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Introdução aos
Estudos Linguísticos
Prof. Dr.ª Ana Amélia Furtado de Oliveira
1ªEdição
Gestão da Educação a Distância
Todos os direitos desta edição fi-
cam reservados ao Unis - MG. 
 
É proibida a duplicação ou repro-
dução deste volume (ou parte do 
mesmo), sob qualquer meio, sem 
autorização expressa da instituição.
Cidade Universitária - Bloco C
Avenida Alzira Barra Gazzola, 650, 
Bairro Aeroporto. Varginha /MG 
ead.unis.edu.br 
0800 283 5665
Autoria
Currículo Lattes:
Prof.ª Dra.
Ana Amélia Furtado de Oliveira
 Mestre e doutora em Estudos Linguísticos na área “Análise de Línguas de Especialidade” pela 
UNESP de São José do Rio Preto. Formada em Letras com Bacharelado em Tradução (português-
francês) pela mesma instituição. Atua como professora universitária no Centro Universitário do Sul 
de Minas desde 2011. 
Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/3635809359841101
5
OLIVEIRA, Ana Amélia Furtado de. Guia de Estudo - Introdução aos Estudos 
Linguísticos.
Varginha: GEaD-UNIS/MG, 2017.
55 p.
 1. Linguística. 2. Abordagens. 3. Ensino de língua materna
Unis EaD
Cidade Universitária – Bloco C
Avenida Alzira Barra Gazzola, 650, 
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0800 283 5665
Caro aluno,
 Nosso guia servirá de base para iniciarmos a investigação de aspectos fundamentais da Lin-
guística, a começar pela história de sua constituição. A investigação linguística é fundamental para 
o professor e a orientação sobre essa área do conhecimento é de extrema valia mesmo para o 
cidadão comum, o qual muitas vezes desconhece absolutamente o termo. Veremos que as teorias 
advindas dos estudos linguísticos trazem muitas contribuições para a mudança de nossa visão sobre 
a língua e, consequentemente, transformam o processo de ensino-aprendizagem da língua.
 Na primeira unidade, abordaremos a história da constituição da Linguística. Já na segunda e 
terceiras unidades, falaremos sobre o considerado pai da Linguística Moderna, Ferdinand de Saussu-
re. Na quarta unidade, conheceremos as diversas correntes e/ou tendências dos estudos linguísticos 
e, por fim, na quinta unidade, nosso foco será a relação entre linguística e ensino.
 Desejo sinceramente que esse guia sirva como um pontapé inicial para a construção do 
conhecimento efetivo sobre os assuntos abordados. O resultado final dependerá fortemente da 
motivação e da pesquisa e reflexão realizadas por vocês.
Grande abraço!!!
 Ana Amélia Furtado de Oliveira
Ementa
Orientações
Palavras-chave
 Constituição histórica do(s) objeto(s) de estudo da Linguística. História das 
ideias linguísticas. Introdução aos caminhos da linguística: abordagens teóricas. Con-
cepção de língua e ensino da gramática.
 Caro aluno, lembre-se de que é fundamental que leia o guia com atenção. 
Além disso, assista às videoaulas e faça as pesquisas e atividades propostas. Acompa-
nhe todas as tarefas do AVA (Ambiente Virtual de Aprendizagem), que é a nossa sala 
de aula, onde faremos diversas intervenções, discussões e atividades avaliativas.
 Linguística; abordagens; ensino de língua materna
Unidade I 11
1. Introdução 11
1.1 Os primórdios 11
1.2 Outros pensadores importantes para os estudos linguísticos: precursores13
Unidade II 19
2.1 O nascimento das ideias de Saussure 20
Unidade III 27
3.1 Dicotomias saussureanas 27
3.2 Limitações da teoria de Saussure 30
3.3 A Linguística no Brasil 31
Unidade IV 35
4. Introdução 35
4.1. Gerativismo 35
4.2 Sociolinguística 38
4.3 Análise do Discurso 40 
Unidade V 43
5.1 O que ensinar? 43
5.2 A contribuição da teoria linguística 46
I Unidade I -
História das
Ideias Linguísticas
Objetivos da Unidade
Objetivo Geral da Unidade
- Compreender as ideias teóricas que favoreceram o surgimento 
da Linguística e as especificidades desse campo de estudos.
Objetivo Específico da Unidade
- Compreender a Linguística como campo científico de estudos
11
1. Introdução
 Caro aluno, em algum momento de sua vida, você já refletiu sobre algum aspecto da lin-
guagem? Por que determinada palavra é assim? Quem foi que escolheu esse conjunto de sons para 
representar um conceito? Qual a relação entre a “coisa” e a palavra? A linguagem é a representação 
de nosso pensamento?
 A linguagem é algo tão fantástico que despertou (e ainda desperta!) curiosidade. Nesta uni-
dade, vamos fazer um percurso histórico sobre os primeiros pensadores e filósofos da linguagem. 
1.1 Os primórdios
 O homem sempre se interessou pelo estudo da linguagem. Ao lado dos estudos filosóficos, 
na Grécia, desenvolveram-se os estudos retóricos e gramaticais. A gramática poderia ser considera-
da como elemento de uma das primeiras revoluções tecnológicas da história do homem. A gramá-
tica constitui-se na história como uma instrumentação das línguas que, enquanto arte (no sentido 
latino) ou técnica (no sentido grego), apresenta-se como um modo de ensinar a ler e a escrever 
corretamente. Ou seja, a gramática instala, como central, no domínio dos estudos da linguagem, a 
qualidade da correção. Qualidade que toma várias feições no decorrer da história e permanece, 
ainda hoje, como um modo de regular as línguas como línguas dos Estados Nacionais, com todas 
as conseqüências que isso traz. Por outro lado, a retórica apresenta-se como o estudo das técnicas 
de convencimento dos ouvintes por aquele que fala, o orador. Nesse caso, o que interessa é como 
dizer para levar o ouvinte à conclusão projetada. Estamos diante de duas posições distintas: de um 
lado uma norma de correção (gramática), de outro as regras de como proceder para convencer, 
para alcançar o ouvinte (retórica). De um lado o “valor” da língua, de outro a adequação da relação 
orador/auditório.
 Ainda na Antiguidade, quatro séculos antes da era Cristã, podemos retornar à Índia, onde o 
interesse religioso levou a estudos bastante rigorosos dos aspectos fonológicos do sânscrito. Esses 
estudos tinham a finalidade de estabelecer de modo perfeito que som deveria ser produzido nos 
cânticos sagrados, para que eles tivessem validade sagrada. Esses estudos levam a uma rigorosa des-
crição dos sons, que podemos encontrar na gramática de Panini, num certo sentido um precursor 
remoto de estudos estruturais do século XX. Nesse caso, o que está em jogo é a correção da des-
crição de uma qualidade fônica, está em jogo a descrição da forma da língua, nela mesma.
 De acordo com Eni Orlandi (1993), na história da constituição da Linguística há dois mo-
mentos-chave: o século XVII, que é o século das gramáticas gerais, e o século XIX, com suas gra-
máticas comparadas. No primeiro momento, os estudos da linguagem são fortemente marcados 
pelo racionalismo. Desse modo, os pensadores da época se preocupavam em estudar a linguagem 
como representação do pensamento e sendo assim, obedeceriam a princípios racionais, lógicos que, 
segundo esses estudiosos, regeriam todas as línguas. O alvo desses estudiosos é, assim, a língua ideal 
– língua universal. 
Unidade I -
História das
Ideias Linguísticas
Unidade I
12
 Há uma gramática, baseada nesses princípios, que é considerada como modelo pelos lingüis-
tas da época: a chamada Gramática de Port Royal (1660). Segundo Lyons, “o objetivo da Gramática 
de Port-Royal era demonstrar que a estrutura da língua é um produto da razão e que as diferentes 
línguas são apenas variedades de um sistema lógico e racional mais geral” (LYONS, 1979, p. 17-18)
 Já o segundo momento, no início do século XIX, é bem diferente do primeiro, pois muda o 
foco de interesse, que passa a ser não mais a “língua ideal”, mas as mudanças que a língua sofre: é 
a época dos estudos histórico-comparativos. Esse estudos são motivados por um projeto de poder 
reconstituir o passado linguístico das línguas europeias e asiáticas. 
 A questão principal aqui são as relações genealógicas entre as línguas, e o objeto do linguista 
são as formas no seu processo de mudança. Toma-se uma forma para saber como ela era antes, 
busca-se reconstruir por comparação entre as línguasse abrir 
a todos os gêneros em que se pode concretizar o uso da língua. (BAGNO, 2002)
 De acordo com vários estudiosos, é perceptível que a variação lingüística esteve ausente na 
proposta pedagógica do ensino de Língua Portuguesa durante muito tempo. Porém, a partir dos 
anos 1950 ou 1960, em decorrência da democratização do ensino, o fenômeno da variação lingüís-
tica não pôde mais ser ignorado, afinal, as variantes lingüísticas “invadem” a escola, a qual, em um 
primeiro momento, passa a considerar que os novos alunos falavam português de forma deficiente 
e trabalha para aproximar seus falares da norma padrão.
 Segundo Soares (1996), a instituição, que antes tinha como público alunos pertencentes às 
classes média e alta urbanas, passou a receber também a clientela da classe baixa proveniente da 
periferia urbana e zona rural, cuja variedade lingüística não condizia com o discurso escolar. A escola, 
então, entendeu as diferenças como deficiências, e assim, na tentativa de aproximar a fala do aluno 
da norma culta, ignora o uso lingüístico e “aplica” o que dita a gramática normativa. 
 Com o passar do tempo, fica cada vez mais claro que a variação lingüística não pode ficar 
à margem do ensino de línguas. Nesse sentido, é preciso concordar com Lemle (1978) que afirma 
que a heterogeneidade lingüística em um país como o Brasil é um fato natural e inevitável, pois faz 
parte da natureza da linguagem e é resultado da diversidade de grupos sociais e da relação que tais 
grupos mantêm com as normas lingüísticas.
 Assim, por muito tempo, acreditou-se que o ensino de Língua Portuguesa deveria ser pauta-
do no trabalho com a gramática normativa, considerando como válida somente a variedade padrão. 
Geraldi (apud Bagno, 2003) faz considerações interessantes sobre o ensino tradicional da língua 
materna:
as classes gramaticais lhe são apresentadas (ao aluno) a partir de definições sem que os 
critérios de classificação sejam explicitados e sem que os objetivos da própria classificação 
sejam considerados. Aprende nomes de classes, definições, faz exercícios, mas não conse-
gue entender a razão de tais classificações. Obviamente a teoria gramatical tradicional que 
embasa os estudos escolares não tem critérios muito precisos – ora os critérios são mor-
fológicos, ora semânticos, ora sintáticos. Além disso, toda classificação responde a algum 
objetivo teórico (em língua não há classes naturais e aquelas que construímos respondem 
a alguma necessidade do estudo teórico que as produziu), e este objetivo nunca é explici-
tado no ensino da gramática (a classificação parece ter um valor em si).
 Ora, toda ciência precisa de teorias, mas ao contrário do que muitos pensam, a ciência não 
é uma atividade neutra e imparcial, não é uma descrição fiel. Olhar que lançamos sobre uma coisa 
afeta profundamente a compreensão que temos da mesma coisa. Assim, no que diz respeito ao 
ensino de gramática, é impossível fugir da pergunta: qual o objetivo teórico de nossa classificação dos 
fenômenos da língua? Que concepção de língua está implícita na teoria que vamos apresentar aos 
alunos?
45
Autor: Quino. Disponível em Acesso em 10/07/2017
O que você pensa a respeito dos quadrinhos acima, caro aluno? A Mafalda 
está tendo problemas com o processo de ensino-aprendizagem de língua? 
Por quê?
 Nas tirinhas acima, o autor Quino, através de sua personagem Mafalda, aborda com bom 
humor a questão da variação lingüística, dos usos da língua e do ensino de língua. Podemos perce-
ber que quando o professor ignora as contribuições da ciência lingüística, a aprendizagem de língua 
torna-se, frequentemente, uma atividade repetitiva e sem significado.
 Assim, o método tradicional parece não ter sido eficaz, afinal, são ensinados os mesmos 
conceitos e normas no ensino Fundamental e no Médio, mas os alunos saem da escola alegando 
que não sabem português e que esta é uma língua “difícil”. Sob a visão de tradicional língua, então, o 
46
ensino fica voltado somente para a metalinguagem, com definições, conceitos, categorizações e aná-
lises quase sempre descontextualizadas. É um ensino de reconhecimento de normas, classificações 
e estruturas que não propicia a reflexão, nem garante o conhecimento e ampliação do horizonte 
discursivo dos alunos acerca das práticas de linguagem.
 Aposto, caro aluno, que você já ouviu alguém dizer que português é muito difícil!!! Mas como 
pode ser difícil uma língua que falamos praticamente desde que nascemos?
Aposto, caro aluno, que você já ouviu alguém dizer que português é muito 
difícil!!! Mas como pode ser difícil uma língua que falamos praticamente desde 
que nascemos?
 Os Parâmetros Curriculares de Língua Portuguesa (BRASIL, 2005) já apresentam uma vi-
são mais abrangente de língua. Segundo o documento, o ensino gramatical desarticulado dos usos 
não se justifica e o trabalho com a gramática não deve se pautar no mito de que existe uma forma 
correta de falar. Em decorrência dessa visão, não é viável que a escola se concentre em apenas um 
objeto de ensino: a chamada norma padrão, cuja gramática dita as regras, fazendo julgamentos de 
valor, indicando o “certo” e o “errado”.
 Não podemos desconsiderar, contudo, que é papel da escola propiciar ao aluno o acesso à 
variante culta, relacionada a um determinado grau de domínio da leitura e da escrita. Nessa perspec-
tiva, compete à escola enfocar prioritariamente, mas não exclusivamente, a variante padrão, já que 
seu domínio constitui um fator de ascensão social e de acesso aos bens de uma dada cultura. Mas 
não podemos desconsiderar que a língua é viva, haja vista que quem faz uso dela são os sujeitos em 
constante processo de transformação e que, assim como há diferenciação de classes e diversidade 
cultural na sociedade, também há a diversidade lingüística, já que as diferenças culturais, sociais, re-
gionais e tantas outras refletem na língua (e são refletidas por ela), instalando se uma multiplicidade 
de linguagens. 
5.2 A contribuição da teoria linguística
 O processo de ensino-aprendizagem da língua precisa passar por muitas transformações e, 
apesar de já haver mudanças na mentalidade acadêmica, os professores ainda se confundem muito 
na hora de atuar, pois geralmente conviveram com uma outra realidade quando eram estudantes. 
Assim, é preciso buscar o embasamento teórico que sustente a prática docente significativa. 
 Percebemos que a Lingüística de hoje é uma área marcada por pesquisas intensas em cada 
subteoria e em suas relações interdisciplinares. E então surge a pergunta: em que sentido isso produz 
impactos sobre a metodologia do ensino de línguas? 
47
 Segundo Campos, inicialmente, há que se considerar que a tradição de ensino de línguas, 
desde o período clássico, com o Grego e o Latim, representa uma tendência de valorizar formas 
lingüísticas entendidas como padrão em relação a outras, consideradas populares em sentido amplo. 
Isso implica um conjunto de normas a serem seguidas, de modo a propiciar o domínio, por parte de 
todas as classes sociais, do idioma materno num certo nível de organização. A conseqüência histórica 
disso é o que chamamos de Gramática Tradicional. Esse instrumento de ensino de línguas atravessa 
os séculos e, ainda hoje, possui um sólido enraizamento nas escolas com grande repercussão sobre 
a escrita em todos os contextos em que ela é exigida, como vestibulares e concursos em geral. E 
fazemos uma nova pergunta: em que sentido, tal Gramática é desejável e eficiente?
 Quando a Linguística atingiu o status de ciência, sustentada por evidências empíricas e por 
leis formais, a velha gramática deveria ser ajustada ao novo quadro. Ou seus fundamentos eram con-
sistentes com o que se sabia cientificamente, ou ela corria o risco de se tornar vácua. Os professores 
tradicionais, nesse contexto, ficaram um tanto confusos, misturando os aspectos descritivos da gra-
mática com suas formulações normativas. Mas a descrição tem uma natureza diversa das prescrições,pois a primeira constitui-se numa abordagem do fenômeno lingüístico como ele é; as segundas, da 
língua como ela deveria ser em seu uso social. 
 Dado um certo caráter de valorização da ciência, rapidamente muitos professores partiram 
para uma crítica à Gramática Tradicional, denunciando-a em suas fragilidades e inconsistências à luz 
da Lingüística. Aparentemente, o ensino de línguas deveria ser baseado nas investigações rigorosas 
de hoje, descartando-se a descrição tradicional. Seria isso possível? Na verdade, trata-se de colocar 
o problema de forma mais adequada. 
 Obviamente, não deveria haver incompatibilidade entre os fundamentos descritivos da Gra-
mática e os resultados científicos conquistados. Aceita-se, hoje, por exemplo, que a linguagem tem 
uma base inata. Nasce-se com a competência para adquirir uma língua e esse aprendizado tem suas 
regras de evolução, especialmente até a maturação do processo no cérebro/mente. Tal conheci-
mento, diríamos neurolinguístico, não pode ser desconhecido pelos educadores. Há um certo con-
senso de que as formas da sintaxe das diversas línguas são fundamentadas em princípios universais 
e parametrizadas de maneira particular em cada língua. Se isso é verdade, então os professores de 
língua não deveriam ignorar tais resultados científicos em seu trabalho na área social da linguagem. 
 Que consequências se seguem disso? É mais simples do que parece, na teoria, e mais com-
plexo do que se pensa, na prática. Bastaria que as Gramáticas tradicionais fossem fundamentadas 
cientificamente em suas bases descritivas e que houvesse um planejamento mais racional sobre a 
normatização da escrita. Não se poderia, no primeiro caso, ignorar o que a Lingüística desenvolveu 
ao longo dos últimos cem anos e não se pode desconsiderar a evolução da escrita nas mídias mais 
complexas, eletrônicas ou de massa, no segundo. Qual a implicação de tal contexto tecnológico 
para o ensino de línguas? O livro clássico era a base para a padronização do uso de uma língua. Os 
literatos desde a tradição clássica eram as fontes do bem escrever, conforme toda a gama de cita-
ções das velhas gramáticas. Ocorre que, hoje, o livro de ficção literária não é mais o centro de toda 
a formação cultural do indivíduo. Os desenvolvimentos científicos e tecnológicos nos oferecem um 
48
complexo contexto de linguagens altamente sofisticadas, desde a televisão, o rádio, os jornais e as 
revistas, na cultura dita de massa, bem como os chats e os e-mails da cultura eletrônica. Hoje preci-
samos ser orientados para ler na era digital, ou o que se poderia chamar de navegar pela linguagem. 
Não é possível ignorar-se essa fantástica variedade linguística no ensino de línguas. Nesse contexto, 
o novo instrumento, que viesse a substituir a velha gramática, no nobre trabalho de favorecer a 
competência e o desempenho no uso da linguagem, deveria incorporar os resultados da ciência 
linguística em seus fundamentos e reformatar os padrões de normatização na era da escrita digital.
 Toda ciência digna deste nome é um saber em construção, uma obra nunca terminada, um 
trabalho constante e ininterrupto. Ao contrário da Gramática Tradicional, que acabou se constituin-
do numa coleção de dogmas, isto é, numa coleção de conceitos que são considerados verdades 
absolutas e inquestionáveis, a Linguística não para de questionar suas próprias ideias, de reformular 
suas teorias. E os profissionais da língua devem, então, ser pesquisadores e incentivar o mesmo es-
pírito em seus alunos e pares.
Aposto, caro aluno, que você já ouviu alguém dizer que português é muito 
difícil!!! Mas como pode ser difícil uma língua que falamos praticamente desde 
que nascemos?
Caros alunos, chegamos ao final da unidade 5 de nosso guia com um pouco 
mais de conhecimento sobre o potencial da Linguística como fonte de ideias 
para o processo de ensino-aprendizagem de língua. Espero que vocês tenham 
sentido a importância de nossa disciplina. Não vamos dizer que concluímos 
porque essa discussão nos acompanhará pelo resto de nosso curso e de 
nossa vida, desde que estejamos interessados nas questões relativas ao nosso 
idioma de forma geral e na formação dos alunos como cidadãos participativos 
e plenos. Não há certezas nem palavras finais; mas fica muito claro que não 
é possível manter certas concepções e procedimentos frente às mudanças e 
demandas sociais e lingüísticas da contemporaneidade.
49
Aplicar a Linguística é, em síntese, consciencializar dos meios pelos quais usa-
mos a língua na realização de diferentes significados. É, no âmbito da formação 
inicial, fazer com que os estagiários adquiram um sentido de controle e de 
orientação para um trabalho de desenvolvimento, junto dos seus alunos, de 
um uso fluente e autônomo da língua em várias situações com vários objetivos 
comunicativos.
Estudo de Caso
51
 Uma professora está ensinando o conteúdo "Vícios de Linguagem" a seus alunos do primeiro 
ano do Ensino Médio. Segue o plano de aula utilizado: 
PLANO DE AULA
Duração: um encontro de 50 minutos
Objetivo da aula
- Memorizar e reconhecer os vícios de linguagem, sua ocorrência e a maneira correta de se 
falar e escrever as expressões usuais dos vícios de linguagem.
Conteúdos a serem abordados na aula
- Barbarismo, Solecismo, Pleonasmo vicioso ou redundância, Ambiguidade ou anfibologia, Ca-
cofonia, Eco, Hiato, Colisão, Vulgarismo, Plebeísmo, Estrangeirismos, Neologismos, Arcaísmo, 
Preciosismo, Gerundismo, Queísmo e Paraquema.
Metodologia e Procedimentos Didáticos
Apresentação de slides explicativos do conteúdo com exemplos do livro didático.
Exemplo de slides a serem utilizados:
52
Vídeo a ser passado aos alunos
Vídeo http://www.youtube.com/watch?v=KJseoedxnDE&feature=share
Forma de avaliação
Questionário com frases curtas e identificação de cada vício, em que cada aluno deverá 
responder oralmente. 
V�deo http://www.youtube.com/watch?v=KJseoedxnDE&feature=share
53
 Analise a situação acima respondendo aos seguintes questionamentos:
- Considerando o que aprendemos na disciplina, qual a possível concepção de língua/linguagem 
da professora?
- Você considera a abordagem eficaz para um aprendizado de língua materna? Que aspectos 
considerou interessantes ou desinteressantes?
- Você abordaria o conteúdo da mesma forma? 
 Depois de refletir sobre os questionamentos, assista à última videoaula da disciplina com os 
comentários sobre este estudo de caso.
BAGNO, Marcos. Dramática da Língua Portuguesa: tradição gramatical, mídia e exclusão social. São 
Paulo: Loyola, 2000.
_______________ . A norma oculta. 3.ed. São Paulo: Parábola, 2003.
 _______________. Preconceito lingüístico. 26.ed. São Paulo: Loyola, 2003.
BOURDIEU, Pierre. Ce que parler veut dire: L'économie des échanges linguistiques. Paris: Fayard, 
1982.
BRANDÃO, Helena H. Naganime Brandão. Introdução à análise do discurso. Campinas: Unicamp, 
2004.
CALVET, Louis Jean. Saussure: pró e contra para uma linguística geral. Ed. Cultrix, São Paulo, 1977.
CAMPOS, Jorge. A Lingüística Atual e o Ensino de Línguas. Disponível em Acesso em 11/07/2017.
CHOMSKY, N. Linguística gerativa: Desenvolvimento e perspectivas. Uma entrevista com Noam 
Chomsky – Entrevista em Maceió (por Mike Dillinger & Adair Palácio). D.E.L.T.A.,vol. 13, No Espe-
cial, 1997.)
FIORIN, J. L., FLORES, V. N., BARBISAN, L. B. (orgs.) Saussure: a invenção da Linguística. São Paulo: 
Contexto, 2013
GUIMARÃES, Thelma de Carvalho. Linguística I. São Paulo: Pearson Education do Brasil, 2014. 
LAFONT, Cristina. "Apertura del mundo" y referencia. VIEJA, M. T. L. de la (ed.). Figuras del logos: 
entre la filosofía y la literatura. México D. F.: Fondo de Cultura Económica, 1994, p. 271-288.
GREIMAS, A. J. L’actualité du saussurisme. Le Français Moderne, 1956, n. 24.
LEMLE, M. Heterogeneidade dialetal: um apelo à pesquisa. Tempo Brasileiro. Rio de Janeiro (53/4): 
60-94, abr./set., 1978.
LYONS, J. Introdução à linguísticateórica. Tradução de Rosa Virgínia Mattos e Silva e Hélio Pimentel. 
São Paulo: Nacional, 1979.
MARCONDES, Danilo. Textos básicos de linguagem. Rio de Janeiro: Zahar, 2010.
MUSSALIN, Fernanda e BENTES, Anna C. Introdução à linguística: domínios e fronteiras. 1 e 2 vol. 
São Paulo: Cortez, 2000.
NAGEL, Ernest. The structure of science: Problems in the logic of scientific explanation. Harcourt, 
Brace & World, Inc. New York, 1961.
ORLANDI, Eni. O que é linguística. São Paulo: Brasiliense, 1993.
______________. Análise de discurso. 5.ed. Campinas: Pontes, 2003.
SAUSSURE, Ferdinand de. Curso de Linguística Geral. São Paulo: Cultrix, 2008, p.07).
SEGATTO, Antonio Ianni. Sobre pensamento e Linguagem: Wilhelm Von Humboldt. Trans/Form/
Ação. UNESP. Marília. Impresso, v. 32(1). Disponível em 
 Acesso 
em 04/07/2017.
SOARES, M. B. Um olhar sobre o livro didático. Presença Pedagógica, v.2, n. 12, nov./dez., 1996.
SOUZA, Dalva Soares G. de & ARÃO, Lilian Aparecida. Contribuição da Linguística no Ensino da 
Língua Portuguesa no Brasil. Babilônia n°6/7, 2009.aparentadas (dizia-se da mesma família), o 
passado da forma em questão. Este procedimento, que se dá no interior de uma posição naturalista, 
biológica, sobre a linguagem, caracteriza-se fundamentalmente pela formulação das chamadas leis 
fonéticas. Ou seja, as mudanças seriam resultado necessário de certas características das formas das 
línguas. Vamos dar um exemplo, tomando a passagem do latim vulgar (popular) para o Português: 
As palavras do Português mantêm a acentuação tônica do latim: muliére> mulher, intégru> inteiro, 
cathédra> cadeira, tenébras> trevas, etc.
 Um estudioso fundamental para essa época é Franz Bopp, cuja obra sobre o sistema de 
conjugação da língua sânscrita é considerada a data de nascimento, por assim dizer, da Linguística 
Histórica.
Franz Bopp (1791-1867): Filólogo alemão nascido em Mainz, que demons-
trou a importância do sânscrito para as línguas indo-europeias e é considera-
do o fundador da linguística comparativa. Seu talento apareceu inicialmente 
em Über das Conjugationssystem der Sanskritsprache (1816), quando estava 
em Paris (1812-1816) dedicando-se ao estudo das línguas orientais, onde pio-
neiramente procurou traçar a origem comum do sânscrito, persa, grego, latim 
e alemão. Professor de literatura oriental e de filologia geral na Universidade 
de Berlim (1821-1867), publicou uma gramática do sânscrito (1827).
 Esse livro sobre o sistema de conjugação do sânscrito abriu novas 
perspectivas linguísticas. Logo concentrou sua atenção no sânscrito e publicou 
um glossário de sânscrito e latim (1830) tornando-se, assim, um filólogo do 
sânscrito. Esse pequeno livro continha um estudo comparado dos verbos e 
uma série de traduções do Sânscrito. Morreu em Berlim, então na Prússia, e 
sua grande obra foi Vergleichende Grammatik des Sanskrit, Zend, Griechis-
chen, Lateinischen, Litthauischen, Altslawischen, Gotischen und Deutschen 
(1833-1852), onde, após investigar a origem das formas gramaticais dessas 
13
línguas, descreveu a estrutura gramatical original e definiu suas leis fonéticas.
 Também produziu estudos de vários grupos de línguas européias e ensaios 
sobre a relação entre as línguas malaio-polinésias e as indo-européias (1840) e 
sobre o sistema de acentuação em sânscrito e grego (1854). 
Disponível em http://www.dec.ufcg.edu.br/biografias/FranzBop.html Acesso em 
04/07/2017.
1.2 Outros pensadores importantes para os estudos linguísticos: precursores
Descartes (1596-1650)
 Mesmo sem ter dedicado nenhum texto especificamente à questão da linguagem, Descartes 
influenciou em sua época o desenvolvimento de uma lógica do pensamento, tal como encontrada na 
escola de Port Royal. Contemporaneamente, sua discussão sobre linguagem e mente influenciou as 
teorias do lingüista Noam Chomsky, autor de uma obra chamada justamente “linguística cartesiana”, 
publicada em 1966.
 Para Descartes, a mente ou espírito é capaz de conhecer o real por meio das ideias, que 
representam as coisas, e é com base nesse conhecimento que a ciência se constrói. A linguagem é 
apenas a expressão do pensamento e, mesmo assim, uma expressão imperfeita, sem nenhum papel 
na formação do conhecimento.
 Caro aluno, leia abaixo um trecho do autor: 
Enfim, unimos todos os nossos conceitos a palavras para os expressarmos oralmente, e os 
relacionamos a elas na memória. Por nos recordarmos mais facilmente das palavras que 
das coisas, seria difícil termos um conceito de algo separadamente das palavras com que se 
relacionam; por esse motivo os homens prestam mais atenção às palavras que às coisas e 
em conseqüência frequentemente dão seu aval a termos que não compreendem e sequer 
se preocupam muito em compreender, seja porque acreditam já tê-los ouvido, seja porque 
lhes parece que aqueles que os ensinaram sabiam o que significavam e os teriam aprendido 
pelo mesmo processo (DESCARTES, R. apud MARCONDES, 2010)
Wihelm Von Humbolt (1767 -1835)
 
 O pensamento de Humboldt foi influenciado pelos estudos sobre a linguagem em sua épo-
ca, mas também, de um ponto de vista filosófico, pela obra de Kant. Seu trabalho teve muita influ-
ência em autores como Franz Boas e Edward Sapir e contemporaneamente, em Noam Chomsky, 
como ele próprio admite. Os interesses de Humboldt eram bastante amplos e procuravam conciliar 
14
a diversidade cultural que as diferentes línguas expressam com uma unidade da natureza humana 
que corresponderia à estrutura geral dessas línguas e que seria de natureza mental.
 Caro aluno, leia um trecho do autor: 
Denominamos palavra o signo correspondente a um conceito. A sílaba forma uma unidade 
sonora; só se transforma em palavra quando obtém uma significatividade própria, o que 
frequentemente requer a união de várias sílabas. Por isso a palavra apresenta uma unidade 
dupla: a do som e a do conceito. É assim que as palavras se transformam nos verdadeiros 
elementos da fala, já que as sílabas carentes de significação própria não podem ser real-
mente consideradas como tais. Se imaginarmos a língua como um segundo mundo, obje-
tivado pelo indivíduo desde si mesmo a partir das impressões que ele recebe do mundo 
verdadeiro, as palavras serão os objetos individuais desse mundo e, por isso, podem ser 
consideradas indivíduos, já que sua forma também deve ser preservada (HUMBOLDT, W. 
apud MARCONDES, 2010).
 
Veja abaixo mais informações sobre o pensamento de Humboldt acerca da linguagem:
Wihelm Von Humboldt leva a cabo uma mudança de paradigma que afeta não apenas a 
linguística, cujo desenvolvimento no século XX revela as consequências dessa mudança de 
maneira bastante clara, mas também a filosofia, para a qual a linguagem (vista como sistema 
de signos objetificados) nunca teve uma dimensão filosófica. Além disso, a mudança de 
paradigma levada a cabo por Humboldt ocorre em duas dimensões diferentes. Em sua 
dimensão cognitivo-semântica, essa mudança consiste em encarar a linguagem não como 
um mero sistema de signos, não como algo objetificável (intramundanamente), mas como 
algo constitutivo da atividade de pensar, como a própria condição de possibilidade dessa 
atividade. A linguagem é, então, elevada a um estatuto quasi-transcendental, que reivindica 
contra a subjetividade a autoria das operações constitutivas da visão de mundo do sujeito 
(...) Em sua dimensão comunicativo-pragmática, a mudança consiste em ver esse caráter 
constitutivo da linguagem como o resultado de um processo ou atividade: especificamente, 
a atividade de falar. Nesse sentido, a linguagem se torna a garantia da intersubjetividade 
da comunicação, a condição de possibilidade do entendimento entre falantes. (LAFONT, 
1999, p. 17-18)
No site abaixo você encontra um artigo muito interessante, de Antônio Ianni 
Segatto sobre o pensamento de Humboldt:
SEGATTO, Antonio Ianni. Sobre pensamento e Linguagem: Wilhelm Von 
Humboldt. Trans/Form/Ação. UNESP. Marília. Impresso, v. 32(1). Disponível 
em 
 Acesso em 04/07/2017.
15
1. Com base no que foi lido e discutido, explique aqui as definições de gramática e retórica:
2. Segundo Orlandi, quais são os dois momentos fundamentais para o desenvolvimento da Linguís-
tica? Explique.
3.Explique resumidamente a importância dos seguintes autores para os estudos linguísticos:
A)Descartes
B)Humboldt
16
O homem sempre se interessou pelo estudo da linguagem. Ainda na Antigui-
dade, podemos retornar à Índia, onde o interesse religioso levou a estudos 
bastante rigorosos dos aspectos fonológicos do sânscrito. Estes estudos ti-
nham a finalidade de estabelecer de modo perfeito qual som deveria ser pro-
duzido nos cânticos sagrados, para que eles tivessem validade sagrada. Estes 
estudos levam a uma rigorosa descrição dos sons, que podemos encontrar 
na gramática de Panini, num certo sentido um precursor remoto de estudos 
estruturais do século XX.
Na história da constituição da Linguística há dois momentos-chave: o sé-
culo XVII, que é o século das gramáticasgerais, e o século XIX, com suas 
gramáticas comparadas. No primeiro momento, os estudos da linguagem 
são fortemente marcados pelo racionalismo. Desse modo, os pensadores 
da época se preocupavam em estudar a linguagem como representação do 
pensamento e, sendo assim, obedeceriam a princípios racionais, lógicos que, 
segundo esses estudiosos, regeriam todas as línguas. Já o segundo momento 
é bem diferente do primeiro, pois muda o foco de interesse, que passa a ser 
não mais a “língua ideal”, mas as mudanças que a língua sofrem: é a época 
dos estudos históricos. Um estudioso fundamental para essa época é F. Bopp, 
cuja obra sobre o sistema de conjugação da língua sânscrita é considerada a 
data de nascimento, por assim dizer, da Linguística Histórica.
A preocupação com a linguagem, com a língua é muito antiga e há várias áre-
as do conhecimento que se interessam pelo fenômeno linguístico. Mas a Lin-
guística é uma área de estudos recente e com determinadas especificidades.
17
Respostas Comentadas
1) Encontramos várias formas de se abordar a linguagem/língua durante a história da humani-
dade. Duas dessa formas são a gramática e a retórica. Trata-se de duas posições distintas: de um 
lado uma norma de correção (gramática), de outro as regras de como proceder para convencer, 
para alcançar o ouvinte (retórica). De um lado o "valor" da língua, de outro a adequação da relação 
orador/auditório.
2) De acordo com Eni Orlandi (1993), na história da constituição da Linguística há dois mo-
mentos-chave: o século XVII, que é o século das gramáticas gerais, e o século XIX, com suas gra-
máticas comparadas. Outros autores também destacam esses dois momentos como extremamente 
importantes para a história das ideias linguísticas.
3) 
 a) Descartes: Mesmo sem ter dedicado nenhum texto especificamente à questão da lin-
guagem, Descartes influenciou em sua época o desenvolvimento de uma lógica do pensamento, tal 
como encontrada na escola de Port Royal. E contemporaneamente sua discussão sobre linguagem 
e mente influenciou as teorias do lingüista Noam Chomsky, autor de uma obra chamada justamente 
“linguística cartesiana”, publicada em 1966.
 b) Humboldt: O pensamento de Humboldt foi influenciado pelos estudos sobre a linguagem 
em sua época, mas também, de um ponto de vista filosófico, pela obra de Kant. Seu trabalho teve 
muita influência em autores como Franz Boas e Edward Sapir e contemporaneamente, em Noam 
Chomsky, como ele próprio admite. Os interesses de Humboldt eram bastante amplos e procura 
conciliar a diversidade cultural que as diferentes línguas expressam com uma unidade da natureza 
humana que corresponderia à estrutura geral dessas línguas e que seria de natureza mental. 
 
II
Objetivo da Unidade
- Compreender o contexto do surgimento das concepções bási-
cas da teoria de Saussure.
Unidade II - 
Os Pensamentos de
Saussure
19
 Conhecemos, na Unidade I, alguns dos precursores do pensamento sobre a linguagem. 
Vimos filósofos que refletiram sobre a natureza da linguagem, os estudos indianos do sânscrito em 
busca de uma língua falada ideal, o estudo das gramáticas e o período histórico-comparatista, com 
seu foco no estabelecimento de relações entre as línguas. Porém, todos essas reflexões e pensa-
mentos não são considerados oficialmente uma ciência, já que, através das palavras do autor Ernest 
Nagel (1961), o conceito de ciência:
É o desejo de explicações que sejam ao mesmo tempo sistemáticas e controláveis através 
de dados factuais que gera a ciência, e é a organização e classificação do conhecimento 
segundo princípios explicativos que é o objetivo próprio das ciências. Mais especificamen-
te, as ciências procuram descobrir e formular em termos gerais as condições sob as quais 
ocorrem acontecimentos de vários gêneros, sendo as proposições sobre essas condições 
determinantes as explicações desses acontecimentos. Podem descobrir-se relações regula-
res que abrangem vastos domínios de fatos, de tal forma que com a ajuda de um peque-
no número de princípios explicativos pode mostrar-se que um número indefinidamente 
grande de proposições sobre esses fatos constituem um corpo de conhecimento logica-
mente unificado. Esta unificação assume por vezes a forma de um sistema dedutivo, como 
acontece na geometria demonstrativa e na ciência da mecânica. Deste modo, através de 
poucos princípios, como os que foram formulados por Newton, consegue-se mostrar que 
proposições sobre o movimento da Lua, o comportamento das marés, os percursos de 
projéteis e a subida de líquidos em tubos estreitos estão intimamente relacionadas, e que 
todas essas proposições podem ser rigorosamente deduzidas a partir desses princípios em 
conjunção com várias informações sobre fatos. Explicar, estabelecer alguma relação de 
dependência entre proposições que superficialmente não estão relacionadas, apresentar 
sistematicamente conexões entre fragmentos de informação aparentemente heterogêneos, 
são características próprias da investigação científica (NAGEL, 1961).
 Assim, para se fazer ciência, é necessário haver sistematicidade, estabelecimento de relações 
entre os fenômenos observados e, ainda, haver a determinação de um objeto de estudo e delimita-
ção dos conceitos envolvidos.
 Dessa forma, foi considerado o precursor da Linguística Mo-
derna o suíço Ferdinand de Saussure (1857-1913), por ter inovado nos 
estudos e também por ter tratado com mais sistematicidade a língua 
e a linguagem, definindo conceitos fundamentais que propiciaram o 
desenvolvimento de diferentes teorias linguísticas. Segundo Greimas,
a originalidade da contribuição de F. de Saussure reside, 
cremos nós, na transformação de uma visão de mundo 
que lhe foi própria – e que consiste em apreender o 
mundo como uma vasta rede de relações, como uma 
arquitetura de formas carregadas de sentido, portando 
em si mesmas sua própria significação – em uma teoria 
do conhecimento e em uma metodologia linguística. 
(GREIMAS, 1956, p. 192)
Unidade II
20
 O próprio Saussure considerava os estudos feitos anteriormente desprovidos de visão cien-
tífica:
2.1 O nascimento das ideias de Saussure
 No entanto, segundo Orlandi (1993), a gramática histórica que se fazia no século XIX deu 
uma contribuição decisiva para a edificação da Linguística como ciência em parte por causa da utili-
zação de símbolos que descrevem a própria língua. Toda ciência teria que ter uma metalinguagem, 
segundo a autora, através da qual estabelece suas definições, conceitos, objetos e procedimentos de 
análise. Há metalinguagens formais (que usam símbolos abstratos, como a física, por exemplo) e há 
metalinguagens não–formais (que usam a língua comum, como a História, a Antropologia, as ciências 
humanas em geral). A Linguística, embora seja uma ciência humana, tem valorizado, em muitas de 
suas abordagens, uma linguagem formal.
 Os estudos sobre a linguagem tomaram a forma que têm hoje a partir de mudanças no do-
mínio da linguística, constituídas no início do século XX, pelo abandono do naturalismo dominante 
no comparatismo do século XIX. É deste momento um dos três principais movimentos fundadores 
nos estudos linguísticos naquele século: o Curso de Linguística Geral de Ferdinand Saussure, na uni-
versidade de Genebra, nos anos de 1906-1907, 1908-1909, 1910-1911. 
 Talvez o aspecto mais curioso sobre Saussure seja o fato de que ele mesmo não tenha pu-
blicado seu próprio livro, ou seja, o livro Curso de Linguística Geral, clássico da Linguística Moderna 
e leitura obrigatória de cursos da área de Letras, Linguística, Comunicação, foi, na verdade, uma 
compilação de anotações de seus alunos durantes as aulas. Não é peculiar? 
A ciência que se constituiu em torno dos fatos da língua passou por três fases sucessivas 
antes de reconhecer qual é o seu verdadeiro e único objeto. Começou-se por fazer o que 
se chamava de “Gramática’. Esse estudo, inaugurado pelos gregos, e continuado principal-
mente pelos franceses, é baseado na lógica e está desprovido dequalquer visão científica e 
desinteressado da própria língua; visa unicamente a formular regras para distinguir as formas 
corretas das incorretas; é uma disciplina normativa, muito afastada da pura observação e 
cujo ponto de vista é forçosamente estreito” (SAUSSURE, 2008, p.07).
Vale acrescentar que o próprio Saussure havia iniciado e publicado alguns 
estudos sobre gramática comparada e o indo-europeu. Somente depois 
mudou os rumos de suas reflexões. O Curso vai contra o organicismo da 
Linguística histórica, que considerava que a linguagem tinha fundamentos 
biológicos
21
 O livro foi publicado em 1916, três anos após a morte 
de Saussure,w por dois de seus alunos Charles Bally e Albert Se-
chehaye. E o mais curioso: dizem que esses dois alunos quase não 
frequentaram as aulas de Saussure.
 Em 1957, houve novas descobertas, pois foram encontra-
dos outros manuscritos de alunos, inclusive manuscritos e cartas do 
próprio Saussure.
 Vamos iniciar a leitura de passagens do Curso? Veja abaixo, caro aluno, algumas observações:
Qual é a utilidade da Linguística? (...) é evidente, por exemplo, que as questões linguísticas 
interessam a todos (...) que tenham que manejar textos. Mais evidente ainda é a sua impor-
tância para a cultura geral: na vida dos indivíduos e das sociedades, a linguagem constitui 
fator mais importante que qualquer outro. Seria inadmissível que seu estudo se tornasse 
exclusivo de alguns especialistas; de fato, toda a gente dela se ocupa pouco ou muito, 
mas – conseqüência paradoxal do interesse que suscita – não há domínio onde tenham 
germinado ideias tão absurdas, preconceitos, miragens, ficções (...) A tarefa do linguista, 
porém, é, antes de tudo, denunciá-los e dissipá-los tão completamente quanto possível” 
(SAUSSURE, 2008, p. 14).
Outras ciências trabalham com objetos dados previamente (...) mas em nosso campo, 
nada de semelhante ocorre. Alguém pronuncia a palavra nu: um observador superficial 
será tentado a ver nela um objeto linguístico concreto; um exame mais detalhado, porém, 
nos levará a encontrar (...) três ou quatro coisas diferentes, conforme a maneira pela qual 
consideramos a palavra: como som, como expressão de uma ideia, como correspondente 
ao latim nudum etc. Bem longe de dizer que o objeto precede o ponto de vista, diríamos 
que é o ponto de vista que cria o objeto, aliás, nada nos diz de antemão que uma dessas 
maneiras de considerar o fato em questão seja anterior ou superior às outras. (SAUSSURE, 
2008, p. 15).
 
 Observe que aqui há uma máxima de Saussure muito conhecida: “é o ponto de vista que 
cria o objeto”. Essa afirmação é muito importante se formos considerar o fazer científico, os proce-
dimentos metodológicos, pois implica que em Linguística os dados não são pré-estabelecidos, é o 
ponto de vista do linguista que produz o objeto de investigação.
 A Linguística é considerada o estudo científico sobre a língua ou sobre a linguagem verbal 
humana, já que procura explicar e descrever os fenômenos linguísticos. A partir da concepção de 
língua e linguagem, foram surgindo diferentes áreas de estudos dentro da Linguística. 
22
 A linguística, ocupando-se da linguagem humana e das línguas naturais, para 
cumprir seu objetivo básico que é determinar a natureza da linguagem e a 
estrutura e funcionamento das línguas, se ramifica em duas direções:
•	 Procura	desenvolver	toda	uma	metodologia	de	trabalho	que	vai	des-
de a delimitação dos conceitos operatórios até a discussão e montagem de 
modelos descritivos e/ou explicativos dos fenômenos linguísticos. Neste nível, 
a linguística seria necessariamente teórica e geral porque não se ocuparia de 
nenhuma língua em particular, mas dos fatos em geral e da maneira como 
abordá-los;
•	 Procura	observar	e	descrever	línguas	testando	métodos	e	técnicas	ten-
tando descobrir como é a estrutura linguística e como funcionam as línguas. 
Essa pesquisa seria do tipo particularizante e à falta de outro nome, diz que é 
especial.
 Vamos conhecer o que Saussure entendia por língua e linguagem?
 Nessa passagem, podemos ver uma ideia inovadora de Saussure, ele inicia a definição de 
língua iniciando pelo o que língua não é, ou seja, ela não é linguagem. A linguagem é mais ampla, a 
língua faz parte da linguagem. Ainda sobre língua, Saussure considera:
Mas o que é a língua? Para nós, ela não se confunde com a linguagem; é somente uma par-
te determinada, essencial dela, indubitavelmente. É, ao mesmo tempo, um produto social 
da faculdade da linguagem e um conjunto de convenções necessárias, adotadas pelo corpo 
social para permitir o exercício dessa faculdade nos indivíduos. Tomada em seu todo, a 
linguagem é multiforme e heteróclita; a cavaleiro de diferentes domínios, ao mesmo tempo 
física, fisiológica e psíquica, ela pertence além disso ao domínio individual e ao domínio 
social; não se deixa classificar em nenhuma categoria de fatos humanos, pois não se sabe 
como inferir sua unidade. A língua, ao contrário, é um todo por si e um princípio de classi-
ficação. Desde que lhe demos o primeiro lugar entre os fatos da linguagem, introduzimos 
uma ordem natural num conjunto que não se presta a nenhuma classificação” (SAUSSURE, 
2008, p.17). 
“[...] a língua é necessária para que a fala seja inteligível e produza todos os seus efeitos; mas 
esta é necessária para que a língua se estabeleça; historicamente, a fala precede sempre. 
Como seríamos capazes de associar uma ideia a uma imagem verbal se antes não tivésse-
mos surpreendido uma associação num ato de fala? Por outro lado, é ouvindo os outros 
que aprendemos a nossa língua materna; ela só se instala no nosso cérebro após inúmeras 
experiências. Por último, é a fala que faz evoluir a língua: são as impressões recebidas ao 
ouvirmos os outros que modificam os nossos hábitos linguísticos. Há, portanto, interdepen-
dência da língua e da fala; aquela é, ao mesmo tempo, o instrumento e o produto desta. 
Mas tudo isto não as impede de serem duas coisas absolutamente diferentes” (SAUSSU-
RE, 2008, p.48 e 49). 
23
Temos nessa passagem o estabelecimento de uma das principais dicotomias de Saussure: Língua X 
fala (Langue x Parole). Ademais, a linguagem tem um lado individual (fala) e um lado social (língua), 
sendo impossível conceber um sem o outro. E finalmente, a linguagem implica ao mesmo tempo 
uma evolução e um sistema estabelecido, ou seja, a cada instante, ela é uma instituição atual e um 
produto do passado.
 A língua, para Saussure, é um sistema de signos – um conjunto de unidades que se relaciona 
organizadamente dentro de um todo, ou seja, cada um dos elementos desse sistema só pode ser 
definido pelas relações de equivalência ou de oposição que mantém com os demais elementos. Esse 
conjunto de relações forma a estrutura.
A língua, para Saussure, é a parte social da linguagem, exterior ao indivíduo, a qual não pode ser 
modificada por ele, pois obedece às leis do contrato social estabelecido pelos membros da comuni-
dade. O conjunto linguagem-língua contém a fala, a qual é ato individual, ou seja, resulta das combi-
nações feitas pelo falante utilizando o código da língua. 
 Para Saussure, seriam necessárias duas lingüísticas: uma da língua e outra da fala visto esses 
dois aspectos serem tão diferentes, apesar de interdependentes. No entanto, o estudioso focalizou 
seus estudos, como já foi apontado, na LÍNGUA. Assim, Saussure (2008) escolheu como objeto 
“integral e concreto” de estudo a língua. 
Com essa abstração teórica e determinação do objeto de estudo da ciência linguística (a língua), 
Saussure cria um método para análise rigoroso e não “influenciável” pelo caráter subjetivo do pes-
quisador, dando maior rigor ao fazer científico. Essa abordagem deu origem ao que chamamos de 
Estruturalismo. 
O estruturalismo é uma abordagem que veio a se tornar um dos métodos mais 
extensamente utilizados para analisar a língua, a cultura, a filosofia da matemática 
e a sociedade na segunda metade do século XX. Entretanto, “estruturalismo” 
nãose refere a uma “escola” claramente definida de autores, embora o trabalho 
de Ferdinand de Saussure seja geralmente considerado um ponto de partida. O 
estruturalismo é melhor visto como uma abordagem geral com muitas variações 
diferentes. Como em qualquer movimento cultural, as influências e os desenvol-
vimentos são complexos.
ENCICLOPEDIA WIKIPEDIA. Disponível em Acesso em 20/08/2010
24
Então, caro aluno, para um estruturalista, a língua pode ser definida como um 
sistema no qual cada um dos elementos só pode ser definido pelas relações 
de equivalência ou de oposição que mantém com os demais elementos.
Para Saussure, como podem ser entendidos os conceitos abaixo:
A) Linguagem
B) Língua
C) Linguística
25
RESPOSTAS COMENTADAS
a) e b) As duas questões estão interligadas, pois língua não se confunde com linguagem, apesar de 
ser parte dessa. Para Saussure (2008), a linguagem é “heteróclita”, cavaleiro de diferentes domínios, 
ou seja, pode interessar a vários campos de estudo, mas a língua é, mais especificamente o objeto 
de estudo da Linguística. 
c) A ciência que se constituiu em torno dos fatos da língua passou por três fases sucessivas antes de 
reconhecer qual é o seu verdadeiro e único objeto. Começou-se por fazer o que se chamava de 
“Gramática’. Esse estudo, inaugurado pelos gregos, e continuado principalmente pelos franceses, é, 
segundo Saussure, baseado na lógica e está desprovido de qualquer visão científica e desinteressado 
da própria língua; visa unicamente a formular regras para distinguir as formas corretas das incorretas; 
é uma disciplina normativa, muito afastada da pura observação e cujo ponto de vista é forçosamente 
estreito.
“Mas o que é a língua? Para nós, ela não se confunde com a linguagem; é somente uma 
parte determinada, essencial dela, indubitavelmente. É, ao mesmo tempo, um produto 
social da faculdade da linguagem e um conjunto de convenções necessárias, adotadas pelo 
corpo social para permitir o exercício dessa faculdade nos indivíduos.” (SAUSSURE, 2008).
A Linguística, tal como a conhecemos atualmente, tem seu pilar fundamental 
no Curso de Linguística Geral, do suíço Ferdinand de Saussure, o qual le-
cionava na Universidade de Genebra. É muito curioso que constem poucas 
publicações feitas por iniciativa própria desse que é considerado o pai da 
Linguística! Mesmo a obra em questão, o Curso de Linguística Geral, foi uma 
iniciativa de seus alunos Ch. Bally e A. Sechehaye.
III
Objetivo da Unidade
-Compreender as dicotomias saussureanas e as limitações de suas 
teorias
-Compreender o conceito de língua como construto teórico.
Unidade III - 
 Dicotomias 
 De Saussure
27
Unidade III 
 Já vimos caro aluno, que Saussure foi muito importante para a criação de uma visão, de uma 
ideia, enfim, de um ponto de vista teórico que marcou a história das idéias: o estruturalismo. Mais 
especificamente em relação à língua, as observações desse estudioso foram responsáveis por verda-
deira revolução nos estudos linguísticos. Vimos que Saussure estabeleceu a dicotomia Língua X fala. 
Agora vamos conhecer outras de suas famosas dicotomias. 
3.1 Dicotomias saussureanas
 Para Saussure (2008), seja qual for o ponto de vista, o fenômeno lingüístico apresenta sem-
pre duas faces que se correspondem e das quais uma não vale senão pela outra. Isso é o que po-
demos considerar uma dicotomia. Dessa forma, as sílabas, por exemplo, são impressões acústicas 
percebidas pelo ouvido, mas os sons não existiriam sem os órgãos vocais; uma letra, uma sílaba, uma 
palavra, enfim, os sons da língua só podem existir pela correspondência desses dois aspectos. Pode-
ríamos questionar, então, se é o som que faz a linguagem... Para Saussure (2008), o som não existe 
por si mesmo, ou seja, o som – unidade complexa acústico-vocal – forma, por sua vez, com a ideia, 
uma unidade complexa, fisiológica e mental: O SIGNO. Veja a signo representado por Saussure:
Representação do signo
Fonte: SAUSSURE, 2008, p. 80
 O signo é, então, a combinação entre o conceito e a imagem acústica. Na terminologia es-
pecífica, o conceito corresponderia a significado e imagem acústica a significante:
-Significante: é a realização sonora, física das palavras. É uma parte do signo lingüístico, ou seja, 
da palavra.
-Significado: é o sentido atribuído a seqüência sonora ou ao signo lingüístico. É a outra face da 
palavra, ou seja, do signo lingüístico.
 Então, um signo linguístico é a junção do aspecto semântico (significado) com o aspectos 
formal (significante). Para Saussure (2008), não é possível admitir a existência do significante sem o 
significado e vice-versa, assim como não é possível estabelecer ou definir um elemento de relação 
28
objetiva entre eles, ou seja, entre o conceito e sua imagem acústica. Para explicitar melhor, caro 
aluno, podemos tomar como exemplo:
A palavra SAPO (imagem acústica) é associada ao animal classificado como 
batráquio da ordem dos anuros que, como a maioria dos anfíbios, desenvol-
ve-se na água, apresentando, quase sempre, na fase adulta, hábitos terrestres, 
só procurando a água na época da reprodução (conceito). Qual é a relação 
entre a imagem acústica e o conceito?
 Então, segundo Saussure (2008), os componentes do signo, o conceito (significado) e a ima-
gem acústica (significante), sofrem uma conexão arbitrária:
O laço que une o significante ao significado é arbitrário ou então, visto que entendemos 
por signo o total resultante da associação de um significante com um significado, podemos 
dizer mais simplesmente: o signo lingüístico é arbitrário. (SAUSSURE, 2008:81)
 Agora, você deve estar se questionando: como assim todas as palavras são arbitrárias? Algu-
mas palavras são tão parecidas ao seu conceito, como as onomatopeias, do tipo cricri (do grilo). O 
significante cricri "imita" o som real emitido pelo inseto. Até nisso Saussure pensou. A arbitrariedade 
é considerada um princípio fundamental, mas isso não impediria de distinguir signos radicalmente 
arbitrários, imotivados, daqueles que podem ser relativamente motivados:
Assim, vinte é imotivado, mas dezenove não o é no mesmo grau, porque evoca os termos 
dos quais se compõe e outros que lhe estão associados, por exemplo, dez, nove, vinte e 
nove, dezoito, setenta; tomados separadamente, dez e nove estão nas mesmas condições 
que vinte, mas dezenove apresenta um caso de motivação relativa. (SAUSSURE, 2008, p. 
152)
 Não devemos confundir, porém, a arbitrariedade do signo com a ideia de que ele esteja à 
mercê do falante, o qual poderia associá-lo livremente a outras significações:
A palavra arbitrário requer também uma observação. Não deve dar a idéia de que o 
significante dependa da livre escolha do que fala (...); queremos dizer que o significante é 
imotivado, isto é, arbitrário em relação ao significado, com o qual não tem nenhum laço 
natural na realidade. (SAUSSURE, 2008:83)
 
 Além de língua X fala, significado X significante, outra dicotomia proposta por Saussure foi 
sintagma X paradigma. Considere que, para Saussure:
29
No discurso, os termos estabelecem entre si, em virtude de seu encadeamento, relações 
baseadas no caráter linear da língua, que exclui a possibilidade de pronunciar dois elemen-
tos ao mesmo tempo. Estes se alinham um após outro na cadeia da fala. Tais combinações, 
que se apoiam na extensão, podem ser chamadas de sintagmas. (SAUSSURE, 1995, p.142)
 Considere a frase: A casa do moço é velha.
 As palavras dessa frase estabelecem relações sintagmáticas entre si, ou seja, relacionam no 
plano horizontal da frase, formam uma combinação linear. A vem antes de casa, casa vem antes de 
do, do vem antes de moço e daí por diante. A combinação sintagmática se dá no nível tanto da fala, 
pois nós temos a subjetividade de escolher como ordenar e organizar as palavras na frase, quanto 
no nível da língua, pois a própria língua estabelece determinadas possibilidades de combinações.
 Por outro lado, em vez de dizer"A casa do moço é velha", poderíamos ter escolhido dife-
rentes palavras, como:
 A morada do moço é velha.
 A casa do jovem é velha.
 A casa do moço é antiga.
 Veja que dentre as várias possibilidades de escolha dentro da língua, o falante opta por exa-
tamente aquelas. Essa uma escolha no eixo paradigmático, no eixo vertical.
 As aproximações sintagmáticas e paradigmáticas podem se dar além do nível sintático, como 
visto no exemplo, como no morfológico, fonético...
 Por fim, temos a dicotomia Diacronia X Sincronia. Veja que em ambas as palavras, temos o 
radical "crono", relativo ao tempo. Trata-se de duas formas de se abordar o estudo linguístico. Pode-
mos analisar "através do tempo", ou seja, diacronicamente. Ou então, analisamos sincronicamente, 
pensando em um tempo estático. Os estudos comparatistas anteriores a Saussure apresentam abor-
dagem diacrônica, pensando no aspecto histórico e evolutivo da língua. Já Saussure propunha uma 
análise sincrônica, ou seja, a análise da língua em um determinado tempo específico. 
 -Diacronia: as variações que ocorrem com a língua através do tempo não importam para as 
relações linguísticas que determinam a estrutura. 
-Sincronia: é o estudo sincrônico da língua que permite analisar sua estrutura. Ou seja, na 
perspectiva do estudioso, não importa que mulher veio de muliére, mas sim as relações que 
a palavra mulher mantém com as outras palavras da estrutura no momento em que se realiza 
o estudo (mulher versus homem, por exemplo).
 Todas essas contribuições de Saussure foram fundamentais para uma nova reflexão sobre a 
língua e linguagem.
30
3.2 Limitações da teoria de Saussure
 
 Atualmente, o estruturalismo, corrente teórica que derivou dos preceitos de Saussure, já não 
é tão utilizado em estudos sobre a língua/linguagem. Para a abordagem estruturalista, a língua deveria 
ser estudada em si mesma e por si mesma, ou seja, deveria haver um estudo imanente da língua, sem 
considerar os aspectos extralinguísticos. 
Dica de leitura (disponível na nossa biblioteca virtual)
FIORIN, J. L., FLORES, V. N., BARBISAN, L. B. (orgs.) Saussure: a invenção da 
Linguística. São Paulo: Contexto, 2013.
 Alguns aspectos desse tipo de abordagem começaram a ser bastante questionados, como o 
caráter a-histórico de suas análises e o favorecimento e crença nas forças estruturais determinísticas 
em detrimento à habilidade de pessoas individuais de atuar. De fato, Saussure havia descartado a 
possibilidade de conhecimento científico acerca da linguagem, elegendo somente uma parte da lin-
guagem como objeto de estudo, ou seja, escolheu apenas seu aparato técnico, a língua, homogênea 
e social. Não se considerava, portanto, as relações entre língua e sociedade, língua e cultura, língua e 
distribuição geográfica, língua e literatura...
Os seguidores dos princípios saussureanos esforçam-se para analisar e expli-
car a língua por ela própria, examinando as relações que unem os elementos 
e o valor funcional desses elementos, afinal, um elemento do sistema só faz 
sentido face a outro elemento e, assim, define-se o sistema lingüístico.
 Veja algumas colocações que apontam para as limitações da teoria de Saussure:
 
Nascida da autonomização da língua em relação às suas condições sociais de produção, de 
reprodução e de utilização, a línguística estrutural não podia tornar-se a ciência dominante 
nas ciências sociais sem exercer um efeito ideológico, dando aparência da cientificidade 
para a naturalização desses produtos da história que são objetos simbólicos (BOURDIEU, 
1982, p. 8)
Posiciono-me contra Saussure do Curso, base de uma linguística estrutural estereotipada 
e incapaz de explicar fatos da língua na sua diversidade, mas a favor do Saussure ligado 
aos fatos linguísticos concretos, do Saussure da fala e não da língua"(Introdução do livro de 
Calvet, 1977, p. 13.)
Decorre do ponto precedente que, na dicotomia saussuriana, língua/fala, é a fala que deve 
no fim das contas interessar o linguista: ela está do lado da comunicação real ao passo que 
31
a língua está do lado do código. (CALVET, 1977, p. 101)
 Bakhtin (1895-1975), estudioso da linguagem e contemporâneo a Saussure, era contra a 
abordagem de Saussure, tanto que é conhecido como filósofo da linguagem e não linguista, já que 
para ser considerado linguista teria que seguir as concepções da linguística tradicional. Para Bakthin, 
o único objeto real e material disponível para compreender o fenômeno da linguagem é a fala em 
sociedade. Em seus estudos teóricos, sempre defendeu a natureza social e evolutiva da língua. 
 A partir dos anos de 1970, diferentes correntes linguísticas buscavam abarcar os aspectos 
antes excluídos por Saussure, como a questão da situação comunicativa, atos de fala, referente, 
enunciador, enunciação... Na próxima unidade veremos alguns exemplos de correntes mais atuais. 
Também no decorrer do curso de Letras você perceberá que o aspecto prático da língua como 
interação não pode ser deixado de lado na análise linguística.
Então, por que aprendemos Saussure? 
 A sucessão (o que não quer dizer substituição) de teorias é um movimento comum na 
ciência, cada qual nascendo das lacunas das suas antecessoras e/ou das novas demandas sociais. 
Entretanto, não se pode negar que o estruturalismo é, historicamente, uma importante escola de 
pensamento, especialmente pelos movimentos que ele gerou.
Assim, não podemos negar a contribuição e importância dos estudos estru-
turalistas para a história da ideias, especialmente das ideias da lingüística. A 
visão da língua como um sistema semiológico, a teoria do signo, com seus dois 
princípios fundamentais: arbitrariedade/linearidade, a diferença entre sincronia 
(funcionamento) e diacronia (evolução), a distinção fonética/fonologia, fone/
fonema são categorias lingüísticas extremamente férteis, todas decorrentes do 
pensamento de Saussure e hoje definitivamente incorporadas às ciências da 
linguagem.
3.3 A Linguística no Brasil
 Segundo Souza & Arão (2009), com Saussure, a investigação sobre a linguagem passa a ser 
reconhecida como estudo científico, pois, a partir da divulgação de suas ideias compiladas na obra 
Curso de Linguística Geral, temos definido ali o objeto dessa nova ciência, ou seja, a língua, que se 
torna um objeto unificado e suscetível de classificação, como também temos definida a metodologia 
de investigação que pode ser um estudo sincrônico da língua, ou um estudo diacrônico.
32
 No Brasil, até o século XIX, o ensino de língua portuguesa esteve voltado para a tradi-
ção gramatical pautado na homogeneidade padronizada. Segundo Claire (apud SOUZA & ARÃO, 
2009), “apesar de as obras de Said Ali, João Ribeiro e Sousa da Silveira apresentarem manifestações 
da linguística sincrônica, desde o início do século até os anos 50, notava-se uma deficiência de um 
estudo descritivo”. O cenário educacional desse período caracterizava-se por restringir-se à elite do 
país que, de certa forma, detinha um conhecimento razoável da norma padrão, daí cabia à escola o 
ensino da gramática normativa e isso acontecia sem muita dificuldade, pois tanto professores quanto 
alunos “falavam a mesma língua”.
 Mas, segundo vários estudiosos, os ecos de uma mudança começam a ser sentidos graças ao 
trabalho de Joaquim Mattoso Câmara Júnior, que ministrou, em 1938, o primeiro curso de Linguísti-
ca no Brasil, na Universidade do Distrito Federal. Suas obras também foram de grande importância 
para a divulgação das teorias linguísticas. Entre elas, podemos citar o primeiro manual de linguística 
do Brasil, intitulado “Princípios de Linguística Geral”, publicado em 1942.
 A Linguística foi introduzida oficialmente nos cursos de Letras no ano de 1961, por meio de 
uma Resolução do Conselho Federal de Educação. Entretanto, nessa época, não havia professores 
suficientes para ministrar essa disciplina, o que causou um enorme transtorno para os diretores dos 
83 cursos de Letras que tínhamos no país. Assim, diantedessa dificuldade, em 1964 foi organizado, 
na Universidade de Brasília, o primeiro curso intensivo de formação para professores de linguística 
sob a coordenação do professor Aryon Rodrigues e apoio financeiro do Ministério da Educação. 
Nesse mesmo ano, foi organizado o primeiro curso de Mestrado em Linguística do Brasil. 
 Entretanto, o contexto em que explode a Linguística Brasileira não é muito favorável, pois os 
primeiros linguistas brasileiros, com exceção aqueles que tiveram contato com as teorias linguísticas 
desde cedo e puderam acompanhar o seu amadurecimento, começam sua trajetória num cenário 
multifacetado e, por vezes, sujeitos a conceitos e correntes já suplantados e, ainda, com o desafio 
de terem que absorver e reanalisar alguns paradigmas. Hoje contamos com 128 programas de pós-
graduação em Letras e Linguística filiados à Associação de Pós-Graduação e Pesquisa em Letras e 
Linguística (ANPOLL). 
 Apesar das ideias da Linguística ainda sofrer contestações e de grande parte da população 
não ter ideia do que signifique o termo, essa ciência vem ocupando os espaços, contribuindo com 
discussões e mudanças de mentalidade e procedimentos em relação à língua. Muitas das políticas de 
aprendizagem do idioma são baseadas em ideias advindas dos estudos linguísticos.
33
 Com base no texto acima, explique aqui as dicotomias saussureanas.
Resposta 
AS DICOTOMIAS SAUSSUREANAS
 Língua: a língua é o sistema, a estrutura subjacente, a qual, independentemente da realização 
do falante, é a mesma. Por isso, o estudo de Saussure se refere à língua (estrutura comum) e não à 
fala (realização pessoal).
 Fala: realização pessoal do sistema, da estrutura (diferentes maneiras de falar). Não é seu 
objeto de estudo. 
 Diacronia: as variações que ocorrem com a língua através do tempo não importam para as 
relações linguísticas que determinam a estrutura. 
 Sincronia: é o estudo sincrônico da língua que permite analisar sua estrutura. Ou seja, na 
perspectiva do estudioso, não importa que mulher veio de muliére, mas sim as relações que a pa-
lavra mulher mantém com as outras palavras da estrutura no momento em que se realiza o estudo 
(mulher versus homem, por exemplo).
 Significante: é a realização sonora, física das palavras. É uma parte do signo linguístico, ou seja, 
da palavra.
 Significado: é o sentido atribuído a sequência sonora ou ao signo linguístico. É a outra face 
da palavra, ou seja, do signo linguístico.
 Paradigma: é o eixo vertical de escolhas (dentre as várias possibilidades da língua, seleciono 
aquela)
 Sintagma: é o eixo horizontal da combinação entre as minhas escolhas.
IV
Objetivo da Unidade
- Compreender diversas abordagens linguísticas
- Diferenciar gramática normativa de gramática gerativa.
- Compreender o conceito de variação lingüística como algo natu-
ral.
Unidade IV - Outras 
Abordagens Teóricas
35
Unidade IV
4. Introdução
 Nesta unidade, abordaremos os caminhos pelos quais o estudo científico sobre a língua 
enveredou desde o estabelecimento do campo de estudos ao qual chamamos Linguística. Moder-
namente, apesar de a Linguística continuar desconhecida para grande parte da população, temos 
realmente muitas possibilidades abertas pelo estudo científico da língua, de modo que não há como 
se pensar, atualmente, em língua sem pensar em Linguística.
4.1. Gerativismo
 Na dinâmica do pensamento teórico, como crítica a algumas abordagens sobre a língua/lin-
guagem, inclusive o estruturalismo, o qual descreveria somente as frases realizadas, não explicando 
um grande número de dados lingüísticos, Noam Chomsky, considerado o fundados do Gerativismo, 
define uma teoria capaz de dar conta da criatividade do falante, de sua capacidade de emitir e de 
compreender frases inéditas.
 Com essas motivações, Chomsky formula hipóteses sobre a natureza e o funcionamento da 
linguagem, a qual, de acordo com esse autor, é específica da espécie humana e prevê a existência 
de estruturas universais inatas que tornam possível a aquisição ou aprendizagem pela criança dos 
sistemas particulares que são as línguas. Nessa perspectiva, a gramática é um mecanismo finito que 
permite gerar um conjunto infinito das frases gramaticais (bem formadas) de uma língua, e somente 
elas. Essa “gramática” constitui o saber lingüístico dos indivíduos que falam uma língua, isto é, a sua 
 O linguista americano Noam Chomsky (1928-), professor do Massachusetts Insti-
tute of Technology (MIT) é um dos mais importantes teóricos da linguagem no contexto 
contemporâneo, tendo sido o criador da teoria conhecida como gramática gerativa transfor-
macional. Essa teoria, que passa por diferentes versões, encontra-se formulada em sua obra 
Syntactic Structures, de 1957, e é desenvolvida em obras posteriores. Chomsky volta-se con-
tra o behaviorismo dominante na época, considerando insuficiente a explicação do desen-
volvimento da linguagem a partir de respostas a estímulos. Para o autor, a visão behaviorista 
não dá conta de uma das características do modo como a linguagem se desenvolve no ser 
humano: a criatividade, isto é, a capacidade humana de produzir ou gerar novas sentenças a 
partir de uma base finita de conhecimentos.
MARCONDES, Danilo. Textos básicos de Linguagem – de Platão a Foucault. Rio de Janeiro: 
Zahar, 2010.
36
competência lingüística; já a utilização particular que cada autor faz da língua em uma situação parti-
cular de comunicação depende da performance.
 Desse modo, podemos perceber que a teoria de Chomsky surge a partir de uma “insatis-
fação” com os modelos de explicação existentes, assim como a teoria de Saussure surgiu também 
pela mesma causa. Como dissemos, esse é um fenômeno comum e interessante das ciências.
 A seguir, Chomsky explica um pouco mais sobre sua teoria. É interessante perceber como 
ele define o que é língua e o que é linguagem.
A linguagem humana está baseada numa propriedade elementar que parece também ela 
ser biologicamente isolada: a propriedade da infinitude discreta, que em sua forma mais 
pura é exibida pelos números naturais 1,2,3,... As crianças não aprendem esta propriedade; 
se a mente não possuísse já de antemão os princípios básicos, não haveria quantidade de 
evidência capaz de provê-los. Do mesmo modo, nenhuma criança precisa aprender que 
existem frases com três palavras e frases com quatro palavras, mas não com três palavras 
e meia, e que esse número pode ir aumentando sem ter fim; é sempre possível construir 
uma frase mais complexa... Tal conhecimento nos chega necessariamente “originário da 
mão da natureza”.
Para poder prosseguir, deveríamos colocar com maior clareza o que entendemos por um 
língua. Tem havido muita controvérsia apaixonada a respeito da resposta correta para essa 
pergunta, e de maneira mais geral,para a pergunta sobre com deveriam ser estudadas as 
línguas. A controvérsia não tem razão de ser porque a resposta correta não existe. Se ti-
Caros alunos, leiam com atenção o quadro abaixo que mostra as oposições 
chomskyanas.
As Oposições Chomskyanas
Estrutura superficial > corresponde à gramática da língua empírica. É a descrição das estrutu-
ras gramaticais de uma língua específica.
Estrutura profunda > é a base da gramática, ou seja, corresponde às estruturas que seriam 
comuns a todas as línguas (estrutura universal). A tarefa da gramática transformacional con-
siste em mapear as regras de transformação que permitem a passagem da estrutura profunda 
para a superficial.
Competência > o conhecimento que o falante tem da gramática de sua língua. Esse co-
nhecimento não se refere às estruturas que aprendemos na escola, mas a uma capacidade 
inata que o indivíduo tem de produzir, compreender e de reconhecer a estrutura de todas 
as frases de sua língua.
Desempenho > o uso efetivo que o falante faz do conhecimento que tem da gramática de 
sua língua, a produção individual de sentenças da língua.
37
vermos interesse em compreender como se comunicam as abelhas, tentaremos apreender 
algo sobre a natureza internadas abelhas, suas organizações sociais e seu meio ambiente 
físico. Essas abordagens não são conflitantes, elas se comprovam. O mesmo se dá com a 
linguagem humana: pode ser investigada de um ponto de vista biológico e de inúmeros 
outros: o sociolingüístico, o de língua e cultura, o histórico etc.Cada uma dessas abordagens 
define o objeto de sua investigação sob a luz de sues próprios interesses e, se for racional, 
tentará apreender o que puder do que vem das outras abordagens. (CHOMSKY, 1997)
 A Gramática gerativa assume que os seres humanos nascem dotados de uma faculdade da 
linguagem, que é um componente da mente especificamente dedicado à língua. Essa faculdade, em 
seu estado inicial (quando a criança nasce) é considerado uniforme em relação a toda a espécie 
humana. Isso significa que toda criança, independente do idioma que vier a falar, nasceria dotada 
da mesma capacidade, a qual vai sendo modificada a medida que a criança é exposta ao ambiente 
linguístico. Isso não quer dizer, no entanto, que os pais ou a escola são determinantes para que uma 
criança reconheça o que é gramatical em sua língua!
 Abaixo, segue um texto interessante escrito por uma estudante! A autora faz uma compara-
ção entre as concepções de língua de Chomsky e Saussure. Leiam com bastante atenção. É impor-
tante que leiam o texto na íntegra (ver link abaixo):
Embora os conceitos de desempenho e competência de Chomsky se assemelhem aos 
conceitos de langue e parole de Saussure, para Lyons, há uma distinção fundamental entre 
eles. O que Lyons apresenta de comum entre esses conceitos cunhados pelos dois autores 
é que ambos separam o que é lingüístico do que não é. Para o autor recém citado, Saus-
sure apresenta uma tendência mais psicológica do que Chomsky. Além disso, conforme 
Lyons, a questão principal é que na definição dos dois conceitos de Saussure não existe 
nada que trate sobre as regras para gerar sentenças, o que é fundamental em Chomsky, e 
explícito no seu sistema de competência e desempenho. 
Se comparássemos a langue de Saussure com a competência de Chomsky, a diferença fun-
damental é que a langue trata de um sistema interiorizado, e a competência, embora trate 
também de um sistema interiorizado, trata não dos signos internalizados, mas das regras 
para gerar os enunciados da língua. Nas palavras do próprio Chomsky (1978), a distinção 
entre competência e desempenho realmente está relacionada com a distinção langue-pa-
 Para um adepto do gerativismo, não importam as regras recomenda-
das pela gramática normativa e sim as regras comuns a todos os falantes, as 
quais seriam “inatas”. Todos os falantes de português sabem, por exemplo, 
que não se diz, em nossa língua, algo como: “a argumentação concluiu antes 
da prova” ou “quem que o carro que comprou é zero”, ou seja, são sentenças 
agramaticais em nossa língua. Não é preciso frequentar a escola para saber 
disso.
38
role de Saussure, mas, segundo ele, “é necessário rejeitar o seu conceito de langue como 
sendo meramente um inventário sistemático de itens e regressar antes à concepção Hum-
boldtiana de competência subjacente como um sistema de processos generativos” (op. cit, 
p. 84). 
 É aí que reside a principal diferença conceitual entre os dois autores. Para Saussure, a língua, 
de forma generalizada, é um sistema de signos, e para Chomsky, um conjunto de sentenças.
4.2 Sociolinguística
 De uma maneira bastante simplificada, podemos dizer que a Sociolingüística é a parte da 
Linguística que aborda a relação entre a língua e a sociedade. Seu objeto de estudo é, sobretudo, a 
língua falada e seus funcionamentos em um contexto social, isto é, a língua em suas situações reais 
de uso. Dentro dessa perspectiva, é de interesse da Sociolinguística tudo o que se relaciona à língua 
enquanto elemento de comunicação dentro de uma comunidade linguística. Em outras palavras, ela 
estuda como as pessoas fazem uso da linguagem para interagirem, quais as redes comunicativas di-
versas que orientam o comportamento verbal de um grupo ou indivíduo e como uma comunidade 
lingüística, ou um indivíduo, faz uso das regras que a língua lhe oferece.
 Assim, caro aluno, ao estudarmos qualquer comunidade, constatamos a existência de diver-
sidades linguísticas, ou seja, variações na forma de falar.
 Para ler o texto “O conceito de língua: um contraponto entre a Gra-
mática
Normativa e a Lingüística” da estudante Lara Nasi
 na íntegra, acesse: http://www.urutagua.uem.br/013/13nasi.htm
 Um mineiro da região sul fala muito diferente de um mineiro da região 
norte, ou da região do triângulo mineiro. Um gaúcho fala muito diferente de 
um baiano, que por sua vez fala muito diferente de um paulista, entretanto, 
todos são falantes de um mesmo idioma: o português.
 Você já parou para pensar de quantas maneiras podemos dizer a mes-
ma coisa? A “mandioca”, por exemplo, também pode ser chamada de “aipim” 
ou “macaxeira”!
http://www.urutagua.uem.br/013/13nasi.htm
39
 As variações linguísticas acontecem por vários fatores. Os exemplos que acabamos de ver 
são decorrentes de mudanças geográficas. A Sociolinguística classificaria como casos de variação 
DIATÓPICA, ou seja, é variação relacionada ao espaço físico ao qual o indivíduo pertence.
 Outro fator que influencia a variação é o tempo, caracterizando a variação DIACRÔNICA. 
Todas as línguas do mundo são heranças de nossos antepassados. Herdamos a língua da geração 
dos nossos pais, os quais, por sua vez, herdaram da geração dos pais deles e assim sucessivamente. 
Entretanto, no decorrer do tempo, as línguas acabam sofrendo variações históricas. No século XVI, 
a expressão “Vossa Senhoria” era atribuída ao rei exclusivamente. No final do século XVI, porém, 
ela passou a ser usada para arcebispos, bispos, duques, marqueses, condes e vice-reis. Isso acontece 
porque toda língua é viva e serve ao seu falante. 
 Temos também a variação DIASTRÁTICA, que está ligada a um conjunto de elementos que 
dependem da identidade dos falantes e da organização sociocultural de uma comunidade. Indivíduos 
de classes sociais diferentes tendem a usar a língua de forma diferente. É muito comum encontrar 
pessoas de classes sociais mais baixas e menos escolarizadas, que trocam o [l] pelo [r], como em 
“bicicreta” (bicicleta), “probrema” (problema). 
 A idade também pode resultar em uma variação diastrática. Pessoas mais idosas têm expres-
sões e vocabulários diferentes dos mais jovens. Os adolescentes tendem a inventar muitas gírias e 
se comunicarem através delas. O sexo também influencia na fala do indivíduo. Mulheres tendem a 
usar mais diminutivos que os homens além de, muitas vezes, exagerarem em algumas expressões 
como: “maaravilhoso”, “liiindo”, “amigaaaa”. Dificilmente pessoas do sexo masculino tendem a dar 
esse tipo de entonação na fala.
 Por fim, a situação e o contexto social são fortes fatores determinantes da variação linguísti-
ca. Todos nós sentimos necessidade de mudarmos nossa fala em função de nosso interlocutor ou do 
ambiente em que estamos. Não falamos com nossos amigos da mesma forma como falamos com 
nossos avós, com nossos professores. A isso damos o nome de adequação linguística ou de registro, 
ou seja, o indivíduo deve saber transitar de um registro para outro sempre que necessário. Assim, 
falar bem não é algo que pode ser definido a priori, mas, de acordo com certos estudos linguísticos, 
tem uma íntima relação com o contexto! 
 Para a Linguística, segundo Mussalim e Bentes (2005, p. 41), “toda língua é adequada à co-
munidade que a utiliza, é um sistema completo que permite a um povo exprimir o mundo físico e 
simbólico em que vive.” Porém, há línguas e/ou variações consideradas melhores que outras por 
gozarem de maior prestígio por questões políticas, sociais e culturais.
Essas variedades linguísticas mais prestigiadas são normalmente chamadas de variedade padrão. É 
aquela socialmente mais valorizada, cujos falantes são, normalmente, mais bem aceitos e socialmente 
Mas então Sociolinguísticaé contra a famosa “norma culta”?
40
mais reconhecidos se comparado a falantes de outras variantes não padrão.
 A variante padrão nada mais é que a necessidade de se encontrar uma homogeneidade para 
a variação lingüística. Tenta-se padronizar a língua frente à variedade de formas que apresenta. Assim 
a comunicação fica mais fácil de ser estabelecida entre os diversos usuários das diversas variantes 
de uma língua. Um bom exemplo da necessidade do uso da língua padrão são os textos científicos 
ou jornalísticos. Um jornal de circulação nacional não pode usar vocabulário regional, pois pode se 
tornar ininteligível para os leitores que não conhecem aquela região e sua variante lingüística. 
Portanto, para a Sociolinguística, é totalmente sem fundamento dizermos que há línguas que são 
melhores que outras. Cada língua serve ao seu propósito e cada falante usa a língua de acordo com 
as suas necessidades. 
4.3 Análise do Discurso
 A Análise do Discurso (AD) encarrega-se de estudar a relação entre o processo lingüístico 
e o contexto social, ou seja, as marcas ideológicas que estão inseridas em nosso discurso. Segundo 
Orlandi (2003, p. 15-16), grande nome da AD no Brasil:
Na análise de discurso, procura-se compreender a língua fazendo sentido, enquanto traba-
lho simbólico, parte do trabalho social geral, constitutivo do homem e da sua história. (...)
Assim, a primeira coisa a se observar é que a Análise de Discurso não trabalha com a língua 
enquanto um sistema abstrata, mas com a língua no mundo, com maneiras de significar, 
com homens falando, considerando a produção de sentido enquanto parte de suas vidas, 
seja enquanto sujeitos seja enquanto membros de uma determinada forma de sociedade 
(...) refletindo sobre a maneira como a linguagem está materializada na ideologia e como a 
ideologia se manifesta na língua.
 Vê-se que a Análise do Discurso é uma vertente da Lingüística que se preocupa em analisar 
as construções ideológicas presentes em um texto, o que está além do código, ou seja, o que 
um texto traz “nas entrelinhas”.
 Discurso é uma prática social de produção de texto. Não há discurso sem que haja intere-
locutores. Ninguém escreve para ninguém, ninguém fala para ninguém. Sendo assim todo discurso é 
uma construção social e não individual. Assim, ele deve ser analisado sempre levando em considera-
ção o contexto histórico-social em que está inserido e as condições em que foi produzido. Quando 
lemos um autor do século XIX por exemplo, pecebemos há uma grande diferença de hábitos, 
costumes e ideologias dos personagens descritos por ele, para os costumes, hábitos e ideologias 
descritos pelos autores contemporâneos. Isso acontece porque o autor reproduz os valores do seu 
tempo e do século XIX para o XXI muita coisa mudou.
 Segundo Pêcheux (apud Brandão 2004:110), “o sentido de uma palavra muda de acordo 
com a formação discursiva a que pertence”. Ou seja, uma mesma palavra pode ter significados di-
ferentes dependendo do seu contexto, do seu meio social, e da época em que está sendo usada. 
41
Um bom exemplo disso é a palvara “mala”, que usamos tanto no sentido denotativo, “tipo de caixa 
para transporte de roupas em viagem” ou no sentido conotativo, se referindo a uma pessoa chata. 
Entretanto é importante observar que o segundo sentido a palavra “mala” não é individual, mas sim 
coletivo, portanto social. Ele não é usado por uma pessoa, mas sim por toda uma sociedade.
 Caros alunos, vocês chegaram ao final da unidade com um pou-
co mais de conhecimento sobre algumas das abordagens possíveis sobre a 
língua. Assim, fica cada vez mais claro que o conceito de língua é variável, 
afinal, como já aprendemos como os “mestres”, é o ponto de vista teórico 
que define o objeto de estudo. Assim, a língua, dependendo da abordagem 
que se utiliza para analisá-la, pode ser vista como sistema de signos, como 
capacidade inata, como conjunto de variantes lingüísticas, como atividade 
ideológica etc, ou seja, o conceito de língua está ligado à teoria utilizada para 
explicá-la. No desenvolvimento dos estudos lingüísticos contemporâneos, 
percebemos algumas dessas possibilidades e é importante estar consciente 
delas para podermos adotar, na prática, o que acreditamos, ou seja, para que 
sejamos coerentes em nossas práticas, precisamos estar cientes da teoria 
que nos guia.
V
Objetivo da Unidade
- Compreender o processo de ensino aprendizagem de língua sob 
a perspectiva dos estudos lingüísticos contemporâneos
- Avaliar o potencial da lingüística para o embasamento teórico do 
processo de ensino-aprendizagem de língua
- Compreender a complexidade de se relacionar (novas) teorias e 
(velhas) práticas.
Unidade V - Concep-
ção De Língua E Ensi-
no Da Gramática
43
Unidade V
 Caro aluno, chegamos até aqui com um pouco mais de conhecimento sobre o que é a Lin-
guística. Esse campo de estudos que se dedica à linguagem verbal humana e, portanto, está contido 
na área de estudos que focaliza os sistemas de signos de forma geral (Semiologia ou Semiótica). Os 
estudos linguísticos não se confundem com a habilidade de falar uma ou mais línguas, pois o linguista 
deve estar apto a falar “sobre” uma ou mais línguas: seus princípios de funcionamento, suas seme-
lhanças e diferenças etc. A Linguística também não se compara ao estudo tradicional da gramática, 
pois, ao observar uma língua, o linguista preocupa-se em explicá-la e/ou descrevê-la, sem omitir 
julgamentos sobre o que é certo ou errado (prescrição), pois, para o linguista todo e qualquer fato 
linguístico, toda e qualquer expressão linguística é digna de atenção. Assim, o linguista procura des-
cobrir como a linguagem funciona e os critérios de coleta, organização, seleção e análise de dados 
de teorias linguísticas expressamente formuladas para esse fim. 
 Todo esse conhecimento sobre as abordagens linguísticas deve auxiliar o professor em sua 
prática. A Linguística é mais uma aliada na construção de uma escola realmente formadora de ci-
dadãos conscientes e capazes de participar das práticas orais e escritas da sociedade. A escola que 
queremos!!!!
5.1 O que ensinar?
 Hoje, no Brasil, temos vários estudiosos que questionam o modo como se ensina a língua 
materna nas escolas. Um deles é o autor Marcos Bagno, grande nome da Sociolinguística no Brasil. 
Abaixo, o autor esclarece os leitores a respeito do objeto de ensino nas aulas de português:
(...) Qual o objeto de ensino nas aulas de português? O que devemos ensinar a nossos 
alunos?
 Uma resposta concisa e rápida seria: devemos ensinar a norma-padrão. Já que só 
se pode ensinar algo que o aluno ainda não conhece (...) Ensinar o padrão se justifica pelo 
fato dele ter valores que não podem ser negados (...) Mas ensinar a norma é algo que 
independe das aulas de gramática tradicionais, da decoreba de nomenclatura técnica, da 
memorização de conceitos incompletos ou facilmente desmentíveis, do aprendizado inútil 
de coisas totalmente irrelevantes. Para ser um bom usuário dos recursos da língua, o aluno 
precisa ser posto em contato permanente e intenso com textos falados e escritos de onde 
ele possa depreender esses recursos. É uma inutilidade (e uma crueldade) desperdiçar 
milhares de horas de aula para ensinar coisas que os alunos já sabem usar, simplesmente 
para que eles aprendam o s nome que a Gramática tradicional dá a essas coisas. (...) Tam-
bém não quer dizer simplesmente levar o aluno a conhecer todas as regras padronizadas 
e familiarizar-se com elas, para saber aplicá-las com precisão e adequação. É muito mais 
que isso. Sou a favor de um ensino crítico da norma padrão. E para empreender essa crí-
tica, é necessário despejar sobre o pano de fundo homogêneo da norma-padrão clássica 
a heterogeneidade da língua realmente usada. (...) Proponho desdobrar dentro da escola 
o painel multifacetado, complexo e rico da realidade brasileira, em vez de oferecer como 
44
único modelo a ser imitado o dos clássicos da literatura. A escola, insisto, tem que

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