala. Mostra também que o
estado atual da língua é resultante de um longo processo de mudança não
interrompido.
A primeira parte do volume apresenta a razão crucial para o fato de o falante
nativo do português brasileiro considerar o funcionamento do fenômeno da
crase uma tarefa árdua a ser dominada. Compreender a variação entre o
português europeu (PE) e o brasileiro (PB) explica a problemática da
aprendizagem em nosso país ao empregar o acento grave para marcar na
escrita a contração das duas vogais idênticas (a + a = à). No português falado
no Brasil não há diferença na pronúncia corrente – à soa como vogal aberta
[a], assim como o artigo ou a preposição –, tal como é perceptível no
português europeu. Uma característica relevante que distingue essas duas
variedades deve-se ao fato de as vogais átonas serem muito menos reduzidas
em PB que em PE, como se vê na representação fonética abaixo:
 
PB PE
p[a]rtir p[]rtir
 
Com efeito, enquanto no PE a redução das vogais átonas é extrema, no PB as
vogais não acentuadas são audíveis. A representação permite observar a
diferença fônica das vogais não acentuadas, comparadas à fala corrente da
vogal acentuada:
 
PB PE
p[a]ra [p ] para
[‘pa] [‘pa] pá
 
Para o falante do português brasileiro o fenômeno da crase é ortográfico, ao
passo que, como afirma Luft, “qualquer estudante luso acerta o acento grave
[porque] pode guiar-se pelo ouvido”.
Após Luft explicitar as condições (regras gerais) que determinam a
ocorrência de crase – se o termo regente exigir preposição a, e se o termo
regido aceitar o artigo a/as –, o leitor é convidado a raciocinar sobre as
regras (regularidades) de crasear no português escrito, por meio de testes
morfossintáticos chamados “expedientes”. A finalidade é tirar dúvidas, quer
sobre casos frequentes, quer sobre casos particulares, ditos especiais,
facultativos e discutíveis. Assim, as conhecidasCrase – à – vale por para a;
então imagine: *de 17 para a 23... A primeira condição para um à é haver à
direita um nome feminino; qual é o feminino em “de 17 a 23”?
Mas pode haver um feminino oculto, subentendido (elíptico). “Página”, por
exemplo.
Se digo “de 17 a 23”, não há “página” subentendido: falo simplesmente de
números. Agora, posso também dizer: “da página 17 à página 23”, ou, mais
economicamente: “da página 17 à 23”; e até: “da 17 à 23”. Em todos esses
casos, “a” acentuado (à): de + a = da) página 17 a a (→ à) página 23.
Observe bem a diferença:
 
(34) de 17 a 23 – simples preposição: de... a...;
(35) da 17 à 23 – combinação (da) e contração (à) das preposições com o artigo a
representando “página”.
 
Da mesma forma:
 
(36) das 17 às 23 – subentendido horas: de + as = das 17 horas a + as = às 23
horas.
 
Comprove-se, substituindo a preposição a por até:
 
(34a) de 17 até 23 – simples preposições;
(35a) da 17 até a 23 – preposição + artigo singular;
(36a) das 17 até as 23 – preposição + artigo plural.
 
Também “até à(s) 23” em (35a) e (36a), pois a preposição até tem a variante
até a, que a distingue da partícula inclusiva homônima. (Até doutores erram,
na crase.)
 
__________
 
Em anúncio radiofônico se ouve:
 
(37) *“Os fregueses serão atendidos de 7 a 9 horas.”
 
Antes era costume dizer-se: “das 7 às 9 horas”.
Pois não só antes. Ainda agora, todos aqueles que respeitam o bom uso da
língua só dizem e escrevem “das duas às três (horas)”, “da uma às quatro”,
etc. Isto é, usam o artigo definido na designação das horas do dia. E não é só o
“gênio da língua” que exige isso:[14] é de toda a lógica usar o artigo definido
nesse caso, pois se trata de tempo estritamente determinado.
Além do mais, a omissão do artigo definido gera ambiguidade, pecado mortal
contra a linguagem, que só existe para a comunicação clara e precisa de ideias
e informações.
Compare:
 
(38) Meu colega trabalha das oito às onze horas.
(38a) Meu colega trabalha de oito a onze horas.
 
Seu horário de trabalho, em (38), é das oito horas até as onze.
Seu trabalho, em (38a), se prolonga por oito ou onze horas.
Como é que vamos querer que a frase (38a), sem o artigo definido, signifique
o mesmo que a frase (38)?! Pois então: como é que a gente vai aceitar que a
frase (37) traduza o mesmo que a frase (37a)?
 
(37a) Os fregueses serão atendidos das sete às nove horas.
 
Mas, na aparência, foi isso mesmo que, desajeitadamente, contra a tradição
do idioma, e o bom senso, se quis exprimir naquela frase (37).
Agora, parece que isso virou moda em certos circuitos de linguagem. A
esportiva, por exemplo (E por que não seria “esportiva”?): *a 8 minutos do
primeiro tempo; *as faltas aconteceram de 20 a 30 minutos. Como se “de 20 a
30” minutos fosse o mesmo que “dos 20 aos 30 minutos”!...
 
__________
 
(39) *“... da página central a 50.”
 
1º Repor as palavras que faltam, com base no que se entende (colchetes para
sinalizar o “a” pronunciado):
 
(39a) ... da página central [a] página 50.
 
2º Separar as palavras que estão unidas. No caso temos da, que está por de a:
 
(39b) ... de a página central [a] página 50.
 
Agora o som [a]: é um “a” simples, ou um “a” duplo (aa = a + a)?
Bom: um “a” é exigência de “página 50”. Se “página central” exige “a (a
página central)”, por que não o exigiria “página 50”? Afinal, trata-se de uma
página bem determinada (50, e não outra), e a gente diz “Estou na página 50”,
e não: *Estou em página 50.
Além desse “a”, há mais outro, exigido à esquerda? Sim: a gente vai de um
lugar a outro (lugar), de uma página a outra (página). A combinação de ... a
exprimindo distância, extensão. Portanto:
 
(39c) ... de a página central a a página 50.
 
Agora, juntar de com a e a com a:
 
(39d) ... da página central aa página 50.
 
Os dois “aa” contraem-se, fundem-se na pronúncia; na escrita, representa-se
esse fenômeno: um “a” com acento grave:
 
(39e) ... da página central à página 50.
 
Finalmente, suprimindo a palavra repetida, chegamos à correta redação de
(39):
 
(39f) ... da página central à 50.
 
__________
 
Cuidado com a escrita correta do “a” nas indicações de datas:
 
(40) de segunda a sexta – sem acento;
(41) da segunda à sexta – com acento.
 
No caso (40), combinamos duas preposições – de ... a: de um dia a outro
(dia). Ora, a preposição a não leva acento. Se os dias fossem “sábado” e
“domingo”, teríamos:
 
(40a) de sábado a domingo
 
Outra maneira de comprovar o som [a] como preposição, neste caso, é
substituí-lo por até:
 
(40b) de segunda até sexta
 
Já no caso de (41), acrescentamos o artigo a: de + a = da; a + a = à: de a
segunda a a sexta → da segunda à sexta.
Se pluralizássemos, teríamos (o plural de “segunda” e “sexta” exigindo o do
artigo):
 
(41a) das segundas às sextas
 
Na pluralização de (40), o resultado é:
 
(40c) de segundas a sextas
 
ou seja, com até:
 
(40d) de segundas até sextas
 
Usando de novo “sábado” e “domingo”, (41) corresponderia a (41b):
 
(41b) do sábado ao domingo
 
O erro *de segunda à sexta (à = ao: prep. + art.) corresponde a: *de sábado
ao ​domingo.
Como artigo diante de “domingo” e não diante de “sábado”?
Outro erro, *da segunda a sexta, corresponde a: *do sábado a domingo.
Como usar artigo diante de “sábado” e não diante de “domingo”?
Coerência – é o que se pede.
 
__________
 
(42) *“O depoimento se desenrolou das 15 horas até 18 horas.”
 
Houve uma falha nessa frase: “15 horas” recebeu a determinação do artigo
definido – “as 15 horas” –, ao passo que 18 horas ficou sem artigo. Isso é o
mesmo que dizer *do sábado a domingo – “sábado” com artigo e “domingo”
sem artigo. Falta de coerência é o que é.
O que a coerência exige?
 
1º das 15 horas até as 18 horas – com artigo
 
ou então:
 
2º de 15 horas até 18 horas – sem artigo.
 
Prejudicada a segunda solução: primeiro, porque contraria o uso normal da
língua; segundo, porque exprime outra coisa: “trabalhar de 15 a 18 horas” não
é o mesmo que “trabalhar das 15 às 18 horas”.
Se em lugar da preposição até usarmos outra – a –, o resultado será este: “de
as 15 horas a as 18 horas”. O que dá, combinando preposições e artigos: “das
15 horas às 18 horas”.
Repare-se no emprego das preposições para expressar extensão de tempo: de
– ponto de partida (15 horas) a – ponto de chegada (18 horas).
E uma última solução, se reforçarmos a preposição até com a preposição a =
locução prepositiva até a: de as 15 horas até a as 18 horas. O que dá,
combinando preposições e artigos: das 15 horas até às 18 horas.
Em suma:
 
(42a) O depoimento se desenrolou das 15 horas às 18 horas.
(42b) O depoimento se desenrolou das 15 horas até as 18 horas.
(42c) O depoimento se desenrolou das 15 horas até às 18 horas.
 
Eis as boas formas – coerentes e de acordo com a tradição da língua.
 
__________
 
(43) *“O público não assistiu à nada de novo.”
 
Relembrando, para se acentuar o “a”, é preciso no mínimo de um substantivo
feminino à sua direita. Imaginem: nada, substantivo feminino! *Não preciso da
nada, *não penso na nada...
“Não preciso de nada”, “não penso em nada”. Isso é que é. De, em são
irmãos de a; sem acento grave, portanto.
 
(43a) O público não assistiu a nada de novo.
 
__________
 
(44) *“Prometo a torcida muito esforço.”
 
Aplique a correspondência
 
à = da, na, pela, para a,
 
em contraste respectivo com
 
a = de, em, por, para:
 
(44a) Prometo para a torcida muito esforço.
 
Substitua “torcida” por um masculino equivalente e aplique a
correspondência
 
à = ao
 
em contraste com
 
a = o; a = a (invariável):
 
(44b) Prometo ao torcedor muito esforço.
 
Como para a = à, e ao = à, corrija-se (44):
 
(44c) Prometo à torcida muito esforço.
 
__________
 
(45) *“Não haverá aulas durante à noite.”
 
Substitua o feminino “noite” pelo masculino “dia”:
 
(45a) Não haverá aulas durante o dia.
 
o = a, sem acento. Logo:
 
(45b) Não haverá aulas durante a noite.
 
__________
 
(46) *“X declarou a imprensa que havia alguns problemas.”
 
Aplique a correspondência à = da, na,pela, para a, em contraste respectivo
com a = de, em, por, para:
 
(46a) X declarou para a imprensa que havia...
 
Para a = à; logo:
 
(46b) X declarou à imprensa que havia alguns problemas...
 
__________
 
(47) *“... os alunos devem pedir licença a direção do colégio.”
 
Tente usar a preposição para. Resultado: pedir licença para a direção. Ora,
para a é o equivalente de a + a = à.
Substitua o feminino “direção” por um masculino. Resultado: pedir ao
comando, pedir ao diretor do colégio. Ora, ao é o masculino de à (a + o = ao;
a + a → aa = à). Logo:
 
(47a) ... os alunos devem pedir licença à direção do colégio.
 
__________
 
(48) *“... prêmio concedido a mais popular atriz.”
 
Use o masculino: “ator” em lugar de “atriz”. Resultado: prêmio concedido ao
mais popular ator. Sendo ao o equivalente de à:
 
(48a) ... prêmio concedido à mais popular atriz.
 
__________
 
(49) *“... a entrega à S. Ex.a da enciclopédia Mirador.”
 
Ora, *à S. Ex.a é exatamente como *para a S. Ex.a.
As expressões de tratamento repelem o artigo: “S. Ex.a falou”; “palavras de
S. Ex.a” (e não: *a S. Ex.a falou; *palavras da S. Ex.a). Palavra que não admite
artigo na frente também não admite crase. Portanto:
 
(49a) ... a entrega a S. Ex.a da enciclopédia Mirador.
 
__________
 
(50) *“Solicito à V. S.a informar-me onde poderei encontrar as respostas.”
 
Primeiro: existe aí a preposição a? Sim: solicitar algo (informar...) a alguém
(V. S.a). Como sei que é preposição? Porque não varia: a alguém, a alguma
pessoa, a alguns, a algumas pessoas. Um a na frente de algo, alguém,
alguma(s), aliás, só pode ser preposição. Ou ainda: sei que um a é preposição
quando ele é substituível por para, de, etc.: solicito para V. S.a, solicito de V.
S.a.
Segundo: existe aí o artigo a? Não. Como sei? Por frases que faço: “V. S.a
pode informar-me...” (e não: *a V. S.a pode informar-me...); “solicito um favor
de V. S.a” (e não: *da V. S.a); etc. Tudo provando que Vossa Senhoria (como as
demais “formas de tratamento” vossa/sua... e os pronomes pessoais, o que
elas aliás são...) não admitem anteposição de artigo.
Então, se o a é apenas preposição, escreva-se sem acento:
 
(50a) Solicito a V. S.a informar-me onde poderei encontrar as respostas.
 
__________
 
(51) *“... dirijo-me a senhora.”
 
Use para no lugar de a. Resultado: “dirijo-me para a senhora”. A
combinação para a corresponde a à (acentuado).
A locução “à senhora” é o feminino de “ao senhor”, onde temos a
correspondência ao = à. Logo:
 
(51a) ... dirijo-me à senhora.
 
__________
 
(52) *“Guardo da cooperação dessa unidade a melhor das impressões, graças a
convivência com o ilustre Colega.”
 
Digamos que haja dúvida: a ou à? Faça a verificação da sequência [prep. a +
art. a]:
 
1º graças a algo: isso mostra que “graças” exige um primeiro a;
2º “convivência com o ilustre Colega” exige artigo? Sim: a convivência com o Colega
foi agradável.
 
Ou você troca o “graças a (algo)” por um sinônimo. Resultado: ... por causa
da convivência com o ilustre Colega, onde o da mostra a existência do artigo
[prep. de + art. a].
Ou então você troca o substantivo feminino por um equivalente masculino: ...,
graças ao convívio com o ilustre Colega. Então: se no masculino ao (a + o),
no feminino, a + a → aa = à. Ou seja, o feminino de ao é à (= a + a). Logo,
corrigindo (52):
 
(52a) Guardo da cooperação dessa unidade a melhor das impressões, graças à
convivência com o ilustre Colega.
 
__________
 
(53) *“Caberá a Comissão Administrativa a escolha do nome do plano.”
 
Primeiro: há preposição a? Sim: uma coisa (a escolha) cabe a alguém
(Comissão Admi​nistrativa). O verbo “caber” rege um complemento
introduzido por a (preposição). Segundo: há artigo a? Sim: a Comissão
Administrativa escolhe o nome do plano. Logo: Caberá a a Comissão
Administrativa... → Caberá à Comissão Administrativa...
Ou a gente troca o feminino por um masculino equivalente: Caberá ao Comitê
Admi​nistrativo a escolha... Se ao no masculino, então no feminino à.
Retifique-se portanto a frase transcrita:
 
(53a) Caberá à Comissão Administrativa a escolha do nome do plano.
 
__________
 
(54) *“Agarrou o centroavante impedindo-o de dar continuidade a jogada.”
 
Acentuo ou não o “a”? Tire você mesmo a dúvida. Só vai acentuar se esse
“a” valer por dois: “a a”. Primeiro: temos aí a preposição a? Sim: “dar
continuidade” a algo. Como sei que um a é preposição? Porque não varia (é
palavra invariável): a algo, a alguma coisa, a algumas coisas, a alguns
negócios. Segundo: temos aí também o artigo a? Sim: a jogada do
centroavante foi impedida; impediu-o de continuar a jogada. Persiste a dúvida
sobre o artigo? Pluralize o substantivo: “jogadas”; se aparecer um “s” no “a”,
é o artigo feminino concordando. Veja: “dar continuidade” (as) “jogadas”.
Logo, há artigo. Como já sei que há também preposição, então: a + a = à.
Outro método: troque o feminino por um masculino equivalente. Resultado:
“... dar continuidade ao lance”. Ora, o feminino de ao é à. Logo:
 
(54a) Agarrou o centroavante impedindo-o de dar continuidade à jogada.
 
__________
 
(55) *“Os policiais deram prosseguimento as investigações.”
(56) *“Dê publicidade as suas atividades”.
 
Como o “s” prova que temos artigo (as) e “se dá prosseguimento a alguma
coisa”, “se dá publicidade a alguma coisa” prova que temos preposição, era
até difícil não acertar (com a condição de raciocinar, naturalmente). Porque a
+ as = às.
Podemos também fazer o teste do masculino:
 
(55a) Os policiais deram prosseguimento aos inquéritos.
(56a) Dê publicidade aos seus negócios.
 
Ora, o feminino de aos é às. Seria aas, digamos, mas substitui-se o primeiro
“a” pelo acento grave.
Logo:
 
(55b) Os policiais deram prosseguimento às investigações.
(56b) Dê publicidade às suas atividades.
 
O exemplo (56b) poderia ser também:
 
(56c) Dê publicidade a suas atividades.
 
Onde o a se prova simples preposição, pois não varia.
 
__________
 
Repare-se bem na construção:
 
(57) Uma mulher – dá – uma criança – à luz.
 
O [sujeito – verbo – objeto direto – objeto indireto].
Geralmente o objeto indireto se antepõe ao direto: deu à luz um menino.
Também ocorre a construção sem objeto direto: a mulher está prestes a dar à
luz. Como dar à luz significa “parir”, pode-se tomar a expressão como
unidade; no caso, intransitiva, e na construção plena (57), transitiva direta.
Figuradamente, “publicar”: dar à luz uma obra (de arte ou científica), um
livro.
 
__________
 
(58) *“O rádio é a arma mais forte no combate a inflação.”
 
Primeiro: preposição a? Sim: combate a (de, contra) algo. Segundo: artigo
a? Sim: o rádio combate a inflação, a inflação deve ser combatida.
Ainda persiste a dúvida? Troque a preposição: ... no combate contra a
inflação, ... no combate da inflação. Contra a e da é preposição (contra; de) +
artigo (a), correspondendo a à = a + a. Logo:
 
(58a) O rádio é a arma mais forte no combate à inflação.
 
__________
 
(59) *“A única diferença de uma Taça de Ouro em relação a outra estava na 1ª
fase.”
 
Temos preposição? Sim: aquilo em relação a isto; x em relação a y; umas
coisas em relação a outras. Como sei que é preposição? Além da função de
ligar (conectivo), o poder ser substituída por outra preposição: em relação
com outra. E por ser invariável.
Temos artigo? Faça o teste de masculinização, o teste de pluralização:
 
(59a) ... diferença de um campeonato em relação ao outro...
(59b) ... diferença de umas taças em relação as outras...
 
Em (59a) apareceu ao, preposição a + artigo o; seu feminino é à, prep. a +
art. a.
Em (59b), o “s” prova a existência do artigo no plural. Outra prova do artigo
nos dá a ​troca da preposição: uma relação com a outra. Logo, às em (59b) e à
em (59), que corrigida fica:
 
(59c) A única diferença de uma Taça de Ouro em relação à outra estava na 1ª fase.
 
__________
 
(60) *“Ele pertence à família sem projeção política.”
 
Um “a” com acento grave, à indica crase. Um “a” duplo, valendo por
preposição a + artigo definidoa.
 
(A) Ele pertence ao time campeão.
(B) Ele pertence à equipe campeã.
(C) Ele não pertence a time nenhum.
(D) Ele não pertence a equipe nenhuma.
 
Observe-se (sinta-se) como em (a) e (b) se fala em time e equipe bem
determinados (definidos). Já em (c) e (d) fala-se em time e equipe
indeterminados (indefinidos).
E na frase (60)? Também se fala em família não determinada. Tanto que
podemos antepor a palavra uma (artigo indefinido):
 
(60a) Ele pertence a uma família sem projeção política.
 
Esta frase evidencia como é absurdo acentuar o “a” de (60): pôr acento no
“a” é indicar que, além da preposição a, temos artigo definido. Mas como
artigo “definido” diante de um substantivo (família) “indefinido”? Se
“pertence a uma família sem projeção”, então:
 
(60b) Ele pertence a família sem projeção política.
 
__________
 
(61) *“Existem alguns riscos associados a pílula.”
 
A gente acentua o “a” para sinalizar que ele vale por dois: a + a → aa = à.
Em (61) temos “a” simples ou “a” duplo?
Você tira a dúvida com toda a facilidade (isso de “a” acentuado só é difícil –
e bota difícil... – em aula de Português...).
O primeiro a, preposição, irmão de ante, após, até, com, etc. (veja lista
completa na p. X).
O segundo a, artigo feminino, irmão de o, artigo masculino; junto com um,
feminino uma, forma outra família.
Substituindo o a por algum dos irmãos das duas famílias, a gente elimina
qualquer dúvida. Veja: riscos associados com a pílula, riscos da pílula...
Pronto, já tenho a resposta. O a foi substituído por com a e da: com + a; de +
a – duas palavras. Logo, também o “a” de (61) representa a junção de duas
palavras. Um “a” duplo. E um “a” duplo exige acento grave:
 
(61a) Existem alguns riscos associados à pílula.
 
__________
 
(62) *“Hostess brasileira à bordo.”
 
Acentua-se o “a” para indicar que ele vale por dois. (Repito de propósito. É
preciso repetir, repetir, repetir, até que máquinas, tintas, papéis saibam a lição
de cor. Daí, por efeito retroativo, pela culatra, quem sabe...)
*À bordo é como *da bordo, *na bordo, *para a bordo, *sobre a bordo...
Erro imperdoável, pois à é incompatível com substantivos masculinos: à = a +
a, onde o segundo “a” é artigo feminino. O correspondente masculino de à é
ao. Veja: a dedo, a domicílio, a esmo, a gosto, a jato, a nado, a pé, a prazo, a
rodo, a soco, a tiracolo, a tiro, a vapor...
Corrija-se a constrangedora bisonhice:
 
(62a) Hostess brasileira a bordo.
 
__________
 
“Escrever à máquina. Tenho certeza de que deve ser: escrever a máquina
(sem crase), pois, substituindo o nome feminino por um masculino, temos:
escrever a lápis. Mas talvez seja uma exceção...”
Pode-se provar ainda que esse “a” não é crase, substituindo-o: escrever com
(uma) máquina. A comutação deu como resultado um com; com é preposição,
logo também é preposição o a. No entanto se diz passar o dia na máquina,
optar entre a mão e a máquina – o que prova que também se usa esse
substantivo com artigo, mesmo tomado genericamente.
Assim, a lógica prova que o a de “escrever (a) máquina” é preposição, sem
acento. Mas língua não é lógica, quer dizer: é e não é – ela “tem uma lógica
que a lógica desconhece”. É que o à não se usa apenas para indicar a fusão
(crase) de a + a. Usa-se também, por motivo de clareza e por tradição ou
tendência histórica do idioma, em muitas expressões femininas: barbear-se à
navalha, colher ou copiar à mão, guardar à chave (cp. guardar a sete chaves),
descascar à unha ou à faca (cp. descascar a dente, a canivete ou a facão),
matar alguém à fome; à pressa (cp. depressa, com pressa), à noite (cp. de
noite), à vista (cp. a prazo), à vontade (cp. com vontade); etc.
Portanto, indiferente:
 
(63) escrever a máquina
 
ou:
 
(63a) escrever à máquina
 
A tradição da língua, no entanto, é acentuar esse tipo de “a” – em locução
adverbial de estrutura [a + subst. fem. sing.].
 
__________
 
(64) *“O encontro ocorreu segunda-feira a tarde.”
 
Quem escreve *segunda-feira a tarde, deve escrever – questão de coerência –
*segunda-feira por tarde, ou *segunda-feira a meio-dia... Como o correto é
“segunda-feira pela tarde”, “segunda-feira ao meio-dia”, e o irmão de pela e
ao é à, escreva-se:
 
(64a) O encontro ocorreu segunda-feira à tarde.
 
Como se vê, continua oportuno o velho lembrete: à é a + a, irmão de ao (a +
o) e de da, na, pela. Contrasta com a, irmão de o e de de, em, por.
 
__________
 
“Encontramos na Gramática metódica da língua portuguesa, de Napoleão
Mendes de Almeida, ‘pagamento a vista’, e no Aurélio ‘pagamento à vista’, o
que deixa o leigo um tanto confuso e inseguro.”[15]
 
Têm ambos razão, o Napoleão e o Aurelião. O primeiro, na lógica (ele é
essencialmente – às vezes estreitamente – logicista); o segundo, no uso. Como
a linguagem é, em definitivo, determinada (autodeterminada) pelo uso...
Do ponto de vista da lógica (napoleônica), vista ocorre sem artigo
(indefinidamente) em locuções semelhantes: “em vista de”, “perder de vista”,
“pedir vista(s)”, etc. Comparar também com “a olho (nu)”.
Mas – e por que nesse terreno faltaria um “mas”? –, por motivos de clareza e
para atender às tendências históricas do idioma, é tradição da língua
portuguesa escrita acentuar o “a” das locuções circunstanciais de substantivo
feminino singular, mesmo que esse “a” seja mera preposição. Uma tradição em
séculos e séculos, por corresponder (em Portugal) a um [a] aberto, igual ao de
crase: [a + a] → [aa] → [a] pronunciado aberto, escrito à. Ver o que
escreveram sobre esse à Said Ali (Meios de expressão e alterações
semânticas, 3. ed., Rio de Janeiro, Fundação Getulio Vargas, 1971, pp. 1-10),
Jorge Daupiás (Recreações filológicas, Lisboa, Bertrand, 1937, pp. 253-7),
Rocha Lima (Gramática normativa da língua portuguesa, 16. ed., Rio de
Janeiro, José Olympio, 1973, p. 335, onde entre outros exemplos consta “à
vista”).
Ver também um tal de C. P. Luft (Novo guia ortográfico, São Paulo, Globo,
2013): “à vista (desarmada)”, “à vista (de)”.[16]
O resto... Bem, o resto é matéria para as famosas aulas de crase (1º, crase
obrigatória; 2º, crase proibida!; 3º, crase facultativa) de professor de
Português sem assunto...
 
Em suma, acentue o à, embora seja pura preposição:
 
(65) pagamento à vista
 
É a boa tradição da nossa escrita; naturalmente, quem não acentuar também
tem razão. Mas como o uso consagra a forma...
 
__________
 
“ERRO NO VOLANTE
No teste 538 da Loteria Esportiva, a Caixa Econômica Federal pede que o
nome e endereço do apostador seja preenchido ‘à mão’, usando erroneamente
a crase no ‘a mão’. Nesse caso o ‘a’ não deve ser craseado, já que não se
enquadra dentro das regras nem nas exceções. O ‘a’ é apenas preposição.
Poderá também o apostador preencher o nome ‘a lápis’, isto é, ‘com o lápis’
ou ‘com a mão’, portanto sem crase. Acho que os órgãos governamentais
deveriam zelar mais para que não fosse tão massacrada a nossa língua
portuguesa. Imaginem quantos milhões de brasileiros manusearam o volante da
Loteria Esportiva naquela semana. O que é visto é lembrado, assim muitos que
não conhecem as regras da crase, pelo fato de terem lido ‘à mão’ com crase,
irão escrever com crase, pois é lendo e escrevendo que se aprende o
português.”
 
Sinto muito, mas não se pode engolir essa lição de crase. Tanto faz escrever
“à mão” como “a mão”, e vou explicar por quê. Antes, duas palavras:
precisamos tirar da cabeça (de uma vez para sempre!) a ideia de que o acento
grave (não “crase”) no “a” se aprende com regras e exceções. Sei, sei:
professores e manuais costumam dividir a matéria em três capítulos – crase
obrigatória, crase proibida, crase facultativa. Claro, cada capítulo com pencas
de regras (e exceções, como não?). Algum aluno pode aprender assim? O
milagre ainda não aconteceu.
Não há isso de regras (no plural) de crase.
 
A regra da crase é uma só: a sequência aa dá um [a] só, na pronúncia, e
na escrita um “a” acentuado, à (como se o primeiro “a” fosse substituído
pelo acento grave no segundo). Exemplo: obedecer a o pai → obedecer
ao pai;obedecer a a mãe → obedecer à mãe.
 
Dada a regra – única – acentuar o “a” quando vale por dois (a + a → aa =
à), está claro que a tática tira-dúvidas só pode consistir em identificar o som
[a] como preposição (a), como artigo (a), ou como a fusão de ambos (à).
Exercícios de identificação dos “aa”, estudo do emprego da preposição a e do
artigo – é o que cabe fazer. Nada mais. Nada de crases obrigatórias, crases
proibidas e crases facultativas. Observar, analisar, raciocinar; de preferência
sem usar o palavrão-tabu “crase”...
Uma só regra. Mas, não haverá mesmo exceção? Como é aquilo das
locuções, com substantivo feminino singular?
Justamente o caso de “a? / à? mão”. Vamos lá.
Exceção? Não: regra especial de variação livre. Em sequências de [prep. a +
subst. fem. sing.] que se confundem com [art. a + subst. fem. sing.], pode-se
acentuar a preposição a, para evitar ambiguidade. A tradição da língua é
acentuar. (Em Portugal é um [a] aberto, como o de crase, em contraste com o
[a] pronunciado fechado, reduzido, do artigo; daí a origem do acento: abertura
e acento com função diferencial ou de desambiguação.)
Exemplo: pintar a máquina = 1) pintar com máquina; 2) pintá-la; se 1, então,
pintar à máquina. E assim: cortar à faca, fechar à chave, matar à fome, pescar
à linha, etc.
Era o caso do volante da (Loteria) Esportiva:
 
(66) ... preencher (nome, endereço) à mão...
 
Nenhuma ambiguidade no contexto; ainda assim, acentuando o “a”, os
responsáveis pelo texto mantiveram-se dentro da tradição gráfica da língua.
Mas... aquele “a” é de fato um “a” simples, apenas preposição? Resposta
positiva, se pensarmos em locuções semelhantes, como “a dedo”, “a pé”, “a
braço(s)”, “a punho” e, com a própria palavra mão, de mão, em mão(s). Mas
resposta negativa se tomarmos a defi​nição de “[a] mão” como “com a mão”.
“Preencher [a] mão” = “preencher com a mão”.
 
Se [a] = com (prep.) + a (art.),
então [a] = a (prep.) + a (art.) → aa = à.
 
Então? Duas interpretações possíveis: “[a] mão” = 1) prep. + subst.; 2) prep.
+ art. + subst.; portanto, 1) a mão; 2) à mão.
Essa vacilação se pode comprovar nos dicionários em verbetes como “mão”,
“manual”, “manuário”, “manufatura”, “manuscrever”, “manuscrito”, onde
aparecem definições como “feito à (ou a) mão”, “escrever à (ou a) mão” – o
“a” acentuado ou não, às vezes no mesmo dicionário. Variação livre, portanto.
Mas “à mão”, com acento, é tranquilamente majoritário. O acento é
sistemático nos dicionários clássicos Morais e Aulete. Até o Dicionário
latino-português de Santos Saraiva só faz confirmar o genuíno à mão:
“manualis [...] movido à mão”; “manufactus [...] Feito à mão”; “manus [...]
Præ manu [...] À mão”.
À mão? Não: nesta altura estamos a pé. Meio convencidos, parece, de que,
em afirmações sobre a língua, toda cautela é pouca.
 
__________
 
“‘A toa’ (locução adverbial) e ‘à toa’ (adjetivo). Encontro em duas boas
gramáticas a locução conforme escrevi: ‘a toa’. Mas meu dicionário registra
‘à toa’. É certo que se pode comparar com ‘a esmo’, mas também há ‘ao
acaso’. Por isso, pergunto: é ‘a toa’, ou ‘à toa’?”
 
O Vocabulário ortográfico da língua portuguesa (2009), nosso diploma
legal no assunto, registra: à toa, adv., adj. 2g. 2n.; à toinha, adj. 2g. 2n.
Essa, a escrita oficial. Orientação suficiente para os que não indagam pela
origem e o porquê das coisas.
Para os outros, duas palavras de explicação.
A locução “à toa” provém de “toa” (corda de rebocar, sirga [cabo de
reboque]) e signi​-
fica: sem reflexão nem tino, a esmo, ao acaso.
Toa é transformado do inglês tow “reboque”. À toa significa, pois,
originariamente, “a reboque”.
Quanto a “crase ou não crase?”, lembro o seguinte:
É caprichoso o emprego do artigo nas locuções: ao léu; a rodo; a meu ver ::
ao meu ver, ao par :: a par, ao redor :: em redor; ...
Nas locuções femininas, a tendência da nossa língua escrita é marcar o a,
mesmo que seja apenas preposição. É uma marcação de clareza, necessária em
casos como: “vender à vista” (cp. “a prazo”), “ataque à arma” (cp. “a
revólver”), “matar à fome”...
Quem estudou bem o assunto foi mestre Said Ali (Meios de expressão e
alterações semânticas, 1971, 3. ed., Rio de Janeiro, Fundação Getulio Vargas,
pp. 1-10).
Em resumo: a tendência da língua é marcar com acento grave o “a” das
locuções femininas, mesmo que não se trate de crase.
 
__________
 
(67) Desde as onze horas da noite de hoje, haverá uma alegria mais ruidosa,
espocarão foguetes, lagrimejarão luz e cor os fogos de artifício.
Desde as onze horas da noite de hoje será maior a expectativa de um novo ano,
mais ansiosa a esperança de um ano de paz e amor para todos os homens.
 
Desde as onze horas. Ou desde as vinte e três horas. “Desde as”: as, artigo
definido feminino plural; as, portanto, sem acento.
Tenho encontrado, com certa insistência, o erro de pingar o acento grave
sobre as. Como se fosse crase.
Análise: “desde as onze horas” = preposição + artigo + numeral +
substantivo. Crase aí, só se a preposição for a ou locução prepositiva
terminada em a (como junto a). Ora, a preposição é desde; logo...
Truque (sei que muitos preferem truques; é mais divertido que analisar e
pensar): substituição por um masculino.
 
(67a) Desde os onze minutos (de um jogo, por exemplo).
 
Desde os? Os é o masculino de as. Logo: “desde as onze horas”. Para termos
às, com acento, deveríamos ter aos no masculino: *desde aos onze minutos...
 
(67b) Desde o meio-dia/desde a meia-noite.
 
Conclusão – Só teremos *desde às no dia em que tivermos *desde aos. Ou,
gramaticalmente, quando pudermos combinar a preposição desde com a
preposição a; por enquanto, as duas brigam como água e azeite.
 
__________
 
(68) *“X chegou para pôr fim a rotina.”
 
Assim o “a”, sem acento. Quer dizer, não considerado crase. Vamos tirar as
provas.
 
1ª Raciocínio gramatical – Preposição é, porque temos aí a expressão “pôr fim a”
(alguma coisa). Artigo também é, pois “rotina” normalmente pede a determinação
do artigo definido: não gosto da rotina; a rotina estraga a beleza das coisas; não sai
da rotina; devorado pela rotina. Imagine o contrário: não gosto de rotina (mais ou
menos); rotina estraga a beleza das coisas (não); não sai de rotina (não); devorado
por rotina (não).
2ª A pluralização do substantivo feminino precedido de a – Essa pluralização vai
demonstrar a existência do artigo a, se aparecer (as):
 
(68a) X chegou para pôr fim (as) rotinas.
 
Portanto, temos artigo e preposição: pôr fim a + as rotinas.
 
3ª Substituição da preposição a ou (por não saber se há preposição a) substituição do
elemento da esquerda do som [a]:
 
(68b) X chegou para acabar com a rotina.
 
A substituição nos prova, de novo, que temos artigo (“acabar com rotina” é
inaceitável).
Outras substituições: “dar cabo da rotina”, “eliminar a rotina”, “vencer a
rotina”, “afastar a rotina”. Todas provam a existência do artigo a. Como antes
desse a já temos “pôr fim a”, a sequência é: pôr fim a + a rotina. Regra de
escrita (morfografêmica):[17]
 
a + a = à
 
4ª Substituição do substantivo feminino (que segue o a) por um masculino – Esse
expediente serve para verificar a existência ou não existência tanto do artigo como
da preposição. Teremos a correspondência:
 
a → a (prep.: não variou)
a → o (art.)
ao → à (prep. + art.: crase)
 
(68c) X chegou para pôr fim ao ramerrão.
 
Portanto, ao → à (“pôr fim a ramerrão” é inaceitável).
 
Conclusão – Todos os expedientes nos provam a existência da preposição a e
do artigo a, e portanto da crase, na frase (68). Isto é, na escrita, de à (a com
acento grave).
 
(68d) X chegou para pôr fim à rotina.
 
__________
 
De um leitor:
 
“Na frase a seguir há ou não há crase?
 
(69) E vão até as periferias da cidade.
 
“No livro Novo guia ortográfico, expressa-se o senhor a favor do uso da
crase no ‘até às’. Gostaria de saber o porquê da crase, se ela existir
realmente.”
 
Resposta: facultativamente as ou às.
No meu Novo guia ortográfico registro grande número de locuções e
sequências começadas com a, outrascom à. Entre elas “até à medula (dos
ossos)”, “até à raiz dos cabelos”, “até à saciedade”, “até às orelhas”, “até às
últimas” e “até à vista”. Tudo com à acentuado. A experiência de leitura e a
consulta de bons dicionários me ensinaram que a prática é essa.
A prática. Porque a teoria facilmente prova que ali podemos ter tanto “a(s)”
como “a + a(s)”. Como?! Como podem coocorrer duas preposições, até + a?
Podem, sim. Acontece que a preposição até foi acumulando a função de
palavra inclusiva:
 
(70) Até (= mesmo) o nosso professor se enganou.
 
Daí foram surgindo ambiguidades:
 
(71) Queimou tudo, até o galpão.
 
Frase que pode significar:
 
(71a) Queimou tudo, até (junto a) o galpão.
(71b) Queimou tudo, até (mesmo) o galpão.
 
Em (71a) até exprime “extensão”: preposição. Em (71b) até exprime
“inclusão”: partícula inclusiva.
Para resolver esse problema de ambiguidade, foi-se reforçando o até,
preposição, com outra preposição, a. Mas isso só é viável diante do artigo
definido e dos demonstrativos: até o → até + a o → até ao; até a → até + a a
→ até à (não é possível até a, portanto, diante de substantivos que não
admitem artigo: Vamos até Portugal (e não: *até ao Portugal), até Roma, até
Montevidéu, até Uruguaiana...):
 
(71a’) Queimou tudo, até ao/até àquele galpão, até à/até àquela casa.
 
Pois, nas locuções adverbiais citadas, temos a sequência [até, preposição, +
a, artigo] (até a medula dos ossos, até a raiz dos cabelos...). Possibilidade de
reforço preposi​cional para até, que o uso consagrou: até + a [a medula dos
ossos, a raiz dos cabelos...] → até à medula dos ossos, até à raiz dos
cabelos...
Vê-se bem que esse [a] não é necessariamente índice de crase, e portanto não
obrigatoriamente acentuado. Um acento grave opcional. Assim, também a frase
(69) tem variante ortográfica com “a” acentuado:
 
(69a) E vão até às periferias da cidade.
 
Pode-se objetar: acento inútil, pois não há ambiguidade possível. Certo. E
por isso nenhum prejuízo em escrever o “a” sem acento. Não é assim com o
verbo “avançar”.
 
A frase
 
(72) E avançam até as periferias da cidade.
 
pode significar:
 
(72a) E avançam (eles) até (junto) às periferias da cidade.
 
ou:
 
(72b) E avançam até (mesmo) as periferias da cidade.
 
Para esse sentido, a mudança de ordem resolveria:
 
(72b’) E até as periferias da cidade avançam.
 
Aqui, “periferias” sujeito, e em (72a) “periferias” complemento (objeto) de
preposição.
 
__________
 
De outro leitor:
 
“Peço ajuda para apontar o possível erro crasso na frase seguinte:
 
“(73) A Casa X atende até às 19 horas.”
 
Nenhum erro crasso em “até às 19 horas”. Nem erro mesmo.
A preposição até, para não se confundir com a partícula inclusiva homônima
(até = mesmo, inclusive), pode ser reforçada pela preposição a, sempre que
seguida de artigo ou demonstrativo: até o/até ao lugar indicado; até a/até à
localidade indicada; até aquele/até àquele lugar; etc. Veja:
 
(73a) A Casa X atende até as 19 horas.
 
ou, reforçando o até:
 
(73b) A Casa X atende até a as 19 horas.
 
O que, aplicada a regra de crase e acentuação grave, nos dá (73):
 
(73) A Casa X atende até às 19 horas.
 
Prejuízo da solução (73): nova ambiguidade. Como “às ... horas” indica
circunstância de tempo (Fecha às 19 horas), podemos ter a primeira
interpretação, em lugar da ​segunda:
 
1ª até (a as 19 horas): inclusão;
2ª até a (as 19 horas): extensão no tempo.
 
Quer dizer, a primeira interpretação, “atende até às 19 horas”, pode
significar: “atende até mesmo (ou inclusive) às 19 horas” = mesmo naquela
hora.
Naturalmente, tais ambiguidades são teóricas. Na prática, poucas vezes as
comunicações são ambíguas. E quando uma casa comercial anuncia que
“atende até [as] 19 horas”, tanto faz acentuar como não acentuar o “a” antes
do “s”. Ninguém vai entender, por exemplo, que mesmo (inclusive) as 19
horas são atendidas...
Como não há confusão possível, aconselha-se o mais simples, o mais
econômico: “atende até as 19 horas” – sem acento. Mas não que acentuar seja
errado.
 
__________
 
“É possível a crase diante de nomes geográficos?”
 
Depende do nome. Como a crase é a fusão da preposição a com o artigo a (a
+ a = à), é preciso que o nome geográfico seja daqueles que admitem ou
exigem artigo. E naturalmente – condição primeira – deve o nome ser
feminino.
Veja: excursão à Bahia, à Europa. Mas: excursão a Brasília, a Uruguaiana, a
Santa Catarina.
“Excursão” pede preposição a (cp.: para, até). “Europa” e “Bahia” se usam
normalmente precedidos de a (art.): a Europa progride, a Bahia é um estado
do Brasil. Seria contrariar os usos da língua, falar ou escrever assim:
*conheço Europa, *Europa ​ensina; *Que é que Bahia tem?, *venho de Bahia,
*estive em Bahia.
Para que essas frases sejam aceitáveis, precisamos antepor o artigo a aos
nomes próprios: conheço a Europa, a Europa ensina, Que é que a Bahia tem?,
venho da Bahia, estive na Bahia.
Agora, veja estas frases de impressos:
 
(74) *“De Porto Alegre à Blumenau vá de olhos fechados.”
(75) *“O cônsul retornará à Bagé.”
(76) *“... ligar a praia do Barco à Capão da Canoa.”
(77) *“O caminho de Osório à Tramandaí...”
(78) *“O deputado deverá voltar à Brasília na próxima semana.”
(79) *“Foram juntos à Santa Margarida para colocar veneno para os bichos.”
(80) *“O jogador declarou que manterá o compromisso de ir à Tóquio.”
(81) *“Ciclo dedicado à Hollywood.”
(82) *“Volta à Minas Gerais.”
 
Blumenau, Bagé, Capão da Canoa, Tramandaí, Brasília, Santa Margarida,
Tóquio, Hollywood, Minas Gerais pedem artigo? É só fazer frases: fiz
compras em Blumenau, estive em Bagé, passei por Capão da Canoa, acampei
em Tramandaí, votei em Brasília, passeei por Santa Margarida, voei sobre
Tóquio, filmei em Hollywood, parti de Minas Gerais. Como se vê, nenhum
dos exemplos apareceu precedido de artigo. É só meter o a e ver (ouvir) como
fica errado: *fiz compras na Blumenau, *estive na Bagé, *passei pela Capão
da Canoa, *acampei na Tramandaí, etc. Horrível, não? Pois quem redigiu as
frases (74) a (82) fez essa coisa horrível. Ortografem-se:
 
(74a) De Porto Alegre a Blumenau vá de olhos fechados.
(75a) O cônsul retornará a Bagé.
(76a) ... ligar a praia do Barco a Capão da Canoa.
(77a) O caminho de Osório a Tramandaí...
(78a) O deputado deverá voltar a Brasília na próxima semana.
(79a) Foram juntos a Santa Margarida para colocar veneno para os bichos.
(80a) O jogador declarou que manterá o compromisso de ir a Tóquio.
(81a) Ciclo dedicado a Hollywood.
(82a) Volta a Minas Gerais.
 
__________
 
“Como, na expressão ‘Vou a Alegrete’, se poderia fazer diferença entre ir à
cidade de Alegrete e ir ao município de Alegrete?
Segundo penso, teríamos ‘Vou à Alegrete’, quando a gente se referisse à
cidade, e ‘Vou ao Alegrete’, quando a referência fosse ao município, ou antes,
ao interior dele (Paipasso, Rincão do 28, Passo da Picada, etc.).”
 
Sinto muito, mas não pode ser. Para termos “à Alegrete”, precisaríamos ter
[prep. a + art. a]. A preposição a é certa: indica “movimento para” e é
requerida pelo verbo “ir”. Artigo a? Não. O nome próprio “Alegrete” não
tolera a anteposição do artigo feminino. Prova? Ninguém diz *a Alegrete é
uma cidade progressista, nem *eu venho da ​Alegrete, ou *estive na Alegrete.
As formas gramaticais dessas frases são: Alegrete é uma cidade progressista,
eu venho de Alegrete, estive em Alegrete. Como se vê, “Alegrete” repele o
artigo feminino. Admite, isto sim, artigo masculino: eu venho do Alegrete,
estive no Alegrete. Mas, aqui, a diferença entre “Alegrete” e “o Alegrete” é a
mesma que entre “Recife” e “o Recife” – variantes regionais: uns empregam o
artigo, outros o dispensam.
A verdade é que a palavra “cidade” não é dessas que se possam subentender,
justificando crases. Compare: vou à Farrapos (à avenida...), dirigiu-se à
Duque de Caxias (à rua...), refiro-me à Globo (à Editora/Livraria...), telefonar
à Guaíba (à Rádio), etc. Mas: vou a São Leopoldo, a Montevidéu, a Brasília,
etc.
A prova é sempre muito fácil de tirar. É só começar uma frase com essesnomes próprios, logo se vê se admitem o artigo feminino ou não: a Farrapos é
uma avenida; a Duque (de Caxias) estava congestionada; a Globo é a editora
dos romances de Erico Verissimo, etc. Mas: São Leopoldo (e não: *a São
Leopoldo) fica perto de Porto Alegre; Montevidéu (e não: *a Montevidéu) é a
capital do Uruguai; Brasília (e não: *a Brasília) é uma cidade moderna, etc.
Somente quando modificados por algum restritivo ou qualificativo tais nomes
de cidade requerem o artigo feminino. Compare:
 
(83) Fui a Porto Alegre./Fui à Grande Porto Alegre.
(84) Retornei a Alegrete./Retornei à Alegrete da minha infância.
(85) Viajei a Brasília./Viajei à Brasília dos candangos.
(86) Voltar a Coimbra./Voltar à Coimbra dos meus sonhos.
(87) Referia-se a Belém./Referia-se à Belém brasileira.
 
Então, como distinguir cidade e município, no caso de Alegrete?
Não vejo outra saída senão usar esses especificativos “cidade” e
“município”: vou à cidade de Alegrete/refiro-me ao município de Alegrete.
 
__________
 
(88) *X se esquivava à igual pergunta feita a ele.
 
O segundo “a” nem deve ser examinado: diante de pronome pessoal não há
nenhuma possibilidade de crase; depois, ele é masculino: nem se pode pensar
em à (crase), que inclui o artigo feminino a, inviável diante de masculinos.
Digamos, então, que o primeiro “a” seja problemático: com acento ou sem
acento grave?, crase ou não?, preposição a + artigo a?
 
1º Preposição existe: quem se esquiva, se esquiva a ou de alguém ou algo. O redator
usou a.
 
Vejamos agora se a segunda parte se inicia com outro a (artigo definido
feminino). O conjunto “igual pergunta” pode ser precedido de a? É só formar
frases com ele (função do sujeito). Assim: “igual pergunta foi feita a ele”,
“igual pergunta perturbou seu colega”. Meter um a na frente é tornar a frase
inaceitável (agramatical): *a igual pergunta foi feita a ele, *a igual pergunta
perturbou seu colega. Portanto, a locução “igual pergunta” não admite artigo a.
Se você está curioso, posso dizer por quê: na verdade, “igual pergunta” tem
artigo indefinido, zero. A se colocar artigo, só caberia o indefinido: “(uma)
igual pergunta”, “uma pergunta igual”.
 
2º E se escolhêssemos a preposição de em lugar de a?
 
(88a) X se esquivava de igual pergunta feita a ele.
 
Na posição exata do a surgiu um de. Este é preposição, logo o a também é e
não pode ser acentuado. E vemos que não existe aí o artigo a, que se
combinaria com a prepo​sição = de: de + a = da (X se esquivava da igual
pergunta... é inaceitável).
 
3º Suponhamos que você usasse o estratagema de substituir o substantivo feminino
(pergunta) por um masculino. A sequência ficaria assim:
 
(88b) X se esquivava a igual quesito feito a ele.
 
O a não variou, portanto é preposição (= palavra invariável). Se fosse artigo,
tornava-se o; se fosse preposição e artigo, tornava-se ao. Este ao é o
masculino de à. Como “X se esquivava ao igual quesito feito a ele” é
impossível, também o à é impossível.
 
4º Outra prova: a pluralização do conjunto presidido de a.
 
(88c) X se esquivava a iguais perguntas feitas a ele.
 
Não variou o a, portanto é invariável, preposição. Fosse crase (à), mudava-
se em [as] → às. Veja como a sequência fica inaceitável, agramatical, se a
gente anexa um “s” ao “a”: *X se esquivava às iguais perguntas feitas a ele.
Temos aí quatro provas claras de que o a é partícula invariável, preposição.
Portanto a, e não à. Para ser à – preposição a + artigo a –, devia corresponder
a ao (no masculino), às (no plural), da ou na, pela (na troca da preposição).
Conclusão – A escrita correta da frase é:
 
(88d) X esquivava-se a igual pergunta feita a ele.
 
Aliás, a frase não é boa, por outros motivos.
 
__________
 
(89) Uma reunião [a] portas fechadas.
 
O “a” com acento grave? Crase ou não? Digamos que você tenha essa
dúvida.
Impossível? Pois alguém – e poderia ser muita gente – usou a expressão e
nem duvidou: pendurou logo o acento, e assim saiu no jornal. Vexame.
Primeiro conselho: enquanto não tiver certeza, não acentue.
Segundo: veja se é “lícito” (inteligente...) começar a duvidar. A primeira
condição é termos [a] + substantivo feminino singular, ou [as] + substantivo
feminino plural.
Pronto, esboroou-se a dúvida. Nem é “lícito” começar a duvidar diante de “a
portas fechadas”: [a] + substantivo feminino plural. Impossível o à diante de
substantivo plural – à (crase) é preposição + artigo, e este deve ter o “s” se o
substantivo seguinte é plural: “dirigir-se às portas fechadas”, “referia-se às
portas fechadas”, “quanto às portas fechadas”.
Se o “a” não variou – a portas fechadas –, é porque era palavra invariável,
preposição. E a preposição a não precisa de acento. Logo:
 
(89a) Uma reunião a portas fechadas.
 
__________
 
Não se deve fugir do obstáculo, correr da dificuldade. Isso é de covarde.
Valente arrosta perigos, pega touro à unha.
Crase é problema? Um touro solto. Que o digam os cadernos escolares,
provas de concursos e folhas de jornal. Há milhares de acentos provando
incompetência. Ou irreflexão.
Abro um jornal:
 
(90) *“... este débito está sujeito à multa e a juros de mora.”
 
“Sujeito à multa”, acento grave no “a”.
Pena. Uma frase tão certinha. Com débito, juros de mora e tudo – erudita.
Mas esse tolo do acentinho. Como rasgão em terno elegante.
Mas claro que o autor da frase não pensou: substituiu a reflexão por um
risquinho canhoto. Renunciou ao raciocínio.
Como se a crase fosse o maior dos mistérios. Uma futilidade que um ensino
eficiente resolveria na escola primária. Eu falei “ensino eficiente”.
O jeito mesmo é bater na tecla. Pode ser que, de tanto bater, o mistério vire
sambinha de breque ou cantiga de roda. Só de ouvido.
Vamos ao débito sujeito a multa.
Primeiro: só ponha o acento quando tiver certeza. Com um acentinho a
menos, você pode até passar por filósofo: não liga importância a essas
miudezas.
Mas um acento errado... De duas uma: ou você pensou, ou não pensou. Se
pensou, pensou mal, não sabe pensar. Se não pensou, e pingou o acento, você é
um irresponsável.
Aliás, esse conselho vale para todos os acentos e vírgulas: só se colocam
quando se sabe por que e para quê. Havendo dúvida, não se põe nada: sempre
é louvável economia.
Segundo: é lícito começar a duvidar? A condição é: [a] + substantivo
feminino singular; [as] + substantivo feminino plural.
Condição preenchida: em “sujeito a multa”, temos [a] + substantivo feminino
singular. Pode-se provar que “multa” é substantivo feminino singular porque
admite a anteposição de a/uma.
Terceiro: testes de crase
 
1º Masculinização do substantivo: “sujeito a castigo”, “débito sujeito a pagamento
extra”, “sujeito a protesto”. Não varia o a; a invariável é preposição, e não exige
acento.
2º Pluralização do substantivo: “débito sujeito a multas”. Não variou o a; portanto,
não há artigo (este concordaria como plural do substantivo, tomando um “s”), e
portanto não cabe nenhum acento.
3º Substituição da preposição a por outra. Para isso, geralmente, é preciso trocar o
elemento à esquerda do [a] por um sinônimo ou equivalente que exija outra
preposição. Em lugar de “sujeito” ponhamos “pendente”, “punido”, “acrescido,
ameaçado”. Não são “sinônimos”, mas termos que podem ocorrer no mesmo
contexto. Resultado: débito pendente de multa; punido com multa; acrescido de
multa; ameaçado por (ou de) multa. Que é que apareceu no lugar do [a]? Os
vocábulos com, de, por – preposições. Logo, também o [a] é preposição, e não
precisa de acento.
4º Raciocínio ou prova gramatical. Trata-se de verificar se: a) o elemento da
esquerda pede a preposição a, e se b) o da direita requer o a artigo.
a) “Sujeito a isto”? Claro, “sujeito” rege (requer) a preposição a.
b) “Multa” requer o artigo a (definido), se se trata de multa determinada, estipulada.
Praticamente se pode ver isso, antepondo esta (ou aquela) ou uma: “débito
sujeito a esta (aquela) multa”, ou “a uma multa”? Claro, não se sabe qual ou de
quanto: “sujeito a uma (= indeterminada) multa”. É o caso presente: “sujeitoa
multa”, com uma subentendido. Ou melhor: temos aí artigo não definido, que
pode ser um(a) ou nada (zero): “sujeito a (uma/–) multa”.
Aliás, a frase tem um dado comparativo interessante: * ... este débito está
sujeito à multa e a juros de mora. Com um à diante de “multa” combinaria aos
diante de “juros”. Tanto a “multa” como os “juros” aparecem não definidos na
frase, ou determinados pelo artigo indefinido zero. No mínimo faltou coerência ao
redator. A forma correta da frase deve ser:
 
(90a) ... este débito está sujeito a multa e a juros de mora.
 
__________
 
Uma aluna do 4º ano de Letras da UFSM solicita um comentário sobre a
seguinte construção:
 
(91) *Eufemismos referentes à 1) aspectos físicos, 2) aspecto moral, 3) vida social,
4) terapêutica.
 
“O comentário que lhe peço é sobre o uso da crase (referentes à). Esse
esquema nos foi apresentado por um professor de Português e foi motivo de
discussão. Que acha o senhor? A mim, me parece construção errada.”
 
Num quarto ano de Letras..., isso não deve dar “discussão”. Deve dar é
condenação unânime. Direta, sem qualquer hesitação nem discrepância.
Discutem-se coisas discutíveis, mas não evidências compactas como tijolos...
“Eufemismos referentes à aspectos físicos”... equivale a “eufemismos
referentes a a aspectos físicos” – a preposição + a artigo. Artigo feminino
singular determinando um substantivo masculino plural... não é uma gracinha?
Digamos que em vez de “referentes” a tivéssemos “dependentes de”.
Poderíamos escrever: “eufemismos dependentes da”: 1) aspectos físicos, 2)
aspecto moral, 3) vida social, 4) terapêutica? Claro que não. Corrija-se,
portanto:
 
(91a) Eufemismos referentes a: 1) aspectos físicos, 2) aspecto moral, 3) vida social,
4) terapêutica.
 
Mas não adianta. Se não houver uma solução simplificadora no Brasil, o
último professor de Português será encontrado em luta corporal com a crase...
Mártir do acento grave...
 
__________
 
“Lendo o discurso do chanceler Mário G. Barbosa ante o plenário da 28ª
Assembleia da ONU, lá encontrei o seguinte trecho, que me parece lacunoso
quanto à regência do adjetivo ‘avesso’:
 
(92) ‘... avessos que somos a rivalidades, a ressentimentos e a hegemonias, que não
têm guarida entre nós’.”
 
‘Avesso’, pelo que lemos nos clássicos e pelo que nos diz o Pe. Antônio da
Cruz (Regimes de substantivos e adjetivos), rege preposição a; por
conseguinte, teríamos: ‘avessos que somos às rivalidades, aos ressentimentos
e às hegemonias’.”
 
Se observarmos bem, veremos que não há nada a corrigir na regência do
chanceler. O adjetivo “avesso” está aí com a sua competente preposição a:
avessos + a + ​rivalidades; avessos + a + ressentimentos; avessos + a +
hegemonias. O “a”, entre o adjetivo e os substantivos, é a preposição regida
por aquele: “avesso” a...
A correção proposta não toca nessa preposição, mas acrescenta o artigo
definido aos substantivos: avessos + ​a + ​as + ​rivalidades + ​a + ​os + ​‐
ressentimentos + a + ​as + hegemo​nias → avessos + ​às + ​rivalidades + ​aos +
ressentimentos + ​às + ​hegemonias.
Surgem a crase e a combinação, exatamente pelo acréscimo do artigo entre a
preposição a e o substantivo:
 
a + as = às;
a + os = aos.
 
Diferença entre a forma original (a rivalidades, a ressentimentos e a
hegemonias) e a corrigida (às rivalidades, aos ressentimentos e às
hegemonias): na primeira, os substantivos aparecem como indeterminados,
indefinidos; na segunda, como definidos, determinados. Não há erro nem aqui
nem ali; só uma leve diferença de sentido: menos determinado/mais
determinado.
Lembro que a regência a dos nomes (substantivos/adjetivos) pode ser
testada: com o uso de verbos de ligação, o complemento nominal pode ser
pronominalizado em lhe, apoiando-se este nos ditos verbos: “somos avessos a
rivalidades” → “somos-lhes avessos”. É um falso objeto indireto esse lhe,
transformação pronominal de um complemento nominal.
 
__________
 
(93) Ele é avesso [a] literatura de ficção.
 
Como interpretar o som [a] da frase acima: a ou à, isto é, pura preposição ou
preposição a + artigo a?
Como à é irmão de da, e “ser avesso a” equivale mais ou menos a “não
gostar de”, temos aí um teste fácil:
Se “ele é avesso [a] literatura de ficção” = “ ele não gosta da literatura de
ficção”, então:
 
(93a) Ele é avesso à literatura de ficção.
 
Mas se “ele é avesso [a] literatura de ficção” = “ele não gosta de literatura
de ficção”, então:
 
(93b) Ele é avesso a literatura de ficção.
 
__________
 
(94) “*Em cada pagamento será descontada a parcela de 1,5% do montante
faturado, a guisa de desconto na fonte pagadora.
 
Embora acredite que no exemplo acima a expressão ‘a’ guisa de não leve
crase, pois, por analogia, se a substituirmos por outra no masculino (‘montante
faturado’, ‘a título de’), não haverá contração da preposição com o artigo,
outros casos há em que talvez deva ser craseada, quando empregarmos ‘à
guisa de’ significando ‘à maneira de’, ‘à moda de’, etc., salvo melhor juízo.”
 
O raciocínio está correto, e o teste de permuta – “à guisa de” trocado por “a
título de” – é adequado, pertinente. Quer dizer que a lógica pediria um “a” não
acentuado, pura preposição que é (cf. a título). Mas nem tudo em linguagem é
lógico, pois a língua tem a sua lógica. E a “lógica” da língua pede acento
grave nas locuções femininas: à espera (de), à noite (cp. de noite), à força
(de), à frente de (cp. em frente de), à vontade (cp. a gosto), à instância de (cp.
a pedido de), à faca (cp. a machado), etc. E assim “à guisa de” “à maneira
de”. É a tradição da nossa escrita através dos tempos. Quem documentou esse
hábito do “a” aberto e acentuado nas locuções femininas, mesmo quando
simples preposição, foi mestre Said Ali. Você pode ler isso em Meios de
expressão e alterações semânticas (3. ed., Rio de Janeiro, Fundação Getulio
Vargas, pp. 1-10).
Eu mesmo fiz questão de registrar esse “à guisa de”, com à acentuado, no
meu Novo guia ortográfico (São Paulo, Globo, 2013).
Mas e essa diferença entre “à guisa de”, “à maneira de”, e “à guisa de”, “a
título de”? Sem acento no segundo caso? Não: continuamos com a mesma
locução feminina e, portanto, com o mesmo motivo de acento:
 
(94a) Em cada pagamento será descontada a parcela de 1,5% do montante faturado,
à guisa de desconto na fonte pagadora.
 
Devo confessar, honestamente, que desconheço essa semântica “a título de”
para “à guisa de”, que sempre significou “à moda de” ou “à maneira de”.
Convém anotar, aliás, que essa locução tem algum sabor arcaizante, livresco.
Certamente o leitor se lembra de usos como “à guisa de prefácio”.
Origem? É o antigo alemão wïsa, fonte do moderno Weise. E à mesma origem
se ligam as palavras “guisar”, “guisado”.
O velho dicionário Morais documenta a expressão sem artigo: “de guisa”,
“sem guisa” (contrarrazão). Mas “à guisa”, com acento. Também Nascentes
registra “à guisa de”, com acento, no seu dicionário para a Academia.[18]
 
__________
 
(95) *“Brossard mandou dizer a Câmara de Vereadores que votou.”
 
A gente lê a frase, que é um título, e fica curioso: Ué, qual será essa Câmara
que votou? Vamos ver a informação do Brossard.
Vai-se ao corpo da notícia e: “Brossard enviou telegrama à Câmara de
Vereadores dizendo que votou [...]”. Ah, era isso que você queria escrever:
que o sr. Brossard manda dizer “à” Câmara que ele votou.
Pois vejam só como um risquinho no “a” pode fazer falta:
 
(96) Fulano disse a Câmara que votou.
(97) Fulano disse à Câmara que votou.
 
A frase (96) é uma variante de:
 
(96a) Fulano disse qual a Câmara que votou.
 
Ou:
 
(96b) Fulano disse que Câmara que votou.
 
Portanto, vamos acertar a frase (95) acertando o à:
 
(95a) Brossard mandou dizer à Câmara de Vereadores que (ele) votou.
 
__________
 
(98) *“O presidente X disse que vai conclamar à torcida e os sócios.”
 
A gente conclama alguém, conclama-o. Este verbo não precisa de nenhuma
preposição (é transitivo direto). Aliás, o redator podia facilmente dar-se
conta, pois não escreveu:
 
“... conclamar à torcidae os sócios”? Se pôs à diante de “torcida”, então por
que não pôs aos diante de “sócios”? Se os diante de “sócios” (e no caso o
ouvido não podia enganar), então a diante de “torcida”, e temos aí a forma
correta:
 
(98a) O presidente X disse que vai conclamar a torcida e os sócios.
 
__________
 
(99) *“... uma festa de talento e cores, a qual você não pode faltar.”
 
1º Para quem sabe raciocinar em termos de gramática: um “a” é certo – temos aí o
pronome relativo feminino a qual; outro “a” é certíssimo, o do verbo “faltar”:
quem falta, falta a alguma sessão ou festa. Portanto: “festa a (a qual) você não
pode faltar” → “festa à qual você não pode faltar”.
2º Para quem prefere as provas de troca:
Troca de gênero (feminino em masculino): um espetáculo de talento e cores, ao
qual você não pode faltar. Onde aparece ao no masculino, temos à (= a + a) no
feminino. Portanto: ... festa, à qual...
Troca de preposição: “festa na qual você não pode faltar”. Ora, na (em +
a)corresponde a à. Logo:
 
(99a) ... uma festa de talento e cores, à qual você não pode faltar.
 
__________
 
“Na frente dos pronomes possessivos a crase é normalmente facultativa. Por
quê?”
 
Porque aí é facultativo o artigo: (o) meu professor/(a) minha professora, (os)
nossos amigos/(as) nossas amigas. Por isso:
 
(100) falei a meu colega/falei ao meu colega
(100a) falei a minha colega/falei à minha colega (a + a = à)
 
Naturalmente, quando o artigo for obrigatório poderemos ter crase
obrigatória:
 
(101) fala a(o) teu pai, que eu falo ao meu (e não: *a meu)
(101a) fala a(a) tua mãe, que eu falo à minha (e não: *a minha)
 
Observemos as duas frases seguintes:
 
(102) Suas mãos estão limpas.
(102a) As suas mãos estão limpas.
 
Não há diferença de sentido entre elas, como tampouco há diferença entre:
 
(103) Passamos a suas mãos o relatório.
(103a) Passamos às suas mãos o relatório.
 
A diferença está apenas no uso do artigo definido antes dos pronomes
possessivos: sem artigo (102) e (103); com artigo (102a) e (103a). Uma
variação livre no português, impossível nas outras línguas que conheço
(alemão, inglês, francês, espanhol, italiano, latim, grego).
Quanto ao acento grave em (103a), indicativo de “a” duplo ou crase (a + as =
às), observe:
 
(103’) Passamos a + suas mãos...
(103a’) Passamos a + as suas mãos...
 
Neste caso (103a’), na fala pronuncia-se um [a] só, e na escrita aparece um
só também, que se marca com o acento grave: a + as = às (é como se
apagássemos o primeiro “a” e o substituíssemos pelo acento em cima do
segundo).
 
__________
 
(104) *“Ele voltou as suas atividades.”
 
Ora, o verbo “voltar” requer a preposição a: a gente volta a alguma coisa ou
lugar. E o “s” de “as” prova a existência de artigo. Logo: ... voltou a as suas
atividades → ... voltou às suas atividades.
Testes de substituição:
 
1º Trocando o feminino por um masculino sinônimo ou de emprego semelhante: ...
“voltou aos seus afazeres”, “negócios”, etc. Aos é o masculino de às.
2º Trocando a preposição: “... voltou para as suas atividades”. Para as é o
correspondente de às.
 
A comparação com “... voltou para suas atividades” e “voltou a seus
afazeres” prova que também podemos escrever: “... voltou a suas atividades”,
pois as formas para e a (invariáveis diante de um masculino) são preposições.
Portanto:
 
(104a) Ele voltou às suas atividades
 
Ou:
 
(104b) Ele voltou a suas atividades.
 
__________
 
(105) *“... inauguração de uma placa de mármore alusiva a imigração italiana.”
 
“Alusiva a imigração”, o “a” sem acento? Erro de ortografia, por falta de
indicar a existência do fenômeno crase – fusão de dois “aa”: “alusiva a a
imigração” → “alusiva à imigração”.
Vamos ver como podia o redator certificar-se praticamente da existência do
à.
 
1º Troca do feminino (imigração) por um masculino equivalente, de preferência
sinônimo: “placa alusiva ao advento dos italianos”. Como o [a] se muda em ao,
fica provado que se deve escrever à.
2º Troca da preposição a por outra: “placa alusiva da imigração italiana”. Como o [a]
vira da (de + a), prova-se que deve ser escrito à.
3º Pluralização do substantivo – Sabida a existência da preposição a (no caso, o que
é alusivo é alusivo a algo ou a alguém), pluralize o substantivo: “alusiva [as]
imigrações italianas”. Como o [a] se converte em [as], provado fica que é também
artigo.
 
“Alusiva a imigrações” teria outro sentido, indeterminado: “alusiva a (umas)
imi-
grações”...
Os testes provam que faltou o acento grave em (105). Portanto:
 
(105a) ... inauguração de uma placa de mármore alusiva à imigração italiana.
 
__________
 
(106) *“Sede própria a rua Hilário Ribeiro.”
 
Ora, é só recorrer à troca da preposição, que tudo fica claro como água (não
poluída): “sede na rua”... Se na é preposição (em) + artigo (a), então aquele
[a] da frase (106) também é: aa → à.
 
Logo:
 
(106a) *Sede própria à rua Hilário Ribeiro.
 
__________
 
(107) *“A empresa vale-se do conceito que conquistou junto a opinião pública.”
(108) *“... conseguindo cartaz junto a torcida.”
(109) *“... tecido que você vai gostar de sentir junto a pele.”
(110) *“... casa localizada próximo a Carlos Gomes.”
(111) *“... executando serviços junto à firmas comerciais.”
 
Certo. Nem sempre é fácil a diferença entre a e à. Mas há também crases
indiscutíveis, facílimas de identificar.
Por exemplo, depois das palavras junto e próximo.
Trata-se de locuções, junto a e próximo a, substituíveis por junto de e
próximo de, com o seguinte quadro de correspondências:
 
junto de = junto a
junto da = junto à
próximo de = próximo a
próximo da = próximo à
 
Quer dizer: de está para a (sem acento) assim como da está para à (com
acento):
 
de e a: simples preposições;
da e à: combinação e contração de preposição com artigo;
respectivamente, (de + a) e (a + a).
 
Regra prática – O a que segue a junto e próximo leva acento grave quando
substituível por da.
Apliquemos essa regra às frases transcritas:
 
(107a) ... conceito que conquistou junto da opinião pública.
(108a) ... conseguindo cartaz junto da torcida.
(109a) ... gostar de sentir junto da pele.
(110a) ... localizada próximo da Carlos Gomes.
(111a) ... serviços junto de firmas comerciais.
 
Logo, como da está para à assim como de está para a, ortografe-se:
 
(107b) A empresa vale-se do conceito que conquistou junto à opinião pública.
(108b) ... conseguindo cartaz junto à torcida.
(109b) ... tecido que você vai gostar de sentir junto à pele.
(110b) ... casa localizada próximo à Carlos Gomes.
(111b) ... executando serviços junto a firmas comerciais.
 
Em (110), substantivo feminino subentendido: “avenida”.
Em (111), um acento totalmente impensado, irrefletido, irresponsável. O
gaiato de um acento grave. E um a (artigo feminino, pois à assinala a sua
presença) singular na frente de um substantivo plural... Pois *à firmas
comerciais é igualzinho a *da firmas comerciais...
Não carece ser doutor em crase. Mas esses a/à não fica bem errar. Um erro
desses denota, não digo escassa inteligência, mas total falta de atenção.
 
__________
 
(112) *“Reivindicações que dizem respeito a reestruturação da Universidade.”
(113) *“Isso diz respeito as gratificações a empregados.”
 
Temos aí um primeiro a exigido pela esquerda: diz respeito a isto, diz
respeito a eles e a elas. Um a invariável, como você está vendo. Portanto,
preposição.
Um segundo a? Um masculino sinônimo em lugar do feminino (reestruturação
e gratificações) nos vai mostrar se aparece ou não -o, irmão do segundo a
(artigo, que concorda com o substantivo plural):
 
(112a) Reivindicações que dizem respeito ao reerguimento da Universidade.
(113a) Isso diz respeito aos presentes a empregados.
 
Pronto: em (112a) apareceu ao, irmão de aa, quer dizer, de à. Em (113a), não
é um aos que aparece? Ora, aos é o masculino de às. Logo:
 
(112b) Reivindicações que dizem respeito à reestruturação da Universidade.
(113b) Isso diz respeito às gratificações a empregados.
 
__________
 
(114) *“Correu em direção a grandeárea.”
 
Nenhuma dúvida para quem sabe raciocinar e comparar.
 
1º Raciocinar: temos aí uma primeira locução “em direção a” e uma segunda locução
“a grande área”. “Em direção” complementa-se com a preposição a, e “grande
área” requer o artigo a.
Portanto: em direção a + a grande área → em direção à grande área.
2º Comparar: a corresponde a de, em, por, para; à corresponde a da, na, pela, para
a.
Substituído o a de (114) por de, resulta:
 
(114a) Correu em direção da grande área.
 
Ora, da corresponde a à...
E, se você pluralizasse o substantivo “área”, apareceria um “s” no “a”,
provando que é artigo (as). Ora, como já existe um “a” na locução “em
direção a”, é forçosa a fusão (crase) a + as = às.
 
(114b) Correu em direção às grandes áreas.
 
Logo, a fusão também existe no singular. Portanto:
 
(114c) Correu em direção à grande área.
 
__________
 
“Devido ‘a’ pode ser usado como preposição ou deve ser tomado sempre
estritamente como adjetivo participial?”
 
Observe as frases a seguir:
 
(115) Ele consegue agradar a todos, devido a sua diplomacia.
(116) A cidade estava sendo incomodada por enchentes, devidas à chuva.
 
Em outros tempos, “devido a” era uma questão típica, obrigatória, das
gramáticas e dos consultórios de linguagem (em antigas revistas filológicas e
jornais). E os puristas eram intransigentes: só o “devido” participial era
português correto. Quer dizer: só era certo o “devido a” que concordasse com
um substantivo, numa construção elíptica resultante da supressão do pronome
relativo e do verbo “ser”. Assim como na frase (116), repondo os elementos
suprimidos:
 
(116a) A cidade estava sendo incomodada por enchentes, que eram devidas à chuva.
 
Esta sintaxe, portanto, não podia ser convertida em:
 
(116b) A cidade estava sendo incomodada por enchentes, devido à chuva.
 
Ora, as coisas, ou melhor, as consequências se devem a causas. Daí a
passagem da significação originária de “devido (‘que se deve’) a” para “por
causa de”; em outras palavras, a passagem do particípio devido + preposição
a para a locução prepositiva (devido a). Esta ficou sendo sinônima de por
causa de, como na frase (115):
 
(115a) Ele consegue agradar a todos, o que se deve a (= o que é devido a) sua
diplomacia.
 
Que é igual a:
 
(115b) Ele consegue agradar a todos, devido a sua diplomacia.
 
Que é o mesmo que:
 
(115c) Ele consegue agradar a todos, por causa de sua diplomacia.
 
Tanto se fortaleceu pelo uso e abuso a sinonímia devido a = por causa de,
que hoje não faz mais sentido discutir isso em termos de correção de
linguagem. Afinal, correto é o que se usa. E, assim, ao lado de locuções como
em razão de, em virtude de, em consequência de, por causa de, etc., dispõem
os falantes também de devido a – todas locuções prepositivas de causa.
Nessas condições, feita partícula, é natural que a parcela devido fique
invariável:
 
(117) A situação atual, devido à ignorância do povo, tende a piorar.
 
Observe-se, todavia, que a flexão é perfeitamente normal:
 
(117a) A situação atual, devida à ignorância do povo, tende a piorar.
 
O que ainda não se pode aceitar é a supressão do a, com a passagem da parte
restante – devido – a preposição:
 
(118) *Não houve jogos devido o mau tempo.
(119) *Devido os últimos acontecimentos, ficam suspensos os festejos.
 
Corrija-se:
 
(118a) Não houve jogos devido ao mau tempo.
(119a) Devido aos últimos acontecimentos, ficam suspensos os festejos.
 
No dia em que por puder ser trocado por devido simplesmente, esta palavra
estará transformada em preposição. Ora, isso ainda não aconteceu, ao menos
em nível de linguagem culta. Não existe ainda tal preposição devido. É a
partícula a que lhe confere, em locução, o valor preposicional.
Em todo caso, vale observar que se trata de evolução natural da língua:
devido (= que é devido = que se deve) + a → devido a (= por causa de) →
devido (= por). Isto é: particípio + preposição → locução prepositiva →
preposição.
Aconselho a concordância de devido sempre que se possa traduzir por “que
se deve(m) a” ou “que é” ou “são”, “era(m)”, “foi” ou “foram devido(a)(s)”.
Caso, portanto, da frase:
 
(120) Aos poucos, a irritação dos atletas, devida às jogadas violentas, foi superada
por eles.
 
__________
 
(121) “O prazo deste empréstimo não dá direito a reforma.”
 
Deve-se acentuar ou não o “a”?
O sentido da frase, repondo-se os termos omissos por subentendimento, é
este:
 
(121a) O prazo deste empréstimo não dá direito à reforma deste empréstimo.
 
Pronominalizando:
 
(121b) O prazo deste empréstimo não dá direito à reforma dele.
 
Testando com pronome possessivo:
 
(121c) O prazo deste empréstimo não dá direito a sua reforma (ou à sua reforma).
 
Como se vê, determinando-se o substantivo “reforma”, pela explicitação de
seu complemento (o objeto da “reforma”), aparece o artigo e daí a crase com
o outro “a” (preposição), regência do substantivo “direito” (“direito a”...).
Mas, na redação de (121), fica o substantivo indeterminado.
Vamos aplicar as regras práticas:
 
1º Com a troca da preposição (a → de, em, por, para...): “... não dá direito de
reforma”, “... não dá direito para reforma” – forçando (um pouco) a regência...
2º Com a troca do substantivo feminino por um masculino sinônimo, antônimo ou
outro mais ou menos equivalente: “... não dá direito a retoque”.
3º Prova de pluralização (se houver crase, deverá aparecer o “s” do artigo): “... não
dá direito a reformas”.
4º Prova da anteposição de uma (identificação indeterminada): “... não dá direito a
uma reforma (dele, do empréstimo)”.
 
Agora, todas essas provas de não existência de crase, por ausência do artigo,
podem ser invertidas se entendermos a palavra “reforma” como determinada:
1ª) “... não dá direito da reforma (dele)”, “... não dá direito para a reforma
(dele)”; 2ª) “... não dá direito ao retoque (dele)”; 3ª) “... não dá direito às
reformas”.
É, pois, um desses casos discutíveis.
Prefiro a forma sem acento, como na frase (121), pois me parece que, nessa
maneira de redigir, recorre-se à indeterminação do substantivo.”
 
__________
 
(122) *“O treinador teve atritos com os jogadores por obrigá-los a trabalhar as sete
horas da manhã.”
 
Observe:
 
(123) trabalhar às sete horas
(124) trabalhar as sete horas
 
Você olhou bem? Viu a diferença? A diferença que faz um acentinho. Virado.
O famoso acento grave índice de ocorrência da crase.
Pois, na dependência do acento, a sequência de palavra muda de sentido.
 
(123) trabalhar às sete horas
 
exprime a circunstância de tempo – momento ou ocasião – do trabalhar.
 
(124) trabalhar as sete horas
 
significa (teoricamente!) fazer das sete horas o objeto do trabalho.
 
Se a gente pronominalizasse o que vem depois do “trabalhar”, teríamos como
resultado:
 
(123) → (123a) trabalhar então
(124) → (124a) trabalhá-las
 
O acento grave no “a” da frase (123) indica a fusão de dois aa: a + a = à.
Neste caso, o primeiro “a” serve para indicar a circunstância de tempo. É a
preposição a. O segundo a é o artigo definido, necessário para determinar o
substantivo comum “horas”. Assim como em a as duas (três... vinte e quatro)
horas → às duas, às três... às vinte e quatro horas. Compare-se com:
 
(125) trabalhar pelas sete horas
 
onde, em lugar da preposição a, se usa a preposição por, para exprimir
aproximação quanto à circunstância de tempo, “trabalhar lá pelas sete horas”.
 
Já na frase (124), não acentuado o vocábulo “as”, este só pode ser o artigo
definido feminino plural. E assim, sem preposição (na escrita: sem acento),
“as horas” só pode funcionar como sujeito, objeto direto ou predicativo. Ora,
predicativo não pode ser: não há verbo de ligação; sujeito também não:
“horas” não designa ser animado, que possa desempenhar a atividade expressa
pelo verbo; seres vivos é que trabalham. Logo, na sequência “trabalhar as
horas” o sintagma substantivo “as horas” só pode exercer a função de objeto
direto: trabalhar as horas → trabalhá-las → (passiva) as horas serem
trabalhadas.
Claro que isso não faz sentido.Tal como na frase (122), na qual o jornalista
quis dizer uma coisa e escreveu outra.
Era só aplicar aquele truquezinho do masculino em lugar do feminino, que o
amigo jornalista já tirava a dúvida:
 
(122a) O treinador teve atritos com os amigos por obrigá-los a trabalhar aos sábados.
 
Ora, aos é o masculino de às (com acento grave); logo:
 
(122b) O treinador teve atritos com os amigos por obrigá-los a trabalhar às sete
horas da manhã.
 
Raciocínio gramatical – O “s” prova que temos o artigo (as), e mais um a é
necessário: preposição para marcar a circunstância.
 
__________
 
(126) *“A recepção será oferecida após à cerimônia.”
(127) *“O espetáculo começará após às 20 horas.”
 
Como se sabe, à é o feminino de ao. Vamos ver então se aparece um ao
quando usamos um masculino em lugar do feminino nas frases transcritas
acima:
 
(126a) A recepção será oferecida após o cumprimento (após o rito, após o
protocolo).
(127a) O espetáculo começará após os 20 minutos (após os 20 dias).
 
Como se observa, é impossível aí o uso de ao: *após ao cumprimento, *após
ao rito, *após ao protocolo, *após aos 20 minutos, *após aos 20 dias.
E por que impossível? Porque não podemos usar lado a lado as duas
preposições após e a. Pois então, assim como nunca podemos ter *após ao(s),
nunca podemos ter *após à(s).
Portanto: “após a festa”, “após a eleição”, “após as saudações”, “após as
duas (três, quatro... vinte e quatro) horas” e:
 
(126b) A recepção será oferecida após a cerimônia.
(127b) O espetáculo começará após as 20 horas.
 
__________
 
(128) *“A ideia morreu dado à incompetência do município.”
 
*Dado ao, não: dado o.
*Dado à, não: dada a.
*Dado aos, não: dados os.
*Dado às, não: dadas as.
 
Isso é confusão com devido ao(s) e devido à(s).
Habitue o ouvido ao bom português, a uma linguagem de categoria:
 
(129) Nada foi possível resolver, dadas as divergências dos conselheiros.
(130) Dados os últimos acontecimentos, esperam-se medidas de exceção.
 
E assim:
 
(128a) A ideia morreu, dada a incompetência do município.
 
__________
 
“Quando acentuamos o ‘a’ da sequência a que?”
 
Na sequência a que, o “a” será acentuado (à) se o masculino correspondente
for ao; ou se o plural receber “s” (as), em construções onde já temos a
preposição a regida (exigida) por palavra anterior:
 
(131) Esta camisa é semelhante à que vi ontem.
(131a) Este caso é semelhante ao que vi ontem.
(131b) Estas camisas são semelhantes às que vi ontem.
 
“Semelhante” rege (exige) a preposição a, e o ao e o “s” (as) provam que
temos artigo:
 
a + o = ao; a + as = às;
logo: a + a = à.
 
(132) Prefiro a fruta que apanho na árvore à que me servem no prato.
(132a) Prefiro o fruto que apanho na árvore ao que me servem no prato.
(132b) Prefiro as frutas que apanho na árvore às que me servem no prato.
 
“Preferir” exige um a (preposição); o outro é o artigo a, provado no ao e no
“s” do plural.
 
__________
 
(133) *“Renda inferior a do ano passado.”
 
O “a” sem acento – ou é artigo, ou é preposição. Como artigo, é irmão de o.
Como preposição, irmão de para, de, em, etc.
Examinemos de perto. Algo ou alguém é inferior a... Ou seja, o adjetivo
“inferior” pede a (preposição) antes do termo de comparação. Veja:
 
(134) Paulo é inferior a Pedro.
 
Pois então: um a é certo, indispensável. E outro a é necessário para
representar o substantivo renda omitido (a (renda) do ano passado) na frase
(133). Assim:
 
(133a) Renda inferior a a renda do ano passado.
 
Com elipse de “renda”:
 
(133b) Renda inferior a a do ano passado.
 
Com a representação gráfica do fenômeno crase:
 
(133c) Renda inferior à do ano passado.
 
Compare com um masculino:
 
(133d) Lucro inferior ao do ano passado.
 
O feminino de ao é graficamente à; logo...
 
__________
 
(135) *“Quanto a origem desses índios...”
(136) *“Quanto a qualidade das gravações, você está tratando com a maior
gravadora do mundo.”
(137) *“O dirigente não foi atendido quanto as datas solicitadas.”
 
Primeiro: no sentido de “no que respeita ou concerne”, “no concernente”,
“relativamente”, quanto requer o acompanhamento da preposição a. Veja:
quanto a isto, quanto a isso (e não: *quanto isto, *quanto isso).
Segundo: “origem desses índios”, “qualidade das gravações” e “datas
solicitadas” exigem outro a. Prova? A gente diz: “a origem desses índios é
incerta”, “a qualidade das gravações é boa” e “as datas solicitadas não foram
atendidas”.
Outra prova quem dá é o teste de masculinização – substituir o feminino que
segue ao a por um masculino equivalente (sinônimo, ou pelo menos de igual
exigência quanto ao artigo definido): “quanto ao começo desses índios”,
“quanto ao caráter das gravações”, “quanto aos pedidos solicitados”. Ora, o
feminino de ao(s) é à(s):
 
quanto a o começo/quanto a a origem → quanto ao começo/quanto à
origem;
quanto a o caráter/quanto a a qualidade → quanto ao caráter/quanto à
qualidade;
quanto a os pedidos/quanto a as datas → quanto aos pedidos/quanto às
datas.
 
Outro jeito de certificar-se do “a” acentuado é pluralizar o substantivo que
segue. Resultado: “quanto às origens”; “quanto às qualidades”. Na frase (137)
o substantivo “datas” já está pluralizado. O “s” no “as” que precede o
substantivo prova que temos artigo. Na frente deste temos o a da locução
quanto a: a + as = às.
Portanto, corrija-se:
 
(135a) Quanto à origem desses índios...
(136a) Quanto à qualidade das gravações, você está tratando com a maior gravadora
do mundo.
(137a) O dirigente não foi atendido quanto às datas solicitadas.
 
Alguns segundos de reflexão teriam evitado os erros gráficos.
 
__________
 
(138) *“As equipes consideradas mais fracas merecem tanto respeito quanto às mais
fortes.”
 
Primeiro: há preposição a? Quanto seguido da preposição a significa “a
respeito de”. Não é o sentido da frase (138). Você fica na dúvida? Ponha um
masculino no lugar do feminino “equipes”:
 
(138a) Os times considerados mais fracos merecem tanto respeito quanto os mais
fortes.
 
Em lugar de às apareceu os. Simples artigo. Logo, também na frase (138)
temos somente artigo. Corrija-se, portanto:
 
(138b) As equipes consideradas mais fracas merecem tanto respeito quanto as mais
fortes.
 
__________
 
(139) “Receita ou despesa estranha a exploração.”
 
Esse som [a] motiva uma dúvida: é craseado ou não? Qual a sua função?
Para termos crase, precisaríamos ter preposição [a] + artigo (a).[19] Vamos
então analisar:
 
1º Preposição temos, sim: “estranho” é um adjetivo “transitivo”, justamente daqueles
que regem a preposição [a] – uma pessoa/coisa é estranha a outra.
2º “Exploração” pede/repele o artigo definido (a) conforme a oposição
determinado/indeterminado, ou definido/indefinido. Quer dizer, a presença ou
ausência do artigo depende da ideia de quem está escrevendo:
 
... estranha [a] (a) exploração → estranha à exploração = uma
exploração determinada, aquela exploração.
Mas:
 
... estranha [a] ( ) exploração → estranha a exploração = exploração
indeterminada, alguma ou qualquer exploração.
 
Penso que no caso presente, salvo engano, temos a segunda interpretação –
exploração em sentido indeterminado: “receita” ou “despesa estranha” a
(qualquer) “exploração”. Logo, a apenas preposição, sem acento. Portanto,
correta a frase (139).
Verificação prática: Um masculino em lugar do feminino “exploração”:
“receita estranha a desfrute ou usufruto”, “receita estranha a abuso” – o que é
diferente de “receita estranha ao desfrute ou usufruto”, “receita estranha ao
abuso”.
Ou então, em lugar de “estranho”, um adjetivo que reja preposição diferente
de a: “receita livre de exploração”, o que é diferente de “receita livre da
exploração”.
Assim:
 
Se “receita estranha a usufruto” e “receita livre de exploração”, então
“receita estranha a exploração”;
Se “receita estranha ao usufruto” e “receita livre da exploração”, então
“receita estranha à exploração”.
 
__________
 
(140) *“Garotão criado à Toddy.”
 
De mais o acento, pois o a é preposição. É só comparar: “criado com
Toddy”. Com(e execradas pelos alunos)
exceções são exemplificadas e merecem a atenção do leitor ainda hoje.
A segunda parte discute erros considerados exemplares retirados da língua
escrita em uso (publicados na imprensa) e, em especial, de perguntas
formuladas por leitores da coluna do prof. Luft. O objetivo dessa pedagogia
do erro é mostrar, passo a passo, a aplicação dos testes explicitados na seção
anterior e apreender o raciocínio gramatical que a eles subjazem,
possibilitando o desenvolvimento da capacidade de elaboração mental do
leitor. Identificar certos elementos que ocorrem nos dados e que possuem
características comuns permite que o aluno, leitor, desenvolva as habilidades
de sistematização e de generalização.
A terceira parte está reservada a vários exercícios de fixação do conteúdo
estudado, cujos comentários vêm em seguida. Tal como propõe o autor, a
prática é útil como treino para aqueles que se preparam para vestibulares e
concursos. De fato, exercícios acompanhados de discussão sobre sua
resolução atendem à demanda de muitos.
Todas essas atividades possibilitam a apropriação adequada dos termos
técnicos (metalinguagem) usados para descrevê-las (transmissão de conteúdos
gramaticais) e a apreensão das regularidades gramaticais analisadas (reflexão
linguística).
Esta edição de Decifrando a crase foi revista, atualizada conforme o Acordo
Ortográfico da Língua Portuguesa (1990) e complementada por escritura
parcial. As notas de rodapé, identificadas por asterisco, visaram acrescentar
informações e comentários considerados indispensáveis.
Criativa e surpreendentemente, a “Conclusão” se resume a uma frase que
sintetiza a lição do prof. Luft:
“Não há nenhuma regra a decorar: basta o raciocínio.”
 
Angela França
Doutora em Semiótica e Linguística Geral pela Universidade de São Paulo
outubro de 2013
ABREVIATURAS E CONVENÇÕES
adj.: adjetivo
adv.: advérbio
art.: artigo
fem.: feminino
prep.: preposição
subst.: substantivo
pop.: (uso) popular
vulg.: (uso) vulgar; vulgarismo
→ = resulta em
:: = variante, variação no uso
* = (forma) agramatical, ou inexistente, ou incorreção
“ ” = aspas duplas indicam significado
 / = relação; oposição; contraste
[ ] = na pronúncia representa som; na morfossintaxe indica estrutura
linguística
[a] preposição a; a pronunciado
(a) artigo a
LISTA DE PREPOSIÇÕES
a, ante, após, até, com, contra, de, desde,
em, entre, para, perante, per (per + lo/a = pelo/a),
por, sem, sob, sobre, trás;
 
afora, como, conforme, consoante, dentre,
dentro, durante, exceto, feito, fora, mediante,
salvo, segundo, tirante, etc.
 
abaixo de, acerca de, ao lado de, embaixo de,
junto de, perto de, por trás de, etc.
CRASE & INTUIÇÃO
Erra-se demais no acento grave. Por falta ou por excesso. Ausência de acento
em “aa” que são duplos (a + a), acento descabido no “a” simples.
Alguém poderia concluir que isso ocorre por falta de ensino. E é o contrário:
“ensino” demais. Alunos errando além do razoável me deixaram sempre uma
certeza: andaram lhes “ensinando” a crase.
Sim, ao natural, erra-se aqui e ali, em casos menos claros. Agora,
multiplicarem-se os equívocos até o absurdo – não é natural; isso, só muito
“ensino” consegue...
Como ensinam por aí a crase? Abro livros-texto, manuais práticos
(práticos?) de Português – e compreendo. Primeiro capítulo: crase obrigatória.
Segundo capítulo: crase proibida. Terceiro capítulo: crase facultativa. Casos
especiais. Casos discutíveis.
Conjuntos e conjuntos de regras. Regras, regras e regras, nunca sem as
indefectíveis exceções. Pode alguém aprender com isso? Que poucos
aprendem, confirma-se a cada dia entre as vítimas de um ensino tão irracional.
Poucos (?) são os que aprendem à revelia dos ensinadores.
Afinal, como e por que regras e regras e regras de crases obrigatórias e
crases proibidas e crases facultativas se a regra é uma só – ortográfica:
 
acentua-se o “a” duplo (a + a → à)
 
com um caso especial de tradição da nossa escrita, a preposição indicativa de
circunstância (instrumento, meio, etc.) em sequências de [prep. a + subst. fem.
sing.].
Também nesse terreno ganhariam os alunos se os professores, em vez de
amontoar regras e explicações, fizessem prática – exercícios, treinamentos.
Prática da língua baseada na intuição de falante nativo.
 
Intuir a crase – Por que não? Fiz experiências com crianças ainda não
desensinadas pelo ensino da crase e pude ver que “sentiam” muito bem quando
um [a] era simples (preposição ou artigo) e quando era composto (prep. + art.)
e, portanto, “sentiam” quando se devia escrever a e quando à.
Se você der a uma criança pares contrastivos como:
 
dirigir-se ao parque/dirigir-se à praça,
falar ao diretor/falar à diretora,
ir para a praia/ir à praia, etc.,
sujeito a (um) castigo/sujeito a (uma) punição,
direito a revisões/direito a revisão, etc.,
 
ela terá dados para intuir (interiorizar) a regra do “a” simples e do “a”
composto, a e do à. Ela “saberá” a crase e o acento grave, intuitivamente. Um
saber não explícito, não verbalizado em discurso metalinguístico; nem por isso
menos saber, e até mais seguro, não tendo palavras para se enredar e
confundir.
Naturalmente, em graus mais adiantados, pode-se explicitar esse saber,
raciocinando e verbalizando a regra – mas sempre partindo daquele saber
primeiro, básico.
O que não adianta nada, mas nadinha de nada mesmo, são macetes, listas,
decorebas. O atomismo didático pulveriza o saber, espalha confusão e
insegurança. Por isso é tão comum, na universidade, rapazes e moças catando
cacos de saber. Oxalá aprendam logo a desaprender o que “aprenderam”.
Libertar-se é sempre um bom começo.
INTRODUÇÃO
Observe este pequeno conjunto de frases:
 
1. Alguém bateu a porta.
2. A moça correu as cortinas.
3. Participou a prima sua viagem.
4. Referia-se a outra mulher.
5. Aquelas palavras acordaram-lhe lembranças da juventude.
6. O homem pinta a máquina.
 
Pronunciadas, todas essas frases admitem dupla interpretação. Elas são
ambíguas na fala. Na escrita, nenhuma ambiguidade, por um detalhe:
ausência/presença de acento. Repare na mudança de sentido que decorre da
acentuação:
 
(1a) Alguém bateu à (na) porta.
(2a) A moça correu às (para as) cortinas
(3a) Participou à (para a) prima sua viagem.
(4a) Referia-se à (Falava da) outra mulher.
(5a) Àquelas (A essas) palavras acordaram-lhe lembranças da juventude.
(6a) O homem pinta à (com) máquina.
 
Isso nos mostra a utilidade – e mesmo a necessidade – do acento grave no
“a”: antes de tudo, é um imperativo de clareza.
 
Entre parênteses – Acento grave, e não agudo, por quê? Por se tratar de
partícula átona (apesar de algum eventual, não desejado no português
brasileiro, reforço na pronúncia, para fugir à ambiguidade). O acento agudo
sinaliza vogais tônicas. Compare:
 
identificou-se o á pequeno/identificou-se à pequena;
pergunta se há funcionária/pergunta-se à funcionária.
 
É verdade que, em lugar de á,[1] prefere-se escrever “a”, a ou a: aspas, grifo
ou negrito sinalizando elemento linguístico citado. (Há = forma verbal, verbo
haver.)[2]
Usamos o acento grave no “a” com duas finalidades diferentes:
 
1ª) para sinalizar a crase, isto é, para indicar que o “a” vale por dois: à = a +
a;
2ª) para sinalizar a preposição a em expressões de circunstância com
substantivo feminino singular, indicando que não se deve confundir com o
artigo a.
 
Portanto, acento grave:
 
1. índice de contração (crase);
2. índice de preposição (clareza).
 
2. O ACENTO GRAVE ÍNDICE DE CONTRAÇÃO: CRASE
 
Repare na pronúncia destas palavras: caatinga, compreender, veem,
niilismo, cooperativa. Onde há duas vogais em seguimento, a tendência é
pronunciar uma só. Daí erros de ortografia como *comprender, eles *vêm
(enxergam), *coperação, etc.*[3]
 
A esta contração ou fusão de vogais idênticas é que se dá o nome de
crase
(do grego krásis, “mistura, combinação, fusão”).
 
A mesma tendência à contração verifica-se de uma palavra a outra na fala,
por exemplo, na frase: uma artista, cada amigo, começou a amanhecer, fica a
reclamar.é irmão de a.
Decerto o redator pensou no à = à maneira de. *Garotão criado à maneira
de Toddy? Claro que não. Sem acento, portanto:
 
(140a) Garotão criado a Toddy.
 
__________
 
(141) *“... causa prejuízos as finanças do clube.”
 
Recorde: a = para; à = para a; às = para as.
 
*Causa prejuízos para finanças do clube?
 
Não; para as finanças. Ora, para as = às. Logo:
 
(141a) ... causa prejuízos às finanças do clube.
 
__________
 
(142) *“Vale à pena para o mundo.”
 
“Vale a pena” corresponde a “vale o esforço”. Esse a é simples artigo.
Portanto:
 
(142a) Vale a pena para o mundo.
 
__________
 
(143) *“... entre às 16 e às 19 horas.”
 
Como às é o feminino de aos, então *entre às 16 e às 19 horas é igual a
*entre aos sábados e aos domingos. Errado! Compare: entre os sábados e os
domingos, entre os 16 e os 19 minutos. Ora, os = as (sem acento). Logo:
 
(143a) ... entre as 16 e as 19 horas.
 
__________
 
(144) *“A Secretaria de Saúde interditou à praia de Hermenegildo.”
 
Ora, agente interdita alguma coisa. Não cabe aí preposição a. Interditou o
quê? A praia.
*Interditar à praia é como *interditar ao mar, ou *interditar a uma praia, a
praias. Ou como *praia a que a Secretaria interditou.
Sem dúvida existem muitos objetos diretos reforçados por a (objeto direto
preposicionado). Mas o objeto aí normalmente indica pessoa, ou pelo menos
ser animado: “amar ao próximo”, “amar a Deus”, “ajudar a(os) colegas”,
“tratar como a (uma) princesa”, “respeitar a todos”, “não consultar a
ninguém”, “matou ao rato o gato”, etc.
Tire-se, pois, o acento de (144):
 
(144a) A Secretaria de Saúde interditou a praia de Hermenegildo.
 
__________
 
(145) “O dia é propício a mudança.”
 
Esse [a] é simples ou acentuado com acento grave? Com acento, só se for “a”
duplo, ou seja, contração de dois “aa”.
Para descobrir se um [a] é a, ou a + a, é preciso analisar: reconhecer as
palavras em jogo, repor as que estão faltando (subentendidas), separar as que
estão unidas.
Vamos então à análise de (145).
Primeiro: o que é propício, é propício a alguém ou a alguma coisa. Temos
aqui, portanto, um a, exigido pela palavra “propício”.
Segundo: “mudança”, ou “a mudança”? Depende: “mudança”, em sentido
indeterminado; “a mudança”, em sentido determinado. Sentido indeterminado,
se a gente pode usar palavras como algum(a), um(a) ou nenhum(a), certo(a),
qualquer. Sentido determinado, se a ideia é aquele(a), o ou a de que
estamos/estivemos falando, etc.
Ora, poderíamos dizer: “O dia é propício a qualquer mudança” – ou, em
forma negativa: “O dia não é propício a nenhuma mudança”.
Um dos jeitos de expressar a ideia de algum, um, nenhum, qualquer é não
usar nada diante do substantivo: “não vai a baile”, “sujeito a castigo”, “ver
gente”, etc. É o que se faz na frase em questão:
 
(145) O dia é propício a mudança.
 
E poderia ser plural:
 
(145a) O dia é propício a mudanças.
 
__________
 
(146) *“A chegada do Governador ao aeroporto está prevista para às 11 horas.”
(147) *“O início do concerto está marcado para às 18 horas.”
 
Prevista para as ou para às onze horas? Marcado para as ou para às dezoito
horas? “Na designação das horas do dia...” Não. Esqueça! Varra da memória
todas as atrapalhantes regrinhas! Você tem o recurso poderoso do raciocínio.
Você é mais inteligente do que todas as regrinhas juntas. É só verificar isto:
 
há preposição a + artigo a(s)?
 
Primeiro: preposição a? Teríamos então a sequência preposição para +
preposição a. Preposição 1 + preposição 2 só é possível em casos de locução
prepositiva – para com, até a, por sobre, de entre, de trás (de)... Você fica em
dúvida. Então, recorra a contextos com equivalente masculino em lugar do
feminino “horas”. (“Equivalente” no sentido de que ocorra em contextos
semelhantes.) Por exemplo:
 
(146a)
A chegada do Governador ao aeroporto está prevista para o meio-dia. (e não
* ... para ao meio-dia)
(147a) O início do concerto está marcado para o entardecer. (e não * ... para ao
entardecer)
 
Pronto: onde não cabe ao não cabe à. Portanto:
 
(146b) A chegada do Governador ao aeroporto está prevista para as 11 horas.
(147b) O início do concerto está marcado para as 18 horas.
 
__________
 
(148) *“... procedeu a leitura da epístola.”
(149) *“Médicos procederam a autópsia.”
(150) *“A Reitoria deverá proceder as atualizações das vagas.”
 
Primeiro: o verbo “proceder”, nessa acepção de “levar a efeito, realizar”,
constrói-se com a preposição a: a gente procede a alguma coisa.
Segundo: temos artigo? Podemos tirar a dúvida substituindo o substantivo
feminino à direita do a por um masculino equivalente:
 
(148a) ... procedeu ao estudo da epístola.
(149a) Médicos procederam ao exame.
(150a) A Reitoria deverá proceder aos levantamentos das vagas.
 
Ora, onde cabe ao(s) cabe à(s). Portanto:
 
(148b) ... procedeu à leitura da epístola.
(149b) Médicos procederam à autópsia.
(150b) A Reitoria deverá proceder às atualizações das vagas.
 
Umas palavras sobre a regência do verbo “proceder”. “Proceder a leitura”,
“proceder a autópsia”, “proceder as atualizações” pode não ser erro de
acentuação, e sim mudança de regência. Objeto direto, em vez de objeto
indireto. Realmente, aquele “proceder a” vai tendendo a “proceder”
simplesmente, sem a. É fácil de comprovar nos jornais, onde “proceder um
levantamento”, “proceder levantamentos”, etc. são linguagem corrente.
Vale, pois, uma observação: na linguagem culta formal aconselha-se a
regência primária: “proceder a”.
 
__________
 
(151) *“Somos todos iguais perante à lei.”
 
*“Perante à lei” é como *“perante ao governo”, *“perante ao município”,
pois o à (“a” com acento grave) é o feminino de ao. Como o correto é
“perante o governo”, “perante o município”, corrija-se:
 
(151a) Somos todos iguais perante a lei.
 
__________
 
(152) *“Recibo de pagamento à autônomo.”
 
Como à = a (preposição) + a (artigo), *“pagamento à autônomo” é como
*pagamento para a autônomo; plural: *pagamento para as autônomos; ou
ainda: *pagamento da autônomo, *confiança na autônomo e * imposto pago
pela autônomo!... Corrija-se essa bisonhice:
 
(152a) Recibo de pagamento a autônomo.
 
__________
 
(153) *“Novo presidente é favorável a regionalização dos processos de cultura.”
 
Quem é favorável é favorável a algo ou a alguém. Logo, um primeiro a,
regência de “favorável”. Um segundo a é exigência de regionalização: “ele
quer a regionalização” (e não: *“ele quer regionalização”...).
Como artifício você pode substituir “favorável” por “a favor”: “novo
presidente é a favor da regionalização”.
Um a que equivale a um da é um “a” acentuado, preposição + artigo: de + a =
da; a + a = à.
Ou pode usar o artifício da masculinização: “novo presidente é favorável ao
agrupamento regional”, “é favorável ao zoneamento”.
Ora, ao é irmão de à. Corrija-se, portanto:
 
(153a) Novo presidente é favorável à regionalização dos processos de cultura.
 
__________
 
(154) *“Para entrar a esquerda, aguarde no acostamento.”
 
Um “a” sem acento, de duas uma: ou é artigo, ou é preposição. Se artigo
(definido), então é substituível por uma (artigo indefinido): “para entrar uma
esquerda”... Isso não existe, pois *“ninguém entra alguma coisa”, “algum
lugar”. “Entrar” não é transitivo direto.
Segunda hipótese: será, o a, preposição? Fácil testar: troque-se por outra.
*Entrar em esquerda? *Entrar por esquerda? *Entrar até esquerda? Nada disso
é possível, e sim: “entrar na esquerda”, “entrar pela esquerda”.
Assim, o teste da troca nos levou a duas outras possibilidades para (154):
 
(154a) Para entrar na esquerda, aguarde...
(154b) Para entrar pela esquerda, aguarde...
 
Chegamos, pois, a esta constatação: o som [a] de (154) equivale a na ou
pela. Ora, na = em a = preposição em + artigo a; e pela = por a = preposição
por + artigo a. Então, também o [a] é preposição a + artigo a, e deve ser
escrito à. Corrija-se portanto (154):
 
(154c) Para entrar à esquerda, aguarde no acostamento.
 
__________
 
(155) “A ressurreição do espírito segue-seà crucificação do ego.”
 
Isto, ou o contrário?
Minha opinião é que se pode escolher o a onde se quer a crase: ou o à antes
de “ressurreição”, ou o à antes de “crucificação”. Isto parece que não muda o
sentido da frase.”
Como não muda?
Uma coisa é “a ressurreição” seguir-se à (vir depois da) “crucificação”, e
outra, aliás o oposto, “à ressurreição” (depois da ressurreição) seguir-se “a
crucificação”.
É certo que ali se fala de “crucificação do ego” (a morte do egoísmo). Mas é
imagem tirada dos Evangelhos: depois da morte na cruz, a ressurreição de
Cristo. Em ordem direta: “a ressurreição seguiu-se à crucificação”.
Talvez o amigo queira dizer que as duas construções são igualmente
possíveis na sintaxe: “a x segue-se y”, ou “x segue-se a y”. Certo; mas não
esquecer que a Sintaxe é serva da Semântica. Se o pensamento é “a
ressurreição seguir-se a a crucificação”, não posso virar isto ao avesso: “a a
ressurreição seguir-se a crucificação” (onde a a → à).
Como se depreende, crase não é brincadeira de pingar acentinho virado...
 
__________
 
(156) *“... às dez para as oito.”
 
Curiosa inovação que se está ouvindo por aí (rádios inclusive): *às dez
(quinze, vinte, etc.) para as duas (três, cinco, dez, etc.).
Às o quê? Às é a + as: preposição indicativa de tempo a + artigo feminino
as, determinando/concordando com que substantivo?
Como todos sabem, às aparece na indicação das horas: “às duas (três, quatro,
cinco... vinte e quatro) horas”, onde este substantivo pode ser omitido – “às
duas”, “às dez”, “às onze”, etc.
E esse – *“às dez para as oito” – o que seria então? Às dez horas para as oito
horas... Pode?
O que se subentende aí é “minutos”. Portanto, corrija-se:
 
(156A) ... aos dez para as oito.
 
Muito feio dizer “aos dez para as oito”? Então diga simplesmente “dez para
as oito”.
 
__________
 
(157) *“Seu lance foi igual ou mesmo superior aquele de há quinze anos.”
 
O acento grave não é sempre fácil de determinar. Mas não é assim no caso de
aquele: é só trocar esse demonstrativo por um de seus irmãos este ou esse; se
aparecer a este ou a esse, a correspondência óbvia será: a aquele → àquele.
Vamos comprovar em (157):
 
(157a) ... lance igual ou mesmo superior a esse de...
 
Logo, corrija-se:
 
(157b) Seu lance foi igual ou mesmo superior àquele de há quinze anos.
 
Análise gramatical – Um primeiro a, preposição, regido por “igual” e “supe-
rior”: um lance é igual a outro, superior a outro; e um segundo a, inicial de
aquele: a aquele → àquele.
 
(158) *“O Supremo Tribunal deverá comunicar a CBF o resultado do julgamento.”
 
Só há uma maneira segura de acertar o acento grave: analisar o “a”, ver se é
uma palavra ou duas.
“Comunicar algo a alguém”. Na frase (158), “algo” é “o resultado do
julgamento”; “alguém” é “a CBF” – fácil comprovar: “a CBF recebeu a
comunicação” (e não: *CBF recebeu...); “isso depende da CBF” (e não: * ...
depende de CBF); “isso é com a CBF” (e não: * ... é com CBF), etc.
Logo: comunicar algo (o resultado) a alguém (a CBF) → comunicar o
resultado a a CBF → comunicar o resultado à CBF.
Faltou, portanto, o acento grave no “a”:
 
(158a) O Supremo Tribunal deverá comunicar à CBF o resultado do julgamento.
 
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“Escreve-se a posteriori, ou à posteriori?”
A escrita é a posteriori – sem acento. É uma expressão latina: posteriormente
aos fatos, a dados, a experiências, etc. (O contrário é a priori: antes dos fatos
ou experiências, previamente, etc.)
O à (“a” com acento grave), indicativo de “a” duplo ou crase “aa” (ou de
preposição: em casos muito restritos), é exclusivo do português. Não há crase
em latim. Aliás – não há acentos gráficos na escrita latina. Aquele “a” latino é
preposição (variante ab).
 
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(159) *“Um partido que faz votação idêntica a do PT nas eleições passadas.”
 
Primeiro: temos preposição a? Sim. O adjetivo “idêntico” rege a preposição
a: uma coisa/pessoa é idêntica a outra, um caso é idêntico a outro.
Segundo: temos também artigo a? Sim. Trata-se de uma votação determinada,
“definida”: “a votação do PT nas eleições passadas”.
Logo: ... “votação idêntica a a do PT...” → ... “votação idêntica à do PT”...
Digamos que você ficou ainda com dúvidas a respeito da existência de
preposição a (exigida por “idêntica”) e artigo a (exigido por “votação”).
Então, pluralize “votação”; mesmo que soe um pouco falso, para o teste serve:
... “votações idênticas [as] do PT”... Que prova o “s”? Que temos ali o artigo
definido. Como você já sabe que ali há também a preposição a (idêntico a
algo), então: “idêntica a as” = “idêntica às” e “idêntica a a” = “idêntica à”.
Como o teste do sinônimo, há o teste do antônimo (contrário). Antônimo de
“idêntico: diferente”. Então: ... “faz votação diferente da do PT”..., onde da é
irmão de na, pela e à, isto é, preposição + artigo.
Portanto:
 
(159a) Um partido que faz votação idêntica à do PT nas eleições passadas...
 
__________
 
(160) *“Uma nova visão do mundo, indispensável à toda poesia que se proponha
fundadora.”
 
Correto o acento grave no “a”? Só se o “a” valer por dois – aa, preposição +
artigo.
Primeiro: temos a preposição a? Sim: ser indispensável a algo ou a alguém.
Um a comparável a para ou em: “indispensável para”..., “indispensável
em”...
Segundo: temos o artigo a? A simples troca de a por em ou para já responde:
“indispensável em toda poesia”, “indispensável para toda poesia”. Nada entre
em ou para e toda; logo, nada entre a e toda. Em, para, a = preposições.
Logo:
 
(160a) Uma nova visão do mundo, indispensável a toda poesia que se proponha
fundadora.
 
__________
 
“Quando se deve acentuar o ‘a’ da locução ‘a distância’?”
 
Observe as frases:
 
(161) Vejo o vapor à distância de 10 metros.
(162) Fiquei à distância considerável.
 
Na locução “a distância”, sempre se pode acentuar o “a”: “à distância”. Mas
acento obrigatório nos casos iguais aos da frase (161), com o substantivo
“distância” determinado, especificado: “distância de tantos metros”,
“quilômetros”. “Especialistas” em crase (há disso, sim), mas desinformados
das tradições do idioma, querem que seja erro acentuar o “a” quando
“distância” é indeterminado (a distância = longe), pois esse a é só preposição;
cf. frase (162). Resposta: nas sequências circunstanciais de [prep. a + subst.
fem. sing.] a tradição da língua é acentuar. Um acento de clareza na preposição
a, para não se confundir como o artigo feminino. Veja ambiguidades: “ficar a
vontade no seu lugar”, “pintar a máquina”, “matar a fome”, “receber a bola”,
etc., e assim, “ver a distância”. O acento grave no “a” desfaz equívocos.
 
__________
 
(163) *“Geralmente se dá as turmas de primeira série a última professora que
chegou a escola.”
 
Isso, com nomes masculinos, corresponde a: *Geralmente se dá os grupos de
primeira série o último professor (ou *para último professor) que chegou o
colégio (ou *para colégio).
Claro que, nessa troca de femininos por masculinos, a forma regular é:
 
(163a) Geralmente se dá aos grupos de primeira série o último professor que chegou
ao colégio.
 
Ora, como o equivalente de ao(s) é à(s) = aa(s), claro que a forma regular de
(163) é:
 
(163b) Geralmente se dá às turmas de primeira série a última professora que chegou
à escola.
 
__________
 
E na noite de Ano-Novo houve festas de Iemanjá. Então, no noticiário
impresso, os indefectíveis erros de crase – aqueles erros que já são de
calendário...
 
(164) *“Homenagens à Iemanjá.”
 
Nesse contexto, antes da palavra “Iemanjá”, a crase é simplesmente
impossível. Por quê? Porque é impossível o artigo. Veja: “festa de (e não *da)
Iemanjá”; “confiança em (e não *na) Iemanjá”; “protegido por (e não *pela)
Iemanjá”.
Onde é impossível da, na, pela, também é impossível à. Portanto, corrija-se:
 
(164a) Homenagens a Iemanjá.
Exercícios
EXERCÍCIOS
 
Crase. Bom exercício de raciocínio, análise e reflexão.
Seguem-se várias frases para você testar o domínio do “a” acentuado. Pode
servir de treino para o vestibular. Afinal, nesses exames, questões de crasesão indefectíveis.
No final do capítulo é feito um comentário sobre elas.
 
(1) O clube X vai à Santa Cruz domingo de manhã.
(2) Tinha que agradecer muita coisa a muita gente.
(3) A empregada terá direito à férias.
(4) Esclarecer à mãe solteira de seus direitos.
(5) Notas promissórias correspondentes às duas últimas prestações.
(6) Compareceu a sessão solene de instalação...
(7) O sistema bancário está parado desde às 15h30min.
(8) ... essa blusa à que me referia.
(9) Essa pasta é igual à que comprei.
(10) Prova semelhante a de Maria.
(11) Ele pertence à uma escola sem projeção cultural.
(12) Não foi possível chegar à conclusão alguma.
(13) Chegou a conclusão de que não valia à pena.
(14) Conseguiu o emprego devido à suas qualidades.
(15) A secretaria funcionará de segunda à quinta.
(16) E na faixa leste do estado tempo sujeito a instabilidade passageira.
(17) Ante às arremetidas dos cínicos...
(18) A declaração pode ser preenchida à lápis ou à tinta.
(19) Considerando os difíceis processos já vencidos, sente-se o Comitê à vontade
para expressar...
(20) Dirigiu à S. Ex.a os agradecimentos da noite.
(21) O expediente será das 8 as 10 horas.
(22) Todo infrator está sujeito a punição.
(23) A situação atual, dado à ignorância do povo, tende a piorar.
(24) Fica prejudicado o contribuinte de rendas médias devido o índice de apenas 55
por cento.
(25) Não pude sair devido a falta de tempo.
(26) Isso também se pode aplicar a frase de Irene.
(27) Espera-se um futebol à brasileira.
(28) Nas minhas férias fui à Manaus.
(29) Reportou-se à Roma dos césares.
(30) Faço minhas orações à Nossa Senhora.
(31) Rezei a Mãe de Deus.
(32) Não dar confiança à mulher alheia.
(33) Emprestei o livro a Teresinha.
(34) Retornou à casa de Petrópolis.
(35) No festival não se assistiu à nenhuma grande peça.
(36) Trouxe estas lembranças à você.
(37) A fusão corresponde as expectativas do grupo.
(38) Colocou o painel a direita do semáforo.
(39) Para ter seus direitos reconhecidos, recorreu à instância superior.
(40) Quando quiser saber o sentido e a forma exata de uma palavra viva, vá as
pessoas.
Comentários
COMENTÁRIOS
 
(1) O clube X vai a Santa Cruz domingo de manhã. – Cp.: ... vai a Porto Alegre.
(2) Correta. Veja que falar da muita gente, pensar na muita gente, etc. seria um
absurdo. Acentuar o a é absurdo igual.
(3) A empregada terá direito a férias. – Cp.: ... terá direito a feriados, a passeios.
Deixe acontecer qualquer catástrofe, menos um à diante de um substantivo com
“s” final de plural.
(4) Esclarecer a mãe solteira de seus direitos. – Cp.: Esclarecer o pai solteiro...
(5) Correta. Cp.: ... correspondentes aos dois últimos pagamentos.
(6) Compareceu à sessão solene de instalação... – Tire logo a dúvida: Compareceu
ao ato solene...
(7) O sistema bancário está parado desde as 15h30min. – Cp.: ... parado desde os
quinze minutos.
(8) ... essa blusa a que me referia. – Cp.: ... esse blusão a que me referia, ... essa
blusa de que me referia.
(9) Correta. Veja: Esse pente é igual ao que comprei.
(10) Prova semelhante à de Maria. – Cp.: Exame semelhante ao de Maria.
(11) Ele pertence a uma escola sem projeção cultural. – Pôr acento no “a” é indicar
que, além da preposição a, temos artigo definido. Mas como artigo “definido”
diante de um substantivo (uma escola) “indefinido”?
(12) Não foi possível chegar a conclusão alguma. – *Chegar à conclusão alguma é
como *chegar ao lugar algum...
(13) Chegou à conclusão de que não valia a pena. – Cp.: Chegou ao raciocínio de
que não valia a pena. “Valer a pena” corresponde a “valer o esforço”.
(14) Conseguiu o emprego devido a suas qualidades. – Um “a” sem “s” na frente de
um plural – como aqui “suas qualidades” – mostra-se invariável. Se é invariável,
é preposição. Se é preposição, não tem acento. Cp.: ... devido a seus defeitos. É
possível também a construção: Conseguiu o emprego devido às suas qualidades.
(15) A secretaria funcionará de segunda a quinta. – Tratamento desigual aos
substantivos da sequência: “segunda(-feira)” sem artigo, e “quinta(-feira)” com
artigo. Ou os dois sem artigo, ou os dois com: ... de segunda a quinta, ou ... da
segunda à quinta.
(16)
Correta. Pluralize: ... sujeito a instabilidades passageiras. Ficou invariável o a; se
fica invariável, é preposição; se é preposição, não pode ser acentuado.
(17) Ante as arremetidas dos cínicos... – Cp.: Ante os assaltos...
(18) A declaração pode ser preenchida a lápis ou à tinta. – Nas sequências [a +
subst. fem. sing. + X] que exprimem circunstâncias, é lícito acentuar a
preposição a para evitar ambiguidades; é tradição da língua. Mas, veja bem:
locução adverbial com substantivo feminino singular. “Lápis” é masculino,
portanto “a” lápis, sem acento.
(19) Correta. Nessas locuções femininas iniciadas por “a”, a tradição da língua
escrita é acentuar o “a”, mesmo quando não é crase.
(20) Dirigiu a S. Ex.a os agradecimentos da noite. – As expressões de tratamento não
comportam a anteposição de artigo (o/a), e palavra que não admite artigo na sua
frente também não admite crase.
(21) O expediente será das 8 às 10 horas. – *“Das 8 as 10 horas” é o mesmo que
*dos 8 os 10 minutos.
(22) Correta. Cp.: Todo infrator está sujeito a castigo, sujeito a punições.
(23) A situação atual, dada a ignorância do povo, tende a piorar. – Cp.: ... dado o
desconhecimento, ... dadas as circunstâncias, dados os acontecimentos.
(24) Fica prejudicado o contribuinte de rendas médias devido ao índice de apenas 55
por cento. – Trata-se de locução prepositiva (devido a) exprimindo causa. Cp.:
... rendas médias por causa do índice de...
(25) Correta. Não cabe acento no “a”, pois é mera preposição (= por), e não crase.
Cp.: Não pude sair por falta de tempo.
(26) Isso também se pode aplicar à frase de Irene. – Cp.: ... se pode aplicar ao
exemplo de Irene.
(27) Correta. Está aí subentendida a palavra feminina “moda” ou “maneira”: futebol
à moda ou maneira brasileira.
(28) “Nas minhas férias fui a Manaus.” – Manaus não admite artigo, não havendo
portanto a crase. (Volto de Manaus.)
(29) Correta. Quando modificados por algum restritivo ou qualificativo, os nomes de
cidade requerem o artigo feminino.
(30) Faço minhas orações a Nossa Senhora. – Cp.: Faço minhas orações a Nosso
Senhor.
(31) Rezei à Mãe de Deus. – Cp.: Rezei ao Pai do Céu.
(32) Correta. Cp.: Não dar confiança ao homem alheio.
(33) Emprestei o livro a/à Teresinha. – A presença do artigo se dá, normalmente,
para denotar familiaridade, camaradagem. Cp.: Emprestei o livro a/ao Pedro. A
solução vai depender da ideia ou sentimento que queremos comunicar.
(34) Correta. Se a palavra “casa” vem acompanhada de adjetivo ou de modificador
que não designe o morador ou dono da casa, é obrigatória a crase.
(35) No festival não se assistiu a nenhuma grande peça. – Cp.: ... não se assistiu a
nenhum grande espetáculo.
(36) Trouxe estas lembranças a você. – As formas de tratamento e os pronomes
pessoais não admitem anteposição de artigo. Cp.: Trouxe estas lembranças para
você.
(37) A fusão corresponde às expectativas do grupo. – Cp.: A fusão está de acordo
com as expectativas do grupo, ... corresponde aos anseios do grupo.
(38) Colocou o painel à direita do semáforo. – Cp.: Colocou o painel na direita do
semáforo, deslocou o painel para a direita do semáforo.
(39) Para ter seus direitos reconhecidos, recorreu a instância superior. – Nesse caso
temos a indeterminação ou indefinição do substantivo. Cp.: ... recorreu a
instâncias superiores, ... recorreu a uma instância superior.
(40) Quando quiser saber o sentido e a forma exata de uma palavra viva, vá às
pessoas. – Cp.: ... vá aos falantes, ... converse com as pessoas.
CONCLUSÃO
Não há nenhuma regra a decorar: basta o raciocínio.
[1] Nome da letra.
[2] V. também Luft (2013), Grande manual de ortografia, São Paulo, Globo Livros, p. 123 ss.
[3] Aqui * = forma inexistente na língua escrita; compreender, eles veem, cooperação.
[4] Preposição é a palavra invariável que rege o nome, pronome ou outro elemento que a segueem uma
frase, estabelecendo uma relação de subordinação (dependência) entre eles.
[5] A sugestão de Luft (ainda) não foi adotada. O uso do acento grave para indicar crase vigora na
ortografia da língua portuguesa.
[6] Aqui, :: = variantes, isto é, formas linguísticas alternativas, admitidas na língua, conforme o contexto de
uso (fala/escrita; formal/informal).
[7] Isto é, uma opção de estilo.
[8] Ocorrerá crase se a palavra “casa” aparecer determinada por adjunto adnominal. Volto à casa de
meus pais. Não ocorrerá crase antes da palavra “casa”, não especificada. Volto tarde a casa.
[9] Se a palavra “terra” for usada no sentido de “chão firme” – Os marinheiros foram a terra para
descansar. Se indicar local, pátria, ocorrerá: Os marinheiros voltaram à terra onde nasceram.
[10] Per + lo = aglutinação da preposição per e do artigo arcaico lo (o). No português de hoje a
preposição per é usada em contrações/aglutinações com os artigos (ou pronomes) a, o, as, os. A
preposição per = preposição per. Cf. Dicionário Houaiss da Lingua Portu​guesa (2009); novo
Dicionário da Língua Portuguesa (2009), de Aurélio B. de Holanda Ferreira.
[11] Regionalismo brasileiro = quantia(s) em dinheiro.
[12] Orquestra Sinfônica de Porto Alegre.
[13] Cf. Luft 2013, Grande manual de ortografia, p. 123. “O contraste a/há ocorre em expressões de
tempo e distância. Estamos a dois dias das eleições. Há dois meses que se realizaram as eleições.”
[14] Cf. J. Mattoso Câmara Jr., 1977, Dicionário de Linguística e Gramática, Petrópolis, Vozes.
Significa “[...] os caracteres gerais da gramática de uma língua nas suas oposições formais e funcionais”.
[15] Cf. Dicionário eletrônico Houaiss da língua portuguesa, Rio de Janeiro, Objetiva, 2009:
“pagamento à vista”.
[16] Cf. também: Evanildo Bechara. Moderna gramática portuguesa, Rio de Janeiro, Nova Fronteira,
2009.
[17] Por razões morfológicas e (orto)gráficas.
[18] Assim também Houaiss (2009) no seu dicionário, bem como se encontra “à guisa de” no Novo
dicionário Aurélio da língua portuguesa, 4. ed., 2009.
[19] Aqui, para fins didáticos o autor representou-se a preposição entre chaves para contrastar com o
artigo, entre parênteses.
	Capa
	Folha de rosto
	Ficha catalográfica
	SUMÁRIO
	APRESENTAÇÃO
	ABREVIATURAS E CONVENÇÕES
	LISTA DE PREPOSIÇÕES
	CRASE & INTUIÇÃO
	Primeira Parte - O problema do A com acento grave
	INTRODUÇÃO
	O ACENTO GRAVE ÍNDICE DE CONTRAÇÃO: CRASE
	A crase da preposição com o artigo e os demonstrativos
	O problema
	Uma solução – sugestão para uma ortografia simplificada
	Expedientes para tirar dúvidas
	– Expediente gramatical (regência)
	a) Presença da preposição [a]
	b) Presença do artigo (a)
	– Expediente de substituição
	a) da, na, pela, para a, para
	b) ao
	c) a uma certa
	– Outros expedientes
	a) Diferença de significado
	b) Plurarização
	O ACENTO GRAVE ÍNDICE DE PREPOSIÇÃO: clareza versus ambiguidade
	Substantivo feminino subentendido
	Substantivos próprios e o uso de crase
	Crase e acento facultativos: casos relativos ao uso
	– Com os possessivos
	– Com a preposição até
	– Com certos verbos
	– Com nomes próprios
	O a diante das palavras casa e terra
	Segunda Parte - Dominando o A com acento grave
	APRENDENDO COM AS DÚVIDAS E OS ERROS ALHEIOS
	Terceira Parte - Exercitando o domínio do A com acento grave
	Exercícios
	Comentários
	CONCLUSÃODaí outros erros podem ocorrer a quem escreva de ouvido:
*começa chover (começa a chover), *começou aparecer (começou a
aparecer), etc.
Na história da língua, em algumas flexões de palavra também ocorreu o
processo de crase:
 
parti + i (tema + desinência) → partii → parti;
va- (vade) + a → vaa → vá;
mao (malo) + a → ma + a → maa → má.
 
A crase foi um fenômeno fonético importante na evolução do latim para o
português:
 
palatiu(m) → paaço → paço;
vagativu(m) → vaadio → vadio;
pede(m) → pee → pé;
colore(m) → coor → cor, etc.
 
É o que se pode chamar “crase histórica”.
Tudo isso é crase em sentido amplo.
A Gramática Descritiva especializou o termo crase em sentido restrito:
contração da preposição a com o artigo a e com o “a” inicial de “aquele”,
“aquela”, “aquilo” – o que passo a explicar.[4]
 
A crase da preposição com o artigo e os demonstrativos
 
Embora na pronúncia corrente possa ocorrer a crase no interior de vocábulos
(Aarão, depreender, niilista, coordenação) e entre vocábulos (da amiga, para
aprender, pôr-se a andar, em todo o mundo), na escrita mantemos a
independência das vogais repetidas, nesses casos. Não assim, quando a
preposição a se encontra com o a artigo ou inicial de demonstrativos (aquel-,
aquilo).
Repare nestas sequências:
 
1. A gente vai [a] (um) lugar.
2. A gente vai [a] ( ) Brasília.
3. A gente vai [a] (o) colégio. → A gente vai ao colégio.
 
O verbo ir (vou, vais, vai...) é daqueles que exigem a preposição a: a gente
vai [a] certo lugar. Escrevo, aqui, a preposição entre colchetes para o devido
destaque; depois dela outro destaque, diferente, para o artigo: parênteses. Pois
então: na frase (1) temos a sequência [a] (um) – preposição, artigo indefinido
–, e nada acontece de especial; na frase (2), a sequência é [a] ( ), casa do
artigo vazia: o substantivo próprio Brasília rejeita o artigo (verifique,
começando frases com esse substantivo: Brasília é..., Brasília tem...); na frase
(3), com a sequência [a] (o), temos na pronúncia o ditongo [aw] e, na escrita,
a junção (combinação) dos vocábulos: a + o = ao.
Coloquemos agora um substantivo feminino (sinônimo ou de igual emprego)
em lugar de colégio – escola, por exemplo:
 
(4) A gente vai [a] (a) escola.
 
Resultado? Na pronúncia, um “a” só em lugar de dois; na escrita, um “a”
acentuado, com acento grave:
 
(4a) A gente vai à escola.
 
Como se vê, os “aa” se fundem foneticamente, e essa fusão, chamada crase, é
assinalada na escrita pelo acento grave em cima do único “a” restante. Isso
substituindo a escrita de dois “aa”: aa → à.
O mesmo se dá com o “a-” inicial dos demonstrativos:
 
(5) A gente vai [a] (aquele) parque/[a] (aquela) praça.
 
que resulta em:
 
(5a) A gente vai àquele parque/àquela praça.
 
O problema
 
Em Portugal, a contração (a + a = à) manifesta-se por um [a] bem aberto, a
contrastar com o [] bem fechado, reduzido (schwa, em terminologia técnica),
da preposição e do artigo. Por isso mesmo, português não sabe o que seja o
problema da crase. Problema, sim, nunca resolvido entre nós, brasileiros, que
não fazemos distinção tão clara entre a e à. Mesmo pessoas de boa instrução e
cultura se queixam de dificuldades no domínio desse “a” acentuado.
O principal motivo é de ordem fonética. O contraste sutil, na fala, não é entre
preposição ou artigo feminino e a fusão de ambos, mas entre o artigo e
preposição ou crase:
 
a: artigo/a: preposição ou crase
 
Ao menos assim é para ouvidos brasileiros: o artigo tem menos corpo
fonético, é mais sumido (átono) que a preposição e a crase. Diferentemente de
Portugal, onde o contraste é perceptível aos ouvidos portugueses:
 
a: preposição ou artigo/a: crase
 
Para fins didáticos, podemos representar essa diferença num quadro, onde o
A é o mais encorpado fonicamente:
 
ENTIDADE ARTIGO | PREPOSIÇÃO | CRASE
Brasil a | A = A
Portugal a = a | A
 
Quer dizer que a atual marcação diacrítica (ou distintiva: o acento grave) na
escrita é boa para portugueses, mas não para brasileiros. Isso explica o fato de
ser a crase um problema brasileiro, mas não português: qualquer estudante
luso acerta o acento grave em casos em que até doutor brasileiro erra. O
português pode guiar-se perfeitamente pelo ouvido. Brasileiro, se vai pelo
ouvido, erra na certa.
 
Uma solução – sugestão para uma ortografia simplificada
 
Aparentemente, a única saída é analisar, verificar se existem as duas coisas:
preposição a + artigo ou demonstrativo a. Solução gramatical para a qual,
porém, nem todos estão capacitados.
Uma solução à vista (se fui claro) – fazermos, nós, brasileiros, na escrita a
diferenciação que fazemos (ou não) na fala: usar o acento grave não só para a
crase (fusão da preposição com o artigo), mas também para a preposição, em
contraste com o artigo não acentuado. O que, aliás, teimosamente se vem
fazendo, errando a crase. E o que já fora a solução encontrada por José de
Alencar, na sua romântica luta por uma norma brasileira da língua portuguesa.
Só vejo aí uma desvantagem: a multiplicação dos acentos graves!
O jeito era tornar facultativo esse acento. Nem o meter acento nem o omiti-lo
constituiria erro. Tirava-se ao fato a importância transcendental que lhe dão na
escola, acabava-se a “neurose”, a “crasioneurose”...
Mas a solução do acento facultativo já entremostra outra. Se tanto faz
acentuar como não acentuar, por que acentuar?
Portanto: abolir pura e simplesmente o acento grave, indicativo da crase.
Fundem-se os “aa” (prep. + art. ou demonstrativo) na pronúncia, sem uma
indicação especial; que se fundam na escrita, sem indicação especial. O
contexto se encarregaria de esclarecer a mensagem:
 
Vimos a cidade./Viemos a cidade.
Conserto a máquina./Escrevo a máquina.
 
É certo que alguns contextos, sobretudo elípticos, deixariam dúvidas:
 
A sombra das raparigas em flor
Fique a vontade onde está.
 
Nesses poucos e raros casos, o acento evitava a ambiguidade
 
À sombra das raparigas em flor
Fique à vontade onde está.
 
assim como se usa a vírgula por motivo de clareza.
 
Em suma, uma solução para a crase escrita, numa ortografia simplificada, de
alcance popular: abolição do acento grave, reservado este apenas para evitar
ambiguidades. Naturalmente nós estranharíamos, habituados que estamos, mas
as gerações futuras abençoariam os autores da simplificação.
Quanto papel se pouparia, e quanto tempo nas aulas de Português ganho para
assuntos mais importantes...
Assim como está, quanto mais se ensina a crase por aí, mais o estudante se
confunde.[5]
 
Expedientes para tirar dúvidas
 
Como a distinção entre a e à não se reflete claramente na pronúncia
brasileira, não nos podemos guiar pelo ouvido. O meio de tirar dúvidas é
recorrer a um dos expedientes que seguem:
 
expediente gramatical;
expediente de substituição;
outros expedientes.
 
– Expediente gramatical (regência)
 
Verificar a presença:
 
da preposição [a] e
do artigo (a), já que o acento grave é para assinalar essa dupla presença
(à = “aa”).
 
a) Presença da preposição [a]
 
A preposição ocorre:
 
por exigência de certas palavras (regência). Verbos como acostumar(-
se), agradecer, atribuir, bastar/faltar, ceder, comunicar, dar, furtar,
impor, juntar, lembrar, negar-se, obedecer, pagar, perguntar, referir-se
(aludir), subordinar, unir, vincular (ligar), voltar (retornar), etc. regem a
preposição a. Também substantivos e adjetivos: acessível, agradável;
apto, aptidão; benéfico, útil, proveitoso; comum; contíguo (rente);
contrário (hostil)/favorável; convite, convocação; fiel, fidelidade; grato;
horror, medo; idêntico, igual, semelhante; etc.;
para unir palavras: máquina a vapor, corpo a corpo, dois a dois, daqui
a um mês, de alto a baixo, amar a Deus, escolheu a mim, etc.;
para indicar circunstâncias: a dois passos da casa; a primeiro de julho,
aos domingos, aos cinquenta anos; vender a crédito, a prazo; pintar a
óleo; etc.
 
b) Presença do artigo (a)
 
Uma tripla exigência:
 
deve haver um substantivo (às vezes subentendido) à direita do
elemento sonoro [a];
esse substantivodeve ser feminino, podendo antepor-se-lhe as palavras
“Falo da –”;
esse substantivo deve estar sendo usado em sentido determinado,
particular, e não em sentido indeterminado, geral. Compare: a (=
aquela) criança gosta de bala/criança (= as crianças em geral) gosta de
brinquedo; não gostei da (= daquela) festa/não gosto de festa; sujeito ao
castigo/sujeito a castigo.
 
Exemplos:
 
Os alunos falaram à professora.
“Falar” rege [a] (quem fala, fala a alguém), e “professora”, substantivo
feminino, nesta frase, designa uma pessoa bem determinada. Logo: [a]
(a) → aa → à (crase), e falar [a] (a) professora → falar aa professora
→ falar à professora.
 
Pedro e Maria foram à Globo.
O verbo “ir” (foram) pede [a] (ir a certo lugar), e “Globo”, aí, está por
“Livraria” (em outros casos: Rádio, TV...) “do Globo”, substantivo
feminino (“Falo da –”), bem determinado, particular. Logo: foram [a]
(a) Globo → foram aa Globo → foram à Globo.
 
À tarde meus colegas trabalham.
A locução “a tarde” exprime circunstância de tempo; logo, deve conter
a preposição [a], já que outra não aparece (ante, após, até, com, contra,
de, em...); “tarde” é substantivo feminino (“Falo da –”) e indica tempo
determinado em oposição a “manhã”, “noite”. Logo: [a] (a) tarde → aa
tarde → à tarde.
 
Este expediente requer conhecimentos gramaticais, raciocínio. Se estiver fora
do seu alcance, use os outros expedientes – que explico a seguir.
 
– Expediente de substituição
 
a) da, na, pela, para a, para
 
Procure substituir o [a] por alguma das preposições, particularmente para,
de, em, por. (Veja lista completa na p. X.)
Feita a substituição, só teremos à se o resultado foi preposição + “a”: para a,
da, na, pela. Se a substituição encontrar para, de, em, por, nada de acento. A
substituição da preposição pode implicar a substituição da palavra à esquerda
do “a”.
 
Se o som [a] → para a, da, na, pela, então à.
Se o som [a] → para, de, em, por, então a.
 
Exemplos (entre colchetes, o elemento fônico [a] sujeito ao teste de
substituição):
 
(1) Meus amigos foram [a] praia.
(1a) Meus amigos foram para a praia.
Logo:
(1b) Meus amigos foram à praia.
(2) Meus amigos foram [a] Brasília.
(2a) Meus amigos foram para Brasília.
Logo:
(2b) Meus amigos foram a Brasília.
(3) Vou falar [a] diretora.
(3a) Vou falar com a diretora.
Logo:
(3b) Vou falar à diretora.
(4) A vítima compareceu [a] Delegacia.
(4a) A vítima compareceu na Delegacia.
Logo:
(4b) A vítima compareceu à Delegacia.
(5) Cultivar o amor [a] pátria.
(5a) Cultivar o amor pela pátria.
Logo:
(5b) Cultivar o amor à pátria.
(6) Os infratores ficam sujeitos [a] multa.
(6a) Os infratores serão atingidos por multa.
Ou:
(6b) Os infratores serão castigados com multa.
Portanto:
(6c) Os infratores ficam sujeitos a multa.
 
b) ao
 
Procure substituir a palavra feminina (“Falo da –”) que segue o [a] por um
masculino (“Falo do –”) – sinônimo ou antônimo, de preferência, ou então de
emprego semelhante.
Feita a substituição, só teremos à se o [a] se tornou ao. Se o resultado foi “a”
ou “o”, nada de acento.
 
Se [a] → ao, então à.
Se [a] → a ou o, então a.
 
Exemplos:
 
(1) Dirigiram-se [a] praça vizinha.
(1a) Dirigiram-se ao parque vizinho.
Logo:
(1b) Dirigiram-se à praça vizinha.
(2) Ela costuma ir [a] feira.
(2a) Ela costuma ir ao mercado.
Logo:
(2b) Ela costuma ir à feira.
(3) A sala cheirava [a] gasolina.
(3a) A sala cheirava a gás (ou a querosene).
Logo:
(3b) A sala cheirava a gasolina.
(4) [A] Ex.ma Sr.ª Fulana de Tal
(4a) Ao Ex.mo Sr. Fulano de Tal.
Logo:
(4b) [À] Ex.ma Sr.ª Fulana de Tal.
 
c) a uma certa
 
Veja se depois do [a] você pode acrescentar palavras como:
 
uma, nenhuma, certa, qualquer
 
ou então:
 
esta, essa, aquela.
 
Só no segundo caso teremos acento.
 
Se [a] → a uma, a nenhuma, a certa, a qualquer, então a.
Se [a] → a esta, a essa, a aquela (= àquela), então à.
 
Exemplos:
 
(1) O prisioneiro estava entregue [a] profunda melancolia.
(1a) O prisioneiro estava entregue a uma profunda melancolia.
Portanto:
(1b) O prisioneiro estava entregue a profunda melancolia.
(2) Todo infrator está sujeito [a] multa.
(2a) Todo infrator está sujeito a uma (certa) multa.
Logo:
(2b) Todo infrator está sujeito a multa.
(3) Não vou [a] sessão espírita.
(3a) Não vou a nenhuma (ou a qualquer) sessão espírita.
Portanto:
(3b) Não vou a sessão espírita.
(4) Quanto [a] multa, foi irrisória.
(4a) Quanto a essa (ou a aquela = àquela) multa, foi irrisória.
Logo:
(4b) Quanto à multa, foi irrisória.
 
– Outros expedientes
 
a) Diferença de significado
 
Repare na diferença de significado que resulta de usarmos ou não o acento
nas frases seguintes:
 
(5) Maria prefere não ir a/à festa.
Isto é: Maria prefere não ir a (nenhuma ou qualquer) festa/Maria prefere não ir a
essa festa (= festa da qual falamos, à qual ela foi convidada, etc.).
(6) Não vou a/à sessão de autógrafos.
Isto é: não vou (= não costumo ir) a nenhuma ou a qualquer sessão de
autógrafos/não vou a essa sessão de autógrafos (que se realizará hoje ou
amanhã, etc.).
(7) Foi escasso o tempo reservado a/à pesquisa.
Quer dizer: tempo reservado a qualquer (tipo de) pesquisa, a pesquisa(s) em
geral/tempo reservado a essa ou aquela pesquisa determinada, a que
anteriormente se fez menção.
 
b) Plurarização
 
A pluralização do substantivo, nesses casos, também é esclarecedora: (1c)
prisioneiro entregue a melancolias; (2c) infrator sujeito a multas; (3c, 6a) não
ir a sessões espíritas ou de autógrafos; (5a) prefere não ir a festas; e (7a)
tempo reservado a pesquisas. Ficando sem “s” o [a], ele se mostra partícula
invariável – preposição; sem acento, portanto. Tomando “s”, prova-se a
existência do artigo pela concordância de número: (1d) entregue às
melancolias; (2d) sujeito às multas (citadas, previstas, etc.); (3d, 6b) ir às
sessões espíritas ou de autógrafos; (5b) prefere não ir às festas; (7b) tempo
reservado às pesquisas; e (4c) quanto às multas, diferente do indeterminado
“quanto a multas”.
 
 
O ACENTO GRAVE ÍNDICE DE PREPOSIÇÃO: clareza versus ambiguidade
 
Repare nas frases seguintes:
 
(1) O operário pinta a máquina.
(2) Expõe objetos a venda.
(3) Matou o inimigo a fome.
(4) Tem argumentos a mão.
 
Certamente você se deu conta da ambiguidade dessas frases, comparando:
 
(1a) A máquina é pintada pelo operário.
(1b) O operário pinta com máquina.
(2a) Expõe objetos para vender.
(2b) A venda expõe objetos.
 
(3a) Matou o inimigo pela fome.
(3b) O inimigo matou a fome.
(4a) (Ele) tem argumentos disponíveis.
(4b) A mão tem argumentos (irônico: bater, por exemplo).
 
Ambiguidade que vem de o “a” poder ser interpretado como [preposição] ou
(artigo): pinta [a] ( ) máquina/pinta [ ] (a) máquina; expõe [a] ( ) venda/expõe
[ ] (a) venda = (a) venda expõe.
Naturalmente, ambiguidade teórica: na prática, o contexto em geral se
encarrega de clarear o sentido. Na fala, costuma-se recorrer ao reforço
acentual (intensidade) da preposição, a contrastar com a atonicidade do artigo.
Gramáticos e tratadistas brasileiros contestam – e até proíbem – tal acento,
argumentando que se trata de ambiguidades fictícias, impossíveis na maioria
dos casos: texto escrito a máquina, matar a bala, ferir a faca, vender a vista,
etc. Assim, se em Portugal é usual o acento grave (por causa da notável
diferença na pronúncia), este seria dispensável no Brasil. Convém, pois,
deixar bem claro: é uma tradição histórica do idioma. Quando não se trata do
fenômeno crase, é facultativo o acento, embora necessário em contextos
ambíguos ou de leitura embaraçosa. Mas não se confunda a preposição
(indicativa de instrumento, modo, fim, tempo, lugar, etc.) com legítimos casos
de preposição + artigo (crase): escrever/pintar à mão = escrever/pintar com a
mão; pesquisar à noite = durante a noite, pela noite.
Algumas dessas locuções, de acento consagrado pela tradição (Rocha Lima,
Gramática normativa): apanhar à mão, cortar à espada, enxotar à pedrada [e
à pedra], fazer a barba à navalha, fechar à chave, ir àvela, matar o inimigo à
fome, pescar à linha; à força (de), à imitação de, à maneira de, à medida que,
à proporção que, à míngua de, à noite, à pressa, à semelhança de, à toa, à
ventura, à vista (de).
Para outras locuções semelhantes, consultar o meu Novo guia ortográfico
[São Paulo, Globo, 2013. Edição reorganizada, revista e atualizada com a
nova ortografia].
 
Em suma – Nas sequências [a + subst. fem. sing. + X] que exprimem
circunstâncias, a tradição é acentuar o “a” mesmo que seja só preposição.
Trata-se de um acento facultativo – para fins de clareza, que não se deve
dispensar quando a leitura for ambígua ou embaraçosa (exigindo releitura): o
fim da linguagem é a comunicação clara, inequívoca. Vejam-se bem as
condições: substantivo – feminino – singular – exprimindo circunstância.
Se tivermos “as” (plural) em tais locuções, o acento é obrigatório: às claras,
às ocultas, às pressas, etc.
 
Substantivo feminino subentendido
 
Observe estas frases:
 
(1) Esta casa é semelhante à de Antônio.
(2) Há obras superiores à que analisamos.
(3) Sua alusão à Globo foi muito elogiosa.
(4) Chegaram à Carlos Gomes e pararam.
(5) Foram à Brigadeiro Faria Lima comemorar.
(6) Dirigiu-se à Almirante Barroso.
(7) Servem bife à milanesa, arroz à grega e filé a cavalo.
(8) Elas têm móveis à Luís XV e vestidos à Império.
 
Só há crase onde há artigo a, e só há artigo a onde há substantivo feminino.
Ora, nessas frases não há substantivo feminino à direita do a. No entanto,
sabemos que esse substantivo deve existir, denunciado que é pelo artigo,
presente na letra “a” (o outro a, preposição, foi substituído (indicado) pelo
acento: a + a = à).
Em (1) e (2) é o mesmo substantivo da esquerda, que se evitou repetir
(elipse):
 
(1) casa semelhante [a] (a) casa de Antônio → casa semelhante à de Antônio;
(2) obras superiores [a] (a) obra que analisamos → obras superiores à que ​‐
analisamos.
 
Nos exemplos (3) a (6) subentendem-se substantivos como: (3) Editora,
Livraria, Rádio, TV; (4) e (5) avenida, rua, praça; (6) lancha, corveta, etc.; e
finalmente em (7) e (8) subentendem-se os substantivos “maneira” ou “moda”,
da expressão à maneira/moda (de). Assim:
 
(3) alusão [a] (a) Editora (Livraria, Rádio, TV) Globo → alusão à Globo;
(4) Chegaram [a] (a) avenida Carlos Gomes → Chegaram à Carlos Gomes;
(6) Dirigiu-se [a] (a) corveta Almirante Barroso → Dirigiu-se à Almirante Barroso;
(7) bife [a] (a) maneira milanesa → bife à milanesa (mas não *filé à moda (de)
cavalo!);
(8) móveis [a] (a) moda de Luís XV → móveis à Luís XV.
 
Em (1) e (2) pode-se tirar a dúvida:
 
pela comparação com um masculino (se ao, então à): carro semelhante
ao de Antônio, trabalhos superiores ao que analisamos; ou
trocando o artigo por um demonstrativo (se a essa, então à): semelhante
a essa de Antônio, obras superiores a essa que analisamos.
 
Em (3) a (6) recorra-se à troca da preposição: sua fala da Globo, chegaram
na Carlos Gomes, passou pela Brigadeiro Faria Lima, foram para a Almirante
Barroso. Se da, na, pela, para a, então à.
E finalmente para (7) e (8) é só lembrar a redução [à maneira/moda (de)] →
à.
Resta esclarecer quais substantivos possibilitam subentendimento:
 
qualquer substantivo enunciado antes, como em (1) e (2);
substantivos que designam entidades comerciais (Casa, Companhia,
Livraria, etc.), estações de rádio e televisão, logradouros e vias
públicas (avenida, rua, travessa, praça, igreja), embarcações;
maneira ou moda – antes de substantivos próprios ou adjetivos.
 
Não se subentende o substantivo “cidade”. Compare:
 
chegaram à (na) (Rádio) Farroupilha/chegaram a (em) Farroupilha;
foram à (para a) (rua/igreja) Santa Teresinha/foram a (para) Santa
Teresinha;
dirigiram-se à (para a) (lancha, corveta) Almirante
Tamandaré/dirigiram-se a (para) Almirante Tamandaré (cidade do
Paraná, ou vila do Rio Grande do Sul).
 
A palavra “cidade” só se subentende junto a nomes próprios modificados:
quanto à Grande (cidade de) Porto Alegre; excursão à Roma Eterna, à Roma
moderna; referência à São Paulo do século passado, etc.
 
Substantivos próprios e o uso de crase
 
Crase ou não antes de substantivos próprios? Veja:
 
(1) Fizemos uma excursão à Argentina.
(2) “Você já foi à Bahia?”
(3) E a Brasília, você já foi?
(4) Refiro-me à Brasília de hoje.
(5) Atribuíram o título a Marta Rocha.
(6) Ainda não falei à Marta.
 
A análise gramatical identifica nessas frases a preposição [a], regida pelas
palavras “transitivas” “excursão”, “ir (foi)”, “referir-se”, “atribuir” e “falar”.
Quanto ao artigo, via de regra o repelem os substantivos próprios por serem já
plenamente determinados; mesmo assim, não faltam os que só se usam com
artigo.
Para verificar a ausência/presença do artigo, pode-se usar o contexto “Falo
de/da –”, ou então fazer uma frase em que apareça o substantivo próprio como
sujeito:
 
(7) A Argentina é um país hispano-americano.
(8) A Bahia fascina os turistas.
(9) Brasília é a capital do Brasil.
(10) Cecília Meireles escreveu poemas e crônicas.
 
Nomes de países e continentes normalmente exigem artigo, ao passo que
nomes de cidades o repelem: a Argentina, a Espanha, a Itália, a América, a
Europa, etc./Brasília, Coimbra, Roma, etc.
Nomes de pessoas normalmente repelem o artigo; mas este é usado para
exprimir afetividade, familiaridade, camaradagem: Marta Rocha/a Marta;
Paulo Ferreira/o Paulo. Daí a diferença entre (5) e (6) ou esta:
 
(11) Marta Rocha foi coroada Miss.
(12) A Marta veio falar comigo.
 
Substantivos próprios que rejeitam o artigo passam a exigi-lo ao receber um
anexo (adjunto adnominal). É o que se verifica comparando (3) com (4):
Brasília/a Brasília ou a Brasília de Juscelino, dos candangos. Da mesma
forma: Roma/a Roma dos papas, a Roma pagã, a Roma cristã; Coimbra/a
Coimbra dos estudantes, dos doutores; Ouro Preto/a histórica Ouro Preto;
Campinas/a Campinas de Carlos Gomes; Porto Alegre/a Grande Porto Alegre,
etc.
Alguns gramáticos e tratadistas dizem facultativa a crase antes de nomes de
países e continentes como “Espanha”, “França”, “Inglaterra”..., “África”,
“Ásia”, “Europa”... Isso só vale para o português antigo; hoje só dizemos a
África, a Ásia, a Espanha, a França, etc. Portanto, crase obrigatória se
coocorrer a preposição [a]: excursão à Europa, à África; quanto à Espanha;
viagem à França, etc.
Expediente prático para as dúvidas de crase com substantivos próprios é o
recurso às preposições:
 
da, na, pela, para a → à;
de, em, por, para → a.
 
Ou para quem gosta de macete: se fica em, fica sem. Isto é: em corresponde a
“sem acento grave” (ao contrário de na, que corresponde a “com acento”):
 
(13) Fico em Brasília./Excursão a Brasília.
(14) Fico na Bahia./Excursão à Bahia.
 
Isto, naturalmente, depois de saber que já existe o a preposição na frase.
 
 
Crase e acento facultativos: casos relativos ao uso
 
Se a crase é a contração de a preposição + a artigo (a a → aa → à), ela e o
acento grave, que a indica, serão facultativos quando for facultativa uma das
duas partículas.
 
– Com os possessivos
 
(1) A Europa faz objeções _____ nossa política.
 
“Objeções” é daqueles substantivos que regem a preposição [a]: objeção a
alguma coisa/pessoa. Os possessivos, em princípio, tomam o lugar do artigo:
a casa dele → sua casa. Mas – capricho da língua portuguesa! –, quando
seguido de um substantivo, o possessivo pode ser reforçado pelo artigo: sua
casa → (opcional) a sua casa.
Portanto:
 
objeções [a] ( ) nossa política, ou
objeções [a] (a) nossa política
 
o que nos dá:
 
(1a) A Europa faz objeções a nossa política.
(1b) A Europa faz objeções à nossa política.
 
Em outros contextos, porém, o artigo diante do possessivo é obrigatório,
porque representante de substantivo anterior (caso em que o artigo, pronome
adjetivo de natureza, se torna pronome substantivo ou substantivado): não me
refiro a(o) meu colégio, mas ao teu. Assim:
 
(2) A Europa defende (a) sua política, mas faz objeções à nossa.
 
Crase obrigatória em à nossa, porque preposição e artigo obrigatórios.
OBS.: Diantede Vossa/Sua Excelência (Senhoria, Eminência, etc.) e Nosso
Senhor, Nossa Senhora o artigo é proibido. Não temos aí verdadeiro
possessivo, e sim expressões estereotipadas, unidades lexicais – pronomes de
tratamento e substantivos próprios. Artigo proibido, crase impossível:
 
(3) Formulamos convite a Sua Excelência.
(4) Prestam-se homenagens a Nossa Senhora.
 
– Com a preposição até
 
(5) A chuva alagou tudo, até a casa do operário.
 
Frase ambígua:
a) até junto da casa, ou
b) a casa incluída?
 
Isto, porque até pode ser:
a) preposição, significando “extensão/movimento com limite determinado”,
ou
b) partícula inclusiva, como mesmo, inclusive, por exemplo:
 
(5a) A chuva alagou tudo, até junto da casa do operário.
(5b) A chuva alagou tudo, até mesmo a casa do operário.
 
Em (5a) desfez-se a ambiguidade reforçando a preposição até com uma
locução prepositiva – junto de; em (5b) reforçou-se o valor inclusivo de até
com outra partícula inclusiva – mesmo.
Pois bem: em vez de reforçar a preposição até com uma locução prepositiva
(junto de), podemos fazê-lo com a preposição a: até preposição (diante do
artigo e dos demonstrativos) → até + a. Assim: até o portão → (opcional –
para desambiguizar) → até ao portão.
Portanto, variante para (5a):
 
(5a’) A chuva alagou tudo, até à casa do operário.
 
Observe-se o caráter facultativo do a nesse até (a). Por isso as variantes
livres no uso:
 
até à raiz dos cabelos :: até a raiz dos cabelos;
até às unhas :: até as unhas;
até às ovelhas :: até as ovelhas;
até à morte :: até a morte;
até à volta :: até a volta; etc.
 
– Com certos verbos
 
(6) O plano visa _____ melhoria das finanças.
 
O verbo “visar” é transitivo, requer um complemento. No português antigo e
clássico, complemento introduzido pela preposição a, no sentido de “ter por
objetivo”. Hoje, a preposição é facultativa: visar a alguma coisa. Portanto,
duas soluções para a frase (6): visa [a] (a) melhoria/visa [ ] (a) melhoria.
 
(6a) O plano visa à melhoria das finanças.
(6b) O plano visa a melhoria das finanças.
 
Há outros verbos – não muitos – de regência [a] facultativa: ajudar, assistir,
atender, anteceder, preceder, suceder, interessar, satisfazer, presidir...
Geralmente o uso da preposição corresponde a um uso mais formal, timbre
mais culto, maior categoria de ​linguagem.
 
(7) O governo ajuda ou assiste a (ou à) população.
(8) O próprio diretor presidiu à (ou a) sessão.
(9) A leitura interessa a (ou à) criança.
 
Às vezes a ausência da preposição corresponde à gramática (uso) popular ou
vulgar:[6]
 
(10) (pop.) A mulher não pôde pagar a enfermeira. (Compare: pagar ao médico ::
(pop.) pagar o médico.)
(11) (pop.) Muitos motoristas não obedecem a sinalização do trânsito. (Compare:
(des)obedecer a um sinal :: (pop.) (des)obedecer um sinal.)
(12) (pop.) Essa decisão do governo desagradou a população. (Compare: agradar a
alguém :: (pop.) agradar alguém.)
 
Assim também: responder às cartas :: (vulg.) responder as cartas.
Outras vezes o contraste presença/ausência de preposição corresponde a
distinções relativas ao significativo: aspirar a um cargo/aspirar um perfume;
bater à (a + a = na) porta/bater a porta; servir a alguém/servir alguém; etc.
 
(13) Devemos aspirar à perfeição (ao ideal), embora não a alcancemos nunca.
(14) É agradável aspirar a brisa da manhã.
(15) Alguém estava batendo à porta (ao portão).
(16) O vendedor, irritado, bateu a porta.
(17) É uma empresa que serve mal a população (serve-a mal).
(18) Soluções improvisadas não servem à população (não servem a ela, não lhe
servem).
 
– Com nomes próprios
 
(19) Ainda não comuniquei nada _____ Maria.
 
A presença do artigo antes de nomes de pessoas só se dá, normalmente, para
denotar familiaridade, camaradagem. Daí a diferença entre (19a) e (19b):
 
(19a) Ainda não comuniquei nada a Maria.
(19b) Ainda não comuniquei nada à Maria.
 
Compare-se com o masculino: a Ricardo/ao Ricardo.
 
Aqui, na verdade, não se trata de crase e acento facultativos: não optamos
entre uma solução e outra indiferentemente, e sim conforme a ideia ou o
sentimento que queremos comunicar.[7]
 
O a diante das palavras casa e terra
 
Entendo que a questão das palavras “casa” e “terra” não é problema real
entre nós. Veja as frases:
 
(1) Vou a casa descansar.
(2) Voltaram a casa cansados.
(3) Chegamos tarde a casa.
(4) Os marinheiros desceram a terra por algumas horas.
(5) A tripulação estava ansiosa por voltar a terra.
(6) “Eu aposto em como ele não vai a terra.” (Eugênio de Castro)
 
Explicação:
 
Nas três primeiras frases o a é preposição, regida pelos verbos: ir,
voltar, chegar a certo lugar; mas é o único “a”, pois “casa” na acepção
de “lar, residência pessoal” repele o artigo, como se comprova usando
verbos de regência diferente de a: vir de, estar em, passar por casa.
Portanto, ir/voltar/chegar [a] ( ) casa → ir/voltar/chegar a casa.
Mas por que ou para que explicar isso entre nós? Brasileiro não fala
“vou a casa”, “voltaram a casa”, “chegamos a casa”. Brasileiro “vai ou
volta para (e, na fala, de preferência pra casa)”. E “chega em casa”.
Em todo caso, já que se fala nisso, convém lembrar que essa palavra
“casa” exige artigo quando acompanhada de adjetivo ou de substantivo
que não designe seu dono ou morador: estive na casa da praia, falo da
casa mais antiga da rua, volta para a casa paterna. Portanto, crase
obrigatória se coocorrer a preposição a: foram à casa da praia,
referência à casa mais antiga da rua, volta à casa paterna.
Mas artigo facultativo se “casa” vier acompanhada de possessivo ou
de substantivo designativo do seu dono ou morador: visitei (a) sua
casa/visita a (ou à) sua casa; estive em (ou na) casa de meus tios, de
Luís Alberto/ida a (ou à) casa de meus tios, de Luís Alberto.[8]
 
Nas três outras frases (4) a (6), “terra” é usada em oposição a “bordo”,
caso em que repele o artigo, como se comprova em outros contextos: os
marinheiros estiveram em (e não: *na) terra, voltaram de (e não: *da)
terra, viajar por (e não: *pela) terra.[9]
 
Mas... será necessário ensinar isso? São frases que não ocorrem na
redação habitual. Quando algum aluno escrever sobre vida marítima e se
deparar com o problema, ele saberá resolvê-lo se tiver aprendido o
necessário sobre o correto emprego da preposição e do artigo. Até o
macetezinho comparativo – estar em terra, vir de terra – é suficiente para
dissipar dúvidas.
Como não há nenhuma perspectiva de solução para o problema brasileiro da
crase – falta de correspondência entre pronúncia e escrita –, o jeito é ir
explicando e aprendendo, a partir de casos cotidianos. Insisto que a situação
atual é de natureza teórico-gramatical, de modo que só aqueles que sabem
analisar e comparar em termos de gramática têm armas para dirimir qualquer
dúvida.
A estratégia para conseguir pleno domínio nessa matéria é raciocinar
gramaticalmente, analisar. Multiplicar exercícios até conseguir a identificação
automática de qualquer som [a] como “a” ou “aa” = à. Este exercício, na
ordem indicada, verifica a existência da crase.
 
Primeiro: é preposição? Localize a preposição a exigida por um valor ou
nome.
Segundo: é artigo? Localize o artigo a exigido por um substantivo ou
pronome.
 
Passo em revista dúvidas de leitores e erros de material impresso para
exercitar o espírito de observação e o raciocínio gramatical, e para fazer o
que não fizeram os que erraram.
 
 
APRENDENDO COM AS DÚVIDAS E OS ERROS ALHEIOS
 
(1) *“O ministro da Justiça reagiu a liberação do filme Calígula.”
 
“Reagir a” é como “reagir contra”: o verbo “reagir”, quando tem
complemento (o objeto da reação), pede preposição – a gente reage a algo ou
a alguém, a gente reage contra algo ou contra alguém.
Logo, temos um primeiro a – preposição. E um segundo a, também? Sim. A
liberação de que se fala a seguir é uma liberação determinada, “definida”: a
liberação do filme Calígula. Portanto, “liberação” requer o artigo definido
diante de si. Aliás, você nem precisa fazer tanto raciocínio gramatical. Troque
a preposiçãoa por outra (é útil saber de cor a lista; confira-a na p. X) e você
já vê se ocorre o artigo: irritou-se ante a liberação do filme; falou após a
liberação do filme; não concorda com a liberação; etc. Sobretudo, troque o
“reagir a” por “reagir contra”: o ministro reagiu contra a liberação do filme.
Então: reagiu contra a liberação = reagiu aa liberação → reagiu à liberação.
Portanto, corrija-se:
 
(1a) O ministro da Justiça reagiu à liberação do filme Calígula.
 
Outro expediente: trocar o substantivo feminino (liberação) por um
masculino, e você verá logo se o som [a] é preposição, artigo ou as duas
coisas. O problema é que às vezes o feminino não tem sinônimo masculino.
Liberação? Libertação, deliberação, quitação, desobriga(ção)... Tudo
feminino. Você poderia forçar, com troca de sufixo: *liberamento. Não existe,
mas para o teste serve: reagiu ao liberamento. Ora, o femi​nino de ao é à;
logo...
 
(2) *“Face a complexidade do assunto, merece o mesmo um reestudo.”
 
Como este moderno “face a” corresponde ao tradicional “em face de”, fica
fácil, fácil o teste. Veja: em face da complexidade do assunto... Se “em face
de” = “face a”, então em face da = face aa = face à:
 
(2a) Face à complexidade do assunto, merece o mesmo um reestudo.
 
__________
 
(3) *“Esta queixa é semelhante a de muitos outros bispos e padres.”
(4) *“Estrutura semelhante a dos jornais”; “campanha semelhante a do Grêmio”.
(5) *“Ana confeccionou bonecas de feltro, semelhantes as com que nossas avós
brincavam.”
(6) *“Espera este ano fazer uma campanha semelhante aquela do ano passado.”
 
Nas frases (3) a (5), um primeiro “a” é exigência (“regência”) do adjetivo
“semelhante”: uma coisa/pessoa é semelhante a outra. Além desse “a”, um
segundo é forçoso para lembrar as palavras “queixa”, “estrutura”, “campanha”
e “bonecas”, omitidas por economia:
 
(3a) Esta queixa é semelhante a a queixa de muitos outros bispos e padres.
(4a) estrutura semelhante a a estrutura dos jornais; campanha semelhante a a
campanha do Grêmio.
(5a) Ana confeccionou bonecas de feltro, semelhantes a as bonecas com que nossas
avós brincavam.
 
Omitem-se as palavras repetidas e fundem-se as vogais idênticas, fusão que
leva o nome de crase. Na pronúncia, um “a” só. Na escrita, um “a” só, mas
com acento grave: a a → aa → à.
Na frase (6), o a regido pelo adjetivo “semelhante” vai encontrar-se com o
“a” inicial de “aquela”: semelhante a aquela → semelhante àquela.
Portanto, faltou o acento grave em todas as frases transcritas. Corrigindo-as,
temos:
 
(3b) Esta queixa é semelhante à de muitos outros bispos e padres.
(4b) Estrutura semelhante à dos jornais; campanha semelhante à do Grêmio.
(5b) Ana confeccionou bonecas de feltro, semelhantes às com que nossas avós
brincavam.
(6b) Espera este ano fazer uma campanha semelhante àquela do ano passado.
 
Maneira prática de tirar dúvidas nesse campo é substituir o feminino que
segue o “a” por um masculino equivalente (expediente de masculinização).
Então, se o “a” mudar em ao, acentua-se [à]; se mudar em “o” ou ficar “a”,
escreve-se sem acento (a):
 
(3c) ... lamento semelhante ao de muitos outros...
(4c) modelo semelhante ao dos jornais; desempenho semelhante ao do Grêmio.
(5c) ... bonecos semelhantes aos com que...
(6c) ... governo semelhante àquele do ano passado.
 
Ou então o tira-dúvidas da pluralização, para testar a existência do artigo. Se
o “a” tomar “s”, o artigo está à mostra.
Outra maneira de se orientar: todo “a” que equivale a “àquela” (= a aquela)
ou “a essa” deve ser acentuado:
 
(3d) ... queixa semelhante àquela/a essa de muitos outros...
(4d) estrutura semelhante àquela/a essa dos jornais; campanha semelhante àquela/a
essa do Grêmio.
(5d) ... bonecas semelhantes àquelas/a essas com que...
(6d) ... campanha, semelhante a essa do ano passado.
 
__________
 
(7) *“Os lucros chegaram à cerca de 10 bilhões de dólares.”
 
Primeiro: é preposição? Antes do “a”, a palavra “chegaram”, forma do verbo
“chegar”. Construção deste: algo ou alguém chega a algo (lugar, ponto, etc.).
Eis o primeiro “a”: preposição, pois diante de “algo” é impossível que seja
artigo, e feminino.
Segundo: é artigo? Para isso, a palavra seguinte, “cerca”, precisaria ser ao
menos substantivo (fem.). Substitua essa palavra por um equivalente
(sinônimo):
 
(7a) ... chegaram a perto de 10 bilhões...
(7b) ... chegaram a aproximadamente (ou quase) 10 bilhões...
 
“Perto”, “quase”, “aproximadamente” (palavras em -mente) são advérbios.
Assim também o sinônimo “cerca”. E as frases (7a) e (7b) mostram claramente
que há um “a” só, aquele do verbo “chegar”. Portanto, sem acento grave:
 
(7c) Os lucros chegaram a cerca de 10 bilhões de dólares.
 
Para a pergunta “é preposição?”, vale repetir, ajuda muito conferir a lista das
preposições (veja lista na p. X). Todo “a” substituível por alguma dessas
palavras é, naturalmente, preposição. Tentemos:
 
(7d) Os lucros chegaram até (ou em) cerca de...
 
O “a” é como “até” ou “em”: preposição. Nada de acento, portanto.
 
__________
 
(8) *“... 70 quilômetros horários, velocidade igual a do sistema do metrô.”
(9) *“Sua vinda foi igual a de muitos outros estrangeiros.”
(10) *“Campanha praticamente igual a do ano passado.”
(11) *“Ela haveria de fazer uma viagem igual a que ele fizera.”
 
Está correto o “a” nessas frases? Não deveria ter acento grave?
Dois dedos de raciocínio nos ajudarão a desfazer dúvidas. Dois dedos de
raciocínio, se não o próprio “faro”. A experiência ensina a “cheirar” a língua.
Um à é um “a” duplo, com uma catinga característica, inconfundível... Esse
“faro” tem nome, chama-se intuição linguística.
Se essa intuição não funciona, o recurso é raciocinar, analisar. Verificar se
este “a” é preposição, ou artigo, ou ambas as coisas.
Primeiro, temos preposição? Sim: uma coisa é igual a outra. Como sei que é
preposição? Porque é um “a” invariável: um negócio igual a outro, negócios
iguais a outros, aquilo é igual a isto, x igual a y, etc.
Segundo, temos artigo? É só verificar, cabeça é para essas coisas. Um
segundo “a”, nesses casos, é o irmão de “o” e o singular de “as”. Então você
tem dois meios de fazer a verificação:
 
1º Trocar o substantivo feminino por um masculino equivalente; se houver artigo,
este será “o”:
 
(8a) ... 70 quilômetros horários, desempenho igual ao do sistema...
(9a) Seu aparecimento foi igual ao de muitos outros...
(10a) Retrospecto praticamente igual ao do ano passado.
(11a) Ela haveria de fazer um passeio igual ao que ele fizera.
 
2º Pluralizar o substantivo; se houver artigo, ele vai mostrar o rabinho, um “s”:
 
(8b) ... 70 quilômetros horários, velocidades iguais a as do sistema...
(9b) Suas vindas foram iguais a as de muitos outros...
(10b) Campanhas praticamente iguais a as do ano passado.
(11b) Ela haveria de fazer viagens iguais a as que ele fizera.
 
Onde cabe ao no masculino, no feminino é a + a → aa = à. E a + as = às.
Logo, os dois meios provam que temos um primeiro a, puxado (“regido”) pela
palavra “igual”, e um segundo a, representando as palavras “velocidade”,
“vinda”, “campanha” e “viagem”, subentendidas nas frases (8) a (11),
respectivamente. Como em todas elas temos a + a → aa = à, podemos
corrigir:
 
(8c) ... 70 quilômetros horários, velocidades iguais à do sistema...
(9c) Suas vindas foram iguais à de muitos outros...
(10c) Campanhas praticamente iguais à do ano passado.
(11c) Ela haveria de fazer viagens iguais à que ele fizera.
 
__________
 
(12) *“Quem for à alguma procissão verá...”
 
“Foi” é uma forma do verbo “ir”: a gente vai a algum lugar. Temos, pois, um
primeiro a, preposição exigida (“regida”) pelo verbo “ir”.
Essa preposição é comprovada também pelo teste de troca de preposição:
 
(12a) Quem for para (ou, vulg., em) alguma procissão verá...
 
E esse teste deixa clara a natureza do “a”: fica demonstrado em (12a) que se
trata de simples preposição: a = para, em. Sem acento, portanto:
 
(12b) Quem for a alguma procissão verá...
 
Teste de número, de pluralização:
 
(12c) Quem for a algumasprocissões verá...
 
Um a que não varia é preposição (classe invariável).
Raciocínio gramatical: “alguma” é palavra indefinida (pronome indefinido),
não pode ter na sua frente um a artigo definido. Seria como *ao algum no
masculino.
 
__________
 
(13) *“À certa altura do seu artigo o comentarista...”
 
A gente acentua “a” para sinalizar que ele vale por dois: à = aa.
O primeiro a, preposição, irmão de ante, após, até, com, contra, de, desde,
em, entre, para, per, perante, por, sem, sob, sobre, trás.
O segundo a, artigo feminino, irmão de o, artigo masculino; junto com um,
feminino uma, forma outra família.
Substituindo o a por algum dos irmãos das duas famílias, a gente elimina
qualquer dúvida. Vamos então à sequência [a certa altura]: Posso usar algum
elemento da primeira família? – Sim: após certa altura, até certa altura, de
certa altura (em diante), desde certa altura, em certa altura.
E pronto. Só com esse teste já tenho a resposta. Em todos os casos de troca, o
a foi substituído por uma palavra só: após, até, de, desde, em. Logo, o “a” de
(13) também é uma palavra só. Um “a” simples. Portanto, sem acento.
Em todos os casos de substituição, ausência de “a”. Se à vale por dois, por
aa, então *à certa altura é como *após a certa altura, *da (de a) certa altura,
*na (em a) certa altura...!
Vê-se que “certa” não combina com “a”. É como óleo e água. Combina, sim,
com outro elemento da segunda família, “um”: a uma certa altura. Então,
“uma” e “certa” combinam com “a” simples. Sem acento.
Elimine-se, portanto, o bisonho acento de (13):
 
(13a) A certa altura do seu artigo o comentarista...
 
__________
 
(14) *“Não leve objetos de valor à qualquer das praias do Rio...”
 
De um aviso afixado nas portarias de hotéis cariocas.
Falta de categoria demonstrada naquele “a” bisonhamente acentuado. Pelo
menos falta de uma assessoria de linguagem. Ninharia? Qualquer empresa de
categoria sabe cuidar dessas como de outras ninharias. (Até) num dedo se
reconhece o gigante, achavam os velhos romanos. Classe é classe – até num a,
ou à.
Todos sabem – deviam saber! – que um à está por aa, irmão portanto de para
a, da, na, pela. Quer dizer que (14) é como *levar objetos de valor para a
qualquer das praias, *na qualquer das praias, *trazer objetos da qualquer das
praias...!
Limpe-se, pois, a frase:
 
(14a) Não leve objetos de valor a qualquer das praias do Rio...
 
Não leve, senão perde valores, dinheiro, crase e tudo.
 
__________
Existem as duas coisas:
 
(15) Dirija-se a outra porta.
(16) Dirija-se à outra porta.
 
Na frase (15) um “a” simples.
Na (16), um “a” duplo, por isso acentuado.
Nada de regras de crase. Vamos simplesmente raciocinar, que é a respiração
dos seres racionais.
É fácil ver que o a de (15) é exigência do “dirigir-se”: quem se dirige
(caminha), dirige-se a ou para certo lugar.
Naturalmente esse mesmo “a” está na frase (16), mas ali se soma a outro,
formando um a composto ou duplo. O que é esse outro a? Um a que serve para
definir a porta como conhecida ou evidente na situação de fala: aquela ali ao
lado, a única além daquela que exibe a placa do aviso.
O primeiro a, que exprime direção ou rumo, é da classe chamada preposição.
O segundo a, com a função de definir, é da classe artigo: artigo definido
feminino. O masculino correspondente é o: a porta/o portão.
Para reconhecimento de palavras é útil o teste de substituição: a = para
(preposição); a = o (artigo). Esse teste, aplicado a (15) e (16), dá os seguintes
resultados:
 
(15a) Dirija-se para outra porta.
(16a) Dirija-se para a outra porta.
(15b) Dirija-se a outro portão.
(16b) Dirija-se ao outro portão.
 
Aqui as coisas ficam mais claras, sem a indefinição do “a” de (15) e (16)
para o ouvido.
Vê-se que nas frases ímpares – (15) e (15a) e (15b) – se fala de uma porta ou
portão indefinidos. Por isso a gente poderia inserir a palavra de indefinição
um(a) – artigo indefinido:
 
(15c) Dirija-se a uma outra porta/a um outro portão.
 
Nas frases pares – (16), (16a) e (16b) –, o “a” definido é substituível por
aquele(a):
 
(16c) Dirija-se àquela (a aquela) outra porta/àquele outro portão.
 
Outro teste que ajuda muito é a pluralização como se viu. Põe-se no plural o
substantivo que segue o “a”. Se este toma “s”, é porque concordou com o
substantivo, mostrando sua condição de artigo.
No caso de (15) e (16) há, como ali, duas possibilidades:
 
(15d) Dirija-se a outras portas.
(16d) Dirija-se às outras portas.
 
A mesma oposição de todas as outras frases: portas indefinidas (frases
ímpares) versus portas definidas (frases pares).
Tudo isso parece muito claro. Pois bem. Num edifício onde funciona uma das
Secretarias do Estado (RS), há duas portas. Conforme o horário, aparece numa
delas uma placa avisando:
 
(15) Dirija-se a outra porta.
 
E a gente se dirige à porta do lado, tendo que adivinhar, um tanto
constrangido, o que os responsáveis pela placa queriam mandar imprimir:
 
(16) Dirija-se à outra porta.
 
É tão difícil contratar alguém que cuide da limpeza final de escritos que
venham a público?
Competência e responsabilidade administrativa também se espelham no
tratamento dado à linguagem.
 
__________
 
(17) *“Que vergonha perder o tempo assistindo à uma droga dessas.”
(18) *“É uma oportunidade para passar da apregoada intenção à uma ação correta.”
(19) *“Vou recorrer à uma mãe de santo.”
 
1º O plural de à (a + a) é às (a + as). Então, para (17), teríamos *... assistindo às
umas drogas dessas (!); para (18), *... passando da intenção às umas ações (!); e,
para (19), *... recorrer às umas mães de santo (!).
2º Um à (a + a) é o feminino de ao (a + o). Então (17) é como *... assistindo ao um
espetáculo desses (!); (18) é como *... passar da intenção ao um ato concreto (!);
e (19) é como *... recorrer ao um pai de santo (!).
3º Um à é irmão de da, na, pela – casos todos de preposição + artigo: de + a = da;
em + a = na; por + a = pela; a + a = à.[10] Assim, (17) é como *o espetáculo da
uma droga dessas (!); (18) é como *a prática da uma ação, *ocupar-se na uma
ação, *lutar pela uma ação (!); e (19) é como *... recorrer da uma mãe de santo,
confiar na uma mãe de santo, *auxiliado pela uma mãe de santo (!).
 
Enfim... tudo evidencia o erro de se acentuarem os “aa” de (17), (18) e (19).
Trata-se da preposição a, sem acento, irmã das preposições de, em, por.
Portanto, corrigindo:
 
(17a) Que vergonha perder o tempo assistindo a uma droga dessas.
(18a) É uma oportunidade para passar da apregoada intenção a uma ação concreta.
(19a) Vou recorrer a uma mãe de santo.
 
A frase (19) foi de um chargista (alô, pessoal dos cartuns: não basta cuidar
do desenho – letras e acentos podem provocar um riso não programado).
 
__________
 
De um leitor da coluna:
 
“Encontrei em artigo do seu ‘No mundo das palavras’ o seguinte:
‘O a que precede a expressão uma hora (da tarde) ou da madrugada leva
acento, ou não leva? É crase, ou preposição?’
O senhor conclui:
‘Logo, à uma hora da tarde’.
Em outro artigo – uma funcionária falou a outra... – o senhor termina com a
seguinte regra prática:
‘... nunca acentuar o a que aceitar a palavra uma depois dele. Assim: ouviu
uma funcionária dizer a (uma) outra...’
Afinal, em que ficamos?”
 
Trata-se de duas situações diferentes:
 
(20) Uma funcionária disse a (uma outra).
(21) A funcionária entrou à uma (hora).
 
O uma de (20) é artigo indefinido. O de (21) é numeral. Os parênteses
mostram que é suprimível: em (20) o uma, em (21) a palavra “hora”.
O primeiro uma é comparável a alguma, certa. O segundo opõe-se a “duas”,
“três”, ... “doze”.
Quer dizer, a regra podia ser talvez mais completa: nunca acentuar o a que
aceitar o artigo indefinido uma depois dele. Mas isso é regra para quem sabe
o que seja artigo indefinido. Talvez explicando ao lado: ...uma (substituível
por alguma, certa)... Ou acrescentando à regra: desde que não se trate do
“uma” de “uma hora”.
Mas veja bem que escrevi: “o a que aceitar a palavra uma...”. Em à uma
(hora), não é o caso de o “a” “aceitar” “uma”:este já está aí, insuprimível.
 
__________
 
(22) *“Ante à importância do assunto...”
 
Temos o primeiro a, preposição? Use a palavra ante em outros contextos, não
seguida de a: ante isto, ante aquilo, ante outras coisas... Ou, parafraseando
(22):
 
(22a) Ante um assunto tão importante...
 
Tudo isso prova que ante não é seguido de preposição a. Logo, o a de (22) é
artigo, o que é confirmado pelos testes de gênero (masculinização) e número
(plurarização):
 
(22b) Ante o valor do assunto...
(22c) Ante as importâncias do assunto...
 
(Note-se o artificial desta pluralização: “importâncias”, plural, é outra coisa.
[11] Mas para efeito de teste serve.)
 
Enfim: o a de (22) é apenas artigo. Sem acento, portanto:
 
__________
 
(22d) Ante a importância do assunto...
 
(23) *“Os marinheiros aderiram a greve depois de massacrarem os oficiais.”
 
A gente adere a alguma coisa: o verbo “aderir” rege a preposição a. Temos
também artigo? Teste de masculino:
 
(23a) Os marinheiros aderiram ao movimento grevista...
 
Teste de troca da preposição, usando verbo que pede outra preposição em
lugar de a:
 
(23b) Os marinheiros concordaram com a greve depois de...
 
Portanto, preposição e artigo, a + a = à. Ortografe-se (23):
 
(23c) Os marinheiros aderiram à greve depois de massacrar(em) os oficiais.
 
(24) *“... reger suas obras frente a mesma OSPA.”
 
Temos preposição? Sim. Frente a é como junto a, face a, devido a:
combinações terminadas com a preposição a. Como outras terminam com a
preposição de: junto de, perto de, em/na frente de, etc.
Segundo: temos artigo? Sim, indispensável na frente de “mesma OSPA”.[12]
Veja como esta sequência é inviável sem artigo: *Mesma OSPA executou a
Quinta Sinfonia, *foi executada por mesma OSPA.
Confira também: frente ao mesmo conjunto.
Logo, preposição a, combinada com frente, mais artigo a, que é
indispensável na frente de “mesma”: a + a = à. Corrija-se, portanto:
 
(24a) ... reger suas obras frente à mesma OSPA.
 
__________
 
(25) *“Nada se compara a emoção de uma comunhão espiritual numa sala na
penumbra.”
 
Uma coisa se compara a outra. Portanto, um primeiro a, que é preposição,
como prova a substituição: uma coisa se compara com outra.
E artigo, temos? Sim, como evidenciam o masculino (25a) e o plural (25b) (o
“s” marca o plural do artigo):
 
(25a) Nada se compara ao sentimento de uma comunhão...
(25b) Nada se compara às emoções de uma comunhão...
 
Com a troca de preposição – a = com – teríamos:
 
(25c) Nada se compara com a emoção de uma comunhão...
 
Em lugar do “a” de (25) apareceu com a. Logo, esse “a” vale por duas
palavras, preposição (a, com) + artigo (a). Um “a” duplo, que representa duas
palavras, deve ser marcado com acento grave:
 
(25d) Nada se compara à emoção de uma comunhão espiritual numa sala na
penumbra...
 
__________
 
(26) *“... permite as indústrias produzirem o DDT.”
 
A gente permite algo a alguém: o verbo “permitir” rege a preposição a. E o
“s” de as prova que temos também artigo (plural). Portanto, a + as = às.
O teste de masculino provaria o mesmo:
 
(26a) ... permite aos industriais produzirem o DDT.
 
Aos é o masculino de às. Portanto:
 
(26b) ... permite às indústrias produzirem o DDT.
 
Mas (26) também é defensável, já que “permitir” pode ser construído com um
só complemento, objeto direto – a gente permite (admite, consente em) algo,
que algo aconteça:
 
(26c) ... permite que as indústrias produzam o DDT.
 
“Permite que as indústrias produzam”, com forma oracional subordinada
desen​volvida, é o mesmo que “permite as indústrias produzirem”, com forma
reduzida do infinitivo.
 
__________
 
(27) *“Ele chegou a constatação de que não possuía os recursos necessários.”
(28) *“Pode-se chegar a conclusão de que o esforço foi inútil.”
 
A gente chega a alguma coisa, a algo. Aqui um primeiro a, preposição regida
pelo verbo “chegar”.
Segundo: temos artigo? Sim. A “constatação” e a “conclusão” das quais se
fala são substantivos bem definidos: a “constatação de que não possuía os
recursos necessários” e a “conclusão de que o esforço foi inútil”. Não podem
prescindir do artigo a. Compare:
 
(27a) Ele chegou ao raciocínio de que não possuía...
(28a) Pode-se chegar ao resultado de que o esforço...
 
Teste de troca da preposição – usar um verbo que exija outra preposição que
não a:
 
(27b) Ele partiu da constatação de que não possuía...
(28b) Pode-se partir da conclusão de que o esforço...
 
Esse da, de (27b) e (28b), é de (prep.) + a (art.); portanto, o a de (27) e (28)
também é preposição a + artigo a: a + a = à. Logo:
 
(27c) Ele chegou à constatação de que não possuía os recursos necessários.
(28b) Pode-se chegar à conclusão de que o esforço foi inútil.
 
__________
 
(29) *“Isso não significa qualquer ameaça a emissora, com relação a audiência do
programa.”
 
1º Preposição a? Sim, exigida pelo substantivo “ameaça”: uma ameaça a (cp. para,
contra) algo ou a alguém. Artigo? Sim, compare com: ameaça ao canal (e não: *a
canal).
2º Com relação a algo: preposição, a, indispensável. E “audiência” requer artigo,
como prova o masculino: com relação ao ibope (e não: *com relação a ibope...).
Portanto:
 
(29a) Isso não significa qualquer ameaça à emissora, com relação à audiência do
programa.
 
__________
 
(30) *“Fábrica situada à meia hora da capital.”
 
Compare-se com equivalentes masculinos: fica a meio minuto, a um dia, a um
quarto de hora, etc. – tudo com a, e não ao; portanto, sem acento:
 
(30a) Fábrica situada a meia hora da capital.
 
Compare-se também com de/da, em/na, etc.: perto de meia hora da capital.
De = a; logo...
 
__________
 
(31) *“Em caso de emergência você pode recorrer a polícia.”
 
Compare: recorrer ao governo, pedir a ajuda da polícia, chamar pela polícia,
apelar para a polícia. Ora, ao, da, pela, para a são os correspondentes de à.
Logo:
 
(31a) Em caso de emergência você pode recorrer à polícia.
 
__________
 
(32) *“Uma reunião-jantar à realizar-se na próxima quarta-feira.”
 
Condição para haver à é a existência de um substantivo feminino depois dele.
Ora, depois do a da frase acima temos um verbo – “realizar”.[13] Imaginemos
isto: *uma reunião-jantar para a realizar-se... Pode?! E à – como é que pode?!
Portanto:
 
(32a) Uma reunião-jantar a realizar-se na próxima quarta-feira.
 
__________
 
Do rótulo de um remédio:
 
(33) *“... uso tópico intranasal de 3 à 5 gotas por narina.”
 
É possível que esse “a” seja um caso de crase? Vamos à ginástica.
 
1º É preciso que à direita dele haja um substantivo feminino. Pois há: “gotas”.
2º Verifique o número desse substantivo: se for plural, a crase também terá de ser
plural (porque a crase contém o artigo a, que concorda com o substantivo da
direita).
 
Pronto. Já se esboroou toda a dúvida: o substantivo é plural, mas o “a” não
tem “s” (seria inaceitável a sequência: *de 3 as 5 gotas). Portanto, esse “a”
sem “s” não contém artigo. Logo, não é crase. Logo, não tem acento:
 
(33a) ... uso tópico intranasal de 3 a 5 gotas por narina.
 
Conselho: enquanto tiver dúvida, não acentue. É mais inteligente poupar
respingos do que espirrá-los irracionalmente. Na falta de pinguinhos você
pode passar por filósofo: não dá importância a ninharias. Mas dificilmente
deixará de passar por ignorante, se respinga acentos a torto e a direito.
É certo que a primeira tendência do inseguro em crase é pingar o acento
grave em qualquer “a” suspeito.
Pois o primeiro conselho que se deve dar é o antídoto: não pingar nunca o
acento antes de ter plena certeza.
Letreiros, tabuletas e uma consulta pelo telefone sugerem um caso a
examinar: “de 17 a 23”.
Caso típico em que os franco-atiradores do acento grave disparam antes de
pensar (pensar – você sabe? – pensar dá dor de cabeça): aquele a não pode
passar impune, é um ímã atraindo acento...
Assim como diante de “17” há uma preposição (de), há outra preposição (a)
diante de “23”; as duas se combinando para exprimir distância: “de x a y”.
Simples preposição a, portanto nada de acento.

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