Prévia do material em texto
Memória, autobiografia e romance histórico Apresentação A literatura é uma criação humana que representa imagens de realidade a partir da linguagem; o texto literário é uma forma de ler o mundo. Por se tratar de representação, sua maneira de expressar a memória e a história assume formas diversas e os conceitos de real, verdade histórica e verossimilhança atravessam essas formas. Nesta Unidade de Aprendizagem, você será apresentado a algumas formas de representação da memória e da história, por meio dos gêneros literários, relato de memórias, autobiografia e romance histórico, e entenderá os limites dos conceitos de representação para a análise literária desses gêneros. Bons estudos. Ao final desta Unidade de Aprendizagem, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Definir como a memória e a história são apresentadas na literatura.• Reconhecer os limites dos conceitos de representação para a análise literária.• Diferenciar os gêneros memória, autobiografia e romance histórico a partir da análise de casos.• Desafio As escritas de si, ou textos confessionais, bem como outros gêneros, literários ou não, se fundam na memória humana, individual ou coletiva, e na experiência de testemunhar fatos históricos. Existem diferenças nos pressupostos dos diversos gêneros que utilizam ou descrevem a memória. Por exemplo, diários íntimos são escritas de si, em tom confessional e em ordem cronológica, e favorecem a leitura de forma linear e contínua. Diante desse contexto, observe o seguinte cenário: Como você explicaria as diferenças desses três gêneros aos seus alunos? Infográfico O uso de fatos e personagens históricos em romances é uma estratégia utilizada pelos escritores desde o século XIX. O gênero, denominado romance histórico, surgiu em 1814, com as Waverley Novels da Escócia, e permanece até hoje, agora como novo romance histórico ou metaficção historiográfica. O que caracteriza o romance histórico é a existência de personagens e fatos históricos junto a personagens ficcionais na mesma trama. Os personagens ficcionais protagonizam o romance. Veja, no Infográfico a seguir, informações sobre os gêneros romance histórico e novo romance histórico. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. https://statics-marketplace.plataforma.grupoa.education/sagah/fed8f155-d8e3-44ea-89a2-94444a385ccf/f9ca9539-cf7f-43d7-9b5b-1dd7a3f64a05.jpg Conteúdo do livro A literatura representa a vida humana em diversas dimensões e aspectos, e a história e a memória estão muitas vezes presentes nessas representações. Mas, se o real é impossível de ser apreendido pela linguagem, de que forma essas representações acontecem? E quais os seus limites para uma análise literária das obras? No capítulo Memória, autobiografia e romance histórico, da obra Estudos de Literatura - Introdução ao Estudo da Narrativa, você estudará os discursos histórico, memorialístico e ficcional, verificará como se relacionam, entenderá os limites da representação no texto literário e também será apresentado aos gêneros romance histórico, memórias e autobiografia. Boa leitura. ESTUDOS DE LITERATURA - INTRODUÇÃO AO ESTUDO DA NARRATIVA Elisa Lima Abrantes Memória, autobiografia e romance histórico Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Definir como a memória e a história são apresentadas na literatura. Reconhecer os limites do conceito de representação para a análise literária. Diferenciar os gêneros memória, autobiografia e romance histórico a partir da análise de casos. Introdução Até meados do século XIX, tinha-se a ideia de que a linguagem era capaz de apreender o real e descrever o mundo na sua totalidade. As narrativas realistas alimentaram a ilusão de que a linguagem era transparente e dava conta de representar esteticamente o real, refletindo-o tal como era. A crise da representação na modernidade, a qual se deu sobretudo com as vanguardas do século XX, questionou os limites dessa representação, já que a linguagem é um construto cujos sentidos são simbólicos e po- lissêmicos, o que impede a apreensão da realidade de forma totalizante, mas permite, sim, uma leitura de mundo com um efeito de sentido para o real. Naquele momento, o próprio mundo e o sujeito passaram a ser entendidos como realidades estranhas, descontínuas, fragmentadas e complexas, de modo que se percebeu a impossibilidade de abarca-los em definições e formas fechadas. Assim sendo, como pensar a representação literária da memória e da história nesses contextos? Qual é o limite entre fato e ficção? Na repre- sentação literária, o romance histórico clássico do século XIX, que incluía fatos e personagens históricos à narrativa de situações e personagens ficcionais na trama novelesca, tornou-se um gênero muito apreciado e popular, mas que parecia fadado ao fim. No século XX, no entanto, o gênero alinhou-se às novas concepções, tornando-se autorreflexivo com relação às verdades e aos fatos históricos. Dessa maneira, recebeu o nome de metaficção historiográfica, ou novo romance histórico. Os gêneros memorialísticos, tais como as memórias, as biografias, os diários, as cartas, a autobiografia, entre tantos outros, permanecem em circulação no cenário literário e as suas convenções ajustam-se esteticamente às novas formas de reflexão. Nesse sentido, novos gêneros surgem, como é o exemplo da autoficção, que traz o signo da ambiguidade entre fato e ficção, distinguindo-se da autobiografia e do romance autobiográfico. Neste capítulo, você será apresentado a algumas formas de discursos memorialísticos e historiográficos presentes na literatura, examinará os limites que a representação impõe à análise literária desses discursos e, por fim, conhecerá as distinções entre os gêneros literários memórias, autobiografia e romance histórico a partir da análise de casos. 1 Memória e história na literatura Os discursos histórico, memorialístico e fi ccional possuem muitos pontos de contato, pois são construídos a partir de narrativas. Por exemplo, textos históricos marcados pelo estatuto da verdade precisam de um narrador que apresente os fatos considerados “verdadeiros” ao leitor. Para isso, recortam, selecionam, enfatizam, descartam e associam esses fatos uns aos outros para compor a história de uma sociedade sob a forma de narrativa. Esse processo pressupõe certa dose de subjetividade por parte do historiador, a exemplo do que acontece com os textos de fi cção. Tal constatação leva-nos a inferir que o historiador deve trabalhar com a verossimilhança, isto é, a lógica ou a coerência interna de um texto que coloca todos os seus elementos em harmonia com as leis de funcionamento do universo criado por ele, ainda que essas leis não correspondam às regras do mundo em que vivemos, como no caso dos dragões e das demais personagens fantásticas perfeitamente verossímeis nas narrativas dos contos de fada. Nesse sentido, a verossimilhança corresponde à impressão de verdade provocada no leitor, já que não há como reproduzir a realidade, mas apenas narrá-la sob determinado ponto de vista. Pesavento (2000, p. 37) comenta a esse respeito: Que a história é narrativa, bem o sabemos; que o historiador investiga, se- leciona e constrói o seu campo, o seu tema e o seu objeto, parece também fora de dúvida. Que o imaginário, esta capacidade de representar o real por um mundo paralelo de imagens, palavras e significados, tem uma força por Memória, autobiografia e romance histórico2 vezes mais “real” que o próprio “real concreto”, é também uma visão que se difunde. Mas admitir que os historiadores realizam ficção e que não almejam a verdade é ainda considerado por muitos heresia! Embora carregue certo grau de subjetividade, o uso da imaginação é limi- tado no discurso histórico, já que os métodos próprios dessa área do conheci- mento e a importância das fontes articulam-se de modo diversose comparados aos jogos narrativos do discurso ficcional. A ficção no texto histórico “[...] é controlada pelo arquivo, pelo documento, pelo caco e pelos traços do passado que chegam até o presente [...]” (PESAVENTO, 2000, p. 39). Por outro lado, o discurso ficcional também pode fazer uso de documentos e evidências factuais, mas o seu compromisso não é com a verdade, senão com a verossimilhança. Basta notarmos que, no século XIX, muitos escritores também eram historiadores. É o caso do fundador do romance histórico, o escocês Sir Walter Scott (1771–1832), que escrevia os seus romances enquanto também produzia os seus livros de história. Entretanto, embora os seus romances fossem bem documentados e contassem os fatos históricos em pormenores, constituindo duas constantes dos enredos, o narrador enfatizava ao leitor o caráter ficcional da obra. Por sua vez, o discurso memorialístico relata a trajetória de uma vida, servindo à história como documento. A produção e a elaboração dessas nar- rativas de vida exige do autor tempo para a compreensão das experiências vividas e distanciamento histórico para organizar essas experiências e dar o seu testemunho da história. Para escrever, “[...] o autor normalmente recorre a testemunhos de outras pessoas presentes ou mesmo a fontes documentais; contudo é a primeira pessoa que toma a frente na narração, organizando os fatos de acordo com a perspectiva pessoal de um indivíduo em particular [...]” (MENDES, 2007, p. 37–38). No verbete memórias do seu Dicionário de termos literários, Moisés (2013) afirma que as narrativas memorialísticas movimentam-se no espaço ocupado pela autobiografia, pelo diário e pelas confissões. As memórias distinguem-se das demais por serem narradas na primeira pessoa do singular e, portanto, carregarem um “eu” narrador que busca a reconstrução do seu passado a partir dos fatos testemunhados ou vividos por ele mesmo. O autor seleciona os acontecimentos que serão narrados de acordo com a importância que cada um desses eventos tem para ele mesmo. Dessa maneira, o texto memorialístico possui muita subjetividade e não visa traçar um retrato fiel da realidade, de modo que ele aproxima-se mais do discurso ficcional do que do discurso histórico. Nesse gênero, por vezes, os assuntos tratados vão além das 3Memória, autobiografia e romance histórico memórias individuais do sujeito, evidenciando o impacto de acontecimentos sociais e históricos na experiência pessoal do autor. Como exemplos, podemos citar as memórias da filósofa feminista Simone de Beauvoir (1908–1986) e, no Brasil, Solo de clarineta, publicado entre 1973 e 1976, de Erico Veríssimo (1905–1975). Nesse entrelaçamento de discursos, a distinção dos gêneros literários ocorre em função de uma espécie de “contrato de leitura” entre o autor e o leitor, o qual se baseia nos princípios de verdade e de um nome próprio igual para identificar o autor, o narrador e a personagem protagonista. No discurso histórico, o leitor está convencido de que lê a verdade, ao passo que, no discurso ficcional do romance, o compromisso com a realidade é impreciso e não há identidade comum entre o autor, o narrador e a protagonista. Já na autobiografia, o pacto é de veracidade e o leitor interpreta o texto memorialístico como a verdade individual do indivíduo em questão. O contrato firmado entre o autor e o leitor é desenvolvido nas pesquisas do professor e teórico francês Philippe Lejeune, que estuda as narrativas fundadas no “eu”, entre as quais está a autobiografia. Para Lejeune (1983, p. 23–24), a autobiografia é “[...] a narrativa retrospectiva em prosa que uma pessoa real faz de sua própria existência, colocando acento sobre a sua vida individual, em especial sobre a história de sua personalidade [...]”. Ele afirma que, na autobiografia, usa-se exatamente o mesmo nome para referir-se ao autor, ao narrador do relato e à personagem da qual se fala: “[...] é um critério muito simples, que define ao mesmo tempo que a autobiografia todos os outros tipos da literatura íntima [...]” (LEJEUNE, 1983, p. 23–24). Ademais, Lejeune (1983) considera que as memórias são um gênero vizinho da autobiografia, pois não cumprem com a segunda categoria enumerada pelo teórico como fundamental para a constituição de uma autobiografia: o tema tratado nas memórias não é a vida individual de um sujeito ou, em outras palavras, a história de uma personalidade. A coincidência entre os nomes e os sobrenomes da personagem protagonista e do autor registrados na capa da obra constitui a identidade do narrador, cuja verdade histórica fundada na experiência pessoal do autor estabelece-se por meio do contrato entre o leitor e o autor. Trata-se do pacto autobiográfico. Se a identidade não for afirmada, como no caso da ficção, estabelece-se um pacto ficcional ou romanesco, no qual não se pretende que o leitor acredite no que lê, mas que ele entre em outra forma de jogo e finja que acredita. Esses tipos de pacto diferenciam a autobiografia do romance autobiográfico, também denominado autobiografia ficcional, cujo narrador não se identifica com o nome impresso na capa. Nesse caso, o narrador e a personagem protagonista Memória, autobiografia e romance histórico4 possuem a mesma identidade, expressa por meio do discurso na primeira pessoa do singular, mas o autor está fora dessa identidade. O pacto estabelecido nesse caso é romanesco e o narrador é considerado fictício. A título de exemplifi- cação, podemos citar Infância, de 1945, de Graciliano Ramos (1892–1953). A noção de identidade já foi bastante questionada e, atualmente, entende-se que o uso do mesmo nome próprio — isto é, nomes e sobrenomes exatamente iguais — não acarreta uma mesma identidade, como se o autor e o narrador fossem a mesma pessoa. Por outro lado, a correspondência de nomes e sobrenomes aponta que, para contar a sua vida a partir da sua própria perspectiva, o autor criou um narrador ou uma personagem protagonista para o seu discurso e, a partir dessa figura, fomos capazes de ler o seu relato. Portanto, trata-se da distinção entre um autor empírico e o narrador, a qual só existe dentro da própria narrativa. Outro gênero confessional, próprio da contemporaneidade, é a autoficção. O termo foi cunhado pela primeira vez em 1977 pelo professor e escritor Serge Doubrovsky (1928–2017) no seu romance Fils, que ele classificou como tal. Na autoficção, a escrita ocorre no tempo presente e a obra deve ser lida como um romance. Os nomes e os sobrenomes do autor, do narrador e da personagem protagonista são idênticos, mas, por configurar-se como ficção, o autor desfruta da liberdade de criar e recriar episódios da sua vida e das pessoas próximas a ele. Existe a intenção bem definida de apagar os limites entre o real e a ficção para, assim, causar o efeito de ambiguidade na leitura, levando o leitor a perguntar-se se o objeto da narrativa é ou não o autor, se os acontecimentos e as pessoas mencionados são verdade ou invenção, se é possível diferenciar todos esses elementos no texto, etc. Nesse contexto, o pacto autobiográfico não se estabelece, pois existe a ambiguidade. Da mesma forma, o pacto ficcional também não se realiza integralmente, já que o autor, o narrador e a personagem protagonista possuem o mesmo nome. A experimentação com a linguagem com vistas à recriação dos acontecimen- tos na narrativa autoficcional é ilustrada nas palavras de Doubrovsky (2011, p. 26): A escrita autoficcional abole a estrutura narrativa linear, rompe com a sintaxe clássica, substituindo-a por um encadeamento de palavras por consonância, assonância ou dissonância; a frase é sempre guiada, construída, em uma 5Memória, autobiografia e romance histórico sucessão de parônimos, vírgulas, pontos, espaços vazios, eventual desapare- cimento de toda sintaxe, associações de palavras como as associações livres existentes na Psicanálise. A escrita tenta traduzir a fragmentação, a quebra do eu, a impossibilidadede encontrá-lo numa bela unidade harmoniosa. Nesse surgimento inesperado de palavras e de pensamentos desconexos revela-se uma alteridade fundamental do sujeito ao longo do tempo. Compartilhando das ideias de Doubrovsky, Vilain (2009) corrobora que os dados sobre a vida do autor são apresentados a partir de uma visão sub- jetiva, fazendo com que a realidade dissolva-se na narrativa autoficcional. A vida narrada não é percebida como um todo, mas sim como fragmentos, cenas e emoções. O discurso sobrepõe-se à cronologia e as lembranças são ressignificadas pela reinterpretação e pela reflexão do autor acerca da própria história. Outro gênero importante a ser tratado quando estudamos a representação da história pela literatura é o romance histórico, pois ele funda-se no relacio- namento com o passado. Esse gênero surgiu durante o romantismo, no século XIX, na Escócia, tendo a sua vertente clássica sido estudada com cuidado e bem definida pelo filósofo marxista húngaro György Lukács (1885–1971). Lukács publicou diversos trabalhos sobre o romance, entre os quais O romance histórico, de 1937, é entendido como o mais significativo, configurando-se como leitura obrigatória para quem busca entender o gênero e as principais reflexões sobre os seus desdobramentos. Lukács (2011) situa o nascimento do romance histórico no século XIX, coincidindo com a queda do imperador Napoleão Bonaparte (1769–1821) e com o fortalecimento do nacionalismo na Europa. O escritor responsável por fundar o gênero é o já mencionado Sir Walter Scott, que também atuava como antiquário e historiador. Além de apontar a origem e o fundador do romance histórico, Lukács (2011) define as suas convenções e as suas características a partir da análise dos romances e das novelas de Scott. A condição essencial definida por Lukács (2011) é a especificidade histórica do período retratado, a qual condiciona o modo de ser e de agir das personagens. Frente a isso, o leitor deve entender as razões pelas quais as pessoas da época em que o enredo passa-se sentiam e agiam de determinada maneira. Nesse sentido, as transformações que marcaram a Europa no fim do século XVIII e nas primeiras décadas do século XIX reforçaram a consciência histó- rica dos cidadãos. A guerra não era mais um enfrentamento de mercenários, mas sim uma experiência de massa, que difundia o sentimento de nacionalidade Memória, autobiografia e romance histórico6 e a ideologia de luta em prol de uma causa comum a todos os conterrâneos. Frutos desse contexto, os heróis medianos, ou medíocres, de Sir Walter Scott lideram as ações das tramas e são personagens ficcionais construídas como pessoas comuns e, portanto, anônimas para a história, cujas vidas foram irremediavelmente transformadas pelos grandes eventos históricos dos quais participaram como agentes ou como testemunhas. As personagens históricas são representados nos seus romances, mas não são centrais na trama, uma vez que integram apenas o plano de fundo da narrativa. Por sua vez, os dados históricos são utilizados para adicionar veracidade à narrativa. Já o narrador está em terceira pessoa do singular com o objetivo de trazer distanciamento e imparcialidade à narrativa. Mais tarde, já no século XX, o romance histórico passou por profundas transformações, as quais o levaram a ser classificado pelos estudiosos do tema como o novo romance histórico, ou metaficção historiográfica. Entre as suas características, podemos destacar o questionamento sobre as verdades históricas como a mais marcante. A exemplo do revisionismo histórico no âmbito da historiografia, o qual propõe o estudo e a reinterpretação dos acontecimentos históricos e dos respectivos registros documentais constantemente, a literatura contemporânea também questiona e interroga os fatos históricos, de modo a evidenciar a sua natureza de construto humano. Na contemporaneidade, o conceito de romance histórico foi bastante dis- cutido por estudiosos como a teórica e crítica literária Hutcheon (1991), a qual afirma que uma das principais características do romance autorreflexivo é a apropriação de personagens e acontecimentos históricos, bem como a proble- matização dos fatos considerados verdadeiros nas narrativas oficiais. Dessa maneira, os produções literárias fazem-se leituras alternativas do passado e, por consequência, críticas à história oficial. Para aprofundar-se no assunto e compreender melhor as relações entre história, memória e literatura, sugerimos a leitura da tese de doutorado de Torre (2017), intitulada Literatura, história e memória em Gabriel García Márquez: Cem anos de solidão, O general em seu labirinto e O outono do patriarca. 7Memória, autobiografia e romance histórico 2 Limites do conceito de representação para a análise literária Conforme estudamos na seção anterior deste capítulo, a memória e a história são representadas na literatura de diversas maneiras, contando com convenções próprias de cada gênero literário em que aparecem. Nesse sentido, uma questão central para a representação é a “veracidade”. Para a teoria clássica da representação, “[...] a linguagem está no lugar de uma realidade extralinguística [...] e as palavras são representações das coisas do mundo [...]” (FIORIN, 2008, p. 2). Em outras palavras, a concepção clássica entende que a linguagem é um espelho fi el da realidade e, por conseguinte, não a compreende como sendo simbólica, considerando que o signo seja arbitrário e as palavras sejam polissêmicas, tal qual propõe a linguística moderna. Embora no realismo e no naturalismo a concepção de representação alinhe- -se ao conceito de imitatio presente na tradição clássica — isto é, imitação ou cópia da realidade —, compreendemos que o real não pode ser apreendido pela linguagem, mas apenas representado por intermédio dela. Por essa razão, o discurso literário é capaz de construir imagens do real, as quais não são o real propriamente dito, senão possibilidades de leitura e de construção de sentido da realidade extralinguística. A depender do período e do artista, essa representação pode ser mais ou menos parecida com a realidade. Fiorin (2008, p. 199) defende que: [...] na literatura, ou mais especificamente no romance, temos períodos em que as teorias da representação são dominantes, os períodos em que a estética é realista ou naturalista. O contrato de veridicção que se firma entre enunciador e enunciatário é de que a obra reflete, exatamente, o mundo, a realidade. [...] Para chegar a isso é preciso apagar as marcas da enunciação no enunciado. Mais adiante nas suas colocações, Fiorin (2008) explica quais são as es- tratégias narrativas usadas pelos escritores para apagar as referidas marcas da enunciação no enunciado e criar o efeito de real nas suas obras. Em pri- meiro lugar, o narrador deve estar em terceira pessoa para que o enunciador possa ausentar-se do enunciado, de modo que não deixe marcas de pessoa e pareça que os fatos narram-se por conta própria para que, dessa maneira, a narrativa seja mais objetiva. Somado a isso, as personagens devem ter a sua “verdade” revelada, sendo que os comportamentos individuais e sociais são considerados efeitos de causas naturais (clima, temperamento, etc.) ou Memória, autobiografia e romance histórico8 culturais (ambiente, educação, etc.). Por fim, o enredo deve ser construído segundo modelos científicos. No romance naturalista O Cortiço, de 1890, de Aluísio Azevedo (1857–1913), o evolucionismo biológico é o modelo para o evolucionismo social, por exemplo. As personagens são classificadas como tipos e não são idealizadas como no romantismo — nas obras de José de Alencar (1829–1877), por exemplo, os índios possuem feições europeias. Pelo contrário, no naturalismo, as persona- gens são mostradas na sua dimensão corporal mais visceral, sendo até mesmo animalizadas, conforme podemos observar ao longo da leitura do romance citado. A esse respeito, o crítico e historiador da literaturabrasileira Bosi (1975, p. 192) comenta: O sertanejo altivo de Alencar não sofria das misérias que nos descrevem A Fome, de Rodolfo Teófilo, e Luzia-Homem, de Domingos Olímpio. Os costumes regionais, tão castos em Taunay e Távora, tornar-se-ão licenciosos na selva amazônica, a ponto de desviar o missionário de Inglês de Sousa. A adolescência, fagueira e pura na pena de Macedo, conhecerá a tristeza do vício precoce no Bom-Crioulo, de Caminha, e na Carne, de Júlio Ribeiro, sem contar as angústias sexuais da puberdade que latejam no Ateneu, de Raul Pompéia. Diferentemente do que poderíamos supor, a temporalidade no romance não é o passado, mas sim o presente. O contrato veridictório destina-se a analisar os costumes contemporâneos que, no caso de O Cortiço, dizem res- peito à sociedade brasileira do Segundo Reinado (1840–1889). O espaço da narrativa não mostra matas belíssimas, como sucedia nas descrições bucólicas do romantismo, mas sim ambientes urbanos, muitas vezes degradados, tais como pensões e cortiços. Esse tipo de contrato veridictório no qual impera o realismo é chamado por Fiorin (2008) de contrato objetivante. Nele, o objeto impõe-se sobre o sujeito na relação sujeito-objeto, que refere o homem em contato com o mundo. Também há o contrato subjetivante, no qual se pensa o mundo a partir da subjetividade humana. O grande momento desse tipo de contrato na literatura deu-se no romantismo. No contrato subjetivante, em geral, o narrador está em primeira pessoa e, caso esteja em terceira pessoa, as marcas de condução da ação são explícitas. De acordo com Bosi (1975, p. 154), “[...] as ações das personagens não são determinadas por leis cegas. Ao contrário, não sofrem elas qualquer determinação. Suas razões são sempre razões do coração [...]”. Seguindo essa lógica, o aspecto passional das obras é forte, fazendo-se presentes o ciúmes, as paixões, o orgulho e outros temas bastante subjetivos. As personagens são idealizadas, de 9Memória, autobiografia e romance histórico modo que os homens costumam apresentar caráter heroico e as mulheres tendem a ser gentis. Ademais, a temporalidade dos fatos pode se dar tanto no presente como no passado ou no futuro. O tempo e o espaço também são idealizados, com longas descrições sobre a beleza e a exuberância da natureza, assim como sobre a integração entre a natureza e a cultura. Temos ainda um terceiro tipo de contrato veridictório: o contrato semiótico. Nele, a relação homem-mundo, ou sujeito-objeto, é entendida como indireta, porém mediada pela linguagem. Os signos linguísticos são arbitrários e a linguagem é a responsável por dar forma ao mundo. Nesse sentido, a obra de arte não se configura como representação do mundo, mas sim como uma linguagem que cria diferentes realidades e pontos de vista sobre o real. Logo, a obra de arte mostra a relatividade da verdade. No contrato semiótico, a verossimilhança é uma construção interna à obra, não uma adequação ao referente, como o seria no contrato veridictório objetivante. Nesse tipo de contrato, o narrador pode estar em primeira ou em terceira pessoa, sendo que a voz narrativa projeta-se no interior do enunciado nesse segundo caso. É o que ocorre no romance Quincas Borba, de 1891, de Machado de Assis, no qual o narrador diz: “Este Quincas Borba, se acaso me fizeste o favor de ler as Memórias Póstumas de Brás Cubas, é aquele mesmo náufrago da existência que ali aparece, mendigo, herdeiro inopinado e inventor de uma filosofia. Aqui o tens agora em Barbacena.” (ASSIS, 1979, p. 644 apud FIORIN, 2008, p. 206). Os enredos evidenciam a relatividade da verdade. O tempo e o espaço podem ser construídos de modo detalhado ou podem permanecer indefinidos. Por sua vez, as personagens não são idealizadas e os discursos constroem a realidade em vez de, simplesmente, refleti-la. Usam-se paradoxos, ironias e metáforas. Fiorin (2008, p. 214) esclarece que: Em diversas épocas, houve escritores que se utilizaram, em seus romances, do contrato semiótico. São épocas em que a representação é posta em xeque. A linhagem dos autores que se valem desse contrato inclui Cervantes, Diderot, Sterne, etc. O modernismo foi um dos momentos em que a representação, depois do império do naturalismo, foi questionada. Enquanto o contrato realista-naturalista pretendia expressar a verdade do mundo e a “realidade” dos fatos, o contrato semiótico desejava mostrar-se como ficção, como dis- curso, como linguagem. Fiorin (2008) chama a atenção para o fato de que o contrato semiótico aparece nos momentos em que as condições sócio-históricas abalam as certezas e as crenças vigentes. A título de exemplificação, podemos citar Memória, autobiografia e romance histórico10 as mudanças acarretadas pela industrialização, tais como o surgimento do proletariado urbano, a revolução soviética, as guerras mundiais, os pro- gressos da ciência, a percepção da heterogeneidade social, entre tantas outras condições sócio-históricas que modificaram o sistema de certezas e crenças conhecido, motivando crises da representação. Nesse contexto, “[...] o contrato semiótico é um aprofundamento na linguagem, discursividade dos momentos em que se deve banir a opressão e criar uma nova ordem [...]” (FIORIN, 2008, p. 214). Hoje em dia, podemos pensar em outra crise da representação. Atualmente, negam-se as epistemologias dominantes de estudos do ser humano e da na- tureza e questionam-se os cânones artísticos, bem como os códigos culturais oficiais, sendo que esses questionamentos costumam partir dos sujeitos que não se sentem representados pela hegemonia intelectual. A revolta dá-se contra o conceito de totalidade que constituía a base das epistemologias, das estéticas e dos códigos culturais que pretendiam explicar a sociedade e a humanidade como um todo homogêneo. A partir dos novos questionamentos, funda-se uma expressão de epistemologia da diferença e da identidade à qual se associam grupos sociais diversos. A hegemonia e a normalidade são postas em xeque para ceder passagem à alteridade, uma vez que a representação é sempre uma construção de sentidos e envolve relações de poder no processo de representação. Com relação ao romance, um novo tipo de contrato enunciativo está em curso: o contrato metalinguístico. Enquanto o contrato de veridicção semiótico pensa o discurso como um modo de ver o mundo, o contrato me- talinguístico pensa a realidade como discurso, de modo que o embate ocorre entre os próprios discursos. Nesse contexto, compreende-se o discurso como representação de identidades, de maneira que entram em cena categorias como literatura feminina, feminismo negro, literatura queer, literaturas pós-coloniais, etc. Há um hibridismo de gêneros, como podemos verificar na autoficção, à qual você foi apresentado na seção anterior, por exemplo. A autorreflexão que interroga sistemas de valores e crenças e as estratégias de pastiche, paródia, colagem e fragmentação integram a metaficção ao lado de enredos mais lineares. Sem dúvidas, na contemporaneidade, há uma multiplicidade de gêneros, estilos e obras híbridas que não cabem em uma classificação estanque. Assim sendo, na análise de uma obra literária, é preciso estar atento aos “contratos” estabelecidos entre sujeito e objeto, ou seja, entre escritor e obra para melhor compreendê-la, sempre levando em consideração os limites da representação. 11Memória, autobiografia e romance histórico A epistemologia é o ramo da filosofia que se ocupa do estudo da natureza do conheci- mento, da justificação e da racionalidade da crença e dos sistemas de valores e crenças. Em outras palavras, a epistemologia interessa-se por toda a teoria do conhecimento. 3 Autobiografia, memórias e romance histórico Vejamos a seguir algumas obras dos gêneros autobiografi a, memórias e romance histórico que desenvolvem a representação da memória e da história nas suas narrativas. Para isso, revisaremos as características de cada um desses gêneros.Autobiografia No gênero literário autobiografi a, o autor, o narrador e a personagem pro- tagonista possuem exatamente os mesmos nome e sobrenome. Há um pacto autobiográfi co, de modo que o leitor espera que a narrativa corresponda à “verdade do indivíduo” e, portanto, fundamente-se na sua história pessoal e na sua personalidade. Podemos tomar como exemplo de autobiografi a Como e porque sou romancista, de 1893, de José de Alencar, no qual o pacto é estabelecido de maneira direta, pois o texto tem a forma de uma suposta carta. Assim, o autor relata a um amigo o seu processo de formação como escritor: Meu amigo, na conversa que tivemos, há cinco dias, exprimiu V. o desejo de colher, acerca da minha peregrinação literária, alguns pormenores dessa parte íntima de nossa existência, que geralmente fica à sombra, no regaço da família ou na reserva da amizade (ALENCAR, 1959, p. 101). Memórias Assim como na autobiografi a, há correspondência entre os nomes do autor, do narrador e da personagem protagonista. Nas memórias, também há um pacto autobiográfi co, pois o leitor espera que a narrativa seja a já citada “verdade do Memória, autobiografia e romance histórico12 indivíduo”. No entanto, esse gênero diferencia-se da autobiografi a pelo fato de que o foco da narrativa não está na história pessoal do indivíduo e na sua personalidade, mas sim nos acontecimentos históricos que o autor viveu ou testemunhou. A narrativa é subjetiva, pois trata-se da história vista pelos olhos do narrador, o qual atribui mais ou menos importância aos fatos de acordo com o seu próprio entendimento da situação enfocada. Podemos pensar em narrativas de guerra contadas por sobreviventes, por exemplo. É o caso de É isto um homem?, de 1947, de Primo Levi (1919–1987), no qual o autor relata a sua experiência junto aos demais judeus do complexo de Auschwitz durante o Holocausto (1941–1945), conforme podemos ler a seguir: Pela primeira vez, então, nos damos conta de que a nossa língua não tem pa- lavras para expressar esta ofensa, a aniquilação de um homem. Num instante, por intuição quase profética, a realidade nos foi revelada: chegamos ao fundo. Mais para baixo não é possível. Condição humana mais miserável não existe, não dá para imaginar. Nada mais é nosso: tiraram-nos as roupas, os sapatos, até os cabelos; se falarmos, não nos escutarão – e, se nos escutarem, não nos compreenderão. Roubaram também o nosso nome, e, se quisermos mantê-lo, deveremos encontrar dentro de nós a força para tanto, para que, além do nome, sobre alguma coisa de nós, do que éramos (LEVI, 1988, p. 32). Outro exemplo são as memórias de Simone de Beauvoir, cujo início dá-se com Memórias de uma moça bem-comportada, de 1958, que conta a história da sua vida desde o seu nascimento até os seus 21 anos de idade. Vejamos um excerto dessa obra, quando a autora fala da sua relação com a literatura, tratando do contexto histórico a partir da sua experiência pessoal: Afundei na leitura como outrora nas orações. A literatura tomou, na minha vida, o lugar que ocupara a religião: invadiu-a por inteiro e transfigurou-a. Os livros de que gostara tornaram-se uma bíblia da qual eu hauria conse- lhos e ajuda. Copiei longos trechos, aprendi de cor novos cânticos e novas litanias, salmos, provérbios, profecias, e santifiquei todas as circunstâncias de minha vida recitando esses trechos sagrados. Minhas emoções, minhas lágrimas, minhas esperanças não eram menos sinceras por isso; não me valia das palavras, das cadências, dos versos, dos versículos para fingir; mas eles salvavam do silêncio todas essas aventuras íntimas de que não se podia falar a ninguém. Entre mim e as almas irmãs que existiam algures, fora de meu alcance, criava-se uma espécie de comunhão; em lugar de viver minha historiazinha particular, participava de uma grande epopeia universal (BEAUVOIR, 1983, p. 189, grifo nosso). 13Memória, autobiografia e romance histórico Romance histórico O romance histórico articula-se com o passado histórico, incluindo persona- gens e acontecimentos históricos de grande importância junto a personagens fi ccionais no seu enredo. No caso clássico, como nos romances de Sir Walter Scott, os heróis medianos, também denominados medíocres, conduziam a ação e viviam as suas vidas de acordo com o momento histórico determinado no romance. Todo o ambiente, os modos e os costumes eram recriados na narrativa. Também existia uma consciência de classe coletiva, cujas tensões e forças eram representadas para que o leitor entendesse o porquê de certos comportamentos e certas atitudes das personagens, convertendo-se em basti- dores dos fatos históricos narrados. Além disso, o nacionalismo estava muito presente, como no exemplo: Por meio destes esforços, embora débeis, posso contribuir um pouco para a história do meu país, de cujos costumes e caráter se fundem e se dissolvem cotidianamente os traços peculiares naqueles de sua irmã e aliada. E, ainda que possa parecer trivial essa oferenda aos espíritos de um reino outrora orgulhoso e independente, deposito-a diante do seu altar com uma mescla de sentimentos que não tentarei descrever (SCOTT, 1806, documento on-line). Na contemporaneidade, o novo romance histórico, ou metaficção historio- gráfica, questiona as verdades históricas ao refletir sobre elas e evidencia o caráter de construto da história. O uso da ironia é recorrente, como no exemplo de Memorial do Convento, de José Saramago (1922–2010): D. João, quinto do nome na tabela real, irá esta noite ao quarto de sua mulher, dona Maria Ana Josefa, que chegou há mais de dois anos da Áustria para dar infantes à coroa portuguesa e até hoje não emprenhou. Já se murmura na corte, dentro e fora do palácio, que a rainha, provavelmente, tem a madre seca, insinuação muito resguardada de orelhas e bocas delatoras e que só entre íntimos se confia. Quer caiba a culpa ao rei, nem pensar, primeiro porque a esterilidade não é mal dos homens, das mulheres sim, por isso são repudiadas tantas vezes, e segundo, material prova, se necessária ela fosse, porque abundam no reino bastardos da real semente e ainda agora a procissão vai na praça (SARAMAGO, 2005, p. 11). Memória, autobiografia e romance histórico14 ALENCAR, J. Como e porque sou romancista. In: ALENCAR, J. Ficção completa. São Paulo: Companhia Aguiar, 1959. v. I. BEAUVOIR, S. Memórias de uma moça bem-comportada. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1983. BOSI, A. História Concisa da Literatura Brasileira. São Paulo: Cultrix, 1975. DOUBROVSKY, S. C’est fini. Entretien réalisé par Isabelle Grell. In: FOREST, P. Je & Moi. Paris: Gallimard, 2011. (La Nouvelle Revue Française, n. 598). FIORIN, J. L. A crise da representação e o contrato de veridicção do romance. Revista do GEL, São José do Rio Preto, v. 5, n. 1, p. 197–218, 2008. HUTCHEON, L. A poética do pós-modernismo: história, teoria, ficção. Rio de Janeiro: Imago, 1991. LEJEUNE, P. Le pacte autobiographique. Poétique, Seuil, n. 5, 1983. LEVI, P. É isto um homem?. Rio de Janeiro: Rocco, 1988. LUKÁCS, G. O romance histórico. São Paulo: Boitempo, 2011. MENDES, M. L. D. No limiar da História e da Memória. Um estudo de Mes mémoires, de Alexandre Dumas. 2007. Tese (Doutorado em Letras Modernas) - Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2007. MOISÉS, M. Memórias. In: MOISÉS, M. Dicionário de termos literários. 12. ed. São Paulo: Cultrix, 2013. PESAVENTO, S. J. Fronteiras da ficção: diálogos da história com a literatura. Revista de História das Ideias, Coimbra, v. 21, p. 33–57, 2000. Disponível em: https://digitalis-dsp. uc.pt/bitstream/10316.2/41745/1/Fronteiras_da_ficcao.pdf. Acesso em: 13 jun. 2020. SARAMAGO, J. Memorial do Convento. 31. ed. São Paulo: Bertrand Brasil, 2005. SCOTT, S. W. Minstrelsy of the Scottish border. [S. l.: s. n.], 1806. v. 1. Disponível em: http:// www.gutenberg.org/ebooks/12742. Acesso em: 13 jun. 2020. TORRE, M. M. C. Literatura, históriae memória em Gabriel García Márquez: Cem anos de solidão, O General em seu labirinto e O outono do patriarca. 2017. Tese (Doutorado em Estudos Literários) – Programa de Pós-Graduação em Estudos Literários, Faculdade de Letras, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2017. Disponível em: https://repositorio.ufmg.br/bitstream/1843/LETR-AQVQK5/1/tese_michelle_m_rcia_co- bra_torre.pdf. Acesso em: 13 jun. 2020. VILAIN, P. L’autofiction en théorie. Chatou: Les Éditions de la Transparence, 2009. Suivi de deux entretetiens avec Philippe Sollers et Philippe Lejeune. 15Memória, autobiografia e romance histórico Os links para sites da web fornecidos neste capítulo foram todos testados, e seu fun- cionamento foi comprovado no momento da publicação do material. No entanto, a rede é extremamente dinâmica; suas páginas estão constantemente mudando de local e conteúdo. Assim, os editores declaram não ter qualquer responsabilidade sobre qualidade, precisão ou integralidade das informações referidas em tais links. Leituras recomendadas FIGUEIREDO, E. Autoficção feminina: a mulher nua diante do espelho. Revista Criação & Crítica, São Paulo, n. 4, p. 91–102, 2010. JAMESON, F. O romance histórico ainda é possível? Novos Estudos, São Paulo, n. 77, p. 185–203, 2007. KLINGER, D. Escritas de si, escritas do outro: o retorno do autor e a virada etnográfica. Rio de Janeiro: 7Letras, 2007. LEJEUNE, P. O pacto autobiográfico: de Rousseau à internet. Belo Horizonte: UFMG, 2008. SARLO, B. Tempo passado: cultura da memória e guinada subjetiva. Belo Horizonte: UFMG; São Paulo: Companhia das Letras, 2005. WEINHARDT, M. O romance histórico na ficção brasileira recente. In: CORREA, R. H. M. A. (org.). Nem fruta nem flor. Londrina: Humanidades, 2006. p. 131–172. Memória, autobiografia e romance histórico16 Dica do professor A questão da representação na literatura está alinhada ao conceito de verossimilhança, ou seja, o que é semelhante ao real, mas não se confunde com ele. Por meio do pacto ficcional, o leitor sabe que o que lê é uma impressão da verdade, na qual ele finge que acredita. Nesta Dica do Professor, você terá a sugestão de trabalhar com os alunos o conceito de representação e de verossimilhança, para que as obras literárias possam ser melhor compreendidas por eles. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. https://fast.player.liquidplatform.com/pApiv2/embed/cee29914fad5b594d8f5918df1e801fd/c0990178e20b8a24e7908f2991aba132 Exercícios 1) Na leitura de um texto de natureza autobiográfica, um pacto se estabelece entre o autor e o leitor, o pacto autobiográfico. Ele é caracterizado: A) Pela verossimilhança. B) Pelo fato de o leitor fingir que acredita no que lê. C) Pela identificação entre autor, narrador e personagem. D) Pela narrativa em 1a pessoa do narrador-personagem. E) Pela ambiguidade entre veracidade e invenção. 2) O discurso histórico se pretende verdadeiro, enquanto o discurso ficcional trabalha com a ilusão do real (verossimilhança). Mas, na contemporaneidade, muito se discute essas fronteiras porque: A) Tanto a História quanto a Literatura são ciências e exigem pesquisas. B) A literatura pode ser usada como fonte documental para a prática historiográfica. C) Os dois discursos questionam e revisam os fatos históricos do passado. D) Os dois discursos se articulam em torno do rigor metodológico no manejo dos fatos. E) Ambos são narrativas e envolvem seleção, ênfase, apagamento e relação entre os fatos. Os diversos gêneros literários são construídos a partir de convenções e efeitos que pretendem provocar a partir de sua leitura. Os chamados textos confessionais admitem diversos gêneros, como memórias, narrativas epistolares, autobiografias, romances autobiográficos, diários íntimos, diários ficcionais e autoficção. Em relação a esses gêneros, examine as afirmativas e escolha a opção correta: I- O pacto autobiográfico e o pacto ficcional operam nas autobiografias e nos romances autobiográficos, respectivamente. 3) II - A autoficcção se diferencia da autobiografia, pois a primeira narra passagens da vida do autor no tempo presente e deve ser lida como romance, enquanto a segunda narra a sua história em retrospectiva, desde as origens, e se pretende verídica. III - Narrativas epistolares e memórias narram a história individual e personalidade do autor. IV - Diários íntimos e diários ficcionais são exemplos de textos que se relacionam com o passado histórico. A) I e II estão corretas. B) I e III estão corretas. C) I e IV estão corretas. D) II e III estão corretas. E) II e IV estão corretas. 4) O romance histórico clássico, que associa história e ficção no desenvolvimento do enredo, surgiu no século XIX com o escocês Sir Walter Scott, e tem como característica: A) Questionar as supostas verdades históricas. B) Usar como protagonistas personagens reais da história. C) Representar personagens históricos e deixar os anônimos conduzirem a ação. D) Evidenciar o caráter de construto da história. E) Basear a narrativa na percepção individual dos fatos históricos. 5) A representação se apoia no conceito de contrato de veridicção, que apresenta a relação entre escritor e mundo ou, em outros termos, sujeito e objeto. Dependendo da época e sua estética dominante, esse contrato varia. No caso do naturalismo, o contrato de veridicção pode ser entendido como: A) Subjetivante. B) Objetizante. C) Semiótico. D) Metalinguístico. E) Idealizado. Na prática Os conceitos de autobiografia e de memória têm muito em comum em relação à forma, e ambos assumem com o leitor o compromisso da veracidade. Além disso, o autor, o narrador e o personagem têm a mesma identidade, como postulado por Philippe Lejeune em seu conceito de pacto autobiográfico. Neste Na Prática, você verá o caso de uma professora de Literatura que analisou com seus alunos dois romances para trabalhar os conceitos de autobiografia e de memórias e as distinções entre eles. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. https://statics-marketplace.plataforma.grupoa.education/sagah/09177fe9-7ce2-42d4-982d-89473ce0729e/ddb241a4-373a-45c6-bfe9-0ed99450a527.png Saiba + Para ampliar o seu conhecimento a respeito desse assunto, veja abaixo as sugestões do professor: Autobiografia e a tênue fronteira entre os gêneros narrativos Para se aprofundar no gênero autobiográfico, vale a pena ler esta tese de doutorado, que analisa as peculiaridades do gênero e os limites entre o real e a ficção. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. O gênero memorialístico na literatura e na cultura: reconstrução da experiência humana Este artigo traz uma discussão importante sobre o conceito de memória e a sua apresentação na literatura e na cultura. Confira. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. Verossimilhança Acesse e confira, no Dicionário de Termos Literários, o significado do verbete 'Verossimilhança', para melhor compreender o conceito em seus diferentes aspectos. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. https://www.maxwell.vrac.puc-rio.br/colecao.php?strSecao=resultado&nrSeq=27024@1 http://seer.pucgoias.edu.br/index.php/guara/article/download/1202/3544� https://edtl.fcsh.unl.pt/encyclopedia/verossimilhanca/