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1 P R O P A G A N D A P O LÍ TI C A - G R U P O P R O M IN A S 2 P R O P A G A N D A P O LÍ TI C A - G R U P O P R O M IN A S 3 P R O P A G A N D A P O LÍ TI C A - G R U P O P R O M IN A S Núcleo de Educação a Distância GRUPO PROMINAS DE EDUCAÇÃO Diagramação: Rhanya Vitória M. R. Cupertino Revisão Ortográfica: Mariana Moreira de Carvalho PRESIDENTE: Valdir Valério, Diretor Executivo: Dr. Willian Ferreira. O Grupo Educacional Prominas é uma referência no cenário educacional e com ações voltadas para a formação de profissionais capazes de se destacar no mercado de trabalho. O Grupo Prominas investe em tecnologia, inovação e conhecimento. Tudo isso é responsável por fomentar a expansão e consolidar a responsabilidade de promover a aprendizagem. 4 P R O P A G A N D A P O LÍ TI C A - G R U P O P R O M IN A S Prezado(a) Pós-Graduando(a), Seja muito bem-vindo(a) ao nosso Grupo Educacional! Inicialmente, gostaríamos de agradecê-lo(a) pela confiança em nós depositada. Temos a convicção absoluta que você não irá se decepcionar pela sua escolha, pois nos comprometemos a superar as suas expectativas. A educação deve ser sempre o pilar para consolidação de uma nação soberana, democrática, crítica, reflexiva, acolhedora e integra- dora. Além disso, a educação é a maneira mais nobre de promover a ascensão social e econômica da população de um país. Durante o seu curso de graduação você teve a oportunida- de de conhecer e estudar uma grande diversidade de conteúdos. Foi um momento de consolidação e amadurecimento de suas escolhas pessoais e profissionais. Agora, na Pós-Graduação, as expectativas e objetivos são outros. É o momento de você complementar a sua formação acadêmi- ca, se atualizar, incorporar novas competências e técnicas, desenvolver um novo perfil profissional, objetivando o aprimoramento para sua atu- ação no concorrido mercado do trabalho. E, certamente, será um passo importante para quem deseja ingressar como docente no ensino supe- rior e se qualificar ainda mais para o magistério nos demais níveis de ensino. E o propósito do nosso Grupo Educacional é ajudá-lo(a) nessa jornada! Conte conosco, pois nós acreditamos em seu potencial. Vamos juntos nessa maravilhosa viagem que é a construção de novos conhecimentos. Um abraço, Grupo Prominas - Educação e Tecnologia 5 P R O P A G A N D A P O LÍ TI C A - G R U P O P R O M IN A S 6 P R O P A G A N D A P O LÍ TI C A - G R U P O P R O M IN A S Olá, acadêmico(a) do ensino a distância do Grupo Prominas! É um prazer tê-lo em nossa instituição! Saiba que sua escolha é sinal de prestígio e consideração. Quero lhe parabenizar pela dispo- sição ao aprendizado e autodesenvolvimento. No ensino a distância é você quem administra o tempo de estudo. Por isso, ele exige perseve- rança, disciplina e organização. Este material, bem como as outras ferramentas do curso (como as aulas em vídeo, atividades, fóruns, etc.), foi projetado visando a sua preparação nessa jornada rumo ao sucesso profissional. Todo conteúdo foi elaborado para auxiliá-lo nessa tarefa, proporcionado um estudo de qualidade e com foco nas exigências do mercado de trabalho. Estude bastante e um grande abraço! Professora: Ludimilla Dowuettes 7 P R O P A G A N D A P O LÍ TI C A - G R U P O P R O M IN A S O texto abaixo das tags são informações de apoio para você ao longo dos seus estudos. Cada conteúdo é preprarado focando em téc- nicas de aprendizagem que contribuem no seu processo de busca pela conhecimento. Cada uma dessas tags, é focada especificadamente em partes importantes dos materiais aqui apresentados. Lembre-se que, cada in- formação obtida atráves do seu curso, será o ponto de partida rumo ao seu sucesso profisisional. 8 P R O P A G A N D A P O LÍ TI C A - G R U P O P R O M IN A S Esta unidade analisará o que se compreende como propa- ganda política. Esmiuçando quais foram os primórdios das movimen- tações políticas que traziam o intuito de expandir e divulgar ideias políticas, poderemos alcançar uma análise histórica da formação da propaganda política e seu alcance sobre a população. Com isso em mente, é possível destacar momentos-chave nas transformações da propaganda política através da história, concomitante com as evolu- ções tecnológicas de cada era. Vale ressaltar a extensa contribuição do governo nazista na Alemanha, que revolucionou a forma de se fa- zer propaganda política. Por último, cabe analisar como todas as face- tas propagandísticas se instauraram no Brasil, desde os domínios de Portugal até recentemente, com o advento das redes sociais pautadas nas constantes evoluções tecnológicas alcançadas pela sociedade. Propaganda. Política. História. Tecnologia. 9 P R O P A G A N D A P O LÍ TI C A - G R U P O P R O M IN A S CAPÍTULO 01 HISTÓRIA DA PROPAGANDA POLÍTICA Apresentação do Módulo ______________________________________ 11 13 53 21 Memória Oral __________________________________________________ A Propaganda como Força Política para o surgimento do Nazismo _ O Advento da Mídia Impressa ____________________________________ CAPÍTULO 02 O CASO DO NAZISMO Contexto Histórico _____________________________________________ 44 39Recapitulando ________________________________________________ A Propaganda do Inimigo ______________________________________ 60 31 35 Rádio e Televisão ______________________________________________ A Explosão Tecnológica e a Internet _____________________________ 56A Propaganda como Legitimadora do Nazismo _________________ Recapitulando _________________________________________________ 65 CAPÍTULO 03 PROPAGANDA POLÍTICA NO BRASIL A Experiência na Colônia _____________________________________ 72 10 P R O P A G A N D A P O LÍ TI C A - G R U P O P R O M IN A S O Caso da Independência _______________________________________ A Propaganda Política na Era da Informação _____________________ A Propaganda na Era Vargas _____________________________________ 75 87 79 A Propaganda durante os Reinados ______________________________ Recapitulando __________________________________________________ Propaganda durante o Regime Civil Militar _______________________ Fechando a Unidade ____________________________________________ 76 90 82 97 A Propaganda Republicana _____________________________________ Considerações Finais ____________________________________________ A Propaganda com a Redemocratização _________________________ Referências _____________________________________________________ 78 95 86 100 11 P R O P A G A N D A P O LÍ TI C A - G R U P O P R O M IN A S No ramo da política, diversas são as facetas que se cruzam para levar as ideias de uma pessoa à outra. Essa forma dialética de se objeti- var a transmissão do pensamento e das ideias tomou proporções muito grandes quando o ser humano compreendeu que, através de certos mé- todos, poderia atingir muitas outras pessoas e disseminar seu conheci- mento. Surgia aí a propaganda, em especial, a propaganda política. A propaganda política serviu historicamente a diversas atribui- ções diferentes: já foi utilizada para transmitir ideias, mesmo que de forma oral, no tradicional método “boca a boca”. Já foi utilizada tam- bém para defender posições políticas, como é comum nos horários de propaganda eleitoral que vemos bianualmente na televisão brasileira, onde os candidatos a cargos eleitorais aparecem em rede nacional para defender seu partido e seus pontos de vista, mostrando-se como opção acertada por parte do eleitor para defender os interesses da sociedade. Para além, a propaganda política também já serviu de legitimadora de governos, sejam eles eticamente considerados bons ou ruins. Atrocida- des e heroísmos já foram trabalhados sob o olhar da propaganda polí- tica, cujoM IN A S ressaltada pelos recursos verbais e não verbais utilizados nessa propaganda da SOS Mata Atlântica. No texto, a relação entre esses recursos: a) condiciona o entendimento das ações da SOS Mata Atlântica. b) estabelece contraste de informações na propaganda. c) é fundamental para a compreensão do significado da mensagem. d) oferece diferentes opções de desenvolvimento temático. e) propõe a eliminação do desmatamento como suficiente para a pre- servação ambiental. QUESTÃO 4 Ano: 2018 Banca: CESPE Órgão: ABIN Prova: Oficial de Inteligên- cia – Área 3 Nível: Superior. No que se refere à representação política, julgue o item seguinte: Dentro da teoria da representação, a defesa de uma política de pre- sença em vez de uma política de ideias busca evidenciar os pro- blemas de exclusão política vividos por grupos minoritários nos espaços de representação política. c) Certo. e) Errado. QUESTÃO 5 Ano: 2016 Banca: FCM Órgão: IF Farroupilha - RS Prova: Docente – Sociologia Nível: Superior. Antonio Gramsci (1976), na obra “Maquiavel, a Política e o Estado Moderno”, parte do princípio de que Maquiavel, em “O Príncipe”, representou nas concepções e intervenções políticas de sua época uma ação política positiva. Dessa forma, Gramsci parte das ideias de Maquiavel para problematizar os seguintes conceitos, EXCETO: a) Natureza humana: é o conjunto de relações sociais historicamente determinadas, isto é, um fato histórico comprovável. b) Partido Político: é a primeira célula na qual se aglomeram os germes de vontade coletiva que tendem a se tornar universais e totais. c) Espírito Estatal: pressupõe a descontinuidade, tanto no que se refere ao passado, à tradição, como no que se refere ao presente, isto é, pressupõe cada ato como um momento estanque, já iniciado e que se extinguirá. d) Mito-Príncipe: é um organismo e um elemento complexo de socieda- de no qual já se tenha iniciado a concretização de uma vontade política reconhecida e fundamentada parcialmente na ação. Esse organismo já é determinado pelo desenvolvimento histórico. e) Paixão Política: é um impulso imediato à ação que nasce no terre- no permanente e orgânico da vida econômica, mas o supera, fazendo 42 P R O P A G A N D A P O LÍ TI C A - G R U P O P R O M IN A S entrar em jogo sentimentos e aspirações em cuja atmosfera o próprio cálculo da vida humana individual obedece a leis diversas daquelas de proveito individual. QUESTÃO DISSERTATIVA– DISSERTANDO A UNIDADE Pudemos perceber que a oralidade, a imprensa escrita, a mídia falada e a mídia audiovisual, além da internet, todas tiveram importância elevada para a efetivação da propaganda política de todas as sociedades. Assim sendo, no tocante à mídia impressa e escrita, cite suas categorias. TREINO INÉDITO Prática popular no Brasil até os dias de hoje, que coloca em evi- dência o papel da mídia escrita como veículo importante para a propaganda política, mormente no fator eleitoral. a) Publicação em redes sociais. b) Livro de literatura. c) Jornal impresso. d) Panfleto chamado santinho. e) Horário eleitoral gratuito. NA MÍDIA PROPAGANDA IRREGULAR EM REDE SOCIAL GERA APLICAÇÃO DE MULTA O Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo (TRE-SP), ontem (25/4), em decisão unânime, reformou sentença de primeiro grau e aplicou multa de R$ 5.000 ao candidato a prefeito de Ribeirão Pires, Humberto D’Orto Neto, na eleição suplementar de 2022, por divulgação de propaganda eleitoral no Facebook. Conforme a decisão, D’Orto Neto não informou no prazo correto o endereço do seu perfil na rede social, contrariando a legislação. Segundo registrado no processo, a página do Facebook somente foi informada na data em que o candidato foi notificado da ação. No enten- dimento do relator, juiz Marcio Kayatt, a regularização tardia não atende ao objetivo da lei, que é o controle de eventuais irregularidades na pro- paganda eleitoral na internet, razão pela qual foi aplicada a multa. A comunicação dos endereços eletrônicos utilizados na propaganda eleitoral está prevista no artigo 57-B, da Lei 9.504/97, que estabelece normas para as eleições. Fonte: TER-SP Data: 26/06/2023 Leia a notícia na íntegra: https://www.tre-sp.jus.br/comunicacao/noti- cias/2023/Abril/tribunal-aplica-multa-por-propaganda-irregular-em-re- de-social 43 P R O P A G A N D A P O LÍ TI C A - G R U P O P R O M IN A S NA PRÁTICA Neste capítulo, tratamos das mais diversas formas de se fazer propa- ganda política durante a história. Passamos pela história e memória oral, com a tradição, pela mídia escrita com a literatura, os jornais e os panfletos etc., também pelo rádio e pela televisão para, afinal, adentrar- mos nas recentes excursões políticas pela internet. Nesse ínterim, po- demos perceber a influência de cada um desses modelos nas campa- nhas eleitorais e no cotidiano de qualquer sociedade histórica. No caso prático, podemos usar como exemplo as eleições de 2018 no Brasil, nas quais se fizeram presentes todos os modelos acima mencionados. Havia, no âmbito de defender os candidatos, conversas entre os elei- tores para convencer os indecisos e defensores de outros candidatos, houve propaganda explícita nos grandes jornais, nos santinhos, em pro- gramas de rádio e na televisão. A grande mudança foi a importância da internet, que dessa vez foi dominante como maior centro da propagan- da política por todos os candidatos que disputaram o pleito. PARA SABER MAIS Filmes sobre o assunto: 1 - Alexandre, o Grande (Oliver Stone, 2004) 2 - Sócrates (Luce, 1971) 3 - Gutenberg e o nascimento da impressão (Marc Jampolsky, 2017) Acesse os links: http://www.each.usp.br/gephom/ e http://observatorio- daimprensa.com.br/ 44 P R O P A G A N D A P O LÍ TI C A - G R U P O P R O M IN A S CONTEXTO HISTÓRICO No capítulo anterior, avançamos na compreensão de como a propaganda política se ramificou de acordo com as tecnologias de cada era. Assim, no início, se deu por tradição e oralidade, em seguida se aten- tou mais para a questão da propaganda escrita, por conta dos avanços da mídia impressa e da máquina de prensa criada por Gutenberg. Os ad- ventos do rádio e da televisão novamente transformaram a concepção de propaganda política, que cada vez mais absorvia as antigas estratégias ao mesmo tempo em que se adaptava às novas. Com a chegada da in- ternet, a propaganda política alcançou o seu estágio atual, em que a rede de conexão figura como preponderante em relação às outras, porém sem O CASO DO NAZISMO 44 P R O P A G A N D A P O LÍ TI C A - G R U P O P R O M IN A S 45 P R O P A G A N D A P O LÍ TI C A - G R U P O P R O M IN A S soberania absoluta, posto que as antigas medidas de propaganda política nunca deixaram de ser utilizadas, ainda que mais remotamente. Neste capítulo, entretanto, iremos nos aprofundar sobre um caso muito especial, ocorrido entre os anos 1930 e 1940, em que a tec- nologia, a política e a propaganda andaram juntas. Trata-se de um caso de grande repercussão mundial e de grande marca na história da hu- manidade, com sequelas até hoje sentidas. Nesse caso, a propaganda figurou como uma das principais agentes, em diversas fases distintas que serão analisadas a seguir, com o intuito de atingir as massas. Estamos falando, claramente, do regime nazista, que esteve no poder na Alemanha de 1933 até o final da Segunda Guerra Mundial, em 1945. Foi na Alemanha de Hitler que avanços muito grandes foram percebidos no âmbito da propaganda política e de sua predominância no controle das massas. Diversas inovações surgiram nesse período, seja na esfera oral, escrita ou audiovisual. Tamanha inovação e utili- zação da propaganda política merecem maior destaque, pois o caso nazista é muito peculiar no que concerne à explicação de diversas cir- cunstâncias nas quais foi evocada. Antes, porém, é necessário situar a Alemanha dentro do contexto dos anos em que surge, se mantém e se destrói o regime nacional-socia-lista. O princípio dessa história remonta a raízes medievais, o que tornaria qualquer explicação historiográfica muito demorada e cansativa. Contudo, é possível compreender grande parte da história mundial deste período, tratando como ponto de partida o final da Primeira Guerra Mundial. Após o final do primeiro conflito de escala global, a Tríplice Entente (acordo firmado entre a Rússia – que após a revolução de 1917 viria a sair do firmado –, a França e a Inglaterra) saiu vitoriosa frente à Tríplice Aliança, formada pela Itália, a Alemanha e o império Austro-hún- garo. A pesada derrota na guerra e o amplo quadro de destruição em que se encontrou a Europa após o conflito, levaram seus líderes a se reunirem para tratar do mundo pós-guerra (Evans, 2017). Figura 12 - Alemanha pós-Primeira Guerra Mundial Fonte: Portal J. Lourenço 46 P R O P A G A N D A P O LÍ TI C A - G R U P O P R O M IN A S Em 1919, é ratificado o tratado de Versalhes, na França, que colocava um fim oficial à guerra e também imputava o débito pelos prejuízos causados no conflito. Esse débito foi colocado na conta da Alemanha, que sofreu fortes sanções também. Responsabilizada pelos danos causados, de forma única, além da estratosférica indenização financeira, a Alemanha ainda deveria cumprir alguns requisitos, dentre eles, não poder constituir aeronáutica, não poder formar um exército com mais de cem mil soldados, proibição de fabricar material bélico, redução da força naval para um efetivo de quinze marinheiros, além das questões territoriais, das quais se destacam ter entregue cidades e territórios para controle da Bélgica, da Polônia, da Prússia Ocidental, da França e até para a Liga das Nações (Evans, 2017). As consequências para a Alemanha foram catastróficas. O país não tinha dinheiro, pois praticamente toda sua arrecadação ia para quitar as dívidas de guerra; sem dinheiro, não havia investimento de empresas, o que gerava desemprego. O desemprego gerava a fome, a fome gerava a miséria e assim sucessivamente. Em 1923, a inflação na Alemanha alcançou um índice de 29.500% por mês. Os produtos dobravam de preço duas vezes por semana, a moeda alemã não se va- lorizava então perdia potencial aquisitivo frente ao estrondoso aumento de valor das coisas (Fest, 2005). No âmbito da justiça, foi promulgada a Constituição de Weimar, em 1919. O curioso desta constituição é que atualmente ela é conside- rada uma das melhores de sua época, pois abarcava alguns direitos individuais e trazia uma inovação – ao lado da Constituição Mexicana de 1917 – para sua época: a presença de direitos trabalhistas. No âmbito político e social, porém, a situação era desolado- ra. O tratado de Versalhes deixou marcas nessa Alemanha pós-guerra que geraram crises fortíssimas. Diversas tentativas de golpes de Estado ocorreram nesse tempo, a mais famosa envolveu o próprio Hitler, que ficaria preso por alguns anos e durante esse tempo teria escrito sua famosa obra, Minha Luta. As camadas sociais conflitavam, o colapso da política alemã se consumia a cada dia, pois era impossível de se controlar a população revol- tada. Grupos extremistas passavam a fazer passeatas e discursos na rua proferindo seu ódio contra o governo e contra a atual situação alemã. Entre 1929, com a quebra da bolsa de Nova Iorque, e em 1933 com a ascensão do nazismo ao poder, estima-se que mais de 9 milhões de trabalhadores alemães passaram para as listas de desempregados, de uma população que em 1925 se estimava em 62 milhões de habitantes. O desemprego, então, atingiu praticamente 15% da população do país (Fest, 2005). Essa instabilidade em todos os setores – político, econômico e 47 P R O P A G A N D A P O LÍ TI C A - G R U P O P R O M IN A S social – permitiu, como já falamos, o surgimento de muitos agrupamen- tos políticos, alguns de viés extremista, com vista à ascensão ao poder. Os mais diversos grupos com as mais diversas ideologias bradavam nas ruas que se assumissem o poder, poderiam dar cabo da grave crise e retomar a Alemanha aos trilhos e brilhos de um passado não muito distante (Evans, 2017). As disputas ideológicas levavam a muitos conflitos nas ruas: comunistas contra nacional-socialistas, grupos de direita contra grupos de esquerda, e assim criou-se um cenário de guerra durante a década de 1920. Esse clima de grande insegurança e instabilidade permitiu o surgimento de um partido com viés muito nacionalista, que discursava a respeito de geração de renda, volta do orgulho nacional e bradava con- tra o capitalismo e contra os países, que em sua concepção, levaram a Alemanha à ruina: Inglaterra e França (Evans, 2017). Nas fileiras desse partido, encontrava-se um membro, nascido na Áustria, que quando jovem tinha pretensões de ser artista. Um jovem que havia lutado na Primeira Guerra Mundial nas trincheiras alemãs, sobrevivido, mas visto as catástrofes e o terror que a guerra imputava aos alemães. Alguém que havia vivido na pele a ampla crise que se instaurou em sua nação após a guerra perdida. Trata-se de Adolf Hitler. O jovem Hitler, já não tão jovem assim, incurso no partido na- cional-socialista, era portador de uma habilidade retórica muito grande. Nos bares, clubes e nas ruas de Munique, onde passou a morar depois de sair de Viena, discursava bradando contra os ingleses e os franceses a situação catastrófica da Alemanha e contra, principalmente, os judeus (Kershaw, 2010). Hitler (Centauro, 2001) enxergava nos judeus uma grande conspiração contra a Alemanha – e o mundo. Acreditava serem os ju- deus responsáveis por muitas desgraças ocorridas na história, e que eram eles que controlavam o mercado, pois as grandes instituições fi- nanceiras, os grandes bancos, eram mantidos por judeus. Assim, nos discursos de Hitler, que foram ganhando força com o passar dos anos, o ódio aos judeus e aos inimigos da nação alemã eram estimulados. A Alemanha deveria voltar aos seus tempos áureos se fosse um Estado forte, de alemães para alemães, com a expulsão dos judeus e uma forte política interna, para assim poder se recuperar econômica e politicamente (Kershaw, 2010). 48 P R O P A G A N D A P O LÍ TI C A - G R U P O P R O M IN A S Figura 13 - Exército Nazista Fonte: Autor Desconhecido, 1923 – Wikipedia O discurso de Hitler e do partido nazista passa a ganhar eco, e em 1924 arriscam um putsch contra o governo alemão na região da Ba- viera, região da Alemanha em que se situa Munique, inspirado na mar- cha sobre Roma liderada por Mussolini, na Itália, e que terminou com o partido fascista no poder. O golpe de Estado falha, alguns morrem, e outros são presos. Dentre eles, Hitler (Fest, 2005). O nome do partido nazista é pivô de muitas discussões atu- ais sobre o seu viés político. Em alemão, o partido nazista usava a sigla de NSDAP, que significa algo como, em uma tradução simples, Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães. A grafia de Nacional-Socialista, em alemão, levava a uma sonoridade que ao ser falada parecia a palavra “nazi”, daí deriva a junção para nazismo. Apesar do nome socialista, as medidas adotadas pelo na- zismo estão longe de tal ideologia política. No início do partido, ha- via duas correntes: uma mais trabalhista e socialista e outra mais nacionalista. Prevaleceu a última, adotada por Hitler, extirpando boa parte dos seguidores socialistas que se vincularam ao partido. Em suma, é muito difícil incorporar o regime nazista entre esquerda e direita política. Durante seu governo, muitas medidas foram adotadas que seguiam as linhas de um lado político ou outro. Alguns historiadores têm insistido numa corrente em que não se pode associar um regime totalitário à esquerda ou à direita, uma vez que a própria essência do regime totalitário se coloca aci- ma dessa divisão ideológica. O que se pode falar, é que um regime totalitário tendia com algumas medidas mais à direita, como foi o caso do nazismoe do fascismo italiano; enquanto outros tendiam 49 P R O P A G A N D A P O LÍ TI C A - G R U P O P R O M IN A S a medidas mais à esquerda, caso da União Soviética sob a tutela de Stalin, por exemplo. Na cadeia, Hitler pôde escrever sua obra, Minha Luta, em cuja primeira parte comenta a respeito de sua vida, em caráter bem autobio- gráfico, mas na segunda comenta sobre suas aspirações políticas, so- bre a situação da Alemanha na guerra, sobre a política de seus tempos e sobre seu antissemitismo. Figura 14 - Minha Luta, obra de Hitler Fonte: Autor Desconhecido, 1939 – Wikipedia Nove meses foi o tempo que Hitler ficou na cadeia. Ao sair, per- cebe que tem mais poder dentro do seu partido e usufrui desse poder para distribuir funções dentro do partido nazista com vistas a angariar seguidores em toda a Alemanha, uma vez que a ala forte do partido se encontrava na Baviera (Fest, 2005). Os anos passam e os reiterados discursos de Hitler e seus cor- religionários passam a ganhar mais suporte. A situação da Alemanha se deteriora ainda mais com a quebra da bolsa americana, em 1929. Se a Alemanha já vinha de uma década de crise, com o final da Primeira Guerra Mundial, a quebra da bolsa é praticamente o golpe de martírio em qualquer esperança alemã. Há ainda mais desemprego, a crise se agrava, não há mais produção de muitos bens, o que gera uma lacuna no mercado. Os produtos são caros e não chegam para todos (Evans, 2017). A República de Weimar consegue, com muito esforço, manter o status quo sob a tutela de von Hindenburg, que havia sido general alemão na Primeira Guerra Mundial (Hobsbawm, 1995). Hindenburg não era muito fã de Hitler, entretanto, a deterioração do quadro alemão com a crise in- terminável e o agravamento pós-crise de 1929, além da pressão política exercida pelo partido nazista, que cada vez mais crescia com uma figura de Hitler que começava a ganhar os holofotes políticos da nação, fizeram 50 P R O P A G A N D A P O LÍ TI C A - G R U P O P R O M IN A S com que, em 1933, Hitler fosse nomeado chanceler alemão (Evans, 2017). A pressão política do nazismo, que surgia com um quadro forte no âmbito político, fez com que Hindenburg também concedesse duas demandas ao partido do nazismo e a Hitler: uma para suspender al- guns direitos civis e outra que concedia a Hitler, via parlamento, poderes legislativos. Pouco depois, Hindenburg morre. Hitler, dotado de poder legislativo e ampla força na nova política alemã, se declara chefe de Estado, presidente e chanceler, em suma, o Führer. Em janeiro de 1933, o nazismo chega ao poder (Fest, 2005, Kershaw, 2014). Figura 15 - Adolf Hitler Fonte: Portal Ecos da Segunda Guerra Com o poder em mãos, Hitler providencia grandes alterações no quadro social, político e econômico da Alemanha. Há uma estatiza- ção de muitos meios de produção e o Estado passa a produzir diver- sas obras públicas com vistas a recuperar-se economicamente. Há um grande plano do governo nazista para a redução do desemprego, que consistia em empregar os alemães para trabalhar nas obras públicas que seriam bancadas pelo governo (Fest, 2005). O plano dá certo e o desemprego cai drasticamente na Alemanha, que começa, aos poucos, a se recuperar economicamente. Concomitante a isso, todos os grupos sociais minoritários que eram execrados pelo dis- curso nazista começam a sofrer represálias e perseguições (Fest, 2005). O intervencionismo se instaura economicamente, com o objeti- vo de estancar a grave crise econômica dos últimos anos e na tentativa de reverter os efeitos da quebra da bolsa americana. As medidas na- zistas tiveram êxito. Até 1936, a indústria voltou a crescer por volta de 17% e o PIB alemão acelerou numa média de 9% ao ano (Fest, 2005, Kershaw, 2014 e Evans, 2014). O governo nazista implementou um programa de estímulo para as empresas privadas, com isenções fiscais, para ajudar a combater o desemprego, aliado ao programa das obras públicas. Houve uma rees- truturação nas forças armadas também, pois Hitler quebrou acordos do 51 P R O P A G A N D A P O LÍ TI C A - G R U P O P R O M IN A S tratado de Versalhes e voltou a armar a nação. O desemprego cai ainda mais com a reforma das forças armadas, pois o alistamento no exército, na marinha ou na recém-criada Luftwaffe gerava emprego para o ale- mão (Fest, 2005). A inflação foi controlada e a partir de 1936, a Alema- nha volta a mostrar uma austeridade financeira e política que não era vista há algumas décadas. No campo político, tal estabilidade e austeridade se dá por am- plo aparelhamento estatal do partido nazista. Muitas instituições pas- sam a ser controladas pelo partido, que instaura uma política de forte nacionalismo e lealdade ao partido nazista (Evans, 2014). Há a polícia política e a SS para controlar os ânimos da popu- lação e para manter as camadas sociais sob a tutela do partido nazista. No âmbito da propaganda, com Goebbels, há a estruturação de uma forte e durável campanha com vistas a mostrar as qualidades da nova Alemanha, do partido nazista e de Hitler, além de vincular imagens ne- gativas contra os famigerados inimigos da nação (Evans, 2014). Figura 16 - GESTAPO Fonte: Portal Aventuras na História Externamente, a Alemanha volta a mostrar suas garras. Com algumas medidas inteligentes e ousadas de Hitler, a Alemanha conse- gue a anexação de territórios que havia perdido. Com alguma habilida- de política, consegue contornar o fato de ter retomado a estrutura bélica de sua nação (Fest, 2005). A sede de poder dos alemães, o orgulho nacional e a força bélica que novamente se compõe, permitem que a Alemanha seja cada vez mais ousada nos seus objetivos de anexação e incorporação ao Estado. Em setembro de 1939, Hitler ordena a invasão da Polônia, para recuperação de territórios perdidos na Primeira Guerra Mundial. Deste- mido, acreditava que o tratado que a Polônia tinha com França e Ingla- terra – que em caso de ser invadida, obrigaria tais nações a apoiá-la e a declarar guerra contra o invasor – não seriam aceitas, em vista das re- centes atitudes da França e da Inglaterra em optar pela diplomacia para 52 P R O P A G A N D A P O LÍ TI C A - G R U P O P R O M IN A S resolver a expansão alemã, contra um novo conflito bélico. Mas era a gota d’água. França e Inglaterra declaram guerra e se inicia a Segunda Guerra Mundial. (Evans, 2014) A reestruturação bélica da Alemanha gerou uma inovação no seu modo de fazer guerra. A Blitzkrieg, estratégia que a Alemanha uti- liza na guerra, consistente em avanços rápidos de tanques e pelotões, precedidos por bombardeios da Luftwaffe, permitem um rápido avanço territorial das tropas alemãs (Jordan, 2010). Figura 17 - Blitzkrieg Fonte: Portal Western Front World War II Um ano após o início da guerra, a França capitula e Hitler mar- cha sobre Paris. Os Estados Unidos, cautelosos, não entram na guerra. Hitler, apesar do seu ódio ao comunismo, havia esboçado um acordo de não-agressão com a União Soviética de Stalin, permitindo o foco na guer- ra do ocidente. Com a conquista da Inglaterra, a guerra poderia chegar ao seu fim rapidamente, mas não é isso que ocorre (Jordan, 2010). Hitler avança sobre a Inglaterra, mas perde sucessivas batalhas pelo ar, o que inviabiliza a ação de sua Blitzkrieg. Decide então por abrir uma nova frente de batalha no Leste, em 1941, avançando sobre a União Soviética. Surpreendendo Stalin, as tropas nazistas avançam rapidamente sobre a União Soviética, chegando às portas de Moscou. O inverno russo, entretanto, além da falta de logística da Alemanha e o forte envolvimento nacional dos soldados soviéticos, acarretam sucessivas derrotas aos ale- mães, que passam a ser reprimidos da União Soviética (Evans, 2014). 53 P R O P A G A N D A P O LÍ TI C A - G R U P O P R O M IN A S Figura 18 - Berlim vencida Fonte: YEVGUENI JALDÉI, 1945 Do outro lado do mundo, em 1942,os japoneses, aliados da Alemanha na empreitada da guerra, atacam a base americana de Pearl Harbor, no Havaí. Roosevelt declara a entrada dos americanos no con- flito. A partir de então, sucessivas derrotas vão comprimindo o exército alemão, que vai recuando até Berlim. Em agosto de 1945, a guerra chega ao fim, com o avanço das tropas soviéticas pelo Leste e inglesas e americanas pelo Oeste até Berlim (Evans, 2017b). Nesse ínterim, são descobertas as atrocidades que o regime nazista imputou aos judeus e a outras raças minoritárias. São expostos os campos de concentração e os ideais de eugenia e soberania da raça ariana intencionados pelo partido nazista, algo que choca todo o mundo (Evans, 2017b). Hitler se suicida e a Alemanha capitula. A Alemanha, em ruínas, retorna ao patamar já visto em 1919. Ecoa a frase de Marx sobre a histó- ria se repetir, primeiro como tragédia, depois como farsa (Evans, 2017b). A PROPAGANDA COMO FORÇA POLÍTICA PARA O SURGIMENTO DO NAZISMO Como pudemos observar, diversos fatores contribuíram para a ascensão do nazismo ao poder. A grande crise que acometeu todas as camadas da política e da economia alemã, o estado de miséria após o tra- tado de Versalhes e a falta de espírito nacional do povo alemão, submetiam ao quadro de miséria generalizada sem que houvesse forças para reação. Todavia, para alcançar o poder, o partido nazista necessitou de uma ampla propaganda que garantisse eco aos seus discursos, permi- tisse o acesso da população às suas ideias, e tudo isso com escassos recursos financeiros, pois, como vimos, a Alemanha atravessava um momento de crise sem precedentes. Assim, de início, o partido praticamente angariava seguidores 54 P R O P A G A N D A P O LÍ TI C A - G R U P O P R O M IN A S através de palestras proferidas em clubes, nas ruas e em bares, onde aglomeravam-se as pessoas para ouvir as mais diversas ideias. Foi nesse ambiente que Hitler começou a ganhar prestígio, pois, o até en- tão desconhecido cabo veterano da Primeira Guerra Mundial tinha uma grande retórica e conseguia segurar a atenção de seus interlocutores com facilidade (Fest, 2005). Seus primeiros discursos para pouquíssimas pessoas, logo fo- ram aumentando de importância e trazendo mais pessoas interessadas em ouvir a respeito do seu antissemitismo, dos seus argumentos que seriam suficientes para fazer a Alemanha voltar ao patamar de grande potência (Kershaw, 2014). Mas a propaganda não se fixava apenas nos discursos. Pas- seatas eram organizadas com objetivo de demonstrar a coalização e a força do partido nazista. Símbolos eram criados para representar o nazismo, dos quais ficou famosa a suástica (Fest, 2005). Figura 19 - Suástica Fonte: Wikipedia, 2004 Agentes uniformizados para demonstrar o padrão e a isonomia do Partido também eram comuns. Assim, nas passeatas dominadas pe- los símbolos e pelos uniformes, uma identidade se criava para o partido nazista (Evans, 2017). Contudo, não só nisso se pautava a propaganda nacional-socialista na época. Panfletos eram produzidos para levar as ideias nazistas adiante. É preciso reiterar que no início do partido, sua força política se focava apenas na Baviera, região alemã cuja cidade mais conhecida é Munique. A produção dos panfletos, entretanto, leva- va a informação adiante, para outras regiões (Fest, 2017). Reportagens em jornais, de vez em quando, eram possíveis, e assim levavam o pensamento nazista para a nação toda. Entretanto, o jor- nal que figurava como maior meio de comunicação da época, tinha como interesse notícias de repercussão nacional e internacional, raras vezes se interessando por um pequeno agrupamento político que proclamava aos quatro ventos ter as respostas para o ressurgimento da glória alemã. 55 P R O P A G A N D A P O LÍ TI C A - G R U P O P R O M IN A S O crescimento do partido na região da Baviera se deveu, em grande parte, à propaganda oral, aos discursos dos seus líderes, às passeatas e aos panfletos, mais do que a outros meios. Quando o parti- do encontra considerável força política para agir em sua região, tenta o golpe na Baviera. O golpe, como vimos, falha (Kershaw, 2014). Essa falha, entretanto, rende maior atenção dos alemães ao partido, afinal, nem todos tinham a coragem de tentar uma tomada do po- der. Assim, cresce o interesse sobre o partido nazista, e o putsch acaba servindo como grande mecanismo de propaganda política (Fest, 2005). Da cadeia, Hitler, um dos líderes do movimento, compreende o momento importante que seu partido vivencia dentro da estrutura polí- tica alemã e escreve sua obra, Minha Luta. O livro era algo de alcance nacional, e com o acentuado interesse do público sobre o partido que havia tentado tomar o poder na Baviera, o livro de Hitler acaba ganhan- do certa notoriedade. Impregnado dos ideais nazistas, essa obra fun- ciona como grande instrumento da propaganda política nazista, que se expande sobre toda a Alemanha (Fest, 2005). Mantendo a popularidade, aliados aos movimentos políticos dos correligionários de Hitler e do partido nazista, o poder político vai crescendo e nos anos 1930, o partido nazista já tem expressão nacio- nal. Em 1933, Hitler se torna líder da Alemanha, algo que uma década antes era impensável. Se o discurso em bares e clubes atraía o público, agora esse mesmo discurso atingiria milhões (Kershaw, 2014). Figura 20 - O Führer discursa para a Alemanha Fonte: Portal Obvious, 1933 A propaganda que até então tinha sido efetiva dentro de sua realidade, em escala micro, agora teria recursos para obras inimaginá- veis, numa escala nunca antes vista. 56 P R O P A G A N D A P O LÍ TI C A - G R U P O P R O M IN A S A PROPAGANDA COMO LEGITIMADORA DO NAZISMO Com a ascensão do regime nazista ao poder e Hitler no co- mando da nação, a figura muda. A propaganda, antes feita com objetivo de angariar suporte ao partido nazista, agora tem o objetivo de legitimar o nazismo perante a população e fazer o povo, antes desiludido com a política, acreditar nos novos governantes. O início da nova jornada propagandística vem com a indicação de Joseph Goebbels para o Ministério da Propaganda. Goebbels que já era responsável por parte da campanha de propaganda durante a ascensão do regime nazista e figurava nas colunas do partido há muitos anos (Evans, 2017). Figura 21 - J. Goebbels Fonte: Heinrich Hoffmann, Ano Desconhecido Goebbels tinha um plano de aparelhamento cultural para a emis- são de uma forte simbologia nazista. Para tanto, recorreu ao rádio, ao cine- ma, aos jornais e aos símbolos, para transmitir suas ideias (Evans, 2014). A ideia consistia em desmantelar qualquer referência cultural exterior, para enraizar no pensamento alemão a ideologia nazista e a cultura alemã como a única importante. Para tanto, diversos programas de rádio e filmes de cinema foram banidos do país. Autores foram “con- vidados” a sair da Alemanha, ou seriam presos. Assim, a debandada começa. O jazz é proibido nas rádios alemãs, filmes produzidos pelo go- verno passam a substituir os filmes de Hollywood nos cinemas alemães e autores como Thomas Mann se retiram da Alemanha (Evans, 2017). No campo da arte, artistas judeus eram perseguidos. Famílias judias detentoras de obras de arte perdiam seu patrimônio em detri- mento do regime. Dessa forma, o partido conseguiu juntar vasto acervo cultural em seus domínios, que mais tarde, segundo os planos de Hitler, seriam expostos num grande Museu de História que seria instalado em 57 P R O P A G A N D A P O LÍ TI C A - G R U P O P R O M IN A S Linz, na Áustria (Fest, 2005; Evans, 2014). Obras consideradas marginais, de artistas judeus ou de raças consideradas inferiores, eram queimadas. No âmbito da literatura, livros considerados subversivos eram queimados, sendo que desta feita se quei- maram livros de Mann, de Marx, de Engels, dentre outros. O livro do regime era a autobiografia política deHitler, o Minha Luta, que era distribuído em todos os lugares e contava como um símbolo nacional. O interesse era ex- pandir o conhecimento da população alemã sobre seu líder e também que se adaptassem com a tendência política do nazismo (Evans, 2014). No tocante aos jornais e panfletos, eram proibidas quaisquer manifestações, escritas ou orais, contra o governo. Quem ousasse des- cumprir, era perseguido e preso pela Gestapo ou pela SS, a polícia po- lítica e uma milícia armada nazista, respectivamente. Por isso, apenas propaganda positiva ao regime ia às bancas e chegava ao conhecimen- to do público. Os jornais de grande expressão da Alemanha sofriam censura dentro de seus edifícios, onde apenas as notícias autorizadas pelo Reich poderiam ser veiculadas (Evans, 2014). A estratégia era demonstrar apenas os aspectos positivos do governo, criando uma atmosfera de êxtase no povo alemão. Concomi- tante aos bons índices econômicos alcançados, a propaganda nazista podia cada vez mais apresentar argumentos, ainda que alguns bem duvidosos, do bom momento da pátria. A boa atmosfera aliada à veicu- lação diária de notícias boas permitia um crescimento da aprovação do governo, que com o apoio popular, nutria mais poder para se tornar o regime totalitário que veio a se consolidar. Engana-se quem pensa que o regime nacional-socialista foi eficaz apenas pelo controle feito pelo Estado. Grande parte da popu- lação alemã aprovava o governo, pois via em Hitler a figura de salva- ção da Alemanha. Dessa forma, com a população a seu favor, medidas drásticas podiam ser tomadas sem muita resistência. E para o caso de a resistência surgir, havia a Gestapo e a SS (Evans, 2014). No ramo do cinema, o governo nazista investiu pesado. E os re- sultados foram muito bons. As inovações alcançadas no cinema, com nova maneira de se observar os ângulos e as facetas de sombras e luz nos filmes, ganharam prestígio, figurando até hoje nas produções cinemato- gráficas. Nos enredos, histórias que falavam da glória do homem alemão e da nação alemã e também do terror que era o povo judeu (Evans, 2014). 58 P R O P A G A N D A P O LÍ TI C A - G R U P O P R O M IN A S Figura 22 - Leni Riefenstahl e Himmler Fonte: Portal The Conversation Vale salientar três obras que marcaram essa época: 1. O Triunfo da Vontade (1935), dirigido e produzido por Leni Rie- fenstahl, a famosa cineasta do nazismo que inovou muito em sua época por conseguir utilizar de maneira excepcional os recursos tecnológicos da época. Nesse documentário, ela retrata e acompanha o congresso do Par- tido Nazista de 1934. Hitler estava no poder há um ano e esse congres- so demonstrou a força de seu poder. O evento realizado em Nuremberg contou com mais de 30 mil presentes. Com música clássica de fundo, o documentário demonstra o potencial do partido nazista, sua ordem, sua força e simbologia. Os soldados marcham para ouvir os discursos do líder do Reich. Hitler, em grandiosa forma discursiva, palestra a milhares de pes- soas, impecavelmente vestido em seu uniforme, com a suástica no braço, bradando ao povo alemão sobre os tempos vindouros de alegria e pro- gresso. Uma obra-prima para fazer propaganda positiva do nazismo, que atingiu milhões de expectadores e rendeu até um prêmio para a produtora, na França, em 1937. Por esse documentário, percebe-se a lealdade do povo alemão para com Hitler, a união de seu partido nazista e como essa simbologia já estava intrínseca à sociedade alemã dos anos 1930. 2. Olympia (1938), também de Leni Riefenstahl, essa foi uma ousada estratégia de propaganda política por parte do partido nazista, pois visava demonstrar a sua grandiosidade não apenas para os ale- mães, como também para a comunidade internacional. Nesse docu- mentário, Leni se debruça sobre as Olimpíadas de 1936, que ocorrem em Berlim, no auge do nazismo. É nessa produção que Leni se eterniza, ao utilizar técnicas até então desconhecidas e avançadas para sua épo- ca. Nesse documentário, apesar de mostrar feitos contrários à vontade do regime, como a vitória de Jesse Owens no atletismo, foi criado para demonstrar como a Alemanha havia se reestruturado para o mundo todo. E como, dentro de sua grandiosidade, poderia receber facilmente os Jogos Olímpicos e ser um grande anfitrião. Demonstrava também, nos resultados vencidos pelos alemães, a força da raça ariana, ampla- 59 P R O P A G A N D A P O LÍ TI C A - G R U P O P R O M IN A S mente defendida por Hitler em seus documentários. 3. O Eterno Judeu (1940), dirigido por Fritz Hippler, é o maior do- cumentário que se tem conhecimento da propaganda nazista no que tange à imagem dos judeus, reunindo imagens dos judeus em guetos na Polônia e trechos de obras internacionais com o intuito de demonstrar uma visão estereotipada do judeu. Na produção, o judeu é apresentado como um parasita, um grande trapaceiro e mesquinho, que não se importa com o próximo, apenas com seu lucro. Sua produção fez parte da grande estraté- gia de propaganda política com vistas a fomentar o ódio ao judeu, para que fosse justificada a prisão arbitrária deste povo e sua posterior viagem para os campos de concentração, onde seriam escravizados e mortos. Figura 23 - O Eterno Judeu Fonte: HANS HERBERT SCHWEITZER, 1940 Pudemos perceber, então, o grande alicerce da propaganda alemã no alvo de se legitimar como inexorável da política alemã. Com os documentários, os filmes e o forte aparelhamento do Estado – que não permitiam a resistência, a oposição ou até mesmo as críticas ao governo de forma pública –, o nazismo foi se consolidando e adqui- rindo cada vez mais controle, se tornando um regime totalitário, sem liberdade de expressão alguma que não fosse aquela positiva à classe dominante (Evans, 2014). Assim, as ideias que norteavam o regime nazista puderam ser postas em prática, através dessa efetiva propaganda que ludibriava as massas, que sedentas e por falta de informações contrárias, em grande parte, compravam o discurso nazista. Uma vez consolidado, o regime nazista precisava de mais, era a hora de colocar as garras para fora e demonstrar que, apesar de a Alemanha estar sendo salva por Hitler e seu partido, os inimigos eram muitos – e precisavam ser combatidos. 60 P R O P A G A N D A P O LÍ TI C A - G R U P O P R O M IN A S A PROPAGANDA DO INIMIGO Uma vez garantida a legitimação do governo, mais pela propa- ganda massiva do que pela coerção, embora essa também fosse ne- cessária, o nazismo mudou subitamente sua orientação de propaganda para demonstrar os inimigos da nação. Assim, em primeiro lugar, diversas obras de judeus eram alvo de escárnio dos nazistas. Os judeus eram seus principais inimigos, pois, segundo a doutrina nazista, eles eram responsáveis por grande parte da miséria em que se encontrava a Alemanha antes de Hitler. Mesqui- nhos, parasitas e trapaceiros, deveriam ser extirpados da sociedade alemã (Diehl, 1996). Para tanto, a produção de livros, cartilhas, panfletos e docu- mentários – como vimos anteriormente com O Eterno Judeu – foi pro- duzida em larga escala. Nas escolas, desde cedo os alemães, influen- ciados por uma forte pressão da juventude hitlerista, eram ensinados a detestar os judeus, mais que isso, eram ensinados a ver no judeu o maior inimigo do povo alemão (Diehl, 1996). Os jornais de forte apoio estatal, por conta da pressão e censu- ra que sofriam em seus meios, e as rádios, abarrotavam-se de notícias contra os judeus. Nos locais públicos, eram emoldurados diversos pan- fletos e cartilhas que expressavam o perigo do judeu, que era retratado como um homem gordo e rico, ligado ao capitalismo e aos grandes centros financeiros, incumbido de levar caos e instabilidade financeira ao povo alemão, pois, com seus juros exorbitantes e suas trapaças, tomava o legítimo dinheiro do alemão, apenas para seu prazer e para aumentar cada vez mais a sua luxúria. Essa propaganda antissemita encontroucoro no estado de miséria e degradação que a Alemanha se encontrava no fim da Primeira Guerra Mundial (Diehl, 1996). Figura 24 - Cartaz Antissemita Fonte: Mjolnir, 1943 61 P R O P A G A N D A P O LÍ TI C A - G R U P O P R O M IN A S Mas nem só o judeu era considerado o inimigo do alemão. Em- bora o judeu fosse considerado como um dos maiores responsáveis, sendo inclusive apontado como o responsável pelo surgimento do co- munismo, teoria antônima aos ideais do nazismo, pela situação caótica da Alemanha após a primeira guerra, dividia essa carga com os ingleses e os franceses (Evans, 2014). Considerados imperialistas, capitalistas descontrolados e ma- nipuladores da comunidade internacional, franceses e ingleses também foram retratados de maneira pejorativa pela máquina de propaganda alemã (Fest, 2005). Eram atribuídos a eles a derrota na primeira guerra e as sanções desproporcionais imputadas à Alemanha com o tratado de Versalhes. Caricaturas e imagens pejorativas eram colocadas em livre- tos, panfletos e nas rádios falava-se contra essas nações (Fest, 2005). Figura 25 - Cartilha anti-Inglaterra Fonte: Portal Bytwerk Aos ingleses, teciam-se críticas frequentes ao seu modo de vida, ao seu método político e ao seu conservadorismo. Ao povo ale- mão, buscava-se demonstrar o inglês como um ser retrógrado e arro- gante (Fest, 2005). Aos franceses, as críticas se davam pelo fato de a nação estar repleta de judeus. Considerava-se a França como governada e domina- da pelos judeus, os mesmos que haviam levado a Alemanha ao caos. Além disso, imputava aos franceses, também, o ódio pelo ocorrido na Primeira Guerra Mundial e as consequências do tratado de Versalhes, além de extensa propaganda conclamando que a Alsácia Lorena, re- gião perdida pela Alemanha em detrimento da França no tratado, era território alemão que havia sido roubado (Fest, 2005). A campanha anticomunista também foi forte. O combate ao bol- chevismo era parte importante da estratégia propagandística de Hitler. Houve certa maleabilidade nesse sentido após o pacto de não-agressão 62 P R O P A G A N D A P O LÍ TI C A - G R U P O P R O M IN A S firmado entre a União Soviética e a Alemanha; entretanto, dentro da Alemanha, a caça aos comunistas por parte da polícia e a repressão aos grupos bolcheviques eram grandes, e aí, a propaganda não parava (Kershaw, 2014, Evans, 2014). Figura 26 - Cartilha antibolchevique Fonte: Portal François Le Guévellou Era comum também associar o comunismo e o bolchevismo aos judeus, pois Marx, ideólogo do comunismo, tinha ascendência ju- daica. Muita propaganda foi feita por panfletos e pôsteres para demons- trar a ligação intrínseca entre os bolcheviques e os judeus, ambos com o objetivo de controlar o mundo e levar a Alemanha ao caos e ao fracas- so novamente (Fest, 2005). Figura 27 – Bolchevismo sem máscaras Fonte: Portal DC News A erupção da Segunda Guerra Mundial intensificou o caráter da propaganda do inimigo pela máquina de propaganda nazista. Ago- 63 P R O P A G A N D A P O LÍ TI C A - G R U P O P R O M IN A S ra, os ataques eram diretos a todos os que se opunham ao regime de Hitler, baseados em declarações de que ir contra Hitler, ou o nazismo, era ir contra a Alemanha. Discursos na luz de que tais nações e po- vos desejavam a ruína da Alemanha novamente. Essa propaganda foi amplamente utilizada para o alistamento compulsivo que os alemães necessitavam para manter a guerra (Evans, 2017b). O rápido avanço da Alemanha na guerra, por conta da sua es- tratégia de blitzkrieg, proporcionou que os jornais e a rádio mostrassem com orgulho a força do povo alemão. A conquista da França, já em 1940, ocasiona a Hitler a oportunidade de tirar uma icônica fotografia, simbolicamente muito forte para demonstrar a força dessa nova Alema- nha sob seu comando: sua fotografia em Paris, com a Torre Eiffel de plano de fundo (Evans, 2017b). Figura 28 - Hitler em Paris Fonte: Heinrich Hoffmann, 1940 Claro que essas fotografias não eram tiradas aleatoriamen- te. Fazia parte da propaganda que essas imagens acarretassem uma grande força simbólica. Assim, a expressão de desprezo alinhada à sua posição de dominação nessa fotografia, demonstrava de forma clara: a Europa iria sucumbir ao seu domínio. Enquanto a guerra ia de vento em popa para os alemães, os veículos de comunicação e as ferramentas de propaganda alemães ex- ploravam o sucesso para manter a atmosfera de êxtase na população alemã. Essa estratégia, que foi de início funcional – pois realmente a Alemanha avançava para a conquista da Europa –, a partir de 1942, muda de justificativa. Nesse ano, a Alemanha começa a perder a guer- ra. Ocorre a abertura de um front contra os soviéticos no Leste e a entrada dos Estados Unidos na guerra. A guinada dos aliados para a vitória, entretanto, acarreta uma ligeira mudança no comportamento da 64 P R O P A G A N D A P O LÍ TI C A - G R U P O P R O M IN A S propaganda alemã (Evans, 2017b). Se antes a propaganda podia basear-se no sucesso da Ale- manha, agora era necessário manter um clima de otimismo, ainda que as coisas estivessem começando a mudar. O otimismo era necessário para manter a moral das tropas e da população elevada. Dessa forma, as derrotas eram omitidas e mensagens de vitórias falaciosas do nazis- mo eram veiculadas. Quando é nítido que a Alemanha está perdendo a guerra, e se aproximam os exércitos inimigos pelo Leste e pelo Oeste, a propaganda então tenta, desesperadamente, conclamar os alemães para a defesa de Berlim e da pátria. Convoca crianças, velhos, mulheres, doentes, todos os possíveis, para tentar parar a frente soviética que se aproxi- mava mais rapidamente do que a frente ocidental, formada pelo exército americano e inglês (Fest, 2005b). Até a morte de Hitler, as rádios e o “boca a boca” em Berlim ainda reforçavam a ideia de defesa, para destruir as estruturas da pró- pria Alemanha almejando dificultar a chegada dos inimigos. Em agosto de 1945, com o exército soviético já dentro de Berlim e se aproximando do Reichstag, de onde Hitler governava em um bunker subterrâneo, este se suicida (Fest, 2005b). A propaganda, então, se encerra. É inútil, a guerra está venci- da. Berlim fica em ruínas, assim como o nazismo. Não há propaganda mais que possa reverter a situação. Filme sobre o assunto: a onda (dennis gansel, itália, 2008) Na literatura: ele está de volta, timur vermes Acesse o link: Observação: entender o nazismo é entender a história po- lítica em sua faceta mais sombria. Assim, todo conhecimento para compreender o passado e não o repetir é útil à sociedade. 65 P R O P A G A N D A P O LÍ TI C A - G R U P O P R O M IN A S QUESTÕES DE CONCURSOS QUESTÃO 1 Ano: 2017 Banca: UEMA Órgão: UEMA Prova: Vestibular Nível: Médio. A propaganda foi um dos pilares da ascensão do regime nazifas- cista. Confiada ao Ministro Joseph Goebbels, foi cuidadosamente planejada. A imagem a seguir faz referência ao documentário enco- mendado por Hitler à cineasta Leni Riefenstahl acerca do Congres- so Nacional Socialista Alemão de 1934. Considerando as informações contidas na capa do documentário, pode-se concluir que uma das características do projeto nazifas- cista é a seguinte: a) Manutenção das estruturas políticas da Alemanha do pós-guerra para marcar o equilíbrio e a sintonia entre os poderes. b) Utilização de símbolos para resgatar o esplendor da Alemanha nas primeiras décadas do século XX. c) Grandes manifestações de massas para fortalecer o caráter demo- crático do projeto. d) Mobilização das massas por meio de paradas, desfiles monumentais e discursos inflamados para conquistar o apoio ao projeto. e) Equilíbrio de poder entre o grupo que compunha a cúpula nazista para fazer com que as decisões fossem coletivamente tomadas. QUESTÃO 2 Ano: 2017 Banca: UNICAMP Órgão:UNICAMP Prova: Vestibular Ní- vel: Médio. “Hitler considerava que a propaganda sempre deveria ser popular, dirigida às massas, desenvolvida de modo a levar em conta um 66 P R O P A G A N D A P O LÍ TI C A - G R U P O P R O M IN A S nível de compreensão dos mais baixos. (...) O essencial da propa- ganda era atingir o coração das grandes massas, compreender seu mundo maniqueísta, representar seus sentimentos.” (Alcir Lenharo, Nazismo: o triunfo da vontade. São Paulo: Áti- ca,1986, p. 47- 48.) Sobre a propaganda no nazismo, é correto afirmar: A respeito da forma de governo descrita no texto, é correto afirmar: a) o nível elementar da propaganda era contraposto às óperas e desfi- les suntuosos que o regime nazista promovia. b) a propaganda deveria restringir-se a poucos pontos, como o enalteci- mento da superioridade racial e a defesa da democracia. c) a propaganda deveria estimular o ódio das massas contra grupos específicos, como os judeus, negros, homossexuais e ciganos. d) o cinema e a produção artística foram as áreas que resistiram ao siste- ma de propaganda do nazismo na Alemanha do final da década de 1930. QUESTÃO 3 Ano: 2016 Banca: UNITAU Órgão: UNITAU – Medicina Prova: Vesti- bular Nível: Médio. “No nazismo, temos um fenômeno difícil de submeter à análise ra- cional. Sob um líder que falava em tom apocalíptico de poder ou destruição mundiais, e um regime fundado numa ideologia absolu- tamente repulsiva de ódio racial, um dos países mais cultural e eco- nomicamente avançados da Europa planejou a guerra e lançou uma conflagração mundial que matou mais de 50 milhões de pessoas”. KERSHAW, Ian, 1993, p.3-4, apud HOBSBAWM, Eric. A era dos ex- tremos. São Paulo: Companhia das Letras, 1993, p.113. Em linhas gerais, podemos caracterizar a ideologia nazista como: a) nacionalista e pluripartidarista. b) racista e internacionalista. c) marxista e pacifista. d) estadista e anticapitalista. e) nacionalista e anticomunista. QUESTÃO 4 Ano: 2014 Banca: FUNCAB Órgão: SEE-AC Prova: Professor de Ciências Humanas Nível: Superior. “Os antigos combatentes do mesmo regimento se reúnem periodi- camente em jantares onde evocam as lembranças da guerra, essas histórias de homens. Muitos são os que ficaram alquebrados por es- ses anos de horror, incapazes de se readaptar a uma vida civil que, alguns anos depois, sofrerá o abalo da Grande Depressão. Para uma 67 P R O P A G A N D A P O LÍ TI C A - G R U P O P R O M IN A S unidade que descia de Verdun, bastava a metade dos caminhões que tinham sido necessários para a ida. É a lembrança indelével que entretém as insônias e alimenta os pesadelos. E logo fica claro que esta não foi a última guerra. Em 1923, há o golpe de Munique.” (VINCENT, Gérard. Guerras ditas, Guerras silenciadas e o enigma identitário. in: História da Vida Privada São Paulo: Companhia das Letras, 2009, p.187.) O golpe de Munique, também conhecido como Putsch da Cervejaria, está inserido no contexto do período entre Guerras e das consequên- cias da Primeira Guerra Mundial. O referido golpe está associado à: a) ascensão de Hitler e do Nazismo. b) grande marcha de Mao Tsé-tung. c) guerra civil espanhola. d) marcha sobre Roma de Mussolini. e) morte de Franz Ferdinand. QUESTÃO 5 Ano: 2014 Banca: UPF Órgão: UPF Prova: Vestibular Nível: Médio. Leia alguns dos artigos do Tratado de Versalhes: Art. 45 – (...) a Alemanha cede à França a propriedade absoluta, com direitos exclusivos de exploração, desimpedidos e livres de todas as dívidas e despesas de qualquer tipo, as minas de carvão situadas na bacia do rio Sarre. Art. 119 – A Alemanha renuncia em favor do Principal Aliado e das Potências Associadas todos os seus direitos e títulos sobre as possessões de ultramar. Art. 198 – As forças armadas da Alemanha não devem incluir quais- quer forças militares ou navais. Art. 232 – Os Governos Aliados e Associados exigem e a Alemanha promete que fará compensações por todos os danos causados à população civil das Potências Aliadas e Associadas e a sua pro- priedade durante o período de beligerância de cada uma. (MARQUES, Adhemar; BERUTTI, Flávio; FARIA, Ricardo. História Contemporânea através de textos. São Paulo: Contexto, 2008, p. 115-117) A partir da leitura dos artigos transcritos, é correto afirmar que o Tratado de Versalhes: a) encerrou a Segunda Guerra Mundial, fazendo com que a Alemanha perdesse as colônias ultramarinas para os países Aliados. b) extinguiu a Liga das Nações, propondo a criação da Organização das Nações Unidas (ONU) em 1945, com o objetivo de preservar a paz mundial. 68 P R O P A G A N D A P O LÍ TI C A - G R U P O P R O M IN A S c) estimulou a competição econômica e colonial entre os países euro- peus, resultando na Primeira Guerra Mundial. d) permitiu que as potências aliadas dividissem a Alemanha no fim da Segunda Guerra Mundial, em quatro zonas de ocupação: francesa, bri- tânica, americana e soviética. e) impôs duras sanções à Alemanha, no final da Primeira Guerra Mun- dial, fazendo ressurgir um nacionalismo exacerbado e reorganizando as forças políticas do país. QUESTÃO DISSERTATIVA – DISSERTANDO A UNIDADE Neste capítulo, pudemos aprender um pouco mais sobre como o regi- me nacional socialista foi um grande apreciador da propaganda política como arma para manter seu poder e sua legitimidade. No capítulo ante- rior, falamos um pouco sobre as diversas formas de se fazer propagan- da política durante a história. Com isso em mente, relacione as catego- rias de propaganda política com ações ocorridas na Alemanha de Hitler. TREINO INÉDITO O responsável pelas campanhas de imprensa do governo Nazista foi a) Himmler b) Goering c) Goebbels d) Eichmann e) Hess NA MÍDIA A LAVA JATO E OS 11 PRINCÍPIOS DA PROPAGANDA NAZISTA A Lava Jato não existiria sem uma aliança bem ajustada com setores da mídia para, por meio de notícias espetaculosas, comprometer a imagem de acusados antes mesmo da instauração de processos formais. Essa fórmula obedeceu ao modelo importado das “forças-tarefa” dos Estados Unidos, conforme revelam informações sobre cursos de treinamento em cooperação internacional de procuradores e agentes da polícia federal. O Papa Francisco, ao perceber o uso da mídia em processos de per- seguição judicial na América Latina, passou a se insurgir publicamente contra o que considerou um grave problema da justiça penal. O Pontífi- ce ensaiou uma explicação para o fenômeno: “O lawfare ocorre quando são imputadas acusações falsas contra dirigentes políticos, promovidas conjuntamente pelos meios de comunicação e órgãos judiciais coloniza- dos” (…) “O sempre necessário combate à corrupção é instrumentaliza- do, por meio do lawfare, para combater governos indesejáveis, reduzir direitos sociais e promover um sentimento de antipolítica do qual se 69 P R O P A G A N D A P O LÍ TI C A - G R U P O P R O M IN A S beneficiam os que aspiram a exercer o poder autoritário: a macro delin- quência das corporações” O jurista argentino Eugenio Zaffaroni também abordou o tema do lawfa- re em entrevista na qual comentou a degradação política e institucional que ocorreu na Argentina. Tendo sido, até recentemente, juiz da Corte Interamericana de Direitos Humanos, Zaffaroni toma como referência os 11 princípios de Joseph Goebbels para descrever o raciocínio ideoló- gico por trás do fenômeno das guerras jurídicas. Segundo ele, “o lawfa- re de hoje usa as mesmas técnicas, embora com uma tecnologia mais refinada”. Será que a comparação dos 11 princípios vale para o Brasil? Alguém diria, que exagero! Comparar o diabólico projeto de propagan- da nazifascista ao raciocínio ideológico subjacente à Lava Jato, é um pouco demais. Porém, lembro-me de extravagâncias marcantes na propaganda publicitá- ria da megaoperação, como a preferência por “camisas negras” no vestuá- rio de Sérgio Moro. O juiz nega a associação com os “camisas-negras” do fascismo de Mussolini, mas é inegável a violência reale simbólica de seus interrogatórios em audiências, os abusos às garantias do processo penal e outras “licenças” que disse ter trazido da influência italiana da Operação Mani Pulite. Isso sem contar a justificativa do “estado de necessidade”– combater a corrupção sistêmica transnacional – alardeada com a ajuda da imprensa para justificar exceção ao devido processo, algo que aproxima a corrompida República de Weimar da República de Curitiba. Efetivamente, os 11 princípios da propaganda nazista podem nem ser do conhecimento do bando de procuradores ou do próprio juiz. A camisa negra pode ser apenas mau gosto, mas há coincidências impressionan- tes e que sugerem que na Lava Jato nada acontece por acaso. Fonte: PRERRÔ Data: 19/02/2021 Leia a notícia na íntegra: https://www.prerro.com.br/a-lava-jato-e-os- -11-principios-da-propaganda-nazista/ NA PRÁTICA OS 11 PRINCÍPIOS DE GOEBBELS E O CASO BRASILEIRO Não é preciso ir à Alemanha de Goebbels para encontrar estes princí- pios, muitos deles foram extraídos da História do Império Romano e chegaram ao Brasil com os colonos portugueses: 1 - Princípio da simplificação e do inimigo único. Os romanos chamavam de “bárbaros” todos os povos que viviam nas “terras incógnitas” (além das fronteiras). Eles eram desprezados e, des- de Políbio, deveriam ser civilizados, romanizados por Roma. Cá chegaram uns colonos portugueses que descendiam de tribos lusi- 70 P R O P A G A N D A P O LÍ TI C A - G R U P O P R O M IN A S tanas reduzidas à submissão por Roma que foram se misturando aos soldados romanos enviados para a Lusitânia. Eles tratavam centenas de povos por “índios”, muito embora não estivessem na Índia. Os cos- tumes destes povos eram desprezados, as diferenças entre eles eram irrelevantes. Como os “bárbaros” europeus 15 séculos antes, os “índios” deveriam ser submetidos, civilizados ou exterminados. 2 - Princípio do contágio Os romanos temiam o contato com os “bárbaros” e só se sentiam seguros quando eles eram romanizados. Os colonos portugueses detestavam os “índios” e muitos dos seus descendentes, que tem ancestrais indígenas, seguem odiando o “índio” que não aceita a civilização brasílica. 3 - Princípio da Transposição Transladar todos os males sociais a este inimigo. O mal não estava no fato de Roma matar e escravizar os “bárbaros” e sim no fato deles colo- carem em risco a civilização romana. O mal não estava na colonização ou nos colonos portugueses e sim nos habitantes originais de Pindorama. 4 - Princípio da Exageração e desfiguração Se um bárbaro matava um romano isto era um genocídio que justificava genocídios. Se um índio matava um colono toda a tribo merecia ser ex- terminada. Foi o que ocorreu com os Caetés que devoraram Dom Pero Fernandes Sardinha. 5 - Princípio da Vulgarização É perceptível a forma diferente como Tito Lívio trata os romanos e seus contrários. Os cartagineses, por exemplo, são descritos como “pérfi- dos”, “incivilizados”, “sedentos por sangue e ouro”, ao passo que os ro- manos defendem os direitos de Roma e propagam a civilização romana e foram injustamente combatidos. A guerra foi declarada por Cartago e não por Roma, muito embora Sagunto (cidade cuja disputa acarretou a II Guerra Púnica) estivesse em território cartaginês e não romano. O mesmo padrão pode ser visto nas crônicas antigas. Os pobres colo- nos são descritos como vítimas de índios bravios que montavam em- boscadas, utilizavam flechas envenenadas e queimavam pimenta para envenenar o ar que os civilizados respiravam antes de atacar. 6 - Princípio da Orquestração Os romanos eram especialistas em divulgar boatos para justificar o re- crutamento de exércitos entre os plebeus. Os portugueses que cá che- garam faziam o mesmo para recrutar tropas auxiliares entre os índios. 7 - Princípio da Renovação Julio Cesar sempre usou despachar correios para Roma a fim de que seus feitos na Gália e na Espanha fossem conhecidos e louvados. Os comunicados sempre davam conta da magnanimidade de César e das dificuldades que ele encontrava para submeter a Gália e a Espanha à 71 P R O P A G A N D A P O LÍ TI C A - G R U P O P R O M IN A S Roma. Os portugueses também tinham seus correios e intensificavam as notícias sobre índios bravios e negros fugidos para justificar expedi- ções punitivas a fim de conquistar territórios desejados. 8 - Princípio do Verossímil Os pares perfeitos de opostos são uma constante do processo de civi- lização de matriz romana que cá chegou com os colonos portugueses: Romano = civilização = verdade // Bárbaro = incivilização = perfídia/ falsificação Colono = civilização = verdade // Índio = incivilização = perfídia/falsificação 9 - Princípio do Silêncio. Ocultar toda a informação que não seja conveniente. Roma ocultava os males do vinho quando introduzia o produto nas tribos que desejavam viciar e submeter. Os colonos ocultavam os males da cachaça que dis- tribuíam fartamente entre os índios e os negros para mantê-los cativos ou dependentes. 10 - Princípio da Transferência Potencializar um fato presente com um fato passado. Sempre que se noticia um fato se acresce com um fato que tenha acontecido antes. As agressões sofridas por Roma sempre justificaram as novas guerras romanas. As agressões sofridas pelos colonos sempre justificavam as novas agressões contra novos índios. 11 - Princípio de Unanimidade Este é o único princípio moderno que pode ser atribuído a Goebbels, pois para Roma e para Portugal a unanimidade diante do “bárbaro” e do “índio” só podia ser conseguida mediante a submissão ou extermínio. https://jornalggn.com.br/politica/os-11-principios-de-goebbels/ PARA SABER MAIS Filmes sobre o assunto: 1 - A Queda: As últimas horas de Hitler (Oliver Hirschbiegel, 2004) 2 - Ele está de volta (Constantin Film, 2015) 3 - O Triunfo da Vontade (Leni Riefenstahl, 1935) Acesse os links:https://fotografia.folha.uol.com.br/galerias/nova/ 1629837826368278-propaganda-nazista-anticomunistaeter sido o responsável pela descoberta de um território novo. Esse viés se percebe pela própria carta de Pero Vaz Caminha, que acompanhava a viagem de Cabral. Nesta carta, ele relata a descoberta do território que posteriormente seria o Brasil, relata como eram os índios e como eram as riquezas costeiras dessa terra. Em suma, fazia uma pro- paganda positiva ao reino da descoberta que presenciou, provavelmente sabendo que sua carta alcançaria toda a Europa e que assim, todo o mun- do conhecido saberia do grande presente que foi descoberto por Portugal. Estabelecida a colônia no Brasil, com a construção dos primei- ros assentamentos, a propaganda continuou em voga para manter a população fora da metrópole fiel à Coroa e à Igreja. Assim, foram exe- cutadas campanhas de evangelização dos índios e a criação de uma estrutura política na nova terra, com vistas a manter essa população leal ao reino de Portugal (Salvador, 2007). 74 P R O P A G A N D A P O LÍ TI C A - G R U P O P R O M IN A S A organização política colonial é pautada em propaganda por tradição oral e, em menor escala, escrita. As informações chegavam de Portugal por cartas e pelos aventureiros que encaravam a travessia do Atlântico para trazer boas novas e se arriscar nas novas terras. Os novos senhores de engenho, que se estabelecem nas capita- nias hereditárias, além daqueles que se arriscam em intermediar a política da colônia com a metrópole, mantêm-se no poder e no controle com base em um patrimonialismo e em uma estrutura de propaganda quase nula. Não havia no que votar, nem havia uma organização que permi- tisse muitas inquirições a respeito do funcionamento da colônia. Bastava o pagamento dos impostos devidos à metrópole. Assim, durante o período em que o Brasil figurou como colônia portuguesa, pode-se falar em propa- ganda política apenas em duas vias: a portuguesa com o Brasil, que se ex- pandia pela Europa para demonstrar a importância da colônia para a rique- za do reino de Portugal, e que lhe outorgava certo prestígio frente às outras monarquias europeias; e a brasileira com Portugal, que visava o respeito dos moradores da colônia às leis portuguesas e a lealdade desses para com a Coroa. Quando esta vem para o Brasil, fugindo de Napoleão, e o Brasil passa a sediar o Império português, as coisas mudam, uma vez que, junto da Coroa, chegam tecnologias e instituições diversas (Viotti, 2010). Figura 30 - A chegada da Corte Fonte: Candido Portinari, 1952 A Coroa precisa manter sua imagem de soberana, e para isso precisa investir na colônia, trazendo tecnologias antes inexistentes no Brasil, e mantendo o povo português esperançoso de seu retorno e ciente de que essa fuga era necessária (Viotti, 2010). A propaganda nesta época alcança maior importância por via escrita, uma vez que afloram decretos e alguns pôsteres enaltecendo a Coroa. Consequentemente, o Brasil que era dotado, na sua maioria, de analfabetos, passa a contar com maior estrutura educacional, pois os letrados tinham vindo para o Brasil junto da Corte (Norton, 2009). 75 P R O P A G A N D A P O LÍ TI C A - G R U P O P R O M IN A S Evidentemente que isso não muda o quadro de analfabetismo no Brasil, que tem a esmagadora maioria de seus habitantes como analfabe- tos, caso dos escravos, dos pobres e até de alguns senhores de Engenho, que viam no ato de ler e escrever uma bobagem, mas que enviavam seus filhos para estudar em Coimbra, por conta do status que o fato de ser letra- do conferia. Todavia, há maior circulação de propaganda escrita. Ainda assim, a tradição oral aflora com maior predominância no tocante à propaganda política. É com os discursos da Corte e as notícias que eram levadas e trazidas entre as capitanias hereditárias e a Capital Imperial, no Rio de Janeiro, que a propaganda política se efe- tivava. Evocava lealdade à Coroa e esperava que os brasileiros fossem fiéis servos da Corte, pois haviam sido beneficiados com a glória de ter a Coroa Portuguesa em seu território (Viotti, 2010). O CASO DA INDEPENDÊNCIA Quando Napoleão é vencido na Europa, o povo português pas- sa a demandar o retorno da Coroa. A Coroa, entretanto, havia se acos- tumado com os trópicos. A insatisfação, porém, obrigou o monarca D. João VI a voltar (Viotti, 2010). Esse retorno da Coroa para Portugal gerou um desconforto nas classes brasileiras que haviam se habituado em ser a metrópole. Junto da partida da Coroa, viam os investimentos indo embora, os privi- légios de se ter a nobreza e o monarca em seu território. Tudo isso seria perdido (Gomes, 2010). O clima de insatisfação foi crescendo. Camadas da sociedade, principalmente uma burguesia emergente que via no retorno da Coroa a Portugal o retorno dos altos impostos que a colônia pagava à metrópole, desejavam e nutriam um espírito de independência (Gomes, 2010). Quando D. Pedro I, filho de D. João VI, se recusa a voltar para Portugal, faz um ato de propaganda com uma mensagem nítida: minha pátria é o Brasil. Os defensores da independência passam a divulgar notícias por todas as províncias para que o Brasil se liberte das garras portuguesas, mas mantenha a monarquia. Isso porque o vilão, nesse ponto de vista, não era a Coroa, mas sim o povo português que queria novamente subjugar o Brasil. Reduzi-lo a mera colônia depois de ter sido sede da monarquia (Viotti, 2010). Nos bastidores, a família Andrada articula um movimento de independência que seria proclamada por D. Pedro I, o insurgente. Esse seria o primeiro monarca brasileiro (Schwarcz et. al.). A propaganda política surte efeito através das mensagens en- 76 P R O P A G A N D A P O LÍ TI C A - G R U P O P R O M IN A S viadas. A população brasileira, apesar de não compreender muito a ques- tão da identidade nacional, também se posiciona a favor do Brasil inde- pendente por não concordar com que a subjugação a Portugal retorne. É nesse ínterim que D. Pedro I, às margens do Rio Ipiranga, em São Paulo, após inúmeras visitas acompanhado dos Andradas, para angariar recur- sos e mostrar sua imagem como centro da propaganda da independên- cia, aos indecisos, proclama a independência do Brasil (Scwarcz et. al.). Diversas obras de arte são feitas para retratar o momento, como as famosas pinturas de Pedro Américo. A mensagem rapidamen- te alcança todas as províncias. No Rio de Janeiro, as classes burgue- sas comemoram, os brasileiros comemoram. Muitos portugueses que tinham ganho a vida trabalhando no Brasil, comemoram (Viotti, 2010). Figura 31 – Independência ou Morte Fonte: Pedro Américo, 1888 Através de uma grande estrutura de propaganda, da tradição oral de ir de casa em casa defender os preceitos da independência, passando pela comunicação escrita que levava até longe as notícias de insatisfação com o interesse português em novamente rebaixar o Brasil a mera colônia – além da forte imagem simbólica do príncipe que se re- cusou a voltar para Portugal –, formou-se uma conjuntura determinante para o sucesso da empreitada. E a partir de setembro de 1822, o Brasil era uma nação, um império. A PROPAGANDA DURANTE OS REINADOS O Brasil teve então dois reinados, um com D. Pedro I, que foi a figura-chave para a independência; e outro com seu filho, D. Pedro II, que governaria desde jovem até a proclamação da República, em 1889. A propaganda política esteve muito presente nos dois reinados. No primeiro, serviu como fio condutor para a legitimação da nova nação. 77 P R O P A G A N D A P O LÍ TI C A - G R U P O P R O M IN A S A ideia de criar uma identidade do brasileiro, desvinculada do português, foi o principal ponto debatido e esmiuçado pela propaganda política con- trolada pela Coroa, que buscava o auxílio de intelectuais e figuras fortes do movimento de independência para dar valor à identidade nacional. Desta feita, ocorrem mudanças na bandeira brasileira e há a criação de um hino nacional. Vasta é a produção artísticadessa época para retratar o Brasil independente e as suas figuras principais (Lustosa, 2003). O segundo reinado, de D. Pedro II, mantém a pretensão de seu pai, em almejar, via propaganda política, a identidade nacional. Institu- tos são criados para dar cabo dessa feita, assim como diversos estran- geiros são convidados a visitar o país e relatar suas impressões. Dentre eles, vem ao Brasil o pintor francês Debret, que ficaria prestigiado por sua qualidade nos quadros que retratou a respeito do modo de vida, da família real e do território brasileiros (Schwarcz, 1998). É no segundo reinado que surgem as primeiras ideias contra o governo. O surgimento dos jornais e a popularização da informação dentro do território brasileiro, junto da melhora – lenta e gradual – da educação na nação, que passa a contar inclusive com faculdades em seu território, permitiram maior acesso ao conhecimento por parte do brasi- leiro. Assim, algumas medidas da monarquia não caiam bem com todas as esferas da população. Princípios de ideais abolicionistas, com vistas ao fim da escravidão, além de movimentos republicanos, inspirados por eventos internacionais, passam a ganhar corpo (Schwarcz, 1998). Figura 32 - D. Pedro II Fonte: M. Brady, 1875 Livros, manifestações orais e subversivas, ou seja, escondidas do status quo brotam para defender ideais que iam contra as preten- sões do império. O progresso internacional com a revolução industrial e o afloramento de um capitalismo industrial muito forte, pressionam os impérios, que vão caindo no ostracismo. O Império tenta se manter, evocar seus símbolos e sua história 78 P R O P A G A N D A P O LÍ TI C A - G R U P O P R O M IN A S para a independência da nação, tenta aparelhar suas instituições para a defesa de sua causa. O fim da escravidão, em 1888, após pressão forte dos abolicionistas e de nações como a Inglaterra, é praticamente a gota d’água. O conflito da propaganda política entre os defensores do império e os republicanos ganha corpo. A luta no campo das ideias é equilibrada, mas no campo das ações, a entrada das Forças Armadas no lado republicano é determinante; e assim, em 1889, é instaurada a República (Viotti, 2010). A PROPAGANDA REPUBLICANA Em 15 de novembro de 1889, a República é instaurada no Bra- sil. Fruto de uma manobra política liderada pelo marechal Deodoro da Fonseca, com a participação profícua de outros personagens, como Ruy Barbosa, Benjamin Constant e Campos Salles. A partir da proclamação, há toda uma ruptura com a ordem antiga, que reflete muito na propaganda política. O interesse, imediato, era afastar toda a simbologia relativa ao Império para a gênese de uma nova simbologia. Assim, praticamente todos os símbolos nacionais so- frem alteração. A data da proclamação da República passa a ser feria- do. O imperador D. Pedro II e sua família são exilados (Fausto, 2013). Nos primeiros anos, a República tenta se manter apesar de ainda haver parcelas da população leais ao Império. A República se garante por aplacar forte censura no território no tocante às referências ao Império e por proporcionar uma propaganda política enviesada no objetivo de imputar na mente da população a importância de um modelo republicano (Fausto, 2013). Com a saída de Deodoro do poder, ocorre o início da política que ficou conhecida historicamente como “Café com leite”, na qual os candidatos de São Paulo e Minas Gerais, províncias mais fortes da na- ção até então por conta das exportações de café e leite, se alternavam no poder, procurando manter sob sua tutela os interesses dos grandes produtores de suas províncias. Assim, até 1930, apesar de diversos pre- sidentes, cada um com suas particularidades, a República se constituiu de um monte de medidas políticas com vistas a proteger a política do “Café com leite”, ou seja, os interesses mineiros e paulistas, em detri- mento do restante do país. (Fausto, 2013) 79 P R O P A G A N D A P O LÍ TI C A - G R U P O P R O M IN A S Figura 33 - Sátira ao voto de cabresto Fonte: Hermes Junior, 2012 A propaganda política buscava atingir toda a nação, demons- trando uma união entre os brasileiros que não convencia a ninguém. As agitações populares dos anos 1920, o pós-Primeira Guerra Mundial e os eventos internacionais, como a quebra da bolsa de valores de Nova Ior- que, em 1929, geraram grande instabilidade na República, que ainda não conseguira convencer através da propaganda ou das ações, a que tinha vindo (Fausto, 2013). Em 1930, após novo golpe nas estruturas políticas, sobe ao poder Getúlio Vargas, que marcaria a história política da nação. A PROPAGANDA NA ERA VARGAS Quando Vargas ascende ao poder, suas ideias são nacionalis- tas, de intervenção, controle estatal e de forte aparato das instituições públicas. Longe da democracia, assim como sua chegada ao poder, sua visão política corresponde aos regimes de sua época, como Franco, Mussolini e Hitler (Gambini, 1977). Sua ascensão vem acompanhada de uma forte campanha propagandística, visando passar a mensagem de que em seu governo, o Brasil todo seria ouvido. É evidente que tal projeto de governo não agrada as elites paulistas, porém as mineiras acabaram se convertendo para o lado de Getúlio pelo fato de Washington Luís ter tentado, no final de seu governo, burlar o acordo do “Café com leite” (Fausto, 2013). A insatisfação paulista gera uma revolta, em 1932, com o obje- tivo de que fosse promulgada uma nova constituição no Brasil. O grande interesse dos paulistas, todavia, era retomar o poder e voltar ao status quo antes do golpe, mas sua propaganda incitava a população a se revoltar contra o governo autoritário de Vargas, em defesa de uma constituição nova. Posteriormente, amparam sua propaganda em justiça pelo M.M.D.C, sigla dos quatro estudantes que são mortos durante a revolta. A Revolução 80 P R O P A G A N D A P O LÍ TI C A - G R U P O P R O M IN A S Constitucionalista, entretanto, é suprimida, mas tem como saldo a morte de quatro estudantes: Martins, Miragaia, Dráuzio e Camargo. Se Vargas ven- ceu no campo de batalha, no imaginário social, sai derrotado (Neto, 2012). Convocada a Constituinte, em 1934 se promulga a nova cons- tituição, que seria abolida em 1937, quando Vargas dá um novo golpe e instaura seu Estado Novo. O Estado Novo é o mais próximo que o Brasil já esteve de um Estado totalitário, semelhante aos que afloravam na Europa. A propaganda passa a ser prioridade do governo, que instaura o DIP para controlar a imprensa e a propaganda e para manter uma boa imagem do governo frente aos seus cidadãos (Silva, 2008). Há censura, perseguição, mortes e exílios. As forças armadas atuam para manter a ordem pública, ou seja, o desejo da classe do- minante. Vargas se mostra um presidente vingativo, perseguindo seus opositores de antes e de agora (Silva, 2008). Na área da política, apesar das medidas autoritárias, é sob Var- gas que o Brasil conhece os primeiros direitos trabalhistas, que lhe rendem posteriormente o apelido de “Pai dos Pobres”, amplamente explorado por Lourival Fontes, o responsável pelo DIP, e que serviria como propaganda para o culto ao governo e à personalidade de Vargas (Neto, 2012). Apesar de não haver muitos símbolos nos quais o Estado Novo pudesse se amparasse no tocante à propaganda, a figura de Vargas era amplamente explorada. Isso porque o governante era muito afeito ao uso dos jornais e da rádio para proferir falas e discursos que atingissem a população (Fausto, 2013). Figura 34 - Getúlio Vargas discursa Fonte: Portal Discursos Transcritos, 1951 Vargas foi um dos grandes nomes da política que utilizou o rádio como um dos principais instrumentos de propaganda. Seus discursos no Dia do trabalho, no estádio de São Januário, eram transmitidos ao vivo por rádio para a casa de praticamente todos os brasileiros (Neto, 2012). A propaganda de Vargas também se sustentava por um discur- so nacionalista,interesse é extenso também: disseminar, demonstrar, ensinar, defender, legitimar, manipular, controlar, eis alguns dos verbos cabíveis de execução via propaganda política. Nessa unidade, partimos para uma análise que compreenderá na maior parte do tempo uma faceta histórica da formação da propagan- da política. De início, é preciso compreender a própria história do homem vivendo em sociedade, com suas raízes nas grandes civilizações antigas como a Mesopotâmia e o Egito, para então analisar como a memória oral e consuetudinária tem incidência na raiz da propaganda política. Avançando no tempo, também se faz necessário entender o quão determinante foi o surgimento da imprensa para a expansão da propagan- da política, no âmbito da qual geraram-se novas formas de pensar a dis- seminação de ideias. O uso cultural da propaganda política não passará despercebido, pois também trataremos como, com o passar das eras, cada vez mais alguns fatores culturais foram assimilados para uma conotação política, por meio dos quais se pode tecer uma linha de propaganda política subjetiva através de compreensões baseadas na semiótica. Os adventos do rádio e da televisão reforçam essa ideia da propaganda política por via cultural, mas também insere na sociedade uma maior proximidade entre ela e seus representantes. Agora é possí- vel ver e ouvir aqueles que tomam os rumos da sociedade, dá-se corpo e som ao que antes via-se apenas estampado na capa do jornal. Por outro lado, abre-se o leque de possibilidades dos políticos em alcançar cada vez mais a sociedade através do rádio e da televisão. 12 P R O P A G A N D A P O LÍ TI C A - G R U P O P R O M IN A S O alcance é muito maior do que na mídia impressa e o resul- tado pode ser excelente. Há ainda que destacar como o boom da tec- nologia, com a chegada da internet e o uso massivo de redes sociais, deixou o rádio e a televisão obsoletos. Assim, é possível analisar como a propaganda política se transformou novamente para prosseguir, atin- gindo seus interesses nessa nova era. Posteriormente, há de se atentar para o maior legado propa- gandístico que se tem conhecimento até hoje: o caso nazista. É nesse capítulo que poderemos observar como um regime totalitário, com forte controle de todos os aspectos da sociedade, pôde implantar uma propa- ganda política firme, capaz de transformar, em grande parte, os interes- ses da sociedade alemã. É possível observar os métodos inovadores usados pelos funcionários do Reich para expandir suas ideias dentro de toda a Alemanha e também atingir muitos simpatizantes em todo o globo. Assim, constitui o regime nazista em importante peça histórica para a compreensão do alcance e dos métodos que a propaganda polí- tica obtém quando utilizada de forma brutal e constante – seja ela para defender objetivos eticamente aceitáveis ou repugnantes. Por último, é importante compreender como a propaganda po- lítica se instaurou e se desenvolveu no Brasil, por isso faz-se necessário compreender a trajetória que a propaganda política tem desde o desco- brimento do Brasil, passando pela fase colonial até a sua independência. A chegada da República e toda uma transformação cultural, política e social que rompe com a estrutura pré-existente também re- quer esforços propagandísticos para se legitimar, assim como todos os regimes posteriores, de Vargas ao regime militar. Por último, vale salientar como a propaganda política moveu multidões em busca de um regime democrático e como o surgimento da Constituição Federal de 1988 pôde limitar e regulamentar a propaganda política no país. Assim, para finalizar, nos atentaremos para o funciona- mento da propaganda política no Brasil, atualmente, e as inúmeras mi- núcias subjetivas utilizadas a todos os momentos para transmitir ideias implícitas ao povo. 13 P R O P A G A N D A P O LÍ TI C A - G R U P O P R O M IN A S MEMÓRIA ORAL A raça humana demorou muitos séculos, quiçá até milênios, para desenvolver uma estrutura simbólica que permitisse a fixação de sua comunicação e assim, uma alternância da tradição oral para uma tradição escrita. Por outro lado, ainda na fase do nomadismo, quando as pe- quenas comunidades e grupos não se fixavam em nenhuma terra, pois ainda não tinham desenvolvido tecnologias que permitissem explorar a terra e os outros elementos em seu favor, já havia se criado uma forma de comunicação, ainda que limitada, em formular sons com a boca, para que esses tivessem algum sentido. Doravante, surgia aí a língua HISTÓRIA DA PROPAGANDA POLÍTICA 13 P R O P A G A N D A P O LÍ TI C A - G R U P O P R O M IN A S 14 P R O P A G A N D A P O LÍ TI C A - G R U P O P R O M IN A S falada (Pinsky, 2006). Figura 1 - Povos nômades Fonte: Johanna Hincapié, 2014 A transição do nomadismo para um estilo de vida sedentário, re- sultado do avanço tecnológico alcançado pela sociedade primitiva, aprimo- rou a utilização da linguagem falada, pois agora, mais do que nunca, era necessário falar e ser compreendido para que as tarefas que possibilitavam a permanência das comunidades em um local, pudessem ser executadas de forma clara. Assim, era necessário se comunicar para arar a terra na época correta, sair para a floresta caçar e poder comunicar os membros do grupo da presença da caça, dentre outras atividades (Pinsky, 2006). Dentro das comunidades, as tarefas eram atribuídas de acordo com as capacidades de cada um. Dessa forma, cabia aos homens, mais fortes, as tarefas mais pesadas, como arar a terra para a agricultura e caçar. Às mulheres, crianças e aos anciãos cabiam as tarefas residuais, mantendo assim todos ocupados para a manutenção das comunidades. (Pinsky, 2006) Os anos passam e as comunidades crescem, há um acúmulo de pessoas que podem desempenhar as diversas funções necessárias. Há um conflito no campo das ideias, nessa sociedade de uma dialética primi- tiva, onde alguns homens passam a pensar diferente dos outros. Uns pen- sam que a comunidade deveria se manter agindo de uma forma, enquanto outros pensam que agir de forma distinta seria mais benéfico para sua população. Numa geração em que ainda não havia uma ideia de política, como depois viriam a ter os gregos, a maioria dos conflitos era resolvida na base da briga, tendo como prêmio para o sobrevivente, um poder pela sua demonstração de força ao ter derrotado o adversário (Guarinello, 2013). Com o tempo, não só a força física das rusgas que determi- navam posições de poder era cabível na sociedade. Conforme a proto- -sociedade foi se formando, atributos políticos começaram a se originar 15 P R O P A G A N D A P O LÍ TI C A - G R U P O P R O M IN A S para dar cabo da manutenção da sociedade. Ao mesmo tempo que as tecnologias permitiam um maior aproveitamento da natureza pelo ho- mem, suas próprias conquistas no ramo da linguagem e da organização política lhe permitiam um maior ajuste da sociedade. Essa proto-política, que depois seria substanciada por valores diversos, como religião, atributos físicos, laços sanguíneos e alianças, dentre outros, aliada às novas conquistas que o ser humano alcançava no seu entendimento sobre o mundo e sobre si próprio, permitiram o surgimento de uma construção oral da memória. Não havia escrita, logo não havia imprensa ou qualquer tipo efe- tivo de expansão das ideias nessas sociedades. A tradição acometida aos povos até então passava de geração em geração pela oralidade. O pai contava ao filho e depois ao neto, enraizando assim uma ideia de cul- tura e sociedade na tradição. Os povos se comunicavam e, quando não em guerra, falavam de suas vicissitudes e aprendiam as vicissitudes do próximo. Algumas coisas se assimilavam, outras se transformavam com o tempo. Mas é nesse ambiente de oralidade, de tradição, de construção memorialística, que se pode falar no surgimento da propaganda política. Assim, surgem as primeiras grandes civilizações:com vistas aos bens naturais do Brasil. É nesse âmbito 81 P R O P A G A N D A P O LÍ TI C A - G R U P O P R O M IN A S que ele cria algumas empresas estatais para atuar com os minérios, dentre outras riquezas da nação (Gambini, 1977). É com Vargas também que o Brasil enfrenta a Segunda Guer- ra Mundial. Sofrendo pressão dos dois lados: dos Estados Unidos que prometiam investimentos fortes no país e da Alemanha que prometia o mesmo, mas que tinha como ponto forte um regime de governo ali- nhado com o estilo de governo brasileiro. Porém, contra as previsões, o Brasil acabou se aliando ao lado americano, que em retorno permitiu forte investimento para a modernização da infraestrutura e da indústria brasileira, além de um forte apelo cultural para o Brasil, que recebeu nesse tempo a visita de figuras como Orson Welles e a criação do per- sonagem Zé Carioca por Walt Disney (Gambini, 1977). Figura 35 - Fragmento de propaganda do DIP Fonte: Portal Opinião & Notícia, 2017 O forte investimento feito no Brasil e a tendente aproximação com a cultura norte-americana proporcionaram maior prestígio ao líder brasilei- ro. O fim da guerra, porém, com a vitória contra o nazismo e o fascismo, não permitia que algum país aliado mantivesse um governo tão alinhado com aqueles derrotados. Era o fim da Era Vargas (Gambini, 1977). Desmantelados os aparelhos de repressão e restaurada a de- mocracia, o Brasil vive um período de avanço econômico e social, sob a tutela de Dutra. Posteriormente, Getúlio volta ao poder pelo voto, mas nem termina seu mandato por pressão muito forte da oposição. Jânio Quadros e João Goulart também lideram o país nessa época. A auste- ridade financeira, política e econômica davam amparo para previsões otimistas a respeito do Brasil. No contexto da Guerra Fria, o Brasil man- tinha-se alinhado com a coluna capitalista liderada pelos EUA. A propa- ganda política ficava dentro de uma tendência democrata antes nunca vista, apesar do forte teor anticomunista. É nesse cenário de anticomunismo que João Goulart é depos- to, acusado de querer implantar um regime comunista no país, por suas 82 P R O P A G A N D A P O LÍ TI C A - G R U P O P R O M IN A S ideias progressistas e de reforma agrária, é deposto por mais um golpe, dessa vez vindo do alto escalão das forças armadas, tal qual no episó- dio da proclamação da República. O povo, entretanto, adere de início ao movimento, com a crença de que o regime militar seria transitório e que abarcaria o afastamento de qualquer hipótese de comunismo no país. Mas não foi o que aconteceu (Fico, 2016). A PROPAGANDA DURANTE O REGIME CIVIL MILITAR O governo militar começou de forma provisória. A ideia passa- da ao povo brasileiro através da propaganda e nos burburinhos que per- corriam as casas era de que os militares apenas estariam protegendo o Brasil de uma ameaça comunista e que, em breve, eleições seriam mar- cadas. Mas isso não ocorreu. Logo, Castelo Branco assumiu as rédeas da nação e os militares articularam uma maneira de se manter no poder, que duraria aproximadamente 21 anos (Napolitano, 2014). A propaganda política que de início passava a imagem do cará- ter transitório da intervenção militar, para conter a famigerada ameaça co- munista, amparada no prestígio das forças armadas (Napolitano, 2014). Após a subida ao poder, a estratégia política muda, e Caste- lo Branco mantém uma propaganda de ameaça comunista iminente. O apoio do governo norte-americano, por conta do contexto da Guerra Fria, colabora na disseminação da ideia de necessidade do governo militar. Progressivamente, o regime se consolida como a nova orien- tação política no país. A saída de Castelo Branco permite a chegada de Costa e Silva à liderança do país. Com Costa e Silva, o regime militar passa a ter maior rigidez no que tange à política interna. Há a promul- gação do AI-5, que acabava com diversas liberdades civis e corroborou para legitimar a censura, a perseguição política e a tortura, dentre ou- tras práticas lastimáveis (Napolitano, 2014). Ao mesmo tempo, a propaganda política do governo se es- trutura em uma ideia de segurança nacional a qualquer custo. Era ne- cessário que o povo entendesse a atmosfera de perigo dos comunistas no país. Panfletos, rádio e televisão eram instrumentos utilizados pelos militares para alertar e espalhar o medo na sociedade. Ao mesmo tempo, amparados nessa ideia de segurança nacio- nal, o Congresso Nacional é fechado, opositores do governo são perse- guidos, presos, exilados e alguns até torturados. Os jornais passam a sofrer censura e só veicular notícias que iam de acordo com a vontade estatal, como forma de criar, no mesmo âmbito do regime nazista, uma atmosfera de que os resultados do governo eram positivos. Ao mesmo 83 P R O P A G A N D A P O LÍ TI C A - G R U P O P R O M IN A S tempo, o governo lança um slogan político que simbolizava muito o in- teresse estatal: ame-o ou deixe-o (Gaspari, 2014). Figura 36 - Vladimir Herzog morto Fonte: Portal Wikipedia, 2014 A mensagem era clara, ou se respeitava o governo militar ou saía do país. A negação da saída culminava em perseguição, prisão, tortura e até em morte, como veio a ocorrer com Vladimir Herzog. Ao mesmo tempo, dois acontecimentos ajudaram a imagem do governo perante a população. A conquista da Copa do Mundo de 1970, disputa- da no México e o “milagre econômico” (Napolitano, 2014). Figura 37 – Presidente Médici cumprimenta os campeões do mundo de 1970 Fonte: Bruna Eduarda Britto, 2013 O Brasil, até 1970, era bicampeão da Copa do Mundo, tendo con- quistado as Copas de 1958 e 1962. Com a estabilização do governo militar, que tinha forte cunho nacionalista, enaltecia-se uma vontade geral de que o Brasil se saísse bem em todos os ramos possíveis. Na copa de 1966, o Brasil teve um desempenho pífio, porém, na Copa de 1970, apresentou um futebol muito bonito e ofensivo, encantando o mundo. Liderado por Pelé e 84 P R O P A G A N D A P O LÍ TI C A - G R U P O P R O M IN A S Tostão, dentre tantos outros craques da história do futebol brasileiro, o Bra- sil conseguiu a conquista do tricampeonato. Para os militares, isso foi uma mão na roda. Uma válvula de escape para ludibriar os brasileiros a respei- to do sucesso da seleção e esquecer, por ora, a forte repressão política que ocorria no país. Assim, a seleção de 1970 voltou ao Brasil cercada de honras e foi manobra de forte propaganda política dos militares, que apon- tavam a relação entre o sucesso da seleção brasileira com o momento de desenvolvimento sólido do Brasil (Napolitano, 2014). Assim, a figura dos atletas de 1970, como Zagallo, o treinador, Pelé, Tostão e outros, foi amplamente vinculada ao regime militar. A pro- paganda era clara: o sucesso da seleção é sucesso do Brasil e se o Brasil tem sucesso, é porque este governo possibilita isso (Napolitano, 2014). Ao mesmo tempo, muito por conta do forte investimento do ca- pital norte-americano e de uma política econômica ousada, o Brasil con- seguiu se desenvolver economicamente de maneira rápida e efetiva. A infraestrutura nacional se desenvolveu como nunca antes na história, empresas públicas foram criadas, como a Usina de Itaipu. Vinculado ao slogan de “Brasil Grande”, se atrelava o sucesso econômico à boa gestão dos governos militares (Gaspari, 2014). Figura 38 - Slogan do Regime Militar Fonte: Alberto Villas, 2014 Se a propaganda oficial do governo ia de vento em popa, com os casos de repressão e censura, começa a surgir um movimento de oposição ao governo, embalado por grandes produções culturais, prin- cipalmente na música, que inicia uma contrapropaganda ao governo, implicitamente colocando em suas produções culturais uma forte crítica ao governo, de forma sutil. Assim, a contrapropaganda do governo, pau- tada em grande parte pelos integrantes do movimento da Tropicália, das quais vale ressaltar Gilberto Gil, Caetano Velosoe Chico Buarque, prin- cipalmente, passam a criar manifestações contrárias ao regime através da música, de forma que a população brasileira saísse do estado de anomia e pudesse compreender a real situação da nação (Fico, 2001). 85 P R O P A G A N D A P O LÍ TI C A - G R U P O P R O M IN A S Figura 39 - Tropicália Fonte: Leonardo Lichote, 2017 A contrapropaganda atinge muitos brasileiros e colabora para a fortificação das milícias e grupos que se juntavam clandestinamente para combater o governo. Ao mesmo tempo, essas milícias criam pan- fletos e cartazes com críticas veementes ao regime militar, chamando o regime de ditadura e lutando pelo seu fim. Daí proliferam imagens de grandes ativistas que enfrentaram o regime, como Marighella, e sua imagem se torna uma propaganda por si só na estratégia do reduto antirregime militar. Para reprimir essa propaganda contrária ao governo, o DOPS, departamento responsável em grande parte pela censura e repressão, age em conjunto com os mi- litares que exerciam o papel de polícia nas ruas, para suprimir e retaliar qualquer crítica ao regime, mas nem toda essa repressão é suficiente. A reta final dos anos 1970 e o início dos 1980 marca a transi- ção do regime militar, que se desvincula de sua “linha dura” pautada na censura e na repressão, para adotar uma estratégia de mudança para a democracia, de forma lenta e gradual, muito em vista da pressão popular que organizava passeatas abarrotadas de gente, no movimento poste- riormente conhecido como Diretas Já, clamando pelo retorno à democra- cia e também por pressão de camadas até dentro das Forças Armadas que via o desgaste da instituição após tantos anos a frente da nação. Assim, de forma realmente lenta e gradual, com uma abertura política um tanto quanto morosa, eleições – indiretas – são convocadas, que elegem Tancredo Neves e José Sarney para presidente e vice, res- pectivamente. A escolha era por candidatos que tivessem boa relação com as Forças Armadas ao mesmo tempo em que fossem civis. Tancre- do morre antes de assumir, então é com José Sarney que o Brasil inicia sua redemocratização, que resultaria em uma nova Assembleia Consti- tuinte que por fim daria luz à Constituição Federal de 1988, até hoje em vigor (Fico, 2001, Gaspari, 2014, Napolitano, 2014). 86 P R O P A G A N D A P O LÍ TI C A - G R U P O P R O M IN A S A PROPAGANDA COM A REDEMOCRATIZAÇÃO O final do regime civil militar e o advento da terceira república permitem que o Brasil finalmente estruture uma democracia representa- tiva. Isso se agrava pelo fato de a Constituição fixar o voto como direito de todos e obrigatório. O sufrágio universal, então, é um dos grandes efeitos da nova democracia. A partir desse momento, algumas medidas são tomadas para dar cabo da nova realidade brasileira. Surgem leis eleitorais, para re- gular os processos democráticos, e surgem novas instituições para dar conta de manter a democracia e efetivá-la. Proliferam candidatos a car- gos públicos, que usam de sua história para pedir o voto ao cidadão. De repente, todos importam. No âmbito da propaganda política, a nova forma de governo acarreta uma transformação no modo de se fazer propaganda. É re- gulamentada a propaganda eleitoral gratuita, horário fixo durante um período de tempo pré-determinado para que os candidatos aos cargos políticos pudessem defender seus argumentos na televisão e no rádio, como forma de atingir todos os brasileiros. Ou a maior parte deles. A televisão, já tornada uma febre no país, é o meio mais utilizado para a propaganda política, seja de viés estatal, com mensagens do governo, com viés oposicionista, com críticas ao governo ou simplesmente com viés eleitoral, com o intuito de se chegar ao governo. Figura 40 - Fragmento de Discurso de Fernando Collor de Mello Fonte: Globo et. al., 1989 A imprensa escrita também é usada. Os jornais, além dos pan- fletos e de outdoors proliferam em todos os cantos do país para de- monstrar a capacidade política de alguma figura. Nos debates entre os candidatos presidenciáveis, há toda uma questão estética envolvida no marketing político, com vistas a passar uma boa impressão imagética 87 P R O P A G A N D A P O LÍ TI C A - G R U P O P R O M IN A S ao cidadão. Imagem, oratória, gestos, todos voltam aos holofotes para angariar a atenção e a confiança do cidadão. Com base nessa propaganda de predominância da televisão, da imagem pessoal e da história individual de cada candidato, a nova república ganha seus primeiros líderes: Collor, Itamar Franco, Fernan- do Henrique Cardoso e Lula. A partir de 2010, com a eleição de Dilma Rousseff, candidata da base aliada que já comandava o Brasil há oito anos, a propaganda política passa a predominar pela internet, devido ao acelerado avanço da tecnologia que invade o Brasil. A PROPAGANDA POLÍTICA NA ERA DA INFORMAÇÃO A internet transformou a maneira de a propaganda política fun- cionar no Brasil. Todas as estratégias de marketing, antes focadas em televisão primeiramente, mas também em rádios e jornais, mudam para absorver a tecnologia. Muito por conta do amplo acesso do brasileiro à internet e à po- pularização do smartphone no Brasil, cada vez mais o cidadão brasileiro se encontra conectado. Essa conexão aumentou o número de brasilei- ros em redes sociais, plataformas de interação social que aproximam as pessoas pela internet. Figura 41 – Era da Informação Fonte: Linkedin, 2014 Esse aumento exponencial do acesso à internet, logo chamou a atenção para os atores da propaganda política. Os governos criaram perfis oficiais nas mais diversas redes sociais e também portais para levarem informação em primeira mão a quem os acessasse. Os pre- tensiosos de se envolver nas funções políticas e públicas, logo também se conectaram a estas plataformas, que permitiam uma interação em tempo real com os possíveis eleitores. Os já estabilizados e eleitos, aproveitavam a onda da internet para se promover, demonstrar o seu 88 P R O P A G A N D A P O LÍ TI C A - G R U P O P R O M IN A S trabalho e justificar porque deveriam ser reeleitos. Assim, muito embora a internet tenha começado a se populari- zar nos anos 1990, somente na década de 2010 ela se torna uma ferra- menta de muita importância no âmbito da propaganda política nacional. São criadas estratégias para absorver e atingir cada vez mais poten- ciais eleitores, sempre mais inteirados pelo fácil acesso que a internet proporcionou à informação. Por outro lado, a proliferação de notícias falsas com o intuito de prejudicar o governo, o candidato ou o político, para abalar sua imagem pública, também cresce. Doravante, é nesse universo de informação, desinformação, fake news e contato direto entre o ente político e o alvo de sua propa- ganda, que se estabelece a política nessa década. As eleições de 2014 mostraram a força que a internet exerceu para impulsionar as impres- sões sobre os candidatos. Histórias ocultas, escondidas ou estancadas que historicamente não surgiam, com o advento da internet passaram a ser desmascaradas. Os políticos, cada vez mais, têm sua vida pública – e privada – destrinchadas em detrimento da informação para o eleitor. Figura 42 - Redes Sociais Fonte: TechTudo, 2012 O governo, por seu lado, utiliza amplamente desses meios de comunicação para se promover publicamente, ao mesmo tempo em que se expõe aos comentários de pessoas que antes não tinham voz, ge- rando, assim, mais facilidade em compreender as vontades populares. É nesse universo que, em 2013, o aumento das passagens de ônibus e metrô em São Paulo gera a união de milhares de pessoas que vão às ruas protestar. E os protestos geram novos protestos que assolam o país todo, pressionando os governos a cederem perante a vontade popular. É nesse levante que se percebe a força política da pro- paganda via internet, onde os protestos eram marcados, assim como ocorreu anos antesna Primavera Árabe (Bucci, 2016). As eleições de 2018 consolidam a internet como o principal meio para veiculação da propaganda política. Praticamente todos es- 89 P R O P A G A N D A P O LÍ TI C A - G R U P O P R O M IN A S tão conectados ou têm acesso às informações que circulam na rede. A propaganda política, que milênios atrás alcançava pela tradição oral pequenos povoados, com a internet, alcança pessoas do mundo todo. Leva informação a todo o momento sobre absolutamente tudo. Isso gera uma miríade de possíveis interpretações por parte daquele que absorve a propaganda política que lhe é colocada a frente. E é dessa forma, virtual e acessível, que caminha a democra- cia no Brasil. Longe de ser a de maior equidade, mas bem distante das falsas democracias e regimes antidemocráticos de sua história. Se a propaganda política outrora serviu como objeto das classes dominantes para manterem seu poder – o que de certa forma, ainda ocorre – com a popularização da internet, a ampulheta vira de lado, e ao mesmo tempo que quem domina quer de qualquer forma se agarrar ao poder, outros também querem alcançá-lo, e para isso tem a possibilidade de agir, de se fazer notar, instantaneamente. Em suma, o avanço da propaganda política atrelado à tecnologia permitiu que a democracia saísse da apa- rência para entrar em vigor, atingindo em cheio uma população que, pasma, tenta entender esse fenômeno tão recente em sua história. 90 P R O P A G A N D A P O LÍ TI C A - G R U P O P R O M IN A S QUESTÕES DE CONCURSOS QUESTÃO 1 Ano: 2017 Banca: IFB Órgão: IFB Prova: Professor – História Nível: Superior. Com relação ao processo de “Abertura” do Regime Militar, ou seja, de transição para a Democracia, iniciado em 1974, marque (V) para as afirmativas VERDADEIRAS e (F) para as FALSAS. ( ) A “Abertura” começou com a redução das restrições à propa- ganda eleitoral (em 1974) e deu um grande passo com a revogação do AI-5 em 1978. ( ) As eleições legislativas de 1974, com propaganda eleitoral mais livre, foram marcadas pela expansão da oposição ao Regime Mili- tar. Como resposta, Geisel suspendeu o Congresso por 15 dias e decretou mudanças eleitorais, como a eliminação da exigência de dois terços dos votos dos congressistas para aprovação de refor- mas constitucionais. ( ) O presidente à época, Ernesto Geisel, pertencia ao grupo militar ligado ao general Castelo Branco, grupo este que nunca pretendeu estender indefinidamente o controle militar do governo. ( ) Em 1973, aconteceu o primeiro choque do petróleo, ou seja, uma queda brusca no preço desse produto, o que comprometeu o “mi- lagre” econômico promovido pelo Regime Militar. ( ) A montagem de aparelhos repressivos criou dentro das forças armadas um grupo quase independente que fortalecia a hierarquia militar. Assinale a alternativa que contém a sequência CORRETA, de cima para baixo. a) V, F, V, F, V b) F, V, V, F, V c) F, V, F, V, F d) V, F, F, V, F e) V, V, V, F, F QUESTÃO 2 Ano: 2010 Banca: ESAF Órgão: CVM Prova: Agente Executivo Ní- vel: Médio. No Brasil, a Primeira República (1889-1930), também conhecida como República Velha, caracterizou-se por: a) eleições fiscalizadas pela justiça eleitoral. b) amplo domínio das oligarquias. c) voto direto, secreto e universal. 91 P R O P A G A N D A P O LÍ TI C A - G R U P O P R O M IN A S d) universalização do acesso ao ensino primário. e) economia diversificada e autárquica. QUESTÃO 3 Ano: 2015 Banca: FUNCAB Órgão: Faceli Prova: Professor - Histó- ria Nível: Superior. Derrotado nas urnas e alegando que houve fraude, Getúlio Vargas comanda o movimento armado que acabaria derrubando o presiden- te Washington Luís e ficaria conhecido como Revolução de 1930. Em tese a concentração de poderes nas mãos de Vargas represen- tou o(a): a) auge do movimento tenentista. b) destruição do poder das oligarquias estaduais. c) inexistência de grupos capazes de assumir o controle político do país. d) maior participação política popular. e) final da influência dos monarquistas nas decisões de governo. QUESTÃO 4 Ano: 2018 Banca: CESPE Órgão: Instituto Rio Branco Prova: Diplo- mata Nível: Superior Getúlio Vargas assumiu a presidência do Brasil na chamada Revo- lução de 1930. Seu governo foi marcado por fortes transformações econômicas e sociais, bem como por acontecimentos políticos im- portantes no Brasil e no mundo. A respeito da Era Vargas, julgue (C ou E) o próximo item. Com a decretação do Estado Novo, em 1937, Getúlio Vargas tomou medidas como a suspensão do pagamento da dívida externa, a dimi- nuição da liberdade de imprensa e a extinção dos partidos políticos. c) Certo e) Errado QUESTÃO 5 Ano: 2015 Banca: MPE-RS Órgão: MPE-RS Prova: Assessor Bacha- rel em História Nível: Superior. Assinale com V (verdadeiro) ou com F (falso) as seguintes afirma- ções, relativas à história do Brasil na primeira metade do século XX. ( ) A ascensão de Getúlio Vargas em 1930 provocou uma cisão local na oligarquia gaúcha, resultando na criação do Partido Republica- no Liberal, de oposição ao governo central. ( ) O golpe de Estado realizado por Getúlio Vargas em 1937 ocasio- nou forte resistência da elite política paulista, culminando com a chamada Revolução Constitucionalista. 92 P R O P A G A N D A P O LÍ TI C A - G R U P O P R O M IN A S ( ) O Estado Novo definiu-se por uma política de massas marcada pela centralidade da figura do líder e pela crítica ao sistema liberal. ( ) Com uma economia ainda centrada na produção agrícola, a le- gislação sindical na Era Vargas foi predominantemente voltada para os trabalhadores do mundo rural. A sequência correta de preenchimento dos parênteses, de cima para baixo, é a) V – V – V – F. b) V – V – F – V. c) V – F – V – F. d) F – F – V – F. e) F – F – F – V. QUESTÃO DISSERTATIVA – DISSERTANDO A UNIDADE Durante a história do Brasil, a propaganda política sempre esteve pre- sente. Desde a chegada de Cabral, para atestar o pertencimento do Bra- sil a Portugal, até os dias recentes, com os constantes conflitos entre ideologias e a tentativa de um grupo de se manter no poder por mais de um mandato. Ao mesmo tempo, pudemos observar no primeiro capítulo diversas formas de se manifestar a propaganda política. Relacione cada categoria da propaganda política com um momento da história brasileira. TREINO INÉDITO Importante político e jornalista brasileiro, um atentado contra sua vida em agosto de 1954, foi a gota d’água para o governo de Getú- lio Vargas, que já ia enfrentando forte oposição política, em grande parte por propaganda ferozmente alavancada por ele e seus parti- dários. Trata-se de: a) Assis Chateaubriand b) Roberto Marinho c) Washington Luis d) Carlos Lacerda e) Filinto Muller NA MÍDIA REDES SOCIAIS INFLUENCIAM VOTO DE 45% DA POPULAÇÃO, INDICA PESQUISA DO DATASENADO Uma pesquisa de opinião do Instituto DataSenado aponta a influência cres- cente das redes sociais como fonte de informação para o eleitor, o que pode em parte explicar as escolhas dos cidadãos nas eleições de 2018. Quase metade dos entrevistados (45%) afirmaram ter decidido o voto levando em consideração informações vistas em alguma rede social. E a principal fon- 93 P R O P A G A N D A P O LÍ TI C A - G R U P O P R O M IN A S te de informação do brasileiro hoje é o aplicativo de troca de mensagens WhatsApp, segundo o levantamento. Das 2,4 mil pessoas entrevistadas, 79% disseram sempre utilizar essa rede social para se informar. Os dados são da pesquisa nacional Redes Sociais, Notícias Falsas e Privacidade na Internet, realizada pelo DataSenado em parceria com as Ouvidorias da Câmara dos Deputados e do Senado Federal. O estudo, divulgado nesta semana, também abordou a privacidade de dados na internet e o comportamento dos brasileiros em relação às notícias falsas. Os resultados indicam que os brasileiros acreditam que os conteúdos nas redes sociais têm grande influência sobre a opiniãodas pessoas. Cerca de 80% dos participantes do levantamento compartilham essa percepção. Mas o percentual varia conforme a escolaridade: é de 76% entre cidadãos que têm ensino fundamental e chega a 90% entre os que têm escolaridade superior Quanto à frequência com que meios de comunicação e redes sociais são usados como fonte de informação, 79% dos entrevistados responderam que sempre utilizam o WhatsApp, enquanto 50% indicaram que sempre re- correm à televisão e 49% sempre se informam pelo YouTube. Quanto mais alta a faixa de idade, maior o percentual de entrevistados que respondem utilizar sempre televisão como fonte de informação. Por outro lado, para o Instagram e YouTube, o padrão é inverso: quanto mais baixa a faixa de idade, maior o percentual de entrevistados que dizem usar sempre essas redes sociais como fonte de informação, segundo o DataSenado. Com relação às eleições, as redes sociais que tiveram maior impacto nas eleições foram o Facebook (31%), o WhatsApp (29%), o YouTube (26%), o Instagram (19%) e o Twitter (10%). O público jovem usa mais as redes sociais e também dá mais valor a infor- mações nesses meios para sua decisão de voto. O percentual de entrevis- tados que responderam que decidiram algum voto com base em informa- ções vistas em alguma rede social é maior entre pessoas na faixa dos 16 a 29 anos; 51% dos entrevistados desse grupo responderam que levaram as redes sociais em consideração na hora de escolher seu candidato. O impacto das mídias sociais também é maior entre eleitores que se consideram de direita, pessoas com escolaridade mais alta e pessoas com renda familiar mais alta. Fonte: Agência Senado Data: 12/12/2019 Leia a notícia na íntegra: https://www12.senado.leg.br/noticias/mate- rias/2019/12/12/redes-sociais-influenciam-voto-de-45-da-populacao-in- dica-pesquisa-do-datasenado 94 P R O P A G A N D A P O LÍ TI C A - G R U P O P R O M IN A S NA PRÁTICA A própria história do Brasil é recheada de propaganda política. Com a chegada de Cabral, a onda era provar o pertencimento do Brasil a Por- tugal. Submeter aos espanhóis que o tratado de Tordesilhas dava direito integral ao território brasileiro para os portugueses. Com a independên- cia, o discurso muda, a regra passa a ser a defesa da legitimidade do Brasil como nação, a criação de uma identidade nacional. A transição do Império para a República marca uma nova mudança no cenário da propaganda, há de se desvencilhar dos símbolos do Império para enaltecer os símbolos e representantes da nova República. Com Vargas, esquece-se da República, para se vangloriar o grande lí- der e a população brasileira. O brasileiro entra em evidência como obje- to de propaganda política, desde que venerasse a liderança do gaúcho Getúlio Vargas. A redemocratização reestabelece o interesse da propaganda aos símbo- los republicanos, mas logo é suprimida pelo advento do Regime Militar. A nação, o Brasil em primeiro lugar, é a meta do governo. Já dizia sua propaganda, ame-o ou deixe-o. Não se vangloria mais os símbolos da re- pública, mas os símbolos do Brasil: a bandeira, as instituições, o hino etc. As demandas por democracia, dentre outros fatores, levam ao fim do re- gime militar, dando lugar à segunda redemocratização do país. O culto se mantém aos símbolos nacionais, mas também à democracia, ao republica- nismo e à Constituição Federal. Nesse âmbito, a propaganda política sai do campo da oficialidade, para adentrar no campo eleitoral, onde surge como a mais importante ferramenta para angariar os votos dos cidadãos. A partir de 1988, todos podem votar, e para conquistar votos, é neces- sária muita propaganda. Assim, o que se vê na mídia, seja na televisão, no jornal, na internet ou no rádio, desde 1988, não passa de propaganda política, às vezes ocultando, às vezes demonstrando claramente os inte- resses ideológicos de determinado grupo que almeja conquistar o poder, e se possível, lá se manter por um bom tempo, quiçá até o fim dos dias. PARA SABER MAIS Filmes sobre o assunto: 1 - Chatô, o Rei do Brasil (Guilherme Fontes, 2015) 2 - Getúlio (João Jardim, 2014) 3 - Olga (Jayme Monjardim, 2004) Peça de teatro: Eles não usam black-tie – Gianfrancesco Guarnieri (Ci- vilização Brasileira, 2017) Acesse os links: e 95 P R O P A G A N D A P O LÍ TI C A - G R U P O P R O M IN A S Dito tudo isso, chegamos ao final desta unidade, por meio da qual pudemos apreciar e conhecer alguns desdobramentos a respeito da propaganda política. Recapitulando, no primeiro capítulo pudemos ver como se formou historicamente a propaganda política. Foi possível constatar que a propaganda política é algo inerente ao ser humano, pois o simples fato de falar, de transmitir ao outro uma opinião a respeito de uma estrutura ou uma pessoa, se configura em propaganda política. Doravante, nas primeiras civilizações, a predominância era ab- soluta da tradição oral para constituir a propaganda política, pois estas civilizações não tinham acesso às tecnologias que posteriormente seriam absorvidas pelo ser humano. A invenção da escrita possibilita uma nova forma, mais durável, de se fazer propaganda política, que agora surge da literatura, dos panfletos, cartazes e jornais. Os jornais, por sua vez, se popularizam com a criação da máquina de prensa, por Gutenberg, já no século XV. Mais adiante, as criações do rádio e da televisão levam a propaganda política a um novo patamar. Movimento e som agora são atrelados a imagens que antes figuravam inertes nos jornais. Há aproxi- mação do público que passa a reconhecer seus políticos. As estruturas, porém, são abaladas com a chegada da internet, que revoluciona a forma pela qual a propaganda política se constitui, ao aproximar o ente político desejoso de propaganda do seu alvo, o público. Assim, a era digital trans- forma a propaganda política, estreitando a relação que se cria no âmbito da propaganda política e que tende cada vez mais a se desenvolver. Em um segundo momento, os desdobramentos do regime na- zista de Hitler na Alemanha são aprofundados. Isso se faz, pois, é com o regime totalitário alemão que temos, historicamente, o uso mais mas- sivo e inovador de propaganda política. Tratar desse assunto sem abor- dar como os nazistas se apropriaram dessa estratégia para se manter no poder por tanto tempo, é deixar uma lacuna em qualquer trabalho que tenha a pretensão de explorar a propaganda política. No terceiro capítulo abordamos, de forma superficial, o avanço da propaganda política no âmbito do desenvolvimento do Brasil. As- sim, pudemos ver como desde o descobrimento há um amplo interesse da política em criar símbolos e imagens públicas que vão se alterando com o tempo. Também observamos que essas mudanças de objetivos acompanham as mudanças tecnológicas, que permitem o acesso e o uso da propaganda política pelos mais diversos meios de comunicação que foram abordados no primeiro capítulo. Pudemos então compreender que a propaganda política está acoplada à existência humana. Desde a dialética até a erupção da in- ternet, todas as ações que envolvem pretensões coletivas podem ser 96 P R O P A G A N D A P O LÍ TI C A - G R U P O P R O M IN A S consideradas propaganda política. A mudança, em regra, é na forma como se atinge o objetivo propagandístico. Se outrora apenas cabia ao ser humano falar aos que se encontravam perto de si, hoje é possível falar a bilhões de pessoas, em todo o planeta. A propaganda está em todos os lugares, basta a compreen- são de que todas as mensagens que proliferam por aí têm um claro interesse. Compreender suas origens colabora para a compreensão da mensagem. Assim, a propaganda e a vida em sociedade se pautam em uma grande atividade dialética e semiótica, segundo a qual tudo se dota de um interesse e um significado, da coisa mais insignificante à questão mais importante para a existência humana. Não obstante, encerramosa unidade com a certeza de que o conteúdo aqui adquirido é parte de uma engrenagem muito maior, em que cabem muito mais minúcias a serem exploradas e difundidas. É cabível salientar que a produção de uma obra dessas sempre acarreta algumas lacunas, algumas propositais por conta do recorte escolhido, outras muitas vezes esquecidas ou ainda não aprofundadas, no anseio de constituir uma obra coerente e didática. Igualmente, papel importante nas ciências humanas se dá pelo interesse das gerações vindouras em preencher lacunas do passado e revisitar áreas já exploradas, para dar nova luz que os tempos atuais, por vezes, ainda não permitem. É fundamental que o diálogo e as produções científicas sempre se mantenham, pois é através delas que se alcança o progresso e a evolução da raça humana e de suas ferramentas. Tudo isso, sempre constituído a partir da educação. Afinal, sem educação, pro- gresso e evolução, ainda viveríamos em um mundo pautado na tradição oral e no mito, condenados a viver em um eterno passado. 97 P R O P A G A N D A P O LÍ TI C A - G R U P O P R O M IN A S GABARITOS CAPÍTULO 01 QUESTÕES DE CONCURSOS QUESTÃO DISSERTATIVA – DISSERTANDO A UNIDADE – PADRÃO DE RESPOSTA A mídia escrita tem diversas categorias que podemos citar. No âmbito da literatura, temos as obras que ditam conhecimentos políticos de for- ma subjetiva ou até clara mesmo. Exemplos são as críticas nas obras de Platão, Sófocles, Cervantes, dentre outros tantos autores renoma- dos da história da literatura. No âmbito da mídia impressa, há o jornal, que almeja levar notícias e informações ao público e que, com seu surgimento, já se tornou objeto da propaganda política, pois permitia ao político e ao governo, de forma rápida e, para a época, dotada de certa legalidade, informar aquilo que lhe convinha. Os anos, décadas e séculos passaram, mas a ideia do jornal como objeto da propaganda política permaneceu, pois ainda hoje é possível que se faça propaganda por este meio de comunicação, in- dicando elogios e críticas a certas figuras públicas e a certos atos para que assim haja a formação de uma ideia de quem lê sobre o que é lido. Podemos citar ainda os folders, outdoors, panfletos e faixas que são comuns para a expressão da propaganda política, versando opiniões a respeito de pessoas e atos que podem influenciar a escolha de outros. No Brasil, tal prática é corriqueira no período eleitoral com a utilização dos santinhos, pequeno panfleto de papel que mostra o candidato, seu número para a urna e suas ideias. TREINO INÉDITO Gabarito: D 98 P R O P A G A N D A P O LÍ TI C A - G R U P O P R O M IN A S CAPÍTULO 02 QUESTÕES DE CONCURSOS QUESTÃO DISSERTATIVA – DISSERTANDO A UNIDADE – PADRÃO DE RESPOSTA O governo nacional-socialista implantado por Hitler na Alemanha, se dispôs a utilizar de todos os mecanismos de propaganda política que estavam disponíveis em sua época. Assim, antes do partido subir ao poder, utilizava-se de debates e pales- tras para ganhar seguidores pelo poder da retórica, pela tradição oral. Assim como na Mesopotâmia, e em outras civilizações antigas, através da oralidade conseguiu angariar seus primeiros seguidores. Depois, usou também da literatura, dos jornais e dos panfletos e pôste- res, tanto antes quanto depois de subir ao poder. O livro de Hitler, Minha Luta, serviu de propaganda do partido, além de muitos panfletos com as ideias do nazismo. Após a ascensão ao poder, os jornais, com forte censura do Estado nazista, veiculavam aos quatro cantos da Alemanha as matérias que eram pertinentes à máquina de propaganda nazista. No tocante ao rádio e à televisão, programas eram veiculados e filmes criados para seguir os aspectos que norteavam o nazismo. Assim, as obras versavam sobre a grandiosidade do povo alemão, de sua honra e glória, da importância do Nazismo para a recuperação alemã pós-Pri- meira Guerra Mundial e também para as campanhas contra os inimigos, atacando ingleses, franceses, bolcheviques e, principalmente, os judeus. Vale lembrar que essa estrutura toda de propaganda, essa engrenagem nazista, foi amplamente usada na guerra, tanto quando a Alemanha vencia o conflito, como para manter a moral das tropas em alta após a guinada que culminaria com a derrota de Hitler e seus seguidores. TREINO INÉDITO Gabarito: C 99 P R O P A G A N D A P O LÍ TI C A - G R U P O P R O M IN A S CAPÍTULO 03 QUESTÕES DE CONCURSOS QUESTÃO DISSERTATIVA – DISSERTANDO A UNIDADE – PADRÃO DE RESPOSTA A história do Brasil está recheada de momentos em que a propaganda política se fez presente, sendo possível mostrar em cada época, a pre- dominância de uma forma de propaganda política. A colonização do Brasil, com a criação de uma estrutura política na colônia, com vistas a manter a vinculação à metrópole, se fez em grande parte por tradição oral, quando os Portugueses afirmavam para o mundo e para os novos colonos, principalmente, que a colônia brasileira lhes pertencia. Na transição do Império para a república foi muito importante a pres- tação da mídia escrita. Através dos jornais, panfletos e livros, os ideais republicanos puderam ser expandidos e chegar ao conhecimento de boa parte da população, o que seria utilizado posteriormente para a legitimação da nova forma de governo. A Era Vargas se popularizou pelo extenso uso da rádio como mecanis- mo de propaganda mais efetivo, além da mídia escrita, pois atingia a maior parte da população que ouvia atenta os informes do governo e os discursos de seu líder, muito populista. A redemocratização, após o final do regime militar, permitiu que a tele- visão passasse a predominar o âmbito da propaganda política. O horá- rio eleitoral obrigatório na televisão permitiu a absorção desse meio de comunicação para a propaganda dos candidatos. A expansão da televi- são no Brasil também possibilitou que o governo e a oposição fizessem vasto uso dessa ferramenta de propaganda para propagar suas ideias. As recentes eleições de 2014 e 2018 vieram com uma mudança es- trutural na forma de se fazer propaganda política, agora pautada em grande parte na internet e no uso das redes sociais. A democratização da informação através da rede permitiu o amplo acesso da população, que através da internet, vê os laços com os candidatos se estreitarem e a informação chegar com mais velocidade, numa revolução digital que transformou o modo de se fazer política no século XXI. TREINO INÉDITO Gabarito: D 100 P R O P A G A N D A P O LÍ TI C A - G R U P O P R O M IN A S ADRIAN HARRINGTON. Mein Kampf. 1939, Imagem – Disponível em: https://www.harringtonbooks.co.uk/pages/books/51231/adolf-hitler/ mein-kampf AMÉRICO, Pedro. Independência ou Morte. 1888, Imagem – Disponí- vel em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Independ%C3%AAncia_do_Brasil#/ media/File:Independ%C3%AAncia_ou_Morte_(1888).jpg ARISTÓTELES. Política. São Paulo: Lafonte, 2017 AUGUSTO JOBIM DO AMARAL. Blitzkrieg. Ano Desconhecido, Ima- gem – Disponível em: https://medium.com/passagens/blitzkrieg-neoli- beral-mais-um-ataque-514018bafc2b BAHIA, Juarez. Jornal, História e Técnica. Rio de Janeiro: Mauad, 2009. 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Essa estrutura pautada na construção do mito, que posterior- mente seria estudada por Joseph Campbell (Palas Athena, 2014), per- mitia um aparelhamento e uma hierarquia de subjugação da população em relação aos seus governantes, mantidos pela questão de deidade atribuída ao líder da civilização. Assim, os diversos povos que governa- ram a Mesopotâmia, das mais distintas raízes e tradições, conseguiam com que os súditos fossem leais aos governantes. A propaganda política, nesse caso, se faz de maneira oral, com a imposição de uma tradição consuetudinária na obediência aliada ao ca- ráter religioso da figura de liderança. Ao mesmo tempo, se fez pelo medo, pois a quebra da hierarquia ou da organização criada pela civilização, acar- reta ao responsável uma punição, muitas vezes imposta pelos próprios go- vernantes, mas, na maioria das vezes, justificada pela necessidade divina. Com o advento do Código de Hamurabi, pode-se dizer que há 16 P R O P A G A N D A P O LÍ TI C A - G R U P O P R O M IN A S a gênese de uma transição da memória, que até então era oral, para a escrita. Porém, ainda é cabível notar o alcance da memória oral na socie- dade. A lei do Talião, do “olho por olho, dente por dente”, poderia estar es- crita, e ainda trazer em suas palavras as punições humanas para as mais diversas atividades ilícitas. Todavia, ainda é perceptível que essa socie- dade teme mais o divino do que o humano, assim, o caráter do medo perpassa a norma escrita e se mantém na mente coletiva pelo critério mitológico, que lá foi parar devido ao contexto de propaganda aparelhado por esta própria sociedade, de geração em geração (Pinsky, 2006). No Egito, as coisas são bem parecidas. A estrutura de Estado, se é que podemos falar de Estado, sem tender fortemente para um ana- cronismo que não é interessante, se baseia de maneira próxima à visão dos mesopotâmicos. Em linhas gerais, a maior mudança vem na figura do líder. O faraó, neste caso, não é a indicação de um escolhido por uma divindade, mas é, em si mesmo a própria divindade (Guarinello, 2013). Figura 2 - Faraó Fonte: Jeff Dahl, 2007 Aqui, se confunde a figura do rei com a do deus. Os dois são o mesmo: o faraó. E é a partir dessa premissa que se constrói uma me- mória oral, acarretada ao extremo de pretensões pautadas na propagan- da política. A lealdade do súdito egípcio passa muito pela temeridade de desrespeitar aquela figura divina que manda neste território. Novamente, o medo e o mito se aliam para gerar, através de uma propaganda que se repassa culturalmente dentro da própria tradição egípcia, uma mensa- gem que é, de forma geral, aceita pela população (Baines, Malik, 2008). 17 P R O P A G A N D A P O LÍ TI C A - G R U P O P R O M IN A S As sociedades primitivas tentavam se comunicar desde sempre. O anseio por deixar uma marca para o próximo, uma forma de sair do ramo interno para alcançar o outro, pode ser visto desde as pinturas rupestres. O surgimento da escrita, muitos séculos de- pois, permitiu que se alavancasse a produção do homem, que havia ali descoberto uma forma de eternizar seu pensamento. A tradição oral até então assimilada, poderia então passar aos escritos, pode- ria enraizar-se. Não se sabe até hoje o quanto se perdeu dessa tra- dição oral que não sobreviveu até o surgimento da escrita. Através de estudos arqueológicos, entretanto, é possível remontar algumas práticas que eram corriqueiras nas sociedades antigas. Nesse interím, a memória oral tem fundamental importância para a construção dos mitos egípcios. O faraó só poderia se manter no poder, se houvesse a lealdade de seus súditos. Para tanto, era ne- cessário disseminar a ideia de sua divindade e aparelhar as primitivas formas da civilização de modo que fosse crível tal afirmação. Assim, na base do medo, do mito e da oralidade, a grande ideologia do faraó se perpetrou na sociedade, transformando homem em deus e assim, man- tendo-o no poder de forma vitalícia. Na sociedade romana, a questão da oralidade como uma ferra- menta de propaganda política tem uma conotação mais humana. O apelo para a divindade ainda existe, afinal, os imperadores também eram consi- derados como figuras agraciadas pela benevolência dos deuses – e poste- riormente, com a cristianização do Império – de Deus. Entretanto, a estru- tura política era mais centrada nos homens. Houve, em Roma, o senado, o imperador e o rei. Diversas figuras e instituições criadas no âmbito da política, com força e poder para transformar seu tempo (Beard, 2017). A morte de César é um claro exemplo de propaganda política perpassada pela via oral, pelo atributo memorialístico. Morto dentro do senado, a construção deste atentado que daria fim à sua vida, partiu de rumores do próprio Senado em relação às atitudes tirânicas de César. Dotado de poder nunca dantes visto, muito em voga por sua grande inteligência e estratégia, César conseguia vencer exércitos e inimigos visíveis, mas não pôde perceber a ameaça que lhe brotava de forma sutil e silenciosa, dentro do seu próprio território. A insatisfação com as medidas do imperador romano ia, “de boca em boca”, se alastrando dentro do Senado, até que – em conjun- 18 P R O P A G A N D A P O LÍ TI C A - G R U P O P R O M IN A S to – a ideia do assassinato aflorasse. Assim, foi através de uma pro- paganda negativa feita dentro do Senado, na base do murmúrio e da ocultação, que um dos maiores líderes historicamente reconhecidos foi assassinado (Eck, 2000). Figura 3 - A Morte de Júlio César Fonte: Portal Oficina de Latim Na Grécia, por sua vez, há diversas particularidades da propa- ganda política que podem ser discutidas. No que tange à memória oral e à propaganda com base na oralidade, a Grécia também teve grande contribuição. No âmbito da democracia grega, os debates na Ágora não eram nada mais, nada menos do que a tentativa, por parte daqueles que detinham a palavra, de transformar a opinião daqueles que tinham visões contrárias. Essa grande síncope dialética se trata, na mais pura forma, de propaganda política. Uns detinham argumentos para defender determinado ponto e, através de suas estruturas racionais de pensar, tentavam fazer com que a maioria dos cidadãos também chegassem à mesma conclusão (Ribeiro, 2001 e 2001b). Portanto, a propaganda política era visível nos debates da Ágora, dentro da realidade grega. Para além disso, as discussões retra- tadas nos livros de Platão a respeito de Sócrates, demonstram diálogos em que Sócrates expõe seus pensamentos abertamente à população, buscando que a população conseguisse, num exercício de alteridade, compreender o seu pensamento e então, partilhá-lo. Nesse viés, pode- mos encaixar a educação e o diálogo como formas notáveis de propa- ganda política (Ribeiro, 2001 e 2001b). A ideia dos cidadãos apenas como os homens, excluindo-se aí escravos, estrangeiros, mulheres e crianças, também demonstra uma escolha política, cuja propaganda passou por gerações. Sendo assim, a cultura de ter apenas um modelo de cidadão que se encaixasse em 19 P R O P A G A N D A P O LÍ TI C A - G R U P O P R O M IN A S alguns critérios, que durou algumas gerações, aponta para a propagan- da política do status quo em se manter operante durante a existência da democracia grega (Guarinello,2013). No tocante às divindades, as referências à propaganda política são extensas. A própria mitologia grega se constrói num universo de muita propaganda política engendrada na tradição oral. Cada divindade com seus atributos, qualidades e defeitos – muitos deles, humanos – e que afirmam diariamente seu poder sobre a raça humana, que apron- tam as mais diversas e aleatórias patuscadas com o mundo terreno, demonstram como havia um critério de oralidade e cultura que movi- mentava o imaginário social, permitindo assim a tendência de um povo em seguir certas linhas políticas. Resumindo: propaganda política. Figura 4 - Ágora Fonte: Portal Poder Originário Na Ilíada (Nova Fronteira, 2015), Agamemnom é castigado pelos deuses por não devolver a filha de um senhor, devoto de uma divindade. Apesar dos conselhos de seus próximos para que ouvisse os deuses, entregando a jovem ao seu pai, tentando influenciar na sua escolha para acreditar na tradição cultural/oral/religiosa, ele se nega a fazê-lo e, posteriormente, sofre castigos por sua má escolha. A propa- ganda aí é clara: ouça a tradição das divindades, para assim governar por muito tempo e sabiamente. Se não o fizer, então os maus augúrios podem lhe fazer companhia por um período de tempo. A oralidade na cultura grega tem esse peso na transmissão da tradição. Assim, um rei que ouvisse e levasse em consideração a tradi- ção e a cultura, seria duplamente beneficiado: primeiro seria benquisto pelos deuses, pois seria um fiel servo, e em seguida seria venerado por seus súditos, pelos humanos, pois seria uma figura de respeito aos símbolos da cultura grega. Dessa forma, alçaria fama e seu nome seria veiculado, “de boca em boca”, por todo o mundo. 20 P R O P A G A N D A P O LÍ TI C A - G R U P O P R O M IN A S Com os judeus e a sua prática de um monoteísmo moralista, a propaganda política continua, assim como a oralidade sustentada na religião. Se Deus abençoa essa liderança política, então ela deve ser boa e sua palavra deve ser levada como o ar. Se não, porém, deve ser esquecida na escuridão. O atributo da afirmação religiosa sobre a liderança política constitui um grande alicerce da propagnada política, que, então, se enraíza. Para que haja uma boa aceitação da sociedade, é necessário o bom relacionamento religioso, caso não haja, a revolta popular toma forma (Pinsky, 2006). Assim, os romanos, ao controlarem o Oriente Médio durante os anos de Jesus, como diz na bíblia, sofrem sua ira, ao entrar no templo e excomungar que deve-se dar a César o que é de César e a Deus o que é de Deus. Pode-se até dizer que a própria história de Jesus se alinha com a propaganda política. Jesus não deixou nenhum escrito seu, mas através de suas ações, de seus milagres, de sua palavra, pôde transfor- mar o pensamento de multidões. A sua propaganda, então, de Messias e Salvador, se fez através da boca das multidões, que viam no filho de José e Maria a representação do filho de Deus (Schilling, 1992). Figura 5 - Jesus fala com as pessoas Fonte: Portal Miquels 777 É cabível dizer ainda, que a oralidade como forma de se fazer pro- paganda, mormente no aspecto político, ainda tem muita força. É comum no discurso informal brasileiro a seguinte frase: “não há propaganda melhor do que a de boca em boca”. Assim, o caráter da oralidade e da memória continua muito presente no jeito de se fazer propaganda política hoje. Ain- da que haja outros recursos para a aproximação do povo com as lideran- ças políticas, é com a voz e com a construção de uma memória a respeito de momentos e figuras, que se delineam os traços que fazem a política. Um que fala ao outro, que fala ao terceiro e assim sucessi- vamente. Essa grande cadeia dialética de informação tem o poder de 21 P R O P A G A N D A P O LÍ TI C A - G R U P O P R O M IN A S transformação do mundo há milênios e, enquanto houver linguagem, pode-se ousar dizer que continuará a ter importância. Mas é preciso esmiuçar também outras maneiras de se fazer propaganda. Se a oralidade e a memória persistiram tantos milênios, outra forma de se transmitir o pensamento político, desde seu surgi- mento, também se estabeleceu e se manteve por muitos milênios, tendo até hoje grande participação nas estratégias de propaganda: a escrita. Falar de Jesus dentro do campo histórico requer muito cuidado. Por um lado, há o caráter religioso que envolve as narra- tivas cristãs, uma vez que o cristianismo se configura na maior re- ligião do planeta. Por outro lado, há o caráter científico que envol- ve as narrativas cristãs, posto que nem todos os relatos bíblicos correspondem às descobertas arqueológicas e históricas que se têm conhecimento até os dias de hoje. Porém, cabe salientar que grande parte dos relatos encontrados na bíblia tem fundamento nas descobertas científicas. Assim, ainda que seja necessário ser muito cauteloso no que tange ao uso da bíblia como fonte históri- ca, é cabível o seu uso, pois parte de suas narrativas constituem importantes relatos sobre a sociedade contemporânea de Jesus. O ADVENTO DA MÍDIA IMPRESSA Como pudemos apreciar no último capítulo, a escrita surge ain- da no tempo das civilizações antigas. De início, a escrita cuneiforme, baseada em símbolos que eram inscritos em tabuletas, espécie de ob- jeto de argila. No Egito, na mesma época, surgem os hieróglifos, outra maneira de expressão de um povo; mas, nesse caso, mais pautada em representações por desenhos. O advento da escrita é um marco distinto de suma importância na história. A partir daí, foi possível à sociedade se expressar e enraizar seus pensamentos, seja na argila ou no papel, eternamente. A evolução da escrita se dá até hoje. A linguagem, o alfabeto, os mais variados idiomas, todos acarretam suas próprias minúcias que se transformam enquanto a grande roda da história caminha sem fim. Quando o homem formula uma maneira de fixar suas ideias em um objeto, percebe o potencial disso para sua própria existência. As 22 P R O P A G A N D A P O LÍ TI C A - G R U P O P R O M IN A S ideias, então, saem da mente e do campo da dialética para se tornarem visíveis, ali, marcadas para a eternidade. Os avanços tecnológicos alcançados pelo ser humano, permiti- ram também, concomitantemente, o avanço da compreensão da escrita e a sua ampla mutação para se tornar cada vez mais acessível e com- preensível. Assim, se no início da escrita, esta se baseava em objetos, com o surgimento do alfabeto e da formulação de uma estrutura lin- guística, ela alcançou novos patamares, saindo da obsolescência para atingir mais camadas da população. A escrita, então, se estabeleceu como uma forma de exprimir ideias e mantê-las fixas, quase de forma imperativa, atestando em um objeto a existência de algo que surgiu da mente do seu criador. O homem, por sua vez, partindo de um pressuposto aristotélico de que é um animal político, logo passou a incluir a escrita como fonte importante para seus objetivos políticos. Absorveu a fonte escrita para produzir materiais em que suas vontades se exprimissem e pudessem ser duradouras, ao contrário da já conhecida e utilizada tradição oral, que dependia de as gerações perpassarem os ensinamentos, senão estaria fadada ao ostracismo. Dessa forma, é com o Código de Hamurabi que temos a pri- meira grande representação política escrita da qual hoje temos conhe- cimento. Datado do período mesopotâmico, milênios antes de Cristo, é comum atribuir ao Código de Hamurabi o título de primeira legislação escrita da história. Nesse sentido, há dois pontos a discutir: o primeiro no que concerne a ser o primeiro código de leis escrito, isso é um fato. O segundo diz respeito à originalidade das ideias ali presentes. Muitos acreditam que o Código de Hamurabi foi inovador, como se as leis ali contidas não existissem antes de sua positivação, e é aí que mora o engano. O Código de Hamurabi, na verdade, consiste em uma norma-tização de leis já existentes entre os mesopotâmicos. As leis já eram presentes nessa sociedade, porém se mantinham de forma consuetu- dinária, através da tradição e da oralidade. Com o Código, passa a ser escrita, fixa, imortal e imperecível (Pinsky, 2006). O Código sai do mundo das ideias, da tradição oral e passa para um objeto físico, para uma grande tabuleta onde se dispunham as consequências de alguns atos praticados pela sociedade, que se base- avam na lei de Talião, o popular “olho por olho, dente por dente”. Da mesma forma, no campo político, com o passar do tempo, há essa efervescência de abstrair do mundo das ideias as informações e passá-las para a escrita, mantendo-as assim perenes. Já na Grécia antiga, os grandes filósofos, com exceção de Só- crates que não deixou livros escritos, mas foi amparado pela profícua 23 P R O P A G A N D A P O LÍ TI C A - G R U P O P R O M IN A S produção de Platão, seu pupilo, deixaram vastas obras que versavam sobre a política, as artes, os deuses etc. (Bowersock, 1999). A massiva produção escrita dos gregos nos legou um vasto co- nhecimento sobre a essência do ser humano e suas relações sociais. Por- tanto, obras de Platão, Aristóteles, Tales de Mileto, Pitágoras, Heráclito, Ho- mero, Tucídides, Heródoto, dentre tantos outros, são até hoje revisitadas e sofrem análises por sua importância na constituição do ser humano. Com uma produção escrita bem arranjada, os gregos são consi- derados pioneiros na política, na literatura, no teatro e também na filoso- fia. No que tange à propaganda política, podemos perceber através das obras escritas dos grandes pensadores gregos, como estes formulavam argumentos bons a respeito de algumas facetas e pessoas em sua época contemporânea; e também argumentos ruins a respeito de outras facetas e pessoas. Doravante, Platão, o mais célebre pupilo de Sócrates, seu defensor incontestável, roga em muitas de suas obras pela injustiça do julgamento de seu mestre, que seria sentenciado à morte. Essa construção de pensamentos, críticas e elogios aos outros pensadores, às figuras públicas e ao modo de vida dos gregos, não se trata de nada menos do que propaganda política. Os pensadores, muitas vezes responsáveis por muitos pupilos, buscavam, através de suas obras escritas e de seus discursos, impulsionar a população a refletir sobre determinadas vicissitudes e tomar o seu partido. Assim, quando Platão (Edipro, 2012) escreve sobre a injustiça da morte de Sócrates, faz uma propaganda política positiva de seu falecido mestre e incita a população sobre a parcialidade do tribunal que o julgou. Incita, ainda, a população a refletir sobre os tribunais e as sentenças de morte. Em suma, faz um apelo à sociedade sobre uma instituição já estabelecida no âmbito grego. O teatro grego, vejamos como exemplo a obra Prometeu (Difel, 2010), de Ésquilo, traz uma arrojada crítica social ao poder sem limites dos governantes. Enquanto Prometeu agoniza preso à rocha por ter dado aos humanos o fogo para que pudessem ter inteligência, Zeus lhe pune com um eterno – e doloroso – castigo por sua desobediência à vontade suprema. A metáfora é clara: não se deve permitir que alguém alcance poder absoluto, pois, se isso vir a acontecer, todos os contrários aos donos do poder estão fadados ao castigo e à punição. Adentrando mais na parte do teatro e da literatura, historica- mente, é perceptível como estes foram determinantes para trabalhar com o imaginário coletivo da população. A literatura, principalmente, tem papel efetivo, desde seu advento, na propaganda política. Homero, responsável pela Odisseia (Nova Fronteira, 2015) e pela Ilíada (Nova Fronteira, 2015), retrata nesta última parte da guerra de Tróia. Em sua poesia, retrata gregos e troianos, heróis e vilões, deuses 24 P R O P A G A N D A P O LÍ TI C A - G R U P O P R O M IN A S e deusas. A história é simples, Heitor e Páris, filhos de Príamo, vão até a Grécia para uma festividade, Páris se apaixona por Helena, mulher de Menelau, e a rapta para Tróia. Menelau, na letra de Zé Ramalho, o maior dos espartanos, chama Agamemnon, rei grego, para tomar partido em seu favor e então, inicia-se uma guerra que duraria uma década. A guerra persiste, entre momentos de aparente vitória dos troianos e momentos de aparente vitória dos gregos, com o perecimento de muitos heróis e a eterna degladiação dos deuses em busca de colaborar com os seus ser- vos mais devotos. A obra de Homero, a parte da história, acarreta muitas sutis críticas e apontamentos à sociedade de sua época, configurando uma propaganda política em defesa de seus interesses. Figura 6 - Aquiles enfrenta Heitor Fonte: Peter P. Rubens, 1630-1635 Doravante, na já citada rusga entre Agamemnon e o camponês, servo da divindade, que pede seu filho de volta, e que tem seu pedido ne- gado, apesar do conselho ao rei ter sido em sentido contrário, há uma im- plícita crítica aos reis que não seguiam os seus conselheiros e que agiam contra os deuses. O fracasso e a punição seriam evidentes a quem co- metesse tamanha desfeita e a mensagem era clara na obra de Homero. Também nela, os deuses lamentam a perda de tantos heróis, de tantos servos fiéis que perecem numa luta que parece não ter fim, e nova- mente, de forma implícita, há um apelo de Homero contra a guerra, contra a sua falsa beleza, pois, no final, o que resta é sangue, dor e morte. A pro- paganda pacifista de Homero se encontra, então, implícita na sua obra. Mais adiante, em Antígona (Paz & Terra, 2008), de Sófocles, tem-se a história de uma irmã que conflita com o rei Creonte, por este querer enterrar um irmão seu com honras e o outro sem. Aqui, a crítica política se faz às distinções entre as funções públicas e privadas. Sófo- cles alerta, faz propaganda sobre os limites do público e do privado, os conflitos entre a lei e a tradição religiosa, em linhas gerais, uma crítica e 25 P R O P A G A N D A P O LÍ TI C A - G R U P O P R O M IN A S uma reflexão a respeito do modo republicano de governo. Figura 7 - Sófocles Fonte: Portal Wikiwand Levando-se em conta séculos mais atuais, podemos pegar o caso de Frankenstein (Darkside, 2017), de Mary Shelley, a história do monstro criado pelo cientista homônimo ao livro, traz crítica contunden- te ao uso excessivo da tecnologia. Dos perigos da sociedade industrial e moderna que buscava conhecer tudo, sem limites e sem muita ética. Assim, seu livro faz propaganda política em defesa de maior critério e rigor na produção científica e industrial desregrada de sua época. Aler- tando para os perigos do homem em não estabelecer limites e regras para o seu desenfreado desejo de conhecimento. Em Dom Quixote (Nova Fronteira, 2016), Cervantes satiriza a sociedade de sua época, cria um herói louco em busca de dragões ima- ginários. Faz propaganda contra o status quo de sua época, demons- trando, com muito humor, a situação ridícula de sua geração. Figura 8 - Dom Quixote Fonte: Eduardo Rex, 2013 26 P R O P A G A N D A P O LÍ TI C A - G R U P O P R O M IN A S Voltaire, em praticamente todas as suas obras faz críticas con- tundentes à religião e à política do velho regime. Suas obras fazem propaganda, de maneira clara e bem metafórica, da calamidade que o antigo regime e a Igreja Católica transformaram a sociedade francesa – mundial – de seus tempos. Victor Hugo é mais um autor que buscou em seus livros fazer uma propaganda alertando para a situação de miséria e calamidade na França pós-Revolução Francesa. A hipocrisia, a corrupção, a passivida- de do Estado e da burguesia são retratadas fielmente nas obras desse autor francês. Um alerta aos tratamentos desiguais e ao momento vivi- do nessa época histórica. Já Dostoiévski fez de praticamente toda sua obra escrita uma grande crítica política, embebida de propaganda contra o status quo de sua época. Em Crime e Castigo (Martin Claret, 2013) há violentascrí- ticas ao sistema judiciário e político, cheio de interesses e hipocrisias, e um a alarmante divisão de classes vivenciada por ele. Resumindo, a obra deste autor se dota de extensa crítica aos valores de sua geração, com uma evidente propaganda contra a situação política em vigor. Em Germinal (Martin Claret, 2006), Zola parte para uma aná- lise no mesmo caminho de Victor Hugo. Aponta a desgraçada situação dos mineradores, a rotina da classe mais baixa da sociedade francesa em plena era industrial. Aponta a hipocrisia política, a ineficácia das or- ganizações socialistas e o quão desigual era tal sociedade. Em J’accu- se (Hedra, 2007) o autor parte para uma propaganda política feroz em prol de Dreyfus, no caso do francês que foi acusado de espionagem em um dos casos mais intrigantes da história francesa. Ainda pode-se falar de Thomas Mann, Hemingway, Orwell, es- critores que fizeram ativa propaganda através de seus livros contra o ad- vento do nazismo, contra o perigo do totalitarismo, defendendo um ponto de vista democrático, uma sociedade sem a imposição de um controle total sobre o indivíduo e sem discriminação de outras etnias ou raças. Pudemos ver então, que a literatura, com o uso de alguns exemplos, sempre teve fortíssima influência na propaganda política, pois grandes obras acarretaram ideias, implícitas ou explícitas, a respei- to da organização da sociedade e da nocividade que o homem sempre exerceu sobre seu próximo. Mas a escrita também se desenvolveu em outros meios que não só a literatura. Com Gutenberg, no século XV, temos a invenção da máquina de impressão, passo importante na revolução da Imprensa, pois, a partir disso, um meio de comunicação eficaz e amplo atingiria parte da população. Um meio de comunicação menos denso e mais ba- rato do que um livro e que consistia em reunir as informações e notícias 27 P R O P A G A N D A P O LÍ TI C A - G R U P O P R O M IN A S de determinado recorte, definido por aquele que lhe editava: trata-se do jornal (Gandelman, 1997). Figura 9 - Gutenberg e a prensa Fonte: K. Bezerra, 2016 Vale salientar que o jornal não surge junto com a invenção de Gutenberg. Já existia antes dela, porém, com a chegada da máquina de impressão, o jornal pôde se popularizar de vez. Em uma era de ascensão da burguesia, em grande parte for- mada por comerciantes, a necessidade de informações sobre os mer- cados, os preços e as novidades, era grande. Assim, já com a máquina de Gutenberg, muitos boletins informativos foram criados para suprimir essa carência da burguesia (Barbier, 2018). Nem toda a população era letrada, aliás, cabe dizer que até hoje nem todas as pessoas sabem ler e escrever. No Brasil, milhares de pessoas ainda não têm conhecimento do alfabeto e de como se estru- turam as palavras e as orações. Mas, para além da discussão do alcance do letramento a todas as camadas da população, é importante ressaltar como o jornal popula- rizou as notícias e o acesso de ampla parcela da sociedade à informa- ção. E também como boa parte das sociedades eram manipuladas por esta mesma imprensa. Já em meados do século XVII, os jornais ganharam seu cará- ter periódico; oriundos de nações europeias, constituíam-se, em sua maioria, de notícias a respeito da própria Europa. Vez ou outra surgiam informações da Ásia, da África ou das Américas (Bahia, 2009). Os jornais sofriam forte controle do Estado, para não gerar ma- nifestações do público, onde já se percebe uma forte influência da pro- paganda política, através dessa preocupação do Estado em manter sua população serena. 28 P R O P A G A N D A P O LÍ TI C A - G R U P O P R O M IN A S O primeiro jornal que se tem conhecimento data da época de Júlio César. Criado por volta de cinco décadas antes de Cristo, o Acta Diurna é fruto do desejo do imperador em informar a popu- lação romana a respeito das novidades políticas e notificar sobre eventos do Império. Era um amontoado de grandes placas bran- cas, colocadas em locais públicos de acesso elevado por parte dos cidadãos. Execuções, julgamentos, campanhas militares e as boas novas do governo lá eram sempre colocadas. Com o surgimento do telégrafo, já no século XIX, nova revolução acometeu a imprensa dos jornais. Se antes as notícias demoravam muito tempo para circular, por conta da dificuldade de se transmitir uma infor- mação, a partir do telégrafo essa distância cai em ruínas. O que antes demorava dias, passa a demorar apenas alguns minutos para alcançar uma grande distância. Os jornais então se afloram em todo o mundo, pois a notícia chegava rápido por conta do telégrafo e se expandia em grandes quantidades por causa da máquina de Gutenberg (Bahia, 2009). No século XIX, época de revolução industrial e do advento do marxismo, cada vez mais os sindicatos e proletários se uniam através de jornais para propagar as ideias de Marx. Assim, um grande aliado das lutas dos operários foi o jornal, por onde as informações veiculavam de forma rápida e permitiam que os operários soubessem de greves, de direitos e, principalmente, de como eram explorados pelos seus patrões e deixados de lado pelo Estado (Thompson, 2012). A imprensa escrita, por sua popularidade, praticidade e alcance, se transformou em forte instrumento político para propaganda. Essa ten- dência de usar os jornais para a defesa de ideais políticos e propagar ide- ologias se mantêm até os dias de hoje, embora no passado, antes do ad- vento do rádio, da televisão e da internet, tenha sido mais predominante. Na França pós-revolucionária, muitas notícias sobre o anda- mento do novo regime, dos novos governos, até a ascensão de Napo- leão e o posterior governo de seu sobrinho, Napoleão III, eram veicula- das pela imprensa, que era amplamente aparelhada pelo Estado para que apenas notícias interessantes ao status quo fossem compartilha- das. Ao mesmo tempo, uma imprensa underground, marginal, sem a conotação pejorativa do termo, surgia, como já dito, entre os sindicatos e organizações de operários, para levar notícias totalmente diferentes daquelas do status quo. Assim, havia um conflito midiático entre as 29 P R O P A G A N D A P O LÍ TI C A - G R U P O P R O M IN A S ideias de um jornal que sofria controle do Estado em oposição a outro, de matriz marginal, que não sofria censura alguma e veiculava as infor- mações que bem entendia (Hobsbawm, 2012). Figura 10 - Jornal de Paris Fonte: Journal de Paris, 1789 É preciso ressaltar, que em uma época em que as fontes não tinham tamanho rigor científico para sua comprovação, como ocorre até hoje ao se lidar com algumas fontes antigas, as informações veiculadas nos jornais eram percebidas como verdades absolutas. Assim, se um jornal de grande circulação dizia que Napoleão III era o melhor gover- nante possível, boa parte da população com acesso a este veículo cor- roborava a informação, pois acreditava no que a imprensa apresentava. Dessa forma, é possível observar também na imprensa, além da propaganda política, um caráter de legitimação apresentado pela mí- dia, que buscava dar sustentação ao surgimento e manutenção de um governo. Isso ocorreu em diversas ocasiões, vale ressaltar: na revolu- ção francesa, no Brasil independente, na independência americana e até na ascensão nazista. 30 P R O P A G A N D A P O LÍ TI C A - G R U P O P R O M IN A S Figura 11 - Jornal alemão anuncia a ascensão de Hitler ao poder Fonte: Deutsche Allgemeine Zeitung, 1933 Mas nem só de livros e jornais se construiu a mídia impressa como fonte de propaganda política. O avanço tecnológico permitiu o sur- gimento de folders, outdoors, panfletos e revistas que abarcavam ideias e defendiam ou criticavam as classes dominantes e determinadas figuras. No campo eleitoral, através dos panfletos, dos outdoors e dos folders, os políticos podiam alcançar boa parte da população concen- trando em um único formato as suas ideias políticas. Assim,no Brasil, por exemplo, até hoje é popular o uso do “santinho”, espécie de panfleto onde o candidato coloca sua foto, seu número para a urna e também algumas de suas ideias a respeito da política. Em regra, a propaganda política se configura conforme o ho- mem descobre novas tecnologias, se adequando ao uso destas. Na época da oralidade, o homem tentava transmitir suas ideias “de boca em boca”, em uma grande escala dialética, ao próximo que visava atin- gir a dimensão coletiva. Esse modelo não caiu no esquecimento, porém, com o advento da mídia impressa, além da oral, o homem se debruçou sobre as técnicas de escrita, de linguagem e sobre as demais ferramen- tas possíveis para a transmissão de ideias: o jornal, o folder, a literatura para propagar suas ideias, além do campo político, mas também em todas as esferas da sociedade. A mídia escrita toma, então, o lugar de destaque como uso instrumental de propaganda política, o qual permanece até hoje, embo- 31 P R O P A G A N D A P O LÍ TI C A - G R U P O P R O M IN A S ra nos últimos 70 anos tenha progressivamente perdido seu destaque. E esse fator muito se deve ao surgimento de outros dois instrumentos que dominariam massivamente o controle da informação por algumas gerações: o rádio e a televisão. O RÁDIO E A TELEVISÃO Foi somente no final do século XIX que o homem passou a compreender como as ondas de som funcionavam. A criação do apare- lho de rádio gira em torno de dois nomes: Nikola Tesla, grande inventor do século XIX e o italiano Marconi, que utilizou muitas patentes de Tesla para efetivamente criar um aparelho de radiodifusão. Apenas por volta da década de 1920 foi que o rádio passou a transmitir programações de entretenimento, pois até então era utilizado majoritariamente para comunicação e informação (Zuculoto, 2012). O surgimento do aparelho de radiodifusão e o custo razoável para sua produção permitiram que muitas pessoas conseguissem aces- so a este modelo de comunicação. Assim, a memória oral que foi tão importante na transmissão do conhecimento até o advento da escrita, voltava aos holofotes, desta vez remasterizada pela tecnologia radio- fônica. Se, antigamente, era necessário levar “de boca em boca” uma informação adiante, agora era necessário apenas um aparelho para que uma informação atravessasse o Atlântico, por exemplo, em tempo real. Uma novidade dessa magnitude não passaria despercebida pelas classes dominantes, assim, em pouco tempo, o rádio já se cons- tituía em importante palco de disputas ideológicas. Estados criaram ca- nais de comunicação por rádio pelos quais emitiam as notícias – sem- pre positivas – do governo em voga, enquanto rádios clandestinas eram desmanteladas sempre, pois corriam o risco de informar notícias contra os governantes e seus correligionários (Zuculoto, 2012). No âmbito cultural, o rádio permitiu uma massificação da músi- ca. É com o rádio que a era do Jazz, eternizada nos livros de Fitzgerald, se alastra Estados Unidos afora. Há também a criação de programas de entretenimento baseados no som, para atrair as multidões que até então tinham acesso apenas ao teatro e aos livros como fonte de entretenimento. Voltando ao que interessa à propaganda política, esta alcan- çou novos patamares com a grande expansão que o rádio teve em uma escala mundial. Assim, os governantes poderiam discursar não só mais aos presentes, mas para todos que tivessem um aparelho de rádio. Foi assim que, nos anos 1930, o rei da Inglaterra anunciou a guerra à Ale- manha de Hitler. 32 P R O P A G A N D A P O LÍ TI C A - G R U P O P R O M IN A S Pelo rádio começam a surgir figuras conhecidas pelo carisma e que, com discurso populista, tentam convencer os ouvintes a seguir determinada ideologia, assim, a mídia ouvida logo se transforma tam- bém em objeto de desejo dos políticos, pois estes podem perceber o seu alcance e sua eficácia. Pelo rádio e pelos jornais, soviéticos, franceses e alemães ar- ticulavam as estratégias de guerra. Na obra Toda luz que não podemos ver (Intrínseca, 2015), de Antony Doerr, vencedora do Prêmio Pullitzer, o autor trabalha com uma ficção dentro da Segunda Guerra Mundial, no âmbito da qual o rádio é determinante para a estratégia de guerra e também para o desfecho da narrativa. Doravante, o rádio teve papel de destaque no âmbito político en- tre a década de 1920 e os anos 1950. Foi através do rádio que alguns grandes eventos históricos foram anunciados, de forma mais rápida do que os jornais: o fim da Segunda Guerra Mundial, a quebra da bolsa de 1929, a ascensão de Hitler, a tomada de poder por Stalin na União Soviética, os in- formes da Guerra Civil Espanhola entre o general Franco e seus inimigos. O período entreguerras e o período imediatamente posterior ao final da Segunda Guerra Mundial, constituíram-se então nos momentos de ouro do rádio como instrumento da propaganda política, seja por ações do governo ao tentar sustentar sua legitimidade e a sua prosperidade, seja pela clandestinidade – que fazia com que a classe dominante fosse critica- da e questionada, levando os ouvintes à reflexão –, ou como literal instru- mento de propaganda política, quando os radialistas eram pagos por políti- cos para defendê-los, dando-lhes, assim, certo prestígio junto aos eleitores. O sucesso do rádio se deu muito pela aproximação que este fez do público ao governo e aos políticos. Antes, era possível ouvir falar das figuras públicas ou vê-las distantes numa folha de jornal, revista ou panfleto. Com o rádio, é possível dar voz ao interlocutor. O canal se aproxima, entre o ouvinte e o palestrante. A imagem em preto e branco, monótona no jornal ou no panfleto, dá lugar à viva e eloquente voz da figura que chega aos ouvidos da população para defender ou criticar algo, quando não para fazer uma mea propaganda, falando bem de si para tentar alavancar seu prestígio junto àquele que, colado no rádio, escutava tudo atentamente (Zuculoto, 2012). Todavia, os anos de ouro do rádio duraram até os anos 1950, quando o aparelho de televisão começa a se expandir no mundo. Se até então era observável uma memória oral, depois uma mídia escrita e por último uma imprensa falada (e ouvida), dessa vez era possível juntar imagem, voz e movimento. O advento da televisão quebra uma barreira entre o espectador e o sujeito à frente das câmeras. Um novo leque de possibilidades se abre diante da população que, pasma, observa a má- 33 P R O P A G A N D A P O LÍ TI C A - G R U P O P R O M IN A S gica da imagem em movimento diante de si. Claro que a televisão, quando surge, já não era novidade no ramo audiovisual, pois já havia décadas que o cinema existia com esse propósito. A diferença é que o cinema era caro e não se encontrava na residência das pessoas. Poucos tinham acesso a ele e, em geral, iam apenas para assistir ao filme em cartaz e depois voltavam para suas vidas. A televisão permite uma experiência de cinema 24 horas, ou seja, interminável. Não é mais necessário sair de sua casa para assistir, por poucas horas um filme, quando ele poderá passar no conforto de sua casa, através do seu aparelho de televisão. É claro que movimentos propagandísticos tomaram conta do cinema, quando os filmes surgiam com uma carga semiológica grande, imputada de símbolos e interpretações subjetivas para o telespectador. Foi nesse ínterim que se formou uma ideia do soldado dos EUA como herói nacional, após sua participação na Segunda Guerra Mundial. Foi através do cinema que os mesmos EUA tentaram recorrer à imagem de herói dos soldados, para que as novas gerações lutassem na guerra do Vietnã, durante a década de 1960. Contudo, a televisão muda muito o alcance, e o cinema, apesar de útil, se torna obsoleto no que diz respei- to à transmissão de informação. Isso se evidencia por conta da alta carga de programas que po- deriam ser veiculados pela televisão, onde haveria programação vinte e quatrohoras, sem paradas – além dos horários comerciais – enquanto o cinema era sujeito às poucas horas de uma sessão. A televisão é um divisor de águas no mundo do entretenimento e da política também. Ao mesmo tempo que os filmes saem do cinema e passam a figurar na tela da televisão dentro dos domicílios dos especta- dores, também são criados programas com o intuito de informar. Assim, surgem os telejornais. Surgem também programas de entretenimento, entrevistas, transmissão de esportes e a cobertura dos grandes aconte- cimentos contemporâneos à sua existência (Ribeiro et. al., 2010). Apesar do boom da televisão ocorrer apenas em finais dos anos 1940 e início dos anos 1950, desde os anos 1920 o homem se debruçava sobre a produção de um aparelho que pudesse fazer a mesma função do cinema, porém em escala reduzida e domiciliar. Assim, nos Estados Unidos, Baird, em 1920; e na Rússia, Zworykin, em 1923, foram os grandes responsáveis por patentear protótipos 34 P R O P A G A N D A P O LÍ TI C A - G R U P O P R O M IN A S de objetos que viriam a se tornar televisões e que, posteriormente, poderiam ser produzidas em massa. É claro que o Estado e os interessados em fazer propaganda política logo estariam a par da novidade e do alcance da televisão e passariam a atuar nos bastidores para conseguir transmitir seus ideais por esta via. A televisão em pouco tempo se torna um campo de comba- te entre as mais variadas ideologias. Os veículos de comunicação, angariando poder por sua influência frente às massas, entram nos jogos de poder e passam a negociar a influ- ência do governo e das figuras públicas em seus quadros. A mídia então passa a fazer nitidamente propaganda política em prol de certas ideologias e pessoas e a perseguir impiedosamente outras (Mattos, 2010). Os políticos, interessados em manter uma boa imagem, passam a colaborar, seja financeiramente ou com informações, para o abastecimento da imprensa. Querem popularidade: entrevistas na televisão, aparecer nos telejornais quando fizessem uma boa obra. A imagem pública passa a de- terminar, em grande parte, o grau de sucesso de uma empreitada política. O caso mais notório ao tratar da influência que a televisão teve no âmbito da política é a transformação de Ronald Reagan, um ator de Hollywood, em poucos anos, em presidente dos Estados Unidos da América. No Brasil, a maior referência a respeito da televisão, em seus primórdios, é de Assis Chateaubriand, jornalista e empresário, dono dos Diários Associados, que no ano de 1950 criou a TV Tupi, primeira emis- sora nacional (Ribeiro et. al., 2010). A relação da política com a televisão, desde a sua criação, foi muito intrínseca. Assim que a televisão começou a ganhar espaço nas residências, já houve o interesse político em se aventurar por esse mundo. Dessa forma, diversos canais estatais foram criados em diver- sas nações, como fontes seguras das notícias do governo, defendendo aquilo que interessava a quem detinha o controle do poder. No mesmo caminho, a televisão pôde aproximar ainda mais a política da população. As figuras públicas, até então vistas nos jornais ou ouvidas no rádio, de repente se encontravam ali na frente, na tela da televisão, quase ao alcance da mão do espectador. Era possível ver seus gestos, suas expressões, sua roupa e seu modo de andar. Era pos- sível notar muitos pormenores que até então não estavam ao alcance visual. Com o jornal, a foto estampava apenas um momento, inalterável no tempo; com o rádio, podiam-se ouvir as palavras do interlocutor, mas só. Com a televisão, dá-se corpo e alma ao político. O presidente, por exemplo, figura de jornal e de rádio, aparece nitidamente, em frente o espectador, palestrando ou debatendo assuntos pertinentes à nação. O 35 P R O P A G A N D A P O LÍ TI C A - G R U P O P R O M IN A S distanciamento entre o político, a política e o povo diminui cada vez mais. É nesta empreitada que a propaganda consegue se intensificar de maneira nunca antes vista. Com a televisão, era possível dialogar com o público, valendo-se de estratégias de marketing, oratória e retó- rica, para atingi-lo com a mensagem esperada. Os publicitários, antes exclusivos de uma classe comercial se- denta por aumentar seus lucros através de publicidade televisiva, encon- tram mais empregos no âmbito político, preparando políticos, figuras pú- blicas, autoridades e mensagens tanto do governo quanto da oposição, impactantes e diretas, para atingir o público de maneira semiológica, com o propósito de defender um ponto de vista quase sempre evidente. A evolução dos jornais televisivos também é pertinente à dis- cussão, pois cada vez mais as notícias transmitidas acarretam uma su- til predileção por determinada ideologia. A imparcialidade praticamente não existe, ou pior, existe apenas em discursos demagógicos de uma mídia cada vez mais profundamente ligada ao poder. Doravante, é co- mum ver políticos aparecendo nos jornais de grande circulação televi- siva, dando entrevistas e tentando angariar uma boa imagem via rela- ções públicas. Em tempos eleitorais, é comum que sejam chamados aos telejornais para defender suas ideologias e debaterem entre si, para mostrar ao público as intenções político-partidárias de cada um. Esse relacionamento entre a televisão e a política, em negócio que foi reciprocamente lucrativo no âmbito da propaganda política, rei- nou por muitas décadas. Mas no início do século XXI para cá, a cons- tante evolução de uma ferramenta hoje vital para o ser humano colocou em xeque o poder da televisão, minando as audiências antes estron- dosas e obrigando os meios de comunicação a se transformarem para suportarem as demandas de uma época bem tecnológica. A ferramenta, é claro, é a internet (Mattos, 2010). A EXPLOSÃO TECNOLÓGICA E A INTERNET No final da década de 1960, no contexto da Guerra Fria – no qual dois blocos, um liderado pelos Estados Unidos e outro pela União Soviética, lutavam pela supremacia tecnológica e política no mundo – surgiu uma das mais importantes ferramentas da história da humanida- de (Wazlawick, 2016). Foi na conexão para a transmissão de informações entre a Universidade da Califórnia e o Instituto de Pesquisa de Stanford que a internet é posta à prova pela primeira vez. E com sucesso. Mais de vinte anos depois, no início dos anos 1990, um professor britânico, a partir da 36 P R O P A G A N D A P O LÍ TI C A - G R U P O P R O M IN A S plataforma de transferências utilizada na Guerra Fria, desenvolve um navegador que se intitula World Wide Web. A conexão, antes exclusiva de alguns setores do governo e dentro de universidades, passa para o domínio público. Está criada a internet (Wazlawick, 2016). A partir de então, a internet passa por constante evolução. Em sua interface, com o advento de novos processadores e também com a evolução no tocante aos softwares, novas linguagens de programação surgem para dar cabo de melhores desempenhos nas páginas da web. O progresso tecnológico também permitiu um desenvolvimento brutal no que diz respeito à velocidade da internet. Se antes era possível se conectar a velocidades de 128 kb/s no máximo, atualmente já se encon- tram, para acesso amplo no Brasil, conexões de 300 mb/s, uma melhora que em 20 anos daria uma porcentagem acarretada de inúmeros zeros seguidos por um número um à sua esquerda (Wazlawick, 2016). Com a popularidade da internet, que permitia acesso rápido e em tempo real à informação, há uma transformação do mundo que precisa se adaptar às inovações. Assim, muitas novas tecnologias são criadas a partir da internet, resultando em uma sociedade, em finais da segunda década do século XXI, dependente da conexão. Atualmente é possível fazer compras, agendar viagens, pes- quisar notícias e ler livros pela internet. Isso e muito mais. Coisas que até duas décadas atrás eram inimagináveis. Esse progresso agressivo da internet permitiu o surgimentode plataformas de relacionamento en- tre pessoas. Não relacionamentos amorosos – embora haja específicos –, mas, sim, em âmbito social. As redes sociais então dominaram o mercado: anos atrás, as plataformas de sucesso eram o Orkut e o MSN Messenger, e atualmen- te se desenvolveram plataformas como o Facebook, Instagram e What- sapp – curiosamente as três pertencem atualmente ao mesmo dono – e que contam com bilhões de usuários. Sim, bilhões. Essa aproximação da população com a internet logo se tornou alvo, como vimos historicamente acontecer com qualquer meio efetivo de comunicação, de interesse político. Assim, em pouco tempo era or- dinário encontrar sites de partidos políticos, portais do Governo para di- vulgação de notícias e até perfis tanto de políticos quanto de instituições públicas nas redes sociais (Barreto, 2017). A estratégia era cortar paredes que separavam o público da política. Com os sites de notícias, era possível ter acesso a várias infor- mações diferentes a respeito de um mesmo ato, de forma que diversos pontos de vista poderiam ser analisados, coisa que era mais difícil de se executar quando se observava a televisão ou o rádio e mesmo os jornais impressos. Com as redes sociais, experiências eram relatadas 37 P R O P A G A N D A P O LÍ TI C A - G R U P O P R O M IN A S a cada instantes, assim, um usuário do Brasil poderia relatar sobre sua experiência política no Brasil e saciar o interesse de um britânico pelo assunto, ou vice-versa (Maia et. al., 2017). A internet, inegavelmente, aproximou o ser humano do não humano: aproximou o homem das empresas e do governo, e permitiu que a fiscalização e a divulgação de notícias se expandissem de forma exponencial. Pelas redes sociais, era possível dialogar com os políticos. Nesta plataforma, podiam responder seus eleitores e outros curiosos, postar ví- deos, fotos, artigos etc. Era a junção de todas as categorias de propaganda já faladas em uma só: na internet era possível notar a tradição sendo pas- sada pelo relato das experiências das pessoas, a diferença pontual aqui diz respeito à distância. Antes, apenas um pequeno alcance se encontrava pela transmissão oral, e muitas vezes só quando era passado de geração em geração. Agora, com a internet, isso alcança qualquer lugar do mundo. No tocante à mídia escrita, falada e ouvida, eram todas absorvidas pela internet que, através de computadores ou celulares, eram capazes de re- produzir todo o conteúdo ali depositado (Magrani, 2014). Mas não só da verdade vive a internet. O fácil acesso à in- formação permitiu a criação de inúmeras notícias – muitas sensacio- nalistas – de teor falso, com vista a atingir o público e criar uma ideia pré-concebida a respeito de algo. No universo da política, esse instrumento foi muito utilizado, e continua sendo, no âmbito de alcançar cada vez um número maior de pessoas, que tenham acesso a um conteúdo e acreditem nele, mesmo que esteja impregnado de falácias. Assim, um ótimo exemplo de propaganda política pela internet se faz na análise das eleições norte-americanas para presidente em 2016. Donald Trump, figura caricata, bilionário empresário e grande fi- gura conservadora norte-americana enfrentou Hillary Clinton, com vasta experiência política e esposa do ex-presidente americano Bill Clinton, representante do partido democrata, que resultou em uma incrível dis- puta no mundo da internet pelo voto dos indecisos. A batalha virtual envolveu disparo de fake news, notícias falsas para atingir os eleitores do lado contrário, farpas pelas redes sociais e ampla aparição de ambos nas plataformas, defendendo suas estra- tégias de governo e porquê o povo norte-americano devia ter fé em escolher um dos dois. O pleito terminou com a vitória de Trump, que melhor apro- veitou a propaganda e o poder financeiro ao seu lado, exibindo uma imagem de conservador que foi amplamente aceita, naquele momento, pela população norte-americana, que clamava por transformações es- 38 P R O P A G A N D A P O LÍ TI C A - G R U P O P R O M IN A S tatais que foram defendidas no programa de Trump. Atualmente, porém, Trump recebe muitas críticas, tanto da oposição, quanto de parte da sua base aliada. Em suma, a internet logo se constituiu como principal forma de demandar propaganda política atualmente. O fácil acesso da po- pulação, a falta de critério com as fontes adotadas e a quantidade de gente que pode ser alcançada por trás de um computador, que deman- da muito menos esforço e dinheiro do que um anúncio de televisão, rá- dio, matéria no jornal ou passeata, colaboraram como principais fatores para que a internet se tornasse o principal palco da propaganda política (Magrani, 2014). Nessa onda, políticos, figuras públicas, instituições, sites de notícias, donos de grandes portais da internet e publicitários se delei- tam em consumir e explorar a internet de forma sublime, para provocar a manutenção ou o abalo nas estruturas políticas e sociais que em sua grande parte são dominadas pelas mesmas camadas, cada vez mais sedentas de poder e de demonstrá-lo. Essa prática continua firme, e parece ser a nova aposta para predominar no cenário da propaganda política. A previsão é que de ago- ra em diante, a propaganda se faça cada vez mais no âmbito virtual e cada vez mais atrelada à tecnologia. Como pudemos ver, historicamente, propaganda política e tec- nologia caminharam juntas, e essa história parece longe de ter uma separação, quiçá mesmo um fim. Enquanto houver sociedade, haverá tecnologia e haverá, consequentemente, propaganda política. 39 P R O P A G A N D A P O LÍ TI C A - G R U P O P R O M IN A S QUESTÕES DE CONCURSOS QUESTÃO 1 Ano: 2017 Banca: MEC Órgão: MEC Prova: ENEM Nível: Médio. A crítica é uma questão de distância certa. O olhar hoje mais es- sencial, o olho mercantil que penetra no coração das coisas, cha- ma-se propaganda. Esta arrasa o espaço livre da contemplação e aproxima tanto as coisas, coloca-as tão debaixo do nariz quanto o automóvel que sai da tela de cinema e cresce, gigantesco, tremelu- zindo em direção a nós. E, do mesmo modo que o cinema não ofe- rece móveis e fachadas a uma observação crítica completa, mas dá apenas a sua espetacular, rígida e repentina proximidade, também a propaganda autêntica transporta as coisas para primeiro plano e tem um ritmo que corresponde ao de um bom filme. BENJAMIN, W. Rua de mão única: infância berlinense - 1900. Belo Horizonte: Autêntica, 2013 (adaptado). O texto apresenta um entendimento do filósofo Walter Benjamin, segundo o qual a propaganda dificulta o procedimento de análise crítica em virtude do(a): a) caráter ilusório das imagens. b) evolução constante da tecnologia. c) aspecto efêmero dos acontecimentos. d) conteúdo objetivo das informações. e) natureza emancipadora das opiniões. QUESTÃO 2 Ano: 2016 Banca: UERJ Órgão: UERJ Prova Vestibular Nível: Médio. 40 P R O P A G A N D A P O LÍ TI C A - G R U P O P R O M IN A S O cartão-postal é o melhor veículo de propaganda e reclame de que podem dispor os homens, as empresas, a indústria, o comér- cio e as nações. Olavo Bilac A cartophilia, 15/06/1904. A frase de Olavo Bilac assinala a ampliação da produção de car- tões-postais no início do século XX, que animou colecionadores e o trabalho de editores, fotógrafos e gravuristas. As imagens dos cartões do Rio de Janeiro, capital brasileira na- quele momento, associaram-se à propaganda das ações governa- mentais indicadas em: a) modernização e progresso material de espaços públicos. b) planejamento e racionalização do crescimento urbano. c) valorização e preservação dos monumentos arquitetônicos. d) remodelamento e expansão das vias de transportes coletivos. QUESTÃO 3 Ano: 2016 Banca: MEC Órgão: MEC Prova: Enem Nível: Médio. A importância da preservação do meio ambiente para a saúde é 41 P R O P A G A N D A P O LÍ TI C A - G R U P O P R O