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3.2 ESTRUTURA DISCURSIVA A narrativa se constitui em terceira pessoa, com narrador onisciente, o foco narrativo ganha destaque ao converter em palavras os anseios e pensamentos dos personagens, atribuindo verossimilhança a narrativa, pois são personagens com dificuldade de interação devido ao isolamento e a condição econômica e social. O fato de a linguagem ser precária faz com que o narrador empreste sua voz aos personagens, como Fabiano, é o uso do chamado discurso indireto livre, em que muitas vezes o narrador entra na cabeça do Fabiano, ou da Sinha Vitória, e empresta a voz que falta aos personagens. Temos como exemplo do discurso indireto livre o recorte abaixo: “Ele, Fabiano, um bruto, não contava nada. Só queria voltar para junto de sinhá Vitória, deitar-se na cama de varas. Por que vinham bulir com um homem que só queria descansar? Devia bulir com os outros.” (Cap. 3 – Cadeia). A voz parece ser simultaneamente do personagem e do narrador. O espaço em Vidas secas, ainda que escasso, é de fundamental importância, porque o sertão é o lugar de Fabiano. A sua vida e a de sua família se organizam em função da caatinga, das suas condições climáticas e do arbítrio dos donos da terra. Ele integra a paisagem agreste do sertão “como mais uma árvore ou uma pedra”. Fabiano e Sinha Vitória vivem em função da seca, na expectativa de uma desgraça iminente, que os force a novamente enfrentar as longas caminhadas sob o sol que destrói tudo. A paisagem é descrita pela visão que as personagens têm do sertão, por meio das suas reações e sensações, é através delas que o espaço sertanejo nos é apresentado. São visíveis na obra dois recortes espaciais: o ambiente rural e o urbano. Esse recorte é necessário para mostrar às sensações de adequação ou inadequação dos personagens em um ou outro espaço. Graciliano Ramos se expressa principalmente na economia de adjetivos apresentando o estilo seco, que transmite uma aridez no ambiente e seus efeitos sobre as pessoas dali. É perceptível na obra que a seca se transmite para os personagens desde o título, onde se vê um paradoxo quando o adjetivo “secas” que representa escassez/vazio é voltado para o substantivo “vidas” que tem sentindo de abundância. Por sua vez, o tempo se mostra psicológico e circular, os fatos não são apresentados nas ordens em que acontecem com exceção do primeiro e último capítulo, também há uma enfatização nas dimensões mental/emocional dos personagens. Graciliano chama atenção para o drama dos retirantes nordestinos, que se repete ciclicamente (tempo circular), não só na seca, mas das misérias e injustiças sociais que vão passando de geração em geração. "Por pouco que o selvagem pense - e os meus personagens são quase selvagens – o que ele pensa merece anotação." Graciliano Ramos Como figuras principais do livro se tem: Fabiano, representando o homem nordestino pobre, com desejo de sobrevivência, que tem dificuldade de se expressar e acaba entrando em um processo de isolamento, aproximando-se dos animais; o papagaio, mesmo aparecendo na narrativa já morto, expressa a miséria do grupo por ser o único alimento, sendo assim um símbolo do aspecto social econômico e cultural; Sinha Vitória exerce uma ideia de mulher sofrida e desejo, pois sonha em ter sua cama de couro; o filho mais velho tem um papel de apresentar a curiosidade, a dúvida e a vontade de aprender, enquanto o filho mais novo indica a admiração; Baleia além de ser capaz de passar uma noção de ajudar o outro, também reflete a seca e a morte; o Soldado Amarelo é símbolo de repressão e do autoritarismo; o dono da fazenda caracteriza o capital e o latifúndio. O encadeamento das figuras pode ser visto nestes trechos: “A cachorra Baleia estava para morrer. Tinha emagrecido, o pêlo caíra-lhe em vários pontos (...) Então Fabiano resolveu matá-la. (...) Ela era como uma pessoa da família: brincavam juntos os três, para bem dizer não se diferençavam, (...)” (Cap. 9 – Baleia). “Conteve-se, notou que os meninos estavam perto, com certeza iam admirar-se ouvindo-o falar só. (...) O menino estava ficando muito curioso, muito enxerido. Se continuasse assim, metido com o que não era da conta dele, como iria acabar? (...) Seu Tomás da bolandeira falava bem, (...) mas não sabia mandar: pedia. (...)” (Cap. 2 – Fabiano). “Iam-se amodorrando e foram despertados por Baleia, que trazia nos dentes um preá.(...) e o papagaio, que andava furioso,(...) Resolvera de supetão aproveitá-lo como alimento e justificara-se declarando a si mesma que ele era mudo e inútil. (...)” (Cap. 1 – Mudança) “Não se descobriu o erro, e Fabiano perdeu os estribos (...) Trabalhar como negro e nunca arranjar carta de alforria! (...) Bruto, sim senhor, mas sabia respeitar os homens. (...)” (Cap. 10 – Contas). “Como não sabia falar direito, o menino balbuciava expressões complicadas, repetia as sílabas, imitava os berros dos animais, o barulho do vento, o som dos galhos eu rangiam na catinga, roçando-se. (...)” (Cap.6 – O Menino Mais Velho). Exibindo a situação de muitas famílias nordestinas, a obra revela o constante sofrimento ligado a seca e o abuso do poder do governo, evidenciando os temas, perseguição e injustiça social. É visto também no livro o desejo de Fabiano e de Sinha Vitória de ir para o sul em busca de melhores condições de vida, sendo estampado nos trechos: “Afastou-se, inquieto. Vendo-o acanalhado e ordeiro, o soldado ganhou coragem, avançou, pisou firme, perguntou o caminho. E Fabiano tirou o chapéu de couro. “Governo é governo”.” (Cap. 11 – O Soldado Amarelo). “Não voltariam nunca mais, resistiriam à saudade que ataca os sertanejos na mata. (...) Fixar-se-iam muito longe, adotariam costumes diferentes. Fabiano ouviu os sonhos da mulher, deslumbrado, (...) Pouco a pouco uma vida nova, ainda confusa, se foi esboçando. (...) O sertão mandaria para a cidade homens fortes, brutos, como Fabiano, Sinha Vitória e os dois meninos.” (Cap. 13 – Fuga). Retratando fielmente a realidade brasileira, tanto na época em que o livro foi escrito, quanto dos dias de hoje, tais temas como drama do nordestino retirante, tangido pela seca e pela miséria, são relatados ao decorrer da obra, tendo como temas decorrentes dos primeiros: êxodo rural, injustiça social, opressão, marginalização social, miséria e fome, o que nos reflete a ideia de que o homem se animalizou sob condições sub-humanas de sobrevivência. O livro só precisaria do primeiro capítulo e o último para sintetizar suas intenções, o ciclo vivido de geração a geração pelos viventes na seca. Com foco em retratar a injustiça social, Graciliano não peca e faz uma obra muito verossimilhante. Mesmo sendo feita com os capítulos independentes, não se articulando formalmente com bastante firmeza e segurança, apresenta uma perfeita unidade, com harmonia interior. Talvez a única crítica negativa a ser feita, seria o excesso de introspecção em personagens que são primários e rústicos, fazendo um livro de monólogos interiores, que, contudo, mostram a realidade em uma mente de um retirante nordestino. Há de ser elogiado também como o autor expressa uma terra nordestina áspera, dura e cruel, sem deixar de ser amada pelos que ali estão. Mostrando um lado bem humano, sentimental e compreensivo sobre Fabiano e sua família, talvez o autor se identifique com os personagens e a desgraça nordestina por ter nascido em Alagoas e ter vivido em várias cidades do nordeste. REFERENCIAS https://www.youtube.com/watch?v=PEl96GfBECo http://lorennabraga.blogspot.com.br/p/analise-do-romance-vidas-secas-de.html?m=1 http://www.coladaweb.com/literatura/vidas-secas-analise http://linguaportuguesanosale.blogspot.com.br/2007/06/como-escrevi-vidas-secas.html