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Curso FIC: Agente de Desenvolvimento Socioambiental Prof. Dr. Claudiomir S Santos Prof. Dr. Fabricio Santos Rita Disciplina :Educação Ambiental e Sustentabilidade 11 Ciências Biológicas - Bases Ecológicas para o Desenvolvimento Sustentável UNIDADE 1 A necessidade do desenvolvimento sustentável Lílian de Lima Braga 1.1 Introdução Os efeitos causados pela industrialização, crescimento das cidades, desenvolvimento tecnológico, dentre outros, mostram a neces- sidade que há em atingir um equilíbrio entre esse desenvolvimento e o meio ambiente. Esse equilíbrio seria o denominado “Desenvol- vimento Sustentável”. A percepção da necessi- dade desse desenvolvimento sustentável não é característica apenas dos dias atuais. Em nosso curso, é importante que en- tendamos por que é necessário se ter um de- senvolvimento sustentável. Nessa Unidade veremos quando começou a ser usado o ad- jetivo “sustentável”. Além disso, nós veremos também algumas definições do termo “Desen- volvimento Sustentável” e alguns conceitos básicos que estão estritamente ligados a este termo. 1.2 O surgimento do desenvolvimento sustentável A ideia de “sustentabilidade”, antes de ser usada para questionar a qualidade do de- senvolvimento alcançado pelos países avan- çados, pertencia à Biologia. No contexto da biologia, esse termo fazia referência às condi- ções em que a extração dos recursos naturais renováveis poderia ocorrer sem impedimento à reprodução dos respectivos ecossistemas. O adjetivo “sustentável”, de uso extremamen- te restrito até o início da década de 1980, foi então acrescentado ao substantivo “desen- volvimento” (VEIGA, 2005). O conceito de “de- senvolvimento sustentável” foi apresentado formalmente, em 1987, no relatório Nosso Fu- turo Comum, também conhecido como Rela- tório Brundtland, pela Comissão Mundial sobre o Meio Ambiente na Assembléia Geral das Na- ções Unidas (AMARAL, 2003). Existem inúmeras definições de Desen- volvimento Sustentável, elaboradas por dife- rentes setores da sociedade. A Comissão Mun- dial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (CMMAD) define como desenvolvimento sus- tentável: “aquele que atende às necessidades do presente sem comprometer a possibilida- de de as gerações futuras atenderem a suas próprias necessidades” (CMMAD, 1988, p.46). Esse conceito de desenvolvimento foi criado a partir do momento em que se notou que os recursos naturais são escassos e que cada país, individualmente, busca o seu desenvol- vimento sem considerar os possíveis impac- tos que isto causará nos demais (CAVALCANTI 1994). Outra definição bastante conhecida é a de Brundtland em que se lê “É a forma como as atuais gerações satisfazem as suas neces- sidade sem, no entanto, comprometer a ca- pacidade de gerações futuras satisfazerem as suas próprias necessidades” (ESTENDER; PITTA, 2008, p.2). Existem ainda várias outras defini- ções para este conceito, sendo que todas as definições apresentam pontos em comum. En- tretanto, até o momento não foi possível man- ter o foco em apenas uma definição. A figura a seguir (Figura 1) nos ajudará a entender os contrastes entre um Desenvolvi- mento Sustentável e um Desenvolvimento In- sustentável. GLOSSÁRIO: Brundtalnd: Este termo refere-se à Gro Harlem Brundtland, no- rueguesa que naquela época era Presidente da Comissão Mundial sobre Meio Ambiente. PARA SABER MAIS: A discussão sobre os efeitos ecológicos do desenvolvimento eco- nômico antecede ao Relatório Nosso Futuro Comum, e remete pelo menos aos anos 1970 com a publicação da obra “A Lei da entropia e o processo econô- mico”, de Georgescu Roegen (1971), e do relatório “Os Limites do Crescimento”, pelo cha- mado Clube de Roma em 1972. DICA: Para saber mais sobre o Relatório Nosso Futuro Comum, acesse o site: . ATIVIDADE: Qual o objetivo da cria- ção do Relatório Nosso Futuro Comum? 12 UAB/Unimontes - 8º Período Observou-se que as estratégias de de- senvolvimento não poderiam ser totalmente independentes e nem iguais para todos os países. Como assim? Cada país deveria bus- car o seu desenvolvimento baseando-se nas suas peculiaridades, visto que os problemas (ambientais e sociais) que apresentam são di- versos. Por exemplo, pense naqueles países mais ricos: a capacidade e intensidade de ex- ploração dos recursos naturais, na maioria das vezes, supera a capacidade que o ambiente tem de se regenerar. Além disso, o consumo exacerbado baseado na constante renovação de bens leva a um desperdício generalizado. Assim, as futuras gerações irão encontrar um ambiente degradado com grande parte dos recursos esgotados. Ao contrário disso, os países pobres, de- vido a problemas como fragmentação social e pobreza em alto grau, não possuem capacida- de de usufruir os recursos de maneira benéfi- ca. Por conta disso, estes países estão expostos à constante miséria, doenças graves e morte precoce, o que acarreta posteriores problemas que colocam em risco a sobrevivência de suas populações. A partir do que foi exposto acima, criou- -se esse novo conceito de desenvolvimento. Resumidamente, o objetivo básico do Desen- volvimento Sustentável é o equilíbrio entre desenvolvimento econômico, proteção am- biental e uma menor desigualdade social (Fi- gura 2) (SOUZA, 2006). Além disso, antes de tudo, deve-se assegurar a preservação e trans- missão às gerações futuras dos recursos natu- rais. O Banco Mundial, a UNESCO e outras en- tidades internacionais adotaram o conceito de desenvolvimento sustentável para marcar uma nova filosofia de desenvolvimento que com- bina economia, ecologia e política ao mesmo tempo. A B A B Figura 1: Consequências de um (A) Desenvolvimento Insustentável e(B) Desenvolvimento Sustentável. Fonte: Castanheira; Gou- veia, 2004. ► GLOSSÁRIO: UNESCO: é uma sigla que significa literal- mente: United Nations Educational, Scientific, and Cultural Organiza- tion (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura). Esta organi- zação foi criada em 16 de Novembro de 1945 tendo como objetivo contribuir para a paz mundial através da educação, ciência e cultura. Figura 2: Relação entre desenvolvimento econômico, proteção ambiental e uma menor desigualdade social atingindo uma estabilidade, ou seja, a sustentabilidade. Fonte: Disponível em . Acesso em 28.set.2011 ► 13 Ciências Biológicas - Bases Ecológicas para o Desenvolvimento Sustentável Quando se pensa em desenvolvimento sustentável, é necessário considerar não ape- nas os aspectos econômicos, mas tudo que está envolvido com o desenvolvimento, ou seja, os aspectos políticos, sociais, culturais e ecológicos (SILVA, 2006). Esse conceito de de- senvolvimento só atingirá seus objetivos se houver uma sustentabilidade conjunta de seus aspectos. Esse conceito ainda é objeto de muita discussão. Embora as ideias envolvidas na for- mulação desse conceito estejam circulando há muito tempo, é relativamente nova a ideia de que não basta apenas o desenvolvimento eco- nômico para garantir uma boa qualidade de vida por um grande período de tempo. Para garantir a sustentabilidade é necessário in- corporar às políticas públicas os princípios do desenvolvimento sustentável, reverter a perda dos recursos naturais e melhorar a qualidade de vida da população em geral. 1.3 Conceitos importantes e exploração do ambiente versus sustentabilidade Antes de continuarmos falando a respeito desse assunto, devemos ter em mente alguns conceitos básicos que estão estritamente liga- dos ao termo “Desenvolvimento Sustentável”. Esses conceitos estão listados abaixo. A palavra “Ecologia” (Okologie) foi utili- zada pela primeira vez por Ernst Haeckel em 1869. O radical oikos (origem grega) tem o sen- tido de casae o radical logie (origem grega) significa estudo. Assim, o “estudo da casa” in- clui todos os organismos contidos nela e todos os processos funcionais que a tornam habitá- vel (RICKLEFS, 2003). Destruição do habitat: a maior ameaça à diversidade biológica é a perda de habitat (Fi- gura 3). Portanto, a maneira mais importante de proteger esta diversidade é preservando-se os habitats. A “poluição ambiental” é a maneira mais sutil de degradação, através da utilização de pesticidas, produtos químicos, esgoto libera- do por indústrias e emissões de fábricas e au- tomóveis. A liberação desses resíduos sólidos, líquidos ou gasosos na natureza geralmente é superior à capacidade de absorção do meio ambiente, provocando alterações na sobrevi- vência das espécies. A poluição pode ser entendida, ainda, como qualquer alteração do equilíbrio ecoló- gico existente (Figura 4). Ela é essencialmente produzida pelo homem e está diretamente relacionada aos processos de industrialização e a consequente urbanização da humanidade. A poluição provoca efeitos negativos na qua- lidade do ar e da água e até mesmo no clima global, sendo uma ameaça para a diversidade e também causando um efeito negativo na saúde humana. Figura 3: Para atender as necessidades econômicas, a utilização dos recursos naturais é feita de maneira insustentável, sem se preocupar com a degradação do ambiente. Fonte: Disponível em . Acesso em 04.out.2011. ▼ ATIVIDADE: Descreva sobre as consequências da ex- ploração dos recursos naturais de maneira sustentável. 14 UAB/Unimontes - 8º Período O incidente causado no ano de 2010, no Golfo do México, com grande derramamento de petróleo - fonte básica de energia, servindo como base para fabricação de vários produtos como óleo diesel, gasolina, alcatrão, polímeros plásticos, medicamentos e benzinas - mos- tra a fragilidade dos sistemas naturais em se recuperarem de algum tipo de poluição. Essa tragédia provocou um desequilíbrio ecológi- co, em que várias espécies, como golfinhos, baleias, aves e tartarugas, dentre outras, que foram atingidas (Figura 5). “Recursos naturais” são todos os bens produzidos pela natureza, como por exemplo, a energia solar, a água, o ar, os minerais, os vegetais, o solo, dentre outros. Esses recursos podem ser classificados basicamente em dois tipos: Renováveis, que são aqueles que, embo- ra utilizados pelo homem em larga escala, não se esgotam porque são capazes de se autor- renovar. Os denominados de não renováveis são aqueles que, uma vez esgotados, não se renovam mais, como o petróleo, carvão mine- ral, ferro e ouro. Dessa forma, o chamado “de- senvolvimento sustentável” prevê a utilização dos recursos naturais de modo que não cause prejuízo ao ambiente e assim haja preservação para as gerações futuras. “Conservação da biodiversidade” refere- -se à proteção dos recursos naturais além da flora e da fauna. Para isso deve ser feito o es- tabelecimento de áreas protegidas e restaura- ção das comunidades biológicas em hábitats degradados. Um grande problema que vem ocorrendo há várias décadas é o uso inadequado do am- biente e dos recursos naturais. A exploração dos recursos naturais sempre foi feita pelo ho- mem, mas de maneira sustentável. Entretanto, a Revolução Industrial, que consistiu em um conjunto de mudanças tecnológicas, causou um profundo impacto no processo produtivo em nível econômico e social, intensificando o uso do ambiente uma vez que os métodos tornaram-se mais eficientes. Assim, os recur- sos são explorados o mais rápido possível, não sendo capazes de se autorrenovar. Essa relação do homem com o meio am- biente não está de acordo com o que prevê o desenvolvimento sustentável. É justamente esse quadro negativo que deve ser mudado para que as futuras gerações não fiquem com- prometidas. GLOSSÁRIO: Diversidade Biológica: é a riqueza da vida na terra, os milhões de plantas, animais, microorganismos, os genes que eles contêm e os intricados ecossistemas que eles ajudam a construir no meio ambiente. ▲ Figura 4: O descarte inadequado do lixo causa prejuízo à fauna. Fonte: Disponível em . Acesso em 04.out.2011. ▲ Figura 5: Várias espécies foram afetadas com o vazamento de petróleo no Golfo do México. Fonte: Disponível em . Acesso em 5.out.2011. 15 Ciências Biológicas - Bases Ecológicas para o Desenvolvimento Sustentável Referências AMARAL, S. P. Estabelecimento de indicadores e modelo de relatório de sustentabilidade ambiental, social e econômica: uma proposta para a indústria de petróleo brasileira. 2003. 265 f. Tese (Doutorado em Ciências em Planejamento Energético). Programa de Pós-Graduação em Engenharia. Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2003. CASTANHEIRA, L.; GOUVEIA, J. B. ENERGIA, AMBIENTE E DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁ- VEL. SÃO JOÃO DO ESTORIL: SOCIEDADE PORTUGUESA DE INOVAÇÃO, 2004. P. 96. CAVALCANTI, C. (ORG.); FURTADO, A.; STAHEL, A.; RIBEIRO, A.; MENDES, A.; SEKIGUCHI, C.; CA- VALCANTI, C. MAIMON, D.; POSEY, D.; PIRES, E.; BRÜSEKE, F.; ROHDE, G.; MAMMANA, G.; LEIS, H.; ACSELRAD, H.; MEDEIROS, J.; D'AMATO, J. L.; LEONARDI, M. L.; TOLMASQUIM, M.; SEVÁ-FILHO, O.; STROH, P.; FREIRE, P.; MAY, P.; DINIZ, R.; MAGALHÃES, A. R. DESENVOLVIMENTO E NATU- REZA: ESTUDOS PARA UMA SOCIEDADE SUSTENTÁVEL. RECIFE: INPSO/FUNDAJ, INSTITUTO DE PESQUISAS SOCIAIS, FUNDAÇÃO JOAQUIM NABUCO, MINISTÉRIO DE EDUCAÇÃO, GOVERNO FEDERAL, RECIFE, BRASIL, 1994. 262 P. DISPONÍVEL EM: . ACESSO EM: 20 NOV.2011. CMMAD, Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento. Nosso futuro comum. Rio de Janeiro: Editora da Fundação Getulio Vargas, 1991. p. 410. RICKLEFS, R. E. A ECONOMIA DA NATUREZA. 5. ED. RIO DE JANEIRO: GUANABARA KOOGAN, 2003. P. 503. RICKLEFS, R. E. A economia da natureza. 5. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2003. 503 p. SILVA, C. M. F. DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL: QUEBRA DE UM PARADIGMA ENERGÉTI- CO. LISBOA: INSTITUTO SUPERIOR TÉCNICO, 2006. P. 19. SOUZA, A. C. C. Responsabilidade social e desenvolvimento sustentável: incorporação dos conceitos à estratégia empresarial. 2006. 230 f. Dissertação (Mestrado em Ciências em Planeja- mento Energético). Programa de Pós-Graduação em Engenharia. Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2006. VEIGA, J. E. O Prelúdio do Desenvolvimento Sustentável. In: MERCADANTE, A.; DELFIM NETTO, A.; LESSA, C.; HADDAD, E.; VEIGA, J. E; BARROS, J. R. M.; BAER, M.; PAULINI, L. M.; POCHMANN, M.; ABRAMOVAY, R. Economia Brasileira: Perspectivas do Desenvolvimento. Bragança Paulista: Cen- tro Acadêmico Visconde de Cairu, 2005. pp. 243-266. 17 Ciências Biológicas - Bases Ecológicas para o Desenvolvimento Sustentável UNIDADE 2 Modelos de desenvolvimento e sustentabilidade econômica, social e ambiental Lílian de Lima Braga 2.1 Introdução Existem basicamente, três modelos de desenvolvimento: social, ambiental e econômico (SIL- VA, 2003; ESTENDER; PITTA, 2008). Se conseguirmos combinar um desenvolvimento que englobe esses três aspectos é possível reduzir os impactos causados pela ação humana ao meio ambiente. Veremos a seguir, um pouco a respeito desses modelos de desenvolvimento. Nós entende- remos também o que significa a Pegada Ecológica, qual a sua importância e composição. Para fi- nalizar esta Unidade, nós veremos um pouco de desenvolvimento sustentável na prática através do “Amor-Peixe”, um projeto que é exemplo de sustentabilidade e que beneficia muitas famílias no Pantanal. Com isso, a ideia de que realmente é possível haver um desenvolvimento sustentá- vel ficará mais real em nossa mente. 2.2 Modelos de desenvolvimento Até a década de 1970, o desenvolvimentoestava mais relacionado com progresso material. Pensava-se que o enriquecimento levaria espontaneamente à melhoria dos padrões sociais. Ten- do base nisso, o desenvolvimento era sinônimo de crescimento econômico. No final da década de 1980, essa visão começou a ser questionada. Apesar disso, o crescimento do PIB (Produto In- terno Bruto) é utilizado como uma medida de “saúde” financeira do mundo. Isso demonstra que ainda hoje estamos ligados à ideia de que o crescimento econômico é essencial ao bem-estar da humanidade. A partir do momento em que se notou que a visão do desenvolvimento começava a mudar, tornou-se necessário que as políticas deste fossem estruturadas por valores que não são apenas os do aspecto econômico. A ideia de “sustentabilidade” tornou-se, então, objeto do campo político. Baseado nisso, podemos desmembrar basicamente três modelos, ou pilares, de Desenvolvi- mento Sustentável: 1. Desenvolvimento Social: se o aspecto social não estiver progredindo, a questão ambiental e a economia não irão progredir da maneira que se deseja. 2. Proteção Ambiental: esta questão é de grande importância, principalmente, quando se pensa que os recursos naturais não são capazes de atender a demanda de extração feita pelas atividades antrópicas. As empresas precisam avaliar se são ambientalmente susten- táveis. 3. Desenvolvimento Econômico: baseia-se no lucro da empresa e, portanto, devemos utilizar dados numéricos. É importante deixar claro que o desenvolvimento não se confunde com crescimento econômico, pois, de maneira geral, este crescimento não é sustentável. Ape- sar de esse ser uma condição necessária, não é, entretanto, suficiente. Combinando esses três aspectos, é possível reduzir os impactos causados pela ação humana. GLOSSÁRIO: (PIB) Produto Inter- no Bruto: representa a soma, em valor monetário, de todos os bens e serviços finais produzidos em um país, estado ou cidade, em um determinado período (mês, trimestre ou ano). O PIB é um indicador utilizado na economia e tem como objetivo mensurar a atividade econômica de uma região. 18 UAB/Unimontes - 8º Período 2.3 Pegada ecológica O termo “Pegada Ecológica” foi criado para avaliar a sustentabilidade do ser humano, que constitui uma forma de medir o impacto humano na Terra. Este conceito exprime a área produtiva equivalente, de terra e mar, necessá- ria para produzir os recursos utilizados e para assimilar os resíduos gerados por uma dada unidade de população. A Pegada Ecológica procura responder um ponto fundamental da sustentabilidade: quanto da capacidade bioprodutiva da biosfera pode ser utilizada pelas atividades humanas? A medida da Pegada Ecológica é usual- mente representada em hectares globais. A seguir temos a composição da Pegada Ecoló- gica (Figura 6): Terra Bioprodutiva: Terra para colheita, pastoreio, corte de madeira e outras ativida- des de grande impacto. Mar bioprodutivo: Área necessária para pesca e extrativismo. Terra de energia: Área de florestas e mar necessária para a absorção de emissões de carbono. Terra construída: Área para casas, constru- ções, estradas e infraestrutura. Terra de Biodiversidade: Áreas de terra e água destinadas à preservação da biodiversi- dade. Uma das vantagens de utilizar a Pegada Ecológica é porque ela possibilita compara- ções de sustentabilidade em diferentes áreas de influência humana. Por exemplo, os proble- mas do desmatamento florestal e da emissão de gás carbônico não precisam ser tratados separadamente, uma vez que estão embuti- dos no mesmo indicador, a pegada ecológica. Isso é importante já que possibilita ter uma visão geral a respeito da sustentabilidade das atividades humanas. A Pegada Ecológica média mundial é cer- ca de 2,3 hectares por habitante, embora só existam 1,8 hectares de terra biologicamen- te produtiva disponíveis por pessoa. Isto de- monstra que o consumo atual de recursos na- turais excede bastante a capacidade biológica da Terra (Figura 7). Alguns pesquisadores apontam que em 1961, a humanidade usufruía de 70% da capa- cidade produtiva do planeta. Entretanto, tal capacidade em fornecer os recursos necessá- rios para atividades humanas mostrou-se in- suficiente na década de 1980. Isso ocorreu por conta do aumento do consumo dos recursos naturais e também devido ao crescimento po- pulacional. Em 1999, a demanda humana cres- ceu 25% a mais do que a capacidade do plane- ta (VICTOR; SOUSA-JÚNIOR, 2009). Existem grandes discrepâncias entre os países quanto a sua Pegada Ecológica. Por exemplo, a Pegada Ecológica de um norte- -americano é de 12,25 ha, enquanto que a de um indiano é de 1,05 ha (Figura 8). PARA SABER MAIS: A expressão “Pegada Ecológica” vem do inglês “Ecological footprint”. Este termo foi utilizado pela pri- meira vez em 1992 por William Rees, ecologista e professor da Univer- sidade de Colúmbia Britânica. Atualmente, “Pegada Ecológica” é usada no mundo intei- ro como um indicador de sustentabilidade ambiental. ▲ Figura 6: Composição da Pegada Ecológica. Fonte: Disponível em . Acesso em 03.dez.2011. Figura 7: A Pegada Ecológica Mundial está acima da capacidade biológica da Terra. Fonte: Disponível em . Acesso em 12.out.2011. ► 19 Ciências Biológicas - Bases Ecológicas para o Desenvolvimento Sustentável Isso demonstra a incapacidade da espécie humana em reconhecer o impacto que causa nos demais – o que é refletido em seu padrão de consumo e modelos de desenvolvimento - e que só existe um planeta Terra, do qual to- dos dependem para a perpetuação e sobrevi- vência de todas as espécies. Na relação entre demanda humana e natureza, a Pegada Ecológica parece ser um importante instrumento de avaliação dos im- pactos antrópicos no meio natural. Há grandes evidências de que o planeta Terra não suporta essa exacerbada exploração dos recursos na- turais. Diante disso é necessário que aja uma mudança na postura da população para que realmente possa ocorrer um desenvolvimento sustentável. 2.4 Praticando o desenvolvimento sustentável Agora vamos conhecer um pouco sobre um projeto de Desenvolvimento Sustentável que é executado no Pantanal. Esse projeto é um exemplo de sustentabilidade. 2.4.1 Amor-peixe: modelo de desenvolvimento sustentável O projeto Amor-Peixe, desenvolvido pelo WWF-Brasil com um grupo de mulheres panta- neiras, é um projeto piloto e sua escala é peque- na, mas é um excelente exemplo de Desenvol- vimento Sustentável. Atualmente, as mulheres que participam do projeto têm a sua própria fonte de renda além de terem assumido um pa- pel de liderança participando de eventos políti- cos. O sucesso do projeto é reconhecido e por isso serve de referência no país. O Pantanal brasileiro representa a maior área úmida continental do mundo e está locali- zado na região Centro-Oeste do país. A bacia do Paraguai abrange 624.320 km2, sendo que 62% estão em território brasileiro. Corumbá está lo- calizada na microbacia do Baixo Rio Paraguai, e dentro desta cidade está localizado o município de Ladário (Figura 9). Apenas 10% dos habitan- tes de Corumbá e Ladário vivem em área rural, e dessa porcentagem há 1250 pescadores profis- sionais, dos quais 721 são mulheres. ◄ Figura 8: Gráfico referente a Pegada Ecológica de 17 países. “Eixo x” representa os países e o “eixo y” representa a Pegada Ecológica (hectares por pessoa). Fonte: Disponível em: . Acesso em 12.out.2011. DICA: Para saber mais sobre Pegada Ecológica leia o trabalho “Pegada Ecológica: instrumen- to de avaliação dos impactos antrópicos no meio natural”. Disponí- vel em:. ATIVIDADE: Após ler o texto, responda: Quais são os fatores utilizados para calcular a “Pegada Ecológica”? ◄ Figura 9: O Rio Paraguai é essencial para os pescadores, porque a pesca é uma atividade tradicional e é fonte de renda da população ribeirinha. Fonte: WWF-BRASIL, 2011. 20 UAB/Unimontes - 8º Período No Amor-Peixe até a pele do peixe é aproveitada, sendo transfor- mada em couro, o qual é tratado, amaciado, tingido, cortado, colado e costurado. A partir disso são fabricados cintos, bolsas, estojos, chaveiros sandálias, pulseiras, carteiras, capas de agenda, sacolas, brincos, totali- zando 40 produtos obtidos do couro do peixe. As escamas também são aproveitadas na parte de bijuteria. Todos os produtos são de boa qua- lidade, o que teve repercussão no mercado. Do lucro total, 30% são re- servados para administrar a Associação Amor-Peixe e os 70% restantes são divididos entre as associadas (Figura 10). A evolução do aumento da renda das mulheres da Associação é um dos índices de sucesso do Amor-Peixe (Figura 11). No ano de 2003 o grupo não possuía uma renda própria. A partir de 2004, começou a ha- ver uma renda regular que somou R$ 3.151,70 no ano. Em 2008, a renda aumentou substancialmente, atingindo R$ 7.136,00. Em 2009 foi de R$ 24.418,00. Em 2010 a renda anual foi de R$ 22.570,00 e no ano de 2011 havia uma tendência de aumentar. A renda média das associadas está em torno de R$ 600,00 reais mensais. Sendo assim, o projeto Amor-Peixe, além de fornecer renda para a comunidade, também fez com que as pessoas envolvidas no projeto passassem a conhecer e a valorizar o Pantanal e seus recursos naturais. Este é um exemplo prático que mostra que pode existir o desenvolvi- mento sustentável. Referências ESTENDER, A. C.; PITTA, T. T. M. O Conceito de Desenvolvimento Sus- tentável. Revista do Terceiro Setor. Guarulhos, v. 2, n. 1, p. 1-14, 2008. SILVA, C. M. F. DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL: QUEBRA DE UM PARADIGMA ENERGÉTICO. LISBOA: INSTITUTO SUPERIOR TÉCNICO, 2006. P. 19. SOUZA, A. C. C. Responsabilidade social e desenvolvimento susten- tável: incorporação dos conceitos à estratégia empresarial. 2006. 230 f. Dissertação (Mestrado em Ciências em Planejamento Energético). Pro- grama de Pós-Graduação em Engenharia. Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2006. VICTOR, H. P.; SOUSA-JÚNIOR, W. C. Pegada Ecológica do Brasileiro – Aprimoramento Metodológico. In: Encontro de Iniciação Científica e Pós-Graduação do ITA – XV ENCITA, 15º, 2009, São José dos Campos. Anais... 15º Encontro de Iniciação Científica e Pós-Graduação do ITA. São José dos Campos: ITA, 2009, p. 1-14. WWF-BRASIL. Amor-Peixe Modelo de Desenvolvimento Sustentá- vel. 2011. Brasília: WWF-Brasil. 77p. Disponível em: . Acesso em: 30 set.2011. ▲ Figura 10: Artesãs envolvidas no Projeto Amor- Peixe. Fonte: WWF-BRASIL, 2011. ▲ Figura 11: Rendas do Projeto Amor-Peixe obtidas através dos artesanatos feitos da pele do peixe. Fonte: WWF-BRASIL, 2011. ATIVIDADE: Faça uma pesquisa e anote quais são os projetos de desenvolvimento sustentável que existe no estado de Minas Gerais. UNIDADE 1 1.1 Introdução 1.2 O surgimento do desenvolvimento sustentável A necessidade do desenvolvimento sustentável 1.3 Conceitos importantes e exploração do ambiente versus sustentabilidade Referências UNIDADE 2 2.1 Introdução 2.2 Modelos de desenvolvimento Modelos de desenvolvimento e sustentabilidade econômica, social e ambiental 2.3 Pegada ecológica 2.4 Praticando o desenvolvimento sustentável Referências