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27 Questão 1 Legado aos nossos filhos 5 Uma importante empresa financeira me chamou para falar com alguns clientes. Não sobre finanças, pois eu os arruinaria, mas sobre algum tema “humano” — no meio da crise queriam mudar de assunto. Uma sugestão de tema que me deram foi: “O que esperamos de nossos 10 filhos no futuro”. Como acredito que pensar é transgredir, falei sobre “o que estamos deixando para nossos filhos”. [...] O mundo avança em vertiginosas transformações, e não é só nas finanças ou economia mundiais: ele se 15 transforma a todo momento em nossos usos e costumes, na vida, no trabalho, nos governos, na família, nos modelos que nos são apresentados, em nossa capacidade de fazer descobertas, no progresso e na decadência. O que nos enche de perplexidade, quando o assunto 20 é filhos, é a parte de tudo isso que não conseguimos controlar, que é maior do que a outra. Se há 100 anos a vida era mais previsível — o pai mandava e o resto da família obedecia, o professor e o médico tinham autoridade absoluta, os governantes eram nossos heróis e havia 25 trilhas fixas a ser seguidas ou seríamos considerados desviados —, hoje ser diferente pode dar status. Gosto de pensar na perplexidade quanto ao legado que podemos deixar no que depende de nós. Que não é nem aquele legado alardeado por nossos pais — a 30 educação e o preparo — nem é o valor em dinheiro ou bens, que se evaporam ao primeiro vendaval das finanças ou na política. A mim me interessam outros bens, outros valores, os valores morais. O termo “morais” faz arquear sobrancelhas, cheira a religiosidade ou a moralismo, a 35 preconceito de fariseu. Mas não é disso que falo: moralidade não é moralismo, e moral todos temos de ter. A gente gosta de dizer que está dando valores aos filhos. Pergunto: que valores? Morais, ora, decência, ética, trabalho, justiça social, por exemplo. É ótimo passar aos 40 filhos o senso de alguma justiça social, mas então a gente indaga: você paga a sua empregada o mínimo que a lei exige ou o máximo que você pode? Penso que a maioria de nós responderia não à segunda parte da pergunta. Então, acaba já toda a conversa sobre justiça social, pois 45 tudo ainda começa em casa e bem antes da escola. Não adianta falar em ética, se vasculho bolsos e gavetas de meus filhos, se escuto atrás da porta ou na extensão do telefone — a não ser que a ameaça das drogas justifique essa atitude. Não adianta falar de justiça, se 50 trato miseravelmente meus funcionários. Não se pode falar em decência, se pulamos a cerca deslavadamente, quem sabe até nos fanfarronando diante dos filhos homens: ah, o velho aqui ainda pode! Nem se deve pensar em respeito, se desrespeitamos quem nos rodeia, e isso vai dos 55 empregados ao parceiro ou parceira, passando pelos filhos, é claro. Se sou tirana, egoísta, bruta; se sou tola, fútil, metida a gatinha gostosa; se vivo acima das minhas possibilidades e ensino isso aos meus filhos, o efeito sobre a moral deles e sua visão da vida vai ser um desastre. 60 [...] Gosto da historinha verdadeira de quando, esperando alguém no aeroporto, vi a meu lado uma jovem mãe com sua filhinha de uns 5 anos, lindas e alegres. De repente, olhando para as pessoas que chegavam atrás dos grandes vidros, a perfumada mãe disse à pequena: 65 “Olha aí o boca-aberta do seu pai”. Nessa frase, que ela jamais imaginaria repetida num artigo de revista ou em palestras pelo país, a moça definia seu ambiente familiar. Assim se definem ambientes na escola, no trabalho, nos governos, no mundo. Em casa, 70 para começar. O palavrório sobre o que legaremos aos nossos filhos será vazio, se nossas atitudes forem egoístas, burras, grosseiras ou maliciosas. O resto é conversa fiada para a qual, neste tempo de graves assuntos, não temos tempo. LUFT, Lya. Legado aos nossos filhos. Veja, São Paulo: Abril, ed. 2082, ano 41, n. 41, p. 24, 15 out. 2008. Adaptado. A alternativa em que a parte da frase em destaque depende, para que se realize, do que é uma condição na outra parte é a 01) “Uma importante empresa financeira me chamou para falar com alguns clientes.” (l. 1-2). 02) “Uma sugestão de tema que me deram foi: ‘O que esperamos de nossos filhos no futuro’.” (l. 4-6). 03) “Gosto de pensar na perplexidade quanto ao legado que podemos deixar no que depende de nós.” (l. 23-24). 04) “Nessa frase, que ela jamais imaginaria repetida num artigo de revista ou em palestras pelo país, a moça definia o seu ambiente familiar.” (l. 62-64). 05) “O palavrório sobre o que legaremos aos nossos filhos será vazio, se nossas atitudes forem egoístas, burras, grosseiras ou maliciosas.” (l. 66-68). Gabarito: 05 Resolução: A frase transcrita em 05 apresenta a parte em destaque dependente de uma condição que aparece na outra parte: já que o fato de o palavrório sobre o que legaremos aos nossos filhos ser vazio depende do fato de nossas atitudes serem egoístas, burras, grosseiras ou maliciosas. Questão 2 Sobre a tirinha, é correto afirmar: 01) Uma reestruturação com o mesmo sentido de “Como eu gostaria de ser jogador de futebol” é: "Se eu tivesse sido jogador de futebol". 02) O discurso transmitido pelo rádio caracteriza-se pela predominância da descrição. 03) Os signos visuais, no segundo quadrinho, indicam uma experiência simbólica vivida pela personagem. 04) A fala radiofônica do segundo e terceiro quadrinhos evidencia sinais de uma regularidade de entonação da voz. 05) O último quadrinho apresenta um discurso cuja linguagem é metafórica. Gabarito: 3 Resolução: "Se eu tivesse sido jogador de futebol" não tem o mesmo sentido de "Como eu gostaria de ser jogador de futebol", já que a primeira, no pretérito do subjuntivo, expressa uma situação impossível de se concretizar, enquanto a segunda apresenta uma perspectiva do futuro. O discurso transmitido pelo rádio caracteriza-se pela predominância da narração. No terceiro e no segundo quadrinhos, a fala radiofônica evidencia variações na entonação da voz por sinais gráficos (letras garrafais que evidenciam ênfase e aumento do volume da voz). O último quadrinho apresenta linguagem denotativa. Questão 3 PELÉ: 1000 O difícil, o extraordinário, não é fazer mil gols, como Pelé. É fazer um gol como Pelé. Aquele gol que gostaríamos tanto de fazer, que nos sentimos maduros para fazer, mas que, diabolicamente, não se deixa fazer. O gol. 5 Que adianta escrever mil livros, como simples resultado de aplicação mecânica, mãos batendo máquina de manhã à noite, traseiro posto na almofada, palavras dóceis e resignadas ao uso incolor? O livro único, este não há condições, regras, receitas, códigos, cólicas que o façam existir, e só ele conta – negativamente – 10 em nossa bibliografia. Romancistas que não capturam o romance, poetas de que o poema está-se rindo a distância, pensadores que palmilham o batido pensamento alheio, em vão circulamos na pista durante 50 anos. O muito papel que sujamos continua alvo, alheio às letras que nele se imprimem, pois aquela não era a combinação 15 de letras que ele exigia de nós. E quantos metros cúbicos de suor, para chegar a esse não resultado! Então o gol independe de nossa vontade, formação e mestria? Receio que sim. Produto divino, talvez? Mas, se não valem exortações, apelos cabalísticos, bossas mágicas para que ele se 20 manifeste... Se é de Deus, Deus se diverte negando-o aos que o imploram, e, distribuindo-o a seu capricho, Deus sabe a quem, às vezes um mau elemento. A obra de arte, em forma de gol ou de texto, casa, pintura, som, dança e outras mais, parece antes coisa-em-ser da natureza, revelada arbitrariamente, quase que 25 à revelia do instrumento humano usado para a revelação. Se a obrigação é aprender, por que todos que aprendem não a realizam? Por que só este ou aquele chega a realizá-la? Por que não há 11 Pelés em cada time? Ou 10, para dar uma chanceao time adversário? O Rei chega ao milésimo gol (sem pressa, até se permitindo o 30 charme de retificar para menos a contagem) por uma fatalidade à margem do seu saber técnico e artístico. Na realidade, está lavrando sempre o mesmo tento perfeito, pois outros tentos menos apurados não são de sua competência. Sabe apenas fazer o máximo, e quando deixa de destacar-se no campo é porque até ele tem instantes de 35 não Pelé, como os não Pelés que somos todos. ANDRADE, Carlos Drummond de. O poder ultrajovem. 9. ed. Rio de Janeiro: Record, 1986. p. 133. (Fragmento) Assinale a alternativa em que a função da(s) palavra(s) destacada(s) no trecho transcrito NÃO está corretamente explicitada entre colchetes. A) Aquele gol que gostaríamos tanto de fazer, que nos sentimos maduros para fazer, mas que, diabolicamente, não se deixa fazer. (linhas 2-4) [INDICA UMA CONSEQUÊNCIA] B) Então o gol independe de nossa vontade, formação e mestria? Receio que sim. (linhas 17-18) [INTRODUZ UMA CONCLUSÃO] C) O muito papel que sujamos continua alvo, alheio às letras que nele se imprimem, pois aquela não era a combinação de letras que ele exigia de nós. (linhas 13-15) [APRESENTA UMA JUSTIFICATIVA] D) Por que não há 11 Pelés em cada time? Ou 10, para dar uma chance ao time adversário. (linhas 27-28) [EXPRESSA UMA FINALIDADE] Gabarito: A Resolução: Em A, as palavras "tanto" e "que" não formam uma expressão que exprime consequência, e sim se trata de dois termos distintos; o primeiro, um advérbio, cuja função é imprimir intensidade ao verbo "gostaríamos"; o segundo, um pronome relativo, que retoma "aquele gol". Questão 4 01 TIÃO – [...] Bem, gente... Hoje é meu dia... Já ganhei presente de noivado... ROMANA – Saiu o aumento? OTÁVIO – Que aumento! Sem greve não sai aumento! ROMANA (repreendendo-o) – Otávio!... 05 TIÃO – Aumento nada... Tive minha chance no cinema!... [...] OTÁVIO – Seu pai vai ficá irritado com esse recado, mas eu digo. Seu pai tem outro recado pra você. Seu pai acha que a culpa de pensá desse jeito não é sua só. Seu pai acha que tem culpa... 10 TIÃO – Diga a meu pai que ele não tem culpa nenhuma. OTÁVIO (perdendo o controle) – Se eu te tivesse educado mais firme, se te tivesse mostrado melhor o que é a vida, tu não pensaria em não ter confiança na tua gente... GUARNIERI, Gianfrancesco. Eles não usam black-tie. 19. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008. p. 36-37; 105. Considerando o texto, assinale a(s) proposição(ões) CORRETA(S). 01. Se a fala de Otávio “Sem greve não sai aumento!” (linha 3) fosse substituída por “Só com greve sai aumento!”, haveria considerável alteração de significado no contexto. 02. Ambas as construções: “Se eu te tivesse educado mais firme” (linha 11) e “tu não pensaria” (linha 12) apresentam o mesmo nível de formalidade e revelam que a personagem tem alto nível de escolaridade. 04. Os dois trechos de diálogo apresentam um registro coloquial, mas o segundo trecho (linhas 7-12) evidencia mais marcas de oralidade que o primeiro. 08. No segundo trecho (linhas 7-12), pai e filho mantêm um diálogo no qual simulam a intermediação de uma terceira pessoa; assim, as expressões "seu pai" e "meu pai" remetem ao mesmo referente – Otávio; da mesma forma, os pronomes "você" e "tu" remetem ao mesmo referente — Tião. 16. A frase “Diga a meu pai que ele não tem culpa nenhuma” (linha 10) pode ser reescrita, sem prejuízo de significado, como “Diga a meu pai que ele não tem culpa alguma”. 32. A palavra "gente" (linhas 1 e 12) está funcionando como pronome de primeira pessoa do plural, com o mesmo sentido de "nós". Gabarito: 04 + 08 + 16 = 28 Resolução: 01. Errada. Não haveria alteração de significado no contexto se houvesse substituição de “Sem greve não sai aumento!” (linha 3) por “Só com greve sai aumento!”, já que se manteria a relação de dependência entre greve e aumento de salário, presente no pensamento de Otávio. 02. Errada. As frases apresentadas revelam que a personagem tem baixo nível de escolaridade, já que são informais e há erro de concordância verbal na segunda. 04. Correta. 08. Correta. 16. Correta. 32. Errada. Ambos os registros da palavra "gente" (linhas 1 e 12) não tem o sentido de "nós", e sim "povo". Questão 5 Carioca da gema 1 Carioca, carioca da gema seria aquele 2 que sabe rir de si mesmo. Também por isso, 3 aparenta ser o mais desinibido e alegre dos 4 brasileiros. Que, sabendo rir de si e de um 5 tudo, é homem capaz de se sentar no meio- 6 -fio e chorar diante de uma tragédia. 7 O resto é carimbo. 8 Minha memória não me permite 9 esquecer. O tio mais alto, o meu tio-avô 10 Rubens, mulherengo de tope, bigode frajola, 11 carioca, pobre, porém caprichoso nas roupas, 12 empaletozado como na época, empertigado, 13 namorador impenitente e alegre e, pioneiro, a 14 me ensinar nos bondes a olhar as pernas 15 nuas das mulheres e, após, lhes oferecer o 16 lugar. Que havia saias e pernas nuas nos 17 meus tempos de menino. 18 Folgado, finório, malandreco, vive de 19 férias. Não pode ver mulher bonita, 20 perdulário, superficial e festivo até as 21 vísceras. Adjetivação vazia... E só ideia 22 genérica, balela, não passa de carimbo. 23 Gosto de lembrar aos sabidos, 24 perdedores de tempo e que jogam conversa 25 fora, que o lugar mais alegre do Rio é a 26 favela. É onde mais se canta no Rio. E, aí, o 27 carioca é desconcertante. Dos favelados 28 nasce e se organiza, como um milagre, um 29 dos maiores espetáculos de festa popular do 30 mundo, o Carnaval. 31 O carimbo pretensioso e generalizador 32 se esquece de que o carioca não é apenas o 33 homem da Zona Sul badalada – de 34 Copacabana ao Leblon. Setenta e cinco por 35 cento da população carioca moram na Zona 36 Centro e Norte, no Rio esquecido. E lá, sim, o 37 Rio fica mais Rio, a partir das caras não 38 cosmopolitas e se o carioca coubesse no 39 carimbo que lhe imputam não se teriam 40 produzido obras pungentes, inovadoras e 41 universais como a de Noel Rosa, a de Geraldo 42 Pereira, a de Nélson Rodrigues, a de Nélson 43 Cavaquinho... Muito do sorriso carioca é 44 picardia fina, modo atilado de se driblarem os 45 percalços. 46 Tenho para mim que no Rio as ruas 47 são faculdades; os botequins, universidades. 48 Algumas frases apanhadas lá nessas bigornas 49 da vida, em situações diversas, como 50 aparentes tipos a esmo: 51 “Está ruim pra malandro” – o 52 advérbio até está oculto. 53 “Quem tem olho grande não entra na 54 China.” 55 “A galinha come é com o bico no 56 chão.” 57 “Tudo de mais é veneno.” 58 “Negócio é o seguinte: dezenove não 59 é vinte.” 60 “Se ginga fosse malandragem, pato 61 não acabava na panela.” 62 “Não leve uma raposa a um 63 galinheiro.” 64 “Se a farinha é pouca o meu pirão 65 primeiro.” 66 “Há duas coisas em que não se pode 67 confiar. Quando alguém diz ‘deixe comigo’ ou 68 ‘este cachorro não morde’.” 69 “Amigo, bebendo cachaça, não faço 70 barulho de uísque.” 71 “Da fruta de que você gosta eu como 72 até o caroço.” 73 “A vida é do contra: você vai e ela 74 fica.” 75 Como filosofia de vida ou não, 76 vivendo em uma cidade em que o excesso de 77 beleza é uma orgia, convivendo com belezas 78 e mazelas, o carioca da gema é um dos 79 poucos tipos nacionais para quem ninguém é 80 gaúcho, paraibano, amazonense ou paulista. 81 Ele entende que está tratando com 82 brasileiros. Antônio, João. Ô, Copacabana. Sobre o trecho em destaque – “Que havia saias e pernas nuas nos meus tempos de menino.” (linhas 16-17) –, afirma-se que I. apresenta metonímias que enfatizam o caráter erótico das lições do tio Rubens. II. constitui uma explicação, um elemento acessório, para a informação dada anteriormente no parágrafo. III. sugere a antecipação de um provável estranhamento do leitor em face do que é informado antes, no parágrafo. É correto o que se afirma A) somente em I. B) somente em I e II. C) em I, II e III. D) somente em II e III.Gabarito: C Resolução: Todas as afirmações estão corretas. De fato, ao utilizar "saias" e "pernas nuas" ao referir-se às mulheres presentes no bonde, utilizam-se metonímias (expressão da parte pelo todo). A conjunção "que", a qual inicia o período, pode ser trocada por "pois", constituindo uma explicação para a informação dada anteriormente, ou seja, o narrador explica que de fato havia mulheres de saia, com as pernas expostas, naquela época. As informações anteriores a essa afirmação descrevem que o tio-avô era "caprichoso nas roupas, empaletozado como na época", sugerindo que o tio-avô do narrador viveu em uma época mais remota, em que as mulheres tinham mais pudor em mostrar o corpo. Por isso o estranhamento do leitor poderia vir do fato de que "havia saias e pernas nuas" nessa época. Questão 6 Carioca da gema 1 Carioca, carioca da gema seria aquele 2 que sabe rir de si mesmo. Também por isso, 3 aparenta ser o mais desinibido e alegre dos 4 brasileiros. Que, sabendo rir de si e de um 5 tudo, é homem capaz de se sentar no meio- 6 -fio e chorar diante de uma tragédia. 7 O resto é carimbo. 8 Minha memória não me permite 9 esquecer. O tio mais alto, o meu tio-avô 10 Rubens, mulherengo de tope, bigode frajola, 11 carioca, pobre, porém caprichoso nas roupas, 12 empaletozado como na época, empertigado, 13 namorador impenitente e alegre e, pioneiro, a 14 me ensinar nos bondes a olhar as pernas 15 nuas das mulheres e, após, lhes oferecer o 16 lugar. Que havia saias e pernas nuas nos 17 meus tempos de menino. 18 Folgado, finório, malandreco, vive de 19 férias. Não pode ver mulher bonita, 20 perdulário, superficial e festivo até as 21 vísceras. Adjetivação vazia... E só ideia 22 genérica, balela, não passa de carimbo. 23 Gosto de lembrar aos sabidos, 24 perdedores de tempo e que jogam conversa 25 fora, que o lugar mais alegre do Rio é a 26 favela. É onde mais se canta no Rio. E, aí, o 27 carioca é desconcertante. Dos favelados 28 nasce e se organiza, como um milagre, um 29 dos maiores espetáculos de festa popular do 30 mundo, o Carnaval. 31 O carimbo pretensioso e generalizador 32 se esquece de que o carioca não é apenas o 33 homem da Zona Sul badalada – de 34 Copacabana ao Leblon. Setenta e cinco por 35 cento da população carioca moram na Zona 36 Centro e Norte, no Rio esquecido. E lá, sim, o 37 Rio fica mais Rio, a partir das caras não 38 cosmopolitas e se o carioca coubesse no 39 carimbo que lhe imputam não se teriam 40 produzido obras pungentes, inovadoras e 41 universais como a de Noel Rosa, a de Geraldo 42 Pereira, a de Nélson Rodrigues, a de Nélson 43 Cavaquinho... Muito do sorriso carioca é 44 picardia fina, modo atilado de se driblarem os 45 percalços. 46 Tenho para mim que no Rio as ruas 47 são faculdades; os botequins, universidades. 48 Algumas frases apanhadas lá nessas bigornas 49 da vida, em situações diversas, como 50 aparentes tipos a esmo: 51 “Está ruim pra malandro” – o 52 advérbio até está oculto. 53 “Quem tem olho grande não entra na 54 China.” 55 “A galinha come é com o bico no 56 chão.” 57 “Tudo de mais é veneno.” 58 “Negócio é o seguinte: dezenove não 59 é vinte.” 60 “Se ginga fosse malandragem, pato 61 não acabava na panela.” 62 “Não leve uma raposa a um 63 galinheiro.” 64 “Se a farinha é pouca o meu pirão 65 primeiro.” 66 “Há duas coisas em que não se pode 67 confiar. Quando alguém diz ‘deixe comigo’ ou 68 ‘este cachorro não morde’.” 69 “Amigo, bebendo cachaça, não faço 70 barulho de uísque.” 71 “Da fruta de que você gosta eu como 72 até o caroço.” 73 “A vida é do contra: você vai e ela 74 fica.” 75 Como filosofia de vida ou não, 76 vivendo em uma cidade em que o excesso de 77 beleza é uma orgia, convivendo com belezas 78 e mazelas, o carioca da gema é um dos 79 poucos tipos nacionais para quem ninguém é 80 gaúcho, paraibano, amazonense ou paulista. 81 Ele entende que está tratando com 82 brasileiros. Antônio, João. Ô, Copacabana. Uma importante função das expressões referenciais é redefinir o elemento referido. Ao longo do texto, novas expressões vão substituindo as anteriores e, assim, transformando esse elemento. Assinale a opção em que a frase destacada apresenta elemento referencial que desempenha essa função. A) “Minha memória não me permite esquecer.” (linhas 8-9) B) “Que havia saias e pernas nuas nos meus tempos de menino.” (linhas 16-17) C) “Algumas frases apanhadas lá nessas bigornas da vida, em situações diversas, como aparentes tipos-a-esmo” (linhas 48-50) D) “Ele entende que está tratando com brasileiros.” (linhas 81-82) Gabarito: C Resolução: A expressão "nessas bigornas da vida" refere-se aos termos citados anteriormente: ruas e botequins. Questão 7 Ser mulher... Ser mulher, vir à luz trazendo a alma talhada para os gozos da vida; a liberdade e o amor; tentar da glória a etérea e altívola escalada, na eterna aspiração de um sonho superior... Ser mulher, desejar outra alma pura e alada para poder, com ela, o infinito transpor; sentir a vida triste, insípida, isolada, buscar um companheiro e encontrar um senhor... Ser mulher, calcular todo o infinito curto para a larga expansão do desejado surto, no ascenso espiritual aos perfeitos ideais... Ser mulher, e, oh! atroz, tantálica tristeza! ficar na vida qual uma águia inerte, presa nos pesados grilhões dos preceitos sociais! (MACHADO, Gilka. Poesias completas. Rio de Janeiro: Léo Christiano Editorial: FUNARJ, 1991. p.106) Em três versos do texto, encontra-se um conectivo normalmente descrito com o sentido de finalidade/movimento. Em um desses versos, o efeito de sentido extrapola essa descrição. Identifique tal verso, destaque o conectivo e explique o referido efeito de sentido. Gabarito: (Resolução oficial) O verso que contém o conectivo de que trata o enunciado da questão é o seguinte: "para a larga expansão do desejado surto,". Nesse verso, o conectivo "para" extrapola o sentido de finalidade/movimento e alcança efeito de relação ou comparação ou proporcionalidade (infinito é curto em relação / em comparação / em proporção à larga expansão do desejado surto). Questão 8 01 05 10 15 20 25 30 35 40 Darwin passou quatro meses no Brasil, em 1832, durante a sua célebre viagem a bordo do Beagle. Voltou impressionado com o que viu: "Delícia é um termo insuficiente para exprimir as emoções sentidas por um naturalista a sós com a natureza em uma floresta brasileira", escreveu. O Brasil, porém, aparece de forma menos idílica em seus escritos: "Espero nunca mais voltar a um país escravagista. O estado da enorme população escrava deve preocupar todos os que chegam ao Brasil. Os senhores de escravos querem ver o negro como outra espécie, mas temos todos a mesma origem." Em vez do gorjeio do sabiá, o que Darwin guardou nos ouvidos foi um som terrível que o acompanhou por toda a vida: "Até hoje, se eu ouço um grito, lembro-me, com dolorosa e clara memória, de quando passei numa casa em Pernambuco e ouvi urros terríveis. Logo entendi que era algum pobre escravo que estava sendo torturado." Segundo o biólogo Adrian Desmond, "a viagem do Beagle, para Darwin, foi menos importante pelos espécimes coletados do que pela experiência de testemunhar os horrores da escravidão no Brasil. De certa forma, ele escolheu focar na descendência comum do homem justamente para mostrar que todas as raças eram iguais e, desse modo, enfim, objetar àqueles que insistiam em dizer que os negros pertenciam a uma espécie diferente e inferior à dos brancos". Desmond acaba de lançar um estudo que mostra a paixão abolicionista do cientista, revelada por seus diários e cartas pessoais. "A extensão de seu interesse no combate à ciência de cunho racista é surpreendente, e pudemos detectar um ímpeto moral por trás de seu trabalho sobre a evolução humana – uma crença na 'irmandade racial' que tinha origem em seu ódio ao escravismo eque o levou a pensar numa descendência comum." Adaptado de C. Haag. "O elo perdido tropical". Pesquisa Fapesp, n. 159, p. 80-85, maio 2009. Assinale com V (verdadeiro) ou com F (falso) as afirmações abaixo sobre elementos de formação de palavras do texto. ( ) As palavras insuficiente (l. 04) e insistiam (l. 30) apresentam o mesmo prefixo em sua formação. ( ) A comparação da palavra exprimir (l. 04) com imprimir e da palavra descendência (l. 27) com ascendência permite que se postule um radical comum para cada um dos pares. ( ) As palavras idílica (l. 08) e dolorosa (l. 17) apresentam sufixos que formam adjetivos a partir de substantivos. ( ) O emprego de diferentes sufixos para o mesmo radical em escravidão (l. 26) e escravismo (l. 40) serve, no texto, para expressar, respectivamente, a ideia de "situação resultante de uma ação" e de "movimento socioideológico". A sequência correta de preenchimento dos parênteses, de cima para baixo, é a) F – V – V – V. b) V – F – V – F. c) V – V – F – F. d) F – V – F – V. e) F – F – V – V. Gabarito: A Resolução: Embora as palavras "insistiam" e "insuficiente" comecem com as mesmas letras, "in-" só é um prefixo na segunda (em que acrescenta a ideia de negação da palavra primitiva, "suficiente"). No caso de "insistiam", o "in" consta na forma original do verbo. Questão 9 01 05 10 15 20 25 30 35 40 Darwin passou quatro meses no Brasil, em 1832, durante a sua célebre viagem a bordo do Beagle. Voltou impressionado com o que viu: "Delícia é um termo insuficiente para exprimir as emoções sentidas por um naturalista a sós com a natureza em uma floresta brasileira", escreveu. O Brasil, porém, aparece de forma menos idílica em seus escritos: "Espero nunca mais voltar a um país escravagista. O estado da enorme população escrava deve preocupar todos os que chegam ao Brasil. Os senhores de escravos querem ver o negro como outra espécie, mas temos todos a mesma origem." Em vez do gorjeio do sabiá, o que Darwin guardou nos ouvidos foi um som terrível que o acompanhou por toda a vida: "Até hoje, se eu ouço um grito, lembro-me, com dolorosa e clara memória, de quando passei numa casa em Pernambuco e ouvi urros terríveis. Logo entendi que era algum pobre escravo que estava sendo torturado." Segundo o biólogo Adrian Desmond, "a viagem do Beagle, para Darwin, foi menos importante pelos espécimes coletados do que pela experiência de testemunhar os horrores da escravidão no Brasil. De certa forma, ele escolheu focar na descendência comum do homem justamente para mostrar que todas as raças eram iguais e, desse modo, enfim, objetar àqueles que insistiam em dizer que os negros pertenciam a uma espécie diferente e inferior à dos brancos". Desmond acaba de lançar um estudo que mostra a paixão abolicionista do cientista, revelada por seus diários e cartas pessoais. "A extensão de seu interesse no combate à ciência de cunho racista é surpreendente, e pudemos detectar um ímpeto moral por trás de seu trabalho sobre a evolução humana – uma crença na 'irmandade racial' que tinha origem em seu ódio ao escravismo e que o levou a pensar numa descendência comum." Adaptado de C. Haag. "O elo perdido tropical". Pesquisa Fapesp, n. 159, p. 80-85, maio 2009. Considere as três propostas de reescrita para o trecho do texto que se segue. De certa forma, ele escolheu focar na descendência comum do homem justamente para mostrar que todas as raças eram iguais (l. 26-29). I – Pode-se dizer que ele decidiu pôr a descendência comum do homem em foco precisamente porque tinha em mente mostrar que as raças eram todas iguais. II – Certamente ele escolheu focar na descendência comum do homem em parte objetivando mostrar que as raças eram todas iguais. III – Ele decidiu pôr de certa forma a descendência comum do homem em foco, a fim de mostrar exatamente que todas as raças eram iguais. Quais propostas conservam o sentido original do trecho? a) Apenas I. b) Apenas II. c) Apenas III. d) Apenas I e II. e) Apenas I e III. Gabarito: A Resolução: A afirmativa II modifica o sentido do texto, pois a expressão "de certa forma" significa "por um lado", e tem um sentido diferente do da palavra "certamente". Além disso, "em parte" sugere que havia vários objetivos, enquanto "justamente" sugere apenas um. O mesmo podemos dizer da afirmativa III, já que, ao se deslocar a expressão, "de certa forma" passa a se referir a "descendência comum do homem em foco", e não mais a "Ele decidiu". Questão 10 01 05 10 15 20 25 30 35 40 Nos últimos 500 anos temos falado e escrito a língua portuguesa no Brasil. Nos primeiros séculos, apenas 30% dos habitantes falavam a língua de Portugal, e nem todos a escreviam. Os outros 70% ........ aloglotas, ameríndios e africanos. Foi necessário esperar até o século XVIII para que a língua portuguesa efetivamente se tornasse a língua majoritária do país. Que língua é essa que falamos e que escrevemos (tão pouco)? Continua a ser o português europeu? Ou já falamos o "brasileiro"? Tem-se notado que desde o século XIX ........ a aparecer no português do Brasil alguns elementos fonéticos e gramaticais divergentes do uso europeu. Vejamos alguns poucos exemplos. Pronunciamos todas as vogais que precedem a vogal tônica, como em telefone, enquanto os portugueses passaram a apagá-las, dizendo tulfón, Às vezes deixamos cair as vogais iniciais, como em tá, por está, mantidas pelos portugueses em seu modo característico de atender ao telefone: está? está lá? Também alteramos bastante a gramática. Para ficar só num caso: no quadro dos pronomes pessoais, mantivemos eu e ele para a primeira e a terceira pessoas, mas estamos substituindo progressivamente tu por você e nós por a gente. Vós desapareceu. Significaria então que já nasceu a língua brasileira? Algumas dificuldades impedem uma resposta positiva, pois muitos dos fenômenos diferenciadores ....... já no português medieval. Indo por aqui, o português do Brasil seria considerado mais conservador que o português europeu, e a pergunta então não é se temos uma nova língua por aqui, e sim por que "eles" mudaram a língua por lá... Muito provavelmente, o português do Brasil está combinando características conservadoras e inovadoras, seguindo, nisso, uma direção distinta daquela do português europeu. Adaptado de Ataliba T. de Castilho. "Seria a língua falada mais pobre que a língua escrita?" Impulso, Revista de Ciências Sociais e Humanas, São Paulo: Unimep, v. 12, n. 27, p. 85-104. Assinale com V (verdadeiro) ou F (falso) as seguintes afirmações sobre segmentos do texto e os elementos a que eles se referem. ( ) O pronome outros (l. 05) diz respeito aos habitantes que escreviam em português. ( ) O segmento por aqui (l. 36) equivale a "pelo Brasil". ( ) O segmento nisso (l. 43) refere-se a "o modo de combinar características conservadoras e inovadoras". A sequência correta de preenchimento dos parênteses, de cima para baixo, é: a) F – V – V. b) F – V – F. c) F – F – V. d) V – F – F. e) V – F – V. Gabarito: C Resolução: O pronome "outros" (l. 05) refere-se aos habitantes do Brasil nos primeiros séculos de colonização. A expressão "indo por aqui" (l. 36) significa "seguindo esta linha de análise". Questão 11 01 05 10 15 20 25 30 35 40 Nos últimos 500 anos temos falado e escrito a língua portuguesa no Brasil. Nos primeiros séculos, apenas 30% dos habitantes falavam a língua de Portugal, e nem todos a escreviam. Os outros 70% ........ aloglotas, ameríndios e africanos. Foi necessário esperar até o século XVIII para que a língua portuguesa efetivamente se tornasse a língua majoritária do país. Que língua é essa que falamos e que escrevemos (tão pouco)? Continua a ser o português europeu? Ou já falamos o "brasileiro"? Tem-se notado que desde o século XIX ........ a aparecerno português do Brasil alguns elementos fonéticos e gramaticais divergentes do uso europeu. Vejamos alguns poucos exemplos. Pronunciamos todas as vogais que precedem a vogal tônica, como em telefone, enquanto os portugueses passaram a apagá-las, dizendo tulfón, Às vezes deixamos cair as vogais iniciais, como em tá, por está, mantidas pelos portugueses em seu modo característico de atender ao telefone: está? está lá? Também alteramos bastante a gramática. Para ficar só num caso: no quadro dos pronomes pessoais, mantivemos eu e ele para a primeira e a terceira pessoas, mas estamos substituindo progressivamente tu por você e nós por a gente. Vós desapareceu. Significaria então que já nasceu a língua brasileira? Algumas dificuldades impedem uma resposta positiva, pois muitos dos fenômenos diferenciadores ....... já no português medieval. Indo por aqui, o português do Brasil seria considerado mais conservador que o português europeu, e a pergunta então não é se temos uma nova língua por aqui, e sim por que "eles" mudaram a língua por lá... Muito provavelmente, o português do Brasil está combinando características conservadoras e inovadoras, seguindo, nisso, uma direção distinta daquela do português europeu. Adaptado de Ataliba T. de Castilho. "Seria a língua falada mais pobre que a língua escrita?" Impulso, Revista de Ciências Sociais e Humanas, São Paulo: Unimep, v. 12, n. 27, p. 85-104. Considere as três propostas de reescrita do seguinte período do texto. Foi necessário esperar até o século XVIII para que a língua portuguesa efetivamente se tornasse a língua majoritária do país. (l. 06-09) I – Efetivamente, foi necessário esperar até o século XVIII para que a língua portuguesa se convertesse na língua majoritária do país. II – Foi preciso esperar até o século XVIII para que a língua portuguesa se estabelecesse como a língua majoritária do país. III – Precisou-se esperar até o século XVIII para que a língua portuguesa viesse a ser de fato a língua majoritária do país. Quais propostas de reescrita mantêm a correção e o sentido do texto original? a) Apenas I. b) Apenas II. c) Apenas III. d) Apenas II e III. e) I, II e III. Gabarito: D Resolução: Ao deslocar o advérbio "efetivamente" para o início da frase, altera-se o sentido do texto original, no qual o advérbio se refere a "língua portuguesa se tornasse a língua majoritária do país" e não a "foi necessário esperar até o século XVIII". Questão 12 01 05 10 15 20 25 30 35 40 Nos últimos 500 anos temos falado e escrito a língua portuguesa no Brasil. Nos primeiros séculos, apenas 30% dos habitantes falavam a língua de Portugal, e nem todos a escreviam. Os outros 70% ........ aloglotas, ameríndios e africanos. Foi necessário esperar até o século XVIII para que a língua portuguesa efetivamente se tornasse a língua majoritária do país. Que língua é essa que falamos e que escrevemos (tão pouco)? Continua a ser o português europeu? Ou já falamos o "brasileiro"? Tem-se notado que desde o século XIX ........ a aparecer no português do Brasil alguns elementos fonéticos e gramaticais divergentes do uso europeu. Vejamos alguns poucos exemplos. Pronunciamos todas as vogais que precedem a vogal tônica, como em telefone, enquanto os portugueses passaram a apagá-las, dizendo tulfón, Às vezes deixamos cair as vogais iniciais, como em tá, por está, mantidas pelos portugueses em seu modo característico de atender ao telefone: está? está lá? Também alteramos bastante a gramática. Para ficar só num caso: no quadro dos pronomes pessoais, mantivemos eu e ele para a primeira e a terceira pessoas, mas estamos substituindo progressivamente tu por você e nós por a gente. Vós desapareceu. Significaria então que já nasceu a língua brasileira? Algumas dificuldades impedem uma resposta positiva, pois muitos dos fenômenos diferenciadores ....... já no português medieval. Indo por aqui, o português do Brasil seria considerado mais conservador que o português europeu, e a pergunta então não é se temos uma nova língua por aqui, e sim por que "eles" mudaram a língua por lá... Muito provavelmente, o português do Brasil está combinando características conservadoras e inovadoras, seguindo, nisso, uma direção distinta daquela do português europeu. Adaptado de Ataliba T. de Castilho. "Seria a língua falada mais pobre que a língua escrita?" Impulso, Revista de Ciências Sociais e Humanas, São Paulo: Unimep, v. 12, n. 27, p. 85-104. Considere as seguintes propostas de substituição de nexos do texto, independentemente da necessidade de eventuais ajustes de pontuação. 1 – enquanto (l. 20) por no momento em que 2 – então (l. 32) por pois 3 – e sim (l. 39) por mas Quais propostas manteriam o significado das frases em que os nexos estão inseridos? a) Apenas 1. b) Apenas 2. c) Apenas 3. d) Apenas 1 e 2. e) Apenas 2 e 3. Gabarito: E Resolução: No contexto, a expressão "enquanto" não tem sentido temporal e por isso não pode ser substituída pela expressão "no momento em que". Uma substituição possível seria: "Pronunciamos todas as vogais que precedem a vogal tônica, como em telefone, já os portugueses passaram a apagá-las, dizendo tulfón". Questão 13 “À natureza profunda do ente humano repugna ver-se isolada do convívio dos seus semelhantes, e o pior de todos os castigos é aquele que fere a nossa natureza profunda.” QUEIROZ, Rachel de. O quente e o apertado. Em: As meninas e outras crônicas. No ano do centenário de nascimento da escritora cearense Rachel de Queiroz, a Universidade Estadual do Ceará presta-lhe homenagem. 1 Não me lembro como se chamam as 2 tais bonecas folclóricas russas: sei que são 3 ocas e abre-se a boneca maior e dentro dela 4 há uma menor, e dentro dessa, outra menor 5 ainda, e depois outra e mais outra, até 6 chegar à última, que é uma simples 7 miniatura de boneca. No mesmo gênero, 8 também, é aquele conto de fadas: "lá no 9 mar tem uma ilha, dentro da ilha tem um 10 castelo, dentro do castelo tem uma torre, 11 dentro da torre tem um quarto, dentro do 12 quarto tem uma arca, dentro da arca tem 13 uma caixa, dentro da caixa tem um cofre, 14 dentro do cofre tem um frasco, dentro do 15 frasco tem uma pomba, dentro da pomba 16 tem um ovo, dentro do ovo tem uma chave e 17 é essa chave que abre a porta da prisão 18 onde está a princesa encantada". 19 Pois a gente também é assim. A 20 princípio eu pensava que, com a passagem 21 das diferentes idades do homem, o maior ia 22 substituindo o menor, quero dizer, o menino 23 ficava no lugar do neném, o adolescente no 24 do menino, o moço no do adolescente, o 25 homem feito no do moço, o de meia-idade 26 no do homem feito, o velho no lugar do de 27 meia-idade e por fim o defunto no lugar de 28 todos. Mas depois descobri que os indivíduos 29 passados não desaparecem, se incorporam, 30 ou, antes, o indivíduo novo incorpora os 31 superados como se os devorasse, e uns vão 32 ficando dentro dos outros, tal como as 33 bonecas russas do começo da história. 34 E, assim, dentro de cada um de nós, 35 a gente procurando sempre encontra os 36 perfis superpostos, encartados um por 37 dentro do outro, sem se misturarem. É só 38 saber como esgaravatar e você descobrirá 39 fácil no sentencioso senhor de cinquenta 40 anos o inseguro pai de família principiante 41 que ele foi aos trinta anos ou o belo atleta 42 descuidado que foi ele aos dezoito. Ali está 43 cada um, aparentemente esquecido, mas 44 incólume. E estanques todos. Porque um não 45 penetra no outro e aparentemente um não 46 tem o mínimo em comum com o outro; nem 47 sequer um influi no outro – as mais das 48 vezes são antípodas e adversários. 49 Faça uma experiência: pegue um 50 livro, uma foto, reveja um filme, encontre 51 alguém, qualquer desses serve, contanto se 52 refira especificamente a determinado tempo 53 da sua vida. E então magicamente se suscita 54 aqueleinstante perdido do passado, com 55 uma força de momento atual. Espantado, 56 você se indaga: então esse fui eu, era eu? 57 Que tem em comum com o você de hoje, 58 aquele estranho que subitamente acordou ao 59 apelo do seu nome, debaixo da sua pele? 60 Terá em comum só mesmo o nome e a pele, 61 porque o resto, no corpo e na alma, tudo é 62 outro. Deformado ou gasto, mas sempre 63 diferente. Você é outro, outro. E quase não 64 acredita ter sido você também aquele rapaz 65 desvairado, ou sonso, ou bobo e 66 terrivelmente inexperiente que de súbito 67 emergiu de dentro dos seus ossos e das suas 68 velhas lembranças. 69 E na sua avó venerável você também 70 pode descobrir a rapariga inconsequente que 71 ela foi um dia, e no seu severo confessor de 72 hoje o seminarista em crise religiosa de 73 trinta anos atrás. É só saber procurar. 74 A gente diz disso: "águas passadas". Mas 75 talvez seja melhor dizer águas represadas, 76 águas recalcadas. Porque basta bater na 77 pedra, a fonte emerge, o que não 78 aconteceria se as águas fossem passadas 79 realmente. [18 out. 1972] QUEIROZ, Rachel de. Em: As meninas e outras crônicas. p. 133-134. Considere as proposições abaixo sobre o uso do elemento "pois" na linha 19. I – Mesmo sem desempenhar função definida pela gramática, produz efeito de sentido, se considerado no plano textual-discursivo. II – Tem como uma de suas funções convocar o leitor para seguir o raciocínio que se inicia no primeiro parágrafo e continua no segundo. III – Introduz no segundo parágrafo uma relação de conclusão para o que foi informado no parágrafo anterior. Está correto o que se afirma A) apenas em I e II. B) apenas em I e III. C) em I, II e III. D) apenas em II. Gabarito: A Resolução: O termo "pois", na linha 19, estabelece um encadeamento no discurso, ou seja, convoca o leitor para seguir o raciocínio já iniciado. Além disso, tem efeito de sentido, já que insere uma comparação com o que foi mencionado no 1o parágrafo. Porém, não tem função sintática definida, uma vez que poderia ser suprimida do início da frase sem prejuízo do sentido (já que a comparação é expressa pelo termo "também"). Questão 14 4 O tempo é elemento constantemente presente. Numerosas disciplinas estudam o passado, seja ele o das culturas, sociedades, economias e civilizações — conhecido por meio de documentos e monumentos ou objetos antigos 7 ou, pelo contrário, da natureza cognoscível, graças a fósseis ou a restos inorgânicos. Por outro lado, procura-se conhecer antecipadamente o futuro praticando a adivinhação ou a 10 planificação, perscrutando o sentido em direção ao qual se supõe que se dirija a história, estudando os períodos já decorridos para estabelecer se ela se desenrola linear ou 13 ciclicamente, se é contínua, marcada por eventos, ou interrompida por catástrofes. De modo geral, ocupar-se do tempo ou do espaço-tempo significa, de certa forma, ocupar-se 16 do universo ou mesmo da totalidade do ser; significa, além disso, interessar-se por todas as modalidades do devir, pelo movimento, pelas transformações da energia e pelas 19 variações da entropia, pela evolução dos seres vivos e pelas suas ontogêneses, pelo desenvolvimento econômico e social. Essa extrema generalidade das categorias utilizadas para 22 pensar o desenvolvimento temporal de diferentes processos fá-las intervir não só na filosofia, mas também na ciência, na política, nas artes, na vida cotidiana. Enciclopédia Einaudi. Lisboa: Casa da Moeda, 1993, p. 90 (com adaptações). Tendo o texto apresentado como referência inicial, julgue os itens a seguir (certo ou errado). • Infere-se do texto que o processo histórico vivido pelas sociedades humanas é traduzido por uma espécie de movimento uniforme, marcado pela incessante marcha do progresso, que, da era das cavernas ao tempo presente, a rigor, desconhece rupturas e retrocesso. • Para o pleno atendimento dos princípios de coesão textual, deveria ter sido empregada, antecedendo o termo “O tempo”(l.1), a expressão "por um lado", dado o uso, na linha 6, de “por outro lado”. • O texto é marcado pelo uso da linguagem denotativa e pela impessoalidade, o que não impede que nele se expresse uma opinião, como a de que a filosofia não constitui ciência, conforme se infere do último período do texto. • No segmento “procura-se conhecer antecipadamente o futuro” (l.6-7), o emprego do advérbio é redundante e, portanto, a sua supressão não acarretaria prejuízo à informação expressa no período. • No trecho “graças a fósseis ou a restos inorgânicos” (l.5-6), o emprego do conector “ou”, com valor de excludência baseia-se no pressuposto científico de que fósseis são formados exclusivamente de matéria orgânica. Gabarito: E E C C E Resolução: • E – De acordo com esse texto, para se conhecer o desenvolvimento das sociedades humanas é preciso considerar o processo de mudança e transformações ocorridas em todos os níveis. • E – O uso da expressão "por outro lado" pressupõe que um lado já foi abordado, daí a ausência de "por um lado" não impedir a compreensão do texto. • C – Nesse texto, expositivo-argumentativo, o autor defende, de modo objetivo, uma ideia apresentando dados e observações que a comprovem. • C – O uso do advérbio é apenas enfático, pois buscar conhecer o futuro significa a antecipação de algo. • E – O "ou" apresenta mais uma possibilidade de elemento que contribui para os estudos do desenvolvimento das sociedades. Questão 15 “Mas é difícil escapar à impressão de pedantismo ou de exibicionismo, ao dizer isto.” (linhas 1 e 2) Com o pronome isto, a autora refere-se A ( ) à sua estada em Paris. B ( ) à necessidade de ter estado em Paris. C ( ) ao pedantismo ou exibicionismo de dizer que esteve em Paris. D ( ) à francofilia que justifica dizer que esteve em Paris. E ( ) ao complexo brasileiro de eterno colonizado. Gabarito: A Resolução: Poderíamos reescrever a frase presente nas duas primeiras linhas do texto da seguinte forma: "mas é difícil escapar à impressão de pedantismo ou exibicionismo ao dizer que estive em Paris". Como se pode perceber, o pronome demonstrativo isto retoma a afirmação da autora de que esteve em Paris. Questão 16 Surpresa: venceu a civilização Fez um ano, no dia 26 de setembro, que a lei que bane os outdoors e regulamenta os letreiros nas fachadas das casas comerciais foi aprovada pela Câmara Municipal de São Paulo. No dia 1º de janeiro fará um ano que a lei, apelidada de Lei Cidade Limpa, entrou em vigor. Seus objetivos pareciam bons demais para virar realidade. No entanto, decorridos só um pouco mais de um ano da aprovação e nem dez meses da entrada em vigor, já é evidente que a lei pegou. [...] A paisagem urbana mudou, em São Paulo. Antes da lei, a cidade constituía-se no mais perfeito exemplo de casa da mãe joana em matéria de letreiros, faixas, painéis, cartazes e assemelhados a pendurar-se em fachadas, muros, totens, postes ou qualquer outra superfície disponível, fosse beira de telhado ou gradil de viaduto. Tal barafunda era um dos signos de seu terceiro-mundismo, principalmente o terceiro-mundismo mental, cujo entendimento é de que o espaço público, em vez de um espaço de todos, é espaço de ninguém, livre para ser apropriado. Hoje – milagre! – já dá para transitar pelas ruas de São Paulo com a tranquilidade de que os olhos serão poupados do selvagem assédio dos anúncios. A vitória da Lei Cidade Limpa lembra outra, ocorrida há dez anos, em Brasília: a do respeito à faixa de pedestres. Também nesse caso a questão girava em torno do uso da civitas, aqui no aspecto da conturbada convivência entre o automóvel e o pedestre. Diante do nível crítico a que haviam chegado os atropelamentos na cidade, o governo, então comandado pelo hoje senador Cristovam Buarque, decidiu fazer valer o respeito às faixas demarcadas para a travessia das ruas. Para começar, postou junto a elas guardas encarregados de explicar aos motoristas que aquele desenho no chão era sinal de que deviam parar, para deixar passaro pedestre. Transcorridos os três meses dessa fase “educativa”, começou a multar. O resultado foi que – outro milagre! – em Brasília os brasileiros entenderam o que é faixa de pedestres. Até hoje, a capital federal é um raro oásis na selva do trânsito brasileiro, em que motoristas observam a prioridade do pedestre nas faixas. [...] (TOLEDO, Roberto Pompeu de. Veja, 10 out. 2007, p. 142.) Escreva um texto sobre a possibilidade de esse “milagre” vir a acontecer com a lei de tolerância zero para o consumo de bebidas alcoólicas por motoristas. Seu texto deverá atender os seguintes itens: ter no mínimo 10 e no máximo 12 linhas;● reportarse à reflexão feita por Pompeu de Toledo, identificando a fonte;● abordar a especificidade da lei de tolerância zero, que toca num tabu cultural (o consumo “social”● de bebida). Gabarito: A resposta deve atender os seguintes critérios: • foco do texto: explicitação do posicionamento do candidato frente ao possível sucesso ou insucesso da lei que proíbe o uso de bebidas alcoólicas por motoristas; • direcionamento da argumentação para a relação entre a lei de "tolerância zero" e o consumo "social" de bebidas; • informações corretas sobre a lei de "tolerância zero", caso sejam incluídas no texto; • menção a pelo menos uma das leis citadas no texto de Roberto Pompeu de Toledo, com indicação da fonte; • respeito aos critérios de composição textual e às normas gramaticais. Questão 17 À beira de um colapso Dados da ANEF (Associação das Empresas Financeiras das Montadoras) mostram que o saldo de recursos para financiamento de veículos saltou de R$ 42,4 bilhões em 2004 para R$ 120 bilhões no primeiro trimestre de 2008, e a expectativa é que essa trajetória ascendente continue. Com tanto dinheiro financiando veículos, as vendas no mercado interno ultrapassaram 1 milhão de unidades em maio deste ano. Em 2007, essa quantidade foi alcançada em junho. O recorde de automóveis vendidos no ano passado será certamente batido neste ano,devendo se aproximar de 2,5 milhões de unidades. Em apenas oito anos, as vendas de veículos no mercado interno brasileiro dobraram. Saltaram de 1,1 milhão de unidades em 1999 para o recorde de 2,2 milhões em 2007. As indústrias automobilísticas têm investido grandes somas em suas linhas de produção para explorar o promissor mercado nacional. Dados da Anfavea (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores) mostram que, enquanto a relação habitante-automóvel é de 1,2 nos Estados Unidos, de 3,1 na Coreia do Sul e de 4,7 no México, no Brasil ela é de 7,9. Ou seja, há um contingente enorme de pessoas no mercado brasileiro contido na estratégia das montadoras de expandir mercados, uma vez que nos países ricos essa meta está restrita. Por conta do potencial de expansão da frota de veículos, do volume de crédito crescente e da estabilidade econômica, as montadoras estão investindo neste ano um montante recorde de recursos no Brasil para aumentar a produção. Estão previstos cerca de US$ 5 bilhões em investimentos em 2008, 130% a mais comparativamente ao valor investido no ano passado. [...] (CINTRA, Marcos. Folha de S. Paulo. 26 mai. 2008.) Apesar da recente crise mundial, a questão apresentada por Marcos Cintra em maio não mudou muito. Pode-se observar que as primeiras medidas tomadas para contornar a crise dizem respeito justamente às indústrias automobilísticas. Tendo em vista esse quadro, escreva um texto de opinião, discutindo esse paradoxo. Seu texto deve: deixar clara sua posição;● reportar -se a dados apresentados por Cintra que você considere pertinentes para sua● argumentação; ter de 10 a 12 linhas.● Gabarito: A resposta deve atender os seguintes critérios: • direcionamento da discussão para o recorte proposto no enunciado (crise econômica/investimentos no mercado automobilístico); • correta citação de dados apresentados por Marcos Cintra, com indicação da fonte; • identificação do paradoxo, emitindo uma opinião sobre ele; • percepção do lapso de tempo entre o texto de Marcos Cintra e a instalação da crise econômica, relativizando as projeções que ele apresenta; • interpretação correta da proporção "automóvel por habitante"; • respeito aos critérios de composição textual e às normas gramaticais. Questão 18 Vira-latas compensatórios O erro que custou a Diego Hypólito uma medalha tida por todos como certa reativou um fantasma recorrente: a crença na vocação do brasileiro para fracassar nos momentos decisivos. Por alguma característica da alma nacional, não seríamos capazes de suportar tal pressão, o que se evidenciaria com particular clareza nas finais esportivas em que somos considerados favoritos. Uma das razões dessa atitude é sem dúvida de natureza projetiva: os esportistas carregam nos ombros a responsabilidade de "representar a nação". Vencendo, inflam nossa autoestima e, fazendo-nos crer que somos tão bons quanto os melhores, nos proporcionam uma satisfação narcísica rala, mas de certo modo eficaz; se perderem, confirmam a crença na pouca valia dos nossos conterrâneos e, portanto, de nós mesmos. O segundo motivo para desprezar os "perdedores" é a inveja, pois jamais chegaremos a realizar nada parecido com as proezas de que são capazes esses jovens. Como a inveja não é um sentimento nobre, negamo-la atribuindo o "fracasso" não às circunstâncias específicas que o provocaram, mas a algo cuja função é nos tornar mais uma vez semelhantes aos que, no fundo, não podemos deixar de admirar – mas agora pelo avesso: se a incapacidade de transformar o favoritismo em realizações é uma trágica fatalidade do caráter brasileiro, então os atletas não podiam mesmo conquistar a almejada vitória. Para o esporte vale o que escreveu Maquiavel a propósito da política: o sucesso não depende apenas da "virtù", mas também da "fortuna"."Virtù" é o que o combatente traz consigo: seu preparo técnico, seu conhecimento do terreno e do adversário, a qualidade de suas armas. "Fortuna" é o fator imprevisível que favorece um ou outro – a lama no campo de batalha, o erro do oponente, a vara que faltava no estojo de Fabiana Murer. A contusão de Liu Xiang [China, atletismo] é obra da "fortuna", assim como o imbecil que agarrou Valdemar Cordeiro na maratona de 2004 ou a falha de Diego Hypólito no instante final. "Faço este movimento desde os 12 anos, nunca errei", lamentava-se ele ao rever o filme da prova. Até que um dia... Na mesma entrevista, o ginasta reconheceu onde estava sua fraqueza: "Creio que poderia não ter criado tanta expectativa quanto ao ouro". Ou seja, além da pressão da torcida, o próprio atleta acaba se persuadindo da obrigação de vencer, e isso o perturba no momento decisivo. Por outro lado, a "virtù" contribuiu, e muito, para alguns bons resultados em Pequim. Entre outros exemplos, ressalto o trabalho psicológico com a equipe feminina de vôlei, o cuidado das velejadoras Fernanda Oliveira e Isabel Swan em estudar as condições do lugar em que iriam competir, a equipe multiprofissional de que se cercou a lutadora Natália Falavigna no taekwondo, o apoio dado pela família a César Cielo, a determinação de Ketleyn Quadros e de Maurren Maggi. O que esta escreveu na carta ao seu técnico – "dei duro e estou preparada" – não garantia a vitória, mas sem isso ela jamais chegaria. Contraprova: a "pátria de chuteiras", com muita empáfia e pouco treino, tinha chances remotas contra uma Argentina que se preparou melhor – e merecidamente levou o título. É tempo de deixarmos de lado o que Nelson Rodrigues chamava de "complexo de vira-lata". Ao invocar absurdos como a suposta incapacidade nacional para manter a cabeça fria na hora H, não apenas estamos faltando com a verdade – desde a invenção dos esportes modernos, inúmeros brasileiros venceram finais com tranquilidade, assim como outros foram prejudicados pelo nervosismo ou pela arrogância – mas ainda apequenamos o valor de resultados conseguidos comesforço hercúleo, independentemente do metal das medalhas – ou da ausência delas. (MEZAN, Renato. Folha de S. Paulo. 31 ago. 2008. Mais!, p. 10 – adaptado). Faça um resumo do texto acima, atendendo os seguintes requisitos: esclareça que se trata de um texto de Renato Mezan;● assuma a voz do texto, fazendo as devidas referências ao autor;● utilize no máximo 10 linhas.● Gabarito: A resposta deve atender os seguintes critérios: • forma adequada ao gênero resumo; • esclarecimento sobre a autoria do texto-fonte (Renato Mezan); • leitura correta do texto-fonte e seleção das afirmações mais relevantes; • menção aos conceitos mais importantes usados por Mezan para construir sua argumentação: "complexo de vira-latas", expressão criada por Nelson Rodrigues; virtù e fortuna, conceitos formulados por Maquiavel; • respeito aos critérios de composição textual e às normas gramaticais. Questão 19 Qual dos advérbios terminados em -mente incide sobre o conteúdo de toda a frase? A ( ) fantasticamente (linha 24). B ( ) abertamente (linha 32). C ( ) independentemente (linha 39). D ( ) psicologicamente (linha 43). E ( ) imediatamente (linha 47). Gabarito: C Resolução: O autor afirma que independentemente do trabalho dos técnicos de futebol (treinar jogadores, traçar o esquema de jogo e armar jogadas), há sempre forças do acaso que são determinantes no resultado da partida. O advérbio “independentemente”, portanto, é o único dentre as alternativas que incide sobre o conteúdo de toda a frase. Questão 20 Quanto ao uso da linguagem utilizada no fragmento apresentado, é correto afirmar: (01) “outra” (l. 1) e “outra” (l. 2) referem-se a diferentes seres. (02) “o” em “guardei-o” (l. 3) e “isto” em “Que significa isto?” (l. 12) completam ações verbais. (04) “lhe” em “alcançar-lhe” (l. 5) e “lhe” em “lhe sublevava” (l. 11) expressam ideia de posse. (08) “que” (l. 5) refere-se a “face” (l. 5). (16) “eco da rispidez e aspereza do sentimento que lhe sublevava o seio” (l. 10-11), esclarece a expressão “timbre cristalino” (l. 10). (32) “eu, uma mulher traída; o senhor, um homem vendido.” (l. 17-18), é um fragmento cujas vírgulas são facultativas. Gabarito: 21 Resolução: 1 + 4 + 16 = 21 A afirmação de valor 1 está correta, já que o termo “outra” utilizado pela primeira vez refere-se a uma mulher específica, enquanto o mesmo termo na segunda linha possui o sentido de “qualquer”. A afirmação 4 também está correta, pois o “lhe” de alcançar-lhe refere-se à face, ou seja, alcançar a face dela, indicando uma relação de posse, a qual também ocorre em “lhe sublevava o seio”: sublevava o seio dela. Por fim, a 16 encerra as afirmações corretas: a expressão “eco da rispidez e aspereza do sentimento que lhe sublevava o seio” é uma explicação para o “timbre cristalino” da voz da moça.