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PÓS-MODERNIDADE E HISTÓRIA Professor Doutor Ulisses Monteiro Coli Diogo • Nas Unidades anteriores foi brevemente comentado que as Ciências Sociais atravessaram o que ficou conhecido como uma “crise de paradigmas” a partir de meados da década de 1960. Esse momento corresponde, no mundo ocidental, a uma profunda crise daquilo que é conhecido como modernidade, onde as grandes verdades e promessas da civilização ocidental entraram em descrédito. Denominado por muitos estudiosos como pós-modernidade, pode-se dizer que esse foi um momento que atingiu não só o campo das humanidades, mas também a arte, arquitetura, as ciências em geral e os mais diversos aspectos da realidade. • Esse pós-modernismo é normalmente identificado com a crítica às grandes narrativas e ideologias totalizantes, uma rejeição ao racionalismo iluminista e a pretensão de verdade absoluta da cultura ocidental, incluindo seus sistemas de valores, hierarquias e discursos. De certa maneira, o pensamento pós-moderno se coloca como contrário a modernidade. O QUE É PÓS-MODERNIDADE? • A modernidade pode ser definida como um momento na trajetória da civilização ocidental marcada pela ascensão da lógica racionalista cartesiana e do sucesso do progresso científico e industrial. Ideologicamente, é orientada pela crença Iluminista de que a aplicação dessas modificações no campo do pensamento e da vida material levariam inevitavelmente a melhoria das condições de vida e um avanço na sociedade. • O filósofo e escritor Marshall Berman traz ainda uma outra visão sobre o sentido da modernidade, associando- a a uma experiência que vivenciamos a partir do séc. XVIII e que evidencia um mundo em constante movimento, transformação: • “Existe um tipo de experiência vital – experiência de tempo e de espaço. De si mesmo e dos outros, das possibilidades e perigos da vida – que é compartilhada por homens e mulheres em todo mundo, hoje. Designarei esse conjunto de experiências como “modernidade”. Ser moderno é, encontrar-se em um ambiente que promete aventura, poder, alegria crescimento, autotransformação e transformação das coisas em redor – mas ao mesmo tempo ameaça destruir tudo o que temos, tudo o que sabemos, tudo o que somos.” (BERMAN, 1986, p. 15) O QUE É A MODERNIDADE? • Outra característica da lógica pós-moderna em confronto com a modernidade parte da ideia de superação. No modernismo, existe uma clara intenção de sempre superar os estágios anteriores do desenvolvimento, como se toda a realidade fosse encadeada de maneira lógica, retilínea e ascendente. Tal aspecto é facilmente notável na concepção de ciência do século XIX, e no caso específico das Ciências Humanas e Sociais ela pode ser percebida em diversos momentos através das escolas, tradições e paradigmas. • Para a pós-modernidade, essa busca por superação perde sentido. Além do abandono dessa forma de pensar, pode-se observar que desde a década de 1960 o que se busca é compreender as particularidades de uma corrente ou forma de pensamento, seu diálogo com diferentes realidades e como ela contribui para compreensão dos dilemas da sociedade. Assim a lógica da multiplicidade de visões sobre um assunto ganha mais força para os debates sobre a sociedade. Figura 1: Les Demoiselles d'Avignon • A partir da lógica pós-modernista se fortalecem na Historiografia novos posicionamentos teóricos, temas e formas de se estudar e compreender as sociedades. Sobre o pós-modernismo e sua forma de atuação: “...o pós-modernismo pode ser tomado não só como um processo de crítica aos paradigmas estabelecidos anteriormente, mas como um movimento que delineia, mesmo inadvertidamente, novos parâmetros quanto à produção de conhecimento” (MARCZAL, 2016, p. 188, grifo do autor). • As principais críticas pós-modernas que refletiram na Historiografia foram: a crítica à crença da História próxima da ciência como lugar de verdade; o abandono as metanarrativas e os grandes esquemas teóricos explicativos; crítica ao sentido teleológico dado por alguns paradigmas teóricos; desvalorização da objetividade em detrimento da objetividade. É também com a crise dos paradigmas que movimentos como a luta antirracista, o feminismo, os movimentos pós-colonialista, a valorização de culturas e pontos de vista não ocidentais, colocaram em dúvida toda a solidez do pensamento moderno, abrindo espaço nas sociedades para debater questões até então pouco comentadas. • A crítica a objetividade e a verdade é essencial para Nietzsche. A busca pela objetividade e verdade era, para ele, o grande problema da cultura ocidental em seu projeto. Dois de seus textos são importantes para compreendermos a relação entre História e pós-modernidade: Sobre verdade e mentira no sentido extramoral e Segunda consideração intempestiva: da utilidade e desvantagem da história para a vida. • No primeiro texto, ele questionou o sentido da verdade e da ciência como pressupostos para a realidade. Para Nietzsche a verdade seria uma construção feita a partir da realidade, e não algo realmente verdadeiro. Essa colocação retira o caráter inquestionável das coisas, consideradas construções humanas feitas a partir da apreensão da realidade. A verdade como conhecimento definitivo é uma criação audaciosa e hipócrita, uma parte pequena do que ele chama de “história universal”. Essa forma relativista de encarar a verdade propiciou uma profunda crítica e questionamento sobre a cultura ocidental, sintetizada na modernidade. Figura 21: Friedrich Nietzsche Fonte: https://bit.ly/3q9Y7kg Acesso em 20 nov. 2020 NIETZSCHE • Em relação ao segundo texto, da Segunda consideração extemporânea, Nietzsche tratou das possibilidades que a História traz ao conhecimento. Se considerarmos que o conhecimento é uma construção que parte de um sujeito, para o filósofo a História encontrava exatamente aí seu grande problema. O historiador, ao exercer sua subjetividade na produção do que ele supõe ser o conhecimento, não considera a sua subjetividade. Sempre existiriam intenções, visões e interpretações parciais, que trariam algo longe do conhecimento em si. A História então acabaria servindo a intenções. Mais que se referir ao real, criaria um verniz social, legitimador de um discurso, que na visão de Nietzsche, corresponderia ao da modernidade. • Nietzsche não negava a possibilidade da construção de um conhecimento do passado, mas entendia que esse modelo de construção calcado na verdade objetiva e na crença na ciência não seria capaz de expressá-lo. Era na arte que ele apontaria o formato ideal para a construção de sentido acerca do passado. Por fim, o filósofo em suas críticas entendia que a noção de progresso era uma atribuição de sentido, realizada pelo projeto da modernidade como uma construção realizada para justificar suas ações e existência. • O segundo filósofo em questão é Michael Foucault. Para compreender sua importância para a História serão apontadas duas obras. O primeiro é o livro A ordem do discurso, e o segundo é texto Nietzsche: a genealogia e a história. Em A ordem do discurso, Foucault não se refere diretamente a História. Seu texto é fundamental para o pensamento pós- moderno pois demonstra a importância da relação entre discurso e poder no estabelecimento das sociedades. Para Foucault, os discursos e as estruturas de poder se confundiriam, e, através deles exerceriam controle sobre a sociedade. • Mas como Foucault é importante para a Historiografia? Se pensarmos que por muito tempo a História foi produzida com intenção de validar projetos políticos ou de estado, ou quando legitima práticas como o racismo, ou reflete a imposição de poder por parte da cultura ocidental, dentre outras possibilidades, essa afirmação passa a fazer sentido. Ou seja, o discurso Histórico, além de não ser um conhecimento que expressa à verdade e é permeado de subjetividade, e reproduz e realiza expressões de poder. Figura 3: Michel Foucault FOUCAULT • O segundo texto, Nietzsche: a Genealogiae a História, Foucault parte do mesmo sentido crítico do filósofo alemão à História antiquarista. Para tal, propõe o uso da ideia de genealogia, muito desenvolvida no pensamento nietzschiano, e que se refere a um estudo e entendimento da origem. Dessa maneira, as proposições de Foucault para a História também são críticas a ideia de totalidade, de desenvolvimento e de evolução:” A genealogia não se opõe à história como a visão altiva e profunda do filósofo ao olhar de toupeira do cientista; ela se opõe, ao contrário, ao desdobramento meta-histórico das significações ideais e das indefinidas teleologias. Ela se opõe a pesquisa da “origem”.”(FOUCAULT, 1993, p. 17) • Como pesquisar e produzir conhecimento em História? Diferente de Nietzsche, que apenas teceu críticas e sugeriu que a arte, principalmente a música, poderia expressar melhor o passado que qualquer historiador, Foucault de fato pesquisou e produziu estudos sobre o passado. Para ele, a História deveria ser heterogênea, composta por um feixe de relações, e não a busca ilusória da existência encadeada de uma identidade entre um sujeito e o mundo. Dessa maneira, o historiador não deve procurar sentidos ocultos, mas um campo heterogêneo onde o acontecimento marca os encontros (CALDAS, 2011). • Para Barthes, a representação pode ser compreendida como algo que se apresenta no lugar de uma determinada coisa para enquadrá-la num sistema de linguagens, que interpreta, interfere e atua sobre a realidade. A preocupação do pensador francês está mais na forma da escrita do que relacionada ao que ela pretende comunicar. • No caso da História, a escrita seria uma forma de representar o passado. Em seu texto “O discurso da história”, Barthes (2004) faz uma análise a partir do discurso de historiadores clássicos como Maquiavel, Bossuet, Michelet e Heródoto. Segundo o autor: [...] a narrativa dos acontecimentos passados, submetida comumente, em nossa cultura, desde os gregos, à sanção da “ciência” histórica, colocada sob a caução imperiosa do “real”, justificada por princípios da exposição “racional”, essa narração difere realmente, por algum traço específico, por uma pertinência indubitável, da narração imaginária, tal como se pode encontrar na epopeia, no romance, no drama? (BARTHES, 2004, p. 164). BARTHES E AS REPRESENTAÇÕES Ao considerar a escrita como representação do passado e não a realidade, Barthes afirma existirem três formas clássicas que o historiador usa para dar sentido ao seu discurso, apresentados nesse mesmo texto: A do ouvinte, aquele que observa, legitima e atesta o discurso, referente a toda a escuta do historiador, possível por fontes e testemunhas. Do tempo da escrita e da enunciação histórica em relação ao tempo do ocorrido, objetivo e crônico, que levou a ação. Assim Barthes acredita que não existe uma narrativa do real, mas sim um efeito do real; E por fim, o terceiro tipo que remete ao próprio enunciador, e que denota a subjetividade, que no discurso histórico apresenta-se normalmente como ausente, como um observador externo. E onde é possível encontrar a objetividade no discurso do historiador? Para Barthes, ela se torna impossível, pois ao ser ouvinte, criar um tempo como artifício ou se pretender analítico pela ausência do discurso, o historiador cria uma espécie de “efeito do real”, onde apesar do leitor ter a nítida experiência de se transportar no tempo, se depara com uma espécie de truque realizado pela sua linguagem. Segundo Caldas, para Barthes: “ nenhuma história da historiografia seria possível se não se estudasse antes a maneira como a linguagem se estrutura.” (CALDAS, 2011, p. 129) • Durante o século XX um movimento conhecido como virada linguística modificou a estrutura de diversos campos do saber, a partir de autores como Ferdinand de Saussure, Leopold Wittgenstein, Martin Heidegger, Roland Barthes, Gilles Deleuze, Jacques Derrida, Lacan, Nietzsche e Foucault. Com foco na relação entre filosofia e linguagem, a virada linguística foi um momento em que passou-se a entender a linguagem como lugar onde a realidade se efetiva, capaz de criar, reproduzir e efetivar estruturas e não uma projeção que nomeia os elementos da realidade. A reavaliação da relação entre linguagem e realidade é compreendia pela impossibilidade de atingi-la. É a linguagem que torna o mundo compreensível e através dela concretizamos nossas ideias. • Para a História, o estadunidense White (1995) é considerado uma voz importante da pós-modernidade através de sua obra Meta-história: a imaginação histórica do século XIX. Fundamentalmente, o historiador buscou aproximar História e Literatura, baseado na ideia de que se a História era subjetiva e correspondia a um ato de criação do historiador, ela consequentemente tinha aspectos ficcionais da mesma forma que tem a literatura. Segundo ele, a história é “[...] uma estrutura verbal na forma de um discurso narrativo em prosa” (WHITE, 1995, p. 11) HAYDEN WHITE • Outro ponto é que para White uma abordagem histórica digna não deveria se preocupar em criar identidades nacionais ou ser um repositório de modelos para o aprendizado no futuro. Junto com a pós-modernidade, não só a busca por estruturas narrativas que dessem conta de explicar a realidade como um todo através de um sentido, mas também funções normalmente atribuídas a História foram questionadas. • A esse historiador que surge no século XIX, de acordo com White (1995), era atribuído o papel de eliminar a distância entre o passado e o presente através de um recurso poético, e não por meio de método ou conceito. O recurso utilizado seria então o da metáfora, que cria uma semelhança entre o passado e o presente, tornando-o inteligível (CALDAS, 2011). Figura 4: Hayden White Pode-se afirmar que a pós-modernidade em sua crítica ao modelo historiográfico, principalmente aquele do século XIX, ajudou a modificar a relação entre historiador, leitor e texto. Esses não se dariam mais numa busca pela verdade, numa explicação estrutural ou como o lugar de aprendizado. Mas a História, ao ser aproximada da literatura e do discurso, perderia a sua função e se tornaria apenas arte? CONCLUSÃO