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DESCRIÇÃO
A Justiça no Império do Brasil, sua relação com a constituição da Justiça no
passado colonial, a ascensão do Império brasileiro e o processo de
consolidação de hierarquias sociais e justiça nacional.
PROPÓSITO
Compreender um período da história do Brasil a partir do Direito, discutindo
a construção das leis, de acordo com conjunturas políticas e históricas
específicas.
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PREPARAÇÃO
Seria interessante ter em mãos o Dicionário do Brasil Joanino: 1808-1821 e
um Dicionário do Brasil Imperial. É possível encontrá-los online.
OBJETIVOS
MÓDULO 1
Reconhecer as origens da Justiça e as principais instituições
implementadas no Império, a partir da vinda da família real
MÓDULO 2
Reconhecer a construção das leis e da Constituição no Império e o ideal de
Justiça
MÓDULO 3
Identificar as características dos códigos penais do Império brasileiro
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MÓDULO 4
Reconhecer a trajetória jurídica do fim da escravidão no Brasil
INTRODUÇÃO
O Império do Brasil foi formado a partir de uma herança portuguesa de
instituições. Grande parte dela chegou ao Brasil junto com a família real,
em 1808. Compreender a forma como se construíram as instituições do
Império, principalmente a Justiça, é fundamental para entender a dinâmica
da administração do Império e da sociedade existente, principalmente em
seu controle.
Um ponto importante é a principal característica do sistema político
implantado no Brasil a partir de 1822: a escravidão. Com a escravização de
homens e mulheres, a economia imperial fundamentou-se, cresceu e
entrou em crise. Ao mesmo tempo, a Justiça tratou de organizar leis a fim
de controlar uma população escravizada, que constantemente se rebelava.
Além disso, foi pela Justiça que a escravidão começou a ser discutida,
reduzindo-se sua influência sobre a economia e a sociedade.
Discutiremos nos próximos quatro módulos diferentes aspectos da Justiça
do Império, desde a chegada da família real, que trouxe uma bagagem
institucional até então inédita nas Américas, a formação do Império a partir
da Constituição de 1824, os códigos criminais e a identificação de crimes e
punições. Por fim, conheceremos as leis que mediaram o fim da escravidão
no Brasil.
Com esse conteúdo será possível compreender a história do Império
07/09/2021 11:28
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brasileiro por meio das instituições e como elas também fundamentaram a
economia, a sociedade, a moralidade e a política.
MÓDULO 1
! Reconhecer as origens da Justiça e as principais instituições
implementadas no Império, a partir da vinda da família real
Assista ao vídeo com o professor Rodrigo Rainha sobre a vinda de D. João
VI para o Brasil.
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CHEGADA DA FAMÍLIA REAL
A construção da Justiça no Brasil Império teve como base o passado
colonial e as leis portuguesas. No entanto, o período entre a chegada da
Corte ao Brasil e a Independência, cerca de 14 anos, pode ser visto como
uma transição, reconstrução e transformação de instituições, saberes,
hierarquias e justiça.
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Fonte: Desconhecido / Wikimedia commons / Domínio público
! Embarque da Família Real Portuguesa, Brasil, século XIX.
A chegada da família real em 1808 impactou profundamente a organização
desse território que, mais tarde, seria o Império do Brasil.
" COMENTÁRIO
Em 1808, sob a ameaça de Napoleão Bonaparte e com o apoio dos
ingleses, a Corte portuguesa foi transferida de Lisboa para o Rio de
Janeiro, ocasionando importantes mudanças. As mais importantes foram a
abertura dos portos, que terminou com o “pacto colonial” permitindo ao
Brasil negociar livremente, não mais como uma colônia exclusivamente
com Portugal; e a elevação do Brasil à categoria de Reino Unido. Ambas as
medidas são representativas para entender por que iniciamos em 1808 e
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não em 1822 a data oficial da formação do Império.
É essencial pensar na Justiça do Império a partir de 1808 e as mudanças
proporcionadas pela Corte no que se refere à administração, ordem e
justiça, quando era preciso construir nas Américas um assento jurídico e
administrativo semelhante ao existente na metrópole, apesar das
peculiaridades coloniais ainda fortes e arraigadas ao território e à sua
população.
Assim, as mudanças operadas desde 1808, a fim de formar um novo
projeto administrativo colonial nas américas, não pode ser descartado para
a compreensão da Justiça, que teve início junto com o Império, em 1822.
Além disso, a chegada da Corte à colônia provocou a “interiorização da
metrópole”, de acordo com Maria Odila Leite da Silva Dias, transformando a
cidade do Rio de Janeiro no principal ambiente de difusão de novos modos
europeus, abrigando também instituições e cargos públicos até então
inexistentes. (LEITE apud VAINFAS; NEVES, 2008, p. 429).
A vinda da Corte afetou a continuidade do processo da colonização da
América portuguesa, uma vez que ocorreu a transposição de uma estrutura
social, cultural e política portuguesa, alterada com a Independência, o
Império e a Constituição em 1824. Os eventos de 1808 podem ser vistos
como um tipo de ruptura política e institucional que, entre vários efeitos,
proporcionou a eliminação de alguns órgãos administrativos, alteração de
outros e manutenção da organização judiciária de matriz europeia, herdada
da experiência colonial.
A mudança, a priori, fez da cidade do Rio de Janeiro o novo centro de
poder, onde se instalaria uma estrutura administrativa que subordinaria as
demais províncias, ao mesmo tempo que ligaria, ou formaria, o Império
luso-brasileiro.
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Fonte: Jacques Arago / Wikimedia commons
! Mapa da cidade do Rio de Janeiro, em 1820, então capital do Reino de
Portugal, com a transferência da Corte para o Brasil, Jacques Arago,
Arquivo Nacional.
# ATENÇÃO
Importante mencionar que o Rio de Janeiro era a sede da colônia desde
1763, quando o Marquês de Pombal a transferiu de Salvador.
O desenrolar dos acontecimentos, com tratados, conflitos e tensões entre
os diferentes grupos sociais presentes na América portuguesa e a Corte,
culminou na ruptura definitiva entre Portugal e Brasil e a formação do
Império do Brasil.
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Fonte: Filipe I de Portugal / Wikimedia commons / Domínio público
! Ordenações Filipinas, Filipe I de Portugal, 1603.
No entanto, ainda que tenham ocorrido alterações significativas a partir de
1824, no que se refere à Justiça no Império (ano da promulgação da
Constituição), é preciso entender a estrutura inserida pela vinda da Corte
para pensar nas permanências e mudanças operadas a partir da
Independência.
Importante mencionar que as Ordenações Filipinas eram as leis que regiam
a colônia e a metrópole, vigentes em Portugal desde os tempos da União
Ibérica. Após a Independência e quando inexistia um código criminal, era a
partir delas que se julgavam os crimes cometidos no Império.
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CONSTITUIÇÃO
Convocada pelo imperador D. Pedro I e com fortes influências do
pensamento iluminista Europeu, marcou uma importante tensão
nesse momento.
Desse modo, a organização jurídica da colônia era herdeira e derivava da
existente na metrópole. No entanto, na América portuguesa existiam leis
especiais, que, apesar de originárias em Portugal, tinham eficácia apenas
nos limites da colônia, diferentemente das leis gerais que eram aplicadas à
metrópole.
LEIS ESPECIAIS
Aplicadas apenas nos limites da colônia.
$
LEIS GERAIS
Aplicadas na metrópole.
% VOCÊ SABIA
Uma das características fundamentais da Coroa portuguesa era regrar e
difundir o regramento de suas colônias. Durante o período em que Portugal
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administrou o Brasil, herdamos o código e, por sua funcionalidade e
difusão, foi mantido por todo o período colonial.
Ações empreendidas pelo Marquês de Pombal, secretário de Estado do rei
D. José,compra ao Estado em
hasta pública, garantindo, porém, os direitos dos ocupantes de terra por
posse mansa e pacífica e dos possuidores de sesmarias com
empreendimentos agrícolas instalados até aquela data (VAINFAS, 2002. p.
466).
Essa lei fazia parte de um movimento de mudança na política de terras,
projeto visado desde a Independência, uma vez que houve a revogação do
instituto de doação de sesmarias. Tal medida impedia a posse da terra que
não fosse a da compra, fazendo com que seu acesso fosse limitado para
libertos e imigrantes. Apesar do fim do tráfico, a escravidão saía dessa
década fortalecida, principalmente no campo, que passava a ser
propriedade de poucos.
LEI DO VENTRE LIVRE
A lei de número 2040 foi assinada em 28 de setembro de 1871 e ficou
conhecida como Lei do Ventre livre por causa de sua principal
característica: determinar a liberdade do ventre da mulher escrava — forma
como a escravidão se perpetuava. No entanto, a longa lei previa algumas
condições e indenizações para que de fato as crianças nascidas de uma
mulher escravizada fossem realmente livres. Assim, os artigos da lei
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regularam a forma como ocorreria essa liberdade.
Os filhos nascidos dessas mulheres, chamados de “ingênuos”, deveriam
ficar com a mãe até os oito anos de idade, sob os cuidados dos senhores
das mães; após esse período, o senhor poderia optar por entregar a
criança ao Estado e receber uma indenização, ou ficar com a criança até
ela completar 21 anos de idade, usando seus serviços ao longo do tempo
como forma de indenização.
Fonte: Arquivo Nacional / Wikimedia commons / Domínio público
! Capa da Lei do Ventre Livre, Documento sob a guarda do Arquivo
Nacional (Brasil), 1871.
A lei tinha outros artigos, como a criação do fundo de emancipação, o
reconhecimento do direito do escravo em formar pecúlio e, também,
estabeleceu a necessidade de o Estado fazer uma matrícula geral de todos
os escravos do Império.
Apesar de a lei ser conservadora quanto a estabelecer a liberdade dos
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escravos, causou profundo debate na sociedade e no parlamento, que a via
como uma grande interferência nas relações entre senhor e escravo. Por
meio dessa lei, de fato, o Estado passava a interferir no cotidiano da
escravidão ao determinar o destino daqueles nascidos das mulheres
escravizadas.
Essa lei ficou conhecida também como Lei Rio Branco, por ter sido o
Visconde do Rio Branco, chefe do gabinete conservador, o responsável
pelo encaminhamento do projeto para debate e luta no parlamento. Os
efeitos dessa lei para o destino da escravidão são difíceis de analisar no
calor dos acontecimentos naquela época.
No entanto, foi um importante passo para a conquista da liberdade, uma
vez que, para além do ventre, a lei regulava a possibilidade de alforria,
prática que não era regulamentada até então.
Para historiadores especialistas na temática, a lei, criticada por senhores e
abolicionistas, deu um parâmetro de como deveria ocorrer o processo da
abolição, principalmente na defesa de um processo dentro da ordem legal.
LEI DOS SEXAGENÁRIOS
Se os filhos das escravas estavam “libertos” por meio de uma lei, outra era
necessária para libertar os mais velhos. A lei de 28 de setembro de 1885,
de número 3270, foi chamada de Lei dos Sexagenários por libertar os
escravos com mais de 60 anos, sendo mais uma do conjunto jurídico que
orientava o fim da escravidão, mas não sendo esta sua única finalidade.
Essa lei também regulava a sociedade livre, principalmente nas relações
entre libertos e ex-senhores, de acordo com Mendonça (2008. p. 41).
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Fonte: Arquivo Nacional / Wikimedia commons / Domínio público
! Cartaz comemorativo à Abolição da Escravidão no Brasil, ocorrida três
anos após a promulgação da Lei dos Sexagenários, Arquivo Nacional,
1888.
No que se refere à libertação dos escravos, era preciso que houvesse uma
indenização aos senhores, que receberiam três anos de serviço do escravo
a ser libertado. Além disso, quem fosse libertado deveria permanecer por
cinco anos nos municípios onde eram escravizados e assinar um contrato
de trabalho sob pena de prisão.
Esse foi o fim de um projeto anterior, que sofreu críticas no parlamento e
uma batalha política intensa. Tal lei seria a última forma de combater o
movimento abolicionista acreditando-se nela como um importante
instrumento para eliminar a escravidão de forma gradual, lenta e sem
traumas econômicos para os senhores, proprietários de escravos.
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LEI ÁUREA
Fonte: Senado Imperial / Wikimedia commons / Domínio público
! Lei Áurea, Documento sob guarda do Arquivo Nacional, Senado
Imperial, 1888.
A última lei da Justiça do Império que teve a escravidão como tema foi a
que acabou com a escravidão em definitivo e que ficou conhecida como Lei
Áurea. As leis anteriores haviam marcado uma espécie de gradualismo
para o fim da escravidão. Desde 1831, com a lei que determinou a
proibição de africanos para a escravização; com a de 1871, quando não
nasceriam mais escravos; até a de 1885, que libertou os mais velhos,
acreditava-se que já estava pronto o terreno jurídico para o fim da
escravidão.
Era preciso aguardar o tempo e, simultaneamente, preparar os futuros
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libertos para a vida em liberdade. No entanto, seriam precisos muitos anos
para que o Brasil deixasse de ter escravos, caso não houvesse uma ação
imediata.
O fim da escravidão ocorreu também por meio de uma lei, a de número
3.353, que tinha apenas dois artigos e era bastante curta se comparada às
outras, sem deixar possibilidade para contestação ou subterfúgios para a
permanência da escravidão no Brasil, a partir de 13 de maio de 1888, data
de sua assinatura.
Um artigo extinguiu a escravidão, sem dar maiores detalhes, e o segundo
artigo revogava as disposições em contrário, ou seja, anulava qualquer
possibilidade de uso da mão de obra escrava que havia sido permitida
pelas leis anteriores.
Podemos considerá-la como a lei mais importante do Império por terminar
com a principal característica desse regime: a escravidão.
Apesar de finda a escravidão, restavam aqueles que foram penalizados por
crimes cometidos ainda quando eram escravos. Uma vez que a escravidão
não mais existiria, precisaria haver também a revisão dessas penalidades.
Em 13 de maio de 1889, o monarca pediu a revisão geral dos processos de
réus condenados pela lei de 1835. De acordo com Pirola (2016, p.139),
algumas penas foram revistas e publicadas no aniversário do primeiro ano
da abolição.
# ATENÇÃO
É importante mencionar que recorrer à Justiça em busca de liberdade antes
de 1888 foi a escolha de muitos homens e mulheres escravizados, que
utilizaram essas leis como forma de reivindicar o direito de liberdade.
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Muitos historiadores já se debruçaram sobre vasta documentação que
menciona as ações de escravizados em busca de direitos, baseando-se em
artigos de leis ou em outros artifícios, tais como promessas de liberdade
feitas por senhores no leito de morte ou testamentos não cumpridos,
quando havia clara intenção de liberdade, mas com os herdeiros não
cumprindo a vontade do senhor falecido.
A Justiça do Império ocupou-se de diversas ações de homens e mulheres
que não se viam mais como escravizados por entenderem que alguns
artigos de algumas leis davam a eles o direito de gozar o restante da vida
em liberdade. O processo abolicionista no Brasil pode e deve ser visto
tendo a Justiça como parâmetro e como uma solução para a conquista da
liberdade antes de 1888.
Assista ao vídeo A batalha por direitos e o processo jurídico para o fim da
escravidão.
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VERIFICANDO O APRENDIZADO
1. (TRT – 3ª REGIÃO – SÃO PAULO – 2015) A JUSTIÇA
CONDENOU EM 2004 UM FAZENDEIRO DO PARÁ A PAGAR
1,3 MILHÃO DE REAIS DE MULTA POR MANTER EM SUAS
TERRAS TRABALHADORESEM SITUAÇÃO ANÁLOGA À
ESCRAVIDÃO. ESSA FOI A MAIOR PENA FINANCEIRA JÁ
APLICADA NO PAÍS PARA UM CRIME DESSE TIPO.
(AZEVEDO, G.; SERIACOPI, R. HISTÓRIA. SÃO PAULO:
ÁTICA, 2005, P. 357. SÉRIE BRASIL.)
NO BRASIL, AS RELAÇÕES DE PRODUÇÃO A QUE O
TEXTO SE REFERE FORAM LEGALMENTE:
A) Instituídas em dispositivos da Constituição de 1824.
B) Criadas por imposição do Bill Aberdeen, em 1845.
C) Revogadas pela Lei Eusébio de Queiroz, em 1850.
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D) Proibidas por conta da Lei do Ventre Livre, em 1871.
E) Extintas com a assinatura da Lei Áurea, em 1888.
2. A DINÂMICA DA FORMAÇÃO DA JUSTIÇA IMPERIAL
ACABOU POR PERMITIR A AÇÃO DO CONTRADITÓRIO DE
FORMA MAIS SISTEMÁTICA. ISSO SIGNIFICA QUE AÇÕES
CONTRA O STATUS QUO PASSARAM A SER MAIS
RECORRENTES. NESSE SENTIDO, FORAM IMPORTANTES
OS PROCESSOS DE JURISTAS VINCULADOS AO
MOVIMENTO ABOLICIONISTA, UMA VEZ QUE,
CONSCIENTES DA SITUAÇÃO E DE SUAS
POSSIBILIDADES JURÍDICAS, PASSARAM A PRESSIONAR
POR MUDANÇAS. UMA DAS AÇÕES EMBLEMÁTICAS E
CORRETAMENTE CARACTERIZADA É:
A) A consolidação de um campo jurídico em termos de pareceres
relacionados a querelas entre alforriados e antigos senhores que discutiam
a liberdade e demonstravam um processo vivo de exigência de mudanças.
B) As ações progressistas das leis Eusébio de Queirós, Sexagenário e
Ventre Livre mostram a predominância desse grupo político que articula o
fim da escravidão.
C) As ações paliativas não tiveram efeito prático de nenhuma monta, sendo
a ação necessária a da Princesa Isabel, valendo-se do Poder Moderador
para propor a libertação dos escravos.
D) A crise institucional causou imensas revoltas negras no Brasil, levando a
contínuas insurreições e à necessidade de os governos criarem medidas
jurídicas para aplacar a força de suas exigências.
E) A instituição de um regime de alforrias foi o primeiro processo jurídico do
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período do Império, permitindo um processo contínuo de fim da escravidão,
em um projeto sem rupturas.
GABARITO
1. (TRT – 3ª região – São Paulo – 2015) A Justiça condenou em 2004
um fazendeiro do Pará a pagar 1,3 milhão de reais de multa por manter
em suas terras trabalhadores em situação análoga à escravidão. Essa
foi a maior pena financeira já aplicada no país para um crime desse
tipo. (AZEVEDO, G.; SERIACOPI, R. História. São Paulo: Ática, 2005, p.
357. Série Brasil.)
No Brasil, as relações de produção a que o texto se refere foram
legalmente:
A alternativa "E " está correta.
A lei de 1888 foi a única que acabou definitivamente com a escravidão. É
importante pontuar como ela é fruto de um processo e que todas as outras
dialogam com a sua realidade. O que temos nesse momento não é a
libertação dos escravos, mas sim a impossibilidade legal de homens e
mulheres serem escravizados no Brasil.
2. A dinâmica da formação da Justiça imperial acabou por permitir a
ação do contraditório de forma mais sistemática. Isso significa que
ações contra o status quo passaram a ser mais recorrentes. Nesse
sentido, foram importantes os processos de juristas vinculados ao
movimento abolicionista, uma vez que, conscientes da situação e de
suas possibilidades jurídicas, passaram a pressionar por mudanças.
Uma das ações emblemáticas e corretamente caracterizada é:
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A alternativa "A " está correta.
A dinâmica jurídica centralizada do Império, mais institucional, fortalecida
pela burocracia da Justiça, permite um direcionamento das ações
legislativas e judiciais que marcam a longa luta pelo fim da escravidão no
Brasil.
CONCLUSÃO
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A legislação do Império do Brasil é vasta e rica no que se refere à
organização administrativa desse sistema político, até então inédito nas
Américas. Estudar essa legislação é entender as peculiaridades do
momento em que ela foi feita, os interesses envolvidos e a dinâmica do
processo histórico.
Ao mesmo tempo, o Império do Brasil foi herdeiro de tradições
portuguesas, no que se refere às instituições aqui implementadas, mas
adaptadas ou eliminadas após a Independência.
Podemos ver o Segundo Reinado como um momento também de
reformulação dessa herança e de atendimento de interesses de uma elite já
estabelecida no Império e que pretendia continuar gozando de privilégios,
entre eles o uso da mão de obra escrava. Entretanto, a legislação que
impunha limites nas ações dos escravos foi também a forma encontrada
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Página 87 de 90
pelo Estado para eliminar a escravidão, e usada pelos próprios
escravizados para reivindicar a liberdade.
Desse modo, a justiça no Império foi feita por diferentes sujeitos e
demandada por toda a sociedade, mesmo aqueles que não fossem
considerados cidadãos pelos primeiros legisladores.
AVALIAÇÃO DO TEMA:
REFERÊNCIAS
DA SILVA, L. F.; SARAIVA, L. F. Os atos do poder legislativo no império
brasileiro (1826-1889). Passagens. Revista Internacional de História
Política e Cultura Jurídica, v. 3, n. 1, p. 5-32, 2011. 26 – 27.
GOUVEIA, M. F. O Brasil colonial (1720-1821). Rio de Janeiro: Civilização
Brasileira, 2014.
MENDONÇA, J. Entre as mãos e os anéis. A lei dos sexagenários e os
caminhos da abolição no Brasil. Campinas: Unicamp, 2008.
07/09/2021 11:28
Página 88 de 90
MARTINS, M. F. V. Conduzindo a barca do Estado em mares revoltos:
1808 e a transmigração da família real portuguesa.
PIROLA, R. F. A lei de 10 de junho de 1835: justiça, escravidão e pena de
morte. 444 f. Orientador: Prof. Dr. Robert Wayne Andrew Slenes. Tese
(Doutorado em História Social) – Faculdade de História, IFCH, Unicamp,
Campinas, 2012.
PIROLA, R. F. Cartas ao imperador: os pedidos de perdão de réus
escravos e a decisão de 17 de outubro de 1872. Almanack, Guarulhos, n.
13, p. 130-152, 2016.
VAINFAS, R.; Neves, L. B. P. (orgs). Dicionário do Brasil Joanino (1808-
1821). Rio de Janeiro: Objetiva, 2008.
VAINFAS, R. (org.) Dicionário do Brasil Imperial (1822-1889). Rio de
Janeiro: Objetiva, 2002.
EXPLORE+
Vale a pena estudar e ler os documentos jurídicos que citamos. Em uma
pesquisa na internet é possível encontrá-los no site do Planalto.
Constituição de 1824.
Código Criminal do Império do Brazil.
Lei do Ventre Livre.
Lei Áurea.
07/09/2021 11:28
Página 89 de 90
Alguns filmes trabalham as temáticas que abordamos em nosso estudo.
Vale a pena assistir aos seguintes:
12 anos de escravidão, direção de Steven Macqueen, 2013. Conta a
história de um homem alforriado nos Estados Unidos, mas que é
enganado e passa à condição de escravo.
Amistad, direção de Steven Spielberg, 1997. Em um navio negreiro
contrabandeado ocorre uma batalha jurídica sobre direitos.
CONTEUDISTA
Renata Figueiredo Moraes
( CURRÍCULO LATTES
07/09/2021 11:28
Página 90 de 90fizeram parte do processo de racionalização dos mecanismos de
controle das colônias.
Nesse período, Portugal aproximou-se do chamado despotismo
esclarecido, termo clássico e controverso, mas que explica que Pombal
tinha as funções de gerar uma engrenagem administrativa e racional para
manter o Império português eficiente.
Fonte: Marquês de Pombal / Wikimedia commons / Domínio público
! Panfleto da época do Marquês de Pombal indicando o modo de receber
o pagamento por denúncias anônimas, 1771.
Foi Pombal quem organizou a estrutura de impostos, definiu regimentos do
funcionamento de áreas agrícolas e ainda atuou na recuperação das
cidades portuguesas após a tragédia do maremoto de Lisboa.
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Página 11 de 90
Essas reformas ampliaram os cargos e a extensão do controle sobre as
regiões coloniais e dinamizou a administração colonial, permitindo haver
ascensão de diversos setores da economia e governança, de acordo
com Maria Fernanda Martins (2014, p. 690). Isso permite entender as
negociações e tensões existentes com a vinda da família real a fim de
manter hierarquias e privilégios, agora em terras coloniais.
Ainda de acordo com essa autora, a instalação da Corte portuguesa no
Brasil provocou uma singular e profunda alteração na estrutura
administrativa luso-brasileira (MARTINS, 2014, p. 694).
Entre essas alterações estavam a assinatura de inúmeros decretos,
concessão de alvarás, ordens régias a fim de que fosse possível, a partir de
1808, a formação de uma estrutura política, econômica e institucional que
permitisse a existência da Corte. Essas ações interferiram no aparato
eclesiástico, militar, fiscal e econômico.
A partir dessas alterações será possível entender continuidades e rupturas
institucionais, principalmente relacionadas à Justiça no Império do Brasil.
ORIGENS DA JUSTIÇA
BRASILEIRA
A respeito da Justiça, houve a criação de um conjunto de instituições
políticas e jurídico-administrativas, muitas já existentes em Portugal e que
espelhavam o espírito da monarquia. A estrutura do Judiciário recebeu
atenção especial, uma vez que antes de 1808 a estrutura era genérica,
como pouco ordenamento, existindo variedade de cargos que se
concentravam em esfera municipal, sem uma centralidade organizativa.
07/09/2021 11:28
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Uma dessas instituições existentes na colônia eram os Tribunais de
Primeira Instância, o Tribunal da Relação na Bahia e o Tribunal da
Relação no Rio de Janeiro, por meio dos quais poderiam ocorrer
sobreposição de funções judiciais, administrativas e policiais, estando a
última instância na metrópole, em Lisboa.
A Relação da Bahia foi criada em 1609 para ser o local onde seria
interposto recurso, tendo para isso um promotor de justiça e mais 10
desembargadores.
A do Rio de Janeiro foi criada em 1751 e em 1808 transformou-se na Casa
da Suplicação do Brasil, julgando os recursos da Relação da Bahia e
tornando-se a última instância, ampliando sua estrutura e a quantidade de
desembargadores que teriam o mesmo alcance da Casa de Suplicação de
Lisboa.
ALARGAMENTO DO APARELHO
DE JUSTIÇA
Essa mudança foi resultado do processo de alargamento do aparelho da
Justiça na colônia após a chegada da família real, causando um impacto
futuro na forma como a justiça seria organizada no período imperial. No
entanto, esse alargamento passa também por um processo de
reaproveitamento das instituições existentes e de adaptações, que estavam
mais voltadas para criar uma jurisdição na colônia, agora sede da Corte, do
que a formação de aparelhos independentes.
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& EXEMPLO
A Casa da Suplicação instalada no Rio de Janeiro é um exemplo desse tipo
de instituição que, ao ser criada, deixara a colônia independente no que se
referia às ações da Justiça.
A mudança do Tribunal da Relação do Rio de Janeiro para a Casa da
Suplicação do Brasil ocorreu em 10 de maio de 1808, nos moldes do que
seria um Superior Tribunal de Justiça.
E qual foi o impacto dessa mudança?
Essa mudança fez com que, na colônia, houvesse a última instância da
Justiça, o que antes acontecia em Portugal, acelerando o fim dos
processos deste lado do Atlântico, já que não precisariam ser mandados
para Lisboa.
Apesar da criação da Casa da Suplicação, que tendia para a racionalização
da administração pública, o Tribunal da Relação da Bahia permaneceu
subordinado à Casa.
Outros tribunais foram criados depois disso:
"
1812
Tribunal da Relação de São Luís
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1821
Tribunal da Relação de Pernambuco
"
No período Joanino, também ocorreu a ampliação do número de comarcas
e ouvidorias, aumentando, portanto, as nomeações para novos cargos de
fiscalização e justiça, entre eles os juízes de fora e os que exerciam os
cargos de escriturários, escrivães, amanuenses, entre outros.
Houve também a instalação de novas juntas de justiça nas capitanias do
Rio Grande de São Pedro e Mato Grosso, reorganização da junta de São
Paulo e a recriação do cargo de juiz de sesmaria, responsável pela
delimitação e mediação das sesmarias (terrenos abandonados
pertencentes a Portugal e entregues para ocupação, primeiro no território
português e, depois, na colônia, o Brasil, que perdurou de 1530 até 1822).
Fonte: Jsobral / Wikimedia commons / CC BY-SA 3.0
! Intendência Geral de Polícia da Corte e do Estado do Brasil.
Além da mudança estratégica no que se refere à Justiça e suas instâncias,
a chegada da Corte promoveu também a criação de instituições até então
inexistentes. Uma delas foi a Intendência Geral da Polícia da Corte e do
Estado do Brasil. Tal órgão, criado em abril de 1808, tinha como objetivo
organizar as tropas na Corte, controlar a ordem e administrar obras
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públicas.
A Intendência tinha funções que variavam entre uma ideia de governo
municipal, política ou força militar, além de funções administrativas.
Seguido à criação desse órgão, veio o cargo de Intendente Geral da
Polícia, importante para a construção de uma ideia de ordem.
O intendente era o responsável pela manutenção do que consideravam ser
a “urbanidade” e a “civilidade”, que também estavam relacionadas às obras
públicas e à repressão a ações violentas, ou o que se consideravam ações
culturais ligadas aos africanos e fortemente reprimidas durante todo o
Império.
A partir dos relatos daqueles que ocupavam o cargo, é possível entender o
funcionamento da polícia e o que se entendia por ordem e justiça no
Império.
CARACTERIZAÇÃO DA JUSTIÇA
NO IMPÉRIO
A Justiça militar também sofreu impacto com a chegada da família real. Já
em 1808, foi criado o Conselho Supremo Militar e de Justiça, que
representava a segunda instância da Justiça militar, tendo duas seções:
O CONSELHO DE JUSTIÇA (FUNÇÃO DE
TRIBUNAL MILITAR)
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O CONSELHO MILITAR (RESPONSÁVEL
POR QUESTÕES BUROCRÁTICAS
No que se refere às finanças da nova Corte, em 1808, ocorreu a criação da
Real Junta do Comércio, Agricultura, Fábricas e Navegação, com muitas
competências. Entre elas, podemos enumerar:
Shutterstock.com
A responsabilidade das matrículas dos comerciantes, falências comerciais,
consulados.
Shutterstock.com
A emissão de pareceres sobre atividades relativas a comércio, agricultura,
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navegação e fábrica, das atividades de importação e exportação, dos
consulados comerciais, das companhias de seguro.
Shutterstock.com
Supervisão das estradas, pontes e canais.
Ainda com sede na Corte e em 1808, ocorreu a criação do Real Erário, que
substituiria a Junta de Fazenda do Rio de Janeiro. O Erário tinha a função
de administração, arrecadação e distribuição.
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Fonte: Governo Imperial de Portugal / Wikimedia commons / Domínio
público
! Nota de Portugal para 20.000 réis, Governo Imperial de Portugal, 1799.
Fonte: Arquivo Nacional / Wikimedia commons / Domínio público
! Primeira página do estatuto do Banco do Brasil,assinado por D. João
VI, 12 de outubro de 1808
O Conselho da Fazenda Real também foi criado na mesma ocasião e
seria responsável pelos negócios envolvendo os armazéns reais, a
exploração de minas e minérios e demais impostos e tributos.
Por fim, a fundação do Branco do Brasil, também em 1808, é de extrema
importância, uma vez que, por meio dele, seria possível financiar os gastos
do Estado, obter crédito para a instalação e manutenção da Corte e assim
continuou funcionando até 1829.
Outras instituições criadas de modo semelhante às existentes em Portugal
foram a Mesa do Desembargo do Paço e a Mesa da Consciência e
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Ordens, a partir de um decreto de abril de 1808. Essas instituições tinham
um caráter consultivo, encarregando-se a primeira de questões de justiça e
a segunda das eclesiásticas, ambas demandando atenção do soberano.
Confira os detalhes de cada uma delas.
MESA DO DESEMBARGO DO PAÇO
Foi criada por D. João II em Portugal em um período de reforço do poder
real; no período joanino, seria a responsável pela confirmação das
concessões de sesmarias.
MESA DA CONSCIÊNCIA E ORDENS
Estava relacionada aos assuntos da expansão da religião cristã nas áreas
descobertas, sendo criada em meados do século XVI, prevendo a
organização religiosa do Império português.
Na Corte nas Américas, essas instituições mantiveram-se com estruturas
semelhantes às existentes, no que se refere aos funcionários e hierarquias.
Essas instituições foram extintas em 1828, com a criação do Supremo
Tribunal de Justiça.
Desse modo, percebe-se o quanto a transmigração da Corte em 1808
causou impacto na configuração política e administrativa da América
portuguesa que, em 1822, se tornaria independente. Após a separação
definitiva de Portugal, o legado da presença da Corte pôde ser sentido na
forma como se estruturaram as instituições do Império, principalmente as
da Justiça.
Sendo assim, é fundamental compreender os momentos anteriores ao
Império para que a dimensão da Justiça a ser construída nessa nova forma
administrativa, inaugurada em 1822, seja apreendida.
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VERIFICANDO O APRENDIZADO
1. AS PRINCIPAIS INSTITUIÇÕES JURÍDICAS
IMPLEMENTADAS NO BRASIL NO PERÍODO JOANINO
SÃO:
I – A CASA DE SUPLICAÇÃO.
II – SUPREMO TRIBUNAL DE JUSTIÇA.
III – TRIBUNAL DA RELAÇÃO.
A(S) INSTITUIÇÃO(ÕES) CORRETA(S) É/SÃO:
A) Apenas a I.
B) Apenas a II.
C) Apenas a III.
D) Apenas I e II.
E) Apenas II e III.
2. A CHEGADA DA FAMÍLIA REAL AO BRASIL PODE SER
DESCRITA COMO UM MOMENTO CRÍTICO PARA A
HISTÓRIA DO PAÍS E, POR CONSEQUÊNCIA, DA NOSSA
JUSTIÇA. A AFIRMATIVA QUE MELHOR DESCREVE ESSA
MUDANÇA É:
A) A chegada da Corte modifica a economia, uma vez que as mercadorias
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aqui produzidas não são mais exportadas para Portugal, gerando aumento
do lucro e a necessidade da criação de uma Justiça voltada a regular as
finanças.
B) A transformação jurídica ocorre em diversos níveis, desde a mudança do
status de colônia para tornar-se sede do Império, até a implantação de
órgãos e burocracias que só existiam antes na metrópole.
C) A Corte pouco muda o processo jurídico brasileiro mantendo as
Ordenações Filipinas como principal base jurídica da colônia, com
manutenção e tribunais de relação e um tribunal de suplicação na capital.
D) A mudança jurídica mais significativa ocorre no campo militar, com a
criação do Conselho Supremo Militar e de Justiça, que passaria a regular
todo o Exército e decisões militares nacionais.
E) A Corte no Brasil significou a possibilidade de um fortalecimento da
Igreja e a multiplicação de tribunais do Santo Ofício, não separando a
religião da Casa Real Portuguesa.
GABARITO
1. As principais instituições jurídicas implementadas no Brasil no
período Joanino são:
I – A Casa de Suplicação.
II – Supremo Tribunal de Justiça.
III – Tribunal da Relação.
A(s) instituição(ões) correta(s) é/são:
A alternativa "A " está correta.
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O Tribunal da Relação é uma estrutura colonial presente no Rio de Janeiro
e em Salvador, depois ampliado. Já o Superior Tribunal de Justiça é
fundado após o período Joanino, já na Independência do Brasil. Os
tribunais de Relação são uma estrutura transplantada com a Corte e que
será multiplicado no Brasil no período Joanino.
2. A chegada da família real ao Brasil pode ser descrita como um
momento crítico para a história do país e, por consequência, da nossa
Justiça. A afirmativa que melhor descreve essa mudança é:
A alternativa "B " está correta.
São diversos os processos que marcam a mudança da Justiça no Brasil
com a chegada da família real. No entanto, a ideia de que são ímpares é o
problema da maior parte das afirmativas. A letra B chama atenção ao
fenômeno central: a ideia de a colônia ter se tornado uma metrópole abre
um conjunto de exigência de mudanças jurídicas.
MÓDULO 2
! Reconhecer a construção das leis e da Constituição no Império e o
ideal de Justiça
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Assista ao vídeo Entre o direito canônico e o secular.
CASAMENTO DE TRADIÇÕES
A construção do Império passava pela determinação das leis que o
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regeriam. No entanto, a Constituição não foi feita imediatamente e dois
anos se passaram entre a Independência e a promulgação desse conjunto
de leis, que confirmou que a antiga colônia, agora Império, seria uma
monarquia constitucional.
Fonte: Domingos Sequeira / Wikimedia commons / Domínio público
! Alegoria à Constituição de 1822, Domingos Sequeira, Lisboa.
A duração do Império do Brasil, 67 anos, dois imperadores e alguns
regentes, tem como marca uma Constituição feita a reboque dos interesses
do povo e que não satisfez as necessidades institucionais desse novo
sistema de governo.
Neste módulo, trataremos de como a Justiça no Império foi construída,
consolidando-se como um ambiente hierarquizado e distinto, dependendo
das categorias jurídicas existentes no Império: livres e escravizados.
Antes desse debate, porém, é necessário lembrar as tradições aqui
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presentes.
De um lado, a tradição religiosa
$
De outro, a aristocracia local
Esse ponto é importante para a compreensão de nossos estudos. Nossa
legislação e organização da Justiça são influenciadas pelo caráter
moralizante, punitivo x penitente, em que a as condolências e o perdão têm
um caráter vinculado a princípios cristianizados.
A tradição da Justiça eclesiástica era muito consolidada, mesmo antes da
aristocrática. Fortalecia-se a partir da organização da Igreja em Concílios,
Regras e Súmulas, conhecido como direito canônico. Já o direito
aristocrático, fruto da burocratização do Estado Medieval e consolidado
nos Estados Modernos, organizava tradições legislativas antigas —
romana, bizantina, germânica, entre outras —, firmando bases na tradição
e na reprodução social, visando manter a estabilidade de seu quadro social.
Uma das formas mais essenciais era a punição, seja por prisão, multa,
desterramento, que passa desde o século XVII a ser uma fonte importante
de funcionamento dos Estados.
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Fonte: Jean-Baptiste Debret / Wikimedia commons / Domínio público
! Coroação do imperador Pedro I, Jean-Baptiste Debret, 1822.
No Brasil Imperial, esses debates se intensificaram com a chegada da
família real e a posterior consolidação da Independência do Brasil.
Passamos, agora, à construção da Justiça imperial.
CONCÍLIOS, REGRAS E SÚMULAS
Instrumentos legislativos eclesiásticos que regularam a Igreja durante
a Idade Média. O primeiro refere-se a reuniões deliberativas de cunho
regional, raramente ocorrendo de modo universal. Regras,
regulamentos e regimentos destinam-se a ordens ou grupos a fim de
garantir cumprimentos e penas. Súmulas advêm do bispado de
Roma, depois papado, com regras centralizadas e interpretativas.
Para além dessas existem dezenas de formas que consolidarama
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tradição do direito canônico.
JUSTIÇA DO PRIMEIRO REINADO
– CONSTITUIÇÃO
O termo “império” consolidava a união de dois reinos — vice-reino do Brasil
e do Grão-Pará, fora territórios incorporados. Daí a noção de um império
como reunião de reinos, mas a administração baseava-se nas tradições da
realeza portuguesa.
Por isso, tivemos dois reinados, na prática:
Fonte: John Simpson/ Wikimedia commons / Domínio público
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D. PEDRO I
Fonte: Mathew Brady / Wikimedia commons / Domínio público
D. PEDRO II
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Fonte: Almanaque Lusofonista / Wikimedia commons / Domínio público
! Capa do Projeto, Almanaque Lusofonista, 1823.
A primeira iniciativa para formar uma Constituição para o Império recém-
proclamado ocorreu em maio de 1823, quando formou-se a Assembleia
Constituinte. Durante sete meses ela funcionou e reuniu magistrados,
bacharéis, militares, religiosos, proprietários rurais, entre outros. Divididos
em dois partidos, português e brasileiro, evidenciavam um tipo de
diversidade existente entre a elite do Império.
Em setembro do mesmo ano, o projeto da Constituição foi apresentado e
entre suas principais características estavam o estabelecimento de um
limite ao poder do imperador e sua submissão ao Poder legislativo. Outro
ponto importante desse projeto eram os 32 artigos que defendiam a
extinção gradual da escravidão, artigos esses defendidos por José
Bonifácio.
Esses e outros pontos provocaram calorosas discussões, além de tensão
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na Imprensa e nas ruas, principalmente no que se refere ao espaço que os
portugueses ocupariam no Império. Essas tensões e a insatisfação do
imperador levou-o a dissolver essa Assembleia Constituinte sete meses
depois da sua formação.
Nessa ocasião, foi criado o Conselho do Estado, composto por
conselheiros vitalícios e nomeados pelo imperador, que, somado a seis
ministros e quatro membros, foram os responsáveis pela elaboração de
uma Carta constitucional que duraria todo o Império.
A Constituição foi jurada pelo imperador no dia 25 de março de 1824. Esse
é um marco importante, considerado como uma ruptura dos chamados
modelos de “absolutismo monárquico”, ainda que tenha mantido formas de
exercício. Nesse texto, foram estabelecidas as bases da estrutura política:
forma de governo monárquica, hereditária e constitucional.
Fonte: Arquivo Nacional / Wikimedia commons
! Juramento de Pedro I à Constituição do Império, Documento sob
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guarda do Arquivo Nacional, 1824.
Além disso, o Império teria uma divisão político-administrativa em
províncias e respeitaria a divisão do poder político em quatro níveis:
PODER EXECUTIVO
Exercido pelo imperador e pelos ministros
PODER LEGISLATIVO
Exercido por senadores, deputados gerais e provinciais
PODER JUDICIÁRIO
Comandado por juízes e tribunais
PODER MODERADOR
Exercido também pelo imperador
Essa Carta constitucional também estabeleceu o catolicismo como religião
oficial e não proibiu o exercício privado de outras religiões. A Constituição
considerou como brasileiros todos os portugueses que permaneceram no
país após a Independência e que tivessem aderido à causa.
A Constituição não foi direta no que se refere à escravidão, não há artigo
que estabelecesse esse regime, apenas menções indiretas a ela quando
tratou da cidadania.
Ficou estabelecido no sexto artigo da Constituição que eram cidadãos os
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que haviam nascido no Brasil e fossem ingênuos ou libertos. Desse modo,
foi indicada a existência de não livres, ou seja, aqueles que não seriam
considerados cidadãos.
Fonte: Jean-Baptiste Debret / Wikimedia commons / Domínio público
! Uma família brasileira do século XIX sendo servida por escravos, Jean-
Baptiste Debret, 1830.
Outra questão referente aos escravos estava presente no artigo que
determinou quem poderia ser eleitor. Nesse caso, nem se fossem libertos
com renda, os ex-escravos poderiam votar, uma vez que a Constituição
estabeleceu limites para o exercício da cidadania baseada em renda.
A Carta constitucional associou a cidadania aos nacionais e à liberdade,
deixando em um limbo jurídico os libertos africanos, que também não eram
vistos como estrangeiros.
No título IV, artigo 151 da Carta constitucional, foi estabelecida a
independência do Poder Judiciário e a função de seus membros.
É importante destacar que a formação desse poder se adequou aos traços
de uma antiga tradição, apesar de ter estabelecido mudanças em relação
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ao passado colonial.
Uma dessas mudanças foi a necessidade de novos códigos, presente
nesse artigo da Constituição, sendo tal procedimento essencial para a
organização da Justiça imperial, estando prevista a criação do Supremo
Tribunal de Justiça, que seria composto por juízes das Relações em
função de sua antiguidade.
Somado aos novos códigos ocorreu também a criação de novas
instituições. Uma delas foram as Juntas de Justiça Militar, em 1827, nas
províncias do Norte. A Justiça militar pode ser vista como um foro híbrido
que juntou dois universos: o militar e o jurídico.
Sua organização era feita em torno dos conselhos de disciplina, os de
guerra e o supremo militar e da justiça, sendo a comissão militar uma
instituição de exceção. Em 1841, ocorreu a criação dos conselhos de
inquirição, mais uma instituição vinculada à Justiça militar a fim de criar
mecanismos de controle sobre a oficialidade, organizando os quadros dos
oficiais do Exército e da Marinha.
# ATENÇÃO
É preciso ressaltar que, apesar do período Joanino ter deixado algum tipo
de experiência administrativa para o que se tornaria o Império, de fato a
estrutura do Brasil Imperial foi construída como forma de se modernizar,
tendo um campo jurídico baseado em lógica. Além disso, foi pela
Assembleia Geral, composta pela Câmara dos Deputados e pelo Senado,
que as leis do Império se formaram. Desse modo, pensar a estrutura
jurídica do Império é também pensar essa Assembleia que o modernizou
por meio de leis e outras estratégias.
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ABDICAÇÃO E JUSTIÇA NA
REGÊNCIA
No ano da abdicação do Imperador D. Pedro I, 1831, a Assembleia Geral
não estava em funcionamento e, portanto, nenhuma lei foi promulgada
nesse ano. Por outro lado, no período regencial, iniciado com a abdicação,
a Câmara dos Deputados e o Senado tiveram papel crucial na
administração, promulgando em média 102 leis por ano, de acordo com
Luiz Fernando Saraiva.
Fonte: Aurélio de Figueiredo / Wikimedia commons / Domínio público
! Abdicação de Dom Pedro I do Brasil, Aurélio de Figueiredo, 1911.
Ainda segundo esse autor, até 1833 não havia numeração nas leis. Entre
os anos de 1833 e 1839, as leis eram numeradas a cada ano e zeradas
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para o ano seguinte. Apenas em 1840 que a numeração se tornou
contínua. (SARAIVA, 2011)
Uma primeira grande reforma judiciária ocorreu em outubro de 1827 ao ser
criado o juiz de paz na área paroquial, que seria eleito junto com os
vereadores e pelo mesmo período.
E quem era esse juiz?
Esse juiz era um magistrado leigo, sem formação específica, sem
remuneração e exercia funções administrativas, de polícia e de justiça.
A população elegia esse juiz que atuava nas paróquias com a função de
julgar casos variados, desde a destruição de quilombos até prender
homens bêbados que circulavam pelas ruas.
Fonte: Desconhecido / Wikimedia commons / Domínio público
! O "Palácio do Conde dos Arcos", no Rio de Janeiro, primeira sede do
Senado do Brasil, século XIX.
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Em janeiro de 1829, por meio da lei de 18 de setembro de 1828, ocorreu a
instalação do Supremo Tribunal do Império do Brasil, com 17 juízes
letrados. Primeiramente, funcionou de forma improvisada, em uma sala do
Senado da Câmara da Corte e, depois, ocupou a antiga instalaçãoda Mesa
de Consciência e Ordem, localizada no Largo da Carioca.
Entre as funções do Supremo estavam:
A manutenção da unidade monárquica.
Ligar as partes políticas do império.
Manter a unidade da legislação.
Servir de centro do poder judiciário, segundo as palavras de seu
presidente, José Albano Fragoso.
Com a criação do Supremo, foram extintas as mesas do Desembargo do
Paço e da Consciência e Ordem, sendo mais um momento de novos
ajustes na administração pública para a consolidação do Império, que seria
feito pela construção de leis e instituições próprias.
A abdicação do imperador ocorreu diante de uma crise política no Império,
combinada com a morte de seu pai em Portugal, o Rei D. João VI. O trono
português vago era um direito de Pedro I, que enviou sua filha para
assumir. O que é negado pelo irmão, que se via no direito de assumir o
trono. Diante de crises e ameaças, D. Pedro retornou e assumiu o trono
português, tornando-se o rei Pedro IV de Portugal e Algarves.
Ao abdicar em abril de 1831, o imperador deixou seu filho de apenas cinco
anos como herdeiro do trono, fazendo jus ao que estava estabelecido na
Constituição, de que o Império seria uma monarquia hereditária. No
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entanto, por causa da pouca idade, a abdicação deu início ao período
regencial, que terminou apenas em 1840, quando D. Pedro II, então com 15
anos, assumiu o trono.
Fonte: François-René Moreaux / Wikimedia commons / Domínio público
! A coroação de Pedro II aos 15 anos de idade em 18 de julho de 1841,
por François-René Moreaux, no Museu Imperial.
Durante o período regencial permanecia a construção de instituições que
durariam todo o Império. Uma delas foi a Guarda Nacional, criada em
agosto de 1831, que se inseria entre as medidas descentralizadoras que
ocorreram após a saída de D. Pedro I.
E como era formada a Guarda Nacional?
VERIFICAR
A Guarda Nacional era formada por um corpo de “cidadãos”, e expressava,
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no plano simbólico, “a ordenação elitista da nação que se pretendia forjar”
(VAINFAS, 2002, p. 319), podendo exercer funções policiais caso fosse
preciso. Mantinha os critérios de fortuna e cor que hierarquizavam os
cidadãos, já previstos na Constituição.
Foi no período regencial que ocorreram duas modificações no texto
constitucional, as únicas de todo o Império:
EM 1834, COM O ATO ADICIONAL
EM 1840, COM A LEI DE INTERPRETAÇÃO
DO ATO ADICIONAL
O ato adicional ocorreu pela Lei nº 16, de 12 de agosto de 1834; as
alterações foram aprovadas pela Câmara dos Deputados e visavam a
promover descentralização.
Por meio desse ato, o poder central foi esvaziado e os conselhos gerais
das províncias foram transformados em assembleias provinciais, tendo
autonomia para legislar sobre a divisão civil, judiciária e eclesiástica.
Tal reforma foi vista por alguns autores como fazendo parte de um processo
de descentralização iniciado partir da década de 1830. Apesar da pretensa
autonomia, o representante do executivo no âmbito provincial permaneceu
sendo indicação do poder central.
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# ATENÇÃO
Outro ponto importante de mudança vindo por meio dessa lei, foi a
transformação do Rio de Janeiro, sede da Corte, em município neutro. A
Regência Una, eletiva e temporária (renovável a cada quatro anos) também
foi estabelecida por essa lei, que também suspendeu o Conselho de
Estado.
De acordo com Magali Engel, o ato foi:
[...] O ÚLTIMO ESFORÇO DOS
MODERADOS NO SENTIDO DE
IMPLEMENTAR O PROJETO POLÍTICO
DOS QUE ASCENDERAM AO PODER EM
ABRIL DE 1831.
(ENGEl apud VAINFAS, 2002, p. 319)
Em 1840, ocorreu a lei de interpretação do ato adicional, quando alguns
poderes foram retirados das assembleias provinciais.
O Conselho de Estado foi restituído em 23 de dezembro de 1841, por meio
da Lei nº 234, tendo as mesmas competências previstas na Constituição.
Após essa restauração, o Conselho passou a ser ocupado por 24
membros, sendo 12 conselhos ordinários e 12 extraordinários, mais os
advogados do Conselho e o Imperador.
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Esse órgão se reunia sempre em caso de grandes decisões, não sendo,
porém, o imperador obrigado a seguir suas recomendações. Ainda assim,
muitas leis foram redigidas no Conselho, como a Lei de Terras e a do
Ventre livre. O Conselho foi extinto junto com o Império.
INSTITUCIONALIZAÇÃO DA
ADVOCACIA NO BRASIL
Assista ao vídeo A institucionalização da advocacia no Brasil.
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A construção da Justiça passou também pela institucionalização da
profissão dos advogados, que foi iniciada em 1843 com a fundação do
Instituto dos Advogados Brasileiros (IAB). Essa instituição era um ponto de
intercâmbio entre os estudos relacionados ao direito e ao funcionamento da
justiça no Império. O instituto reforçou o caráter elitista e aristocrático de
seus membros, organizando cerimônias que contavam com a presença do
imperador.
Uma das funções do instituto era manter o monopólio da perícia profissional
com exigência de diplomas universitários para que houvesse
reconhecimento do profissional e validasse seu exercício. Essa era uma
maneira de acabar com uma tradição do período colonial de rábulas ou
daqueles que recebiam autorização do governo para advogar. No entanto,
temos um grande exemplo de como essa exigência não funcionava a todo
momento.
RÁBULAS
Aqueles que atuavam como advogados por autorização, sem
nenhuma formação – que já existia fora do Brasil –, por valor de
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articulação nacional. O termo torna-se pejorativo para advogados que
falam sem o devido conhecimento ou “falastrões”.
Fonte: Arquivo Nacional do Brasil / Flickr / Domínio público
! Luís Gama (1830-1882), herói abolicionista brasileiro, 1880.
Luís Gama (um dos maiores nomes do direito brasileiro) foi um dos que
exerceu a profissão sem ter o diploma, sendo reconhecido advogado anos
depois, como homenagem póstuma. De todo modo, logo no Segundo
Reinado percebia-se a necessidade da regulamentação da profissão, que
teria marcas aristocráticas, uma vez que o acesso a curso superior ainda
era restrito às elites.
A respeito da economia no Império, sua regulação começou com a criação
do Código Comercial do Império, previsto desde a Constituição, mas
efetivado apenas em 25 de junho de 1850, com a Lei nº 556. Esse código
tratou da administração da Justiça nas questões comerciais do Império.
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Extinguiu a Junta de Comércio, Agricultura, Fábricas e Navegações. O
código tratava do comércio em geral, do comércio marítimo e das falências.
O tribunal de comércio do Império começou a funcionar em 1851, no Rio de
Janeiro.
O Império do Brasil durou 67 anos e baseou-se em leis. Apesar da
monarquia e dos imperadores, suas ações estavam embasadas em leis
que foram constantemente discutidas e aprovadas por assembleias,
mesmo que nem sempre atendessem aos interesses da maioria da
população.
De qualquer forma, havia a legitimidade baseada nessas leis para inúmeras
ações, entre elas a repressão a revoltas e outras insurreições que
pudessem colocar em risco a soberania do imperador ou a estabilidade do
sistema político e econômico, este último baseado na escravidão.
VERIFICANDO O APRENDIZADO
1. (ASSEMBLEIA LEGISLATIVA DO ESTADO DE SÃO
PAULO - DIVERSOS CARGOS – 2010) NO RELATÓRIO QUE
O MINISTRO DO IMPÉRIO JOSÉ INÁCIO BORGES
SUBMETEU À APRECIAÇÃO DA ASSEMBLEIA GERAL
LEGISLATIVA, EM 1836, REFERIU-SE ÀS ASSEMBLEIAS
PROVINCIAIS NOS SEGUINTES TERMOS:
“COM QUANTO ESTES CORPOS DELIBERANTES TENHÃO
PREENCHIDO A EXPECTAÇÃO DA NAÇÃO, PELO QUE
RESPEITA A PROVIDENCIAS, E REMEDIOS LOCAES, QUE
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NEM A ASSEMBLÉA GERAL, NEM O GOVERNO CENTRAL
PODERIÃO ACAUTELAR, COM TUDO ALGUMAS TEM
EXORBITADO DAS RAIAS QUE LHES MARCOU O ACTO
ADDICIONAL DAS REFORMAS À CONSTITUIÇÃO,
LEGISLANDO SOBRE MATERIAS, QUE AQUELLE ACTO
NÃO LHES CONFIOU.”
A OBSERVAÇÃO ALUDE:
A) Às restriçõesque o Ato Adicional impôs à Assembleia Provincial, ao
reduzir as competências que a Constituição de 1824 havia atribuído ao
Conselho Geral da Província.
B) Ao grau de autonomia que as câmaras municipais das vilas da Província
de São Paulo passaram a ter, a partir de 1834, para formular e aprovar
suas leis e posturas.
C) Ao fato de se ter ampliado a área de atuação do Conselho Geral da
Província, criado pela Constituição de 1824 e substituído, em 1834, pela
Assembleia Provincial.
D) Às mudanças que o Ato Adicional provocou no Poder Judiciário, ao
colocar os magistrados sob a dependência do chefe do governo provincial.
E) À instituição do Poder Moderador, responsável pela manutenção do
equilíbrio e da harmonia entre os poderes políticos.
2. ENTRE AS PRINCIPAIS MEDIDAS DOS PERÍODOS DE
INSTITUCIONALIZAÇÃO DA JUSTIÇA IMPERIAL NO
BRASIL PODEMOS DESTACAR COMO REFERENCIAIS OS
SEGUINTES EVENTOS:
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I – A CONSTITUIÇÃO BRASILEIRA, JURADA PELO
IMPERADOR, E QUE DEMONSTRA A VINCULAÇÃO
INSTITUCIONAL AOS MOVIMENTOS DO SÉCULO XIX.
II – A INSTITUCIONALIZAÇÃO DA PROFISSÃO DE
ADVOGADO COM A CRIAÇÃO DE ÓRGÃO ESPECÍFICO
PARA SUA REGULAÇÃO E ORGANIZAÇÃO (IAB).
III – A CRIAÇÃO DO CONSELHO LAICO DE JUSTIÇA COMO
FORMA DE COMBATE À INFLUÊNCIA DO DIREITO
CANÔNICO.
ESTÃO CORRETAS:
A) Apenas a I e II.
B) Apenas II e III.
C) Apenas I e III.
D) As afirmativas I, II e III estão corretas.
E) Apenas a afirmativa III é correta.
GABARITO
1. (Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo - Diversos Cargos –
2010) No relatório que o ministro do Império José Inácio Borges
submeteu à apreciação da Assembleia Geral Legislativa, em 1836,
referiu-se às assembleias provinciais nos seguintes termos:
“Com quanto estes Corpos deliberantes tenhão preenchido a
expectação da Nação, pelo que respeita a providencias, e remedios
locaes, que nem a Assembléa geral, nem o Governo central poderião
acautelar, com tudo algumas tem exorbitado das raias que lhes
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marcou o Acto Addicional das reformas à Constituição, legislando
sobre materias, que aquelle Acto não lhes confiou.”
A observação alude:
A alternativa "C " está correta.
O Ato adicional foi a primeira mudança na Constituição, sendo importante
para a descentralização do poder central por meio das assembleias
provinciais.
2. Entre as principais medidas dos períodos de institucionalização da
justiça imperial no Brasil podemos destacar como referenciais os
seguintes eventos:
I – A Constituição brasileira, jurada pelo imperador, e que demonstra a
vinculação institucional aos movimentos do século XIX.
II – A institucionalização da profissão de advogado com a criação de
órgão específico para sua regulação e organização (IAB).
III – A criação do Conselho Laico De Justiça como forma de combate à
influência do direito canônico.
Estão corretas:
A alternativa "A " está correta.
A Constituição e a institucionalização da profissão de advogado foram
passos importantes da justiça brasileira, a primeira no período do Primeiro
Reinado e a segunda no período regencial. Já a tensão entre aspectos
laicos e canônicos existiam anteriormente e não deixa de estar presente em
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nosso quadro jurídico neste momento.
MÓDULO 3
! Identificar as características dos códigos penais do Império
brasileiro
Assista ao vídeo A Pena de Morte no Brasil Imperial.
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Página 48 de 90
CÓDIGOS CRIMINAIS DO IMPÉRIO
Se a Constituição de 1824, por um lado, determinou as bases do governo e
de seu sistema político, por outro, esse código não conseguiu dar conta das
especificidades da Justiça criminal. Nesse caso, até a formação de novos
códigos, essa Justiça foi baseada no Livro V das Ordenações Filipinas. As
discussões sobre o Código Criminal iniciaram-se no segundo semestre de
1830, sendo aprovado pela Câmara dos Deputados em 23 de outubro do
mesmo ano e no Senado em final de novembro.
Um dos autores foi Bernardo Pereira de Vasconcelos, sendo o Código
um exemplo do aprendizado das ideias iluministas ensinadas em Coimbra.
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Fonte: Assembleia Geral do Império do Brasil / Wikimedia commons /
Domínio público
! Código Criminal do Império do Brasil, Rio de Janeiro, 1830.
BERNARDO PEREIRA DE
VASCONCELOS
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Fonte: Sébastien Auguste Sisson / Wikimedia commons / Domínio
público
! Bernardo Pereira de Vasconcelos, Sébastien Auguste Sisson,
1999.
Pereira de Vasconcelos nasceu em Ouro Preto, Minas Gerais, em
1795. Em 1812, ingressou na Universidade de Coimbra onde seguiu a
carreira jurídica, formando-se em 1819. Retornou ao Brasil em 1820,
e foi nomeado juiz de fora em Guaratinguetá, São Paulo, e, em 1825
desembargador da Relação do Maranhão, cargo que não chegou a
ocupar. Participou do governo regencial, como secretário de Estado
dos Negócios da Fazenda (1831). Reeleito deputado geral (1834-
1837), apresentou os projetos do Código Criminal do Império do Brasil
(1830) e do Ato Adicional (1834), que alterou a Constituição de 1824.
Foi reconduzido à pasta do Império em 1840, onde permaneceu por
algumas horas, na tentativa de impedir a maioridade de D. Pedro.
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Com o golpe da maioridade afastou-se do governo, mas manteve sua
atuação política no Senado e no Conselho de Estado. Líder dos
regressistas, foram de sua autoria a Lei de Interpretação do Ato
Adicional (1840) e o restabelecimento do Conselho de Estado (1841).
Criou, à frente da pasta do Império, o Colégio de Pedro II (1838),
trabalhou na reforma do Código de Processo Criminal (1842) e
contribuiu na elaboração do Código Comercial (1850).
É importante destacar que, a partir desses códigos, foram estabelecidos os
tipos de crimes e punições, ressaltando também a hierarquia existente na
sociedade do Império, em que a escravidão predominava. De todo modo,
por meio desses códigos acreditava-se que o Império poderia escapar de
revoltas, insurreições e, caso ocorressem, os envolvidos seriam punidos
exemplarmente.
Entre as modificações que foram promovidas pelo Código Criminal estavam
as penalidades em caso de crimes. Desde o período colonial, existia a
pena do degredo, sendo até mesmo o Brasil o destino para quem era
penalizado em Portugal. Com o Código Criminal, essa pena foi substituída
por outras, mais modernas e civilizadas. Em vez de receber essa
penalidade, o culpado teria que cumprir a pena de prisão com trabalho; isso
fazia com que esses “indesejáveis” tivessem utilidade, servindo como mão
de obra gratuita para serviços públicos.
No entanto, nem todos teriam a mesma penalidade, uma vez que a
graduação das penas era de acordo com o caso, sendo o julgamento do
juiz feito de forma individualizada. Portanto, possivelmente as hierarquias
presentes na sociedade determinariam a forma como alguns crimes seriam
punidos.
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PENA DO DEGREDO
Ocorria quando o sujeito era obrigado a abandonar a estrutura da
colônia ou da metrópole em que estava situado. O sujeito era
transferido com bens e indenizações para outro local, perdendo direito
às terras de origem.
& EXEMPLO
Os castigos corporais, presentes nas Ordenações Filipinas.
No novo código criminal, os açoites tornaram-se penas exclusivas de
escravos, em caso de participação em insurreições. Crimes de lesa-
majestade ou traições ao governo monárquico, eram forjados a partir de
dinâmicas antigas de tradições de quebra de juramento aos senhores e, por
isso, foram comumente utilizadas como forma de execução pública.
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Fonte: Jean-Baptiste Debret / Wikimedia commons / Domínio público
! Castigo de escravo, Jean-Baptiste Debret, entre 1768 e 1848.
" COMENTÁRIO
Os castigos físicos, muitas vezes, são apresentados equivocadamente em
livros didáticos como para os negros. É falso, porque pelourinhos e outros
instrumentos de tortura eram utilizados em praças públicas paradiversas
populações. Tinham efeito simbólico e de reafirmação de poder, como a
manutenção de cabeças em portões de entrada nas cidades, execuções
públicas de carrasco e forca, com os corpos deixados à vista como
exemplo.
No entanto, em caso de líder da insurreição a pena seria a maior, a de
morte. Por outro lado, em caso de rebelião feita por não escravos, a pena
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seria mais leve; a mais dura era a prisão perpétua com trabalhos forçados.
Dessa forma, rebelar-se ou insurgir-se dependia da condição jurídica:
ESCRAVO
Para o escravo, qualquer movimentação poderia ser vista como insurreição,
recebendo penas específicas diante de sua condição de escravizado.
$
NÃO ESCRAVO
Outros sujeitos, por sua vez, ao se rebelarem, poderiam escapar da morte
e dos castigos corporais, simplesmente por não serem escravos, mesmo se
promovessem uma grande revolta.
A hierarquia colonial acaba deixando esses castigos mais marcados pela
afirmação étnica.
Um ponto importante sobre o Código diz respeito à religiosidade. Ao
mesmo tempo em que a Constituição não condenava o exercício de outras
religiões, desde que fosse no âmbito privado, o Código também não previa
crimes de ordem religiosa, diferentemente da legislação portuguesa,
baseada nas Ordenações Filipinas. Nesse caso, caberia à Igreja legislar
sobre seus dogmas. No entanto, o Código possui uma moralidade que
passa pela ideia religiosa cristã de bons costumes e manutenção da ordem.
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Fonte: Desconhecido / Wikimedia commons / Domínio público
! O prédio da Cadeia Velha, Rio de Janeiro, cerca de 1880.
As penas modernas e previstas no Código Criminal do Império contaram, a
partir de 1850, na Corte, com a Casa de Correção, inaugurada nesse ano,
seguindo um modelo prisional com edifício e facilitando a aplicação da pena
de prisão com trabalho. A prisão no Império seguia um modelo europeu e
visava ser um instrumento de combate ao crime, à vadiagem e à
mendicância.
No entanto, a pena de prisão com trabalho era aplicada em um país onde a
escravidão ainda era vigente e forte como uma política econômica e social.
As reiteradas condenações ao trabalho associavam-no a uma penalidade e
não a uma ação que deveria estar no cotidiano. Ou seja, trabalho braçal era
feito por escravizados ou criminosos no Império do Brasil. As relações
históricas com o trabalho e o entendimento do trabalho braçal como algo
inferior faz parte da construção da cultura brasileira.
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CÓDIGO DO PROCESSO
CRIMINAL
A aprovação do Código do Processo Criminal deveria ter ocorrido no ano
seguinte ao do Código Criminal.
No entanto, diante das turbulências desse ano geradas pela crise política,
que levou à abdicação do Primeiro Imperador, apenas em novembro de
1832 foi aprovado o Código de Processo Criminal, trazendo uma profunda
reforma na administração judicial, que regulou a parte da administração da
Justiça Civil, tornando os promotores públicos responsáveis por ela.
Em linhas gerais, esse novo instrumento extinguiu os cargos de ouvidores,
juízes de fora e ordinários.
Fonte: Araújo Filgueiras Junior / Wikimedia commons / Domínio público
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! Código do Processo Criminal de 1832, em edição de Araújo Filgueiras
Junior.
Esse código foi dividido em duas partes. Confira abaixo:
PRIMEIRA PARTE
A primeira, com o título Da organização judiciária, em seus capítulos, tem a
criação do escrivão, dos inspetores de quarteirões e de oficiais de justiça; o
Capítulo 2 trata da administração da Justiça Criminal, em que se
estabeleceram as competências dos poderes policiais, que teriam o
monopólio da vigilância do cotidiano.
Também foi determinado que cada distrito teria um juiz de paz eleito, um
escrivão, inspetores e oficiais de justiça nomeados pelas câmaras
municipais.
Esse código também ampliou os poderes do juiz de paz, que poderia
interrogar, solicitar corpo de delito, emitir denúncias, sentenciar e inocentar.
Um ponto importante desse capítulo foi a criação do “termo de bem viver”,
documento que serviu para coagir a liberdade e criminalizar a vadiagem.
No código, estabeleceu-se que os juízes de paz tinham competência para
obrigar vadios, mendigos, bêbados e prostitutas, entre outros tipos, a
assinarem o termo de bem viver. Nessa parte do Código, há também
esclarecimento sobre os “inspetores de quarteirões”, que seriam nomeados
pela Câmara Municipal, estando cada rua submetida à autoridade de um
inspetor, vigilante na prevenção a crimes, que pareciam ser atribuições dos
pobres.
O inspetor deveria fazer relatórios mensais sobre os suspeitos ou presos e
seus dados, indo essas informações para o juiz de paz, para o Ministério do
Estado dos Negócios da Justiça, que poderia ser acessado pelo imperador.
SEGUNDA PARTE
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A segunda parte do código é chamada de Da forma do processo, com a
regulamentação burocrática do sistema judicial a respeito de audiências,
provas, formas de pagar um crime. Com o código de processo criminal
foram extintas as Ouvidorias de Comarca, os juízes de fora e ordinários e a
jurisdição criminal de outras autoridades.
O aparelho judiciário ficou dividido nas províncias entre os Distritos de Paz,
Termos e Comarcas, e cada comarca teria juízes de órfãos, juízes
municipais, promotores públicos e um juiz de direito, nomeados pelo
imperador.
Para a administração das cidades mais populosas foi criado o cargo de
chefe de polícia, em substituição ao de intendente de polícia, e a ampliação
da atuação dos juízes de paz. No ano seguinte, foram criados os guardas
policiais nos distritos dos juízes de paz (VAINFAS, 2002, p. 584).
Menos de 10 anos de sua promulgação, em 3 de dezembro de 1841,
ocorreu uma reforma no código (projeto de Bernardo Pereira de
Vasconcelos), com a retirada de poderes dos juízes de paz, atribuindo aos
delegados e subdelegados de polícia mais poderes, que por sua vez
estavam submetidos ao chefe de polícia da província, nomeado e
subordinado ao Ministério da Justiça (virada centralizadora).
Uma das marcas mais importantes do longo processo de Independência é
a organização de uma burocracia estatal, nos moldes das tradições
nobiliárquicas portuguesas, e que criam postos, funções, ministérios e
instituem a afirmação de uma burocracia aristocrática que domina o jovem
Estado brasileiro.
Essa reforma fez com que a Justiça se reorganizasse em torno da
magistratura profissional remunerada. Ela também confirmou o princípio da
autoridade policial perante os outros poderes, especialmente o de juiz de
paz. Nessa reforma, foram extintas as juntas de paz e o júri de acusação,
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tendo os juízes de direito poderes ampliados.
Os juízes de paz eleitos tiveram suas atribuições transferidas para os juízes
municipais e chefes de polícia, tendo estes últimos ampliado suas funções
judiciais.
As mudanças também ocorreram entre os jurados, sendo exigido, então,
que todos fossem alfabetizados.
Fonte: John Morgan / Wikimedia commons / Domínio público
! O Júri, por John Morgan, 1861.
A partir dessa reforma, deixou-se o que era considerado Ministério Público
sob o controle do Executivo e subordinado ao Judiciário. Ou seja, os
promotores poderiam ser nomeados e demitidos por juízes, pelo imperador,
pelos presidentes das províncias, não tendo, portanto, independência no
exercício de suas funções.
Apenas em 1874, houve o reconhecimento oficial do Ministério Público.
Essa reforma foi a base do sistema judiciário, que assim permaneceu até
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quase o final do Império, deixando os liberais insatisfeitos.
Em setembro de 1871, na lei que data do dia 20, houve significativas
mudanças na organização da Justiça. Entre elas, ocorreu a separação das
funções judiciais e policiais, fazendo com que delegados e subdelegados
exercessem apenas as atribuições policiais.
A lei regulou a prisão emflagrante delito. Também estabeleceu a fiança
provisória e ampliou a aplicação do habeas corpus.
Outras alterações promovidas pela reforma:
Formação da culpa
Julgamentos
Apelações
A reforma concedeu mais direitos de defesa para os réus em processos
criminais. Deu preferência à polícia e ao controle social almejado pelos
conservadores. Essa reforma foi feita sob a gestão do Ministro da Justiça
Francisco de Paula de Negreiros Sayão Lobato, o Visconde de Niterói.
Além do Código Criminal estabelecido em 1830, ainda nessa década foi
preciso construir outras posturas a fim de que se regulassem os crimes
cometidos pelos escravos. Isso ocorreu diante das tensões criadas por
revoltas escravas em um cenário de fim do tráfico de cativos.
A lei assinada em 10 de junho de 1835 (ainda no período regencial) visava
reprimir os crimes cometidos pelos escravos, sendo o principal instrumento
de condenação à morte da população cativa no Brasil, ampliando as
tipologias de crimes que levariam à morte.
Por meio dessa lei, foi impossibilitado ao escravo recorrer da sentença, não
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podendo acionar o Supremo ou Tribunal da Relação. O projeto de lei teve
três discussões na Câmara dos Deputados e três no Senado entre os anos
de 1833 e 1834. Essa lei alterou o Código Criminal e o Código de Processo
Criminal.
FRANCISCO DE PAULA DE
NEGREIROS SAYÃO LOBATO
Francisco de Paula de Negreiros nasceu no Rio de Janeiro, em 25 de
maio de 1815. Iniciou o curso jurídico na Faculdade de Direito do
Recife e concluiu-o na Faculdade de Direito de São Paulo, em 1834.
Ocupou diversos cargos na magistratura, entre eles o de juiz de
órfãos em Niterói (1835) e juiz de direito em diferentes comarcas a
partir de 1838, tendo sido ainda chefe de polícia na Bahia (1840) e
diretor da alfândega do Rio de Janeiro.
Foi eleito deputado geral por diversos mandatos (1850, 1853, 1861 e
1867) e nomeado senador do Império (1869) e conselheiro de Estado
(1870). Ocupou a pasta da Justiça duas vezes, durante os gabinetes
do Marquês de Caxias (1861) e do Visconde do Rio Branco (1871),
tendo participado da promulgação da Lei do Ventre Livre.
PENA DE MORTE
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No primeiro artigo da lei de 1835 foi estabelecida a pena de morte para
escravos, homens ou mulheres que matassem ou ferissem de forma grave
o seu senhor, administrador, feitor, suas mulheres e seus filhos.
Anteriormente, o escravo que matasse poderia ter outros tipos de morte;
uma vez que poderia evocar atenuantes, podendo ser punido de outras
formas, sem ser a pena capital, de acordo com o Código Criminal.
Fonte: Johann Moritz Rugendas / Wikimedia commons / Domínio público
! Escravo sendo açoitado, em pintura de Rugendas, 1835.
De acordo com Ricardo Pirola, ao determinar penas mais severas aos
praticantes de um crime contra um grupo de pessoas (os donos dos
escravos ou os envolvidos na administração), o Estado mostrava também
quem deveria ser protegido por essa nova lei. Caso o escravo ou escrava
cometesse o mesmo crime, assassinato ou ferisse gravemente alguém livre
ou ainda escravo, o julgamento continuaria baseado no Código criminal
(PIROLA, 2012).
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De fato, a lei de 1835 servia para garantir a estabilidade da escravidão e o
direito de propriedade dos senhores.
E qual foi a forma da lei para
criar ressonâncias na escravaria?
VERIFICAR
Colocar o julgamento e a condenação do escravo criminoso no local do
crime ou na localidade de residência do réu, fazia com que sua condenação
servisse de exemplo para aqueles que o conheciam, consequentemente,
outros escravos.
No entanto, sabemos o quanto o artifício do exemplo não funciona em
todos os casos, principalmente para escravos que viviam em diferentes
ocasiões, podendo o crime ser cometido devido a inúmeros fatores. Mas
havia também a possibilidade de perdão do monarca aos condenados à
morte nas galés ou prisão perpétua. Caso ocorresse esse perdão a um
escravo, ele não voltaria aos domínios do seu senhor.
Essa foi uma decisão de 1872, após discussões no Ministério da Justiça e
no Conselho de Estado. Para alguns autores, como Joaquim Nabuco, tal
decisão é um exemplo da progressão do processo emancipacionista no
Brasil.
JOAQUIM NABUCO
Pernambucano do Recife, Joaquim Aurélio Barreto Nabuco de Araújo,
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mais conhecido como Joaquim Nabuco, nasceu no dia 19 de agosto
de 1849 e faleceu em Washington, nos Estados Unidos, em 17 de
janeiro de 1910. Escritor, historiador, jornalista e diplomata, formou-se
em Letras e em Direito. Sua principal obra na carreira é O
abolicionismo, lançada em 1883.
Historiadores que se dedicaram a pensar a Justiça e o acesso a ela por
parte dos escravos, mostra que, com a decisão do monarca, os escravos
recorreriam à polícia depois de cometerem um crime, sendo, portanto:
[...] UMA GARANTIA DE QUE NÃO
RETORNARIAM À CASA DE SEUS
SENHORES, DEPOIS DE SEREM
PERDOADOS PELO MONARCA, O QUE
TEVE COMO CONSEQUÊNCIA AMPLIAR A
PERCEPÇÃO DOS CATIVOS A RESPEITO
DAS INSTITUIÇÕES COMO ARENAS
FAVORÁVEIS DE LUTA CONTRA A
ESCRAVIDÃO.
(PIROLA, 2016, p. 141).
Esse caso é um exemplo de como podemos combinar Justiça com
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escravidão e liberdade, porque a primeira pode ser usada para a
manutenção de uma ou de outra. Esses pedidos e a concessão do perdão
não eram generalizados e, segundo o autor, estão concentrados, no século
XIX, entre os anos 1870 e 1880.
De acordo com Pirola, o perfil de quem recebia o perdão ou a comutação
das penas estava associado àqueles que cometiam pequenos delitos,
como agressões a pessoas que não eram das famílias dos seus senhores,
ou roubos.
Na década de 1870, houve uma mudança no perfil daqueles que
receberam o benefício, sendo antes os condenados à prisão perpétua e à
pena de morte, mostrando que os crimes cometidos eram mais graves do
que os anteriores, cujos réus eram condenados a pequenas penas.
' RESUMINDO
A Justiça do Império não pode ser pensada deslocada da principal
característica desse regime, a escravidão. Portanto, o Código Criminal e a
lei de 1835 são exemplos da construção de uma Justiça para uma
sociedade hierarquizada, a partir de uma distinção jurídica: ser ou não
livre.
Desse modo, é fundamental pensar como a Justiça para a liberdade desses
escravos começou a ser construída, a despeito das críticas feitas a ela por
abolicionistas e escravistas.
VERIFICANDO O APRENDIZADO
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1. OS CÓDIGOS PENAIS TÊM FUNÇÕES DIVERSAS,
DEPENDENDO DE SEUS CONTEXTOS. PENSANDO EM
UMA SOCIEDADE ESCRAVOCRATA COMO A BRASILEIRA,
PODEMOS NOTAR QUE UMA DE SUAS FUNÇÕES É:
A) Criar um clima punitivista e de hierarquia social, com elementos que
reforçam a segregação entre trabalhadores braçais e os membros da
sociedade.
B) Criar o estatuto de escravidão, até então tácito, definindo regulamentos
jurídicos e punições para fugitivos.
C) Criar os castigos físicos em praça pública, transformando-se assim em
marca máxima da escravidão brasileira.
D) Estabelecer a criminalização de religiões afro-brasileiras e impedir a
compra das alforrias, que só poderiam ser doadas.
E) Estabelecer modelos de Justiça para membros sociais diferentes,
fazendo existir várias justiças concomitantes no Brasil.
2. A LEI VERSA SOBRE DOIS PROCEDIMENTOS
FUNDAMENTAIS: DEFINIÇÃO E PROCESSO. NESSE
SENTIDO, É EMBLEMÁTICA A DIVISÃO ENTRE CÓDIGO
CRIMINAL E PROCESSO CRIMINAL NO IMPÉRIO. DESSA
SEPARAÇÃO PODEMOS COMPREENDER COMO UMA DE
SUAS RESULTANTES:
A) O processo de institucionalização da Justiça, fundamentando punições,
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casas de correções e processos.
B) A manutenção das Ordenações Filipinas como métrica de punição
balizada em castigos físicos.
C) A criação de um processo em separado, em que uma coisa são as leis e
os processos efetivos judiciais; outra, as ações punitivistas dos chefes de
polícia.
D) A Constituição atingiu seu objetivo,pois uma de suas principais ordens
era a criação de códigos de processo que não existiam no Brasil.
E) A contradição do sistema penal brasileiro no Império, que já tinha um
código histórico consolidado e só vê a criação de um código na Regência.
GABARITO
1. Os códigos penais têm funções diversas, dependendo de seus
contextos. Pensando em uma sociedade escravocrata como a
brasileira, podemos notar que uma de suas funções é:
A alternativa "A " está correta.
O Código Penal brasileiro faz parte do conjunto de reformas judiciais do
Império que, tanto no Primeiro Reinado como na Regência acabam por
ofertar a singularização das relações, a institucionalização de sistemas
prisionais. Acontece que leis acabam por refletir aspectos sociais e garantir
o ordenamento e a manutenção da sociedade, no caso de uma sociedade
escravocrata.
2. A lei versa sobre dois procedimentos fundamentais: definição e
processo. Nesse sentido, é emblemática a divisão entre Código
Criminal e Processo Criminal no Império. Dessa separação podemos
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compreender como uma de suas resultantes:
A alternativa "A " está correta.
Estamos falando de um só documento jurídico, dividido e organizado de
forma a dar sentido a um novo conjunto de materiais e debates de códigos
criminais marcados pela tradição. A Constituição do Império tratava da
necessidade que se materializava naquele momento.
MÓDULO 4
! Reconhecer a trajetória jurídica do fim da escravidão no Brasil
ESCRAVIDÃO E IMPÉRIO
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Assista ao vídeo Os abolicionistas brasileiros.
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Fonte: François-Auguste Biard / Wikimedia commons
! A abolição da escravatura, François-Auguste Biard, 1849.
O estudo do sistema jurídico do Império passa necessariamente pela
compreensão de como leis e seus executores interferiram no processo de
escravidão e liberdade no Brasil imperial. Os historiadores da escravidão,
na década de 1980, utilizaram fontes judiciais a fim de entender a lógica da
escravização de homens e mulheres, mostrando haver uma especificidade
no campo jurídico que legislou sobre um aspecto crucial do Império: a
escravidão.
Compreender que leis são essas e como foram usadas pelo Estado e por
escravizados ou cidadãos a fim de justificar a escravização ou demandar
liberdade serve para ampliar não apenas o conhecimento a respeito do
campo jurídico, mas também como ele pôde ser usado e manipulado de
acordo com interesses de um momento político.
As fontes judiciais tornam-se instrumentos valiosos para se compreender
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como as políticas de domínio senhorial pautavam as relações escravistas e
como escravos e libertos utilizavam-nas para atender a seus interesses de
liberdade ou de conquista de direitos dentro do sistema escravista. Desse
modo, é essencial entender como essas leis foram criadas e usadas no
cotidiano político e social do Império.
Fonte: Jonas de Carvalho / Wikimedia commons / CC BY-SA 2.0
! Carta de alforria em exposição no Museu Histórico Nacional, Jonas de
Carvalho, 1872.
É importante perceber que as leis que instrumentalizam os debates
jurídicos sobre a escravidão são fruto de ações mais amplas dos juristas
vinculados aos movimentos abolicionistas. Uma das questões vitais foi o da
regulamentação das alforrias. Como ex-escravos e libertos passavam a ter
alguns direitos, além do de não escravização?
As alforrias eram registradas em cartório e por vezes enfrentavam
importantes querelas jurídicas. Se antes somente os membros da
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sociedade — senhores e seus representantes — tinham voz, ao longo do
tempo consolidam-se grupos que fazem essas defesas. No Império, um
grupo de funcionários públicos tinha a função de analisar tais questões e
emitirem pareceres sobre quem estava com a razão.
ALFORRIAS
Carta jurídica colonial usada pelo senhor para reconhecer que seu
escravo ganhou a condição de liberdade por concessão ou compra. A
decisão era dos senhores e os agentes das compras poderiam ser os
próprios escravos, a partir de ações que lhe permitiam ganhos como
atuação nas minas e de serviços nas cidades. A Igreja, por meio de
irmandades de homens negros, com alforriados e beneméritos
também compravam alforrias.
% VOCÊ SABIA
Um dos funcionários públicos notórios nessa função foi Machado de Assis,
tendo elaborado importantes pareceres pró-homens negros pleiteantes.
Esse ponto é importante para notarmos que as batalhas jurídicas que se
seguem não foram articuladas como benesse ou caridade, mas fruto de
uma luta histórica. Já havia nomes importantes sobre a questão da
escravidão no Brasil, parte em defesa da modernização do país, mas parte
oriunda de descendência, adoção, estudos e que passam a militar pelos
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direitos.
Esses aspectos podem ser reforçados quando percebemos que, quando
terminou o estatuto de escravo em grandes cidades no Brasil, a maior parte
da população negra já havia conseguido sua liberdade.
LEI FEIJÓ
A primeira lei que interferiu nas relações escravistas no Brasil foi a de 1831,
promulgada em 7 de novembro, e que ficou conhecida como Lei Feijó. Essa
lei foi a primeira que proibiu a entrada de escravos africanos no Império,
sendo uma ação realizada nos meses seguintes à abdicação do imperador.
Foi construída a partir de arranjos com a Inglaterra, a fim de que a
Independência do Brasil pudesse ser reconhecida.
A repressão ao tráfico já vinha ocorrendo desde o início do século nas
colônias inglesas e isso afetava o Brasil, à medida que proibir o tráfico seria
acabar com um lucrativo comércio. Apesar disso, a lei de 1831 causou um
impacto significativo no trânsito de pessoas africanas para escravização.
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Fonte: Johann Moritz Rugendas / Wikimedia commons / Domínio público
! Navio Negreiro, Johann Moritz Rugendas, 1830.
Se por um lado, após essa data qualquer africano que entrasse no Brasil
para ser escravizado estaria aqui de forma ilegal, por outro, os que
permaneceram nesse negócio, o tráfico de escravos, tiveram que aprimorar
esse trânsito para ter um aumento significativo em seus lucros.
É interessante pensar em como uma lei, que muitos dizem que era para
“inglês ver”, mobilizou o parlamento nos anos seguintes, a fim de se discutir
sua possível revogação, exatamente por ferir interesses daqueles que eram
dependentes do tráfico e que lucravam com esse comércio.
No entanto, a aplicação da lei não foi eficiente para acabar com a entrada
de africanos, piorando sensivelmente a forma como eles chegavam, já que
não havia mais fiscalização, inspeção de saúde e outros trâmites dos
tempos da legalidade desse comércio.
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LEI EUSÉBIO DE QUEIRÓS
Fonte: Shutterstock.com
! Escravidão na África, Journal des Voyage, Travel Journal, (1880-81).
Em 1850, a Lei nº 581 proibiu novamente o tráfico e logo confirmou a
validade da lei de 1831.
O contexto da aprovação da Lei Eusébio de Queiroz, a de 1850, fez parte
de um momento de tensão internacional, quando um forte sentimento
antibritânico favoreceu a tomada de medidas que pudessem dar autonomia
ao Império para resolver questões internas e não ficar submetido à pressão
internacional.
A fim de ser cumprida, a nova lei modificou também alguns pontos da
anterior, entre eles, os que seriam responsabilizados criminalmente pelo
contrabando, não sendo mais os fazendeiros que comprassem os
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escravizados ilegais. Outro ponto importante da lei de 1850 é que ela não
revogou a de 1831, mas garantiu os direitos de propriedade daqueles que
adquiriram escravos entre as duas leis.
Após 14 dias da aprovação da Lei Eusébio de Queirós, outra foi aprovada,
a de número 601, de 18 de setembro, conhecida como Lei de Terras. Nela,
havia a determinação de que as terras devolutas não poderiam ser
ocupadas por qualquer outro título que não o de