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AULA 3 ALFABETIZAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS Prof.ª Cristina Rolim Chyczy Bruno 2 INTRODUÇÃO Esta abordagem apresenta um estudo dos métodos de alfabetização e seus reflexos na alfabetização de adultos. Quando estudamos os métodos da alfabetização, em especial na educação de jovens e adultos, somos conduzidos(as) para o olhar do grande mestre Paulo Freire, que sabiamente postulou que a escola é um lugar de ensinar e de aprender, e nesse princípio está o(a) professor(a), que tem por obrigação ética trilhar o caminho da aprendizagem constante. Todavia, um estudo sobre os métodos de alfabetização tem como base a tomada de consciência, que é: Qual estudante desejo formar? Esse questionamento faz-se fundamental, pois os métodos são distintos e enxergam o(a) alfabetizando(a) de forma particular e de acordo com suas bases filosóficas. Nas análises aqui presentes esclarecemos que a alfabetização vai muito além da mera decodificação. Envolve, pois, a leitura de mundo, como já argumentou Freire (2009). Quando explicamos, no decorrer dos estudos, os métodos de alfabetização sintético e analítico, esclarecemos que eles adotavam com os adultos os mesmos pressupostos didáticos pedagógicos que trabalhavam com as crianças. Esse foi um dos fatores que fez com que a alfabetização de adultos pouco avançasse no cenário educativo. O grande salto na alfabetização de adultos se deu com Paulo Freire, que inaugurou, na história da educação brasileira, uma abordagem de alfabetização que levou em conta o(a) adulto(a) não alfabetizado(a). Trata-se de uma abordagem calçada em princípios éticos e solidários, que têm na alfabetização um ato político, com vista à tomada de posse da realidade social existente e à tomada de consciência daquele(a) que se apropria da palavra como instrumento que poderá contribuir para a mudança de sua realidade. 3 TEMA 1 – MÉTODOS DE ALFABETIZAÇÃO: UMA QUESTÃO DE COMPETÊNCIA CIENTÍFICA Diante da proposta das análises acerca dos métodos de alfabetização, ainda no que tange à alfabetização de adultos, não podemos deixar de referenciar o mestre Paulo Freire, que sabiamente preconizou ser a escola um tempo e um espaço de produção do conhecimento, um lugar de ensinar e de aprender. Contudo, como bem assinala o intelectual, um lugar de “ensinar e aprender de forma diferente”, assim desmitificando o “autoritarismo dos pacotes e das administrações pacoteiras, na intimidade de seu mundo, que é também o de seus alunos” (Freire, 2009, p.18). Ressalta o autor a necessidade de competência científica por parte do docente, na perspectiva de que ensinar envolve militância, e a assunção do ser professor(a), na exigência política por sua formação permanente. Destaca a eterna tensão dialética entre teoria e prática, e é mister pensar a prática, reconhecendo nela a teoria adjacente. A prática pode ser um caminho privilegiado para a formação teórica. Sobre a prática descolada da necessária reflexão teórica, Pinto (2010) aponta-a como conceito ingênuo de educação. Essa prática, segundo o autor, é um rol de procedimentos pedagógicos. Infelizmente isso é muito presente no contexto da educação de jovens e adultos, pois no afã de alfabetizar há uma emergência na busca de métodos, tendendo à divisão entre forma e conteúdo. Em oposição a esse modelo de educação, Pinto (2010) clarifica uma escola urgente e necessária, em comunhão com as bases pedagógicas freireanas, pois, para o autor, a escola é o meio em que o aluno vai viver como aluno. Para o educador crítico, a escola representa a sociedade do aluno. Nesse viés, a escola é, ao mesmo tempo, ambiente e processo. Incita-nos crer que não há teoria da educação sem a teoria da finalidade da educação, já que a educação está para a existência humana, em toda a sua dimensão, em todos os seus aspectos. Destacamos que não há como tratar de Caminho pelo qual se atinge um fim […] Somente um método científico permitirá elaborar a concepção científica do mundo, necessária à ação transformadora. (Besse; Caveing, 2002). 4 conhecimentos, experiências, usos, crenças e valores deixando de lado os métodos utilizados para o exercício da ação educativa. Ainda, tratando-se de um projeto educativo para o(a) estudante trabalhador(a), esse projeto precisa estar dimensionado à sua existência. Diante desse cenário, vale a pena lembrar que a educação é, por essência, concreta: pode ser concebida a priori, mas o que a define é sua realização objetiva, concreta (Pinto, 2010). É preciso acreditar nessa premissa de que os projetos educativos voltados à educação de jovens e adultos sejam pensados a priori, levando-se em conta o perfil dos(as) educandos(as). Cumpre destacar que, ao analisarmos os métodos de alfabetização, precisamos levar em conta que o(a) estudante da educação de jovens e adultos já carrega consigo diferentes saberes e […] já dispõe de algumas ferramentas culturais que garantem sua inserção em diferentes práticas sociais, seja através da interação mediada por textos orais (de diferentes gêneros textuais), seja por alguns textos escritos, lidos por eles próprios (placas, rótulos, nomes), seja por “outros” (jornal, televisivo, carta). Os não alfabetizados desenvolvem, portanto, diversas estratégias para lidar com situações em que a escrita está presente. (Silva et al., 2010, p.17) Diante do exposto não podemos acreditar na falácia de que não existe um método de alfabetização. Existem, sim, diferentes métodos. Cabe ao(à) educador(a) que se propõe a atuar na alfabetização de adultos conhecer e investigar a fundo o princípio de aprendizagem de cada um deles para, como esclarecemos no início do estudo, conquistar a competência científica e pensar na alfabetização, reconhecendo o princípio de cada método. Todavia, destacamos: o(a) professor(a) não pode perder de vista que o centro da alfabetização está no sujeito que aprende e não no método de alfabetização. Asseveramos esse princípio considerando que os métodos têm o foco no objeto da aprendizagem. Para justificar nossa afirmação esclarecemos que: Entendendo-se a palavra método segundo sua etimologia – do grego meta (em direção a) + hodós (caminho) –, método é caminho em direção a um fim. […] Para isso, professora(es) fundamentam-se nos processos cognitivos e linguísticos de desenvolvimento e aprendizagem da língua escrita […] ensinar com método, ensinar conhecendo e orientando com segurança os processos de aprendizagem da escrita e seus usos, o que se diferencia fundamentalmente de ensinar trilhando caminhos predeterminados por convencionais métodos. (Soares, 2021, p. 290) A seguir vamos abordar de forma ampla os principais métodos de alfabetização, no sentido de subsidiar teoricamente nossos estudos. Mas cabe aqui ressaltar que os métodos estão mais ancorados na decodificação das 5 sílabas, palavras e textos. É verdade que a alfabetização vai muito além disso; o processo não se restringe à decodificação. Entendemos que alfabetizar também é ensinar o(a) adulto(a) a ler, escrever e interpretar o que leu. Pois quando esse sujeito busca a escola, está também em busca de ferramentas para superar seus limites e agregar conhecimentos às suas verdadeiras batalhas nas lutas por melhores condições de vida nos âmbitos econômico, social e cultural. TEMA 2 – O MÉTODO SINTÉTICO Quando recorremos às análises acerca dos métodos de alfabetização verificamos que eles foram pensados para ensinar a criança, sempre focados na infância. O universo do aluno jovem, ou adulto, ou idoso, que não sabia ler e escrever, foi negligenciado. Por outro lado, quando investigamos acerca do surgimento dos métodos de alfabetização, percebemos que, por ocasião de sua adoção na realidade brasileira, o método, voltado à criança, e uma criança concebidacomo um ser imperfeito, passível de ser moldada. Um mergulho na história dos métodos de alfabetização nos leva à Mortatti (2000), que esclarece que no final do Império, o ensino, de uma maneira geral, carecia de organização. As classes de alunos eram agrupadas sem nenhuma distinção de idade ou nível de aprendizagem e o ensino da leitura era precário. A autora descreve o método sintético como abordagem que sustentava as práticas alfabetizadoras na época. A condução do método previa que, para aprender a ler, era necessário iniciar pela parte, ou seja, letras ou famílias silábicas para, então, chegar ao todo: palavras ou frases. Isso sempre considerando a ordem crescente das dificuldades de leitura. Nessa perspectiva, a escrita pautava-se em exercícios de caligrafia, cópias, ditados e formação de frases. TEMA 3 – O MÉTODO ANALÍTICO Considerando que no século XIX as ideias pedagógicas, psicológicas e linguísticas em curso impactam sobremaneira o ensino da leitura e da escrita na escola, Mortatti (2000) retrata que, a partir da primeira década republicana, as escolas passam a defender o método analítico proposto pelo poeta João de Deus, em Portugal, trazido a São Paulo e Espírito Santo pelo advogado e ativista político Antônio Silva Jardim. 6 O método analítico, também conhecido como método da palavração, prevê a iniciação do ensino da leitura pela palavra. O ensino da leitura, sob tal princípio, é tratado como uma questão de ordem didática e, em contrapartida ao método sintético, agora o ensino da leitura inicia-se a partir do todo e, por isso, entenda- se uma palavra, uma sentença, uma historieta. Historieta é o “conjunto de frases relacionadas entre si, por meio de nexos lógicos” (Mortatti, 2000, p. 7). Exemplificando: partindo-se da palavra “(BOLO) analisam-se as sílabas (BO-LO), desenvolve-se a família silábica da primeira letra que a compõe (BA-BE-BI-BO- BU) e chega-se às letras” (Mendonça, 2003, p. 37). As leituras relativas ao tema revelam que, a partir da primeira República, os professores das escolas normais passam a defender o método analítico, e esses mesmos docentes contribuíram para a institucionalização do método. Porém, de maneira geral as apreciações dos professores trazem as insatisfações acerca desse método, as quais assentam-se em sua lentidão e em seus resultados, que não correspondiam ao esperado (Mortatti, 2000). A leitura acerca da história e da natureza dos métodos de alfabetização no Brasil mostra que, por muito tempo, permaneceu a luta entre métodos sintéticos e métodos analíticos. Mas na verdade, partindo da “parte” ou partindo do “todo”, nenhuma dessas abordagens provocou resultados efetivos no que diz respeito a uma nova visão da leitura e da escrita, tampouco o cenário do analfabetismo no Brasil apresentava significativas mudanças diante das abordagens metodológicas. Outro aspecto fundamental é que esses métodos têm sua origem relacionada à alfabetização das crianças, como exposto anteriormente. Não preveem, em sua fundamentação, o trabalho com a aquisição da leitura e da escrita pelo adulto analfabeto. Em suma, quando transportados à alfabetização de adultos, os métodos adotavam os mesmos princípios usados com as crianças, sem considerar a natureza desse outro tipo de alunado, que carregava consigo experiências de vida, a responsabilidade do trabalho, de seu próprio sustento, assim como o sustento de suas famílias. Para tornar nossos estudos mais didáticos, o Quadro 1 a seguir apresenta uma síntese dos princípios globais dos métodos que apresentamos. 7 Quadro 1 – Síntese dos princípios dos métodos sintético e analítico de alfabetização Créditos: Pranch; mejorana/Shutterstock. Em relação aos métodos apresentados, vale a pena citar uma parábola hindu, que Magda Soares traz em sua obra Alfaletrar: toda criança pode aprender a ler e a escrever. Seis homens cegos tentam descobrir como é um elefante. O primeiro toca a barriga do animal e afirma que ele é como uma parede; o segundo toca a presa e discorda: um elefante é como uma lança; o terceiro toca a tromba e declara que o animal é como uma serpente; o quarto toca a perna e contesta: não, um elefante é como uma árvore; o quinto toca a orelha e defende que ele é como um leque; finalmente, o sexto toca o rabo e assegura que o elefante é como uma corda. Conclusão: cada cego está certo em parte, mas todos estão errados. (Soares, 2021, p. 286) É brilhante a inserção da parábola usada pela autora quando se propõe a apresentar o princípio de cada método, pois “Tal como identificar o elefante, cada cego afirma o que é o animal com base em apenas uma das partes, assim também com cada método de alfabetização” (Soares, 2021, p. 286). Nas explicações sobre os métodos foi possível perceber que estes enfatizam determinado princípio e negligenciam aquele(a) que aprende, em nosso caso, o adulto que vê na escola a perspectiva de aprender a ler e a escrever com autonomia. M ÉT O DO S IN TÉ TI CO • Ênfase na grafia das letras • Prioriza as SÍLABAS • Posteriormente parte para as frases M ÉT O DO A N AL ÍT IC O • Lança mão de palavra- chave como pretexto • Enfatiza o estudo das letras e de seus sons • A ênfase do ensino está nas famílias silábicas • Trabalha com FRASES e não textos 8 TEMA 4 – PARA ALÉM DOS MÉTODOS Quando Paulo Freire surge com os fundamentos do método ativo, inaugura na história da educação no Brasil uma abordagem metodológica voltada ao trabalho com a leitura e a escrita, pensando no adulto não alfabetizado. No sentido de buscar uma aproximação dos estudiosos de Paulo Freire com suas leituras sob diferentes perspectivas de uma mesma obra, Paludo esclarece que: Em Freire, não é possível recriar o método dissociado da teoria que lhe confere significado. Talvez por isso Freire não tenha realizado discussões conceituais isoladas a respeito da palavra “metodologia” e da palavra “método”. […] A proposição do caminho a percorrer e o jeito de caminhar na concretização do trabalho popular requer a compreensão de que a educação, ou a “ação para a liberdade”, envolve o campo cognitivo e estético, mas parte e retorna ao âmbito político e social, daí o conceito de práxis, como movimento articulador do processo prática – teoria – prática – teoria – prática... que se estende indefinidamente. […] Para recriar o método Paulo Freire é necessário, então, que os que trabalham junto dos oprimidos, assumam os pressupostos que permitem construir o caminho e o jeito de fazer, buscando a máxima coerência possível entre a prática realizada e a teoria que lhe confere sentido. (Paludo, citado por Streck; Redin; Zitkoski, 2010, p. 264) Depreende-se que, segundo as explicações anteriores relativas aos métodos de alfabetização, essa abordagem não tem nenhuma relação com o método analítico, anteriormente descrito, e menos ainda com o método sintético. Essa afirmação é feita em virtude de pressupostos que classificam o trabalho de Sugestão de leitura: Alfabetizando sem o BÁ-BE-BI- BO-BU. Autor: Luiz Carlos Cagliari. Esta é uma obra publicada em 1998, que descreve com argumentos críticos os métodos de alfabetização. Propõe uma rigorosa reflexão acerca do panorama do processo de alfabetização e adoção de cartilhas. 9 Paulo Freire na alfabetização como um método analítico, ou da palavração, porque parte da palavra, unidade menor de sentido, para então chegar ao “todo” que são as frases, ou o texto. O exemplo que segue fundamenta a explicação e por reiteradas vezes é encontrado em bibliografias na área da alfabetização; em Carvalho (2011, p. 43) encontramos, pois, a seguinte definição: A metodologia proposta por Paulo Freire também se classifica como palavração, com a importante diferença que as palavras geradoras (palavras-chave) apresentadas ao adulto analfabeto são pesquisadasno universo vocabular deles próprios; devem estar relacionadas com temas geradores de discussão sobre aspectos da vida política e social do Brasil e além disso propiciar a produção de um grande número de palavras novas pela combinação de sílabas das palavras-chave. Em que pese toda a experiência acerca da alfabetização, por parte da pesquisadora acima, é certo que as palavras que sustentam a proposta de Freire não estão em afinidade com a concepção de palavra que propugnava o método analítico (ou da palavração), pois as palavras no universo freireano eram expressão da experiência existencial dos adultos não alfabetizados; assim, não são apresentadas no sentido apenas de alfabetizar, mas com vistas à conscientização. Freire (2011) declara-se incisivamente contra a invenção de sua proposta de alfabetização como um método analítico-sintético; defende, sim, que ele, juntamente com seu grupo de trabalho, retirou o aspecto puramente mecânico da alfabetização, associando-a à “perigosa” conscientização. Freire declara que o trabalhador precisa de muita paciência, depois de uma jornada extenuante de trabalho, para “lições que citam a asa: Pedro viu a asa, A asa é do pássaro, ou as que falam de Evas e as uvas a homens que sabem pouquíssimo sobre Eva e jamais comeram uvas” (Freire, 2005, p. 47). A intenção e o esforço na busca da conscientização ficam revelados nos diferentes círculos de cultura promovidos por Freire e seu grupo de trabalho. Para ilustrar a afirmação destacamos o círculo de cultura desenvolvido no estado do Rio de Janeiro, e aplicado também na Guanabara, em que a palavra geradora eleita foi favela. Na perspectiva da palavra favela outras palavras eram debatidas e analisadas, como habitação, alimentação, vestuário, saúde, educação. Assim, se vê que a palavra constituía muito mais que um elemento gráfico, um pretexto para alfabetizar. Ainda que agregadas ao debate em torno da palavra, estavam inseridas as figuras do pintor Francisco Brenand, refeitas por Vicente de Abreu, como a que 10 apresentamos a seguir. Fonte: Freire, 2011, p. 82. A figura anterior revela que a alfabetização, na perspectiva das bases pedagógicas freireanas, não compartilhava dos pressupostos nos quais se assentavam o método analítico; como esclarece Freire: […] o código é a representação de uma situação existencial, o descodificador tende a passar da representação à situação muito concreta, na qual e com a qual trabalha. Assim é possível explicar, por meio de conceitos, por que os indivíduos começam a portar-se de uma maneira diferente frente à realidade objetiva, uma vez que esta realidade deixou de apresentar-se como um beco sem saída e tomou o seu verdadeiro aspecto; um desafio a que os homens devem responder. (Freire, 2005, p. 36-37) A explicação de Freire assinala que a abordagem da palavra é para problematizar com base em uma situação concreta e existencial, como no caso da palavra favela. A palavra foi refletida de modo problematizador entre 11 professores e alunos, e a decodificação atingiu um nível crítico de conhecimento, tudo isso partindo da experiência que o(a) estudante traz consigo. Então, por meio das bases freireanas, quando esse(a) aluno(a) escreve favela, ele(a) não está apenas representando graficamente uma palavra qualquer, mas percebendo as “relações entre os elementos da codificação e entre os fatos que a situação real apresenta, relações que antes não eram percebidas” (Freire, 2005, p. 36). Por fim, quando se apresenta uma palavra, como as dos exemplos anteriores, apresenta-se um novo entendimento dessa palavra, uma nova forma de o(a) estudante encarar a realidade que a palavra designa. Sem dúvida, não podemos conceber essa palavra como parte diante de todo seu universo impregnado de sentidos e existências. Na obra Alfabetização e letramento, Soares (2013), acerca da alfabetização em Freire, cita que, em vez de Eva e uva, há favelas e tijolos, e essas palavras não contemplam apenas uma “sequência adequada de aprendizagem das relações fonemas-grafemas”; elas carregam consigo o universo social, político e cultural, vislumbrando a tomada de consciência e a superação da consciência ingênua, tornando a escrita reflexiva e reveladora da existência de quem aprende. Os pressupostos da alfabetização em Freire não comungam com a mesma visão de alfabetização em que o método analítico se fundamentava, pois, segundo esse método, as palavras eram pretextos para aquisição da leitura e da grafia. Já em Freire a palavra não é alienada. A palavra nomeia o mundo; é um movimento de expressão. Assim, é pronúncia do mundo, com possibilidade de provocar ações transformadoras. 4.1 Alfabetização é um ato político Com base nos estudos que realizamos até agora podemos afirmar que o processo de alfabetização é um ato político, como o próprio Freire descreve. É um esforço de humanização com vistas a se “tomar posse” da realidade. No viés da “posse da realidade” é que está a conscientização, categoria central do trabalho de Freire, pois a conscientização é o “olhar mais crítico possível da realidade” (Freire, 2005, p. 36). Está claro e evidente o propósito da conscientização no debate da palavra favela, que explicamos anteriormente. No encaminhamento com a palavra, percebe-se o desvelamento para conhecer, e para conhecer os mitos que antecedem o debate crítico em torno da ideia central, pois de favela decorreram 12 outras palavras como habitação, educação, temáticas eminentemente sociais, impregnadas de contradições, que denotam posições contraditórias quando levadas à baila do debate. No interior da rica troca de ideias, como propugnava Freire, acenam-se as possibilidades de que o sujeito se reconheça no objeto e de que, nesse reconhecimento, também se encontre com os outros e com o(a) professor(a), constituindo-se sujeito consciente, tomando a palavra para si, reconhecendo essa palavra no mundo e nas suas relações. Depositamos fé em que todos os saberes gerados pela alfabetização têm por fim a conscientização. Aí assenta-se a essência do trabalho proposto por Freire para a alfabetização de jovens e adultos. É impossível estudar em Freire um método para ensinar o jovem e o adulto a ler e a escrever. Seu propósito era muito mais ambicioso. Seu desejo e seus investimentos estavam voltados para que o sujeito fosse além da informação pura e simples, e a “propósito disto ou daquilo, analisam aspectos de sua própria experiência existencial representada na codificação” (Freire, 2005, p. 36). Nossos estudos revelam a clareza da alfabetização como conscientização. Para ilustrar nossa afirmação apresentamos uma pequena história escrita por Galeano, que poeticamente articula em prosa as ideias de Freire quando retrata: Os pés de Yang Huanyi haviam sido atrofiados na infância. Aos tombos, caminhou pela vida. Morreu no outono de 2004, quando estava a ponto de fazer um século de vida. Era a última conhecedora do Nushu, a linguagem secreta das mulheres chinesas. Esse código feminino vinha de tempos antigos. Expulsas do idioma dos homens, do idioma masculino, que elas não podiam escrever, tinham fundado o seu próprio idioma, clandestino, proibido aos homens. Nascidas para serem analfabetas, tinham inventado seu próprio alfabeto, feito de sinais que simulavam ser adornos e eram indecifráveis aos olhos de seus amos. As mulheres desenhavam suas palavras em roupas e leques. As mãos que bordavam não eram livres. As palavras, sim. (Galeano, 2008, p. 27) A breve e encantadora história revela o princípio central de Freire na promoção da alfabetização: a palavra que liberta. No conto de Galeano as oprimidas são as mulheres que, não tendo acesso à palavra, elas próprias as criam, e nesse processo de criação forjam suas compreensões e, por que não dizer, uma consciência de mundo que até então era permitidasomente ao universo masculino. 13 TEMA 5 – ALFABETIZAÇÃO É CONSICENTIZAÇÃO Os estudos nos conduzem à premissa de que só pode intervir na realidade aquele(a) que conhece, que tem consciência e que, portanto, é capaz de “ultrapassar a esfera espontânea de apreensão da realidade para chegar a uma esfera crítica, na qual a realidade se dá como objeto cognoscível” (Freire, 2005, p. 30). Para essa transição, assim como no enredo da narrativa de Galeano (2008), o sujeito precisa verdadeiramente apropriar-se da palavra, não da palavra alienada, destituída de significado real, mas da palavra cujo teor seja verdadeira expressão da realidade, impregnada de sentido, que conduza ao pensar e, em verdade, leve à necessária conscientização. Para tanto, na condução desse processo, a alfabetização não pode ser “puramente mecânica e assunto só de memória, é preciso conduzir os adultos a conscientizar-se primeiro, para que logo se alfabetizem a si mesmos” (Freire, 2005, p. 26). 14 REFERÊNCIAS BESSE, G.; CAVEING, M. Politzer: princípios fundamentais da filosofia. São Paulo: Hemus, 2002. CAGLIARI, L. C. Alfabetizando sem o BÁ-BE-BI-BO-BU. São Paulo: Scipione, 1998. FREIRE, P. Conscientização: teoria e prática da libertação, uma introdução ao pensamento de Freire. 3. ed. São Paulo: Centauro, 2005. _______. Professor sim, tia não: cartas a quem ousa ensinar. São Paulo: Olho d´Água, 2009. _______. Educação como prática da liberdade. 14. ed. Rio de Janeiro: Paz e terra, 2011. GALEANO, E. Espelhos: uma história quase universal. Porto Alegre: L&PM Editores, 2008. MENDONÇA, O. C. Alfabetização: método sociolinguístico, consciência social, silábica e alfabética em Paulo Freire. São Paulo: Cortez, 2003. MORTATTI, M. do R. 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