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<p>Teoria da Narrativa</p><p>Prof. Rodrigo Jorge Ribeiro Neves</p><p>Descrição</p><p>Estudo dos principais aspectos teóricos e conceituais da narrativa e de</p><p>sua estrutura, considerando suas características, seus elementos e as</p><p>diversas relações entre eles.</p><p>Propósito</p><p>A compreensão do funcionamento de uma narrativa é fundamental para</p><p>a análise e interpretação de textos que relatam uma sequência de</p><p>acontecimentos, encadeados ou não. Para isso, conheceremos seus</p><p>componentes e os modos como eles se organizam para que a narrativa</p><p>possa cumprir o seu principal papel: contar uma história.</p><p>Preparação</p><p>Antes de iniciar seu estudo, pesquise e acesse o E-Dicionário de Termos</p><p>Literários, de Carlos Ceia, disponível na Internet, para entender conceitos</p><p>específicos da área.</p><p>Objetivos</p><p>23/06/2024, 16:26 Teoria da Narrativa</p><p>https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/03254/index.html?brand=estacio# 1/65</p><p>Módulo 1</p><p>A universalidade da Narrativa</p><p>Reconhecer a universalidade da Narrativa.</p><p>Módulo 2</p><p>Gênero Narrativo: características</p><p>Identificar as principais características do Gênero Narrativo.</p><p>Módulo 3</p><p>Elementos da narrativa</p><p>Identificar os elementos da Narrativa.</p><p>Módulo 4</p><p>Narratividade</p><p>Reconhecer o conceito de Narratividade.</p><p>Introdução</p><p>Contar histórias é uma das atividades fundamentais da existência</p><p>humana. Por meio delas, construímos e reconstruímos,</p><p>simbolicamente, o mundo ao nosso redor.</p><p></p><p>23/06/2024, 16:26 Teoria da Narrativa</p><p>https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/03254/index.html?brand=estacio# 2/65</p><p>Compreender os mecanismos envolvidos na construção de</p><p>histórias, ou narrativas, é fundamental não apenas para saber</p><p>como chegamos até aqui, mas também para enxergar as</p><p>possibilidades de caminhos que temos adiante.</p><p>Por isso, a Teoria da Narrativa é de grande importância. Também</p><p>conhecida como Narratologia, ela é a parte da Teoria Literária que</p><p>estuda as narrativas, seus elementos e efeitos. Apesar de, desde</p><p>sempre, as histórias estarem presentes em nossas vidas, o</p><p>desenvolvimento desse ramo dos estudos literários é</p><p>relativamente recente, mas já conta com diversos conceitos e</p><p>tendências críticas que, cada vez mais, vêm sendo atualizados,</p><p>como acontece em toda área de estudos diante de novas</p><p>descobertas e demandas.</p><p>Portanto, neste conteúdo, demonstraremos como se constitui a</p><p>universalidade da Narrativa e analisaremos as principais</p><p>características do Gênero Narrativo. Em seguida, identificaremos</p><p>os principais elementos narrativos que compõem a sua estrutura</p><p>e, por fim, examinaremos a função exercida pelas histórias por</p><p>meio do conceito de Narratividade.</p><p>Material para download</p><p>Clique no botão abaixo para fazer o download do</p><p>conteúdo completo em formato PDF.</p><p>Download material</p><p>23/06/2024, 16:26 Teoria da Narrativa</p><p>https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/03254/index.html?brand=estacio# 3/65</p><p>javascript:CriaPDF()</p><p>1 - A universalidade da Narrativa</p><p>Ao �nal deste módulo, você será capaz de reconhecer a universalidade da</p><p>Narrativa.</p><p>Feitos de Histórias</p><p>Por que contamos histórias?</p><p>Eduardo Galeano, escritor uruguaio.</p><p>O escritor uruguaio Eduardo Galeano (2012) afirmou certa vez que, ao</p><p>contrário do que dizem os cientistas, não somos feitos de átomos, mas</p><p>de histórias. A metáfora utilizada por Galeano, como podemos perceber,</p><p>não tem nenhuma pretensão de ser tomada como uma conclusão</p><p>científica, mas de destacar a importância das histórias para a natureza</p><p>humana.</p><p>23/06/2024, 16:26 Teoria da Narrativa</p><p>https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/03254/index.html?brand=estacio# 4/65</p><p>Somos feitos de átomos, sonhos, medos, paixões, crenças, ódio, culpa,</p><p>esperança, ideologias, preconceito, violência, descobertas, governos,</p><p>memória, intolerância e tantos outros produtos de nossa necessidade</p><p>de contar e de ouvir histórias.</p><p>No Paleolítico, as condições climáticas e os animais eram difíceis de</p><p>encarar. As cavernas serviam como refúgio para a sobrevivência do ser</p><p>humano. Nelas, os desenhos rupestres registram imagens e histórias</p><p>daquele tempo. Pesquisas recentes, inclusive, apontam muitas delas</p><p>como precursoras das narrativas cinematográficas.</p><p>Dá para acreditar? Aquelas paredes não eram sua única proteção. As</p><p>histórias também. Diante de uma realidade ainda desconhecida para o</p><p>homem, as narrativas gravadas na pedra, de certa maneira, contribuíram</p><p>para que ele a conhecesse melhor e a enfrentasse. Por isso, podemos</p><p>pensar no ato de narrar como uma forma de produzir conhecimento e de</p><p>se prevenir do que não é bom.</p><p>Curiosidade</p><p>Pesquisadores também acreditam que alguns desenhos pré-históricos</p><p>são relatos de eventos passados, uma espécie de ritual de</p><p>agradecimento ou de forma de recordação. Contar histórias, nesse</p><p>sentido, é também lembrar.</p><p>A memória tem papel fundamental na experiência humana. É preciso</p><p>lembrar não apenas para que possamos aprender uma lição ou evitar</p><p>erros, mas também para nos conhecermos melhor.</p><p>As narrativas são poderosas ferramentas para a</p><p>memória, pois elas reconstroem a experiência</p><p>por meio da linguagem e nos oferecem outras</p><p>maneiras de olhar.</p><p>23/06/2024, 16:26 Teoria da Narrativa</p><p>https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/03254/index.html?brand=estacio# 5/65</p><p>É como se criassem um tipo de espelho. Não esse que temos em</p><p>nossas casas, no qual conferimos cada detalhe, verificando se está tudo</p><p>em ordem e se tem algo a ser ajeitado. Não é disso que estamos</p><p>tratando. As narrativas criam espelhos que nos colocam diante do que</p><p>vemos, mas, principalmente, do que não vemos.</p><p>A frase lida no Oráculo de Delfos é um belo exemplo dessa relação entre</p><p>memória e narrativa em nossa vida: “Conhece-te a ti mesmo”.</p><p>Sacerdotisa de Delfos, John Collier, 1891.</p><p>Não é difícil perceber que as palavras “comunicar” e “comum” têm</p><p>origens semelhantes. Elas vêm do latim communis, ou seja, o que é</p><p>compartilhado por muitos, público. Já não é tão evidente o fato de elas</p><p>derivarem de mei-, mesma raiz indo-europeia de palavras como “migrar”</p><p>e “mútuo”, que significa “mudar, trocar”. Assim como migrar é trocar de</p><p>lugar ou residência, comunicar é trocar entre pessoas e fazer com que o</p><p>objeto da troca pertença a todos. É tornar aquilo que era apenas</p><p>individual em algo coletivo, mas sem perder a unidade do que cada um</p><p>passa a ter depois da troca. Por isso, também contamos histórias, para</p><p>que, lembrando e conhecendo melhor sobre o mundo e sobre nós</p><p>mesmos, estejamos juntos.</p><p>23/06/2024, 16:26 Teoria da Narrativa</p><p>https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/03254/index.html?brand=estacio# 6/65</p><p>Compreendendo a estrutura</p><p>narrativa</p><p>A concepção aristotélica</p><p>Em nossa tentativa de responder à pergunta que dá título ao núcleo</p><p>anterior, procuramos características gerais da arte de contar histórias</p><p>que explicassem a sua ocorrência entre diversos povos e tempos</p><p>diferentes. Ou seja, buscamos razões universais que nos ajudassem a</p><p>entender o fenômeno em si. Sem dúvida, cada história varia de uma</p><p>cultura para outra, mas há alguns padrões que se repetem,</p><p>independentemente do idioma e dos autores. É o que caracteriza a</p><p>universalidade da narrativa. E um dos primeiros a formular os conceitos</p><p>para a compreensão dessa estrutura foi Aristóteles.</p><p>Busto de Aristóteles.</p><p>As artes, de acordo com Aristóteles, possuíam um papel fundamental</p><p>para a natureza humana e para o crescimento moral dos indivíduos.</p><p>Dentre as obras dedicadas a essa atividade, destaca-se a sua Poética,</p><p>considerada o primeiro tratado filosófico sobre as formas de criação</p><p>literária e cênica, exercendo grande influência até os dias atuais.</p><p>A Poética de Aristóteles trata basicamente da poesia, sua natureza, suas</p><p>espécies e funções, assim como seus modos de composição. As</p><p>espécies são:</p><p></p><p>A tragédia</p><p>23/06/2024, 16:26 Teoria da Narrativa</p><p>https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/03254/index.html?brand=estacio# 7/65</p><p>De versos curtos, possuiria tempo e espaço delimitados, sendo</p><p>realizada em um único cenário e em apenas um dia.</p><p></p><p>A epopeia</p><p>De versos mais</p><p>56/65</p><p>Dizem que uma imagem vale mais do que mil palavras. Será verdade?</p><p>Vai depender da imagem e também de quais palavras quero substituir</p><p>por elas. De fato, há imagens que carregam tantos significados que</p><p>chegam a se tornar objetos de longos ensaios, por isso elas constituem</p><p>o que chamamos de linguagem não verbal e utilizam signos visuais, em</p><p>vez dos signos linguísticos.</p><p>As fotografias de guerra, por exemplo, são eloquentes em sua exposição</p><p>crua da violência e da dor ali expressas. Às vezes, o excesso dessas</p><p>imagens acaba, inclusive, banalizando o sofrimento e o naturalizando,</p><p>como analisa a filósofa Susan Sontag, em seu ensaio Diante da dor dos</p><p>outros.</p><p>O olhar de alguém que amamos, seja um bebê, um animal de estimação,</p><p>um amigo que não víamos há muitos anos ou uma grande paixão, pode</p><p>estar carregado de entusiasmo que não conseguimos exprimir de outra</p><p>maneira. Ou aquela troca de olhares por minutos, mudos, logo após uma</p><p>longa conversa difícil e que precede o abraço envolvido de lágrimas.</p><p>Em nenhuma dessas cenas as palavras foram necessárias para</p><p>comunicar um turbilhão de sentimentos e histórias, como se tudo</p><p>estivesse misturado e não soubéssemos como dizer. Na verdade,</p><p>sabemos. E dizemos. A narratividade também ocorre aqui (SONTAG,</p><p>2003).</p><p>Como já estudamos, a narratividade só se completa se a recepção</p><p>contar com a matéria narrativa fornecida, pois o fenômeno possui</p><p>23/06/2024, 16:26 Teoria da Narrativa</p><p>https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/03254/index.html?brand=estacio# 57/65</p><p>vínculo direto com quem recebe a história, seja por meio da leitura, da</p><p>audição ou da observação. Um olhar, como descrito em uma das</p><p>situações anteriores, pode comunicar apenas emoções, sem nenhuma</p><p>narrativa envolvida, mas a cena pode estar inserida em um esquema</p><p>narrativo e que atenda ao horizonte de expectativas de quem a assiste.</p><p>Há vários exemplos no cinema mudo. Em um dos filmes mais divertidos</p><p>e sensíveis de Charles Chaplin, Luzes da cidade (1931), encontramos</p><p>diversas cenas antológicas. Uma, em especial, está entre as mais belas.</p><p>Na imagem, o protagonista está sorrindo e tem a mão, que segura uma</p><p>flor, na boca, com o dedo indicador mais flexionado que os outros. Seus</p><p>olhos se dirigem à personagem da florista cega, que está fora do plano.</p><p>É uma cena carregada de emoção, mas também de história e que diz</p><p>tanto sobre as duas figuras, tanto a que aparece quanto a que não</p><p>aparece na imagem.</p><p>Dica</p><p>Se não viu a cena ainda, veja! É imperdível.</p><p>Na história da arte, também encontramos vários exemplos de narrativas</p><p>de linguagem não verbal. Mencionamos, no primeiro módulo, as pinturas</p><p>rupestres dos povos pré-históricos, cheios de mistério e de significado,</p><p>mas também de muitas histórias. Ainda que eles a utilizassem apenas</p><p>com motivações ritualísticas, isso não impediria de haver narratividade,</p><p>já que o homem sempre fez uso de símbolos imagéticos para expressar</p><p>as suas crenças e tentativas de comunicação com o plano espiritual.</p><p>23/06/2024, 16:26 Teoria da Narrativa</p><p>https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/03254/index.html?brand=estacio# 58/65</p><p>Crucificação de Jesus, Aleijadinho, Santuário do Bom Jesus de Matosinhos (MG).</p><p>A via crucis, por exemplo, é um dos temas recorrentes ao longo da</p><p>história da arte sacra. Ela se refere ao percurso de Jesus Cristo até o</p><p>Calvário, de sua condenação até o seu sepultamento, constituindo 14</p><p>estações. Uma das reproduções mais admiráveis foi concebida por</p><p>Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho.</p><p>Embora a via crucis seja um tipo de narrativa de linguagem não verbal</p><p>complementar ao registro escrito, já que se trata de uma passagem</p><p>bíblica, observem que a escultura do artista mineiro possui emoção,</p><p>mas também movimento, gesto, resultando em uma cena extremamente</p><p>dramática. Ainda que alguém não conheça o relato pelas Escrituras, as</p><p>imagens contam uma história, por isso, está presente aqui também</p><p>narratividade, já que onde o humano se revela, há uma vida a ser</p><p>contada.</p><p>Narratividade: o que é?</p><p>Você conseguiu compreender do que se trata a narratividade? Precisa</p><p>de mais uma ajudinha? Sem problemas! No vídeo a seguir, o professor</p><p>Rodrigo Jorge nos apresenta o conceito de narratividade, suas</p><p>aplicações e implicações para a teoria literária.</p><p></p><p>23/06/2024, 16:26 Teoria da Narrativa</p><p>https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/03254/index.html?brand=estacio# 59/65</p><p>Falta pouco para atingir seus objetivos.</p><p>23/06/2024, 16:26 Teoria da Narrativa</p><p>https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/03254/index.html?brand=estacio# 60/65</p><p>Vamos praticar alguns conceitos?</p><p>Questão 1</p><p>Um texto narrativo do século XVI pode ser lido de uma maneira no</p><p>século seguinte e de outra no atual. Além dos fatores históricos e</p><p>sociais, a narratividade do discurso contribui para sua recepção</p><p>nesses três momentos, pois:</p><p>Parabéns! A alternativa E está correta.</p><p>A narratividade é a capacidade da narrativa de recriação do mundo</p><p>e o estabelecimento das diversas formas possíveis de recepção do</p><p>discurso. Por isso, ela é fundamental no processo de leitura, pois</p><p>indica que a história está sendo compreendida e, portanto,</p><p>cumprindo sua função.</p><p>Questão 2</p><p>Em todo álbum de família, temos uma coleção de imagens que</p><p>cobrem diversos momentos da vida de cada um.</p><p>Independentemente da organização do conjunto, elas comunicam</p><p>A como fenômeno, ela afasta o texto do leitor.</p><p>B</p><p>não há significado produzido pelo processo de</p><p>leitura.</p><p>C as histórias se tornam cada vez mais reais.</p><p>D</p><p>ela atualiza os gêneros de acordo com o contexto</p><p>em que foram produzidos.</p><p>E</p><p>como fenômeno, ela estabelece uma relação da</p><p>história com o leitor.</p><p>23/06/2024, 16:26 Teoria da Narrativa</p><p>https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/03254/index.html?brand=estacio# 61/65</p><p>histórias, ainda que o observador das fotografias não conheça os</p><p>membros. Assinale a alternativa que explique essa recepção:</p><p>Parabéns! A alternativa B está correta.</p><p>Como uma narrativa de linguagem não verbal, a fotografia faz uso</p><p>de signos visuais, diferente da narrativa de linguagem verbal. No</p><p>entanto, as duas formas de expressão, por transmitirem para o</p><p>receptor uma sequência, linear ou não, dos acontecimentos,</p><p>possuem narratividade.</p><p>Considerações �nais</p><p>Contar e ouvir histórias é uma das condições humanas essenciais. Por</p><p>meio dessa necessidade de narrar as nossas vidas e de ouvi-las é que</p><p>nos desenvolvemos. Por isso, estudar as estruturas, os elementos e as</p><p>A As fotografias, em geral, são sempre narrativas.</p><p>B</p><p>Por meio de signos visuais, as fotografias familiares,</p><p>em sua narratividade, expõem os acontecimentos</p><p>para o observador.</p><p>C</p><p>O processo de comunicação da imagem é</p><p>semelhante ao do texto.</p><p>D</p><p>Por meio de signos visuais, as fotografias familiares</p><p>ressaltam qualidades dos fotografados.</p><p>E</p><p>Para conhecer as histórias dos membros da família,</p><p>o observador precisa colocar as imagens em ordem</p><p>cronológica.</p><p>23/06/2024, 16:26 Teoria da Narrativa</p><p>https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/03254/index.html?brand=estacio# 62/65</p><p>técnicas narrativas é tão importante, auxiliando na compreensão do</p><p>mundo e de nós mesmos.</p><p>Apesar das diferenças de tempo, língua e espaço geográfico, todos</p><p>seguimos alguns padrões mais ou menos estabelecidos. A Teoria da</p><p>Narrativa busca, assim, investigar os mecanismos que compõem as</p><p>estruturas narrativas e as dinâmicas envolvidas em suas variações de</p><p>uma época a outra.</p><p>Os elementos que fazem parte de uma narrativa operam de modo que</p><p>cada história transmita uma perspectiva. A escolha de um narrador ou</p><p>de um espaço não é casual, mas cumpre uma função dentro da história,</p><p>essencial para que ela alcance o seu objetivo, atualizando os nossos</p><p>vínculos com o outro e com o mundo.</p><p>Em tudo, uma história pode estar presente, desde que uma vida possa</p><p>ser lida.</p><p>Podcast</p><p>Neste podcast, o especialista Rodrigo Jorge irá revisitar os pontos</p><p>centrais do tema.</p><p></p><p>Explore +</p><p>Além do Dicionário de Teoria da Narrativa, de Carlos Reis e Ana</p><p>Cristina</p><p>M. Lopes, citado nas referências, consulte também o E-</p><p>Dicionário de Termos Literários, organizado por Carlos Ceia. Lá,</p><p>você tem acesso aos principais termos utilizados pela Teoria e os</p><p>Estudos Literários.</p><p>23/06/2024, 16:26 Teoria da Narrativa</p><p>https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/03254/index.html?brand=estacio# 63/65</p><p>Escute o podcast Página Cinco, produzido e apresentado por</p><p>Rodrigo Casarin. Ele trata de livros, autores, gêneros e formatos dos</p><p>mais variados. Cada episódio traz um convidado de destaque no</p><p>cenário cultural.</p><p>Referências</p><p>ARISTÓTELES. Poética. Trad. Paulo Pinheiro. São Paulo: Editora 34,</p><p>2020.</p><p>ASSIS, M. Memórias Póstumas de Brás Cubas. São Paulo: Moderna,</p><p>1999.</p><p>BARTHES, R. Introdução à análise estrutural das narrativas. In:</p><p>BARTHES, R. A aventura semiológica. Trad. Mário Laranjeira. São Paulo:</p><p>Martins Fontes, 2001, p. 103-152.</p><p>BANDEIRA, M. Libertinagem - Estrela da manhã. Edição crítica, coord.</p><p>Giulia Lanciani. Madrid; Paris; México; Buenos Aires; São Paulo; Lima;</p><p>Guatemala, San José; Santiago: ALLCA XX, 1998. (Colección Arquivos;</p><p>33).</p><p>BENJAMIN, W. O narrador. In: BENJAMIN, W. Magia e técnica, arte e</p><p>política: ensaios sobre literatura e história da cultura. Trad. Sérgio Paulo</p><p>Rouanet. São Paulo: Brasiliense, 1987.</p><p>BORGES, J. L. Outras inquisições. Trad. Davi Arrigucci Jr. São Paulo:</p><p>Companhia das Letras, 2007.</p><p>CAMPOS, H. Morfologia de Macunaíma. São Paulo: Perspectiva, 1973.</p><p>CERTEAU, M. A invenção do cotidiano: artes de fazer. Trad. Ephraim</p><p>Ferreira Alves. Rio de Janeiro: Vozes, 1998.</p><p>CÉSAR, A. C. Poética. São Paulo: Companhia das Letras, 2013.</p><p>CULLER, J. Teoria literária: uma introdução. Trad. Sandra Vasconcelos.</p><p>São Paulo: Beca, 1999.</p><p>GALEANO, E. Os filhos dos dias. Porto Alegre: L&PM, 2012.</p><p>GARCÍA MÁRQUEZ, G. Crônica de uma morte anunciada. Trad. Remy</p><p>Gorga Filho. São Paulo: Record, 2006.</p><p>GOETHE, J.W. Fausto. v.1. Trad. Sílvio Meira. São Paulo: Círculo do Livro,</p><p>1985.</p><p>23/06/2024, 16:26 Teoria da Narrativa</p><p>https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/03254/index.html?brand=estacio# 64/65</p><p>LAFETÁ, J. L. A dimensão da noite e outros ensaios. Org. Antonio Arnoni</p><p>Prado. São Paulo: Duas Cidades; Editora 34, 2004.</p><p>PROPP, V. Morfologia do conto maravilhoso. Rio de Janeiro: Forense</p><p>Universitária, 2001.</p><p>REIS, C.; LOPES, A. C. M. Dicionário de teoria da narrativa. São Paulo:</p><p>Ática, 1988.</p><p>ROSENFELD, A. A teoria dos gêneros. In: ROSENFELD, A. O teatro épico.</p><p>São Paulo: Perspectiva, 1985, p. 15-36.</p><p>SONTAG, S. Diante da dor dos outros. São Paulo: Companhia das Letras,</p><p>2003.</p><p>SAUSSURE, F. Curso de Linguística Geral. Trad. Antônio Chelini, José</p><p>Paulo Paes, Isidoro Blikstein. São Paulo: Cultrix, 1975.</p><p>TODOROV. T. Os gêneros do discurso. Trad. Ana Mafalda Leite. Lisboa:</p><p>Edições 70, 1981.</p><p>WATT, I. A ascensão do romance: estudos sobre Defoe, Richardson e</p><p>Fielding. Trad. Hildegard Feist. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.</p><p>Material para download</p><p>Clique no botão abaixo para fazer o download do</p><p>conteúdo completo em formato PDF.</p><p>Download material</p><p>O que você achou do conteúdo?</p><p>Relatar problema</p><p>23/06/2024, 16:26 Teoria da Narrativa</p><p>https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/03254/index.html?brand=estacio# 65/65</p><p>javascript:CriaPDF()</p><p>longos, ocorreria durante dias, meses ou anos, e em</p><p>diversos espaços.</p><p></p><p>A comédia</p><p>Se dedicaria à imitação (mimesis) de homens inferiores, enquanto as</p><p>duas anteriores, dos elevados.</p><p>Aristóteles discute um pouco mais sobre a tragédia e a epopeia nesse</p><p>conjunto de notas sobre a arte poética que chegou até nós. O ponto em</p><p>comum entre essas duas espécies da Poética que vai nos interessar é o</p><p>esquema de três atos, ou seja, é a estrutura com começo, meio e fim.</p><p>Familiar?</p><p>Atenção!</p><p>Para Aristóteles, a relação entre esses três atos é de causalidade, ou</p><p>seja, cada um é modificado pelo princípio de causa e consequência, a</p><p>partir de um conflito entre personagens, ideias ou situações.</p><p>A chave de um bom enredo, segundo o filósofo, seria constituída da</p><p>seguinte forma:</p><p></p><p>O começo</p><p>Essa é a situação estável até que algo a</p><p>desequilibre.</p><p></p><p>O meio</p><p>É t t ti d lt à t bilid d t i d</p><p>23/06/2024, 16:26 Teoria da Narrativa</p><p>https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/03254/index.html?brand=estacio# 8/65</p><p>Encontramos essa estrutura em muitas grandes obras do teatro e da</p><p>literatura. Em Fausto I, de Goethe (1985), por exemplo, a seguinte divisão</p><p>seria possível:</p><p>É a tentativa de volta à estabilidade anterior e de</p><p>eliminação do que provocou o desequilíbrio.</p><p></p><p>O �m</p><p>Que é a eliminação do objeto do desequilíbrio.</p><p></p><p>1º ato, ou começo</p><p>Fausto realizou um pacto com Mefistófeles, o</p><p>demônio, para se tornar mais jovem e atraente.</p><p>Como ele se apaixona por uma moça, Margarida,</p><p>pede a intervenção do diabo.</p><p></p><p>2º ato, ou meio</p><p>Em sua tentativa de conquistar a mulher amada,</p><p>uma sucessão de mortes acontece. Um infanticídio</p><p>leva à prisão de Margarida. Fausto recorre a</p><p>Mefistófeles mais uma vez.</p><p></p><p>3º ato, ou �m</p><p>Margarida recusa a ajuda de Fausto para sair de</p><p>sua cela, entrega sua alma a Deus e é levada pelos</p><p>j é F t M fi tóf l f d</p><p>23/06/2024, 16:26 Teoria da Narrativa</p><p>https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/03254/index.html?brand=estacio# 9/65</p><p>Claro que a obra de Goethe é mais complexa e recheada de cenas e</p><p>conflitos importantes, mas o enredo pode ser sintetizado dessa</p><p>maneira. A ordem dos atos também pode variar e assumir outros</p><p>sentidos na história. Em Memórias póstumas de Brás Cubas, por</p><p>exemplo, Machado de Assis começa pelo fim, o narrador conta sua</p><p>história depois de morto (ASSIS, 1999).</p><p>Gabriel García Márquez, em Crônica de uma morte anunciada, de certa</p><p>maneira, realiza algo parecido, estimulando o nosso desejo de saber</p><p>mais sobre como se deu a morte de Santiago Nasar (GARCÍA</p><p>MARQUEZ, 2006).</p><p>Como podemos ver, “falar grego” também pode significar uma boa</p><p>forma de ser compreendido. Principalmente se esse grego for</p><p>Aristóteles e sua Poética.</p><p>A concepção formalista</p><p>Outra contribuição importante para a Teoria da Narrativa no que diz</p><p>respeito ao estudo da universalidade nas histórias foi dada pelo filólogo,</p><p>crítico e linguista russo Vladimir Propp, um dos nomes do chamado</p><p>Formalismo Russo. Os formalistas buscam se afastar das tendências</p><p>críticas da época que se baseiam em fatores externos ao texto, como a</p><p>biografia do autor e o contexto histórico.</p><p>Atenção!</p><p>Para eles, o texto e seus componentes seriam o objeto central das</p><p>análises. Apenas o que diz e como diz o texto seriam de interesse. Por</p><p>isso, sua metodologia é descritiva e morfológica, pois a obra é</p><p>entendida como construção artística.</p><p>Os formalistas perguntavam: quais são os</p><p>elementos das obras? E como interagiriam</p><p>entre si?</p><p>Vladimir Propp lançou mão dessas e de outras perguntas em sua</p><p>análise de contos folclóricos russos para escrever sua Morfologia do</p><p>conto maravilhoso (PROPP, 2001), um dos estudos mais importantes da</p><p>Narratologia e da Teoria do Conto.</p><p>anjos aos céus. Fausto e Mefistófeles fogem da</p><p>cela de Margarida.</p><p>23/06/2024, 16:26 Teoria da Narrativa</p><p>https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/03254/index.html?brand=estacio# 10/65</p><p>Ele coletou cerca de cem contos maravilhosos, da tradição popular</p><p>russa, como os contos de fadas e de magia, buscando encontrar</p><p>elementos em comum entre eles.</p><p>Como um formalista, Propp não estava interessado em uma</p><p>investigação dos temas, mas de seus processos de construção,</p><p>considerando as personagens e suas ações para o desenrolar da</p><p>história.</p><p>Vladimir Propp, crítico e linguista russo.</p><p>Como sabemos, toda narrativa é movida por ações. Por isso, segundo</p><p>Propp (2001, p. 16): “o que realmente importa é saber o que fazem os</p><p>personagens”, isto é, quais são suas funções na história. Para definir</p><p>essa função, o “procedimento de um personagem”, devemos considerar</p><p>o substantivo que expresse a ação e o significado da função na</p><p>ocorrência da ação (PROPP, 2001, p. 16). Um personagem, portanto, não</p><p>é definido pelo que ele é, mas pelo que faz dentro de um momento da</p><p>história. Ele exerce um papel específico sem o qual essa história não é</p><p>possível.</p><p>23/06/2024, 16:26 Teoria da Narrativa</p><p>https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/03254/index.html?brand=estacio# 11/65</p><p>No conjunto de narrativas populares reunidas por Propp, ele encontrou</p><p>diversas funções e as agrupou em “esferas de ação”, que são, nada</p><p>mais, nada menos, que os personagens que executam as ações.</p><p>As esferas, ou personagens básicos, seriam sete, de acordo com suas</p><p>funções:</p><p>1. Antagonista</p><p>Ou malfeitor. Simboliza a</p><p>provocação de dano e luta</p><p>contra o herói.</p><p>2. Doador</p><p>Também conhecido como</p><p>provedor, realiza a entrega do</p><p>objeto mágico ao herói.</p><p>3. Auxiliar</p><p>Realiza a prestação de</p><p>assistência ao herói em sua</p><p>trajetória.</p><p>23/06/2024, 16:26 Teoria da Narrativa</p><p>https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/03254/index.html?brand=estacio# 12/65</p><p>4. Princesa e seu pai</p><p>Indicação de tarefas difíceis,</p><p>imposição de estigma,</p><p>reconhecimento e casamento do</p><p>herói.</p><p>5. Mandante</p><p>O mandante é o personagem que</p><p>tem a função de envio do herói.</p><p>6. Herói</p><p>Sua função é da procura,</p><p>atendimento ao doador e do</p><p>casamento.</p><p>7. Falso herói</p><p>Possui a mesma procura do</p><p>herói, mas suas pretensões e</p><p>realizações são negativas.</p><p>23/06/2024, 16:26 Teoria da Narrativa</p><p>https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/03254/index.html?brand=estacio# 13/65</p><p>Como bem indicou João Luís Lafetá (2004, p.</p><p>79), o estudo de Propp gira em torno de um</p><p>núcleo simples, que é o dano ou a carência do</p><p>herói e as tentativas dele em se restabelecer.</p><p>Cada uma dessas esferas de ação, ou personagens, contribuem para</p><p>que o herói obtenha aquilo de que necessita por meio de suas funções.</p><p>Propp identificou 31 funções em seu corpus de narrativas populares, que</p><p>nem sempre estão presentes em sua totalidade, mas seguem sempre</p><p>uma mesma sequência:</p><p>Para que possamos visualizar como essas funções são distribuídas</p><p>dentro dessa sequência, vejamos a síntese a seguir:</p><p> Uma parte preparatória.</p><p> O nó da intriga.</p><p> A intervenção de doadores.</p><p> O regresso do herói.</p><p>23/06/2024, 16:26 Teoria da Narrativa</p><p>https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/03254/index.html?brand=estacio# 14/65</p><p>Quadro: Sequência de funções.</p><p>Elaborado por: Rodrigo Jorge Ribeiro Neves.</p><p>Antes da sequência de funções, há uma situação inicial . Como</p><p>podemos notar, Propp atribui um símbolo combinatório a cada função.</p><p>Algumas delas se repetem, mas, é preciso lembrar, obedecem sempre a</p><p>essa mesma série. A estrutura de Propp desenvolve o esquema</p><p>aristotélico, embora esteja centrada nos contos populares maravilhosos.</p><p>Há críticos, como Haroldo de Campos (1973), que veem em Macunaíma</p><p>(1928), de Mário de Andrade, a possibilidade de análise segundo o</p><p>modelo funcional de Propp, ainda que tenha sido uma obra criada a</p><p>partir de tradições populares e não feita delas.</p><p>Independentemente do corpus e do alcance do trabalho de Propp, é</p><p>certo que sua busca por unidades nas estruturas dos contos</p><p>maravilhosos influenciou bastante outros teóricos da narrativa, como os</p><p>estruturalistas.</p><p>A concepção estruturalista</p><p>Assim como os formalistas russos, os estruturalistas queriam encontrar</p><p>padrões dentro de um sistema que os ajudassem a compreender</p><p>um</p><p>objeto.</p><p>Comentário</p><p>Uma das principais diferenças é que o estruturalismo teve uma</p><p>repercussão mais ampla, não se limitando apenas ao campo da</p><p>(⟨)</p><p>23/06/2024, 16:26 Teoria da Narrativa</p><p>https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/03254/index.html?brand=estacio# 15/65</p><p>linguagem.</p><p>O termo surgiu a partir do Curso de linguística geral (1975), de Ferdinand</p><p>de Saussure, que estabelece um sistema de relações entre os elementos</p><p>que formam uma língua. Por meio dessa relação, cada elemento é</p><p>definido, formando, assim, um modelo que possa explicar como a língua</p><p>funciona. Isso é o que chamamos de estrutura.</p><p>Nas ciências humanas, o estruturalismo é uma metodologia aplicada a</p><p>diversas áreas, como a Sociologia, a Antropologia, a Filosofia e a</p><p>Psicologia. Cada uma tenta, à sua maneira, compreender os seres</p><p>humanos a partir de relações estruturais, ou seja, de modelos que</p><p>expliquem o que fazemos e o que pensamos.</p><p>Claude Lévi-Strauss.</p><p>O antropólogo francês Claude Lévi-Strauss foi um dos primeiros a</p><p>aplicar o estruturalismo fora da linguística. Ao observar povos indígenas</p><p>de diferentes etnias e países, ele constatou que havia formas comuns</p><p>entre eles que moldavam a maneira como agiam e pensavam. Em sua</p><p>análise dos mitos, por exemplo, ele percebeu que tinham uma estrutura</p><p>e funcionavam como uma linguagem.</p><p>Na literatura, encontramos nomes como Roland Barthes, Tzvetan</p><p>Todorov, Julien Greimas, Claude Bremond, entre outros que buscavam</p><p>encontrar uma espécie de gramática da narrativa.</p><p>Falaremos aqui um pouco sobre o primeiro e sua obra Introdução à</p><p>análise estrutural das narrativas (1966), uma das mais influentes nos</p><p>estudos sobre o tema. Nela, Barthes ressalta a natureza universal da</p><p>narrativa, ao indicar sua presença em todos os setores da sociedade:</p><p>“não há, nunca houve em lugar nenhum povo algum sem narrativa”</p><p>(BARTHES, 2001, p. 104).</p><p>23/06/2024, 16:26 Teoria da Narrativa</p><p>https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/03254/index.html?brand=estacio# 16/65</p><p>Roland Barthes.</p><p>Uma pergunta, entretanto, perdura: em uma</p><p>perspectiva estruturalista, como entenderia</p><p>tais recorrências?</p><p>Para realizar sua análise, Barthes recorre aos principais estruturalistas e</p><p>formalistas, como Propp, Todorov e Benveniste, chegando até mesmo a</p><p>Aristóteles. Ele propõe a utilização de um conceito da linguística: “nível</p><p>de descrição”.</p><p>E o que seria?</p><p>No caso da linguística, a frase é o seu objeto de análise, podendo ser</p><p>descrita em vários níveis, divididos de forma hierárquica, como o</p><p>fonético, fonológico, gramatical e contextual. Embora cada unidade seja</p><p>descrita em um nível, ela só tem sentido se estiver relacionada ao nível</p><p>superior. Barthes dá o exemplo do fonema, que, apesar de poder ser</p><p>descrito, só faz sentido se integrado na palavra, e esta, na frase.</p><p>E as narrativas? Como Barthes aplica esse</p><p>conceito a elas?</p><p>Sua análise estrutural propõe três níveis de descrições (BARTHES, 2001,</p><p>p. 112):</p><p></p><p>O nível das funções</p><p>C P B d é d hi tó i</p><p>23/06/2024, 16:26 Teoria da Narrativa</p><p>https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/03254/index.html?brand=estacio# 17/65</p><p>Para aplicar sua análise estruturalista, Barthes recorre a uma variedade</p><p>de narrativas clássicas e contemporâneas, buscando estabelecer os</p><p>vínculos entre os níveis de descrição presentes em suas estruturas,</p><p>como em A carta roubada, de Edgar Allan Poe, Um coração simples, de</p><p>Gustave Flaubert, A Odisseia, de Homero, ou até mesmo no filme</p><p>Goldfinger (1964), dirigido por Guy Hamilton, em que o famoso agente</p><p>James Bond, interpretado por Sean Connery, enfrenta o milionário</p><p>criminoso que intitula a película.</p><p>Embora Barthes e outros teóricos dessa corrente tenham se afastado da</p><p>metodologia estruturalista pouco tempo depois, é importante</p><p>conhecermos alguns de seus principais aspectos, que ainda podem ser</p><p>utilizados como instrumentos, mesmo complementares, de análises das</p><p>narrativas.</p><p>Como em Propp e Bremond, é onde a história</p><p>acontece e como estão caracterizados os papéis</p><p>das personagens na história, é uma unidade de</p><p>conteúdo, de “o que quer dizer”.</p><p></p><p>O nível das ações</p><p>Como em Greimas, no qual as personagens estão</p><p>como “actantes”, ou seja, são descritas não pelo</p><p>que são, mas pelo que fazem.</p><p></p><p>O nível da narração</p><p>No qual os dois níveis anteriores se integram, em</p><p>que a narrativa possui um doador/narrador, quem</p><p>dirige a história para alguém, e um</p><p>destinatário/leitor, quem recebe a história. É onde</p><p>leitor e narrador dão significado à narrativa.</p><p></p><p>23/06/2024, 16:26 Teoria da Narrativa</p><p>https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/03254/index.html?brand=estacio# 18/65</p><p>Narrativa: distintas</p><p>concepções</p><p>Vamos rever de forma mais abrangente as três concepções</p><p>mencionadas neste conteúdo? Acompanhe o especialista Rodrigo Jorge</p><p>Ribeiro Neves no vídeo a seguir:</p><p>23/06/2024, 16:26 Teoria da Narrativa</p><p>https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/03254/index.html?brand=estacio# 19/65</p><p>Falta pouco para atingir seus objetivos.</p><p>Vamos praticar alguns conceitos?</p><p>Questão 1</p><p>Considere o texto a seguir:</p><p>“Resolvo-me a contar, depois de muita hesitação, casos passados</p><p>há dez anos — e, antes de começar, digo os motivos por que</p><p>silenciei e por que me decido. Não conservo notas: algumas que</p><p>tomei foram inutilizadas, e assim, com o decorrer do tempo, ia-me</p><p>parecendo cada vez mais difícil, quase impossível, redigir esta</p><p>narrativa. Além disso, julgando a matéria superior às minhas forças,</p><p>esperei que outros mais aptos se ocupassem dela. Não vai aqui</p><p>falsa modéstia, como adiante se verá. Também me afligiu a ideia de</p><p>jogar no papel criaturas vivas, sem disfarces, com os nomes que</p><p>têm no registro civil. Repugnava-me deformá-las, dar-lhes</p><p>pseudônimo, fazer do livro uma espécie de romance, mas teria eu o</p><p>direito de utilizá-las em história presumivelmente verdadeira? Que</p><p>diriam elas se se vissem impressas, realizando atos esquecidos,</p><p>repetindo palavras contestáveis e obliteradas?” (RAMOS, Graciliano.</p><p>Memórias do cárcere. Rio de Janeiro: Record, 2008, p. 11)</p><p>Esse é o primeiro parágrafo de um livro de Graciliano Ramos, um</p><p>dos mestres da narrativa literária brasileira. Considerando a citação</p><p>e a relação do ser humano com a arte de contar histórias, assinale a</p><p>alternativa correta:</p><p>23/06/2024, 16:26 Teoria da Narrativa</p><p>https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/03254/index.html?brand=estacio# 20/65</p><p>Parabéns! A alternativa A está correta.</p><p>O trecho faz parte do livro Memórias do cárcere, em que Graciliano</p><p>Ramos relata a sua experiência vivida na prisão. O processo de</p><p>rememoração depende da estrutura narrativa para que possa ser</p><p>comunicada aos outros membros da sociedade, seja como</p><p>personagens e testemunhas da história ou como leitores que</p><p>estejam interessados em conhecê-la.</p><p>Questão 2</p><p>Em sua abordagem estruturalista das narrativas, Roland Barthes</p><p>deu grande contribuição aos estudos acerca da universalidade das</p><p>histórias. Para o crítico francês, compreender uma narrativa “não é</p><p>apenas passar de uma palavra para outra, é também passar de um</p><p>nível a outro.” (BARTHES, 2001, p. 112). Assinale a alternativa que</p><p>explique o conceito de narrativa defendido por Barthes:</p><p>A</p><p>A reconstrução da memória pela narrativa é</p><p>fundamental para entender não apenas a história de</p><p>um indivíduo, mas de suas relações sociais.</p><p>B</p><p>A reconstrução da memória pela narrativa é</p><p>fundamental para entender apenas a história do</p><p>indivíduo que a escreve.</p><p>C</p><p>É impossível reconstruir o passado pela narrativa</p><p>sem anotações e outros registros sobre os</p><p>acontecimentos.</p><p>D</p><p>A experiência coletiva depende da concordância de</p><p>todos os indivíduos para que possa ser narrada em</p><p>uma história.</p><p>E</p><p>A reconstrução da memória pela narrativa é produto</p><p>de uma decisão coletiva, desde que os nomes</p><p>utilizados na história sejam verdadeiros.</p><p>23/06/2024, 16:26 Teoria da Narrativa</p><p>https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/03254/index.html?brand=estacio# 21/65</p><p>Parabéns! A alternativa C está correta.</p><p>Na análise estruturalista</p><p>de Roland Barthes, em esquema provisório,</p><p>como ele mesmo atesta, uma narrativa é constituída de três níveis</p><p>que, apesar de poderem ser descritos, só fazem sentido em uma</p><p>relação entre eles. Os papéis de personagens e suas ações se</p><p>integram em uma narração construída para um leitor.</p><p>A</p><p>Relação entre narrador, ação e personagem em uma</p><p>sequência fixa.</p><p>B</p><p>Encadeamento de personagens, espaço e ação,</p><p>considerando um público leitor.</p><p>C</p><p>Encadeamento de personagens, seus papéis e suas</p><p>ações, transmitidos por um narrador para um leitor.</p><p>D</p><p>Relação não delimitada de ações e personagens,</p><p>que nem sempre assumem um papel na história.</p><p>E</p><p>Encadeamento de funções e personagens, sem</p><p>considerar, em princípio, a possibilidade de um leitor.</p><p>23/06/2024, 16:26 Teoria da Narrativa</p><p>https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/03254/index.html?brand=estacio# 22/65</p><p>2 - Gênero Narrativo: características</p><p>Ao �nal deste módulo, você será capaz de identi�car as principais</p><p>características do Gênero Narrativo.</p><p>Gênero Literário</p><p>Conceito</p><p>As questões em torno das tentativas de classificação da literatura em</p><p>gêneros literários são das mais importantes e decisivas na própria</p><p>concepção da literatura e dos limites e condições da teoria literária,</p><p>desde os seus precursores, Platão, com sua República, e Aristóteles,</p><p>com a Poética, até os dias atuais.</p><p>Para Anatol Rosenfeld (1985), a adoção do sistema de gêneros na</p><p>literatura é fundamental não apenas pela necessidade científica de</p><p>estabelecer normas que deem conta da multiplicidade de fenômenos,</p><p>mas, por um motivo ainda mais profundo, a necessidade de uma atitude</p><p>face ao mundo imaginário que se busca comunicar por meio da obra</p><p>literária.</p><p>Segundo Tzvetan Todorov, em seu clássico estudo Os gêneros do</p><p>discurso, todo gênero literário surgiu de outro, pois “um novo gênero é</p><p>sempre a transformação de um ou de vários gêneros antigos: por</p><p>inversão, por deslocamento, por combinação” (TODOROV, 1981, p.48).</p><p>Assim, para o crítico búlgaro, a pergunta a ser feita não é o que veio</p><p>antes, mas as formas na linguagem que evidenciam o surgimento de um</p><p>novo gênero ou que mostrem a passagem de um para outro.</p><p>Exemplo</p><p>Podemos trazer o caso de Dom Quixote, de Miguel de Cervantes. Em sua</p><p>tentativa de parodiar as histórias de cavalaria, ele se torna precursor de</p><p>23/06/2024, 16:26 Teoria da Narrativa</p><p>https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/03254/index.html?brand=estacio# 23/65</p><p>um dos principais gêneros da modernidade: o romance.</p><p>Por outro lado, algumas chamadas “transgressões” de determinados</p><p>gêneros literários, recorrentes na literatura, em especial no século XX,</p><p>ocorrem justamente em situações em que todos os pressupostos</p><p>tradicionais de determinados gêneros foram rigorosamente seguidos.</p><p>Jorge Luís Borges (2007), por exemplo, lembra-nos que Edgar Allan Poe,</p><p>mesmo inventando o conto policial e escrevendo contos de horror</p><p>fantástico ou de bizarrice, não misturou os dois gêneros. O objetivo não</p><p>é esquecer ou mudar internamente os procedimentos do gênero</p><p>literário, mas utilizá-los à risca, seguindo as regras convencionais e até</p><p>mesmo prestigiadas do gênero, ainda que isso seja feito de modo</p><p>transgressor.</p><p>Exemplo</p><p>Na literatura brasileira, o romance Vidas secas (1938) é um dos casos</p><p>mais interessantes de obediência e transgressão de gêneros. Apesar da</p><p>estrutura inovadora proposta por Graciliano Ramos, os elementos que</p><p>compõem um conto e um romance estão ali, em diálogo inovador em</p><p>nossa literatura.</p><p>O livro não deixa de ser classificado, enquanto um conjunto de textos,</p><p>como romance. É possível que você tenha um exemplar em sua estante</p><p>ou em sua pasta na nuvem. Veja na ficha catalográfica. Viu? Agora, leia</p><p>qualquer capítulo do livro. Pode ser o mais famoso, “Baleia”, e tente</p><p>observar como ele também pode ser lido com um conto. Deu para</p><p>notar?</p><p>Um gênero literário é parecido com o ciclo de</p><p>um ser vivo, ele nasce, cresce e se reproduz, só</p><p>não morre, ele se transforma.</p><p>23/06/2024, 16:26 Teoria da Narrativa</p><p>https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/03254/index.html?brand=estacio# 24/65</p><p>Distinções básicas para</p><p>Teoria da Narrativa</p><p>Discurso, história e horizonte de</p><p>expectativa.</p><p>As relações entre discurso e história no Gênero Narrativo são uma de</p><p>suas características mais importantes e nos ajudam a compreender os</p><p>limites e condições da própria estrutura da narrativa a partir de seus</p><p>principais elementos, que veremos no módulo seguinte.</p><p>Antes de mais nada, temos três distinções que precisam ser feitas, para</p><p>que possamos refletir sobre os significados dessas relações:</p><p>Discurso</p><p>O discurso nada mais é do que o texto apresentado, com sua forma e</p><p>regras de estruturação.</p><p>História</p><p>É o acontecimento descrito pelo texto, ou seja, é o que deduzimos do</p><p>discurso que acabamos de ler.</p><p>Horizonte de expectativa</p><p>A definição do tipo de narrativa vai depender também de como essas</p><p>duas categorias se relacionam, além do horizonte de expectativa</p><p>manifestado pelo leitor.</p><p>Jonathan Culler (1999) destaca que essa relação é uma das distinções</p><p>básicas da teoria da narrativa. A história é o dado, o discurso são as</p><p>diferentes maneiras de apresentação dele. Para Culler, a história é o</p><p>enredo, elemento da narrativa sobre o qual discutiremos adiante.</p><p>Apesar de estarem relacionados, qual</p><p>característica enxergamos primeiro: o discurso</p><p>ou a história?</p><p>23/06/2024, 16:26 Teoria da Narrativa</p><p>https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/03254/index.html?brand=estacio# 25/65</p><p>Em geral, a história é a primeira que notamos. Depois, identificarmos o</p><p>discurso, ou seja, qual é o gênero, os efeitos da narrativa, a estrutura etc.</p><p>Como vimos, os gêneros literários são fenômenos culturais. São,</p><p>portanto, formas específicas de ler a vida. Ora, se a escolha de um</p><p>gênero está relacionada ao setor da vida sobre o qual você quer</p><p>falar/escrever, então há um horizonte de expectativa de sua parte na</p><p>definição desse gênero. Você tem um conhecimento prévio sobre os</p><p>gêneros escolhidos, o que indica que a sua expectativa como leitor</p><p>influencia na escolha do tipo de narrativa adequada para contar a sua</p><p>história de vida.</p><p>Por que não costumamos ouvir ou ler que uma</p><p>vida daria um poema?</p><p>Porque, em um primeiro momento, relacionamos o poema à expressão</p><p>de sentimentos e de uma subjetividade, que são, na verdade,</p><p>características do gênero lírico.</p><p>Uma vida também poderia dar uma peça de teatro, como fez o ator e</p><p>comediante Paulo Gustavo ao levar para os palcos a premiada</p><p>representação de sua mãe. Nesse caso, costumamos associar a peça</p><p>ao gênero cômico.</p><p>Isso quer dizer que uma vida não poderia virar</p><p>também uma peça trágica?</p><p>Claro que sim, mas o que estamos discutindo aqui é que existe um</p><p>conjunto de informações que carregamos antes de decidirmos o</p><p>discurso que queremos ler.</p><p>E de onde elas vêm?</p><p>23/06/2024, 16:26 Teoria da Narrativa</p><p>https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/03254/index.html?brand=estacio# 26/65</p><p>Elas fazem parte de nossa visão histórica do mundo, moldada pelas</p><p>instituições culturais e educacionais, como a escola, a família, as redes</p><p>sociais etc. Por meio delas, temos acesso aos vários discursos e</p><p>percebemos como eles conseguem se ajustar às questões do nosso</p><p>tempo. É a partir dessa observação, por exemplo, que podemos avaliar</p><p>como um poema pode também contar uma história de vida.</p><p>Para que isso seja possível, qual característica</p><p>seria imprescindível nele?</p><p>Isso mesmo, a narração.</p><p>Com isso, constatamos que o horizonte de expectativa não influencia</p><p>apenas as escolhas do leitor, mas também do escritor, que, assim como</p><p>quem recebe o discurso, também é formado pelas instituições, estando</p><p>inserido em determinada cultura literária. A partir do seu conhecimento</p><p>da tradição, ele vai realizar escolhas que atentam ao que está querendo</p><p>compor, ou seja, qual discurso se ajusta melhor à história que pretende</p><p>contar.</p><p>O surgimento de novos gêneros, ou a mistura de gêneros distintos,</p><p>mantendo as características de cada um, também</p><p>surge dessa relação</p><p>entre discurso e história, mas movidos por um horizonte de expectativa.</p><p>Tipos de Narrativa: Gêneros</p><p>mais antigos</p><p>Como um gênero literário é uma maneira de tornar determinado setor da</p><p>vida legível por meio de um texto, é natural que ele também acompanhe</p><p>as condições históricas. Assim, os gêneros vão se transformando,</p><p>renascendo e criando novos tipos, ou subgêneros. Claro que nem todos</p><p>são bem delimitados, alguns se encontram na fronteira entre dois ou</p><p>mais tipos.</p><p>No gênero narrativo, cada vez mais essa fronteira vem sendo colocada</p><p>em xeque, mas, ainda assim, podemos observar as estruturas ali</p><p>presentes, com todos os principais elementos que respondem às</p><p>exigências da realidade que se quer retratar.</p><p>Comentário</p><p>23/06/2024, 16:26 Teoria da Narrativa</p><p>https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/03254/index.html?brand=estacio# 27/65</p><p>Na literatura, os principais tipos de narrativa que ainda podemos</p><p>encontrar, ou subgêneros, são a epopeia, o conto, a novela e o romance.</p><p>A epopeia</p><p>A epopeia é um dos subgêneros narrativos mais antigos e o único que é</p><p>definido pela sua composição em versos. Como vimos no primeiro</p><p>módulo, Aristóteles, em sua Poética, descreveu a epopeia, ou poesia</p><p>épica, como uma espécie dedicada aos homens elevados, assim como</p><p>a tragédia, mas se distingue desta pela sua extensão e ritmo.</p><p>A epopeia é um texto longo e se dedica aos</p><p>grandes feitos de heróis históricos ou</p><p>mitológicos, narrando, geralmente, os destinos</p><p>de uma coletividade.</p><p>É o que vemos, por exemplo, na Ilíada e na Odisseia, de Homero, na</p><p>Divina comédia, de Dante Alighieri, e em Os lusíadas, de Luís de Camões.</p><p>Apesar de sua decadência no século XVIII, com a ascensão do romance,</p><p>encontramos algumas obras que retomam a forma da epopeia em</p><p>diálogo com outras formas modernas e contemporâneas, como em</p><p>Invenção de Orfeu (1952), de Jorge de Lima, e Uma viagem à Índia</p><p>(2010), de Gonçalo M. Tavares.</p><p>A Divina comédia, de Dante Alighieri.</p><p>O conto</p><p>O conto é uma narrativa curta, em prosa, que contém, normalmente, um</p><p>só conflito, uma única ação, espaço e tempo limitados e poucos</p><p>personagens. Claro que não são regras fixas, elas podem variar, mas</p><p>essas são suas características mais comuns. É considerado um dos</p><p>23/06/2024, 16:26 Teoria da Narrativa</p><p>https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/03254/index.html?brand=estacio# 28/65</p><p>tipos de narrativas mais antigos, anterior até mesmo à escrita, quando</p><p>povos pré-históricos se reuniam em torno da fogueira para contar e ouvir</p><p>histórias.</p><p>O Decamerão, de Giovanni Boccaccio</p><p>Com o advento da escrita, passou a acolher histórias de diversas</p><p>civilizações, crenças e costumes, desde os relatos bíblicos e o Livro das</p><p>mil e uma noites até o Decamerão, de Giovanni Boccaccio, e as fábulas</p><p>dos irmãos Grimm. Entre os maiores mestres do gênero, temos</p><p>Machado de Assis, Anton Tchekhov, Virginia Woolf, Franz Kafka, Clarice</p><p>Lispector, entre muitos outros.</p><p>Aliás, o conto é um dos tipos de narrativa mais</p><p>utilizados na expressão do fantástico e do</p><p>maravilhoso, como podemos notar pelo estudo</p><p>de Vladimir Propp já citado.</p><p>Curiosidade</p><p>Com o surgimento da imprensa escrita, o conto explodiu e se tornou um</p><p>gênero moderno e ainda mais popular.</p><p>Tipos de Narrativa: Gêneros</p><p>mais recentes</p><p>A novela</p><p>Outra narrativa curta ainda atual é a novela, que, em termos de extensão,</p><p>está entre o conto e o romance. Apesar do nome, não confunda com a</p><p>23/06/2024, 16:26 Teoria da Narrativa</p><p>https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/03254/index.html?brand=estacio# 29/65</p><p>telenovela, ainda que esta possa ser a adaptação de uma novela</p><p>literária. A novela, enquanto tipo de narrativa, é um texto curto em prosa,</p><p>mas com mais ações, conflitos e personagens que o conto, além de</p><p>apresentar um espaço e um tempo mais extensos. Sua agilidade e</p><p>objetividade na narração dos eventos é também uma de suas</p><p>características mais comuns.</p><p>À diferença do conto, a novela é um gênero mais “recente”, surgindo em</p><p>um momento próximo ao do romance, no Renascimento, principalmente</p><p>por meio do Decamerão, de Boccaccio, que também influenciou o</p><p>desenvolvimento do conto.</p><p>A metamorfose, de Franz Kafka.</p><p>Na literatura brasileira, não é um gênero muito comum, mas há grandes</p><p>novelas, como O alienista, de Machado de Assis, e Um copo de cólera, de</p><p>Raduan Nassar. Outras novelas que merecem ser destacadas são A</p><p>metamorfose, de Franz Kafka, A morte de Ivan Ilitch, de Liev Tolstói, e O</p><p>velho e o mar, de Ernest Hemingway.</p><p>O romance</p><p>23/06/2024, 16:26 Teoria da Narrativa</p><p>https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/03254/index.html?brand=estacio# 30/65</p><p>Dos tipos de narrativas mencionados até aqui, nenhum é tão múltiplo e</p><p>híbrido quanto o romance. É, sem dúvida, um dos gêneros mais</p><p>importantes da modernidade, pois reflete como poucos seu processo,</p><p>seus conflitos e suas contradições.</p><p>O romance tem sua ascensão, segundo Ian Watt (2010), no século XVIII,</p><p>quando ocorre uma reorientação do individualismo no pensamento</p><p>filosófico, influenciada por Descartes e, portanto, uma maior autonomia</p><p>do indivíduo. Em sua estrutura, o romance se assemelha à novela, mas é</p><p>um pouco mais complexo. Nele, as ações acontecem de forma paralela,</p><p>podendo, inclusive, um personagem surgir no meio da história e</p><p>desaparecer antes de seu fim.</p><p>Machado de Assis merece, mais uma vez, ser citado como grande</p><p>mestre no gênero, principalmente com seus romances da fase madura,</p><p>Memórias póstumas de Brás Cubas, Dom Casmurro e Quincas Borba.</p><p>Desse período, vale a pena citar a primeira romancista negra brasileira,</p><p>Maria Firmina dos Reis, com Úrsula.</p><p>Dom Casmurro, de Machado de Assis.</p><p>No século XX, Virginia Woolf, com Ao farol, James Joyce, com Ulysses,</p><p>Marcel Proust, com a série Em busca do tempo perdido, e Guimarães</p><p>23/06/2024, 16:26 Teoria da Narrativa</p><p>https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/03254/index.html?brand=estacio# 31/65</p><p>Rosa, com Grande sertão: veredas, elevaram o gênero narrativo à</p><p>plenitude de sua forma e também de seu conteúdo.</p><p>Tipos de narrativa: a novela e</p><p>o romance</p><p>Acompanhemos agora o professor Rodrigo Jorge apresentar os tipos de</p><p>narrativa conhecidos como novela e romance, a partir de suas</p><p>estruturas características.</p><p></p><p>23/06/2024, 16:26 Teoria da Narrativa</p><p>https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/03254/index.html?brand=estacio# 32/65</p><p>Falta pouco para atingir seus objetivos.</p><p>Vamos praticar alguns conceitos?</p><p>Questão 1</p><p>A narrativa, assim como todo gênero literário, transforma-se de</p><p>acordo com as condições de cada tempo, mas também preserva</p><p>determinados aspectos estruturais de seus tipos anteriores.</p><p>Assinale a alternativa que exemplifique essa informação:</p><p>A</p><p>O conto surge na Antiguidade, especialmente depois</p><p>das obras de Aristóteles e Platão sobre os gêneros</p><p>literários. Por isso, o conto é o tipo de narrativa mais</p><p>antigo.</p><p>B</p><p>O romance é um gênero com estrutura fixa e com</p><p>poucas variações. Ele é antecedido pela novela, do</p><p>qual herdou poucos elementos.</p><p>23/06/2024, 16:26 Teoria da Narrativa</p><p>https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/03254/index.html?brand=estacio# 33/65</p><p>Parabéns! A alternativa E está correta.</p><p>O gênero narrativo do romance é reflexo da modernidade e de suas</p><p>transformações, a partir do século XVIII. Embora também tenha</p><p>herdado elementos do conto, a novela se aproxima um pouco mais</p><p>de sua estrutura. Além disso, ela emerge no Renascimento, pouco</p><p>antes da ascensão da modernidade.</p><p>Questão 2</p><p>No gênero narrativo, é fundamental não apenas identificar o</p><p>acontecimento relatado, mas também como é construído o relato.</p><p>Assinale a alternativa que contenha, respectivamente, duas</p><p>características básicas do gênero narrativo presentes nessa</p><p>afirmação.</p><p>C</p><p>O conto e a novela são gêneros bem próximos em</p><p>suas respectivas estruturas. A única diferença entre</p><p>eles está no número de personagens. Enquanto o</p><p>conto contém poucos personagens, a novela</p><p>apresenta um número bem mais variado.</p><p>D</p><p>A epopeia, ou poesia épica,</p><p>é um dos gêneros mais</p><p>antigos dentre os tipos de narrativa. Mesmo assim,</p><p>ela é bastante comum na contemporaneidade e</p><p>pode ser lida com poucas variações em sua</p><p>estrutura.</p><p>E</p><p>O romance surge em um momento em que a razão e</p><p>o indivíduo se tornam centrais na sociedade. Ele é</p><p>antecedido pela novela, que, apesar da menor</p><p>extensão, também pode apresentar uma variedade</p><p>de personagens, espaços e tempos.</p><p>A Horizonte de expectativa e discurso.</p><p>B Estrutura e narração.</p><p>23/06/2024, 16:26 Teoria da Narrativa</p><p>https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/03254/index.html?brand=estacio# 34/65</p><p>Parabéns! A alternativa C está correta.</p><p>Segundo Jonathan Culler, em Teoria literária (1999), a oposição</p><p>entre discurso e história é uma das distinções básicas do gênero</p><p>narrativo. A história, que também pode ser lida como “enredo”, é o</p><p>acontecimento em si, “sobre” o qual a narrativa fala. O discurso é o</p><p>conjunto de elementos estruturais utilizados para contar a história,</p><p>é o “como” a narrativa fala.</p><p>3 - Elementos da narrativa</p><p>Ao �nal deste módulo, você será capaz de identi�car os elementos da</p><p>Narrativa.</p><p>Quem ou de quem se fala?</p><p>C História e discurso.</p><p>D História e intenção.</p><p>E Discurso e leitura.</p><p>23/06/2024, 16:26 Teoria da Narrativa</p><p>https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/03254/index.html?brand=estacio# 35/65</p><p>O narrador</p><p>O Gênero Narrativo precisa de uma série de elementos fundamentais em</p><p>sua construção. Um deles é o narrador.</p><p>Atenção!</p><p>É importante apenas não confundirmos o narrador com o autor do texto,</p><p>que é a pessoa física que escreve a história. A perspectiva do narrador</p><p>pode ou não corresponder à do autor.</p><p>Um dos casos em que essa distinção é óbvia acontece em Memórias</p><p>póstumas de Brás Cubas, já que o narrador pode estar morto, mas o</p><p>romancista não. Por mais que Machado de Assis possa manifestar,</p><p>eventualmente, em uma passagem ou outra algum ponto de vista</p><p>semelhante ao do narrador, isso não o coloca na mesma função. O</p><p>narrador é não apenas uma voz, mas uma estratégia narrativa. Para que</p><p>possamos identificá-lo, uma das principais perguntas a serem feitas é:</p><p>“quem ou de quem fala?”</p><p>O narrador é também considerado o foco narrativo ou ponto de vista da</p><p>história, podendo, ou não, ser confundida com a do autor, como já</p><p>ressaltamos. Mas nem sempre o narrador é o focalizador da história,</p><p>pois eles podem assumir posições distintas ao longo do texto (CULLER,</p><p>1999, p. 90). Por isso, é sempre importante estar atento ao que nos é</p><p>apresentado pelo narrador, observando suas estratégias.</p><p>Há diversos tipos de narrador, que podem variar de acordo com os</p><p>estudos específicos sobre o tema. Em síntese, eles são divididos em</p><p>três tipos.</p><p>Quem fala? Eu. Quando você conta uma história que aconteceu</p><p>com você para os seus amigos, quem sabe mais sobre ela? É</p><p>você, claro, que vai narrá-la a partir do foco narrativo em primeira</p><p>pessoa, como faz um narrador-personagem, já que você também</p><p>participa da história. Contudo, justamente por ser a perspectiva</p><p>de quem está na história, esse narrador é parcial, nem sempre</p><p>devemos confiar em seu relato.</p><p>Narrador-personagem, em primeira pessoa </p><p>23/06/2024, 16:26 Teoria da Narrativa</p><p>https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/03254/index.html?brand=estacio# 36/65</p><p>Neil Hamilton como Nick Carraway em The Great Gatsby (1926).</p><p>Um clássico exemplo é o narrador-protagonista de Dom</p><p>Casmurro, Bentinho. A eterna questão em torno da traição de</p><p>Capitu, na verdade, está mais ligada à suspeição do narrador, que</p><p>tenta nos convencer de que sua perspectiva dos fatos é a</p><p>verdadeira, pois não temos provas de que houve a infidelidade.</p><p>Temos apenas uma versão dos fatos. Há também narradores em</p><p>primeira pessoa que são personagens, mas não protagonistas,</p><p>como Nick Carraway, em O grande Gatsby, de F. Scott Fitzgerald,</p><p>e Dr. Watson, nas histórias de Sherlock Holmes, de Sir Arthur</p><p>Conan Doyle.</p><p>De quem fala? Ela ou ele, elas ou eles. Você já deve ter escutado,</p><p>ou até mesmo dito, algumas vezes que quem enxerga de fora,</p><p>enxerga melhor. Isso porque aquele que está em uma</p><p>perspectiva distante consegue ver a história de uma forma global</p><p>e sem o envolvimento que, muitas vezes, pode distorcer a versão</p><p>dos fatos. Um observador ou testemunha também pode distorcê-</p><p>los? Sem dúvida, mas, na reconstituição dos acontecimentos, o</p><p>narrador em terceira pessoa, por não ter relação direta com os</p><p>personagens, pode apresentar uma visão mais imparcial.</p><p>Margaret Thatcher: A Biografia Autorizada</p><p>Narrador-observador, ou narrador-testemunha, em terceira</p><p>pessoa </p><p>23/06/2024, 16:26 Teoria da Narrativa</p><p>https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/03254/index.html?brand=estacio# 37/65</p><p>É o caso, por exemplo, das biografias em geral. Para reconstituir</p><p>a história de uma vida, o biógrafo reúne uma série de</p><p>documentos e relatos sobre ela, que vão dar sustentação ao</p><p>narrador. Na literatura de ficção, as fábulas de Esopo e algumas</p><p>narrativas infantis são um exemplo da utilização desse foco</p><p>narrativo.</p><p>De quem fala? Ela ou ele, elas ou eles. A diferença em relação ao</p><p>narrador-observador é que, apesar de falar em terceira pessoa, o</p><p>narrador sabe tudo sobre as personagens, podendo, inclusive, ter</p><p>participação na história. Os sentimentos, o pensamento, as</p><p>intenções e aspectos da vida dos personagens são conhecidos</p><p>desse narrador. É o tipo mais comum na literatura.</p><p>Garoto olhando pelo buraco da fechadura.</p><p>Quem nunca se sentiu tentado a ser um narrador onisciente e</p><p>saber exatamente o que uma pessoa está pensando ou</p><p>sentindo? De certa maneira, esse foco narrativo é uma estratégia</p><p>do escritor para envolver o leitor na história, mas mantendo</p><p>algum distanciamento. Nelson Rodrigues dizia que sua ótica de</p><p>ficcionista era de um garoto olhando pelo buraco da fechadura,</p><p>ou seja, ao mesmo tempo em que o narrador conhece a história</p><p>pelo lado de fora da porta, ele também a enxerga em sua</p><p>intimidade.</p><p>A literatura não se limita a esses tipos de narrador. Eles podem se</p><p>combinar no mesmo texto. Há narrativas de diversas vozes, como em</p><p>As ondas, de Virginia Woolf, ou nas quais o narrador é uma figura difícil</p><p>de definir, como em Museu do romance da eterna, de Macedonio</p><p>Fernández. E ainda nos dias atuais eles encontram um jeito novo de</p><p>falar.</p><p>Narrador onisciente, em terceira pessoa </p><p>23/06/2024, 16:26 Teoria da Narrativa</p><p>https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/03254/index.html?brand=estacio# 38/65</p><p>Quem age?</p><p>Personagem</p><p>Outro elemento fundamental em uma narrativa é a personagem. Ela nem</p><p>sempre corresponde ao narrador, como acabamos de ver, podendo</p><p>assumir papéis ainda mais variados e complexos. Em alguns casos, ela</p><p>até mesmo pode desaparecer. A palavra, em português, surgiu do</p><p>francês personnage, que, por sua vez, veio do latim persona.</p><p>Curiosidade</p><p>A expressão remonta ainda ao etrusco e ao grego e era utilizada para se</p><p>referir à máscara teatral.</p><p>Não é interessante? Uma personagem é uma máscara, uma face, que</p><p>um ator veste para representar algo em uma história. É por meio dela</p><p>que somos apresentados ao universo ficcional ou não ficcional da</p><p>narrativa, pois apenas quando aparece a personagem é que sabemos</p><p>qual história estamos lendo.</p><p>Afinal, um texto que inicie falando de uma paisagem ou descrevendo,</p><p>por meio de um narrador qualquer, a movimentação em uma rua ou no</p><p>transporte público, pode ser um artigo de jornal, uma carta, um ensaio</p><p>sociológico ou uma folha solta de um caderno de anotações. Mas, ao</p><p>entrar uma personagem, seja por meio de sua fala ou da descrição de</p><p>uma atividade, entramos também no enredo, ou trama.</p><p>Por isso, uma personagem é um dos principais elementos do gênero</p><p>narrativo. É por meio dela que a natureza humana se reflete e se revela</p><p>na construção dos eventos. E como se dá isso? Pela ação. A</p><p>personagem é quem age e é também afetada pelas ações. Ela é o</p><p>23/06/2024, 16:26 Teoria da Narrativa</p><p>https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/03254/index.html?brand=estacio# 39/65</p><p>elemento essencial para</p><p>que ocorra o conflito, um dos efeitos mais</p><p>importantes de uma narrativa.</p><p>Por ser uma “máscara”, ela assume diversos papéis, todos bem</p><p>conhecidos:</p><p>Dependendo da história, esses papéis podem mudar, mas cada um tem</p><p>uma relevância para a sucessão dos acontecimentos e o desenrolar da</p><p>intriga. Um exemplo de herói clássico é Ulisses, ou Odisseu, da epopeia</p><p>de Homero, Odisseia, que relata o retorno do protagonista para casa</p><p>após 10 anos na Guerra de Troia, enfrentando uma série de situações no</p><p>caminho, ajudado ou atrapalhado pelos deuses. Dentro dessa mesma</p><p>categoria, temos o anti-herói, que não corresponde às virtudes</p><p>esperadas de um herói. O personagem Macunaíma, do livro de mesmo</p><p>título, de Mário de Andrade, é um caso de anti-herói na literatura</p><p>brasileira. Nas histórias em quadrinhos, Batman, personagem criado por</p><p>Bob Kane e Bill Finger, também assume esse papel, embora nos pareça,</p><p>por vezes, ambíguo.</p><p></p><p>O protagonista, ou herói</p><p>Figura central no desenvolvimento da ação.</p><p></p><p>O antagonista</p><p>Opositor, em geral, do herói, atua sempre contra</p><p>algo ou alguém.</p><p></p><p>Coadjuvante</p><p>Participante da narrativa com importância para o</p><p>desenvolvimento da ação, mas menos destacado</p><p>que o protagonista.</p><p>23/06/2024, 16:26 Teoria da Narrativa</p><p>https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/03254/index.html?brand=estacio# 40/65</p><p>É importante lembrar que os anti-heróis não são</p><p>antagonistas, ou opositores, embora muitas vezes se</p><p>comportem quase como vilões, tornando-se difícil</p><p>determinar a linha que separa um de outro.</p><p>De qualquer forma, os anti-heróis são personagens fundamentais para a</p><p>trama, como é o caso do Major Vidigal, do romance Memórias de um</p><p>sargento de milícias, de Manuel Antônio de Almeida, ou Iago, de Othelo,</p><p>de William Shakespeare.</p><p>Entre os coadjuvantes, há uma infinidade, pois, como vimos, são todos</p><p>aqueles que não possuem a relevância do protagonista, mas têm uma</p><p>participação imprescindível na história. Um exemplo é Escobar, do já</p><p>citado Dom Casmurro, que é peça chave no discurso paranoico do</p><p>narrador.</p><p>Quanto à composição, as personagens podem ser, de um modo geral:</p><p>Redondas, ou esféricas</p><p>Complexas, dinâmicas e de profundidade psicológica, podendo mudar</p><p>ao longo da história e nos surpreender.</p><p>Planas ou desenhadas</p><p>Mais simples e delimitadas em sua caracterização, sem exploração de</p><p>uma interioridade, tornando-se, por isso, previsíveis no desenrolar da</p><p>narrativa.</p><p>Tipos</p><p>Representações simbólicas de um grupo de indivíduos, como uma</p><p>unidade, de acordo com o aspecto que se quer ressaltar.</p><p>Na literatura, temos muitos exemplos, especialmente das duas primeiras</p><p>formas. Raskólnikov, em Crime e castigo, de Fiódor Dostoiévski,</p><p>Macabéa, em A hora da estrela, de Clarice Lispector, e Ponciá Vicêncio,</p><p>no romance que leva seu nome no título, de Conceição Evaristo, são</p><p>alguns bons exemplos de personagens de composição redonda ou</p><p>esférica.</p><p>As personagens planas ou desenhadas não significam que são</p><p>necessariamente malfeitas, ao contrário. Quando bem desenvolvidas,</p><p>cumprem muito bem o seu papel na narrativa. Como é o caso das</p><p>23/06/2024, 16:26 Teoria da Narrativa</p><p>https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/03254/index.html?brand=estacio# 41/65</p><p>personagens da série Harry Potter, de J.K. Rowling, como Harry e</p><p>Voldemort.</p><p>As personagens-tipos podem não ser tão explícitas, como o cortiço que</p><p>intitula a obra de Aluísio Azevedo, mas exercem uma importante função.</p><p>Onde ocorre a ação?</p><p>Espaço</p><p>O espaço é onde ocorre a ação. Pode ser um, dois ou mais lugares, ou</p><p>até mesmo ser indefinido. O sociólogo francês Michel de Certeau (1998,</p><p>p. 201-202) define o espaço como resultante do deslocamento entre</p><p>posições, ou lugares. Assim, o que define o espaço não é a</p><p>circunscrição física e geográfica, mas as relações sociais que ali se</p><p>estabelecem. Se aplicarmos para a teoria da narrativa, poderemos</p><p>pensar no espaço não apenas como um cenário estático, mas como</p><p>elemento que integra essas ações. Se fosse acessório, não precisaria</p><p>ser descrito.</p><p>Portanto, o espaço deve cumprir uma função,</p><p>seja para contextualizar a história ou para</p><p>ressaltar uma caraterística da personagem.</p><p>Em uma narrativa, o espaço pode ser, geralmente, de dois tipos: físico e</p><p>psicológico. O primeiro pode ser interno e externo. É possível que, na</p><p>mesma história, as personagens se desloquem entre ambientes físicos</p><p>distintos, de acordo com o enredo e o tipo de narrativa, como uma</p><p>novela ou um romance.</p><p>23/06/2024, 16:26 Teoria da Narrativa</p><p>https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/03254/index.html?brand=estacio# 42/65</p><p>Há situações em que a definição do espaço atende também à</p><p>caracterização do ambiente social do qual as personagens fazem parte,</p><p>já que a posição de um indivíduo na sociedade também se reflete nos</p><p>lugares que ele habita e frequenta.</p><p>Podemos citar, mais uma vez, dois romances da literatura brasileira em</p><p>que os espaços físicos ressaltam a caracterização de classe das</p><p>personagens: O cortiço, de Aluísio Azevedo, e Dom Casmurro, de</p><p>Machado de Assis. O primeiro traz, já no título, o próprio elemento da</p><p>narrativa que estamos discutindo. Na época, interessado em escrever</p><p>sobre as vidas das gentes das habitações pobres da cidade, chega a</p><p>frequentar e até a morar em cortiços, próximo à região central do Rio de</p><p>Janeiro.</p><p>O cortiço</p><p>Em O cortiço, exemplar</p><p>do naturalismo no</p><p>Brasil, o meio é</p><p>determinante para o</p><p>comportamento, o</p><p>caráter e a</p><p>personalidade do ser</p><p>humano.</p><p>Dom Casmurro</p><p>A rua de Matacavalos,</p><p>apesar de apresentar a</p><p>decadência de uma</p><p>elite, também traz a</p><p>representação de uma</p><p>estrutura social e</p><p>econômica fundada na</p><p>escravidão.</p><p>Saiba mais</p><p>Em Dom Casmurro, a rua de Matacavalos foi o local onde nasceu e</p><p>cresceu Bentinho.</p><p>O espaço psicológico é mais comum nas narrativas modernas, em</p><p>especial entre os séculos XIX e o atual. Ele se refere ao interior da</p><p>personagem, seus pensamentos, sentimentos e suas impressões.</p><p>Sabe quando você se coloca a viajar mentalmente para situações e</p><p>lugares que seriam impossíveis de alcançar? É como sonhar acordado,</p><p>não? Às vezes, pode virar até mesmo um pesadelo, dependendo de onde</p><p>vamos parar. Mas isso não deixa de ser uma espécie de narrativa que</p><p>criamos.</p><p></p><p>23/06/2024, 16:26 Teoria da Narrativa</p><p>https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/03254/index.html?brand=estacio# 43/65</p><p>A traição de Capitu com Escobar, por exemplo, ocorreu em um espaço</p><p>físico ou psicológico nos devaneios de Bentinho? Baleia, a cachorra de</p><p>Vidas secas, antes de morrer, sonha com um mundo cheio de preás</p><p>imensos, um dos episódios mais belos e sensíveis da literatura. É um</p><p>dos raros momentos em que o espaço psicológico é de um animal.</p><p>Clarice Lispector explorou como poucos esse ambiente em suas</p><p>narrativas, como em uma de suas obras mais conhecidas, A paixão</p><p>segundo G.H.</p><p>Como podem ver, a escolha de uma rua, de uma construção, de uma</p><p>sensação, de uma lembrança, ou até mesmo de uma calçada, em uma</p><p>boa narrativa, não é casual. Podem ocorrer seleções aleatórias? Podem.</p><p>E não significa, necessariamente, que sejam histórias ruins ou mal</p><p>contadas, mas uma narrativa bem construída deve considerar cada um</p><p>dos elementos e saber amarrá-los na trama. Os espaços podem ser</p><p>diversos, misturar-se, dissolver-se e desaparecer, mas sempre</p><p>relacionados ao que a história quer contar.</p><p>Os diferentes tipos de tempo</p><p>da narrativa</p><p>23/06/2024, 16:26 Teoria da Narrativa</p><p>https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/03254/index.html?brand=estacio# 44/65</p><p>Tempo</p><p>“Compositor de destinos, tambor de todos os ritmos...</p><p>Tempo tempo tempo tempo, entro num acordo contigo...</p><p>Tempo tempo tempo tempo...</p><p>”Diz um trecho de Oração ao tempo, de Caetano Veloso (1979).</p><p>Você já deve ter escutado em algum momento essa canção. Se não</p><p>escutou, coloque no seu streaming de música preferido ou veja no</p><p>YouTube. Se já escutou, escute de novo. O tempo é um dos elementos</p><p>fundamentais da vida, por isso, não é menos imprescindível em uma</p><p>narrativa. Ele é o tecido do que somos,</p><p>com nossos desvios, virtudes e</p><p>hesitações. Assim, aquele que domina o tempo em uma história, domina</p><p>absolutamente todos os elementos, narrador, personagem e espaço,</p><p>embora este, para alguns, esteja também vinculado ao tempo.</p><p>Quanto aos tipos de tempo em uma narrativa, podemos encontrar, de</p><p>uma forma geral, três:</p><p>23/06/2024, 16:26 Teoria da Narrativa</p><p>https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/03254/index.html?brand=estacio# 45/65</p><p></p><p>Cronológico, ou da história</p><p>É a sequência de acontecimentos narrados na ordem semelhante à do</p><p>relógio, ou do calendário.</p><p></p><p>Histórico</p><p>É a adequação da narrativa a uma época ou um momento histórico,</p><p>portanto, ele ocorre sempre no passado.</p><p></p><p>Psicológico</p><p>É a duração subjetiva, da interioridade da personagem, de acordo com o</p><p>ritmo de suas sensações e seus pensamentos.</p><p>O tempo cronológico, como o nome já deixa claro, é o mais próximo do</p><p>que estamos acostumados no nosso cotidiano. Nas narrativas, é um</p><p>dos tipos mais comuns. Os diálogos, por exemplo, costumam seguir</p><p>essa marcação, pois a duração é de acordo com a conversa entre as</p><p>personagens.</p><p>Quanto ao tempo histórico, não é difícil perceber que ele se aplica a</p><p>eventos que já ocorreram e agora estão sendo reconstituídos. As</p><p>biografias, pela sua natureza, seguem necessariamente esse tempo,</p><p>pois elas se referem aos acontecimentos na vida de uma pessoa, ou</p><p>seja, tudo aquilo que a formou como indivíduo. As narrativas históricas,</p><p>de modo geral, também buscam a obediência a essas marcas no</p><p>calendário.</p><p>Atenção!</p><p>Essa distinção não impede que o discurso seja construído com a</p><p>combinação dos dois tipos de tempo, pois, assim como há a</p><p>necessidade de contextualizar historicamente uma narrativa do</p><p>passado, ela também precisa estar de acordo com o ritmo do presente</p><p>da escrita e da leitura.</p><p>Sheherazade, no Livro das mil e uma noites, inicia seus relatos ao sultão</p><p>Shahryar com praticamente a mesma fórmula, “Conta-se, ó rei</p><p>23/06/2024, 16:26 Teoria da Narrativa</p><p>https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/03254/index.html?brand=estacio# 46/65</p><p>venturoso...”, a fim de imprimir ao evento do passado o frescor do</p><p>presente.</p><p>O tempo psicológico, também chamado de tempo da memória, é um</p><p>dos mais complexos e se mistura, de certa maneira, com o espaço.</p><p>Você já deve ter experimentado em algumas ocasiões esse tipo</p><p>temporal, quando um evento parece ter durado tão pouco enquanto</p><p>outro, quase uma eternidade. É comum qualificarmos essa passagem</p><p>subjetiva do tempo de acordo com a satisfação da nossa experiência.</p><p>Em A paixão segundo G.H., de Clarice Lispector, o tempo também opera</p><p>nessa duração. Aliás, uma das características do tempo psicológico,</p><p>muito presente na literatura de Clarice, é o fluxo de consciência, técnica</p><p>que procura descrever a complexidade do pensamento e das sensações</p><p>de uma personagem. Além de Clarice, Virginia Woolf, Marcel Proust,</p><p>James Joyce e William Faulkner estão entre os autores que mais</p><p>desenvolveram esse recurso em suas obras.</p><p>Elementos da narrativa:</p><p>espaço e tempo</p><p>Acompanhemos agora o professor Rodrigo Jorge analisar aspectos e</p><p>estrutura característica de dois tipos de narrativa.</p><p></p><p>23/06/2024, 16:26 Teoria da Narrativa</p><p>https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/03254/index.html?brand=estacio# 47/65</p><p>Falta pouco para atingir seus objetivos.</p><p>Vamos praticar alguns conceitos?</p><p>Questão 1</p><p>Considere o seguinte texto:</p><p>“O Clube dos Desconfiados teve existência breve. Sua utilidade era</p><p>indiscutível. Por isso congregou inúmeros desconfiados, que em</p><p>sociedade se sentiriam mais garantidos contra possíveis más</p><p>23/06/2024, 16:26 Teoria da Narrativa</p><p>https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/03254/index.html?brand=estacio# 48/65</p><p>intenções e surpresas desagradáveis. Uma vez reunidos e</p><p>organizados, com estatutos e diretoria, passaram a desconfiar uns</p><p>dos outros e de si mesmos. Marcada assembleia geral</p><p>extraordinária para exame da situação, ninguém compareceu.</p><p>Ficaram todos nas esquinas próximas, espiando quem entrava na</p><p>sede. O porteiro, desconfiadíssimo, sumiu.”</p><p>(ANDRADE, Carlos Drummond de. Contos plausíveis. São Paulo:</p><p>Companhia das Letras, 2012, p. 44)</p><p>Intitulado “Aquele clube”, o texto faz parte da coletânea Contos</p><p>plausíveis, de Carlos Drummond de Andrade, em que o poético e o</p><p>cômico se combinam. A utilização do narrador-observador, em</p><p>terceira pessoa, contribui para realçar a comicidade da narrativa,</p><p>pois:</p><p>Parabéns! A alternativa B está correta.</p><p>O narrador-observador está em uma posição distante dos eventos e</p><p>não participa deles, mas, ao mesmo tempo, tem uma visão geral e</p><p>mais imparcial da história. A focalização sobre as personagens,</p><p>A</p><p>ele se envolve com os destinos dos membros do</p><p>clube e tenta convencer o leitor de sua importância.</p><p>B</p><p>ele não participa da história e, portanto, busca obter</p><p>cumplicidade do leitor, já que ambos estão distantes</p><p>daquela realidade.</p><p>C</p><p>não há seriedade na forma como ele descreve as</p><p>personagens da história, levando-nos a um riso</p><p>irônico.</p><p>D</p><p>ele protagoniza a história, já que possui</p><p>informações privilegiadas sobre o destino do clube</p><p>e de seus membros.</p><p>E</p><p>o distanciamento em relação aos eventos narrados</p><p>destaca a sua vantagem sobre os membros do</p><p>clube.</p><p>23/06/2024, 16:26 Teoria da Narrativa</p><p>https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/03254/index.html?brand=estacio# 49/65</p><p>sem se envolver com elas, aproxima-o mais do leitor, que também</p><p>imprime um significado na narrativa. Os dois, narrador e leitor,</p><p>situam-se em um plano distinto dos Desconfiados, destacando</p><p>ainda mais o efeito cômico.</p><p>Questão 2</p><p>A personagem é um dos elementos fundamentais em uma</p><p>narrativa, pois é por meio dela que sabemos em que história</p><p>estamos entrando no ato de leitura. Quanto aos tipos de</p><p>personagem, segundo a teoria da narrativa, assinale a alternativa</p><p>correta:</p><p>Parabéns! A alternativa A está correta.</p><p>As personagens chamadas de esféricas ou planas são concebidas</p><p>a partir de aspectos subjetivos da natureza humana, evidenciando,</p><p>A</p><p>Contradições e embates interiores são</p><p>características muito comuns em personagens</p><p>construídas como redondas ou esféricas.</p><p>B</p><p>Resignação e tristeza estão presentes em</p><p>personagens planas, criadas a partir da leitura de</p><p>outros textos da tradição narrativa.</p><p>C</p><p>As personagens esféricas podem representar um</p><p>grupo social bem delimitado ou difuso, dependendo</p><p>do espaço da narrativa.</p><p>D</p><p>As personagens-tipos são as mais distantes das</p><p>características humanas, por isso são muito</p><p>comuns nas representações de monstros nas</p><p>fábulas.</p><p>E</p><p>A dimensão coletiva das personagens planas se dá</p><p>pela sua representação dos anseios de um grupo</p><p>social.</p><p>23/06/2024, 16:26 Teoria da Narrativa</p><p>https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/03254/index.html?brand=estacio# 50/65</p><p>assim, características que as aproximam de pessoas reais.</p><p>4 - Narratividade</p><p>Ao �nal deste módulo, você será capaz de reconhecer o conceito de</p><p>Narratividade.</p><p>Tudo é narrativa?</p><p>O que pode ser narrado?</p><p>No primeiro módulo, falamos sobre a nossa necessidade milenar de</p><p>contar histórias. Elas sempre estiveram presentes em nossas vidas e</p><p>foram se transformando ao longo do tempo, mas preservando alguns de</p><p>seus elementos e outros componentes estruturais.</p><p>Jonathan Culler (1999, p. 85) cita uma observação do crítico literário</p><p>Frank Kermode sobre nossa capacidade de organizar ficcionalmente o</p><p>mundo tomando como exemplo o ruído de um relógio analógico, o tique-</p><p>taque. Ao conferir palavras diferentes a sons idênticos, estamos</p><p>demarcando um início e um fim do movimento, como se</p><p>construíssemos uma espécie de microenredo.</p><p>Nesse sentido, é possível concluir que</p><p>absolutamente tudo é narrativa, tudo pode ser</p><p>23/06/2024, 16:26 Teoria da Narrativa</p><p>https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/03254/index.html?brand=estacio# 51/65</p><p>narrativa ou não é bem por aí? O que de�ne se</p><p>algo pode ser tornar uma história ou não?</p><p>Aqui não se trata de seu valor estético, mas de sua eficácia. Não</p><p>importa se uma história</p><p>é boa ou ruim, o que importa é que ela seja</p><p>autêntica, pois ela não deixa de ser uma história se não for bem</p><p>contada. Será apenas uma história... mal contada. Mas, ainda assim,</p><p>uma história. Talvez possamos oferecer sugestões para que ela se torne</p><p>melhor, aí é outro caso. De qualquer maneira, se estamos falando de</p><p>uma narrativa entendida como tal, ela segue uma estrutura e é</p><p>composta por um número razoável de elementos que a tornam</p><p>comunicável, já que o papel do leitor é fundamental para que uma</p><p>narrativa se constitua como gênero.</p><p>E já que tocamos no assunto, voltemos à</p><p>pergunta: o que pode ser narrado?</p><p>Na teoria da narrativa, há um conceito chamado narratividade, que, em</p><p>um primeiro momento, não é muito difícil de compreender, considerando</p><p>as palavras que você conhece com o mesmo sufixo. Do que se trata?</p><p>Basicamente, é a qualidade da narrativa, do que é narrativo ou pode ser</p><p>narrado. Ou seja, ele se refere ao potencial de um discurso de</p><p>reconstruir o mundo por meio de uma história.</p><p>Mas ele não se encerra nisso. Há outro dado imprescindível para que a</p><p>narratividade seja exercida: o leitor. Apenas por meio do processo de</p><p>leitura é que essa qualidade da narrativa se completa, pois a recepção</p><p>de uma narrativa é imprescindível para que ela cumpra com seu</p><p>principal objetivo, que é contar uma história.</p><p>Por isso, “a narratividade tem que ver com a capacidade possuída pelo</p><p>texto (narrativo) para facultar ao receptor o acesso a ações de dimensão</p><p>humana, de matriz temporal e englobadas em universos internamente</p><p>coerentes” (REIS; LOPES, 1988, p. 79). A recepção do texto pelo leitor é</p><p>23/06/2024, 16:26 Teoria da Narrativa</p><p>https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/03254/index.html?brand=estacio# 52/65</p><p>que vai permitir a produção de sentido, de acordo com a transformação</p><p>da história, ou relato, em discurso.</p><p>A narratividade é uma operação realizada pelo</p><p>texto narrativo que o vincula também ao</p><p>contexto histórico-cultural.</p><p>Um leitor não é apenas uma camada imaginária, uma estratégia</p><p>discursiva do autor, mas um indivíduo dotado de subjetividade e inserido</p><p>em determinado tempo histórico e formado por regras sociais mais ou</p><p>menos estabelecidas.</p><p>De acordo com Carlos Reis e Ana Cristina M. Lopes (1988, p. 78), isso</p><p>explica o porquê de a epopeia ter sido tão importante em determinadas</p><p>épocas e de o romance, mesmo vinculado a espaços e tempos</p><p>históricos específicos, ser evocado em outros momentos e por</p><p>subgêneros narrativos, como o romance histórico.</p><p>É o que chamam de “potencialidades modelizantes da</p><p>narratividade”, isto é, a capacidade da narrativa de se</p><p>inscrever em um período e de se adaptar com o passar</p><p>do tempo, podendo ser lida de diversas maneiras por</p><p>um público diverso.</p><p>Por que certas obras parecem tão atuais e outras amarradas à data de</p><p>publicação? Por que alguns textos nos remetem a problemas ainda</p><p>próximos ao nosso cotidiano? Não é apenas pela permanência de</p><p>aspectos humanos e sociais, que também entram na conta, claro, mas</p><p>também porque a narratividade do texto contribui para essa</p><p>identificação. Assim, o mesmo texto pode ser lido de diferentes</p><p>maneiras.</p><p>Portanto, o que pode ser narrado não é apenas o que reúna os principais</p><p>elementos narrativos, mas o que tenha a capacidade de ser lido como</p><p>uma história, já que a narratividade é um fenômeno que se dá por meio</p><p>da recepção, assim como todo fenômeno estético em geral. E é por esta</p><p>razão que a narrativa, como bem destaca Roland Barthes (2001, p. 103),</p><p>é dada não apenas pela linguagem, mas também pela imagem e pelo</p><p>gesto, ou pela mistura de todas essas formas de expressão.</p><p>23/06/2024, 16:26 Teoria da Narrativa</p><p>https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/03254/index.html?brand=estacio# 53/65</p><p>Narratividade em textos orais</p><p>ou escritos</p><p>Narrativas de linguagem verbal</p><p>A narratividade nas histórias de linguagem verbal se refere à qualidade</p><p>da narrativa nos textos orais ou escritos, o que inclui praticamente todos</p><p>os textos literários que citamos até agora. Mas sabemos que um texto</p><p>não é um conjunto de elementos homogêneos que se comportam da</p><p>mesma maneira em todas as situações. Ao contrário, ele é orientado</p><p>pelos seus componentes estruturais e pelos gêneros do discurso que</p><p>organizam a história. É por isso que a narratividade é fundamental, pois</p><p>ela vai diferenciar um texto narrativo de outro que não exerça essa</p><p>função.</p><p>A�nal, nem todo texto literário ou não literário</p><p>é dotado de narratividade, mas toda narrativa</p><p>sim.</p><p>Pegue o manual de um eletrodoméstico qualquer que você tenha em</p><p>casa, ou uma bula de remédio. Ainda que em alguns deles você</p><p>encontre mais números, em todos você encontrará palavras organizadas</p><p>em uma modalidade de discurso. Tanto no manual quanto na bula de</p><p>remédio, você terá à sua disposição uma série de instruções para a</p><p>realização de uma tarefa.</p><p>Em nenhum deles você encontrará um discurso narrativo, mas isso não</p><p>significa que eles não possam ser transformados em um. Caso você</p><p>tenha errado a dose do remédio, vai precisar ir até seu médico para ser</p><p>examinado. Para que o profissional possa ajudá-lo, você precisará</p><p>reconstituir uma série de eventos, em que a bula se inclui. Nesse</p><p>processo, a narratividade está presente.</p><p>23/06/2024, 16:26 Teoria da Narrativa</p><p>https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/03254/index.html?brand=estacio# 54/65</p><p>Vejamos o caso de alguns textos literários. A poesia lírica, por exemplo,</p><p>define-se, de um modo geral, pela expressão de sentimentos e da</p><p>subjetividade do poeta em forma de versos. Mas também há poemas de</p><p>gênero lírico que apresentem certa narratividade, como este famoso</p><p>texto de Manuel Bandeira:</p><p>João Gostoso era carregador de</p><p>feira livre e morava no morro da</p><p>Babilônia num barracão sem</p><p>número Uma noite ele chegou no</p><p>bar Vinte de Novembro</p><p>Bebeu</p><p>Cantou</p><p>Dançou</p><p>Depois se atirou na lagoa Rodrigo de</p><p>Freitas e morreu afogado.</p><p>23/06/2024, 16:26 Teoria da Narrativa</p><p>https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/03254/index.html?brand=estacio# 55/65</p><p>(BANDEIRA, 1998, p. 28)</p><p>Intitulado “Poema tirado de uma notícia de jornal”, o texto foi publicado</p><p>em Libertinagem (1930), obra em que Bandeira adere, de forma mais</p><p>marcante, ao modernismo. Algumas das características do movimento</p><p>aparecem com frequência nesse e em outros poemas do livro, como a</p><p>linguagem coloquial, o uso de versos livres, a presença de temas do</p><p>cotidiano comum e de certo tom narrativo. O olhar objetivo dos versos</p><p>dá ao poema certo tom irônico, crítica à indiferença da suposta</p><p>imparcialidade da linguagem jornalística. Podemos traçar um paralelo</p><p>com a música “Construção”, de Chico Buarque, lançada em álbum</p><p>homônimo. Nos dois casos, apesar de pertencerem a gêneros distintos,</p><p>a narratividade se realiza quando identificamos, como leitores e</p><p>ouvintes, os elementos que sustentam as duas histórias trágicas.</p><p>Atenção!</p><p>Se não conseguimos identificar uma história sendo contada, ou seja, se</p><p>os elementos presentes não são suficientes para que a recepção</p><p>reconheça o discurso narrativo, então não ocorre o fenômeno da</p><p>narratividade.</p><p>O poema O corvo, de Edgar Allan Poe, um dos mais importantes da</p><p>literatura ocidental, também apresenta narratividade, já que avançamos</p><p>de um verso para outro e acompanhamos a descrição do eu lírico de seu</p><p>encontro com o “emigrado lá das trevas infernais”, na tradução de</p><p>Fernando Pessoa. Nas canções de Bob Dylan, um dos mais notáveis</p><p>compositores da atualidade, esse é um dos traços mais presentes, seja</p><p>criando histórias ou reconstituindo situações reais, como na música</p><p>Hurricane, escrita com Jacques Levy, em protesto pela prisão injusta de</p><p>Rubin “Hurricane” Carter, de clara motivação racista. Nesse caso, a</p><p>narratividade não atua apenas para comunicar os eventos tais como se</p><p>deram, mas também para provocar a indignação dos ouvintes e engajá-</p><p>los na luta antirracista expressa na música.</p><p>Narratividade e os signos</p><p>visuais</p><p>Narrativas de linguagem não verbal</p><p>23/06/2024, 16:26 Teoria da Narrativa</p><p>https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/03254/index.html?brand=estacio#</p>