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NEUROEDUCAÇÃO e estratégias de aprendizagem MICHELE MÜLLER ISBN 978-65-5821-213-3 9 786558 212133 Código Logístico I000965 N euroeducação e estratégias de aprendizagem M ich ele M ü ller Neuroeducação e estratégias de aprendizagem Michele Müller IESDE BRASIL 2023 Todos os direitos reservados. IESDE BRASIL S/A. Al. Dr. Carlos de Carvalho, 1.482. CEP: 80730-200 Batel – Curitiba – PR 0800 708 88 88 – www.iesde.com.br © 2023 – IESDE BRASIL S/A. É proibida a reprodução, mesmo parcial, por qualquer processo, sem autorização por escrito da autora e do detentor dos direitos autorais. Projeto de capa: IESDE BRASIL S/A. Imagem da capa: Nazarii M/shutterstock 23-81978 CDD: 370.1523 CDU: 37.015.3:159.953 CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃONAPUBLICAÇÃO SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ M924n Müller, Michele Neuroeducação e estratégias de aprendizagem / Michele Müller. - 1. ed. - Curitiba [PR] : IESDE, 2023. Inclui bibliografia ISBN 978-65-5821-213-3 1. Psicologia da aprendizagem. 2. Neurociência cognitiva. 3. Aprendizagem cognitiva. I. Título. Gabriela Faray Ferreira Lopes - Bibliotecária - CRB-7/6643 13/01/2023 18/01/2023 Michele Müller Especialista em Neuropsicopedagogia pela Universidade Positivo (UP) e em Neurociência Clínica pela AVM Educacional. Bacharel em Comunicação Social pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR). Autora de artigos sobre neuroeducação e neurociência. Professora de cursos de extensão em neurociência, criatividade e educação. Desenvolvedora de ferramentas para o aprimoramento das habilidades de comunicação. Autora da coletânea de ensaios Aquilo que nos move, premiada pelo concurso público Outras Palavras, da Secretaria de Estado da Cultura do Paraná. Cursou o mestrado em Ciências da Educação na Universidade Fernando Pessoa, em Porto, Portugal, e sua pesquisa foi selecionada para ser apresentada no Congresso Internacional da Universidade de Rioja, Espanha. 23-81978 CDD: 370.1523 CDU: 37.015.3:159.953 CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃONAPUBLICAÇÃO SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ M924n Müller, Michele Neuroeducação e estratégias de aprendizagem / Michele Müller. - 1. ed. - Curitiba [PR] : IESDE, 2023. Inclui bibliografia ISBN 978-65-5821-213-3 1. Psicologia da aprendizagem. 2. Neurociência cognitiva. 3. Aprendizagem cognitiva. I. Título. Gabriela Faray Ferreira Lopes - Bibliotecária - CRB-7/6643 13/01/2023 18/01/2023 Agora é possível acessar os vídeos do livro por meio de QR codes (códigos de barras) presentes no início de cada seção de capítulo. Acesse os vídeos automaticamente, direcionando a câmera fotográ�ca de seu smartphone ou tablet para o QR code. Em alguns dispositivos é necessário ter instalado um leitor de QR code, que pode ser adquirido gratuitamente em lojas de aplicativos. Vídeos em QR code! SUMÁRIO Reflexão inicial 9 1 Introdução à neuroeducação 11 1.1 O que é aprendizagem e como o cérebro aprende 12 1.2 O que é neuroplasticidade? 19 1.3 A cognição social – por que a aprendizagem depende do meio social 25 1.4 O que são as funções executivas 30 2 Atenção e criatividade 37 2.1 Afinal, o que significa prestar atenção? 38 2.2 Os diferentes modos de atenção 43 2.3 Como funciona a atenção concentrada? 46 2.4 A relação da atenção com a criatividade 48 2.5 Atenção no cérebro 51 2.6 Como podemos exercitar a atenção concentrada 53 2.7 Como exercitar a atenção difusa e estimular a criatividade 58 3 Consolidação das informações 64 3.1 Como funciona a memória? 64 3.2 Outros tipos de memória 66 3.3 Por que esquecemos? 69 3.4 O papel da repetição na educação 71 3.5 Estratégias de memorização 73 3.6 Fatores que influenciam a memória 78 4 Papel das emoções na aprendizagem 82 4.1 O que são emoções 83 4.2 O papel da linguagem na regulação das emoções 85 4.3 A disciplina na regulação das emoções 90 4.4 Como estimular o esforço e a resiliência 94 4.5 Erros como estratégia de aprendizagem 95 4.6 Como e por que criar motivação 98 Agora é possível acessar os vídeos do livro por meio de QR codes (códigos de barras) presentes no início de cada seção de capítulo. Acesse os vídeos automaticamente, direcionando a câmera fotográ�ca de seu smartphone ou tablet para o QR code. Em alguns dispositivos é necessário ter instalado um leitor de QR code, que pode ser adquirido gratuitamente em lojas de aplicativos. Vídeos em QR code! 6 Neuroeducação e estratégias de aprendizagem 5 Compreensão e construção de sentido 105 5.1 Como as informações ganham sentido? 105 5.2 Aprendizagem de conceitos 109 5.3 Dificuldades na compreensão da linguagem 113 5.4 Estratégias para exercitar a compreensão 116 Comentários sobre a reflexão inicial 123 Resolução das atividades 127 Com descobertas sobre como o cérebro aprende, não é possível mais falarmos em educação sem também falarmos em neurociência, pois a maneira como se ensina ganha importância sobre o conteúdo, e a construção de habilidades, ou seja, a formação do indivíduo, prevalece sobre a informação. Afinal, hoje carregamos nos bolsos todas as informações de que precisamos, fato esse que deveria ser suficiente para derrubar o modelo de educação centrado no professor e no conteúdo. O ensino, mais que nunca, deve focar a seleção, a manipulação e a aplicação das informações de maneira inteligente, o que implica o desenvolvimento de uma série de capacidades sobre as quais a neurociência tem muito a nos ensinar. Desse modo, é importante destacarmos que cada cérebro é único, ou seja, aprende em seu próprio ritmo, de acordo com a maturidade, necessidades e interesses de cada um. No entanto, o processo de aprendizagem acontece a partir de um padrão, independentemente do tipo de aluno. Portanto, conhecer os fatores emocionais, sociais, motores e cognitivos que interagem nesse processo é essencial na construção de um ambiente inclusivo, que atenda a todos de modo eficaz. O primeiro capítulo desta obra introduz novas formas de definir a aprendizagem de acordo com a neurociência. Por meio dele, aprenderemos a principal função do cérebro, por qual motivo ele faz previsões e o que acontece quando essas previsões estão erradas, além da sua propriedade incrível de se adaptar a mudanças e de se transformar de acordo com as necessidades com base nos estímulos que recebe. Esse capítulo também contempla o meio social e seu papel fundamental no desenvolvimento cognitivo e das chamadas funções executivas – capacidades superiores que envolvem o pensar antes de agir. No segundo capítulo, apresentamos alguns dos pilares da educação, começando com o mais fundamental deles: a atenção, em seus diferentes modos. Com isso, compreenderemos APRESENTAÇÃOVídeo 8 Neuroeducação e estratégias de aprendizagem a razão de como prestar atenção pode ser tão desafiador e como ela se relaciona com a criatividade. Além disso, para que esse conhecimento se reflita em práticas que tornam a aprendizagem mais eficaz, é sugerida uma série de estratégias que exercitam o foco e podem ser aplicadas individualmente ou em sala de aula. Ao longo do terceiro capítulo, outro pilar da educação, a consolidação, é estudada nesta obra sob diferentes aspectos: desde o processo de formação da memória até sua relação com o sono, entenderemos como o cérebro guarda as informações e por qual motivo, com muito mais frequência, ele as descarta. Também veremos de quais maneiras a educação pode, levando em consideração nossa tendência ao esquecimento, elevar a retenção dos conteúdos administrados. Já no quarto capítulo, veremos o porquê de as emoções se- rem um componente essencial na fórmula da aprendizagem e como podemos interferir nessa relação, desenvolvendo nos alu- nos a resiliência e a capacidade de gerenciamento das emoções. Também veremos a razão pela qual o esforço, as frustrações, o feedback dos erros e a motivação favorecem a aprendizagemde vínculos e de uma estrutura emocional. Uma criança privada de cuidados, de alguém que a estimule a dividir a atenção a determinados estímulos, não terá um desenvolvimento normal. Podemos prestar atenção em várias coisas ao mesmo tempo? Tente responder à pergunta do título da seção antes de prosseguir a leitura. Reflita a respeito de suas práticas: você costuma fazer várias coisas ao mesmo tempo, distribuindo sua atenção a to- das elas simultaneamente? Em quais situações?Após a leitura da seção, revisite sua resposta e compare-a com a relação de novos conceitos assimilados por você.m en ta lm in d/ Sh ut te rs to ck 42 Neuroeducação e estratégias de aprendizagem De modo geral, podemos dizer que a atenção sustentada é a capacidade de mantermos a atenção a um estímulo por um tempo prolongado, ou seja, reflete nossa capacidade de nos concentrarmos em uma tarefa. Muitos autores ainda colocam na lista de tipos de atenção a dividida, que seria a habilidade de dividir a atenção entre estímulos diferentes, e a alternada, quando alternamos a atenção entre estímulos variados. No entanto, hoje a neurociência comprova que a atenção jamais é, de fato, dividida. Quando alguém diz que tem facilidade para fazer várias coisas ao mesmo tempo, na verdade essa pessoa tem facilida- de para mudar o foco rapidamente. A capacidade de multitasking, ou multitarefa, geralmente representa uma ilusão. Como em uma foto- grafia, em que ou fotografamos o cenário amplo, sem colocar nada em específico no foco, ou selecionamos um elemento para estar em foco enquanto o cenário de fundo sai borrado. Nossa atenção funcio- na dessa forma: alternando-se entre o cenário amplo e os detalhes, sendo um detalhe de cada vez. Dessa forma, focar em várias tarefas ao mesmo tempo não é pos- sível, e tentar fazê-lo é pouco eficiente. Alternar a atenção exige do cérebro um alto gasto energético e provoca um aumento no nível do cortisol, o hormônio do estresse. Em pouco tempo, sentimo-nos exaus- tos, o que faz decair rapidamente nossa capacidade cognitiva e nos leva a agir mais impulsivamente. Além disso, conforme aponta o escritor e neurocientista Daniel Levitin (2015), revezar rapidamente a atenção entre tarefas importan- tes nos obriga a tomar muitas pequenas e rápidas decisões. E, por mais que não consigamos perceber isso com clareza, a tomada de decisões, grandes ou pequenas, é altamente custosa em termos energéticos. Uma das primeiras coisas que perdemos é o controle do impulso. Isso decai rápido num estado de cansaço, no qual, depois de to- marmos várias pequenas decisões, acabamos tomando decisões realmente ruins sobre algo importante. Por que alguém haveria de acrescentar ao peso diário do processamento de informação a ten- tativa de realizar várias tarefas simultâneas? (LEVITIN, 2015, p. 91) Se quisermos ser produtivos, a chave é focar em uma tarefa de cada vez, sustentando a atenção pelo maior tempo possível sem perder eficiência. O neurocientista Daniel Levitin, autor de diversos livros sobre o cérebro, apresenta no livro A Mente Organizada resultados de importantes estudos neu- rocientíficos relacionados à atenção e sugestões de como podemos nos orga- nizar, do espaço externo à nossa própria mente, para termos vidas mais produtivas e saudáveis. LEVITIN, D. São Paulo: Cia das Letras, 2015. Livro Atenção e criatividade 43 Quando a atenção é interrompida Todas as coisas que foram realizadas e das quais temos orgulho exigiram uma boa dose de atenção sustentada. Nossas melhores con- quistas foram resultado de momentos em que ficamos imersos na ati- vidade, de tal forma a perdermos a noção do tempo. A essa capacidade de imersão total em uma atividade chamamos de flow nosso estado mais produtivo, alcançado com a mais profunda forma de atenção. De acordo com pesquisas lideradas pelo psicólogo e pesquisador hún- garo Mihaly Csikszentmihalyi (2020), que introduziu o conceito de flow na década de 70, esse é o estado mais gratificante para o ser humano. Não é quando estamos descansando, relaxados, e sim quando estamos profun- damente engajados em uma atividade que nos sentimos mais felizes. O pesquisador também concluiu que para se chegar nesse estado precisamos estar fazendo algo que consideramos significativo; temos que nos impor desafios alcançáveis, trabalhando próximo ao limite da nossa capacidade; e, necessariamente, temos que focar nossa atenção exclusivamente nessa tarefa. Um experimento realizado por pesquisadores da Carnegie Mellon Uni- versity concluiu que estudantes engajados em uma tarefa cognitiva com o telefone ligado, recebendo mensagens, têm desempenho em média 20% pior que aqueles cujos telefones estavam desligados durante a atividade. Ao dividirmos a atenção não estamos apenas perdendo o tempo que o estímulo concorrente nos rouba, perdemos também o tempo que leva para retomarmos o estado de atenção mais produtivo, pois o cérebro precisa se reconfigurar constantemente. E perdemos, acima de tudo, energia mental. Esse efeito é conhecido como custo da alternância. Renomado psicólogo, o autor estudou o estado de flow, a mais profun- da forma de atenção, durante mais de duas décadas. No livro Flow: A psicologia do alto desem- penho e da felicidade, ele explica o funcionamento desse mecanismo, como aprimorá-lo e sua relação com a felicidade. CSIKSZENTMIHALYI, M. São Paulo: Objetiva, 2020. Livro 2.2 Os diferentes modos de atenção Vídeo Voltando à definição inicial de atenção como capacidade de selecionar um estímulo e ignorar os demais, quando não estamos prestando atenção em algo que deveríamos estar – como uma conversa com um amigo ou em uma aula –, estamos, na verdade, selecionando o estímulo errado para prestar atenção. Nossa percepção está voltada para algum lugar, mas não para aquilo que deveria estar sob o radar da nossa atenção. Enquanto 44 Neuroeducação e estratégias de aprendizagem estamos conscientes, nossa atenção está sempre voltada a alguma coisa. Ela não é simplesmente desligada e ligada novamente. O problema é que muitas vezes ela “ilumina” o que deveria estar de pano de fundo. Quando deixamos um amigo falando sozinho, porque não ouvimos uma parte da conversa, é porque pode ter aparecido algo mais interes- sante que roubou nossa atenção. E, mesmo sem querer, focamos na letra de uma música que está tocando, em algo que passou pela janela ou então em uma mensagem ou notificação no celular. Nossa dificuldade está na seleção do estímulo e sustentação da atenção. Se isso acontece constantemente, precisamos trabalhar o que conhecemos como atenção concentrada – capacidade de selecionar estímulos, focar e sustentar o foco. Uma situação com a qual todos estamos familiarizados, espe- cialmente as pessoas consideradas muito distraídas, e que costuma prejudicar a aprendizagem, a produtividade e os relacionamentos é quando, ao invés de voltarmos a atenção a um estímulo externo, vol- tamo-la para dentro. Distraímo-nos com os próprios pensamentos. E não necessariamente em uma única linha de pensamento, mas a deixamos vagar solta, ou divagar. Isso é, na verdade, resultado de um diferencial evolutivo dos seres humanos e, assim como pode prejudicar a aprendizagem, em alguns momentos essas divagações são necessárias e até ajudam a aprender, desde que estejam sob o nosso controle. Nós, humanos, somos dotados de uma capacidade única: a lingua- gem, que nos permite usar símbolos para representar coisas e acon- tecimentos quando eles não estão à nossa frente. Assim, viajamos mentalmente para o passado e para o futuro sem esforço nenhum. Por outro lado, a imaginação, capacidade que nos permite planejar, calcu- lar consequências e reavaliar ações, é também a que mais nos prejudi- ca na hora de receber e processar novas informações. Quando falamos que somos distraídos – recolhidos em nossos próprios pensamentos – estamos falando, na verdade, em outro tipo de atenção, que chamamos de pensamento difuso – que,ao con- trário do que muitos pensam, também é importante para a aprendi- zagem. Isso, claro, quando bem administrado. Precisamos aprender a intercalar os modos de atenção e tirar o melhor proveito possível do tempo em que dedicamos a cada um. Atenção e criatividade 45 Para isso, entenderemos melhor no decorrer deste capítulo como ocorrem esses tipos de atenção no cérebro. Ao conhecermos melhor esses processos, fica mais fácil termos controle sobre a própria aten- ção e ajudarmos os alunos a fazerem a mesma coisa. Por que é difícil prestar atenção? Escapamos para os nossos próprios pensamentos sempre que isso parece mais fácil do que dar sentido a uma série de informações ou resolver um problema. Quanto mais desinteressante nos parece o es- tímulo, mais nosso cérebro automaticamente nos leva para longe dali. Não é algo que fazemos de propósito. Afinal, os alunos sabem que, no fim das contas, é mais vantajoso prestar atenção na aula, pois sabem que precisam das informações (nem que seja para tirar uma nota boa). Por que, então, isso costuma ser tão difícil? A resposta é bem simples: nosso cérebro faz muita coisa sem que estejamos conscientes disso. E uma das principais questões que ele resolve sozinho é o gerenciamento da nossa energia. Essa é, afinal, a principal função do cérebro, que serve, acima de tudo, para manter o nosso sistema em funcionamento, cuidando sempre para que haja reservas de energia. Assim, se o cérebro percebe que está gastando energia em algo que não parece importante, ele vai desligar a si mesmo como forma de economia. E aprender coisas novas é algo extremamente custoso em termos de energia, pois requer atenção concentrada e sustentada. Além de exercícios físicos, aprendizagem é o que mais consome energia. Não à toa que aprender pode, de certa forma, ser uma luta entre a atenção concentrada e nossa imaginação. Imagine para uma criança, que já gasta energia aprendendo coisas da vida mesmo quando não está na escola. A forma de fazê-la prestar atenção é fazer com que se interesse pelo que está sendo apresentado. Contudo, mesmo algo tão óbvio ainda não é considerado em alguns sistemas educacionais, partindo do pressuposto de que as crianças de- vem prestar atenção por ser uma obrigação. Por isso, a forma como ensinamos é geralmente mais importante que o próprio conteúdo na tarefa de manter o ouvinte interessado – es- pecialmente se ele tem dez anos e está sendo obrigado a ficar sentado por horas e escutar aquilo que nunca fez parte do mundo dele. Portanto, para aprender e ensinar melhor, precisamos ter sempre em mente: para que haja atenção é preciso haver interesse. Se a atenção consome muita energia, a fonte dessa energia é a curiosidade e o interesse. Esses são os combustíveis do cérebro atento. O desafio de fazer crianças concentrarem-se na escola é a principal queixa dos pais, professores e profissionais da psicopedagogia. Além do fato da atenção exigir esforço, precisamos levar em consideração que qualquer dificuldade – cognitiva, emocional ou social – afeta a ca- pacidade de focar. Quando isso está prejudicando o desempenho, é importante investigar a causa por trás desse tipo de dificuldade. 2.3 Como funciona a atenção concentrada? Vídeo O modo de atenção sobre o qual queremos ter mais controle e certamente aquele que nossos alunos mais têm dificuldade de domi- nar é o que chamamos de atenção concentrada, a que nos permite focar em uma determinada atividade, enquanto ignoramos outros estímulos e evitamos pensamentos invasores. Esse tipo de atenção é absolutamente fundamental para que haja plasticidade cerebral. A essência da plasticidade é mudar o cérebro de modo que algo possa ser feito automaticamente, como andar de bicicleta, somar vinte e trinta, falar uma língua de maneira fluente etc. Para isso, precisamos jogar toda a atenção naquilo que estamos aprendendo, dar significân- cia e repetir, até ficar automático. É possível fazer uma analogia da atenção com o foco de luz – tanto que geralmente usamos as duas palavras para dizer a mesma coisa. Quando nos concentramos em um único estímulo, é como se jogás- semos um foco de luz forte e pontual em cada peça de informação, que será associada ao novo conhecimento, para que ele faça sen- tido. Dessa forma, só aquilo que está iluminado, “no foco” é que está sendo processado conscientemente pelo nosso cérebro. Tudo que está em volta fica “apagado”. Esse tipo de atenção trabalha o fortalecimento de conexões entre neurônios, sempre dentro de um processo sequencial e lógico. Como um quebra- -cabeça que começa de um lugar e vai crescen- Vadiar/Shutterstock Vadiar/Shutterstock 4646 Neuroeducação e estratégias de aprendizagemNeuroeducação e estratégias de aprendizagem Atenção e criatividade 47 do à medida que encontramos peças com as mesmas cores e formas que se complementam. Para montá-lo, focamos em detalhes e como eles se relacionam, sem formar a imagem integral em nossa cabeça até que este- ja quase pronto. Isso significa que esse processamento consciente de informação que recebemos escutando, lendo ou vendo é associado a informações que já estão consolidadas em nossa memória. Tudo o que aprendemos deve, ne- cessariamente, ser associado, comparado, relacionado ao que já sabemos para ganhar sentido. Vamos nos aprofundar sobre essa questão mais tarde. Quando estamos concentrados em algo, essas associações são fei- tas com informações mais próximas, mais óbvias, sempre em um pro- cesso sequencial, lógico, linear. Como aquelas imagens em que temos que ligar os números sequenciais para se formarem (Figura 1). Sempre procuramos os números que estão próximos do nosso traço. Figura 1 Imagem de ligar os pontos Ar t_ Hu b1 /S hu tte rs to ck Quando estamos no modo de atenção concentrada, nem mesmo enxergamos os pontos periféricos, ou outras informações que correm nos arredores do foco. Em outro exemplo, se eu estou aprendendo informações sobre o funcionamento de um organismo bem diferente do humano, eu vou comparar tudo o que aprendo com o que já sei sobre organismos. Se estou estudando sobre minhocas, por exemplo, vou relacionar as in- formações com outras que consigo facilmente trazer à mente quando penso em minhocas: a consciência do corpo, a umidade da terra etc. Em outro momento, em que eu esteja divagando no banho, acontece de surgir uma pergunta ou uma ideia envolvendo uma associação nada óbvia que fiz entre minhoca e outros planetas. Será que sobreviveriam em um solo tóxico como o de Marte? Esse tipo de pergunta, que leva a solu- ções criativas em todos os campos de conhecimento, dificilmente surge quando estamos no modo de atenção que limita nosso campo de foco (por sinal, a questão sobre o solo de Marte foi levantada e dali veio a ideia de usar esses animais para, no futuro, torná-lo fértil e mudar a atmosfera do planeta vermelho, dando a ele a possibilidade de acolher vida). Esse tipo de associação, menos óbvia, de onde surgem as melhores ideias, insights e perguntas que levam a soluções originais, depende de um modo mais amplo e livre de atenção, que podemos chamar de foco ou pensamento difuso. Nesse modo de atenção, acionamos um circuito chamado rede de modo padrão, em inglês, default mode network (DMN). É quando a mente está mais relaxada e livre para acessar partes do cé- rebro diferentes daquelas acionadas quando estamos concentrados. Conforme explica Barbara Oakley (2018, p. 33), “o modo difuso te ajuda a fazer conexões imaginativas entre ideias A criatividade geralmente flo- resce do uso desse modo. A verdade é que seu cérebro deve alternar entre os modos focados e difusos para aprender de forma eficaz”. 2.4 A relação da atenção com a criatividade Vídeo A atenção concentrada, apesar de fundamental para a aprendizagem, não é a única envolvida nesse processo. Existe também um modo de aten- ção menos dispendioso, que requer menos esforço, mas que também é ne- cessário para que possamos absorver as informaçõesde modo otimizado. Se compararmos a atenção concentrada com um foco pontual de luz, o pensamento difuso assemelha-se, como sugere o nome, a uma fonte difusa de luz: é mais fraca, mas se dispersa por todo o ambiente. Assim, nesse modo de atenção conseguimos ter uma visão mais am- pla da informação; o pensamento percorre por todo o cérebro, o que nos permite fazer associações menos óbvias, conexões mais holísticas entre as informações aprendidas e os conhecimentos preexistentes. É quando nos distanciamos dos detalhes para enxergarmos melhor o todo. Como quando olhamos o desenho todo antes de começar a ligar os pontos: temos uma noção do que encontraremos. 4848 Neuroeducação e estratégias de aprendizagemNeuroeducação e estratégias de aprendizagem Atenção e criatividade 49 Figura 2 Imagem de ligar os pontos Ar t_ Hu b1 /S hu tte rs to ck Dessa forma, estamos mais propícios a fazer conexões menos próxi- mas, como se ligássemos mentalmente pontos longe um do outro para formar novos desenhos, formas originais. Quando não estamos com o foco de luz “ligado”, concentrados apenas naqueles pedacinhos que es- tão iluminados pela nossa consciência, permitimos que as informações fluam mais livremente por todas as áreas do cérebro. Como estamos, de certa forma, mais relaxados, isso favorece que ideias e outras infor- mações e memórias emerjam das áreas mais “escondidas” do cérebro, onde se encontra a mente inconsciente, para nosso consciente. Esses modos de atenção nunca trabalham juntos. Sempre alternamos entre a atenção concentrada, que é mais seletiva, e o pensamento difu- so. Ou estamos focados em algo, mas com um foco curto, que “escurece” tudo em volta, ou estamos com a mente divagando, no modo difuso de pensamento. Isso explica por que pessoas mais distraídas tendem a ser mais criativas. E porque, quase sempre, é nos momentos de relaxamento que temos as melhores ideias. 50 Neuroeducação e estratégias de aprendizagem O que é criatividade? A criatividade é a capacidade de fazer associações pouco óbvias, necessária não apenas nas artes ou no empreendedorismo, mas na hora de se expressar, de encontrar novas soluções para problemas e de transferir o conhecimento de uma área para outra e aplicá-lo de maneiras novas. Muitos acreditam que o desempenho acadêmico nada tem a ver com criativida- de. Mas as associações mais distantes e criativas nos ajudam a relacionar o con- teúdo aprendido de novas formas, auxiliando na compreensão e na retenção das informações, na escrita e na busca de soluções para questões mais complexas. A necessidade de alternar entre a aprendizagem dos detalhes e a visão do todo vale para qualquer tipo de conhecimento. Retomando o exemplo do segundo idioma: a atenção focada necessária para apren- der alguns aspectos de uma língua deve se intercalar com momentos de descontração e conversação informal, o que permite o uso mais li- vre da linguagem e uma familiarização com o idioma. Os melhores métodos funcionam dessa forma. Na língua materna, isso ocorre no revezamento das aulas de linguagem, que focam nas estruturas gramaticais e em novos conceitos, com as situações do dia a dia em que aplicamos mais espontaneamente as lições. Esse modo de atenção é também importante quando aprendemos algo completamente novo, em um primeiro momento difícil de ser relacionado a outro conhecimento já consolidado. Nesse caso, antes de sintonizarmos a atenção à novidade, devemos nos familiarizar com ela, tendo uma ideia do todo, sem prestar atenção aos detalhes e à ordem de execução – como folhear um livro antes de começar a ler, observar alguém fazendo antes de começar a aprender, ouvir uma música antes de aprender suas notas. Antes de iniciar o estudo, portanto, visitar cada capítulo para dar uma noção geral do assunto nos ajuda a situar o conteúdo e facilita o foco quando os detalhes começam a ser destrinchados. Devemos ini- ciar as explicações apresentando aos alunos os temas de forma gené- rica, o que os ajuda a formar, mentalmente, uma espécie de mapa que irá direcionar a aprendizagem do material. Ensino sistemático x cenário amplo Como nosso sistema atencional funciona de maneira intercalada, o melhor ensino é aquele que leva isso em consideração e intercala o todo e os detalhes; o sistemático, trabalhado de modo isolado e inten- Atenção e criatividade 51 sivo; e o cenário amplo, em que a informação está inserida de maneira prática e dentro de um contexto. Por exemplo: no ensino da gramática, muitos professores e apostilas trazem tipos diferentes de verbos misturados em um texto, partindo da su- posição que o melhor ensino é aquele que traz a regra na prática e que a leitura de textos é a melhor forma da criança aprender a ler, escrever e falar. Dessa forma, aquela lista de verbos que antigamente os alunos re- petiam, seguindo a sequência de pronomes e variando as conjugações foi caindo em desuso, sendo considerado antiquado. Nesse sentido, formas mais sistemáticas de ensino, que seguem se- quências lógicas, representam bem o foco curto e fechado, tão importante para a aprendizagem como a leitura de textos que apresentam os verbos no contexto. Uma forma de ensinar complementa a outra – e não a substitui. 2.5 Atenção no cérebro Vídeo Conforme vimos, Lúria (1981) chama de reflexo instintivo aquele tipo mais primitivo de atenção, que nos faz olhar, por exemplo, para a direção de um alarme ou para um ponto luminoso que aparece de re- pente. Serve para nos mantermos alertas com relação a um perigo, sen- do um recurso fundamental para a sobrevivência de qualquer espécie. Esse tipo de atenção começa no que chamamos de áreas subcor- ticais do cérebro, inconscientes, para então – muitas vezes depois de corrermos, gritarmos ou pularmos de susto – nos tornarmos conscien- tes do que aconteceu. Isso ocorre porque nosso inconsciente traba- lha muito mais rapidamente que o consciente. Se fôssemos parar para pensar em qual a melhor atitude a se tomar quando topamos com um leão, por exemplo, estamos mortos em segundos. Pensar é demorado. Por isso a natureza nos desenvolveu com instintos, que nos permite agir rapidamente em situações de perigo, literalmente “sem pensar”. Quando vemos um desenho do cérebro, aquilo que estamos vendo é o córtex, a camada externa, repleta de dobras e que desempenha funções complexas, como percepção, memória, linguagem e atenção (sempre em conjunto com as regiões subcorticais). Quando prestamos atenção, necessariamente estamos conscientes do que está sendo per- cebido. Todas as atividades que necessitam da atenção concentrada 52 Neuroeducação e estratégias de aprendizagem envolvem parte do nosso cérebro chamada córtex pré-frontal. É a área acionada em qualquer esforço mental. Já as estruturas subcorticais ficam, como o nome diz, embaixo do cór- tex. Trabalham o tempo todo com informações que estão armazenadas no cérebro sem que estejamos conscientes disso. São responsáveis por tudo o que nosso corpo faz sem estarmos conscientes: inclusive ações e emoções. Atenção e a plasticidade cerebral Até um certo momento, o cérebro é muito maleável: a aprendiza- gem e a mudança acontecem o tempo inteiro até aproximadamente os 25 anos. O interesse e a atenção são necessários para a aprendizagem em todas as etapas da vida, mas depois dessa fase a intenção passa a ser fundamental para que ocorra a plasticidade cerebral. É preciso que o córtex pré-frontal sinalize para o resto do sistema nervoso que vale a pena prestar atenção àquilo que experienciaremos. Diante de necessidades, o cérebro muda em qualquer etapa da vida. É preciso criar essas necessidades, ter objetivos, propósitos. Por que você aprenderá isso? Qual a solução que quer encontrar? Onde quer chegar? Qual pergunta quer responder? Quando reconhecemos a intenção de mudança ativamos no cérebro substâncias químicas específicas que permitem que ela ocorra. Quan- do criamos um foco limitado de atenção, ou seja, entramos no modo de atenção concentrada,um neurotransmissor chamado acetilcolina age como se amplificasse o sinal selecionado jogando um spotlight no estímulo, passando os outros para um segundo plano. Outro neurotransmissor importante nesse processo é a epinefrina. Ela ajuda os neurônios ativos naquele momento a fortalecer as conexões que têm potencial para mudar o cérebro. Quando há a presença desses quími- cos, aquilo que selecionamos para o campo da atenção ganha aprendiza- gem massiva e rápida. O pensamento difuso, ao contrário do reflexo instintivo, não é guia- do por sensações e estímulos externos, mas envolve muito intensa- mente as áreas subcorticais do cérebro, responsáveis pelos processos mentais inconscientes. Em seguida, aprenderemos como podemos exercitar e ganhar mais controle sobre os diferentes modos de atenção para uma aprendizagem mais eficaz. Atenção e criatividade 53 2.6 Como podemos exercitar a atenção concentrada Vídeo Por consumir tanta energia, a atenção concentrada é um recurso limi- tado. Conseguimos prestar atenção por um certo tempo. Assim como não conseguimos levantar peso por muitas horas seguidas, é preciso descansar a mente para que possamos, mais tarde, retornar ao esforço. Mas existem várias estratégias que podemos promover para ajudar os alunos a sustenta- rem a atenção por um tempo que torne a aprendizagem otimizada. Intercale momentos de esforço com relaxamento Costumamos enxergar o esforço físico de maneira diferente do mental. É mais fácil percebermos os limites do nosso corpo que os da mente. No entanto, os cuidados são muito parecidos: depois de um tempo de esforço, precisamos de descanso mental para continuarmos evoluindo sem prejudicar o exercício. A pergunta é: de quanto em quanto tempo devemos alternar os modos de atenção? O tempo em que conseguimos manter a atenção concentrada varia de pessoa para pessoa, mas devido à quantidade de energia que despendemos nessas tarefas, esse tempo é sempre relati- vamente curto: entre meia hora (especialmente crianças) e uma hora. Depois disso, dar a seu aluno um intervalo é mais produtivo que continuar esgotando seus recursos cognitivos. Use um timer O ideal é intercalar os modos de atenção conscientemente, dentro de um tempo controlado. O uso de timer é muito indicado para ajudar os alu- nos a administrar o tempo e focar em atividades que demandem muita con- centração. Por mais que queiramos prolongar esse tempo, não tem jeito: a atenção tem vida curta, e chega um momento que os estudos e a aprendi- zagem passam a não render. Portanto, programe-se para apresentar as informações mais importan- tes e para oferecer atividades que necessitem de muito foco na primeira metade da aula. Procure dividir o tempo de estudo em blocos de 25 a 30 mi- nutos. Durante o tempo estabelecido pelo timer, é fundamental remover do espaço de estudo todos os tipos de distrações – especialmente eletrônicos. 54 Neuroeducação e estratégias de aprendizagem O tempo é para que a tarefa seja realizada sem distrações e não para que seja concluída. A ideia não é apressar os alunos. Envolva as emoções na aprendizagem Precisamos lembrar que o cérebro precisa ser surpreendido, ten- do suas expectativas violadas, para que haja aprendizagem. Ele é pré-programado para buscar surpresas e mudanças e a elas prestar atenção, ajustando em seguida seu modelo mental de mundo. Mudan- ças provocam emoções, consideradas importantes pelo cérebro, tendo prioridade máxima na fila dos elementos que ganham nossa atenção. Surpreenda sempre: envolva humor, histórias, fatos inusitados, engane os sentidos dos alunos. As aulas programadas para arrancarem rea- ções dos alunos irão mantê-los atentos. Faça uso de atividades de discriminação visual Outro truque que podemos usar para ampliar o tempo de atenção concentrada é fazermos uso do nosso sistema visual. Não podemos olhar de perto detalhes, localizados em um campo limitado de visão, e, ao mesmo tempo, ampliar para ver um amplo es- paço, mas com poucos detalhes. Temos de passar de um modo a outro. Não é possível ver o micro e o macro ao mesmo tempo, certo? Podemos facilmente relacionar isso à fotografia. Um fotógrafo pode escolher deixar um objeto em foco e desfocar todo o fundo, para que o objeto fique em destaque, ou deixar todo o cenário em foco, o que leva o observador a ver o todo, talvez até deixando de perceber o objeto em questão. Nossa visão também funciona com base nesse princípio, ampliando-se para o todo e fechando-se para os detalhes conforme aquilo em que escolhemos focar ou ignorar. E nosso sistema de aten- ção funciona seguindo esse mesmo padrão. A relação entre a visão e a atenção é mais que uma analogia. Podemos acionar esses sistemas para um maior controle sobre a atenção. Ativida- des que demandam habilidades de discriminação e atenção visual, ou seja, atenção aos detalhes, auxiliam nessa transição entre modos atencionais. Fazer um labirinto, por exemplo, ou olhar atentamente para algum de- talhe próximo (como uma obra de arte, uma fotografia, um jogo de caça- -palavras) são exemplos de atividade que podem ajudar a concentrar nos estudos ou trabalhos que exigem esse foco limitado e intensivo de atenção. Atenção e criatividade 55 Peça para fecharem os olhos Você já deve ter escutado muitos professores dizendo “olhem para mim”, quando o que querem é que os alunos prestem atenção. A ver- dade é que estar olhando para uma pessoa não quer dizer que esta- mos atentos ao que ela diz. Olhar para alguém é importante pelo fato da pessoa que está falando ter a impressão de que está sendo ouvida. Então é uma questão social. Pode parecer estranho, mas se você for contar uma história, pedir aos alunos que fechem os olhos e imaginem o que está sendo dito fará com que te escutem melhor. Ao fecharmos os olhos criamos um cone de atenção voltado totalmente para o que estamos ouvindo, limitando a quantidade de estímulos que podem fazer com que a atenção dos alunos vagueie por todos os cantos do espaço. Mantenha uma rotina Novidades trazem recompensas para o nosso cérebro, em forma de neurotransmissores. Por isso, costumamos buscar mais mudanças que rotinas. Porém, sem uma rotina, que de vez em quando possa ser quebrada, o dia a dia passa a ser caótico e fica muito mais difícil alcan- çar autodisciplina. Como concentração exige esforço, é normal querermos adiar qual- quer tarefa que demanda atenção focada. Se predeterminarmos um tempo para tais atividades, não damos chance à procrastinação. Isso é fundamental para alcançarmos maior produtividade em qual- quer atividade que exija um esforço cognitivo. Por uma razão bem simples: qualquer decisão, por menor que seja – como onde almoçar, onde estudar, que horário fazer uma tarefa – consome energia. E se quisermos aumentar o tempo de foco, precisamos ter disponível toda a energia que a aprendizagem exige. Ao criarmos uma rotina, livramos a mente das pequenas decisões e, portanto, do desgaste que novas situações ou ambientes requerem. No ambiente educacional, tendo um cronograma preestabelecido, com dias e horários destinados às tarefas que exigem concentração (intercaladas com atividades mais relaxantes), damos menos chances para que os alunos empreguem energia tentando negociar prazos e atividades, assimilando mudanças ou fazendo pequenas escolhas. 56 Neuroeducação e estratégias de aprendizagem Nesse planejamento, se possível, procure levar em consideração os horários que os alunos estão mais agitados ou sonolentos para distri- buir atividades de acordo. Varie o ambiente Seus alunos sentam-se sempre no mesmo lugar, mesma sala, mesma distribuição de carteiras? Então pense em variar: que tal se sentarem no chão, mudar a disposição, fazer um círculo, juntar carteiras ou ir até um ambiente diferente? Não apenas temos uma capacidade incrível de ignorar os estímu- los irrelevantes quando estamos concentrados, como muitas vezes a presença desses estímulos nos ajuda a focar, pois nos mantém em um certo estadode alerta. Não à toa muita gente prefere trabalhar em locais com murmuri- nhos, como cafés, que em uma sala totalmente silenciosa e sem nin- guém passando. Mas não é apenas isso. Costumamos fazer associações incons- cientes do local à nossa volta com o que estamos aprendendo. Novos locais nos trazem mais elementos a serem associados. Isso não é uma descoberta recente e nem é preciso que a neurociência nos torne conscientes disso: o filósofo Aristóteles, há mais de dois mil anos, aplicava essa técnica em suas aulas. Ele percebeu que as pessoas aprendem melhor quando não estão com o corpo imóvel, olhando para as mesmas paredes. Suas aulas eram dadas ao ar livre, enquanto alunos vagavam pela escola de filosofia. Por isso seus alu- nos eram chamados de peripatéticos. Incentive a escrita de listas Outra forma de não fugir das atividades que exigem concen- tração é preparar, juntamente com os alunos, listas de objetivos ou tarefas a serem cumpridas até uma determinada data. Listas costumam ser muito eficazes, pois estão associadas ao compro- metimento; ao criarmos uma lista, assumimos um compromisso de cumpri-la. Atenção e criatividade 57 É uma tática que nos ajuda a criar uma rotina, além de permitir vi- sualizar o que precisa ser feito e perceber que somos capazes de cum- prir. Isso nos ajuda a lidar com a ansiedade, uma das maiores inimigas da atenção e da aprendizagem. Importante não se acostumar a deixar a lista repleta de tarefas não acabadas. Dificilmente, nesse caso, o hábito será mantido. Para isso, é preciso ser realista na hora de colocar no papel a sequência de ativida- des, sem exagerar na quantidade. Pode ser feita por ordem de priori- dade, o que também ajuda na organização. As listas também permitem ver tudo o que já foi feito. Isso pode ser muito gratificante e servir de estímulo à sua produtividade, pois costu- mamos não ter esse controle sobre o que já foi realizado. Distribua folhas em branco e permita desenhos Quem gosta de rabiscar enquanto ouve uma palestra, fala ao tele- fone ou escuta alguma reportagem, provavelmente também tinha seus livros e cadernos repletos de símbolos e desenhos feitos despretensio- samente durante as aulas. São grandes as chances de terem sido repreendidos por professo- res por não estarem olhando para a frente ou não estarem prestando atenção. O que poucos professores sabem é que essa é uma estraté- gia que muitos ouvintes adotam, quase sempre de modo não-inten- cional, justamente para se manter atentos ao que está sendo dito. Pesquisas mostram que pessoas que rabiscam enquanto escutam uma explicação memorizam mais informações que aquelas que não usam esse recurso (ANDRADE, 2010). Assim, desenhos despretensiosos – conhecidos como doodles – ajudam significativamente na atenção e na memorização das informações ouvidas. A neurociência explica que, ao rabiscar despretensiosamente, man- temos ativos os networks do córtex necessários para uma atividade que requer atenção visual e coordenação oculomotora. Estamos olhando para detalhes e usando o sistema visual para nos colocar no modo de atenção concentrada. Desde que seja feita automaticamente e não exija recursos cognitivos relacionados ao raciocínio e linguagem, essa estratégia é uma ótima for- ma de evitar que a mente divague. 58 Neuroeducação e estratégias de aprendizagem Há um outro benefício dos rabiscos: eles servem como elementos de associação, um recurso necessário para ativar a memória. Quando sso é feito de maneira intencional, são ainda mais eficazes para aju- dar a recordar as informações. O filósofo Jesse Prinz, professor na City University, de Nova York e au- tor de estudos sobre a atenção no cérebro, é um grande propagador da técnica como uma forma de focar no que está sendo ouvido. Ele afirma que rabiscar elementos concretos, como cabeças e outras figuras, mais tarde o ajudam a lembrar do conteúdo de palestras e apresentações. Há evidências de que o ato de fazer pequenos desenhos no caderno ajuda crianças com Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade a se concentrar (OUGRIN; CHATTERTON; BANARSEE, 2010). Essas são algumas estratégias facilmente aplicáveis tanto em am- bientes escolares quanto em casa ou consultórios. No entanto, para al- gumas pessoas, prestar atenção continuará sendo muito difícil. Se isso traz prejuízos acadêmicos ou emocionais, pode ser necessário investi- gar o que há por trás da dificuldade e, se indicado pelo neurologista, buscar algum tratamento. 2.7 Como exercitar a atenção difusa e estimular a criatividade Vídeo O intervalo de tempo estabelecido para a atenção concentrada no estudo é importante para estimular o modo de atenção mais aberto e, dessa forma, deixar a mente livre para fazer associações mais criativas. Soluções às mais diversas questões são resultado de um trabalho do nosso subconsciente e geralmente são reveladas quando não esta- mos focados em preocupações. Pode parecer estranho que o cérebro produza algumas ideias que só de vez em quando conseguimos enxergar. Mas o fato é que há sempre mui- ta coisa acontecendo na nossa cabeça que não está sob nosso controle. O acesso a essas informações pode ser facilitado de diversas formas, sempre passando pelo exercício de um modo de atenção diferente daquele que usamos quando estamos aprendendo, com o foco forte e curto. Por isso a importância de planejarmos um tempo de descontração entre os alunos. Na sequência, apresentamos algumas estratégias que podem ser usadas: Atenção e criatividade 59 Promova momentos de descontração Lembra de Newton e a maçã? Pode parecer um mito usado para explicar como o cientista teve o insight sobre a lei gravidade, mas há evidências, baseadas em seus escritos, de que ele realmente chegou à solução enquanto descansava ao pé de uma árvore. Claro que muito trabalho foi feito antes envolvendo a atenção concentrada. Mas a solu- ção veio quando estava nesse outro modo de atenção, dando o tempo que nosso cérebro precisa para divagar e, de certa forma, descansar do esforço de organizarmos cada detalhe que aprendemos anteriormente. Não é à toa que mentes consideradas geniais dedicam parte do seu tem- po a práticas como caminhadas ao ar livre e meditação – potentes ferra- mentas para a produtividade e criatividade. Quando seus alunos estiverem mentalmente esgotados – e isso pode ocorrer depois de cerca de 40 minutos de concentração – provi- dencie um momento de descanso à mente. Atividades artísticas despre- tensiosas e momentos de relaxamento ou de exercícios de mindfulness são formas de tornar esses intervalos produtivos. Atividades feitas em grupos, barulho, conversas e uso de eletrôni- cos podem ser uma forma de descontrair, mas não favorecem o encon- tro com pensamentos que estavam escondidos em seu subconsciente. Traga a mente dos alunos para o momento presente Pode parecer algo simples, mas estarmos no momento presente é um exercício tão difícil que para aprendê-lo muitos temos que recorrer a cursos, livros e muita prática. Não se trata necessariamente de meditar: há outras formas de alcançar o que podemos chamar de estado contem- plativo, como focar nas batidas do coração, na respiração, na textura de plantas, no canto dos pássaros etc. Nesses momentos, a mente tenta fugir do presente e é invadida por pensamentos intrusivos e que promovem ansiedade; pensa em coisas que aconteceram e que imagina acontecer. Por isso, é importante levar diariamente aos alunos a consciência de que isso ocorre, com o objetivo de que prestem mais atenção na própria dificuldade de prestar atenção, naquilo que estão sentindo, no “vício” da mente de encontrar algo para se preocupar e em como isso interfere na capacidade criativa e produtiva. 60 Neuroeducação e estratégias de aprendizagem Ao afastar a mente dos diálogos interiores, afastamos também a an- siedade que os acompanha. E o estresse é um dos principais inimigos da criatividade. Quando nos ocupamos com repetidos pensamentos sobre questões nãoresolvidas, prevendo as possibilidades que cada escolha pode trazer, fazendo planos ou mesmo tentando assimilar no- vas informações, não deixamos lugar para o insight se manifestar. Levar a mente para o momento presente é, também, saber receber estímulos sem julgá-los como ruins, bons, fracos ou irritantes e apenas escutar, apenas olhar. A seguir, apresentamos duas atividades que são exemplos de como podemos trabalhar com a mente das crianças no momento presente ao mesmo tempo em que trabalhamos a atenção e promovemos a re- dução da ansiedade e do barulho na mente que atrapalha o foco e a criatividade. Ambas podem ser promovidas na sala de aula ou qual- quer lugar da escola e levam entre cinco a dez minutos. 1. O que estou escutando? • Os alunos devem sentar no chão, com as mãos soltas e pernas cruzadas. • Então peça a eles que fechem os olhos e prestem atenção na respiração. • Diga que você fará sons com diferentes instrumentos e objetos. Eles devem apenas ouvir atentamente. • Produza sons com três ou quatro objetos (como um shaker com água, pedrinhas em um pote, algum instrumento, metal batendo). • Diga a eles para apenas ouvir, sem dizer o que acham que é. Ao final do exercício (aproximadamente três minutos), eles podem dizer de onde vinham os sons. 2. Respiração com objetos Nesse exercício, a presença de um objeto torna mais fácil que crian- ças prestem atenção à sua respiração. • Peça aos alunos que deitem no chão. • Distribua pequenos objetos como pedrinhas, tampinhas ou borrachas. • Diga para fecharem os olhos, relaxarem os ombros e sentirem suas costas encostadas no chão. Atenção e criatividade 61 • Peça para colocarem os objetos sobre a barriga e observarem como ele sobe na inspiração e desce na expiração. • Peça para sentirem o contato da cabeça no chão. Isso é feito por cerca de três minutos. Promova caminhadas e exercícios físicos Escritores bem-sucedidos são exemplos de produtividade, associa- da à atenção concentrada, à criatividade e ao modo de atenção mais aberto. Essa combinação geralmente só é obtida por meio de muita au- todisciplina. Ao pesquisar sobre seus hábitos criativos, não se demora a concluir que muitos dividem o gosto e a necessidade de reservar um ou mais momentos do dia para andar ou correr. Essa prática permite a seus pensamentos fluírem e se organizarem para que a mente esteja preparada para um período de mais desgaste e produtividade. Muitos consideram corridas ou caminhadas ao ar livre o estado mental mais propício para o trabalho intelectual, pois serve como uma espécie de “incubação de ideias”. Se uma escola oferece ambientes externos, promover a exploração desses locais de tempos em tempos, chamando a atenção dos alunos aos elementos naturais do ambiente que os cerca, favorece tanto a aprendizagem quanto o pensamento criativo. Determine e limite o tempo de uso de mídias Do lado oposto de hábitos que promovem um estado contemplati- vo da mente estão as tarefas que nos mantêm no foco curto e limitado, sem, no entanto, nos acrescentar nada. Uma delas é ficar navegando em mídias sociais – as grandes inimigas da nossa atenção e potentes assassinas do nosso tempo e energia. Se suas aulas incluem ou permitem o acesso a equipamentos eletrônicos, não é preciso privar os alunos desses recursos, mas é possível administrar o tempo e dedicar um período do dia para isso, de maneira consciente e planejada, ensinando-os a fazer o mesmo e conscientizando-os sobre o desgaste de tempo e energia que mídias sociais representam. 62 Neuroeducação e estratégias de aprendizagem Amplie o horizonte do aluno Antes de fazer os alunos se concentrarem nos detalhes de um as- sunto, familiarize-os com ele de modo mais descomprometido. Mostre imagens relacionadas, faça-os folhear as páginas do livro para ter uma ideia do conteúdo. Apresente os tópicos abertamente, “perca um tem- po” deixando seus alunos fazerem, mesmo que inconscientemente, predições do que vão aprender. Importante: faça, sempre que possível, conexões distantes do as- sunto apresentado, de modo interdisciplinar. Não há criatividade sem interdisciplinaridade. CONSIDERAÇÕES FINAIS A capacidade de escolher um estímulo e ignorar os demais está na base da aprendizagem. Sustentar a atenção pode ser um desafio para muitos, especialmente em um mundo tão repleto de estímulos, mas o conheci- mento em neuroeducação nos auxilia na escolha de recursos voltados ao desenvolvimento dessa competência. Conhecer o cérebro aprendiz nos capacita a criar e a usar estratégias para manter alunos atentos por mais tempo e torná-los aptos a ganhar controle sobre a própria atenção em um mundo saturado de informações e distrações. ATIVIDADES Atividade 1 Com base no que você aprendeu, defina o conceito de atenção. Atividade 2 Por que a poda sináptica é um processo importante para a aprendizagem? Atenção e criatividade 63 Atividade 3 Qual a relação do desenvolvimento da capacidade de sustentar a atenção e a interação da criança com seus cuidadores? Atividade 4 Explique por que alternar a atenção entre várias tarefas pode ser prejudicial. REFERÊNCIAS ANDRADE, J. What does doodling do? Applies Cognitive Psychology, v. 24, n. 1, p. 100-106, jan. 2010. CSIKSZENTMIHALYI, M. Flow: A psicologia do alto desempenho e da felicidade. São Paulo: Objetiva, 2020. JAMES, W. Principles of Psychology. Createspace Independent Pub, 2017. [e-book] LEVITIN, D. A Mente Organizada. São Paulo: Cia das Letras, 2015. LÚRIA, A. Fundamentos da Neuropsicologia. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1981. OAKLEY, B. Aprendendo a aprender. São Paulo: Infopress, 2015. OAKLEY, B.; SEJNOWSKI, T. Learning How to Learn: How to Suceed in School Without Spending All Your Time Studying. Nova York: Penguin Randon House, 2018. OUGRIN, D.; CHATTERTON, S.; BANARSEE, R. Attention deficit hyperactivity disorder (ADHD): review for primary care clinicians. London Journal of Primary Care, v. 3, n. 1, p. 45-51, 2010. 64 Neuroeducação e estratégias de aprendizagem 3 Consolidação das informações Somos a somatória das nossas experiências. A memória influencia os sen- timentos, os comportamentos e está no fundamento da nossa identidade. Quando falamos de memória, não nos referimos exclusivamente à memorização de eventos ou a determinado conteúdo. O ganho de habili- dades motoras – como andar e se equilibrar em uma bicicleta – depende da nossa capacidade de guardar e reconstituir as informações. Portanto, existem diversos tipos de memória, que envolvem diferentes processos mentais e regiões do cérebro. Então, aprenderemos um pouco sobre como funciona o sistema de armazenagem do cérebro humano e de que forma esse conhecimento pode otimizar a aprendizagem, levando-nos ao uso de técnicas, como repetição e estratégias de memorização, e à importância de fatores asso- ciados a essa capacidade, como o sono. Com o estudo deste capítulo, você será capaz de: • entender como a memória se forma no cérebro; • conhecer os diferentes tipos de memória; • descobrir a importância da repetição e o porquê de ela ser essen- cial para a consolidação da aprendizagem; • aprender algumas estratégias aplicáveis em salas de aula para aju- dar na memorização de informações; • entender o papel do sono na formação de memórias e na aprendizagem. Objetivos de aprendizagem 3.1 Como funciona a memória? Vídeo Assim como não existe aprendizagem sem atenção, não existe aprendizagem sem memória – e não existe memória sem atenção. O processamento de informações depende da nossa capacidade de manter o foco em determinado estímulo enquanto ignoramos Consolidação das informações 65 os restantes. Depende também da manipulação mental das infor- mações, associando-as a outras que estão guardadas na mente. Ou seja, para aprendermos um novo conhecimento, devemos puxar do nosso sistema de armazenamento informações relacionadas a ele e, ao mesmo tempo, reter na mente as informações que estamosrecebendo até dar a elas um sentido. A aprendizagem, portanto, envolve o trabalho de mais de um tipo de memória simultaneamente: a consolidada – de longo prazo – e a de trabalho, necessária para a manipulação das informações – como lembrarmo-nos de um comando até o concluirmos ou do início de um parágrafo para entendermos a sequência de acontecimentos. Onde são guardadas as memórias? Não sabemos exatamente como os diversos sistemas de memória funcionam e como são integrados. Cérebros muito fora do comum nos dão algumas pistas sobre onde e como algumas capacidades são processadas. Sabemos, por exemplo, que se uma pessoa sofre um dano no hipocampo ou em alguma parte do córtex diretamente ligada a essa estrutura, ela não consegue formar novas memórias. Podemos encontrar essa pessoa todos os dias e sem- pre precisaremos nos apresentar novamente. No entanto, ao conver- sarmos com ela, descobriremos que se lembra de detalhes de coisas que aconteceram muito tempo antes de sofrer o dano no cérebro. É que memórias antigas – aquelas experiências que podemos nar- rar e que ficaram gravadas por terem sido significativas, importantes ou muito frequentes – são convertidas pelo hipocampo de memórias de curto para longo prazo e armazenadas em diversas áreas do córtex, de maneira bem espalhada, de acordo com as associações que fizemos. Memória de trabalho A memória de trabalho é uma função executiva, ou seja, uma habi- lidade superior tão fundamental quanto o controle inibitório no desen- volvimento da atenção seletiva e no processo de aprendizagem. Crianças apresentam diferentes níveis de desenvolvimento dessa habilidade. Para algumas, pode ser particularmente difícil ignorar uma série de estímulos que podem surgir entre um comando e a 66 Neuroeducação e estratégias de aprendizagem realização de uma tarefa, mantendo um objetivo em mente. Dis- traem-se no meio do caminho e esquecem o que foi pedido. Existe, portanto, uma interconexão entre memória de trabalho e a capaci- dade de supressão de estímulos. Mas não apenas aqueles que estão em fase de desenvolvimento cognitivo podem apresentar falhas na memória de trabalho. Na ver- dade, trata-se de uma capacidade tão vulnerável quanto a atenção. O estresse interfere na memória o tempo todo. Basta pensarmos em quantas vezes esquecemos o que fomos buscar na sala ou aquela informação que estava na ponta da língua. A memória de trabalho é também uma das primeiras capacidades cognitivas afetadas pelo envelhecimento do cérebro. Na prática, como professores, percebemos uma falta de amadureci- mento da memória de trabalho quando os alunos respondem às ques- tões pela metade, em uma atividade ou avaliação. Por esse motivo, problemas divididos em várias partes não são adequados às crianças do Ensino Fundamental I, pois as estruturas neurológicas que as permi- tem manipular uma série de informações complexas ao mesmo tempo ainda estão em fase de desenvolvimento. Por isso, uma das formas de exercitarmos a memória de trabalho entre alunos nessa fase são os jogos de linguagem, como aqueles em que é necessário cumprir uma sequência crescente de comandos. 3.2 Outros tipos de memória Vídeo A memória de trabalho é um sistema que combina a armazenagem com outras habilidades. Ela envolve armazenagem de curto prazo e, por isso, o termo é muitas vezes usado de maneira intercambiável com a memória de curto prazo. Além disso, inclui a interpretação da informa- ção que será armazenada e a manipulação mental dessa informação, preparando-a para processos seguintes, de retomada e consolidação, ou esquecimento. A memória consolidada pode ser de diferentes tipos, conforme veremos a seguir. Memória declarativa Quando alguém diz que tem ou está com a memória fraca, logo entendemos que essa pessoa está se referindo à capacidade de se Consolidação das informações 67 lembrar de informações e acontecimentos. Esse tipo de memória, aquele que mais frustra professores e alunos, é chamado de memória declarativa ou explícita. É aquela que pode ser retomada quando precisamos relatar um fato, explicar um conceito, lembrar de uma sequência ou de uma expe- riência do passado. Diferentemente do que acontece com a memória de como fazer algo (andar de bicicleta, por exemplo), a declarativa pre- cisa ser consciente, ou seja, envolve a atenção para ser retomada. O processo de formação da memória declarativa começa com a co- dificação da informação, isto é, com a conversão dos sinais externos – sejam eles visuais, auditivos, tácteis ou uma integração de sinais – em padrões elétricos que o cérebro organiza e dá sentido. A informação é preparada para ser armazenada e, então, relembrada ou esquecida. Há pessoas que se esquecem facilmente das informações que são apresentadas a elas, mas se lembram com detalhes daquilo que fize- ram. Isso porque há dois tipos diferentes de memória declarativa. Po- demos dizer que tais pessoas têm uma boa memória episódica: ela envolve experiências nas quais somos protagonistas. É a memória da subjetividade – daquilo que vimos, sentimos e fizemos. Sempre que nos lembramos de como nos sentimos e o que pensa- mos quando alguém nos disse algo, estamos usando a memória episó- dica. Portanto, ela é aquela que somente nós temos individualmente. Já a memória semântica, que, assim como a episódica, é uma sub- divisão da memória declarativa, também está relacionada a todos os fatos e conceitos que sabemos, mas sem estarmos diretamente envol- vidos nos acontecimentos. Basicamente tudo o que temos que memo- rizar na escola é produto da memória semântica. É um tipo de memória que envolve linguagem e símbolos. Essa que precisamos exercitar para absorvermos uma quantidade grande de conteúdo. É essa que devemos treinar se quisermos melhores resul- tados acadêmicos. Portanto, ela não depende apenas de capacidades geneticamente predeterminadas. Assim como a atenção, a memória semântica – à qual normalmente nos referimos apenas como memória – não só pode como deve ser treinada. A memória declarativa sempre começa como memória de trabalho e pode ser consolidada e transferida para a memória de longo pra- zo. E, assim como a memória de trabalho, é inevitavelmente afetada Novas Palavras Viagens Sonho Regras de Li çã o Co m er Caminhar Dançar Andar de Desenhar Nadar Correr To ey T oe y/ Sh ut te rs to ck Memória declarativa Memória procedural 1 ow at ta /S hu tte rs to ck 1 1 por estresse, cansaço e envelhecimento, especialmente quando ainda não está totalmente consolidada, ou seja, quando ainda não foi lança- da para o sistema de armazenamento de longo prazo. A memória de curto prazo é uma conexão mais fraca, passível de ser apagada se o cérebro perceber que não precisaremos mais dela no futuro. Memória procedural Existe também a memória que chamamos de procedural, conside- rada uma memória implícita, aquela que não precisa ser consciente- mente acionada quando utilizada. Ela é nosso “piloto automático”, que permite que façamos automaticamente grande parte das tarefas que envolvem nosso sistema motor: andar, dirigir, andar de bicicleta etc. Imagine se um jogador precisasse avaliar quais seriam os melho- res movimentos antes de bater na bola. Ou se um músico precisasse se lembrar das lições cada vez que escolher uma nota. Enfim, graças a esse sistema podemos fazer aquilo que fazemos sempre sem pre- cisar pensar para acionar conscientemente alguma lembrança. 6868 Neuroeducação e estratégias de aprendizagemNeuroeducação e estratégias de aprendizagem bicicleta Histórias jogos Consolidação das informações 69 A memória procedural é formada de acordo com a necessidade que temos de automatizar tarefas que fazem parte do dia a dia. Assim, o cérebro gasta menos energia para aprender coisas novas, enquanto outras ações são executadas de maneira automática Tanto a memória implícita quanto a explícita passam por um pro- cesso de consolidação que acontece somente com aqueles conheci- mentosque o cérebro tem como importantes. 3.3 Por que esquecemos? Vídeo Ao contrário do que parece, a informação não é guardada no cé- rebro como um filme que pode ser projetado na íntegra cada vez que queremos assisti-lo. Nossa memória funciona muito mais como uma montagem de fatos feita por um detetive, tendo que preencher lacunas e inferir informações, do que como uma biblioteca ou um computador. O cérebro reconstitui a informação a cada vez que ela é acionada – e essa reconstituição pode variar muito. Fatores como nosso estado emocional quando nos lembramos de um fato podem influenciar a for- ma como ele é reconstituído, modificando, enriquecendo e distorcen- do a lembrança. Isso explica o fato de depoimentos de testemunhas oculares, mesmo sem estarem mentindo de maneira planejada, serem pouco confiáveis e frequentemente revelados como enganosos. A forma como nossa visão funciona ilustra bem o processo de ar- mazenamento de informações. Na verdade, nosso sistema visual só consegue manter em foco um espaço do tamanho de uma moeda que posicionamos à frente do rosto com o braço estendido. No entanto, en- xergamos um cenário amplo inteiro em foco (mesmo que precisemos de óculos para isso). O que acontece é que nosso cérebro – e não nossos olhos – faz-nos ver em foco. Com a memória é mais ou menos assim. Pequenos fragmentos de informação servem como base para que o cé- rebro preencha todas as lacunas e nos entregue a lembrança, dando-nos a impressão de que estava guardada exatamente daquela forma. Isso não quer dizer que o sistema de armazenagem humano seja falho ou fraco, mas que funciona de modo otimizado. Ele economiza espaço e energia nos dando a informação suficiente e deletando as ba- gagens inúteis, das quais pouco ou nada precisamos. Por isso, a apren- dizagem e a memória funcionam num sistema de reciclagem. Novos 70 Neuroeducação e estratégias de aprendizagem episódios modificam nossa memória, assim como novos aprendizados modificam os conceitos preexistentes. Portanto, desaprender e esque- cer são processos importantes para o ganho cognitivo. Os cérebros que não têm a capacidade de esquecer têm um poten- cial reduzido para aprendizagem, o que explica por que os casos raros de hipermnésia (aquelas pessoas que não se esquecem de nada) geral- mente vêm acompanhados de dificuldades cognitivas e até motoras. Nosso cérebro se desenvolveu para esquecer e guardar apenas fragmentos de informações que utiliza fazendo aquilo que ele faz de melhor: interpretar o mundo. O pesquisador e filósofo alemão Hermann Ebbinghaus, pioneiro nos estudos da memória, tendo passado décadas investigando essa capacidade do cérebro, chegou a uma conclusão um tanto desconcer- tante para os educadores, mas confirmada por estudos posteriores: esquecemos em torno de 60% do que aprendemos em 24 horas e cerca de 90% daquilo que é aprendido na escola é esquecido dias depois. O quanto esquecemos varia muito de pessoa para pessoa e de acordo com o método estudado. Mas a curva de Ebbinghaus (Figura 1) ilustra de uma forma geral como a memória funciona. Essa curva continua em declive conforme o tempo vai passando. A não ser que o material seja revisado espaçadamente. Figura 1 Curva de Ebbinghaus A_ _N /S hu tte rs to ck M em ór ia Tempo O que isso significa para a educação? Uma educação voltada para a memorização de fatos e palavras que pouco serão usadas não é planejada de acordo com a forma como o cérebro funciona e, por isso, é pouco eficaz. Consolidação das informações 71 3.4 O papel da repetição na educação Vídeo O cérebro guarda aquilo que é importante, e um dos fatores mais fortemente correlacionados à importância de uma memória é a emo- ção: quanto maior a carga emocional, mais o cérebro entende como útil guardar aquela informação para o futuro, tanto para aproveitar opor- tunidades semelhantes se for uma emoção positiva, quanto para evitar situações semelhantes se for uma emoção negativa – como medo ou vergonha. Esse tipo de experiência forma fortes conexões neurais en- tre as várias regiões do cérebro. Normalmente são memórias episódi- cas, experiências que você protagonizou. No entanto, poucas são as experiências que envolvem uma carga tão grande de emoção que as impeça de serem jogadas no buraco negro do esquecimento. As informações que não envolvem experiências diretas e que constituem a memória semântica são mais facilmente esquecidas. Por isso precisamos reforçar essas conexões que são mais fracas e que, quando não usadas, acabam se apagando. Afinal, nosso cérebro funciona com base no princípio “use ou perca”, em inglês, use it or lose. Toda memória só se cria com um propósito: ela precisa servir para al- guma coisa no futuro. Uma forma de sinalizarmos ao cérebro algo como importante é usarmos a informação, senão de modo prático, relembrando-a repeti- das vezes. Ao aprendermos algo novo, criamos uma memória de cur- to prazo, que faz parte da memória de trabalho e em muitos casos é suficiente para resolver nosso problema. Se precisamos reter essa informação e criar uma memória de longo prazo, temos que reforçar essa conexão, o que acontece cada vez que ela é lembrada. A formação de memórias acontece de maneira muito similar às passagens abertas por tropeiros no Brasil: as mais importantes foram sendo percorridas repetidas vezes e suas marcas foram fortalecidas antes de serem asfaltadas permanentemente. No início, as memórias são frágeis, mas vão se fortalecendo cada vez que percorremos aquele caminho. Ou seja, para que haja conso- lidação é necessário haver o restabelecimento (retrieval) da memória. 72 Neuroeducação e estratégias de aprendizagem A consolidação da memória deixa o cérebro livre para aprendermos novas habilidades e informações. Imagine se para ler tivéssemos que recordar o som representado por cada letra e decodificar sílaba a síla- ba de cada palavra. A leitura demandaria um esforço tão grande que os recursos cognitivos necessários para a compreensão do texto estariam saturados. É o que acontece nos estágios iniciais da alfabetização. Foi preciso repetirmos incansavelmente a tarefa da decodificação, começando com palavras curtas e simples, para que a habilidade fi- casse automática. Hoje não conseguimos olhar para uma palavra, ou mesmo frase, sem a ler. Mas não foi em uma longa jornada de estudo, antes de uma prova, que automatizamos o conhecimento. Foi neces- sário o exercício diário da atividade durante anos. Isso é verdade para qualquer habilidade e conhecimento. A repetição é tão importante que as crianças são naturalmente des- lumbradas por ela. Pedem para ver o mesmo filme e ler o mesmo livro diariamente. São obstinadas quando gostam de um assunto ou que- rem aprender algo, simplesmente porque a repetição faz parte de seu processo de aprendizagem. A repetição é fundamental na construção das funções executivas – como o controle inibitório, a memória de trabalho e a flexibilidade cognitiva. Todas as tarefas que colocam o córtex pré-frontal para tra- balhar – responsável pelo desenvolvimento dessas competências su- periores – exigem esforço e, portanto, costumam ser realizadas de maneira lenta e dispendiosa, necessitando de muita energia. No entanto, à medida que ganhamos mais e mais domínio so- bre determinada habilidade, o córtex pré-frontal passa a ser menos acionado e são as estruturas subcorticais que assumem a tarefa. Quanto melhor ficamos em uma atividade, menos esforço e energia mental ela consome, pois passamos a realizá-la de maneira auto- mática e inconsciente. Aquilo que fazemos muito bem fazemos, de fato, sem pensar, uma vez que ações inconscientes são mais rápidas e eficientes. Automatizar ações que praticamos repetidamente é uma estratégia do cérebro de economizar energia (lembre-se de que gerenciamento de energia é uma das prioridades desse órgão). Para isso, é preciso cons- truir o circuito neural de cada atividade que precisamos automatizar. O cérebro não vem equipado comhabilidades como leitura, escrita e Consolidação das informações 73 digitação. Mas, por ele ser plástico, permite-nos construir um circuito específico para cada habilidade que surge de acordo com as necessida- des do nosso meio. O que não é pré-programado precisa ser construído com muito esforço e repetição para então virar automático e energeticamente eficiente. Isso vale para qualquer conhecimento, desde as habilida- des motoras até as condutas sociais. Para que a aprendizagem seja consolidada, a ação e a repetição são fundamentais. Somos o que fazemos repetidamente. 3.5 Estratégias de memorização Vídeo Nesta seção levantaremos algumas importantes questões a respei- to de como podemos praticar a repetição de uma forma que seja de fato eficaz para a aprendizagem e para a retenção do conhecimento. Como a memória se consolida? Decorar vem do latim de cor, que quer dizer de coração. Saber algo “de coração” significa que, teoricamente, não precisamos mais usar a mente para lembrarmos. Ou seja, a informação é lembrada sem es- forço algum, está gravada no cérebro de modo permanente. Se en- tendermos o coração como uma representação do inconsciente, essa expressão reflete uma verdade Para transformarmos uma memória de curto em uma de longo pra- zo, precisamos revisitar a mesma informação uma série de vezes, for- talecendo as conexões relacionadas àquele aprendizado e formando novas relações entre essa memória e outras. O cérebro funciona com um princípio semelhante ao de um múscu- lo; para exercitá-lo aplicamos uma quantidade de força acima da con- fortável durante algum tempo antes de aumentarmos o peso. Realizar um exercício intenso durante somente um dia não vai moldar o múscu- lo, mas meia hora de treino por dia fará toda a diferença. Esse fato foi uma das descobertas importantes de Ebbinghaus. O pesquisador comprovou que a aprendizagem não ocorre de ma- neira concentrada. Ela ocorre aos poucos e a consolidação faz parte desse processo. Como tudo o que é consistente, ela é construída em 74 Neuroeducação e estratégias de aprendizagem etapas, sendo que muitos passos precisam ser refeitos, retomados e reconstruídos antes de avançarmos. Não existe aprendizagem de verdade quando o conteúdo é apa- gado. Por isso é mais eficaz retomarmos o conteúdo do que pros- seguirmos. Não adianta continuarmos construindo uma estrada à nossa frente enquanto o que foi feito antes está sendo desmancha- do. Essa estrada não levará a lugar nenhum. Precisamos voltar e consertar o que está frágil, deixando mais firme. Essa retomada deve ser espaçada e esse espaçamento deve ser fei- to de maneira estratégica: o que foi estudado hoje deve ser retomado amanhã, semana que vem, mês que vem e, novamente, depois de três meses, de seis meses e de um ano. Portanto, se você é professor, programe suas aulas para reto- mar o conteúdo em dias específicos. Essa programação é necessá- ria para que a revisão seja feita de modo eficaz, com espaçamento cada vez maior, mas não distante o suficiente para que a informa- ção seja esquecida. A técnica do espaçamento vale também para a aprendizagem de novas informações, e não apenas para a retomada de conteúdo. Vá- rios estudos mostram que o conteúdo é mais bem aprendido quan- do é trabalhado ao longo de vários dias, semanas ou meses, ou seja, de maneira espaçada. Lembre-se de que aprendizagem sólida, aquela que fica na memó- ria de longo prazo, é um processo construído em etapas e não pode ser intensificado para que seja acelerado. Ensinar e aprender de modo mais eficaz jamais significa de maneira intensiva. Os alunos retêm melhor as informações se elas forem divididas em pequenos blocos e distribuídas ao longo do tempo. Na prática, isso significa que três pequenas sessões de estudo, por exemplo, trazem melhor resultado que uma única e longa sessão. Uma pesquisa com alunos de francês publicada no Journal of Educational Research (BLOOM; SHUELL, 1981) mostrou que aqueles que distribuíram a aprendizagem em três sessões separadas ao longo da semana conseguiram reter 20% a mais do que aqueles que tiveram uma única sessão semanal mais longa. Consolidação das informações 75 Reler o conteúdo ajuda a memorizá-lo? Se precisássemos resumir em uma única palavra a estratégia mais eficaz de estudo, que palavra você acha que seria? ( ) Releitura ( ) Teste ( ) Marcação de texto m en ta lm in d/ Sh ut te rs to ck Um metaestudo feito por pesquisadores da Universidade de Kent (DUNLOSKY et al., 2013), que analisaram centenas de pesquisas rea- lizadas no decorrer de várias décadas, concluiu que a técnica mais eficaz de estudo envolve o teste, ou a recordação ativa, do material. Quando testamos nosso conhecimento, buscamos a resposta em nossos arquivos mentais fazendo esforço para lembrar. Esse esfor- ço é um alerta para o que é importante, elevando a nossa atenção e acendendo a luz vermelha para que o nosso cérebro retenha a infor- mação quando ela é entregue. Ao testarmos nossos alunos, estaremos expondo-os ao erro. Ao errar, eles vão se surpreender, corrigir e reformular o mapa concei- tual que sua mente construiu a respeito de determinado conceito. O erro é fundamental para que o modelo mental do mundo seja constantemente atualizado e aprimorado. E sem teste, podemos dizer que não há erro. Já aconteceu de você descobrir que não sabe um conteúdo que aca- bou de aprender quando vai tentar explicá-lo a alguém? Ler diversas vezes a mesma informação pode nos dar a sensação de que domina- mos o material. Mas é tentando explicar, seja por escrito, seja oralmen- te, que saberemos de fato se o aprendeu. 76 Neuroeducação e estratégias de aprendizagem Nossos alunos devem ter essa oportunidade a cada novo conhe- cimento. E sempre que perceberem que não sabem, ficarão mais atentos à resposta correta, potencializando a capacidade de reten- ção do conteúdo. De que forma os conhecimentos podem ser testados? Conheçamos algumas formas de testar os conhecimentos dos alu- nos com o intuito de aumentar o nível de retenção do material. Separe os minutos finais da aula e peça aos alunos que escrevam tudo o que lembram em frases curtas e diretas; isso é muito mais eficaz do que copiar do quadro. Antes de ler o material com os alunos ou de pedir que eles o leiam, elabore perguntas de um assunto relacionado, já estudado, e faça-os tentar responder. Elabore perguntas e respostas ou conceitos e definições em flashcards ou fichas – que podem ser em papel ou eletrônicas. Use essas fichas em intervalos espaçados. Faça mapas-mentais do assunto trabalhado utilizando apenas palavras-chave e teste o conhecimento dos alunos depois, fazendo- os explicar o mapa. Teste o conhecimento de seus alunos: oralmente, por escrito, com data marcada, de surpresa, envolvendo conteúdo recém-apresentado ou mais antigo. Esses testes não precisam valer nota. Podem ser corrigidos e servir para que os alunos acompanhem seu próprio desempenho. Intercale as técnicas autoavaliativas. Aquelas questões que não foram bem assimiladas devem ser repetidas no mesmo dia, no dia seguinte, na semana seguinte e assim sucessivamente até que se obtenha êxito. Acostume-se com a ideia de que o normal é esquecer e de que errar faz parte da aprendizagem. im Gh an i/S hu tte rs to ck Consolidação das informações 77 É melhor separar os assuntos na hora de aprender? O que é melhor: trabalhar uma regra de gramática até fixá-la e só então passar para outra? Ou misturar as regras e aprendê-las de ma- neira combinada? Ou, no caso de matemática, seria melhor exercitar uma regra de cada vez? A resposta é sim – quando estamos apresentando algo pela pri- meira vez. Mas não como regra de ensino. Depois de aprendido determinado material, o ideal é misturá-lo com outros vistos ante- riormente. Intercalar questões de níveis diferentes e que trabalham conteúdos e habilidades diferentes na mesma sessão de estudos traz resultados melhores. Portanto, em vez de trabalhar um únicotópico de cada vez, divida suas aulas em tópicos diferentes, mesmo que dentro da mesma dis- ciplina. A aprendizagem não ocorre de uma forma linear. Nosso cé- rebro não funciona dessa maneira. Funciona de maneira integrada e interdisciplinar. A eficácia dessa técnica de intercalar, conhecida como interleaving, já foi investigada em inúmeros estudos e é válida tanto para competên- cias motoras como cognitivas. Em um desses estudos foi comprovado que estudantes que intercalaram os temas no estudo da matemática no decorrer de 88 dias de estudo acertaram uma média de 74% das questões em um teste surpresa. Já aqueles que estudaram os temas em blocos separados tiveram um nível médio de acerto de 42% (ROHRER; DENDRICK; STERSHIC, 2015). O cenário amplo é necessário antes de iniciarmos um novo assunto. Então, devemos passar para o exercício sistemático, focando uma úni- ca regra, para em seguida intercalarmos assuntos e contextos. Em matemática, por exemplo, a aprendizagem é otimizada se mis- turarmos diferentes operações em um ou mais problemas em uma mesma sessão de estudo. Em qualquer disciplina as regras devem ser misturadas e combinadas depois de introduzidas. Essa técnica ajuda na retenção e também na compreensão, uma vez que permite que faça- mos diferentes relações e enxerguemos o cenário amplo e prático do assunto estudado. Escreva, em frases curtas, tudo o que você lembra sobre estratégias de consolidação. Desafio ni ce m on ke y/ Sh ut te rs to ck 3.6 Fatores que influenciam a memória Vídeo Alguns fatores influenciam a construção da nossa memória, portan- to, são fundamentais para a aprendizagem. Precisamos conhecê-los para que possamos identificar como eles atuam em nossa rotina. São eles: o sono e os exercícios físicos. Sono Precisamos dormir bem para aprender bem. A privação do sono afe- ta negativamente nossa atenção, memória de trabalho, pensamento lógi- co, funções executivas e até habilidades motoras. Para garantirmos as 9 horas ou mais de sono entre adolescentes, a Sociedade Americana de Pediatria (AAP) passou a recomendar que as escolas iniciem as aulas sempre depois das 8h30, alinhando os horários acadêmicos ao ritmo circadiano dos adolescentes depois de analisar da- dos de 270 mil jovens e constatar que mais de um terço deles dorme no mínimo 2 horas a menos do que o recomendado para a idade. Ter um boa noite de sono é fundamental para a consolidação da memória e, como consequência, obtenção de sucesso na aprendiza- gem. A cada ano surgem novas evidências comprovando essa relação. Uma das mais interessantes foi realizada por neurocientistas ingleses que comprovaram em estudos com ratos que durante o sono profun- do as habilidades aprendidas durante o dia são “ensaiadas” repetida- mente (HANLON et al., 2009). Essa neurorepresentação das memórias em replay é fundamental para o fortalecimento das conexões sinápti- cas e, assim, para a consolidação da aprendizagem. Existem muitas evidências de que o sono é vital para a formação de vá- rios tipos de memória. De acordo com a neuropsicóloga Penelope Lewis, especialista em sono e na relação dele com a memória e autora de O Mundo Secreto do Sono (2013), habilidades motoras tendem a se aprimorar em até 20% em uma única noite de sono. Ela explica que é enquanto dormimos, mais especificamente no estágio de ondas lentas, que ocorre essa lim- peza de dados processados durante o dia. Ao enfraquecer as conexões não significativas, o sono mantém a ca- pacidade de armazenamento do cérebro, fundamental para as funções cognitivas. Yu ga no v K on st an tin /S hu tte rs to ck Yu ga no v K on st an tin /S hu tte rs to ck 7878 Neuroeducação e estratégias de aprendizagemNeuroeducação e estratégias de aprendizagem P re ss m as te r/ Sh ut te rs to ck Exercícios físicos Imaginar que uma criança sentada na carteira escolar o dia intei- ro precisa ter um bom desempenho, uma vez que suas capacidades cognitivas estão sendo trabalhadas, pode ser um erro. Movimento e pensamento andam juntos. O ser humano não se desenvolveu para passar o dia sentado. Nos- sos ancestrais espalharam-se pelo mundo andando pelo menos 30 km todos os dias. Esse foi nosso padrão por centenas de milhares de anos e tanto nosso corpo quanto nossa mente pagam um preço alto pela mudança radical em nosso estilo de vida, que passou a ser predomi- nantemente sedentário. Exercícios físicos aeróbicos praticados pelo menos duas vezes na semana reduzem cerca de 50% das chances de desenvolvimento de doenças típicas da terceira idade, como o Alzheimer e as complicações cardiovasculares (DUSTMAN, RUTHLING, RUSSEL,1984). Os benefícios não são apenas físicos. Estudos que comparam perfor- mance cognitiva entre grupos de pessoas ativas e sedentárias mostram drásticas diferenças nos resultados, favorecendo aqueles que se exerci- tam constantemente (DWEYER, SALLIS, BLIZZARD, 2001). Entre as capa- cidades cognitivas correlacionadas aos exercícios físicos estão memória, raciocínio lógico, visoespacial, funções executivas, pensamento abstrato e resolução de problema. Consolidação das informaçõesConsolidação das informações 7979 80 Neuroeducação e estratégias de aprendizagem Isso vale para qualquer idade: atividades físicas aumentam o fluxo san- guíneo, oxigenando o cérebro e melhorando sua performance em pratica- mente todas as funções, inclusive lembrar-se de algo quando necessário. CONSIDERAÇÕES FINAIS A educação, ainda fortemente voltada a fatos e conteúdo, durante muito tempo ignorou uma verdade fundamental sobre o cérebro humano: ele não foi feito para memorizar uma quantidade grande de informações, mas para interpretá-las. Não que isso seja uma descoberta recente da neuro- ciência, o fato de que esquecemos quase tudo o que aprendemos já foi am- plamente estudado por pesquisadores há mais de 100 anos. O que temos hoje é a comprovação científica, com base em um consistente corpo de estudos, de estratégias que ajudam a consolidar informações importantes. Além disso, conhecemos de maneira mais aprofundada os processos de formação e consolidação da memória, o que nos ajuda a buscar formas mais eficazes de ensino, fundamentadas na especialidade do cérebro humano, que é relacionar informações e interpretá-las de modo flexível e funcional. ATIVIDADES Atividade 1 Explique a relação entre memória de trabalho e o controle de impulso. Atividade 2 Cite uma forma de exercitar a memória de trabalho em crianças pequenas. Atividade 3 Por que esquecemos? Consolidação das informações 81 Atividade 4 Quais são os fatores fundamentais para a consolidação das memórias? Atividade 5 Explique a afirmação: quanto melhor ficamos em uma atividade, menos esforço e energia mental ela consome. Atividade 6 Explique a relação do sono com a memória. REFERÊNCIAS BLOOM, K. C.; SHUELL, T. J. Effects of massed and distributed practice on the learning and retention of second-language vocabulary. The Journal of Educational Research, v. 74, n. 4, 1981. DUNLOSKY, J. et al. Improving students’ learning with effective learning techniques: promising directions. Cognitive and Educational Psychology, v. 14, n. 1, p. 4-58, 2013. DUSTMAN, R.; RUTHLING, R.; RUSSEL, M.E. Aerobic exercise training andimproved neurophysiological function of older adults. Neurobiol Aging, V. 5, p. 35 – 42. 1984 DWEYER, T., SALLiS, J. BLIZZARD, L. Relations of academic performance to physical activity and fitness in children. Pediatric Exercise Science, V. 13, p. 225-237. 2001 HANLON E. C. et al. Effects of skilled training on sleep slow wave activity and cortical gene expression in the rat. Sleep, n. 32, p. 719-729, 2009. LEWIS, P. The Secret World of Sleep: the surprising science of the mind at rest. Nova York: St. Martin’s Press, 2013. ROHRER, D.; DENDRICK, R. F.; STERSHIC, S. Interleaved practice improves mathematics learning. Journal of Educational Psychology, v. 107, n. 3, p. 900-908, 2015. 82 Neuroeducação e estratégias de aprendizageme de que maneiras podem ser trazidos para a prática. Finalmente, no quinto capítulo, veremos como a mente constrói sentido. Afinal, não há aprendizagem sem haver a compreensão do que se estuda. Nele entenderemos melhor esse processo, como um conhecimento certamente influenciará a maneira como ensinamos conceitos abstratos e complexos a alunos de qualquer idade e grau de desenvolvimento cognitivo. Ao entendermos como o cérebro aprende, nós, como educadores, ganhamos meios de ensinarmos com eficácia não apenas os conhecimentos específicos de cada disciplina, mas a mais importante de todas as habilidades: a de saber aprender. Portanto, as adaptações na maneira como preparamos e apresentamos o conteúdo, avaliamos os alunos e repassamos o conhecimento farão toda a diferença no resultado das nossas aulas. Verdades e mitos sobre a aprendizagem 9 Reflexão inicial Vídeo Neste livro você descobrirá que muitas coisas que lhe contaram sobre aprendizagem não se sustentam cientificamente. Mas, antes, que tal fazer um breve exercício de autoconsciência com relação às estratégias que você costuma utilizar com seus alunos? Com base no questionário a seguir, você saberá quais delas realmente funcio- nam (e por isso merecem mais espaço no planejamento das aulas) e quais podem não ser tão eficazes quanto você imagina. Então o que acha de responder às questões da forma mais sincera possível, para que possa reavaliá-las ao final do curso? Dessa forma, você terá mais clareza com relação aos procedimentos que normalmente ado- ta e, quando terminar os estudos, poderá rever cada tópico e, a partir dos conhecimentos adquiridos, refletir sobre o que pode ser acrescentado, mudado ou abandonado. 1. Costumo pedir que os alunos leiam o texto em voz alta e só então explico o conteúdo. ( ) SIM ( ) NÃO 2. Acredito que a releitura do texto antes de uma prova seja o principal recurso de estudo. ( ) SIM ( ) NÃO 3. Acredito que a releitura do texto é a principal forma de memorizar palavras novas. ( ) SIM ( ) NÃO 4. Costumo pedir para os alunos grifarem frases ou parágrafos inteiros que julgo ser importantes. ( ) SIM ( ) NÃO 5. Utilizo recursos para avaliar quanto do conteúdo foi retido pelos alunos semanas depois das provas. ( ) SIM ( ) NÃO 6. Percebo ou constato que meus alunos esquecem a maior parte do que foi ensinado. ( ) SIM ( ) NÃO (Continua) Como eu ensino? Verdades e mitos sobre a aprendizagem 10 Neuroeducação e estratégias de aprendizagem 7. Costumo elogiar os acertos dos alunos mais do que as tentativas. ( ) SIM ( ) NÃO 8. Promovo pesquisas e faço meus alunos explicarem o conteúdo aos colegas. ( ) SIM ( ) NÃO 9. Utilizo com meus alunos técnicas específicas para memorizar termos e informações. ( ) SIM ( ) NÃO 10. Costumo testar e avaliar constantemente meus alunos por meio de atividades avaliativas que não prejudicarão suas notas. ( ) SIM ( ) NÃO 11. Aplico questões e exercícios sempre do mais fácil para o mais difícil, sem intercalar. ( ) SIM ( ) NÃO 12. Alguns alunos têm dificuldade de compreensão específica de textos e com eles as atividades escritas devem substituir as orais. ( ) SIM ( ) NÃO 13. Meus alunos costumam se frustrar quando erram e considero isso natural e inevitável. ( ) SIM ( ) NÃO 14. Acredito que a revisão do conteúdo de maneira intensiva é mais eficaz que o espaçamento do estudo. ( ) SIM ( ) NÃO 15. A formatação do ambiente onde costumo ministrar as aulas é sempre a mesma. ( ) SIM ( ) NÃO 16. Prefiro não misturar conteúdos diferentes em uma mesma aula. ( ) SIM ( ) NÃO 17. Meus alunos permanecem sentados na maior parte das aulas. ( ) SIM ( ) NÃO 18. Utilizo recursos que facilitam a associação de ideias, como mapas mentais. ( ) SIM ( ) NÃO 19. Sinto que tenho pouco controle sobre a atenção dos meus alunos. ( ) SIM ( ) NÃO 20. Acredito que cada pessoa tem um estilo de aprendizagem (visual, cinestésica e auditiva) e as aulas precisam se adaptar a cada estilo. ( ) SIM ( ) NÃO Introdução à neuroeducação 11 1 Introdução à neuroeducação Muitos acham que a capacidade de aprendizagem de cada um é pre- determinada pela genética e que o ambiente pouco influencia esse de- senvolvimento, mas a realidade não é bem essa. Algumas pessoas podem ter uma facilidade maior em memorizar e em compreender um material novo, mas todos podem aprimorar a capacidade de absorver informações e potencializar a capacidade cognitiva. Para isso, é preciso entendermos a forma como o cérebro aprende. Neste capítulo, veremos como a neurociência contribui para a educa- ção, partindo de um conceito de aprendizagem que resume a forma como o cérebro absorve e retém novas informações. Além disso, conhecere- mos como e por que as relações sociais ajudam a construir a cognição humana, incluindo as habilidades superiores conhecidas como funções executivas. Por fim, também entenderemos como funciona a plasticidade cerebral e o que isso significa para a educação. Com o estudo deste capítulo, você será capaz de: • entender a importância das contribuições da neurociência para a educação; • entender fundamentos da cognição social e sua relação com a aprendizagem; • saber o que é plasticidade cerebral; • conhecer as diferentes funções executivas e como exercitá-las. Objetivos de aprendizagem Pa ril ov /S hu tte rs to ck Pa ril ov /S hu tte rs to ck 1.1 O que é aprendizagem e como o cérebro aprende Vídeo Não há como desvencilharmos esta revolução da forma como a edu- cação é hoje estruturada. O fato de carregarmos todas as informações necessárias em nossos bolsos já é suficiente para derrubar o modelo de educação centrado no professor e no conteúdo. Atualmente, o ensi- no realmente eficaz prepara o aluno para buscar as informações e apli- cá-las de modo inteligente e criativo, o que implica o desenvolvimento de uma série de capacidades que vão muito além da memorização de fatos. Implica, basicamente, repensar a importância da forma como a educação é estruturada na relação com o conteúdo a ser ensinado: o como ensinar ganha espaço ocupado pelo o que ensinar. Além disso, com o avanço da neurociência o conhecimento de como o cérebro aprende deixou o campo de teorias e especulações e passou a ser mensurado e comprovado. Hoje sabemos que, diferentemente do que se acreditava, o cérebro não se desenvolveu para receber in- formações de maneira passiva nem para as reproduzir literalmente. Ao invés disso, é um órgão extremamente dependente do meio e do contexto social na interpretação das informações e dos estímulos. Uma vez que sabemos como o cérebro aprende, temos a respon- sabilidade de criar um ambiente educacional que ofereça não só conteúdo, como também melhores condições para o desenvolvi- mento dos alunos. Além disso, é necessário revermos métodos que não funcionam mais e aqueles que nunca funcionaram – sempre com base em comprovações científicas. Se o objetivo principal do professor era informar, hoje não há mais dúvida que deve ser, acima de tudo, formar cidadãos aptos a aprender de modo contínuo, autônomo e eficaz; ca- pazes não apenas de lembrar, mas de pensar e manipular as informações de maneira a contribuir para a sociedade. É importante destacarmos que cada pessoa é única, ou seja, aprende em seu próprio ritmo, de acordo com sua ma- turidade, suas necessidades e seus interesses. No entanto, o 1212 Neuroeducação e estratégias de aprendizagemNeuroeducação e estratégias de aprendizagem Introdução à neuroeducação 13 processo de aprendizagem acontece a partir de um padrão, sejam alu- nos típicos ou com diferentes diagnósticos. Portanto, conhecermos os fatores emocionais, sociais, motores e cognitivos que interagem nesse processo é essencial na construção de um ambiente inclusivo que aten- da a todos de modo eficaz. Definindo a aprendizagem O que acontece em nosso cérebro quando absorvemos uma nova4 Papel das emoções na aprendizagem A atenção e a memória são recursos indissociáveis da aprendizagem. No entanto, há outro componente que, apesar de tão fundamental quan- to essas capacidades, é bem menos evidente e, por esse motivo, costuma ser negligenciado pela educação. E é sobre ele que vamos aprender neste capítulo: as emoções. Aprendemos porque prestamos atenção, prestamos atenção porque sentimos. Os sentimentos trazem sentido para tudo o que fazemos, assim como podem nos impedir de aprender e de prosperar. Neste capítulo entenderemos a relação entre as emoções e a apren- dizagem e como os educadores podem aplicar estratégias que deixem suas aulas mais emocionantes. Também entenderemos o papel da disci- plina no controle das emoções e de que forma o uso da linguagem pode auxiliar na compreensão e, como consequência, no gerenciamento das emoções, ajudando os alunos e os pacientes a manterem o estresse sob controle e a motivá-los a buscarem conhecimentos. Com o estudo deste capítulo, você será capaz de: • conceber a forma como as emoções influenciam o processo de aprendizagem e o papel da linguagem nesse processo; • entender por que a disciplina ajuda na regulação das emoções; • conhecer a importância do erro; • compreender como criar um ambiente acadêmico que estimula a aprendizagem a partir desse conhecimento; • entender por que o esforço é essencial para a aprendizagem e como criar um ambiente que o estimula; • reconhecer por que a motivação é essencial para a aprendizagem e como ela pode ser estimulada. Objetivos de aprendizagem Papel das emoções na aprendizagem 83 4.1 O que são emoções Vídeo A principal função do cérebro não é pensar, mas nos manter vivos. Uma das estratégias que ele usa para isso é antecipar nossas necessidades an- tes que apareçam – o que chamamos de alostase. E como o cérebro nos sinaliza essas necessidades? Nos faz senti-las, como fome, frio, sede e sono. Também experienciamos uma infinidade de sentimentos positivos e negativos, alguns simples, outros tão complexos que muitas vezes necessi- tamos de ajuda para entendê-los e nomeá-los. Mas todos convergem para dois estados básicos, cuja função é fundamentalmente nos proteger de pe- rigos e preservar nossa espécie. A resposta automática do corpo às diversas circunstâncias que ele interpreta como positivas ou negativas deriva de organismos tão sim- ples quanto bactérias. Mesmo sem sistema nervoso, criaturas rudi- mentares têm a capacidade de se afastar ou se aproximar de estímulos graças a um processo conhecido como homeostase, a qual garante aos organismos um saldo energético positivo necessário para a manu- tenção da vida (o que o diferencia da alostase é que nesta há a anteci- pação das necessidades). Em seres com sistema nervoso, não apenas o estímulo, mas a me- mória desse estímulo promove um sentimento que os ajuda a navegar pelo seu ambiente de maneira mais assertiva. Todas as experiências conscientes formam espécies de imagens mentais (não necessaria- mente visuais) e são acompanhadas por sentimentos. Sentimentos x emoções A resposta do corpo às situações de perigo ou gratificação – acelera- ção de batimento cardíaco, respiração acelerada, pupila dilatada, trans- piração, entre outras reações biológicas – explica a origem da palavra emoção, cuja raiz significa movimento. O neurocientista português, António Damásio (2018), atualmente o mais referenciado nome da neurociência, diferencia emoção de senti- mento tendo como base essa origem em movimento. De certa forma, as emoções são perceptíveis, pois causam mudanças biológicas. Em Sentir e Saber: as origens da consciência, é apresentada uma linguagem mais didática para falar da relação dos sentimentos com a cons- ciência, apresentando informações de maneira clara e concisa. DAMÁSIO, A. Rio de Janeiro: Cia. das Letras, 2022. Livro 84 Neuroeducação e estratégias de aprendizagem Já os sentimentos, contrariamente às emoções, podem ser consciente- mente evocados e recordados e nem sempre são perceptíveis aos outros. Conforme coloca Damásio (2018), as emoções nos mantêm vivos, já os sentimentos garantem um modelo de mundo que pode ser preservado e servir como guia em situações futuras. Isso não quer dizer que a separa- ção seja delineada de modo evidente. As emoções, ao ganharem sentido, viram sentimentos. Apesar de essenciais à nossa vida e à cognição humana, as emoções são relacionadas aos atos impulsivos, o que acabou colocando-as em uma posição desfavorável na popular dualidade coração versus razão. No entanto, é a integração das informações sensoriais e dos estados internos que nos permite aprender. Absorvemos novas informações quando as associamos àquelas já mapeadas, bem como aos sentimen- tos que elas evocam. Uma vez extirpado o sentimento, seria impossível classificar quaisquer imagens como belas ou feias, agradáveis ou doloro- sas, de bom gosto ou vulgares, espirituais ou terrenas. Se não dispuséssemos de sentimentos, poderíamos talvez ser treina- dos, com enorme esforço, para classificar estética ou moralmen- te os objetos ou os acontecimentos que nos rodeiam, à maneira de um robô. A hipótese é absurda. Teoricamente, seríamos obri- gados a depender de uma análise deliberada de características e contextos num esforço brutal de aprendizagem. Mas tal aprendi- zagem é difícil de conceber sem as propriedades da recompensa e dos sentimentos que a acompanham. (DAMÁSIO, 2018, p. 148) O cérebro trabalha de uma forma otimizada, dispensando informa- ções que possivelmente não nos serão úteis no futuro. Uma das formas de fazer com que determinada informação ganhe um circuito neural é relembrando-a muitas vezes ou relacionando-a com uma carga forte de emoção. As emoções são o principal sinal de que algo é importante e que, portanto, precisa ficar na memória. Os aspectos da cognição que são mais recrutados na educação – como atenção, memória, tomada de decisão e funcionalidade social – são diretamente afetados pela emoção, conforme apontam António Damásio e Mary Helen Immordino-Yang (2007). Os sentimentos dependem da memória para nos servirem e existem não apenas para nos afastar do risco ou nos aproximar das oportuni- dades, mas também para nos preparar para situações futuras. Com ex- Papel das emoções na aprendizagem 85 ceção daquilo que está geneticamente impresso em nosso corpo como perigoso, temos que aprender, de acordo com o meio em que vivemos, o que representa perigo e o que nos nutrirá e protegerá para usarmos essas informações no futuro. No registro dessas informações e à medida que reforçamos as conexões neurais dessas memórias é que são construídas questões emocionais muitas vezes problemáticas ou pouco funcionais. Uma pessoa exposta a situações de abuso ou negligência, especialmen- te quando seu cérebro ainda está em desenvolvimento, aprende a enxergar como ameaça aquilo que não é (ou, mais provavelmente, aqueles que não são), pois o universo inconsciente de seu cérebro construiu formas de protegê-los. Por meio das emoções, nosso cére- bro funciona como uma mãe superprotetora, que exagera nos cuida- dos e que pode limitar as ações e percepções do filho. Desequilíbrios emocionais de todos os tipos também provocam desajustes no sistema de recompensa (circuito do cérebro cujos neurônios têm inúmeros receptores para a dopamina, um neuro- transmissor associado à sensação de prazer), fazendo com que aquilo que foi registrado na memória como gratificante passe a ser buscado de modo constante, tendo seus riscos ignorados. 4.2 O papel da linguagem na regulação das emoções Vídeo Dividimos com outras criaturas sentimentos básicos de conforto e desconforto (como medo e prazer) relacionados à sobrevivência do indivíduo e da espécie. No entanto, por sermos seres sociais, grande parte dos componentes do nosso amplo catálogo emocional, sejam ne- gativos ou positivos, tem relação com os outros. Os sentimentos de prazer e desprazer passam a ser reconhecidose identificados por bebês à medida que suas necessidades são – ou deixam de ser – supridas por cuidadores e outros que interagem com eles. E à medida que suas capacidades cognitivas vão sendo desenvol- vidas com base no meio social, paralelamente à linguagem, desenvol- ve-se também uma ampla gama de sentimentos que vai se somando a outros e ganhando complexidade. fiz ke s/ Sh ut te rs to ck fiz ke s/ Sh ut te rs to ck Essa visão de que sentimentos são aprendidos socialmente é re- lativamente nova na neurociência e baseia-se no fato de que nossa resposta a estímulos – muitas vezes antecipada – é fundamentada nas nossas experiências anteriores, e essas experiências são cons- truídas no meio social, apresentando grandes variações individuais e culturais. O cheiro de flores pode trazer uma sensação agradável para muitas pessoas e despertar memórias desagradáveis em outras. A mesma coisa podemos dizer para determinados sons, ambientes e outras atividades humanas: as reações que os estímulos geram va- riam de acordo com as experiências que cada um associa a eles. A neurocientista Lisa Barrett (2017) liderou inúmeras investigações ao longo de duas décadas de estudo das emoções. Ela concluiu que diferentes emoções podem ser representadas por uma mesma expres- são facial. Com isso, as expressões dependem do contexto sociocultu- ral para serem identificadas, o que faz com que a interpretação desses sinais seja pouco confiável. Na obra A Estranha Ordem das Coisas (2018), Damásio lembra que todas as nossas decisões – mesmo aquelas que parecem frutos de uma ponderação puramente racional – são direta e inevitavelmente influen- ciadas pelas emoções. Ele também destaca a fluidez da emotividade humana, sendo dependente de fatores sociais para se formar. Ao que parece, a maquinaria dos nossos afetos é educável, até certo ponto, e boa parte daquilo a que chamamos de civilização ocorre através da educação dessa maquinaria no ambiente da nossa infância, em casa, na escola, e no ambiente cultural. (DA- MÁSIO, 2018, p. 162) Se aprendemos a associar determinada situação ao risco ou sofri- mento, por exemplo, qualquer estímulo relacio- nado a ela provocará reações fisiológicas no corpo antes mesmo de nos tornarmos cons- cientes da real situação em que nos encon- tramos, uma vez que o cérebro interpreta antecipadamente as informações. Barrett sintetiza sua teoria sobre as emoções, formulada com base em décadas de pesquisas empíricas, em uma palestra do TED intitulada Você não está à mercê de suas emoções. Ela explica por que as emoções são construções sociais e revela que podemos desconstruí-las. Disponível em: https://www.ted. com/talks/lisa_feldman_barrett_ you_aren_t_at_the_mercy_ of_your_emotions_your_brain_ creates_them?language=en. Acesso em: 21 dez. 2022. Vídeo 8686 Neuroeducação e estratégias de aprendizagemNeuroeducação e estratégias de aprendizagem https://www.ted.com/talks/lisa_feldman_barrett_you_aren_t_at_the_mercy_of_your_emotions_your_brain_creates_them?language=en https://www.ted.com/talks/lisa_feldman_barrett_you_aren_t_at_the_mercy_of_your_emotions_your_brain_creates_them?language=en https://www.ted.com/talks/lisa_feldman_barrett_you_aren_t_at_the_mercy_of_your_emotions_your_brain_creates_them?language=en https://www.ted.com/talks/lisa_feldman_barrett_you_aren_t_at_the_mercy_of_your_emotions_your_brain_creates_them?language=en https://www.ted.com/talks/lisa_feldman_barrett_you_aren_t_at_the_mercy_of_your_emotions_your_brain_creates_them?language=en Papel das emoções na aprendizagem 87 O filósofo William James (1890) foi pioneiro ao abordar as emoções como reações inicialmente inconscientes, sugerindo que não corremos do urso porque temos medo, e sim temos medo porque corremos do urso. Ou seja, o medo, como sentimento consciente, viria depois da rea- ção automática provocada pelo comportamento defensivo. Se as reações fisiológicas associadas às emoções são antecipatórias e inconscientes e como não podemos mudar nossas experiências an- teriores, não temos controle sobre a forma como o cérebro interpreta os estímulos, certo? Na verdade, não necessariamente estamos à mercê da forma como construímos as emoções. O que aprendemos hoje pode influenciar na forma como nosso cérebro passará a fazer predições no futuro. E uma das coisas que podemos aprender é reconhecermos as emoções e associá-las de maneiras diferentes. A linguagem cumpre um papel importante nessa aprendizagem. Ela nos ajuda a moldar a forma como enxergamos o mundo, os outros e nós mesmos. Aprendemos a identificar um sentimento quando alguém nos en- sina sobre ele. Isso começa quando o nomeamos. Muito além de tris- teza, medo e alegria, que fazem parte do vocabulário de crianças bem pequenas, estão os sentimentos que só começarão a ser compreen- didos quando identificados. O psiquiatra Daniel Siegel (2016) ensina que uma parte fundamental da educação emocional está no ensino do vocabulário relacionado às nossas experiências internas. Ele chama essa abordagem de name it to tame it (uma rima em inglês que significa nomeie-o para domá-lo, refe- rindo-se aos sentimentos). A comunicação desses sentimentos por meio da linguagem ver- bal é uma etapa importante do gerenciamento emocional. Segundo Siegel (2016), não sabermos o que sentimos pode ser confuso ou mesmo aterrorizante. Por outro lado, compartilhar nossas experiên- cias emocionais e nos sentirmos compreendidos pode evitar que elas se transformem em trauma. Na ili a Sc hw ar z/ Sh ut te rs to ck Conforme explica Barrett (2017), o conhecimento das palavras cer- tas dá ao cérebro a capacidade de predizer, categorizar e perceber as emoções. Isso nos torna mais aptos a buscarmos respostas flexíveis e funcionais a tais emoções. Aprendizagem e emoções estão interconectadas: ensinar a identi- ficar emoções e comunicá-las por meio da ampliação do vocabulário não apenas ajuda no gerenciamento do estresse, como traz melhores resultados acadêmicos. Alunos emocionalmente mais inteligentes, em contato com suas emoções e capazes de se comunicar com efi- ciência aprendem melhor. Uma pesquisa conduzida pelo Centro de Inteligência Emocional de Yale introduziu conceitos relacionados às emoções em 62 classes de crianças em sessões de meia hora por semana, durante dois anos (BRACKET et al., 2012). Depois, foram avaliados os desempenhos acadê- mico e social desses alunos em comparação aos que não trabalharam com esse vocabulário. Em ambos os domínios as crianças que participa- ram do programa apresentaram melhores resultados. Em outro estudo foi percebido que o aprendizado de palavras re- lacionadas aos diversos estados emocionais leva a um refinamento dos sentimentos. Em um dos experimentos com esse objetivo fo- ram avaliadas três abordagens distintas para tratar pessoas com aracnofobia (medo incontrolável de aranhas). A técnica que se mostrou mais eficaz e duradoura foi aquela que utilizou um repertório rico de sensações, levando as pessoas a identificarem e nomearem as diversas sensações fi- siológicas relacionadas ao medo (KIRCANSKI; LIEBER- MAN; CRASKE, 2012). Há pesquisas mostrando que aquelas sensações físicas relacionadas à ansiedade que antecedem uma prova, por exemplo, podem ser associadas a um estado de determinação (KASHDAN; BARRETT; MCKNIGHT, 2015). Isso acontece a partir da manifes- tação verbal desse sentimento. De acordo com as pes- quisas, essa mudança de associação leva a melhores resultados acadêmicos. 8888 Neuroeducação e estratégias de aprendizagemNeuroeducação e estratégias de aprendizagem Papel das emoções na aprendizagem 89 Isso significa que o desenvolvimento da inteligência emocional pode ir além da identificação das emoções. Em uma segunda etapa pode- mos dar uma nova interpretação às reações fisiológicas associadas às emoções que entendemos como negativas. Aquelas associadas à an- siedade, por exemplo, podemos renomear e chamar de determinação ou entusiasmo. Essa capacidadeque algumas pessoas têm de construir experiên- cias emocionais mais refinadas Barrett (2017) chama de granularidade emocional. A autora afirma que existem pessoas experts em emoções, construindo camadas capazes de se modelar para se encaixar em si- tuações específicas. Quando falamos de controle sobre as emoções, na verdade estamos falando de um processo bem mais complexo: não temos controle di- reto sobre os movimentos fisiológicos relacionados às emoções, mas podemos controlar aquilo o que associamos a elas, renomeando-as. E temos controle sobre as reações que derivam delas. Ao focarmos as ações, as respostas, estamos ensinando nosso cérebro a fazer predi- ções diferentes do futuro e, assim, a mudar a forma como nos senti- mos diante de determinadas situações. Conforme destacou Damásio (2018), tudo o que pensamos está associado a uma emoção ou, provavelmente, a um conjunto de emoções. Assim, a aprendizagem como um produto construído so- cialmente, dependente de interações sociais, tem nas emoções um componente básico. E da mesma forma que os pensamentos são influenciados pelas emoções, o contrário também é verdade: pode- mos mudar como nos sentimos se ativamente buscarmos uma mu- dança no padrão de pensamento. Trata-se de um processo que podemos chamar de top-down (de cima para baixo): movimenta-se das regiões corticais (top), sobre as quais temos mais controle, para as regiões subcorticais (down), mais inacessíveis à nossa consciência. Dessa forma, podemos entender que cognição e sentimentos operam por uma via de mão dupla, um influen- cia o outro – o que nos dá certo controle sobre a forma como responde- mos aos estímulos que provocam algum tipo de desconforto. 90 Neuroeducação e estratégias de aprendizagem Na identificação do desconforto devemos considerar que nem sempre emoções complexas e difíceis de nomear estão por trás do estresse. É comum confundirmos necessidades básicas com sen- timentos gerados por situações sociais, sem considerarmos que fatores como falta de sono podem colocar uma “lente de aumen- to” em situações até certo ponto desconfortáveis, tornando-as um obstáculo à aprendizagem. Por isso, quando os alunos estiverem estressados, ensiná-los a prestar atenção nas alterações físicas é uma forma simples de co- locá-los em contato com os sentimentos e o próprio corpo, dando a eles uma ferramenta importante da autorregulação emocional. Focar os movimentos, como batimentos cardíacos, suor, sensações no estômago e dor de barriga, ajuda-nos a identificarmos necessi- dades fisiológicas que podem estar por trás de reações de estresse. Muitas vezes, um desequilíbrio emocional pode ser desencadeado por sono, sede, fome ou cansaço. 4.3 A disciplina na regulação das emoções Vídeo Psicólogos da Universidade da Pensilvânia (DUCKWORTH; SELIGMAN, 2005) avaliaram a autodisciplina em pré-adolescentes no decorrer de um ano, por meio de questionários dirigidos aos pais, aos professores e aos próprios alunos e de testes que envolve- ram recompensa tardia (como receber um dólar agora ou dois dó- lares em uma semana). O estudo revelou que os mais disciplinados apresentaram maior frequência acadêmica, melhores notas e mais chances de se engajarem em atividades competitivas, o que levou os pesquisadores a concluírem que a autodisciplina é um fator mais importante do que o QI para uma vida bem-sucedida. Ao exercitarmos em crianças e adolescentes as funções executivas, por meio de jogos, brincadeiras, esportes, artes e atividades sociais, es- tamos fortalecendo o córtex pré-frontal ou, em outras palavras, crian- do mais conexões na área que os permite desenvolver autodisciplina. Papel das emoções na aprendizagem 91 Mas o que seria autodisciplina? Antes de conti- nuar a leitura, que tal formular uma definição para essa capacidade? Autodisciplina é m en ta lm in d/ Sh ut te rs to ck A palavra disciplina – e principalmente o verbo derivado dela, discipli- nar – é normalmente associada à obediência e à autoridade, mas não é disso que estamos tratando. Disciplinar-se é manter um compromisso e, quando falamos de autodisciplina, um compromisso consigo mesmo. Exercitar a disciplina é, acima de tudo, exercitarmos o autocontrole, ou seja, o controle dos impulsos movidos por emoções. Significa colocar- mos a ação planejada acima dos desejos e das emoções que surgem pelo caminho e deixarmos com que o fazer comande as emoções – e não o contrário. Disciplina é o que nos permite focar uma tarefa até que ela seja concluída, apesar da vontade de ceder às distrações, esfor- çando-se agora para ser recompensado depois. Sendo assim, podemos definir autodisciplina como a capacidade de planejarmos e executarmos ações que não necessariamente trazem re- compensa momentânea, mas que nos beneficiarão no futuro. E por que isso é tão difícil? Porque o sistema de recompensa do cérebro, que nos dá motivação e energia, é movido especialmente por novidades. Isso pode se tornar um desafio na educação, pois, para do- minar uma habilidade são necessárias prática e repetição constantes – que geralmente é o contrário de novidade. 92 Neuroeducação e estratégias de aprendizagem Esse dilema pode ser resolvido de uma forma planejada, combi- nando uma rotina com horários predeterminados com alguns mo- mentos reservados para atividades novas, surpresas e ações que fujam da rotina. Afinal, aprendizagem não é apenas emoção, é também esforço – e todo esforço exige disciplina. O famoso córtex pré-frontal é o responsável pela autorregulação e nos permite abdicar de prazeres momentâneos para focar atividades que requerem esforço. Os objetivos e a motivação inicial incitada pelo novo aprendizado podem servir como um propulsor para o engajamento, mas é a disci- plina que o manterá. É o fazer planejado, estando ou não com vontade, que automatizará conhecimentos importantes e garantirá o real domí- nio de habilidades. Uma das formas de evitarmos a evasão de tarefas que exigem con- centração depois que perdemos a atratividade do novo, portanto, é transformá-las em hábito, ou seja, reservando dias, horários e locais para cada atividade. Para crianças, o exercício da disciplina vem da ro- tina, do dia a dia com horários preestabelecidos para as atividades im- portantes, sem espaço para negociações e, consequentemente, birras e frustrações. Criar uma rotina com os alunos ajuda-os a fazer as tare- fas mantendo o comprometimento, sem questionar ou procrastinar, mesmo que não estejam com vontade. Por outro lado, um dia a dia muito caótico, que tem como base – e não como exceção – o inespera- do e o não planejado, gera ansiedade e abre espaço para uma desorga- nização emocional prejudicial para a aprendizagem e a produtividade. Os benefícios emocionais e cognitivos de se ter uma rotina na infância são carregados ao longo da vida. Em um estudo envolvendo 292 parti- cipantes, pesquisadores da Universidade de Albany (Nova York) investi- garam a relação entre o cumprimento de uma rotina na infância – com horários preestabelecidos para atividades do dia a dia – e a capacidade de gerenciar o tempo e a atenção na idade adulta (MALATRAS et al., 2016). Os autores concluíram que a regularidade das tarefas diárias na infância, como atividades acadêmicas, extracurriculares e sociais, além de sono, refeições e lazer, está relacionada positivamente à capacidade de organização do tempo no futuro e, consequentemente, ao controle sobre a atenção. Os pesquisadores também atestaram que a estabili- dade familiar provinda de uma rotina preestabelecida está relacionada à estabilidade emocional e maior autocontrole. A disciplina e a ação podem ser consideradas dois grandes pilares da fi- losofia oriental, nos quais podemos nos basear para alcançarmos eficiência na educação e na formação de caráter de crianças e adolescentes. Discipli- nar-se é construir bons hábitos – aqueles cujos resultados geralmente colhemos no futuro. Saiba mais Papel das emoções na aprendizagem 93 Opsicoterapeuta David Reynolds, autor de diversos livros sobre psi- cologia japonesa, ensina-nos na obra Viver construtivo, de 1984, que tanto rotina quanto variedades são importantes, mas, como as pessoas costu- mam ser naturalmente atraídas pela variedade, mudanças e dispersão, precisamos falar mais do papel dos hábitos na superação da tendên- cia humana de sermos controlados pelos sentimentos. A construção de uma rotina sólida, portanto, é um componente básico na formação da estabilidade emocional, fundamental para a aprendizagem. Tal como expõe Reynolds (1984), a variedade é atraente, mas nem por isso deve ser evitada – apenas não pode ser a base do dia a dia. Pode parecer contraintuitivo, mas a rotina e toda a organização espacial, temporal e emocional que deriva dela nos abre mais possibilidades para a criatividade. Isso porque, ao seguirmos uma rotina disciplinadamente, livramos a mente de pequenas, porém dispendiosas, decisões envolven- do as situações do dia a dia. As tarefas realizadas de maneira sistemática, sem consultarmos nossas vontades e emoções para realizá-las, são mais econômicas em termos de esforço e energia mental. Dessa forma, essa energia pode ser direcionada a novidades e a atividades mais criativas. O filósofo William James (1890), em Princípios da Psicologia, dedicou um capítulo à reflexão sobre a construção de hábitos e o envolvimento do cons- ciente e inconsciente nesse processo. Para ele, os hábitos consistem em uma utilização padrão de energia que nos permite, em situações imprevis- tas, mais concentração e maior gasto energético. Ele destacou que hábitos nos livram da tomada de decisões, tarefa extremamente dispendiosa que, quando realizada em excesso, provoca estresse emocional. “Hábitos sim- plificam os movimentos necessários para alcançarmos um determinado resultado, deixa-os mais precisos e diminui a fatiga” (JAMES, 1890, p. 155). E a fadiga mental, como destaca o neurocientista Levitin em Mente organizada (2015), leva a más decisões fundamentadas no impulso, e não na razão. Assim como depende da alternância entre a atenção concentrada e a mais dispersa, a aprendizagem se beneficia da alternância entre o novo e o costumeiro, a rotina e o inesperado. Estruturas subcorticais, localizadas próximo ao tronco cerebral – co- nhecidas como gânglios basais –, interconectadas com diversas áreas do cérebro, têm função fundamental na automatização das atividades do dia a dia, o que chamamos de hábito. Elas estão envolvidas no con- trole de movimentos e ações automáticas e na expressão das emoções. In G re en /S hu tte rs to ck 4.4 Como estimular o esforço e a resiliência Vídeo Observar bebês brincando nos ajuda a entender como o cérebro aprende. Eles caem, levantam-se e continuam caindo até dominarem a habilidade de andar; eles tentam, erram e tentam novamente até des- cobrirem como encaixar ou empilhar uma série de peças. E quando conseguem o que querem, largam o brinquedo e procuram mais um desafio. Motivados pelo prazer da descoberta, eles não apenas não têm medo de errar, como sabem que acertar sempre não tem graça. Perdemos essa coragem que faz dos bebês mestres da exploração e da aprendizagem quando nos ensinam que erros devem ser evita- dos e acertos devem ser aclamados e a associar erros ao fracasso e à vergonha. São os erros que nos fazem reforçar e aprimorar as melhores ro- tas na construção contínua do nosso mapa mental que representa o mundo. Afinal, aprendizagem pode ser resumida como um erro de pre- visão. Ao percebermos que nossa previsão estava errada é que ganha- mos informações para reajustar nosso modelo mental. O conceito que cada um constrói de inteligência é moldado pela for- ma como aprende a associar os erros à coragem ou ao fracasso. Aqueles que aprendem a associar o erro a sentimentos negativos formam um conceito mais rígido de inteligência, o que acaba refletido na sua ca- pacidade de aprendizagem e resiliência. Foi o que con- cluiu a pesquisadora em psicologia da Universidade de Stanford, Carol Dweck (1999). Em pesquisas que se tornaram referências no campo da psicologia educa- cional, ela separou as pessoas em duas categorias, com base na forma como lidavam e enxergavam os erros: as que tinham mentalidade flexível, e as de mentalidade rígida. Essa divisão foi o fio condutor de uma série de estudos que ela realizou ao longo de anos – muitos replicados por outros pesquisadores – e que a leva- ram à conclusão de que pessoas que acreditam que talentos são desenvolvidos, e não inatos, alcançam me- lhores resultados do que o grupo que tem uma visão mais 9494 Neuroeducação e estratégias de aprendizagemNeuroeducação e estratégias de aprendizagem Papel das emoções na aprendizagem 95 rígida de inteligência. Os primeiros enxergam erros como oportunida- des para a aprendizagem, e os segundos os veem como problemas. Em suas pesquisas, Dweck (1999) demonstrou que, ao se engaja- rem em tarefas com alta probabilidade de erros, o cérebro de pessoas com perfil mais flexível de mindset aloca a atenção às falhas, intensi- ficando a atividade neural em determinadas áreas relacionadas ao automonitoramento cognitivo. Como consequência disso, elas se es- forçam mais e alcançam melhor desempenho nas tarefas avaliativas, quando reaplicadas, em relação àqueles que têm medo de erros. E o que faz com que muitos desenvolvam essa relação pouco produtiva com os erros? Ninguém nasce com medo de errar ou jamais desenvolveria todas as habilidades adquiridas nos anos iniciais da vida, frutos de esforço e resiliência. Mas crianças são observadoras e tendem a imitar o comporta- mento de adultos. São pais e professores que as ensinam que bom é acer- tar e que notas boas são o objetivo máximo da educação. Crianças aprendem mais em ambientes em que o erro é não apenas aceito, como também encorajado. E os resultados são sempre positivos quando se sentem livres para tentar e errar à vontade, pois passam a arriscar e a buscar desafios. Como consequência, aprendem mais e se tornam mais resilientes frente às dificuldades (BOALER et al., 2021). A professora de psicologia da Universidade Stanford é um dos nomes mais referenciados da área de motivação. Seu livro Mind- set: A Nova Psicologia do Sucesso resume pesquisas que ela e seus colegas realizaram ao longo de décadas, revelando verda- des fundamentais sobre os conceitos de inteligên- cia, esforço e a relação de cada tipo de mentalidade com o sucesso. DWECK, C. Rio de Janeiro: Objetiva, 2017. Livro 4.5 Erros como estratégia de aprendizagem Vídeo Como deve ser um ambiente de aprendizagem encorajador, que estimula o esforço e constrói resiliência? m en ta lm in d/ Sh ut te rs to ck 96 Neuroeducação e estratégias de aprendizagem Há várias formas de fazermos isso, a começar por tornarmos os testes corriqueiros. Não à toa a avaliação do conhecimento, que pode ser feita por meio de diversas estratégias, é considerada a mais eficaz ferramenta de estudo e aprendizagem, pois promove erros e coloca os estudantes em contato com o que realmente sabem em contraponto ao que esqueceram ou não compreenderam. O importante é criarmos um ambiente em que os testes sejam vistos pelos alunos como parte essencial da aprendizagem, e jamais temidos e evitados. Além disso, devem ser vistos como ferramentas que auxi- liam o direcionamento das aulas, e jamais como formas de punição. Os testes podem servir como ferramentas autoavaliativas, não sendo necessário que sejam corrigidos pelo professor. Nesse caso, os próprios alunos podem revisar suas respostas, de preferência não no mesmo dia do teste. Isso é uma forma de tornarmos o erro algo nor- mal, que ajuda na aprendizagem. A eficácia das práticas de avaliação vem sendo estudada há mais de cem anos, sendo o primeiro grande estudo a respeito publicado em 1917 por Arthur Gates. A conclusão foi de que as crianças que dedicaram parte do tempo de aprendizagem testando seus conhecimentos sobreo material obtiveram maior retenção do que as que revisaram as informações apenas as relendo. Um dos estudos mais citados sobre o assunto mostrou que as informa- ções colocadas em teste após a aprendizagem são muito mais facilmente recordadas do que aquelas que são apenas relidas (ROEGINGER; KARPICKE, 2006). Uma semana depois de lerem a passagem de um texto, os estudantes testados apresentaram cerca de 50% mais de retenção das informações. Um dos autores do estudo, Henry Roedinger (2014), em um artigo pu- blicado em 2014 no The New York Times, destaca que testes servem não apenas para mensurar, como também para promover a aprendizagem. Devemos mudar a forma como pensamos sobre os testes. Eles não deveriam ser o temido final de um trabalho semestral, mas o meio com o qual os estudantes progridem do início ao fim de um período acadêmico, retendo a aprendizagem ao longo do ca- minho e redirecionando seus esforços às áreas mais fracas para ganharem proficiência. (ROEDINGER, 2014) 1 We need to change the way we think about testing. It shouldn’t be a white-knuckle finale to a semester’s work, but the means by which students progress from the start of a semester to its finish, locking in learning along the way and redirecting their effort to areas of weakness where more work is needed to achieve proficiency. 1 Papel das emoções na aprendizagem 97 Eis, a seguir, algumas formas de como educadores podem transformar o erro em estratégia, fundamentadas nas pesquisas dos autores citados. Figura 1 Como transformar o erro em estratégia Faça perguntas constantemente e elogie todas as tentativas de respostas. Elogie os erros tanto quanto os acertos. Não faça cara triste nas tentativas erradas dos alunos. Sorria e encoraje mais tentativas, lembrando a criança ou o adolescente que o erro faz o cérebro crescer. Estimule de todas as formas possíveis a formação de perguntas e elogie todas elas, mesmo as que estejam fora de contexto. Se não puder responder na hora, anote e diga que responderá depois. Todas devem ser levadas a sério pelos educadores. Promova formas de fazer perguntas, como entrevistas entre alunos e convidados, ao invés de terminar a explicação com “alguma dúvida?”. Peça para fazerem perguntas sobre algum as- sunto antes – e não depois – de explicá-lo. Faça perguntas instigantes antes, durante e depois das explicações. Nunca dê a resposta antes de fazer os alunos pensarem e tentarem e não apresente uma informação an- tes de fazer com que eles pensem a respeito. Todo conteúdo deve ser elencado por uma boa pergunta. Dê um tempo para os alunos discutirem entre si sobre o problema em grupos ou duplas antes de mostrar como se faz. Tire o foco das soluções e apresente também erros comuns dentro de cada área do conhecimento sem jamais dar risada do erro. Faça os alunos descobri- rem onde está o erro, compare-os com as formas corretas. Fale dos erros de maneira natural, mostrando que são comuns e importantes passos para chegarem a uma solução. Elogie o esforço dos alunos, e não a inteli- gência. Dweck (1999) demonstrou que alu- nos elogiados pelo esforço são mais pro- pensos a se esforçarem e obtêm melhores resultados do que os colegas elogiados pela inteligência. Fale de seus próprios erros. Jamais passe a impressão de que adultos e professores não erram. Diga de modo natural “eu não sei” quando não souber de alguma resposta. Elogie a pergunta e diga que pesquisará. Pesquise, em ciências, os erros dos inventores e mostre o quanto foram importantes para eles chegarem a grandes descobertas. Utilize frases inspiradoras na sala de aula relacionadas ao esforço e ao erro. Promova testes com frequência, mesmo sem considerar notas. Eles podem estar no meio dos textos, ser orais, escritos, em grupos, individuais, em papel ou por programas inte- rativos, formais ou de surpresa. Devem ser integrados às aulas, e não promovidos apenas ao final do bimestre ou trimestre. Phaigraphic/Shutterstock Fonte: Elaborada pela autora com base em Roeginger; Karpicke, 2006. 98 Neuroeducação e estratégias de aprendizagem Não à toa o feedback do erro foi considerado – juntamente com a consolidação, a atenção e o engajamento – um dos quatro pilares da aprendizagem pelo neurocientista francês Stanislas Dehaene, autor do livro É assim que aprendemos (2022). Uma vez que o erro é a discrepân- cia entre a antecipação que o cérebro faz e a realidade, esse feedback nos permite ajustar as expectativas em um constante aprimoramen- to do nosso modelo mental. Quando recebido com confiança e sem medo, o erro é extremamente benéfico para a aprendizagem. 4.6 Como e por que criar motivação Vídeo Sabemos que quanto maior for a carga emocional, mais nosso cére- bro considerará a informação importante e mais provavelmente ela fi- cará armazenada para ser utilizada no futuro. Não há como aplicarmos esse conhecimento na educação sem falarmos de motivação. A motivação libera no cérebro uma combinação de neurotransmis- sores, como acetilcolina e dopamina, que nos permitem sustentar a atenção e consolidar a informação mais facilmente. Essa combinação química, essencial para que o cérebro fique receptivo à mudança, está correlacionada a três motivadores que costumam ser negligenciados pela educação formal, em especial nos níveis mais avançados quando o objetivo das escolas passa a ser dar conta do conteúdo. São eles: a curiosidade, a necessidade e a socialização – fatores diretamente liga- dos ao nosso instinto básico de sobrevivência como parte de um grupo do qual dependemos para nos desenvolvermos. A motivação, geralmente obtida por uma dessas vias, é o que faz a aprendizagem acontecer, enquanto a disciplina a mantém em movi- mento. A combinação desses dois elementos garante uma aprendiza- gem contínua e consolidada. A curiosidade guia todo o nosso processo de aprendizagem e pode ser considerada um instinto tão básico quanto fome e sono. Nascemos exploradores e é essa característica que nos impulsiona a continuar aprendendo ao longo da vida, apesar do alto custo energético que isso demanda. Muito mais do que entregar informações, estimular a curio- sidade pode ser considerado o papel mais importante do educador. Afinal, dessa forma ele está ensinando a aprender e a buscar informa- ções com autonomia ao longo de toda a vida. Papel das emoções na aprendizagem 99 Mais próximas ao processo natural de aprendizagem, as metodo- logias ativas aproveitam o potencial do cérebro engajado e motivado. Na educação ativa, o educador não deve trocar de papel com os alunos e nem deve esperar que eles aprendam sozinhos. Ele tem a função de instigar o interesse e levar para o ambiente acadêmico a oportunidade de os alunos colaborarem entre si ao buscarem as respostas e – ainda mais importante – ao levantarem perguntas. As perguntas são a fonte inesgotável do nosso combustível natural, que é a curiosidade. Um dos conceitos mais importantes na obra de Vygotsky (1998) re- presenta essa realidade, abordando o papel do educador como media- dor, e não apenas transmissor de informações. É o que ele chamou de zona de desenvolvimento proximal (ZDP) – aquele espaço entre o que a criança consegue aprender sozinha e aquilo que ela só pode aprender com a assistência de um mediador. Figura 2 ZDP O que consigo fazer O q ue co nsigo fazer com ajuda O que não consigo fazer ZDP Fonte: Elaborada pela autora. A ZPD, dessa forma, é um desafio que pode ser cumprido com al- gum auxílio. Um dos principais papéis do mediador, ao tirar a criança da zona de conforto, é estimular o esforço na aprendizagem, desafian- do e guiando até a etapa seguinte em um nível de dificuldade um pou- co acima do confortável. 100 Neuroeducação e estratégias de aprendizagem Fatores extrínsecos e intrínsecos Somos fundamentalmente sociais e mesmo o mais antissocial dos seres humanos nasceu e se desenvolveu dependendo de vínculos e com a necessidade depertencer e ser aceito pelo grupo. Não à toa é nos outros que encontramos motivação – ao menos aquela que inicial- mente nos impulsiona a despender uma boa parte dos recursos ener- géticos na aprendizagem e no aprimoramento de habilidades. Essa motivação deriva de fatores que chamamos de extrínsecos, ou seja, interpessoais (um estudante é levado a participar de um projeto para ensinar, participar, impressionar, agradar – ou não decepcionar – os outros). No entanto, esses objetivos tendem a se transformar no que chamamos de intrínsecos, aqueles guiados pelo prazer que a ação por si só promove. Para isso é importante termos consciência de que o empurrão inicial pode partir de fora, mas é a autodisciplina que nos manterá engajados na atividade até que ela se transforme em um há- bito e o próprio fazer passe a nos trazer gratificação. Por exemplo, começamos a estudar uma língua por motivos profis- sionais ou para uma viagem. Entretanto, com disciplina transformamos o estudo da língua em um hábito e começamos a encontrar prazer no saber, independentemente de quando e em qual situação colocare- mos o conhecimento em prática. Segundo a psicóloga educadora Jeanne Ellis Ormrod (2019), nos pri- meiros anos do Ensino Fundamental as crianças tendem a ser movidas pelo entusiasmo e pela curiosidade, que podem ser considerados objeti- vos intrínsecos. À medida que crescem, objetivos extrínsecos tornam-se os principais motivadores e elas passam a buscar mais a aprovação de pais e professores, voltando-se aos resultados de avaliações, por exemplo. Quanto mais peso o sistema educacional atribui à absorção de uma grande quantidade de conteúdo e às notas de provas escritas, mais gera competição e distancia os alunos dos objetivos intrínsecos, que os fazem aprender por gostar de aprender. Conforme Ormrod (2019), aqueles que tendem a alcançar resultados acadêmicos melhores e mais consistentes são os que conseguem combinar os objetivos extrínsecos e intrínsecos. Com base na análise de uma série de pesquisas, ela concluiu que a motivação é um elemento fundamental para a aprendizagem, pois au- menta o esforço e a energia empregadas na tarefa, além da persistência Papel das emoções na aprendizagem 101 e do tempo dedicado à realização de uma atividade; aumenta a capaci- dade de prestar atenção; direciona o comportamento a objetivos parti- culares; e melhora o desempenho acadêmico de uma forma geral. Motivação na prática Com base nos estudos sobre o papel das emoções e da moti- vação na aprendizagem, podemos listar, a seguir, algumas formas práticas de motivarmos os alunos: • Fazer uma lista de perguntas relacionadas ao tema que ministrare- mos e incentivarmos os alunos a fazerem o mesmo. A aprendizagem imediatamente ficará mais significativa, pois ganhará um novo ob- jetivo: a busca por respostas – mesmo que não sejam encontradas, afinal as melhores perguntas são aquelas sem respostas definitivas. • Não apresentar o conteúdo sem antes instigarmos os alunos e fazê-los trocar ideias. Nosso papel principal não é informar, mas formar: pessoas curiosas, investigadoras, autônomas. • Transformar a busca da aplicabilidade do conhecimento em um dos objetivos de nossas aulas partindo da pergunta: como isso pode estar presente na vida do aluno? A aplicabilidade de um conhecimento é motivadora. Saber só por saber ou porque te- mos que aprender não é suficiente para que nosso cérebro invista energia na aprendizagem. Em todas as aulas buscarmos apresen- tar exemplos próximos à realidade dos alunos e problemas com elementos e situações com as quais eles possam se identificar. • Ao trabalharmos com livros, incentivar os alunos a buscarem lições para a vida e a relacionarem histórias, personagens e sentimentos com a própria vida. Esses objetivos devem ser apresentados an- tes, não depois da leitura. • Relacionar o novo conhecimento a outros, fazendo-os entender que todos os conhecimentos, de uma forma ou de outra, podem se re- lacionar, contrapor-se ou se complementar. A curiosidade surge da interdisciplinaridade. Encontrar os pontos de intersecção entre as- suntos e promover projetos interdisciplinares é uma forma de inci- tarmos curiosidade e tornarmos a aprendizagem mais significativa. • Buscar formas de aplicar conhecimentos de várias áreas em pro- jetos individuais, em dupla ou em grupo. Aprender para poder ensinar e mostrar aos outros é muito motivador. Imaginemos 102 Neuroeducação e estratégias de aprendizagem um garoto de 12 anos tendo que escrever uma redação opinativa para a escola seguindo uma série de regras gramaticais, estilísti- cas e de coerência. Agora imaginemos esse mesmo garoto crian- do um canal no YouTube em que mostra algumas de suas ideias. Para isso, ele precisa escrever e narrar seus textos e deixá-los o mais claro possível para ter sucesso na comunicação. Quando a aprendizagem tem um propósito, ganhamos um extra de energia, permitindo-nos aprender com menos esforço e de modo mais eficaz, pois a atenção e a memória são naturalmente potencializadas. CONSIDERAÇÕES FINAIS Foram necessárias décadas de pesquisas em neurociências para consta- tarmos que emoção e razão não são domínios distantes e separados, sendo o segundo domínio mais associado à educação do que o primeiro. Pelo con- trário, emoções não apenas são evocadas pelo pensamento, como são parte indissociável dele: tudo o que aprendemos e que, portanto, faz parte do nos- so domínio cognitivo envolveu nossa capacidade de julgar como agradável ou desagradável, essencial ou perigoso, feio ou belo – julgamentos impossíveis de serem feitos sem algum nível de envolvimento emocional. Não existe aprendizagem sem emoção, e quanto maior for o compo- nente emocional envolvido, maior será o nível de atenção e de retenção. Logicamente, diante de situações que representam perigo, esse compo- nente emocional nos coloca em estado de luta ou fuga, em que a sobre- vivência naquele momento é o que importa; um estado nada propício à aprendizagem e vivenciado em períodos de estresse. Por outro lado, quando somos movidos por emoções positivas, nosso cé- rebro potencializa nossas capacidades diante de algo que, por estarmos en- volvidos, entendemos como importante e que representa uma oportunidade. Por isso, é necessário um ambiente em que a aprendizagem flui e que seja motivador, desafiador e seguro para que possamos tentar e errar à vontade. ATIVIDADES Atividade 1 Para que existem as emoções? Papel das emoções na aprendizagem 103 Atividade 2 O que difere, de maneira básica, organismos simples daqueles com sistema nervoso no que diz respeito a respostas a estímulos? Atividade 3 Explique a afirmação: a aprendizagem depende dos sentimentos. Atividade 4 Qual a diferença entre emoção e sentimento? Atividade 5 Explique a afirmação: as emoções são construídas com base no meio social. Atividade 6 Explique a relação entre bom gerenciamento emocional da infân- cia e a aprendizagem. Atividade 7 Por que testes devem ser promovidos com frequência? 104 Neuroeducação e estratégias de aprendizagem REFERÊNCIAS BARRETT, L. How emotions are made: the secret life of the brain. Boston: Mariner Books, 2017. BOALER, J. et al. 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Com o estudo deste capítulo, você será capaz de: • entender como o cérebro constrói sentido ao que é aprendido; • compreender como ocorre a aprendizagem de conceitos abstratos; • conhecer o que está por trás das dificuldades na compreensão da linguagem; • conhecer as estratégias de ensino que ajudam a compreensão dos conceitos. Objetivos de aprendizagem 5.1 Como as informações ganham sentido? Vídeo Em geral, as informações que encontramos não precisam vir “mastigadas”. A partir de algumas pistas, o cérebro faz suposições, quase sempre corretas. Quase todos somos, de modo geral, bons entendedores: meia palavra basta. As informações não são guardadas exatamente como foram en- tregues, mas em forma de conceitos. Isso significa dizer que se você pensar em um carro de determinada marca ativará o mesmo circuito de neurônios que se imaginar outro carro de marca diferente. Assim, o que está guardado é o conceito de carro, não os detalhes. Os conceitos – ideias que construímos de elementos concretos e abstra- tos a partir de uma série de associações de palavras – são sempre recons- truídos de maneiras diferentes a cada vez que precisamos acessá-los. Por isso, se nossa memória pudesse ser transmitida como um filme, ela entre- garia um filme diferente cada vez que a ele assistíssemos, com cenas pouco nítidas, cenários variáveis, ordem trocada e diálogos acrescidos ou editados. Um critério que o cérebro leva em conta na hora de escolher o con- ceito que vai guardar na memória ou jogar fora é se a informação faz sentido. Ou seja, precisa haver algum tipo de compreensão – mesmo que seja uma compreensão errada, que pode ser revista mais tarde. Dificilmente você guardará uma palavra sem antes saber o que ela sig- nifica, sem dar a ela algum sentido. O que é fazer sentido? Parece fácil de entender o que significa isso, mas você consegue explicar? Antes de prosseguir, vamos fazer um exercício. Complete a frase a seguir:Ao aprender uma informação nova, percebo que ela faz sentido quando m en ta lm in d/ Sh ut te rs to ck Será que faz sentido quando a informação confirma algo que você já sabia? Se for assim, você está apenas reforçando conhecimentos ou crenças, mas não está aprendendo, pois a aprendizagem requer, necessa- riamente, mudança. Faz sentido quando essa informa- ção vem para complementar ou corrigir algo que você já sabia? De certa forma, sim. m et am or wo rk s/ Sh ut te rs to ck m et am or wo rk s/ Sh ut te rs to ck 106106 Neuroeducação e estratégias de aprendizagemNeuroeducação e estratégias de aprendizagem Compreensão e construção de sentido 107 Para que uma informação faça sentido, ela precisa estar conectada a outras informações, como um mapa ou um modelo mental que vamos construindo do mundo e que vai se ampliando e se modificando à medi- da que aprendemos. Lembre-se de que a aprendizagem é formação de conexões, ou seja, neurônios que se ativam juntos e se conectam. Compreender isso é entender como funciona a aprendizagem, bem como nosso processo de memorização. Todo conhecimento novo deve ser associado a outro já consolidado para que faça sentido e, assim, haja a aprendizagem e a retenção da informação. Como exemplo, podemos citar pessoas poliglotas, que costumam alegar que a aprendizagem de um novo idioma vai ficando cada vez mais fácil. Por possuírem um repertório tão grande, elas têm muito mais possibilidades de associar novas palavras a outras que já sabem de algum outro idioma. Quanto mais sabemos, mais facilmente asso- ciamos e conseguimos reter novos conhecimentos. 5.1.1. A construção de sentido no cérebro Muito se especulou sobre a existência de uma linguagem men- tal, constituída de uma simbologia abstrata e livre das ambiguidades características da linguagem verbal. Hoje a teoria mais aceita é a de que a linguagem ganha sentido a partir das experiências reais e das percepções físicas propiciadas pela interação com o mundo. Chama- mos esse processo de cognição corporizada (embodied cognition). Para entender como essa aprendizagem funciona, podemos pensar na mente como uma máquina de simulação, capaz de simular imagens sem estarmos vendo, sons sem estarmos ouvindo e até gostos. Durante o sono a mente reproduz ações praticadas durante o dia. Com base nesse mesmo princípio, ao escutar uma frase, o cérebro si- mula uma situação, ativando, de modo mais leve, regiões relacionadas ao movimento e à percepção, sempre partindo de nossa experiência subjetiva. Isso quer dizer que áreas dedicadas ao processamento sensorial e motor são ativadas durante atividades relacionadas à linguagem. Assim, a área do cérebro responsável pelos movimentos é acionada quando o pensamento envolve movimento, ou quando imaginamos uma textura, um som, uma cor etc. As simulações mentais ocorrem geralmente de forma inconsciente ao lermos ou escutarmos informações verbais, mas O livro Imagem e conceito traz 50 conceitos ilustrados em cartas, representando sentimentos e comporta- mentos complexos geral- mente difíceis de explicar, além de outros conceitos abstratos encontrados com frequência em textos. As cartas podem ser usadas em jogos de associação, escrita ou atividades orais e têm por finalidade facilitara formação de associações mentais a partir da repre- sentação visual, por vezes metafórica, dos conceitos trabalhados. MÜLLER, M. São Paulo: Matrix, 2019. Livro 108 Neuroeducação e estratégias de aprendizagem podem acontecer de forma intencional – como quando utilizamos técnicas de memorização ou imaginamos algo que não existe. A neurociência constatou que as áreas dedicadas ao processamen- to sensorial são ativadas durante atividades relacionadas à linguagem. Assim, a divisão entre pensamento e percepções físicas não é tão de- finida (GLENBERG; KASCHAK, 2002; PECHER; ZEELENBERG; BARSALOU, 2003; ZWAAN; STANFIELD; YAXLEY, 2002). Até recentemente, muitos teóricos defendiam que o pensamento e a percepção sensorial ocorriam separadamente, envolvendo circuitos neurológicos distintos. No entanto, hoje temos constatações de que o pensamento depende de uma ativação orquestrada do lobo frontal e do sistema sensorial, permitindo ao cérebro a simulação de situações que estão sendo narradas. Ou seja, a divisão entre pensamento e per- cepções físicas não é tão definida. No entanto, nem todos os elementos presentes em nosso vocabulá- rio podem ser associados a movimentos, texturas ou volume. A lingua- gem verbal é composta de uma infinidade de palavras que nomeiam situações e conceitos difíceis de serem representados mentalmente (ao menos de uma forma consciente) . Apenas recentemente a neuro- ciência vem conseguindo desvendar o desafio de como ocorre a repre- sentação mental da linguagem abstrata. A que o cérebro associa palavras como sociedade, compaixão, reci- procidade, injustiça ou humildade e como dá a elas o complexo signifi- cado que trazem? Vamos tentar responder a essa questão usando uma história incrível como exemplo. A linguagem que nasceu do toque Antes de fazer dois anos, quando estava começando a pronunciar as primeiras palavras, Helen Keller, nascida em 1880, contraiu uma doença que a fez perder a visão e a audição. Aos sete anos, a família contra- tou uma tutora para ensinar à menina o que era possível. Inspirada pela própria baixa visão, Anne Sullivan conseguiu o que parecia um milagre: ensinou a garotinha a ler e a escrever unicamente a partir do toque, asso- ciando palavras escritas na mão da criança aos elementos que ela sentia. Água e outras coisas palpáveis podiam ser sentidas para que hou- vesse associação com o mundo concreto. A pergunta é: como, então, a O livro Questões de compreensão de texto consiste em uma série de cartas com propostas de atividades orais e escritas para serem usadas após a leitura de qualquer tipo de texto. Podem ser sorteadas entre os alunos ou organizadas de acordo com as habilidades que exercitam – como síntese, visualização, inferência, vocabulário e outras capa- cidades fundamentais para a formação de leitores. Podem também ser usadas para identificar falhas na compreensão de textos. MÜLLER, M. São Paulo: Matrix, 2019. Livro Compreensão e construção de sentido 109 menina aprendeu abstrações? O primeiro contato de Keller com pala- vras abstratas surgiu quando a tutora soletrou em sua testa a palavra pense, em um momento em que a menina estava querendo desistir de uma operação matemática com continhas no chão. Naquele instante, teve o insight que lhe faltava: percebeu que a linguagem era muito mais complexa que imaginava e que poderia se expressar muito melhor ao conhecer essas abstrações. Muito antes da neurociência nos mostrar que a abstração também se constrói a partir do mundo concreto e sensorial, a professora intuiti- vamente sabia que era esse o caminho para ensinar à menina: foi com o tato, associando elementos concretos aos conceitos abstratos, que ela conheceu as granularidades dos próprios sentimentos, as sutilezas e am- biguidades da língua, os conceitos mais difíceis de serem representados. O desafio de imaginar a partir do tato tornou Keller e sua tutora conscientes de um processo que acontece de modo inconsciente para muitos de nós: aprendemos com o corpo e damos formas aos mais abstratos dos pensamentos. Em outras palavras, podemos dizer que nosso pensamento é metafórico. David J. Peterson tem uma profissão um tanto incomum: é criador de línguas – as chamadas conlang. Criou, entre outras, a língua utilizada na série Game of Thrones e no filme Thor. Na pales- tra Por que a linguagem é a maior invenção da humanidade?, ele nos mostra o quanto inven- tar, estudar e preservar línguas ajuda a com- preender a humanidade. Disponível em: https://www. ted.com/talks/david_peterson_ why_language_is_humanity_s_ greatest_invention?language=pt. Acesso em: 30 dez. 2022. Vídeo 5.2 Aprendizagem de conceitos Vídeo Em meados da década de 1970, quase cem anos depois do nas- cimento de Helen Keller, o linguista George Lakoff, da Universidade de Berkeley, em uma conversa com uma amiga que passou por um término de relacionamento, observou que para descrever o fato ela usou vários tipos de metáforas, como rua sem saída. Assim, Lakoff elaborou uma das mais influentes teorias envolvendo a linguagem: são as metáforas que tornam a linguagem metafórica compreensível ao promover associações entre os conceitos abstratos e as sensações básicas do corpo. Por exemplo, para entendermos o conceito de carinho, ativamos um circuito que, de modo inconsciente, associa a palavra à sensação de conforto, que, por sua vez, relaciona-se à sensação de calor. Sendo assim, pensamento é metafórico, isto é, relaciona o abstrato ao con- creto – quase sempre inconscientemente. As metáforas não são uma questão de escolha das palavras ou um recurso sofisticado da lingua- gem, mas a maneira como o cérebro constrói sentido às abstrações. https://www.ted.com/talks/david_peterson_why_language_is_humanity_s_greatest_invention?language=pt https://www.ted.com/talks/david_peterson_why_language_is_humanity_s_greatest_invention?language=pt https://www.ted.com/talks/david_peterson_why_language_is_humanity_s_greatest_invention?language=pt https://www.ted.com/talks/david_peterson_why_language_is_humanity_s_greatest_invention?language=pt 110 Neuroeducação e estratégias de aprendizagem Em Metáforas da vida cotidiana, Lakoff (2002) destaca que a metáfo- ra é geralmente ensinada de modo que parece distante da realidade, quando na verdade é a única forma de entendê-la. Por esse motivo está presente em tantas expressões da língua, muitas vezes de maneira “es- condida” – como nos exemplos que ele cita: “Não use palavras erradas para forçar um significado”; “Suas palavras carregam pouco significado”; “Suas palavras são vazias” (LAKOFF, 2022, p. 22). Uma equipe de linguistas da Universidade da Califórnia investigou se a mente simula lugares e direções e percebeu que ativamos as áreas corres- pondentes às habilidades espaciais quando escutamos frases que incluem informações espaciais, em simulações mentais que tornam compreensível a linguagem abstrata (BERGEN; LIU, 2016). Os pesquisadores concluíram que a interpretação da linguagem abstrata envolve simulações mentais e ações imaginadas, relacionadas de maneira metafórica às situações abstra- tas, que geram melhor compreensão dos conceitos expostos. Muito antes de a linguagem abstrata ser analisada em experimentos, o antropólogo e linguista alemão Edward Sapir defendia que a lingua- gem se desenvolve tendo como base símbolos construídos com elemen- tos concretos. Segundo Sapir (1921, p. 53), “nenhuma proposição, por mais abstrata que seja sua intenção, é humanamente possível sem que seja amarrada em um ou mais pontos do mundo concreto do sentido” . Se os conceitos abstratos são construídos em um conjunto de rela- ções, só fazem sentido quando essa rede está bem amarrada, partindo de elementos concretos que podem ser associados entre si. Vamos a um exemplo. Ao trabalharem com o conceito de herança, mesmo que de modo inconsciente, as crianças farão associação com ele- mentos concretos, como avós, pais, filhos, irmãos, terreno ou casa, e ou- trosabstratos, como gerações, propriedade, bens, direitos, transmissão, posses. Da mesma forma, ao aprenderem sobre cultura, relacionarão entre si elementos concretos e abstratos, como pessoas, comida, países, língua, música, comportamento, artes e outros. Sem a construção firme dessa rede mental, as aulas que envolvem o conceito de herança cultural, por exemplo, são confusas ou mesmo in- compreensíveis. Se o novo conhecimento não é encaixado em uma rede de relações já existente, ele não faz sentido e logo será descartado pelo cérebro. Mais que permitir o entendimento de conteúdos específicos, o ensino de conceitos abstratos aumenta a capacidade de compreensão Compreensão e construção de sentido 111 como um todo, pois os alunos ganham possibilidades de associações que podem ser transferidas de uma disciplina a outra. Pressupor que crianças inferirão o significado de palavras desco- nhecidas ao encontrá-las no meio de um texto pode ser um grande erro. Textos com grande quantidade de conceitos desconhecidos são compreendidos de maneira superficial. Isso não quer dizer que crianças não sejam capazes de aprender novas palavras pelo contexto. No entanto, para que isso ocorra, é ne- cessário que seja apresentada uma quantidade limitada de palavras novas. Pesquisas apontam que para que crianças exerçam a capacida- de de inferir o significado pelo contexto, formando uma representação mental do que estão lendo, pelo menos 90% das palavras de um texto devem ser familiares. O ensino explícito de vocabulário abstrato (sem pressupor que a criança aprenderá a palavra sozinha por meio do contexto) possi- bilita a descoberta dos múltiplos usos possíveis dos conceitos, bem como a compreensão não apenas da sequência de fatos narra- dos, mas de elementos como metáforas e ironia. Apesar de não ser o único conhecimento envolvido na compreensão da linguagem, a construção de vocabulário é um dos fatores mais fortemente relacio- nados a essa capacidade. Conforme relatório da Comissão Nacional de Leitura (2000, p. 239), “tanto o vocabulário quanto a compreensão envolvem o significado do texto, apesar de que em níveis diferentes. O vocabulário está, de forma geral, relacionado mais diretamente a palavras individuais, enquanto a compreensão é mais frequentemente avaliada em unidades bem maiores”. 5.2.1 Existem estilos de aprendizagem? Será que as pessoas compreendem as informações a partir de processos diferentes? Se você algum dia fez um teste que apontou que seu estilo de aprendizagem é mais visual ou se acredita que seu estilo é mais auditivo, saiba que essa divisão pode não ser necessariamente correta. Al- gumas pessoas podem levar mais tempo para apren- der, outras podem se sentir mais confortáveis com certas práticas e menos com outras. Porém, isso nada tem a ver com estilos de aprendizagem. to pv ec to r/ Sh ut te rs to ck 112 Neuroeducação e estratégias de aprendizagem to pv ec to r/ Sh ut te rs to ck O grande diferencial do ser humano está no processamento visual. Isso não significa que nossa visão seja espetacular – há muitos animais que apresentam esse sentido muito mais desenvolvido que o nosso. Esse diferencial não está rela- cionado ao ato de enxergar, mas de imaginar. Ou seja, criamos imagens mentais que nos permitem compreen- der conceitos abstratos, pensar em coisas que nunca vimos, projetar situações possíveis e impossíveis. Portanto, a verdade é que todos nos beneficiamos das informações visuais e temos mais facilidade para lembrar delas. Todos também temos a capacidade de imaginar o que aprendemos, o que pode acontecer enquanto escu- tamos um discurso, lemos ou vemos alguma imagem. No entanto, ninguém é mais visual ou mais auditivo. Isso é um mito que acabou ficando popular sem respaldo científico. Uma das evidências de que não existem estilos de aprendizagem vem de um metaestudo que concluiu a não validação científica para essa teoria, apesar de ter se popularizado (PASHLER et al., 2008). Outra con- clusão a que chegaram é que o uso de recursos visuais está relacionado, acima de tudo, com o tipo do conteúdo. Alguns são essencialmente ver- bais, como poesia. Outros são essencialmente visuais, como geometria. Nesse sentido, para auxiliar no entendimento de um conteúdo, seja ele qual for, os professores devem ajudar a visualizar o que está sendo ensinado, mesmo que sem o uso de imagens. Precisam ajudar a associar o conteúdo novo a elementos familiares e à maior quantidade de infor- mações às quais podem associá-lo, dando exemplo, contando histórias e fazendo analogias, além de trabalharem, de maneira deliberada, o cenário amplo e os detalhes. Pessoas que precisam de menos recursos visuais para compreender o que escutam geralmente têm uma bagagem maior de conceitos já consolidados que as permi- te visualizar na mente o que estão ou- vindo. Por outro lado, mais recursos são necessários àqueles que apresentam dificulda- des relacionadas à linguagem. Conforme coloca o escritor e pesquisador Peter Brown (2014, p. 156), Compreensão e construção de sentido 113 “em qualquer lista de diferenças que mais importam para a aprendizagem, as habilidades envolvidas na leitura estarão no topo”. Dificuldades relacionadas à leitura prejudicam a compreensão e a aprendizagem como um todo à medida que os estudantes avançam para níveis que exigem um volume grande de leitura e escrita. O transtorno de aprendizagem relacionado à leitura, algo que conhecemos como dislexia, afeta, em algum nível, em torno de 10% da população, de acordo com a Associação Internacional de Dislexia (em inglês, International Dyslexia Association – IDA). Por outro lado, há estudos que apontam que dificulda- des semânticas não relacionadas à fluência na leitura são percebidas em outros 10% dos estudantes. Há ainda as dificuldades de compreensão ocasionadas pela baixa qualidade do ensino, o que explica o fato de que apenas 12% dos brasi- leiros apresentam nível de proficiência na alfabetização, ou seja, são ca- pazes de interpretar diferentes tipos de texto e gráficos, elaborar textos com maior complexidade. De acordo com o Indicador de Analfabetismo Funcional (INAF), do Instituto Paulo Montenegro, esse índice se mantém estável ao longo da série histórica, do início dos anos 2000 até 2018. Para mudarmos essa realidade, é fundamental que educadores es- tejam atentos aos sinais das dificuldades de leitura e de compreensão e saibam diferenciá-las, ao mesmo tempo em que desenvolvem as ha- bilidades de compreensão de todos os alunos. 5.3 Dificuldades na compreensão da linguagem Vídeo De acordo com o modelo simplificado de leitura 1 , utilizado como base para inúmeros experimentos, a leitura envolve dois conjuntos de competências: um que compõe a capacidade de decodificação e outro que compõe a de compreensão oral da linguagem. O primeiro é formado pelo que o pesquisador Scott Paris (2005), do departamento de educação e psicologia da Universidade de Michigan, de- finiu como habilidades condicionadas. Trata-se daquelas que nos permi- tem transformar os símbolos em palavras, a partir da forma dos grafemas e do som dos fonemas que eles representam. Por envolver capacidades restritas, que podem ser trabalhadas de maneira sistemática no decorrer da infância, a decodificação passa a acontecer automaticamente, sendo impossível não lermos uma palavra quando olhamos para ela. Modelo Simplificado de Leitura ou Simple view of reading (SVR) é um mode- lo proposto pelos pesqui- sadores da Universidade do Texas Philip Gough e William Tunmer. 1 De an D ro bo t/S hu tte rs to ck No entanto, até isso acontecer, precisamos relacionar letras aos seus respectivos sons, muitas vezes variados, o que requer habilidades mui- to mais complexas, como a distinção entre letras cujas representações gráficas o cérebro leva tempo para perceber – como b e d, ou p e q. Isso porque nosso cérebro não evoluiu para distinguir rapidamente figuras es- pelhadas,uma vez que na natureza essa habilidade traz poucas vantagens evolutivas. Basta pensar que a localização de um bicho que vem na nossa direção é fundamental, bem como o tamanho do bicho, a distinção entre os diferentes sons, a direção para onde ele olha. No entanto, se ele apa- recesse espelhado, isso não faria diferença na forma como reagiríamos. Por isso, essa distinção necessita de muita prática na infância e pode representar um desafio quase impossível para pessoas alfabetizadas depois de adultas. Essa também é uma das dificuldades comuns entre pessoas com dislexia – ou transtorno de aprendizagem com prejuízo na leitura. Para automatizar a leitura e ganhar fluência, essas pessoas precisam trabalhar de maneira mais intensa a relação entre grafemas e fonemas, consciência fonológica, discriminação visual e outras habili- dades relacionadas ao processamento visual, auditivo ou ambos. Uma vez que a leitura da criança é silabada, ou seja, ainda carece de fluência, é esperado que a compreensão do material seja também prejudicada. Isso porque sua atenção está voltada não ao conteúdo do que ela está lendo, mas ao processo de decodificação, que requer um esforço muito grande. Além disso, uma leitura muito lenta comprome- te a ação da memória de trabalho, pois quando a criança termina a frase, pode não mais se lembrar do que havia lido no início. Em outras palavras, quando a leitura não está automatizada, os re- cursos cognitivos necessários para que haja compreensão não estão disponíveis. A falta de fluência na leitura, portanto, prejudica a com- preensão. Quanto mais cedo for detectada a causa do atra- so na aquisição da fluência, caso a velocidade da leitura da criança de fato esteja muito aquém do esperado para a idade, mais cedo é possível ajudar esse aluno a prosperar na escola, ganhando fluência e acurá- cia na leitura. Tanto a avaliação quanto o traba- lho de intervenção, quando necessário, devem ser feitos por especialistas, como fonoaudiólogos e neuropsicopedagogos. No entanto, é dos professo- 114114 Neuroeducação e estratégias de aprendizagemNeuroeducação e estratégias de aprendizagem Compreensão e construção de sentido 115 res a responsabilidade de estarem atentos a um possível atraso nas habilidades de leitura, que deve ser comunicado à família. Voltando à visão de Paris (2005) sobre o modelo simplificado de lei- tura, uma vez que o processo de decodificação está automatizado, o leitor ainda precisa entender o que está lendo. Sendo assim, o segundo componente para o sucesso na leitura, a compreensão da linguagem, envolve uma série de capacidades que o pesquisador define como irrestritas ou não condicionadas. Esse processo abrange competências adquiridas no decorrer da vida, como o conhecimento do vocabulário, as habilidades sintáticas e semânticas e a capacidade de relacionar no- vas informações com aquelas já consolidadas. As dificuldades na compreensão da leitura podem estar relacio- nadas a déficits em habilidades básicas, como memória de trabalho, vocabulário pobre e dificuldade de fazer inferência, ou seja, imagi- nar o significado pelo contexto. Pode também envolver habilidades metacognitivas mais complexas, como o automonitoramento da atenção e da compreensão na leitura, isto é, a capacidade de ob- servar a própria atenção e nível de compreensão do material e de adotar estratégias, como a releitura e a busca pelo significado de palavras desconhecidas. A dificuldade na compreensão da linguagem é possivelmente tão comum quanto aquelas dificuldades relacionadas à decodificação. En- quanto estima-se que cerca de 10% das pessoas apresentam quadro de dislexia, um número proporcional de estudantes apresenta dificul- dades na compreensão que não estão relacionadas à falta de fluência. (HULMES; SNOWLING, 2011). Em um estudo envolvendo 425 mil estudantes, pesquisadores do Centro de Pesquisa de Leitura da Flórida, Spencer, Quinn e Wagner (2014), constataram que o termo dificuldade na compreensão da leitura não representa a realidade. O estudo concluiu que as crianças que não compreendem adequadamente aquilo o que leem apresentam dificul- dades na compreensão da linguagem como um todo. A questão é que na linguagem oral elas geralmente contam com recursos como entona- ção, construções sintáticas mais simples e, principalmente, vocabulário mais restrito que o utilizado em textos. Por essa constatação, os pes- quisadores sugerem que o trabalho focado na compreensão de textos inclua atividades orais. Dicionário das palavras obscuras é um dos projetos mais brilhantes que apresenta tanto as li- mitações quanto o poder da linguagem na forma como nos compreende- mos e nos expressarmos. O projeto tem um canal no YouTube, o Dictionary of Obscure Sorrows, criado pelo designer gráfico e cinegrafista John Kornig. Possui dezenas de vídeos poéticos que nos colocam em contato com estados mentais e sentimentos que, por não terem sido nomeados, costumam ser difíceis de entender e explicar. Disponível em: https://www. youtube.com/user/obscuresorrows/ videos. Acesso em: 30 dez. 2022. Saiba mais https://www.youtube.com/user/obscuresorrows/videos https://www.youtube.com/user/obscuresorrows/videos https://www.youtube.com/user/obscuresorrows/videos 116 Neuroeducação e estratégias de aprendizagem 5.4 Estratégias para exercitar a compreensão Vídeo Grande parte das palavras que estão fora da lista daquelas de alta frequência é aprendida por meio da literatura, uma vez que o vocabu- lário utilizado na linguagem oral é mais limitado. Por outro lado, é mais difícil inferir o significado de palavras desconhecidas quando não se pode contar com recursos típicos da comunicação oral, como lingua- gem corporal, expressões, entonação e contexto social. Mesmo aquelas que são compreendidas, para serem retidas e in- corporadas ao vocabulário da criança, devem ser apresentadas uma série de vezes e em contextos diferentes. Por esse motivo, especialistas defendem o ensino direto do vocabulário e das relações entre as pa- lavras como forma de garantir aos alunos recursos para que ganhem domínio sobre novos conceitos e, dessa forma, alcancem melhor com- preensão da linguagem escrita e oral. Nesse sentido, com base em estudos de como o cérebro constrói sentido, apresentamos algumas sugestões práticas de como ampliar a compreensão de conteúdos: • Antes de apresentar os fatos, separe os conceitos acadêmicos im- portantes e inicie apresentando-os. Se estiverem bem construídos, ou seja, associados a uma série de outros conceitos – concretos e abstratos –, a compreensão dos fatos acontece de maneira mais flui- da. Não esqueça de trabalhar diretamente verbos frequentemente usados em comandos de atividades, como relacionar, analisar, jus- tificar e comparar. • Não explique um novo vocábulo tal como consta no dicionário. Faça os alunos inferirem o significado a partir do uso das palavras novas em contextos diferentes. Depois, utilize-as em exercícios específicos voltados à consolidação do conceito, como desenhos e formulação escrita e oral de frases e situações com elementos concretos, que ajudem os alunos a formarem uma imagem men- tal do termo aprendido. • Se possível, apresente o conceito oposto, como provável e impro- vável, generosidade e egoísmo, resistir e ceder, eterno e transitó- rio, e assim por diante. Compreensão e construção de sentido 117 • Apresente exemplos de frases e situações oralmente e por es- crito com as variações morfológicas das novas palavras, como grato, gratidão e agradecer. • Repita os novos conceitos de modo intenso no início e depois mais espaçado. • Qualquer conceito pode ser representado em desenhos que tra- gam associações do abstrato com o concreto. Procure desenhos, imagens e metáforas visuais para serem apresentados em todas as aulas que apresentam conceitos novos. Por exemplo, o conceito de lucro pode ser representado com um desenho de gráfico crescente ou árvores crescendo com dinheiroinformação? Se ela não for retida, podemos dizer que houve aprendiza- gem? Para que haja aprendizagem, precisamos focar a atenção em um determinado estímulo, ou seja, buscar um sentido para a nova informa- ção. É preciso categorizá-la e guardá-la para que possa ser acessada no futuro e, por sua vez, ajude a dar sentido a outras informações novas. Sem precisar usar nenhum termo neurocientífico, você saberia explicar, em uma única frase, o que é aprendizagem? m en ta lm in d/ Sh ut te rs to ck No entanto, podemos tornar o conceito de aprendizagem mais sim- ples e direto, para que ele possa servir como ponto de partida para a compreensão de como o cérebro funciona. Que tal esse: a aprendiza- gem é um erro de predição. Começaremos a dissecar essa máxima revendo dois conceitos de Piaget, que hoje podem ser explicados com base na neurociência: as- similação e acomodação – dois processos que ocorrem de maneira complementar para que haja a aprendizagem. 14 Neuroeducação e estratégias de aprendizagem Figura 1 Assimilação Na rd av ar /E nv at o El em en ts Figura 2 Acomodação se ve nt yf ou rim ag es /E nv at o el em en ts Com o primeiro, Piaget se refere à associação de um conhecimen- to novo a informações que já estão consolidadas. Assim, se a criança aprende uma palavra nova, ela necessariamente vai associar o novo conceito àqueles previamente assimilados. Toda a nova informação é integrada a conhecimentos já construídos. Já no processo de acomodação a nova informação leva a um ajus- te de modelos mentais do mundo já formados. Em outras palavras: a nova informação provoca uma mudança nos esquemas mentais, como Introdução à neuroeducação 15 um mapa que muda sua forma depois de incorporar uma nova rota, com novas estradas. Piaget estudou o desenvolvimento infantil, por isso costumamos as- sociar os conceitos que ele propôs aos processos que ocorrem entre crianças. No entanto, hoje a neurociência nos mostra que sua teoria não apenas reflete a realidade de como o cérebro aprendiz funciona, como se aplica à aquisição de conhecimento em qualquer etapa da vida. O que ele chamava de acomodação nada mais é que uma correção, ou, ainda melhor, um aprimoramento de uma ideia errada, incompleta ou pouco precisa. Assim, se não há transformação no cérebro, não há aprendizagem. E as transformações não ocorrem quando tudo sai con- forme o previsto, mas quando nossas previsões se mostram erradas. Aprendemos quando temos nossas expectativas não correspondi- das. É a partir de tentativas e erros que vamos moldando um mapa mental, um modelo interno de mundo. Errando e ajustando vamos construindo as estradas principais, as vias paralelas, iluminando as vias que estavam no escuro. Qual a principal função do cérebro? Tente responder à pergunta do título da subseção antes de pros- seguirmos a leitura. Após a leitura da subseção revisite sua resposta e compare com a relação de novos conceitos assimilados por você. Se você respondeu que a principal função do cérebro é pensar, saiba que essa capacidade é um meio, uma vantagem evolutiva, mas está longe de ser o principal motivo pelo qual temos um cérebro. m en ta lm ind /S hu tte rs to ck 16 Neuroeducação e estratégias de aprendizagem O cérebro serve, acima de tudo, para nos manter vivos – individual- mente e como espécie. Como ele faz isso? De uma forma bem simplificada, gerenciando os componentes que o corpo precisa – a entrada, a saída e a produção de substâncias, como água, glicose, hormônios, neurotransmis- sores e inúmeras outras que são essenciais para a manutenção da vida. Essa regulação de componentes, garantindo a estabilidade fisiológi- ca, tem o nome de alostase. Esse processo acontece por meio da ante- cipação das necessidades do corpo antes de elas surgirem. A alostase garante, por exemplo, que o corpo supra a necessidade de líquido fa- zendo com que tenhamos sede muito antes que ocorra uma desidrata- ção. Fazendo com que a sensação de saciedade ocorre imediatamente, apesar de o processo de hidratação não ser imediato. Como o cérebro sabe com antecedência de que seu organismo precisa para sobreviver em ambientes e circunstâncias diferentes? Ele toma como base as informações de experiências passadas. Se uma ação passada trouxe benefícios, protegendo o corpo ou lhe garantindo satisfação, o cérebro guarda as informações para preparar o corpo para ação em experiências similares. A predição é uma capaci- dade tão bem-sucedida que até mesmo criaturas unicelulares agem de maneira antecipatória. A tarefa mais importante do seu cérebro é controlar seu corpo – gerenciar a alostase – ao antecipar as necessidades energéticas antes que elas apareçam para que suas ações valem a pena e você sobreviva. O cérebro continuamente investe sua energia na esperança de uma boa gratificação, como comida, abrigo, afei- ção e proteção, para que você possa ter sucesso na tarefa mais importante da natureza: passar seus genes para próximas gera- ções. (BARRETT, 2020, p. 15) 1 Nesse balanço que o cérebro faz, poupando a energia que não pre- cisa ser gasta, uma característica diferencia os seres humanos dos outros animais: nosso córtex pré-frontal (Figura 3) mais desenvolvido nos permite interferir nesse processo. Somos capazes de gastar uma enorme quantidade de energia no presente porque sabemos que se- remos recompensados mais tarde – mesmo que muito mais tarde. Esforçamo-nos agora para termos o retorno depois, graças à nossa capacidade de imaginar cenários futuros e a partir disso fazermos um planejamento das nossas ações. Your brain’s most im- portant job is to control your body—to manage allostasis—by predicting energy needs before they arise so you can efficiently make worthwhile move- ments and survive. Your brain continually invests your energy in the hopes of earning a good return, such as food, shelter, affecttion or physical pro- tection, so you can per- form nature’s most vital task: passing your genes to the next generation. 1 Introdução à neuroeducação 17 Figura 3 Córtex pré-frontal Medical-graphics/Envato Elem ents E o que é mais custoso ao nosso cérebro em termos energéticos? Se pensou em aprender, acertou. Por um lado, aprender é a tarefa que mais exige energia mental. Exercícios físicos, por outro lado, são a atividade que mais exige energia física. Ambos requerem esforço, por isso uma parte do nosso cérebro (aquela que nos cartuns poderia ser representada por um diabinho) nos faz ter tanta vontade de fugir dessas tarefas. No entanto, somos capazes de criar disciplina para não ouvirmos o lado preguiçoso, cientes de que o esforço certamente trará recompensas no futuro. Por que o cérebro antecipa? Nossas reações muitas vezes precedem a consciência do que está acontecendo. Nosso cérebro nos faz imaginar propriedades – como distância, peso, temperatura, perigos, profundidade, sabores e reações alheias – para nos adaptarmos adequadamente ao ambiente. E por que nosso cérebro trabalha dessa forma, antecipando e pre- vendo necessidades? Como qualquer bom gerenciamento, prevenir é melhor do que remediar. Com nosso corpo não é diferente. Prever o 18 Neuroeducação e estratégias de aprendizagem que vai acontecer é mais rápido, mais eficiente e muito menos custoso em termos energéticos do que ser surpreendido com um estímulo e, então, elaborar uma reação adequada. É muito mais econômico adaptar as percepções às expectativas do que ser constantemente surpreendido, especialmente quando o cére- bro já está maduro, pois já se deu todo o trabalho de construir um modelo de mundo que se mostra bastante funcional. Esse é o padrão de funcionamento do cérebro e geralmente aconte- ce de modo inconsciente. Enxergamos o mundo de acordo com o que o cérebro espera enxergar. As ilusões óticas são uma forma de exem- plificar isso. O fato de que alimentos podem mudar de sabor de acor- do com o que esperamos é outro exemplo de como o cérebro predizno lugar de folhas, enquanto de prejuízo pode ser representado com um gráfico decrescente, um bolso vazio, uma balança com cifrão vermelho para baixo ou outras imagens que você conseguir encontrar. • Procure trabalhar com textos cujo vocabulário não é nem difícil nem fácil demais. Para isso, muitas vezes pode-se fazer necessá- ria a adaptação do material, escolhendo com cuidado os termos que deseja apresentar aos alunos. • Avalie o nível de dificuldade dos textos do material didático com o qual trabalha. Dependendo da dificuldade, ele pode ser- vir como um guia para o professor na hora de ensinar e para o aluno, se necessário, na hora de estudar, relembrar ou fazer as atividades. Ler com as crianças textos de disciplinas como Histó- ria e Geografia, especialmente antes das explicações, pode ser perda de tempo. Os livros didáticos geralmente apresentam textos complexos e a leitura acaba sendo automática, sem compreensão. É mais aconselhado intrigar os alunos com uma pergunta interessante e explicar o material logo em seguida. Trabalhe o vocabulário desconhecido antes e não após a leitura. • A releitura de textos, de preferência oralmente, é imprescindível para trabalhar a compreensão, que muitas vezes é comprometida pela falta de atenção ou dificuldade na memória de trabalho. • Evite explicações muito abstratas. Em vez disso, crie analo- gias que possam ser visualizadas. Essas associações permitem a conexão de uma nova ideia a conhecimentos preexistentes. Lembre-se de que todo entendimento precisa ser visualizado, mesmo que inconscientemente. 118 Neuroeducação e estratégias de aprendizagem O físico Richard Feynman, que se popularizou por seus ensinamentos claros sobre assuntos complexos, dizia: se você não conseguir simplificar o assunto de modo que uma criança de oito anos entenda é porque você mesmo não o entendeu. E isso não teria como ser feito sem o uso de elementos concretos, por meio de metáforas ou analogias. 5.4.1 Outras estratégias de estudo que ajudam na compreensão As táticas mais comuns de estudo são as releituras dos capítulos e das fichas com longos resumos. Apesar de serem as únicas estimu- ladas na maioria das escolas, são práticas comprovadamente pouco eficazes e que não garantem a compreensão do conteúdo. Uma forma de ajudar os alunos a compreender o material é construin- do com eles mapas mentais ao invés de pedir que grifem frases e pará- grafos inteiros em apostilas e livros didáticos. Eles funcionam de maneira parecida com o processo de aprendizagem do cérebro: fazem associações entre conceitos e fatos e constituem, de acordo com estudos científicos, um recurso de aprendizagem e revisão de material que se mostra eficaz no desenvolvimento da compreensão da leitura (NEHRU, 2019). Os mapas também estão de acordo com nosso processo de recons- tituição da memória, com palavras-chave e apoio de elementos como ícones, localização da palavra, cores e associações. Eles ajudam os alu- nos a lembrar dos conceitos e dos fatos, “forçando-os” a buscar na me- mória as informações relacionadas a cada palavra (ou ícones) na hora de estudar o conteúdo. É exatamente esse esforço que garante a reten- ção do material, por meio do que chamamos de reconsolidação da me- mória. Sem criarmos essa dificuldade, a aprendizagem não permanece. O fato de resultarem em um produto visual também otimiza a aprendizagem, pois envolve nossa habilidade naturalmente mais rápi- da e eficaz: o processamento de estímulos visuais. Além disso, mapas mentais ajudam na compreensão, pois permitem a visualização do ce- nário amplo, com todas as relações entre os dados que partem de um conceito ou tema central. Transformar um conteúdo chato e desanimador em um produto graficamente interessante pode também ser um grande motivador Compreensão e construção de sentido 119 para os estudos. E a motivação é extremamente poderosa na apren- dizagem. É geralmente um alívio para quem tem muito conteúdo para assimilar poder condensar em apenas uma ou duas folhas uma gran- de quantidade de informações espalhadas nas páginas das apostilas, como apresenta a Figura 1. Figura 1 Exemplo de estrutura de um mapa mental Conceito central Conceito primário Subconceitos Subconceitos Subconceitos Subconceitos Subconceitos Subconceitos Subconceitos Subconceito Subconceito Conceito primário Conceito primário Conceito primário Quando?Quando? Quem?Quem? Por quê?Por quê? Quando?Quando? Por quê?Por quê? Como?Como? Como?Como? Onde?Onde? O quê?O quê? Fonte: Elaborada pela autora. Mapas mentais são construídos intuitivamente e variam muito de acordo com o material. Uma das formas possíveis de montá-los é partir de um conceito central, que vai se desmembrando em outros a partir de perguntas básicas, como quanto, onde e como. Sobre a construção dos mapas mentais, siga os passos descritos: • Não escreva frases. Os mapas devem trazer palavras-chave e ele- mentos gráficos que ajudam a lembrar do conteúdo. O propósito não é apresentar ideias já construídas em frases. • Faça os alunos explicarem o conteúdo, por escrito ou oralmente, tendo como base o mapa mental. Explicar para alguém é a melhor forma de aprender e memorizar. As explicações orais dão aos alu- nos a chance de avaliar seu próprio conhecimento sobre o assunto e de exercitarem a escrita e a oralidade. O mapa mental, nesse caso, funciona como um guia na hora de formular um raciocínio. • Em vez de escrever frases no quadro e pedir que as crianças co- piem, construa mapas mentais no decorrer de cada explicação. 120 Neuroeducação e estratégias de aprendizagem Não espere que as crianças aprendam sozinhas a fazer seus pró- prios mapas. Elas precisam ter contato com essa estratégia de maneira constante para que ganhem essa habilidade. • Ao final de cada unidade temática, faça um mapa mental mais amplo na revisão do material. CONSIDERAÇÕES FINAIS Quando tratamos da leitura, geralmente nos referimos à capacida- de de decodificar a palavra escrita de maneira automática, alcançando fluência necessária para entendermos o texto. Mas a fluência, apesar de necessária, não garante a compreensão. Para isso devemos colocar em prática uma série de habilidades que podem ser consideradas irrestritas, pois são trabalhadas ao longo de toda a vida acadêmica e continuam sen- do desenvolvidas na idade adulta. São aquelas que não estão limitadas a uma série de regras ou a um conjunto de símbolos, como os que precisa- mos conhecer para aprender a decodificar. A mais fundamental dessas habilidades é o conhecimento do vocabu- lário também conhecido como acadêmico. Trata-se de conceitos abstratos e que não pertencem a áreas específicas do conhecimento, mas que são essenciais para a compreensão da linguagem. Quando existe dificuldade na compreensão de textos, geralmente está relacionada a algum déficit em habilidades necessárias para a compreensão da linguagem como um todo, e não apenas a escrita, apesar de a questão ficar mais eviden- te na leitura de textos, por carecerem de elementos como entonação e expressão e, ao mesmo tempo, trazerem uma quantidade maior de pala- vras pouco usadas e com elaborações sintáticas mais complexas. ATIVIDADES Atividade 1 Explique a relação da memória com a construção de sentido. Compreensão e construção de sentido 121 Atividade 2 Por que aprender uma nova língua é mais fácil para uma pessoa que já fala dois ou mais idiomas? Atividade 3 Explique o que é o modelo simplificado de leitura e por que esse conhecimento é importante para o desenvolvimento das habilidades de compreensão da leitura. Atividade 4 Cite as principais habilidades relacionadas às dificuldades de com- preensão na leitura entre alunos que leem com fluência. Atividade 5 Liste três estratégias que ajudam na compreensão do material escrito. REFERÊNCIAS BERGEN, B; LIU, N. When do language comprehenders mentally simulate locations? Cognitive Linguistics, v. 27, n. 2, p. 181-203, 2016.BROWN, P. C. Make it stick. Londres: Belknap Press, 2014. GLENBERG, A. M.; KASHAK, M. P. Grounding language in action. Psychonomic Bulletin & Review, v. 9, n. 3, p. 558–565, 2002. HULMES, C.; SNOWLING, M. Children’s reading comprehension difficulties: nature, causes, and treatments. Current Directions in Psychological Science, v. 20, n. 3, p. 139-142, 2011. LAKOFF, G.; JOHSON, M. Metáforas da vida cotidiana. Campinas: Mercado de Letras, 2002. NAGY, W. e. & SCOTT, J. A. Vocabulary precesses. Em M. L. Kamil, P. David Pearson & R. Barr (eds). Handbook of Reading Research, v. 3, p. 69-284, 2000. NEHRU, P. A. A systematic review of research on mind mapping and concept mapping to develop reading comprehension. International Journal of Advance Research And Innovative Ideas In Education, v. 5, n. 6, p. 1.278-1.283, 2019. 122 Neuroeducação e estratégias de aprendizagem PARIS, S. G. Re-interpreting the development of reading skills. Reading Research Quarterly, v. 40, n. 2, p. 184-202, 2005. PASHLER, H. et al. Learning styles: concepts and evidence. Psychological Science in the Public Interest, v. 9, n. 3, p. 105-119, 2008. PECHER, D.; ZEELENBERG, R.; BARSALOU, L. W. Verifying different-modality properties for concepts produces switching costs. Psychological Science, v. 14, n. 2, p. 119-124, 2003. Report of the National Reading Panel. Teaching Children to Read: An Evidence-Based Assessment of the Scientific Research Literature on Reading and Its Implications for Reading Instruction. National Reading Panel: Washington, D.C. 2000. Disponível em: https://www. nichd.nih.gov/publications/pubs/nrp/smallbook. Acesso em: 19 jan. 2023. SAPIR, E. An introduction to the study of speech. 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É uma prática comum pedir que os alunos leiam o texto antes de explicá-lo. No entanto, os textos com conteúdo novo costumam ser densos e com uma quantidade grande de palavras desconhecidas, sendo pouco compreensíveis aos alunos. Mais eficaz é iniciar a aula com uma pergunta que incite a curiosidade dos alunos e em seguida iniciar as explicações. A leitura de determinados trechos pode ser feita mais tarde, na hora de os alunos fazerem as atividades. 2. Acredito que a releitura do texto antes de uma prova seja o principal recurso de estudo. Muitos acreditam que é lendo o material várias vezes que os alunos irão consolidar as informações. No entanto, esse recurso é pouco eficaz e dá a impressão de que sabemos o conteúdo. Avaliações e autoavaliações são muito mais eficazes para a retenção das informações. 3. Acredito que a releitura do texto é a principal forma de memorizar palavras novas. A releitura de textos é importante para a fluência, compreensão e ganho de vocabulário. Mas a memorização de palavras novas, especialmente daquelas pouco usadas no dia a dia, demanda exercícios diretos e associações. É preciso focar as palavras de modo isolado do texto, associá-las a outras palavras e imagens para ajudar na fixação. 4. Costumo pedir para os alunos grifarem frases ou parágrafos inteiros que julgo ser importantes. Muitos professores pedem para alunos grifarem parágrafos inteiros. Ao invés disso, devemos destacar as palavras-chaves. O cérebro dá sentido às informações por meio de conceitos, e são eles que devem estar em evidência, ajudando os alunos a encontrá- los quando necessário. Comentários sobre a reflexão inicial 123 5. Utilizo recursos para avaliar quanto do conteúdo foi retido pelos alunos semanas depois das provas. A maioria dos alunos esquece tudo o que foi aprendido quando o conteúdo não é retomado diversas vezes. Por isso, avaliações que os “forçam” a lembrar de um conteúdo do mês, bimestre ou trimestre anterior são úteis tanto para o conhecimento dos professores quanto dos alunos, ao mesmo tempo em que o feedback dessa avaliação ajuda na consolidação do conteúdo. 6. Percebo ou constato que meus alunos esquecem a maior parte do que foi ensinado. Sem a retomada de conteúdo e avaliações de formatos diferentes, os professores não percebem que os alunos esqueceram da maior parte do que foi ensinado e seguem apresentando coisas novas. Mas esse esquecimento é inevitável e normal. 7. Costumo elogiar os acertos dos alunos mais do que as tentativas. É normal elogiarmos os acertos. Sempre nos ensinaram, de diversas formas, que errar é ruim e acertar é bom. No entanto, como professores, temos a responsabilidade de mudar esse cenário, tornando nosso ambiente mais seguro para as tentativas e, consequentemente, mais propício à aprendizagem. 8. Promovo pesquisas e faço meus alunos explicarem o material aos colegas. Incentivar que os alunos busquem as informações é um dos papéis dos professores, que devem estimular a curiosidade e autonomia sempre. Se as descobertas dos próprios alunos, com a mediação do professor, foram apresentadas aos colegas, a aprendizagem é mais motivadora e mais facilmente consolidada. 9. Utilizo com meus alunos técnicas específicas para memorizar termos e informações. Pressupomos que os alunos vão memorizar palavras novas ou sequências de palavras apenas ao lê-las repetidas vezes, o que, quando acontece, geralmente é por tempo curto – até a próxima prova. Temos o compromisso não apenas de apresentar informações e explicar o conteúdo, mas ensinar os alunos a memorizar a partir de várias formas de associação e repetição (valem músicas, rimas, histórias e recursos visuais). 124 Neuroeducação e estratégias de aprendizagem 10. Costumo testar e avaliar constantemente meus alunos por meio de atividades avaliativas que não prejudicarão suas notas. O sistema educacional, em geral, não trabalha com avaliações que não irão prejudicar os alunos em termos de notas, o que é um erro. Fazer com que eles tentem lembrar das respostas e colocá-los em contato com o nível de conhecimento que de fato absorveram, sem a pressão de ter que alcançar uma média, é uma das ferramentas mais eficazes de aprendizagem. 11. Aplico questões e exercícios sempre do mais fácil para o mais difícil, sem intercalar. Partir do mais fácil e seguir para o mais difícil é uma forma lógica de pensar o ensino, pois o nível de dificuldade aumenta à medida que as habilidades vão se construindo. Porém, a ciência mostra que intercalar graus de dificuldade em uma mesma sessão de estudos, bem como os tipos de exercícios e regras, é mais eficaz para a consolidação da aprendizagem. 12. Alguns alunos têm dificuldade de compreensão específica de textos e com eles as atividades escritas devem substituir as orais. Apesar de mais evidente na leitura, a dificuldade na compreensão nunca é específica de textos. Pesquisas mostram que ela reflete déficit em habilidades relacionadas à compreensão da linguagem de uma forma geral. Por isso, atividades orais voltadas à ampliação de vocabulário, análise de sentido e outros exercícios de linguagem são indicados nesses casos, além das atividades escritas. 13. Meus alunos costumam se frustrar quando erram e considero isso natural e inevitável. O fato de o erro trazer frustraçãoreflete, até certo ponto, uma questão cultural. Bebês são resilientes e não se deixam abalar pelos erros. À medida que crescemos, aprendemos com os outros que erros devem ser evitados. Os professores têm a responsabilidade de mudar essa cultura, associando erros a tentativas, coragem e aprendizagem. 14. Acredito que a revisão do conteúdo de maneira intensiva é mais eficaz que o espaçamento do estudo. Todos, tanto alunos quanto professores, temos a tendência de intensificar os estudos na véspera da prova. Relacionamos a palavra intensivo com algo eficaz. No entanto, meia hora por dia de Comentários sobre a reflexão inicial 125 20. Acredito que cada pessoa tem um estilo de aprendizagem (visual, cinestésica e auditiva) e as aulas precisam se adaptar a cada estilo. Apesar de o conceito ter se popularizado, estilos de aprendizagem não são algo confirmado pela ciência. O processo de aprendizagem é o mesmo para todos e ocorre por meio de associações. Quanto mais concreta e visualizável o professor deixar a nova informação, mais eficaz será o ensino. Resolução das atividades 1 Introdução à neuroeducação 1. Qual é a relação dos processos de associação e acomodação de Piaget com a forma como o cérebro registra um novo conhecimento? Nenhuma informação é guardada no cérebro de maneira isolada. Para haver aprendizagem é necessário haver a associação de uma informação nova com conhecimentos já consolidados. A esse processo Piaget chamou de associação. Quando isso acontece, o cérebro precisa atualizar seu modelo mental, ajustando-o para acomodar a nova informação, o que ele chamou de acomodação. 2. Qual é a vantagem de o cérebro ser plástico? Plasticidade cerebral é a capacidade de o cérebro se reconfigurar a cada nova aprendizagem com o objetivo de modificar e tornar mais eficiente a forma como interpretamos os estímulos e interagimos com o mundo, de acordo com as necessidades impostas pelo ambiente. 3. Qual é a relação entre a vida em sociedade e o desenvolvimento do cérebro humano? A nossa necessidade de formação de vínculos nos permitiu um maior desenvolvimento do neocórtex, especialmente nas regiões relacionadas à linguagem. Essa vantagem nos permite prosperar como espécie e, ao mesmo tempo, desenvolvermo-nos como indivíduos, pois o desenvolvimento de nossas capacidades cognitivas está altamente relacionado com o meio social. A convivência com um número grande de mentes diferentes da nossa exige um cérebro altamente desenvolvido. revisão não equivale, em termos de aprendizagem, a duas horas e meia por semana (letiva). A ciência mostra que a aprendizagem e a consolidação, quando espalhadas em sessões mais curtas, trazem um resultado muito melhor. 15. A formatação do ambiente onde costumo ministrar as aulas é sempre a mesma. Somos seres de hábitos e, mesmo quando não são estipulados lugares em uma sala, tendemos a sentar sempre nas mesmas carteiras. Então é normal que alunos e professores acomodem-se com relação à disposição do ambiente. No entanto, mudanças frequentes nessa formatação, tirando os alunos do conforto da familiaridade, consistem em uma forma eficaz de mantê-los atentos. 16. Prefiro não misturar conteúdos diferentes em uma mesma aula. Tanto a intercalação entre níveis, como também entre conteúdos, é mais eficaz que a aprendizagem rigidamente separada de acordo com assunto ou grau de dificuldade. A separação, no entanto, é válida na apresentação de um assunto novo. Na retomada e na prática, o melhor é misturar. 17. Meus alunos permanecem sentados na maior parte das aulas. Não podemos esperar que alunos mantenham o nível de atenção depois de passar horas sentados. O movimento e a conscientização corporal não são separados do pensamento. Mente e corpo devem ser trabalhados de maneira integrada na educação. Sempre que possível, faça os alunos levantarem-se, movimentarem-se, sentarem- se no chão, mudando de ambiente quando possível. 18. Utilizo recursos que facilitam a associação de ideias, como mapas mentais. A aprendizagem ocorre por meio de associações. O que o cérebro não associa não é compreendido nem memorizado. Mapas mentais funcionam por meio de associações entre conceitos, acontecimentos e ideias, sendo uma forma intuitiva de promover a visualização do conteúdo. 19. Sinto que tenho pouco controle sobre a atenção dos meus alunos. Prestar atenção é difícil e exige um grande gasto energético. É normal que a atenção dos alunos seja facilmente perdida. Motivá-los e mantê- los curiosos são formas de prender sua atenção. 126 Neuroeducação e estratégias de aprendizagem 20. Acredito que cada pessoa tem um estilo de aprendizagem (visual, cinestésica e auditiva) e as aulas precisam se adaptar a cada estilo. Apesar de o conceito ter se popularizado, estilos de aprendizagem não são algo confirmado pela ciência. O processo de aprendizagem é o mesmo para todos e ocorre por meio de associações. Quanto mais concreta e visualizável o professor deixar a nova informação, mais eficaz será o ensino. Resolução das atividades 1 Introdução à neuroeducação 1. Qual é a relação dos processos de associação e acomodação de Piaget com a forma como o cérebro registra um novo conhecimento? Nenhuma informação é guardada no cérebro de maneira isolada. Para haver aprendizagem é necessário haver a associação de uma informação nova com conhecimentos já consolidados. A esse processo Piaget chamou de associação. Quando isso acontece, o cérebro precisa atualizar seu modelo mental, ajustando-o para acomodar a nova informação, o que ele chamou de acomodação. 2. Qual é a vantagem de o cérebro ser plástico? Plasticidade cerebral é a capacidade de o cérebro se reconfigurar a cada nova aprendizagem com o objetivo de modificar e tornar mais eficiente a forma como interpretamos os estímulos e interagimos com o mundo, de acordo com as necessidades impostas pelo ambiente. 3. Qual é a relação entre a vida em sociedade e o desenvolvimento do cérebro humano? A nossa necessidade de formação de vínculos nos permitiu um maior desenvolvimento do neocórtex, especialmente nas regiões relacionadas à linguagem. Essa vantagem nos permite prosperar como espécie e, ao mesmo tempo, desenvolvermo-nos como indivíduos, pois o desenvolvimento de nossas capacidades cognitivas está altamente relacionado com o meio social. A convivência com um número grande de mentes diferentes da nossa exige um cérebro altamente desenvolvido. Resolução das atividades 127 4. Qual é a relação da mielinização com a maturidade da criança para desenvolver determinadas habilidades? Mielinização é o processo de formação da camada de mielina envolvendo os neurônios, provocando o grande aumento do volume cerebral nos primeiros anos de vida. Antes de determinadas áreas do cérebro serem mielinizadas, a criança não está pronta para desenvolver capacidades que envolvem tais regiões, portanto não adianta forçar a aprendizagem antes da hora, por exemplo, a alfabetização precoce. 5. Por que as crianças necessitam de interações entre colegas? Entre colegas elas podem aplicar princípios da reciprocidade e respeito em vez de apenas seguir regras impostas por uma autoridade. Aprendem regras sociais na prática, na interação colaborativa por meio das brincadeiras. E são levadas a adquirir a noção de responsabilidade e de respeito aos outros. 2 Atenção e criatividade 1. Com base no que você aprendeu, defina o conceito de atenção. É quando a mente seleciona e se direciona a um estímulo ou pensamento relevante, ignorando todos os outros concorrentes, ou seja, é uma organização dos estímulos. 2. Por que a poda sináptica é um processo importante para a aprendizagem? Com a poda sináptica, à medida que os sinais fracos são eliminados, os mais usados são reforçados de modo a permitir um modelo mais funcional do mundo. As conexões fracas representam todas as possibilidades que os bebês têm de desenvolver certas capacidades necessárias para navegar no ambienteem que ele está inserido, como a utilização dos sons da língua mãe. 3. Qual a relação do desenvolvimento da capacidade de sustentar a atenção e a interação da criança com seus cuidadores? A atenção desenvolve-se no meio social e para isso depende da formação de vínculos e de uma estrutura emocional. São os cuidadores que começam a ensinar o bebê a voltar a atenção aos estímulos mais relevantes, apontando, mostrando, fazendo o que chamamos de atenção compartilhada (joint attention). 128 Neuroeducação e estratégias de aprendizagem Uma criança privada de cuidados e de alguém que a estimule a dividir a atenção a determinados estímulos não terá um desenvolvimento pleno. 4. Explique por que alternar a atenção entre várias tarefas pode ser prejudicial. Alternar a atenção exige do cérebro um alto gasto energético e provoca um aumento no nível do cortisol, o hormônio do estresse, fazendo-nos sentir exaustos, o que faz decair rapidamente nossa capacidade cognitiva e nos leva a agir mais impulsivamente. O revezamento da atenção nos obriga a tomar pequenas e rápidas decisões em demasia, o que leva a um esgotamento de recursos cognitivos e, como consequência, a escolhas pouco inteligentes. 3 Consolidação das informações 1. Explique a relação entre memória de trabalho e o controle de impulso. A memória de trabalho exige a seleção de um estímulo e a manipulação mental das informações que provém dele, sendo necessário ignorar os estímulos concorrentes – capacidade dependente da supressão de impulsos. Isso explica por que para algumas crianças que ainda estão desenvolvendo o controle inibitório pode ser tão difícil guardar uma série de comandos pelo tempo necessário para realizar as tarefas. 2. Cite uma forma de exercitar a memória de trabalho em crianças pequenas. Uma forma de exercitar a memória de trabalho entre crianças pequenas são jogos de linguagem nos quais elas precisam cumprir uma sequência crescente de comandos, como o mestre mandou. 3. Por que esquecemos? Em vez de guardar tudo em detalhes, o cérebro funciona como num sistema de reciclagem, descartando o que não utiliza e interpretando o mundo com base nos conceitos que formam uma rede de informações interligadas. Pequenos fragmentos de informação servem como base para que o cérebro preencha todas as lacunas e nos entregue a lembrança. Isso porque o cérebro funciona de maneira otimizada, economizando espaço e energia para podermos prosperar naquilo que fazemos de melhor: interpretar as informações. Os cérebros que não têm a capacidade de esquecer têm um potencial reduzido para aprendizagem. Resolução das atividades 129 4. Quais são os fatores fundamentais para a consolidação das memórias? O processo de consolidação acontece com aqueles conhecimentos que o cérebro tem como importantes. Um dos sinais de que algo é importante é a carga emocional envolvida; outro é a quantidade de vezes que precisamos fazer aquilo. Portanto, emoção e repetição são fatores fundamentais. 5. Explique a afirmação: quanto melhor ficamos em uma atividade, menos esforço e energia mental ela consome. Aquilo que fazemos constantemente é automatizado pelo cérebro como forma de economizar energia. Dessa forma, passamos a fazer muitas tarefas do dia a dia de modo inconsciente e, portanto, muito menos dispendioso do que quando estamos aprendendo algo. Esse modo automático nos permite ações mais rápidas e eficientes. 6. Explique a relação do sono com a memória. Durante o sono ocorre uma espécie de limpeza de informações processadas durante o dia. Isso significa que as conexões não significativas são enfraquecidas, mantendo a capacidade de armazenamento do cérebro. Ao mesmo tempo, ações e informações repetidas são ensaiadas enquanto dormimos, o que leva a um fortalecimento das conexões importantes. 4 Papel das emoções na aprendizagem 1. Para que existem as emoções? Tudo o que sentimos deriva de dois estados básicos: conforto ou desconforto, que têm como função preservar nossa espécie – atraindo-nos para oportunidades – ou nos proteger dos perigos, afastando-nos de riscos. Afinal, a principal função do cérebro é nos manter vivos, e as emoções e os sentimentos são essenciais para isso. 2. O que difere, de maneira básica, organismos simples daqueles com sistema nervoso com relação a respostas a estímulos? Seres com sistema nervoso contam com a memória para – a partir de sentimentos evocados pelas imagens mentais relacionadas a elas – lidar com as circunstâncias de maneira mais assertiva. 3. Explique a afirmação: a aprendizagem depende dos sentimentos. A aprendizagem depende da integração das informações que chegam pelos sentidos com nossos estados internos, pois todas as novas 130 Neuroeducação e estratégias de aprendizagem informações que absorvemos são associadas a outras já consolidadas e aos sentimentos que elas evocam. Conforme afirma Damásio (2018), é impossível conceber a aprendizagem sem as propriedades de recompensa e os sentimentos que a acompanham. 4. Qual é a diferença entre emoção e sentimento? As emoções estão relacionadas aos movimentos fisiológicos automáticos e inconscientes, como reação a estímulos que representam gratificação ou risco. Já os sentimentos podem ser evocados, são sempre conscientes e nem sempre causam alterações perceptíveis, são os que guiam nossas escolhas. 5. Explique a afirmação: as emoções são construídas com base no meio social. À medida que bebês e crianças desenvolvem suas capacidades cognitivas com base no meio social, aprendem também a responder emocionalmente às situações que envolvem os outros. Para antecipar a resposta aos estímulos, o cérebro se baseia em experiências anteriores – experiências adquiridas em interações sociais. 6. Explique a relação entre o bom gerenciamento emocional da infância e a aprendizagem. Pesquisas mostram que alunos emocionalmente maduros, capazes de comunicar com eficiência o que sentem, aprendem melhor. Até a ansiedade relacionada às provas pode ser controlada se associada, por meio das palavras, a estados positivos, como determinação, levando a melhores resultados acadêmicos. 7. Por que testes devem ser promovidos com frequência? Eles deixam os erros em evidência, fazendo com que os alunos fiquem mais atentos, e os colocam em contato com o que realmente sabem em contraponto ao que esqueceram ou não compreenderam, além de possibilitar ao professor um melhor direcionamento das aulas. 5 Compreensão e construção de sentido 1. Explique a relação da memória com a construção de sentido. Quando temos contato com uma nova informação que não faz sentido, ou seja, não é associada a outros conhecimentos, constituindo-se como parte de um conceito formado por uma rede de informações, o cérebro a descarta. Portanto, se não há compreensão, não há aprendizagem nem retenção do material. Resolução das atividades 131 2. Por que aprender uma nova língua é mais fácil para uma pessoa que já fala dois ou mais idiomas? Quem fala mais de um idioma pode associar as palavras de uma terceira ou quarta língua àquelas que já conhece. Essa associação pode ser por familiaridade de sons, sentido ou ambos. O fato é que a memória funciona por associações, e quanto maior nosso vocabulário, seja em qual for o idioma, mais facilidade temos de continuar expandindo-o. 3. Explique o que é o modelo simplificado de leitura e por que esse conhecimento é importante para o desenvolvimento das habilidades de compreensão da leitura. Proposto na década de 1980 pelos pesquisadores Philip Gough e William Tunmer, o modelo simplificado de leitura serve como base para muitos estudos relacionados às habilidades de leitura. Segundo esse modelo, o êxito na leitura abrange dois grupos de habilidades: um deles envolvendo aquelas que possibilitam a decodificação, ou seja, a transformação de grafema em fonema, sílabas e palavras, e outro envolvendo habilidades de compreensão oral da linguagem, o que inclui o conhecimento de vocabulárioe conhecimentos semânticos e sintáticos. 4. Cite as principais habilidades relacionadas às dificuldades de compreensão na leitura entre alunos que leem com fluência. Estudos mostram que a dificuldade na compreensão da leitura deriva de dificuldades na compreensão da linguagem como um todo, quando o aluno lê com fluência. Entre as habilidades necessárias para o sucesso na compreensão e que, portanto, podem estar por trás de dificuldades semânticas estão desde as mais básicas – como memória de trabalho, vocabulário e capacidade de fazer inferência de acordo com o contexto – até as metacognitivas – como automonitoramento da atenção e da compreensão na leitura. 5. Liste três estratégias que ajudam na compreensão do material escrito. O ensino de conceitos acadêmicos antes da leitura de textos, com atividades de vocabulário que incluem a elaboração de exemplos e situações para e pelos alunos; o uso de metáforas visuais e analogias no ensino de conceitos abstratos; a elaboração de mapas mentais com conceitos-chave e explicação oral ou escrita desse mapa feita pelo aluno. 132 Neuroeducação e estratégias de aprendizagem NEUROEDUCAÇÃO e estratégias de aprendizagem MICHELE MÜLLER ISBN 978-65-5821-213-3 9 786558 212133 Código Logístico I000965 N euroeducação e estratégias de aprendizagem M ich ele M ü ller Página em branco Página em brancoe molda nossas percepções conforme suas expectativas. Há inúmeras pesquisas que mostram o quão possível é enganar o paladar com co- res, formas e até preços. E ninguém mais questiona o quanto o efeito placebo realmente muda nossa percepção da dor. Essa forma de operar nos faz economizar energia, pois nos permite navegar pelo mundo ignorando a maior parte das informações que não precisam ser processadas. Para isso, o cérebro busca padrões que pos- sam ser repetidos automaticamente. Dessa forma, quando não apren- demos nada, estamos apenas seguindo esses padrões. O cérebro se desenvolveu para trabalhar de maneira otimizada. Nesse sentido, não seria inteligente por parte da natureza desenvolver um órgão que precisasse ativar uma série de neurônios e interpretar informações de modo constante quando não for necessário. E quando não é necessário? Quando não há mudança. O que permanece igual passa a não ser detectado nem pelos nos- sos sentidos. Para testarmos, basta colocarmos uma lente amarela nos olhos. No início o mundo ficará amarelado. Depois de um tempo o cé- rebro entende que esse é o padrão e antecipa que continuará sendo assim. E, como resultado, a visão se ajustará de modo que o amarelo passará a nem ser percebido. Uma informação a menos para processar. Sobre isso, apresentamos um exemplo que chamou atenção do filósofo grego Aristóteles: passe um tempo olhando para uma cata- rata, sem desviar o olhar. Depois de alguns minutos, quando olhar para o lado, você verá que tudo parece estar se movimentando para cima. Seu cérebro entendeu que o novo normal do mundo Introdução à neuroeducação 19 é estar em movimento. Ele continuou prevendo que isso estaria acontecendo quando você deixou de olhar para a cachoeira. Mais uma forma de entendermos esse padrão é olharmos uma es- cultura de um rosto com os traços em baixo-relevo. Continuaremos en- xergando o rosto em alto relevo, por mais que saibamos que não é o caso. Por quê? Nosso cérebro criou um modelo interno em que rostos, narizes e olhos estão para fora e não para dentro. O que enxergamos é o modelo de mundo construído para que possamos navegar por ele de maneira eficaz e sem perder energia à toa. Para o cérebro, portanto, o que interessa é a mudança. Crianças não nascem com um modelo de mundo pré-fabricado e acabam sendo muito mais surpreendidas pelos estímulos, precisando construir sentido para eles. Por conta disso há muitas coisas que crian- ças percebem e que adultos ignoram. E por gastarem tanta energia construindo esse modelo mental, enquanto adultos seguem no modo automático, é que precisam de muito mais tempo de sono. Se a aprendizagem é um erro de previsão, podemos dizer que ela envolve uma consequência inesperada, certo? A criança pensa que um colega não vai ficar bravo se ela pegar seu brinquedo, mas ele lhe bate. Ou pensa que o copo não vai cair da ponta da mesa, mas ele cai, ou que se ela derramar óleo na água, eles vão se misturar. E toda vez que nos surpreendemos com algo que não foi previsto é como se uma luz acendesse em nossa mente. É por isso que dizemos que algo está claro quando foi aprendido. Em termos neurológicos, essa luz é uma conexão entre neurônios. Essa conexão pode ser fraquinha e se apagar, ou forte o suficiente para ser capaz de mudar a estrutura do cérebro. Portanto, entender como formar conexões e fortalecê-las é melhorar nossa qualidade de ensino. 1.2 O que é neuroplasticidade? Vídeo Nosso cérebro funciona como uma casa: se a cozinha passa a ser usada demais, derrubamos uma parede e deixamos essa peça maior e a sala perde espaço. Se o lavabo não está sendo usado, ele vira de- pósito. Ou seja, se muda nossa realidade, mudam as necessidades e o cérebro rapidamente se ajusta. M ar ad on as _la nd /E nv at o el em en ts M ar ad on as _la nd /E nv at o el em en ts Se experimentarmos usar um par de óculos em que o mundo aparece de ponta cabeça, encontraremos maior dificuldade de andar por aí sem esbarrar nas coisas. Mas se continuarmos com os óculos por algumas horas, logo nos acostumaremos. Se permanecermos por dias, navega- remos pelos ambientes normalmente. O “acostumar” é na verdade toda uma orquestração neural que ocorreu dentro do nosso crânio enquanto nosso cérebro estava se ajustando à nossa nova realidade. Assim, o mundo como o percebemos é apenas a interpretação que o cérebro faz do ambiente. Essa interpretação muda conforme a necessi- dade. Pessoas que perdem a visão são outro exemplo de neuroplastici- dade. Em pouco tempo, outros sentidos passam a ser mais importantes para que elas entendam o que está acontecendo no mundo à sua volta, invadindo a área do cérebro dedicada à visão (chamada de lobo occipital). E assim é com o sistema motor, a audição, a linguagem e outras ca- pacidades: há regiões do cérebro dedicadas a funções específicas que se não forem usadas para tal função são logo aproveitadas de modos diferentes. Nenhuma parte do cérebro, portanto, deixa de ser usada, mesmo nos casos em que perdemos capacidades ou sentidos. Ele logo se ajusta para que tal região assuma outra função. Assim, a afirmação de que somente usamos uma parte do cérebro não passa de mito. O cérebro inteiro é utilizado – e o tempo todo, com diferentes áreas atuando de maneira integrada – em todas as funções. Porém esse ór- gão fantástico se adapta ao que realmente precisamos usar. 2020 Neuroeducação e estratégias de aprendizagemNeuroeducação e estratégias de aprendizagem Introdução à neuroeducação 21 Superando dificuldades Para exemplificar as maravilhas da neuroplasticidade, vamos co- nhecer dois casos que podem influenciar a forma como ensinamos. A canadense Barbara Arrowsmith nasceu com acentuadas assimetrias no corpo e deficiências cognitivas que dificultaram sua vida desde muito pequena. Ela apresentava dificuldades na fala, no raciocínio espacial, além de ter uma deficiência visual e dificuldade de entender noções de causa e efeito, o que a impossibilitava de compreender as informações verbais e os conceitos matemáticos, mesmo aqueles simples, como maior e menor. Porém, ela utilizou sua capacidade de memorização e de observação e entendimento de sinais não verbais para decorar o conteúdo acadêmico de modo a conseguir galgar todos os degraus que a levaram a se formar em educação. Recém-formada, ela encontrou um artigo científico sobre plasticidade cerebral e fascinada pelo que havia descoberto, decidiu que modificaria seu próprio cérebro. Começou exercitando relações simbólicas. Então, elaborou uma série de exercícios a partir do relógio de ponteiros. Iniciou com horas e minutos antes de acrescentar o ponteiro de segundos. Depois, ela adicionou o de sexagésimos de segundo, o de dias e assim foi até que, dentro de algumas semanas, lia relógios com dez ponteiros. Paralelamente à aquisição dessa habilidade, Barbara percebeu que estava entendendo melhor o que lia. O mundo começou a ganhar mais sentido. Barbara, entusiasmada com sua própria evolução, abriu uma escola para trabalhar transtornos de aprendizagem, e até hoje colhe excelentes resultados entre os alunos de diversas regiões do mundo que fazem seu programa. 1º Caso O 1º Caso é contado no livro O cérebro que se transforma (2011), do escritor canadense Norman Doidge. A americana Barbara Oakley era extremamente tímida e, apesar de ótima aluna em línguas, apresentava grande dificuldade em entender os conceitos lógico-abstratos. Achava-se incapaz de aprender ciências ou matemática. Em uma jornada parecida com a de Arrowsmith, depois de graduada, ela decidiu que superaria seus bloqueios e passou a estudar de maneira intensiva e autodidata, aproveitando a vantagem do cérebro maduro: a metacognição 2 . Assim como sua xará canadense, ela partiu de suas próprias dificuldades para observar a forma como aprendia melhor, de modo a desenvolver uma série de técnicas de estudo. Graduou-se em engenharia, um feito jamais sonhado por quem fugia do monstro indecifrável quea matemática era para ela, e atualmente ajuda professores do mundo inteiro com suas pesquisas sobre como o cérebro aprende, cujos resultados são narrados em livros de sua autoria, como o Aprendendo a aprender para crianças e adolescentes (2019). Capacidade de prestar atenção nos próprios pro- cessos mentais ao exercer uma tarefa cognitiva e au- tomonitorar a aprendiza- gem (por exemplo, lendo novamente o parágrafo ao dar-se conta de que faltou atenção). 2 2º Caso Se não temos a mesma capacidade de absorção de informações e adaptação das crianças, em nosso favor temos a consciência de como Na palestra The Woman Who Changed Her Brain : Barbara Arrowsmith Young at TEDxToronto, a diretora da Arrowsmith School fala das descobertas neurocientíficas a respeito da neuroplasticidade e do seu trabalho no desenvol- vimento de capacidades em estudantes com dificuldades cognitivas. Disponível em: https://www.youtube. com/watch?v=oKds1vlxOVA. Acesso em: 30 nov. 2022. Vídeo https://www.youtube.com/watch?v=oKds1vlxOVA https://www.youtube.com/watch?v=oKds1vlxOVA 22 Neuroeducação e estratégias de aprendizagem e de quanto estamos aprendendo, além, é claro, da determinação. Te- mos mais ferramentas neurológicas que nos permitem analisar nossos próprios processos cognitivos. Mesmo não sendo o sistema educacional em geral voltado ao de- senvolvimento da metacognição, essa é a capacidade que melhor pre- para os alunos para serem aprendizes ao longo de toda a vida. Assim, desde cedo, temos a chance, como educadores, de desenvolver neles as habilidades necessárias para aprenderem de maneira autônoma e eficaz. Informações entregues sem relação emocional com os alunos, sem engajá-los na aprendizagem e sem a necessidade de utilização cons- tante – seja na vida prática, seja em projetos acadêmicos – são descar- tadas pelo cérebro, que funciona no sistema “use ou perca”. Esse fato sozinho, se fosse considerado, já deveria servir para uma mudança no sistema educacional fundamentado na memorização de um conteúdo desinteressante e que o cérebro considera indigno de ser preservado na memória. Assim, grande parte do tempo passado na escola é simplesmente desperdiçada. Apesar disso, o sistema focado na quantidade de conteúdo – e não na forma como ele é entregue – sobrevive, e as crianças sobrevivem a ele. As que vão bem muitas vezes nem questionam a forma como são ensinadas. Porém, as que não se adaptam, como os casos apresenta- dos, por vezes se revoltam e decidem fazer diferente. E assim são concebidas as melhores formas de ensinar e apren- der – aquelas que trazem a possibilidade de um sistema mais eficaz de ensino, com base na observação de como nosso cérebro assimila e memoriza novas informações; um sistema que desenvolve habi- lidades que servirão para toda a vida: a curiosidade, a criatividade, o pensamento crítico, o raciocínio lógico e a capacidade de adquirir qualquer conhecimento sem se intimidar diante do material, com confiança e entusiasmo. Portanto, não temos como falar de neuroeducação sem falarmos das dificuldades cognitivas, pois parte daquilo que sabemos sobre plasticidade cerebral e formas eficazes de ensino, investigadas pela neurociência, deriva das necessidades que surgem quando a apren- dizagem encontra desafios. O livro É assim que aprendemos: por que o cérebro funciona melhor do que qualquer máquina (ainda…) do neurocientista francês Stanislas Dehae- ne, foi lançado depois do encontro com um menino brasileiro cego e preso em um leito de hospital. A obra aborda a incrível capacidade de aprendiza- gem do cérebro, mesmo em circunstâncias pouco favoráveis. DEHAENE, S. Rio de Janeiro: Contexto, 2022. Livro Introdução à neuroeducação 23 Definição de plasticidade cerebral Com base nos casos apresentados das mulheres que desenvolveram formas de superar dificulda- des, procure elaborar uma definição de plastici- dade cerebral. m en ta lm in d/ Sh ut te rs to ck O termo plasticidade para descrever o cérebro foi cunhado pelo fi- lósofo e psicólogo William James, considerado o pai da psicologia cogni- tiva. Isso porque ele associou as propriedades do órgão às do plástico, material que pode ser moldado. O plástico, ao ser moldado, mantém a nova forma, da mesma maneira como cérebro mantém as mudanças profundas em sua conectividade. A diferença é que o cérebro se remo- dela de maneira constante ao longo da vida. E o que o remodela? Não são todas as experiências e interações, como muito ouvimos por aí. Para haver a neuroplasticidade, ou seja, para o cérebro realmente sofrer mudanças profundas e permanentes, é necessário haver aprendizagem e a consolidação dela. Assistir a uma palestra cujo conteúdo pode ter nos motivado momentaneamente não vai fazer o cérebro mudar. No entanto, se algum ensinamento nos cha- mou atenção, ele nos levará a uma mudança de hábito. Sendo assim, podemos dizer que plasticidade cerebral é a capaci- dade do cérebro de se reconfigurar a cada aprendizagem. Isso quer dizer que as experiências significativas, aquelas que o cérebro consi- dera importante, levam a conexões neurais profundas e permanentes, modificando e tornando mais eficiente a forma como interpretamos os estímulos e interagimos com o mundo. 24 Neuroeducação e estratégias de aprendizagem As conexões neurais O que queremos dizer com conexões neurais? Um princípio im- portante da neuroplasticidade é: os neurônios que são ativados juntos são interligados simultaneamente. Essa comunicação é cha- mada de sinapse e ocorre por meio de sinais eletroquímicos. O im- pulso nervoso percorre o axônio 3 de um neurônio, conectando-o aos dendritos de outro, conforme podemos ver a seguir. Figura 4 Neurônios gr ay ja y/ Sh ut te rs to ck Dendritos Sinapses Axônio Individualmente, portanto, os neurônios não servem para nada. É preciso que eles se conectem uns aos outros para que nos façam pen- sar – seja consciente ou inconscientemente. Isso significa que todas as funções do cérebro dependem da transmissão de informações. Esse fluxo de informações forma uma rede neural de aproximadamente 100 trilhões de conexões, formadas por cerca de 80 bilhões de neurônios. Tudo o que nosso cérebro sabe está registrado nessa rede de cone- xões. Porém é possível o cérebro saber de coisas que não sabemos? Uma grande parte dessa conectividade se refere a experiências que foram registradas, mas que não recordamos. Fatos que ocorreram quando éramos crianças, apesar de terem sido esquecidos, ajudaram a formar o nosso mapa interno do mundo, influenciando na forma como reagimos aos estímulos. Estão todos guardados em nosso inconsciente. Axônio, aquela parte mais prolongada do neurônio, é como se fosse uma fibra ótica, responsável por conduzir impulsos nervo- sos, ou seja, por transmitir informações de uma célula para outra. Ele é envolvido por uma substância que funciona como isolante elétrico, que garante velocidade na transmissão de informações: a bainha de mielina. Já dendritos são numerosas extensões de neurônios responsá- veis pela recepção dos estímulos, ou seja, coletam informações que vêm de outros neurônios ou de outras partes do corpo. 3 Pa ril ov /S hu tte rs to ck As sinapses ocorrem a cada vez que recebemos e interpretamos um estímulo novo. No entanto, a maior parte delas acaba se apagando do cérebro. Para que haja plasticidade, ou seja, uma mudança permanen- te na conectividade do cérebro – leia-se aprendizagem –, as conexões devem ser fortalecidas. 1.3 A cognição social – por que a aprendizagem depende do meio social Vídeo Não podemos falar de aprendizagem sem falar de interações so- ciais. O maior volume no neocórtex humano, que nos permite racioci- nar de maneira muito mais complexa que outros animais, é, ao mesmo tempo, a causa e a consequência da nossa rica interatividade social. Isso quer dizer que um cérebro com maior desenvolvimento em re- giões de alta demanda cognitiva nos permitiu criar vínculose viver em sociedade. Ao mesmo tempo, foram os vínculos sociais que nos possi- bilitaram desenvolver um cérebro tão complexo. Atualmente, para estudarmos cientificamente situações com inú- meras variáveis, como ocorrem nas interações sociais, usamos uma tecnologia chamada Agent-Based Modeling, que simula várias possibi- lidades de ações e interações. Nos estudos de Dávid-Barrett e Dunbar (2013) foi concluído que quanto maior o grupo com a qual uma espécie convive, mais desenvolvido é o seu cérebro. Outros estudos a partir de neuroimagens de humanos e macacos apontaram a correlação do tamanho de determinadas regiões do cére- bro, especialmente aquelas dedicadas à linguagem, com o tamanho do grupo com o qual a espécie convive indican- do que a necessidade de comunicação impulsionou de modo muito significativo a evolução da espécie humana. A interação com mentes tão diferentes, com rea- ções e comportamentos imprevisíveis, requer o uso de recursos mentais sofisticados, como o raciocí- nio lógico e a linguagem. Nossa inteligência muito se deve à necessidade de desenvolvermos habili- dades de prevermos reações e procurarmos en- tender o que o outro está sentindo e pensando. Introdução à neuroeducação 25 26 Neuroeducação e estratégias de aprendizagem Entre as habilidades cognitivas relacionadas ao sucesso das interações sociais estão os processamentos de informações visuais, de memorização de informações sobre os membros do grupo, das emoções, e a manipula- ção de informações conforme as expectativas sociais. O social e o biológico Em seus estudos sobre o desenvolvimento infantil, Jean Piaget destacou o papel dos processos biológicos pré-programados que são envolvidos na aprendizagem. Antes disso ser traduzido para uma lin- guagem neurocientífica, ele defendia que a criança, para aprender, pre- cisa estar pronta. Ou seja, a aprendizagem depende da maturidade, uma combinação de processos biológicos predeterminados, além da interação com o ambiente. Hoje podemos afirmar que a questão biológica a que ele se referia está relacionada à maturação de determinadas áreas do cérebro, o que ocorre à medida que elas vão se mielinizando. A mielinização é o processo de formação da camada de mielina envolvendo os axônios, o que permite velocidade ao impulso ner- voso. Esse processo é responsável pelo grande aumento do volume cerebral nos primeiros anos de vida, ou seja, é mais intenso na in- fância, ocorrendo em determinadas áreas – como o córtex pré-fron- tal responsável, entre outras coisas, pelo controle dos impulsos – ao longo de toda a adolescência. Figura 5 Processo de mielinização m ad i7 77 9/ En va to e le m en ts Introdução à neuroeducação 27 O desenvolvimento humano é uma combinação entre biologia e intera- ção com o ambiente, desde a fase em que a criança explora as proprieda- des físicas do ambiente e ganha mais autonomia sobre seus movimentos até a adolescência, quando é capaz de construir hipóteses e teorias. Essas fases foram divididas por Piaget em quatro diferentes estágios: o sensório- -motor, o pré-operatório, o operatório concreto e o operatório-formal. Apesar de Piaget ter apontado as interações entre as crianças como necessárias para as reflexões lógicas, o papel das relações teve maior destaque no trabalho de Vygotsky (1979), que adiciona um elemento fundamental a essa combinação de fatores necessários à aprendiza- gem: o contexto social e cultural. Enquanto Piaget defendia que a criança se torna um ser social de maneira progressiva, abandonando gradativamente o egocentrismo à medida que constrói capacidade de julgamento moral, para Vygotsky, também estudioso do desenvolvomento infantil, os ganhos cognitivos não ocorrem paralelamente, mas a partir das relações sociais. Para ele, o desenvolvimento ocorre primeiramente em nível social (interpsicológico) para somente depois ocorrer em nível individual (in- trapsicológico). Dessa forma, “todas as funções mentais superiores ori- ginam-se das relações entre indivíduos” (VYGOTSKY, 1991, p. 41). Entre essas funções estariam a atenção voluntária, a lógica e a formação de conceitos. O raciocínio psicológico e o sociomoral Podemos dividir a cognição social entre raciocínio psicológico e ra- ciocínio sociomoral. O primeiro está relacionado às nossas expectati- vas com relação ao comportamento dos outros e muitas vezes ocorre de modo inconsciente. É quando, por exemplo, uma criança vê uma pessoa correndo em direção a uma piscina: ela antecipa que essa pessoa vai se jogar na água. Se essa pessoa escorregar e cair antes de cumprir seu objetivo, a criança antecipa que a pessoa sentirá dor, talvez chore, se também for criança. É esse tipo de raciocínio que está relacionado à intencionalidade: a consciência que a criança desenvolve com relação à intenção do outro com base em gestos, expressões e ações. Inferir as intenções alheias faz parte de uma habilidade humana que conhecemos como 28 Neuroeducação e estratégias de aprendizagem teoria da mente: imaginar não apenas o que o outro pretende, mas como está sentindo, o que está pensando e como está julgando são competências que pertencem ao âmbito do que chamamos de inteli- gência ou cognição social. Alguns estudos fundamentados na observação do comportamento de macacos concluíram que eles apresentam intencionalidade de se- gunda ordem, por exemplo, sabem que outro macaco não sabe que há uma comida guardada em determinado local. Já para os humanos essa capacidade é bem mais complexa: sabemos que o outro sabe uma informação, mas também que não sabe que nós sabemos. É perto dos quatro anos de idade que as crianças ganham consciência de que as pessoas podem ser enganadas, fazendo falsas suposições. Se alguém troca um brinquedo de lugar enquanto uma criança sai da sala, a que ficou saberá que, quando o colega voltar, procurará o brinquedo no lugar errado. Ela começa a apresentar a capacidade de questionar um padrão de pensamento: de que os outros sabem daquilo que eu sei. Já o raciocínio sociomoral é voltado à capacidade de fazer julga- mentos dos atos dos outros como certos ou errados, justos ou injustos, em favor ou em desacordo com os interesses de um grupo. É esse tipo de raciocínio que possibilita tanto o cumprimento como o questiona- mento de regras, ações colaborativas e respeito aos colegas. Crianças com menos de dois anos já demonstram certa noção de injustiça em estudos comportamentais e desde muito cedo já parecem entender o princípio da reciprocidade. De acordo com o neurocientista Michael Gazzaniga, as emoções positivas relacionadas à reciprocidade e as negativas relacionadas a injustiças, inclusive alheias, permitem que as sociedades operem de maneira predominantemente honesta. A capacidade de fazer julgamentos morais é construída em relações com adultos, mas praticada mais intensivamente na convivência com colegas. Isso porque nessas situações podem aplicar princípios da re- ciprocidade e respeito em vez de apenas seguir regras impostas por uma autoridade. Isso ocorre de modo natural, pois somos uma espécie social por na- tureza, que se desenvolveu não a partir da dominância ou competição, como em outras espécies, mas da colaboração. Introdução à neuroeducação 29 O papel do outro na autorregulação Quando falamos de autorregulação – capacidade de monitorar o comportamento, emoções e cognição para alcançar um objetivo –, estamos falando de uma série de habilidades que se desenvolvem ao longo da infância, sobretudo com base nas interações sociais. Nesta subseção daremos enfoque à autorregulação social, experiência em que as crianças passam a engajar a partir dos três anos de idade, quan- do começam a criar formas de pensamento autorreflexivas e estrutura- das de maneira normativa, impulsionadas sobretudo pela necessidade de alcançar êxito na comunicação e para manter sua identidade coope- rativa em um grupo. A autorregulação social é unicamente humana. Nela, segundo o neurocientista MichaelTomasello (2019, p. 32), que estuda o desenvol- vimento cognitivo infantil, “o indivíduo se apropria de perspectivas e de valores dos outros para usar como um padrão no processo autorregu- latório”. Assim, Presumivelmente, as crianças estão imaginando ou simulando o julgamento de valor que o colega fará e executivamente au- torregulando o comportamento de acordo. Além disso, às vezes as crianças pequenas autoregulam seus atos comunicativos ao escolher de forma cuidadosa uma formulação que irá facilitar a compreensão por parte do receptor. (TOMASELLO, 2019, p. 62) 4 De acordo com Tomasello (2019), os três anos são uma idade de certa forma revolucionária. É quando a criança deixa de interagir fun- damentalmente com adultos e passa a aprender regras sociais na prá- tica, na interação colaborativa entre colegas, ou seja, nas brincadeiras. São as outras crianças que ajudam a regular todas as habilidades so- cioemocionais, a estimular o raciocínio e a linguagem, que, assim como defendia Vygotsky (1979), são desenvolvidos de fora para dentro: a par- tir das interações, para somente depois fazerem parte do pensamento. Por isso, a mais importante função da escola nas etapas iniciais de desenvolvimento não é a transmissão de conhecimento, e sim a pro- moção da interação com professores e entre colegas. Em situações trabalhadas em conjunto, crianças tendem a flexibili- zar os padrões de pensamento e a praticar o discurso argumentativo de modo mais livre do que quando estão interagindo com adultos. Nas Presumably, children are imagining or simulating the value judgment that the peer will make and executively self-regulating their behavior accordingly (so-called impression management). Second, sometimes young children executively self-regulate their communicative acts by carefully choosing a formulation that facilitates listener comprehension. 4 30 Neuroeducação e estratégias de aprendizagem interações com colegas elas são levadas a adquirir a noção de respon- sabilidade e de respeito aos outros, comprometendo-se a fazer sua par- te, a cumprir sua promessa e a esperar que os amigos façam o mesmo. É perto dos três anos que as crianças se tornam capazes, por exem- plo, de protestar caso alguém não cumpra uma promessa – o que acon- tece quando são inseridas em um grupo – ou de sentir culpa quando descumprem uma regra social. Ou seja, as interações tanto com adul- tos quanto com colegas são fundamentais para a construção de ha- bilidades mentais relacionadas à convivência social, a começar pela autorregulação das ações. Assim, as crianças com menos de três anos estão preparadas para exigir cuidados e atenção dos adultos, enquanto depois dessa idade elas estão preparadas tanto para aprender culturalmen- te a partir da pedagogia do adulto quando para desenvolver novas habilidades por meio da interação com outras crianças. (TOMASELLO, 2019, p. 20) 5 As crianças vêm ao mundo com o aparato biológico para desen- volverem competências complexas, como a linguagem e a capacidade de se adaptarem às expectativas do grupo, mas dependem do meio social para as desenvolverem. Para isso, é necessário respeitarmos o momento adequado sem forçar ou atrasar o nível de maturidade do cérebro para a aquisição de cada habilidade. 1.4 O que são as funções executivas Vídeo Nos diálogos, na construção e no cumprimento das regras sociais, nas trocas de papéis e de funções são formadas competências básicas, como o controle do impulso e a regulação emocional, a empatia, a mudança de perspectiva, o senso de reciprocidade e justiça, a comunicação eficaz e, mais tarde, o raciocínio moral. Essas habilidades, fundamentais para o bom convívio social, estão direta ou indiretamente relacionadas a um con- junto de capacidades que conhecemos como funções executivas (FE). As FE são as últimas a se desenvolverem e as primeiras a serem afetadas pelo envelhecimento. Isso porque envolvem a parte do cé- rebro que mais demora a amadurecer, ou seja, a se mielinizar: o córtex pré-frontal – região que nos diferencia como espécie e nos possibilita planejar e ter mais controle sobre nossas ações em rela- ção a outras espécies. children before the age of three are mainly adapted for eliciting care and attention from adults, whereas after age three they are prepared for both culturally learning from adult pedagogy as such and developing new skills through coordinative interactions with peers. 5 D av id P ra do P er uc ha /S hu tte rs to ck D av id P ra do P er uc ha /S hu tte rs to ck Vale destacarmos que essa região – a mais recente do cérebro na linha evolutiva, bem como a mais vulnerável – não cumpre sozinha to- das as tarefas mentais conhecidas como superiores. Isso porque o cé- rebro funciona sempre com base na colaboração entre as diferentes partes, que executam funções de maneira complementar. Porém uma lesão nessa área certamente afetaria nossa conduta social e aquilo que chamamos de personalidade. Não existe uma definição única sobre quais são as funções execu- tivas, mas podemos dizer que são elas que nos possibilitam prosperar como indivíduos e como sociedade, sendo cruciais para a saúde mental e física, o sucesso nos estudos e na vida e o desenvolvimento social, psicológico e cognitivo. Apesar de autores diferentes darem mais ou menos destaque para determinadas habilidades, é quase impossível falarmos de FE sem citarmos o controle inibitório – a capacidade de suprimir os impulsos e pensar antes de agir ou reagir desenvolvida ao longo da infância e da adolescência. Essa competência abrange desde o controle das reações até as res- postas aos estímulos. Dessa forma, está relacionada tanto à conduta social quanto às habilidades cognitivas básicas, como o domínio so- bre a atenção. Está envolvida em situações que requerem resistência a tentações, como comidas, jogos, compras e outros vícios. Logo, o de- senvolvimento da autodisciplina é necessário para um maior ganho de controle sobre os impulsos em geral. Introdução à neuroeducaçãoIntrodução à neuroeducação 3131 32 Neuroeducação e estratégias de aprendizagem Essa capacidade de inibir reações automáticas, de não ceder a impulsos governados por emoções desorganizadas, é fortemente de- pendente do meio social para se desenvolver, o que ocorre durante toda a infância e na adolescência. Por envolver o córtex pré-frontal, o controle sobre os impulsos pode ser, entre jovens, incompatível com sua capacidade cognitiva. Isso faz com que eles demonstrem, muitas vezes, falta de maturidade ou, como costumamos dizer, falta de juízo. Para trabalharmos essa questão, jogos e esportes sempre trazem a necessidade de esperar a vez e respeitar as regras. Por isso estão entre as formas mais eficazes de trabalhar o controle inibitório mesmo em crianças bem pequenas. Outro exemplo de atividade que trabalha essa habilidade entre os pe- quenos é a das orelhinhas e boquinhas, desenvolvida pela pesquisadora e neurocientista canadense Adele Diamond, especialista no estudo de funções executivas: as crianças se sentam em um círculo e a professora lança uma pergunta, após distribuir para cada uma o desenho de uma orelhinha, que devem segurar enquanto escutam o colega. Em seguida, uma das crianças recebe o desenho de uma boquinha, que ela deve segurar enquanto está falando. Depois troca com outra criança que falará, passando a segurar o desenho da orelha. É uma forma de tornar mais concreta e consciente a necessidade de saber escutar os colegas, segurando o impulso de falar. Na prática De acordo com Diamond (2013), além do controle inibitório, as prin- cipais capacidades que formam esse conjunto são: controle de interfe- rência, memória de trabalho e flexibilidade cognitiva. O controle de interferência é a capacidade que inclui domínio so- bre a atenção e inibição cognitiva. Esse tipo de inibição, mais sofistica- da que o controle inibitório básico, envolve o controle e a seleção de informações e pensamentos.Para isso, é essencial o desenvolvimen- to de outra função executiva, a memória de trabalho, uma vez que é necessário reter as informações na mente para selecionar aqueles que serão úteis para nós. Já a memória de trabalho está fortemente correlacionada à aten- ção e é considerada uma função executiva por envolver mais o cór- tex pré-frontal, especificamente na área dorsolateral. É a memória que utilizamos para compreender e manipular informações – sejam Introdução à neuroeducação 33 verbais ou viso-espaciais. Isso inclui, por exemplo, manter informa- ções do início de um parágrafo em mente para compreender a se- quência do texto. Envolve também a manipulação de números em um cálculo mental. Por fim, a flexibilidade cognitiva é a capacidade de mudar de estratégia e adaptar-se a novas situações. Um dos grandes diferen- ciais humanos é nos permitir reestruturar as informações na mente, mudar de ideia, rever nossas crenças, aprender com erros e adap- tar-nos a mudanças, além de enxergar as situações sob a perspec- tiva do outro, o que faz dessa habilidade tão importante para as relações sociais. Está também fortemente ligada à criatividade, uma vez que soluções inovadoras são resultado da capacidade exclusiva- mente humana de fazer associações não convencionais, procurando caminhos alternativos às soluções padrão. Todas as FE estão interligadas. A flexibilidade cognitiva, por exemplo, depende de outras para se desenvolver, como a memória de trabalho e o controle inibitório. Crianças entre os sete e os nove anos mostram-se prontas para atividades e jogos que exigem mudanças rápidas de foco ou de re- gras. A partir dessa faixa etária, portanto, podemos promover ati- vidades em grupo em que regras são constantemente invertidas, por exemplo. De uma forma menos direta, a flexibilidade cognitiva também é trabalhada em ambientes acadêmicos que promovem atividades in- terdisciplinares e apresentam o conteúdo de maneiras diferentes e criativas, com mudanças de perspectivas. Como ajudar no desenvolvimento das FE As funções executivas são dependentes do direcionamento consciente da atenção, sendo uma das nossas capacidades mais fa- cilmente afetadas por problemas externos ou desequilíbrios emo- cionais e físicos. Isso significa que o trabalho de desenvolvimento dessas fun- ções é mais eficaz quando o ambiente proporciona segurança e apoio emocional, conforme podemos ver na Figura 6. 34 Neuroeducação e estratégias de aprendizagem Figura 6 Segurança emocional Como é um ambiente que traz segurança emocional e estimula o desenvolvimento de funções executivas? Promova movimento e atividades esportivas O sono, os exercícios físicos e fatores como hidratação e alimentação também estão diretamente relacionados com o desempenho cognitivo. É importante, portanto, assegurar-se de que as crianças tenham tempo para se exercitar dentro do ambiente escolar. Além do trabalho com o corpo, os esportes trazem uma série de regras e, assim, de maneira lúdica, trabalham o respeito, a capacidade de esperar a vez e de saber perder – ou seja, contribuem fortemente para o desenvolvimento do controle inibitório e da atenção. Permita o erro Se estamos falando de sala de aula ou mesmo consultórios, um ambiente que traga segurança permite às crianças e aos jovens arriscarem e errarem à vontade, sem medo de caras feias ou algum tipo de penalização. Promova atividades contemplativas Ajudar estudantes a alcançarem melhor desempenho significa ir muito além dos conteúdos do currículo básico e investir em atividades que, apesar de serem consideradas não acadêmicas, trabalham as funções executivas. Artes, danças, músicas, esportes, artes marciais, contação de histórias, meditação e jogos são algumas das práticas que conciliam todas essas necessidades. Jogos nunca são perda de tempo Muitas vezes escolas se precipitam em alfabetizar crianças em idade pré-escolar, ou focam apenas no conteúdo acadêmico ao invés de promover atividades lúdicas e esportivas que trabalham o controle dos impulsos, ensinando a esperar antes de responder ou agir. Não à toa a educação se volta cada vez mais à gamificação, ou seja, aos jogos, por envolverem mais motivação, trabalho em equipe, colaboração, compreensão e cumprimento de regras. Fonte: Elaborada pela autora. Ensine empatia Uma forma de desenvolver a autorregulação é trabalhar a empatia, o que pode ser feito por meio de histórias, trabalho com vocabulário emocional e escuta empática por parte do adulto que comanda o grupo. Empatia é ensinada tanto de maneira direta como por meio de exemplos. Infelizmente a maior parte das instituições de ensino prioriza o con- teúdo acadêmico sobre essas atividades tão importantes para os âm- bitos social, emocional e físico. Sua utilização nas salas de aulas pode refletir de maneira significativa, mesmo que indiretamente, no desem- penho acadêmico das crianças e dos adolescentes. CONSIDERAÇÕES FINAIS Uma vez que educadores compreendem como o cérebro recebe e processa as novas informações, passam a planejar e ministrar suas aulas de maneira que elas transmitam muito mais que o conteúdo. A neuroedu- cação nos ajuda a ensinar a aprender. Isso significa tornar o aluno capaz de adquirir qualquer conhecimento durante toda a vida com confiança e entusiasmo, sem se intimidar diante do material. Introdução à neuroeducação 35 Isso começa com a consciência de que o cérebro precisa se surpreen- der, errar, tentar novamente, repetir a informação; de que precisa intera- gir, confiar e estar inserido em um ambiente repleto de estímulos. Tudo isso com adaptações muitas vezes simples na maneira como ensinamos. ATIVIDADES Atividade 1 Qual é a relação dos processos de associação e acomoda- ção de Piaget com a forma como o cérebro registra um novo conhecimento? Atividade 2 Qual é a vantagem de o cérebro ser plástico? Atividade 3 Qual é a relação entre a vida em sociedade e o desenvolvimento do cérebro humano? Atividade 4 Qual é a relação da mielinização com a maturidade da criança para desenvolver determinadas habilidades? Atividade 5 Por que as crianças necessitam de interações entre colegas? 36 Neuroeducação e estratégias de aprendizagem REFERÊNCIAS BARRETT, L. F. Sete lições e meia sobre o cérebro. Lisboa: Temas e Debates, 2022. DÁVID-BARRETT, T.; DUNBAR, R. I. M. Social elites can emerge naturally when interaction in networks is restricted. Behavioral Ecology, v. 25, n. 1, p. 58–68, out. 2013. BOALER, J. Mente sem barreiras: as chaves para destravar seu potencial ilimitado de aprendizagem. 1. ed. Porto Alegre: Penso, 2019. DEHAENE, S. É assim que aprendemos: por que o cérebro funciona melhor do que qualquer máquina (ainda…). 1. ed. São Paulo: Contexto, 2022. DIAMOND, A. Executive Functions. Annual Review of Psychology, v. 64, p. 135-168, jan. 2013. DOIDGE, N. O cérebro que se transforma: como a neurociência pode curar as pessoas. 16. ed. Rio de Janeiro: Record, 2011 EAGLEMAN, D. O cérebro: uma biografia. 1. ed. Rio de Janeiro: Rocco, 2017. EAGLEMAN, D.; BRANDT, A. Como o cérebro cria. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2020. TOMASELLO, M. Origens culturais da aquisição do conhecimento humano. 2. ed. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2019. VYGOTSKY, L. S. Pensamento e linguagem. Trad. de M. Resende. Lisboa: Antídoto, 1979. VYGOTSKY, L. S. A formação social da mente. 4. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1991. Atenção e criatividade 37 2 Atenção e criatividade O cérebro é uma máquina de fazer previsões, e para que sejam as- sertivas, ele precisa dar sentido ao mundo; isso é o que fazemos quando somos surpreendidos com algo que não conseguimos prever, ou seja, quando aprendemos. Só existe aprendizagem, em qualquer nível, quando há atenção. Os estímulos que processamos são gravados no cérebro em forma de co- nectividade neural. E para que exista comunicação entre neurônios, é preciso atenção. Neste capítulo, entenderemos melhor como funciona essa capaci- dade cognitiva tão básicae como podemos ganhar mais controle sobre ela. Começamos falando sobre os diferentes tipos de atenção e como podemos exercitá-los. Seguimos com informações sobre como essa capacidade se desenvolve no cérebro e sua relação com criatividade. Com o estudo deste capítulo, você será capaz de: • conhecer os diferentes tipos de atenção; • entender como a atenção concentrada é desenvolvida no cérebro; • entender a atenção difusa e sua relação com a criatividade; • conhecer as estratégias que podem ser aplicadas em sala de aula ou atendimentos individuais para exercitar a atenção; • conhecer algumas estratégias que estimulam a criatividade. Objetivos de aprendizagem 38 Neuroeducação e estratégias de aprendizagem 2.1 Afinal, o que significa prestar atenção? Vídeo Tente responder à pergunta do título da seção antes de prosseguir a leitura. Após a leitura da seção revisite sua resposta e compare com a relação de novos conceitos assimilados por você. Todos sabemos o que significa “prestar atenção”. Mas será que é fácil explicar? Como você definiria essa capacidade cognitiva tão fundamental para a aprendizagem? Que tal tentar definir esse con- ceito antes de prosseguir?Atenção é: m en ta lm in d/ Sh ut te rs to ck Como você deve ter percebido, definir essa capacidade não é tão fácil como parece. E controlar a atenção é ainda mais difícil. Mas é pos- sível, a começar por entender melhor sobre esse processo. Para definir a atenção, pediremos ajuda para William James (2017), considerado pai da psicologia cognitiva. Segundo ele, a atenção tem como essência a focalização, a concentração e a consciência e ocorre quan- do a mente assume o controle de um assunto ou pensamento específi- co, em detrimento de outros, “retirando” certas informações para que se possa lidar com outras de forma eficaz. A atenção é, ao mesmo tempo, nosso recurso cognitivo mais básico e importante, mas também o mais vulnerável. Ou seja, de preocupa- ções a excesso de estímulos (que na era digital em que vivemos é algo inevitável), passando pela falta de qualidade sono, qualquer desequilí- brio em nosso estado emocional e físico afeta a atenção. Para entender o que na prática queremos dizer com “prestar aten- ção”, imagine que você chega em um ambiente onde nunca esteve, re- Atenção e criatividade 39 cebe várias informações sobre o espaço, as pessoas, a luminosidade, cores, músicas e vozes. Será que você está atento a tudo isso? Na verda- de, a maior parte das informações que chegam aos seus sentidos escapa da sua consciência. Apenas uma parte é de fato processada, isto é, você olha e sabe o que está vendo, você escuta e sabe o que está ouvindo. Para entender o que está acontecendo, você precisa escolher em que prestará atenção e ignorar o restante dos estímulos à sua volta. Prestar atenção, portanto, é saber selecionar o estímulo relevan- te e ignorar os demais. Em outras palavras: atenção é a organização dos estímulos – uma definição dada pelo neurologista russo Alexandre Lúria, considerado o pai da neuropsicologia. É um processo não apenas excitatório, como também é inibitório. Você precisa inibir o impulso de deixar que todos os estímulos atraiam a sua atenção fazendo com que ela pule de um canto a outro. Dessa forma, o controle inibitório é, em um nível muito básico, ne- cessário para o sustento da atenção. Essa capacidade é desenvolvida ao longo da infância e pode ser controlada ao longo da vida. A seguir, vere- mos como. Como desenvolvemos a atenção Quando nascem, as crianças têm o que Lúria (1981) chamou de re- flexo instintivo: voltam a atenção a estímulos que se destacam, mas sem conseguir sustentá-la por muito tempo. Nos primeiros meses de vida, esses estímulos são muito desorganizados. Os bebês não sabem o que é importante ou não. Formam muitas conexões neurais fracas e inúteis, como um mapa confuso, repleto de ruas sem saída, estradi- nhas que dão em lugar nenhum. Quando a criança começa a organizar e categorizar melhor os estímulos, as estradas principais vão sendo re- forçadas caso se mostrem importantes. Tudo é novo nesse início de construção de um modelo mental do mundo. Por isso passam de um estímulo a outro sem sustentar a aten- ção. Assim, o cérebro do bebê é como um rádio que capta qualquer sinal, mas nenhum é muito nítido, são só ruídos sem sentido, mas que representam possibilidades. A sintonização em uma determinada fre- quência vai aprimorando à medida que vai sendo mais e mais acessa- da, e os sinais mais fracos vão se apagando. 40 Neuroeducação e estratégias de aprendizagem Dessa forma, quando a criança atinge os dois anos de idade, seu cérebro apresenta densidade sináptica, ou seja, cerca de 50% mais sinapses que um adulto, atingindo um pico. Dessa forma, elas têm mais conexões, mas são mais fracas. A partir dessa idade ocorre uma grande transformação no cérebro: é o que chamamos de poda sináptica. Como o nome sugere, as sinapses – ou conexões – mais fracas são podadas, desaparecendo. A criança começa reforçar os sinais mais usados, desenvolvendo um modelo mais funcional do seu mundo, um mapa que o permita navegar com uma certa segurança pelo seu terri- tório, mesmo que ainda limitado. Um exemplo disso é como os bebês vêm prontos para distinguir os mais variados sons de qualquer língua. Passados os primeiros anos, o cérebro começa a fazer uma limpa, eliminando aquilo que não é usado e reforçando o que é. A criança vai perdendo a capacidade de distinguir entre sons semelhantes que não fazem parte do leque fonético de sua língua materna à medida que reforça as vias mais usadas. Claro que conseguimos aprender línguas ao longo de toda a vida – ta- refa que é bem mais fácil entre crianças e adolescentes. Mas a distinção entre certos fonemas passa a ser mais desafiadora à proporção que va- mos ficando mais velhos. A poda sináptica ocorre em diferentes partes do cérebro e em di- ferentes fases, começando na área que responde ao processamento visual, com menos de um ano. Por volta dos onze anos, a criança já elimi- nou cerca de 40% das sinapses. Poda sináptica é como em um daqueles desafios de descobrir a ima- gem escondida: uma vez que a enxergamos, reforçamos os contornos, e o restante pode ser ignorado. Lembrando que ao mesmo tempo em que ocorre a poda sináptica, o cérebro passa a estar pronto para aprender muita coisa que antes não fazia sentido. E o que isso significa? Que informações passam a fluir por vias rápidas, que no mundo dos neurônios, como vimos ante- riormente, são formadas por uma camada chamada de mielina, que ajuda na transmissão. Enquanto uma determinada área não está mieli- nizada, a aprendizagem não flui. Podemos comparar essa poda com um texto muito longo e confuso criado para passar uma mensagem direta. Quando ele é editado, tendo Atenção e criatividade 41 suas partes inúteis e repetitivas eliminadas, a mensagem passa a ser mais eficaz. Com a mielinização e a poda sináptica, o cérebro da criança ganha eficiência e, consequentemente, a capacidade de selecionar me- lhor o estímulo no qual quer focar e de sustentar a atenção. Os processos biológicos de maturação do cérebro jamais ocorrem de maneira isolada do ambiente. Dessa forma, a atenção mais arbitrá- ria, que Lúria (1981) chamou de civilizada, desenvolve-se como resul- tado das interações com o ambiente e outras pessoas. As crianças começam a sustentar a atenção a estímulos mais fracos, mas que são socialmente mais relevantes. Ou seja: ao invés de desviar constantemente a atenção, voltando-a a todo o tipo de barulho, por exemplo, à medida que se desenvolvem, elas passam a perceber as vantagens sociais de se compartilhar a atenção – o que chamamos tam- bém de joint attention. É algo essencial para a formação de vínculos da nossa estrutura emocional. Um processo que começa com confiança. Isso quer dizer que nossa cognição, desde sua capacidade mais bá- sica – a atenção –, desenvolve-se no meio social e para isso depende da formação