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PLANEJAMENTO URBANO E AMBIENTAL OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM > Relacionar os indicadores de qualidade ambiental mais utilizados na análise e no planejamento dos centros urbanos. > Identificar os aspectos ambientais que mais necessitam de intervenção nos centros urbanos. > Reconhecer o impacto dos indicadores de qualidade ambiental na tomada de decisão no planejamento urbano. Introdução Melhorar a qualidade de vida nas cidades está se tornando uma questão cada vez mais crítica para o planejamento urbano. O aumento das populações urba- nas em todo o mundo, causado pelo rápido crescimento populacional e pelos processos de urbanização, torna a qualidade de vida urbana relevante para cada vez mais pessoas. Indicadores de qualidade ambiental aplicados ao planejamento urbano Ana Carla Fernandes Gasques A qualidade de vida urbana é um conceito complexo e multidimensional e vem sendo amplamente utilizado. O conhecimento das cidades e da qualidade de vida é crucial para o planejamento urbano e, para isso, são adotados indi- cadores de qualidade ambiental. Assim, frente ao apresentado, neste capítulo você vai estudar os indicadores de qualidade ambiental e o planejamento urbano, principais aspectos ambien- tais que demandam intervenção e, por fim, a importância dos indicadores para a tomada de decisão. Espero que você esteja ansioso para começar a ler, fique à vontade, aproveite e vamos juntos! Relação entre indicadores de qualidade ambiental e o planejamento urbano Existem muitas razões para desenvolver estudos sobre a qualidade ambiental urbana. No começo do século XX, as cidades detinham 10% da população do mundo. Entretanto, após a Revolução Industrial e, consequentemente, a evolu- ção tecnológica, as cidades começaram se desenvolver e, portanto, expandir. A população urbana global cresceu de 751 milhões em 1950 para 4,2 bi- lhões em 2018 (PATIL; SHARMA, 2022). Nesse cenário, o conceito de qualidade ambiental urbana vem ganhando importância, principalmente ao considerar que, hoje, mais de 50% da população mora em áreas urbanas; esse número pode chegar a 68% em 2050 (THONDOO et al., 2020). Sabe-se que as cidades e áreas circundantes estão entre os tipos de uso da terra que mais crescem em todo o mundo. Entretanto, as características ambientais das áreas urbanas podem afetar fortemente a qualidade de vida dos cidadãos. Por isso, um dos tópicos mais debatidos na literatura de econo- mia ambiental é a relação entre crescimento urbano, degradação ambiental e qualidade de vida (LI et al., 2021). A qualidade de vida (QV) é um conceito amplo, sujeito a um sistema com- plexo influenciado por saúde física, estado psicológico, grau de dependência e relações sociais, bem como pelas características proeminentes do ambiente. Pode ser avaliada, também, a partir de vários fatores que vão desde as con- dições de vida e emprego até a experiência de vida. Em geral, é representada por um conjunto múltiplo de indicadores, como renda, taxa de privação, escolaridade, taxa de emprego, expectativa de vida, qualidade do ar, etc. (SAPENA et al., 2021). Indicadores de qualidade ambiental aplicados ao planejamento urbano2 O conceito de QV, como reflexo integral do censo pessoal de saúde, inclui todos os fatores que contribuem para a satisfação humana e é amplamente influenciado pela qualidade social, econômica e ambiental da cidade. A Organização Mundial da Saúde (OMS) define qualidade de vida como a percepção de um indivíduo sobre sua posição na vida no contexto da cultura e dos sistemas de valores em que vive e em relação a seus objetivos, expectativas, padrões e preocupações (WHO, 2023). Além disso, Seidl e Zannon (2004) fizeram uma revisão de literatura sobre o termo qualidade de vida (Qualidade de vida e saúde: aspectos conceituais e metodológicos) e identificaram, a partir do estado da arte da definição, que esse termo está consolidado como uma variável fundamental para a prática clínica e a formação de conhecimento na área da saúde. Vale a pena a leitura completa! O padrão de vida em um cenário urbano deve ser entendido como uma representação do bem-estar dos habitantes em termos de satisfação de suas necessidades ou de até que ponto o indivíduo ou o coletivo percebem a satisfação nos diferentes aspectos da vida urbana. As cidades podem desem- penhar um papel vital na criação de um senso de subsistência e, de fato, têm um papel na formação do estilo de vida e da qualidade de vida dos residentes. A forma como as cidades são organizadas influencia decisivamente no modo de vida da população e interfere nos hábitos a serem construídos. Dentre os diversos fatores que influenciam na qualidade de vida e na sustentabilidade, pode-se citar como exemplos: a mobilidade escolhida, o tamanho da pegada ecológica, a proximidade de serviço públicos, a distri- buição de empregos e o acesso a áreas de lazer (SAPENA et al., 2021). Nesse contexto, a estrutura espacial das áreas urbanas desempenha um papel importante na vida cotidiana dos moradores. Entretanto, dados os recursos limitados, os formuladores de políticas precisam encontrar a maneira mais eficiente de distribuí-los de acordo com as necessidades e prioridades das pessoas. Algumas organizações avaliam e classificam cidades em todo o mundo com base em indicadores de qualidade ambiental. A base de conhecimento em todo o mundo está se expandindo em um ritmo incrível. Um desses setores, que passou por uma rápida transformação durante as últimas décadas, é o desenvolvimento de indicadores de quali- dade urbana baseados em informações, os quais tornaram mais fácil para os Indicadores de qualidade ambiental aplicados ao planejamento urbano 3 profissionais do ambiente construído concluírem com sucesso e eficiência enormes tarefas de planejamento urbano. É importante citar que uma ferramenta de avaliação que combina indi- cadores físicos, químicos e biológicos em uma única avaliação unificada é extremamente rara. Muito mais comuns são os casos em que vários indicadores são simplificados individualmente e apresentados como um grupo, cabendo aos gestores decidirem qual é o mais importante (BECK et al., 2019). Do ponto de vista relacionado à teoria e à metodologia, os indicadores se caracterizam essencialmente por três aspectos: relação entre crescimento e controle social, dimensões particulares e representação essencialmente numérica do indicador (NAHAS, 2022). Ainda segundo Nahas (2002, p. 25), “a partir de sua formulação e uso nas avaliações de progresso e desenvolvi- mento, bem como na formulação de políticas governamentais, tais indicadores foram alvo de críticas e polêmicas diversas”. Dessa forma, conseguir definir uma única escala para indicadores de qualidade ambiental fornece um contexto direto para comparar uma decisão à outra, para classificar ações de gerenciamento e para monitorar melhorias após a implementação de ações de gerenciamento (ou monitorar a degradação potencial onde as ações de gerenciamento não são implementadas). Indicadores são representações simbólicas (p. ex., números, símbolos, gráficos, cores) projetadas para comunicar uma propriedade ou tendência em um sistema ou entidade complexa (MOLDAN; DAHL, 2002). Diferentes indicadores de qualidade ambiental vêm sendo construídos e aplicados no planejamento urbano, como os propostos por Nahas (2002). Esse conjunto de indicadores foi denominado Índice de Qualidade de Vida Urbana (IQVU) e será abordado aqui devido à variedade de aspectos considerados em sua construção. Índice de Qualidade de Vida Urbana O IQVU analisa 11 variáveis, as quais são decompostas em componentes, e, a partir destes, definem-se os indicadores a serem analisados para cada variável, conforme apresentado no Quadro 1, a seguir (NAHAS, 2002). Indicadores de qualidade ambiental aplicados ao planejamento urbano4 Quadro 1. Variáveis, componentes, indicadores e unidade de medida do Índice de Qualidade de Vida Urbana Variáveisselecionadas Componentes Indicadores adotados Unidade de medida 1. Abastecimento alimentar 1.1 Equipamentos de abastecimento 1.1.1 Hiper e supermercados 1.1.2 Mercearias e similares 1.1.3 Restaurantes e similares m²/hab 1.2 Cesta básica 1.2.1 Economia de compra Valor médio da cesta básica na cidade - menor valor na UP 2. Assistência social 2.1 Equipamentos 2.1.1 Entidades de assistência social nº / hab 3. Cultura 3.1 Meios de comunicação 3.1.1 Abrangência Tiragem de publicações locais/ hab 3.2 Patrimônio cultural 3.2.1 Bens tombados Nº de bens tombados /UP 3.2.2 Grupos culturais Nº grupos culturais / hab 3.3 Equipamentos CULTURAIS 3.3.1 Distribuição/ equipamento Nº equipamentos/ hab 3.3.2 Frequência a cinemas, bibliotecas e museus Público/hab 3.3.3 Livrarias e papelarias m²/hab 3.4 Programações artístico- culturais 3.4.1 Oferta de atividade Nº. de atividades/ hab 3.4.2 Frequência às atividades público/hab (Continua) Indicadores de qualidade ambiental aplicados ao planejamento urbano 5 Variáveis selecionadas Componentes Indicadores adotados Unidade de medida 4. Educação 4.1 Pré-escolar 4.1.1 Ingresso pré-escola Taxa de matrícula 4.1.2 Tamanho/ turmas Nº turmas/alunos 4.2 Primeira à quarta séries 4.2.1 Matrícula 1ª a 4ª séries Taxa de matrícula 4.2.2 Tamanho/ turmas Nº turmas/alunos 4.2.3 Índice de aproveitamento Taxa de aprovação final 4.3 Quinta à oitava séries 4.3.1 Matrícula 5ª a 8ª séries Taxa de matrícula 4.3.2 Tamanho/ turmas Nº turmas/alunos 4.3.3 Índice de aproveitamento Taxa de aprovação final 4.4 Segundo grau 4.4.1 Matrícula no 2º grau Taxa de matrícula 4.4.2 Tamanho/ turmas Nº turmas/alunos 4.4.3 Índice de aproveitamento Taxa de aprovação final 5. Esportes 5.1 Equipamentos esportivos 5.1.1 Clubes e congêneres m2 de equipamentos/hab 5.1.2 Quadras, piscinas e campos Nº de equipamentos/hab 5.2 Promoções esportivas 5.2.1 Oferta de atividades Nº eventos esportivos/hab 5.2.2 Abrangência/ atendimento Público/hab (Continua) (Continuação) Indicadores de qualidade ambiental aplicados ao planejamento urbano6 Variáveis selecionadas Componentes Indicadores adotados Unidade de medida 6. Habitação 6.1 Qualidade da habitação 6.1.1 Área residencial/IPTU m²/hab 6.1.2 Padrão de acabamento Nota/acabamento moradias 6.1.3 Espaço interno Nº dormitórios/ pessoa 7. Infraestrutura urbana 7.1 Limpeza urbana 7.1.1 Coleta de lixo "Nota"/UP7.1.2 Varrição 7.1.3 Capina 7.2 Saneamento 7.2.1 Disponibilidade/ água tratada Taxa de ruas com rede de água 7.2.2 Frequência/ fornecimento de água Taxa da UP com fornecimento contínuo 7.2.3 Disponibilidade de rede de esgoto Taxa da UP com rede de esgoto 7.3 Energia elétrica 7.3.1 Fornecimento de energia elétrica Taxa da UP com rede elétrica 7.3.2 Iluminação pública Taxa da UP com iluminação pública 7.4 Telefonia 7.4.1 Rede telefônica Taxa de ruas com rede telefônica 7.4.2 Qualidade/ ligações Taxa de descon- gestionamento das linhas telefônicas 7.5 Transporte coletivo 7.5.1 Possibilidade de acesso Taxa de pavimentação 7.5.2 Conforto Idade média da frota 7.5.3 Nº de veículos Nº de veículos/hab (Continua) (Continuação) Indicadores de qualidade ambiental aplicados ao planejamento urbano 7 Variáveis selecionadas Componentes Indicadores adotados Unidade de medida 8. Meio ambiente 8.1 Conforto acústico 8.1.1 Tranquilidade sonora Nº ocorrências/hab 8.2 Qualidade do ar 8.2.1 Ausência/ coletivos poluidores Taxa de veículos não autuados 8.3 Área verde 8.3.1 Extensão/ cobertura vegetal Taxa da UP com cobertura vegetal 9. Saúde 9.1 Atenção à saúde 9.1.1 Disponibilidade/ leitos Nº leitos/hab 9.1.2 Postos de Saúde Nº de postos/hab 9.1.3 Outros equipamentos de assistência médica m2/hab 9.1.4 Equipamentos odontológicos 9.2 Vigilância à saúde 9.2.1 Peso ao nascer Taxa de nascidos peso normal 9.2.2 Sobrevivência até 1 ano Taxa de sobrevivência até 1 ano 10. Segurança urbana 10.1 Serviços pessoais 10.1.1 Agências bancárias Nº agências/hab 10.1.2 Pontos de táxi Nº pontos/hab 10.1.3 Postos de Gasolina m2/hab 10.2 Serviços de comunicação 10.2.1 Correios Nº agências/hab 10.2.2 Bancas de revistas Nº bancas/hab 10.2.3 Telefones públicos Nº aparelhos/hab (Continua) (Continuação) Indicadores de qualidade ambiental aplicados ao planejamento urbano8 Variáveis selecionadas Componentes Indicadores adotados Unidade de medida 10. Segurança urbana 10.2 Serviços de comunicação 10.2.4 Funcionamento dos telefones públicos Taxa de aparelhos que não necessitaram de reparos 11. Serviços urbanos 11.1 Atendimento policial 11.1.1 Equipamentos Nº de delegacias, batalhões e companhias/hab 11.1.2 Recursos humanos Efetivo da PMMG/ hab 11.1.3 Viaturas Nº viaturas/hab 11.1.4 Rapidez no atendimento Tempo médio de espera 11.2 Segurança pessoal 11.2.1 Ausência de criminalidade Nº homicídios/hab 11.2.2 Ausência/ tentativas homicídio Nº de tentativas de homicídio/hab 11.2.3 Ausência/ invasões domicílio Nº de violações de domicílio/hab 11.2.4 Ausência de estupros Nº estupros/hab 11.2.5 Possibilidade de segurança Nº. porte ilegal de armas + nº atentados violentos ao pudor + nº lesões corporais/hab 11.2.6 Ausência de roubo [Soma das ocorrências de roubo e roubo a mão armada, a: transeuntes, residências, coletivos, motoristas de táxi e estabelecimentos/ hab] (Continua) (Continuação) Indicadores de qualidade ambiental aplicados ao planejamento urbano 9 Variáveis selecionadas Componentes Indicadores adotados Unidade de medida 11. Serviços urbanos 11.3 Segurança Patrimonial 11.3.1 Ausência de roubo de veículos Soma de ocorrências diversas de roubo e furto de veículos/ hab 11.3.2 Ausência de roubo a moradias e estabelecimento Soma de ocorrências diversas de roubos e furtos a residências e estabelecimentos/ hab] 11.4 Segurança no trânsito 11.4.1 Ausência de acidentes Soma das ocorrências com ou sem vítimas, de: direção perigosa de veículos, abalroamentos, colisões, choques, atropelamentos e capotamentos)/hab 11.4.2 Ausência de acidentes graves Soma das ocorrências com vítimas, de: abalroamentos, capotamentos, choques e colisões)/ hab 11.5 Segurança habitacional 11.5.1 Segurança do terreno “Nota” para grau de predisposição ao risco geológico (a partir da carta geotécnica da cidade) UP: unidades de planejamento. Fonte: Adaptado de Nahas (2002). Por meio da análise dos indicadores e aspectos considerados no exemplo apresentado, entende-se que o planejamento urbano é um processo de tomada de decisão multifacetado e dinâmico, que interfere diretamente na saúde e nos aspectos ambientais dos centros urbanos. (Continuação) Indicadores de qualidade ambiental aplicados ao planejamento urbano10 A fim de exemplificar outros aspectos considerados na análise de indicadores voltados à qualidade ambiental urbana, a International Living Magazine considera nove categorias diferentes, sendo elas: custo de vida, economia, cultura, meio ambiente, liberdade, saúde, infraestrutura, segurança e clima (PATIL; SHARMA, 2022). Aspectos ambientais e intervenção nos centros urbanos A urbanização reduz substancialmente a cobertura vegetal, pois as áreas urbanas costumam ser dominadas por superfícies impermeáveis. A rápida urbanização alterou significativamente as funções do ecossistema e ameaça os serviços ecossistêmicos, como o abastecimento de água potável, a regulação do clima e a emissão de carbono (LI et al., 2020). O planejamento urbano é, então, um processo de tomada de decisão multifacetado e dinâmico, já que a saúde ambiental é afetada em grande medida pelas condições ambientais. Desde a década de 1950, o número de habitantes urbanos em todo o mundo não mostra sinais de parar, pois o fluxo de pessoas que se mudam para as cidades aumenta, e novos municípiosestão sendo desenvolvidos. A população urbana global cresceu de 751 milhões em 1950 para 4,2 bilhões em 2018; isso se deve ao crescimento populacional geral e à migração das áreas rurais. Esse crescimento aumentou a pressão sobre habitação, infraestrutura urbana e serviços públicos (PATIL; SHARMA, 2022). E, com população chegando à cidade, demandas básicas aumentam; a habitação, em particular, crescerá juntamente com outras infraestruturas, como instalações de tratamento de águas residuais, eliminação de resíduos sólidos, área industrial e muitos outros paradigmas de desenvolvimento urbano. Este é o ponto em que um planejamento cuidadoso é crucial para evitar a absorção maciça de recursos apenas para atender à demanda insaciável. Diferentes aspectos ambientais estão associados com os centros urbanos, como veremos a seguir. A urbanização afeta a intensidade, a quantidade e os padrões espaciais de precipitação dentro e ao redor de áreas urbanas. Além disso, em áreas urbanas tem-se: Indicadores de qualidade ambiental aplicados ao planejamento urbano 11 Remoção da cobertura do solo, que atua como fonte de calor com temperaturas mais altas em comparação com regiões não urbanas, criando ilhas de calor urbanas que intensificam a precipitação por meio de instabilidade adicional e maior transporte de umidade; as emissões urbanas produzem aerossóis que aumentam os núcleos de condensação das nuvens ; e estruturas urbanas funcionam como impedimentos ao movimento atmosférico e criar redemoinhos com difusão de esteira que resultam em aumento da precipitação (Li et al., 2021, p. 100907). Outro ponto de destaque diz respeito ao aumento na produção industrial e agrícola, as quais são caracterizadas pela intensa utilização de compostos químicos sintéticos. Esses componentes são os principais responsáveis pela degradação da qualidade dos corpos hídricos. Uma séria preocupação para planejadores e gestores urbanos é em relação à qualidade das águas superficiais de uma região, que tem origem em função de fatores naturais (precipitação, clima, fisiografia da bacia, erosão do solo, dentre outros). Os fatores antrópicos, como águas residuais residenciais e industriais, são uma fonte poluidora constante em áreas urbanas, enquanto fatores naturais, como chuvas, escoamento superficial e nível das águas subterrâneas, são fenômenos sazonais afetados principalmente pelo clima. O lançamento de poluentes causa poluição orgânica generalizada, poluição tóxica e eutrofização, juntamente com destruição ecológica severa (GHOLI- ZADEH; MELESSE; REDDI, 2016; WANG; YANG, 2016). O processo de urbanização desenfreado tem causado, também, severa poluição do ar, principalmente nas áreas metropolitanas com atividades humanas mais concentradas e complicadas, o que prejudica a sustentabi- lidade urbana. As atividades humanas liberam uma gama de emissões no meio ambiente, incluindo dióxido de carbono, monóxido de carbono, ozônio, óxidos de enxofre, óxidos de nitrogênio, chumbo e muitos outros poluentes (UTTARA; BHUVANDAS; AGGARWAL, 2012). A exposição à poluição do ar tem sido associada a muitos problemas de saúde, incluindo asma infantil, agra- vamento da asma, função pulmonar prejudicada, hospitalização, atividade física limitada e doença cardiovascular (SUN et al., 2023). Menos abordada, a poluição sonora e visual em espaços urbanos também é um importante problema ambiental que tem efeitos adversos à saúde. A exposição prolongada ao ruído pode causar uma variedade de efeitos à saúde, incluindo aborrecimento, distúrbios do sono, efeitos negativos no sistema cardiovascular e metabólico, bem como comprometimento cogni- tivo em crianças (PERIS, 2020). Já a poluição visual pode provocar dores de cabeça, fadiga e náuseas em pessoas sensíveis ou com problemas oculares preexistentes, como degeneração macular (PASHA, 2021). Indicadores de qualidade ambiental aplicados ao planejamento urbano12 Provavelmente, a maioria dos grandes problemas ambientais do próximo século resultará da continuação e agudização de problemas existentes que atualmente não recebem atenção política suficiente. As questões mais emer- gentes são as mudanças climáticas, escassez de água doce, desmatamento e poluição da água doce e crescimento populacional. Esses problemas são muito complexos e suas interações são difíceis de definir. É muito importante examinar os problemas por meio do sistema socioeconômico e cultural (UT- TARA; BHUVANDAS; AGGARWAL, 2012). Nesse cenário, as avaliações de impacto ambiental (AIAs) são ações desen- volvidas que permitem a identificação e avaliação sistemática dos impactos potenciais de projetos, planos, programas ou ações legislativas propostas em relação aos componentes físicos, químicos, biológicos, culturais e socio- econômicos do ambiente total (CANTER, 1996). O principal objetivo do processo de AIA é encorajar a consideração do meio ambiente no planejamento e na tomada de decisão para, finalmente, chegar a ações que sejam mais compatíveis com o meio ambiente. A análise de aspectos ambientais nas intervenções urbanas a partir da AIA é utilizada há muitas décadas em todo o mundo, pois permite a identificação de possíveis efeitos no meio ambiente antes que decisões sobre alternativas de projetos possam ser tomadas. Um modelo de indicadores de qualidade ambiental, então, pode revisar objetivamente com antecedência as principais informações de status necessárias, bem como apoiar a previsão de impacto ambiental e definir medidas de redução e outros detalhes relevantes já na fase de planejamento (AN et al., 2023). Entretanto, para que seja eficaz, a avaliação de impacto deve ser incorpo- rada nas fases iniciais e fluir ao longo de todos os procedimentos de plane- jamento, especialmente quando a gestão de recursos e a decisão de uso da terra são consideradas. É essencial alcançar um desenvolvimento holístico das áreas urbanas para proporcionar uma qualidade de vida satisfatória aos residentes. O desenvolvimento holístico de uma área urbana constitui crescimento econômico, amenidades básicas satisfatórias, ambiente seguro e habitável e bem-estar da sociedade (PATIL; SHARMA, 2022). O sistema de planejamento urbano é fundamental para um país saudável e desenvolvido porque determina a qualidade do ambiente construído que, ao mesmo tempo, contribuirá para a saúde e a qualidade de vida dos ocupantes. Ademais, a aspiração ideal no planejamento urbano é criar centros urbanos bem projetados e bem governados, onde padrões de vida de qualidade e menor impacto ao meio ambiente possam se unir. Indicadores de qualidade ambiental aplicados ao planejamento urbano 13 Importância dos indicadores para a tomada de decisão No contexto apresentado até aqui, entende-se que os indicadores de qua- lidade ambiental vêm ganhando destaque. Isto deve-se, principalmente, às consequências da urbanização, que impactam tanto o meio ambiente quanto a vida das pessoas. Nesse cenário, os indicadores de qualidade de vida urbana permeiam aspectos de qualidade de vida e de qualidade ambiental. E ambos os aspectos são de difícil mensuração e interpretação. O desafio mais difícil enfrentado pelos formuladores de políticas é decidir os rumos futuros da sociedade e da economia diante de requisitos muitas vezes conflitantes para sucesso político de curto prazo, crescimento econômico, progresso social e sustentabilidade ambiental. Decisões erradas podem trazer consequências pesadas, aumentar o sofrimento humano e até precipitar cri- ses. Melhorar a base para uma tomada de decisão sólida, integrando muitas questões complexas enquanto fornece sinais simples que um tomador de decisão ocupado pode entender é uma alta prioridade (MOLDAN; DAHL, 2007). Padrões relacionados a sustentabilidade ambiental, social e econômica interagem em várias dimensões de um ambiente urbano. O crescimento populacional exacerbado desencadeia uma ênfase em melhores estratégias de gestão de recursos, abordandoo equilíbrio entre oferta e demanda nos setores de alimentos, energia e água, considerando o desenvolvimento social e econômico (VALENCIA; QIU; CHANG, 2022). A urbanização traz consigo uma série de desafios ambientais para o am- biente local, regional e mais amplo como resultado direto das mudanças bioquímicas e físicas dos sistemas hidrológicos (MILLER et al., 2014). Entretanto, apesar da dificuldade, compreender a tendência de crescimento urbano de uma cidade e os cenários de mudança ambiental associados é necessário para garantir a qualidade de vida da população urbana, sustentando a saúde do ecossistema. O uso da expressão “qualidade de vida”, então, remete a um conjunto de fatores relacionados à saúde e ao bem-estar associado às consequências negativas da urbanização, tal como desigualdade social (NAHAS, 2002). Nesse contexto, Os indicadores ambientais são pensados como “instrumentos a serem inseridos nos processos de tomada de decisões na esfera do planejamento, remetendo, portanto, à formulação e avaliação de políticas públicas, da mesma forma que ocorreu com os indicadores sociais” (NAHAS, 2002, p. 28). Indicadores de qualidade ambiental aplicados ao planejamento urbano14 O conceito de qualidade de vida, dessa forma, está em uma gama de con- textos, como bem-estar social, ciência política, educação, desenvolvimento internacional, ambiente construído e saúde. Os princípios da sustentabilidade urbana influenciam no desenvolvimento metropolitano sustentável no que diz respeito aos aspectos sociais, econômicos e ambientais. Uma das ferramentas eficazes na tomada de decisão no planejamento urbano envolve a utilização de uma série de indicadores. Os indicadores têm tanto uma função descritiva, que se expressa na possi- bilidade de avaliar um estado ou resultados de mudanças potenciais, quanto uma função normativa, que permite a expressão de julgamentos de valor (SOWIŃSKA-ŚWIERKOSZ; SOSZYŃSKI, 2022). Ainda segundo Sowińska-Świerkosz e Soszyński (2022), outro ponto im- portante a ser destacado é que a eficácia dos indicadores para a tomada de decisão depende fortemente de cada item analisado e da forma de aplicação. De forma similar, é importante ressaltar que cada escala espacial considerada (país, estado, município, bairro) requer considerações separadas ao se obter conclusões sobre a ordem espacial e elaborar índices relevantes. Os indica- dores mais assertivos são aqueles que capturam as características essenciais do planejamento urbano e mostram uma trajetória cientificamente verificável de manutenção ou melhoria nas funções do sistema (MOLDAN; DAHL, 2002). O atual quadro político para garantir a qualidade de vida dos habitantes, não deixando ninguém para trás, leva os decisores a procurarem mecanismos para terem escolhas mais informadas para o planejamento sustentável dos espaços urbanos. A qualidade de vida e o desenvolvimento sustentável das zonas urbanas e periurbanas dependem da gestão bem-sucedida do seu crescimento, e ambos são objetivos comuns em cidades ao redor do mundo (SAPENA et al., 2021). O entendimento resultante da análise de indicadores pode contribuir, por diferentes motivos, para uma gestão urbana mais adaptativa, partindo do pressuposto de que os indicadores servem, também, como mecanismos de monitoramento e sinalização (Figura 1). Indicadores de qualidade ambiental aplicados ao planejamento urbano 15 Figura 1. Principais pontos sobre a importância dos indicadores no processo de tomada de decisão. POR QUE UTILIZAR INDICADORES PARA TOMADA DE DECISÃO? Identificar aspectos relevantes a serem analisados Mapear pontos críticos a serem melhorados Conseguir visibilidade do processo atual Dar visibilidade aos envolvidos Acompanhar tendências e mudanças Acompanhar a evolução das decisões tomadas Promover melhoria contínua a partir da análise de dados Ter mais assertividade ma tomada de decisão Monitorar e acompanhar fatores críticos identificados Medir desempenho Fornecer informações embasada em dados Obter dados reais para análise Indicadores de qualidade ambiental aplicados ao planejamento urbano16 A Figura 1 apresenta uma visão geral dos principais motivos para implan- tação de indicadores na tomada de decisão. Para além dos benefícios, para serem eficazes, os indicadores devem ser críveis (cientificamente válidos), legítimos aos olhos dos usuários e das partes interessadas e salientes ou relevantes para os tomadores de decisão. Corroborando com o supracitado, o ponto de interseção entre a decisão de planejamento e a proteção ambiental determina a eficácia dessa avaliação de impacto, porque o momento em que esses dois componentes significativos se unem define todo o propósito, o escopo e o resultado da avaliação (MILLER et al., 2014). O esforço em introduzir indicadores de qualidade ambiental decorrentes do desenvolvimento urbano continua se expandindo e avançando. Abordagens como a avaliação do ciclo de vida, a análise multicritério e outras avaliações descritivas e qualitativas também podem ser consideradas como abordagens para a avaliação integrada do impacto na saúde ambiental (SHAFIE; OMAR; KARUPPANNAN, 2013). Vimos a importância dos indicadores para acompanhamento da qualidade ambiental relacionada ao planejamento urbano. Que tal ver uma análise prática? A Prefeitura de Belo Horizonte contou com diferentes profissionais para defi- nição de 158 indicadores para acompanhar as metas relacionadas aos objetivos do desenvolvimento sustentável. A fim de divulgar e sensibilizar a população, produziram o Relatório de Acompanhamento com dados de 2020. Bacana, não é mesmo? (BELO HORIZONTE, 2020). O uso de indicadores para monitoramento da qualidade de vida nos cen- tros urbanos é imperativo para a tomada de decisão, e a escolha de quais indicadores serão adotados precisa partir de critérios estabelecidos com base no contexto local. Entende-se, por fim, que as análises da qualidade urbana geralmente se concentram na aplicação de metodologias que buscam avaliar os objetivos de qualidade nos níveis ambiental, urbano e de construção a fim de subsidiar a tomada de decisão no planejamento urbano. Frente ao apresentado, gestores de um modo geral, independentemente da área de atuação, constantemente tomam decisões, e, para que estas sejam mais assertivas, é fundamental identificar os aspectos que necessitam de intervenção. A partir disso, deve-se propor indicadores para monitoramento e controle das ações definidas. Em função disso, o conhecimento acerca dos Indicadores de qualidade ambiental aplicados ao planejamento urbano 17 indicadores, suas aplicabilidades e importância para a tomada de decisão no planejamento urbano é imprescindível. Referências AN, J. et al. Decision support algorithm for efficient environmental impact assessments: focusing on aquatic environment assessment in south Korea. Environmental Impact Assessment Review, v. 100, p. 107067, 2023. BECK, M. W. et al. The stream quality index: a multi-indicator tool for enhancing environ- mental management. Environmental and Sustainability Indicators, v. 1-2, p. 100004, 2019. BELO HORIZONTE. Prefeitura. 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No entanto, a rede é extremamente dinâmica; suas páginas estão constantemente mudando de local e conteúdo. Assim, os edito- res declaram não ter qualquer responsabilidade sobre qualidade, precisão ou integralidade das informações referidas em tais links. Indicadores de qualidade ambiental aplicados ao planejamento urbano 19