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LITERATURA PORTUGUESA II - UNICV LETRAS

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lu sant ana

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Ferramentas de estudo

Questões resolvidas

Carlos Drummond de Andrade, grande poeta modernista brasileiro, é reconhecido por seu lirismo politizado, tendo registrado em sua produção poética grandes eventos históricos do século XX, como a Segunda Guerra Mundial, a ditadura varguista no Brasil da década de 1930, a Guerra Fria, a tensão política do fascismo brasileiro contra a esquerda nacional, etc. Por outro lado, o escritor também é reconhecido pela graça de suas reflexões sobre o próprio ato do fazer poético, da circulação do texto, da relação ambígua e dúbia do autor com sua criação textual, da riqueza inexata da recepção da literatura pelo público e da relação entre os signos literários. De certa maneira, é desses dois universos discursivos (o registro objetivo e relatado da história, em contraste com a subjetividade estética da literatura) que seu poema "Procura da poesia" trata:

PROCURA DA POESIA

Não faças versos sobre acontecimentos.

Não há criação nem morte perante a poesia.

Diante dela, a vida é um sol estático,

não aquece nem ilumina.

As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam.

Não faças poesia com o corpo,

esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso

[à efusão lírica.

Tua gota de bile, tua careta de gozo ou de dor no escuro

são indiferentes.

Nem me reveles teus sentimentos,

que se prevalecem do equívoco e tentam a longa viagem.

O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.

Não cantes tua cidade, deixa-a em paz.

O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo

[das casas.

Não é música ouvida de passagem; rumor do mar nas ruas

[junto à linha de espuma.

O canto não é a natureza

nem os homens em sociedade.

Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança nada significam.

A poesia (não tires poesia das coisas)

elide sujeito e objeto.

Não dramatizes, não invoques,

não indagues. Não percas tempo em mentir.

Não te aborreças.

Teu iate de marfim, teu sapato de diamante,

vossas mazurcas e abusões, vossos esqueletos de família

desaparecem na curva do tempo, é algo imprestável.

Não recomponhas

tua sepultada e merencória infância.

Não osciles entre o espelho e a

memória em dissipação.

Que se dissipou, não era poesia.

Que se partiu, cristal não era.

Penetra surdamente no reino das palavras.

Lá estão os poemas que esperam ser escritos.

Estão paralisados, mas não há desespero,

há calma e frescura na superfície intata.

Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.

Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.

Tem paciência, se obscuros. Calma, se te provocam.

Espera que cada um se realize e consume

com seu poder de palavra

e seu poder de silêncio.

Não forces o poema a desprender-se do limbo.

Não colhas no chão o poema que se perdeu.

Não adules o poema. Aceita-o

como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada

no espaço.

Chega mais perto e contempla as palavras.

Cada uma

tem mil faces secretas sob a face neutra

e te pergunta, sem interesse pela resposta,

pobre ou terrível, que lhe deres:

Trouxeste a chave?

Repara:

ermas de melodia e conceito,

elas se refugiaram na noite, as palavras.

Ainda úmidas e impregnadas de sono,

rolam num rio difícil e se transformam em desprezo.

Considerando o que foi discutido até então sobre a representação referencial no texto literário (como a arte busca representar a "realidade"), assinale a alternativa que melhor contempla as ideias pós-estruturalistas a partir de uma análise crítica do poema de Carlos Drummond de Andrade.
Considerando o que foi discutido até então sobre a representação referencial no texto literário (como a arte busca representar a "realidade"), assinale a alternativa que melhor contempla as ideias pós-estruturalistas a partir de uma análise crítica do poema de Carlos Drummond de Andrade.
a. O texto poético, ao propor que não se façam poemas sobre acontecimentos, está, na verdade, argumentando ironicamente que se façam poemas sobre qualquer assunto, sentimento ou referência à realidade.
b. O texto poético, ao propor que se adentre o mundo das palavras, defende que o poeta feche-se sempre no mundo surdo e mudo dos signos que, fazendo referência apenas a si mesmos, nunca ultrapassam os limites de um texto canônico por conta de sua indiferença.
c. O texto poético, ao propor que não se façam poemas sobre acontecimentos, argumenta, ao longo de seu desenvolvimento, que buscar exprimir o real em sua totalidade e à exaustão é uma ilusão ultrapassada, uma ilusão referencial do século XIX.
d. O texto poético, ao propor que não há criação nem morte na poesia, argumenta, ao longo de seu desenvolvimento, que os personagens literários, na verdade, nunca nascem nem morrem.
e. O texto poético, ao propor que não se façam versos sobre acontecimentos, propõe que a literatura é o registro da história humana por excelência e, por isso, não deve nunca tratar de fatos sociais de menor importância.

O início do século XX foi marcado pelo surgimento de significativas correntes literárias, tais como o estruturalismo, cujo o procedimento consiste em:
O início do século XX foi marcado pelo surgimento de significativas correntes literárias, tais como o estruturalismo, cujo o procedimento consiste em:
a. análise da obra literária, levando em consideração os aspectos sociais presentes nessa construção textual, para identificar como a literatura reflete seu contexto de produção ou até mesmo seu contexto de recepção, ou seja, o momento histórico em que é lida.
b. investigação dos próprios elementos estruturais do texto e das relações estabelecidas entre um texto e determinadas estruturas linguísticas, sociológicas ou psicanalíticas, por exemplo. Por isso, tem muita repercussão não apenas no campo literário, mas em diversos outros campos de investigação.
c. processo de investigação da obra por meio da análise estética e histórico-social para, posteriormente, investigar a estrutura textual pela perspectiva linguística e seus recursos expressivos.
d. análise dos aspectos estruturais das construções literárias por meio de elementos internos e externos textuais, assim como os efeitos que a obra provoca de acordo com os recursos linguísticos presentes nela.
e. observação não somente do que o texto diz (seu conteúdo), mas também de seus meios de funcionamento e processos (sua forma) que desencadeiam em seu desfecho, ou seja, no clímax ou na resolução do problema inicial.

Dentre as principais correntes teóricas surgidas nos primeiros anos do século XX, uma se destacou por conceber a literatura como uma função da linguagem, a qual enfatizava a própria mensagem. A seguir, marque a opção que compreende a crítica referida e seu enfoque principal:
Dentre as principais correntes teóricas surgidas nos primeiros anos do século XX, uma se destacou por conceber a literatura como uma função da linguagem, a qual enfatizava a própria mensagem. A seguir, marque a opção que compreende a crítica referida e seu enfoque principal:
a. O new criticism se ocupava das propriedades literárias de uma obra a partir de sua relação com o contexto social, ou seja, sua função política ou social para uma determinada cultura. Surgiu nos Estados Unidos e chegou ao Brasil por meio de estudos históricos da literatura, baseando-se na interpretação das obras a partir de seus elementos exteriores.
b. O formalismo russo investigava o próprio texto literário, considerado como um uso especial da linguagem, cuja forma e organização poderiam ser descritas e explicadas. O formalismo procurou identificar as especificidades da linguagem poética, ou seja, a sua função poética.
c. O formalismo russo investigava a função emotiva da linguagem e foi a primeira corrente a identificar que a literatura se diferenciava das outras linguagens por sempre se voltar à expressão de emoções e pensamentos. Por isso, os formalistas se dedicaram ao estudo, principalmente, da poesia lírica.
d. O estruturalismo analisa a função poética da linguagem a partir da forma como as obras são organizadas e de sua estrutura interna. Por isso, tem como foco principal o estudo das diferenças entre os gêneros literários, mostrando como em poemas e narrativas, por exemplo, a literatura alcança efeitos distintos.
e. O pós-estruturalismo foi uma revisão do estruturalismo e uma crítica a essa corrente. O pós-estruturalismo priorizava a função poética da linguagem, e não apenas a estrutura ou os mecanismos internos das obras. Afastava-se também de conceitos desenvolvidos, como oposições ou binarismos (como literatura e não literatura, ou natureza e cultura).

A teoria literária e a crítica literária são dois dos principais campos de estudo da literatura. Ambas voltam um olhar atento sobre essa arte e investigam as diversas leituras que podem ser feitas desses textos. Quais são as principais diferenças, porém, entre esses campos?
Quais são as principais diferenças, porém, entre esses campos?
a. A teoria da literatura investiga formas que partem, principalmente, da linguagem dos textos literários para formular hipóteses de leitura. Por isso, é essencialmente um campo da linguística. No entanto, a crítica parte do conteúdo desses textos e os relaciona aos seus contextos de produção e aos seus autores, ou seja, procura interpretar as obras a partir da biografia do autor ou do vínculo com o período histórico em que foram escritas.
b. A teoria da literatura e a crítica diferenciam-se apenas pela maneira como se propõem a ler a literatura. Enquanto a primeira parte da estrutura dos textos literários de uma comunidade em particular para analisá-los, a segunda lê e interpreta cada texto individualmente e separadamente de seu contexto de produção ou dos outros textos produzidos por aquela mesma comunidade.
c. A teoria da literatura investiga as possíveis formas de se ler e interpretar o texto literário, assim como os métodos de estudo e os conceitos que acompanham as transformações das obras ao longo do tempo. A crítica parte desses aportes teóricos e metodologias, mas também acaba fornecendo ferramentas de análise do texto literário à teoria. Da mesma forma, a crítica promove discussões que podem ir além do literário e chegar à sua relação com a sociedade e com questões ideológicas e culturais, por exemplo.
d. A teoria da literatura é o conjunto de críticas desenvolvidas acerca dessa arte ao longo do tempo, como o formalismo russo, o new criticism e o estruturalismo, e depende deles para formular maneiras corretas de se ler as obras. A crítica literária investiga conceitos e métodos de estudos sobre a literatura e fornece essas ferramentas às diversas teorias, as quais são utilizadas de formas diferentes em cada abordagem.
e. A teoria da literatura parte de outros campos de conhecimento, como a filosofia e as ciências sociais, para investigar as formas mais apropriadas de se ler e interpretar obras literárias, assim como as formas de compô-las. Todavia, a crítica atém-se apenas à literatura e aborda as formas como ela é lida pelos leitores e compreendida diferentemente nas diversas culturas. Também se especializa nos conceitos que envolvem o fazer literário.

Manuel Bandeira foi, sem dúvida, um dos maiores poetas modernistas do Brasil. O escritor e intelectual paulistano, modernista veterano da Semana de 22, trazia consigo a verve da crítica mais radicalizada da primeira fase desse movimento tupiniquim e antropofágico. Ele foi inspiração e fonte de referência para as gerações posteriores, a que pertenceram João Cabral de Melo Neto e Carlos Drummond de Andrade. Seus textos variavam entre a crítica e a reflexão estética sobre a arte, em especial a crítica aos parnasianos e realistas do século XIX; e temas cotidianos da realidade urbana, às vezes misturados ao amor e, muitas vezes, à morte, os quais foram dois grandes signos de sua obra lírica.

Por conta disso, Manuel Bandeira é um autor indispensável no currículo didático de Literatura e Língua Portuguesa do Ensino Médio no país. Leia, a seguir, um rico poema do "professor" modernista para ser trabalhado em sala de aula:

POÉTICA

Estou farto do lirismo comedido

Do lirismo bem comportado

Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente protocolo e manifestações de apreço ao Sr. diretor.

Estou farto do lirismo que para e vai averiguar no dicionário o cunho vernáculo de um vocábulo.

Abaixo os puristas.

Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais

Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção

Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis

Estou farto do lirismo namorador

Político

Raquítico

Sifilítico

De todo lirismo que capitula ao que quer que seja fora de si mesmo.

De resto não é lirismo

Será contabilidade tabela de co-senos secretário do amante exemplar com cem modelos de cartas e as diferentes maneiras de agradar às mulheres, etc.

Quero antes o lirismo dos loucos

O lirismo dos bêbados

O lirismo difícil e pungente dos bêbados

O lirismo dos clowns de Shakespeare.

– Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.
Considerando que você é um professor de Literatura em sala de aula, qual condução didática seria mais adequada para se trabalhar esse texto poético de Manuel Bandeira com a turma, levando em consideração o que foi discutido sobre as teorias pós-estruturalistas?
a. Mostrar aos alunos que o estilo poético modernista está preocupado com a forma lírica e com a representação fidedigna do referente, bem como realçar a preocupação com um único e verdadeiro sentido para o texto literário, isso se ele seguir devidamente a métrica clássica.
b. Mostrar aos alunos o estilo poético modernista, que não está preocupado com a forma nem com a representação do referente, bem como realçar a desconstrução do cânone literário presente no texto, sua intertextualidade, e considerar as leituras possíveis levantadas pela turma, discutindo-as coletivamente.
c. Mostrar aos alunos que o estilo poético modernista está preocupado com a forma lírica e com a representação fidedigna do referente, bem como realçar a desconstrução do sujeito lírico, que passa a ser representado por minorias sociais, uma vez que essa era a intenção discursiva de Manuel Bandeira.
d. Mostrar aos alunos que o estilo poético modernista está preocupado com a forma lírica e com a representação fidedigna do referente, bem como realçar a desconstrução do cânone literário presente no texto, sua intertextualidade e preocupação com as minorias civis.
e. Mostrar aos alunos o estilo poético modernista, que não está preocupado com a forma nem com a representação do referente, bem como realçar a desconstrução do cânone literário presente no texto, sua intertextualidade, e levar a turma a compreender o que Manuel Bandeira quis dizer com esse poema.

Nem todos os poetas modernistas estavam despreocupados com a forma do texto literário. Dentre eles, João Cabral de Melo Neto, conhecido por seu estilo neoparnasiano, de métrica e rimas impecáveis, além de sonoras, e um lirismo magistral, embora seus temas sejam genuinamente modernistas, como questões sociais e regionais, relacionadas à realidade do Nordeste brasileiro e sua estrutura política coronelista e latifundiária. As populações ribeirinhas e as tensões socioeconômicas relacionadas à industrialização do Nordeste também são grandes temas abordados pelo poeta, o que faz com que "o rio" seja um signo alegórico comumente usado em seus textos.

Considerando o que foi apresentado nesta Unidade sobre as teses pós-estruturalistas e sua relação com o estilo estético modernista, leia a seguir um poema de João Cabral de Melo Neto e assinale a alternativa que corresponde, de maneira mais coerente, a sua interpretação pós-estruturalista.

RIOS SEM DISCURSO

Quando um rio corta, corta-se de vez
o discurso-rio de água que ele fazia;
cortado, a água se quebra em pedaços,
em poços de água, em água paralítica.

Em situação de poço, a água equivale
a uma palavra em situação dicionária:
isolada, estanque no poço dela mesma,
e porque assim estanque, estancada;
e mais: porque assim estancada, muda,
e muda porque com nenhuma comunica,
porque cortou-se a sintaxe desse rio,
o fio de água por que ele discorria.

O curso de um rio, seu discurso-rio,
chega raramente a se reatar de vez;
um rio precisa de muito fio de água
para refazer o fio antigo que o fez.

Salvo a grandiloquência de uma cheia
lhe impondo interina outra linguagem,
um rio precisa de muita água em fios
para que todos os poços se enfrasem:
se reatando, de um para outro poço,
em frases curtas, então frase e frase,
até a sentença-rio do discurso único
em que se tem voz a seca ele combate.
a. O texto desconstrói a noção cumulativa e progressiva do saber e dos fatos históricos, tal qual propôs Michel Foucault.
b. O texto debate uma crise de identidade do sujeito contemporâneo, representado pela água do rio, tal qual o sujeito dos movimentos sociais da década de 1960.
c. O poema trata do dialogismo inerente à linguagem, tal qual proposto por Bakhtin, e da consequente intertextualidade do texto poético, como a concebeu Julia Kristeva.
d. O texto desconstrói a unidade de autor, tal qual propõe Roland Barthes em seu trabalho S/Z.
e. O texto desconstrói a forma poética parnasiana, tal qual propôs Jacques Derrida em seu trabalho filosófico.

Filho do grande historiador e sociólogo Sérgio Buarque de Holanda, autor do célebre livro Raízes do Brasil, o poeta carioca Chico, de sobrenome homônimo ao do pai, tem grande reconhecimento pelas letras líricas, cultas e politizadas que compõem sua música. Além da MPB, Chico também é reconhecido por sua escrita literária de romances e dramas teatrais, dentre eles, Budapeste, Leite derramado e O irmão alemão, sendo considerado pela crítica um grande poeta e romancista contemporâneo.

A seguir, há uma canção composta pelo poeta em 1978, em plena ditadura, célebre pelo jogo metafórico, irônico e ambíguo que a permitiu passar pela censura dos militares.

CÁLICE

Pai, afasta de mim esse cálice

Pai, afasta de mim esse cálice

Pai, afasta de mim esse cálice

De vinho tinto de sangue

Como beber dessa bebida amarga

Tragar a dor, engolir a labuta

Mesmo calada a boca, resta o peito

Silêncio na cidade não se escuta

De que me vale ser filho da santa

Melhor seria ser filho da outra

Outra realidade menos morta

Tanta mentira, tanta força bruta

Como é difícil acordar calado

Se na calada da noite eu me dano

Quero lançar um grito desumano

Que é uma maneira de ser escutado

Esse silêncio todo me atordoa

Atordoado eu permaneço atento

Na arquibancada pra a qualquer momento

Ver emergir o monstro da lagoa

De muito gorda a porca já não anda

De muito usada a faca já não corta

Como é difícil, pai, abrir a porta

Essa palavra presa na garganta

Esse pileque homérico no mundo

De que adianta ter boa vontade

Mesmo calado o peito, resta a cuca

Dos bêbados do centro da cidade

Talvez o mundo não seja pequeno

Nem seja a vida um fato consumado

Quero inventar o meu próprio pecado

Quero morrer do meu próprio veneno

Quero perder de vez tua cabeça

Minha cabeça perder teu juízo

Quero cheirar fumaça de óleo diesel

Me embriagar até que alguém me esqueça

Essa letra poética é também um grito de resistência contra um regime político que, repressor e autoritário, censurava músicas e obras artísticas, bem como prendia e torturava compositores nacionais. Foi nesse contexto que o músico e poeta escreveu esse texto rico em polissemia e intertextualidade.

A partir do que foi estudado a respeito das teorias pós-estruturalistas e, em específico, da desconstrução do signo linguístico, assinale a alternativa que melhor aplica esse conceito filosófico ao "cálice".
a. Segundo Derrida, a desconstrução do signo linguístico de Saussure se dá entre dois significantes, de modo que a diferença entre essas duas imagens acústicas não é suficiente para que remetam a um significado estável. Assim, "cálice" é desconstruído em sua ambiguidade, remetendo ao profano e ao sagrado, uma vez que é homófono de "cale-se", marca da repressão durante a ditadura militar brasileira.
b. Segundo Derrida, a desconstrução do signo linguístico de Saussure se dá entre duas palavras de grupos semânticos opostos. É nesse sentido que o significante "cálice" é desconstruído, uma vez que o texto poético estabelece uma dicotomia clara entre os significantes "santa" e "pecado".
c. Segundo Derrida, a desconstrução do signo linguístico de Saussure ocorre de forma totalmente histórica e política. É nesse sentido que o significante "cálice" é desconstruído: o universo religioso ao qual remete não combina com o universo político implicitamente descrito na música.
d. Segundo Derrida, a desconstrução do signo linguístico de Saussure se dá entre dois significados que não podem ser correspondentes entre si a partir de uma consulta ao dicionário. É nesse sentido que o significante "cálice" é desconstruído, uma vez que as imagens de vinho e sangue não pertencem a um mesmo grupo semântico.
e. Segundo Derrida, a desconstrução do signo linguístico de Saussure se dá entre dois significantes, no sentido de que são desdobrados em outros significantes ao longo do texto poético. É nesse sentido que "cálice" é desconstruído em várias ações correlatas, como "inventar", "morrer", "beber", "cheirar" e "embriagar".

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Questões resolvidas

Carlos Drummond de Andrade, grande poeta modernista brasileiro, é reconhecido por seu lirismo politizado, tendo registrado em sua produção poética grandes eventos históricos do século XX, como a Segunda Guerra Mundial, a ditadura varguista no Brasil da década de 1930, a Guerra Fria, a tensão política do fascismo brasileiro contra a esquerda nacional, etc. Por outro lado, o escritor também é reconhecido pela graça de suas reflexões sobre o próprio ato do fazer poético, da circulação do texto, da relação ambígua e dúbia do autor com sua criação textual, da riqueza inexata da recepção da literatura pelo público e da relação entre os signos literários. De certa maneira, é desses dois universos discursivos (o registro objetivo e relatado da história, em contraste com a subjetividade estética da literatura) que seu poema "Procura da poesia" trata:

PROCURA DA POESIA

Não faças versos sobre acontecimentos.

Não há criação nem morte perante a poesia.

Diante dela, a vida é um sol estático,

não aquece nem ilumina.

As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam.

Não faças poesia com o corpo,

esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso

[à efusão lírica.

Tua gota de bile, tua careta de gozo ou de dor no escuro

são indiferentes.

Nem me reveles teus sentimentos,

que se prevalecem do equívoco e tentam a longa viagem.

O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.

Não cantes tua cidade, deixa-a em paz.

O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo

[das casas.

Não é música ouvida de passagem; rumor do mar nas ruas

[junto à linha de espuma.

O canto não é a natureza

nem os homens em sociedade.

Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança nada significam.

A poesia (não tires poesia das coisas)

elide sujeito e objeto.

Não dramatizes, não invoques,

não indagues. Não percas tempo em mentir.

Não te aborreças.

Teu iate de marfim, teu sapato de diamante,

vossas mazurcas e abusões, vossos esqueletos de família

desaparecem na curva do tempo, é algo imprestável.

Não recomponhas

tua sepultada e merencória infância.

Não osciles entre o espelho e a

memória em dissipação.

Que se dissipou, não era poesia.

Que se partiu, cristal não era.

Penetra surdamente no reino das palavras.

Lá estão os poemas que esperam ser escritos.

Estão paralisados, mas não há desespero,

há calma e frescura na superfície intata.

Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.

Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.

Tem paciência, se obscuros. Calma, se te provocam.

Espera que cada um se realize e consume

com seu poder de palavra

e seu poder de silêncio.

Não forces o poema a desprender-se do limbo.

Não colhas no chão o poema que se perdeu.

Não adules o poema. Aceita-o

como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada

no espaço.

Chega mais perto e contempla as palavras.

Cada uma

tem mil faces secretas sob a face neutra

e te pergunta, sem interesse pela resposta,

pobre ou terrível, que lhe deres:

Trouxeste a chave?

Repara:

ermas de melodia e conceito,

elas se refugiaram na noite, as palavras.

Ainda úmidas e impregnadas de sono,

rolam num rio difícil e se transformam em desprezo.

Considerando o que foi discutido até então sobre a representação referencial no texto literário (como a arte busca representar a "realidade"), assinale a alternativa que melhor contempla as ideias pós-estruturalistas a partir de uma análise crítica do poema de Carlos Drummond de Andrade.
Considerando o que foi discutido até então sobre a representação referencial no texto literário (como a arte busca representar a "realidade"), assinale a alternativa que melhor contempla as ideias pós-estruturalistas a partir de uma análise crítica do poema de Carlos Drummond de Andrade.
a. O texto poético, ao propor que não se façam poemas sobre acontecimentos, está, na verdade, argumentando ironicamente que se façam poemas sobre qualquer assunto, sentimento ou referência à realidade.
b. O texto poético, ao propor que se adentre o mundo das palavras, defende que o poeta feche-se sempre no mundo surdo e mudo dos signos que, fazendo referência apenas a si mesmos, nunca ultrapassam os limites de um texto canônico por conta de sua indiferença.
c. O texto poético, ao propor que não se façam poemas sobre acontecimentos, argumenta, ao longo de seu desenvolvimento, que buscar exprimir o real em sua totalidade e à exaustão é uma ilusão ultrapassada, uma ilusão referencial do século XIX.
d. O texto poético, ao propor que não há criação nem morte na poesia, argumenta, ao longo de seu desenvolvimento, que os personagens literários, na verdade, nunca nascem nem morrem.
e. O texto poético, ao propor que não se façam versos sobre acontecimentos, propõe que a literatura é o registro da história humana por excelência e, por isso, não deve nunca tratar de fatos sociais de menor importância.

O início do século XX foi marcado pelo surgimento de significativas correntes literárias, tais como o estruturalismo, cujo o procedimento consiste em:
O início do século XX foi marcado pelo surgimento de significativas correntes literárias, tais como o estruturalismo, cujo o procedimento consiste em:
a. análise da obra literária, levando em consideração os aspectos sociais presentes nessa construção textual, para identificar como a literatura reflete seu contexto de produção ou até mesmo seu contexto de recepção, ou seja, o momento histórico em que é lida.
b. investigação dos próprios elementos estruturais do texto e das relações estabelecidas entre um texto e determinadas estruturas linguísticas, sociológicas ou psicanalíticas, por exemplo. Por isso, tem muita repercussão não apenas no campo literário, mas em diversos outros campos de investigação.
c. processo de investigação da obra por meio da análise estética e histórico-social para, posteriormente, investigar a estrutura textual pela perspectiva linguística e seus recursos expressivos.
d. análise dos aspectos estruturais das construções literárias por meio de elementos internos e externos textuais, assim como os efeitos que a obra provoca de acordo com os recursos linguísticos presentes nela.
e. observação não somente do que o texto diz (seu conteúdo), mas também de seus meios de funcionamento e processos (sua forma) que desencadeiam em seu desfecho, ou seja, no clímax ou na resolução do problema inicial.

Dentre as principais correntes teóricas surgidas nos primeiros anos do século XX, uma se destacou por conceber a literatura como uma função da linguagem, a qual enfatizava a própria mensagem. A seguir, marque a opção que compreende a crítica referida e seu enfoque principal:
Dentre as principais correntes teóricas surgidas nos primeiros anos do século XX, uma se destacou por conceber a literatura como uma função da linguagem, a qual enfatizava a própria mensagem. A seguir, marque a opção que compreende a crítica referida e seu enfoque principal:
a. O new criticism se ocupava das propriedades literárias de uma obra a partir de sua relação com o contexto social, ou seja, sua função política ou social para uma determinada cultura. Surgiu nos Estados Unidos e chegou ao Brasil por meio de estudos históricos da literatura, baseando-se na interpretação das obras a partir de seus elementos exteriores.
b. O formalismo russo investigava o próprio texto literário, considerado como um uso especial da linguagem, cuja forma e organização poderiam ser descritas e explicadas. O formalismo procurou identificar as especificidades da linguagem poética, ou seja, a sua função poética.
c. O formalismo russo investigava a função emotiva da linguagem e foi a primeira corrente a identificar que a literatura se diferenciava das outras linguagens por sempre se voltar à expressão de emoções e pensamentos. Por isso, os formalistas se dedicaram ao estudo, principalmente, da poesia lírica.
d. O estruturalismo analisa a função poética da linguagem a partir da forma como as obras são organizadas e de sua estrutura interna. Por isso, tem como foco principal o estudo das diferenças entre os gêneros literários, mostrando como em poemas e narrativas, por exemplo, a literatura alcança efeitos distintos.
e. O pós-estruturalismo foi uma revisão do estruturalismo e uma crítica a essa corrente. O pós-estruturalismo priorizava a função poética da linguagem, e não apenas a estrutura ou os mecanismos internos das obras. Afastava-se também de conceitos desenvolvidos, como oposições ou binarismos (como literatura e não literatura, ou natureza e cultura).

A teoria literária e a crítica literária são dois dos principais campos de estudo da literatura. Ambas voltam um olhar atento sobre essa arte e investigam as diversas leituras que podem ser feitas desses textos. Quais são as principais diferenças, porém, entre esses campos?
Quais são as principais diferenças, porém, entre esses campos?
a. A teoria da literatura investiga formas que partem, principalmente, da linguagem dos textos literários para formular hipóteses de leitura. Por isso, é essencialmente um campo da linguística. No entanto, a crítica parte do conteúdo desses textos e os relaciona aos seus contextos de produção e aos seus autores, ou seja, procura interpretar as obras a partir da biografia do autor ou do vínculo com o período histórico em que foram escritas.
b. A teoria da literatura e a crítica diferenciam-se apenas pela maneira como se propõem a ler a literatura. Enquanto a primeira parte da estrutura dos textos literários de uma comunidade em particular para analisá-los, a segunda lê e interpreta cada texto individualmente e separadamente de seu contexto de produção ou dos outros textos produzidos por aquela mesma comunidade.
c. A teoria da literatura investiga as possíveis formas de se ler e interpretar o texto literário, assim como os métodos de estudo e os conceitos que acompanham as transformações das obras ao longo do tempo. A crítica parte desses aportes teóricos e metodologias, mas também acaba fornecendo ferramentas de análise do texto literário à teoria. Da mesma forma, a crítica promove discussões que podem ir além do literário e chegar à sua relação com a sociedade e com questões ideológicas e culturais, por exemplo.
d. A teoria da literatura é o conjunto de críticas desenvolvidas acerca dessa arte ao longo do tempo, como o formalismo russo, o new criticism e o estruturalismo, e depende deles para formular maneiras corretas de se ler as obras. A crítica literária investiga conceitos e métodos de estudos sobre a literatura e fornece essas ferramentas às diversas teorias, as quais são utilizadas de formas diferentes em cada abordagem.
e. A teoria da literatura parte de outros campos de conhecimento, como a filosofia e as ciências sociais, para investigar as formas mais apropriadas de se ler e interpretar obras literárias, assim como as formas de compô-las. Todavia, a crítica atém-se apenas à literatura e aborda as formas como ela é lida pelos leitores e compreendida diferentemente nas diversas culturas. Também se especializa nos conceitos que envolvem o fazer literário.

Manuel Bandeira foi, sem dúvida, um dos maiores poetas modernistas do Brasil. O escritor e intelectual paulistano, modernista veterano da Semana de 22, trazia consigo a verve da crítica mais radicalizada da primeira fase desse movimento tupiniquim e antropofágico. Ele foi inspiração e fonte de referência para as gerações posteriores, a que pertenceram João Cabral de Melo Neto e Carlos Drummond de Andrade. Seus textos variavam entre a crítica e a reflexão estética sobre a arte, em especial a crítica aos parnasianos e realistas do século XIX; e temas cotidianos da realidade urbana, às vezes misturados ao amor e, muitas vezes, à morte, os quais foram dois grandes signos de sua obra lírica.

Por conta disso, Manuel Bandeira é um autor indispensável no currículo didático de Literatura e Língua Portuguesa do Ensino Médio no país. Leia, a seguir, um rico poema do "professor" modernista para ser trabalhado em sala de aula:

POÉTICA

Estou farto do lirismo comedido

Do lirismo bem comportado

Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente protocolo e manifestações de apreço ao Sr. diretor.

Estou farto do lirismo que para e vai averiguar no dicionário o cunho vernáculo de um vocábulo.

Abaixo os puristas.

Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais

Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção

Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis

Estou farto do lirismo namorador

Político

Raquítico

Sifilítico

De todo lirismo que capitula ao que quer que seja fora de si mesmo.

De resto não é lirismo

Será contabilidade tabela de co-senos secretário do amante exemplar com cem modelos de cartas e as diferentes maneiras de agradar às mulheres, etc.

Quero antes o lirismo dos loucos

O lirismo dos bêbados

O lirismo difícil e pungente dos bêbados

O lirismo dos clowns de Shakespeare.

– Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.
Considerando que você é um professor de Literatura em sala de aula, qual condução didática seria mais adequada para se trabalhar esse texto poético de Manuel Bandeira com a turma, levando em consideração o que foi discutido sobre as teorias pós-estruturalistas?
a. Mostrar aos alunos que o estilo poético modernista está preocupado com a forma lírica e com a representação fidedigna do referente, bem como realçar a preocupação com um único e verdadeiro sentido para o texto literário, isso se ele seguir devidamente a métrica clássica.
b. Mostrar aos alunos o estilo poético modernista, que não está preocupado com a forma nem com a representação do referente, bem como realçar a desconstrução do cânone literário presente no texto, sua intertextualidade, e considerar as leituras possíveis levantadas pela turma, discutindo-as coletivamente.
c. Mostrar aos alunos que o estilo poético modernista está preocupado com a forma lírica e com a representação fidedigna do referente, bem como realçar a desconstrução do sujeito lírico, que passa a ser representado por minorias sociais, uma vez que essa era a intenção discursiva de Manuel Bandeira.
d. Mostrar aos alunos que o estilo poético modernista está preocupado com a forma lírica e com a representação fidedigna do referente, bem como realçar a desconstrução do cânone literário presente no texto, sua intertextualidade e preocupação com as minorias civis.
e. Mostrar aos alunos o estilo poético modernista, que não está preocupado com a forma nem com a representação do referente, bem como realçar a desconstrução do cânone literário presente no texto, sua intertextualidade, e levar a turma a compreender o que Manuel Bandeira quis dizer com esse poema.

Nem todos os poetas modernistas estavam despreocupados com a forma do texto literário. Dentre eles, João Cabral de Melo Neto, conhecido por seu estilo neoparnasiano, de métrica e rimas impecáveis, além de sonoras, e um lirismo magistral, embora seus temas sejam genuinamente modernistas, como questões sociais e regionais, relacionadas à realidade do Nordeste brasileiro e sua estrutura política coronelista e latifundiária. As populações ribeirinhas e as tensões socioeconômicas relacionadas à industrialização do Nordeste também são grandes temas abordados pelo poeta, o que faz com que "o rio" seja um signo alegórico comumente usado em seus textos.

Considerando o que foi apresentado nesta Unidade sobre as teses pós-estruturalistas e sua relação com o estilo estético modernista, leia a seguir um poema de João Cabral de Melo Neto e assinale a alternativa que corresponde, de maneira mais coerente, a sua interpretação pós-estruturalista.

RIOS SEM DISCURSO

Quando um rio corta, corta-se de vez
o discurso-rio de água que ele fazia;
cortado, a água se quebra em pedaços,
em poços de água, em água paralítica.

Em situação de poço, a água equivale
a uma palavra em situação dicionária:
isolada, estanque no poço dela mesma,
e porque assim estanque, estancada;
e mais: porque assim estancada, muda,
e muda porque com nenhuma comunica,
porque cortou-se a sintaxe desse rio,
o fio de água por que ele discorria.

O curso de um rio, seu discurso-rio,
chega raramente a se reatar de vez;
um rio precisa de muito fio de água
para refazer o fio antigo que o fez.

Salvo a grandiloquência de uma cheia
lhe impondo interina outra linguagem,
um rio precisa de muita água em fios
para que todos os poços se enfrasem:
se reatando, de um para outro poço,
em frases curtas, então frase e frase,
até a sentença-rio do discurso único
em que se tem voz a seca ele combate.
a. O texto desconstrói a noção cumulativa e progressiva do saber e dos fatos históricos, tal qual propôs Michel Foucault.
b. O texto debate uma crise de identidade do sujeito contemporâneo, representado pela água do rio, tal qual o sujeito dos movimentos sociais da década de 1960.
c. O poema trata do dialogismo inerente à linguagem, tal qual proposto por Bakhtin, e da consequente intertextualidade do texto poético, como a concebeu Julia Kristeva.
d. O texto desconstrói a unidade de autor, tal qual propõe Roland Barthes em seu trabalho S/Z.
e. O texto desconstrói a forma poética parnasiana, tal qual propôs Jacques Derrida em seu trabalho filosófico.

Filho do grande historiador e sociólogo Sérgio Buarque de Holanda, autor do célebre livro Raízes do Brasil, o poeta carioca Chico, de sobrenome homônimo ao do pai, tem grande reconhecimento pelas letras líricas, cultas e politizadas que compõem sua música. Além da MPB, Chico também é reconhecido por sua escrita literária de romances e dramas teatrais, dentre eles, Budapeste, Leite derramado e O irmão alemão, sendo considerado pela crítica um grande poeta e romancista contemporâneo.

A seguir, há uma canção composta pelo poeta em 1978, em plena ditadura, célebre pelo jogo metafórico, irônico e ambíguo que a permitiu passar pela censura dos militares.

CÁLICE

Pai, afasta de mim esse cálice

Pai, afasta de mim esse cálice

Pai, afasta de mim esse cálice

De vinho tinto de sangue

Como beber dessa bebida amarga

Tragar a dor, engolir a labuta

Mesmo calada a boca, resta o peito

Silêncio na cidade não se escuta

De que me vale ser filho da santa

Melhor seria ser filho da outra

Outra realidade menos morta

Tanta mentira, tanta força bruta

Como é difícil acordar calado

Se na calada da noite eu me dano

Quero lançar um grito desumano

Que é uma maneira de ser escutado

Esse silêncio todo me atordoa

Atordoado eu permaneço atento

Na arquibancada pra a qualquer momento

Ver emergir o monstro da lagoa

De muito gorda a porca já não anda

De muito usada a faca já não corta

Como é difícil, pai, abrir a porta

Essa palavra presa na garganta

Esse pileque homérico no mundo

De que adianta ter boa vontade

Mesmo calado o peito, resta a cuca

Dos bêbados do centro da cidade

Talvez o mundo não seja pequeno

Nem seja a vida um fato consumado

Quero inventar o meu próprio pecado

Quero morrer do meu próprio veneno

Quero perder de vez tua cabeça

Minha cabeça perder teu juízo

Quero cheirar fumaça de óleo diesel

Me embriagar até que alguém me esqueça

Essa letra poética é também um grito de resistência contra um regime político que, repressor e autoritário, censurava músicas e obras artísticas, bem como prendia e torturava compositores nacionais. Foi nesse contexto que o músico e poeta escreveu esse texto rico em polissemia e intertextualidade.

A partir do que foi estudado a respeito das teorias pós-estruturalistas e, em específico, da desconstrução do signo linguístico, assinale a alternativa que melhor aplica esse conceito filosófico ao "cálice".
a. Segundo Derrida, a desconstrução do signo linguístico de Saussure se dá entre dois significantes, de modo que a diferença entre essas duas imagens acústicas não é suficiente para que remetam a um significado estável. Assim, "cálice" é desconstruído em sua ambiguidade, remetendo ao profano e ao sagrado, uma vez que é homófono de "cale-se", marca da repressão durante a ditadura militar brasileira.
b. Segundo Derrida, a desconstrução do signo linguístico de Saussure se dá entre duas palavras de grupos semânticos opostos. É nesse sentido que o significante "cálice" é desconstruído, uma vez que o texto poético estabelece uma dicotomia clara entre os significantes "santa" e "pecado".
c. Segundo Derrida, a desconstrução do signo linguístico de Saussure ocorre de forma totalmente histórica e política. É nesse sentido que o significante "cálice" é desconstruído: o universo religioso ao qual remete não combina com o universo político implicitamente descrito na música.
d. Segundo Derrida, a desconstrução do signo linguístico de Saussure se dá entre dois significados que não podem ser correspondentes entre si a partir de uma consulta ao dicionário. É nesse sentido que o significante "cálice" é desconstruído, uma vez que as imagens de vinho e sangue não pertencem a um mesmo grupo semântico.
e. Segundo Derrida, a desconstrução do signo linguístico de Saussure se dá entre dois significantes, no sentido de que são desdobrados em outros significantes ao longo do texto poético. É nesse sentido que "cálice" é desconstruído em várias ações correlatas, como "inventar", "morrer", "beber", "cheirar" e "embriagar".

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LITERATURA PORTUGUESA II – PROVA UNICV LETRAS 
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	terça-feira, 26 mai. 2026, 20:30
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Questão 1
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Texto da questão
Carlos Drummond de Andrade, grande poeta modernista brasileiro, é reconhecido por seu lirismo politizado, tendo registrado em sua produção poética grandes eventos históricos do século XX, como a Segunda Guerra Mundial, a ditadura varguista no Brasil da década de 1930, a Guerra Fria, a tensão política do fascismo brasileiro contra a esquerda nacional, etc. Por outro lado, o escritor também é reconhecido pela graça de suas reflexões sobre o próprio ato do fazer poético, da circulação do texto, da relação ambígua e dúbia do autor com sua criação textual, da riqueza inexata da recepção da literatura pelo público e da relação entre os signos literários. De certa maneira, é desses dois universos discursivos (o registro objetivo e relatado da história, em contraste com a subjetividade estética da literatura) que seu poema "Procura da poesia" trata:
​​​​​​​
PROCURA DA POESIA
Não faças versos sobre acontecimentos.
Não há criação nem morte perante a poesia.
Diante dela, a vida é um sol estático,
não aquece nem ilumina.
As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam.
Não faças poesia com o corpo,
esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso
[à efusão lírica.
Tua gota de bile, tua careta de gozo ou de dor no escuro
são indiferentes.
Nem me reveles teus sentimentos,
que se prevalecem do equívoco e tentam a longa viagem.
O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.
Não cantes tua cidade, deixa-a em paz.
O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo
[das casas.
Não é música ouvida de passagem; rumor do mar nas ruas
[junto à linha de espuma.
O canto não é a natureza
nem os homens em sociedade.
Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança nada significam.
A poesia (não tires poesia das coisas)
elide sujeito e objeto.
Não dramatizes, não invoques,
não indagues. Não percas tempo em mentir.
Não te aborreças.
Teu iate de marfim, teu sapato de diamante,
vossas mazurcas e abusões, vossos esqueletos de família
desaparecem na curva do tempo, é algo imprestável.
Não recomponhas
tua sepultada e merencória infância.
Não osciles entre o espelho e a
memória em dissipação.
Que se dissipou, não era poesia.
Que se partiu, cristal não era.
Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência, se obscuros. Calma, se te provocam.
Espera que cada um se realize e consume
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.
Não forces o poema a desprender-se do limbo.
Não colhas no chão o poema que se perdeu.
Não adules o poema. Aceita-o
como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada
no espaço.
Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave?
Repara:
ermas de melodia e conceito,
elas se refugiaram na noite, as palavras.
Ainda úmidas e impregnadas de sono,
rolam num rio difícil e se transformam em desprezo.
Considerando o que foi discutido até então sobre a representação referencial no texto literário (como a arte busca representar a "realidade"), assinale a alternativa que melhor contempla as ideias pós-estruturalistas a partir de uma análise crítica do poema de Carlos Drummond de Andrade.
Questão 1Resposta
a.
O texto poético, ao propor que não se façam poemas sobre acontecimentos, está, na verdade, argumentando ironicamente que se façam poemas sobre qualquer assunto, sentimento ou referência à realidade.
b.
O texto poético, ao propor que se adentre o mundo das palavras, defende que o poeta feche-se sempre no mundo surdo e mudo dos signos que, fazendo referência apenas a si mesmos, nunca ultrapassam os limites de um texto canônico por conta de sua indiferença.
c.
O texto poético, ao propor que não se façam poemas sobre acontecimentos, argumenta, ao longo de seu desenvolvimento, que buscar exprimir o real em sua totalidade e à exaustão é uma ilusão ultrapassada, uma ilusão referencial do século XIX.
d.
O texto poético, ao propor que não há criação nem morte na poesia, argumenta, ao longo de seu desenvolvimento, que os personagens literários, na verdade, nunca nascem nem morrem.
e.
O texto poético, ao propor que não se façam versos sobre acontecimentos, propõe que a literatura é o registro da história humana por excelência e, por isso, não deve nunca tratar de fatos sociais de menor importância.
Questão 2
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Texto da questão
O início do século XX foi marcado pelo surgimento de significativas correntes literárias, tais como o estruturalismo, cujo o procedimento consiste em:
Questão 2Resposta
a.
análise da obra literária, levando em consideração os aspectos sociais presentes nessa construção textual, para identificar como a literatura reflete seu contexto de produção ou até mesmo seu contexto de recepção, ou seja, o momento histórico em que é lida.
b.
investigação dos próprios elementos estruturais do texto e das relações estabelecidas entre um texto e determinadas estruturas linguísticas, sociológicas ou psicanalíticas, por exemplo. Por isso, tem muita repercussão não apenas no campo literário, mas em diversos outros campos de investigação.
c.
processo de investigação da obra por meio da análise estética e histórico-social para, posteriormente, investigar a estrutura textual pela perspectiva linguística e seus recursos expressivos.
d.
análise dos aspectos estruturais das construções literárias por meio de elementos internos e externos textuais, assim como os efeitos que a obra provoca de acordo com os recursos linguísticos presentes nela.
e.
observação não somente do que o texto diz (seu conteúdo), mas também de seus meios de funcionamento e processos (sua forma) que desencadeiam em seu desfecho, ou seja, no clímax ou na resolução do problema inicial.
Questão 3
Correto
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Texto da questão
Dentre as principais correntes teóricas surgidas nos primeiros anos do século XX, uma se destacou por conceber a literatura como uma função da linguagem, a qual enfatizava a própria mensagem. A seguir, marque a opção que compreende a crítica referida e seu enfoque principal:
Questão 3Resposta
a.
O new criticism se ocupava das propriedades literárias de uma obra a partir de sua relação com o contexto social, ou seja, sua função política ou social para uma determinada cultura. Surgiu nos Estados Unidos e chegou ao Brasil por meio de estudos históricos da literatura, baseando-se na interpretação das obras a partir de seus elementos exteriores.
b.
O formalismo russo investigava o próprio texto literário, considerado como um uso especial da linguagem, cuja forma e organização poderiam ser descritas e explicadas. O formalismo procurou identificar as especificidades da linguagem poética, ou seja, a sua função poética.
c.
O formalismo russo investigava a função emotiva da linguagem e foi a primeira corrente a identificar que a literatura se diferenciava das outras linguagens por sempre se voltar à expressão de emoções e pensamentos. Por isso, os formalistas se dedicaram ao estudo, principalmente, da poesia lírica.
d.
O estruturalismo analisa a função poética da linguagem a partir da forma como as obras são organizadas e de sua estrutura interna. Por isso, tem como foco principal o estudo das diferenças entre os gêneros literários, mostrando como em poemas e narrativas, por exemplo, a literatura alcança efeitos distintos.
e.
O pós-estruturalismo foi uma revisão do estruturalismo e uma crítica a essa corrente. O pós-estruturalismopriorizava a função poética da linguagem, e não apenas a estrutura ou os mecanismos internos das obras. Afastava-se também de conceitos desenvolvidos, como oposições ou binarismos (como literatura e não literatura, ou natureza e cultura).
Questão 4
Correto
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Texto da questão
A teoria literária e a crítica literária são dois dos principais campos de estudo da literatura. Ambas voltam um olhar atento sobre essa arte e investigam as diversas leituras que podem ser feitas desses textos. Quais são as principais diferenças, porém, entre esses campos?
Questão 4Resposta
a.
A teoria da literatura investiga formas que partem, principalmente, da linguagem dos textos literários para formular hipóteses de leitura. Por isso, é essencialmente um campo da linguística. No entanto, a crítica parte do conteúdo desses textos e os relaciona aos seus contextos de produção e aos seus autores, ou seja, procura interpretar as obras a partir da biografia do autor ou do vínculo com o período histórico em que foram escritas.
b.
A teoria da literatura e a crítica diferenciam-se apenas pela maneira como se propõem a ler a literatura. Enquanto a primeira parte da estrutura dos textos literários de uma comunidade em particular para analisá-los, a segunda lê e interpreta cada texto individualmente e separadamente de seu contexto de produção ou dos outros textos produzidos por aquela mesma comunidade.
c.
A teoria da literatura investiga as possíveis formas de se ler e interpretar o texto literário, assim como os métodos de estudo e os conceitos que acompanham as transformações das obras ao longo do tempo. A crítica parte desses aportes teóricos e metodologias, mas também acaba fornecendo ferramentas de análise do texto literário à teoria. Da mesma forma, a crítica promove discussões que podem ir além do literário e chegar à sua relação com a sociedade e com questões ideológicas e culturais, por exemplo.
d.
A teoria da literatura é o conjunto de críticas desenvolvidas acerca dessa arte ao longo do tempo, como o formalismo russo, o new criticism e o estruturalismo, e depende deles para formular maneiras corretas de se ler as obras. A crítica literária investiga conceitos e métodos de estudos sobre a literatura e fornece essas ferramentas às diversas teorias, as quais são utilizadas de formas diferentes em cada abordagem.
e.
A teoria da literatura parte de outros campos de conhecimento, como a filosofia e as ciências sociais, para investigar as formas mais apropriadas de se ler e interpretar obras literárias, assim como as formas de compô-las. Todavia, a crítica atém-se apenas à literatura e aborda as formas como ela é lida pelos leitores e compreendida diferentemente nas diversas culturas. Também se especializa nos conceitos que envolvem o fazer literário.
Questão 5
Correto
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Texto da questão
 
A lendária Semana de Arte Moderna de 1922, ocorrida em São Paulo, formou uma geração artística preocupada com a afirmação da cultura nacional, expressão de um grito de autonomia de um país ex-colônia que, havia poucas décadas, tornara-se uma república independente, "moderna", e que queria se afirmar como tal, cessando a importação (imitação e reprodução) artística da Europa. Uma das vozes mais ácidas, impactantes e chamativas desse movimento foi, sem dúvida, Oswald de Andrade, um poeta irônico, certeiro, popular e extremamente crítico. Muitos de seus textos poéticos, assim como os de Bandeira, giravam em torno de questões estilísticas, como no caso do texto a seguir, a respeito das variações culta e vernacular (cotidiana, ordinária) do português brasileiro:
PRONOMINAIS
Dê-me um cigarro
Diz a gramática
Do professor e do aluno
E do mulato sabido
Mas o bom negro e o bom branco
Da Nação Brasileira
Dizem todos os dias
Deixa disso camarada
Me dá um cigarro.
A partir do poema modernista de Oswald de Andrade e do que foi discutido a respeito dos trabalhos de Michel Foucault sobre a arqueologia discursiva dos saberes, além da desconstrução, de Jacques Derrida, assinale a alternativa que melhor contempla uma interpretação crítica pós-estruturalista desse texto poético.
Questão 5Resposta
a.
No texto poético de Oswald de Andrade, há a análise arqueológica e histórica do discurso gramatical desde o início da modernidade até o uso contemporâneo do português brasileiro, o que explora como a norma padrão do uso de pronomes é a representação correta do real cotidiano.
b.
No texto poético de Oswald de Andrade, há a desconstrução das relações sociais de "negros" e "brancos", uma vez que essas minorias estão alienadas à progressão arqueológica do conhecimento gramatical a respeito da verdadeira representação linguística da realidade cotidiana.
c.
No texto poético de Oswald de Andrade, há a desconstrução das relações de poder estabelecidas pela gramática normativa, uma vez que, em sua progressão histórica de conhecimento, ela é a verdadeira representação linguística da realidade, no caso, o pedido de um cigarro.
d.
No texto poético de Oswald de Andrade, há a desconstrução da identidade de "negro" e "branco" a partir do uso arbitrário que esses sujeitos fazem da língua portuguesa, sem se preocuparem com o referente da linguagem cotidiana, ao contrário do que propõe a gramática.
e.
No texto poético de Oswald de Andrade, há a desconstrução da dicotomia entre o uso correto e o incorreto da língua portuguesa, tal qual propõe a gramática normativa, bem como a desconstrução crítica das relações institucionais de saber, dando a entender que é essa arbitrariedade (histórica e externa à língua) que valida o discurso da norma gramatical.
Questão 6
Correto
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Texto da questão
Conceitos como os de literariedade foram muito importantes no desenvolvimento da teoria e da crítica e ainda são utilizados de formas específicas nesses campos. Como surgiu esse termo e a que se refere?
Questão 6Resposta
a.
A literariedade foi um termo cunhado no formalismo russo na tentativa de identificar propriedades presentes nas obras literárias que as diferenciassem de outros discursos produzidos na sociedade, como a fala cotidiana, os livros de história ou outros textos. Ou seja, é a peculiaridade que faz dessa arte a literatura, que a distingue dessas outras produções.
b.
A literariedade surgiu com a criação do campo de crítica literária no Brasil e foi cunhada por Antonio Candido. O teórico se propôs a descrever o nascimento dessa arte no país e percebeu que o que diferenciava a literatura das manifestações literárias era justamente a presença dessa característica peculiar pertencente só à literatura: a literariedade.
c.
Literariedade é o mesmo que ambiguidade. Ambas foram criadas pelo new criticism e são formas encontradas especificamente no discurso literário, que fazem dele único. Esses conceitos referem-se ao duplo sentido que se encontra em qualquer obra literária e que garante múltiplas leituras, ou diferentes sentidos, às mesmas expressões.
d.
A literariedade foi um termo criado pelo formalismo russo, porém utilizado também no new criticism. Refere-se a uma característica da literatura que a torna legível por diferentes públicos mesmo depois de passado muito tempo da criação de uma obra. Depois, esse termo foi substituído pela palavra “cânone”.
e.
Esse conceito é desenvolvido pelos estruturalistas como forma de comparar as estruturas de diversas obras a partir de características comuns, para, então, identificar as suas diferenças. A literariedade seria essa base comum, isto é, o que torna a literatura algo especial e valorizado socialmente.
Questão 7
Correto
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Texto da questão
Manuel Bandeira foi, sem dúvida, um dos maiores poetas modernistas do Brasil. O escritor e intelectual paulistano, modernista veterano da Semana de 22, trazia consigo a verve da crítica mais radicalizada da primeira fase desse movimento tupiniquim e antropofágico. Ele foi inspiração e fonte de referência para as gerações posteriores, a que pertenceram João Cabral de MeloNeto e Carlos Drummond de Andrade. Seus textos variavam entre a crítica e a reflexão estética sobre a arte, em especial a crítica aos parnasianos e realistas do século XIX; e temas cotidianos da realidade urbana, às vezes misturados ao amor e, muitas vezes, à morte, os quais foram dois grandes signos de sua obra lírica.
Por conta disso, Manuel Bandeira é um autor indispensável no currículo didático de Literatura e Língua Portuguesa do Ensino Médio no país. Leia, a seguir, um rico poema do "professor" modernista para ser trabalhado em sala de aula:
POÉTICA
Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente protocolo e manifestações de apreço ao Sr. diretor.
Estou farto do lirismo que para e vai averiguar no dicionário o cunho vernáculo de um vocábulo.
Abaixo os puristas.
Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis
Estou farto do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítico
De todo lirismo que capitula ao que quer que seja fora de si mesmo.
De resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de co-senos secretário do amante exemplar com cem modelos de cartas e as diferentes maneiras de agradar às mulheres, etc.
Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbados
O lirismo difícil e pungente dos bêbados
O lirismo dos clowns de Shakespeare.
– Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.
Considerando que você é um professor de Literatura em sala de aula, qual condução didática seria mais adequada para se trabalhar esse texto poético de Manuel Bandeira com a turma, levando em consideração o que foi discutido sobre as teorias pós-estruturalistas?
Questão 7Resposta
a.
Mostrar aos alunos que o estilo poético modernista está preocupado com a forma lírica e com a representação fidedigna do referente, bem como realçar a preocupação com um único e verdadeiro sentido para o texto literário, isso se ele seguir devidamente a métrica clássica.
b.
Mostrar aos alunos o estilo poético modernista, que não está preocupado com a forma nem com a representação do referente, bem como realçar a desconstrução do cânone literário presente no texto, sua intertextualidade, e considerar as leituras possíveis levantadas pela turma, discutindo-as coletivamente.
c.
Mostrar aos alunos que o estilo poético modernista está preocupado com a forma lírica e com a representação fidedigna do referente, bem como realçar a desconstrução do sujeito lírico, que passa a ser representado por minorias sociais, uma vez que essa era a intenção discursiva de Manuel Bandeira.
d.
Mostrar aos alunos que o estilo poético modernista está preocupado com a forma lírica e com a representação fidedigna do referente, bem como realçar a desconstrução do cânone literário presente no texto, sua intertextualidade e preocupação com as minorias civis.
e.
Mostrar aos alunos o estilo poético modernista, que não está preocupado com a forma nem com a representação do referente, bem como realçar a desconstrução do cânone literário presente no texto, sua intertextualidade, e levar a turma a compreender o que Manuel Bandeira quis dizer com esse poema.
Questão 8
Correto
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Texto da questão
O new criticism é uma corrente de crítica literária que surgiu na primeira metade do século XX. A seguir, marque a opção que melhor descreve essa corrente:
Questão 8Resposta
a.
Dá ênfase aos aspectos formais das construções literárias, defendendo que os estudos literários devem se voltar à literatura, e não prioritariamente a fatores externos. Procura-se, assim, valorizar a qualidade estética da obra e as suas características específicas.
b.
Analisa a linguagem literária a partir das normas estabelecidas para sua análise pela estética, procurando descrever objetivamente a qualidade do texto e a sua capacidade de sobrevivência na história.
c.
Relaciona-se com outros campos científicos, tais como psicologia e linguística, para explicar como ocorre o fenômeno literário na sociedade e como é percebido e compreendido pelos leitores.
d.
Tem como fundamento verificar as relações entre a literatura e o contexto histórico, valendo-se dessa base para compreender as obras literárias.
e.
Apresenta como princípio a análise crítica que relaciona os seguintes elementos: linguagem, identidade e sujeito. Por isso, recebe esse nome, nova crítica, pois é a primeira corrente que reconhece o papel da literatura para formação da identidade e da subjetividade.
Questão 9
Incorreto
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Texto da questão
Nem todos os poetas modernistas estavam despreocupados com a forma do texto literário. Dentre eles, João Cabral de Melo Neto, conhecido por seu estilo neoparnasiano, de métrica e rimas impecáveis, além de sonoras, e um lirismo magistral, embora seus temas sejam genuinamente modernistas, como questões sociais e regionais, relacionadas à realidade do Nordeste brasileiro e sua estrutura política coronelista e latifundiária. As populações ribeirinhas e as tensões socioeconômicas relacionadas à industrialização do Nordeste também são grandes temas abordados pelo poeta, o que faz com que "o rio" seja um signo alegórico comumente usado em seus textos.
Considerando o que foi apresentado nesta Unidade sobre as teses pós-estruturalistas e sua relação com o estilo estético modernista, leia a seguir um poema de João Cabral de Melo Neto e assinale a alternativa que corresponde, de maneira mais coerente, a sua interpretação pós-estruturalista.
RIOS SEM DISCURSO
Quando um rio corta, corta-se de vez
o discurso-rio de água que ele fazia;
cortado, a água se quebra em pedaços,
em poços de água, em água paralítica.
Em situação de poço, a água equivale
a uma palavra em situação dicionária:
isolada, estanque no poço dela mesma,
e porque assim estanque, estancada;
e mais: porque assim estancada, muda,
e muda porque com nenhuma comunica,
porque cortou-se a sintaxe desse rio,
o fio de água por que ele discorria.
O curso de um rio, seu discurso-rio,
chega raramente a se reatar de vez;
um rio precisa de muito fio de água
para refazer o fio antigo que o fez.
Salvo a grandiloquência de uma cheia
lhe impondo interina outra linguagem,
um rio precisa de muita água em fios
para que todos os poços se enfrasem:
se reatando, de um para outro poço,
em frases curtas, então frase e frase,
até a sentença-rio do discurso único
em que se tem voz a seca ele combate.
Questão 9Resposta
a.
O texto desconstrói a noção cumulativa e progressiva do saber e dos fatos históricos, tal qual propôs Michel Foucault.
b.
O texto debate uma crise de identidade do sujeito contemporâneo, representado pela água do rio, tal qual o sujeito dos movimentos sociais da década de 1960.
c.
O poema trata do dialogismo inerente à linguagem, tal qual proposto por Bakhtin, e da consequente intertextualidade do texto poético, como a concebeu Julia Kristeva.
d.
O texto desconstrói a unidade de autor, tal qual propõe Roland Barthes em seu trabalho S/Z.
e.
O texto desconstrói a forma poética parnasiana, tal qual propôs Jacques Derrida em seu trabalho filosófico.
Questão 10
Correto
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Texto da questão
Filho do grande historiador e sociólogo Sérgio Buarque de Holanda, autor do célebre livro Raízes do Brasil, o poeta carioca Chico, de sobrenome homônimo ao do pai, tem grande reconhecimento pelas letras líricas, cultas e politizadas que compõem sua música. Além da MPB, Chico também é reconhecido por sua escrita literária de romances e dramas teatrais, dentre eles, Budapeste, Leite derramado e O irmão alemão, sendo considerado pela crítica um grande poeta e romancista contemporâneo.
A seguir, há uma canção composta pelo poeta em 1978, em plena ditadura, célebre pelo jogo metafórico, irônico e ambíguo que a permitiu passar pela censura dos militares.
CÁLICE
Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue
Como beber dessabebida amarga
Tragar a dor, engolir a labuta
Mesmo calada a boca, resta o peito
Silêncio na cidade não se escuta
De que me vale ser filho da santa
Melhor seria ser filho da outra
Outra realidade menos morta
Tanta mentira, tanta força bruta
Como é difícil acordar calado
Se na calada da noite eu me dano
Quero lançar um grito desumano
Que é uma maneira de ser escutado
Esse silêncio todo me atordoa
Atordoado eu permaneço atento
Na arquibancada pra a qualquer momento
Ver emergir o monstro da lagoa
De muito gorda a porca já não anda
De muito usada a faca já não corta
Como é difícil, pai, abrir a porta
Essa palavra presa na garganta
Esse pileque homérico no mundo
De que adianta ter boa vontade
Mesmo calado o peito, resta a cuca
Dos bêbados do centro da cidade
Talvez o mundo não seja pequeno
Nem seja a vida um fato consumado
Quero inventar o meu próprio pecado
Quero morrer do meu próprio veneno
Quero perder de vez tua cabeça
Minha cabeça perder teu juízo
Quero cheirar fumaça de óleo diesel
Me embriagar até que alguém me esqueça
Essa letra poética é também um grito de resistência contra um regime político que, repressor e autoritário, censurava músicas e obras artísticas, bem como prendia e torturava compositores nacionais. Foi nesse contexto que o músico e poeta escreveu esse texto rico em polissemia e intertextualidade.
A partir do que foi estudado a respeito das teorias pós-estruturalistas e, em específico, da desconstrução do signo linguístico, assinale a alternativa que melhor aplica esse conceito filosófico ao "cálice".
Questão 10Resposta
a.
Segundo Derrida, a desconstrução do signo linguístico de Saussure se dá entre dois significantes, de modo que a diferença entre essas duas imagens acústicas não é suficiente para que remetam a um significado estável. Assim, "cálice" é desconstruído em sua ambiguidade, remetendo ao profano e ao sagrado, uma vez que é homófono de "cale-se", marca da repressão durante a ditadura militar brasileira.
b.
Segundo Derrida, a desconstrução do signo linguístico de Saussure se dá entre duas palavras de grupos semânticos opostos. É nesse sentido que o significante "cálice" é desconstruído, uma vez que o texto poético estabelece uma dicotomia clara entre os significantes "santa" e "pecado".
c.
Segundo Derrida, a desconstrução do signo linguístico de Saussure ocorre de forma totalmente histórica e política. É nesse sentido que o significante "cálice" é desconstruído: o universo religioso ao qual remete não combina com o universo político implicitamente descrito na música.
d.
Segundo Derrida, a desconstrução do signo linguístico de Saussure se dá entre dois significados que não podem ser correspondentes entre si a partir de uma consulta ao dicionário. É nesse sentido que o significante "cálice" é desconstruído, uma vez que as imagens de vinho e sangue não pertencem a um mesmo grupo semântico.
e.
Segundo Derrida, a desconstrução do signo linguístico de Saussure se dá entre dois significantes, no sentido de que são desdobrados em outros significantes ao longo do texto poético. É nesse sentido que "cálice" é desconstruído em várias ações correlatas, como "inventar", "morrer", "beber", "cheirar" e "embriagar".
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