Prévia do material em texto
CARTÓRIO
Direito
Empresarial
Capítulos 1 ao 7
CARTÓRIO
Direito Empresarial
Capítulo 1
1
Olá, aluno!
Bem-vindo ao estudo para os concursos de Cartórios. Preparamos todo esse material
para você não só com muito carinho, mas também com muita métrica e especificidade,
garantindo que você terá em mãos um conteúdo direcionado e distribuído de forma
inteligente.
Para isso, estamos constantemente analisando o histórico de provas anteriores com
fins de entender como cada Banca e cada Carreira costuma cobrar os assuntos do edital.
Afinal, queremos que sua atenção esteja focada nos assuntos que lhe trarão maior
aproveitamento, pois o tempo é escasso e o cronograma é extenso. Conte conosco para
otimizar seu estudo sempre!
Ademais, estamos constantemente perseguindo melhorias para trazer um conteúdo
completo que facilite a sua vida e potencialize seu aprendizado. Com isso em mente, a
estrutura do PDF Ad Verum foi feita em capítulos, de modo que você possa consultar
especificamente os assuntos que estiver estudando no dia ou na semana. Ao final de cada
capítulo você tem a oportunidade de revisar, praticar, identificar erros e aprofundar o assunto
com a leitura de jurisprudência selecionada.
E mesmo você gostando muito de tudo isso, acreditamos que o PDF sempre pode ser
aperfeiçoado! Portanto pedimos gentilmente que, caso tenha quaisquer sugestões ou
comentários, entre em contato conosco. Sua opinião vale ouro para a gente!
Racionalizar a preparação dos nossos alunos é mais que um objetivo para Ad Verum,
trata-se de uma obsessão. Sem mais delongas, partiremos agora para o estudo da disciplina.
Faça bom uso do seu PDF Ad Verum!
Bons estudos
2
Abordaremos os assuntos da disciplina de Direito Empresarial da seguinte forma:
RECORRÊNCIA DA DISCIPLINA
A partir da análise das últimas provas da carreira de Titular de serviços de Notas e de Registros,
verificou-se que a disciplina de Direito Empresarial possui grande recorrência. Através destes dados,
identificou-se quais os temas mais cobrados na disciplina.
16%
17%
1%
24%
4%
1%
12%
13%
5% 3% 1% 3%
A empresa A sociedade
O estabelecimento Títulos de créditos
Falência e recuperação judicial Lei n° 9.492, de 10 de setembro de 1997
Lei n° 11.101, de 09 de fevereiro de 2005 Lei n° 6.404, de 15 de dezembro de 1976
Lei n° 8.934, de novembro de 1994 Lei n° 5.474, de 18 de julho de 1968
Decreto-Lei 911, de 1° de outubro de 1969 Decreto n° 57.663, de 24 de janeiro de 1966
3
SOBRE O CONCURSO
Daremos início ao estudo da disciplina Direito Empresarial, que, nos concursos de
outorga de delegações de notas e registros, é muito cobrada, em todas as fases.
Nos últimos concursos, na primeira fase, a matéria foi cobrada em até 10% (dez por
cento) da prova. É sempre bom lembrar que, as notas de corte, na primeira fase são altas,
então, cada ponto e questão são de extrema importância. Vale destacar ainda que, nos
últimos certames promovidos no Estado de Minas Gerais, a prova foi dividida em “blocos”,
sendo necessário o acerto de, pelo menos, 50% das questões de cada bloco, sob pena de
eliminação. No ano de 2019, Direito Empresarial, compôs um bloco de 8 (oito) questões.
Na segunda fase dos concursos, é recorrente a cobrança de uma questão da matéria.
Ressalta-se, ainda, que na avaliação oral, geralmente, um Examinador fica responsável por
indagar os candidatos nesta disciplina.
Portanto, trata-se de matéria de substancial importância para o alcance do sucesso nos
concursos, sendo relevante o estudo da legislação, jurisprudência e doutrina. Deste modo, este
material busca fornecer ao aluno um conhecimento amplo e suficiente, conforme os temas
que costumam ser cobrados, então, ao final dos capítulos, serão colacionadas questões para
treinamento, sempre priorizando aos concursos da área.
4
CAPÍTULOS
Capítulo 1 – Teoria Geral do Direito Empresarial
Capítulo 2 – Regime Jurídico da Atividade Empresarial
Capítulo 3 – Direito Societário
Capítulo 4 – Crise da Atividade Empresarial
Capítulo 5 – Títulos de Crédito
Capítulo 6 – Contratos Empresariais
Capítulo 7 – Propriedade Industrial
5
SUMÁRIO
DIREITO EMPRESARIAL, Capítulo 1 ............................................................................................................................ 7
1. Teoria Geral do Direito Empresarial .................................................................................................................. 7
1.1 Evolução Histórica do Direito Empresarial................................................................................................................... 7
1.2 Conceito de empresa ..........................................................................................................................................................11
1.2.1 Empresa como atividade ...................................................................................................................................................12
1.2.2 Economicidade .......................................................................................................................................................................13
1.2.3 Organização .............................................................................................................................................................................13
1.2.4 Profissionalismo .....................................................................................................................................................................15
1.2.5 Objetivo Específico ...............................................................................................................................................................16
1.3 Fixação de Regime Jurídico ..............................................................................................................................................16
1.4 O Empresário...........................................................................................................................................................................17
1.4.1 Conceito e Espécies .............................................................................................................................................................17
1.4.2 Caracterização .........................................................................................................................................................................19
1.4.3 Empresário Rural ...................................................................................................................................................................24
1.4.4 Empresário Casado ...............................................................................................................................................................24
1.5 Dos requisitos de regularidade.......................................................................................................................................26
1.5.1 Da Inscrição .............................................................................................................................................................................26
1.5.2 Da capacidade ........................................................................................................................................................................27
1.5.3 Ausência de impedimento legal .....................................................................................................................................30
1.6 Da Empresa Individual de Responsabilidade Limitada (EIRELI) ........................................................................31
1.7 Microempreendedor Individual, Microempresa e Empresa de Pequeno Porte ........................................34da alienação, a sociedade resulta
financeiramente ainda mais sólida. Considerando este caso, é correto afirmar que:17
1.5.2 Eficácia do trespasse
A eficácia do trespasse é garantida pelos bens que permanecem com o devedor, que
devem ser suficientes para saldar sua dívida.
Caso não sejam, deve-se observar a regra do art. 1.145, que estabelece o PAGAMENTO
DE TODOS OS CREDORES ou AUTORIZAÇÃO DE TODOS OS CREDORES.
É feita uma notificação dos credores, para que se manifestem, no prazo de 30 dias,
dizendo se são contra ou a favor do trespasse. O silêncio, aqui, é entendido como
consentimento.
Art. 1.145. Se ao alienante não restarem bens suficientes para solver o seu passivo, a
eficácia da alienação do estabelecimento depende do pagamento de todos os credores,
ou do consentimento destes, de modo expresso ou tácito, em trinta dias a partir de sua
notificação.
A Súmula 451 do STJ autoriza a penhora da sede do estabelecimento comercial. Porém,
esta medida é excepcional, devendo ocorrer apenas em caso de não se encontrar outros bens
para penhora.
Súmula 451, STJ: É legítima a penhora da sede do estabelecimento comercial.
17 Vide a questão 6 deste material.
41
Segundo definiu o STJ em sede de recurso repetitivo, a penhora de imóvel no qual se
localiza o estabelecimento da empresa é excepcionalmente permitida quando inexistentes
outros bens passíveis de penhora e desde que não seja servil à residência da família (REsp
1.114.767/RS, Rel. Ministro Luiz Fux, Corte Especial, julgado em 02/12/2009, DJe 04/02/2010).
O art. 862 do novo CPC prevê que, “quando a penhora recair em estabelecimento
comercial, industrial ou agrícola [leia-se, genericamente, estabelecimento empresarial] (...), o
juiz nomeará administrador-depositário, determinando-lhe que apresente em 10 (dez) dias o
plano de administração”. Apresentado o referido plano, o juiz ouvirá as partes e decidirá (§1º).
O §2º, porém, prevê que “é lícito às partes ajustar a forma de administração e escolher o
depositário, hipótese em que o juiz homologará por despacho a indicação”.
Corroborando o entendimento jurisprudencial do STJ, no sentido de que a penhora de
estabelecimento empresarial é medida excepcional, o art. 865 do novo CPC determina o
seguinte: “a penhora de que trata esta subseção somente será determinada se não houver
outro meio eficaz para a efetivação do crédito”.
A violação do art. 1.145 do CC enseja ato de falência. O credor pode requerer a falência
do empresário que venda bens sem respeitar o art. 1.145 do CC (sem o consentimento de
todos os credores ou não permanecendo com bens suficientes para solver seu passivo), pois
esse ato é considerado como ato de falência, conforme previsto no art. 94, III, “c” da Lei
11.101/05.
1.5.3 Responsabilidade do adquirente e do alienante
O adquirente do estabelecimento responde pelo pagamento dos débitos anteriores à
transferência, desde que regularmente contabilizados. Mas atenção: a regra do art. 1.146 não
se aplica para as dívidas trabalhistas ou tributárias.
Com relação às dívidas trabalhistas, aplica-se a regra da sucessão trabalhista, prevista
nos arts. 10 e 448, da CLT.
A responsabilidade pelas dívidas trabalhistas recairá exclusivamente sobre o adquirente.
O alienante só terá responsabilidade solidária se o trespasse houver sido fraudulento (com
base no Código Civil).
Já no que toca às dívidas tributárias, aplica-se a regra do art. 133, do CTN.
42
Assim, em se tratando de dívidas tributárias ou de dívidas trabalhistas, não se aplica o
disposto no art. 1.146 do Código Civil, uma vez que a sucessão tributária e a sucessão
trabalhista possuem regimes jurídicos próprios, previstos em legislação específica (arts. 133 do
CTN e 448 da CLT, respectivamente).
Exceção: não haverá sucessão trabalhista quando o trespasse decorrer de recuperação
judicial ou falência (arts. 60 e 141 da Lei 11.101/2005). Quando se tratar de compra realizada
no processo de falência ou recuperação judicial (por meio de leilão), o adquirente do
estabelecimento não responde pela falência ou pelas dívidas tributárias, trabalhistas ou
decorrentes de acidente de trabalho, nos termos do art. 141, II da Lei 11.101/05.
O alienante (devedor primitivo) continua solidariamente obrigado, mas apenas no prazo
de um ano, desde que a dívida esteja regularmente contabilizada.
Caso se trate de dívida vencida, conta-se um ano da DATA DA PUBLICAÇÃO NA
IMPRENSA OFICIAL;
Caso se trate de dívida vincenda, conta-se um ano a partir da DATA DO
VENCIMENTO.
Enunciado 233, CJF: Art. 1.142: A sistemática do contrato de trespasse delineada pelo
Código Civil nos arts. 1.142 e ss., especialmente seus efeitos obrigacionais, aplica-se
somente quando o conjunto de bens transferidos importar a transmissão da
funcionalidade do estabelecimento empresarial.
Ou seja, essa sistemática, sobretudo para efeitos obrigacionais, só se aplica quando o
conjunto de bens transferidos importar a transmissão da funcionalidade do estabelecimento
empresarial. Justificou-se tal posicionamento sob a alegação de que, para se falar em
trespasse de estabelecimento, é necessário que haja transferência de elementos suficientes à
preservação de sua finalidade como tal, ou seja, a universalidade adquirida deve ser idônea a
operar como estabelecimento, ainda que tenham sido decotados alguns de seus elementos
originais.
Difere da situação de transferência de participação em sociedade (transferência de
cotas), onde a responsabilidade do sócio que transferiu perdura por um prazo de 2 anos. Isso
porque o art. 1.003 do CC preconiza que o cedente responde solidariamente com o
43
cessionário, perante a sociedade e terceiros, pelas obrigações que tinha como sócio, até 2
anos depois de averbada a modificação do contrato.
1.2. Concorrência
Antes do CC, não havia nenhuma referência legal que impedisse a concorrência.
Portanto, o que acontecia, na prática empresarial, era a confecção de um contrato, onde se
inseria uma cláusula chamada “cláusula de não-restabelecimento”.
Hoje, a cláusula de não-restabelecimento está prevista no art. 1.147 do CC. Assim, a
cláusula de não-restabelecimento está implícita aos contratos de trespasse, na forma do art.
1.147 do CC, de modo que se faz necessária cláusula expressa a fim de que seja possível a
concorrência.
O contrato de trespasse irá definir sobre a possibilidade de concorrência do alienante
do estabelecimento. Na omissão do contrato de trespasse, aplica-se a regra do art. 1.147 do
CC. Ou seja, não havendo autorização expressa, o alienante do estabelecimento não pode
fazer concorrência ao adquirente, nos 5 anos subsequentes à transferência.
A cláusula de não restabelecimento fixada por prazo indeterminado é considerada
abusiva.
Segundo o STJ, as partes não podem prever que a cláusula de “não restabelecimento”
será por prazo indeterminado. O ordenamento jurídico pátrio, salvo expressas exceções, não
44
aceita que cláusulas que limitem ou vedem direitos sejam estabelecidas por prazo
indeterminado (REsp 680.815/PR, Min. Raul Araújo, j. 20/03/2014 – inf. 554).
É possível que seja ampliado, mas ele não pode ser fixado em prazo indeterminado e,
no caso concreto, é possível que tal ampliação seja considerada abusiva se ampliar demais a
restrição. Nesse sentido:
Enunciado 490, CJF: A ampliação do prazo de 5 anos de proibição de concorrência pelo
alienante ao adquirente do estabelecimento, ainda que convencionada no exercício da
autonomia da vontade, pode ser revista judicialmente, se abusiva.
Ainda de acordo com o STJ, é válida a cláusula contratual de não concorrência, desde
que limitada espacial e temporalmente. Isso porque esse tipo de cláusula protege a
concorrência e os efeitos danosos decorrentes de potencial desvio de clientela, sendo esses
valores jurídicosreconhecidos constitucionalmente (REsp 1.203.109/MG, Rel. Min. Marco
Aurélio Bellizze, julgado em 6/5/2015 – Inf. 561).
O limite geográfico dessa limitação deve ser definido casualmente em função da
natureza do comércio. Deve-se analisar se o eventual restabelecimento do alienante configura,
de fato, concorrência ao adquirente. O elemento teleológico da norma referida não é a
proibição do restabelecimento do alienante, e sim a proibição da concorrência desleal ao
adquirente.
Assim, quando a relação estabelecida entre as partes for eminentemente comercial, a
cláusula que estabeleça dever de abstenção de contratação com sociedade empresária
concorrente pode sim irradiar efeitos após a extinção do contrato, desde que por um prazo
certo e em determinado lugar específico (limitada temporária e espacialmente).
Ex.: João resolveu montar um quiosque no shopping para vender celulares, cartões pré-
pagos etc. Para isso, ele fez um contrato com a operadora de celular “XXX” por meio da qual
ele somente iria vender os produtos e serviços dessa operadora e, em troca, ela ofereceria a
ele preços diferenciados, consultoria e treinamento para abrir a loja. No contrato assinado
com a operadora, havia uma cláusula dizendo que João estava proibido, por 6 meses após a
extinção do contrato, de contratar com qualquer empresa concorrente naquela cidade. Essa
cláusula de não concorrência é válida.
No caso de arrendamento ou usufruto do estabelecimento, a proibição prevista
persistirá durante o prazo do contrato (art. 1.147, parágrafo único).
45
1.5.4 Sub-rogação nos contratos de exploração
É preciso entender que o contrato de trespasse não garante a clientela, que é mera
situação de fato. A clientela não é elemento integrante do estabelecimento empresarial. Por
conta disso, a fim de que a clientela se mantenha, o trespasse gera a sub-rogação automática
do adquirente nos contratos estipulados para a exploração do estabelecimento, se não tiverem
caráter pessoal.
Havendo justa causa, os terceiros podem rescindir o contrato em 90 dias, contados da
publicação da transferência. Assim dispõe o art. 1.148:
Art. 1.148. Salvo disposição em contrário, a transferência importa a sub-rogação do
adquirente nos contratos estipulados para exploração do estabelecimento, se não
tiverem caráter pessoal, podendo os terceiros rescindir o contrato em 90 dias a contar
da publicação da transferência, se ocorrer justa causa, ressalvada, neste caso, a
responsabilidade do alienante.
O art. 1.148 do CC traz uma regra importante: o adquirente terá a garantia que todos
os contratados de exploração do estabelecimento continuarão em vigor.
A jurisprudência e o Enunciado 234 do CJF entendem que nos contratos de trespasse
ocorre a sub-rogação automática de todos os contratos, exceto o contrato de locação, em
respeito ao art. 13 da Lei de Inquilinato (Lei 8.245/91).
Enunciado 234, CJF: Art. 1.148: Quando do trespasse do estabelecimento empresarial, o
contrato de locação do respectivo ponto não se transmite automaticamente ao
adquirente. Fica cancelado o enunciado nº 64.
A Lei de Locação (art. 13) prevê a anuência por escrito do locador do imóvel objeto da
transferência do contrato de locação.
O STJ entende que o contrato de locação, fugindo a regra do art. 1.148, não é
transferido automaticamente, dependendo da anuência do locador.
STJ: Transferência do fundo de comércio. Trespasse. Efeitos: continuidade do processo
produtivo; manutenção dos postos de trabalho; circulação de ativos econômicos.
Contrato de locação. Locador. Avaliação de características individuais do futuro inquilino.
Capacidade financeira e idoneidade moral. Inspeção extensível, também, ao eventual
46
prestador da garantia fidejussória. Natureza pessoal do contrato de locação.
Desenvolvimento econômico. Aspectos necessários: proteção ao direito de propriedade e
a segurança jurídica. Afigura-se destemperado o entendimento de que o art. 13 da Lei
do Inquilinato não tenha aplicação às locações comerciais, pois, prevalecendo este
posicionamento, o proprietário do imóvel estaria ao alvedrio do inquilino, já que
segundo a conveniência deste, o locador se veria compelido a honrar o ajustado com
pessoa diversa daquela constante do instrumento, que não rara as vezes, não possuirá as
qualidades essenciais exigidas pelo dono do bem locado (capacidade financeira e
idoneidade moral) para o cumprir o avençado. Liberdade de contratar. As pessoas em
geral possuem plena liberdade na escolha da parte com quem irão assumir obrigações
e, em contrapartida, gozar de direitos, sendo vedada qualquer disposição que obrigue o
sujeito a contratar contra a sua vontade. Aluguéis. Fonte de renda única ou
complementar para inúmeros cidadãos. Necessidade de proteção especial pelo
ordenamento jurídico (REsp 1.202.077/MS, rel. Ministro Vasco Della Giustina –
desembargador convocado do TJ/RS – DJe 10/03/2011).
A cessão dos créditos referentes ao estabelecimento transferido produzirá efeito em
relação aos respectivos devedores, desde o momento da publicação da transferência, mas o
devedor ficará exonerado se de boa-fé pagar ao cedente (art. 1.149 do CC).
1.5.5 Aviamento
Aviamento é nome dado pelo mercado ao valor agregado pela articulação dos bens
que compõem o estabelecimento, na exploração de uma atividade econômica. Desta forma,
aviamento não é integrante do estabelecimento, mas sim um ATRIBUTO seu.
Em outras palavras, aviamento, ou goodwill of trade, é o potencial de lucratividade.
O aviamento é justamente a aptidão para gerar lucro do estabelecimento. Quanto mais
eficiente for a organização dos elementos do estabelecimento, mais aviado será o
estabelecimento.
Trata-se de um atributo do estabelecimento empresarial, resultado do conjunto e vários
fatores de ordem material ou imaterial que lhe conferem capacidade ou aptidão de gerar
lucros. Cada estabelecimento possui um aviamento maior ou menor. Diz-se que o aviamento é
pessoal ou subjetivo quando a capacidade de gerar lucros resulta substancialmente de
47
qualidades do titular da empresa; será real ou objetivo se decorrente da qualidade do
estabelecimento empresarial.
A clientela é resultante do aviamento, e este existe graças a ela – um decorre do outro.
Ambos, por não serem considerados bens, não estão sujeitos a uma proteção direta, nos
moldes do que ocorre com o patrimônio material ou imaterial da empresa.
Clientela não se confunde com freguesia
CLIENTELA FREGUESIA
Conjunto de pessoas que mantém com o
empresário ou sociedade empresária
relações jurídicas constantes;
Conjunto de pessoas que passam em frente
ao ponto do negócio, em razão da sua
localização estratégica.
1.5.6 Ponto comercial
É um bem incorpóreo que integra o estabelecimento empresarial. Ponto comercial é o
local onde o empresário realiza sua atividade empresarial. O ponto é muito importante para o
estabelecimento comercial, daí porque goza de proteção legal. Essa proteção se dá através da
chamada ação renovatória.
Quando o empresário se estabelece em um ponto alugado e permanece naquele local
um determinado tempo, ele faz investimentos para ganhar o respeito dos consumidores,
passar a ser conhecido e a adquirir, consequentemente, uma clientela fiel. Por essa razão, o
regime jurídico-empresarial reconhece a esse empresário o chamado direito de inerência ao
ponto, consubstanciado na prerrogativa de permanecer naquele local mesmo na hipótese de o
locador não pretender mais a renovação do contrato locatício.
48
1.5.7 Ação Renovatória
A ação renovatória tem por objetivo a renovação compulsória do contrato de locação
empresarial. A ação está prevista na Lei nº 8.245/91, nos artigos 51 a 55.
Nas locações destinadas ao comércio, o locatário terá direito a renovação compulsória
do contrato, por igual prazo, desde que, cumulativamente:
Requisitoformal: o contrato a renovar tenha sido celebrado por escrito e com
prazo determinado;
Requisito temporal: prazo mínimo de 5 anos de relação contratual contínua.
O prazo mínimo do contrato a renovar ou a soma dos prazos ininterruptos dos
contratos escritos deve ser de 5 anos;
Requisito material: o locatário esteja explorando seu comércio, NO MESMO
RAMO, pelo prazo mínimo e ininterrupto de 3 anos.
O direito assegurado neste artigo poderá ser exercido pelos cessionários ou sucessores
da locação.
A lei não está protegendo o locador, nem o locatário, mas sim o ponto comercial.
Faltando um dos requisitos, não há como se ajuizar a ação renovatória. Presentes todos os
requisitos da ação renovatória, poderá ela ser ajuizada, pois o empresário passa a ter o
intitulado direito de inerência ao ponto.
Imaginemos a seguinte situação: empresário tinha realizado um contrato de locação por
cinco anos, de modo que nos três primeiros anos possuía uma padaria no ponto e, nos
últimos dois, uma farmácia. Pode ele ajuizar a renovatória? Não, porque não permaneceu na
mesma atividade nos últimos três anos do contrato.
A propositura da referida ação renovatória, segundo o disposto no art. 51, §5º, da Lei
8.245/1991, deve ser feita “no interregno de um ano, no máximo, até seis meses, no mínimo,
anteriores à data da finalização do prazo do contrato em vigor”. Dizendo de outra forma, a
ação renovatória deve ser ajuizada nos seis primeiros meses do último ano do contrato de
aluguel.
49
Sendo assim, faltando um ano para o término do contrato, deve o empresário locatário,
se pretender permanecer no ponto, procurar o locador para iniciar as tratativas acerca da
renovação da relação contratual. Caso o locador demonstre o interesse de retomar o ponto,
não renovando o contrato, cabe ao locatário tomar as providências necessárias ao ajuizamento
da ação renovatória, sob pena de ver decair o seu o direito à renovação compulsória da
relação locatícia.
Destaque-se que a legislação admite a propositura de ação renovatória nos contratos
de locação de espaços em shopping centers. Nesse caso, previu a lei que não cabe alegar,
para a retomada do imóvel, a necessidade do bem para uso próprio, nem para transferência
de estabelecimento empresarial existente há mais de um ano cuja maioria do capital seja de
sua titularidade ou de seu cônjuge, ascendente ou descendente (art. 52, §2º, da Lei
8.245/1991).
Diga-se ainda que, em tese, não é abusiva a previsão, em normas gerais de
empreendimento de shopping center ("estatuto"), da denominada "cláusula de raio", segundo
a qual o locatário de um espaço comercial se obriga – perante o locador – a não exercer
atividade similar à praticada no imóvel objeto da locação em outro estabelecimento situado a
um determinado raio de distância contado a partir de certo ponto do terreno do shopping
center (STJ, REsp 1.535.727/RS, Rel. Min. Marco Buzzi, julgado em 10/5/2016 – inf. 585).
No caso de sublocação do imóvel, a ação renovatória é de competência exclusiva do
sublocatário já que esta ação, como dito, se propõe a proteger o ponto comercial (art. 51,
§1º).
50
O teto de receita bruta (faturamento) para enquadramento no Simples Nacional foi
majorado de R$ 3.600.000,00 para R$4.800.000,00 (Empresa de Pequeno Porte).
O Microempreendedor Individual (MEI) passa de um limite de R$ 60 mil para R$ 81 mil
por ano, uma média mensal de R$ 6,75mil, e a Empresa de Pequeno Porte (EPP) passa de R$
3,6 milhões para R$ 4,8 milhões anuais, média mensal de R$ 400mil.
Mas, cuidado! Persiste um “sublimite” para cálculo de ICMS e ISS. As EPPs que
ultrapassarem o valor anterior, de R$ 3,6 milhões de faturamento, terão o ICMS e o ISS
calculados fora da tabela do Simples Nacional, conforme regras estabelecidas pela lei
complementar 155/2016.
51
QUADRO SINÓTICO
QUADRO ASSOCIATIVO
(classificações de três diferentes ramos do Direito)
DIREITO CIVIL
Pessoa (art. 1º,
CC/02)
DIREITO EMPRESARIAL
Empresário (art. 966, CC/02)
DIREITO TRIBUTÁRIO
Empresa/Atividade (art. 3º, LCP
123/06)
Pessoa Física Empresário Individual
Microempresa (ME)
R.B.A. até R$ 360.000,00
ou
Empresa de Pequeno Porte
(EPP)
R.B.A. até R$ 4.800.000,00
Pessoa Jurídica
Empresa Individual de
Responsabilidade Limitada
(EIRELI)
Sociedades Empresárias (ex.
Ltda)
* Exceto as sociedades por
ações
Enquadramento possível somente para o
Empresário Individual =>
* Microempreendedor Individual
(MEI)
(ou “pequeno empresário”)
R.B.A. até R$ 81.000,00
Requisitos: ME + Pessoa Física
52
QUESTÕES COMENTADAS
Questão 1
(CONSULPLAN - Concurso de Outorga de Delegações do TJMG – 2019 – Critério Remoção) O
contrato social é o instrumento através do qual se materializa o encontro de vontade dos sócios da
sociedade empresária. A respeito dos requisitos e elementos de validade do contrato social da
sociedade empresária, analise as assertivas a seguir.
I. São requisitos do contrato social: agente capaz; objeto possível e lícito; forma prescrita ou não defesa
em lei; todos os sócios devem contribuir para a formação do capital social e participarão dos
resultados, positivos ou negativos. II. É nula a cláusula que exclua algum dos sócios dos lucros ou da
participação nas perdas, bem como que estabeleça distribuição desproporcional à participação de cada
um no capital social. III. A falta de pluralidade dos sócios ensejará a dissolução da sociedade, no prazo
de cento e oitenta dias, desde que haja previsão contratual quanto ao prazo. IV. São cláusulas
essenciais ao contrato social: tipo societário; objeto social; capital social; responsabilidade dos sócios;
qualificação dos sócios; nomeação de administrador; nome empresarial; sede e foro; prazo de duração.
Assinale a alternativa correta.
A) Todas as assertivas são verdadeiras.
B) As assertivas I, II e IV são verdadeiras.
C) As assertivas II e III não são verdadeiras.
D) Apenas as assertivas I e III são verdadeiras.
Comentário:
- Sobre os requisitos do contrato social:
53
CC, art. 997. A sociedade constitui-se mediante contrato escrito, particular ou público, que, além
de cláusulas estipuladas pelas partes, mencionará: I - nome, nacionalidade, estado civil, profissão
e residência dos sócios, se pessoas naturais, e a firma ou a denominação, nacionalidade e sede
dos sócios, se jurídicas; II - denominação, objeto, sede e prazo da sociedade; III - capital da
sociedade, expresso em moeda corrente, podendo compreender qualquer espécie de bens,
suscetíveis de avaliação pecuniária; IV - a quota de cada sócio no capital social, e o modo de
realizá-la; V - as prestações a que se obriga o sócio, cuja contribuição consista em serviços; VI -
as pessoas naturais incumbidas da administração da sociedade, e seus poderes e atribuições; VII -
a participação de cada sócio nos lucros e nas perdas; VIII - se os sócios respondem, ou não,
subsidiariamente, pelas obrigações sociais. Parágrafo único. É ineficaz em relação a terceiros
qualquer pacto separado, contrário ao disposto no instrumento do contrato.
- No tocante à participação dos lucros, importante mencionar os seguintes artigos: CC, art. 1.007.
Salvo estipulação em contrário, o sócio participa dos lucros e das perdas, na proporção das
respectivas quotas, mas aquele, cuja contribuição consiste em serviços, somente participa dos
lucros na proporção da média do valor das quotas; - CC, art. 1.008. É nula a estipulação
contratual que exclua qualquer sócio de participar dos lucros e das perdas.
- De acordo com a previsão legal, ou seja, independente de previsão contratual a sociedade se
dissolve em razão da ausência de pluralidade: CC, art. 1.033. Dissolve-se a sociedade quando
ocorrer: (...) IV - a falta de pluralidade de sócios, não reconstituída no prazo de centoe oitenta
dias (...) Parágrafo único. Não se aplica o disposto no inciso IV caso o sócio remanescente,
inclusive na hipótese de concentração de todas as cotas da sociedade sob sua titularidade,
requeira no Registro Público de Empresas Mercantis a transformação do registro da sociedade
para empresário individual, observado, no que couber, o disposto nos arts. 1.113 a 1.115 deste
Código . Parágrafo único. Não se aplica o disposto no inciso IV caso o sócio remanescente,
inclusive na hipótese de concentração de todas as cotas da sociedade sob sua titularidade,
requeira, no Registro Público de Empresas Mercantis, a transformação do registro da sociedade
para empresário individual ou para empresa individual de responsabilidade limitada, observado,
no que couber, o disposto nos arts. 1.113 a 1.115 deste Código.
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2002/l10406.htm#art1113
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2002/l10406.htm#art1113
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2002/l10406.htm#art1113
54
Questão 2
(CONSULPLAN - Concurso de Outorga de Delegações do TJMG – 2019 – Critério Remoção)
Segundo o art. 966 do Código Civil, considera-se empresário quem exerce profissionalmente atividade
econômica organizada para a produção ou a circulação de bens ou de serviços. Ainda, à luz do Código
Civil, a respeito da atividade de empresário, analise as afirmativas a seguir.
I. As cooperativas podem submeter-se ao regime jurídico empresarial, desde que optem por registrar-
se no Registro Público de Empresas Mercantis. II. O empresário é obrigado a inscrever-se no Registro
Público de Empresas Mercantis, mas a falta da inscrição não lhe retira a condição de empresário e a
sua submissão ao regime jurídico empresarial. III. Aquele que, mesmo impedido, exerce atividade
empresarial, responderá pelas obrigações contratadas, no limite do patrimônio da pessoa jurídica. IV. O
empresário que tenha como a principal profissão a atividade rural deve se registrar na Junta Comercial,
caso em que ficará equiparado, para todos os efeitos, ao empresário sujeito a registro.
Assinale a alternativa correta.
A) Apenas a afirmativa II é verdadeira.
B) Apenas as afirmativas I e III são falsas.
C) As afirmativas I, II e III são verdadeiras.
D) Apenas as afirmativas I e II são verdadeiras.
Comentário:
- Art. 982. Salvo as exceções expressas, considera-se empresária a sociedade que tem por objeto
o exercício de atividade própria de empresário sujeito a registro ( art. 967 ); e, simples, as demais.
Parágrafo único. Independentemente de seu objeto, considera-se empresária a sociedade por
ações; e, simples, a cooperativa.
É importante destacar que, apesar das cooperativas terem natureza de sociedade simples, em
alguns Estados, como, por exemplo, no Estado de Minas Gerais, elas são registradas no Registro
Público de Empresas Mercantis: NSCGJ-MG, art. 410. É vedado ao oficial de registro civil das
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2002/l10406.htm#art967
55
pessoas jurídicas: (...) VII - o registro ou a averbação de alteração de atos constitutivos de
sociedade cooperativa.
- CC, art. 967. É obrigatória a inscrição do empresário no Registro Público de Empresas Mercantis
da respectiva sede, antes do início de sua atividade.
- CC, art. 973. A pessoa legalmente impedida de exercer atividade própria de empresário, se a
exercer, responderá pelas obrigações contraídas.
- CC, art. 971. O empresário, cuja atividade rural constitua sua principal profissão, pode,
observadas as formalidades de que tratam o art. 968 e seus parágrafos, requerer inscrição no
Registro Público de Empresas Mercantis da respectiva sede, caso em que, depois de inscrito,
ficará equiparado, para todos os efeitos, ao empresário sujeito a registro.
Percebe-se que, de acordo com a previsão legal, que a inscrição do empresário que exerce
atividade rural é facultativa.
Questão 3
(CONSULPLAN - Concurso de Outorga de Delegações do TJMG – 2019 – Critério Remoção)
Segundo o art. 966 do Código Civil, considera-se empresário quem exerce profissionalmente atividade
econômica organizada para a produção ou a circulação de bens ou de serviços. À luz do Código Civil,
a respeito da atividade de empresário, assinale a alternativa correta.
A) O absolutamente incapaz não pode ser empresário e nem sócio de sociedade empresarial.
B) O menor, nomeado para cargo público efetivo, pode ser empresário individual, desde que
autorizado judicialmente.
C) O médico pediatra, que em seu consultório contrata secretária, faxineira e auxiliar de serviços gerais,
exerce atividade empresarial.
D) As cooperativas, cujos atos constitutivos prevejam a responsabilidade limitada dos seus sócios, não
se submetem ao regime jurídico-empresarial.
56
Comentário:
- CC, Art. 974. Poderá o incapaz, por meio de representante ou devidamente assistido, continuar
a empresa antes exercida por ele enquanto capaz, por seus pais ou pelo autor de herança. §1º
Nos casos deste artigo, precederá autorização judicial, após exame das circunstâncias e dos riscos
da empresa, bem como da conveniência em continuá-la, podendo a autorização ser revogada
pelo juiz, ouvidos os pais, tutores ou representantes legais do menor ou do interdito, sem
prejuízo dos direitos adquiridos por terceiros. §2º Não ficam sujeitos ao resultado da empresa os
bens que o incapaz já possuía, ao tempo da sucessão ou da interdição, desde que estranhos ao
acervo daquela, devendo tais fatos constar do alvará que conceder a autorização. §3º O Registro
Público de Empresas Mercantis a cargo das Juntas Comerciais deverá registrar contratos ou
alterações contratuais de sociedade que envolva sócio incapaz, desde que atendidos, de forma
conjunta, os seguintes pressupostos: I – o sócio incapaz não pode exercer a administração da
sociedade; II – o capital social deve ser totalmente integralizado; III – o sócio relativamente
incapaz deve ser assistido e o absolutamente incapaz deve ser representado por seus
representantes legais.
- A emancipação traz a antecipação dos efeitos da maioridade civil. Assim sendo, o menor
emancipado poderia exercer a atividade empresarial, independente de autorização. (art. 5º, do
CC)
- CC, art. 966. Considera-se empresário quem exerce profissionalmente atividade econômica
organizada para a produção ou a circulação de bens ou de serviços. Parágrafo único. Não se
considera empresário quem exerce profissão intelectual, de natureza científica, literária ou
artística, ainda com o concurso de auxiliares ou colaboradores, salvo se o exercício da profissão
constituir elemento de empresa.
- Art. 982. Salvo as exceções expressas, considera-se empresária a sociedade que tem por objeto
o exercício de atividade própria de empresário sujeito a registro ( art. 967 ); e, simples, as demais.
Parágrafo único. Independentemente de seu objeto, considera-se empresária a sociedade por
ações; e, simples, a cooperativa.
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2002/l10406.htm#art967
57
Questão 4
(CONSULPLAN - Concurso de Outorga de Delegações do TJMG – 2019 – Critério Provimento)
Segundo o art. 966 do Código Civil, considera-se empresário quem exerce profissionalmente atividade
econômica organizada para a produção ou a circulação de bens ou de serviços. À luz do Código Civil,
a respeito da atividade de empresário, analise as afirmativas a seguir.
I. Antes do início de sua atividade, é obrigatória a inscrição do empresário no Registro Público de
Empresas Mercantis da respectiva sede. II. Desde que esteja devidamente representado ou assistido, a
incapacidade superveniente não impede o empresário de dar continuidade à empresa. III. A outorga
conjugal não é condição para que o empresário casado possa alienar imóveis que integram o
patrimônio da empresa. IV. A sentença que decreta ou homologa a separaçãojudicial do empresário
não pode ser oposta a terceiros antes de arquivada e averbada no Registro Público de Empresas
Mercantis.
Está correto o que se afirma em
A) I, II, III e IV.
B) I e II, apenas.
C) III e IV, apenas.
D) I, II e IV, apenas.
Comentário:
- CC, art. 967. É obrigatória a inscrição do empresário no Registro Público de Empresas Mercantis
da respectiva sede, antes do início de sua atividade.
- Mais uma vez sendo cobrado o art. 974, CC, que é muito cobrado nos concursos: “Poderá o
incapaz, por meio de representante ou devidamente assistido, continuar a empresa antes exercida
por ele enquanto capaz, por seus pais ou pelo autor de herança.” (...)
58
- CC, art. 978. O empresário casado pode, sem necessidade de outorga conjugal, qualquer que
seja o regime de bens, alienar os imóveis que integrem o patrimônio da empresa ou gravá-los de
ônus real.
- CC, art. 980. A sentença que decretar ou homologar a separação judicial do empresário e o ato
de reconciliação não podem ser opostos a terceiros, antes de arquivados e averbados no Registro
Público de Empresas Mercantis.
Questão 5
(IESES - Concurso de Outorga de Delegações do TJSC – 2019 – Critério Remoção) Quando se trata
da origem e evolução do direito comercial, nos é apontado pela doutrina que:
A) O Código Civil Italiano de 1942 estabeleceu um regime para todas as formas de atividades
econômicas, restabelecendo o sistema objetivo de identificação daqueles que se dedicavam ao
comércio.
B) O Código Comercial Brasileiro de 1850 tinha um caráter marcadamente subjetivista de identificação
do comerciante: seria comerciante aquele que arquivasse os atos constitutivos no Registro Público de
Empresas.
C) Os ideais da Revolução Francesa acompanharam o surgimento de um direito unificado, regulando
tanto os atos de comércio, que só poderiam ser praticados pelos comerciantes, como os atos de
natureza civil.
D) A teoria subjetiva somente considerava comerciantes aqueles que estivessem matriculados em uma
das corporações de ofício, os quais dispunham de uma atividade jurisdicional especializada.
Comentário:
Os primeiros passos do Direito Comercial ocorrem em meio ao ressurgimento das cidades e ao
renascimento do comércio, ainda em plena Idade Média (Séculos XI a XIII), sob o domínio do
regime feudal. Os primeiros comerciantes ficavam submeTIdos às regras costumeiras (direito
consuetudinário), já que não havia regulação específica para suas atividades.
59
Os comerciantes mais ricos financiaram o monarca e o apoiaram para a unificação dos feudos em
um reino, em troca de regulamentos que os beneficiassem.
Por lógica, nem todos os comerciantes foram incluídos nesse acordo e, desse modo, nem todos
poderiam ser beneficiar dele. Isso explica porque, em seu início, o Direito Empresarial era
classista, ou seja, só outorgava proteção aos comerciantes e aos artesãos vinculados às
corporações de ofício (aqueles que haviam feito o acordo com o monarca ou os que, por um
motivo ou outro, fossem aceitos como abiguinhos desses). Por isso se fala em fase subjetivista
(vinculada aos sujeitos).
E os usos e os costumes paulatinamente foram substituídos, em parte, pela legislação real e
depois estatal. As regras de Direito Comercial surgiram para: (a) garantir privilégios às
corporações de ofício e (b) assegurar o oligopólio no exercício das profissões.
Questão 6
(VUNESP - Concurso de Outorga de Delegações do TJRS – 2019 – Critério Remoção) A sociedade
empresária ABC Manufaturas Ltda. possui diferentes divisões de negócios no Brasil. Decidindo
descontinuar determinada divisão para concentrar-se em outras consideradas mais rentáveis, aliena a
planta fabril correspondente, assim como direitos, bens e obrigações atrelados à respectiva divisão.
Como resultado da alienação, a sociedade resulta financeiramente ainda mais sólida. Considerando
este caso, é correto afirmar que:
A) os contratos de longo prazo celebrados pela sociedade alienante para a venda dos produtos
fabricados a partir do estabelecimento alienado só poderão ser assumidos pelo adquirente por meio
de acordo de cessão contratual, com aprovação expressa das respectivas contrapartes.
B) o negócio jurídico celebrado qualifica-se como trespasse do estabelecimento comercial, é válido
entre as partes desde a sua celebração, mas sua eficácia perante terceiros requer averbação no registro
público de empresas mercantis e publicação na imprensa oficial.
C) além da averbação no registro público competente e publicação na imprensa oficial, a eficácia da
alienação depende ainda do pagamento de todos os credores do alienante ou do consentimento
expresso ou tácito destes.
D) a sociedade alienante poderá ainda ceder ao adquirente, como parte do negócio jurídico celebrado,
os créditos já contabilizados em decorrência da exploração do estabelecimento; neste caso, após a
60
publicação da transferência do estabelecimento na imprensa oficial, a contraparte devedora (cliente)
que pagar o crédito cedido à sociedade alienante não será considerada liberada de sua obrigação,
independentemente de qualquer outra providência por parte do adquirente.
E) o adquirente do estabelecimento responde pelos débitos associados ao estabelecimento alienado e
anteriores à alienação, tenham sido eles contabilizados ou não.
Comentário:
A presente questão pode ser resolvida de acordo com as previsões legais trazidas no Código
Civil, que regulamentam o contrato de trespasse:
- CC, art. 1.144. O contrato que tenha por objeto a alienação, o usufruto ou arrendamento do
estabelecimento, só produzirá efeitos quanto a terceiros depois de averbado à margem da
inscrição do empresário, ou da sociedade empresária, no Registro Público de Empresas Mercantis,
e de publicado na imprensa oficial.
- CC, art. 1.145. Se ao alienante não restarem bens suficientes para solver o seu passivo, a eficácia
da alienação do estabelecimento depende do pagamento de todos os credores, ou do
consentimento destes, de modo expresso ou tácito, em trinta dias a partir de sua notificação.
- CC, art. 1.146. O adquirente do estabelecimento responde pelo pagamento dos débitos
anteriores à transferência, desde que regularmente contabilizados, continuando o devedor
primitivo solidariamente obrigado pelo prazo de um ano, a partir, quanto aos créditos vencidos,
da publicação, e, quanto aos outros, da data do vencimento.
- CC, art. 1.147. Não havendo autorização expressa, o alienante do estabelecimento não pode
fazer concorrência ao adquirente, nos cinco anos subseqüentes à transferência.
Parágrafo único. No caso de arrendamento ou usufruto do estabelecimento, a proibição prevista
neste artigo persistirá durante o prazo do contrato.
- CC, art. 1.148. Salvo disposição em contrário, a transferência importa a sub-rogação do
adquirente nos contratos estipulados para exploração do estabelecimento, se não tiverem caráter
pessoal, podendo os terceiros rescindir o contrato em noventa dias a contar da publicação da
transferência, se ocorrer justa causa, ressalvada, neste caso, a responsabilidade do alienante.
61
- CC, art. 1.149. A cessão dos créditos referentes ao estabelecimento transferido produzirá efeito
em relação aos respectivos devedores, desde o momento da publicação da transferência, mas o
devedor ficará exonerado se de boa-fé pagar ao cedente.
Questão 7
(VUNESP - Concurso de Outorga de Delegações do TJRS – 2019 – Critério Provimento) Em relação
ao estabelecimento empresarial, é correto afirmar:
A) Pode o estabelecimento ser objeto unitário de direitos e de negócios jurídicos, translativos ou
constitutivos, que sejam compatíveis com a sua natureza.
B) Não havendo autorização expressa, o alienante do estabelecimento não pode fazer concorrência ao
adquirente, nos dois anos subsequentes à transferência, aplicando-se tal proibição no caso de cessão,
arrendamentoou usufruto do estabelecimento, pelo prazo de três anos.
C) Independentemente de não restarem bens suficientes para solver o passivo do alienante, a eficácia
da alienação do estabelecimento depende do pagamento de todos os credores, ou do consentimento
destes, de modo expresso em 60 dias a partir de sua notificação.
D) A transferência não importa a sub-rogação do adquirente nos contratos estipulados para exploração
do estabelecimento, mesmo se não tiverem caráter pessoal, podendo os terceiros rescindir o contrato
em trinta dias a contar da assinatura do instrumento.
E) O adquirente do estabelecimento responde pelo pagamento dos débitos anteriores à transferência,
desde que regularmente contabilizados, continuando o devedor primitivo solidariamente obrigado pelo
prazo de dois anos, a partir, quanto aos créditos vencidos, da publicação, ficando exonerado perante
os devedores, em relação aos vincendos.
Comentário:
- CC, art. 1.143. Pode o estabelecimento ser objeto unitário de direitos e de negócios jurídicos,
translativos ou constitutivos, que sejam compatíveis com a sua natureza.
62
- CC, art. 1.147. Não havendo autorização expressa, o alienante do estabelecimento não pode
fazer concorrência ao adquirente, nos cinco anos subseqüentes à transferência.
Parágrafo único. No caso de arrendamento ou usufruto do estabelecimento, a proibição prevista
neste artigo persistirá durante o prazo do contrato.
- CC, art. 1.148. Salvo disposição em contrário, a transferência importa a sub-rogação do
adquirente nos contratos estipulados para exploração do estabelecimento, se não tiverem caráter
pessoal, podendo os terceiros rescindir o contrato em noventa dias a contar da publicação da
transferência, se ocorrer justa causa, ressalvada, neste caso, a responsabilidade do alienante.
- Art. 1.149. A cessão dos créditos referentes ao estabelecimento transferido produzirá efeito em
relação aos respectivos devedores, desde o momento da publicação da transferência, mas o
devedor ficará exonerado se de boa-fé pagar ao cedente.
- Art. 1.146. O adquirente do estabelecimento responde pelo pagamento dos débitos anteriores à
transferência, desde que regularmente contabilizados, continuando o devedor primitivo
solidariamente obrigado pelo prazo de um ano, a partir, quanto aos créditos vencidos, da
publicação, e, quanto aos outros, da data do vencimento.
Questão 8
(VUNESP - Concurso de Outorga de Delegações do TJRS – 2019 – Critério Provimento) Em relação
à EIRELI – Empresa individual de Responsabilidade Limitada, dispõe a Lei nº 12.441/11:
A) A empresa individual de responsabilidade limitada será constituída por uma única pessoa titular da
totalidade do capital social, a ser integralizado no prazo máximo de doze meses, que não será inferior
a 100 (cem) vezes o maior salário-mínimo vigente no País.
B) A empresa individual de responsabilidade limitada também poderá resultar da concentração das
quotas de outra modalidade societária num único sócio, independentemente das razões que
motivaram tal concentração.
C) O nome empresarial deverá ser formado pela inclusão da expressão “EIRELI” após a firma social da
empresa individual de responsabilidade limitada, vedada a utilização de denominação, aplicando-se a
mesma no que couber, as regras previstas para as sociedades empresárias.
63
D) É vedada a atribuição à empresa individual de responsabilidade limitada constituída para a
prestação de serviços de qualquer natureza a remuneração decorrente da cessão de direitos
patrimoniais de autor ou de imagem, nome, marca ou voz de que seja detentor o titular da pessoa
jurídica, vinculados à atividade profissional.
E) A pessoa natural que constituir empresa individual de responsabilidade limitada somente poderá
figurar em uma única empresa dessa modalidade, salvo se anteriormente já possuía registro como
empresário individual.
Comentário:
- A questão pode ser resolvida pela previsão legal acerca da EIRELI:
Art. 980-A. A empresa individual de responsabilidade limitada será constituída por uma única
pessoa titular da totalidade do capital social, devidamente integralizado, que não será inferior a
100 (cem) vezes o maior salário-mínimo vigente no País.
§1º O nome empresarial deverá ser formado pela inclusão da expressão "EIRELI " após a firma
ou a denominação social da empresa individual de responsabilidade limitada.
§2º A pessoa natural que constituir empresa individual de responsabilidade limitada somente
poderá figurar em uma única empresa dessa modalidade.
§3º A empresa individual de responsabilidade limitada também poderá resultar da concentração
das quotas de outra modalidade societária num único sócio, independentemente das razões que
motivaram tal concentração.
§5º Poderá ser atribuída à empresa individual de responsabilidade limitada constituída para a
prestação de serviços de qualquer natureza a remuneração decorrente da cessão de direitos
patrimoniais de autor ou de imagem, nome, marca ou voz de que seja detentor o titular da
pessoa jurídica, vinculados à atividade profissional.
§ 6º Aplicam-se à empresa individual de responsabilidade limitada, no que couber, as regras
previstas para as sociedades limitadas.
64
§7º Somente o patrimônio social da empresa responderá pelas dívidas da empresa individual de
responsabilidade limitada, hipótese em que não se confundirá, em qualquer situação, com o
patrimônio do titular que a constitui, ressalvados os casos de fraude.
Questão 9
(VUNESP - Concurso de Outorga de Delegações do TJRS – 2019 – Critério Provimento) Em relação
ao registro e o nome empresarial, dispõe o Código Civil:
A) O ato sujeito a registro, ressalvadas disposições especiais da lei, não pode, antes do cumprimento
das respectivas formalidades, ser oposto a terceiro, salvo prova de que este o conhecia.
B) O registro dos atos sujeitos à formalidade exigida para o empresário e para as sociedades simples e
empresárias, será requerido pelo sócio com poderes de gestão, e, no caso de omissão ou demora, por
qualquer um dos sócios, sendo que os documentos necessários ao registro deverão ser apresentados
no prazo de vinte dias, contado da lavratura dos atos respectivos.
C) Para fins de registro, cumpre à autoridade competente, a qualquer tempo, verificar a autenticidade e
a legitimidade do signatário do requerimento, bem como fiscalizar a observância das prescrições legais
concernentes ao ato ou aos documentos apresentados, obrigando-se a comunicar no prazo de 30 dias
ao representante do Ministério Público, eventuais indícios de fraudes detectadas.
D) É vedada a utilização de firma na sociedade anônima e na sociedade em comandita por ações, que
obrigatoriamente deverão adotar denominação designativa do objeto social, aditada da expressão
“sociedade anônima” e “comandita por ações”, por extenso ou abreviadamente.
E) O nome empresarial não pode ser objeto de alienação, exceto se o adquirente do estabelecimento,
por ato entre vivos, exercer a mesma atividade empresarial de seu antecessor, mediante autorização
expressa do alienante no contrato social e declaração da quitação do preço.
Comentário:
- CC, art. 1.154. O ato sujeito a registro, ressalvadas disposições especiais da lei, não pode, antes
do cumprimento das respectivas formalidades, ser oposto a terceiro, salvo prova de que este o
65
conhecia. Parágrafo único. O terceiro não pode alegar ignorância, desde que cumpridas as
referidas formalidades.
Questão 10
(VUNESP - Concurso de Outorga de Delegações do TJRS – 2019 – Critério Provimento) Em relação
à caracterização, inscrição e capacidade do empresário, dispõe o Código Civil:
A) Faculta-se aos cônjuges contratar sociedade, entre si ou com terceiros, desde que não tenham
casado no regime da comunhão parcial de bens, ou no da separação total, e, a sentença que decretar
ou homologar a separaçãojudicial do empresário e o ato de reconciliação podem a qualquer tempo,
ser opostos a terceiros.
B) A lei assegurará tratamento favorecido, diferenciado e simplificado ao empresário rural, ao pequeno
empresário e ao titular da EIRELI, quanto à inscrição e aos efeitos daí decorrentes, desde que o
faturamento anual não seja superior a R$ 81.000,00.
C) O empresário casado não pode sem a outorga conjugal, salvo se no regime da separação total de
bens, alienar os imóveis que integrem o patrimônio da empresa ou gravá-los de ônus real.
D) Se o representante ou assistente do incapaz for pessoa que, por disposição de lei, não puder
exercer atividade de empresário, nomeará, com a aprovação do juiz, um ou mais gerentes, cuja
aprovação não exime o representante ou assistente do menor ou do interdito da responsabilidade
pelos atos dos gerentes nomeados.
E) É obrigatória a inscrição do empresário no Registro Público de Empresas Mercantis da respectiva
sede, no prazo máximo de até 30 dias após o início de suas atividades, sendo que eventuais alterações,
serão averbadas à margem da inscrição, no prazo máximo de 15 dias de sua ocorrência.
Comentário:
- CC, Art. 975. Se o representante ou assistente do incapaz for pessoa que, por disposição de lei,
não puder exercer atividade de empresário, nomeará, com a aprovação do juiz, um ou mais
gerentes. §1º Do mesmo modo será nomeado gerente em todos os casos em que o juiz entender
66
ser conveniente. §2º A aprovação do juiz não exime o representante ou assistente do menor ou
do interdito da responsabilidade pelos atos dos gerentes nomeados.
67
GABARITO
Questão 1 - C
Questão 2 - A
Questão 3 - D
Questão 4 - A
Questão 5 - D
Questão 6 - B
Questão 7 - A
Questão 8 - B
Questão 9 - A
Questão 10 - D
68
69
QUESTÃO DESAFIO
Há diversas normas de direito público que impedem determinadas pessoas de exercer a
atividade empresarial. Tais impedimentos dizem respeito ao exercício de empresa e a
possibilidade de serem sócios de sociedades empresárias?
Máximo de 5 linhas
70
GABARITO DA QUESTÃO DESAFIO
Não, o fato de haver proibição para o exercício de empresa não causa necessariamente
proibição de atuação como sócio, já que os sócios de uma sociedade empresária não são
empresários.
Você deve ter abordado necessariamente os seguintes itens em sua resposta:
Não é proibição para ser sócio
O Código Civil traz apenas o art. 1.011, §1º com impedimentos para administradores, quais
sejam: os condenados a pena que vede, ainda que temporariamente, o acesso a cargos
públicos; ou por crime falimentar, de prevaricação, peita ou suborno, concussão, peculato; ou
contra a economia popular, contra o sistema financeiro nacional, contra as normas de defesa
da concorrência, contra as relações de consumo, a fé pública ou a propriedade, enquanto
perdurarem os efeitos da condenação.
A maioria dos impedimentos ao exercício de empresa está em leis especiais, e não proíbem as
pessoas impedidas de serem sócios de sociedade empresária, como explica o autor André
Santa Cruz (CRUZ, André Santa. Direito Empresarial. 8. ed. São Paulo: Método, 2020. p. 179-
179.): “É preciso atentar para o fato de que a proibição é para o exercício de empresa, não
sendo vedado, pois, que alguns impedidos sejam sócios de sociedades empresárias, uma vez
que, nesse caso, quem exerce a atividade empresarial é a própria pessoa jurídica, e não seus
sócios.”..
Sócio não é empresário
É necessário se atentar ao fato de que os sócios de uma sociedade não são empresários. O
autor André Santa Cruz explica (CRUZ, André Santa. Direito Empresarial. 8. ed. São Paulo:
Método, 2020. p. 179-179.): “Quando pessoas (naturais) unem seus esforços para, em
sociedade, ganhar dinheiro com a exploração empresarial de uma atividade econômica, elas
não se tornam empresárias. A sociedade por elas constituída, uma pessoa jurídica com
personalidade autônoma, sujeito de direito independente, é que será empresária, para todos
os efeitos legais. Os sócios da sociedade empresária são empreendedores ou investidores, de
acordo com a colaboração dada à sociedade (...). As regras que são aplicáveis ao empresário
71
individual não se aplicam aos sócios da sociedade empresária – é muito importante aprender
isto.”.
São exemplos de leis que impedem determinadas pessoas de exercerem a atividade
empresarial: o art. 117, X, da Lei 8.112/1990, relativo aos servidores públicos federais; o art. 36,
I, da LC 35/1979 – Lei Orgânica da Magistratura Nacional –, relativo aos magistrados; o art. 44,
III, da Lei 8.625/1993, relativo aos membros do Ministério Público; o art. 29 da Lei 6.880/1980,
relativo aos militares.
LEGISLAÇÃO COMPILADA
Teoria Geral do Direito Empresarial:
CC/02: arts. 966-980-A
Empresário
Enunciado 58, CJF
O empresário individual casado é o destinatário da norma do art. 978 do CCB e não depende
da outorga conjugal para alienar ou gravar de ônus real o imóvel utilizado no exercício da
empresa, desde que exista prévia averbação de autorização conjugal à conferência do imóvel
72
ao patrimônio empresarial no cartório de registro de imóveis, com a consequente averbação
do ato à margem de sua inscrição no registro público de empresas mercantis.18
Enunciado 195, CJF
Art. 966: A expressão “elemento de empresa” demanda interpretação econômica, devendo ser
analisada sob a égide da absorção da atividade intelectual, de natureza científica, literária ou
artística, como um dos fatores da organização empresarial.
Enunciado 197, CJF
A pessoa natural, maior de 16 e menor de 18 anos, é reputada empresário regular se satisfizer
os requisitos dos arts. 966 e 967; todavia, não tem direito a concordata preventiva, por não
exercer regularmente a atividade por mais de dois anos.
Enunciado 203, CJF
O exercício de empresa por empresário incapaz, representado ou assistido, somente é possível
nos casos de incapacidade superveniente ou incapacidade do sucessor na sucessão por morte.
Enunciado 204, CJF
Art. 977: A proibição de sociedade entre pessoas casadas sob o regime da comunhão
universal ou da separação obrigatória só atinge as sociedades constituídas após a vigência do
Código Civil de 2002.
Enunciado 205, CJF
Art. 977: Adotar as seguintes interpretações ao art. 977: (1) a vedação à participação de
cônjuges casados nas condições previstas no artigo refere-se unicamente a uma mesma
sociedade; (2) o artigo abrange tanto a participação originária (na constituição da sociedade)
quanto a derivada, isto é, fica vedado o ingresso de sócio casado em sociedade de que já
participa o outro cônjuge.
Enunciado 198, CJF
18 Vide a questão 4 deste material.
73
A inscrição do empresário ou sociedade empresária é requisito delineador de sua
regularidade, e não da sua caracterização.
Enunciado 199, CJF
A inscrição do empresário na Junta Comercial não é requisito para a sua caracterização,
admitindo-se o exercício da empresa sem tal providência. O empresário irregular reúne os
requisitos do art. 966, sujeitando-se às normas do Código Civil e da legislação comercial, salvo
naquilo em que forem incompatíveis com a sua condição ou diante de expressa disposição em
contrário.
Enunciado 202, CJF
O registro do empresário ou sociedade rural na Junta Comercial é facultativo e de natureza
constitutiva, sujeitando-o ao regime jurídico empresarial. É inaplicável esse regime ao
empresário ou sociedade rural que não exercer tal opção.19
JURISPRUDÊNCIA
Sociedade Empresária
STJ, 1ª Turma. REsp 1358410/RJ, Rel. Min. Luis Felipe Salomão. julgado em
04/08/2016.
Mesmo diante decontrato locatício celebrado entre o sócio e o empreendedor (locador) de
shopping center, há legitimidade ativa concorrente do sócio (pessoa física) e da sociedade
(pessoa jurídica) para pleitear indenização causada por danos ao estabelecimento situado em
19 Vide a questão 2 deste material.
74
shopping center. Em um contrato de shopping center, a sociedade empresária tem
legitimidade ativa "ad causam", em concorrência com o locatário - pessoa física -, para
demandar o empreendedor nas causas em que houver interesses relativos ao estabelecimento
empresarial, desde que, no contrato firmado entre as partes, haja a expressa destinação do
espaço para a realização das atividades empresariais da sociedade da qual faça parte.
STJ, 1ª Turma. REsp 1.227.240/SP, Rel. Min. Luis Felipe Salomão. julgado em
09/06/2015.
De acordo com o Código Civil, as sociedades podem ser de duas categorias: simples e
empresárias. Ambas exploram atividade econômica e objetivam o lucro. A diferença entre elas
reside no fato de a sociedade simples explorar atividade não empresarial, tais como as
atividades intelectuais, enquanto a sociedade empresária explora atividade econômica
empresarial, marcada pela organização dos fatores de produção (art. 982, CC). A sociedade
simples é formada por pessoas que exercem profissão do gênero intelectual, tendo como
espécie a natureza científica, literária ou artística, e mesmo que conte com a colaboração de
auxiliares, o exercício da profissão não constituirá elemento de empresa (III Jornada de Direito
Civil, Enunciados n. 193, 194 e 195). As sociedades de advogados são sociedades simples
marcadas pela inexistência de organização dos fatores de produção para o desenvolvimento
da atividade a que se propõem. Os sócios, advogados, ainda que objetivem lucro, utilizem-se
de estrutura complexa e contem com colaboradores nunca revestirão caráter empresarial,
tendo em vista a existência de expressa vedação legal (arts. 15 a 17, Lei n. 8.906/1994).
Impossível que sejam levados em consideração, em processo de dissolução de sociedade
simples, elementos típicos de sociedade empresária, tais como bens incorpóreos, como a
clientela e seu respectivo valor econômico e a estrutura do escritório.
STJ. REsp 1682989/ RS 2017/0144466-0. T2. Rel Min. Herman Benjamin. DJ
19/09/2017, DJP 09/10/2017
AGRAVO DE INSTRUMENTO. TRIBUTÁRIO. EXECUÇÃO FISCAL. EMPRESÁRIO INDIVIDUAL.
REDIRECIONAMENTO. 1. A controvérsia cinge-se à responsabilidade patrimonial do empresário
75
individual e as formalidades legais para sua inclusão no polo passivo de execução de débito
da firma da qual era titular. 2. O acórdão recorrido entendeu que o empresário individual atua
em nome próprio, respondendo com seu patrimônio pessoal pelas obrigações assumidas no
exercício de suas atividades profissionais, sem as limitações de responsabilidade aplicáveis às
sociedades empresárias e demais pessoas jurídicas. 3. A jurisprudência do STJ já fixou o
entendimento de que "a empresa individual é mera ficção jurídica que permite à pessoa
natural atuar no mercado com vantagens próprias da pessoa jurídica, sem que a titularidade
implique distinção patrimonial entre o empresário individual e a pessoa natural titular da firma
individual" (REsp 1.355.000/SP, Rel. Ministro Marco Buzzi, Quarta Turma, julgado em
20/10/2016, DJe 10/11/2016) e de que "o empresário individual responde pelas obrigações
adquiridas pela pessoa jurídica, de modo que não há distinção entre pessoa física e jurídica,
para os fins de direito, inclusive no tange ao patrimônio de ambos" (AREsp 508.190, Rel. Min.
Marco Buzzi, Publicação em 4/5/2017). 4. Sendo assim, o empresário individual responde pela
dívida da firma, sem necessidade de instauração do procedimento de desconsideração da
personalidade jurídica (art. 50 do CC/2002 e arts. 133 e 137 do CPC/2015), por ausência de
separação patrimonial que justifique esse rito. 5. O entendimento adotado pelo Tribunal de
origem guarda consonância com a jurisprudência do STJ, o que já seria suficiente para se
rejeitar a pretensão recursal com base na Súmula 83/STJ. O referido verbete sumular aplica-se
aos recursos interpostos tanto pela alínea "a" quanto pela alínea "c" do permissivo
constitucional. Nesse sentido: REsp 1.186.889/DF, Segunda Turma, Relator Ministro Castro
Meira, DJe de 2.6.2010. 6. Não obstante isso, não se constata o preenchimento dos requisitos
legais e regimentais para a propositura do Recurso Especial pela alínea "c" do art. 105 da CF.
7. A apontada divergência deve ser comprovada, cabendo a quem recorre demonstrar as
circunstâncias que identificam ou assemelham os casos confrontados, com a indicação da
similitude fática e jurídica entre eles. 8. In casu, o recorrente não se desincumbiu do ônus de
demonstrar que os casos comparados tratam da mesma situação fática: empresário individual.
Ao revés, limitou-se a transcrever ementas e trechos que versam sobre sociedade empresarial
cuja diferença em relação ao caso dos autos foi suficientemente explanada neste julgado. 9.
Recurso Especial não conhecido.)
76
Direitos Fundamentais
As autoridades e os agentes fiscais tributários da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos
Municípios podem requisitar diretamente das instituições financeiras informações sobre as
movimentações bancárias dos contribuintes. Esta possibilidade encontra-se prevista no art. 6º
da LC 105/2001, que foi considerada constitucional pelo STF. Isso porque esta previsão não se
caracteriza como "quebra" de sigilo bancário, ocorrendo apenas a “transferência de sigilo” dos
bancos ao Fisco.
STF. Plenário. RE 603616/RO, Rel. Min. Gilmar Mendes, julgado em 4 e
5/11/2015 (repercussão geral) (Info 806).
A entrada forçada em domicílio sem mandado judicial só é lícita, mesmo em período noturno,
quando amparada em fundadas razões, devidamente justificadas “a posteriori”, que indiquem
que dentro da casa ocorre situação de flagrante delito, sob pena de responsabilidade
disciplinar, civil e penal do agente ou da autoridade, e de nulidade dos atos praticados.
STF. Plenário. ADI 2404/DF, Rel. Min. Dias Toffoli, julgado em 31/8/2016 (Info
837)
É inconstitucional a expressão “em horário diverso do autorizado” contida no art. 254 do ECA.
"Art. 254. Transmitir, através de rádio ou televisão, espetáculo em horário diverso do
autorizado ou sem aviso de sua classificação: Pena - multa de vinte a cem salários de
referência; duplicada em caso de reincidência a autoridade judiciária poderá determinar a
suspensão da programação da emissora por até dois dias." O Estado não pode determinar
que os programas somente possam ser exibidos em determinados horários. Isso seria uma
imposição, o que é vedado pelo texto constitucional por configurar censura. O Poder Público
pode apenas recomendar os horários adequados. A classificação dos programas é indicativa (e
não obrigatória).
77
Mandado de Segurança
STF. RMS 32487, Relator(a): Min. MARCO AURÉLIO, Primeira Turma, julgado em
07/11/2017
O termo inicial para a formalização de mandado de segurança pressupõe a ciência do
impetrante, nos termos dos artigos 3º e 26 da Lei nº 9.784/1999, quando o ato impugnado
surgir no âmbito de processo administrativo do qual seja parte. MANDADO DE SEGURANÇA –
DILAÇÃO PROBATÓRIA – PRESCINDIBILIDADE. Instruído o processo com documentos
suficientes ao exame da pretensão veiculada na petição inicial, descabe suscitar a
inadequação da via mandamental.
STJ. AgInt no RMS 42.563/MG, Rel. Ministra REGINA HELENA COSTA, PRIMEIRA
TURMA, julgado em 23/05/2017, DJe 29/05/2017
PROCESSUAL CIVIL. ADMINISTRATIVO. AGRAVO INTERNO NO RECURSO ORDINÁRIO EM
MANDADO DE SEGURANÇA. CÓDIGO DE PROCESSO CIVIL DE 2015. APLICABILIDADE.
PROFISSIONAIS DA EDUCAÇÃOBÁSICA. INOBSERVÂNCIA DO PISO SALARIAL ESTABELECIDO
EM LEI FEDERAL. MANDADO DE SEGURANÇA. ILEGITIMIDADE PASSIVA. TEORIA DA
ENCAMPAÇÃO. APLICABILIDADE. ARGUMENTOS INSUFICIENTES PARA DESCONSTITUIR A
DECISÃO ATACADA. I - Consoante o decidido pelo Plenário desta Corte na sessão realizada
em 09.03.2016, o regime recursal será determinado pela data da publicação do provimento
jurisdicional impugnado. In casu, aplica-se o Código de Processo Civil de 2015. II - A
jurisprudência desta Corte firmou entendimento segundo o qual, a aplicação da teoria da
encampação, que mitiga a indicação errônea da autoridade coatora em mandado de
segurança, tem lugar quando presentes os seguintes requisitos: (i) vínculo hierárquico entre a
autoridade que prestou as informações e aquela que determinou a prática do ato; (ii)
manifestação sobre o mérito nas informações prestadas, e; (iii) ausência de modificação na
competência constitucionalmente estabelecida. III - In casu, observo ser cabível a aplicação da
teoria da encampação, porquanto: (i) existe vínculo hierárquico entre a autoridade apontada
no mandamus e aquela que seria legitimada a figurar no polo passivo (Governador do Estado
e Secretário Estadual de Planejamento e Gestão); (ii) a autoridade Impetrada, em suas
78
informações, manifestou-se sobre o mérito do mandamus (fl. 111e), e; (iii) conforme o art. 106,
I, c, da Constituição do Estado de Minas Gerais, não há modificação da competência do
Tribunal de Justiça. IV - O Agravante não apresenta, no agravo, argumentos suficientes para
desconstituir a decisão recorrida. V - Agravo Interno improvido.
STF. MS 25097, Relator(a): Min. GILMAR MENDES, Segunda Turma, julgado em
28/03/2017
Mandado de Segurança. 2. Ato do TCU. Suposta cumulação indevida de proventos. Suspensão
dos pagamentos. 3. Decadência. Verificação de impetração do mandamus em data posterior
ao prazo de 120 dias da ciência do ato impugnado. Superação. Medida liminar concedida há
mais de doze anos. Preservação da segurança jurídica. Precedentes do STF. 4. Cumulação de
proventos e pensões. Cargos públicos inacumuláveis em atividade. Regimes civil e militar.
Concessão anterior à Emenda Constitucional 20/1998. Possibilidade. Precedentes. 5. Segurança
concedida.
79
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
COELHO, Fábio Ulhoa. Curso de direito comercial, volume 1: direito de empresa. São Paulo:
Editora Revista dos Tribunais, 2016.
FAZZIO JUNIOR, WALDO. Manual de direito comercial. São Paulo: Atlas, 2017.
MAMEDE, Gladston. Manual de direito empresarial. São Paulo: Atlas, 2017.
PENANTE JR, Francisco. Resumos para concursos, vol. 37, Direito Empresarial, 2ª edição.
São Paulo: Editora JusPodivm, 2017.
PENANTE JR, Francisco. LAURINDO, Felipe. Prática empresarial. Recife: Armador, 2016.
CARTÓRIO
Direito Empresarial
Capítulo 2
1
SUMÁRIO
DIREITO EMPRESARIAL .................................................................................................................................................... 2
2. Regime Jurídico da Atividade Empresarial ..................................................................................................... 2
2.1 Registro Empresarial........................................................................................................................................ 2
2.1.1 SINREM ........................................................................................................................................................... 7
2.1.2 Atos de registro ............................................................................................................................................. 10
2.1.3 Escrituração .................................................................................................................................................. 18
QUADRO SINÓTICO ....................................................................................................................................................... 39
QUESTÕES COMENTADAS .......................................................................................................................................... 41
GABARITO ........................................................................................................................................................................... 56
LEGISLAÇÃO COMPILADA............................................................................................................................................ 60
JURISPRUDÊNCIA................................................................................................................................................................ 61
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ................................................................................................................................. 67
2
DIREITO EMPRESARIAL
Capítulo 2
2. Regime Jurídico da Atividade Empresarial
Neste capítulo, estudaremos o Regime Jurídico da Atividade Empresarial com enfoque
nos temas registro empresarial, nome empresarial e prepostos do empresário.
Destaca-se, de início, que tais temas foram cobrados de forma variada nos últimos
concursos de outorga de delegações de notas e registros. É importante ter muita atenção para
não confundir os atos que são passíveis de registro pelos Oficiais de Registro Civil das Pessoas
Jurídicas (Lei 6.015/73, artigo 114) e os atos que são atribuição das Juntas Comerciais (Lei
8.934/94). É muito comum que o Examinador tente confundi-lo neste ponto. Apesar de não
ser comum, pode ser que seja cobrado alguns procedimentos registrais afetos às Juntas
Comercais. Portanto, vale a pena uma leitura da mencionada lei. No mais, este material se
mostra suficiente para auxiliá-lo na preparação dos concursos.
2.1 Registro Empresarial
Conforme previsão, o Registro Público de Empresas Mercantis é exercido em todo o
território nacional, de forma sistêmica, por órgãos federais, estaduais e distrital e detém as
seguintes finalidades:
I - dar garantia, publicidade, autenticidade, segurança e eficácia aos atos jurídicos das
empresas mercantis, submetidos a registro na forma desta lei;
II - cadastrar as empresas nacionais e estrangeiras em funcionamento no País e manter
atualizadas as informações pertinentes;
III - proceder à matrícula dos agentes auxiliares do comércio, bem como ao seu
cancelamento.
3
A inscrição na Junta Comercial antes de iniciar a atividade é obrigação legal imposta a
todo e qualquer empresário (empresário individual ou sociedade empresária), sob pena de
começar a exercer a empresa irregularmente
Tal obrigação decorre do comando do art. 967 do Código Civil:
Art. 967. É obrigatória a inscrição do empresário no Registro Público de Empresas
Mercantis da respectiva sede, antes do início de sua atividade.
Recorde-se que, para o empresário comum, o registro é mera condição de regularidade.
Nessa linha, o enunciado 199 do CJF, conferindo interpretação ao art. 967 do CC, determina
que “a inscrição do empresário ou sociedade empresária é requisito delineador de sua
regularidade, e não de sua caracterização”. Ou seja, se o empresário não fizer o registro, ele
não deixa de ser empresário, mas será considerado empresário irregular, sofrendo, por isso,
algumas consequências (por exemplo: a impossibilidade de requerer recuperação judicial).
Contudo, quanto ao ruralista, tal registro é indispensável para que se caracterize como
empresário, pois a lei permite que, mesmo que pratique atividade nos moldes do art. 966 do
CC, opte por não aderir ao regime jurídico empresarial, não efetivando seu registro na Junta
Comercial.
O empresário rural é a pessoa física ou jurídica que exerce atividade agrária, seja ela
agrícola, pecuária, agroindustrial ou extrativa (vegetal ou mineral), procurando conjugar, de
forma racional, organizada e econômica,os fatores terra, trabalho e capital.
Nessa linha, tem-se o art. 971 do Código Civil:
Art. 971. O empresário, cuja atividade rural constitua sua principal profissão, pode,
observadas as formalidades de que tratam o art. 968 e seus parágrafos, requerer
inscrição no Registro Público de Empresas Mercantis da respectiva sede, caso em que,
depois de inscrito, ficará equiparado, para todos os efeitos, ao empresário sujeito a
registro.
Diante desse contexto, forçoso é concluir que, para o rurícola, o registro empresarial é
facultativo e constitutivo, como pode ser inferido do seguinte enunciado do CJF:
Enunciado 202, CJF: Arts. 971 e 984: O registro do empresário ou sociedade rural na
Junta Comercial é facultativo e de natureza constitutiva, sujeitando-o ao regime
4
jurídico empresarial. É inaplicável esse regime ao empresário ou sociedade rural que não
exercer tal opção.
Retornando-se ao art. 967, pode dizer-se que ele não adota o sistema subjetivo de
direito comercial ou empresarial, tal como na primeira fase evolutiva desse ramo do direito.
Nesta, para ser comerciante, era necessário o registro nas corporações de ofício, instituições
que criavam regras aplicáveis somente aos que nelas estavam escritos.
Conforme o regramento atual, a ausência do registro não subtrai o sujeito do regime
empresarial, mas somente o submete às sanções decorrentes do descumprimento da norma.
O empresário não registrado é um empresário irregular.
Nesse sentido, tem-se o seguinte enunciado do CJF:
Enunciado 198, CJF: Art. 967: A inscrição do empresário na Junta Comercial não é
requisito para a sua caracterização, admitindo-se o exercício da empresa sem tal
providência. O empresário irregular reúne os requisitos do art. 966, sujeitando-se às
normas do Código Civil e da legislação comercial, salvo naquilo em que forem
incompatíveis com a sua condição ou diante de expressa disposição em contrário.
A obrigatoriedade do registro deflui do art. 969 do Código Civil:
Art. 969. O empresário que instituir sucursal, filial ou agência, em lugar sujeito à
jurisdição de outro Registro Público de Empresas Mercantis, neste deverá também
inscrevê-la, com a prova da inscrição originária.
Parágrafo único. Em qualquer caso, a constituição do estabelecimento secundário
deverá ser averbada no Registro Público de Empresas Mercantis da respectiva sede.
Pode-se definir filial, juridicamente, como a sociedade empresária que atua sob a
direção e administração de outra, chamada de matriz, mas mantém sua personalidade jurídica
e o seu patrimônio, bem como preserva sua autonomia diante da lei e do público. Agência,
por sua vez, pode ser conceituada como empresa especializada em prestação de serviços que
atua especificamente como intermediária. E sucursal, por fim, é o ponto de negócio acessório
e distinto do ponto principal, responsável por tratar dos negócios deste e a ele subordinado
administrativamente.
Observe-se, contudo, que o Superior Tribunal de Justiça inclui no conceito de filial o
estabelecimento empresarial que não constitui sede dos negócios:
5
Verifica-se, portanto, que a filial, na condição de espécie de estabelecimento, é um
bem, um instrumento, uma universalidade de fato que integra o patrimônio da
sociedade empresária e não uma pessoa distinta desta. Destarte, a discriminação do
patrimônio da empresa, mediante a criação de filiais, não afasta a unidade patrimonial
da pessoa jurídica, que, na condição de devedora, deve responder com todo o ativo do
patrimônio social por suas dívidas, à luz de regra de direito processual prevista no art.
591 do Código de Processo Civil, segundo a qual “o devedor responde, para o
cumprimento de suas obrigações, com todos os seus bens presentes e futuros, salvo as
restrições estabelecidas em lei”. (STJ, 2ª Turma, AgRgREsp 1544571/SC, Relator: Ministro
Mauro Campbell Marques, julgado em 6/10/2015, DJe 16/10/2015.)
O tema do estabelecimento e de suas respectivas filiais, sucursais ou agências também
é relevante para se saber qual é o domicílio do empresário individual e da sociedade
empresária, visto que será o local indicado em seus atos constitutivos, quando do registro na
Junta Comercial.
Observe-se, no entanto, que o Código de Processo Civil de 2015 estabelece como foro
competente quanto às obrigações que a pessoa jurídica contraiu, o lugar onde se acha sua
agência ou sucursal (art. 53, III, b). O Código Civil, por sua vez, em seu art. 75, §1º, estabelece
que, “tendo a pessoa jurídica diversos estabelecimentos em lugares diferentes, cada um deles
será considerado domicílio para os atos nele praticados”.
Nessa mesma linha, o texto da súmula 363 do STF ao considerar que a pessoa jurídica
de direito privado, gênero do qual a sociedade empresária é espécie, “pode ser demandada
no domicílio da agência, ou estabelecimento, em que se praticou o ato”. Nesse sentido é
também a norma do art. 75, §1º, do Código Civil.
É importante deixar uma questão clara, por impactar diretamente na atividade registral,
especificamente na rotina dos Oficiais de Registro Civil das Pessoas Jurídicas. Em resumo,
conforme art. 966, do CC, adotamos a “teoria da empresa”, assim, a sociedade que exerce
atividade econômica com organização dos fatores de produção é uma sociedade empresária e
aquela sociedade que exerce atividade econômica sem organização é uma sociedade simples,
6
além daquelas que exercem atividade intelectual de natureza científica, artística ou literária,
salvo de constituir elemento de empresa (ponto de diferenciação mais complexo).1
A distinção entre a sociedade empresária e a simples é fundamental para a atividade
registral e para definição de atribuições, uma vez que, sendo empresária, o registro dar-se-á
na Junca Comercial, sendo simples, todavia, no Registro Civil de Pessoas Jurídicas (conforme
art. 1.150, do CC). O mesmo critério aplica-se a EIRELI simples e empresária (Nota Cosit nº
446, de 16/12/2.011, a Resolução COMISSÃO NACIONAL DE CLASSIFICAÇÃO CONCLA Nº 02,
DE 21/12/2.011 e o Ato Declaratório Executivo COORDENAÇÃO-GERAL DE CADASTRO-COCAD
Nº 2, de 22/12/2.011, atos estes disponíveis no site do Instituto de Registro de Títulos e
Documentos e de Pessoas Jurídicas do Brasil-IRTDPJBRASIL (www.irtdpjbrasil.com.br), onde
também poderá ser encontrado um “Manual” contendo orientações e procedimentos para o
registro do ato constitutivo de EIRELI).
É extremamente importante saber onde é o local adequado para a promoção do
registro. Em razão disso, é recorrente a cobrança nos concursos de outorga de delegações de
notas e registros:(CESPE - Concurso de Outorga de Delegações do TJDF – 2019 – Critério
Provimento) A respeito do registro de empresários e de sociedades, assinale a opção correta.2
A) As sociedades simples devem ser inscritas no registro público de empresas mercantis, ainda
que não exerçam atividade econômica organizada.
B) Os empresários devem ser inscritos no registro público de empresas mercantis em razão da
natureza meramente intelectual inerente à sua atividade.
C) As sociedades simples devem ser inscritas no registro civil de pessoas jurídicas quando
exercerem atividades profissionais e intelectuais.
D) Os empresários devem ser inscritos no registro civil de pessoas jurídicas, haja vista que
exercem atividade econômica organizada.
1 Vide a questão 3 deste material.
2 Vide a questão 1 deste material.
7
E) As sociedades empresárias devem ser inscritas no registro civil de pessoas jurídicas, tendo
em vista o exercício de atividade econômica organizada.
2.1.1 SINREM
SINREM é o Sistema Nacional de Registro de Empresas Mercantis e foi instituído pela
Lei nº 8.934/94 (art. 3º). Destina-se ao registro público de serviços mercantis, sendo que esse
sistema é composto por dois órgãos:
Departamento1.8 Estabelecimento empresarial ...........................................................................................................................................34
1.8.1 Trespasse ...................................................................................................................................................................................38
1.8.2 Eficácia do trespasse ............................................................................................................................................................40
1.8.3 Responsabilidade do adquirente e do alienante ....................................................................................................41
1.8.4 Sub-rogação nos contratos de exploração ...............................................................................................................45
6
1.8.5 Aviamento.................................................................................................................................................................................46
1.8.6 Ponto comercial .....................................................................................................................................................................47
1.8.7 Ação Renovatória ..................................................................................................................................................................48
QUADRO SINÓTICO ...................................................................................................................................................... 51
QUESTÕES COMENTADAS ........................................................................................................................................ 52
GABARITO ........................................................................................................................................................................... 67
LEGISLAÇÃO COMPILADA............................................................................................................................................ 71
JURISPRUDÊNCIA ............................................................................................................................................................. 73
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ................................................................................................................................. 79
7
DIREITO EMPRESARIAL
Capítulo 1
1. Teoria Geral do Direito Empresarial
Neste capítulo, estudaremos a Teoria Geral do Direito Empresarial, tema de grande valia
para a compreensão de toda a matéria de Direito Empresarial, além de ser composto por
assuntos de alta incidência nos últimos concursos de cartórios. Estabelecer uma “teoria geral”
é um exercício que objetiva permitir que o estudioso conheça a dimensão da matéria e seus
conceitos basilares. Para fazê-lo em sede do Direito Empresarial, é importante introduzir que
se trata de ramo do direito privado que regula a atividade econômica exercida de modo
organizado e aqueles que a exercem com proficiência.
Pode-se notar que, nas avaliações de primeira fase, conforme Questões Comentadas
colacionadas ao final, via de regra são cobrados os textos das normas legais, especialmente do
Código Civil, que foi significativamente alterado pela Lei de Liberdade Econômica
(13.874/2019). Contudo, é importante estar por dentro de todas as discussões doutrinárias e
jurisprudencial.
1.1 Evolução Histórica do Direito Empresarial
Há um campo específico da Ciência Jurídica estruturado com base na concepção atual
de “empresa”. Essa noção, por sua vez, surgiu a partir da evolução dos critérios utilizados
para definição do objeto do Direito Empresarial.
O desenvolvimento histórico desse ramo jurídico é tão relevante que até mesmo a sua
denominação acompanhou o progresso de seus institutos. Tanto assim que superou a
designação Direito Comercial, antes utilizada para indicar o conjunto de normas, princípios e
práticas aplicáveis às relações entre aqueles que desempenhavam certa atividade econômica: o
comércio.
8
Pois bem, em um determinado período histórico inexistiu, sequer, nomenclatura para
designar o conjunto de práticas mercantis utilizadas pelos “cônsules” da Idade Média para a
solução de litígios. Dessa constatação, extraem-se dois aspectos elementares da primeira fase
evolutiva do Direito Empresarial: a consuetudinariedade de suas normas e a atuação do
“Juízo Consular”.
Daí se depreendem as seguintes características desse momento evolutivo inicial do
Direito de Empresa: a) costumeiro, em que os usos e costumes geralmente observados pelos
mercadores constituíam a sua principal fonte; b) internacional, uma vez que os usos e
costumes mercantis eram aplicados geralmente em toda a Europa, nas grandes feiras; e c)
corporativo, pois suas normas eram aplicadas pelo tribunal das corporações (juízo consular)
no julgamento das controvérsias existentes entre os seus próprios membros. O Direito
Comercial é, nesse momento, um direito de classe.
Percebe-se, assim, que um conjunto de usos e costumes foi esboçado em benefício, tão
somente, da figura do comerciante. Por esta razão, essa incipiente fase foi considerada como
subjetivista.
O cônsul era um comerciante ou um mestre artesão (dono de uma corporação de
ofício) que, em razão de sua maior experiência, dominava melhor os costumes mercantis. Por
isso, era ele quem decidia os dissídios entre mercadores, aplicando tais práticas, tendo-se em
vista a inexistência de normas codificadas.
Em um segundo momento, logo após a Revolução Francesa, buscou-se a sistematização
das normas consuetudinárias em um único diploma legal. O marco histórico dessa segunda
fase do Direito Empresarial foi a edição do Código Comercial Francês de 1807, geralmente,
associado à figura Napoleão Bonaparte.
Nessa etapa, passou a ser considerado como objeto do Direito Comercial todo e
qualquer ato enumerado, taxativamente, como mercancia. Daí falar-se na Teoria dos Atos de
Comércio. Por não se centralizar mais sobre a figura do comerciante, tal teoria imprimiu uma
feição objetivista a essa fase.
9
Sendo assim, pode-se dizer que essa segunda fase foi marcada pelas seguintes
características: a) clara separação entre Direito Comercial e Direito Civil como ramos
autônomos e independentes; b) especificidade do direito comercial, sendo que o próprio ato
do comércio caracterizava a profissão dos comerciantes; c) caracterização do Direito
Comercial pelo objeto (comércio) e não pelo sujeito (comerciante); d) monopólio da
jurisdição pelo Estado devido à perda da força das corporações de ofício.
Todavia, também o método de delimitação da matéria comercial proposto pela Teoria
dos Atos de Comércio se mostrou insuficiente, vez que não alcançava outros setores da
economia, tais como a indústria e a prestação de serviços.
Diante disso, surgiu, na Itália, nova proposta para estabelecer o alcance do ramo do
direito privado ora examinado, a qual foi marcada como terceira fase evolutiva do Direito
Empresarial. A Teoria da Empresa, recepcionada pelo Código Civil Italiano de 1942 e com
grande aceitação por diversos ordenamentos jurídicos, trouxe parâmetros bem mais
sofisticados.
Conforme mencionado acima, os novos critérios provocaram, inclusive, a mudança da
terminologia utilizada para designar o setor do saber jurídico ao qual se aplicavam. Sendo
assim, de Direito Comercial passou-se à denominação Direito Empresarial.
André Luiz Ramos Santa-Cruz, inspirado nas lições de Waldirio Bulgarelli, assim compara
as duas teorias:
Para a teoria da empresa, o direito comercial não se limita a regular apenas as relações
jurídicas em que ocorra a prática de um determinado ato definido em lei como ato de
comércio (mercancia). A teoria da empresa faz com que o direitode Registro Empresarial e Integração ou DREI (antigo DNRC).
Junta Comercial (órgão estadual e executor);
O Departamento Nacional de Registro de Comércio (DNRC) foi extinto pelo Decreto
8.001/2013, que criou o Departamento de Registro Empresarial e Integração (DREI). Tem
natureza jurídica de órgão federal vinculado ao Ministério da Economia, encarregado de
normatizar e fiscalizar os atos de registro.
A Junta Comercial é responsável pela execução e administração dos atos de registro.
Sua natureza jurídica é de autarquia estadual, integrante da estrutura administrativa dos
Estados-membros. Cada unidade federativa possui uma Junta Comercial, segundo disposição
constante do art. 5º da lei.
Por fazerem parte da estrutura administrativa dos Estados, mas, ao mesmo tempo,
sujeitarem-se, no plano técnico, às normas e diretrizes baixadas pelo DREI, diz-se que as
juntas comerciais têm subordinação hierárquica híbrida.
Sendo assim, somente a Junta Comercial do Distrito Federal se submete, tanto técnica
como administrativamente, ao DREI, conforme preceitua o art. 6º, parágrafo único, da Lei
8.934/1994.
Sobre a subordinação hierárquica híbrida das Juntas Comerciais, André Luiz Santa Cruz
Ramos explica:
Em razão desse caráter híbrido de subordinação das Juntas Comerciais (ao Estado-
membro respectivo e ao DREI), o Superior Tribunal de Justiça consolidou entendimento
de que há uma divisão de competência para apreciar ações judiciais em que a Junta
8
Comercial seja parte. Tratando-se de matéria administrativa, a competência para
processar e julgar as ações em que a Junta figure num dos polos da demanda é da
Justiça comum estadual. Em contrapartida, em se tratando de matéria técnica, relativa
ao registro de empresa, a competência passa a ser da Justiça Federal, em virtude do
interesse na causa do DREI, conforme preceitua o art. 109, inciso I, da Constituição
Federal.
Assim, se no processo se discute, por exemplo, o reajuste de servidores da Junta
Comercial, a competência será da Justiça Estadual, porque nesse caso a lide versa sobre
matéria eminentemente administrativa.
Porém, se a Junta Comercial indeferir o pedido de arquivamento de contrato social de
uma determinada sociedade limitada, com base numa Instrução Normativa do DREI, e essa
sociedade resolver impetrar mandado de segurança contra tal decisão, deverá fazê-lo perante
a Justiça Federal, porque, nesse caso, a Junta agiu sob orientação de um ente federal, o DREI.
Contudo, o autor supramencionado assinala que o próprio STJ alterou esse
posicionamento, passando a entender que a Justiça Federal é competente para julgar os
processos em que figura como parte a Junta Comercial somente nos casos em que se discute
a lisura do ato praticado pela Junta ou nos casos de mandado de segurança impetrado contra
ato de seu presidente. (REsp 678.405/RJ, 3.ª Turma, Rel. Min. Castro Filho, j. 16.03.2006, DJ
10.04.2006, p. 179).
Dessa forma, quando se tratar de demanda que envolva somente questões particulares,
como conflitos societários, a competência será da Justiça Estadual, ainda que no processo
esteja sendo discutido um ato ou registro praticado pela Junta Comercial.
9
Muito embora tenha sido investido nas funções de órgão central disciplinador,
fiscalizador e supervisor do registro de empresas, o DREI não dispõe de instrumentos de
intervenção nas Juntas comerciais, caso não adotem suas diretrizes ou deixem de acatar
recomendações de correção. A lei estabelece, apenas, que o DREI pode representar às
autoridades competentes as irregularidades que identificar (ex. Governador, Ministério Público
Estadual etc).
]
Ministério da
Economia
SINREM
DREI
Junta
ComercialSubordinação técnica
Su
bo
rdi
na
çã
o
Ad
mi
nis
tra
tiv
a
Estado-Membro
Vinculação
Órgãos
10
(NCUFPR - Concurso de Outorga de Delegações do TJPR – 2019 – Critério Provimento)
Várias foram as alterações promovidas no âmbito da organização do registro do comércio,
especialmente após a criação da Rede Nacional para a Simplificação do Registro e da
Legalização de Empresas e Negócios (REDESIM) pela Lei nº 11.598/2007 e após as reformas
ministeriais promovidas entre os anos de 2015 e 2018. Com relação ao assunto, identifique
como verdadeiras (V) ou falsas (F) as seguintes afirmativas:
( ) Os serviços do Registro Público de Empresas Mercantis e Atividades Afins serão exercidos,
em todo o território nacional, de maneira uniforme, harmônica e interdependente, pelo
Sistema Nacional de Registro de Empresas Mercantis, composto pelo Departamento Nacional
de Registro do Comércio, como órgão central, e pelas Juntas Comerciais, como órgãos locais.
( ) A competência de preparar e relatar os documentos submetidos à deliberação pelas Juntas
Comerciais é da Procuradoria, sendo vedada a constituição de uma assessoria técnica para tal
finalidade.
( ) O Departamento Nacional de Registro Empresarial e Integração integra o Sistema Nacional
de Registro de Empresas Mercantis, competindo-lhe, entre outras atribuições, propor os
planos de ação, políticas, diretrizes e normas relativas ao Registro Público de Empresas
Mercantis e Atividades Afins.
( ) O mandato de Vogal, e respectivo suplente, será de 4 anos, permitida apenas uma
recondução, sendo que o Vogal, ou seu suplente, perderá o mandato caso tenha mais de três
faltas consecutivas às sessões, ou 12 alternadas no mesmo ano, sem justo motivo.
Assinale a alternativa que apresenta a sequência correta, de cima para baixo.3
2.1.2 Atos de registro
Quanto aos atos de registro, podemos resumi-los nos seguintes:
Autenticação: se relaciona à escrituração do empresário (livros), sendo condição de
regularidade desses documentos. Assim, um livro comercial deve ser levado à Junta
Comercial para autenticação e, neste ato, terá todos os requisitos extrínsecos que
3 Vide a questão 11 deste material.
11
devem ser observados na escrituração. Conforme o art. 39 da Lei 8.934/1994, “as
juntas comerciais autenticarão: I – os instrumentos de escrituração das empresas
mercantis e dos agentes auxiliares do comércio; II – as cópias dos documentos
assentados”. Contudo, não se pode olvidar o que se encontra previsto nos arts. 39-
A e 39-B, inseridos pela Lei Complementar 147/2014: “a autenticação dos
documentos de empresas de qualquer porte realizada por meio de sistemas
públicos eletrônicos dispensa qualquer outra” (art. 39-A); e “a comprovação da
autenticação de documentos e da autoria de que trata esta Lei poderá ser realizada
por meio eletrônico, na forma do regulamento” (art. 39-B).
Matrícula: relaciona-se aos auxiliares do comércio tais como leiloeiros, tradutores
públicos, trapicheiros etc. Consiste em uma condição para que eles possam exercer,
regularmente, tais atividades paracomerciais.
Arquivamento: se refere aos atos de constituição (registro em sentido estrito),
modificação e extinção (averbação, para tudo que vem depois da constituição);
correspondem, por sua vez, ao registro dos empresários individuais, sociedades
empresárias e cooperativas.
No que se refere ao arquivamento, alguns pontos merecem ser esclarecidos.
De acordo com o art. 32, inciso II, da Lei 8.934/1994, estão sujeitos ao arquivamento:
Os documentos relativos à constituição, alteração, dissolução e extinção de
firmas mercantis individuais, sociedades mercantis e cooperativas; 4
Os atos relativos a consórcio e grupo de sociedade de que trata a Lei 6.404, de 15
de dezembro de 1976;
Os atos concernentes a empresas mercantis estrangeiras autorizadas a funcionar
no Brasil;
As declarações de microempresa;
4 Vide a questão 4 deste material.
12
Atos ou documentos que, por determinação legal, sejam atribuídosao Registro
Público de Empresas Mercantis e Atividades Afins ou daqueles que possam
interessar ao empresário e às empresas mercantis.
O art. 35 da referida Lei, por sua vez, enuncia uma série de atos que não devem se
sujeitar ao arquivamento:
I - os documentos que não obedecerem às prescrições legais ou regulamentares ou que
contiverem matéria contrária aos bons costumes ou à ordem pública, bem como os que
colidirem com o respectivo estatuto ou contrato não modificado anteriormente;
II - os documentos de constituição ou alteração de empresas mercantis de qualquer
espécie ou modalidade em que figure como titular ou administrador pessoa que esteja
condenada pela prática de crime cuja pena vede o acesso à atividade mercantil;
III - os atos constitutivos de empresas mercantis que, além das cláusulas exigidas em lei,
não designarem o respectivo capital, bem como a declaração precisa de seu objeto, cuja
indicação no nome empresarial é facultativa;
IV - a prorrogação do contrato social, depois de findo o prazo nele fixado;
V - os atos de empresas mercantis com nome idêntico ou semelhante a outro já
existente;
VI - a alteração contratual, por deliberação majoritária do capital social, quando houver
cláusula restritiva;
VII - os contratos sociais ou suas alterações em que haja incorporação de imóveis à
sociedade, por instrumento particular, quando do instrumento não constar:
a) a descrição e identificação do imóvel, sua área, dados relativos à sua titulação, bem
como o número da matrícula no registro imobiliário;
b) a outorga uxória ou marital, quando necessária;
VIII - os contratos ou estatutos de sociedades mercantis, ainda não aprovados pelo
Governo, nos casos em que for necessária essa aprovação, bem como as posteriores
alterações, antes de igualmente aprovadas.
Parágrafo único. A junta não dará andamento a qualquer documento de alteração de
firmas individuais ou sociedades, sem que dos respectivos requerimentos e instrumentos
conste o Número de Identificação de Registro de Empresas (Nire).
No que diz respeito às sociedades cooperativas, durante muito tempo, houve polêmica
sobre onde deveriam ser registradas. Se, por um lado, o Código Civil as considera como
sociedade simples (art. 982, parágrafo único), o que atrairia a competência do Oficial de
Registro de Pessoas Jurídicas (art. 1.150), a lei específica dessas instituições determina que seu
registro ocorra na Junta Comercial (art. 18 da Lei 5.764/1971).
13
Nesse sentido, o art. 1.093 do CC estipula que “a sociedade cooperativa reger-se-á pelo
disposto no presente Capítulo, ressalvada a legislação especial”. O enunciado 69 do CJF, por
sua vez, consolida a interpretação daquele preceito legal da seguinte forma: “as sociedades
cooperativas são sociedades simples sujeitas à inscrição nas juntas comerciais”.
É importante ressaltar que, em alguns Estados, como, por exemplo, em Minas Gerais, há
previsão no Código de Normas de que é vedada a inscrição de cooperativas nos Oficiais de
Registro Civil das Pessoas Jurídicas: art. 410, das NSCGJ-MG: É vedado ao oficial de registro civil das
pessoas jurídicas: (...) VII - o registro ou a averbação de alteração de atos constitutivos de sociedade
cooperativa. O parágrafo segundo do referido artigo ainda dispõe que: § 2º Na hipótese do inciso VII,
o oficial de registro entregará ao requerente nota devolutiva, fundamentando a recusa da prática do
ato e orientando quanto à necessidade de registro na Junta Comercial do Estado de Minas Gerais.
O empresário individual arquiva na Junta Comercial sua declaração de que exerce
atividade nos moldes do art. 966. Por este motivo se diz que seu registro tem natureza
declaratória. Excepciona-se, contudo, o rurícola que, como visto, se constitui como
empresário mediante o registro na Junta Comercial.
Por outro lado, o registro da sociedade empresária ou da EIRELI têm natureza
constitutiva, haja vista a criação da pessoa jurídica por meio do registro (art. 45, CC). 5
Observe, entretanto, que, tanto no caso do empresário individual como no caso da
sociedade empresária, o ato sujeito a registro deverá ter o visto de advogado (art. 1º, § 2º da
Lei 8.934/1994), salvo no caso de microempresa ou empresa de pequeno porte (art. 9º, § 2º
da LC 123/2006).
5 Vide a questão 10 deste material.
14
É importante mencionar que, segundo o art. 1.154 do Código Civil, o ato sujeito a
registro não pode ser oposto a terceiros antes do cumprimento das formalidades exigidas,
salvo se houver prova de que o terceiro o conhecia.
Conforme André Luiz Santa cruz Ramos:
A norma é plenamente justificável, e possui outros dispositivos correlatos, que
representam verdadeiro desdobramento do seu conteúdo normativo (por exemplo, arts.
1.015, parágrafo único, II, e 1.174, ambos do Código Civil).
Com efeito, se as Juntas Comerciais são o órgão de registro público dos empresários e
das sociedades empresárias, sua função precípua é tornar públicos os atos desses
agentes econômicos, a fim de se tornarem conhecidos de terceiros e a eles poderem ser
opostos.
O teor do art. 1.154 do Código Civil foi objeto de questionamento no concurso de
outorga de delegações do Estado do Rio Grande do Sul (VUNESP - 2019): O ato sujeito a
registro, ressalvadas disposições especiais da lei, não pode, antes do cumprimento das
respectivas formalidades, ser oposto a terceiro, salvo prova de que este o conhecia. Parágrafo
único. O terceiro não pode alegar ignorância, desde que cumpridas as referidas formalidades.6
A ausência do registro provoca, dentre outros efeitos, a ilegitimidade ativa para pedido
de falência de terceiro e pedido de recuperação judicial. Nesse diapasão, vale destacar que,
muito embora possa ter sua falência requerida, a sociedade empresária que,
irregularmente, não mantém registro, não pode pedir a falência alheia. Isso porque o art. 97,
§ 1º, da Lei 11.101/2005 (Lei de Falências) exige que o credor empresário comprove a
regularidade de suas atividades, por meio da apresentação de certidão do Registro Público de
Empresas, para que possa requerer a falência do devedor.
Interessante notar que o art. 105 da Lei 11.101/2005 admite que uma sociedade
empresária não registrada faça o pedido de autofalência, bastando que prove, por outros
6 Vide a questão 5 deste material.
15
documentos, quem são os seus sócios, com os respectivos endereços e relação de bens
pessoais.
Outras implicações da falta de registro consistem na impossibilidade de se inscrever no
cadastro nacional de pessoas jurídicas (CNPJ), de obter certidão negativa de débitos tributários
e, por consequência, de participar de licitação.
No que tange à sociedade ou à EIRELI, o mais grave efeito da ausência de registro diz
respeito ao regime da responsabilidade de seus integrantes, que será ilimitada. E isso em
virtude de, em tais situações, aplicar-se o regramento das sociedades em comum (arts. 986 a
990 do CC).
Conforme o art. 36 da Lei 8.934/1994, “os documentos referidos no inciso II do art. 32
deverão ser apresentados a arquivamento na junta, dentro de 30 (trinta) dias contados de sua
assinatura, a cuja data retroagirão os efeitos do arquivamento; fora desse prazo, o
arquivamento só terá eficácia a partir do despacho que o conceder”.
O Código Civil dispõe no mesmo sentido em seu art. 1.151, §§ 1.º e 2.º, preceituando,
no § 3.º, que “as pessoas obrigadas a requerer o registro responderão por perdas e danos, em
caso de omissão ou demora”.
Daí se conclui a relevância de que, por exemplo, uma alteração de contrato social seja
levada a registro na Junta Comercial dentro de 30 (trinta) contados da sua efetiva realização.
Se isso não ocorrer, tal alteração contratual só será considerada eficaz peranteterceiros após
o deferimento do registro. Por outro lado, se o registro for feito no prazo legal, a alteração do
contrato retroagirá seus efeitos desde a data em que foi decidida pelos sócios.
Em síntese, “se o ato é levado a registro dentro do prazo legal de trinta dias, o
registro opera efeitos ex tunc, retroagindo à data da sua efetiva realização. Em contrapartida,
se o ato é levado a registro fora do prazo legal de trinta dias, produz efeitos ex nunc, ou
seja, só se torna eficaz a partir do seu deferimento”.
16
No concurso de outorga de delegações do Estado do Paraná foi trazido o seguinte caso
prático: Maria e João, amigos da época de faculdade, formados em administração de
empresas, resolveram estabelecer entre si sociedade para o desenvolvimento de software
como serviço (SaaS), com início imediato da atividade empresarial. Passados 6 meses do início
das atividades, em 01 de janeiro de 2019 assinaram o contrato social de constituição da
sociedade empresária, apresentando-o para arquivamento na Junta Comercial competente em
03 de fevereiro de 2019. Em 15 de fevereiro de 2019, foi concedido o registro e arquivamento
dos atos constitutivos. É importante ter muita atenção nessas questões em que são trazidas
datas, pois exige conhecimento do prazo legal e dos efeitos do descumprimento do prazo.7
O art. 1.151 afasta qualquer dúvida a respeito dessa conclusão:
Art. 1.151. O registro dos atos sujeitos à formalidade exigida no artigo antecedente será
requerido pela pessoa obrigada em lei, e, no caso de omissão ou demora, pelo sócio ou
qualquer interessado.
§ 1º Os documentos necessários ao registro deverão ser apresentados no prazo de trinta
dias, contado da lavratura dos atos respectivos.8
§ 2º Requerido além do prazo previsto neste artigo, o registro somente produzirá efeito
a partir da data de sua concessão.
Nesse sentido, a Ministra Nancy Andrighi decidiu pela concessão de efeitos retroativos
para alteração de quadro societário, cuja data da confecção e assinatura do respectivo acordo
ocorreu antes do registro, mas este foi efetivado dentro dos 30 (trinta) dias seguintes (REsp
1.381.719 – BA).
Em síntese, podemos ilustrar os efeitos retroativos dos registro com o seguinte
esquema:
7 Vide a questão 2 deste material.
8 Vide a questão 8 deste material.
17
O art. 37 da Lei 8.934/1994 relaciona os documentos que devem instruir os pedidos de
arquivamento de atos constitutivos e suas respectivas alterações. O seu parágrafo único, por
sua vez, determina que, além daqueles que o artigo expressamente elenca, nenhum outro
documento será exigido das firmas individuais e sociedades referidas nas alíneas a, b e d do
inciso II do art. 32”. Na mesma esteira, o Decreto 1.800/1996, que regulamentou a Lei
8.934/1994, deixa claro em seu art. 34, parágrafo único, que outros documentos só podem ser
exigidos se houver “expressa determinação legal”.
Ocorre que, costuma ser comum a exigência de apresentação de certidão de
regularidade fiscal por decretos estaduais, que sequer possuem leis estaduais respectivas. Em
face disso, o Superior Tribunal de Justiça tem decretado, reiteradamente, a ilegalidade destes
decretos, considerando ilegítima a referida exigência, por considera-la incompatível com o
princípio constitucional da livre-iniciativa.
Ressalta-se que, já foi cobrado em concurso de outorga de delegações, conhecimento
amplo acerca do procedimento registral nas Juntas Comerciais:
Data da
Elaboração
Dentro de 30 dias
Registro
Registro
Após 30 dias
Com efeito retroativo
(ex tunc)
sem efeito Retroativo (ex nunc)
18
(NCUFPR - Concurso de Outorga de Delegações do TJPR – 2019 – Critério Remoção)
Compete aos vogais das Juntas Comerciais examinar o cumprimento das formalidades legais
de todos os atos, documentos ou instrumentos apresentados a arquivamento. Com relação ao
processo decisório e revisional, identifique como verdadeiras (V) ou falsas (F) as seguintes
afirmativas:
( ) A constituição de sociedades anônimas, de consórcios ou grupo de sociedades e de
sociedades limitadas subordinam-se ao regime de decisão colegiada, por meio do Plenário.
( ) Verificada a existência de vício sanável, será formulada pelo Vogal exigência com a
correspondente fundamentação legal, a qual deverá ser cumprida em até 15 dias contados do
dia subsequente à data da ciência pelo interessado ou da publicação do despacho, sendo que
será considerado novo pedido de arquivamento caso o processo seja devolvido após o prazo
de cumprimento, sujeito ao pagamento de novas custas.
( ) Constituem meios de revisão do processo de decisão dos Vogais, Turmas ou Plenário o
pedido de reconsideração e o recurso ao Plenário, sendo inafastável, em qualquer dos casos, a
utilização dos meios judiciais cabíveis.
( ) O pedido de reconsideração terá por objeto obter a revisão de despachos singulares de
Vogais ou de Turmas, sendo que será apreciado pela mesma autoridade que prolatou o
despacho, suspendendo o prazo para o cumprimento de exigências formuladas e objeto da
reconsideração.9
2.1.3 Escrituração
Escriturar significa registrar ou anotar as contas de uma atividade empresarial. Consiste
em lançar nos livros (instrumentos de escrituração) adequados, com base em documento
hábil, as operações que o empresário realiza no desenvolvimento de suas atividades e os
reflexos que delas decorrem.
Em primeiro lugar, é importante estabelecer a distinção entre livro obrigatório e
facultativo, pois a falta de escrituração deste último não constitui ilegalidade ao passo que
isso ocorrerá no caso de omissão do dever de escriturar quanto ao primeiro.
Obrigatório: é aquele que sua escrituração é imposta ao empresário e que a sua
ausência traz consequência sancionadora. Pode ser comum ou especial. O livro
9 Vide a questão 7 deste material.
19
obrigatório especial só é exigível de alguns empresários, como é o caso do livro de
registo de duplicata para aqueles que emitem essa espécie de título. O livro
obrigatório comum está previsto no art. 1.180, CC, sendo que seu único exemplo é
o livro diário, que pode ser substituído por fichas, no caso de ser adotada
escrituração mecanizada ou eletrônica. 10
Facultativo: é aquele que tem para o empresário uma função de controle de seus
negócios, de modo que sua falta não importa em irregularidade ou lhe gera
qualquer tipo de sanção. São exemplos o livro caixa, livro razão, livro conta-
corrente, estoque, dentre outros.
É importante salientar que o Código Civil de 2002 admitiu a escrituração eletrônica:
Art. 1.180. Além dos demais livros exigidos por lei, é indispensável o Diário, que pode
ser substituído por fichas no caso de escrituração mecanizada ou eletrônica.
Parágrafo único. A adoção de fichas não dispensa o uso de livro apropriado para o
lançamento do balanço patrimonial e do de resultado econômico.
Os livros, antes do seu uso, devem, necessariamente, ser autenticados pela Junta
Comercial (Art. 1181 do CC/02), mas somente podem ser autenticados os livros do empresário
regular (p.u. do art. 1181 do CC/02).
10 Vide a questão 6 deste material.
20
O art. 1179, §2º dispensa da escrituração o pequeno empresário mencionado no art.
970. Cuidado! Nas provas falam em microempresa e empresa de pequeno porte. Não é a
mesma coisa. De acordo com a doutrina e a jurisprudência, o “pequeno empresário” é, tão
somente, o microempreendedor individual (MEI).
Recorde a figura do Microempreendedor Individual a partir da tabela abaixo:
Micro empresa (ME)
Empresa de Pequeno Porte
(EPP)
Pequeno empresário
(MEI)
Empresário Individual
Sociedade EmpresáriaSociedade Simples
EIRELI
Empresário Individual
Sociedade Empresária
Sociedade Simples
EIRELI
APENAS empresário
individual (pessoa física).
Logo, pessoa jurídica não pode
ser pequeno empresário.
Não é um tipo de
empresário.
Não é um tipo de
empresário.
Não é um tipo de empresário.
É uma classificação que se dá
para aqueles tipos de
empresários. Trata-se de um
mero enquadramento. Logo,
não é um novo tipo de
empresa.
É uma classificação que se
dá para aqueles tipos de
empresários. Trata-se de um
mero enquadramento. Logo,
não é um novo tipo de
empresa.
É uma classificação que se dá
para um tipo de empresário.
Trata-se de um mero
enquadramento. Logo, não é
um novo tipo de empresa.
A classificação se dá para fins
fiscais e outras vantagens.
A classificação se dá para
fins de benefícios fiscais e
outras vantagens.
Na prática, é o conhecido
Micro empreendedor
individual (MEI).
21
Receita Bruta anual inferior a
R$ 360.000,000.
Receita Bruta anual superior
a R$ 360.000,00 e igual ou
inferior a R$ 4.800.000,000.
Receita Bruta anual igual ou
inferior a R$ 60.000,00.
Não está dispensado da
escrituração dos livros.
Não está dispensado da
escrituração dos livros.
Somente o MEI está
dispensado da escrituração
dos livros.
Os requisitos intrínsecos da escrituração são observados quando ela é feita em idioma
e moeda corrente nacionais e em forma contábil, por ordem cronológica de dia, mês e ano,
sem intervalos em branco, nem entrelinhas, borrões, rasuras, emendas ou transportes para as
margens. Por outro lado, os requisitos extrínsecos, concernentes à segurança dos livros,
referem-se à sua autenticação pela Junta Comercial.
Tais requisitos são essências para determinação da eficácia probatória dos livros
empresariais. O art. 417 do CPC/2015 preceitua que “os livros empresariais provam contra o
seu autor, sendo lícito ao empresário, todavia, demonstrar, por todos os meios permitidos em
direito, que os lançamentos não correspondem à verdade dos fatos”.
Conforme o referido comando legal, a eficácia probatória do livro empresarial contra o
empresário independe de sua correta escrituração. Isso significa que consubstancia presunção
relativa (juris tantum) contra o empresário. Nada impede, contudo, que o empresário
demonstre, por outros meios de prova, que os lançamentos constantes da escrituração que
lhe é desfavorável não correspondem à verdade.
Em contrapartida, para que os livros provem a favor do empresário, é preciso que
estejam regularmente escriturados, conforme impõe o art. 418 do CPC/2015: “os livros
empresariais, que preencham os requisitos exigidos por lei, provam também a favor do seu
autor no litígio entre empresas”.
22
Embora não estejam elencados como títulos executivos, o que, em tese, autorizaria o
acesso à via executiva, quando devidamente escriturados, terão valor probatório em uma ação
ordinária de conhecimento, inclusive, no caso de ação monitória.
O art. 419 do CPC/2015 esclarece que a escrituração contábil é indivisível e, se dos
seus lançamentos uma parte for favorável a seu autor e outra desfavorável, ambas serão
consideradas em conjunto, como unidade.
Como último tema relevante para a escrituração empresarial, tem-se o sigilo
empresarial, o qual deve ser compreendido a partir de certas premissas.
Em primeiro lugar, convém ter em mente que o princípio da sigilosidade da escrituração
orienta a atividade empresarial e significa que as informações contidas nos livros são
relevantes e confidenciais (art. 1.190, CC). Seu escopo é inibir a concorrência desleal, de modo
que nenhuma autoridade pode determinar a apresentação dos livros do empresário, salvo os
casos previstos em lei.
Nessa orientação, o art. 1.190 do CC dispõe que:
Art. 1.190. Ressalvados os casos previstos em lei, nenhuma autoridade, juiz ou tribunal,
sob qualquer pretexto, poderá fazer ou ordenar diligência para verificar se o empresário
ou a sociedade empresária observam, ou não, em seus livros e fichas, as formalidades
prescritas em lei.
Percebe-se, assim, que a exibição dos livros empresariais poderá ser determinada,
judicialmente e em certos casos previstos em lei. Além disso, existem situações que se permite
que o magistrado determine, de ofício, a exibição dos livros empresariais e outros em que isso
somente poderá ocorrer:
EXIBIÇÃO INTEGRAL
(art. 417, CPC c/c art. 1.191, caput, CC)
EXIBIÇÃO PARCIAL
(art. 418, CPC c/c art. 1.191, § 1º, CC)
Possível somente me certos casos, como, por
exemplo, sucessão, falência, sociedade ou
comunhão de interesses e administração ou
gestão à conta de outrem
Cabível em qualquer ação judicial.
23
Somente por requerimento da parte De ofício ou mediante requerimento
No caso de sociedade anônima, a norma aplicável é a seguinte:
Art. 105. A exibição por inteiro dos livros da companhia pode ser ordenada
judicialmente sempre que, a requerimento de acionistas que representem, pelo menos,
5% (cinco por cento) do capital social, sejam apontados atos violadores da lei ou do
estatuto, ou haja fundada suspeita de graves irregularidades praticadas por qualquer dos
órgãos da companhia.
Importante ressaltar que, em todo e qualquer caso de ordem judicial para exibição dos
livros empresariais deverá estar presente o interesse de agir (súmula 260, STF), o qual se
afigura, por exemplo, quando houver pertinência quanto às transações entre as partes.
Convém pontuar que o fato de um livro não ser obrigatório não exime o empresário de
apresenta-lo às autoridades fiscais. Se, mesmo não sendo obrigado, ele o escriturou a
consequência é que deverá disponibilizá-lo. Nesse sentido, a súmula 439 do Supremo Tribunal
Federal enuncia que “estão sujeitos à fiscalização tributária ou previdenciária quaisquer livros
comerciais, limitado o exame aos pontos objeto da investigação.” Na mesma linha, o art. 1.193
determina que o sigilo empresarial não pode ser oposto às autoridades fazendárias, no
exercício da fiscalização do pagamento de impostos, nos termos estritos das respectivas leis
especiais
24
A prova resultante dos livros e fichas não é bastante nos casos em que a lei exige
escritura pública, ou escrito particular revestido de requisitos especiais, visto que pode ser
ilidida pela comprovação da falsidade ou inexatidão dos lançamentos.
Sobre a escrituração dos livros empresariais, convém apresentar três consequências que
se relacionam à:
Ausência de escrituração: além da inviabilidade de utilizar os livros como forma de
prova, o empresário, sociedade empresária ou EIRELI que tiver sua falência
decretada, a concessão de recuperação judicial ou homologação de plano de
recuperação extrajudicial (art. 178 da Lei nº 11.101/2005) praticará crime falimentar,
o que aplica tão somente em relação aos livros obrigatórios (comuns ou especiais).
Ausência de apresentação: O art. 104, II da Lei 11.101/05 determina que, após
decretada a falência, o empresário deposite os livros obrigatórios em cartório, que
serão entregues ao administrador judicial. A não apresentação pode gerar o crime
de desobediência, previsto no art. 104, parágrafo único. Da mesma maneira, quando
a apresentação for obrigatória (ex. inventário), o juiz poderá determinar a busca e
apreensão do livro. Além disso, os fatos narrados que estão diretamente
relacionados à prova do livro não apresentado serão reputados como verdadeiros.
Obviamente, essa presunção é relativa, pois o parágrafo único do art. 1192
estabelece que esse tipo de presunção ficta pode ser elidida por prova documental
em contrário. (art. 1192, caput, CC).
25
Falsificação dos livros comerciais: esse ato importa em crime de falsificação de
documento público (art. 297, §2º, CP), vez que os livros comerciais são equiparados
a documentos públicos. É caso de falsificaçãode documento público por
equiparação.
2.2 Registro Empresarial
2.2.1 Conceito e função
Na lição de Dylson Doria (1995:110), o nome comercial é aquele “adotado pela pessoa
física ou jurídica para o exercício do comércio e por cujo meio se identifica”. Sob a mesma
perspectiva, o Decreto n. 916, de 24 de outubro de 1890, ao conceitua-lo, enfatizou seu
caráter funcional, considerando-o “o nome sob o qual o comerciante ou sociedade exerce o
comércio e assina-se nos atos a ele referentes”.
Em sentido semelhante, o Código Civil, em seu art. 1.155, assim definiu nome comercial:
“considera-se nome empresarial a firma ou a denominação adotada, de conformidade com
este Capítulo, para o exercício de empresa”.
A doutrina indica duas importantes funções para o nome empresarial. A primeira,
considerada como subjetiva, tem por fim identificar e individualizar o sujeito. A segunda,
chamada de objetiva, se relaciona à capacidade de garantir fama, renome, reputação.
2.2.2 Natureza Jurídica do Nome Empresarial
Ricardo Negrão explica que o nome empresarial e suas subespécies, dentre elas as
firmas e as denominações, não integram o estabelecimento empresarial, sendo, antes,
atributos pessoais do empresário ou da sociedade empresária. Diante disso, o autor conclui
que “sua função primordial é a identificação pessoal do titular, seja ele constituído sob a
forma coletiva ou individual”.
26
No entanto, o nome empresarial possui, além da qualidade de identificação de uma
pessoa, outra, de natureza patrimonial, o que leva os doutrinadores a divergirem sobre sua
natureza.
Para uma primeira corrente, ele seria um direito de propriedade industrial11. Esse
entendimento é incompatível com o ordenamento jurídico brasileiro, pois, no atual estágio de
desenvolvimento doutrinário e legislativo, o nome não pode ser considerado direito de
propriedade industrial, vez que este consiste em propriedade imaterial e se constitui coisa
incorpórea, como ocorre com as marcas, patentes e desenhos industriais, que, após sua
criação intelectual, ganham força de direito autônomo ao da personalidade de seu criador.
O nome empresarial, por sua vez, não dispõe dessa autonomia em razão de sua
indissociabilidade da figura humana que o detém. É o que ocorre, por exemplo, com as
firmas, “constituídas de nomes pessoais do empresário ou dos sócios da sociedade
empresária, e, ainda, porque não pode ser alienado mesmo quando se tratar de sua forma
denominativa, não vinculada a nomes pessoais (art. 1.164 do Código Civil).” (NEGRÃO,
2018:156).
Segundo outra corrente doutrinária e jurisprudencial, o nome empresarial tem natureza
de direito pessoal. Para defender esse posicionamento, Karin Grau-Kuntz (1993:63) afirma que
o sistema do direito brasileiro concede personalidade a todas as pessoas jurídicas e considera,
como condição para sua concessão, a adoção do nome empresarial, impedindo que ele seja
objeto de cessão ou transferência, o que faz dele objeto de um direito pessoal.
Como um dos grandes expoentes do direito empresarial brasileiro que se afilia a este
entendimento, tem-se Carvalho de Mendonça (2000, 2:175-176):
O nome do comerciante não é propriedade. Pode, é certo, constituir uma riqueza se a
casa comercial adquiriu fama e crédito, graças ao trabalho, à inteligência e à probidade
do seu fundador, mas isso está longe de constituí-lo em coisa, em objeto de comércio.
Ele não tem valor patrimonial, inestimabilis rest est e assim: a) não figura no ativo do
11 Nesse sentido, Spencer Vampré (1922:180): “o nome comercial constitui uma verdadeira propriedade industrial, e cria
relações jurídicas, análogas às das marcas de fábrica, das patentes de invenção, e da propriedade literária, artística, ou
industrial. (...) Daí se segue que o nome:a) é suscetível de apreciação monetária, pois a indicação do estabelecimento, pela
notoriedade, honradez, e boa escolha dos artigos, exerce decisiva influência na massa das populações; b) é sujeito a danificação,
quando, por exemplo, um concorrente o usurpa, ou, ainda, o difama. A lesão, que daí decorre, não recai sobre a personalidade,
mas sobre o estabelecimento, sobre o conjunto de coisas, que o compõem, inclusive o seu crédito e reputação; c) pode ser
alienado, isoladamente, ou com o estabelecimento a que foi aposto; d) adquire-se pelo uso legítimo, e se perde pelo desuso”
27
balanço da casa comercial; é inalienável e intransmissível, porque é inerente à pessoa e
não pode ser considerado distintamente desta, pelo que não pode ser objeto de
contrato, nem pode ser legado, doado, ou cedido; b) não é suscetível de penhora em
execução; c) não entra na falência, nem a massa creditória dele dispõe; d) não pode
constituir quota social; e) não é desapropriável. Ainda mais o nome é imprescritível
(Clovis, Código Civil, 2ª edição, v. 1. p. 424). Pelo fato de ser a firma comercial exclusiva
de quem a inscreveu no registro não se conclui constituir objeto de propriedade. O
direito de quem inscreveu a firma é meramente pessoal. É direito pessoal absoluto, diz-
nos Clovis Bevilacqua. O exclusivismo é instituído em benefício do comércio para evitar
fraudes e, portanto, no interesse público. É a concorrência desleal que se procura
combater.
A terceira e última corrente doutrinária que pretende explicar a natureza jurídica do
nome empresarial o considera como direito pessoal derivado da concorrência desleal,
qualificando-o a partir de sua utilidade. Nessa linha, Gabriel Leonardos (1994:45) verifica que
tal instituto não constitui propriedade autônoma, tal como ocorre com a marca ou a patente,
mas, a despeito disso, incorpora-se ao fundo do comércio da empresa, com todas as
consequências decorrentes. Tanto assim, que tem como finalidade “proteger os investimentos
feitos para se formar a reputação de um nome, a par de proteger os consumidores que se
habituaram a associar uma determinada qualidade a um dado nome”.
Em face das três correntes apresentadas, a que mais se conforma com o direito
brasileiro é aquela que o considera como direito pessoal. Isso porque, o próprio texto
constitucional o erige à classe dos direitos individuais, de criação intelectual (art. 5º, XXIX da
CRFB). E isso, a despeito de ser tutelado contra a concorrência desleal, o que se faz visando ao
interesse social e ao desenvolvimento tecnológico e econômico do país.
Ricardo Negrão apresenta relevante distinção entre o nome empresarial, a marca, o
título de estabelecimento e a insígnia (NEGRÃO, 2018:158). Segundo o magistério do autor
(...) o nome é atributo da personalidade, por meio do qual o empresário exerce sua
atividade; a marca é sinal distintivo de um produto ou de um serviço; título de
estabelecimento é a designação de um objeto de direito – o estabelecimento
empresarial; e insígnia é um sinal, emblema, formado por figuras, desenhos, símbolos,
conjugados ou não a expressões nominativas. Esta e o título do estabelecimento têm em
comum sua idêntica destinação: designar o estabelecimento do empresário; na forma,
contudo, diferem: a insígnia utiliza a forma emblemática, e o título, a nominativa. (...)
A confusão muitas vezes se estabelece em virtude da possibilidade de utilização do
núcleo de um nome empresarial como marca ou título de estabelecimento. (...)
28
A natureza jurídica de cada um desses elementos é distinta: a primeira – marca – tem
caráter de propriedade imaterial, protegida mediante registro no Instituto Nacional da
Propriedade Industrial, e, como tal, integra o estabelecimento empresarial; o segundo –
título de estabelecimento – é direito intelectual, amparado contra uso indevido, sem
necessidade de qualquer registro; e o último é nome empresarial, atributo do
empresário ou da sociedade empresária, regido pelas disposições dos arts. 1.155 a 1.168
do Código Civil de 2002.
Valendo-sede exemplo oferecido pelo autor, é possível utilizar a expressão linguística
“Brinquedo Asteroide” como marca de produtos fabricados no estabelecimento industrial
“Fábrica de Brinquedos Asteroide”. Considerando que este, por sua vez, pertença ao
empresário “José Asteroide & Cia. Ltda.”, tem-se que o núcleo “Asteróide” é o nome civil de
uma pessoal natural, que foi utilizado para compor os três elementos distintivos do exercício
da empresa.
Por outro lado, imagine que a sociedade empresária “Icecream S/A” possua como
proteção de seus produtos as marcas para sorvete “Tutti Geli” e para bolo “Gostogel”. Nesse
caso, nada impede que, na cidade de Campinas, seu estabelecimento use o título (fantasia)
“Casa do Sorvete d’Itália” e a insígnia formada por essas palavras e pela figura de um sorvete,
na forma da torre que tornou famosa a cidade de Pisa.
Por outro lado, imagine que a sociedade empresária “Icecream S/A” possua como
proteção de seus produtos as marcas para sorvete “Tutti Geli” e para bolo “Gostogel”. Nesse
caso, nada impede que, na cidade de Campinas, seu estabelecimento use o título (fantasia)
“Casa do Sorvete d’Itália” e a insígnia formada por essas palavras e pela figura de um sorvete,
na forma da torre que tornou famosa a cidade de Pisa.
29
2.2.3 Características do nome empresarial
O art. 34 da Lei 8934/94 permite deduzir dois princípios norteadores do nome
empresarial:
Inalienável: não há como transferir a propriedade do nome empresarial,
objetivamente, o nome empresarial não pode ser objeto de alienação (art. 1164,
caput, CC). No entanto, é possível que o adquirente do estabelecimento comercial
continue usando o antigo nome empresarial do alienante, precedido do seu e com
a qualificação do sucessor, desde que o contrato de trespasse permita (art. 1.164,
p.u., CC). Anote-se, contudo, que pode ser alienado o título de estabelecimento,
também chamado de apelido, nome de fantasia ou nome da placa. Se Gomes e
Silva Ltda é o nome da pessoa jurídica proprietária de um posto gasolina, ele mas o
termo “Posto Fazendão”, seu nome fantasia, pode.
Imprescritível: aquele que for lesado pelo uso indevido do nome empresarial pode,
a qualquer tempo, ajuizar ação para anular a inscrição de nome empresarial feita
com violação da lei ou do contrato (art. 1.167, CC). Conforme a jurisprudência, antes
de se determinar a anulação do nome empresarial, deve ser dada a oportunidade,
geralmente no prazo de 30 (trinta) dia, para que o réu modifique o nome.
2.2.4 Princípios
O art. 34 da Lei 8934/94 permite deduzir dois princípios norteadores do nome
empresarial:
Princípio a veracidade: também chamado de autenticidade, impõe que a firma
individual ou social seja composta a partir do nome do empresário, da EIRELI ou
dos sócios respectivamente. Por isso, na firma social, é obrigatória a presença de
nome de sócio que compõe a sociedade, não se admitindo nome fictício ou de
30
pessoa que não fizer parte da sociedade. Outra consequência desse princípio está
na necessidade de que seja retirado da firma social o nome de sócio que venha a
falecer, for excluído ou se retirar da sociedade (art. 1.165, CC). Por outro lado, a
denominação não deve conter nome de sócio, salvo para homenagear, como forma
de honraria, esteja ele vivo ou morto. É o que ocorre, por exemplo na sociedade
anônima, porque, ainda que conste o nome do fundador, acionista ou pessoa. Por
último, um dos mais relevantes efeitos do princípio da veracidade reside no fato de
que a omissão da palavra limitada torna os sócios responsáveis solidários e
ilimitados.
Princípio da novidade: significa que não poderão coexistir, na mesma unidade
federativa, dois nomes empresariais e idênticos ou semelhantes, prevalecendo
aquele já protegido pelo prévio arquivamento. Aqui dentro há ainda ao princípio da
especificidade, pois o caráter inovador do nome alcança, em regra, apenas o ramo
da atividade exercida pelo empresário. Ou seja, podem coexistir nomes, desde que
em atividades diferentes, como é o caso da denominação “Primavera”, que pode ser
imobiliária, seguradora, transportadora, floricultura etc. Outro exemplo seria a
denominação “Churrascaria Garfo de Ouro” para um churrascaria, o que não
impede, em tese, que uma empresa que venda talheres e pratos funcione com o
nome “Garfo de Ouro Presentes”.
Conforme o Superior Tribunal de Justiça que havendo a mudança do nome empresarial,
é necessária nova procuração aos advogados da sociedade.
2.2.5 Extensão da proteção do nome empresarial
O princípio da especialidade deve ser considerado para se determinar o titular do
direito de uso exclusivo do nome empresarial. Tanto assim que o Código Civil procurou
solucionar os conflitos gerados pelas colidências entre titulares de nomes empresariais, cujas
atividades são distintas, exigindo o acréscimo do objeto na constituição da denominação
31
adotada pelas sociedades limitadas, anônimas e em comandita por ações (arts. 1.158, § 2º,
1.160 e 1.161).
No que tange à firma individual, o Código tornou facultativa a inclusão do objeto ou
gênero de atividade (art. 1.156), omitindo-se em relação às firmas sociais. A jurisprudência, por
outro lado, é no sentido de garantir a proteção dos nomes empresariais nos limites de sua
atividade, isto é, do objeto social, cuja designação se torna obrigatória para as denominações.
Dessa forma, conclui-se que a proteção do nome empresarial não é absoluta (erga
omnes), de modo a impedir o uso dele para qualquer empreendimento. Aplica-se, na verdade,
o princípio da especialidade, concedendo-se tutela relativa, porquanto limitada ao ramo de
atividade do seu titular.
Em caso de exercício de atividade idêntica por titular de nome empresarial e detentor
de direito de marca, o Superior Tribunal de Justiça tem se orientado por dois critérios, a
especificidade e a novidade (ou precedência do registro). Assim, na hipótese de colidência
entre empresários de um mesmo ramo, impõe-se atentar primeiramente à anterioridade de
cada um dos registros, prevalecendo o princípio da novidade (REsp: 262643 SP).
Por outro lado, no que diz respeito ao nome de domínio, salvo hipótese de usurpação
de direito de marca ou nome empresarial, a anterioridade do registro destes não assegura,
por si só, o direito de exigir a abstenção de uso do nome de domínio na rede mundial de
computadores (internet) por aquele que ostenta direitos acerca do mesmo signo distintivo.
Isso porque, “no Brasil, o registro de nomes de domínio é regido pelo princípio "First Come,
First Served ", segundo o qual é concedido o domínio ao primeiro requerente que satisfizer as
exigências para o registro” (REsp 658.789/RS).
À luz do princípio da novidade, o art. 61 do Decreto n. 916, de 24 de outubro de 1890,
determina que “toda firma nova deverá se distinguir de qualquer outra que exista inscrita no
registro do lugar”, mas restringe a proteção dos nomes ao âmbito de atuação do órgão de
registro. Essa é a posição encontrada no Decreto n. 1.800/96, que regulamentou a Lei de
Registro de Empresas Mercantis (Lei n. 8.934/94) e circunscreveu a proteção à unidade
federativa de jurisdição da Junta Comercial na qual se procedeu ao arquivamento respectivo
(Decreto n. 1.800/96, art. 61). Permite-se, contudo, que tal proteção seja estendida a outras
32
unidades a pedido do interessado, desde que observada instrução normativa do
Departamento de Registro Empresarial e Integração.
Essa proteção absoluta dentro dos limites da unidade federativa é reconhecida pelo STJ
(REsp nº 1673450) e se encontra prevista no art. 1.166 do Código Civil de 2002, o qual dispõe
que “inscrição do empresário, ou dos atos constitutivos das pessoas jurídicas, ou as respectivas
averbações, no registro próprio, asseguram o uso exclusivo do nome nos limites do respectivo
Estado”. O parágrafo único desse mesmo dispositivotambém consigna a possibilidade de
extensão a todo o território nacional, se registrado na forma da lei especial.
2.2.6 Espécies de nome empresarial
O quadro abaixo permite visualizar os dois tipos de nome empresarial (NEGRÃO,
2018:160):
NOME EMPRESARIAL DESCRIÇÃO
Firma Individual
“É o nome adotado pelo empresário e pela empresa individual de
responsabilidade limitada no exercício de suas atividades, mediante
o qual se identificam no mundo empresarial, sendo composto pelo
nome civil (do empresário individual ou do titular da empresa)
completo ou abreviado, acrescido ou não de designação precisa de
sua pessoa ou do gênero de sua atividade. Na empresa individual
de responsabilidade limitada exige-se, ainda, a inclusão, após o
nome escolhido, da expressão ‘EIRELI’”.
Firma Social
“É o nome adotado pela sociedade empresária para o exercício de
sua atividade, pelo qual se identifica no mundo empresarial, sendo
composto pelos nomes civis ou partes destes, de um, alguns ou
todos os sócios da sociedade, sendo exigidos, em sua formação,
acréscimos de expressões indicadoras da espécie societária
(limitada ou comandita por ações) e/ou da existência de sócios que
não deram nome à sociedade (e companhia), por extenso ou
abreviadamente.”
33
Denominação
“É o nome adotado pela empresa individual de responsabilidade
limitada e pela sociedade empresária para o exercício de suas
atividades, pelo qual essas pessoas jurídicas se identificam no
mundo empresarial; no primeiro caso é formado por expressão
linguística que contenha o objeto social e deve ser acrescida da
expressão EIRELI ou, quando se tratar de sociedade, do tipo
societário escolhido. Observamos, quanto à empresa individual de
responsabilidade limitada, que a autorização decorre do disposto
no § 1º do art. 980-A do Código Civil, reforçando àquele com que
ela contratar a ciência de que a responsabilidade patrimonial de
seu parceiro negocial limita-se ao capital registrado.”
O quadro acima permite extrair as seguintes conclusões a respeito da aplicação e da
composição dos nomes empresariais:
Firma individual:
Aplicação: Empresário Individual
Composição (art. 1.156): nome civil do empresário (completo ou abreviado),
podendo ser acrescentado o ramo da atividade ou designação mais precisa de
sua pessoa (facultativo). Ex. Roberto Justus, R. Justus ou Roberto Justus Joalheiro.
Firma social ou razão social
Aplicação: sociedade que possui, ao menos, um sócio com responsabilidade
ilimitada (ex. sociedade em nome coletivo). É o caso da sociedade em nome
coletivo, da sociedade em comandita simples e da sociedade em comandita por
ações. Isso porque, se o sócio pode responder pelas dívidas da sociedade, o
credor tem o direito de saber quem ele é, por isso é necessário ter o seu nome
presente. Tanto assim que, se um sócio que não integrar a firma praticar um ato
de gestão, ele ficará solidariamente obrigado.
Composição: nome ou nomes dos sócios (completo ou abreviado), sendo
facultativo o acréscimo do ramo da atividade (R. Justus & E. Batista petrolífera). É
possível acrescentar a Cia ao final para indicar que a sociedade tem outro ou
34
outros sócios. Observe-se, contudo, que a expressão Cia no início ou no meio de
um nome empresarial significa que se trata de sociedade anônima.
Denominação:
Aplicação: destinada, em regra, à sociedade que possui sócio com
responsabilidade limitada e à EIRELI. Ex. sociedade anônima, limitada e em
comandita por ações.
Composição: expressão linguística, ou seja, termos, palavras, frases, letras. Ex.
Bola Sete buffet infantil, Nana Nenê roupas infantis, Divina Gula restaurante, etc.
Na denominação o ramo da atividade passa a ser obrigatório, salvo para ME e
EPP. Como regra geral, o nome do sócio não pode estar na denominação, mas o
Código Civil autoriza, excepcionalmente, quando for para homenagem, honraria.
Em 8 de março de 2018 o Diretor do Departamento de Registro Empresarial e
Integração - DREI, no uso das atribuições legais, publicou a Instrução Normativa DREI Nº 45
de 07/03/2018 regulamentando o fim das designações de porte "Microempresa" ou "Empresa
de Pequeno Porte", e suas respectivas abreviações, "ME" ou "EPP". Tais designações,
constantes do nome empresarial das empresas optantes pelo Simples Nacional, foram
introduzidas pelo art. 72 da Lei Complementar 123/2006 como obrigatórias, todavia, dentre as
várias mudanças no sistema, levadas a efeito pela Lei Complementar nº 155, de 27 de outubro
de 2016 (art. 10, inciso V), houve a revogação do mencionado art. 72 e, portanto, das
designações de porte "Microempresa" ou "Empresa de Pequeno Porte", e suas respectivas
abreviações, "ME" ou "EPP". É importante ressaltar que tal mudança atinge apenas o nome
35
empresarial e não o enquadramento de porte.
2.2.7 Direitos decorrentes do nome empresarial
A proteção do nome empresarial decorre da iniciativa do titular da empresa de levar
seus atos constitutivos para o registro no órgão de Registro Público das Empresas Mercantis –
a Junta Comercial. Isso porque o art. 33 da Lei n. 8.934/1994 determina que “a proteção ao
nome empresarial decorre automaticamente do arquivamento dos atos constitutivos de firma
individual e de sociedades, ou de suas alterações”.
Muito embora não possa ser registrado no Instituto Nacional da Propriedade Industrial
(INPI), órgão incumbido de conceder privilégios industriais e registros de marcas e desenhos
industriais. Entretanto, a própria Lei da Propriedade Industrial protege o nome contra usos
indevidos ou imitações, dentro de sua dimensão concorrencial.
É possível dividir as ações protetivas da tutela do nome empresarial em três categorias
(FRANÇA; 1994:1048):
Reclamação, que assiste ao titular quando este “é recusado por parte de outrem”;
Contestação, se o nome de modo ilícito, for usado pessoalmente por parte de
outrem”;
De proibição, na ocorrência de seu uso ilícito “de maneira não pessoal”.
Na esfera administrativa, a proteção se dá por oposição ao INPI ou mediante ações de
proibição ou indenizatórias.
A tutela jurídica abrange, entre outros, os seguintes direitos:
Não pode ter seu elemento característico ou diferenciador reproduzido ou imitado
em marcas a ponto de causar confusão ou associação indevida (art. 124, V, da Lei n.
9.279/96). Elemento característico ou diferenciador do nome empresarial é qualquer
parte deste capaz de causar engano no mercado consumidor.
36
Karin Grau-Kuntz (1998:102-103) discute a aplicação da tutela concorrencial do nome
civil:
Se não houver confusão de identidade entre o nome civil empregado para formar a
marca e a pessoa de um terceiro homônimo, o emprego civil na marca deverá ser
suportado por todos os terceiros homônimos, mesmo que por uma razão qualquer tal
uso não lhes seja agradável ou conveniente. O mesmo raciocínio se empregará nos
casos em que o nome civil coincida com uma expressão de fantasia. Assim, o membro
da família ‘Coelho’, ‘Lobo’, ‘Leite’, ‘Café’ etc. só poderá impedir que um terceiro
empregue uma dessas expressões de fantasia em sua marca, que por mero acaso
coincidem com seu patronímico, se provar que aquela marca reporta à sua identidade.
Não pode ser usado indevidamente em produto destinado à venda, em exposição
ou em estoque (art. 195, V, da Lei n. 9.279/96).
Na hipótese de violação por atos de concorrência desleal, cabe indenização ao seu
titular (art. 209 da Lei n. 9.279/96).
Permite ação para anulação de inscrição de nome empresarial feita com violação da
lei ou do contrato (art. 1.167 do Código Civil).
2.2.8 Alteração do nome empresarial
Em decorrência dos princípios da veracidade e da novidade, a alteração das firmas
torna-se obrigatória nas seguintes situações
No caso de retirada, exclusão ou morte de sócio cujo nome civilconstava da firma
social (art. 1.165);
Na alteração da categoria de sócio figurante na firma social, para as sociedades de
capital e indústria, em comandita simples e por ações (interpretação do art. 1.157,
parágrafo único);
Na alienação do estabelecimento empresarial por ato entre vivos, facultando-se,
entretanto, se o contrato de alienação permitir, ao novo adquirente aditar o antigo
nome ao seu, precedendo-o: “Fulano de Tal & Cia., sucessor de Primeira Firma
Social”.
37
Conforme o Superior Tribunal de Justiça, é necessário emitir nova procuração para seu
representante na hipótese de alteração do nome empresarial. O Tribunal Superior do trabalho
adota o mesmo entendimento, exigindo nova procuração caso, no meio de um processo, uma
empresa modifique o nome com o qual se identifica. E isso, sob pena dos advogados ficarem
impedidos de atuar no processo.
2.2.9 Cancelamento de nome empresarial
As hipóteses estão no art. 1168 CC:
Cessar a atividade empresarial (inatividade). O empresário pode declarar na junta
a cessação e dará baixa na empresa. Essa inatividade pode ser presumida na
hipótese do art. 60 da lei 8934/94 – aquela que não proceder a qualquer
arquivamento por dez anos consecutivos, deve informar à junta comercial que
deseja manter-se em funcionamento. Na ausência dessa comunicação, ela será
considerada inativa, promovendo, a junta, o cancelamento do registro com a perda
automática da proteção ao nome empresarial.
A seguinte assertiva foi considerada INCORRETA no concurso de outorga de delegações do
Estado de São Paulo (VUNESP-2018): "a sociedade que não proceder a qualquer arquivamento
38
no período de 05 (cinco) anos consecutivos, deverá comunicar à Junta Comercial que deseja
se manter em funcionamento."12
Liquidação/dissolução da sociedade
Expirado o prazo de vigência da sociedade por tempo determinado
12 Vide a questão 9 deste material.
39
QUADRO SINÓTICO
REGRAS ESPECÍFICAS PARA FORMAÇÃO DO NOME EMPRESARIAL
TIPO EMPRESÁRIO ELEMENTOS/ACRÉSCIMOS
FIRMA
(individual ou
social)
Empresário Individual
(art. 1.156)
Obrigatório: nome civil completo ou
abreviado e designação precisa (art. 1.163 –
homônimo)
Facultativo: designação pessoal/ramo de
atividade
Sociedade em Nome
Coletivo (art. 1.157)
Obrigatório: nome dos sócios + e/&
Companhia (& Cia)
Facultativo: designação do ramo de atividade
Sociedade em Comandita
Simples
(art. 1.157)
Obrigatório: nome comanditado + e/&
Companhia (& Cia)
Facultativo: designação do ramo de atividade
DENOMINAÇÃO
Sociedade Anônima
(art. 1.160)
Obrigatório: denominação do objeto social +
sociedade anônima (S/A) ou companhia (Cia).
* Vedado o uso da última ao final
Facultativo: admitido o uso do nome do sócio
fundador ou outrem que tenha contribuído
para o êxito da empresa
40
FIRMA
OU
DENOMINAÇÃO
Empresa Individual de
Responsabilidade Limitada
(art. 980-A, § 1º)
Obrigatório: EIRELI ao final
- Firma: nome do único sócio
- Denominação: nome de sócio(s) ou
expressão linguística
Facultativo: designação do ramo de atividade
Sociedade Limitada
(art. 1.158)
Obrigatório: limitada (Ltda) ao final
- Firma: nome de um ou mais sócios + “e
companhia”
- Denominação: nome de sócio(s) ou
expressão linguística + designação do objeto
da sociedade
Sociedade em Comandita
por Ações (art. 1.161)
Obrigatório: Companhia (Cia) + comandita
por ações, após o nome dos sócios; ou &
Comandita por ações + objeto social
41
QUESTÕES COMENTADAS
Questão 1
(CESPE - Concurso de Outorga de Delegações do TJDF – 2019 – Critério Provimento) A
respeito do registro de empresários e de sociedades, assinale a opção correta.
A) As sociedades simples devem ser inscritas no registro público de empresas mercantis, ainda
que não exerçam atividade econômica organizada.
B) Os empresários devem ser inscritos no registro público de empresas mercantis em razão da
natureza meramente intelectual inerente à sua atividade.
C) As sociedades simples devem ser inscritas no registro civil de pessoas jurídicas quando
exercerem atividades profissionais e intelectuais.
D) Os empresários devem ser inscritos no registro civil de pessoas jurídicas, haja vista que
exercem atividade econômica organizada.
E) As sociedades empresárias devem ser inscritas no registro civil de pessoas jurídicas, tendo
em vista o exercício de atividade econômica organizada.
Comentário:
A questão exigia amplo conhecimento das previsões legais acerca do registro dos
empresários e sociedades empresárias, assim como das sociedades simples:
- CC, art. 967. É obrigatória a inscrição do empresário no Registro Público de Empresas
Mercantis da respectiva sede, antes do início de sua atividade.
- CC, Art. 998. Nos trinta dias subseqüentes à sua constituição, a sociedade deverá
requerer a inscrição do contrato social no Registro Civil das Pessoas Jurídicas do local de
sua sede.
§ 1º O pedido de inscrição será acompanhado do instrumento autenticado do contrato,
e, se algum sócio nele houver sido representado por procurador, o da respectiva
42
procuração, bem como, se for o caso, da prova de autorização da autoridade
competente.
§ 2º Com todas as indicações enumeradas no artigo antecedente, será a inscrição tomada
por termo no livro de registro próprio, e obedecerá a número de ordem contínua para
todas as sociedades inscritas.
Art. 999. As modificações do contrato social, que tenham por objeto matéria indicada no
art. 997, dependem do consentimento de todos os sócios; as demais podem ser
decididas por maioria absoluta de votos, se o contrato não determinar a necessidade de
deliberação unânime.
Parágrafo único. Qualquer modificação do contrato social será averbada, cumprindo-se as
formalidades previstas no artigo antecedente.
Art. 1.000. A sociedade simples que instituir sucursal, filial ou agência na circunscrição de
outro Registro Civil das Pessoas Jurídicas, neste deverá também inscrevê-la, com a prova
da inscrição originária.
Parágrafo único. Em qualquer caso, a constituição da sucursal, filial ou agência deverá ser
averbada no Registro Civil da respectiva sede.
- Art. 1.150. O empresário e a sociedade empresária vinculam-se ao Registro Público de
Empresas Mercantis a cargo das Juntas Comerciais, e a sociedade simples ao Registro
Civil das Pessoas Jurídicas, o qual deverá obedecer às normas fixadas para aquele
registro, se a sociedade simples adotar um dos tipos de sociedade empresária.
Questão 2
(NCUFPR- Concurso de Outorga de Delegações do TJPR – 2019 – Critério Remoção) Maria
e João, amigos da época de faculdade, formados em administração de empresas, resolveram
estabelecer entre si sociedade para o desenvolvimento de software como serviço (SaaS), com
início imediato da atividade empresarial. Passados 6 meses do início das atividades, em 01 de
janeiro de 2019 assinaram o contrato social de constituição da sociedade empresária,
apresentando-o para arquivamento na Junta Comercial competente em 03 de fevereiro de
43
2019. Em 15 de fevereiro de 2019, foi concedido o registro e arquivamento dos atos
constitutivos. Levando em consideração os dados apresentados, assinale a alternativa correta.
A) Considerando a data da assinatura do contrato social e a data de apresentação dos atos
constitutivos para registro, os sócios responderão solidária e ilimitadamente pelas obrigações
sociais até a data do despacho concessivo do arquivamento.
B) Não existe sociedade antes da concessão do registro e arquivamento do contrato social,
porquanto constitutivo de direito o ato registral.
C) O contrato social e demais documentos exigidos em lei deverão ser apresentados aarquivamento na junta, dentro de 20 dias contados de sua assinatura, a cuja data retroagirão
os efeitos do arquivamento.
D) Os efeitos do arquivamento dos atos constitutivos da sociedade empresária constituída por
Maria e João retroagirão à data de 01 de janeiro de 2019.
E) A personalidade jurídica da sociedade empresária constituída por Maria e João coincide
com a data do início da atividade empresarial.
Comentário:
Exigia-se na questão a aplicação do conhecimento teórico em um caso prático:
- Art. 1.151. O registro dos atos sujeitos à formalidade exigida no artigo antecedente será
requerido pela pessoa obrigada em lei, e, no caso de omissão ou demora, pelo sócio ou
qualquer interessado. § 1 o Os documentos necessários ao registro deverão ser
apresentados no prazo de trinta dias, contado da lavratura dos atos respectivos. § 2 o
Requerido além do prazo previsto neste artigo, o registro somente produzirá efeito a
partir da data de sua concessão. § 3 o As pessoas obrigadas a requerer o registro
responderão por perdas e danos, em caso de omissão ou demora.
Questão 3
(NCUFPR - Concurso de Outorga de Delegações do TJPR – 2019 – Critério Provimento) De
acordo com as disposições do Código Civil de 2002, o registro é instituto complementar do
Direito de Empresa. Com relação ao assunto, assinale a alternativa correta.
A) Não há óbices para que seja levado a registro e arquivamento o contrato social de
sociedade empresária que disponha sobre a possibilidade de alienação do nome empresarial,
44
independentemente da previsão de regramento quanto à possibilidade de utilização do nome
empresarial pelo adquirente do estabelecimento em caso de trespasse.
B) O ato sujeito a registro não pode, antes do cumprimento das respectivas formalidades, ser
oposto a terceiro, ante a inexistência do arquivamento e do efeito de publicidade exigido em
lei, não se admitindo exceções.
C) As sociedades constituídas para o exercício de profissional intelectual, de natureza científica,
vinculam-se ao Registro Civil das Pessoas Jurídicas, salvo se o exercício da profissão constituir
elemento de empresa.
D) As pessoas obrigadas a requerer o registro não responderão por perdas e danos em caso
de omissão ou demora, ante a natureza iminentemente declaratória do registro empresarial, o
que faz com que a situação pretérita ao arquivamento seja reconhecida pelo Direito, nas
condições da lei.
E)As cooperativas poderão ser empresariais ou simples, e, na primeira hipótese, estarão
sujeitas ao registro empresarial.
Comentário:
-CC, art. 1.150. O empresário e a sociedade empresária vinculam-se ao Registro Público
de Empresas Mercantis a cargo das Juntas Comerciais, e a sociedade simples ao Registro
Civil das Pessoas Jurídicas, o qual deverá obedecer às normas fixadas para aquele
registro, se a sociedade simples adotar um dos tipos de sociedade empresária.
- CC, art. 966. Considera-se empresário quem exerce profissionalmente atividade
econômica organizada para a produção ou a circulação de bens ou de serviços.
Parágrafo único. Não se considera empresário quem exerce profissão intelectual, de
natureza científica, literária ou artística, ainda com o concurso de auxiliares ou
colaboradores, salvo se o exercício da profissão constituir elemento de empresa..
- CC, art. 1.164. O nome empresarial não pode ser objeto de alienação.
Parágrafo único. O adquirente de estabelecimento, por ato entre vivos, pode, se o
contrato o permitir, usar o nome do alienante, precedido do seu próprio, com a
qualificação de sucessor.
45
- CC, art. 1.154. O ato sujeito a registro, ressalvadas disposições especiais da lei, não
pode, antes do cumprimento das respectivas formalidades, ser oposto a terceiro, salvo
prova de que este o conhecia.
Parágrafo único. O terceiro não pode alegar ignorância, desde que cumpridas as referidas
formalidades.
- CC, art. 982, parágrafo único. Independentemente de seu objeto, considera-se
empresária a sociedade por ações; e, simples, a cooperativa.
- CC, Art. 1.151. O registro dos atos sujeitos à formalidade exigida no artigo antecedente
será requerido pela pessoa obrigada em lei, e, no caso de omissão ou demora, pelo
sócio ou qualquer interessado. (...) § 3 o As pessoas obrigadas a requerer o registro
responderão por perdas e danos, em caso de omissão ou demora.
Questão 4
(CONSULPLAN - Concurso de Outorga de Delegações do TJMG – 2019 – Critério Remoção)
O contrato social é o instrumento através do qual se materializa o encontro de vontade dos
sócios da sociedade empresária. A respeito dos requisitos e elementos de validade do
contrato social da sociedade empresária, analise as assertivas a seguir.
I. São requisitos do contrato social: agente capaz; objeto possível e lícito; forma prescrita ou
não defesa em lei; todos os sócios devem contribuir para a formação do capital social e
participarão dos resultados, positivos ou negativos. II. É nula a cláusula que exclua algum dos
sócios dos lucros ou da participação nas perdas, bem como que estabeleça distribuição
desproporcional à participação de cada um no capital social. III. A falta de pluralidade dos
sócios ensejará a dissolução da sociedade, no prazo de cento e oitenta dias, desde que haja
previsão contratual quanto ao prazo. IV. São cláusulas essenciais ao contrato social: tipo
societário; objeto social; capital social; responsabilidade dos sócios; qualificação dos sócios;
nomeação de administrador; nome empresarial; sede e foro; prazo de duração.
Assinale a alternativa correta.
A) Todas as assertivas são verdadeiras.
B) As assertivas I, II e IV são verdadeiras.
C) As assertivas II e III não são verdadeiras.
D) Apenas as assertivas I e III são verdadeiras.
46
Comentário:
- CC, art. 997. A sociedade constitui-se mediante contrato escrito, particular ou público, que, além
de cláusulas estipuladas pelas partes, mencionará: I - nome, nacionalidade, estado civil, profissão
e residência dos sócios, se pessoas naturais, e a firma ou a denominação, nacionalidade e sede
dos sócios, se jurídicas; II - denominação, objeto, sede e prazo da sociedade; III - capital da
sociedade, expresso em moeda corrente, podendo compreender qualquer espécie de bens,
suscetíveis de avaliação pecuniária; IV - a quota de cada sócio no capital social, e o modo de
realizá-la; V - as prestações a que se obriga o sócio, cuja contribuição consista em serviços; VI -
as pessoas naturais incumbidas da administração da sociedade, e seus poderes e atribuições; VII -
a participação de cada sócio nos lucros e nas perdas; VIII - se os sócios respondem, ou não,
subsidiariamente, pelas obrigações sociais. Parágrafo único. É ineficaz em relação a terceiros
qualquer pacto separado, contrário ao disposto no instrumento do contrato.
- No tocante à participação dos lucros, importante mencionar os seguintes artigos: CC, art. 1.007.
Salvo estipulação em contrário, o sócio participa dos lucros e das perdas, na proporção das
respectivas quotas, mas aquele, cuja contribuição consiste em serviços, somente participa dos
lucros na proporção da média do valor das quotas; - CC, art. 1.008. É nula a estipulação
contratual que exclua qualquer sócio de participar dos lucros e das perdas.
- De acordo com a previsão legal, ou seja, independente de previsão contratual a sociedade se
dissolve em razão da ausência de pluralidade: CC, art. 1.033. Dissolve-se a sociedade quando
ocorrer: (...) IV - a falta de pluralidade de sócios, não reconstituída no prazo de cento e oitenta
dias (...) Parágrafo único. Não se aplica o disposto no inciso IV caso o sócio remanescente,
inclusive na hipótese de concentração de todas as cotas da sociedade sob sua titularidade,
requeira no Registro Público de Empresas Mercantis a transformação do registro da sociedade
para empresário individual, observado, no que couber, o disposto nosarts. 1.113 a 1.115 deste
Código . Parágrafo único. Não se aplica o disposto no inciso IV caso o sócio remanescente,
inclusive na hipótese de concentração de todas as cotas da sociedade sob sua titularidade,
requeira, no Registro Público de Empresas Mercantis, a transformação do registro da sociedade
para empresário individual ou para empresa individual de responsabilidade limitada, observado,
no que couber, o disposto nos arts. 1.113 a 1.115 deste Código.
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2002/l10406.htm#art1113
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2002/l10406.htm#art1113
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2002/l10406.htm#art1113
47
Questão 5
(VUNESP - Concurso de Outorga de Delegações do TJRS – 2019 – Critério Provimento) Em
relação ao registro e o nome empresarial, dispõe o Código Civil:
A) O ato sujeito a registro, ressalvadas disposições especiais da lei, não pode, antes do
cumprimento das respectivas formalidades, ser oposto a terceiro, salvo prova de que este o
conhecia.
B) O registro dos atos sujeitos à formalidade exigida para o empresário e para as sociedades
simples e empresárias, será requerido pelo sócio com poderes de gestão, e, no caso de
omissão ou demora, por qualquer um dos sócios, sendo que os documentos necessários ao
registro deverão ser apresentados no prazo de vinte dias, contado da lavratura dos atos
respectivos.
C) Para fins de registro, cumpre à autoridade competente, a qualquer tempo, verificar a
autenticidade e a legitimidade do signatário do requerimento, bem como fiscalizar a
observância das prescrições legais concernentes ao ato ou aos documentos apresentados,
obrigando-se a comunicar no prazo de 30 dias ao representante do Ministério Público,
eventuais indícios de fraudes detectadas.
D) É vedada a utilização de firma na sociedade anônima e na sociedade em comandita por
ações, que obrigatoriamente deverão adotar denominação designativa do objeto social,
aditada da expressão “sociedade anônima” e “comandita por ações”, por extenso ou
abreviadamente.
E) O nome empresarial não pode ser objeto de alienação, exceto se o adquirente do
estabelecimento, por ato entre vivos, exercer a mesma atividade empresarial de seu
antecessor, mediante autorização expressa do alienante no contrato social e declaração da
quitação do preço.
Comentário:
- CC, art. 1.154. O ato sujeito a registro, ressalvadas disposições especiais da lei, não
pode, antes do cumprimento das respectivas formalidades, ser oposto a terceiro, salvo
prova de que este o conhecia. Parágrafo único. O terceiro não pode alegar ignorância,
desde que cumpridas as referidas formalidades.
48
Questão 6
(VUNESP - Concurso de Outorga de Delegações do TJRS – 2019 – Critério Provimento) Em
relação à escrituração empresarial, é correto afirmar:
A) A escrituração será feita em idioma e moeda corrente nacionais e em forma contábil, por
ordem cronológica de dia, mês e ano, sem intervalos em branco, nem entrelinhas, borrões,
rasuras, emendas ou transportes para as margens, salvo se devidamente ressalvadas, sendo
vedado o uso de código de números ou de abreviaturas.
B) Além dos demais livros exigidos por lei, é indispensável o Diário, que pode ser substituído
por fichas no caso de escrituração mecanizada ou eletrônica, ficando dispensado em tal
circunstância o uso de livro apropriado para o lançamento do balanço patrimonial e do de
resultado econômico.
C) O empresário ou sociedade empresária que adotar o sistema de fichas de lançamentos
poderá substituir o livro Diário pelo livro Balancetes Diários e Balanços, observadas as mesmas
formalidades extrínsecas exigidas para aquele.
D) A escrituração ficará sob a responsabilidade de contabilista, administrador ou economista
legalmente habilitado, podendo ser substituído por sócio que apresente uma das referidas
qualificações, sendo lançados no Diário o balanço patrimonial e o de resultado econômico,
podendo ser assinado por bacharel em Ciências Contábeis legalmente habilitado, ficando
dispensada, nesse caso, a anuência do empresário ou sociedade empresária.
E) O juiz poderá autorizar a exibição integral dos livros e papéis de escrituração quando
necessária para resolver quaisquer pendências judiciais, mediante requerimento fundamentado
da parte adversa cuja recusa tipifica crime de desobediência e de responsabilidade fiscal.
Comentário:
- CC, art. 1.185. O empresário ou sociedade empresária que adotar o sistema de fichas
de lançamentos poderá substituir o livro Diário pelo livro Balancetes Diários e Balanços,
observadas as mesmas formalidades extrínsecas exigidas para aquele.
- CC, art. 1.183. A escrituração será feita em idioma e moeda corrente nacionais e em
forma contábil, por ordem cronológica de dia, mês e ano, sem intervalos em branco, nem
entrelinhas, borrões, rasuras, emendas ou transportes para as margens. Parágrafo único. É
49
permitido o uso de código de números ou de abreviaturas, que constem de livro próprio,
regularmente autenticado.
- CC, art. 1.180. Além dos demais livros exigidos por lei, é indispensável o Diário, que
pode ser substituído por fichas no caso de escrituração mecanizada ou eletrônica.
Parágrafo único. A adoção de fichas não dispensa o uso de livro apropriado para o
lançamento do balanço patrimonial e do de resultado econômico.
- CC, art. 1.182. Sem prejuízo do disposto no art. 1.174 , a escrituração ficará sob a
responsabilidade de contabilista legalmente habilitado, salvo se nenhum houver na
localidade.
- CC, art. 1.191. O juiz só poderá autorizar a exibição integral dos livros e papéis de
escrituração quando necessária para resolver questões relativas a sucessão, comunhão ou
sociedade, administração ou gestão à conta de outrem, ou em caso de falência. (...)
Questão 7
(NCUFPR - Concurso de Outorga de Delegações do TJPR – 2019 – Critério Remoção)
Compete aos vogais das Juntas Comerciais examinar o cumprimento das formalidades legais
de todos os atos, documentos ou instrumentos apresentados a arquivamento. Com relação ao
processo decisório e revisional, identifique como verdadeiras (V) ou falsas (F) as seguintes
afirmativas:
( ) A constituição de sociedades anônimas, de consórcios ou grupo de sociedades e de
sociedades limitadas subordinam-se ao regime de decisão colegiada, por meio do Plenário.
( ) Verificada a existência de vício sanável, será formulada pelo Vogal exigência com a
correspondente fundamentação legal, a qual deverá ser cumprida em até 15 dias contados do
dia subsequente à data da ciência pelo interessado ou da publicação do despacho, sendo que
será considerado novo pedido de arquivamento caso o processo seja devolvido após o prazo
de cumprimento, sujeito ao pagamento de novas custas.
( ) Constituem meios de revisão do processo de decisão dos Vogais, Turmas ou Plenário o
pedido de reconsideração e o recurso ao Plenário, sendo inafastável, em qualquer dos casos, a
utilização dos meios judiciais cabíveis.
( ) O pedido de reconsideração terá por objeto obter a revisão de despachos singulares de
Vogais ou de Turmas, sendo que será apreciado pela mesma autoridade que prolatou o
50
despacho, suspendendo o prazo para o cumprimento de exigências formuladas e objeto da
reconsideração.
Assinale a alternativa que apresenta a sequência correta, de cima para baixo.
A) F – F – V – V.
B) V – V – F – F.
C) V – V – V – V.
D) F – V – F – F.
E) F – F – F – V.
Resposta: E
Comentário:
- Lei 8.934/94, art. 41. Estão sujeitos ao regime de decisão colegiada pelas juntas
comerciais, na forma desta lei: I - o arquivamento: a) dos atos de constituição de
sociedades anônimas; b) dos atos referentes à transformação, incorporação, fusão e cisão
de empresas mercantis; c) dos atos de constituição e alterações de consórcio e de grupo
de sociedades, conforme previstocomercial não se
ocupe apenas com alguns atos, mas com uma forma específica de exercer uma
atividade econômica: a forma empresarial.1
O foco passou, então, para o exercício de atividade econômica, sob a modalidade de
empresa. Isso se dá sempre que é organizada de acordo com os parâmetros eleitos pela lei
1 RAMOS, André Luiz Santa Cruz. Direito Empresarial Esquematizado. São Paulo: Método, Rio de Janeiro:
Forense, 2019, p. 37 e 38.
10
como identificadores da atividade empresarial. Daí porque essa fase foi considerada
subjetivista moderna.
No concurso de outorga de delegações do Estado de Santa Cataria foi trazida uma questão que exigia
do candidato conhecimento acerca da evolução do Direito Empresarial: 2
(IESES - Concurso de Outorga de Delegações do TJSC – 2019 – Critério Remoção) Quando se trata
da origem e evolução do direito comercial, nos é apontado pela doutrina que:
A) O Código Civil Italiano de 1942 estabeleceu um regime para todas as formas de atividades
econômicas, restabelecendo o sistema objetivo de identificação daqueles que se dedicavam ao
comércio.
B) O Código Comercial Brasileiro de 1850 tinha um caráter marcadamente subjetivista de identificação
do comerciante: seria comerciante aquele que arquivasse os atos constitutivos no Registro Público de
Empresas.
C) Os ideais da Revolução Francesa acompanharam o surgimento de um direito unificado, regulando
tanto os atos de comércio, que só poderiam ser praticados pelos comerciantes, como os atos de
natureza civil.
D) A teoria subjetiva somente considerava comerciantes aqueles que estivessem matriculados em uma
das corporações de ofício, os quais dispunham de uma atividade jurisdicional especializada.
2 Vide a questão 5 deste material.
11
1.2 Conceito de empresa
Como vimos, a fase da teoria da empresa, também conhecida como sistema italiano,
teve como ápice o Códice Civile (Código Civil Italiano) de 1942, que pretendeu unificar o
direito privado da Itália. As três fases históricas descritas no tópico anterior espelharam-se no
Brasil, o que pode ser constatado no fluxograma abaixo, o qual demonstra a evolução dessas
teorias conforme seus respectivos marcos legais no direito pátrio.
A teoria da empresa acarretou uma ampliação da abrangência do Direito Comercial
(agora Direito Empresarial). Tratando-se do sistema utilizado pelo Código Civil de 2002, com
esta teoria, surgem as ideias de empresa e de empresário. Contam com a proteção das
normas de direito empresarial aqueles que praticarem empresa (atividade econômica,
exercida profissionalmente e organizada para a produção ou circulação de bens ou de
serviços).
Regulamento
737 de 1850
“Considera-se
Mercancia”...
Tribunais de Comércio Código Comercial de 1850 Código Civil de 2002
12
O art. 966 do Código Civil definiu o empresário a partir do conceito de empresa,
considerando-a como atividade dotada das seguintes características: economicidade,
profissionalismo, organização e finalidade de produção ou circulação de bens ou serviços. É
importante mencionar que, embora o dispositivo não tenha contemplado a especulação,
essa também pode ser considerada uma atividade de natureza empresarial, muito embora,
muitas vezes, não repercuta na produção ou circulação de qualquer bem ou serviço.
O quadro abaixo representa os aspectos essenciais para que uma atividade seja
caracterizada como empresária:
Conforme a mesma norma, a priori, estão excluídas da noção de empresa as atividades
intelectuais de natureza artística, científica ou literária. Mas, por ora, não convém adentrar as
nuances do parágrafo único daquela norma (art. 966. CC), posto que serão melhor abordadas
posteriormente.
1.2.1 Empresa como atividade
A natureza jurídica da empresa é de atividade, porquanto consiste em um conjunto
coordenado de atos voltados à obtenção de um resultado comum. Logo, empresa não é
sujeito nem objeto de direitos. Logo, do ponto de vista jurídico, há uma impropriedade
terminológica existente em expressões como “tenho uma empresa” ou vou na empresa.
Empresa = Atividade
Econômica
Organizada
Profissional
Industrial, Comercial ou de
Prestação de Serviços
13
1.2.2 Economicidade
Econômica é aquela atividade que tem como fim precípuo a distribuição de lucros ou a
geração de valor. No caso do empresário individual, o lucro se destina a acrescer o próprio
patrimônio. Nas sociedades empresárias, o fim da atividade é a distribuição de lucros aos
sócios. Contudo, a ausência da finalidade lucrativa não descaracteriza uma atividade como
empresária caso ela se destine à circulação de riqueza ou à prestação de serviço remunerado.
É o caso, por exemplo, de uma sociedade empresária criada para objetivos filantrópicos, mas
que, para alcança-los, precisa angariar recursos comercializando bens ou cobrando por
serviços prestados.
Nas palavras de André Luiz Ramos Santa Cruz
Ao destacarmos a expressão atividade econômica, por sua vez, queremos enfatizar que
empresa é uma atividade exercida com intuito lucrativo. Afinal, conforme veremos, é
característica intrínseca das relações empresariais a onerosidade. Mas não é só à ideia de
lucro que a expressão atividade econômica remete. Ela indica também que o empresário,
sobretudo em função do intuito lucrativo de sua atividade, é aquele que assume os seus
riscos técnicos e econômicos.
Entenda-se a ideia de lucro aqui como utilidade. É lucrativa a atividade que produz uma
utilidade, e não somente aquela que se traduz em dinheiro. De qualquer forma, o
critério de economicidade é essencial. A atividade deve produzir o suficiente para, pelo
menos, remunerar os fatores da produção e, dentre eles, o capital investido, de molde a
assegurar, por si mesma, a sua sobrevivência.3
1.2.3 Organização
Vimos que, sob a égide do atual Código Civil Brasileiro, a empresa é tida como
atividade, cuja marca essencial é a obtenção de lucros com o oferecimento ao mercado de
3 RAMOS, André Luiz Santa Cruz. Direito Empresarial Esquematizado. São Paulo: Método, Rio de Janeiro:
Forense, 2018, p. 37 e 38.
14
bens ou serviços, gerados mediante a organização dos fatores de produção (força de
trabalho/mão de obra, matéria-prima, capital e tecnologia).4
Asquini dividia a expressão empresa em quatro perfis. Em um perfil subjetivo, empresa
seria sinônimo de empresário. Em um perfil funcional, empresa seria a atividade (utilizado
pela teoria da empresa). Em um perfil objetivo, empresa seria sinônimo de patrimônio
aziendal ou estabelecimento. Por fim, em um perfil corporativo, empresa é instituição, na
medida em que reúne pessoas com propósitos comuns (empresário e empregados). 5
Saliente-se que, conforme entendimento majoritário, o Código Civil de 2002 não
unificou o direito privado, mas apenas o direito dos contratos e das obrigações. O
Direito Empresarial permanece autônomo, apesar de o Código Comercial ter sido derrogado
pelo referido diploma (revogado parcialmente, já que a parte sobre comércio marítimo
permanece vigente).
A atividade dos empresários pode ser vista como a de articular (organizar) os fatores
de produção, que, no sistema capitalista, são quatro: capital, mão-de-obra, insumo e
tecnologia. Estruturar a produção ou circulação de bens ou serviços significa reunir os
recursos financeiros (capital), humanos (mão-de-obra), materiais (insumo) e tecnológicos que
viabilizem oferece-los ao mercado consumidor com preços e qualidade competitivos.
Organização é a reunião desses quatro fatores de produção, assim descritos por Fábio
Ulhoa Coelho:
Mão-de-obra: é um fato de produção que envolve o auxílio dena Lei nº 6.404, de 15 de dezembro de 1976 (...)
- Lei 8.934/94, art. 40. Todo ato, documento ou instrumento apresentado a arquivamento
será objeto de exame do cumprimento das formalidades legais pela junta comercial. § 1º
Verificada a existência de vício insanável, o requerimento será indeferido; quando for
sanável, o processo será colocado em exigência. § 2º As exigências formuladas pela
junta comercial deverão ser cumpridas em até 30 (trinta) dias, contados da data da
ciência pelo interessado ou da publicação do despacho. § 3º O processo em exigência
será entregue completo ao interessado; não devolvido no prazo previsto no parágrafo
anterior, será considerado como novo pedido de arquivamento, sujeito ao pagamento
dos preços dos serviços correspondentes.
- Lei 8.934/94, art. 44. O processo revisional pertinente ao Registro Público de Empresas
Mercantis e Atividades Afins dar-se-á mediante: I - Pedido de Reconsideração; II -
51
Recurso ao Plenário; III - Recurso ao Departamento Nacional de Registro Empresarial e
Integração.
- Lei 8.934/94, art. 45. O Pedido de Reconsideração terá por objeto obter a revisão de
despachos singulares ou de Turmas que formulem exigências para o deferimento do
arquivamento e será apresentado no prazo para cumprimento da exigência para
apreciação pela autoridade recorrida em 3 (três) dias úteis ou 5 (cinco) dias úteis,
respectivamente.
Questão 8
(CONSULPLAN - Concurso de Outorga de Delegações do TJMG – 2018 – Critério
Provimento) “João e Maria criaram a empresa de prestação de serviços ‘A Bruxa Doce’, porém
não levaram os atos constitutivos a registro no prazo previsto em lei.” Diante dessa situação
hipotética, assinale a alternativa correta.
A) Passado o prazo de 30 (trinta) dias, o registro somente produzirá efeito a partir da data de
sua concessão.
B) Passado o prazo de 90 (noventa) dias, o registro somente produzirá efeito a partir da data
de sua concessão.
C) Passado o prazo de 60 (sessenta) dias, o registro somente produzirá efeito a partir da data
de sua concessão.
D) Passado o prazo de 45 (quarenta e cinco) dias, o registro somente produzirá efeito a partir
da data de sua concessão.
Comentário:
Mais uma vez trata-se de questão que exige conhecimento acerca do art. 1.151, CC: "O
registro dos atos sujeitos à formalidade exigida no artigo antecedente será requerido
pela pessoa obrigada em lei, e, no caso de omissão ou demora, pelo sócio ou qualquer
interessado. § 1 o Os documentos necessários ao registro deverão ser apresentados no
prazo de trinta dias, contado da lavratura dos atos respectivos. § 2 o Requerido além do
prazo previsto neste artigo, o registro somente produzirá efeito a partir da data de sua
52
concessão. § 3 o As pessoas obrigadas a requerer o registro responderão por perdas e
danos, em caso de omissão ou demora."
Questão 9
(VUNESP - Concurso de Outorga de Delegações do TJSP – 2018 – Critério Provimento) No
Registro Público Empresarial,
A) a sociedade que não proceder a qualquer arquivamento no período de 05 (cinco) anos
consecutivos, deverá comunicar à Junta Comercial que deseja se manter em funcionamento.
B) as procurações e os atos levados a arquivamento nas Juntas Comerciais são dispensados de
reconhecimento de firma.
C) expirado o prazo da sociedade celebrada por tempo determinado, a proteção ao nome
empresarial caducará no prazo de 05 (cinco) anos.
D) as alterações contratuais poderão ser efetuadas por escritura pública ou instrumento
particular, independentemente da forma adotada no ato constitutivo.
Comentário:
- Lei 8.934/94, art. 60. A firma individual ou a sociedade que não proceder a qualquer
arquivamento no período de dez anos consecutivos deverá comunicar à junta
comercial que deseja manter-se em funcionamento. § 1º Na ausência dessa
comunicação, a empresa mercantil será considerada inativa, promovendo a junta
comercial o cancelamento do registro, com a perda automática da proteção ao nome
empresarial; § 2º A empresa mercantil deverá ser notificada previamente pela junta
comercial, mediante comunicação direta ou por edital, para os fins deste artigo; § 3º A
junta comercial fará comunicação do cancelamento às autoridades arrecadadoras, no
prazo de até dez dias; § 4º A reativação da empresa obedecerá aos mesmos
procedimentos requeridos para sua constituição.
- Lei 8.934/94, art. 63. Os atos levados a arquivamento nas juntas comerciais são
dispensados de reconhecimento de firma, exceto quando se tratar de procuração.
53
- Lei 8.934/94, art. 59. Expirado o prazo da sociedade celebrada por tempo determinado,
esta perderá a proteção do seu nome empresarial.
- Lei 8.934/94. art. 53. As alterações contratuais ou estatutárias poderão ser efetivadas
por escritura pública ou particular, independentemente da forma adotada no ato
constitutivo.
Questão 10
(CONSULPLAN - Concurso de Outorga de Delegações do TJMG - 2018 – Critério Remoção)
A anulação da constituição das pessoas jurídicas de direito privado, por defeito do ato
respectivo, tem prazo de
A) prescrição de 3 (três) anos.
B) prescrição de 5 (cinco) anos.
C) decadência de 3 (três) anos.
D) decadência de 5 (cinco) anos.
Comentário:
CC, art. 45. Começa a existência legal das pessoas jurídicas de direito privado com a
inscrição do ato constitutivo no respectivo registro, precedida, quando necessário, de
autorização ou aprovação do Poder Executivo, averbando-se no registro todas as
alterações por que passar o ato constitutivo. Parágrafo único. Decai em três anos o
direito de anular a constituição das pessoas jurídicas de direito privado, por defeito do
ato respectivo, contado o prazo da publicação de sua inscrição no registro.
Questão 11
(NCUFPR - Concurso de Outorga de Delegações do TJPR – 2019 – Critério Provimento)
Várias foram as alterações promovidas no âmbito da organização do registro do comércio,
especialmente após a criação da Rede Nacional para a Simplificação do Registro e da
Legalização de Empresas e Negócios (REDESIM) pela Lei nº 11.598/2007 e após as reformas
54
ministeriais promovidas entre os anos de 2015 e 2018. Com relação ao assunto, identifique
como verdadeiras (V) ou falsas (F) as seguintes afirmativas:
( ) Os serviços do Registro Público de Empresas Mercantis e Atividades Afins serão exercidos,
em todo o território nacional, de maneira uniforme, harmônica e interdependente, pelo
Sistema Nacional de Registro de Empresas Mercantis, composto pelo Departamento Nacional
de Registro do Comércio, como órgão central, e pelas Juntas Comerciais, como órgãos locais.
( ) A competência de preparar e relatar os documentos submetidos à deliberação pelas Juntas
Comerciais é da Procuradoria, sendo vedada a constituição de uma assessoria técnica para tal
finalidade.
( ) O Departamento Nacional de Registro Empresarial e Integração integra o Sistema Nacional
de Registro de Empresas Mercantis, competindo-lhe, entre outras atribuições, propor os
planos de ação, políticas, diretrizes e normas relativas ao Registro Público de Empresas
Mercantis e Atividades Afins.
( ) O mandato de Vogal, e respectivo suplente, será de 4 anos, permitida apenas uma
recondução, sendo que o Vogal, ou seu suplente, perderá o mandato caso tenha mais de três
faltas consecutivas às sessões, ou 12 alternadas no mesmo ano, sem justo motivo.
Assinale a alternativa que apresenta a sequência correta, de cima para baixo.
A) F – F – V – V.
B) V – V – F – F.
C) V – V – V – V.
D) F – V – F – F.
E) V – F – V – V.
Comentário:
- Lei 8.934/94. art. 3º. Os serviços do Registro Público de Empresas Mercantis e Atividades
Afins serão exercidos, em todo o território nacional, de maneira uniforme, harmônica e
interdependente, pelo Sistema Nacional de Registro de Empresas Mercantis (Sinrem),
composto pelos seguintes órgãos:I - o Departamento Nacional de Registro Empresarial e
Integração, órgão central do Sinrem, com as seguintes funções: a) supervisora, orientadora,
coordenadora e normativa, na área técnica; e b) supletiva, na área administrativa; e II - as
Juntas Comerciais, como órgãos locais, com funções executora e administradora dos serviços
de registro.
55
- Lei 8.934/94, art. 8º, § 1º As juntas comerciais poderão ter uma assessoria técnica, com a
competência de preparar e relatar os documentos a serem submetidos à sua deliberação,
cujos membros deverão ser bacharéis em Direito, Economistas, Contadores ou
Administradores.
- Lei 8.934/94, art. 4º O Departamento Nacional de Registro Empresarial e Integração (Drei)
da Secretaria de Governo Digital da Secretaria Especial de Desburocratização, Gestão e
Governo Digital do Ministério da Economia tem por finalidade: (...) II - estabelecer e consolidar,
com exclusividade, as normas e diretrizes gerais do Registro Público de Empresas Mercantis e
Atividades Afins; (...)
- Lei 8.934/94. Art. 16. O mandato de vogal e respectivo suplente será de 4 (quatro) anos,
permitida apenas uma recondução. Art. 17. O vogal ou seu suplente perderá o mandato nos
seguintes casos: I - mais de 3 (três) faltas consecutivas às sessões, ou 12 (doze) alternadas no
mesmo ano, sem justo motivo; II - por conduta incompatível com a dignidade do cargo.
56
GABARITO
Questão 1 - C
Questão 2 - A
Questão 3 - C
Questão 4 - C
Questão 5 - A
Questão 6 - C
Questão 7 - E
Questão 8 - A
Questão 9 - D
Questão 10 - C
Questão 11 - A
57
QUESTÃO DESAFIO
A Lei 12.441/2011, que criou a EIRELI, exige capital mínimo (igual ou superior a 100 vezes
o valor do maior salário mínimo vigente no país) para a sua constituição. Como esse
capital deve se comportar diante de supostos aumentos posteriores do valor do salário
mínimo, já que este é utilizado como parâmetro?
Máximo de 5 linhas
58
GABARITO DA QUESTÃO DESAFIO
O Enunciado 4 da I Jornada de Direito Comercial definiu que, uma vez integralizado, o
capital da EIRELI não deve sofrer nenhuma influência decorrente de ulteriores alterações
no salário mínimo.
Você deve ter abordado necessariamente os seguintes itens em sua resposta:
Não deve sofrer nenhuma influência
A Lei 12.441/2011 alterou alguns dispositivos do Código Civil e acrescentou outros. Entre eles,
o art. 980-A que exige um capital social não inferior a 100 (cem) vezes o maior salário-mínimo
vigente no País para constituição da EIRELI.
Sobre tal exigência, o autor André Santa Cruz comenta (CRUZ, André Santa. Direito
Empresarial. 8. ed. São Paulo: Método, 2018. p. 80-80.): “Regra polêmica sobre a EIRELI é a que
exige capital mínimo (igual ou superior a 100 vezes o valor do maior salário mínimo vigente
no país) para a sua constituição. Com efeito, no Brasil não existe nenhuma regra legal que
exija capital mínimo para a constituição de sociedades, razão pela qual é questionável a
referida exigência para a constituição de EIRELI, a qual é objeto da ADI 4.637, perante o STF.”.
O fato do valor do salário mínimo mudar constantemente gerou dúvidas, ficando decidido que
uma vez integralizado, o capital da EIRELI não deve sofrer nenhuma influência decorrente de
ulteriores alterações no salário mínimo.
Enunciado 4 da I Jornada de Direito Comercial
O Enunciado 4 da I Jornada de Direito Comercial afirma: “Uma vez subscrito e efetivamente
integralizado, o capital da empresa individual de responsabilidade limitada não sofrerá
nenhuma influência decorrente de ulteriores alterações no salário mínimo.”, gerando certa
segurança.
O autor André Santa Cruz exemplifica a situação (CRUZ, André Santa. Direito Empresarial. 8.
ed. São Paulo: Método, 2018. p. 81-81.): “Tal entendimento é corretíssimo. Caso contrário,
sempre que houvesse alteração do valor do salário mínimo, poderia ser necessária a
modificação do capital da EIRELI. Imagine-se, por exemplo, que uma EIRELI tenha sido
59
constituída com capital social de R$ 88 mil numa época em que o salário mínimo equivalia a
R$ 880,00. Caso o salário mínimo aumentasse posteriormente para R$ 900,00, por exemplo, a
EIRELI teria que aumentar seu capital para R$ 90 mil, e assim por diante.”.
60
LEGISLAÇÃO COMPILADA
Teoria Geral do Direito Empresarial:
CC/02: arts. 1.155-1.195
Empresário
Enunciado 1, CJF
Decisão judicial que considera ser o nome empresarial violador do direito de marca não implica a anulação do
respectivo registro no órgão próprio nem lhe retira os efeitos, preservado o direito de o empresário alterá-lo.
Enunciado 2, CJF
A vedação de registro de marca que reproduza ou imite elemento característico ou diferenciador de nome
empresarial de terceiros, suscetível de causar confusão ou associação (art. 124, V, da Lei n. 9.279/1996), deve ser
interpretada restritivamente e em consonância com o art. 1.166 do Código Civil
Súmula 363, STF
A pessoa jurídica de direito privado pode ser demandada no domicílio da agência, ou estabelecimento, em que
se praticou o ato.
Súmula 439, STF
Estão sujeitos à fiscalização tributária ou previdenciária quaisquer livros comerciais, limitado o exame aos pontos
objeto da investigação.
Súmula 260, STF
O exame de livros comerciais, em ação judicial, fica limitado as transações entre os litigantes.
61
JURISPRUDÊNCIA
Registro Empresarial
STJ. CC 119.576-BA, Terceira Seção, DJe 21.6.2012; CC 81.261-BA, Terceira Secão, DJe 16.3.2009.
CC 130.516-SP, Rel. Min. Rogerio Schietti Cruz, julgado em 26/2/2014.
Compete à Justiça Estadual processar e julgar a suposta prática de delito de falsidade ideológica praticado contra
Junta Comercial. O art. 6º da Lei 8.934/1994 prescreve que as Juntas Comerciais subordinam-se
administrativamente ao governo da unidade federativa de sua jurisdição e, tecnicamente, ao Departamento
Nacional de Registro do Comércio, órgão federal. Ao interpretar esse dispositivo legal, a jurisprudência do STJ
sedimentou o entendimento de que, para se firmar a competência para processamento de demandas que
envolvem Junta Comercial de um estado, é necessário verificar a existência de ofensa direta a bens, serviços ou
interesses da União, conforme determina o art. 109, IV, da CF. Caso não ocorra essa ofensa, como na hipótese
em análise, deve-se reconhecer a competência da Justiça Estadual.
STJ. REsp 1.393.724/PR, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, Rel. p/ Acórdão Min. Paulo de Tarso
Sanseverino, Segunda Seção, j. 28.10.2015, DJe 04.12.2015.
Exigência, por Junta Comercial, de certidões negativas tributárias como condição para o arquivamento de ato de
transformação de sociedade simples em sociedade empresária. Antinomia jurídica entre a Lei 8.934/94, ao
regular o registro público de empresas mercantis e atividades afins, e leis tributárias específicas anteriores.
Possibilidade de aplicação do critério cronológico ou do critério da especialidade, caracterizando um conflito
qualificado como “antinomia de segundo grau”. Prevalência excepcional do critério cronológico. Precedente da
Terceira Turma. 5. Derrogação tácita dos dispositivos de leis tributárias anteriores que condicionavam o ato de
arquivamento na Junta Comercial à apresentação de certidão negativa de débitos. 6. Interpretação condizente
com o princípio constitucional da livre-iniciativa.
STJ. REsp 1.103.009/RS, Rel. Min. Luiz Fux, 1.ª Seção, j. 09.12.2009, DJe 01.02.2010
A inscrição e modificação dos dados no Cadastro Nacional de Pessoas Jurídicas – CNPJ devem ser garantidas a
todas as empresas legalmente constituídas, mediante o arquivamento de seus estatutos e suas alterações na
Junta Comercial Estadual, sem a imposição de restrições infralegais, que obstaculizem o exercício da livre-
iniciativa e desenvolvimentopleno de suas atividades econômicas. A Lei n.º 5.614/70, que versa sobre o cadastro
62
federal de contribuintes, outorgou ao Ministro da Fazenda o dever de regular o instrumento de registro, para
dotar o sistema de normas procedimentais para viabilizar a inscrição e atualização dos dados, sem permitir que
imposições limitadoras da livre-iniciativa restassem veiculadas sob o jugo da mencionada lei. As turmas da
Primeira Seção desta Corte já assentaram que é ilegítima a criação de empecilhos, mediante norma infralegal,
para a inscrição e alteração dos dados cadastrais no CNPJ. Precedentes: REsp. 760.320/RS, DJU 01.02.07; REsp.
662.972/RS, DJU 05.10.06; REsp. 411.949/PR, DJU 14.08.06; REsp. 529.311/RS, DJU 13.10.03 e; RMS 8.880/CE, DJU
08.02.00. 4. Conforme cediço, “o sócio de empresa que está inadimplente não pode servir de empecilho para a
inscrição de nova empresa pelo só motivo de nele figurar o remisso como integrante”
STJ. REsp 678.405/RJ, 3.ª Turma, Rel. Min. Castro Filho, j. 16.03.2006, DJ 10.04.2006.
A jurisprudência deste Superior Tribunal de Justiça tem decidido pela competência da Justiça Federal, nos
processos em que figuram como parte a Junta Comercial do Estado, somente nos casos em que se discute a
lisura do ato praticado pelo órgão, bem como nos mandados de segurança impetrados contra seu presidente,
por aplicação do artigo 109, VIII, da Constituição Federal, em razão de sua atuação delegada. 2. Em casos em que
particulares litigam acerca de registros de alterações societárias perante a Junta Comercial, esta Corte vem
reconhecendo a competência da justiça comum estadual, posto que uma eventual decisão judicial de anulação
dos registros societários, almejada pelos sócios litigantes, produziria apenas efeitos secundários para a Junta
Comercial do Estado, fato que obviamente não revela questão afeta à validade do ato administrativo e que,
portanto, afastaria o interesse da Administração e, consequentemente, a competência da Justiça Federal para
julgamento da causa.
STJ. REsp 1.743.088-PR, Rel. Min. Marco Aurélio Bellizze, julgado em 12/03/2019, DJe
22/03/2019
O registro do título translativo no Cartório Registro de Imóveis, como condição imprescindível à transferência de
propriedade de bem imóvel entre vivos, propugnada pela lei civil, não se confunde, tampouco pode ser
substituído para esse efeito, pelo registro do contrato social na Junta Comercial. A questão controvertida está em
saber se a constituição de sociedade empresarial, registrada em Junta Comercial, com a estipulação de
integralização do capital social por meio de imóveis, indicados pelo sócio, é suficiente para operar a transferência
da propriedade. Assinala-se, inicialmente, que o estabelecimento do capital social — assim compreendido como
os recursos a serem expendidos pelos sócios para a formação do primeiro patrimônio social, necessários para a
constituição da sociedade —, e o modo pelo qual se dará a sua integralização, consubstanciam elementos
essenciais à confecção do contrato social (art. 997, III e IV, do Código Civil). A integralização do capital social da
empresa, ademais, pode se dar por meio da realização de dinheiro ou bens — móveis ou imóveis —, havendo de
se observar, necessariamente, o modo pelo qual se dá a transferência de titularidade de cada qual. Em se
tratando de imóvel, a incorporação do bem à sociedade empresarial haverá de observar, detidamente, os ditames
do art. 1.245 do Código Civil, que dispõe: transfere-se entre vivos a propriedade mediante o registro do título
translativo no Registro de Imóveis. Nesse sentido, já se pode antever que o registro do título translativo no
Registro de Imóveis, como condição imprescindível à transferência de propriedade de bem imóvel entre vivos,
63
propugnada pela lei civil, não se confunde, tampouco pode ser substituído para esse efeito, pelo registro do
contrato social na Junta Comercial. De fato, a inscrição do contrato social no Registro Público de Empresas
Mercantis, a cargo das Juntas Comercias, destina-se, primordialmente, à constituição formal da sociedade
empresarial, conferindo-se-lhe personalidade jurídica própria, absolutamente distinta dos sócios dela integrantes.
Explicitado, nesses termos, as finalidades dos registros em comento, pode-se concluir que o contrato social, que
estabelece a integralização do capital social por meio de imóvel indicado pelo sócio, devidamente inscrito no
Registro Público de Empresas Mercantis, não promove a incorporação do bem à sociedade; constitui, sim, título
translativo hábil para proceder à transferência da propriedade, mediante registro, perante o Cartório de Registro
de Imóveis em que se encontra registrada a matrícula do imóvel. Portanto, enquanto não operado o registro do
título translativo — no caso, o contrato social registrado perante a Junta Comercial — no Cartório de Registro de
Imóveis, o bem, objeto de integralização, não compõe o patrimônio da sociedade empresarial.
STJ. REsp 1.393.724-PR, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, Rel. para acórdão Min. Paulo de Tarso
Sanseverino, julgado em 28/10/2015, DJe 4/12/2015.
Para efetuar o registro e o arquivamento de alteração contratual, a fim de promover a transformação de
sociedade civil em empresária, não é exigível a apresentação de certidões negativas de débitos com o FGTS e
com a União, exigindo-se, contudo, certidão negativa de débito com o INSS. Realmente, o Decreto-Lei n.
1.715/1979 e a Lei n. 8.036/1990 exigem, para o registro e o arquivamento de alteração contratual como a aqui
analisada, a apresentação de certidões negativas de débitos com o FGTS e com a União. Ocorre que a Lei n.
8.934/1994 - que entrou em vigor posteriormente a esses mencionados diplomas normativos - estabeleceu, no
parágrafo único do seu art. 37, que, para instruir os pedidos de arquivamento, além dos referidos nesse artigo
(dentre os quais não constam certidões negativas de débitos com o FGTS ou com a União), "nenhum outro
documento será exigido das firmas individuais e sociedades referidas nas alíneas a, b e d do inciso II do art. 32".
Nesse contexto, a Terceira Turma, no REsp 1.290.954-SC (DJe 25/2/2014), firmou entendimento no sentido de que
Lei n. 8.934/1994 derrogou os dispositivos de leis anteriores que estabeleciam outras exigências para o
arquivamento de atos societários nas Juntas Comerciais. No referido julgado, confrontou-se a Lei n. 8.934/1994
com as leis tributárias anteriores, identificando-se uma antinomia de segundo grau, em que há conflito entre os
critérios cronológico e da especialidade. Concluiu-se, então, que há de prevalecer o critério cronológico, pois o
enunciado normativo "nenhum outro documento será exigido", contido na Lei n. 8.934/1994, tem conteúdo
nitidamente derrogatório, excluindo a possibilidade de subsistirem leis anteriores em sentido contrário. Portanto,
não mais subsistem as exigências de certidões negativas de débitos com o FGTS e com a União, porque previstas
em leis anteriores (Decreto-Lei n. 1.715/1979 e Lei n. 8.036/1990). Prevalece, apenas, a exigência de certidão
negativa do INSS, pois inserida na Lei n. 8.212/1991 por força da Lei n. 9.032/1995, que é posterior à Lei n.
8.934/1994. Além disso, cabe ressaltar que, de fato, o parágrafo único do art. 34 do Decreto n. 1.800/1996 afirma
que, obrigatoriamente, para instruir os pedidos de arquivamento, "Nenhum outro documento, além dos referidos
neste Regulamento, será exigido das firmas mercantis individuais e sociedades mercantis, salvo expressa
determinação legal, reputando-se como verdadeiras, até prova em contrário, as declarações feitas perante os
64
órgãos do Registro Público de Empresas Mercantis e Atividades Afins". Percebe-se, desse modo, que o Decreto
foi bastante claro, diversamente da lei, quanto à possibilidade de se exigirem outros documentos por
determinação legal. Deve-se indagar, entretanto, se o Decreto extrapolouas balizas da Lei. Ademais, uma
interpretação sistemática dos arts. 32 da Lei n. 8.934/1994 e 11 da LC n. 123/2006 poderia conduzir ao
entendimento de que não teria havido derrogação de dispositivos de leis anteriores à Lei n. 8.934/1994. Todavia,
o entendimento do aludido REsp 1.290.954-SC, da Terceira Turma do STJ, deve ser reafirmado. Isso porque a
interpretação da lei deve privilegiar o sentido que mais se harmoniza com os princípios constitucionais, pois estes
se encontram no vértice da pirâmide normativa, de onde emanam normas fundamentais que se irradiam por
todo ordenamento jurídico, alcançando inclusive as relações jurídicas de direito privado. Com esse entendimento,
a interpretação do caso em análise deve ser conduzida pelos princípios fundamentais da ordem econômica,
especialmente o da livre iniciativa, previsto no art. 170 da CF. Sob a ótica da livre iniciativa, o Estado deve
respeitar a autonomia de vontade dos sócios de uma sociedade, não podendo impedir que estes criem,
modifiquem ou extingam sociedades empresárias, salvo nos casos expressamente previstos em lei. A regra no
direito brasileiro, portanto, é a livre iniciativa e a autonomia da vontade dos sócios, sendo exceção a interferência
estatal. Nesse passo, verifica-se que a norma do art. 37 da Lei n. 8.934/1994, ao impor exigências para a
concretização da vontade dos sócios, apresenta natureza excepcional num sistema jurídico regido pela livre
iniciativa, devendo, pois, receber interpretação restritiva. Desse modo, o trecho "nenhum outro documento será
exigido" (art. 37, parágrafo único, da Lei n. 8.934/1994) não pode receber interpretação extensiva, para que se
admitam outras restrições à autonomia de vontade dos sócios, previstas em leis anteriores. De mais a mais,
ressalte-se que, além de a dispensa de certidões negativas não alterar em nada o crédito tributário - que
permanece ativo, podendo ser redirecionado contra a nova sociedade (que surgiu por transformação da
sociedade simples em sociedade empresária), conforme o disposto no art. 132 do CTN -, a Fazenda, nos casos
excepcionais em que a transformação societária seja implementada com o objetivo deliberado de frustrar a
satisfação do crédito tributário, poderá se valer da desconsideração da personalidade jurídica ou da cautelar fiscal
para proteger seus interesses.
Nome Empresarial
STJ. REsp 1.804.960-SP, Rel. Min. Moura Ribeiro, Terceira Turma, por maioria, julgado em
24/09/2019, DJe 02/10/2019
O registro de uma expressão como marca, ainda que de alto renome, não afasta a possibilidade de utilizá-la no
nome de um empreendimento imobiliário. A marca é um sinal distintivo que tem por funções principais
identificar a origem e distinguir produtos ou serviços de outros idênticos, semelhantes ou afins. Os nomes
atribuídos aos edifícios e empreendimentos imobiliários não gozam de exclusividade, sendo comum receberem
idêntica denominação. Estes nomes, portanto, não qualificam produtos ou serviços, apenas conferem uma
denominação para o fim de individualizar o bem, sendo assim de livre atribuição pelos seus titulares e não requer
criatividade ou capacidade inventiva. Dessa forma, o registro de uma expressão como marca, ainda que de alto
65
renome, não afasta a possibilidade de utilizá-la no nome de um edifício. A exclusividade conferida pelo direito
marcário se limita às atividades empresariais, sem atingir os atos da vida civil.
STJ. REsp 1.420.396-PR, Rel. Min. Sérgio Kukina, por unanimidade, julgado em 19/09/2017, DJe
29/09/2017
A controvérsia jurídica está em definir se os Conselhos Regionais de Contabilidade, no exercício de seu poder de
polícia, detêm ou não a prerrogativa de fiscalizar a atuação de seus associados, sobretudo mediante o exame dos
livros e documentos contábeis de sua clientela, bem assim, se tal agir configuraria violação à garantia da
privacidade e do sigilo profissional. Conforme se depreende do art. 1.190 do Código Civil, apenas nos casos
previstos em lei poderá a autoridade, juiz ou tribunal requisitar livros e fichas contábeis do empresário ou
sociedade empresária para verificar a observância das formalidades legais. Na hipótese, o Presidente do Conselho
Regional de Contabilidade, autoridade administrativa que é, possui ostensivo respaldo em lei para o exercício da
atividade fiscalizatória sob crítica. De fato, tal licença fiscalizatória advém do Decreto-Lei n. 9.295/46, que criou o
Conselho Federal de Contabilidade e os Conselhos Regionais de Contabilidade. Já no art. 2º desse diploma vem
assinalado que "A fiscalização do exercício da profissão contábil, assim entendendo-se os profissionais habilitados
como contadores e técnicos em contabilidade, será exercida pelo Conselho Federal de Contabilidade e pelos
Conselhos Regionais de Contabilidade a que se refere o art. 1º". No mesmo diapasão, seu art. 10, letra "c",
preconiza ser atribuição dos Conselhos Regionais "fiscalizar o exercício das profissões de contador e guarda-
livros, impedindo e punindo as infrações, e bem assim, enviando às autoridades competentes minuciosos e
documentados relatórios sobre fatos que apurem, e cuja solução ou repressão não seja de sua alçada". Dessa
forma, como de fato existe previsão legal específica para o exercício fiscalizatório pelos Conselhos de
Contabilidade, pode-se concluir que a salvaguarda empresarial prevista no reportado art. 1.190 do Código Civil
está sendo respeitada. Por fim, assevera-se que a fiscalização exercida tem por foco central verificar, não o mérito
em si, mas os aspectos relacionados à forma, ou seja, atestar se o profissional da contabilidade, na sua rotina de
trabalho, observa as normas técnicas concernentes à atividade contábil. Sendo esse o propósito primeiro da
fiscalização desenvolvida pela entidade classista, não se antevê afronta à privacidade e ao sigilo profissional dos
escritórios fiscalizados e da escrituração contábil de seus clientes.
STJ. REsp 1184867/SC, Rel. Ministro LUIS FELIPE SALOMÃO, QUARTA TURMA, julgado em
15/05/2014, DJe 06/06/2014
Com fundamento no princípio da territorialidade, a simples preexistência do registro do nome empresarial em
Junta Comercial do Estado não lhe confere proteção, em âmbito nacional, em face de marca ulteriormente
registrada no INPI. Para que a reprodução ou imitação de nome empresarial de terceiro constitua óbice a registro
de marca, à luz do princípio da territorialidade, faz-se necessário que a proteção ao nome empresarial não goze
de tutela restrita a um Estado, mas detenha a exclusividade sobre o uso em todo o território nacional. Porém, é
incontroverso da moldura fática que o registro dos atos constitutivos da autora foi feito apenas na Junta
Comercial de Blumenau/SC. A Convenção da União de Paris de 1883 - CUP deu origem ao sistema internacional
de propriedade industrial com o objetivo de harmonizar o sistema protetivo relativo ao tema nos países
66
signatários, do qual faz parte o Brasil (). É verdade que o art. 8º da dita Convenção estabelece que "O nome
comercial será protegido em todos os países da União, sem obrigação de depósito ou de registro, quer faça ou
não parte de uma marca de fábrica ou de comércio." Não obstante, o escopo desse dispositivo é assegurar a
proteção do nome empresarial de determinada sociedade em país diverso do de sua origem, que seja signatário
da CUP, e não em seu país natal, onde deve-se atentar às leis locais. O artigo 124, XIX, da Lei da Propriedade
Industrial veda o registro de marca que reproduza outra preexistente, ainda que em parte e com acréscimo
"suscetível de causar confusão ou associação com marca alheia". Sob o enfoque pelo ângulo do direito marcário,
a possibilidade de confusão e/ou associação entre as marcas é notória, por possuírem identidade fonética e
escrita quanto ao elemento nominativo e ambas se destinarem ao segmento mercadológico médico. Assim, é
inviável admitira coexistência de tais marcas. Logo, a simples preexistência do registro do nome empresarial em
Junta Comercial do Estado não lhe confere proteção, em âmbito nacional, em face de marca ulteriormente
registrada no INPI
67
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
COELHO, Fábio Ulhoa. Curso de direito comercial, volume 1: direito de empresa. São Paulo: Editora Revista dos
Tribunais, 2019.
FAZZIO JUNIOR, WALDO. Manual de direito comercial. São Paulo: Atlas, 2019.
MAMEDE, Gladston. Manual de direito empresarial. São Paulo: Atlas, 2019.
PENANTE JR, Francisco. Resumos para concursos, vol. 37, Direito Empresarial, 2ª edição. São Paulo: Editora
JusPodivm, 2019.
PENANTE JR, Francisco. LAURINDO, Felipe. Prática empresarial. Recife: Armador, 2019.
CARTÓRIO
Direito Empresarial
Capítulo 3
1
SUMÁRIO
DIREITO EMPRESARIAL, Capítulo 3 ............................................................................................................................ 2
3. Da Sociedade ............................................................................................................................................................. 2
3.1 Disposições Gerais ...................................................................................................................................... 2
3.2 Da sociedade não personificada ............................................................................................................. 3
3.3 Da sociedade comum ................................................................................................................................ 3
3.4 Da sociedade em conta de participação ............................................................................................... 4
3.5 Da sociedade personificada ..................................................................................................................... 5
3.6 Desconsideração da personalidade jurídica da sociedade empresária ........................................... 9
3.7 Da distinção entre sociedade empresária e não empresária .......................................................... 11
3.8 Da classificação das sociedades ............................................................................................................ 13
3.9 Das sociedades de pessoas .................................................................................................................... 14
3.10 Da sociedade simples .............................................................................................................................. 16
3.11 Da sociedade limitada ............................................................................................................................. 21
3.12 Da sociedade anônima ............................................................................................................................ 28
QUESTÕES .......................................................................................................................................................................... 48
GABARITO COMENTADO........................................................................................................................................... 58
JURISPRUDÊNCIA ............................................................................................................................................................. 62
LEGISLAÇÃO COMPILADA ......................................................................................................................................... 65
BIBLIOGRAFIA .................................................................................................................................................................. 66
2
DIREITO EMPRESARIAL
Capítulo 3
Neste capítulo estudaremos o direito societário, a fim de compreender a sistemática do
regime jurídico das sociedades empresárias no Brasil. Este tema abrange assuntos de grande
recorrência nos concursos da área notarial e registral. Atenção para não confundir as
características de cada uma das espécies societárias.
3. Da Sociedade
3.1 Disposições Gerais
As sociedades são pessoas jurídicas de direito privado, nos termos do art. 44, II, do
Código Civil. Dependendo do seu objeto, podem ser simples, quando tem por fim o exercício
de atividade civil, ou empresária, quando se destinam ao desenvolvimento de atividade
empresarial.
A diferença entre sociedade simples e empresária está no modo de exploração de seu
objeto social. Se essa exploração for feita mediante a organização dos fatores de produção
(capital, insumos, mão-de-obra e tecnologia), nos moldes do art. 966 do Código Civil, será
empresária. Se feita sem essa organização, será considerada simples. Os serviços antes
estavam ligados à sociedade civil, que não se sujeitava à falência; atualmente, como os
serviços também são prestados por sociedades empresárias, é cabível a falência.
Contudo, é importante observar, desde já, que as regras das sociedades simples são
aplicadas subsidiariamente às normas que regem as sociedades empresárias. Logo, sempre
que ausente disposição normativa sobre estas, aplicar-se-ão os preceitos que regem aquelas,
contanto que compatíveis com o regime jurídico empresarial.
Conforme art. 981 do Código Civil, celebram contrato de sociedade as pessoas que
reciprocamente se obrigam a contribuir, com bens ou serviços, para o exercício de
atividade econômica e a partilha dos resultados entre si.
3
As pessoas que compõem a sociedade, em regra, podem ser físicas ou jurídicas, elas
podem contribuir com bens ou serviços e a atividade a ser desenvolvida pode estar restrita à
realização de um ou mais negócios (art. 981, parágrafo único, CC/02).
3.2 Da sociedade não personificada
As sociedades podem ter ou não personalidade jurídica. As sociedades sem
personalidade jurídica (sociedades não personificadas) são aquelas que, apesar de já
desenvolverem atividade econômica organizada, não tiveram seus atos constitutivos
registrados. Essas sociedades podem exercer atividades empresariais ou civis.
As sociedades sem personalidade jurídica, que podem ser sociedade em comum ou
sociedade em conta de participação, são representadas em juízo pela pessoa a que couber a
administração de seus bens (art. 75, inciso IX, do Código de Processo Civil).
3.3 Da sociedade comum
É a sociedade que não possui ato constitutivo devidamente registrado. A sociedade
será em comum enquanto o ato constitutivo não for arquivado, exceto em relação às
sociedades por ações que estão em fase de organização (que são sempre sociedades
empresárias, mesmo que o ato constitutivo ainda não tenha sido arquivado). Aplicam-se às
sociedades em comum, de modo subsidiário, a disciplina das sociedades simples. A doutrina
considera sociedade em comum irregular aquela que o ato constitutivo não foi levado a
registro e sociedade em comum de fato a que sequer conta com ato constitutivo.
A prova da existência da sociedade por terceiros, se dá de qualquer modo, mas entre os
sócios entre si ou com os terceiros se dá apenas por meio documental.
O patrimônio especial da sociedade em comum é o conjunto de bens afetados ao
exercício da atividade, do qual são titulares todos os sócios.
Os bens sociais respondem pelos atos de gestão praticados por qualquer dos sócios,
salvo pacto expresso limitativo de poderes, que somente terá eficácia contra o terceiro que o
conheça ou deva conhecer.
Todos os sócios respondem solidária e ilimitadamente pelas obrigações sociais,
excluído do benefício de ordem, previsto no art. 1.024, aquele que contratou pela
sociedade.
4
3.4 Da sociedade em conta de participação
Ainda que registrada, permanece se personalidade jurídica. Diante de sua natureza
secreta, nunca possuirá nome empresarial. Aplicam-se subsidiariamente as regras das
sociedadessimples.
Sócio ostensivo aporta capital e administra. O Sócio participante somente aporta
capital, permanecendo oculto. Responderão frente a terceiros apenas os sócios ostensivos,
respondendo os sócios participantes se praticarem ato de gestão.
A sociedade em conta de participação não pode ser declarada falida, sem embargo, os
sócios ostensivos e participantes podem falir.
De personificada que é, a sociedade em conta de participação não possui autonomia
patrimonial. Interessante notar que, ainda que conte com um ato constitutivo e este seja
levado a registro, ainda assim não irá contar com personalidade jurídica. O registro da
sociedade em conta de participação terá o condão de, unicamente, formalizar a sua
constituição e dirimir eventuais dúvidas em relação ao conteúdo da convenção social.
Ademais, a existência de um contrato social da sociedade em conta de participação
produzirá efeitos unicamente entre os seus signatários.
A sociedade em conta de participação independe de qualquer formalidade para sua
constituição, bastando a existência da affectio societatis (vontade de formar sociedade),
podendo provar-se por todos os meios de direito.
A sociedade em conta de participação é integrada por duas classes de sócios: a dos
sócios ostensivos e dos sócios participantes (ou ocultos), podendo ser constituída por pessoa
jurídica.
Na conta de participação, o sócio ostensivo é o empreendedor que entra com capital e
capacidade laboral, enquanto o sócio participante tem atuação restrita à entrega do capital
para a consecução do fim social, participando ao final dos resultados correspondentes.
Desse modo, a partir da contribuição das duas classes de sócios, forma-se o patrimônio
especial da sociedade, que é exatamente o fundo social constituído para o desenvolvimento
da atividade.
Em matéria de responsabilidade pelos negócios jurídicos da sociedade, obriga-se
perante terceiros tão somente o sócio ostensivo e, exclusivamente perante este, o sócio
participante (limitada ou ilimitadamente, dependendo do que dispuser a convenção). Isto
5
porque, considerando não estarem dotadas de personalidade jurídica, as sociedades em conta
de participação não podem assumir obrigações em nome próprio, exercendo unicamente o
sócio ostensivo (em seu nome individual), a atividade constitutiva do objeto social,
respondendo direta e ilimitadamente pelas obrigações sociais (apenas os sócios ostensivos
podem exercer a atividade constitutiva do objeto social). Sem embargo, se porventura houver
participação conjunta de sócios ostensivos e participantes na celebração de negócios, todos
serão solidariamente responsáveis perante o terceiro com quem efetivaram contrato em nome
da sociedade.
Ainda que investido de poder para condução da sociedade, ao sócio ostensivo é
vedado admitir novo sócio sem o consentimento expresso dos demais, salvo disposição em
contrário.
Enquanto a sua liquidação, rege-se sociedade em conta de participação pelas normas
relativas à prestação de contas.
No que concerne à falência, cumpre destacar que, uma vez decretada a falência de
sócio ostensivo, haverá a dissolução da sociedade e a liquidação da respectiva conta, cujo
saldo constituirá crédito quirografário. Por outro lado, na hipótese de falência de sócio
participante, o contrato social ficará sujeito às normas que regulem os efeitos da falência nos
contratos bilaterais do falido.
A sociedade em conta de participação, ainda que tenha seu ato constitutivo levado a registro,
não terá personalidade jurídica (art. 993 do Código Civil).
3.5 Da sociedade personificada
As sociedades dotadas de personalidade jurídica (sociedades personificadas) são
aquelas cujos atos constitutivos foram objeto de registro nos órgãos competentes e, por
força de lei, são consideradas pessoas jurídicas. A sociedade existe desde o momento em que
6
há o acordo de vontades, mas a personalidade jurídica é adquirida apenas com o registro dos
atos constitutivos da sociedade no respectivo órgão.
Como supedâneo da personalidade jurídica que possuem, à sociedade são atribuídas as
autonomias negocial (capacidade da sociedade para, em nome próprio, celebrar os negócios
jurídicos necessários ao desenvolvimento de seu objeto social), processual (capacidade da
sociedade para, em nome próprio, defender seus interesses em juízo) e patrimonial
(capacidade da sociedade para, em nome próprio, ser titular de patrimônio. Permite a
separação entre o patrimônio da sociedade e o patrimônio pessoal dos sócios).
A sociedade que tenha por objeto o exercício de atividade própria de empresário rural e
seja constituída, ou transformada, de acordo com um dos tipos de sociedade empresária,
pode, preenchidos os requisitos legais, requerer a inscrição na Junta Comercial. Depois de
inscrita, a sociedade será equiparada, para todos os efeitos, à sociedade empresária. Se a
sociedade em comento já estiver constituída, o pedido de registro estará subordinado às
regras de transformação (art. 984 do CC/02). Nesse sentido, importante frisar que esse registro
é facultativo; uma vez feito, equipara-se a sociedade a sociedade empresária para fins legais.
Oportunamente, frise-se três espécies de sociedades personificadas previstas no CC/02.
I. Sociedade em nome coletivo:
A sociedade em nome coletivo é regida de forma direta pelo Código Civil (art. 1.039 ao
1.044), aplicando-se subsidiariamente as normas da sociedade simples (art. 997 ao 1.038).
Trata-se de sociedade de pessoas.
A sociedade em análise é personificada e formada exclusivamente por pessoas físicas,
tendo como ato constitutivo um contrato social.
Todos os sócios respondem de forma solidária e ilimitada pelas obrigações sociais.
Sem prejudicar a responsabilidade perante terceiros, os sócios podem, no ato constitutivo ou
por convenção posterior unânime, limitar entre si a responsabilidade cada um (art. 1.039 do
7
CC/02). Essa possibilidade de limitar a responsabilidade por disposição contratual só produz
efeitos entre os sócios.
Em razão da inconteste existência de responsabilidade ilimitada dos sócios, o Código
Civil estabelece que o credor particular de sócio não pode, antes de dissolver-se a sociedade,
pretender a liquidação de quota do devedor. O Diploma salienta que o credor particular só
poderá fazê-lo quando a sociedade tiver sido prorrogada tacitamente e quando, diante de
prorrogação contratual, haja acolhimento judicial da oposição do credor, que deve ser
levantada no prazo de noventa dias contado da publicação do ato dilatório (art. 1.043 do
CC/02).
A administração da sociedade em nome coletivo pode ser exercida apenas por quem
for sócio.
No caso de falecimento de sócio, se o contrato social da sociedade não dispuser a
respeito, opera-se a liquidação das quotas do de cujus. Para que os sucessores do sócio
falecido possam ingressar na sociedade, ainda que contra a vontade dos sobreviventes, será
indispensável expressa previsão no contrato social.
II. Sociedade em comandita simples:
A sociedade em comandita simples é regida pelo Código Civil (art. 1.045 ao 1.051),
aplicando-se subsidiariamente as normas da sociedade em nome coletivo (1.039 ao 1.044).
Também consubstancia sociedade de pessoas.
Trata-se de uma sociedade personificada, que tem como ato constitutivo um contrato
social, sendo formada por duas classes de sócios: a dos sócios comanditados (que
respondem ilimitadamente pelas obrigações sociais) e a dos sócios comanditários (que
respondem limitadamente pelas obrigações sociais).
Os sócios comanditados devem ser pessoas físicas, entrando com trabalho e capital,
assumindo a administração da sociedade e, portanto, respondendo de forma ilimitada pelas
obrigações sociais. Os sócios comanditários, por sua vez, podem ser pessoas físicas ou
jurídicas, não exercendo função de administração e, portanto, respondendo apenas pela
integralizaçãodas quotas adquiridas (ou seja, de forma limitada).
8
Apenas os sócios comanditados podem ser administradores das sociedades em
comandita simples. Não obstante, os sócios comanditários poderão receber poderes especiais
por meio de procuração para a realização de negócios determinados.
Conta com o benefício de ordem (art. 1.024, CC), respondendo em primeira mão, o
patrimônio social. Caso este não seja suficiente para satisfazer as obrigações assumidas,
poderá ser acionado o patrimônio pessoal dos sócios comanditários, de forma ilimitada. Os
sócios comanditários são responsáveis apenas pelo valor das suas quotas.
Da mesma forma que os sócios comanditados, os sócios comanditários têm o direito de
participar da distribuição dos lucros da sociedade, na medida de suas respectivas quotas. Têm,
ainda, o direito de participar das deliberações da sociedade, assim como o direito de fiscalizar
a sua administração.
No caso de falecimento de um sócio comanditado, dar-se-á a dissolução parcial da
sociedade, salvo previsão no contrato social que autorize o ingresso de sucessores. No caso
de falecimento de um sócio comanditário, em princípio, não haverá dissolução (art. 1.050, CC).
III. Sociedade em comandita por ações:
A sociedade em comandita por ações é regida pela Lei 6.404/76 (art. 280 a art. 284) e
pelos arts. 1.090 a 1.092 do Código Civil.
Trata-se de uma sociedade empresária personificada, com capital social dividido em
ações. É uma sociedade de capital, sendo livre o ingresso de terceiros estranhos ao seu
quadro social. Portanto, há livre circulação de ações.
Tem como ato constitutivo um estatuto social, sendo formada por duas classes de
sócios. Os sócios diretores são os que exercem cargo de administração, respondendo de
forma subsidiária (dado o benefício de ordem) e ilimitada pelas obrigações sociais, e os
sócios comuns, que não exercem cargo de administração e respondem de forma limitada
pelas obrigações sociais.
9
Somente sócio ou acionista podem ocupar cargo de administração nas sociedades em
comandita por ações. Os diretores serão nomeados no ato constitutivo da sociedade, sem
limitação de tempo, e somente poderão ser destituídos por deliberação dos acionistas que
representem no mínimo 2/3 do capital social. O diretor destituído ou exonerado continua,
durante dois anos, responsável pelas obrigações sociais contraídas sob sua administração.
Os acionistas, reunidos em Assembleia geral, não podem (mesmo com aprovação
assemblear), sem o consentimento dos diretores da sociedade, mudar o objeto social,
prorrogar o prazo de duração da sociedade, aumentar ou diminuir o capital social nem criar
debêntures ou partes beneficiárias.
Em que pese às sociedades em comandita por ações seguirem as disposições
concernentes às sociedades anônimas, a elas não se aplicam as regras sobre o Conselho de
Administração, a autorização estatutária de aumento de capital, e a emissão de bônus de
subscrição.
3.6 Desconsideração da personalidade jurídica da sociedade
empresária
A teoria desconsideração da personalidade jurídica, também chamada de teoria da
penetração, teoria da superação e disregard of legal entity doctrine, busca afastar,
temporariamente, a personalidade da pessoa jurídica para atingir o patrimônio das pessoas
físicas que a integram. Nesse sentido, tem como efeito a desconsideração da personalidade no
caso concreto, não havendo que se falar em desfazimento da pessoa jurídica.
Existem, em síntese, duas teorias que buscam a sua aplicação, quais sejam a teoria
maior e a teoria menor.
A Teoria Maior, adotada pelo art. 50 do Código Civil, dispõe ser possível a
desconsideração quando houver abuso da personalidade jurídica, seja pelo desvio de
finalidade (teoria maior subjetiva, como quando a personalidade jurídica tem sido utilizada
para fins diversos, como para esconder patrimônio dos sócios), seja pela confusão
patrimonial (teoria maior objetiva, como quando os sócios utilizam os bens sociais como se
seus fossem).
10
A Teoria Menor, adotada pelo art. 28 do Código de Defesa do Consumidor, pelo art. 4º
da Lei nº 9.605/98 (Lei dos Crimes Ambientais) e pelo art. 34 da Lei nº 12.529/2011 (Lei de
Defesa da Concorrência e da Ordem Econômica), prevê que a desconsideração pode ocorrer
ainda que não haja abuso da personalidade jurídica, bastando a simples inexistência de
ativos.
A desconsideração da personalidade jurídica pode se dar por meio de pedido em
petição inicial ou por meio de incidente no processo. É cabível em todas as fases do processo
de conhecimento, no cumprimento de sentença e na execução fundada em título executivo
extrajudicial (art. 134 do CPC/15).
Fala-se, ainda, em situação inversa, que ocorre quando a pessoa física passa os seus
bens para a pessoa jurídica para se livrar de dívidas particulares, sendo possível desconsiderar
a personalidade da pessoa jurídica de forma inversa, para buscar os bens integrantes da
pessoa jurídica e quitar as dívidas da pessoa física. Antes, a desconsideração inversa se dava
por meio da intepretação teleológica do art. 50 do CC/02. No entanto, com o advento do
CPC/15, tal instituto reverenciado pelo art. 133, §2º, do CPC/15.
Após a publicação da Medida Provisória n.º 881, de 30 de abril de 2019, passaram a vigorar
novas regras referentes à desconsideração da personalidade jurídica, com alteração do art. 50
do CC e inserção de diversos parágrafos no dispositivo, sendo importante o conhecimento:
Art. 50. Em caso de abuso da personalidade jurídica, caracterizado pelo desvio de
finalidade ou pela confusão patrimonial, pode o juiz, a requerimento da parte, ou do
Ministério Público quando lhe couber intervir no processo, desconsiderá-la para que os
efeitos de certas e determinadas relações de obrigações sejam estendidos aos bens
particulares de administradores ou de sócios da pessoa jurídica beneficiados direta ou
indiretamente pelo abuso.
§ 1º Para fins do disposto neste artigo, desvio de finalidade é a utilização dolosa da
pessoa jurídica com o propósito de lesar credores e para a prática de atos ilícitos de
qualquer natureza.
§ 2º Entende-se por confusão patrimonial a ausência de separação de fato entre os
patrimônios, caracterizada por:
I - cumprimento repetitivo pela sociedade de obrigações do sócio ou do administrador
ou vice-versa;
11
II - transferência de ativos ou de passivos sem efetivas contraprestações, exceto o de
valor proporcionalmente insignificante; e
III - outros atos de descumprimento da autonomia patrimonial.
§ 3º O disposto no caput e nos § 1º e § 2º também se aplica à extensão das obrigações
de sócios ou de administradores à pessoa jurídica.
§ 4º A mera existência de grupo econômico sem a presença dos requisitos de que trata
o caput não autoriza a desconsideração da personalidade da pessoa jurídica.
§ 5º Não constitui desvio de finalidade a mera expansão ou a alteração da finalidade
original da atividade econômica específica da pessoa jurídica.
Ressalta-se, contudo, que posteriormente a MP foi convertida em lei (Lei 13.874/2019),
passando o referido dispositivo a vigorar com a seguinte redação:
Art. 50. Em caso de abuso da personalidade jurídica, caracterizado pelo desvio de
finalidade ou pela confusão patrimonial, pode o juiz, a requerimento da parte, ou do
Ministério Público quando lhe couber intervir no processo, desconsiderá-la para que os
efeitos de certas e determinadas relações de obrigações sejam estendidos aos bens
particulares de administradores ou de sócios da pessoa jurídica beneficiados direta ou
indiretamente pelo abuso.
§ 1º Para os fins do disposto neste artigo, desvio de finalidade é a utilização da pessoa
jurídica com o propósito de lesar credores e para a prática de atos ilícitos de qualquer
natureza.
§ 2º Entende-se por confusão patrimonial a ausência de separaçãode fato entre os
patrimônios, caracterizada por: I - cumprimento repetitivo pela sociedade de obrigações
do sócio ou do administrador ou vice-versa; (Incluído pela Lei nº 13.874, de 2019) II -
transferência de ativos ou de passivos sem efetivas contraprestações, exceto os de valor
proporcionalmente insignificante; e III - outros atos de descumprimento da autonomia
patrimonial.
§ 3º O disposto no caput e nos §§ 1º e 2º deste artigo também se aplica à extensão das
obrigações de sócios ou de administradores à pessoa jurídica.
§ 4º A mera existência de grupo econômico sem a presença dos requisitos de que trata
o caput deste artigo não autoriza a desconsideração da personalidade da pessoa
jurídica.
§ 5º Não constitui desvio de finalidade a mera expansão ou a alteração da finalidade
original da atividade econômica específica da pessoa jurídica.
3.7 Da distinção entre sociedade empresária e não empresária
Conforme mencionado inicialmente, denomina-se sociedade empresária aquela que
desenvolve empresa (atividade empresária). A seu turno, as sociedades simples são
12
sociedades personificadas para o exercício de atividades civis (não empresárias), como no
caso, por exemplo, de uma sociedade de advogados.
As sociedades simples têm como ato constitutivo um contrato social, que deve
materializar as cláusulas e requisitos dispostos no art. 997 do CC e ter a sua inscrição
requerida ao Registro Civil de Pessoas Jurídicas (RCPJ) nos trinta dias subsequentes a sua
celebração (art. 998 do Código Civil), com vistas ao nascimento de sua personalidade jurídica.
A sociedade empresária, por sua vez, deve ser registrada na Junta Comercial, tendo
como ato constitutivo o contrato/estatuto social. As sociedades empresárias podem ser
classificadas segundo a responsabilidade dos sócios, o regime de constituição e dissolução e
segundo a composição. Tais elementos serão analisados no decorrer deste capítulo.
A diferença básica entre as sociedades simples e as empresárias está no modo de exploração
do seu objeto social, ou seja, na qualificação ou não da atividade exercida como empresária.
Se essa exploração for feita com organização profissional dos fatores de produção, será
empresária, se não, será simples.
Algumas sociedades serão simples ou empresárias independentemente de seu objeto social.
As cooperativas, por previsão em lei específica, são registradas nas Juntas Comerciais, mas
são consideradas sociedades simples. As sociedades por ações (sociedade anônima e
sociedade em comandita por ações) são consideradas sempre empresárias, conforme art. 982,
parágrafo único, do Código Civil.
13
SOCIEDADES SIMPLES SOCIEDADES EMPRESÁRIAS
Sociedade simples pura
*Sociedade cooperativa (sempre
simples, regida pela Lei n. 5.764/71);
Sociedade em nome coletivo;
Sociedade simples impura
*Sociedades que devem adotar um tipo
societário por determinação legal;
Sociedade em comandita simples;
Sociedade limitada;
Sociedade anônima;
Sociedade em comandita por ações;
3.8 Da classificação das sociedades
I. Quanto ao ato constitutivo:
As sociedades podem ser contratuais ou estatutárias (também conhecidas como
institucionais). São contratuais as sociedades constituídas por contrato social, o qual se
caracteriza pela existência de um duplo vínculo (um vínculo dos sócios entre si e outro vínculo
dos sócios para com a sociedade). Seu capital social é dividido em quotas, sendo os titulares
denominados cotistas. São sociedades contratuais as sociedades em nome coletivo, em
comandita simples e limitada.
São estatutárias as sociedades constituídas por estatuto social, o qual se caracteriza
pela existência de um único vínculo (dos sócios para com a sociedade), não havendo vínculos
14
dos sócios entre si. Seu capital social está dividido em ações, sendo os titulares denominados
acionistas. São sociedades estatutárias as sociedades anônimas e as em comandita por ações.
II. Quanto à responsabilidade dos sócios:
Quanto a sua responsabilidade, os sócios podem responder de forma limitada ou
ilimitada, a depender do tipo societário empresário adotado. Não obstante, importante aclarar
que, quando se fala na responsabilidade dos sócios em razão do tipo societário, está se
referindo ao patrimônio pessoal dos sócios, tendo em vista que, o patrimônio social,
independentemente do tipo societário, responderá sempre de forma ilimitada.
É de destacar-se também que, em relação às sociedades personificadas, como regra, o
patrimônio pessoal será alcançado apenas diante da impossibilidade de o patrimônio social
solver as obrigações sociais, respondendo de forma subsidiária, respeitados os parâmetros
legais.
Sendo ilimitada a responsabilidade, o patrimônio pessoal dos sócios responde
subsidiária. Sendo limitada a responsabilidade, o patrimônio pessoal dos sócios não será
atingido, salvo hipótese excepcional de desconsideração da personalidade jurídica e na
integralização das quotas do sócio remisso na sociedade limitada.
Há ainda sociedades nas quais parte dos sócios responde LIMITADAMENTE pelas obrigações
sociais e parte ILIMITADAMENTE (responsabilidade mista), nos casos das sociedades em
comandita.
3.9 Das sociedades de pessoas
As sociedades de pessoas integram outra classificação das sociedades, aquela elaborada
quanto às condições para alienação da participação societária. Nesse sentido, as sociedades
podem ser de pessoas ou de capital.
15
SOCIEDADES DE PESSOAS SOCIEDADES DE CAPITAL
Foco nos atributos pessoais dos sócios
(Foco nas pessoas)
Foco na contribuição financeira dos sócios (Foco
no capital)
Como regra, o ingresso de terceiros
no quadro social depende de
autorização unânime dos sócios.
Atenção: Na sociedade limitada, não
dispondo o contrato social sobre a
possibilidade de cessão de quotas,
será possível cedê-las a terceiros
estranhos, desde que não haja
oposição por parte de sócios que
representem mais de ¼ do capital
social, nos termos do art. 1.057, CC.
Dado seu caráter pessoal, não há livre
circulação de quotas.
Basta à subscrição para o ingresso de terceiros no
quadro social.
Acionistas não podem opor-se a entrada de
outros sócios (prevalece princípio da livre
circulação de ações)
Reunião de pessoas Reunião de bens e valores
São sociedades de pessoas: N/C e C/S São sociedades de capital: C/A e S/A
A doutrina admite apenas a penhora dos direitos patrimoniais resultantes das quotas,
como lucros e haveres, mas não a transferência da cota em si.
Com a morte de um sócio, na sociedade de pessoas haverá a dissolução das quotas
correspondentes entre os sócios, no caso dos sócios sobreviventes não concordarem com o
ingresso do sucessor. Na sociedade de capital a sucessão ocorrerá normalmente,
independentemente da aquiescência dos demais sócios.
A sociedade limitada é um tipo societário híbrido, ou seja, poderá assumir tanto a
forma de sociedade de pessoas, como a de sociedade de capital, devendo tal opção estar
refletida no contrato social. Sem embargo, na ausência de cláusula contratual expressa
16
indicando tratar-se de uma sociedade de pessoas ou de capital, algumas cláusulas poderão
indicar se a LTDA assumiu uma ou outra forma. Na hipótese de silêncio do contrato sobre a
questão, a limitada deverá ser tratada como uma sociedade de pessoas, afinal, é da essência
das sociedades contratuais a condição de sociedade de pessoas.
Embora, como regra geral, o ingresso de terceiro estranho nas sociedades de pessoas
dependa de autorização unânime dos sócios, nas sociedades limitadas, diante da omissão do
contrato, poderá o sócio ceder sua quota a outro sócio sem a anuência dos demais ou a
terceiro estranho, se não houver oposição de titulares de mais de ¼ (ou seja, de mais de 25%)
do capital social (art. 1.057, caput do CC). 1
3.10 Da sociedade simplesI. Noções Gerais
Embora contem com regime próprio (arts. 997-1.038, do Código Civil), as sociedades
simples podem adotar tipos societários empresários, exceto os tipos por ações (conforme
arts. 983 e 982, parágrafo único, do Código Civil).
As sociedades simples regidas por suas normas próprias são doutrinariamente
conhecidas como sociedades simples puras (sociedades simples simples), ao passo que
aquelas que optam por um dos tipos societários empresários possíveis (nome coletivo, em
comandita simples ou limitada), são nominadas sociedades simples impuras (ex. sociedade
simples limitada) e serão regidas pelas regras do tipo societário adotado, havendo a
aplicação subsidiária das normas da sociedade simples.2
Importante ressaltar que a adoção de um tipo societário empresário por uma
sociedade simples não a converte em sociedade empresária.
Os sócios devem contribuir para a formação do capital social, o qual corresponde ao
primeiro patrimônio da empresa, constituído pela somatória das integralizações feitas pelos
sócios com bens, direitos e serviços (incisos III a V do artigo 997).
Logo, nas sociedades simples pode haver a contribuição de sócio apenas a partir de
prestação de serviço. Neste caso, deverá o sócio dedicar-se exclusivamente à atividade
1 FAZZIO JUNIOR, Waldo. Manual de direito comercial. São Paulo: Atlas, 2017. p. 147.
2 PENANTE JR, Francisco. Resumos para concursos, vol. 37, Direito Empresarial, 2ª edição. São Paulo: Editora
jus podivm, 2017. p. 80.
17
exercida pela sociedade, não se empregando em outra, sob pena de ser privado de seus
lucros e dela excluído (art. 1.006 do CC/02).
Contudo, só há dois casos em que a integralização pode ser feita por prestação de
serviço: a) se constituída sob a forma de sociedade simples pura e; b) caso constituído como
sociedade cooperativa (Enunciado 206 do CJF).
Também é importante destacar que, “quando se tratar de sócio de serviço, não poderá
haver penhora das verbas descritas no art. 1.026, se de caráter alimentar” (Enunciado 389, CJF).
A verba será considerada alimentar quando os lucros retirados da sociedade se destinem à
sobrevivência do sócio e de sua família, o que faz com que tal rendimento se equipare a
salário, para fins de impenhorabilidade.
A subscrição da cota consiste no comprometimento em efetivar seu pagamento,
enquanto a integralização importa no próprio pagamento. A integralização pode ser feita em
dinheiro, crédito, bens (móveis e imóveis), transferência de crédito e, como já mencionado, em
prestação de serviços. A integralização por serviços só é permitida na sociedade simples e na
cooperativa. O sócio responde pela evicção de bem integralizado e pela insolvência do
devedor no caso de crédito transferido.
Vale ressaltar que inexiste obrigação de pagamento de Imposto sobre Transmissão de
Bens Imóveis (ITBI) no caso de transferência da propriedade de imóvel para a sociedade no
ato de integralização. Isso porque há uma imunidade especial prevista no texto da
Constituição da República:
Art. 156. Compete aos Municípios instituir impostos sobre:
II - transmissão "inter vivos", a qualquer título, por ato oneroso, de bens imóveis, por
natureza ou acessão física, e de direitos reais sobre imóveis, exceto os de garantia, bem
como cessão de direitos a sua aquisição;
§ 2º - O imposto previsto no inciso II:
I - não incide sobre a transmissão de bens ou direitos incorporados ao patrimônio
de pessoa jurídica em realização de capital, nem sobre a transmissão de bens ou
direitos decorrente de fusão, incorporação, cisão ou extinção de pessoa jurídica, salvo se,
nesses casos, a atividade preponderante do adquirente for a compra e venda desses
bens ou direitos, locação de bens imóveis ou arrendamento mercantil;
Numa sociedade simples, o capital social é dividido em cotas que ostentam um duplo
aspecto:
18
Direito patrimonial: a cota lhe assegura direito de percepção de lucros
Direito pessoal: garante o status de sócios, podendo votar, fiscalizar, ter direito de
preferência, pode participar das deliberações
É nula qualquer estipulação que exclua sócio de participar dos lucros e das perdas (art.
1.008 do CC/02). A participação nos lucros e nas perdas, salvo estipulado de modo diverso,
considera a proporção das quotas do respectivo sócio. Mas, aquele cuja contribuição consistir
em serviço, apenas participa dos lucros na proporção da média do valor das quotas (art. 1.007
do CC/02).
II. Regras aplicáveis subsidiariamente às sociedades empresárias
Qualquer sociedade, seja ela simples ou empresária, tem origem com o registro de seu
ato constitutivo (art. 45, CC). No entanto, o art. 998 do Código Civil, muito embora localizado,
topograficamente, no capítulo do diploma civilista que se destina a disciplinar as sociedades
simples, é plenamente aplicável às sociedades empresárias. Isso porque o registro, se realizado
dentro dos trinta dias seguintes à conclusão do ato constitutivo (contrato ou estatuto), surtirá
efeitos retroativos.
Art. 998. Nos trinta dias subsequentes à sua constituição, a sociedade deverá requerer a
inscrição do contrato social no Registro Civil das Pessoas Jurídicas do local de sua sede.
§ 1º O pedido de inscrição será acompanhado do instrumento autenticado do contrato,
e, se algum sócio nele houver sido representado por procurador, o da respectiva
procuração, bem como, se for o caso, da prova de autorização da autoridade
competente.
§ 2º Com todas as indicações enumeradas no artigo antecedente, será a inscrição
tomada por termo no livro de registro próprio, e obedecerá a número de ordem
contínua para todas as sociedades inscritas.
Todavia, por força do art. 36 da Lei 8.934/94, o órgão competente para o registro dos
atos constitutivos das sociedades empresárias é a Junta Comercial, e não o Oficial do Registro
Civil das Pessoas Jurídicas.
Outra norma que também se aplica às sociedades empresárias com as devidas
adaptações é o art. 997 do Código Civil, cujo texto dispõe que:
19
Art. 997. A sociedade constitui-se mediante contrato escrito, particular ou público, que,
além de cláusulas estipuladas pelas partes, mencionará:
I - nome, nacionalidade, estado civil, profissão e residência dos sócios, se pessoas
naturais, e a firma ou a denominação, nacionalidade e sede dos sócios, se jurídicas;
II - denominação, objeto, sede e prazo da sociedade;
III - capital da sociedade, expresso em moeda corrente, podendo compreender qualquer
espécie de bens, suscetíveis de avaliação pecuniária;
IV - a quota de cada sócio no capital social, e o modo de realizá-la;
V - as prestações a que se obriga o sócio, cuja contribuição consista em serviços;
VI - as pessoas naturais incumbidas da administração da sociedade, e seus poderes e
atribuições;
VII - a participação de cada sócio nos lucros e nas perdas;
VIII - se os sócios respondem, ou não, subsidiariamente, pelas obrigações sociais.
Parágrafo único. É ineficaz em relação a terceiros qualquer pacto separado, contrário ao
disposto no instrumento do contrato.
Embora as cláusulas necessárias para constituição da sociedade simples se encontrem
previstas no art. 997 do CC/02, outras podem ser estipuladas pelos contratantes. Além disso,
“as indicações contidas no art. 997 não são exaustivas, aplicando-se outras exigências contidas
na legislação pertinente para fins de registro” (Enunciado 214 do CJF).
O enunciado 222 da III Jornada de Direito Civil do Conselho de Justiça Federal
condensa a primeira ressalva que deve ser feita a dispositivo supracitado ao estatuir que “não
se aplica o art. 997, V, à sociedade limitada na hipótese de regência supletiva pelas regras das
sociedades simples”. Assim, não se admite na sociedade empresária sócio cuja contribuição
consista em serviços, tal qual se admitia na antiga “sociedade de capitale indústria”.
O inciso VIII do referido dispositivo também merece especial consideração, visto que, na
sociedade simples pura (sociedade simples simples), a responsabilidade dos sócios será
sempre subsidiária. Isso porque sua interpretação deve se dar à luz do art. 1.023 do Código
Civil, cujo texto dispõe que, “se os bens da sociedade não lhe cobrirem as dívidas, respondem
os sócios pelo saldo, na proporção em que participem das perdas sociais, salvo cláusula de
responsabilidade solidária.”
Diante disso, forçoso é concluir que a responsabilidade dos sócios da sociedade simples
pura, por decorrer de lei – mais precisamente, do enunciado do artigo 1.023 do Código Civil –,
será sempre subsidiária, ilimitada e proporcional, salvo se os sócios da sociedade simples pura
desejarem agravar o regime de responsabilidade e estabelecer a solidariedade.
20
Nesse sentido, o professor Alfredo Gonçalves Neto apresenta interessante raciocínio que
permite estende a compreensão do referido dispositivo legal:
(…) como já salientei nos comentários ao art. 977 (n. 115 supra), a regra de isenção de
responsabilidade solidária só será admissível quando o tipo societário adotado o
permitir. Ou seja, se os sócios da sociedade simples quiserem eliminar ou limitar sua
responsabilidade subsidiária pelas dívidas sociais, devem adotar o tipo que
comporte esse desiderato, submetendo, assim, a sociedade por eles avençada ao
respectivo regime jurídico (art. 983), isso a significar que o malsinado inciso VIII
daquele artigo não afeta o enunciado do art. 1.023, compatibilizando-se com ele, por
admitir cláusula de isenção quando: (i) A sociedade simples se revestir do tipo de
sociedade limitada (arts. 1.052 e 1.055, § 1º) (ii) se tratar de sociedade cooperativa que
opte pela limitação da responsabilidade dos sócios ao valor das quotas-partes (art.
1.095, § 1º); e (iii) se tratar de sociedade em comandita simples, exclusivamente em
relação ao sócio comanditário.3
Em acréscimo, vale mencionar os seguintes enunciados do CJF:
Enunciado 479, CJF. Art. 997, VII: Na sociedade simples pura (SIMPLES – SIMPLES) (art.
983, parte final, do CC/2002), a responsabilidade dos sócios depende de previsão
contratual. Em caso de omissão, será ilimitada e subsidiária, conforme o disposto nos
arts. 1.023 e 1.024 do CC/2002.
Enunciado 61, CJF. Art. 1.023: o termo “subsidiariamente” constante do inc. VIII do art.
997 do Código Civil deverá ser substituído por “solidariamente” a fim de compatibilizar
esse dispositivo com o art. 1.023 do mesmo Código
O ato constitutivo pode ser feito por instrumento público ou particular, mas, em
qualquer dos casos, as alterações contratuais ou estatutárias poderão ser efetivadas por mero
instrumento particular (art. 53 da Lei 8.934/94).
No concurso de outorga de delegações de notas e registros do Distrito Federal foi
trazida uma interessante questão com implicações práticas para o Oficial de Registro Civil das
Pessoas Jurídicas:
(CESPE/CEBRASPE - Concurso de Outorga de Delegações do TJDF – 2019 – Critério
Remoção) Uma sociedade simples deseja instituir uma sucursal em comarca diversa
daquela onde está inscrita a sua sede. Com referência a essa situação, de acordo com o
3 GONÇALVES NETO, Alfredo. Direito de Empresa – Comentários aos artigos 966 a 1.195 do Código Civil, 4.
Edição, p. 261
21
Código Civil, assinale a opção correta. A) A sucursal deverá ser inscrita na circunscrição do
registro civil de pessoas jurídicas onde se estabelecerá, e sua constituição será averbada no
registro da respectiva sede. B) A sucursal deverá ser inscrita na circunscrição do registro
público de empresas mercantis onde se estabelecerá, e sua constituição será averbada no
registro da respectiva sede. C) A sucursal deverá ser inscrita no registro civil de pessoas
jurídicas onde ocorreu a inscrição originária da sede. D) A sociedade simples e a sucursal
deverão estar inscritas na mesma circunscrição do registro público de empresas mercantis.
E) A nova inscrição é desnecessária, em razão da existência de registro da sede da
sociedade simples.4
3.11 Da sociedade limitada
A sociedade limitada é regida diretamente pelo Código Civil (art. 1.052 – 1.087),
aplicando-se supletivamente as normas da sociedade simples (art. 997 – 1.038) ou, se o
contrato tiver previsão expressa, as disposições da Lei 6.404/76 (Lei das Sociedades Anônimas),
conforme consta do art. 1.053, CC.
Trata-se de uma sociedade contratual personificada, podendo assumir a forma de
sociedade de pessoas ou de capital (natureza híbrida), circunstância que deverá ser aclarada
por seu contrato social.5
A partir da publicação da Medida Provisória n.º 881, de 30 de abril de 2019, posteriormente
convertida em Lei (Lei 13.874/2019), está em vigor norma que permite a constituição da
sociedade limitada por apenas uma pessoa, hipótese em que se aplicarão ao documento de
constituição do sócio único, no que couber, as disposições sobre o contrato social, consoante
dispõe o parágrafo único inserido no art. 1.052 do CC.
4 Vide a questão 6 deste material.
5 Vide a questão 9 deste material.
22
1. A flexibilidade para livre circulação de quotas, como no caso da existência de cláusula
autorizando a entrada de terceiros estranhos à sociedade, sem a necessidade de
aquiescência dos demais sócios, indica tratar-se de uma sociedade de capital. Já o
controle quanto à entrada de novos sócios indica tratar-se de uma sociedade de
pessoas. Na ausência de qualquer indicativo no contrato social que permita qualificá-
la como sociedade de pessoas ou de capital, deve considerar-se a limitada como
sociedade de pessoas, afinal, trata-se de sociedade contratual e é da essência das
sociedades contratuais a forma das sociedades de pessoas.
Na sociedade limitada, via de regra, apenas o patrimônio social responde pelas
dívidas da pessoa jurídica. O patrimônio dos sócios poderá ser atingido apenas nos casos de
desconsideração da personalidade jurídica e pela integralização do capital restante. Ainda,
deliberando de modo contrário ao disposto em lei ou no contrato, responderão de forma
ilimitada os sócios que a aprovaram (os sócios dissidentes ou ausentes, apenas vincular-se-ão
às decisões tomadas de acordo com a lei e o contrato social).
Cada sócio responde pelo capital que subscrever. Entretanto, haverá solidariedade entre os
sócios até o limite do capital total subscrito e não integralizado. Sendo assim, caso o total
subscrito já tenha sido integralizado, a princípio, o patrimônio pessoal dos sócios da
sociedade limitada não poderá ser alcançado.
O capital social da sociedade limitada é dividido em quotas, iguais ou desiguais,
devendo todos os sócios contribuir para a sua formação com bens, dinheiro ou crédito, não
sendo admitida a contribuição que consista exclusivamente em prestação de serviços.
Havendo contribuição com bens, será necessária uma avaliação dos sócios ou de
terceiros, para que possam ser valorados. Nesse caso, pela exata estimação atribuída aos bens
entregues para a formação do capital social, responderão solidariamente todos os sócios, pelo
prazo de 5 anos, a contar da data do registro da sociedade.
23
Como os sócios respondem solidariamente pela integralização do capital social, não
integralizada a quota por um sócio (sócio remisso), os outros podem, sem prejuízo da
responsabilização pelo dano emergente da mora e da possibilidade de optar a maioria dos
demais sócios pela redução da quota ao montante integralizado, tomá-la para si ou transferi-
la a terceiros, excluindo o primitivo titular e devolvendo-lhe o que houver pago, deduzidos os
juros da mora, as prestações estabelecidas no contrato mais as despesas.
A quota é indivisível em relação à sociedade,prepostos do
empresário para a consecução de sua atividade, devendo, necessariamente, ser
um trabalho alheio, seja por contrato de trabalho, seja por prestação de
serviço etc. Ex.: Uma pessoa faz, embrulha e vende trufas com habitualidade e
finalidade lucrativa, mas se não possuir mão de obra contratada não poderá
ser considerada empresária, e sim apenas sociedade simples.
Insumos (matéria-prima): correspondem aos bens articulados pela empresa;
4 MELLO FRANCO, Vera Helena. Manual de direito comercial. 2. ed. São Paulo: RT, 2004. p. 51. v. 1. Resume bem
a professora da USP: “a ideia de organização, assim, deve ser entendida em sentido amplo, de molde a
considerar ‘organizada’ toda atividade realizada de modo profissional, isto é, que não seja extemporânea ou
improvisada, destinada à colocação de bens ou serviços no mercado”.
5 ASQUINI, Alberto. Perfis da Empresa. Tradução de Fábio Konder Comparato. Revista de Direito Mercantil,
Industrial, Econômico e Financeiro. São Paulo: Revista dos Tribunais, v. 35, n. 104, p.109-126, out./dez. 1996.
15
Capital: é o montante em dinheiro necessário ao desenvolvimento da
atividade;
Tecnologia: faz compor a ideia de que o empresário detém as informações
necessárias ao desenvolvimento da atividade a que se propôs explorar.
Segundo o supracitado autor, a ausência de qualquer um dos quatro fatores
descaracteriza a organização e, consequentemente, a pessoa jurídica como sociedade
empresária ou Empresa Individual de Responsabilidade limitada e a pessoa física como
empresário individual6.
André Luiz Ramos é contrário a esse posicionamento, tendo em vista que a
automatização permite a inobservância do requisito da “mão de obra contratada”, sem
descaracterizar, em sua essência, a figura do empresário7. Para ele, estará caracterizada a
organização se a atividade fim tiver de ser exercida com a colaboração de terceiros ou
mediante recursos de terceiros (pessoas ou bens). Assim, uma lavanderia totalmente
computadorizada poderia ser considerada uma atividade empresarial. Pode-se citar também
o caso dos empresários virtuais, que, muitas vezes, atuam completamente sozinhos,
resumindo-se sua atividade à intermediação de produtos ou serviços por meio da internet.
1.2.4 Profissionalismo
O caráter profissional da atividade remete à ideia de exercício com qualificação técnica
e aprimoramento, muito embora, em vários casos, não seja necessária uma formação
específica para desempenho da empresa. Evidente, pois, que, desse somatório de elementos
organizados para exercício da atividade empresária exsurge a ideia de habitualidade na
prática desta função, podendo-se afirmar que somente a atividade praticada com certa
constância pode ser reconhecida como de natureza profissional (REsp 1.539.154 de
25/11/2015).
Se o exercício da atividade econômica se dá de forma esporádica, por exemplo, seu
promovente não será considerado empresário, não sendo abrangido, portanto, pelo regime
6 COELHO, Fábio Ulhoa. Manual de direito comercial. 18. ed. São Paulo: Saraiva, 2007. p. 13-14.
7 123.
16
jurídico empresarial. Em síntese, “importa que a atividade corresponda a um constante
repetir-se, não podendo tratar-se da realização de um negócio ocasional de compra e venda
ou de mediação”.
1.2.5 Objetivo Específico
Por fim, a produção ou circulação de bens ou serviços demonstra a abrangência da
teoria da empresa, em contraposição à antiga teoria dos atos de comércio, a qual, como
visto, restringia o âmbito de incidência do regime jurídico comercial a determinadas
atividades econômicas elencadas na lei. Para a teoria da empresa, em contrapartida, qualquer
atividade econômica poderá, em princípio, submeter-se ao regime jurídico empresarial,
bastando que seja exercida profissionalmente, de forma organizada e com intuito lucrativo.
Sendo assim, a expressão produção ou circulação de bens ou de serviços deixa claro que
nenhuma atividade econômica está excluída, em princípio, do âmbito de incidência do direito
empresarial.
Além de denotar a abrangência da teoria da empresa, a expressão em análise também
nos permite concluir que só restará caracterizada a empresa quando a produção ou
circulação de bens ou serviços destinar-se ao mercado, e não ao consumo próprio.
1.3 Fixação de Regime Jurídico
É imperioso enfatizar quais são os desdobramentos da caracterização da atividade de
um sujeito de direitos como empresária, pois dela decorre sua submissão ao conjunto de
regras e princípios do Direito de Empresa (regime jurídico empresarial). Logo, diretrizes e
preceitos civilistas incompatíveis com o regramento empresarialista cederão espaço àquelas
que disciplinam a matéria com maior especificidade.
Sob essa perspectiva, cabe apontar os seguintes efeitos práticos, já os comparando com
as atividades não empresariais, as quais se submetem ao regime jurídico civil:
17
REGIME CARACTERÍSTICAS PRÓRIA
Civil
Subordinação dos atos ao registro civil
Sujeição ao procedimento de insolvência civil
Impossibilidade de se valer da recuperação (extra) judicial;
Ilegitimidade para ação renovatória da locação empresarial;
Empresarial
Subordinação dos atos ao registro empresarial
Sujeição ao procedimento de execução concursal (falência);
Possibilidade de se valer da recuperação (extra) judicial;
Legitimidade para ação renovatória da locação empresarial;
Percebe-se, assim, que a noção de empresa é o principal alicerce de todo o conteúdo
didático da disciplina de Direito Empresarial, pois permite a apreensão de seus institutos
jurídicos peculiares, notadamente, as figuras do empresário e do estabelecimento empresarial.
Em razão disso, é recorrentemente cobrada nas provas de concurso, conforme se pode
verificar na parte de exercícios deste material.
1.4 O Empresário
1.4.1 Conceito e Espécies
O Código Civil de 2002, em seu art. 966, caput, nos traz o conceito de empresário como
sendo aquele que exerce, profissionalmente, atividade econômica organizada para a
produção ou a circulação de bens ou de serviços. A essa atividade exercida se dá o nome
de “empresa”.
18
Esse conceito legal será mais bem detalhado a seguir. Por enquanto, é importante
mencionar que a expressão “empresário” pode ser concebida em sentido amplo para abarcar
o empresário pessoa física (empresário individual) e o empresário pessoa jurídica
(sociedade empresária ou empresa individual de responsabilidade limitada - EIRELI). Em
sentido estrito, empresário é a pessoa física que exerce empresa, ou seja, o empresário
individual.
Empresário (em sentido amplo)
Empresário Individual
(ou empresário em sentido
estrito)
Empresa Individual de
Responsabilidade
Limitada
(EIRELI)
Sociedade Empresária
Pessoa Física que exerce
atividade econômica organizada,
conforme o art. 966 do CC.
Pessoa Jurídica
UNIPESSOAL exercente
de atividade econômica
organizada de acordo
com o art. 966 do CC.
Pessoa Jurídica, formada, em
regra, por PLURALIDADE de
membros (sócios), cujo
objeto social se destina ao
exercício de atividade
empresária (art. 966 do CC)
* Exceção: sociedade limitada
com sócio único
Mesmo sendo pessoa física, terá
CNPJ.
Pode ser simples ou
empresária.
Atualmente, a sociedade
limitada poderá ser
unipessoal
Saliente-se que a própria sociedade é quem é empresária, e não os seus sócios. Isso
porque é ela que organiza, sob sua titularidade, ou seja, em seu nome a atividade de
produção ou circulação de bens ou serviços. Assim, sócio de sociedade empresária não é
19
considerado empresário, mas sim um empreendedor, quando, além de ter aportado capital,
também colabora com seus serviços na organização da atividade (ex. sócio diretor) ou merosalvo para efeito de transferência, quando,
sendo omisso o contrato social, o sócio pode ceder sua quota, total ou parcialmente, a quem
seja sócio, independentemente de audiência dos outros, ou a estranho, se não houver
oposição de titulares de mais de 1/4 (um quarto) do capital social, tendo eficácia a cessão a
partir da averbação do respectivo instrumento, subscrito pelos sócios anuentes.
Ao se tratar do capital social, embora não se possa ignorar o princípio da
intangibilidade do capital social (ou princípio da integridade do capital social), pelo qual se
protege os interesses dos credores da sociedade ao impedir a distribuição de lucros fictícios,
com o desfalque do capital social, para concessão de benefício aos sócios, mostra-se
importante destacar a possibilidade de aumento ou redução do capital social, conforme
ensinam os arts. 1.081 a 1.084 do CC. Sendo assim, o princípio em comento não visa impedir
a redução do capital social, mas sim garantir que só poderão ser distribuídos entre os sócios
valores que correspondam a lucros reais.
O aumento do capital social pode ocorrer, com a respectiva alteração no contrato
social aprovada por assembleia, desde que todas as quotas já tenham sido integralizadas. Até
trinta dias após a deliberação pelo aumento do capital, terão os sócios preferência para
participar do aumento, na proporção das quotas de que sejam titulares.
A redução do capital social, a seu turno, se restringe às hipóteses de perdas
irreparáveis uma vez integralizado o capital social ou se excessivo em relação ao objeto social.
Na sociedade limitada, o controle ou poder de decisão da sociedade é exercido por
aquele que detiver o maior número de quotas. Na eventualidade de empate, a definição se
dará a partir da quantidade de sócios. Persistindo o empate, caberá ao juiz resolver.
A sociedade limitada pode ser administrada por uma ou mais pessoas, sócios ou não
sócios, constantes do contrato social ou de ato em separado. O administrador, nomeado por
instrumento em separado, deve averbá-lo à margem da inscrição da sociedade, e, pelos atos
24
que praticar, antes de requerer a averbação, responde pessoal e solidariamente com a
sociedade.
Os poderes conferidos a administrador sócio são irrevogáveis (desde que previstos no
contrato social, excetuada a justa causa); mas os atribuídos a administrador não sócio são
revogáveis (art. 1.019, CC).
A designação de administradores não sócios dependerá de aprovação de todos os
sócios (enquanto o capital não estiver integralizado) e de, no mínimo, 2/3 dos sócios após a
integralização.
Ademais, importante destacar que, se a administração da sociedade limitada for
atribuída no contrato social a todos os sócios, a condição de administrador não se estenderá
aos que posteriormente adquirirem essa qualidade (quem ingressar depois na sociedade).
No silêncio do contrato, os administradores podem praticar todos os atos pertinentes à
gestão da sociedade; não constituindo objeto social, a oneração ou a venda de bens imóveis
depende do que a maioria dos sócios decidir.
Como sabido, o administrador, no exercício de suas funções, deve atuar na medida dos
interesses da sociedade, sempre pautando a sua conduta no cuidado e diligência que todo
homem ativo e probo costuma empregar na administração de seus próprios negócios (art.
1.011, CC). Nesse sentido, ao respeitar o limite dos poderes que lhe foram regularmente
conferidos, os atos do administrador obrigam a pessoa jurídica (art. 47, CC). No entanto, se
contrariamente, ao praticar atos de gestão, o administrador vier a violar os poderes a ele
conferidos pelo contrato social, tais atos não poderão ser imputados à sociedade. É a
chamada teoria ultra vires societatis (além do conteúdo da sociedade), que visa a proteção
da pessoa jurídica. Desse modo, a sociedade ficará isenta de qualquer responsabilidade
frente a terceiros pelos atos ultra vires, a menos que tenha se beneficiado com a prática
deles.
O excesso por parte dos administradores somente pode ser oposto a terceiros se
ocorrer pelo menos uma das seguintes hipóteses:
25
1. Se a limitação de poderes do administrador estiver inscrita ou averbada no registro
próprio da sociedade;
2. Provando-se que a limitação dos poderes do administrador era conhecida do terceiro;
3. Tratando-se de operação evidentemente estranha aos negócios da sociedade.
Segundo o Enunciado 219 da III Jornada de Direito Civil do Conselho de Justiça Federal, não
se aplica a teoria ultra vires societatis às sociedades por ações, em razão da existência de
regra específica traçada pelo art. 158, II da Lei 6.404/76.
Não podem ser administradores, além das pessoas impedidas por lei especial, os
condenados à pena que vede, ainda que temporariamente, o acesso a cargos públicos; ou por
crime falimentar, de prevaricação, peita ou suborno, concussão, peculato; ou contra a
economia popular, contra o sistema financeiro nacional, contra as normas de defesa da
concorrência, contra as relações de consumo, a fé pública ou a propriedade, enquanto
perdurarem os efeitos da condenação.
Se o contrato social for silente quanto à pessoa do administrador da sociedade limitada,
suas funções serão exercidas por cada um dos sócios separadamente. Sem embargo, o
administrador que realizar operações, sabendo ou devendo saber que estava agindo em
desacordo com a maioria, responderá por perdas e danos perante a sociedade.
As decisões em uma sociedade limitada serão tomadas em reunião ou em assembleia,
as quais serão convocadas pelos administradores nos casos previstos em lei ou no contrato.
Nas sociedades limitadas compostas por mais de dez sócios, as deliberações deverão ocorrer
obrigatoriamente através de assembleia.6
Quando os administradores retardarem a convocação por mais de sessenta dias, a
reunião ou assembleia poderá também ser convocada por sócio, ou por titulares de mais de
6 Vide a questão 8 e 10 deste material.
26
20% do capital social, quando não atendido, no prazo de oito dias, pedido de convocação
fundamentado.
Ordinariamente, nas sociedades limitadas, as decisões devem ser tomadas a partir da
maioria de votos considerado o capital social do qual detém cada sócio. Contudo, só
poderão ser tomadas havendo unanimidade (1) a decisão sobre a dissolução da sociedade
com prazo determinado e (2) a decisão sobre a designação de administrador não sócio,
enquanto o capital social não estiver integralizado.
Será necessária a aceitação de 3/4 do capital social para (1) a alteração do contrato
social e (2) a aprovação de fusão, incorporação e dissolução.
Para designação de administrador não sócio se o capital social estiver totalmente
integralizado, será necessária a concordância de 2/3 do capital social.
No que tange à destituição de sócio nomeado administrador no contrato, exige-se a
aprovação de titulares de quotas correspondentes a mais de metade do capital social, salvo
disposição contratual diversa, conforme alteração realizada pela Lei 13.792/19 no §1º do art.
1.063 do CC/02.
Será necessária a concordância da maioria absoluta do capital social (mais da metade
do total do capital) para (1) a designação de sócio administrador realizada em ato separado,
(2) definir a remuneração de administradores e (3) determinar a exclusão de sócio por justa
causa.
Será necessária a concordância de maioria simples do capital social (mais da metade
do capital considerando os sócios presentes) para (1) a aprovação da prestação de contas dos
administradores e (2) nos demais casos previstos na lei ou no contrato, se não exigir quórum
maior.
Aos sócios da sociedade limitada é garantido o direito de fiscalizar a sua administração.
Nesse sentido, o conselho fiscal, órgão de formação facultativa, composto de três ou mais
membros e respectivos suplentes,sócios ou não, residentes no país e eleitos em assembleia,
uma vez constituído, tem como atribuições as previstas no art. 1.069 do Código Civil, que se
indica uma leitura atenta e minuciosa.
A dissolução da sociedade pode ser total ou parcial. A dissolução total implica na
desconstituição da sociedade, culminando na desvinculação de todos os sócios. Já na
dissolução parcial, há desvinculação de algum sócio do quadro social, o que não gera a
27
desconstituição da sociedade, que prossegue com suas atividades. Assim, na dissolução
parcial, a sociedade não se extingue, nem mesmo perde a sua personalidade.7
A dissolução será total nas seguintes hipóteses: (1) consenso unânime dos sócios, (2)
fim do prazo de duração nas de prazo determinado, (3) deliberação dos sócios, por maioria
absoluta, se de prazo indeterminado, (4) falência, (5) impossibilidade de execução do objeto
social, (6) falta de pluralidade de sócios, não reconstituída no prazo legal de 180 dias
(sabendo que nesse prazo o sócio remanescente pode optar pela transformação em EIRELI ou
em empresário individual), (7) extinção da autorização para funcionar, (8) por determinação
judicial, (9) a requerimento de qualquer dos sócios, (10) se houve anulação de sua
constituição, (11) se houver exaurimento do fim social e (12) outras causas previstas no
contrato.
A dissolução será parcial (resolução da sociedade em relação a um sócio) nos casos de
(1) morte do sócio, (2) retirada do sócio ou (3) exclusão do sócio.
Restando demonstrado que um ou mais sócios estão pondo em risco a sobrevivência
da empresa, pela prática de atos que vão de encontro à lei ou aos objetivos sociais, estes
poderão ser excluídos da sociedade pela vontade da maioria dos sócios, representativa de
mais da metade do capital social, desde que cumpridos os requisitos legais do art. 1.085 do
CC/02).
Trata-se de hipótese de exclusão extrajudicial, que não pode ser confundida com a
exclusão judicial prevista no art. 1.030, CC. Nesta, a exclusão poderá operar-se mediante
iniciativa da maioria dos sócios, não se levando em consideração o volume da participação
deles no capital social.
7 PENANTE JR, Francisco. Resumos para concursos, vol. 37, Direito Empresarial, 2ª edição. São Paulo: Editora
jus podivm, 2017. p. 91.
28
1. Não é possível a exclusão de sócio majoritário de forma extrajudicial, dada a redação
do art. 1.085 do CC/02, mas é possível que ela ocorra judicialmente uma vez
demonstrada a prática de ato de inegável gravidade de que fala o art. 1.030 do CC/02.
2. O simples rompimento da affectio societatis (vontade de permanecer em sociedade)
não é razão capaz de ensejar a exclusão de sócio.
3.12 Da sociedade anônima
As sociedades anônimas são espécies de sociedades estatutárias, também chamadas de
“institucionais”. Isso porque se constituem por meio de um estatuto social e seu capital está
dividido em frações denominadas ações. Cada sócio é titular de determinado número de
ações, sendo chamado de acionista.
Modesto Carvalhosa conceitua este tipo de sociedade como pessoa jurídica de direito
privado, cuja natureza é essencialmente “mercantil, em que o capital se divide em ações de
livre negociabilidade, limitando-se a responsabilidade dos subscritores ou acionistas ao preço
de emissão das ações por eles subscritas ou adquiridas”8.
Também chamada de companhia, a S/A é regulamentada por uma lei própria, a Lei
6.404/76. O art. 1.089 do CC/02 esclarece essa circunstância, dispondo que: “a sociedade
anônima rege-se por lei especial, aplicando-se-lhe, nos casos omissos, as disposições deste
Código”. Nesse sentido, tem-se o seguinte enunciado do Conselho de Justiça Federal:
Enunciado 68 do CJF: Arts. 1.088 e 1.089: suprimir os arts. 1.088 e 1.089 do novo
Código Civil em razão de estar a matéria regulamentada em lei especial.
8 CARVALHOSA, Modesto. Comentários à Lei das Sociedades Anônimas. V. 1, São Paulo: Saraiva, 2002, p. 153. O
conceito apresentado por este autor se baseia nos arts. 1º da Lei 6.404/76 (Lei das Sociedades Anônimas – LSA) e
1.088 do Código Civil de 2002 (CC/02). A LSA constitui verdadeiro Código do Direito Societário Brasileiro,
porquanto se aplica subsidiariamente a todos os demais tipos societários. (CORRÊA-LIMA, Osmar Brina. Sociedade
anônima. 2. ed., Belo Horizonte: Del Rey, 2003, p. 12).
29
Devido à impessoalidade oriunda da fácil modificação das posições acionárias, a
companhia, via de regra, tem caráter de sociedade de capital. Ou seja, a ênfase de seu
funcionamento recai no aporte dos investimentos e não nas características pessoais de cada
sócio9.
Por conseguinte, conforme já enfatizado, o vínculo entre os acionistas e a pessoa
jurídica guarda natureza institucional e não contratual10. E isso porque a adesão ao regime
legal e estatutário decorre da mera aquisição de participação acionária e não do encontro das
vontades dos diversos sócios, o que faz com que as relações entre eles não se articulem nos
moldes de acordo plurilateral.
O nome empresarial da companhia deve ser sempre formado por denominação11.
Nessa linha:
“As sociedades anônimas, por sua vez, constituem o único tipo societário que,
necessariamente, deve adotar denominação como nome empresarial.(...)
Obrigatoriamente, deverá constar na denominação o objeto social. As denominações das
sociedades anônimas devem vir integradas pelas expressões “sociedade anônima” ou
“companhia”, ou abreviadamente como “S.A” ou “Cia”.” (Sinopses Jurídicas, vol. 21, p. 52
– com modificações).
9 Sobre a existência excepcional de affectio societatis em companhias, consulte-se: ZETTEL, Fabiano Campos. Os
efeitos da affectio societatis nas sociedades de capitais e nos acordos de acionistas. 2004. 98f. Dissertação
(Mestrado em Direito Comercial). Faculdade de Direito da Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte,
2004.
10 Registre-se a opinião contrária do professor João Eunápio Borges: “não vemos motivo para atribuir ao ato
de constituição de uma sociedade anônima natureza diferente da que tem o de qualquer outra sociedade. Por
mais numerosos que sejam os atos preliminares – a partir da iniciativa dos fundadores, redação do projeto de
estatutos até a realização da assembléia constitutiva – a sociedade surgirá sempre de um acordo de vontades
que se manifesta a cada subscrição de ação e se confirma afinal na manifestação da assembleia constitutiva” [...].
“O nome pouco importa: contrato, contrato plurilateral, ato complexo, ato coletivo, negócio coletivo, a essência, a
substância do ato é sempre a mesma.” (BORGES, João Eunápio. Curso de direito comercial terrestre. Belo
Horizonte: Forense, 1976, p. 409).
11 “Art. 5º Observado o Princípio da Veracidade: [...] III - a denominação é formada com palavras de uso comum
ou vulgar na língua nacional ou estrangeira e ou com expressões de fantasia, com a indicação do objeto da
sociedade, sendo que: [...] b) na sociedade anônima, deverá ser acompanhada da expressão ‘companhia’ ou
‘sociedade anônima’, por extenso ou abreviadas, vedada a utilização da primeira ao final.” (BRASIL. Departamento
Nacional do Registro do Comércio. Instrução Normativa 99 de 21 de dezembro de 2005. Disponível em:
. Acesso em: 14 jan. 2020).
30
A seguinte assertiva, referente às sociedades anônimas, foi considerada INCORRETA no
concurso de outorga de delegações do Estado de Minas Gerais (CONSULPLAN - 2019): Pode
exercer a sua atividade sob firma ou razão social, da qual só farão parte os nomes dos sócios-diretores
ou gerentes.12
O termo “sociedade anônima” ou sua abreviatura pode vir no início, meioou fim da
denominação. O termo “companhia” ou sua abreviatura não pode ser usado no fim (art. 3º da
LSA). Permite-se que na denominação conste o nome do fundador, acionista ou pessoa que
tenha concorrido para o bom êxito da formação da empresa, mas ainda assim será tratado
como denominação.
Enunciado 71 do CJF – Arts. 1.158 e 1.160:suprimir o artigo 1.160 do Código Civil por
estar a matéria regulada mais adequadamente no art. 3º da Lei n. 6.404/76
(disciplinadora das S.A.) e dar nova redação ao § 2º do art. 1.158 [Sociedade Limitada],
de modo a retirar a exigência da designação do objeto da sociedade.
Enunciado 79 do CJF – Art. 2.031: não havendo a revogação do art 1.160 do Código
Civil nem a modificação do § 2º do art. 1.158 do mesmo diploma, é de interpretar-se
este dispositivo no sentido de não aplicá-lo à denominação das sociedades anônimas e
sociedades Ltda., já existentes, em razão de se tratar de direito inerente à sua
personalidade.
Enunciado 395 do CJF – A sociedade registrada antes da vigência do Código Civil não
está obrigada a adaptar seu nome às novas disposições. [Vem ratificar o enunciado 79
do CJF]
12 Vide a questão 1 deste material.
31
Todavia,
A companhia jamais é anônima. Toda sociedade anônima deve possuir uma
denominação. E esta é uma das espécies de nome empresarial, ao lado da firma ou
razão.
A companhia não pode ter firma ou razão social. Esta, devido ao princípio da veracidade,
sempre deve mencionar o nome de um, algum ou todos os sócios atuais. Daí ser a
companhia chamada sociedade anônima.
A expressão “anônima” liga-se também ao fato de que a companhia, potencialmente,
congrega uma coletividade indefinida de sócios, cujo número pode atingir a cifra dos
milhares ou milhões. Nesse quadro social de intensa e incontrolável rotatividade, será
impossível constatar, em determinado momento, e com precisão, os nomes de todos os
acionistas, quem é acionista agora poderá já não sê-lo no instante seguinte. Para isso,
basta que aliene suas ações a outra pessoa, em bolsa ou fora dela, em operação que
refoge inteiramente ao controle ou interveniência da companhia13.
Dessa forma, a contínua mudança dos componentes do quadro social se deve ao
fenômeno chamado por Rubens Requião de “Revolução do Acionariato”, que decorre da
separação das prerrogativas inerentes ao direito de propriedade14. Ensina o autor que, desde o
direito romano, admite-se que, da propriedade, emanam os direitos de usar, fruir e dispor do
bem objeto da relação jurídica real15.
Contudo, o mesmo não ocorre com o acionista, pois, quando subscreve ou adquire sua
ação, ele pode dispensar o direito de administrar a organização social mediante o exercício do
direito de voto (ex. acionista preferencialista). E anui, com isso, que os órgãos da sociedade
(diretores ou administradores) realizem a gestão dos recursos por ele injetados na companhia.
Deste modo, o sistema do acionariato inovou ao dissociar a “gestão e a fruição dos
bens, proporcionando ao proprietário o gozo dos frutos, mas tirando-lhe a administração ou a
gestão dos bens investidos”16.
13 CORRÊA-LIMA, Osmar Brina. Sociedade anônima. 2. ed., Belo Horizonte: Del Rey, 2003, p. 15 e 16, grifos
nossos.
14 REQUIÃO, Rubens. Curso de direito comercial. v. 2, São Paulo: Saraiva, 1995, p. 57
15 REQUIÃO, Rubens. Curso de direito comercial. v. 2, São Paulo: Saraiva, 1995, p. 57
16 REQUIÃO, Rubens. Curso de direito comercial. v. 2, São Paulo: Saraiva, 1995, p. 57. Excepcionam-se os casos
em que um ou mais sócios detém poder de controle e/ou participam do Conselho de Administração da
companhia.
32
Noutro viés, as sociedades anônimas se classificam como abertas quando devidamente
habilitadas a negociar seus valores mobiliários na bolsa de valores ou mercado de balcão;
e fechadas caso isso não seja possível (art. 4º da LSA e 22 da Lei 6.835/76).
Inúmeros efeitos práticos decorrem da caracterização da companhia como aberta. No
sistema jurídico brasileiro, o mais importante deles é que devem se submeter ao registro
perante a CVM, bem como às suas instruções normativas destinadas a regular a legislação
aplicável às sociedades anônimas e seus valores mobiliários (art. 4º A, § 4º da LSA e arts. 5º e
8º da Lei 6.835/76)17.
Outro importante efeito é que a sociedade anônima de capital aberto tem suas ações
comercializadas mediante complexo sistema de intermediação, a cargo de agentes
econômicos autorizados a operar no mercado de bolsa.
A sociedade anônima é sempre empresária por força lei, independentemente do seu
objeto social. Caberá ao estatuto social da companhia a definição precisa e completa do seu
objeto social. Por serem sociedades institucionais ou estatutárias, elas serão sempre
sociedades de capital.
CC/02, Art. 1.160. A sociedade anônima opera sob denominação designativa do objeto
social, integrada pelas expressões "sociedade anônima" ou "companhia", por extenso ou
abreviadamente.
Parágrafo único. Pode constar da denominação o nome do fundador, acionista, ou
pessoa que haja concorrido para o bom êxito da formação da empresa.
Uma das principais características das sociedades anônimas é a limitação da
responsabilidade dos sócios. Como dispõe o art. 1º da LSA, “a companhia ou sociedade
anônima terá o capital dividido em ações, e a responsabilidade dos sócios ou acionistas será
limitada ao preço de emissão das ações subscritas ou adquiridas” (regra repetida pelo art.
1.088 do CC/02). Ex.: o credor aciona a sociedade (sem bens), depois aciona os sócios,
somente será acionado cada um que tenha subscrito e não integralizado o capital, não há
solidariedade entre os sócios.
17 Algumas formalidades burocráticas concernentes ao registro da companhia, assim como das emissões de
valores mobiliários perante a CVM são indispensáveis para que a sociedade anônima possa ter seus valores
mobiliários admitidos à negociação no mercado de capitais (arts. 4º , p.u., 170, § 6º e 82 da LSA).
33
Há duas modalidades de constituição das companhias: por subscrição pública ou por
subscrição particular. Enquanto esta se dirige aos próprios acionistas da companhia ou a
investidores predeterminados, aquela se volta a toda comunidade de pessoas do mercado.
Nesse sentido, Fábio Ulhoa Coelho explica que:
A subscrição pode ser particular ou pública. Na primeira, as ações emitidas são
apresentadas como opção de investimento a investidores procurados diretamente pela
companhia emissora ou por seus agentes. Não existe, nessa modalidade, uma oferta aos
investidores em geral. Claro que também será particular a subscrição realizada para
atender determinado investidor que houvera tomado a iniciativa de apresentar proposta
de investimento atraente aos olhos da sociedade. O decisivo, para caracterizar como
particular a subscrição, é a ausência de acessibilidade dos investidores em geral à
emissão. Já a subscrição pública é, exatamente, a que apresenta essa ampla
acessibilidade: a ação é apresentada como alternativa de investimento à generalidade
dos investidores e demais agentes que operam no mercado de capitais. A sociedade
anônima fechada somente pode emitir ações para subscrição particular. Se pretender
alargar o universo de pessoas às quais apresentará a ação como opção atraente, terá de
abrir o seu capital, solicitando os registros hábeis junto à CVM. Já a sociedade anônima
aberta pode optar pela realização da emissão de ações para subscrição particular ou
pública, procedendo também aos registros cabíveis na CVM18.
Além disso, convém sublinhar que a subscrição pública pode acontecer tanto na
constituição quanto no aumento do capital social da companhia aberta. No entanto, nesta
espécie de sociedadeanônima, a subscrição particular somente é possível para se realizar o
aumento de capital social, hipótese que tem por finalidade o depósito das ações na [B]³.
E isso é assim porque, para que o referido depósito ocorra, é necessário que a
companhia emissora já tenha obtido seu registro junto à CVM na época em que foi
constituída mediante subscrição pública ou quando efetuou o procedimento de abertura de
seu capital19. Logo, não há como uma companhia aberta se valer da subscrição particular com
o fim de promover sua constituição.
18 COELHO, Fábio Ulhoa. Curso de direito comercial: direito de empresa. v. 2, 10. ed., São Paulo: Saraiva, 2007, p.
117.
19 Conforme o jargão econômico, a operação pela qual uma companhia fechada acessa o mercado pela primeira
vez é designada pela sigla IPO (Initial Public Offer – Oferta Pública Inicial). Esse procedimento atende a um dos
principais objetivos do mercado de capitais, qual seja: permitir o acesso das sociedades anônimas à poupança
popular, afastando as desvantagens ocasionadas pelos empréstimos bancários. Essa premissa torna imprescindível
um sistema adequado à proteção do investidor, que tenha como pilar a eficiente política de divulgação e
transparência das informações. No Brasil, tal política é implementada mediante a exigência de registro prévio na
34
Com base nestas informações, os procedimentos de subscrição pública e particular das
ações de companhia aberta são representados pelo seguinte organograma:
São requisitos preliminares para a constituição de uma sociedade anônima,
independentemente da modalidade de constituição:
CVM quanto às ofertas de valores mobiliários que se dirijam ao público em geral. Para deferimento deste
registro, não compete à CVM qualquer exame a respeito da qualidade dos títulos ofertados, nem quanto às
características da empresa emissora, ou mesmo, quanto à conveniência do momento escolhido para a oferta
pública. A única exceção se verifica na hipótese de exame substantivo referente à constituição de companhia por
subscrição pública prevista no art. 82 da LSA. Vale observar que há situações, porém, em que não se justifica
exigir o prévio registro na CVM da oferta de venda das ações. Isso ocorre quando esta não transcende os limites
de uma operação de cunho eminentemente privado, dirigindo-se a pessoas específicas e previamente
determinadas. Nestes casos, não há o apelo à poupança popular, tal como acontece quando os investidores,
mesmo sem o controle proporcionado pela intervenção da CVM e da BM&FBOVESPA, têm acesso a informações
que lhes permitam uma tomada de decisão consciente. (EIZIRIK, Nelson. A oferta pública de distribuição de
valores mobiliários. WALD, Arnoldo; GONÇALVES, Fernando; CASTRO, Moema Augusta Soares de (coord.);
FREITAS, Bernardo Vianna; CARVALHO, Mário Tavernard Martins de (org.). Sociedades anônimas e mercado de
capitais. São Paulo: Quartier Latin, 2011, p. 30 e 31)
35
1. subscrição de pelo menos duas pessoas, de todas as ações em que se divide o seu
capital social. A subscrição é irretratável.
2. Realização, como entrada, em dinheiro, de 10%, no mínimo, do preço de emissão das
ações subscritas. Nas instituições financeiras essa porcentagem é de 50%. O fundador
terá 5 dias, contados do recebimento das quantias, em nome do subscritor e a favor
da sociedade, para fazer o depósito no estabelecimento bancário autorizado pela
CVM.
3. Arquivamento do estatuto social da empresa na Junta comercial e publicação pela
imprensa de seus atos constitutivos;
4. Transferência para a companhia, por transcrição no registro público competente, dos
bens com que o subscritor tenha contribuído para a formação do capital social.
Quando se trata das companhias, um tema bastante recorrente em provas de concursos
diz respeitos aos valores mobiliários, que consistem em bens móveis representantes de
direitos contra a companhia. No caso das ações, tais direitos representam frações do capital
social.
As ações são indivisíveis em relação à companhia e, dependendo do critério adotado,
assumem os seguintes valores:
1. Valor nominal: valor indicado no estatuto social.
2. Valor ou preço de emissão: é aquele pago por quem subscreve a ação e é fixado
pelos fundadores no momento da constituição da empresa.
3. Valores de mercado: valor da negociação.
4. Valor patrimonial: valor da ação em relação ao patrimônio. Patrimônio dividido pelo
número de ações. Esse valor será pago em caso de dissolução total ou parcial da
sociedade.
Dependendo da forma como são transferidas para outros acionistas ou terceiros, as
ações podem ser:
1. Ações Nominativas. Para a transferência destas, bastará o termo lavrado no livro de
Transferência de Ações Nominativas datado e assinado pelo cedente e pelo cessionário,
ou por seus representantes. Em verdade, todas as ações de uma sociedade anônima
36
devem ser nominais, haja vista que a Lei n. 8.021/90 vedou a emissão de títulos ao
portador.
2. Escriturais: elas não deixam de ser nominativas, visto que são identificados seus
titulares. Entretanto, diferenciam-se quanto a forma de transferência, uma vez que esta
ocorre por contas de depósito. Aqui, uma instituição financeira autorizada pela CVM,
manterá contas de depósitos em nome dos titulares das ações.
As ações, conforme a natureza dos direitos ou vantagens conferidas aos seus titulares
poderão ser:
1. Ordinárias: conferem aos acionistas os direitos comuns, como o direito a voto e de
participação nos lucros. São ações de emissão obrigatória por todas as companhias.
2. Preferenciais: conferem aos acionistas certas vantagens, que podem consistir em:
a) prioridade na distribuição de dividendo fixo (obtido lucro pela sociedade, o
estatuto prevê qual o percentual fixo que será recebido pelos acionistas preferenciais,
o que sobrar será dividido entre os ordinários), mínimo (se ocorrendo determinado
lucro, os preferencialistas recebem o mínimo fixado, o que sobrar vai servir para pagar
a mesma quantidade aos portadores das ações ordinárias; sobrando ainda nova
partilha é feita entre os preferencialistas) ou cumulativos (se a sociedade não divide os
lucros, eles serão cumulados para o próximo ano);
b) prioridade no reembolso do capital, com prêmio ou sem ele. O estatuto poderá
deixar de conferir às ações preferenciais alguns dos direitos reconhecidos às ações
ordinárias ou conferi-los com restrição. O número de ações preferenciais sem direito
de voto ou sujeitas a restrições não poderá ultrapassar 50% do total das ações
emitidas
3. Gozo ou fruição: são aquelas distribuídas aos acionistas titulares de ações ordinárias
ou preferenciais em substituição dessas ações que já foram amortizadas. A
amortização consiste na distribuição aos acionistas, a título de antecipação e sem
redução do capital social, da quantia a que teriam direito em caso de liquidação da
companhia.
37
Sobre as debêntures, é importante mencionar que são valores mobiliários que conferem
a seus titulares direito de crédito contra a companhia, nas condições constantes da escritura
de emissão e, se houver, do certificado. São títulos emitidos pela S/A para negociar junto ao
público, levantando capital para sociedade, é como se fosse um empréstimo feito para a
Sociedade (captação de recursos). É título executivo extrajudicial elencado no CPC/2015 (artigo
784, I).
Existem quatro espécies de debêntures (art. 58):
1. com garantia real: aquelas atreladas a um bem pertencente ou não à sociedade;
2. com garantia flutuante: aquelas que asseguram a seus titulares privilégio geral sobre
o ativo da companhia, mas nãoimpedem a negociação dos bens que compõem esse
ativo. Em caso de liquidação, essas debêntures têm preferência sobre os créditos
quirografários;
3. quirografárias: aquelas sem qualquer garantia ou privilégio, que concorrem com os
demais créditos quirografários da companhia na hipótese de liquidação;
4. subordinadas ou subquirografárias: aquelas com preferência apenas sobre os
acionistas da companhia em caso de liquidação.
As debêntures podem ser, tais como as ações, nominativas e escriturais, bem como
conversíveis em ações.
Outros valores mobiliários também podem ser emitidos pelas companhias. É o caso, por
exemplo, das partes beneficiárias, que são títulos negociáveis, sem valor nominal e estranhos
ao capital social. São emitidos para captar recursos ou remunerar serviço prestado. É um
direito de crédito eventual, até um limite de 10% do lucro da empresa, dependendo da
existência ou não de obtenção de lucro pela sociedade. Somente podem ser emitidas por
sociedades fechadas (Lei 10.303/01).
Os bônus de subscrição, por sua vez, são valores mobiliários que conferem ao titular,
nas condições constantes do certificado, o direito de preferência para subscrever novas ações
por ocasião do aumento do capital social autorizado no estatuto, antes de qualquer outro.
Não é um direito de crédito, é, simplesmente, um direito de preferência, que precede inclusive
o acionista.
38
Já o “commercial paper” é uma espécie de nota promissória que serve para captação
de recursos no mercado de capital, sendo restituídos aos investidores em curto prazo. Esse
prazo é de, no mínimo, 30 e, no máximo, 180 dias, para a restituição dos valores recebidos em
mercado pela companhia. Tais títulos somente se transferem por endosso em preto e com a
cláusula “sem garantia”.
Os principais órgãos das sociedades anônimas são: a Assembleia, o Conselho de
Administração, a Diretoria e o Conselho Fiscal.
No último concurso do Estado do Rio Grande do Sul (VUNESP-2019) foi questionado
quais são os órgãos obrigatórios das sociedades anônimas. Portanto, atenção para não se
confundir com as outras espécies societárias.20
As Assembleias são órgãos de deliberação colegiados formados por todos os acionistas
que tenham ou não direito a voto. A Assembleia Geral é o órgão supremo da companhia e
pode ser das seguintes espécies:
1. Assembleia Geral Ordinária (AGO): deverá ocorrer anualmente, nos quatro primeiros
meses seguintes ao término do exercício social da empresa, e deverá abranger as
seguintes matérias: a) tomada de contas dos administradores, exame, discussão e
votação das demonstrações financeiras; b) deliberação sobre a destinação do lucro
líquido do exercício e distribuição de dividendo; c) eleição dos administradores e dos
membros do Conselho Fiscal, quando for o caso; d) aprovação de correção da
expressão monetária do capital social.
2. Assembleia Geral Extraordinária (AGE): pode ocorrer a qualquer tempo, e serve para
a deliberação de qualquer outra matéria que não seja de competência privativa da
assembléia geral ordinária. A AGE que tiver por objeto a reforma do estatuto somente
20 Vide a questão 4 deste material.
39
se instalará com a presença de acionistas que representem 2/3, no mínimo, do capital
com direito a voto. Em segunda convocação, instalar-se-á com qualquer número.
O Conselho de Administração é um órgão de deliberação colegiada a quem compete,
primacialmente, fixar a orientação geral dos negócios da companhia e fiscalizar a gestão dos
diretores. É composto por, no mínimo, 3 membros, acionistas, eleitos pela AGE e por ela
destituíveis a qualquer tempo, com mandato de no máximo 3 anos, permitida a reeleição.
Somente é obrigatório nas sociedades anônimas abertas (que negociam suas ações na bolsa
ou no mercado de capitais), nas de capital autorizado (têm autorização de aumento de capital
no estatuto, sem necessidade de assembleia para deliberação) e nas sociedades de economia
mista.
A Diretoria, por sua vez, é a responsável pela representação da companhia e pela
prática dos atos necessários ao seu funcionamento regular. É obrigatória em todas as
sociedades anônimas. Os diretores podem ou não ser acionistas, exigindo a lei que se trate de
pessoa residente no país e que sejam pessoas naturais. Ela é composta por dois ou mais
diretores, eleitos e destituíveis a qualquer tempo pelo Conselho de Administração, ou se,
inexistente, pela assembleia geral, com mandato nunca superior a 3 anos, permitida a
reeleição.
O Conselho Fiscal é obrigatório de existência nas sociedades anônimas, mas, o seu
funcionamento pode não ser permanente, restringindo-se aos exercícios sociais em que for
instalado a pedido dos acionistas. Sua atribuição é a fiscalização dos atos de administração da
sociedade. Os conselheiros podem ou não ser acionistas. Serão, no mínimo, 03 e no máximo,
05 conselheiros.
O principal dever de um acionista é o de integralizar as ações subscritas, sob pena de
se tornar acionista remisso, com a consequência de ser executado ou ter suas ações
negociadas em bolsa. Para a cobrança judicial, podem ser utilizados o boletim de subscrição
ou o aviso de chamada de capital, que são títulos executivos extrajudiciais.
40
Sobre a execução judicial do sócio remisso, é importante frisar que o aviso de chamada
de capital deve ser publicado pelo menos por 03 vezes em jornal de grande circulação e deve
ser dado o prazo de 30 dias para comparecimento do acionista remisso. O Estatuto Social não
é titulo executivo. Além disso, a execução será feita com base no valor que deveria integralizar
mais os valores referentes aos prejuízos causados pela mora na transferência dos montantes
aos quais o acionista se comprometeu (juros, correção, multa.) Além disso, a execução e a
negociação das ações são medidas que podem ser adotadas simultaneamente pela sociedade.
Em havendo êxito em um dos caminhos o outro será suspenso. Mesmo a S/A fechada pode
negociar as ações do remisso na bolsa, cujos valores serão suportados pelo remisso.
São considerados direitos essenciais dos acionistas por não poderem ser deles retirados:
1. Participação nos lucros: qualquer cláusula que retire esse direito é nula, sendo
chamada de cláusula leonina; entretanto esse direito pode ser reduzido ou ampliado.
2. Preferência na subscrição de novas ações: contudo, há uma mitigação desse direito
no caso de existirem bônus de subscrição emitidos pela companhia.
3. Fiscalização: podem os acionistas fiscalizar a administração da sociedade por meio do
Conselho Fiscal e por meio da Assembleia Geral, que é responsável pela aprovação das
contas da sociedade).
4. Participação no acervo societário: em caso de liquidação da sociedade, que consiste
na apuração do ativo para pagar o passivo, o que resta deve ser dividido entre todos
os acionistas, com base no valor patrimonial das suas ações.
5. Retirada: o acionista pode sair da sociedade; não a qualquer tempo, mas, sim, se
houver dissidência com relação às deliberações constantes do art. 137 da Lei 6.404/76,
sendo reembolsado pela sociedade, pelo valor nominal das ações.
41
O direito de voto é dessa natureza, tanto que existem ações sem esse direito garantido.
Como regra, não é o simples desejo de sair da sociedade, pelo fim da “affectio
societas”, caso isso ocorra deve procurar negociar suas ações). No entanto, há entendimento
majoritário do Superior Tribunal de Justiça no sentido “da possibilidade jurídica da
dissolução parcial de sociedade anônima fechada, em que prepondere o liame subjetivo
entre os sócios, ao fundamento de quebra da affectio societatis”.
Sobre o direito de retirada (ou direito de recesso), vale ressaltar que existem duas
formas de uma pessoa se desligar da sociedade empresária de que participa: a) alienando a
suaparticipação societária ou; b) exercendo seu direito de retirada.
Na sociedade anônima, dada a facilidade de alienação da participação societária, as
hipóteses de exercício do direito de retirada são limitadas, estando disciplinadas
especificamente em lei.
O exercício do direito de retirada se dá mediante reembolso, que consistem em
operação pela qual, nos casos previstos em lei, a companhia paga o valor patrimonial das
ações aos acionistas dissidentes de deliberação da assembleia-geral o valor de suas ações.
Podem ser elencadas as seguintes hipóteses de direito de reembolso:
42
1. Criação de ações preferenciais ou aumento de classe de ações preferenciais
existentes, sem guardar proporção com as demais classes de ações
preferenciais, salvo se já previstos ou autorizados pelo estatuto;
2. Alteração nas preferências, vantagens e condições de resgate ou amortização de
uma ou mais classes de ações preferenciais, ou criação de nova classe mais
favorecida;
3. Redução do dividendo obrigatório;
4. Fusão da companhia, ou sua incorporação em outra;
5. Participação em grupo de sociedades (art. 265);
6. Mudança do objeto da companhia;
7. Cisão da companhia;
8. Transformação da sociedade anônima em limitada (quando há autorização no
estatuto para transformação da sociedade por decisão não unânime) – art. 221
9. Operações societárias que resultem no fechamento da companhia – art. 223
10. Incorporação de ações (quando se torna subsidiária integral de outra) – art. 252
11. Transferência do controle acionário ao Poder Público, em razão de
desapropriação – art. 236
12. Compra do controle de qualquer sociedade por uma companhia aberta – art.
256
Com fundamento no art. 205 da Lei nº 6.404/76, o Superior Tribunal de Justiça entende
que não faz jus ao recebimento de dividendos o sócio que manteve essa condição durante o
exercício financeiro sobre o qual é apurado o lucro, mas se desliga da empresa, por alienação
de suas ações, em data anterior ao ato de declaração do benefício. Imagine que um acionista
possuía 40 mil ações ordinárias da sociedade anônima e, em fevereiro de 2019, ele vendeu
suas ações. Em abril/2019, a S.A. realizou Assembleia Geral Ordinária e deliberou pagar aos
acionistas da companhia os dividendos apurados no ano anterior (2018). Tal acionista não terá
43
direito ao recebimento porque, na data do ato de declaração do dividendo (data da
Assembleia), ele já não mais fazia parte do quadro de acionistas da Companhia. STJ. 4ª Turma.
REsp 1.326.281-RS, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, julgado em 3/8/2017 (Info 610).
São considerados administradores da companhia os membros do Conselho de
Administração e da Diretoria. Eles têm como deveres: diligência, lealdade e informação.
Diligência (artigo 153) consiste em cuidar do negócio como se fosse seu. Lealdade (artigo 155)
não pode utilizar as informações privilegiadas em benefício próprio ou alheio. Informação
(artigo 156) desde a nomeação deve informar a sua participação no capital social da
sociedade administrativa e em outras sociedades por ela controladas.
O acionista controlador é a pessoa natural ou jurídica, ou grupo de pessoas vinculadas
por acordo de voto, ou sob controle comum, que seja titular de direitos de sócio que lhe
assegurem, de modo permanente, a maioria dos votos nas deliberações da assembleia geral e
o poder de eleger a maioria dos administradores, e que usa efetivamente esse poder para
dirigir e orientar o funcionamento do órgãos da companhia. Ele responde pelos danos
causados por atos praticados com abuso de poder e que impliquem danos ou prejuízos aos
demais acionistas, à companhia ou à sociedade.
No que tange à dissolução, à liquidação e à extinção das sociedades anônimas, convém
enfatizar que ela poderá ocorrer:
De pleno direito:
a) término do prazo de duração;
b) em qualquer caso específico previsto no estatuto;
c) por deliberação da assembleia geral;
d) pela existência de um único acionista, verificada em AGO, se no mínimo de dois
não for reconstituído até à do ano seguinte;
e) e pela extinção, na forma da lei, da autorização para funcionar.
Por decisão judicial:
a) for anulada a sua constituição em ação proposta por qualquer acionista;
b) for provado que não poderá alcançar o seu objetivo em ação proposta por
acionistas que representem 5% ou mais do capital social;
c) for decretada a falência, na forma da respectiva lei.
44
Por decisão da autoridade administrativa competente:
a) nos casos e na forma prevista em lei especial;
b) na falta de autorização devida para a negociação de ações no mercado de
capitais.
Após a dissolução terá início a liquidação, que poderá ser extrajudicial (competindo à
assembleia geral deliberar o seu modo e nomear o liquidante) ou judicial. A companhia
dissolvida conserva a sua personalidade jurídica até a sua extinção, para que possa ser
efetuada a liquidação. O liquidante tem os mesmos deveres e responsabilidades do
administrador.
O Superior Tribunal de Justiça admite a dissolução parcial da sociedade anônima que
não está gerando lucros. Para a corte, é possível que sociedade anônima de capital fechado,
ainda que não formada por grupos familiares, seja dissolvida parcialmente quando, a despeito
de não atingir seu fim – consubstanciado no auferimento de lucros e na distribuição de
dividendos aos acionistas –, restar configurada a viabilidade da continuação dos negócios da
companhia. STJ. 3ª Turma. REsp 1.321.263-PR, Rel. Min. Moura Ribeiro, julgado em 6/12/2016
(Info 595). Além disso, a Terceira Turma do STJ, no REsp 1.400.264/RS, decidiu que "a
legitimidade passiva ad causam em ação de dissolução parcial de sociedade anônima fechada
é da própria companhia, não havendo litisconsórcio necessário com todos os acionistas".
Segundo a relatora, Ministra Nancy Andrighi, "os contornos concretos do litigio dizem respeito
unicamente á dissolução parcial da companhia, com a retirada dos recorridos, acionistas
minoritários. Esse dado é relevante porque o resultado útil do processo, na perspectiva dos
autores da demanda, cinge-se à sua retirada da sociedade com a respectiva apuração de
45
haveres, portanto, eventual acolhimento do pedido formulado na petição inicial não conduz
á absoluta inviabilidade de manutenção da empresa por dissolução total".
Por fim, cabe tratar das operações societárias, que consistem em alterações no tipo ou
na estrutura da sociedade empresária. Compreendem a transformação, incorporação, fusão e
cisão. Se essas operações envolverem uma sociedade institucional (anônima ou comandita por
ações) seguem a disciplina prevista na LSA (arts. 220 a 234). Do contrário, aplicam-se as regras
previstas no Código Civil.
Nesse sentido, tem-se o seguinte enunciado do Conselho de Justiça Federal.
Enunciado 230 do CJF – Art. 1.089: A fusão e a incorporação de sociedade anônima
continuam reguladas pelas normas previstas na Lei n. 6.404/76, não revogadas pelo
Código Civil (art. 1.089), quanto a esse tipo societário. [A comandita por ações segue o
mesmo regime da S.A – Vide 1.090 do CC/02 e o Enunciado 232 do CJF abaixo
transcrito]
Em breve descrição, é possível elencar as seguintes operações societárias mais
relevantes:
Transformação: ocorre quando há mudança de tipo societário, ou seja, de uma S/A
para LTDA ou vice-versa, independentemente, de dissolução e liquidação de um tipo
para outro. Também há transformação caso haja alteração de aberta para fechada
ou vice-versa. A transformação não prejudica os direitos dos credores, que
continuarão, até o pagamento integral dos seus créditos, com as mesmas garantias
que o tipo anterior de sociedades lhes oferecia.
Fusão: ocorre quando duas ou mais sociedades se unem, as quais se extinguem,
para formar uma nova sociedade, que lhes sucederá em todos os direitos e
obrigações. O sóciodissidente da sociedade em que ocorreu a fusão tem direito de
retirada da companhia. Segerar concentração de mercado, haverá apreciação de
CADE (20% do mercado).
Incorporação: uma ou mais sociedades são absorvidas por outra, que lhe sucede
em todos os direitos e obrigações. As sociedades absorvidas extinguem-se. O sócio
dissidente da sociedade em que ocorreu a incorporação também tem direito de
46
retirada da companhia, a não ser que seja titular de ação de espécie ou classe que
tenha liquidez e dispersão no mercado, hipótese em que não lhe é assegurado esse
direito. O sócio da companhia incorporadora não tem direito de retirada. Se houver
concentração de mercado, haverá apreciação do CADE (20% do mercado).
Cisão: é a operação pela qual a companhia transfere parcela do seu patrimônio para
uma ou mais sociedades, constituídas para esse fim ou já existentes, extinguindo-se
a companhia cindida, se houver a transferência de todo o seu patrimônio (total), ou
dividindo-se o seu capital (parcial). Na cisão com extinção da companhia cindida, as
sociedades que absorverem parcelas do seu patrimônio responderão solidariamente
pelas obrigações da companhia extinta. Já a companhia cindida que subsistir e as
que absorverem parcelas do seu patrimônio responderão solidariamente pelas
obrigações da primeira anteriores à cisão. O sócio da companhia cindida tem direito
de retirada. Tal como na fusão, a cisão poderá estar condicionada à aprovação pelo
CADE se as sociedades resultantes possuírem 20% ou mais do mercado relevante
daquele setor ou se qualquer dos participantes tiver registrado faturamento bruto
anual no último balanço equivalente ou superior a quatrocentos milhões de reais.
A seguinte assertiva foi considerada CORRETA (VUNESP-TJRS-2019): A cisão "produz efeitos
perante terceiros desde o registro das atas de assembleia que a tenham deliberado pela
sociedade cindida e pelas sociedades que tenham absorvido o patrimônio cindido, conforme o
caso, mas os titulares de créditos contra a sociedade cindida, anteriores à cisão, poderão
promover judicialmente a anulação da cisão no prazo de noventa dias contados da publicação
dos respectivos atos relativos à cisão."21
21 Vide a questão 5 deste material.
47
QUADRO SINÓTICO
Sociedades SNC SCP Ltda S/A SCA SCS
Personalidade
Jurídica
Personificada
Não
Personificada
Personificada Personificada Personificada Personificada
Responsabilidade
dos sócios por
obrigações sociais
Ilimitada
Mista:
Ostensivo:
Direta e
Ilimitada
Participante:
Subsidiária e
Limitada
Limitada, mas
solidária pela
integralização
do capital
social
Limitada, mas
solidária pela
integralização
do capital
social
Mista:
Diretor
Ilimitada
Investidor
Limitada
Mista:
Comanditado
Ilimitada
Comanditário
(comandante)
Limitada
Unidade de
participação
societária
Quotas Quotas Quotas Ações Ações Quotas
Quanto à natureza
do ato
constitutivo
Contratual Contratual Contratual Institucional Contratual Contratual
Quanto à natureza
da relação entre
os sócios
De pessoas De pessoas De pessoas
De capital ou
* de pessoas
(S/A fechadas
e familiares)
De pessoas De pessoas
Administração
Próprios
sócios
Sócio
Ostensivo
Sócios ou não
sócios
autorizados
pelo contrato
social
Compete à
Diretoria ou
ao Conselho
de
Administração,
se houver
Compete aos
diretores
escolhidos no
ato
constitutivo
Comanditados
Nome Empresarial Firma Social
Por não ter
personalidade,
não tem
nome
empresarial
Firma ou
Denominação
Denominação
Firma ou
Denominação
Firma Social
48
QUESTÕES
Questão 1
(CONSULPLAN - Concurso de Outorga de Delegações do TJMG – 2019 – Critério Remoção) A
respeito das sociedades anônimas e à luz da Lei nº 6.404/1976, analise as proposições a seguir.
I. Ações em circulação no mercado são todas as ações da companhia aberta, salvo as de propriedade
do acionista controlador, de diretores, de conselheiros de administração e as em tesouraria. II. Podem
emitir ações de fruição, que constituem títulos que podem ser atribuídos aos acionistas após suas
ações serem integralmente amortizadas. III. Pode exercer a sua atividade sob firma ou razão social, da
qual só farão parte os nomes dos sócios-diretores ou gerentes. IV. As companhias abertas e as de
capital autorizado terão, obrigatoriamente, Conselho de Administração.
Aponte a alternativa correta.
A) Apenas as proposições I e II estão corretas.
B) Apenas as proposições I e III estão corretas.
C) Apenas as proposições II e IV estão corretas.
D) Apenas as proposições I, II e IV estão corretas.
Comentário:
As sociedades anônimas, segundo o art. 3º, da Lei 6404/76, serão designadas por denominação,
acompanhada das expressões "companhia" ou "sociedade anônima", e não firma ou razão social.
De acordo com o art. 4º-A, § 2o, consideram-se ações em circulação no mercado todas as ações
do capital da companhia aberta menos as de propriedade do acionista controlador, de diretores,
de conselheiros de administração e as em tesouraria. Por sua vez, o art. 44, § 5º, estabelece que
as ações integralmente amortizadas poderão ser substituídas por ações de fruição, com as
49
restrições fixadas pelo estatuto ou pela assembleia-geral que deliberar a amortização. Lembre-se,
finalmente, que, nas companhias fechadas, o Conselho de Administração é órgão facultativo, mas
nas abertas, é órgão de caráter deliberativo obrigatório (art. 138, §2º, da Lei 6404/76).
Questão 2
(IESES - Concurso de Outorga de Delegações do TJSC – 2019 – Critério Remoção) Com base nas
normas aplicáveis às sociedades contratuais, é INCORRETO afirmar que:
A) A incapacidade superveniente é causa de exclusão de sócio, impondo-se a propositura de ação
judicial caso a maioria dos demais sócios assim delibere.
B) Não haverá mudança de nacionalidade de sociedade brasileira sem o consentimento unânime dos
sócios.
C) Admite-se aos cônjuges contratar sociedade, desde que casados pelo regime de separação absoluta
de bens, comunhão parcial e participação final nos aquestos.
D) O menor, absoluta ou relativamente incapaz, pode ser sócio, desde que não tenha poder de
administração.
Comentário:
Art. 1.030. Ressalvado o disposto no art. 1.004 e seu parágrafo único (sócio remisso), pode o
sócio ser excluído judicialmente, mediante iniciativa da maioria dos demais sócios, por falta grave
no cumprimento de suas obrigações, ou, ainda, por incapacidade superveniente.
Art. 1.127. Não haverá mudança de nacionalidade de sociedade brasileira sem o consentimento
unânime dos sócios ou acionistas.
Art. 977. Faculta-se aos cônjuges contratar sociedade, entre si ou com terceiros, desde que não
tenham casado no regime da comunhão universal de bens, ou no da separação obrigatória.
Art. 974, § 3º, sociedade que envolva sócio incapaz, desde que atendidos, de forma conjunta, os
seguintes pressupostos: I – o sócio incapaz não pode exercer a administração da sociedade; II – o
50
capital social deve ser totalmente integralizado; III – o sócio relativamente incapaz deve ser
assistido e o absolutamente incapaz deve ser representado por seus representantes legais.
(Atenção, os requisitos são cumulativos, o que torna a assertiva incompleta). Lembrando, ainda,
que o relativamente incapaz pode ser emancipado e, então, terá plena liberdade para ser sócio e
exercer poderes de administração.
Questão 3
(VUNESP - Concurso de Outorga de Delegações do TJRS – 2019 – Critério Remoção) A empresa
individual de responsabilidade limitada – EIRELI, de acordo com sua disciplina legal:
A) é empresa dotada de personalidade jurídica distinta da pessoa natural que a tenha constituído.
B) tem personalidade jurídica eoferece limitação de responsabilidade antes mesmo do seu registro.
C) é sociedade empresária personificada.
D) não possui personalidade jurídica própria, embora ofereça limitação de responsabilidade à pessoa
natural que a tenha constituído.
E) não pode ser constituída a partir da transformação de sociedade limitada.
Comentário:
Lembre-se, a EIRELI é novo ente personalizado (art. 44, VI, do CC), é dotada de personalidade
jurídica própria que não se confunde com a de seu titular. Mas a personalidade jurídica somente
se constitui com o registro (art. 45, do CC). Conforme o Enunciado nº 3, da I Jornada de Direito
Comercial da CJF: “a Empresa Individual de Responsabilidade Limitada – EIRELI não é sociedade
unipessoal, mas um novo ente, distinto da pessoa do empresário e da sociedade empresária”. A
EIRELI pode ser constituída da concentração de quotas de outra modalidade em um único sócio
(Art. 980-A, §3º, do CC).
51
Questão 4
(VUNESP - Concurso de Outorga de Delegações do TJRS – 2019 – Critério Remoção) São órgãos
obrigatórios em toda e qualquer sociedade anônima:
A) a assembleia de acionistas, o conselho de administração e a diretoria.
B) o conselho de administração, o conselho fiscal e a diretoria.
C) a assembleia de acionistas, o conselho de administração e o conselho fiscal.
D) a assembleia de acionistas e a diretoria.
E) a assembleia de acionistas, o conselho de administração, a diretoria e o conselho fiscal.
Comentário:
São órgãos das sociedades anônimas a Assembleia Geral (deliberativo), Conselho Fiscal
(fiscalizador), Diretoria (representativo) e Conselho de administração. Lembre-se, o conselho fiscal
é órgão de existência obrigatória, mas de funcionamento facultativo, isto é, não permanente (Art.
161, da Lei 6404/76). Por sua vez, nas companhias fechadas, o Conselho de Administração é
órgão facultativo, mas nas abertas, é órgão de caráter deliberativo obrigatório (art. 138, §2º, da
Lei 6404/76). Portanto, em nem todas as sociedades anônimas haverá Conselho de
Administração.
Questão 5
(VUNESP - Concurso de Outorga de Delegações do TJRS – 2019 – Critério Remoção) A cisão de
sociedade limitada
A) produz efeitos perante terceiros desde o registro das atas de assembleia que a tenham deliberado
pela sociedade cindida e pelas sociedades que tenham absorvido o patrimônio cindido, conforme o
caso, mas os titulares de créditos contra a sociedade cindida, anteriores à cisão, poderão promover
52
judicialmente a anulação da cisão no prazo de noventa dias contados da publicação dos respectivos
atos relativos à cisão.
B) não se aproveita da disciplina legal da cisão em sociedades anônimas, ainda que supletivamente.
C) embora válida entre as partes desde a sua deliberação, só produz efeitos perante terceiros após o
decurso do prazo de noventa dias assegurado à eventual oposição de credores, decurso esse que é
condição para o registro das atas de assembleia que tenham aprovado a cisão.
D) acarreta a extinção da sociedade cindida e a versão de seu patrimônio para duas ou mais
sociedades que a sucederão, não se admitindo portanto a subsistência da sociedade cindida.
E) deve resultar na emissão de novas ações ou quotas, pelas sociedades que absorverem patrimônio
cindido, em favor dos quotistas da sociedade cindida, na mesma proporção da participação por eles
detidas anteriormente à cisão, não se admitindo, portanto, a cisão desproporcional.
Comentário:
Lembre-se a cisão é a versão do patrimônio de uma sociedade para outra(s), podendo ser total,
quando a sociedade cindida será extinta, ou parcial. Haverá solidariedade entre as sociedades
resultantes da operação. Se no instrumento de cisão constar que as sociedades cindidas se
obrigarão apenas pelas dívidas a elas transferidas, o credor tem o prazo de 90 dias para se opor
à definição (Art. 1.122,, do CC: Até noventa dias após publicados os atos relativos à incorporação,
fusão ou cisão, o credor anterior, por ela prejudicado, poderá promover judicialmente a anulação
deles). Segundo Enunciado 50, da I Jornada de Direito Civil do CJF: “As disposições sobre
incorporação, fusão e cisão previstas no Código Civil não se aplicam às sociedades anônimas. As
disposições da Lei n. 6.404/76 sobre essa matéria aplicam-se, por analogia, às demais sociedades
naquilo em que o Código Civil for omisso”.
53
Questão 6
(CESPE/CEBRASPE - Concurso de Outorga de Delegações do TJDF – 2019 – Critério Remoção)
Uma sociedade simples deseja instituir uma sucursal em comarca diversa daquela onde está inscrita a
sua sede. Com referência a essa situação, de acordo com o Código Civil, assinale a opção correta.
A) A sucursal deverá ser inscrita na circunscrição do registro civil de pessoas jurídicas onde se
estabelecerá, e sua constituição será averbada no registro da respectiva sede.
B) A sucursal deverá ser inscrita na circunscrição do registro público de empresas mercantis onde se
estabelecerá, e sua constituição será averbada no registro da respectiva sede.
C) A sucursal deverá ser inscrita no registro civil de pessoas jurídicas onde ocorreu a inscrição
originária da sede.
D) A sociedade simples e a sucursal deverão estar inscritas na mesma circunscrição do registro público
de empresas mercantis.
E) A nova inscrição é desnecessária, em razão da existência de registro da sede da sociedade simples.
Comentário:
Conforme dispõe o art. 1.000, do CC: “A sociedade simples que instituir sucursal, filial ou agência
na circunscrição de outro Registro Civil das Pessoas Jurídicas, neste deverá também inscrevê-la,
com a prova da inscrição originária. Parágrafo único. Em qualquer caso, a constituição da
sucursal, filial ou agência deverá ser averbada no Registro Civil da respectiva sede.”
Questão 7
(NC-UFPR - Concurso de Outorga de Delegações do TJPR – 2019 – Critério Provimento) As
sociedades em conta de participação e as sociedades cooperativas são previstas e disciplinadas no
Código Civil brasileiro. Sobre essas espécies societárias, é correto afirmar:
54
A) Na sociedade cooperativa, assim como nos demais tipos societários, é obrigatória a limitação
quanto ao número máximo de sócios.
B) Na sociedade cooperativa, há a possibilidade de dispensa de fixação do capital social em seu ato
constitutivo.
C) Na sociedade em conta de participação, a atividade constitutiva do objeto social é exercida pelo
sócio ostensivo e pelos sócios ocultos capitalistas.
D) Os sócios, nas relações entre si ou com terceiros, somente por escrito podem provar a existência da
sociedade em conta de participação, mas os terceiros podem prová-la de qualquer modo.
E) A sociedade em conta de participação cujo ato constitutivo seja levado a registro adquire
personalidade jurídica.
Comentário:
Segundo o inciso I, do art. 1.094, do CC, a variabilidade, ou dispensa do capital social é uma das
características da sociedade cooperativa, assim como, de acordo com o inciso II, o
estabelecimento de um número mínimo necessário de sócios para compor a administração da
sociedade, sem limitação de número máximo. Tampouco, há limitação máxima de sócios em
geral.
Na sociedade em conta de participação, a atividade constitutiva do objeto social é exercida
unicamente pelo sócio ostensivo, em seu nome individual e sob sua própria e exclusiva
responsabilidade (art. 991, do CC); sua constituição independe de qualquer formalidade e pode
provar-se por todos os meios de direito (art. 992, do CC); e o contrato social produz efeito
somente entre os sócios, a eventual inscrição de seu instrumento em qualquer registro não
confere personalidade jurídica à sociedade (art. 993, do CC).
Questão 8
(NC-UFPR - Concurso de Outorga de Delegações do TJPR – 2019 – Critério Provimento) Sobre as
sociedades limitadas, é correto afirmar:
55
A) Na omissão do contrato, o sóciopode ceder sua quota, total ou parcialmente, a quem seja sócio,
independentemente de audiência dos outros, ou a estranho, se não houver oposição de titulares de
mais de três quartos do capital social.
B) A sociedade limitada é administrada por uma ou mais pessoas designadas no contrato social ou em
ato separado, sendo que a administração atribuída no contrato a todos os sócios não se estende de
pleno direito aos que posteriormente adquiram essa qualidade.
C) É assegurado aos sócios majoritários, que representarem pelo menos um quinto do capital social, o
direito de eleger, separadamente, um dos membros do conselho fiscal e o respectivo suplente.
D) A contribuição para a integralização do capital social poderá ser em dinheiro, bens ou em prestação
de serviços.
E) Na sociedade limitada, a responsabilidade de cada sócio é restrita ao valor de suas quotas, mas
todos respondem subsidiariamente pela integralização do capital social.
Comentário:
Segundo o art. 1.060, do CC: “A sociedade limitada é administrada por uma ou mais pessoas
designadas no contrato social ou em ato separado. Parágrafo único. A administração atribuída no
contrato a todos os sócios não se estende de pleno direito aos que posteriormente adquiram
essa qualidade.”
As demais assertivas estão em desacordo com o expressamente previsto pelo CC:
Art. 1.057. Na omissão do contrato, o sócio pode ceder sua quota, total ou parcialmente, a quem
seja sócio, independentemente de audiência dos outros, ou a estranho, se não houver oposição
de titulares de mais de um quarto do capital social.
Art. 1066, §2º. É assegurado aos sócios minoritários, que representarem pelo menos um quinto
do capital social, o direito de eleger, separadamente, um dos membros do conselho fiscal e o
respectivo suplente.
Art. 1055, §2º. É vedada contribuição que consista em prestação de serviços.
Art. 1.052. Na sociedade limitada, a responsabilidade de cada sócio é restrita ao valor de suas
quotas, mas todos respondem solidariamente pela integralização do capital social.
56
Questão 9
(CONSULPLAN - Concurso de Outorga de Delegações do TJMG – 2018 – Critério Remoção) A
sociedade limitada não é obrigada a adotar denominação integrada com a palavra final “limitada” ou
“LTDA”, contudo a ausência desta denominação final acarretará
A) a responsabilidade solidária e ilimitada dos administradores que assim empregarem a firma ou a
denominação da sociedade.
B) a responsabilidade solidária e ilimitada do administrador principal que assim empregar a firma ou a
denominação da sociedade.
C) a responsabilidade solidária e limitada dos administradores que assim empregarem a firma ou a
denominação da sociedade.
D) a responsabilidade subjetiva e ilimitada dos administradores que assim empregarem a firma ou a
denominação da sociedade.
Comentário:
A questão exigia do candidato o conhecimento do expressamente previsto no §3º, do art. 1.158,
do CC: “A omissão da palavra "limitada" determina a responsabilidade solidária e ilimitada dos
administradores que assim empregarem a firma ou a denominação da sociedade”.
Questão 10
(CONSULPLAN - Concurso de Outorga de Delegações do TJMG – 2018 – Critério Provimento) Na
sociedade limitada, os poderes do sócio, conferidos por ato separado, são
A) revogáveis, a qualquer tempo, mediante deliberação dos sócios tomada pelos votos
correspondentes a, no mínimo, dois terços do capital social, salvo se o contrato exigir quórum mais
elevado.
57
B) revogáveis, a qualquer tempo, mediante deliberação dos sócios tomada pela maioria de votos dos
presentes, salvo se o contrato exigir quórum mais elevado.
C) irrevogáveis, salvo justa causa, reconhecida judicialmente, a pedido de qualquer dos sócios.
D) revogáveis, a qualquer tempo, mediante deliberação dos sócios tomada pelos votos
correspondentes a mais da metade do capital social, salvo se o contrato exigir quórum mais elevado.
Comentário:
Quanto aos poderes de administração, conforme art. 1.019, do CC, se forem previstos no contrato
social, em favor de um sócio, são irrevogáveis (salvo justa causa, reconhecida judicialmente, a
pedido de qualquer dos sócios). Se forem em favor de não sócio ou previstos em ato separado,
poderão ser revogados (parágrafo único).
Quanto ao quórum, a questão vale ser relembrada porque, com a Lei 13.792/2019, que alterou o
§1º do art. 1.063, do CC, passou a ser indiferente que o administrador tenha sido nomeado no
contrato ou em ato separado, para fins de estabelecimento do quorum necessário de destituição
- art. 1.063. §1º: Tratando-se de sócio nomeado administrador no contrato, sua destituição
somente se opera pela aprovação de titulares de quotas correspondentes a mais da metade do
capital social, salvo disposição contratual diversa. Por sua vez, o art. 1.076: Ressalvado o disposto
no art. 1.061 e no § 1o do art. 1.063, as deliberações dos sócios serão tomadas: II - pelos votos
correspondentes a mais de metade do capital social, nos casos previstos nos incisos II
(designação dos administradores, quando feita em ato separado), III (a destituição dos
administradores), IV e VIII do art. 1.071.
58
GABARITO COMENTADO
Questão 1 - D
Questão 2 - D
Questão 3 - A
Questão 4 - D
Questão 5 - A
Questão 6 - A
Questão 7 - B
Questão 8 - B
Questão 9 - A
Questão 10 - D
59
QUESTÃO DESAFIO
A determinação de que a constituição da companhia depende da realização, como
entrada, de 10% (dez por cento), no mínimo, do preço de emissão das ações subscritas
em dinheiro é absoluta?
Máximo de 5 linhas
60
GABARITO DA QUESTÃO DESAFIO
A determinação em questão não é absoluta. O requisito citado não se aplica às
companhias para as quais a lei exige realização inicial de parte maior do capital social,
conforme art. 80, parágrafo único, da Lei 6.404 de 1976.
Você deve ter abordado necessariamente os seguintes itens em sua resposta:
Não é absoluta
O art. 80 da Lei 6.404/76 traz requisitos preliminares para a constituição da companhia, quais
sejam: I - subscrição, pelo menos por 2 (duas) pessoas, de todas as ações em que se divide o
capital social fixado no estatuto; II - realização, como entrada, de 10% (dez por cento), no
mínimo, do preço de emissão das ações subscritas em dinheiro; III - depósito, no Banco do
Brasil S/A., ou em outro estabelecimento bancário autorizado pela Comissão de Valores
Mobiliários, da parte do capital realizado em dinheiro.
O autor André Santa Cruz comenta cada requisito (CRUZ, André Santa. Direito Empresarial. 8.
ed. São Paulo: Método, 2018. p. 394-394.): “No que tange à determinação do inciso I, vê-se,
pois, que também se exige a pluralidade de sócios para a constituição de uma sociedade
anônima, não sendo permitida a criação de sociedade anônima unipessoal, com exceção da
chamada sociedade subsidiária integral, disciplinada pelo art. 251 da LSA.”; “Por outro lado, no
que se refere à exigência do inciso II, de realização mínima de 10% do preço de emissão das
ações subscritas em dinheiro, há casos especiais em que se exige percentual maior, conforme
previsão do parágrafo único do dispositivo em análise, segundo o qual “o disposto no número
II não se aplica às companhias para as quais a lei exige realização inicial de parte maior do
capital social”.”; “Quanto à previsão normativa do inciso III, relativa ao depósito da parcela do
capital social integralizado em dinheiro, determina o art. 81 da LSA que “o depósito referido
no número III do artigo 80 deverá ser feito pelo fundador, no prazo de 5 (cinco) dias contados
do recebimento das quantias, em nome do subscritor e a favor da sociedade em organização,
que só poderá levantá-lo após haver adquirido personalidade jurídica”.
Art. 80, parágrafo único, da Lei 6.404/76
61
É o parágrafo único do art. 80 da Lei 6.404/76 que demonstra quea regra do inciso II não é
absoluta, já que admite a possibilidade da regra não se aplicar às companhias para as quais a
lei exige realização inicial de parte maior do capital social.
Ainda o autor André Santa Cruz dá um exemplo do caso (CRUZ, André Santa. Direito
Empresarial. 8. ed. São Paulo: Método, 2018. p. 394-394.): “Mencione-se, ainda, quanto às
instituições financeiras, o art. 27, caput, da Lei 4.595/1964: “Na subscrição do capital inicial e
na de seus aumentos em moeda corrente, será exigida no ato a realização de, pelo menos
50% (cinquenta por cento) do montante subscrito.”.
62
JURISPRUDÊNCIA
STJ. REsp 1653421/MG, Rel. Ministro RICARDO VILLAS BÔAS CUEVA, TERCEIRA TURMA, julgado em
10/10/2017, DJe 13/11/2017
RECURSO ESPECIAL. DIREITO SOCIETÁRIO. AÇÃO DE DISSOLUÇÃO PARCIAL DE SOCIEDADE. NEGATIVA DE
PRESTAÇÃO JURISDICIONAL. NÃO OCORRÊNCIA. CERCEAMENTO DE DEFESA. INEXISTÊNCIA. SÓCIO
MAJORITÁRIO. PRÁTICA DE FALTA GRAVE. EXCLUSÃO. ART. 1.030 DO CÓDIGO CIVIL DE 2002. SÓCIOS
MINORITÁRIOS. INICIATIVA. POSSIBILIDADE. 1. Controvérsia limitada a definir se é possível a exclusão judicial
de sócio majoritário de sociedade limitada por falta grave no cumprimento de suas obrigações, mediante
iniciativa da maioria dos demais sócios. 2. Nos termos do Enunciado nº 216/CJF, aprovado na III Jornada de
Direito Civil, o quórum de deliberação previsto no art. 1.030 do Código Civil de 2002 é de maioria
absoluta do capital representado pelas quotas dos demais sócios. 3. Na apuração da maioria absoluta
do capital social para fins de exclusão judicial de sócio de sociedade limitada, consideram-se apenas as
quotas dos demais sócios, excluídas aquelas pertencentes ao sócio que se pretende excluir, não
incidindo a condicionante prevista no art. 1.085 do Código Civil de 2002, somente aplicável na hipótese
de exclusão extrajudicial de sócio por deliberação da maioria representativa de mais da metade do
capital social, mediante alteração do contrato social. 4. Recurso especial não provido.
(STJ. REsp 1642118/SP, Rel. Ministro RICARDO VILLAS BÔAS CUEVA, Rel. p/ Acórdão Ministro
MARCO AURÉLIO BELLIZZE, TERCEIRA TURMA, julgado em 12/09/2017, DJe 20/02/2018)
RECURSO ESPECIAL. DIREITO EMPRESARIAL. AÇÃO REGRESSIVA. CONDENAÇÃO AO PAGAMENTO DE
DIFERENÇA DE AÇÕES. DEBÊNTURES CONVERSÍVEIS EM AÇÃO PREFERENCIAL. AUMENTO DE CAPITAL
SOCIAL. CISÃO PARCIAL. DÍVIDAS PRÓPRIAS DE NATUREZA SOCIETÁRIA. RECURSO ESPECIAL PROVIDO. 1.
Recurso especial em que se discute a possibilidade de ação de regresso para ressarcimento de condenação
suportada exclusivamente por empresa cindidida contra a empresa que absorveu parcela de seu patrimônio
líquido. 2. Para admissão da ação de regresso não se discute a responsabilidade solidária por dívidas, mas tão
somente a titularidade da obrigação na condição de devedor. 3. A transmissão das obrigações da empresa
cindida é, em regra, objeto de livre contratação entre as empresas, desde que satisfeitas as condições
legais estabelecidas de forma distinta para as obrigações cíveis e aquelas de natureza societária, interna
corporis.
4. Inexistindo anuência de todos os acionistas, inclusive aqueles sem direito a voto (art. 229, § 5º, da LSA)
quanto à atribuição de proporção societária diferenciada, a obrigação de emissão das ações decorrentes de
opção de debenturistas é obrigação eminentemente societária, a qual somente seria cumprida mediante a
63
emissão de ações correspondentes pelas empresas cindendas. 5. In casu, não houve a referida deliberação, de
modo que a empresa cindenda é devedora da obrigação, que foi convertida em perdas e danos e
suportada integralmente pela cindida, sendo, portanto, devida a recomposição proporcional ao
patrimônio líquido por ela absorvido. 6. Recurso especial provido.
REsp 1393724/PR, Rel. Ministro LUIS FELIPE SALOMÃO, Rel. p/ Acórdão Ministro PAULO DE TARSO
SANSEVERINO, SEGUNDA SEÇÃO, julgado em 28/10/2015, DJe 04/12/2015
RECURSO ESPECIAL. CIVIL E EMPRESARIAL. JUNTA COMERCIAL. EXIGÊNCIA DE CERTIDÃO NEGATIVA
TRIBUTÁRIA. ANTINOMIA JURÍDICA DE SEGUNDO GRAU. CONFLITO ENTRE O CRITÉRIO CRONOLÓGICO E O
DA ESPECIALIDADE. HIPÓTESE DE PREVALÊNCIA DO CRITÉRIO CRONOLÓGICO. PREVALÊNCIA DA LIVRE
INICIATIVA. 1. Exigência, por Junta Comercial, de certidões negativas tributárias como condição para o
arquivamento de ato de transformação de sociedade simples em sociedade empresária. 2. Antinomia
jurídica entre a Lei 8.934/94, ao regular o registro público de empresas mercantis e atividades afins, e
leis tributárias específicas anteriores. 3. Possibilidade de aplicação do critério cronológico ou do critério
da especialidade, caracterizando um conflito qualificado como "antinomia de segundo grau". 4.
Prevalência excepcional do critério cronológico. Precedente da Terceira Turma. 5. Derrogação tácita dos
dispositivos de leis tributárias anteriores que condicionavam o ato de arquivamento na Junta Comercial
à apresentação de certidão negativa de débitos. 6. Interpretação condizente com o princípio
constitucional da livre iniciativa. 7. RECURSO ESPECIAL PROVIDO, EM PARTE.
REsp 1729554/SP, Rel. Ministro LUIS FELIPE SALOMÃO, QUARTA TURMA, julgado em 08/05/2018,
DJe 06/06/2018
RECURSO ESPECIAL. DESCONSIDERAÇÃO DA PERSONALIDADE JURÍDICA.
CPC/2015. PROCEDIMENTO PARA DECLARAÇÃO. REQUISITOS PARA A INSTAURAÇÃO. OBSERVÂNCIA DAS
REGRAS DE DIREITO MATERIAL. DESCONSIDERAÇÃO COM BASE NO ART. 50 DO CC/2002. ABUSO DA
PERSONALIDADE JURÍDICA. DESVIO DE FINALIDADE. CONFUSÃO PATRIMONIAL. INSOLVÊNCIA DO DEVEDOR.
DESNECESSIDADE DE SUA COMPROVAÇÃO. 1. A desconsideração da personalidade jurídica não visa à sua
anulação, mas somente objetiva desconsiderar, no caso concreto, dentro de seus limites, a pessoa
jurídica, em relação às pessoas ou bens que atrás dela se escondem, com a declaração de sua ineficácia
para determinados efeitos, prosseguindo, todavia, incólume para seus outros fins legítimos. 2. O
CPC/2015 inovou no assunto prevendo e regulamentando procedimento próprio para a operacionalização do
instituto de inquestionável relevância social e instrumental, que colabora com a recuperação de crédito,
combate à fraude, fortalecendo a segurança do mercado, em razão do acréscimo de garantias aos credores,
apresentando como modalidade de intervenção de terceiros (arts. 133 a 137) 3. Nos termos do novo
regramento, o pedido de desconsideração não inaugura ação autônoma, mas se instaura
incidentalmente, podendo ter início nas fases de conhecimento, cumprimento de sentença e executiva,
64
opção, inclusive, há muito admitida pela jurisprudência, tendo a normatização empreendida pelo novo
diploma o mérito de revestir de segurança jurídica a questão. 4. Os pressupostos da desconsideração da
personalidade jurídica continuam a ser estabelecidos por normas de direito material, cuidando o
diploma processual tão somente da disciplina do procedimento. Assim, os requisitos da desconsideração
variarão de acordo com a natureza da causa, seguindo-se, entretanto, em todos os casos, o rito
procedimental proposto pelo diploma processual. 6. Nas causas em que a relação jurídica subjacente ao
processo for cível-empresarial, a desconsideração da personalidade da pessoa jurídica será regulada pelo art.
50 do Código Civil, nos casos de abuso da personalidade jurídica, caracterizado pelo desvio de finalidade, ou
pela confusão patrimonial. 7. A inexistência ou não localização de bens da pessoa jurídica não é condição
para a instauração do procedimento que objetiva a desconsideração, por não ser sequer requisito para
aquela declaração, já que imprescindível a demonstração específica da prática objetiva de desvio de
finalidade ou de confusão patrimonial. 8. Recurso especial provido.
65
LEGISLAÇÃO COMPILADA
Neste capítulo, faz-se necessário ler:
CC/02: art. 44; 50; 981-985;investidor, caso não participe da condução dos negócios.
Em se tratando do empresário individual, trata-se de pessoa natural que exerce
empresa, tendo responsabilidade direta e ilimitada (todo o seu patrimônio responde por todas
as obrigações, tenha ou não relação com o exercício da atividade). A doutrina entende que o
empresário individual deve responder primeiro com os bens afetados à exploração da empresa
e, apenas subsidiariamente, com os bens não afetados. Nesse sentido:
Enunciado 5 da I Jornada de Direito Comercial: Quanto às obrigações decorrentes de
sua atividade, o empresário individual tipificado no art. 966 do Código Civil responderá
primeiramente com os bens vinculados à exploração de sua atividade econômica, nos
termos do art. 1.024 do Código Civil.
Consigne-se que o fato de ser pessoa natural não impede que o empresário individual
seja inserido no Cadastro Nacional das Pessoas Jurídicas - CNPJ para fins tributários. Assim,
por mais estranho que pareça, um empresário individual terá um número de CNPJ para poder
identificar os negócios praticados que se relacionam ao exercício da atividade empresária.
1.4.2 Caracterização
Conforme mencionado anteriormente, o Código Civil Brasileiro de 2002 recepcionou a
Teoria da Empresa e, por isso, adotou o conceito jurídico indeterminado de empresário em
seu artigo 966.
No entanto, a precisa interpretação desse dispositivo legal requer análise em diferentes
etapas, técnica hermenêutica denominada de “Exegese Quadripartite”8.
Essa técnica hermenêutica se concentra nos seguintes pontos relevantes, sintetizado
pelo fluxograma abaixo em quatro estágios interpretativos:
8 PARENTONI, Leonardo Netto et alii. Análise quadripartite do artigo 966 do Código Civil de 2002. Jornal da
Faculdade de Direito da UFMG (O Sino do Samuel). Belo Horizonte, Ano X, n. 78, p. 3, out. 2004.
20
Uma vez visualizadas tais etapas, cabe detalhá-las da seguinte forma:
1ª parte:
O caput dispõe que, em regra, as atividades industriais, comerciais e de prestação de
serviços são empresariais. A contrario sensu, valendo-se da ideia de exclusão, não estando
presentes os elementos da atividade empresária (atividade econômica, exercida de forma
profissional e organizada e direcionada à produção ou à circulação de bens ou serviços), a
atividade exercida será civil.
2ª parte:
São exceções aquelas decorrentes de “profissão intelectual, de natureza científica,
literária ou artística”, previstas no parágrafo único, ainda que com o concurso de auxiliares.
3ª parte:
A parte final do parágrafo único considera empresariais atividades que, embora
decorrentes de profissão intelectual, contenham elemento de empresa, situação que se
configura quando a atividade intelectiva for absorvida pela organização dos fatores de
Art. 966,
caput
• Regra (caput):
• Atividade empresarial (indústria, comércio, serviços)
Art. 966,
p.u., 1a
• Exceção (p. u., 1ª parte):
• Atividade intelectual científica, artística e literária
Art. 966,
p.u., 2a
• Limites da exceção ou “exceção da exceção! (p.u., parte final):
• "Elemento de Empresa”
Situações
Especiais
• Tratamento legal diferenciado (outros dispositivos legais)
• Ex. (art. 1.089, CC/02): cooperativas (sempre civis) e S/As (sempre empresárias)
21
produção, sendo apenas mais um dos elementos da empresa, ou seja, constitui apenas uma
das etapas do processo de produção ou circulação de mercadorias ou serviços.
Sendo assim, apenas o exercício das atividades exclusivamente intelectuais está excluído
do conceito previsto no caput do art. 966. Isso porque a presença do “elemento de empresa”
redireciona a esse preceito a caracterização da atividade, determinando-a como empresária.
Em outras palavras, “elemento de empresa” é conceito legal indeterminado que, uma
vez verificado, remete a atividade intelectual à regra do caput, categorizando-a como atividade
empresária.
Importante considerar o texto dos enunciados 193, 194 e 195 das Jornadas de Direito
Civil do CJF, que, respectivamente estabelecem: “o exercício das atividades de natureza
exclusivamente intelectual está excluído do conceito de empresa”; “os profissionais liberais não
são considerados empresários, salvo se a organização dos fatores de produção for mais
importante que a atividade pessoal desenvolvida”; e “a expressão ‘elemento de empresa’
demanda interpretação econômica, devendo ser analisada sob a égide da absorção da
atividade intelectual, de natureza científica, literária ou artística, como um dos fatores da
organização empresarial”.
4ª parte:
Por disposição legal específica, algumas atividades, ainda que insertas nas hipóteses do
caput ou do parágrafo único, devem sujeitar-se a regime jurídico especial.
São exemplos:
a) cooperativa (art. 4º e 18, § 6º, da Lei nº 5.764/1971);
b) sociedade anônima (art. 1.089, CC/02).
22
O primeira jamais poderá praticar atividades empresariais por expressa disposição da
legislação especial enquanto a segunda sempre praticará atividades empresarias, qualquer que
seja seu objeto social. Apesar de registradas na Junta Comercial (art. 18 da Lei nº 5.764/71), as
Cooperativas são sempre sociedades simples, exercendo atividade civil por força de lei (art.
982 do CC/02).
Sendo assim, não importa se uma cooperativa de produtores rurais pratica a mesma
atividade que uma indústria dedicada ao agronegócio, porque ela sempre será considerada
não empresária. Por outro lado, uma sociedade anônima sempre será considerada empresária,
ainda que tenha como fim social atividade relacionada com a prática de atos filantrópicos.
É importante salientar essa questão do registro das cooperativas, pois traz implicações
diretas na atividade dos Oficiais de Registro Civil das Pessoas Jurídicas e, diante disso, é muito
cobrada nos concursos públicos. Como dito, apesar das cooperativas terem natureza de
sociedade simples, elas são registradas nas Juntas Comerciais. Portanto, bastante atenção!
Neste sentido, convém destacar a previsão das NSCGJ-MG, em seu art. 410. "É vedado ao
oficial de registro civil das pessoas jurídicas: (...) VII - o registro ou a averbação de alteração de
atos constitutivos de sociedade cooperativa."9
Infere-se, então, que a natureza intelectual, seja ela artística, científica ou literária,
geralmente, impede o enquadramento como empresário daquele que a pratica. No entanto,
Fábio Ulhoa Coelho invoca exceção que confirma a regra:
Há uma exceção, prevista no mesmo dispositivo legal, em que o profissional intelectual
se enquadra no conceito de empresário. Trata-se da hipótese em que o exercício da
profissão constitui elemento de empresa. Para compreender o conceito legal, convém
partir de um exemplo. Imagine o médico pediatra recém-formado, atendendo seus
9 Vide a questão 2 deste material.
23
primeiros clientes no consultório. Já contrata pelo menos uma secretária, mas se
encontra na condição geral dos profissionais intelectuais: não é empresário, mesmo que
conte com o auxílio de colaboradores. Nesta fase, os pais buscam seus serviços em
razão, basicamente, de sua competência como médico. Imagine, porém, que, passando o
tempo, este profissional amplie seu consultório, contratando, além de mais pessoal de
apoio (secretária, atendente, copeira etc.), também enfermeiros e outros médicos. Não
chama mais o local de atendimento de consultório, mas de clínica. Nesta fase de
transição, os clientes ainda procuram aqueles serviços de medicina pediátrica, em razão
da confiança que depositam no trabalho daquele médico, titular da clínica. Mas a
clientela se amplia e já há, entre os pacientes, quem nunca foi atendido diretamente
pelo titular, nem o conhece. Numa fase seguinte, cresce mais ainda997-1.141;
Lei 6.404/76: art. 44; 50; 981-985; 997-1.141;
66
BIBLIOGRAFIA
COELHO, Fábio Ulhoa. Curso de direito comercial, volume 1: direito de empresa. São Paulo:
Editora Revista dos Tribunais, 2020.
FAZZIO JUNIOR, WALDO. Manual de direito comercial. São Paulo: Atlas, 2020.
MAMEDE, Gladston. Manual de direito empresarial. São Paulo: Atlas, 2020.
PENANTE JR, Francisco. Resumos para concursos, vol. 37, Direito Empresarial, 2ª edição.
São Paulo: Editora JusPodivm, 2020.
CARTÓRIO
Direito Empresarial
Capítulo 4
1
SUMÁRIO
DIREITO EMPRESARIAL, Capítulo 4 ............................................................................................................................ 2
8. Da Recuperação Judicial, Extrajudicial e da Falência ........................................................................... 2
8.1 Introdução .................................................................................................................................................... 2
8.2 Disposições comuns ................................................................................................................................... 8
8.2.1 Administrador Judicial ................................................................................................................... 8
8.2.2 Assembleia Geral de Credores ................................................................................................... 10
8.2.3 Comitê de Credores ...................................................................................................................... 11
8.3 Recuperação Judicial ................................................................................................................................ 12
8.4 Recuperação Judicial Especial ................................................................................................................ 20
8.5 Recuperação Extrajudicial ....................................................................................................................... 22
8.6 Falência ....................................................................................................................................................... 24
QUADRO SINÓTICO ...................................................................................................................................................... 53
QUESTÕES COMENTADAS ........................................................................................................................................ 54
GABARITO .......................................................................................................................................................................... 68
JURISPRUDÊNCIA ............................................................................................................................................................. 71
LEGISLAÇÃO COMPILADA ......................................................................................................................................... 74
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS.............................................................................................................................. 75
2
DIREITO EMPRESARIAL
Capítulo 4
Neste capítulo, estudaremos a teoria geral do direito falimentar, que consubstancia a
análise da disciplina das saídas da crise econômico-financeira dos empresários, quais sejam a
recuperação judicial/extrajudicial e o processo de falência. Pelo que se observa das Questões
Comentadas trazidas ao final, geralmente, são cobradas previsões legais (Lei 11.101/2005) nos
concursos de outorga de delegações de notas e registros, contudo, são recorrentes decisões
do Superior Tribunal de Justiça com relação ao tema. Portanto, é importante estar bem
atualizado.
4. Da Recuperação Judicial, Extrajudicial e da Falência
4.1 Introdução
Quanto à questão da origem etimológica, falir vem da palavra latina fallere que significa
enganar, faltar com a palavra.
Falência é um processo de execução coletiva, no qual todo o patrimônio de um
empresário declarado falido (pessoa física ou jurídica) é arrecadado, visando o pagamento da
universalidade de credores. É um processo judicial complexo que compreende a arrecadação
dos bens, sua administração e conservação, bem como a verificação e o acertamento dos
créditos, para posterior liquidação dos bens e rateio entre os credores. Compreende também a
punição de atos criminosos praticados pelo devedor falido.
Para os devedores insolventes, portanto, estabelece o arcabouço normativo de uma
execução especial, na qual todos os credores deverão ser reunidos em um único processo,
para a execução conjunta do devedor. Em vez de se submeter a uma execução individual, pois,
o devedor insolvente deverá se submeter a uma execução concursal, em obediência ao
princípio da par condicio creditorum, segundo o qual deve ser conferido tratamento
isonômico aos credores.
3
Imaginemos que um credor entra com ação de falência contra o devedor. Se o juiz
decretar a falência, todos os bens do falido serão arrecadados. Depois de arrecadados os bens
serão vendidos. Com essa venda se consegue dinheiro. Mas esse dinheiro será utilizado para
pagamento de todos credores, e não somente aquele que ajuizou a ação. O juiz, ao declarar a
falência, declara o estado de insolvência do devedor.
Para que se efetue o pagamento dos credores, é preciso observar uma ordem de
classificação e aquele que ajuizou a ação pode estar no final da fila e não conseguir receber
nada. O pagamento é de todos os credores, não só daquele que ajuizou a ação, por isso que
a falência é chamada de execução coletiva.
A partir do momento em que o devedor não possui mais meios de superar a crise de
sua atividade e suas dívidas se tornam incontornáveis, instaura-se um processo de execução
coletiva, visando garantir os credores com o patrimônio do devedor. Se o devedor exerce
atividade não empresarial, este procedimento é a insolvência civil; se empresário, teremos a
falência.
Cuidado! As insolvência civil permanece regulada pelo derrogado Código de Processo
Civil de 1973, por força de seu artigo 1.052, que conferiu ultratividade ao regime jurídico da
insolvência civil por ele disciplinado. Segundo tal preceito, “até a edição de lei específica, as
execuções contra devedor insolvente, em curso ou que venham a ser propostas, permanecem
reguladas pelo Livro II, Título IV, da Lei no 5.869, de 11 de janeiro de 1973.”
Note-se que, a falência não decorre da insolvência econômica (ativo insuficiente
para solver o passivo), mas da insolvência jurídica, que se caracteriza nas hipóteses do art.
94, I, II e III.
Como dito, o princípio do par condicio creditorum preconiza que os credores do
devedor que não possuem condições de saldar integralmente todas as suas obrigações devem
receber do direito um tratamento parificado, dando-se aos que integram uma mesma
4
categoria iguais chances de efetivação de seus créditos. Por isto se instaura uma execução
coletiva.
Não há como deixar de reconhecer, pois, o caráter híbrido ou complexo da falência,
diante da confluência de normas processuais e materiais no arcabouço jurídico-falimentar. Em
razão disso, a Lei 11.101/2005 é considerada como um microssistema jurídico.
Em relação à vigência intertemporal da Lei nº 11.101/05, já decidiu o STJ a possível
ocorrência de três situações diferentes (REsp 1.105.176/MG):
• Em falência ajuizada e decretada antes da vigência da nova lei, aplica-se o antigo
Decreto-Lei 7.661/45, em decorrência da interpretação pura e simples do art. 192,
caput;
• Em falência ajuizada e decretada após a vigência da nova lei, esta será integralmente
aplicada em virtude do entendimento a contrário sensu do art. 192, caput;
• Em falência ajuizada antes da lei nova, mas decretadaaquela unidade de
serviços. Não se chama mais clínica, e sim hospital pediátrico. Entre os muitos
funcionários, além dos médicos, enfermeiros e atendentes, há contador, advogado,
nutricionista, administrador hospitalar, seguranças, motoristas e outros. Ninguém mais
procura os serviços ali oferecidos em razão do trabalho pessoal do médico que os
organiza. Sua individualidade se perdeu na organização empresarial. Neste momento,
aquele profissional intelectual tornou-se elemento de empresa. Mesmo que continue
clinicando, sua maior contribuição para a prestação dos serviços naquele hospital
pediátrico é a de organizador dos fatores de produção. Foge, então, da condição geral
dos profissionais intelectuais e deve ser considerado, juridicamente, empresário.10
Outro exemplo seria o do cartunista Maurício Ricardo, que, até pouco tempo produzia
charges eletrônicas para a Rede Globo de Televisão. No início de sua carreira, as produzia de
modo basicamente “artesanal”, e, mesmo tendo colaboradores, não poderia ser considerado
empresário, pois, em sua organização profissional, preponderava o caráter artístico de sua
atividade intelectual. Contudo, ao contratar diversos colaboradores e produzir conteúdos para
diversos clientes (ex. sítio eletrônico da UOL, programa Big Brother da Globo), teve o caráter
artístico de seu trabalho “dissolvido” em meio a diversos outros componentes da atividade
empresarial. Daí porque, nessa última situação, a produção de charges tornou-se tão somente
um dos elementos de atividade empresária de muito maior vulto.
Um último exemplo seria o de uma sociedade que presta serviços publicitários, que
consistem na consultoria e elaboração de estratégias de marketing, estudos de mercado,
10 COELHO, Fábio Ulhoa. Manual de direito comercial : direito de empresa.23. ed. São Paulo: Saraiva, 2011. pp.
36-40.
24
criação de logotipos e slogans, não é empresária, porque esses serviços são de natureza
exclusivamente intelectual. Por outro lado, caso a mesma sociedade, além de prestar os
serviços mencionados, comercialize cartazes, folders, materiais publicitários e espaços em
outdoors, será empresária, por associar elementos de empresa a seus serviços de natureza
intelectual.
Além de denotar a abrangência da teoria da empresa, a expressão em análise também
nos permite concluir que só restará caracterizada a empresa quando a produção ou circulação
de bens ou serviços destinar-se ao mercado, e não ao consumo próprio.
1.1.1 Empresário Rural
O empresário rural tem a faculdade de se registrar ou não perante o Registro
Público de Empresas Mercantis. Se não for registrado, não é considerado empresário,
exercendo atividade civil. Se optar pelo registro na Junta Comercial, equiparar-se-á a
empresário para todos os fins (art. 971 do CC/02). Este registro terá natureza jurídica
constitutiva, sendo exceção à regra de que o registro do empresário na Junta Comercial tem
natureza meramente declaratória (uma vez que, via de regra, considera-se empresário em
razão da atividade exercida, e não em decorrência de registro). O empresário rural só pode
pedir recuperação e falir se for registrado, já que são institutos restritos aos exercentes de
empresa.
1.1.2 Empresário Casado
Duas situações que envolvem o casamento assumem grande relevância para o Direito
Empresarial, são elas:
1. A da possibilidade de cônjuges contratarem sociedade entre si ou com
terceiros; e
2. A do empresário casado e os reflexos na outorga conjugal para
determinados atos.
25
O art. 977 do CC/02 faculta aos cônjuges contratarem sociedade entre si ou com
terceiros, desde que não estejam casados sob o regime de comunhão universal de bens ou no
de separação obrigatória. Essa regra é relevante para o estudo de sociedades empresárias.
Estabelece ser possível que marido e mulher figurem como sócios na mesma sociedade, desde
que não sejam casados na comunhão universal ou separação obrigatória de bens. Há dispensa
de outorga conjugal para alienar ou gravar de ônus reais os imóveis da empresa.
No que tange ao instituto do empresário individual, importante analisar o art. 978 do
CC/02, que estabelece que “o empresário casado pode, sem necessidade de outorga conjugal,
qualquer que seja o regime de bens, alienar os imóveis que integrem o patrimônio da
empresa ou gravá-los de ônus real”. Essa regra abrange tão somente o empresário individual,
já que, em se tratando de sociedade empresária, a titular da empresa é a própria sociedade. 11
Ressalta-se que o Tabelião de Notas que for lavrar escritura pública de bem imóvel
pertencente a empresário individual, não poderá exigir a outorga conjugal para a prática do
ato, em se tratando de pessoa casada. No mesmo sentido, o Registrador de Imóveis não
poderá devolver título que não traga outorga conjugal nestes casos, pois, como visto esta é
dispensável nestes casos.
No entanto, por indicar condição não prevista na lei, causa certa polêmica o seguinte
enunciado da II Jornada de Direito Comercial da CJF:
Enunciado 58 da I Jornada de Direito Comercial: O empresário individual casado é o
destinatário da norma do art. 978 do CCB e não depende da outorga conjugal para
alienar ou gravar de ônus real o imóvel utilizado no exercício da empresa, desde que
exista prévia averbação de autorização conjugal à conferência do imóvel ao
patrimônio empresarial no cartório de registro de imóveis, com a consequente averbação
do ato à margem de sua inscrição no registro público de empresas mercantis.
11 Vide a questão 4 deste material.
26
A corrente majoritária entende que o art. 978 é especial em relação ao art. 1.647, I, do
CC/02, podendo o empresário individual casado, sem necessidade de outorga conjugal, em
qualquer que seja o regime de bens, alienar os imóveis que integrem o patrimônio da
empresa ou gravá-los de ônus real. Uma segunda corrente entende que deveria ser feita uma
averbação no Cartório de Registro de Imóveis e na Junta Comercial afetando o bem ao
exercício da atividade, autorizando a sua alienação ou que seja posto ônus real.
Importante consignar que os pactos e declarações antenupciais do empresário serão
arquivados e averbados no Registro Civil e no Registro Público de Empresas Mercantis (art.
979 do CC/02) e que eventual decretação ou homologação da separação judicial do
empresário ou reconciliação não poderá ser oposta a terceiro antes de arquivado e averbado
no Registro Público de Empresas Mercantis (art. 980 do CC/02).
1.2 Dos requisitos de regularidade
1.2.1 Da Inscrição
A inscrição do empresário antes do início de sua atividade é obrigatória (art. 967 do
CC/02). Para a maioria da doutrina, conforme será melhor especificado em sede de análise dos
Registro Públicos, esse ato tem natureza declaratória. O registro das sociedades empresárias,
por sua vez, assumirá natureza constitutiva.
A inscrição deve ser feita mediante requerimento que contenha: o seu nome,
nacionalidade, domicílio, estado civil e, se casado, o regime de bens; a firma, com a respectiva
assinatura autógrafa que poderá ser substituída pela assinatura autenticada com certificação
digital ou meio equivalente que comprove a sua autenticidade; o capital; o objeto e a sede da
empresa, conforme art. 968 do CC/02.
A inscrição será tomada por termo no livro próprio do Registro Público de Empresas
Mercantis, e obedecerá a número de ordem contínuo para todos os empresários inscritos. À
margem da inscrição, e com as mesmas formalidades, serão averbadas quaisquer modificações
nela ocorrentes.
27
1.2.2 Da capacidade
O art. 972 do CC/02 exige que para o exercício da atividade de empresário a pessoa
natural esteja em pleno gozo da capacidade civil (os que não forem incapazes) e não sejalegalmente impedido (falido não reabilitado, magistrados, membros do MP, militares da ativa,
etc.). Tem-se, portanto, os requisitos para que a pessoa física exerça atividade econômica
como empresário individual: a capacidade civil e a ausência de impedimentos legais.
No que tange à capacidade civil, a regra é que o incapaz não pode ser empresário
individual, ressalvadas duas situações: a da incapacidade superveniente e do sujeito
incapaz que herda a atividade empresarial.
A seguinte assertiva foi considerada INCORRETA em concurso anterior de outorga de
delegações: "O absolutamente incapaz não pode ser empresário e nem sócio de sociedade
empresarial."12
Assim, há idade mínima para iniciar a atividade como empresário individual (16 anos,
sendo o exercício da empresa causa de emancipação nos termos do art. 5º, parágrafo único,
inciso V, do Código Civil). Não há, contudo, idade mínima para dar continuidade a uma
empresa anteriormente iniciada por seus pais (que faleceram) ou pelo autor da herança,
devendo o menor ser representado ou assistido (princípio da preservação da empresa) (art.
974 do CC/02). No mesmo sentido, pode o empresário continuar a empresa por ele exercida
enquanto capaz no caso de incapacidade superveniente.
Em tais hipóteses, será necessária autorização judicial, após exame das circunstâncias e
dos riscos da empresa, bem como da conveniência em continuá-la, podendo a autorização ser
12 Vide a questão 3 deste material.
28
revogada pelo juiz, ouvidos os pais, tutores ou representantes legais do menor ou do
interdito, sem prejuízo dos direitos adquiridos por terceiros (art. 974, §1º, do CC/02).
A prova da emancipação e da autorização do incapaz e a de eventual revogação desta
serão INSCRITAS ou AVERBADAS NO REGISTRO PÚBLICO DE EMPRESAS MERCANTIS. O
uso da nova firma caberá, conforme o caso, ao gerente; ou ao representante do incapaz; ou a
este, quando puder ser autorizado (art. 976 do CC/02)
Como forma de proteção ao incapaz, não ficam sujeitos ao resultado da empresa os
bens que ele já possuía, ao tempo da sucessão ou da interdição, desde que estranhos ao
acervo da empresa, devendo tais fatos constar do alvará que conceder a autorização (art. 974,
§2º, do CC/02).
Não se exige idade mínima para ser sócio ou titular de EIRELI (por analogia às
sociedades limitadas), mas este sócio menor deverá integralizar todo o capital, não poderá ser
administrador e deve estar assistido ou representado.
IDADE MÍNIMA
EMPRESÁRIO INDIVIDUAL Dezesseis anos para iniciar (causa de emancipação).
Não há idade mínima para continuar. Deve estar
representado ou assistido
SÓCIO TITULAR DE EIRELI Não há idade mínima. O menor deve estar
representado ou assistido, não pode ser
administrador, todo o capital da sociedade deve ser
integralizado. Se o menor for emancipado, tem plena
capacidade de ser sócio.
No que tange aos sujeitos legalmente impedidos de exercer empresa, trata-se de
situação em que os sujeitos exercem função ou possuem condição incompatível com a
atividade empresarial. Para conhecer esses impedimentos, é necessário conhecer algumas
legislações específicas.
29
Certas pessoas, como membros do MP e magistrados, não podem ser empresários
individuais, mas podem ser sócias de sociedade empresária, desde que não exerçam
administração. Se exercerem, apesar da proibição, serão responsabilizados pelas obrigações.
No mesmo sentido, as pessoas impedidas de ser empresários podem ser titulares de EIRELI,
desde que não a administrem. A pessoa legalmente impedida de exercer atividade própria de
empresário, se a exercer, responderá pelas obrigações contraídas (art. 973 do CC/02).
Consigne-se que, acaso incapaz o sujeito, e seu o representante ou assistente for
pessoa que, por disposição de lei, não puder exercer atividade de empresário, deve ser
nomeado, com a aprovação do juiz, um ou mais gerentes. Por exemplo, caso um menor de 16
anos herde a empresa antes exercida por seus pais e o seu tutor seja impedido de exercer
empresa (por ser ele um Promotor de Justiça, por exemplo), ele deverá, com aprovação do
juiz, nomear gerente. Do mesmo modo, será nomeado gerente em todos os casos em que o
juiz entender ser conveniente. Contudo, a aprovação do juiz não exime o representante ou
assistente do menor ou do interdito da responsabilidade pelos atos dos gerentes nomeados
(art. 975 do CC/02).
A seguinte assertiva foi considerada CORRETA no concurso de outorga de delegações
do Estado do Rio Grande do Sul, no ano de 2019 (VUNESP): " Se o representante ou assistente
do incapaz for pessoa que, por disposição de lei, não puder exercer atividade de empresário,
nomeará, com a aprovação do juiz, um ou mais gerentes, cuja aprovação não exime o
representante ou assistente do menor ou do interdito da responsabilidade pelos atos dos
gerentes nomeados."13
13 Vide a questão 10 deste material.
30
1.2.3 Ausência de impedimento legal
Há alguns casos previstos expressamente em lei que proíbem a pessoa de exercer
atividade empresarial.
É preciso atentar para o fato de que a proibição é para o exercício de empresa, não
sendo vedado, pois, que alguns impedidos sejam sócios de sociedades empresárias, uma vez
que, nesse caso, quem exerce a atividade empresarial é a própria pessoa jurídica, e não seus
sócios. Em suma: os impedimentos se dirigem aos empresários individuais, e não aos sócios
de sociedades empresárias.
Assim, são impedidos de exercer atividade de empresa como empresários individuais:
Membros do Ministério Público, da Magistratura, Servidores militares da ativa
das Forças Armadas e das Polícias Militares para exercer o comércio individual
ou particular de sociedade comercial, salvo se acionista ou quotista, obstada a
função de administrador;
Empresários falidos, enquanto não forem reabilitados (Lei de Falências, art.
195);
Leiloeiros (o art. 36, do Decreto nº 21.891/32 proíbe os leiloeiros de exercerem
a empresa direta ou indiretamente, bem como constituir sociedade empresária,
sob pena de destituição);
Corretores (art. 20, da Lei 6.530/78);
Despachantes aduaneiros (art. 10, inciso I, do Decreto nº 646/92);
Cônsules, nos seus distritos, salvo os não-remunerados (Decreto nº 4.868/82,
art. 11 e Decreto 3.529/89, art. 82);
Médicos, para o exercício simultâneo da farmácia, drogaria ou laboratórios
farmacêuticos e os farmacêuticos, para o exercício simultâneo da medicina
(Decreto nº 19.606/31 c/c Decreto 20.877/31 e Lei 5.991/73). Segundo o STJ,
31
para ter farmácia, o médico teria que pedir desligamento do Conselho de
Medicina (REsp 796.560/AL);
Pessoas condenadas a pena que vede, ainda que temporariamente o acesso a
cargos públicos, ou por crime falimentar, de prevaricação, peita ou suborno,
concussão, peculato ou contra a economia popular, contra o sistema financeiro
nacional, contra as normas de defesa da concorrência, contra as relações de
consumo, a fé pública ou a propriedade, enquanto perdurarem os efeitos da
condenação (art. 1.011, §1º, CC);
Servidores públicos civis da ativa (Lei 1.711/52) e servidores federais (Lei
8112/90, art. 117, X, inclusive Ministros de Estado e ocupantes de cargos
públicos comissionados em geral). Aqui é importante observar que o
funcionário público pode participar como sócio cotista, comanditário ou
acionista, sendo obstada a função de administrador;
Estrangeiros sem visto permanente (art. 98 e 99 da Lei nº 6.815/80 – Estatuto
do Estrangeiro) estão impedidos de serem empresários individuais, mas não
estarão impedidos de participar de sociedade empresária no país;
Devedores do INSS (art. 95, §2º, da Lei nº 8.212/91).
Destaque-se que o Código Civil estabelece, em seu art. 973,que “a pessoa legalmente
impedida de exercer atividade própria de empresário, se a exercer, responderá pelas
obrigações contraídas”. Portanto, as obrigações contraídas por um “empresário” impedido não
são nulas. Ao contrário, elas terão plena validade em relação a terceiros de boa-fé que com
ele contratarem.
1.3 Da Empresa Individual de Responsabilidade Limitada
(EIRELI)
A EIRELI não é uma sociedade, mas sim pessoa jurídica de direito privado diversa (art.
44, VI, do CC/02). No Direito Brasileiro, as únicas sociedades unipessoais existentes são a
32
Sociedade Unipessoal de Advogado e a Subsidiária Integral da Sociedade Anônima. A EIRELI
não é sociedade.
A EIRELI será constituída por uma única pessoa, física ou jurídica (Instrução Normativa
nº 38/2017 do Departamento de Registro Empresarial e Integração - DREI), titular da
totalidade do capital social, devidamente integralizado, que não será inferior a 100 (cem)
vezes o maior salário-mínimo vigente no País. A pessoa natural que constituir EIRELI,
contudo, somente poderá figurar em uma única empresa dessa modalidade.
O nome empresarial deverá ser formado pela inclusão da expressão "EIRELI" após a
firma ou a denominação social.
A empresa individual de responsabilidade limitada também poderá resultar da
concentração das quotas de outra modalidade societária em um único sócio,
independentemente das razões que motivaram tal concentração.14 Em regra, uma sociedade se
dissolve quando ocorrer a falta de pluralidade de sócios, não reconstituída no prazo de 180
dias. Não ocorrerá a dissolução, contudo, se o sócio remanescente requerer a transformação
para empresário individual ou para EIRELI.
A seguinte assertiva foi considerada INCORRETA no concurso de outorga de delegações
do Estado de Minas Gerais (CONSULPLAN-2019): "A falta de pluralidade dos sócios ensejará a
dissolução da sociedade, no prazo de cento e oitenta dias, desde que haja previsão contratual quanto
ao prazo." Como ressaltado, independe de previsão contratual, a dissolução da sociedade, pois decorre
da lei (art. 1.033, IV, do CC).15
Poderá ser atribuída à empresa individual de responsabilidade limitada constituída para
a prestação de serviços de qualquer natureza a remuneração decorrente da cessão de direitos
patrimoniais de autor ou de imagem, nome, marca ou voz de que seja detentor o titular da
pessoa jurídica, vinculados à atividade profissional.
14 Vide a questão 8 deste material.
15 Vide a questão 1 deste material.
33
Aplicam-se à empresa individual de responsabilidade limitada, no que couber, as regras
previstas para as sociedades limitadas.
A limitação da responsabilidade daquele que exerce atividade econômica por meio de
EIRELI foi reafirmada pela Lei da Liberdade Econômica (Lei 13.874/2019), publicada em
30/04/2019, que incluiu o §7º ao art. 980-A do CC/02, em determinação de que “somente o
patrimônio social da empresa responderá pelas dívidas da empresa individual de
responsabilidade limitada, hipótese em que não se confundirá, em qualquer situação, com o
patrimônio do titular que a constitui, ressalvados os casos de fraude”. Importante consignar
que dispositivo de redação semelhante foi vetado anteriormente (§4º do art. 980-A do CC/02),
sob o argumento de que se aplicariam as regras das sociedades limitadas, inclusive quanto à
separação do patrimônio.
EIRELI titularizada por incapaz
No dia 8 de março de 2019, a Instrução Normativa 55 do Departamento Nacional de
Registro Empresarial e Integração - DREI foi publicada no Diário Oficial da União - DOU. Essa
instrução altera o manual de registro da Empresa Individual de Responsabilidade Limitada -
EIRELI para permitir que incapaz seja titular dessa modalidade de pessoa jurídica, desde que
representado/assistido e sem exercer a administração, que deve ficar a cargo de terceiro.
Perceba que essa norma tudo tem a ver com o §3º do art. 974 do CC/02, pois estabelece as
mesmas exigências impostas para que o incapaz participe de sociedade. Portanto, equipara o
titular da EIRELI a um sócio meramente investidor, muito embora, na EIRELI, ele não ocupe
jamais essa posição, mas, tão somente, de proprietário/titular.
Pessoa Jurídica como titular de EIRELI
34
O novo manual instituído pelo Departamento de Registro Empresarial e Integração
(DREI), por meio da publicação da Instrução Normativa n. 38, em 3 de março de 2017, prevê,
expressamente, em seu item 1.2.59, a possibilidade de pessoa jurídica, nacional ou estrangeira,
ser titular de EIRELI. O novo Manual de Registro de Empresa Individual de Responsabilidade
Limitada passou a vigorar em todo o território brasileiro a partir do dia 2 de maio de 2017,
respeitados os 60 dias de vacatio legis.
1.4 Microempreendedor Individual, Microempresa e Empresa
de Pequeno Porte
Não só o empresário e o sócio podem ser classificados, mas também a empresa. Essa,
para efeitos tributários, pode ser categorizada de acordo com o fluxo financeiro que gera.
Tem-se, então, as seguintes qualificações:
Microempresa: para as sociedades empresárias (exceto a anônima) que
percebam receita bruta anual de R$ 360.000,00 (trezentos e sessenta mil reais)
Empresa de Pequeno Porte: para as sociedades empresárias (exceto a
anônima) que percebam receita bruta anual de R$ 4.800.000,00 (quatro
milhões e oitocentos mil reais) (conforme alteração determinada pela LC
155/2016 sobre a LC 123/2006).
Microempreendedor Individual: é uma espécie particular de microempresa na
qual pode se enquadrar, tão somente, o empresário individual que não exceda
a receita bruta anual de R$ 81.000,00 (oitenta e um mil reais), cf. § 1º do art.
18-A da LC 123/06.
1.5 Estabelecimento empresarial
Também chamado de estabelecimento comercial, fundo de comércio ou azienda
(artigos 1.142 ao 1.149 do CC). Estabelecimento é todo complexo de bens organizado para
exercício da empresa, pelo empresário ou por sociedade empresária, sendo imprescindível
35
para o exercício da atividade empresarial. Só fazem parte do estabelecimento os bens que
estão diretamente relacionados à atividade empresarial.
Assim sendo, o estabelecimento não se confunde com a empresa, uma vez que esta,
conforme visto, corresponde a uma atividade. Da mesma forma, o estabelecimento não se
confunde com o empresário, já que este é uma pessoa física ou jurídica que explora essa
atividade empresarial e é o titular dos direitos e obrigações dela decorrentes.
Mas, embora estabelecimento, empresa e empresário sejam noções que não se
confundem, são conceitos que se inter-relacionam, podendo-se dizer, pois, que o
estabelecimento, como complexo de bens usado pelo empresário no exercício de sua
atividade econômica, representa a projeção patrimonial da empresa ou o organismo técnico-
econômico mediante o qual o empresário atua.
Bens corpóreos ou materiais: móveis, utensílios, mercadoria, maquinários, o
próprio imóvel, veículos e todos os demais bens que o empresário utiliza para
o bom desenvolvimento e organização de sua atividade econômica. Obs.: Bem
imóvel não é o estabelecimento, mas sim elemento integrante do
estabelecimento. Isso porque estabelecimento é diferente de patrimônio;
Bens incorpóreos ou imateriais: compreendem, principalmente, os bens
industriais (registro de desenho industrial, marca registrada, patente de
invenção, de modelo de utilidade, nome empresarial e título de
estabelecimento) e o ponto (local ao qual a atividade econômica é explorada).
O enunciado 7 da I Jornada de Direito Comercial apresenta interessante exemplo de
bem incorpóreo que compõe o estabelecimento empresarial.
Enunciado 7, CJF: O nome de domínio integra o estabelecimento empresarial como
bem incorpóreo para todos os fins de direito.
36
Estabelecimentonão é sujeito de direito, mas objeto de direito. Sujeito de direito é o
empresário individual ou a sociedade empresária.
É objeto unitário de direito (art. 1.143, CC). Por isso o empresário pode vender, arrendar
ou dar em usufruto o estabelecimento, pois trata-se simplesmente de um objeto. Pode o
estabelecimento ser objeto unitário de direitos e de negócios jurídicos, translativos ou
constitutivos, que sejam compatíveis com a sua natureza.
Art. 1.143. Pode o estabelecimento ser objeto unitário de direitos e de negócios
jurídicos, translativos ou constitutivos, que sejam compatíveis com a sua natureza.16
O estabelecimento comercial tem natureza jurídica de universalidade de fato, sendo
composto de bens, direitos e interesses, materiais e imateriais, necessários, úteis e
efetivamente aplicados ao exercício da empresa.
A reunião de bens do estabelecimento decorre da vontade do empresário ou da
sociedade empresária, e não da vontade da lei. Logo, trata-se de uma universalidade de fato.
O estabelecimento como universalidade de fato constitui um conjunto de bens materiais e
imateriais que serve ao exercício de atividades econômicas.
Universalidade de direito é aquele conjunto de bens que são reunidos por vontade da
lei. Exemplo: herança e massa falida. Não se trata o estabelecimento empresarial, portanto, de
unidade complexa de bens destinados a um fim determinado em lei (universitas juris), mas de
um conjunto de bens com finalidade vinculada do seu dono, que é o empresário (universitas
rerum ou facti).
A doutrina brasileira majoritária, seguindo mais uma vez as ideias suscitadas pela
doutrina italiana, sempre considerou o estabelecimento empresarial uma universalidade de
fato, uma vez que os elementos que o compõem formam uma coisa unitária exclusivamente
em razão da destinação que o empresário lhes dá, e não em virtude de disposição legal.
16 Vide a questão 7 deste material.
37
Ao se afirmar que o estabelecimento empresarial não é sujeito de direito, o que se
pretende afastar é a noção de personalização desse complexo de bens, presente em algumas
proposições da segunda metade do século XIX, principalmente na Alemanha, que procuravam
criar um conceito legal capaz de justificar a relativa autonomia entre a empresa e o
empresário. Falava-se na tese da empresa em si.
A tentativa de personalização do estabelecimento, contudo, não logrou êxito, inclusive
no direito brasileiro. Segundo o disposto na legislação brasileira, é um equívoco considerar o
estabelecimento empresarial uma pessoa jurídica. Sujeito de direito é a sociedade empresária,
que, reunindo os bens necessários ou úteis ao desenvolvimento da empresa, organiza um
complexo de características dinâmicas próprias. A ela, e não ao estabelecimento empresarial,
imputam-se as obrigações e asseguram-se os direitos relacionados com a empresa.
No âmbito do direito privado, cujos princípios gerais, à luz do art. 109 do CTN, são
informadores para a definição dos institutos de direito tributário, a filial é uma espécie de
estabelecimento empresarial, fazendo parte do acervo patrimonial de uma única pessoa
jurídica, partilhando dos mesmos sócios, contrato social e firma ou denominação da matriz.
Nessa condição, consiste, conforme doutrina majoritária, em uma universalidade de fato, não
ostentando personalidade jurídica própria, não sendo sujeito de direitos, tampouco uma
pessoa distinta da sociedade empresária. Cuida-se de um instrumento de que se utiliza o
empresário ou sócio para exercer suas atividades (REsp 1.355.812/RS).
Imaginemos a seguinte situação prática: no acervo patrimonial de determinada padaria
há dois imóveis. O primeiro é sede da sociedade empresária, enquanto o segundo, localizado
em outra unidade da federação, encontra-se alugado. Os valores recebidos a título de aluguéis
desse segundo imóvel são aplicados no ativo patrimonial da referida sociedade empresária.
Nessa situação, é correto afirmar que o imóvel alugado não faz parte do
estabelecimento empresarial da mencionada pessoa jurídica.
Ora, aquele imóvel faz parte do patrimônio da padaria, mas não integra o
estabelecimento. A padaria possui um patrimônio e dentro dele há um estabelecimento. Isso
porque só faz parte do estabelecimento os bens que estão diretamente relacionados à
atividade empresarial.
Assim, estabelecimento é diferente de patrimônio. O estabelecimento integra o
patrimônio, mas não significa que o estabelecimento é o patrimônio.
38
PATRIMÔNIO
=
Estabelecimento + Outros bens não relacionados diretamente a atividade empresarial
O estabelecimento empresarial não compreende os débitos da empresa. Os débitos
fazem parte do patrimônio da empresa e não do estabelecimento comercial. Sendo o
estabelecimento uma universalidade de fato, ou seja, um complexo de bens organizado pelo
empresário, ele não compreende os contratos, os créditos e as dívidas, por representarem
matéria de direito.
Eis mais uma distinção que pode ser feita, portanto, entre estabelecimento e
patrimônio, uma vez que este, ao contrário daquele, compreende até mesmo as relações
jurídicas – direitos e obrigações – do seu titular.
1.5.1 Trespasse
Trespasse é o nome que se dá para o contrato de compra e venda de
estabelecimento empresarial. O trespasse não se confunde com a cessão de cotas.
Na cessão de cotas, não existe transferência da titularidade do estabelecimento, mas,
tão somente, a transferência das cotas sociais. É alteração apenas do quadro societário.
Na transferência da participação societária, o estabelecimento empresarial não muda de
titular. Tanto antes como após a transação, o estabelecimento pertencia e continua a
pertencer à sociedade empresária, à mesma pessoa jurídica, que apenas tem a sua
composição de sócios alterada. Na cessão de cotas ou alienação de controle, o objeto da
venda é a participação societária, ou seja, as cotas ou as ações, conforme a espécie societária.
Trespasse implica a transferência do conjunto de bens organizados pelo alienante ao
adquirente, de modo que este possa prosseguir com a exploração da atividade empresarial.
39
TRESPASSE CESSÃO DE COTAS
Provoca a transferência da titularidade do
estabelecimento.
Não ocorre a transferência da titularidade
estabelecimento, mas sim a modificação do
quadro social (alteração dos sócios).
Para que o trespasse produza seus efeitos entre o alienante e o adquirente, não é
necessário nenhum tipo de publicidade. Porém, para que o contrato de trespasse produza
efeitos perante terceiros, é preciso que haja averbação na junta comercial, bem como
publicação na imprensa oficial.
Art. 1.144. O contrato que tenha por objeto a alienação, o usufruto ou arrendamento do
estabelecimento, só produzirá efeitos quanto a terceiros depois de averbado à margem
da inscrição do empresário, ou da sociedade empresária, no Registro Público de
Empresas Mercantis, e de publicado na imprensa oficial.
O art. 1.144 CC estabelece que para o contrato de trespasse produzir efeitos perante
terceiros, será preciso:
Averbação do contrato na Junta Comercial;
Publicação na imprensa oficial.
Os prazos para a averbação ou publicação são indeterminados, cabendo ao interesse
das partes do contrato a publicidade imediata, levando em consideração a desoneração de
responsabilidades e efetividade da execução de direitos ou créditos.
40
No concurso, promovido no Estado do Rio Grande do Sul foi trazido um caso
hipotético: A sociedade empresária ABC Manufaturas Ltda. possui diferentes divisões de
negócios no Brasil. Decidindo descontinuar determinada divisão para concentrar-se em outras
consideradas mais rentáveis, aliena a planta fabril correspondente, assim como direitos, bens e
obrigações atrelados à respectiva divisão. Como resultado