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2 Organização: Fernanda Barboza de Lima Moama Lorena de Lacerda Marques Willians Gonçalves Silva Anais II ELLIN: Encontro de Letras do Litoral Norte da Paraíba Letras em diálogo: Língua, Literatura e Cultura Editora da UFPB João Pessoa 2019 3 Reitora Vice-Reitora UNIVERSIDADE FEDERAL DA PARAÍBA MARGARETH DE FÁTIMA FORMIGA MELO DINIZ BERNARDINA MARIA JUVENAL FREIRE DE OLIVEIRA Diretora Supervisão de Editoração Supervisão de Produção EDITORA DA UFPB IZABEL FRANÇA DE LIMA ALMIR CORREIA DE VASCONCELLOS JÚNIOR JOSÉ AUGUSTO DOS SANTOS FILHO COMISSÃO CIENTÍFICA Adaylson Wagner Sousa de Vasconcelos (UFPB) Fernanda Barboza De Lima (UFPB) Amanda Batista Braga (UFPB) João Paulo da Silva Fernandes (UEPB) Antonio Alberto Pereira (UFPB) José Vilian Mangueira (UEPB) Amanda Ramalho De Freitas Brito (UFPB) Juliene Paiva de Araújo Osias (UFPB) André Pedro da Silva (UFRPE) Luciani Salcedo de Oliveira (UNIPAMPA) Antonieta Buriti De Souza Hosokawa (UFPB) Maria Isabel D´Andrade S. Moniz (IFSP) Carlos Augusto de Melo (UFU) Maria Zilda da Cunha (USP) Cirineu Cecote Stein (UFPB) Raíra Maia Costa de Vasconcelos (UFPB) Danielle de Luna e Silva (UFPB) Renata Ferreira Costa ( UFS) Edneia de Oliveira Alves (UFPB) Wigna Eriony Aparecida de Morais Lustosa Elaine Cristina Cintra (UFPB) (IFRN) Ficha catalográfica elaborada na Biblioteca Setorial do CCAE (Centro de Ciências Aplicadas e Educação) da Universidade Federal da Paraíba – Campus IV Os artigos e suas revisões são de responsabilidade dos autores. EDITORA DA UFPB Cidade Universitária, Campus I –s/n João Pessoa – PB CEP 58.051-970 http://www.editora.uf pb.br Fone: (83) 3216.7147 CDU: 801 UFPB/BS-CCAE 1. Evento - Letras. 2. Evento - Literatura. 3. Linguagem. 4. Paraíba – Litoral Norte. I. Título. II. Lima, Fernanda Barboza de. III. Marques, Moama Lorena de Lacerda. IV. Silva, Willians Gonçalves. E56 Encontro de Letras do Litoral Norte da Paraíba – ELLIN (Anais) (2. : 24 a 26 de abril de 2019: Mamanguape, PB). Anais / II ELLIN: Encontro de Letras do Litoral Norte da Paraíba. Letras em diálogo: língua, literatura e cultura / Fernanda Barboza de Lima; Moama Lorena de Lacerda Marques; Willians Gonçalves Silva. – João Pessoa: Editora da UFPB, 2019. 846 p. ISBN: 978-85-237-1447-5 779 PROJETO DE LETRAMENTO, PRA QUÊ TE QUERO? RESSIGNIFICANDO O ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA André Luiz Souza da Silva (UEPB/CH)129 andreluiz.bans@gmail.com Karla Valéria Araújo Silva (UFPB/PROLING)130 karlavaleria_gba@hotmail.com Introdução Nos percalços da formação docente, o professor se depara, por muitas vezes, com questões que o fazem perguntar a si mesmo: que professor sou? O que ensino é realmente significativo para os meus alunos? Diante do cenário conflituoso que é a formação dos profissionais da educação, entendemos a necessidade de se debater e refletir a respeito de práticas pedagógicas possíveis para adentrarem às salas de aula e também para as transpor. Nesse sentido, podemos afirmar que um dos caminhos para melhor pensarmos em novas metodologias e práticas de ensino, é observar, analisar e adequar os variados recursos que as pesquisas educacionais nos possibilitam. Assim, o principal objetivo desse trabalho é apresentar algumas possibilidades de mediação a partir dos gêneros textuais, orais e escritos, sinalizando como eles podem ser instrumentos para o ensino e reflexão acerca dos usos linguísticos e parâmetros gramaticais. O trabalho com o texto deve primar de sua função social, de seu caráter formativo e elementos composicionais. Tendo isto em mente, apontamos um caminho para a análise e prática linguística em contexto de sala de aula, a partir um projeto de letramento que fora desenvolvido com alunos do ensino fundamental. Quanto ao desenvolvimento teórico deste trabalho, elegemos os estudos de Tinoco (2013) e Coppi (2016) como pertinentes para as proposições de um projeto de letramento, como também nos pressupostos de Antunes (2009) acerca dos gêneros textuais e ensino de língua. E, para os fundamentos que aprofundam a seção metodológica deste trabalho, o qual se caracteriza como descritivo-interpretativo por sua abordagem qualitativa, elencamos as contribuições de Bortoni- Ricardo (2008). 129 Graduando em Letras – Língua Portuguesa pela Universidade Estadual da Paraíba –Campus III e professor da Educação Básica (ensino fundamental e médio) na rede particular de ensino. E-mail: andreluiz.bans@gmail.com 130 Graduada em Letras e Especialista em Linguística pela Universidade Estadual da Paraíba, Mestranda em Linguística pelo programa de Pós-graduação em Linguística (PROLING) da Universidade Federal da Paraíba. E-mail: karlavaleria_gba@hotmail.com 780 Para tanto, nossa pesquisa segue articulada da seguinte maneira: inicialmente, temos a seção teórica, na qual iremos discutir sobre algumas perspectivas para o ensino de língua portuguesa, apontando a necessidade de ressignificá-lo. Ainda, nessa mesma seção, apontaremos como os projetos de letramento podem proporcionar um redirecionamento significativo do ensino. Em seguida, será apresentado o passo a passo de uma proposta intervencionista que compreende uma perspectiva interacional e, consequentemente, reflexiva acerca da língua; e, por fim, temos as considerações finais, que postulam nossas reflexões acerca do trabalho desenvolvido. 1. A emergência da ressignificação no ensino de Língua Portuguesa Muito se tem discutido que o ensino de Língua Portuguesa ainda se apresenta uniforme, isto é, voltado apenas para o trabalho com a gramática normativa, tendo como seu início e fim, o ensino da norma-padrão. Não estamos a desconsiderar a necessidade de se trabalhar, avaliar e ensinar gramática, mas como o ensino de LP tem sido direcionado exclusivamente para esse objetivo, na maioria das vezes. Essa perspectiva tão reducionista de ensino tem a ver com a percepção que o professor apresenta acerca da língua, o que inevitavelmente repercute diretamente em sua prática, como bem pontua Oliveira (2010): [...] a forma como o professor vê a língua determina a maneira como ele ensina português. Ela tem implicações diretas no planejamento das aulas, na escolha do material didático, na forma de avaliar a produção dos alunos e no reconhecimento dos dialetos trazidos por seus alunos para a sala de aula [...] (p. 32). Atualmente a concepção de língua ainda mais evidenciada nas salas de aula é a estruturalista, para a qual os usos e variações que provém das interações sócio-comunicativas são desconsiderados. Para ela, o que interessa é a língua por si só, ou seja, a regra pela regra, a norma pela norma, o estudo do seu funcionamento interno e, com isso, tem se estabelecido um padrão linguístico quase inalcançável por aqueles que naturalmente dela já se utilizam. Porém, de acordo com os PCN de Língua Portuguesa (1998), os conteúdos de português devem ser trabalhados, mediados e avaliados a partir de dois eixos: o do uso e o da reflexão. Este será sobre a língua e a linguagem em si, aquele sobre a língua oral e escrita. É a partir disso que “[...] considerar a articulação dos conteúdos nos eixos citados significa compreender que tanto o ponto de partida como a finalidade do ensino da língua é a produção/recepção de discursos” (BRASIL, 1998, p. 34). Partindo dessas questões, compreendemos a necessidade de se emergir uma concepção de língua que considere sua dinamicidade, a qual só pode ser resultado senão de uma visão sociointeracionista. Segundo Oliveira (2010), esta concepção que abarca uma perspectiva sociocultural, isto é, que considera o falante, o ouvinte, o meio no qual se produz e reproduz os 781 discursos, fará com que osnossos alunos passem a refletir sobre os usos linguísticos e analisar, por exemplo, porque usa-se de um certo modo ou tempo verbal, qual a finalidade de uma vírgula após vocativos, qual a função de uma conjunção adversativa e como outras palavras podem exercer outras funções. Tudo isso pode e deve ser feito por meio da linguagem em uso. Sabe-se que há dificuldades no que tange o ensino de Língua Portuguesa e vemos a necessidade de se adotar uma nova abordagem para o ensino de LP. Entretanto, como isso pode ser feito? Como afirmam os PCN (1998), por meio dos textos. Entendendo que estes são mediados e constituídos por linguagem, o documento aponta o seguinte: O domínio da linguagem, como atividade discursiva e cognitiva, e o domínio da língua, como sistema simbólico utilizado por uma comunidade linguística, são condições de possibilidade de plena participação social. Pela linguagem os homens e as mulheres se comunicam, têm acesso à informação, expressam e defendem pontos de vista, partilham ou constroem visões de mundo, produzem cultura. Assim, um projeto educativo comprometido com a democratização social e cultural atribui à escola a função e a responsabilidade de construir para garantir a todos os alunos o acesso aos saberes lingüísticos (sic) necessários para o exercício da cidadania (BRASIL, 1998, p. 19). Pelo prisma da construção cidadã dotada de valores socioculturais, surge um instrumento capaz de promover um ensino valoroso e dinâmico: os gêneros textuais. De acordo com Antunes (2009), os gêneros estruturam-se além dos elementos linguísticos, pois também abarcam paradigmas e convenções sociais que se determinam e efetuam através da mediação da própria linguagem. Portanto, devemos compreender que, através da língua(gem), a textualidade se constitui nos gêneros textuais da seguinte maneira: [...] a língua usada nos textos – dentro de determinado grupo – constitui uma forma de comportamento social. Ou seja, as pessoas cumprem determinadas atuações sociais por meios verbais, e tais atuações – a exemplo de todo o social – são tipificadas, estabilizadas; por outras palavras, são sujeitas a modelos, em que a recorrência de certos elementos lhes dá exatamente esse caráter de estabelecido, de típico, de regular [...] (ANTUNES, 2009, p. 54). Através dos gêneros textuais, é possível refletir com os alunos a respeito de elementos internos e externos à língua, e é nesse contexto que se estabelecem os usos linguísticos, tanto os da norma-padrão, quanto os de outras variantes. A partir disto, Antunes (2009) afirma que é essa conjectura e comunhão de fatores que possibilitam a análise linguística numa perspectiva pragmática. Deste modo, o objetivo do professor e das aulas de português deve ser o de desenvolver a competência comunicativa dos discentes, como bem postula Oliveira (2010): Ajudar o estudante a aprender a se comportar linguisticamente em diversas situações de interação social é o objetivo principal das aulas de português, que não deveriam 782 ter como foco principal o ensino de gramática normativa por meio da nomenclatura que a descreve de forma inconsistente (p. 43). Oliveira (2010) também estabelece que validação do ensino de LP se pauta em quatro competências: a gramatical, que se estabelece, de acordo com Oliveira (2010), pelo conhecimento que o falante possui a respeito da língua, considerando suas regras e características; a sociolinguística, que possibilita que o falante compreenda os mais variados discursos e enunciados, considerando os diversos fatores sociais e culturais. Isto faz alcançar um dos objetivos apontados pelos PCN (1998, p. 33), o de que é necessário “conhecer e valorizar as diferentes variedades Português, procurando combater o preconceito linguístico”; a discursiva, que corresponde à compreensão e avaliação das diferentes situações discursivas, nas quais possa estar inserido podendo compreender e comunicar-se através de variados gêneros de texto, o que também concerne com o fato de os PCN (1998), estabelecerem que os alunos devem analisar questões temáticas, estilísticas e composicionais de variados gêneros; e a estratégica, que refere-se às manobras que o falante pode fazer durante os atos comunicativos. Esta competência se constrói a partir das linguagens verbal e não verbal, da articulação entre a fala e os gestos, entre um sinal, um aceno, ou simplesmente não dizer nada. Por meio da elaboração, estruturação e trabalho com estas e através destas competências, o professor estará ampliando a comunicação dos alunos e também (re)significando seu fazer pedagógico. 2. Projeto de letramento: um caminho para o ensino significativo de LP O processo de ressignificação do ensino de LP pode e deve ser marcado por momentos reflexivos e dinâmicos que promovam ao aluno o reconhecimento da linguagem como instrumento de acesso ao meio sociocultural. Logo, práticas pedagógicas que envolvam conteúdos que extrapolem os currículos escolares e que abranjam necessidades reais de uso da língua, se fazem urgentemente necessárias dentro do contexto escolar. Assim sendo, Tinoco (2013) aponta para um caminho possível para esse processo de ressignificação, que são os projetos de letramento. Segundo a autora, “[...] um projeto de letramento implica planejar atividades docentes e discentes que não se restringem a uma aula, mas se ampliem em formato de rede” (TINOCO, 2013, p. 157). Destarte, frente às demandas reais de uso da linguagem, surgem as possibilidades de se trabalhar com projetos de letramento que visem a ação social. Nesse sentido, o aluno é visto e reconhecido como um agente social e o professor, um agente colaborativo. O projeto de letramento consiste em um trabalho que valoriza a escrita do aluno como algo que pode e deve ser desenvolvido, melhorado, avaliado, transformado e ampliado para que se torne significativo, não só em termos de competência, mas também (e principalmente) como uma ferramenta pela qual se adquire autonomia social. De acordo com Coppi (2016), esse tipo de projeto 783 é dinâmico por considerar que sua temática não é apontada por coordenadores pedagógicos, diretores, nem mesmo pelo professor, mas pelo contexto social em que os sujeitos estão inseridos. E, como determina Tinoco (2013, p. 151), “os projetos de letramento surgem de um interesse na vida real [...]”. Por este viés social que configura os projetos de letramento, estabelecemos um trabalho em sala de aula tendo como ponto de partida o tema a variedade linguística, mais precisamente, a questão do preconceito linguístico, pois compreendemos que este se trata de uma discriminação que deve ser combatida, como bem apontado por Bagno (2015): O preconceito linguístico é tanto mais poderoso porque, em grande medida, ele é “invisível”, no sentido de que quase ninguém se apercebe dele, quase ninguém fala dele, com exceção dos raros cientistas sociais que se dedicam a estudá-lo. Pouquíssimas pessoas reconhecem a existência do preconceito linguístico, que dirá a sua gravidade, como um sério problema social (p. 22). Desse modo, faz-se necessário que os alunos percebam a dinamicidade não apenas linguística, mas também social, e para tanto, sinalizamos a validade social do projeto de letramento que será exposto na seção a seguir. 3. Metodologia e Descrição da proposta Sendo de abordagem qualitativa, do tipo descritivo-interpretativista, pelo viés da pesquisa- ação, a presente pesquisa aconteceu paralelamente aos conteúdos curriculares em 2017, durante os meses de outubro e novembro, quarto bimestre da escola-campo. Foi desenvolvido nesse período, em uma escola da rede particular de ensino da cidade de Belém/Pb, com alunos do ensino fundamental, um projeto de letramento que teve como ponto de partida e chegada a análise e reflexão dos usos concretos da língua, com o foco na variação.O intuito foi levar os alunos a considerarem alguns fenômenos que interferem nesse uso, e, para tanto, elencamos gêneros que pudessem suscitar as discussões acerca dos níveis: fonético-fonológico, morfossintático e semântico-pragmático. Ratificamos que o referido projeto visou, dentre outras finalidades, corroborar com uma das principais finalidades da pesquisa qualitativa que é “[...] construir e aperfeiçoar teorias sobre a organização social e cognitiva da vida em sala de aula, que é o contexto por excelência para a aprendizagem dos educandos” (BORTONI-RICARDO, 2008, p.42). Foram no total oito aulas (sendo quatro de base teórico-reflexiva e quatro de base analítica), as quais serão descritas a seguir. 3.1 Aula de fonética e fonologia Para desenvolvermos a aula a partir da temática proposta, utilizamos do gênero textual meme. Buscamos discutir com os alunos algumas questões voltadas à sua análise juntamente com o 784 conteúdo. Desta forma, analisamos com os alunos como o gênero se apresenta socialmente, isto é, os elementos que constituem sua estrutura física. Adiante, tratamos das temáticas nele contidas, ou seja, como a vida cotidiana e o humor são elementos temáticos para o gênero meme do Bode Gaiato, fenômeno virtual famoso nas redes digitais. Por fim, tratamos de analisar o estilo utilizado no gênero: linguagem mista, na qual a de ordem não verbal se dá pelo uso de imagens, mais precisamente focaliza os personagens com corpo humano e cabeça de caprino, e por ordem verbal temos os recursos linguísticos que consagram a variedade linguística voltada para a região Nordeste. Vejamos o meme trabalhado: Figura 1 – meme bode gaiato Fonte: Disponível em . Acesso em: 12 de maio 2019. Realizada a análise dos elementos composicionais, passamos a tratar da temática do gênero buscando compreender os diálogos bem como o seu propósito comunicativo. Passada esta etapa, seguimos para a análise dos elementos linguísticos de ordem verbal, nos direcionando a pressupostos do nível fonético-fonológico da língua. Voltamos nossas reflexões para os termos: tá, estudâno, pá, dexa e mermo. A partir destes elementos, buscamos refletir junto com os alunos o que seria a queda, acréscimo e/ou alternância de fonemas numa construção lexical e sugerimos para eles as seguintes indagações: o que leva o falante a emitir palavras com o apagamento de fonemas? Vocês também falam estas palavras? O objetivo de tais questionamentos foi levar o aluno a pensar sobre os usos da língua que ele já domina. Dessa forma, foi possível entender com eles a questão da economia linguística diante dos vocábulos expostos, além de tratarmos do fato de que variedades socialmente aceitas não são estigmatizadas, pois passam a ser de prestígio. Assim, identificamos os seguintes fenômenos: Quadro 01 – proposta de análise linguística https://www.imagemwhats.com.br/bode-gaiato-imagens-engracadas-89/ 785 1) Uma redutiva do verbo está > tá 2) Um apagamento do fonema /d/ no grupo gerúndio de estudâno 3) A queda das letras “a” e “r” no interior do termo pá que se remete à preposição para 4) Uma monotongação do ditongo que resulta na queda da semivogal “i” em dexa 5) Uma alternância consonantal do fonema /s/ para o fonema /r/ em mermo 3.2 Aula de morfologia e sintaxe Para introduzir esta aula, partimos das proposições do artigo intitulado O Ensino de Gramática na Perspectiva Funcionalista: proposta de análises131. A partir das exemplificações e direcionamentos teóricos desse texto, seguimos para uma abordagem e reflexão que considerasse primeiro uma ênfase na forma, depois na função. Desse modo, os exemplos abaixo constituem em “a”, “b” e “c” um destaque na forma, o que considera a mesma estrutura mórfica exercendo multifunções, nas letras “d”, “e” e “f” temos multiformas exercendo função unilateral. A seguir, acompanhe os excertos apresentados por Martins (2013) apud Hora e Pedrosa (2001): A) “Ele chegou e disse assim: Ó, dona T, a senhora – a senhora não deixa a chave aí, porque, às vezes pode assim como eu vi, outros podem ver”. B) “Eles botaram ela, assim, num monte de aparelhos, sabe? Aí, ela deu uma melhorazinha”. C) “Se já tinha morrido lá, já estava lá, era assim – nem precisava isso né? Era só liberar, né? Aí não podiam liberar sem o médico chegar”. D) “...os meses se passavam e nada de barriga aparecer...”. E) “Gosto muito do irmão dele. Já da irmã eu desconfio”. F) “Quanto ao conteúdo, eu concordo. Agora, quanto à forma eu discordo”. A fim de, mais uma vez, refletir com os alunos sobre os fenômenos linguísticos, passamos a explicar aos alunos como a gramática normativa estabelece normas para a variabilidade das estruturas mórficas e funcionalidade para os empregos sintáticos. Porém, é necessário compreender que “um componente importante da abordagem proposta pela gramática funcional passa a ser a incorporação de noções pragmáticas, relacionadas às escolhas que o usuário realiza no processo de construção de seus enunciados” (MARTINS, 2013, p. 43). Com tais entendimentos, partimos para uma análise mediada com os alunos: apresentamos os três primeiros enunciados, os quais apresentam o adverbio locativo “aí” exercendo a função de locativo em “a”, mas se gramaticaliza para um conector sequenciador em “b”., como então. Em “c”, 131 Referência ao final do trabalho. 786 temos um valor adversativo para o elemento em análise, isto é, mas, porém, todavia e etc. Nos enunciados seguintes, temos estruturas mórficas diferentes em função unilateral, isto é, função única. Em “d”, o conectivo e que é estabelecido, normativamente, como uma conjunção aditiva, passa a negar a oração anterior, isto é, está em adversidade. Da mesma forma em “b”, onde o advérbio temporal passa a exercer uma funcionalidade conjuntiva, como também ocorre em “c” com o advérbio agora, como apontam as análises de Martins (2013). Se faz necessário tal discussão para se explicar que a gramática normativa não consegue dar conta, sozinha, de todos os fenômenos da língua. Embora sua uniformidade seja necessária para variadas práticas linguísticas, todos os falantes são criativos a ponto de criar ou recriar ações linguísticas durante as “negociações” no processo de enunciação. Assim, fizemos uma ponte entre o que estabelece os aspectos mórficos e sintáticos da gramática normativa com o que ocorre com a língua em sua real concretude, a fala. No mais, os alunos puderam refletir sobre a variedade linguística ser, não o que diverge da fonética e morfologia normativa, mas aquilo que se ressignifica para ser um novo uso sintático. 3.3 Aula de semântica e pragmática Passadas as instâncias estruturais em relação aos níveis da língua, seguimos para a relação significado vs. sentido, estabelecida pela semântica e pela pragmática. A partir desta penúltima aula, fizemos com os alunos uma reflexão sobre como o sentido de tudo que é dito está associado a como se diz, com quem se diz e por que se diz. Por vezes, a descontextualização é instrumento para a atribuição de um novo sentido, o que resulta numa nova interpretação do que se enuncia. Por consequência, os falantes, no processo de negociação comunicativa, acabam por proferir enunciados que podem levar a interpretações equivocadas e que não condizem com a realidade. Abaixo, temos um trecho de uma entrevista, que está presente na revista Veja, cedida pela modelo brasileira Gisele Bündchen: Figura 02 – recorte de entrevista 787 Fonte: Disponível em: . Acesso em: 12 de mai. 2019. Esse trecho foi levado para a aula para falarmos sobre como a linguagem é mediada através de ordem figurada e/ou literal, isto é, conotativa e/ou denotativa.Perguntamos aos alunos se eles poderiam ou conseguiriam deduzir qual teria sido a perguntar feita a modelo. Eles passaram a expor opções como: “Ah, devem ter perguntado sobre o que ela gosta no Brasil”, disse um, “Penso que perguntaram se ela tem saudades de alguma coisa daqui”, respondeu outro. Questionamos então se os alunos viam algum problema na construção linguística do texto. Prontamente, determinaram que o “Sinto falta da galinha da minha mãe” era um sintagma problemático devido ao sentido do termo galinha. Logo, indagamos os alunos sobre qual seria o sentido desse termo no enunciado e surgiram concepções como “mulher e/ou homem que ‘fica’ com muitas pessoas livremente, sem ligar para o que o povo diz”. Porém, perguntamos aos alunos se eles consideravam que o propósito da modelo teria sido este. Todos afirmaram que não, pois ela estaria se referindo a galinha como um alimento que a mãe prepara e cozinha. A partir desse exemplo, pudemos adentrar na questão da ambiguidade e pudemos refletir sobre a necessidade de se ter alguns cuidados no emprego de algumas palavras, bem como a posição que damos a elas no enunciado, pois, além de sermos inteiramente responsáveis pelo que dizemos, nossos ouvintes (ou leitores) têm a liberdade para depreender os sentidos que lhes são possíveis. 3.4 Aula sobre o gênero oral entrevista A quarta aula teve como ponto de partida o gênero oral entrevista e nosso intuito foi fazer com que os alunos não só conhecessem as suas características, mas também se apropriassem delas para ir a campo realizá-lo. Essa aula foi proposta também com a intenção de possibilitar aos alunos a oportunidade de perceberem na prática a função social desse gênero e como ele poderia ser utilizado para se analisar, a partir de transcrições de falas, as formas espontâneas de variação que resultam do uso da língua. http://epdarcyribeiro.blogspot.com/2014/04/atividade-sobre-ambiguidade_29.html 788 Antes de pedirmos aos alunos que realizassem as entrevistas, proporcionamos, em sala, o contato com um áudio de whatssap132, o qual eles ouviram três vezes. A primeira, com a finalidade de conhecerem o objeto; a segunda, para que pudessem identificar algum fenômeno linguístico; na terceira, e última escuta, para que os alunos transcrevessem parte do áudio no qual uma falante fica deslumbrada com a cidade grande ao visitar sua filha. A partir da transcrição, refletimos sobre quais os possíveis fatores que motivam as variedades no falar daquela entrevistada. Assim, ao abordarmos a questão geográfica, por exemplo, os alunos pressupunham que a colaboradora fosse da zona rural, deveria ter entre 50 e 70 anos e talvez seu grau de escolarização fosse o fundamental incompleto. Passadas as aulas teóricas, adentramos à proposta prática. Os alunos iriam a campo aplicar uma entrevista com alguém do seu convívio. Orientamos que eles deixassem os seus entrevistados à vontade para que estes pudessem ter comportamentos espontâneos durante suas respostas. Outra orientação dada, foi para que eles realizassem a entrevista por meio do uso da rede whatssap e assim, pudemos dar uma funcionalidade pedagógica para o aparelho celular e também posicionar a rede virtual como um recurso de pesquisa. A partir disto, aproveitamos para esclarecer também a necessidade de os alunos serem éticos e respeitosos com a história e memórias dos participantes, e que deveriam também primar pelo anonimato de suas fontes. Para realizarem suas gravações, os alunos receberam uma entrevista pré-estruturada, na qual continha alguns dos questionamentos: tempo em que mora na cidade na qual reside; se algo já o motivou a pensar em se mudar da cidade; se nasceu e cresceu na mesma cidade e como foi a infância; se já viajou e qual viagem que mais gostou e porquê; entre outras. Após a realização das entrevistas, pedimos aos alunos que transcrevessem as gravações tal como os entrevistados haviam respondido. Ao fim, estes assinaram uma declaração (a qual funcionou como um termo de consentimento) entregue pelos alunos, por meio da qual suas falas estariam autorizadas para estudos escolares. Deste modo, os alunos puderam conhecer também esse tipo de documento e a sua finalidade social, bem como entender a necessidade de se ter uma postura ética na pesquisa. 3.5 Análise dos dados pelos alunos Para finalizar o projeto, os alunos, primeiro, quantificaram alguns parâmetros: idade; escolarização e sexo. Os gráficos abaixo foram montados a partir das quantificações indicadas pelos alunos em sala. Assim como as análises de alguns fenômenos identificados por eles. Figura 03 – fator: sexo 132 Disponível em: . Acesso em: 20 de abr. 2019. https://www.youtube.com/watch?v=cCJAcssWg5E 789 Fonte: produção dos alunos De acordo com o gráfico dos alunos, do total de participantes, 62,01% são do sexo feminino e os outros 37,9% do sexo masculino. Mediante a constatação dos discentes, refletiu-se como as mulheres apresentam um maior uso da norma-padrão. Apontamos para os alunos duas constatações que pesquisas sociolinguísticas já fizeram: que homens utilizam um maior número de palavrões que as mulheres e que as mulheres utilizam mais dos sufixos diminutivos do que os homens. Figura 04 – fator: escolaridade Fonte: produção dos alunos Mediante o fator escolaridade, os alunos produziram o gráfico apontando seis constituintes: ensino fundamental completo e incompleto; ensino médio completo e incompleto; e ensino superior completo e incompleto. A partir disto, constaram que 3,7% dos entrevistados tinham o fundamental completo e 14,5% o fundamental incompleto. Adiante, pontuam que 40,7% dos participantes têm ensino médio completo, diferente dos 14,8% que têm este nível de escolarização incompleto. Por fim, 11, 1% têm o ensino superior completo e 14,8% com superior incompleto. Por meio destes números, foi possível constatar com os alunos como os índices de analfabetismo passaram a reduzir desde a virada do século, o que corrobora com o fato de o percentual de ensino médio completo apresentar um número considerável. 790 Figura 05 – fator: idade Fonte: produção dos alunos No último gráfico, os alunos apresentam quatro colunas nas quais determinam a idade dos participantes das entrevistas. A primeira coluna, a cor-de-rosa estabelece que 30% dos entrevistados têm entre 19 e 20 anos. Na segunda coluna, de cor roxa, temos o maior percentual do fator idade, são 35% dos participantes entre 30 e 45 anos. Os participantes representados pela cor verde no gráfico, têm de 46 a 60 anos, sendo 19% dos entrevistados. Por fim, temos 16% dos participantes com idade de 60 a 70 anos. Por intermédio deste fator, foi possível estabelecer com os alunos como idosos e jovens têm variedades linguísticas diferentes. Acerca dos fenômenos linguísticos explicitados nas falas de alguns participantes e apontados pelos próprios alunos, temos: a) “O que Belém tem que otras cidades não tem é o sussego a paz e a tranquilidade”; b) “Fai trinta e seis ano que eu moro aqui em Belém” Em “a”, de acordo com os alunos, no termo em destaque, é possível identificar uma queda do fonema /u/ no meio da palavra, além de uma pronúncia alternativa para o fonema /o/ sendo pronunciado o som da vogal u. Já em “b”, segundo os discentes, o termo em análise apresenta uma mudança da consoante “z” para a vogal “i” no fim da palavra. Observamos qua a identificação de fenômenos de ordem fonética está no primeiro nível em que apresentamos na nossa aula reflexiva a partir do meme do Bode Gaiato. Adiante observemos outros dois fenômenos sinalizados: a) “[...] já aconteceu, pensei em mim mudar mas preferi, depois resolvi ficar”; b) “[...] eu num fui muito de viajar, num fui muito assim de ir pra lugares, assim nas minhas férias [...]” Em “a”, os alunosestabeleceram que o termo está exercendo uma função diferente da que o padrão determina ser correto, o uso adequado seria “me” conforme a norma-padrão. Em “b”, o termo em destaque está sendo usado com a função de advérbio de negação, ao invés do uso em + um como 791 preposição. Essas análises remetem ao uso morfossintático da língua, o qual estabelecemos como as funções migram de uma classe para outra, bem como dentro da própria classe. A seguir, temos os últimos dois exemplos: a) “Não é aquela relação supimpa, mas é a vida, né?”; b) “Hoje a cidade tá uma bagunça, muito barulhenta e com um monte de gente sem-futuro”. De acordo com os alunos, em “a”, o termo indica um sentido o qual eles desconheciam, mas inferiram que, pelo contexto, deva ser “uma relação que não seja a melhor de todas, mas que se respeitam” (fala dos alunos). Em “b”, os discentes determinaram que: “quer dizer que são pessoas erradas”, isto é, pessoas que causam algazarra ou que são envolvidas com atividades criminosas, por exemplo. Vemos uma identificação de elementos de ordem semântica, como o contexto estabelece o sentido para o uso de variados usos linguísticos, bem como a associação de palavras oportuniza novos sentidos. Considerações Finais Diante de todo o percurso trilhado na realização do projeto de letramento acima descrito, consideramos ser de significativa relevância a inserção de atividades que envolvam os alunos de forma prática e reflexiva acerca da função interativa do uso da língua, bem como dos seus impactos no âmbito social. Desse modo, vimos, por meio desse projeto, que é possível ressignificar o ensino de LP quando se decide trabalhar numa perspectiva na qual, o ponto de partida e chegada se dá por intermédio dos gêneros textuais. O projeto nos permitiu visualizar também as contribuições resultantes dos momentos de reflexão acerca dos níveis e usos concretos da língua. Isso corroborou, por exemplo, para que discutíssemos sobre os diversos aspectos que influenciam as variantes linguísticas, as quais provém do seu caráter heterogêneo e dinâmico. No mais, a pesquisa mostrou-se proveitosa e mediadora de uma prática de ensino de LP possível e necessária, cumprindo, assim, o seu principal objetivo que foi trabalhar com a linguagem, visando uma ampliação da competência linguística dos discentes. Referências ANTUNES, Irandé. Língua, Texto e Ensino: outra escola possível. São Paulo: Parábola Editorial, 2009. BAGNO, Marcos. Preconceito Linguístico. 56. ed. São Paulo: Parábola Editorial, 2015. BORTONI-RICARDO, Stella Maris. O professor pesquisador: introdução à pesquisa qualitativa. São Paulo: Parábola Editorial, 2008. 792 BRASIL. Parâmetros Curriculares Nacionais: terceiro e quarto ciclos do ensino fundamental: língua portuguesa. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Fundamental. Brasília: MEC/SEF, 1998. COPPI, D. dos S. M. Projeto de Letramento: uma concepção social da escrita aplicada ao ensino de Língua Portuguesa. 106 f. 2016. Dissertação (Mestrado Profissional em Letras) – PROFLETRAS. Universidade Estadual da Paraíba, Guarabira. MARTINS, Iara F. de Melo. O Ensino de Gramática na Perspectiva Funcionalista: proposta de análises. In: LINS, Juarez Nogueira de (org.). Linguagens: ensino e pesquisa. Recife: Ed. Universitária UFPE, 2013, p. 39-50. OLIVEIRA, Luciano Amaral. Coisas que todo professor de português precisa saber: a teoria e a prática. São Paulo: Parábola Editorial, 2010. TINOCO, G. A. Usos sociais da escrita + projetos de letramento = ressignificação do ensino de língua portuguesa. In: GONÇALVES, A. V. BAZARIM, M. (orgs.). Interação, Gêneros e Letramento: a (re)escrita em foco. Campinas: Pontes Editores, 2013, p. 149-167.