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ti As falhas de rejeito direcional constituem uma importante classe de falhas, estu- dada há mais de 100 anos. As primeiras falhas desse tipo a despertar a atenção dos pesquisadores localizam-se na Califórnia (EUA),no Japão e na Nova Zelândia, onde longas falhas de rejeito direcional e com deslocamentos consideráveis atingem a superfície da Terra. Elas são conhecidas por sua relação com terremotos devastado- res, particularmente na Califórnia e na Turquia. O conhecimento sobre essas falhas e seus regimes tectônicos é, portanto, de interesse público e acadêmico. Neste capítulo, abordaremos os tipos básicos de falhas de rejeito direcional, sua formação e seus contextos tectônicos, e também discutiremos as falhas de transpressão e transtração - deformações tridimensionais que conectam o rejeito direcional com regimes contracionais e extensionais. 448 GeologiaEstrutural 18.1 Falhas de rejeito direcional As falhas de rejeito direcional são falhas cujo vetor de rejeito é paralelo à direção da falha e, portanto, paralelo à superfície terrestre (Fig. 18.1). As zonas de cisalhamento de rejeito direcional são versões mais profundas, dominadas por mecanismos de de- formação plástica; entretanto, há uma tendência de se usar o termo falha de rejeito direcional nos dois casos. As falhas (e as zonas de cisalharrrento) de rejeito direcional têm mergulho tipicamente maior que as demais falhas e podem aparecer como tra- ços retilíneos em mapas geológicos. Curvaturas e ir- regularidades geométricas podem ocorrer, com im- portantes implicações para as estruturas associa- das a falhas de rejeito direcional. As falhas de re- jeito direcional existem em todas as escalas e repre- sentam algumas das mais longas e famosas falhas do mundo. A falha de San Andreas, na Califórnia (EUA),e a falha do Norte da Anatólia, na Turquia, são duas das falhas de rejeito direcional regionais mais famosas e mais temidas do mundo, por causa dos seus terremotos. As FALHAS E AS ZONAS DE CISALHAMENTO DE REJEITO DIRECIONAL TENDEM A TER ALTO ÂNGULO DE MERGULHO - MUITAS sÃo RETILÍNEAS QUANDO VISTAS EM MAPA. Uma falha de rejeito direcional pode ser sinistral (lateral esquerda) ou destral (lateral direita) e, ideal- mente, não envolve movimentos verticais dos blo- cos. Enquanto o rejeito das falhas normais e rever- sas é fortemente limitado pela espessura da crosta, as falhas de rejeito direcional podem estender-se por todo o globo e, ao menos teoricamente, acu- mular uma quantidade infinita de rejeito. As falhas de rejeito direcional global nunca foram encontra- das, e apenas ilustram o fato de que as falhas de rejeito direcional podem, teoricamente, acumular grandes deslocamentos. Famosas falhas e zonas de cisalhamento de rejeito direcional, como a falha Great Glen, na Escócia; a zona Tornquist, no norte da Europa; a falha Billefjorden, em Spitsbergen, No- ruega; a zona de cisalhamento Great Slave Lake, no o Fig. 18.1 Falhas de rejeito direcional puro não causam deslocamento de camadas verticais ou horizontais (A), ou paralelas à direção da falha (B). Portanto, sua identificação apenas a partir de dados sísmicos pode ser difícil. O sentido de movimento mostrado nos esquemas é sinistral 0ateral esquerdo) Canadá; a zona de cisalhamento Nordre Strernfjord, no sul da Groenlândia; e a falha Alpina, na NovaZe- lândia, registram centenas ou milhares de quilôme- tros de deslocamentos laterais, ainda que alguns autores considerem esses rejeitos menores. 18.2 Falhas de transferência As falhas de rejeito direcional têm várias funções cinemáticas e recebem diferentes nomes. As falhas de transferência são falhas de rejeito direcional que transferem deslocamentos de uma falha para outra. Em geral, qualquer tipo de falha que esteja conec- tada a outra falha irá realizar uma transferência de deslocamento, mas este termo é usado especifica- mente para um tipo particular de falha de rejeito o 18 FALHAS DE REJEITO DIRECIONAL, TRANSPRESSÃO E TRANSTRAÇÃO 449 direcional cujas extremidades terminam em outras falhas ou fraturas extensionais. As falhas de trans- ferência são, portanto, limitadas e não podem cres- cer livremente, o que tem implicações na relação rejeito-comprimento. As FALHAS DE TRANSFERÊNCIA TRANSFEREM DESLOCA- MENTOS ENTRE DUAS FALHAS EXTENSIONAIS OU CON- TRACIONAIS POR MEIO DE MOVIMENTOS DE REJEITO DIRE- CIONAL. As falhas de rejeito direcional ocorrem em todas as escalas e podem conectar diversos tipos de es- truturas, tais como fraturas extensionais abertas ou preenchidas por minerais (Fig. 18.2), veios, diques, falhas normais com a mesma direção de mergu- lho (Fig. 18.3A) ou oposta (Fig. 18.4), falhas oblíquas, falhas reversas (Fig. 18.3B), entre outras. Em larga escala, as falhas de transferência deslocam o eixo de riftes continentais, justapondo localmente fa- lhas normais com mergulhos opostos. Nas cadeias meso-oceânicas, os grabens oceânicos também são deslocados por falhas de transferência. Quando as falhas de transferência oceânicas (Fig. 18.5) foram descobertas na década de 1960, elas receberam o nome de falhas transformantes. Fig. 18.2 Falhas de transferência sinistral entre duas fraturas extensionais. Trilha para DelicateArch, Utah, EUA Transcorrência / Reversa Transcorrência Fig. 18.3 Movimentos de transcorrência podem ocorrer ao longode rampas laterais, tanto em contextos extensionais como contracionais. Falhas de rejeitodirecionaldesse tipo são falhas de transferência e podem atingir deslocamentos significativos, com pouca ou nenhuma variação ao longo de sua direção. Cada terminação da falha de transferência é conectada a uma falha extensional ou contracional Fig. 18.4 Falhas de rejeito direcional que conectam hemigrabens de polaridade oposta são um tipo defalha de transferência. Essas falhas são comuns em riftes, como nos sistemas de rifte do leste da África e do Mar do Norte As falhas transformantes são grandes falhas de rejeito direcional (escala quilométrica ou maior) que segmentam ou definem limites de placas. O termo foi usado pela primeira vez em referência 450 Geologia Estrutural Movimento relativo ~8- Sem movimento relativo (inativa) Fig. 18.5 Falha transformante em cadeia meso-oceânica (visão em perspectiva e em mapa). A falha é ativa apenas entre os dois segmentos da cadeia (exceto por pequenos ajustes verticais). O deslocamento é constante ao longo da parte ativa da falha e seu comprimento cresce a uma taxa diretamente proporcional à taxa de espalhamento lateral às muitas falhas de transferência que definem os limites de placas ou deslocam as cadeias meso- -oceânicas (Fig. 18.6). Em outros locais, elas co- nectam cadeias meso-oceânicas com limites des- trutivos de placas (arcos de ilhas; Fig. 18.6B) ou conectam dois segmentos de limites destrutivos de placas (Fig. 18.6C). As falhas transformantes que definem limites de placas podem ser muito longas, particularmente aquelas que ocorrem na crosta con tinen tal. O exemplo mais famoso é a falha de San An- dreas, na Califórnia (EUA),com 1.200 km de com- primento, que representa uma falha transformante continental ao longo do limite entre as placas da América do Norte e do Pacífico. De fato, as gran- des falhas transformantes são zonas de falha, em vez de simples falhas. A falha de San Andreas e as falhas associadas formam uma zona de falhas mais ou menos paralelas, de comprimentos vari- ados, com largura total de cerca de 100 km. Do- oCadeia-cadeia Fig. 18.6 Falhas transformantes são falhas de rejeito direcional que conectam limites de placas. (A) Falha entre dois segmentos de espalhamento lateral de uma cadeia mesa-oceânica. (B) Falha transformante conectando um segmento de rifte e um arco de ilhas/zona de subducção. (C) Falha deslocando um limite destrutivo de placas oCadeia-arco ©Arco-arco -- bras também ocorrem nessa zona, juntamente com falhas normais e reversas. Vamos retornar a esse tema mais adiante neste capítulo. Por enquanto, va- mos enfatizar o fato de que, dentre as muitas falhas existentes em uma zona, apenas umaé ativa em um dado momento. Nesse sentido, uma zona de fa- lhas como a San Andreas é diferente da maioria das zonas de cisalhamento ativas no regime plástico, onde a deformação é acumulada em toda a zona, ou em uma parte significativa dela. 18.3 Falhas transcorrentes o termo falha transcorrente é preferencialmente usado para falhas de rejeito direcional na crosta continental cujas extremidades são livres, ou seja, não delimitadas por outras estruturas. Suas extre- midades livres movem-se de modo que o compri- 18 FALHAS DE REJEITO DIRECIONAL, TRANSPRESSÃO E TRANSTRAÇÃO 451 mento da falha aumenta à medida que o deslo- camento se acumula. Essas falhas de rejeito di- recional seguem, portanto, uma relação normal de rejeito-comprimento, ou seja, o deslocamento máximo aumenta sistematicamente com o com- primento da falha (Fig. 8.50), o que não significa que elas nunca encontrem obstáculos ou complica- ções durante o seu crescimento. De fato, as falhas transcorrentes são livres para crescer, interagir e conectar-se, formando estruturas mais longas, assim como as falhas extensionais da Fig.8.38, mas não têm o papel cinemático específico das falhas transforman teso As FALHAS TRANSCORRENTES TÊM EXTREMIDADES LI- VRES E CRESCEM EM COMPRIMENTO ENQUANTO ACUMU- LAM REJEITO DIRECIONAL. Em contraste com as falhas extensionais e con- tracionais, as falhas transcorrentes (e outras de re- jeito direcional) não dominam grandes áreas, como no caso das áreas de falhas normais em riftes conti- nentais ou de cavalgamentos em cinturões de caval- gamento e dobramento, mas, em vez disso, são res- tritas a uma única zona. As falhas transcorrentes deslocam as rochas lateralmente e, como a maioria das falhas são superfícies de fraqueza em relação aos blocos adjacentes, o deslocamento é mais facil- mente concentrado por cisalhamento contínuo ao longo de uma zona de rejeito direcional já existente. Entretanto, assim como em qualquer tipo de falha, a largura de uma zona de falha de rejeito direcional aumenta com o seu comprimento, à medida que ela acumula deslocamento. As falhas de rejeito direcionallivre (falhas trans- correntes) formam-se no interior de placas e são, portanto, falhas intraplacas. Em contraste, as fa- lhas transformantes que ocorrem ao longo das mar- gens de placas (discutidas na seção anterior) são falhas interplacas. As falhas transcorrentes longas intersectam a superfície da Terra. Em profundidade, elas podem terminar em outras estruturas, como falhas de ca- valgamento, falhas extensionais, em zonas de sub- ducção (Fig. 18.7), ou podem atravessar a transição rúptil-plástica e continuar como zonas de cisalha- mento plástico de alto ângulo. Fig. 18.7 Falha de rejeito direcional em uma zona de subducção com vetor de subducção oblíquo. Esse modelo tem sido aplicado na Sumatra, onde a placa oceânica é a placa Australiana e a falha de rejeito direcional é a falha de Sumatra, na extremidade da placa Eurasiana 18.4 Desenvolvimento e anatomia de falhas de rejeito direcional 18.4.1 Falhas individuais (cisalhamento simples) As falhas de rejeito direcional formam-se quando partes da crosta se movem a taxas diferentes na su- perfície terrestre. Assim como as falhas normais e reversas, as falhas de rejeito direcional são comple- xas quando analisadas em detalhe. Diversas estru- turas secundárias são associadas a falhas de rejeito direcional e os trabalhos experimentais têm auxili- ado na identificação das mais importantes. Os ex- perimentos em argila de Riedel, no início do século XX,são os mais famosos. A configuração desses ex- perimentos (Fig. 18.8) consistia em dois blocos rígi- dos de madeira cobertos por uma camada de argila. Os blocos moviam-se um em relação ao outro e os esforços eram transferidos para a camada de argila, que se deformava progressivamente. Riedel logo percebeu que a camada de argila não desenvolvia uma única falha simples, mas uma 452 Geologia Estrutural o ~---- / / -: / Massa de argila / Madeira / Fig. 18.8 Modelo físico com dois blocos de madeira sob uma camada de argila. Note a geometria das fraturas R e o espessamento para cima da zona de cisalhamento zona de deformação composta por um arranjo de pequenas fraturas. Essas fraturas subsidiárias são classificadas com base na sua atitude e sentido de deslocamento em relação à tendência geral da zona de falhas de rejeito direcional. O primeiro con- junto de fraturas a se formar são as fraturas de ci- salhamento. Um conjunto, conhecido como fratu- ras de cisalhamento de Riedel ou fraturas R (ou, de modo menos formal, cisalhamentos de Riedel), perfaz um baixo ângulo com a zona geral de cisa- lhamento e apresenta o mesmo sentido de desli- zamento (Fig. 18.8B). Na Fig. 18.9A, as fraturas são mostradas juntamente com outro conjunto de fra- turas, as fraturas de cisalhamento P (cisalhamentos P). As fraturas P usualmente se desenvolvem após o estabelecimento das fraturas R e seu desenvol- vimento está, provavelmente, relacionado a varia- ções temporais no campo local de esforços ao longo da zona de cisalhamento, à medida que o rejeito se acumula. Um terceiro conjunto de fraturas é apre- sentado na Fig. 18.9A (linhas tracejadas), identifi- cado como fraturas antitéticas e que se encontram em alto ângulo com a zona. Elas são denominadas fraturas de cisalhamento R' e são menos desenvol- vidas que as fraturas R. UMA ZONA DE FALHAS DE REJEITO DIRECIONAL DESEN- VOLVE-SE PELA CONEXÃO ENTRE VÁRIAS ESTRUTURAS RÚPTEIS DE PEQUENA ESCALA, QUE SE INSTALAM NA FASE INICIAL DO PROCESSO. Além das fraturas rúpteis R, R' e P, também po- dem ocorrer fraturas extensionais ou fraturas T (em azul na Fig. 18.9B). No contexto de zona de cisa- lhamendo do modelo de argila de Riedel, as fratu- ras T se formam perpendicularmente ao máximo eixo de estiramento instantâneo (ISA1, setas ver- melhas na Fig. 18.9B). Em grandes zonas de falhas o Modelo tipo Riedel » R' '~~~P o Estruturas de pequena escala ~'~/// ~ •• ffEstiíolitos ~5·ISA3 Fratura Modol Dobrao::c::: © -->~~Estruturas em escala de mapa DObras# ~arma# ~, ,ral~a ~ /r~;ersa o::c::: Fig. 18.9 Estruturas formadas por movimento direcional destra!. (A) Modelo de Riedel, onde R e R' são fraturas sintéticas e antitéticas de Riedel, respectivamente. Cisalhamentos P são secundários e conectam as superfícies R e R'. O ãngulo de fricção interna é representado por cp. (B) Outras estruturas de pequena escala que podem formar-se em uma zona de falhas de rejeito direciona!. (C) Estruturas de larga escala direcional são indicadas no Boxe 18.1 e exemplos dessas falhas são apresentados no Boxe 18.2. 18 FALHAS DE REJEITO DIRECIONAL, TRANSPRESSÃO E TRANSTRAÇÃO 453 de rejeito direcional, falhas normais com desliza- mento no rumo do mergulho irão se formar mais ou menos na mesma direção das fraturas T. Do- bras também podem desenvolver-se em zonas de cisalhamento de rejeito direcional (estruturas em verde nas Figs. 18.9B,Ce 18.10), tipicamente antes que a deformação se localize em falhas definidas. Os traços axiais das dobras encontram-se inicial- mente em alto ângulo (cerca de 90°) com o eixo de estiramento instantâneo mínimo(ISA3,setas alaran- jadas na Fig. 18.9B), contanto que o acamamento seja aproximadamente horizontal. Camadas incli- nadas também podem ser dobradas em zonas de cisalhamento de rejeito direcional, mas, nesses ca- sos, as relações entre ISA e os. eixos de dobras são mais complexas. Outras estruturas contracionais, como estilolitos e falhas reversas, também podem formar-se em zonas de cisalhamento de rejeito di- recional (Fig.18.9B,C);elas terão aproximadamente a mesma direção que os eixos das dobras. Um experimento simples de dobramento pode ser feito com um movimento de cisalhamento sim- ples com as duas mãos em um pedaço de tecido. As dobras se formam imediatamente em um dado ân- gulo com a direção de cisalhamento e suas charnei- ras refletem a direção do estiramento instantâneo no início do dobramento. Posteriormente, as dobras rotacionam à medida que a deformação de cisalha-mento se acumula. Experimente! Um modo de formação e crescimento de falhas de rejeito direcional é a geração de fraturas indivi- duais de cisalhamento e de fraturas extensionais que, posteriormente, conectam-se. Outras possibi- lidades de formação de grandes falhas de rejeito Dobras Ob~~ __ f-.~ê= ~ Fig. 18.10 Dobras formadas por movimento direcional em uma ampla zona de deformação com acamamento horizontal' 18.4.2 Falhas conjugadas de rejeito direcional (cisalhamento puro) As falhas de rejeito direcional podem ocorrer como estruturas simples ou em zonas de falhas mais ou menos paralelas. Entretanto, elas também podem formar sistemas conjugados (Fig.18.11),implicando atividade simultânea e sob o mesmo campo de es- forços. As falhas de rejeito direcional encaixam-se tanto no modelo de Anderson como no critério de fraturamento de Coulomb. Em termos simples, o ângulo agudo entre os dois conjuntos é bissec- tado por 01 (seta vermelha, Fig. 18.11) e o valor do ângulo é determinado pela fricção interna da rocha. Cinematicamente, essas falhas resultam do cisalhamento puro no plano horizontal, em que o encurtamento em uma direção é compensado por extensão ortogonal em outra. Nesse modelo ideal, não há estiramento ou contração na direção vertical. Oexemplo mais famoso de larga escala de falhas conjugadas de rejeito direcional é o sistema de falhas do norte dos Himalaias (Fig. 18.12B).Nesse local, o continente indiano move-se para norte em direção ao continente eurasiano e parte do mo- vimento convergente é acomodada lateralmente pelo transporte de material para fora da zona co- lisional, com encurtamento paralelo a essa zona (Fig.18.12A).Omodelo indica que a área ao norte da zona de colisão dos Himalaias é menos resistente que a placa rígida Indiana. 18.4.3 Curvatura de falha Nas seções que contêm o vetor de deslocamento (visto em mapa), as falhas de rejeito direcional são perfeitamente retilíneas. Entretanto, mesmo os mo- delos experimentais mais simples produzem falhas ou segmentos de falhas subsidiárias, oblíquas à di- reção geral da falha (Fig.18.9).Essas anomalias são, 454 Geologia Estrutural Boxe 18.1 COMO SE FORMAM FALHAS LONGAS DE REJEITO DIRECIONAL? AMecânica das Rochas indica que, quando uma fratura de cisalhamento se forma, o campo de esforços nas extremidades gera fraturas extensionais locais, também chamadas de fraturas em asa (wingcracks). Isso foi inicialmente demonstrado com um corte retilíneo em uma placa plástica, seguido da imposição de um campo de esforços. Isso posto, como uma falha de rejeito direcional com até centenas de quilômetros de comprimento pode formar-se? Além do modelo em que as falhas crescem pela conexão de pequenas fraturas, foi sugerido que as falhas possam formar-se por fraturas extensionais ou juntas originalmente longas - mas não tão longas a ponto de atingir centenas de quilômetros. Um comprimento dessa+ + + magnitude pode ser atingido pela conexão e reativação de juntas. Omodelo dejuntas falhadas requer uma fase individual de extensão e formação de juntas anterior ao falhamento de rejeito direcional, ou seja, sugerindo que as falhas de rejeito direcional tenham uma história deformacional em duas fa- ses. Um modelo alternativo considera que o crescimento de falhas de rejeito direcional possa aproveitar outras estruturas de fraqueza; se as juntas não estiverem disponíveis, outras estruturas podem ser aproveitadas, como diques, interfaces entre camadas ou foliações de alto mergulho. Algumas dessas estruturas são muito mais longas que juntas, e as falhas de rejeito direcional podem formar-se mais facilmente como estruturas longas, sem que a formação de fraturas em asa bloqueie seu desenvolvimento. t t t em geral, explicadas pela conexão de falhas (Figs. 18.8 e 18.9A).Quando segmentos individuais de fa- lhas se sobrepõem e se conectam na vista em mapa, forma-se um stepover ou curvatura de falha. Estru- turas contracionais ou extensionais formam-se nes- sas curvas, dependendo do sentido de rejeito da fa- lha em relação à curva (Fig.18.13). As estruturas contracionais incluem estilolitos, clivagens, dobras e falhas reversas, e formam-se em curvas de restrição (restraining bend). A curva de res- trição da Fig. 18.13 localiza-se onde uma falha sinis- tral se curva para a direita. Nesse contexto, podem- -se formar falhas subparalelas contracionais de re- jeito oblíquo ou reverso, limitadas por dois segmen- tos de rejeito direcional e denominadas duplexes contracionais de rejeito direcional. Em larga escala, as curvas restritivas são reconhecidas em áreas de relevo positivo. Após algum tempo, as estrutu- ras contracionais tendem a ser transpostas por um novo conjunto de falhas mais retilíneas. O endure- cimento por deformação no interior da curva res- tritiva é reduzido ou eliminado, apesar de que al- gumas irregularidades possam permanecer. Anova falha na zona de restrição provavelmente se desen- volve a partir das fraturas P. CURVAS AO LONGO DE FALHAS DE REJEITO DIRECIONAL sÃo ESTRUTURAS INSTIGANTES, QUE CONTÊM ESTRUTU- RAS EXTENSIONAIS OU CONTRACIONAIS, DEPENDENDO DO SENTIDO DE MOVIMENTO E DA DIREÇÃO DA CURVATURA (PARA A DIREITA OU ESQUERDA). 18 FALHAS DE REJEITO DIRECIONAL, TRANSPRESSÃO E TRANSTRAÇÃO 455 Boxe 18.2 DESLlZAMENTO LATERAL NO ATLÂNTICO NORTE Várias falhas extensas e topograficamente salientes transectam as Caledonides do Atlântico Norte, desde Svalbard, ao norte, até as Ilhas Britânicas, ao sul. As mais famosas e notáveis são a falha Great Glen, na Escócia, e a falha Billefjorden, em Svalbard. Essas estruturas apresentam muitas das características das falhas de rejeito direcional, como traços de falha retilíneos e mergulho em alto ângulo. As falhas encontram-se, em sua maior parte, cobertas, e as porções expostas são complicadas por reativações superpostas, mas elas separam terrenos ou unidades litológicas com evoluções tectonometamórficas distintas. Portanto, há um consenso entre os geólogos de que elas tenham se comportado como falhas de rejeito direcional na parte final da orogenia caledoniana. A quantidade de rejeito direcional é difícil de estimar, e interpretações muito diferentes têm sido propostas. As estimativas extremas apontam para rejeitos entre 1.000 km e 2.000 km no final do Caledoniano para esse sistema de falhas de rejeito direcional. O geólogo britânico W. Brian Harland foi um dos primeiros a sugerir um rejeito direcional, e na década de 1960 ele sugeriu uma conexão entre a falha Billefjorden, em Svalbard, e a falha Great Glen, na Escócia - uma interpretação que implica estender esse sistema de falhas de rejeito direcional por mais de 3.500 km. Ele pode até mesmo conectar-se a sudoeste com as falhas de rejeito direcional dos Apalaches, em Newfoundland, Canadá. A maioria dos pesquisadores atualmente considera rejeitos da ordem de poucas centenas de quilômetros, em vez de milhares. Não obstante, um sistema significativo de falhas de rejeito direcional na porção central da zona de colisão cale- doniana indica que essa orogenia foi oblíqua e transpressio- nal, com o componente de rejeito direcionallocalizado no além-país. Hoje sabemos que, em diferentes momentos e sob a influência de diferentes campos de esforços, muitas dessas falhas de alto ângulo foram reativadas como falhas normais e reversas. Esta é uma feição característica das falhas de rejeito direcional, resultando em um padrão complexo, de difícil interpretação. Groenlândia SOOkm DTerreno Scandian DTerreno Southern Uplands DTerreno Grampian ~ Terreno Svalbard SW/NW/NE DTerreno Mideland Valley Mapa simplificado das Caledonides do Atlântico Norte (reconstrução devoniana), enfatizando as falhas de rejeito direcional. Também é indicado o conceito de partição entre encurtamento orogênico e movimentos de rejeito direcional paralelos ao orógeno 456 Geologia Estrutural / Fig. 18.11 Modelo de cisalhamento puro conjugado na formação de falhas de rejeito direcional. A orientação de fraturas extensionais (vertical) e estilolitos(horizontal) é indicada. O modelo considera que ambos os conjuntos sejam ativos de modo aproximadamente simultâneo As curvas de liberação formam -se onde uma falha sinistral se curva para a esquerda (Fig. 18.13) ou onde uma falha destral se curva para a direita. Essas curvas produzem estruturas extensionais, como falhas normais e fraturas extensionais. Fratu- ras extensionais são comuns em curvas de libera- ção em mesoescala, ao passo que falhas com um rejeito normal significativo tendem a dominar os casos de larga escala. Séries de falhas extensionais paralelas e limitadas em ambos os lados por falhas de rejeito extensional (Fig. 18.13) são denominadas duplexes extensionais de rejeito direcional. As falhas normais geram estruturas negativas, ou seja, bacias que podem ser preenchidas com sedimentos em várias escalas. A Fig. 18.14 apresenta como o Vale da Morte (Califórnia, EUA) está localizado em uma curva de liberação, onde falhas normais causaram um rebaixamento da região montanhosa até um nível próximo ao nível do mar e, em al- guns pontos, até mesmo abaixo do nível do mar. Ao longo do tempo, uma bacia como essa irá se alargar ou alongar enquanto novas falhas normais se desenvolvem. O Mar Morto é outro exemplo o 400 Fig. 18.12 Formaçâo de falhas de rejeito direcional à frente de um bloco rígido. Dois conjuntos de falhas, que podem ser considerados como conjugados, formam-se enquanto há uma extrusâo lateral de material. O modelo é considerado como um análogo da região norte dos Himalaias. O experimento é descrito por Tapponnier et al. (1986) famoso de bacia desse tipo, criada em uma zona de sobreposição entre duas falhas de rejeito direcional e conhecida como bacia puIl-apart. 18.4.4 Imagens sísmicas e estruturas em flor Os dados sísmicos de reflexão fornecem informa- ções sobre as falhas de rejeito direcional em profun- didade. As falhas de rejeito direcional puro podem ser de difícil detecção apenas com base em dados sísmicos, não somente porque a maioria delas é de- masiado inclinada para gerar reflexões, mas tam- bém porque camadas horizontais ou camadas de 1200 18 FALHAS DE REJEITO DIRECIONAL, TRANSPRESSÃO E TRANSTRAÇÃO 457 Fig. 18.13 Duplexes extensional (transtracional) e contracional (transpressional) desenvolvidos em curvas em um sistema de falhas de rejeito direcional. Exemplos de larga escala podem causar a formação de bacias ou orogenias locais N A 20 km Fig. 18.14 O Mar Morto é uma área-tipo para bacias pull-apart. Área-tipo é o local onde a feição foi descrita pela primeira vez, nesse caso por Burchfiel e Stewart (1966) Fonte: baseado parcialmente em Wright et ai. (1974). direção paralela ao traço da falha não apresentam rejeito vertical (Fig. 18.1). Uma possibilidade, por- tanto, é procurar por estruturas de restrição ou de liberação, em que há movimentos verticais associa- dos a falhas normais, reversas e dobras. Uma feição característica dessas curvas é sua tendência para ramificação e alargamento para cima (Fig.18.15).Es- sas estruturas são conhecidas como estruturas em flor. As estruturas em flor associadas a curvas res- tritivas são consideradas positivas, e as associadas a curvas de liberação são denominadas estruturas em flor negativas. As falhas de rejeito direcional bifurcam-se e alar- gam-se em direção à superfície, particularmente nas curvas de restrição e de liberação. Uma possí- vel causa são as mudanças mecânicas próximas à superfície. Enquanto uma falha é, em geral, muito menos resistente que os blocos adjaçentes, esse contraste diminui em rochas sedimentares em pe- quena profundidade. Nesse contexto, é mais fácil a formação de múltiplas falhas. (9 Estrutura em flor negativa Estrutura em flor positiva Fig. 18.15 Principais feições de estruturas em fior (A) negativa e (B) positiva, desenvolvidas em curvas de liberação e de restrição, respectivamente 458 Geologia Estrutural 18.5 Transpressão e transtração vimos que as curvas em falhas de rejeito direcional podem produzir componentes locais contracionais ou extensionais. O tipo de deformação que ocorre nessas curvas é denominado transpressão (trans- pression) e transtração (transtension). Esses modelos não precisam restringir-se às curvas de falhas - eles podem dominar todo o comprimento de uma falha de rejeito direcional, se a falha ou zona de cisalha- mento não for de rejeito direcional puro. No caso de uma zona de cisalhamento, isso significa que há um desvio em relação ao cisalhamento simples. A falha pode conter um componente adicional de en- curtamento ou estiramento perpendicular ao plano de falha. Em geral, a transpressão corresponde a uma faixa de combinações de rejeito direcional e defor- mação coaxial envolvendo encurtamento perpen- dicular à zona (Fig. 18.16), e a transtração engloba combinações de rejeito direcional e estiramento perpendicular. Em outras palavras: TRANSPRESSÃO (TRANSTRAÇÃO) É UMA COMBINAÇÃO DE REJEITO DIRECIONAL OU MOVIMENTO POR CISALHAMENTO SIMPLES AO LONGO DE UMA FALHA E ENCURTAMENTO (EXTENSÃO) PERPENDICULAR A ELA. Rejeito direcional (cisalhamento simples) Em uma zona de cisalhamento vertical de espes- sura finita, a transpressão e a transtração podem ser modeladas de modo relativamente simples. O componente de rejeito direcional é um cisalha- mento simples horizontal com rejeito ao longo de uma zona vertical, ao passo que o encurtamento pode ser modelado como uma deformação coaxial de encurtamento horizontal e extensão lateral e/ou vertical. Vamos considerar um componente coa- xial de cisalhamento puro com extensão vertical (Fig. 18.17). Esse é o modelo matemático mais sim- ples proposto para a transpressão, apresentado por Sanderson e Marchini (1984).Com base na teoria da deformação (Cap. 2), a aplicação simultânea de dois componentes pode ser representada pela matriz de deformação: y(l-k) In(k-1) k O : 1 (18.1) k-1 A matriz é tridimensional porque os componen- tes de cisalhamento puro e de cisalhamento sim- ples atuam em planos perpendiculares entre si. O componente de cisalhamento simples ou de rejeito direcional é indicado por -y, e o valor de k deter- mina a quantidade de encurtamento ou extensão através da zona. Para k = 0,7, a zona torna-se 30% mais delgada devido à transpressão. Para k = 1,2, Fig. 18.16 Transpressão e transtração representam ligações de contração, rejeito direcional e extensão 18 FALHAS DE REJEITO DIRECIONAL, TRANSPRESSÃO E TRANSTRAÇÃO 459 Fig.18.17 Modelo simples de Sanderson e Marchini (1984) para transpressão: deformação homogênea entre dois blocos rígidos a espessura da zona aumenta 20% com a transtra- ção. Como sempre, assim que definimos uma ma- triz de deformação podemos definir a orientação e a forma da elipse de deformação, de Wk e ISA,e por meio das matrizes incrementais podemos calcular os padrões de rotação de linhas e planos passivos (Apêndice A). Vamos aproveitar esta oportunidade para detalhar alguns aspectos da transpressão e da transtração. 18.5.1 Elipsoide de deformação Em níveis crus tais profundos, onde a deformação se acumula principalmente por mecanismos plásti- cos, os marca dores de deformação podem permitir o mapeamento da deformação no interior das zo- nas de cisalhamento. Apartir da matriz de deforma- ção (Eq. 18.1), podemos demonstrar que, em nosso modelo: A TRANSPRESSÃO RESULTA EM ELIPSOIDES OBLATOS (ACHATADOS) E A TRANSTRAÇÃO GERA ELIPSOIDES PROLA- TOS (FIG. 18.18). o eixo longo X do elipsoide de deformação é sempre horizontal na transtração (Figs. 18.19C,D)e vertical na transpressão, com um forte componente 100 I; &../ '" o"1 I~~I~, ,, ,, , '"" ': - :~ â ---10 ' ;'J.x '.,. Transtração o o ...•.•... ···~~ÕJ ••••••• _~~~_9 __.-~~~8----- .. ' .O,S' 10 Y/Z 100 Fig. 18.18 As trajetórias de Wk constante plotadas no diagrama de Flinn constituem o modelo de transpressão/transtração da Fig. 18.19. As linhas vermelhas indicam transpressão/transtração dominadas por cisalhamento puro, ao passo que as linhas pontilhadas azuis indicam deformações dominadas por cisalhamento simplesFonte: baseado em Fossen e Tikoff (1993). de cisalhamento puro (Wk 0,. a vj- 40 0>15 ""'» .:, "'0 20 Dominada por 10 cisalhamento simples 80 50 70 Transtração dominada por 60 cisalhamento puro e Transtraçãodominada por cisalhamento simples CisaIhamento -'----------------'-------1 simples Transpressãodominada por cisalhamento simples40 30 Transpressão /// ISAmáx dominada por /\ cisalhamento pur~// ISA 20 /' mterm...-..- 10 ..-"-..-..- "o 0,1 0,2 0,3 0,4 0,5 0,6 0,7 0,8 0,9 1,0 Cisalhamento Cisalhamento puro Wk simples o 0,1 0,2 0,3 0,4 0,5 0,6 0,7 0,8 0,9 1,0 Cisalhamento Cisalhamento puro Wk simples e Tikoff (1993). estritamente correto nas zonas de transtração. Na prática, se pudermos identificar um gradiente de deformação de uma margem de baixa deformação até o centro da zona, por exemplo, o padrão de rotação poderá ser comparado aos padrões teóricos mostrados na Fig. 18.21, permitindo que se defina o tipo de transpressão ou transtração. Se dados de de- formação estiverem disponíveis, então a Fig. 18.18 também poderá ser usada. É importante compreender que o modelo sim- ples de transpressão ou transtração aqui descrito é apenas uma dentre muitas possibilidades. Nem to- das as zonas de cisalhamento de rejeito direcional são verticais; a extrusão lateral e outros modelos cinemáticos também são possíveis. Não obstante, o modelo simples mostrado na Fig. 18.17 ilustra como a transpressão pode ser modelada e como ela pode causar o movimento vertical de rochas, o que, em larga escala e combinado com o efeito da erosão, pode transportar rochas metamórficas para níveis crustais mais rasos. 18.6 Partição da deformação As rochas naturais tendem a ser anisotrópicas e he- terogêneas, o que faz a deformação ser distribuída de modo desigual em maciços de rochas deforma- das. Isso pode estar primariamente relacionado à anisotropia pré-deformacional da rocha e, secun- dariamente, às estruturas que se formam durante a deformação. Em especial, quando uma falha ou zona de cisalhamento de baixa resistência se forma, é provável que ela concentre o componente de cisa- lhamento puro, enquanto o volume dos blocos ad- jacentes deve acomodar os componentes coaxiais da deformação necessários para contrabalançar a deformação prescrita pelas limitações externas ou condições de contorno (Fig.18.22).Esse fenômeno é chamado de partição de deformação: A PARTIÇÃO DE DEFORMAÇÃO É A DECOMPOSIÇÃO IN- TERNA DA DEFORMAÇÃO TOTAL ATRAVÉS DE UMA ZONA DEFORMADA EM ZONAS OU DOMÍNIOS COM DIFERENTES TIPOS DE DEFORMAÇÃO. A redistribuição seletiva da deformação no inte- rior das zonas pode ocorrer de muitas maneiras e em vários contextos, como, por exemplo, nas zonas de cisalhamento dúctil em escala de afloramento, onde o cisalhamento simples é dividido entre ban- das de cisalhamento oblíquas à zona de cisalha- mento e a retrorrotação dos blocos de rocha entre as bandas de cisalhamento. Entretanto, o termo par- tição de deformação tornou-se muito popular entre os 462 Geologia Estrutural CisalhameQto simples Wk=l~~~~~ y '"00 à 11 ?! '"à II ?! • Fonte (metaestável) A Sumidouro (estável) Fig. 18.21 Padrões de rotação de estruturas lineares passivas, mostrados em estereogramas (projeção de igual área). AP = apófise de fluxo Fonte: Fossen et ai. (1994). pesquisadores que estudam a deformação em mar- gens oblíquas de placas e prismas acrescionários. 18.6.1 Margens de placas e partição de deformação em larga escala Uma margem oblíqua de placa é aquela onde o movimento da placa ou seu vetor de velocidade é oblíquo à margem. A deformação ao longo dessas margens será marcada por transpressão generali- Falha \ Partição da deformação (transpressão) Dominado por cisalhamento puro predomina o cisalhamento puro. Nos níveis crustais mais rasos, o cisalhamento simples é reduzido a uma ou poucas falhas zada se a margem for oblíqua convergente, e por transtração se a margem for oblíqua divergente. Se conhecermos o vetor de movimento de uma placa em relação à outra, poderemos definir a orientação da apófise de fluxo horizontal oblíqua, pois ambos são idênticos (Fig.2.21). Esse fato bastante útil pode ser aplicado em modelos estruturais de zonas de deformação ao longo de margens de placas. A partição de deformação ao longo de margens de placas dominadas por falhas de rejeito direcio- nal envolve um equilíbrio entre a quantidade de re- jeito direcional ou de cisalhamento simples, por um lado, e a quantidade de encurtamento ou extensão (deformação coaxial), por outro. Se a maior parte do cisalhamento simples estiver localizada ao longo de urna ou algumas falhas de rejeito direcional, en- tão o resto da zona será dominado por deformação coaxial. No INTERIOR DA ZONA DE DEFORMAÇÃO NAS MARGENS DE PLACAS, A DEFORMAÇÃO PODE DIVIDIR-SE LIVRE- MENTE, CONTANTO QUE SUA SOMA CORRESPONDA AO mínios entre as falhas acomodam uma quantidade significativa de encurtamento horizontal (cisalha- mento puro). Isso explica por que ISA1 (e 01) não está orientado a 42,5°, mas em um ângulo muito menor nesses domínios. Isso também explica por que os eixos das dobras são quase paralelos às fa- lhas existentes nos domínios com predomínio de cisalhamento puro. Mesmo jovens, as falhas aber- tas são orientadas com 6° a 12° em relação à placa da margem, enquanto a deformação total na zona prevê uma orientação inicial das dobras próxima a 40°. A partição da deformação é, portanto, um im- portante aspecto em muitas zonas de rejeito direci- onal e margens de placas. 18 FALHAS DE REJEITO DIRECIONAL, TRANSPRESSÃO E TRANSTRAÇÃO 463 TOTAL PREVISTO COM BASE NO VETO R DE MOVIMENTO DE PLACA E DA ORIENTAÇÃO DA PLACA DA MARGEM. o sistema de falhas de San Andreas, geralmente considerado como uma falha de rejeito direcional, é ligeiramente transpressional, porque o vetor da placa perfaz um ângulo de 5° com o limite da placa na Califórnia central (Fig. 18.23). Com base apenas nessa informação, podemos deduzir da Fig. 18.20B que Wk = 0,985 e que a deformação é muito pró- xima de cisalhamento simples (rejeito direcional). Essa situação permite prever que a orientação de ISA1 está a 42,5° da margem da placa. Entretanto, como o componente de cisalhamento simples é as- similado pelas falhas de rejeito direcional, os do- \ Dominado por \ cisalhamento Falha puro Fig. 18.23 Esquema da zona de falha de San Andreas, Califórnia, EUA. O ângulo a entre as duas apóftses de fluxo é de apenas 50, mas como o cisalhamento simples é localizado nas falhas, o cisalhamento puro predomina no volume entre as falhas; por esse motivo, os eixos das dobras são subparalelos às falhas, e não como aqueles indicados na Fig. 18.10 Resumo . Vimos como as zonas de rejeito direcional formam importantes estruturas em muitas partes do mundo, particular- mente ao longo de limites transformantes de placas. As estruturas de rejeito direcional são particularmente interes- santes onde ocorrem complicações geométricas, ou onde a deformação geral apresenta um desvio em relação ao cisalhamento simples (transpressão, transtração). Apesar de haver muitos modelos de transpressão e transtração que poderiam ser detalhados, os modelos simples, baseados nos padrões identificados em mapas e em campo, podem explicar muitas das principais estruturas e gerar questões adicionais que contribuam para a compreensão dessas estruturas. Alguns pontos importantes e questões relevantes são: • As zonas de rejeito direcional ocorrem ao longo de limites transformantes de placas como falhas transformantes. • Elas também ocorrem no interior dos continentes como falhas transcorrentes. • A transpressão (transtração) ocorre onde há um componente de encurtamento (extensão) através de uma zona de rejeito direcional. • A partição da deformação é encontrada em muitas zonas de deformação transpressional. • Os modelos simples de transpressão preveem a partição em domínios de deformação coaxial separados por zonas de cisalhamento simples (falhas de rejeito direcional). 464 Geologia Estrutural QUESTÕES DE REVISÃO 1] Quais são as características de falhas ou zonas de cisalhamento em larga escala? 2] Qual é o papel das falhas de transferência e em que contextos elas podem ocorrer? 3] Que tipo de estruturas se forma onde uma falha de rejeito direcional apresenta uma curva abrupta? 4] Como seria o perfil através de uma curva de restrição? E de uma curva de liberação? 5] Que tipos de contextos são representados pelo Vale da Morte? 6] O que pode acontecer com as falhas de rejeito direcional em profundidade? 7] Como poderíamos explicar a deformação por achatamento em uma zona de cisalhamento com um movi- mento claramente de rejeito direcional? 8] Assim como o Vale da Morte, o Mar Morto é um local onde podemos caminhar em terra seca abaixo do nível do mar, em uma depressão aparentemente sem motivo no contexto de uma falha de rejeito direcional. Como poderíamos explicar essa situação? 9] Como as falhas de rejeito direcional acomodam cisalhamento puro em larga escala? E-módulo O módulo de e-Ieaming denominado Strike-slip faults é recomendado para este capítulo. Leituras complementares Falhas de rejeito direcional (geral) SYLVESTER,A G. Strike-slip faults. Geological Society of America Bulletin, v. 100, p. 1666-1703, 1988. WILCOX, R. E.; HARDING, T. P.;SEELY,D. R. Basic wrench tectonics. American Association ofPetroleum Geologists Bulletin, v. 57, p. 74-96, 1973. WOODCOCK, N. H.; SCHUBERT, C. Continental strike-slip tectonics. In: HANCOCK, P. L. (Ed.). Continental Deformatian. Oxford: Pergamon Press, 1994. p. 251-263. Curvas de restrição e de liberação AYDIN, A; NUR, A Evolution of pull-apart basins and their scale independence. Tectanics, v. 1, p. 91-105, 1982. BURCHFIEL,B. c.; STEWART, }. H. "Pull-apart" origin of the central segment of Death Valley, Califomia. Geological Society of America Bulletin, v. 77, p. 439-442, 1966. CUNNINGHAM, W. D.; MANN, P. (Ed.) Tectonics ofStrike-slip Restraining and Releasing Bends. Special Publicatian 290. London: Geological Society, 2007. PEACOCK,D. C. P.Displacements and segment linkage in strike-slip fault zones. faumal af Structural Geology, v. 13, p. 1025-1035, 1991. WESTAWAY,R. Deformation around stepovers in strike-slip fault zones. faumal af Structural Gealagy, v. 17, p. 831-846, 1995. Transpressão e transtração OLDLOW, }. S.; BALLY,A W; LALLEMANT,G. A Transpression, orogenic float, and lithospheric balance. Gealagy, v. 18, p. 991-994, 1990. SANDERSON, D.; MARCHINI, R. D. Transpression. faumal af Structural Gealagy, v. 6, p. 449-458, 1984. TIKOFF, B.; GREENE, D. Stretching lineations in transpressional shear zones: an example from the Sierra Nevada Batholith, California. faumal af Structural Geology, v. 19, p. 29-39, 1997.