Prévia do material em texto
1 ALFABETIZAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS Profª Cristina Rolim Chyczy Bruno AULA 6 2 INTRODUÇÃO Há uma pedagogia com o foco na educação, em especial, na alfabetização de jovens e adultos. Os estudos aqui presentes fortalecem esta crença. Com base nos altos índices de analfabetismo no Brasil iniciamos nossas análises, pois estes índices, ainda alarmantes, nos convocam para pensar em estratégias de mudança em um cenário tão caótico. Pensar nas necessidades da alfabetização de jovens e adultos é pensar em aspectos curriculares, tanto dos(as) estudantes, como dos(as) docentes que já atuam ou que irão atuar nesta modalidade de ensino. Assim, defendemos um currículo que contemple o direito do(a) jovem, adulto(a) idoso(a) em reconhecer a sua identidade e perceber a construção das identidades coletivas. Todo o embasamento e referencial ora apresentado envolve a utopia de uma escola mais inclusiva, com uma ação docente que acredita no potencial de aprendizagem dos(as) estudantes, depositando fé no conhecimento enquanto emancipador e transformador. As análises também nos desafiam à reflexão do “ser professor”, o que é ser professor(a) na modalidade de educação de jovens e adultos? Você não encontrará respostas prontas e acabadas. Mas por meio de um “mergulho” no planejamento e na avaliação, construirá bases para entender esta modalidade de ensino tão desafiadora, encantadora e sedenta de profissionais dispostos para construir uma prática educativa que realmente forme para a cidadania, acreditando no potencial de aprendizagem de todas as pessoas, indistintamente. 3 TEMA 1 – O CENÁRIO DO ANALFABETISMO NO BRASIL Vamos analisar as informações: Figura 1 – Taxa de analfabetismo Créditos: mghstars/Shutterstock. O analfabetismo ainda apresenta índices alarmantes e tais números nos tocam, nos mobilizam para pensarmos nas necessárias mudanças deste cenário. As informações nos mostram que o Nordeste ainda é a região mais impactada com o analfabetismo. Segundo o Mapa do Analfabetismo no Brasil (2016), “O nordeste brasileiro tem a maior taxa de analfabetismo no País, com um contingente de quase 8 milhões de analfabetos, que corresponde a 50% do total do país” (p. 8). O mesmo documento retrata dados preocupantes, mostrando que o analfabetismo impacta as mais diferentes faixas etárias, diagnosticando que o sistema educacional continua a produzir analfabetos e, ainda, que em nosso país o índice de analfabetismo entre homens e mulheres pode ser considerado praticamente o mesmo. 4 A situação mobiliza uma séria reflexão, pois o analfabetismo é revelador da pobreza e das desigualdades sociais, como nos mostra o mapa anteriormente apresentado. Todavia, como recomenda Gadotti (2011), é ingênuo combater o analfabetismo sem combater as suas causas. Assim, é preciso conhecer a situação de vida do analfabeto, questões de salário, emprego, moradia, cultura, pois analfabetismo não é doença. Indicação de pesquisa: TEMA 2 – O CURRÍCULO NA FORMAÇÃO DOS ESTUDANTES DA EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS Quando pensamos na educação de jovens e adultos não podemos negligenciar a relevância do currículo para o estudante, uma vez que as políticas públicas educacionais não olham para essa modalidade de ensino com o olhar cuidadoso que o perfil dos(as) estudantes demanda. Arroyo (2017) destaca que a educação de jovens e adultos ocupa a última hierarquia no sistema escolar e na sociedade. Porquanto, o autor questiona se eles encontrarão no currículo respostas que atendam e que sejam justas às suas indagações. Nesse sentido, o autor apresenta uma possibilidade para que o currículo contemple: A história injusta de construção, de imposição de identidades coletivas negativas dos trabalhadores, das mulheres, de indígenas, negros, camponeses, quilombolas e periféricos tem de ser central nos currículos. Central no direito desses coletivos que chegam: conhecer esses processos que os vitimaram. Sobretudo, será central garantir a O MAPA DO ANALFABETISMO NO BRASIL • Site: . Acesso em: 30 ago. 2022. Uma leitura importante que situa o pesquisador: • Acerca das causas do analfabetismo, explicitando as relações de analfabetismo e renda, esclarecendo as causas e consequências do analfabetismo, com um rico acervo de dados e informações. Uma leitura relevante e esclarecedora. 5 eles o direito de conhecer as lutas coletivas por construir outras identidades coletivas positivas, afirmativas de que são sujeitos políticos. Se alguma “modalidade” e tempo humano de formação é mais premente conhecer essa história de construção de identidades coletivas, isso se dá na EJA, onde chegam vítimas resistentes, sujeitos de outras identidades coletivas positivas, afirmativas. (Arroyo, 2017, p. 38) É relevante abordar nos currículos a história desse público que está procurando a escola em busca de suas superações, seja para ler e escrever, seja para situar-se com mais elementos no meio em que vive, enfim, as razões são as mais diversas e relevantemente justas. Mas certamente, esse é um público que carrega consigo histórias dolorosas de exclusão e dores, muitos deles não tiveram acesso à educação, mas a história também revela o grande número de marginalizados que de forma alguma conseguiram “encaixar-se” em um contexto escolar. Conquanto, acolher e olhar singularmente para esse alunado é uma questão urgente e primordial para a construção de um país menos injusto. Pois, “toda passagem carrega consigo sentimentos de insatisfação com o lugar social, racial, com o viver” (Arroyo, 2017, p. 24). Um caminho certo para contribuir com a promoção social é a educação para o povo, enquanto um fator que poderia gerar progresso à nação, embora em pleno século XXI o Brasil apareça no cenário mundial como um dos líderes em índices de analfabetismo. Estamos diante de um contexto que exige políticas públicas capazes de gerar mudanças, tendo em vista o desejo de nossa nação em alavancar seu desenvolvimento econômico. Sacristan e Gomes (1998) corroboram nossos argumentos quando retratam: A função educativa da escola, portanto, imersa na tensão dialética entre reprodução e mudança, oferece uma contribuição complicada mas específica: utilizar o conhecimento, também social e historicamente construído e condicionado, como ferramenta de análise para compreender, para além das aparências superficiais [...] deve-se analisar na escola a complexidade particular que o processo de socialização adquire em cada época, comunidade e grupo social, assim como os poderosos e diferenciados mecanismos de imposição de ideologia dominante da igualdade de oportunidades numa sociedade marcada pela discriminação. (Sacristan; Gomes, 1998, p. 22) Quem sabe o estudante que volta para a escola encontre na educação de jovens e adultos essas premissas de conquista do conhecimento, como uma ferramenta para compreender suas angústias e construir bases de superação. 6 Assim como alerta Barcelos (2012) que esse adulto carece de conhecimento, mas a escola também favorece a oportunidade de aprender a viver junto “a respeitar, a escutar, a dar atenção, a dialogar, a ser solidário, a conhecer o outro e a si mesmo, a ler o mundo, a sonhar” (Barcelos, 2012, p. 11). Essa é uma esperança e, por que não afirmar: uma utopia. A utopia que faz enxergar além do óbvio, que não nega a realidade social existente, mas vislumbra chances de superação, que faz acreditar em uma escola mais inclusiva. Doravante sabemos que tudo isso também é processual, pois cada escola é singular, assim como seus(suas) professores(as) e estudantes. Há também que considerar que novos espaços de anunciações apresentam vantagens sócio-históricas de conhecimento sobreos espaços das enunciações hegemônicas, em todos os campos das realizações humanas. (Romão, 2008, p. 81) TEMA 3 – CURRÍCULO E AÇÃO DOCENTE NA EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS Outra temática fundamental que tangencia a educação de jovens e adultos é o currículo dos docentes, futuros(as) professores(as) que irão atuar nessa modalidade de ensino. Depreende-se que esses profissionais precisam compreender os diferentes percursos dos estudantes que recorrem à educação de jovens e adultos, percursos estes, marcados por histórias de desvalorização, exclusão e, por que não afirmar, de um possível passado em que não se considerava “estar na escola”. “Com esse estado de crença-descrença debatem- se os educandos [...] descrenças que têm raízes fora [...] nas relações de classe, gênero, raça” (Arroyo, 2017, p. 30). Então, quando esse(a) estudante junta suas forças e desejos para voltar a estudar depois de um tempo, precisa ser “acolhido(a)” por um docente (e por uma escola) que tenha percepção desses percursos. Emerge que todo(a) professor(a), e neste caso em especial, aquele(a) que irá atuar, ou que atua, na educação de jovens e adultos, acredite no potencial dos estudantes, na sua capacidade de aprender; para que assim possa educar nos princípios da liberdade, da participação e do compromisso, e que estes 7 princípios se constituam em um projeto, não individual, mas sim, essencialmente compartilhado, pois como acentua Edgar Morin: A educação deve favorecer a aptidão natural da mente em formular e resolver problemas essenciais e, de certa forma correlata, estimular o uso da inteligência geral. Este uso total pede o livre exercício da curiosidade, a faculdade mais expandida e a mais viva. (2000, p. 39) Não é difícil compreendermos a importância dessa premissa, tendo em vista a ação escolar e de formação humana, que prioriza desafios de resolver problemas, de situar-se, exercitando a curiosidade, o diálogo, o afeto, tal fato não pode ser desconsiderado na prática educativa. Todavia, acentuamos que o trabalho com o conhecimento junto ao(à) jovem, adulto(a) ou idoso(a) precisa estar assentado em uma mediação que considere as relações humanas. Nesta relação indissociável entre intelecto e afeto não podemos nos esquecer dos males causados pela escola tradicional, que concebia o ato educativo como uma relação de autoridade suprema do(a) professor(a), que de certa forma negava que esta relação, que era e ainda é, uma relação interativa de troca, não só de conhecimentos, mas também de afeto. O rigor com o conhecimento não implica necessariamente em atitudes austeras e em discursos que trazem a escola como um lugar de apropriação só do saber acadêmico, pois “a educação não é somente uma teoria, nem somente uma prática, mas é ação [...]. Pois a vida é dialética, porque é movimento, e movimento contraditório: não corre numa só direção. Na educação, como na vida, o círculo não é redondo e o tempo não morre” (Wachowicz, 1998, p. 12). O conhecimento é a mola mestra, mas para acontecer de forma significativa precisa de vida, especialmente quando os sujeitos já carregam experiências e histórias de vida. Então, sentimentos, afetividade e imaginário têm que aparecer nos currículos, para que se forme por inteiro, não pela metade. “Tornou-se muito difícil continuar afirmando que a relação essencial da educação seria apenas o conhecimento, já que o ser humano integral desborda acentuadamente tal horizonte” (Demo, 2000, p. 34). E, para tanto, é fundamental que todo(a) professor(a), ou futuro(a) professor(a) acredite no potencial dos(as) estudantes, na sua capacidade de aprender; educar nos princípios da liberdade, da participação e do compromisso, 8 e que estes princípios se constituam em um projeto, não individual, mas sim, essencialmente compartilhado. Não é difícil compreendermos a importância dessa dimensão humana do ato de ensinar, quando olhamos para nossa própria experiência pessoal ou para a de nossos amigos ou mesmo de nossos filhos. As marcas mais profundas que se nos ficam não são apenas dos conteúdos estudados, das tarefas realizadas, mas também das falas dos(as) nossos(as) professores(as). As marcas indeléveis que trazemos para a nossa vida são de momentos que mexeram com o nosso aspecto mais humano, em sua essência, que marcaram, enfim, a nossa sensibilidade, a nossa emoção, o nosso “eu” interior. Arroyo (2000, p. 155) assim se pronuncia, em identidade com o que expressamos anteriormente: Levamos pela vida marcas de múltiplos tempos de socialização e aprendizagem e também da escola que frequentamos, das professoras e professores com que convivemos por longas horas e longos anos. Lembramos mais seus gestos, suas práticas do que seus discursos. Aprendemos formas de pensar, de interpretar e realidade, de conviver, de ser. Nós aprendemos no gesto, no espelho daquela professora ou professor de quem guardamos uma imagem positiva ou negativa. Marcas da escola que continuam, ainda que os conhecimentos das matérias tenham se perdido no desuso. Diante das análises realizadas podemos nos fortalecer com a crença do poder de transformação que o conhecimento produz, pois “do ponto de vista da educação, caberia sempre aludir que, se ocorrer arrefecimento da consciência crítica, estamos diante de procedimentos espoliativos que reduzem as pessoas a objeto de manipulação” (Demo, 2000, p. 33). TEMA 4 – SABERES DOCENTES E A PRÁTICA EDUCATIVA NA EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS 4.1 Ser professor(a) na educação de jovens e adultos Os estudos que realizamos nos mostraram em muitos momentos, tanto em tempos passados como no tempo presente, políticas de desvalorização do magistério, questões salariais, carência material, falta de apoio pedagógico, todavia, o(a) professor(a) que atua na modalidade da educação de jovens e adultos precisa estar ciente de sua importância e buscar formas de superação dos aspectos supracitados. Tudo isso em virtude de não “perder” mais uma vez 9 o(a) estudante, que procura a escola depois de um tempo (e em alguns casos, por toda vida) “fora” dela. Quando pensamos no “ser professor(a)” de adultos(as), jovens e idosos(as) precisamos lembrar de quantas vezes e de quantas formas o “abandono” esteve presente no universo desse perfil de estudante. Sublinhamos que esse docente precisa acreditar no estudante e criar maneiras de ação que possam contribuir com a dimensão “ser global”, enquanto mediador do conhecimento, ajudar o(a) jovem, o(a) adulto(a) o(a) idoso(a) a olhar, descobrir e conhecer o mundo. Ilustra, com poesia, Galeano (2000, p. 15), essa nossa afirmação: Diogo não conhecia o mar. Seu pai, Santiago Kovadloff, levou-o para que descobrisse o mar. Viajaram para o sul. Ele, o mar, estava do outro lado das dunas altas, esperando. Quando o menino e o pai enfim alçaram aquelas alturas de areia, depois de muito caminhar, o mar estava na frente de seus olhos. E foi tanto a imensidão do mar, e tanto seu fulgor, que o menino ficou mudo de beleza. E quando finalmente conseguiu falar, tremendo, gaguejando, pediu ao pai: me ajuda a olhar! Cremos ser esta, pois, a tarefa essencial do(a) professor(a) mediador(a): aquele(a) que vai além da contemplação, da observação e do puro diretivismo; aquele(a) que com autonomia e competência ajuda a olhar o mundo. Acreditar na “superação das injustiças das estruturas iníquas da sociedade implica o exercício de um mundo menos feio, menos cruel. A imaginação de um mundo com que sonhamos, de um mundo que ainda não é, de um mundo diferente do que aí está e ao qual precisamos dar forma” (Freire, 2000, p. 39). E isso implica necessariamente preparo e conhecimentos pois “o ideal da pedagogia é conseguir tecer redes com todos os fios de ensinantes e aprendentes e fazer pesca abundante de conhecimentos” (Assmann, 1996, p. 31). Recorremos a Chauí (1980, p.12), que resgata uma “trajetória” do ser professor(a) ao longo da história, a partir da indagação: o que é ser professor? Platão diria: aquele capaz de fazer com que o outro se lembre da verdade, reconhecendo-a. Rousseau diria: aquele capaz de fazer da cultura uma astúcia que reproduza, por novos caminhos, a vida natural perdida. Kant diria: o que traz as luzes, ensinando a pensar em lugar de fornecer pensamentos. O jesuíta disse: aquele capaz de estabelecer uma distância absoluta entre o conhecimento e o real, ensinando, por exemplo, as crianças que falam o português, o latim por meio das regras da gramática latina. Hegel diria: aquele capaz de fazer lembrar e de trazer as luzes, respeitando as etapas de desenvolvimento da consciência. Vitor Cousin disse: um funcionário posto pelo Estado a fim de transmitir moral e civismo formando 10 espíritos aptos necessários ao próprio Estado. Um marxista perguntaria: quem educa o educador? Paulo Freire disse: aquele capaz de conscientizar, revelar a opressão e anular a colonização. Então, compartilhando e acreditando nas ideias de Freire, fundamentam- se nossas orientações para a ação docente na alfabetização de jovens e adultos, construir-se em professor(a), sem estabelecer certezas, mas ser um(a) professor(a) que vive na arena educativa as ideias que professa. A seguir vamos apresentar alguns alicerces para construir essa prática mediadora do ser professor(a) na acepção anteriormente descrita. 4.2 O planejamento na educação de jovens e adultos O planejamento é um dos alicerces principais de toda ação docente. Aqui vamos enfatizar a sua relevância na alfabetização de jovens e adultos, considerando que as classes que atendem esse perfil de estudante contemplam um universo muito diverso, não só em relação à idade, mas também no que se refere à diversidade de conhecimentos. Incita-nos a pensar que planejar a ação é o caminho mais sensato e coerente em busca de uma educação e de uma escola “como um lugar de ensino, aprendizagem e de enriquecimento cultural, coordenado e dinamizado por docentes [...] em direção ao desenvolvimento de propostas pedagógicas consistentes com a construção da qualidade da educação” (Weber, 2000, p. 59). Cremos que “o processo e o exercício de planejar referem-se a uma antecipação da prática, de modo a prever e programar as ações e os resultados desejados, constituindo-se numa atividade necessária” (Libâneo, 2004, p. 149). Como afirma o autor, planejar é necessário e, porque não afirmar, essencial, afinal toda atividade que realizamos envolve o planejamento, pois sem ele estamos à mercê do acaso. Com base no diagnóstico de seus(suas) estudantes, o(a) professor(a) necessita organizar suas ações para que assim conquiste os objetivos que almeja atingir. O planejamento mais especificamente pedagógico diz respeito ao trabalho em sala de aula, que se caracteriza pela interação entre sujeitos, baseada no relacionamento interpessoal, na organização da coletividade e na construção do conhecimento. Particularmente o trabalho de construção do conhecimento é um dos aspectos mais enfatizados nos processos de planejamento, mas há necessidade de 11 considerá-lo na totalidade da escola, ou seja, nas suas relações na própria dimensão pedagógica (relacionamento interpessoal e organização da coletividade), nas suas relações com a dimensão administrativa e com a dimensão comunitária da instituição [...] O planejamento, para ser devidamente equacionado, deve ser abordado na totalidade real, resgatando suas múltiplas relações. Um projeto será tanto melhor quanto mais estiver articulado à realidade dos educandos, à essência significativa da área de saber, aos outros educadores e à realidade social. (Vasconcellos, 1999, p. 102-103) Escolhemos a reflexão de Vasconcellos (1999) em virtude da sintonia que suas explicações apresentam em relação à educação de jovens e adultos, tendo em vista que o autor dá destaque à interação entre os sujeitos, o que é fundamental nessa modalidade de ensino. Esclarecemos que no planejar, o(a) professor(a) tem a possibilidade de considerar um estudante mais experiente, contribuindo com outros(as) estudantes, óbvio que sob mediação docente. Relevante no trabalho com a educação de jovens e adultos é proporcionar interações em grupos em que os(as) estudantes experimentam a rica troca de experiências. Vasconcellos (1999) enfatiza a experiência dos(as) estudantes, outro aspecto que valorizamos ao longo de nossos estudos, pois no que tange à educação de jovens, adultos(as) e idosos(as) é mister considerar a experiência enquanto base para toda ação docente. O esquema a seguir foi elaborado inspirado na obra de Vasconcellos (1999), contudo, trazendo à baila o universo da educação de jovens e adultos. Figura 2 – Educação de jovens e adultos ELABORAÇÃO DO PLANEJAMENTO • Analisar a realidades dos(as) estudantes individualmente. QUEM SÃO ELES(AS)? A partir do currículo, prever o que vai ensinar, considerando onde e quando ensinar. • AS FORMAS DE MEDIAÇÃO: o quê, como, onde, quanto tempo, e com o quê, são aspectos que integram o planejamento. AÇÃO PEDAGÓGICA • É sempre interativa. • Sempre confrontar o que foi realizado em relação ao que foi elaborado: como está evoluindo essa relação? COMO REGISTRAR • Criar memória do trabalho, levando em conta a evolução de cada um(a) dos(das) estudantes. 12 Com base no presente estudo, asseveramos o exercício permanente de “manter ininterrupto o movimento dialético ação-reflexão-ação, já que a ação sistematizada é exatamente aquela que se caracteriza pela vigilância da reflexão” (Saviani, 2014, p. 2). Não há dúvida que para os(as) docentes é um desafio lidar com idosos(as) que mal sabem escrever o próprio nome e, também, com meninos e meninas adolescentes que exigem do(a) docente práticas inovadoras que sejam constantemente alternadas, pois tais estudantes se cansam diante de tudo que consideram repetitivo. Todavia, mesmo com os desafios que a prática lhes impõe, cremos que grande parte desses profissionais procura atender esses(as) estudantes considerando as suas peculiaridades. TEMA 5 – A AVALIAÇÃO NA EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS A avaliação talvez ainda seja uma das ações docentes que exijam muitos estudos por parte dos(as) docentes que atuam na educação de jovens e adultos. Assim como o planejamento, a avaliação também não pode ser pensada de uma forma global, faz-se necessário o olhar individualizado para cada um(a) dos(as) estudantes, e isso certamente irá exigir um trabalho rigoroso e um acompanhamento contínuo para que o processo avaliativo aconteça realmente com vistas ao diagnóstico e à transformação. Em todos os contextos, especialmente em nosso caso, na educação de jovens e adultos precisamos pensar em uma avaliação formativa, diagnóstica e processual, pautadas no compromisso com a aprendizagem dos(as) estudantes, que, por sua vez, têm necessidades diferenciadas, que deverão ser contempladas na prática docente por intermédio do planejamento. Precisamos pensar nos mais diversos instrumentos de avaliação, jamais ficarmos reduzidos aos testes e às provas, diante do contexto da diversidade que é trabalhar com jovens, adultos(as) e idosos(as), os instrumentos precisam ser diversificados para que possam permitir o acompanhamento da aprendizagem. Nosso olhar carece ser investigativo, pontual e curioso em relação aos cadernos, atividades, pesquisas e outras produções que são reconhecidas e valorizadas, pois: 13 [..] testes, cadernos, textos, desenhos, anotações do professor sobre o aluno são instrumentos que fazem parte do processo avaliativo, assim com o termômetro, a radiografia, ou o prontuário fazem parte do exame médico. Daí que não devemos denominar um “teste de matemática” por “avaliação de matemática”, ou um parecer sobre o aluno”, por “avaliaçãodo aluno, pois significaria reduzir todo o processo, que é complexo e multidimensional, aos seus instrumentos. […] Entretanto, só há um jeito de elaborar melhores registros e tarefas avaliativas: tendo clareza de sua finalidade, ou seja, fazendo o melhor uso possível deles. (Hoffmann, 2005, p. 120) Os instrumentos de avaliação são reveladores das concepções de práticas e permitem uma análise mais abrangente e crítica dos avanços e necessidades demonstrados pelos(as) estudantes. Chama a atenção Vasconcellos (1998) quando recomenda que o(a) professor(a) precisa superar práticas escravas de técnicas e procedimentos, pois essas não elevam suas ações, ao contrário, tornam o(a) docente escravo(a) das ideias de outros; “não se trata apenas de aderir a uma nova cultura da avaliação, mas de mudar a já existente [...] traduzir em ações uma nova visão da avaliação” (p. 12-13). A seguir apresentamos uma síntese construída com base nas recomendações de Vasconcellos (1998), que aponta “caminhos” para o que ele preconizou, no sentido de construir uma nova visão da avaliação: Figura 3 – Síntese AVALIAÇÃO Superar critérios de homogeneidade, aproveitando as diferenças Atividades diversificadas com horários de estudos, atendimento individualizado Permitir a comunicação, a expressão, a cooperação, grupos com atividades de acordo com as demandas Trabalhar em grupo e neste momento observar mais de perto o(a) estudante 14 O esquema não é “receita”, mas um “caminho” que nos esclarece para trilharmos práticas avaliativas pautadas na importância dos valores, da solidariedade, na superação da visão de sujeito enquanto objeto. Não podemos deixar de refletir que “vivemos numa sociedade paradoxal, a afirmação discursiva dos valores é tanto mais necessária quanto mais as práticas sociais dominantes tornam impossível a realização desses valores” (Santos, 2000, p. 32). E esta construção não é apenas um acréscimo no processo da avaliação, mas sim, base de fundamental importância, que se dá pelo convívio com a diversidade, o respeito e promoção da autonomia, alicerçados em conhecimento crítico e contextualizado. “Não possuímos as chaves que abririam as portas de um futuro melhor. Não conhecemos o caminho traçado, ao andar se faz o caminho” (Morin, 2000, p. 115). 15 REFERÊNCIAS ARROYO, M. G. Passageiros da noite: do trabalho para a EJA itinerários pelo direito a uma vida justa. Petrópolis: Vozes, 2017. ASSMAN, H. Paradigmas educacionais e corporeidade. 3. ed. Piracicaba: Unimep, 1996. BARCELOS, V. Educação de jovens e adultos: currículo e práticas pedagógicas. Rio de Janeiro: Vozes, 2012. BRASIL. Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira. Mapa do Analfabetismo no Brasil. Brasília, DF, 25 de maio de 2016. CHAUÍ, M. de S. Ideologia e educação. Educação e Sociedade, Campinas, jan. 1980. DEMO, P. Educação e conhecimento: relação necessária, insuficiente e controversa. Rio de Janeiro: Vozes, 2000. FREIRE, P. Pedagogia da indignação: cartas pedagógicas e outros escritos. São Paulo: Unesp, 2000. GADOTTI, M.; ROMÃO, J. E. Educação de jovens e adultos: teoria, prática e proposta. São Paulo: Cortez, 2011. GALEANO, E. O livro dos abraços. 7. ed. Porto Alegre: L&PM, 2000. HOFFMANN, J. Avaliar para promover: as setas do caminho. Porto Alegre: Mediação, 2005. IBGE. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Pesquisa Nacional de Amostras e Domicílios contínuas. São Paulo, 2018. LIBÂNEO, J. C. Organização e gestão da escola: teoria e prática. 5. ed. Revista Ampliada. Goiânia: Alternativa, 2004. MORIN, E. Os sete saberes necessários à educação do futuro. São Paulo: Cortez, 2000. ROMÃO, J. E. Razões oprimidas: introdução a uma nova geopolítica do conhecimento. In: TORRES, C. A. (Org.). Reinventando Paulo Freire no século 21. São Paulo: Editora e Livraria Instituto Paulo Freire, 2008, p. 63-90. 16 SANTOS, B. de S. Para um novo senso comum: a crítica da razão indolente. São Paulo: Cortez, 2000. SACRISTAN, G.; GÓMEZ, P. Compreender e transformar o ensino. São Paulo: ArtMed, 1998. SAVIANI, D. Sistema Nacional de Educação e Plano Nacional de Educação. Campinas: Autores Associados, 2014. VASCONCELLOS, C. Avaliação da aprendizagem: práticas de mudança por uma práxis transformadora. São Paulo: Libertad, 1998. VASCONCELLOS, C. Planejamento: projeto de ensino-aprendizagem e projeto político pedagógico. São Paulo: Libertad, 1999. WACHOWICZ, L. A. A interdisciplinaridade na universidade. Curitiba: Champagnat, 1998. WEBER, S. Políticas de formação de professores e seu impacto na escola. In: CANDAU (Org.). Cultura, linguagem e subjetividade no ensinar e aprender. Rio de Janeiro: DP e A, 2000.