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O conto no Brasil e em Portugal: ascensão e transformações Apresentação O gênero textual conto, diferentemente do romance, é mais reduzido, mas não menos fascinante. Ele se desenvolveu de modo único no Brasil e em Portugal, a partir de aspectos da cultura e da história típicos de cada um desses países e épocas. Vários escritores, a exemplo de Edgar Allan Poe, já teorizaram a respeito desse gênero. Agora, você vai estudar acerca da difusão e do desenvolvimento dele, sobretudo no Brasil e em Portugal. Nesta Unidade de Aprendizagem, você compreenderá os elementos sociais, culturais e históricos responsáveis pela disseminação do conto em terras brasileiras e lusitanas. Além disso, conhecerá os contistas que mais se destacaram nesses dois países e suas principais obras. Bons estudos. Ao final desta Unidade de Aprendizagem, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Explicar como a produção de contos se difundiu no Brasil e em Portugal.• Reconhecer alguns dos principais contistas portugueses e brasileiros.• Analisar, criticamente, contos de autores brasileiros e portugueses.• Desafio O conto é um dos gêneros literários mais reinventados atualmente. Embora ele seja muito produzido hoje, a sua difusão impressa, seja em terras brasileiras ou lusitanas, só ocorreu a partir do século XIX. A seguir, leia um caso que envolve o assunto conto. Neste Desafio, como você explicaria aos leitores e alunos, por meio do texto a ser publicado na revista, a respeito da disseminação do gênero conto escrito, comparando o Brasil em meados do século XIX com o atual? Ao escrever sobre o assunto, considere os elementos sociais e tecnológicos de cada época. Infográfico Devido a aspectos singulares, a difusão do gênero literário conto ocorreu de modo distinto tanto em Portugal quanto no Brasil, ainda mais considerando diferenças históricas, culturais e políticas entre os dois países. Enquanto a tradição literária portuguesa é mais antiga, uma vez que o país já existia desde o século XV, tendo várias mudanças ao longo do tempo, a brasileira passou por um período de colonização lusitana, sofrendo, assim, influência daquele país na sua própria produção cultural. Dessa forma, antes na forma oral, difundida pelos povos tradicionais, a literatura passou também a ser impressa. Neste Infográfico, você vai reconhecer, por uma linha do tempo, as principais diferenças da disseminação do conto em Portugal e no Brasil a partir dos seus respectivos elementos históricos, culturais e políticos. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. https://statics-marketplace.plataforma.grupoa.education/sagah/61d7d858-fef1-4366-8308-99db9815afca/2f8a1a32-1e9a-4d59-967f-03e54783b630.png Conteúdo do livro O gênero textual conto, embora tenha uma narrativa reduzida e sintetizada em comparação com outros gêneros literários, a exemplo do romance, da novela etc., tem uma singularidade própria e instigante. Tanto no Brasil quanto em Portugal, muito do desenvolvimento desse gênero foi em função de aspectos culturais e históricos, típicos de cada época. Por conta disso, contistas de ambos os países puderam, a partir das narrativas curtas, aplicar novas formas de se contar histórias, angariando ainda mais novos leitores ao longo do tempo. No capítulo O conto no Brasil e em Portugal: ascensão e transformações, da obra Estudos de literatura - análise da narrativa em suas diversas manifestações, base teórica desta Unidade de Aprendizagem, você vai estudar sobre a maneira pela qual o conto se difundiu no Brasil e em Portugal, conhecer os principais autores e autoras, bem como ver análises de contos escolhidos. Boa leitura. ESTUDOS DE LITERATURA - ANÁLISE DA NARRATIVA EM SUAS DIVERSAS MANIFESTAÇÕES Leonardo Teixeira de Freitas Ribeiro Vilhagra O conto no Brasil e em Portugal: ascensão e transformações Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Explicar como a produção de contos se difundiu no Brasil e em Portugal. Reconhecer alguns dos principais contistas portugueses e brasileiros. Analisar criticamente contos de autores brasileiros e portugueses. Introdução Tanto em Portugal quanto no Brasil, o gênero textual que viria a ficar conhecido como conto se desenvolveu de maneira singular, em função de particularidades culturais e históricas típicas de cada local e época. Seja como for, com o passar do tempo, dos dois lados do Atlântico os autores puderam, a partir das narrativas curtas, evoluir novas formas de se contar histórias. Neste capítulo, você vai estudar o surgimento do gênero literário conto no Brasil e em Portugal. Assim, em um primeiro momento co- nhecerá características que foram decisivas para a difusão do conto em terras brasileiras e portuguesas. Em seguida, estudará os autores que mais se destacaram nesse tipo de produção literária. Por fim, encontrará análises críticas de contos brasileiros e portugueses, a partir do que poderá você mesmo construir interpretações desses e de outros textos desse gênero literário. 1 A difusão do gênero conto no Brasil e em Portugal Embora esse gênero seja relativamente novo na história da literatura mun- dial, vários escritores e escritoras desenvolveram narrativas curtas, mas, parafraseando Cortázar, intensas o bastante para dar um nocaute nos leitores e nas leitoras. Assim, neste tópico, você verá como se confi gurou a difusão do conto tanto em terras brasileiras quanto em terras lusitanas. Inicialmente, vamos começar por um panorama dessas transformações em nosso país. O conto no Brasil A disseminação da produção de contos em terras brasileiras pode ser dividida, segundo Teles (2002), em quatro fases específi cas, sendo que cada uma delas possui características próprias, as quais nos ajudam a entender a maneira pela qual esse gênero literário se difundiu em nosso território. Conforme essa análise, a primeira delas é a fase da formação (1530 até 1850), depois a da transformação (1855 até 1882), em seguida a da confi rmação (1882 até 1967) e, por fi m, a da atualidade. A fase da formação compreende o início do Brasil Colônia (1530) até por volta de 1850. Para Teles (2002), ela é perpassada pelo conto em sua moda- lidade oral até o surgimento da imprensa em solo brasileiro e, por sua vez, a publicação dos primeiros contos impressos. Ainda segundo Teles (2002), essa fase se subdivide em três momentos: 1. Os “embriões de narrativas”, transcritos nas obras de viajantes e catequistas a partir de breves amostras de narrativas orais, princi- palmente dos índios. Isto é, mesmo antes de 1500 e da colonização europeia, já existiam narrativas orais dos povos tradicionais em terras brasileiras, que por isso poderiam ser entendidas como em- briões do conto. 2. O advento dos jornais e, com eles, da publicação de narrativas curtas, traduzidas, adaptadas e em forma de alegorias políticas e satíricas. 3. A publicação de Noite na Taverna, de Álvares de Azevedo (1831–1852), livro póstumo, publicado em 1855. É nessa fase que os escritores de- senvolvem a linguagem literária e se conscientizam de uma literatura nacional. Até então, os termos conto, novela, romance e ensaio costu- mam ser usados como sinônimos. O conto no Brasil e em Portugal: ascensão e transformações2 É interessante ressaltar o papel que a imprensa teve, sobretudo do meio para o final dessa fase. Caso você queira saber mais detalhes sobre o surgimento da imprensa no Brasil Imperial, vale a pena assistir ao vídeo intitulado “Imprensa no Período Regencial”, publicado pelo canal Academia de História no YouTube. Isso se justifica, uma vez que a publicação de contos impressos estava então diretamente ligada aos jornais. Inclusive, como nos mostra Ogliari (2010, p. 96), praticamente: “[...] todos os contistas da época tinham o jor- nalismo como profissão, e a necessidade da expressão literária encontrava [...] o limite do curtoespaço de um jornal ou de um folheto, explicando o tamanho reduzido das narrativas e a escolha pelo gênero”. A etapa seguinte foi a fase da transformação (1855 até 1882). Ela contempla o período regencial e o Segundo Reinado durante o Império. Nessa época, o Brasil, embora tivesse seu território consideravelmente rural, viu seus centros urbanos crescerem, fato que implicou no desenvolvimento do público leitor. Em virtude disso, o consumo de obras literárias foi impulsionado, incluindo na forma de conto (SILVA, 2009). Nesse contexto, os autores de tais peças literárias deixaram de ser exclusivamente jornalistas e começaram a surgir as primeiras editoras, as quais viriam a publicar contos em livro impresso, embora tais gêneros literários ainda fossem expostos principalmente em jornais. A fase da confirmação (1882 a 1967) é o período em que, segundo Teles (2002), o conto se consolida como gênero literário próprio. Nessa época, a urbanização brasileira se acentua, principalmente no início do século XX. Isso estabeleceu uma grande massa trabalhadora nas cidades, exigindo, dentre outras demandas, uma formação educacional específica. Por conta disso, o processo de escolarização não apenas abrandou o analfabetismo como também impulsionou o público leitor dessa época. Somado a isso, as editoras nacionais foram expandidas. Aliás, Silva (2009, documento on-line) comenta que: “Nesse contexto, houve o desenvolvimento expressivo da indústria do livro no Brasil, que teve em Lobato um dos mais arrojados representantes”. Porém, com a ditadura militar instaurada a partir de 1964, os escritores e artistas de maneira geral sofreram censura e perseguições, afetando a produção de novos contos. 3O conto no Brasil e em Portugal: ascensão e transformações Por último, temos a fase da atualidade. Conforme Telles (2002), nessa fase, com a redemocratização, retomam-se as criações de narrativas curtas, além do que as editoras nacionais se consolidam como principais fontes de publicação dos contos, tomando o lugar que outrora era dos jornais. Inclusive, nesse período houve um crescimento considerável de autores nacionais. Todavia, conforme aponta Ogliari (2010), as mídias digitais passaram a ser uma via alternativa para a difusão, sobretudo em blogs e até em perfis no Twitter ou no Facebook, bem como em redes sociais próprias para autores e leitores. Ademais, essas promoveram uma democratização no que diz respeito ao acesso e à divulgação de novos autores, coexistindo com os livros impressos. Se quiser saber mais sobre as redes sociais nas quais autores publicam seus contos, veja a seguir uma lista das principais: Wattpad; Minhateca (dentro do Twitter); Skoob. O conto em Portugal A difusão dos contos em Portugal já marcava presença desde o século XII, no período do feudalismo, sendo que isso ocorria tanto na sua modalidade falada quanto na modalidade escrita. Aliás, sobre esse último ponto, Braga (1914, p. 7) comenta que: [...] os primeiros documentos literários em prosa foram contos traduzidos do árabe e com uma intenção moral exclusiva. Com as correntes cultas de outros elementos medievais, como os trovadores da Provença, os jograis franceses e menestréis bretões, alargaram-se as fontes literárias dos contos, estabelecendo-se essa unanimidade de sentimento da civilização ocidental. Vale frisar também que os meios de publicação das narrativas curtas por escrito praticamente se limitavam a pergaminhos, geralmente encomendados por nobres e produzidos sobretudo por copistas da Igreja Católica. Dificilmente a população campesina tinha acesso a tais documentos escritos. O conto no Brasil e em Portugal: ascensão e transformações4 Já no século XV, iniciando a Era Moderna, houve a consolidação do Estado Português, sobretudo na figura de D. João I (Figura 1), o qual, segundo Moisés (2006, p. 31), iniciou uma “[...] franca e profunda renovação da cultura portuguesa. Rei culto, determinado, empreendedor, estendeu logo o significado régio ao desen- volvimento das Letras”. Isso acentuou a formação de um público leitor português não restrito à corte e aos clérigos, bem como provocou a laicidade da publicação e da circulação de obras literárias, incluindo das narrativas curtas portuguesas. Figura 1. Dom João I, o Mestre de Avis. Fonte: Anjos (2013, documento on-line). No século XVI, essa tendência se expandiu por Portugal. Em função disso, ainda que de forma manual, a confecção de livros foi aumentando, sendo que os autores puderam ter novas possibilidades de publicar seus escritos. Além disso, de acordo com Abreu (1993), foi nessa época que surgiram também as folhas volantes, narrativas escritas em papéis avulsos, muito comum nas feiras livres, indicando a popularização dos contos. Essa tendência persistiu até o início do século XIX. Porém, com a indus- trialização de Portugal, houve um avanço da urbanização dos grandes centros lusitanos. Um dos desdobramentos disso foi a criação e expansão das editoras, aumentando a circulação dos livros impressos. Em função disso, de acordo com Moisés (2006), na transição do século XIX para as primeiras décadas do XX, uma nova forma de publicação de contos escritos se estabeleceu: os jornais e revistas. Vale destacar, segundo Sapega (1993), a Revista Presença, 5O conto no Brasil e em Portugal: ascensão e transformações cuja primeira edição foi lançada na década de 1920. Somado a isso, nesse contexto, também as primeiras escritoras portuguesas começaram a publicar suas produções literárias nesses veículos. Assim, com todas essas possibilidades disponíveis, a produção das narrativas curtas cresceu fortemente. Todavia, esse cenário foi abalado com o golpe militar de 1926, abrindo espaço para a ditadura de António de Oliveira Salazar. Esse regime de censura e de perseguição — inclusive, de escritores —terminaria apenas com a Revo- lução dos Cravos, em 1974. Isso afetou a produção dos contistas portugueses, fato comentado por Roani (2004, documento on-line): A anulação das amarras impostas à atividade artística implicou em uma nova organização editorial, no apoio das novas entidades públicas à produção artística, na implantação de prêmios literários e, principalmente, na livre manifestação dos autores, anteriormente silenciados pelo antigo regime. Da década de 1980 até a atualidade, ocorreu em Portugal um processo pare- cido como o testemunhado Brasil, no que diz respeito à disseminação do conto. Após o período ditatorial, houve um processo de redemocratização, fazendo com que os autores e o público leitor pudessem produzir e consumir os contos como antes. Além disso, com o avanço da tecnologia digital e da banda larga, os autores puderam, além das próprias editoras e jornais, contar com a internet para publicar seus contos, proporcionando, dessa maneira, o alcance de novos leitores. 2 Os principais contistas brasileiros e portugueses Agora que já examinamos a maneira pela qual o conto se difundiu no Brasil e em Portugal, vamos conhecer mais sobre alguns dos principais contistas desses dois países. Contistas brasileiros de destaque Aqui, aproveitaremos novamente as quatro fases propostas por Telles (2002), a começar pela fase da formação. Nessa época, é inviável abordar os autores de contos orais, pois não há registros disponíveis. Porém, em relação aos escritos, segundo Lima (1971), o primeiro escritor a publicar um conto foi Justiniano José da Rocha, em 26 de novembro de 1836, cujo título é “A caixa e o tinteiro”. No entanto, quem mais se destacou nessa época foi Álvares de O conto no Brasil e em Portugal: ascensão e transformações6 Azevedo, sobretudo a partir do conto “Noite na Taverna”. Além disso, vale destacar, segundo Ogliari (2010), que nessa fase houve uma grande infl uência romântica na produção dos contos, fazendo com que a maioria das temáticas girasse em torno desse movimento literário. Já na fase da transformação surgiram os grandes contistas do final do séc. XIX,a exemplo de Bernardo Guimarães (Lendas e romances), Artur Azevedo (Contos em verso), Coelho Neto (Sertão), Afonso Arinos (Pelo ser- tão), Fagundes Varela (A guarida de pedra) e, sobretudo, Machado de Assis (Contos fluminenses, Histórias da meia-noite e Papéis avulsos). Ainda que houvesse a predominância de obras escritas por homens nessa época, havia também mulheres escritoras, cujas obras foram recuperadas mais recentemente pela crítica, como é o caso de Maria Firmina dos Reis, maranhense e, de acordo com Machado (2019), uma das primeiras romancistas brasileiras. Nas histórias curtas, publicou o conto “A escrava”, de 1887. Também podemos destacar Júlia Lopes de Almeida, que colaborou com o planejamento do que viria a ser a Academia Brasileira de Letras. Escritora carioca, segundo Fanini (2013), dedicou-se a vários gêneros literários (poemas, peças teatrais, romances, etc.). Em relação ao conto, escreveu Contos infantis com sua irmã Adelina, Traços e iluminuras e Ânsia eterna, respectivamente em 1887, 1888 e 1903. Somado a isso, ainda que tenha presença de pautas românticas, temáticas sociais e regionais começam a predominar, sobretudo no final da fase. Por último, é relevante citar Ogliari (2010, p. 101) no que diz respeito à estrutura dos contos iniciada nessa época — em sua visão, tais autores consolidaram: [...] no Brasil a primeira estrutura do conto moderno, a primeira norma mo- derna da contística, silenciando as produções anteriores: o conto de efeito, algo muito próximo do molde trágico do teatro grego, em que o herói traça uma via entre uma desmedida e um reconhecimento, encaminhando-se para um único, explosivo e canalizado final. No entanto, isso viria a destoar significativamente dos contos machadianos, tema que abordaremos mais adiante. Com a fase da confirmação, transição do século XIX para meados do século XX, além de termos a maior inserção das mulheres enquanto autoras, a influência do romantismo se esvai, dando espaço a tendências realistas, naturalistas, simbolistas e modernistas. Isso influencia os motes das histórias curtas, os quais passam a ser dos mais variados, desde abordagens regionalistas, em que os costumes, hábitos e linguagens de uma região são retratados, até de cunho individual, focando no aspecto psicológico e intimista (TELLES, 2002). 7O conto no Brasil e em Portugal: ascensão e transformações Nessa época, alguns dos principais autores são Lima Barreto, Simões Lopes Neto, Alcides Maya, Hugo de Carvalho Ramos, Monteiro Lobato, Adelino Magalhães, Mário de Andrade, Antônio de Alcântara Machado, João Alphon- sus, Graciliano Ramos, Bernardo Élis, Clarice Lispector e Guimarães Rosa. Por fim, na fase da atualidade, Telles (2002, p. 178), afirma que muitos autores surgiram, tais como: Aníbal Machado, Dalton Trevisan, Gerardo França de Lima, Lygia Fagundes Telles, Osman Lins, Autran Dourado, José J. Veiga, Nélida Piñon, Samuel Rawet, João Antônio, Luís Vilella, Roberto Drummond, Rubem Fonseca, Moacyr Scliar, Murilo Rubião, Edilberto Coutinho e muitos outros mais. Podemos citar também que autores e autoras de grupos marginalizados, que antes eram silenciados, agora têm mais condições de se expressar, sem desconsiderar o seu valor esté- tico narrativo. Exemplos disso são Conceição Evaristo e Esmeralda Ribeiro, do movimento negro, Caio Fernando Abreu, Atena Beauvoir Roveda e Natalia Borges Polesso, que discutem questões de gênero e sexualidade, relacionadas também à comunidade LGBTQIA+, bem como Daniel Munduruku, Yaguarê Yamã e Graça Graúna, escritores indígenas. Contistas portugueses de destaque De modo similar ao que vimos no tópico anterior, no início da história da disseminação do gênero conto na literatura portuguesa, essencialmente a partir do século XII, é muito difícil especifi car os autores e autoras das histórias curtas na modalidade oral. Todavia, no século XIV, segundo Braga (1914), houve o primeiro registro de um conto feito por um escritor português, mais precisamente no nobiliário do conde D. Pedro (1344). Em uma versão mais recente, ele foi reescrito pelo autor Alexandre Herculano, ganhando o nome de “A dama pé-de-cabra”. Vale frisar também que as poucas produções de contos por escrito nessa época, uma vez que predominavam as produções líricas, estavam relacionadas ao trovadorismo, abarcando temáticas associadas ao cotidiano da nobreza, como o amor por uma donzela, uma batalha entre cavaleiros, etc. No século XV, segundo Moisés (2006), as produções literárias, dentre elas as que foram desenvolvidas no gênero conto, tinham forte influência O conto no Brasil e em Portugal: ascensão e transformações8 do humanismo. Em função disso, as temáticas abordavam registros dos principais fatos históricos portugueses e também situações que envolviam dilemas e comportamentos humanos. Nessa época, os principais contis- tas foram Fernão Lopes, Gomes Eanes Azurara, Rui de Pina e Gonçalo Fernandes Trancoso. Já do século XVI até o XVIII, houve uma sucessão de movimentos literá- rios, sendo que seus escritores não privilegiaram tanto as narrativas curtas. No contexto do barroco português, merecem destaque Rodrigues Lobo e D. Francisco Manuel de Melo. Porém, a partir do século XIX esse cenário mudou. Com a ascensão do romantismo no início do século, as obras feitas em prosa começaram a ganhar destaque entre os escritores. Em virtude disso, o conto adquiriu espaço nesse novo contexto. Assim, podemos evidenciar os seguintes autores: Almeida Garrett, Alexandre Herculano, Soraes de Passos e Camilo Castelo Branco. Ainda nesse viés, porém em meados do século XIX, surgiu o realismo português, a fim de fazer frente aos autores românticos. Os contistas que despontam nessa época são Fialho de Almeida, Abel Botelho, Francisco Teixeira de Queirós, Trindade Coelho e, principalmente, Eça de Queirós, o qual abordaremos mais adiante. Nas primeiras décadas do século XX, almejando romper com as estéticas dos movimentos anteriores, segundo Moisés (2006), emerge o modernismo português. Ainda que nos primeiros momentos a poesia tenha sido mais produzida, com destaque para o grande poeta Fernando Pessoa, a narrativa curta foi alvo de uma intensa produção, sobretudo com os autores José Régio, João Gaspar Simões e Branquinho da Fonseca. Em meados da década de 1920, mais precisamente em 1926, ocorreu o golpe de estado de António Salazar, implementando o regime militar em Portugal, que se estendeu até a década de 1970. Nesse período, embora houvesse uma intensa perseguição e censura, ainda persistiram autores de contos. Exemplos disso são Irene Lisboa, Manuel da Fonseca, Fernando Namora, Vergílio Ferreira e António Lobo Antunes. A partir da Revolução dos Cravos (1974), e com a redemocratização nas terras lusitanas, uma renovação cultural é promovida, fazendo com que novos autores e autoras de contos apareçam, como é o caso de Rosa Lobato de Faria, José Cardoso Pires e Almeida Faria. Por fim, desse período até hoje ainda é possível notar o aparecimento de no- vos contistas portugueses, os quais imprimem em suas narrativas curtas temas e propostas inovadoras, inclusive, de acordo com Ribeiro (2012), discussões que envolvem a colonização lusitana na África pelo viés crítico e pós-colonial. 9O conto no Brasil e em Portugal: ascensão e transformações Nesse contexto, podemos destacar Isabela Figueiredo (moçambicana radicada em Portugal), Teolinda Gersão, Agustina Bessa-Luís, José Saramago, Lídia Jorge e Teresa Veiga. 3 Análise de contos brasileiros e portugueses Neste último tópico, você verá algumas análises de obras de contistas brasi- leiros e portugueses. Assim, começaremos destacando Machado de Assis e Rubem Fonseca. Análises de contos brasileiros Machado de Assis Joaquim Maria Machado de Assis é um dos escritores mais relevantes da literatura nacional. Embora o bruxo de Cosme Velho seja muito conhecido pelos romances, a exemplo de Dom Casmurro, Quincas Borba, Memórias Póstumas deBrás Cubas, etc., ele também teve uma produção de contos bastante frutífera, e não menos genial. Assim, faremos aqui um recorte de sua produção, analisando o conto “Missa do Galo”, examinando-o sobretudo pela perspectiva do conceito de “conto de atmosfera”. O conto “Missa do Galo” foi publicado na obra Páginas recolhidas, em 1899. Narrado em primeira pessoa pelo personagem Nogueira, a história curta ambientada no Rio de Janeiro em meados do séc. XIX é o relato da lembrança de um encontro que Nogueira, quando tinha 17 anos, teve com a personagem Conceição, segunda esposa de Menezes, antigo marido de sua prima, a qual morreu. Assim, o protagonista decide esperar um amigo na casa de Menezes antes do começo da missa à meia-noite. Nesse momento, enquanto está na sala lendo um livro, Nogueira percebe a aproximação de Conceição, a qual inicia uma conversa com ele. À medida em que o diálogo avança, o narrador começa a observar ainda mais Conceição, seus trejeitos, seu comportamento, a maneira como está vestida — inclusive que com a manga da camisa desabotoada dava até para notar que “As veias eram tão azuis, que apesar da pouca claridade, podia contá-las do meu lugar” (ASSIS, 1992, p. 203). Após esse intenso jogo de insinuações e desejo, Nogueira ouve pancadas na janela, avisando que a missa estava prestes a começar, interrompendo esse encontro inusitado entre eles. O conto no Brasil e em Portugal: ascensão e transformações10 Isso, para Matos (2012), é um exemplo de “conto de atmosfera”, o qual diz respeito, basicamente, a um jogo entre o dito e não dito, promovendo ambi- guidades na compreensão dos leitores e impedindo uma conclusão definitiva. Tal fato foi inovador e destoa de contos da época, além de encantar leitores e instigar pesquisadores da obra até os dias de hoje. Rubem Fonseca Outro conto de um escritor brasileiro do qual faremos a análise é de Rubem Fonseca. Natural de Juiz de Fora, MG, mudou-se para o Rio de Janeiro, publi- cando diversos romances, bem como uma quantidade considerável de contos, tornando-se um dos maiores autores nacionais. Assim, o conto escolhido é “Orgulho”, o qual está inserido na obra O buraco na parede, de 1995. A narrativa curta (pequena mesmo, de uma página) é feita por um narrador em terceira pessoa, onisciente, o qual nos relata a vida de um homem dos tempos atuais. No início da história, o narrador informa uma série de acontecimentos no período da infância pobre da vida desse homem, principalmente representada pelo buraco na meia que ele tinha, fato que lhe provocava angústia e profundo desdém (FONSECA, 1995). No decorrer dessa enxurrada de lembranças que o narrador nos evidência, ele destaca um episódio em que o protagonista, durante uma consulta médica, recebe uma injeção do médico com uma substância que promove o contraste nas chapas radiográficas, a fim de que o exame das vias urinárias fosse mais eficiente. Todavia, ao recebê-la, o personagem tem uma reação alérgica grave, pro- vocando o fechamento abrupto da sua laringe e uma séria asfixia. Com isso, a enfermeira que presente, em meio ao caos instalado por tal situação, tenta procurar o antialérgico, para salvar o protagonista. Nesse contexto, outras memórias do protagonista surgem na mente dele e são relatadas pelo narrador ao leitor, de modo fragmentado e aleatório. À medida que a situação se agrava, o homem se debate, desferindo golpes na cama de metal do consultório. Vendo a situação piorar, o médico procura despi-lo, a fim de amenizar a situação, começando pelo sapato. No entanto, ao fazer isso, o protagonista percebe que a meia que está vestindo tem um furo, expondo seu dedão do pé e remetendo à sua infância. Diante disso, e imaginando que morreria expondo uma vergonha daquelas, com toda força ele entorta o seu corpo, de modo que a contração da laringe fosse cessada e conseguisse respirar, evitando a morte iminente. 11O conto no Brasil e em Portugal: ascensão e transformações Marca recorrente na produção ficcional de Rubem Fonseca, segundo Coronel (2013), a violência nesse conto é explorada de maneira específica, se comparada a outros contos. Aqui, ela está relacionada ao modo pelo qual o orgulho do perso- nagem atinge um nível inaudito, de modo que ele supera o efeito alérgico causado pela substância de contraste. Nesse sentido, a utilização repetida de conjunções aditivas (“e consciente de que sua morte [...] e naquele momento em que morria [...] e bateu com força na mesa” [FONSECA, 1995, p. 100]) simula a falta de ar do protagonista, intensificando-a, além de tornar esse evento ainda mais real. Análises de contos portugueses Agora, analisemos exemplares de contos de escritores portugueses. Dessa forma, veremos um conto de Eça de Queirós e um de Teresa Veiga. Eça de Queirós José Maria de Eça de Queirós, ou apenas Eça de Queiroz, foi um diplomata e um dos expoentes das letras portuguesas na transição do século XIX para o XX. Muito aclamado pelos seus romances, como O crime do Padre Amaro, O Primo Basílio e Os Maias, ele também foi um excelente contista. Sendo assim, vejamos agora uma análise do conto “Civilização”, publicado em 1892. A história curta, dividida em três partes, inicia-se com o narrador em terceira pessoa descrevendo um amigo, Jacinto, o qual, desde o seu nascimento em um palácio, era cercado de luxo, aristocracia e de todos os benefícios do progresso científico. Porém, na segunda parte do conto, o narrador nos mostra que o protagonista na juventude começa a sentir um vazio e infelicidade com o estilo de vida que levava (QUEIRÓS, 2004). Já na terceira e última parte, o narrador evidencia que Jacinto, depois de refletir acerca da vida que leva, decide se mudar para uma casa localizada ao norte de Portugal, em um solar na zona rural de Torges. Em função dessa mudança, o protagonista sofre uma alteração em seu comportamento. Em meio ao campo e à natureza, ele fica mais disposto, para de fazer reclamações e percebe-se com muito mais ânimo de viver. Dessa forma, o conto “Civilização”, segundo Matter (2008), é uma forma de Eça de Queirós discutir e questionar não apenas a própria civilização portuguesa, mas também a europeia da transição do século XIX para o XX, sobretudo de uma perspectiva decadente. Por isso, muitos teóricos o conside- ram um exemplo de escritor do decadentismo. Para Matter (2008, p. 1), essa corrente literária: O conto no Brasil e em Portugal: ascensão e transformações12 [...] não envolve apenas o sentimento de decadência, comum em determinadas épocas, ou assumido por alguns autores, mas é uma atmosfera personificada pela consciência de que, apesar de todos os avanços científicos, tecnológicos e econômicos ocorridos nesse século, o homem não melhorou. Além disso, por ter apostado no progresso e na crença de que estava nele o dispositivo para o crescimento da sociedade, o sentimento de desilusão com o malogro do projeto foi maior e mais doloroso. No que diz respeito a isso, a leitura do conto demonstra que a vida de Jacinto antes de ir para Torges simboliza os malefícios do progresso da civilização da época, os quais são representados pela vida superficial e deprimida que o protagonista levava. No entanto, a mudança para o interior, provocando uma guinada de Jacinto na direção oposta, representa não apenas os benefícios que o cenário bucólico propiciam a ele, mas também faz uma apologia e alerta aos leitores sobre como o abandono desse tipo de civilização pode sim ser uma alternativa ao ser humano. Teresa Veiga Teresa Veiga é o pseudônimo de uma escritora portuguesa contemporânea, da qual, embora tenha sido agraciada pelo prêmio literário Camilo Castelo Branco em 2009, pouco se conhece sobre sua vida pessoal. Dessa forma, analisaremos o conto “O Maldito, Marianina, e o feitiço da Rocha da Pena”, o último conto da obra Uma aventura secreta do Marquês de Bradomín. O conto é narrado por um personagem sem nome. Em um dado momento, ele é convidado por CarlosSampedro, médico octogenário que já foi amigo do avô do protagonista, a passar um fim de semana na casa do velho senhor em Rocha da Pena, interior de Portugal, pequena cidade que estava em um processo de desapropriação, devido à construção de uma autoestrada (VEIGA, 2011). Na primeira noite em que passa no local, Sampedro relata ao narrador a história da antiga dona da mansão, Marianina. De acordo com ele, a antiga dona fora casada com Rodrigues, mas descobriu que não podia ter filhos. Porém, com o passar do tempo, o marido foi salvo por Cássio, um limpador de fossas e também muito temido pelos moradores da região. Após esse contato, Marianina acabou se envolvendo com o salvador do marido e acabou engra- vidando, gerando o pequeno Gabriel. Em função dessa relação conflituosa, a mãe, atormentada por isso, acaba matando o filho e cometendo suicídio. Depois de ouvir tal episódio, Sampedro convida o narrador a visitar a tumba da antiga dona da casa e, ao chegarem ao local, encontram seu corpo intacto, sem sinais de decomposição, mesmo tendo passado 10 anos de sua 13O conto no Brasil e em Portugal: ascensão e transformações morte. Após esse evento, o narrador começa a notar uma série de eventos sobrenaturais, a exemplo da bandeira negra que está no topo da mansão: “[...] mantinha-se esticada, e as suas pontas chicoteavam o ar com intempestiva violência” (VEIGA, 2011, p. 281), ainda que não houvesse vento. Ao decorrer do conto, Sampedro tenta, a todo custo, fazer com que o narrador seja o dono da mansão, herdando não só o edifício, mas todo o ambiente e eventos insólitos do local. Porém, o protagonista se recusa e, no final, o casarão é demolido. No conto, podemos notar elementos insólitos, indicando uma narrativa fantástica, pois, segundo Todorov (1979), predomina ao mesmo tempo uma busca por uma explicação racional e a aceitação irracional dos eventos so- brenaturais. Além disso, conforme Soares (2017), podemos notar que existe um confronto entre o passado e o futuro, simbolizado pelo embate entre o progresso (autoestrada) e o antigo (o casarão), o protagonista e o médico, o desencantamento do mundo por meio do avanço tecnológico e da ciência e os episódios sobrenaturais e extraordinários. ABREU, Márcia. Cordel português/folhetos nordestinos: confrontos — um estudo histórico- -comparativo. 1993. 2v. Tese (Doutorado em Teoria e História Literária) — Universidade Estadual de Campinas, Instituto de Estudos da Linguagem, Campinas, SP. Disponível em: http://www.repositorio.unicamp.br/handle/REPOSIP/269875. Acesso em: 25 abr. 2019. ANJOS, J. M. T. dos. A Dinastia de Avis: 1385 – 1580. 2013. 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MACHADO, M. H. P. T. Maria Firmina dos Reis: escrita íntima na construção do si mesmo. Estudos Avançados, v. 33, nº. 96, maio/ago. 2019. Disponível em: https:// www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-40142019000200091. Acesso em: 18 jun. 2020. MATOS, E. F. A multiplicidade narrativa e o jogo da sedução nos contos 'Uns Braços' e 'Missa do Galo' de Machado de Assis. Unemat, v. 5, nº. 5, p. 165–166, 2012. MATTER, M. D. S. B. A postura (anti)-dândi e a noção de decadência no conto "Civili- zação" de Eça de Queirós. O Marrare, v. 9, p. 104–116, 2008. MOISÉS, M. Literatura portuguesa. São Paulo: Cultrix, 2006. OGLIARI, I. A poética do conto pós-moderno e a situação do gênero no Brasil. 2010. 184 f. Tese (Doutorado em Letras) — Faculdade de Letras, Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2010. QUEIRÓS, E. de. Civilização. São Paulo: Martin Claret, 2004. RIBEIRO, M. C. 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Assim, os editores declaram não ter qualquer responsabilidade sobre qualidade, precisão ou integralidade das informações referidas em tais links. Leituras recomendadas ACADEMIA DE HISTÓRIA. Imprensa no período regencial. 1 vídeo (9 min), 2015. Disponí- vel em: https://www.youtube.com/watch?v=GF2zepLBL74. Acesso em: 18 jun. 2020. DANTAS, C. S. B. Minicontos: uma prática de letramento emergente na escola. 2015. 129 f. Dissertação (Mestrado em Letras) — Departamento de Ciências Sociais e Humanas, Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Currais Novos, 2015. Disponível em: https://repositorio.ufrn.br/jspui/bitstream/123456789/20746/1/ClegianeSantosBezer- raDantas_DISSERT.pdf. Acesso em: 18 jun. 2020. SPALDING, M. O protagonismo do leitor no miniconto contemporâneo. Revista Ensi- QIopédia, v. 9, nº. 1, out. 2012. Disponível em: http://facos.edu.br/publicacoes/revistas/ ensiqlopedia/outubro_2012/pdf/o_protagonismo_do_leitor_no_miniconto_contem- poraneo.pdf. Acesso em: 18 jun. 2020. O conto no Brasil e em Portugal: ascensão e transformações16 Dica do professor Em relação à literatura brasileira e portuguesa na atualidade, o gênero conto ganhou um status de importante gênero literário entre escritores e leitores. Em cada época da história, existiram formas distintas de se escrever e publicar as histórias curtas. Atualmente, tanto em Portugal quanto no Brasil, com o surgimento da Internet, uma nova modalidade de conto nasceu: o miniconto. Com uma leitura breve, mas não menos instigante,ele estimulou o ato de ler para novos leitores da mesma forma que provocou fascínio em vários críticos literários e em outros contistas. Nesta Dica do Professor, você vai conhecer mais sobre o miniconto e sua relação com a Internet, que ajudou a democratizar a divulgação desse gênero, despontou novos escritores e pôde intensificar o acesso a essas narrativas mais curtas. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. https://fast.player.liquidplatform.com/pApiv2/embed/cee29914fad5b594d8f5918df1e801fd/29b1ecdc66ce55dc0968aa9aa9bf140b Exercícios 1) Segundo Telles (2001), a história do gênero conto no Brasil, bem como as particularidades de sua difusão, pode ser divida em quatro fases. De acordo com isso, julgue as asserções a seguir: I - Na fase da Formação, cujo período vai de 1530 até 1850, a difusão de contos se configurou nos primeiros periódicos nacionais, somente. II - Na fase de Transformação, de 1855 até 1882, as narrativas curtas eram publicadas tanto nos jornais quanto nas primeiras editoras brasileiras, sendo que todos os autores eram jornalistas. III - Na fase da Atualidade, hoje, os contos passaram a ter temáticas variadas, bem como a disseminação deles pelas editoras se consolidou, ainda que isso também ocorra pela Internet. Sobre a veracidade das informações, marque a alternativa correta: A) I, II e III são verdadeiras. B) Apenas I é verdadeira. C) II e III são verdadeiras. D) Apenas III é verdadeira. E) I e III são verdadeiras. 2) Em relação aos principais autores brasileiros de contos, analise as seguintes asserções: I - Na fase da Transformação, contistas da época, a exemplo de Bernardo Guimarães, Fagundes Varela e Machado de Assis, usaram demasiadamente a estrutura narrativa do herói que está em um dilema, ou seja, entre a queda e a ascenção, encaminhando-se para um único e enérgico final (OGLIARI, 2010). PORQUE II - Nessa fase, estava consolidado o chamado conto de efeito. Diante disso, marque a opção correta. A) I e II são falsas. B) I é falsa e II é verdadeira. C) I e II são verdadeiras, mas II não é uma justificativa de I. D) I e II são verdadeiras e II é uma justificativa de I. E) I é verdadeira e II é falsa. 3) A partir da Revolução de Avis, houve a coroação de D. João I, estabelecendo o Estado português no século XV. Considerando isso, no que diz respeito à produção artística, bem como a da sua circulação, sobretudo, do conto escrito, pode-se afirmar que: A) incentivou ainda mais a presença da Igreja Católica na confecção e na distribuição dos contos. B) embora exista uma grande produção de contos, devido ao alto grau de analfabetismo, os leitores eram praticamente inexistentes. C) pouco surtiu efeito, uma vez que a população apenas consumia contos estrangeiros. D) houve uma preocupação, por parte do Estado, em desenvolver o contato com as Letras por parte da população portuguesa, dentre elas, no formato do conto. E) tal medida consolidou o público leitor português, mas somente entre os fidalgos, pois eram para eles que as narrativas eram direcionadas. 4) No conto Civilização (2004), Eça de Queirós desenvolve uma narrativa curta na qual aborda princípios importantes do Decandentismo português pela história de Jacinto, sobretudo no que diz respeito à crítica do progresso tecnológico e urbano do ser humano. Diante disso, a alternativa que contém um trecho do conto que exemplifica o que foi dito anteriormente é: A) "Já mesmo irreverentemente adormecera sobre o divino bucolista, quando me despertou um brado amigo. Era o nosso Jacinto. E imediatamente o comparei a uma planta, meio murcha e estiolada, no escuro, que fora profusamente regada e revivera em pleno sol. Não corcovava. Sobre a sua palidez de supercivilizado, o ar da serra ou a reconciliação com a vida tinha espalhado um tom trigueiro e forte que o virilizava soberbamente". B) "A cozinha era uma espessa massa de tons e formas negras, cor de fuligem, onde refulgia ao fundo, sobre o chão de terra, uma fogueira vermelha que lambia grossas panelas de ferro, e se perdia em fumarada pela grade escassa que no alto coava a luz. Aí um bando alvoroçado e palreiro de mulheres depenava frangos, batia ovos [...] ... Do meio delas o bom caseiro [...] investiu para mim jurando que 'a ceia de suas inselências não demorava um credo'”. C) "Ao fundo, e como um altar-mor, era o gabinete de trabalho de Jacinto. A sua cadeira, grave e abacial, de couro, com brasões, datava do século XIV, e em torno dela pendiam numerosos tubos acústicos, que, sobre os panejamentos de seda cor de musgo e cor de hera, pareciam serpentes adormecidas e suspensas num velho muro de quinta. Nunca recordo sem assombro a sua mesa, recoberta toda de sagazes e sutis instrumentos". D) "Jacinto, logo nos começos de março, escrevera cuidadosamente ao seu procurador Sousa, que habitava a aldeia de Torges, ordenando-lhe que compusesse os telhados, caiasse os muros, envidraçasse as janelas. Depois mandou expedir, por comboios rápidos, em caixotes que transpunham a custo os portões do Jarmineiro, todos os confortos necessários a duas semanas de montanha — camas de penas, poltronas, divãs, lâmpadas de Carcel". E) "Era ele, de todos os homens que conheci, o mais complexamente civilizado - ou antes aquele que se munira da mais vasta soma de civilização material, ornamental e intelectual. Nesse palácio (floridamente chamado o Jasmineiro) que seu pai, também Jacinto, construíra sobre uma honesta casa do século XVII, assoalhada a pinho e branqueada a cal existia, creio eu, tudo quanto para bem do espírito ou da matéria os homens têm criado". 5) Sobre a difusão dos contos de escritores brasileiros na atualidade, classifique as afirmações a seguir em V (verdadeira) ou F (falsa): ( ) As facilidades de edição e de divulgação das mídias sociais proporcionaram o aumento dos escritores de conto. ( ) A partir dos perfis nas redes sociais e em blogs, por exemplo, houve uma democratização do acesso às histórias curtas de autores consagrados e iniciantes. ( ) Embora sejam também publicados hoje na Internet, os contos mantêm, em geral, linguagem e estruturas muito semelhantes às praticadas no século XIX, já que esse é um índice de qualidade da produção. A) V - F - V. B) V - F - F. C) V - V - F. D) F - V - V. E) F - F - F. Na prática Na literatura portuguesa, houve um fenômeno singular em relação à difusão do gênero conto: o surgimento das folhas volantes, escritas por autores anônimos e conhecidos portugueses cuja função era registrar narrativas curtas, muito populares na Idade Média portuguesa. Séculos mais tarde, com a imigração lusitana ao Brasil, as folhas volantes foram ressignificadas e, a partir delas, criou-se a famosa literatura de cordel, sobretudo na região nordestina brasileira. Acompanhe, Na Prática, um pouco sobre a relação entre as folhas volantes portuguesas e a literatura de cordel brasileira. Você vai conhecer como as folhas volantes foram importantes para a criação dos cordéis e como isso pode ser aplicado em sala de aula. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. https://statics-marketplace.plataforma.grupoa.education/sagah/036e2b43-5e34-43b2-9214-4285a14736e7/4739283d-8276-46f9-962c-a2d048c4f99e.png Saiba + Para ampliar o seu conhecimento a respeito desse assunto, veja abaixo as sugestões do professor: A produção dos contos de Machado de Assis Nesta pesquisa, o autor investiga as relações de Machado de Assis com a sua própria produção de contos, evidenciando o quanto o escritor é genial não só nos romances, mas também nas narrativas curtas. Boa leitura. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. O conto brasileiro contemporâneo Neste vídeo, você confere as principais características sobre o conto brasileiro contemporâneo e os autores e autoras de destaque nesse período. Aponte a câmera para o códigoe acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. O gênero conto e a Internet Conheça mais acerca da circulação do conto no cyberespaço e observe o quanto essa nova mídia proporcionou outras formas de se elaborar histórias curtas, porém não menos instigantes. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. https://app.uff.br/riuff/bitstream/1/2871/1/A%20PRODU%c3%87%c3%83O%20CONTISTA%20DE%20MACHADO%20DE%20ASSIS%20PDF.pdf https://www.youtube.com/embed/eEaZaMnd-5E http://repositorio.roca.utfpr.edu.br/jspui/bitstream/1/13964/1/CT_ELPLI_2_2018_04.pdf