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30
Questão 1
Chega de faz-de-conta: criança é prioridade
(1) Fafá, 11 anos, devia estar brincando de casinha, de roda, de amarelinha. Devia estar terminando o
dever de casa, conversando com as amiguinhas. Devia estar vendo nuvens e imaginando nelas um
castelo, um rosto, um urso e tudo o que a imaginação infantil é capaz de fazer ver. Devia estar
recebendo em sua face corada um beijo de boa-noite dos pais. Mas o passado ficou imperfeito.
(2) E o dever-ser se transformou em um tempo verbal lamentável, o futuro inalcançável, o deveria-
ser-mas-não-é. Fafá não estava brincando, não estava estudando, não estava recebendo amor de
seus pais. Não estava sendo tratada como criança. Fafá estava sendo usada como objeto sexual. Seus
pais, em vez de lhe desejarem boa-noite, cobravam, no fim do dia, os trocados recebidos pela
intimidade infantil raptada.
(3) Dedé tem 13 anos e devia estar fazendo molequices, jogando bola, subindo em árvores. Devia
estar na escola, devia estar andando de bicicleta. Mas, assim como Fafá, Dedé também é vítima da
imperfeição pretérita. Devia estar, mas não está. Em vez disso, é explorado pelo tráfico de drogas.
Faz papelotes de maconha e espera ser promovido a “gerente de boca”. Sabe, porém, que a chance
maior é a de ser preso ou morrer antes que isso aconteça. Não tem medo do destino, já que lhe
tiraram tudo – inclusive sua dignidade.
(4) Fafá e Dedé são vítimas de duas das piores formas de exploração do trabalho infantil, conforme a
Convenção 182 da Organização Internacional do Trabalho – a exploração sexual comercial e a
utilização de crianças na produção e no tráfico de drogas. Infelizmente, existem milhares de Fafás e
de Dedés entregues aos próprios destinos, em afronta ao artigo 227 da Constituição Federal, que diz
ser dever de todos – da família, da sociedade e do Estado – proteger crianças e adolescentes.
(5) Então, como transformar esse passado imperfeito em um presente mais-que-perfeito? Em
primeiro lugar, a óbvia constatação de que somente com investimentos pesados em educação se
pode romper o ciclo da pobreza. Infelizmente, também a educação sofre dessa doença gramatical – o
futuro que parece inalcançável (...).
(6) Pergunta-se: quando deixaremos de conjugar o verbo dever no “futuro inalcançável”? Resposta:
agora! As crianças não podem mais esperar. Precisamos da certeza de que Fafás e Dedés estão onde
devem estar e não onde deveriam estar, mas não estão. Da sala de aula, nos corrijam: o verbo dever
não se conjuga no “futuro inalcançável’’. Dever é para ser cumprido!.
MELLO, Maurício Correia de. "Chega de faz de conta: criança é prioridade". Folha de S. Paulo,
São Paulo, 10 nov. 2005. (Fragmento.)
A coesão tem a função de promover a continuidade do texto, deixando-o com seus diferentes
segmentos encadeados e articulados. No texto em análise, podemos identificar como recursos
coesivos:
1) a repetição de palavras (como ‘criança’, ‘educação’ etc.).
2) a proximidade de sentido entre algumas palavras (como ‘escola’ – ‘educação’; ‘presente–passado-
futuro’ etc.).
3) o uso de conectivos (‘mas’, ‘porém’, ‘já que’).
4) o uso de expressões entre aspas.
Estão corretas:
A) 1 e 3 apenas.
B) 1, 2 e 3 apenas.
C) 1 e 4 apenas.
D) 2 e 3 apenas.
E) 1, 2, 3 e 4.
Gabarito:
B
Resolução:
(Resolução oficial)
O uso de aspas não constitui um recurso que contribui para a coesão do texto. Todos os outros, sim,
representam elementos que promovem a coesão do texto.
Logo, a resposta correta é a alternativa B).
Questão 2
Chega de faz-de-conta: criança é prioridade
(1) Fafá, 11 anos, devia estar brincando de casinha, de roda, de amarelinha. Devia estar terminando o
dever de casa, conversando com as amiguinhas. Devia estar vendo nuvens e imaginando nelas um
castelo, um rosto, um urso e tudo o que a imaginação infantil é capaz de fazer ver. Devia estar
recebendo em sua face corada um beijo de boa-noite dos pais. Mas o passado ficou imperfeito.
(2) E o dever-ser se transformou em um tempo verbal lamentável, o futuro inalcançável, o deveria-
ser-mas-não-é. Fafá não estava brincando, não estava estudando, não estava recebendo amor de
seus pais. Não estava sendo tratada como criança. Fafá estava sendo usada como objeto sexual. Seus
pais, em vez de lhe desejarem boa-noite, cobravam, no fim do dia, os trocados recebidos pela
intimidade infantil raptada.
(3) Dedé tem 13 anos e devia estar fazendo molequices, jogando bola, subindo em árvores. Devia
estar na escola, devia estar andando de bicicleta. Mas, assim como Fafá, Dedé também é vítima da
imperfeição pretérita. Devia estar, mas não está. Em vez disso, é explorado pelo tráfico de drogas.
Faz papelotes de maconha e espera ser promovido a “gerente de boca”. Sabe, porém, que a chance
maior é a de ser preso ou morrer antes que isso aconteça. Não tem medo do destino, já que lhe
tiraram tudo – inclusive sua dignidade.
(4) Fafá e Dedé são vítimas de duas das piores formas de exploração do trabalho infantil, conforme a
Convenção 182 da Organização Internacional do Trabalho – a exploração sexual comercial e a
utilização de crianças na produção e no tráfico de drogas. Infelizmente, existem milhares de Fafás e
de Dedés entregues aos próprios destinos, em afronta ao artigo 227 da Constituição Federal, que diz
ser dever de todos – da família, da sociedade e do Estado – proteger crianças e adolescentes.
(5) Então, como transformar esse passado imperfeito em um presente mais-que-perfeito? Em
primeiro lugar, a óbvia constatação de que somente com investimentos pesados em educação se
pode romper o ciclo da pobreza. Infelizmente, também a educação sofre dessa doença gramatical – o
futuro que parece inalcançável (...).
(6) Pergunta-se: quando deixaremos de conjugar o verbo dever no “futuro inalcançável”? Resposta:
agora! As crianças não podem mais esperar. Precisamos da certeza de que Fafás e Dedés estão onde
devem estar e não onde deveriam estar, mas não estão. Da sala de aula, nos corrijam: o verbo dever
não se conjuga no “futuro inalcançável’’. Dever é para ser cumprido!.
MELLO, Maurício Correia de. "Chega de faz de conta: criança é prioridade". Folha de S. Paulo,
São Paulo, 10 nov. 2005. (Fragmento.)
No trecho: “somente com investimentos pesados em educação se pode romper o ciclo da pobreza”,
a palavra destacada:
1) denota um sentido de exclusão, tal como ‘apenas’, ‘senão’, ‘só’, entre outras.
2) se opõe às outras que indicam inclusão, como ‘até’, ‘inclusive’, ‘até mesmo’ etc.
3) é usada para expressar retificação, tal como as outras ‘aliás’, ‘ou antes’, ‘melhor dizendo’ etc.
Está(ão) correta(s):
A) 1, 2 e 3.
B) 1 e 2.
C) 1 e 3 apenas.
D) 2 apenas.
E) 3 apenas.
Gabarito:
B
Resolução:
(Resolução oficial)
A palavra ‘somente’ não expressa ‘retificação’ nem equivale às outras citadas na alternativa.
O que se afirma em 1) e 2) está correto: somente indica exclusão.
Questão 3
Chega de faz-de-conta: criança é prioridade
(1) Fafá, 11 anos, devia estar brincando de casinha, de roda, de amarelinha. Devia estar terminando o
dever de casa, conversando com as amiguinhas. Devia estar vendo nuvens e imaginando nelas um
castelo, um rosto, um urso e tudo o que a imaginação infantil é capaz de fazer ver. Devia estar
recebendo em sua face corada um beijo de boa-noite dos pais. Mas o passado ficou imperfeito.
(2) E o dever-ser se transformou em um tempo verbal lamentável, o futuro inalcançável, o deveria-
ser-mas-não-é. Fafá não estava brincando, não estava estudando, não estava recebendo amor de
seus pais. Não estava sendo tratada como criança. Fafá estava sendo usada como objeto sexual. Seus
pais, em vez de lhe desejarem boa-noite, cobravam, no fim do dia, os trocados recebidos pela
intimidade infantil raptada.
(3) Dedé tem 13 anos e devia estar fazendo molequices, jogando bola, subindo em árvores. Devia
estar na escola, devia estar andando de bicicleta. Mas, assim como Fafá, Dedé também é vítima da
imperfeição pretérita. Devia estar, mas não está. Em vez disso, é explorado pelo tráfico de drogas.
Faz papelotes demaconha e espera ser promovido a “gerente de boca”. Sabe, porém, que a chance
maior é a de ser preso ou morrer antes que isso aconteça. Não tem medo do destino, já que lhe
tiraram tudo – inclusive sua dignidade.
(4) Fafá e Dedé são vítimas de duas das piores formas de exploração do trabalho infantil, conforme a
Convenção 182 da Organização Internacional do Trabalho – a exploração sexual comercial e a
utilização de crianças na produção e no tráfico de drogas. Infelizmente, existem milhares de Fafás e
de Dedés entregues aos próprios destinos, em afronta ao artigo 227 da Constituição Federal, que diz
ser dever de todos – da família, da sociedade e do Estado – proteger crianças e adolescentes.
(5) Então, como transformar esse passado imperfeito em um presente mais-que-perfeito? Em
primeiro lugar, a óbvia constatação de que somente com investimentos pesados em educação se
pode romper o ciclo da pobreza. Infelizmente, também a educação sofre dessa doença gramatical – o
futuro que parece inalcançável (...).
(6) Pergunta-se: quando deixaremos de conjugar o verbo dever no “futuro inalcançável”? Resposta:
agora! As crianças não podem mais esperar. Precisamos da certeza de que Fafás e Dedés estão onde
devem estar e não onde deveriam estar, mas não estão. Da sala de aula, nos corrijam: o verbo dever
não se conjuga no “futuro inalcançável’’. Dever é para ser cumprido!.
MELLO, Maurício Correia de. "Chega de faz de conta: criança é prioridade". Folha de S. Paulo,
São Paulo, 10 nov. 2005. (Fragmento.)
Observe a expressão: ‘futuro inalcançável’. A palavra destacada é formada com um prefixo, que
expressa um sentido negativo, como em:
A) ‘irromper’, ‘irreversível’.
B) ‘inflamável’, ‘indigno’.
C) ‘inapto’, ‘imerso’.
D) ‘injetável’, ‘incandescente’.
E) ‘irreverente’, ‘irrefutável’.
Gabarito:
E
Resolução:
(Resolução oficial)
A) Incorreta. Em ‘irromper’, não ocorre um prefixo negativo.
B) Incorreta, ‘Inflamável’ não traz um prefixo com sentido negativo.
C) Incorreta. Igualmente, em ‘imerso’, o prefixo não tem sentido de negação.
D) Incorreta. O prefixo de 'incandescente' é outro.
E) Correta. Apenas nesta alternativa, as duas palavras se formam com prefixo que denota ‘negação’.
Questão 4
O episódio relatado a seguir ocorreu em Tubarão (SC).
A adolescente J. S. S. foi impedida de entrar em um baile de gala realizado no Clube S. J., sob a
alegação de que não estava devidamente trajada. Após uma discussão entre sua mãe e a portaria do
clube, a moça pode ingressar e participar do evento. Dias depois, J. S. S. e sua mãe entraram com
uma ação na justiça contra o clube, solicitando reparação de danos morais.
Leia a seguir trechos da sentença do Juiz de Direito L. R. A., emitida em 11 jul. 2002.
Nessa sentença, o juiz extrapola a questão que estava em julgamento (se a adolescente sofreu danos
morais ao ser impedida de entrar no baile). Em um texto de 8 a 10 linhas, exponha sua opinião sobre
a conduta do juiz. O texto deve apresentar:
• O fato que deu origem à ação judicial;
• O julgamento do juiz sobre a demanda específica (existência ou não de dano moral);
• Os aspectos em que o juiz teria extrapolado sua função;
• Uma avaliação dos argumentos do juiz.
Gabarito:
O candidato deve atender ao que foi explicitado no enunciado da questão: seu texto deve apresentar
uma avaliação sobre a conduta do juiz a partir da leitura dos trechos da sentença selecionados. Essa
avaliação deve conter, não necessariamente nessa ordem:
• a referência ao fato que deu origem à ação judicial;
• o julgamento do juiz diante da demanda específica (existência ou não de dano moral);
• os aspectos em que o juiz teria extrapolado sua função;
• uma avaliação dos argumentos do juiz.
Além disso, o texto deve revelar uma boa compreensão do texto-base e das instruções apresentadas
no enunciado da questão, bem como um bom domínio da escrita (coesão, coerência, vocabulário,
estruturação de frases etc.).
Questão 5
O gráficoa seguir mostra as taxas de fecundidade (número de filhos por mulher) distribuídas por
região brasileira entre os anos de 1991 e 2000. Em um parágrafo de no máximo 10 linhas, compare
os índices entre as regiões.
Gabarito:
O candidato deve atender ao que foi solicitado no enunciado da questão: “Em um parágrafo de no
máximo 10 linhas, compare os índices [de fecundidade] entre as regiões.”
O texto elaborado como resposta a esta questão deve:
• apresentar explicitamente a comparação entre os índices de fecundidade nas regiões Norte,
Nordeste, Centro-Oeste, Sudeste e Sul;
• revelar uma leitura adequada das informações contidas no gráfico e indicar que o candidato é capaz
de estabelecer relações entre os dados.
Além disso, deve demonstrar um bom domínio da escrita (coesão, coerência, vocabulário,
estruturação de frases etc.).
Questão 6
O texto a seguir apresenta os parágrafos iniciais de um editorial publicado na Folha de S. Paulo em 18
de outubro de 2007.
Escreva um parágrafo de 4 a 6 linhas que dê continuidade aos parágrafos iniciais, sem necessidade
de concluir o texto. Uma continuação adequada deve:
? fazer a retomada de elementos já apresentados;
? introduzir informações novas, que garantam a progressão no tratamento do tema;
? apresentar uma articulação clara com os parágrafos iniciais.
Agora é oficial. O ministro da Saúde, José Gomes Temporão, convocou rede nacional de rádio e TV
para anunciar que o Brasil vive uma epidemia de dengue. De janeiro a setembro, registraram-se
481.316 casos da moléstia, contra 321.368 em igual período do ano passado. É um aumento de 50%.
O que mais preocupa é a questão da dengue hemorrágica (DH). Por razões não de todo conhecidas,
certos indivíduos infectados por algum dos quatro sorotipos do vírus DEN desenvolvem a forma
hemorrágica da doença, que pode ser fatal. Até setembro, 1.076 pacientes haviam evoluído para esse
quadro, dos quais 121 (11%) morreram. É uma taxa muito elevada. Para a Organização Mundial de
Saúde, com condutas médicas adequadas é possível manter a mortalidade de DH abaixo de 1%.
Gabarito:
Nesta questão, os candidatos deveriam elaborar um parágrafo para dar continuidade ao texto
iniciado. O enunciado da questão explicita o que se espera na resposta. Uma continuação adequada
deve:
• fazer a retomada de elementos já apresentados;
• introduzir informações novas, que garantam a progressão no tratamento do tema;
• apresentar uma articulação clara com os parágrafos iniciais.
Além disso, deve demonstrar um bom domínio da escrita (coesão, coerência, vocabulário,
estruturação de frases etc.).
Questão 7
O texto a seguir é parte da reportagem “Desmatamento aumenta 116% nos últimos 12 meses”,
publicada pelo jornal Gazeta do Povo em 15 de agosto de 2008. Escreva um parágrafo de 5 a 7 linhas,
dando continuidade aos parágrafos iniciais, sem necessariamente concluir o texto. O novo parágrafo
deve:
apresentar uma articulação clara com os parágrafos iniciais;●
introduzir informações novas, que garantam a progressão no tratamento do tema;●
dar continuidade ao início proposto: “Para reverter esse quadro, ...” .●
O desmatamento acumulado na Amazônia nos últimos 12 meses foi 116% maior do que o acumulado
dos 12 meses anteriores, segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) . Entre junho de
2007 e maio de 2008, foram derrubados ou degradados 7.666 km2 de floresta, contra 3.543 km2 no
mesmo período de 2006 a 2007. Os cálculos são do Sistema de Detecção de Desmatamento em
Tempo Real (Deter), cujo relatório de maio foi divulgado nesta terça-feira (15). A área impactada no
mês foi de 1.096 km2, praticamente igual à de abril e equivalente ao território da cidade do Rio de
Janeiro.
Mato Grosso foi responsável por 54% do desmatamento registrado nos últimos 12 meses, 59% do
registrado em maio e 69% do acumulado nos primeiros cinco meses do ano. De um total de 3.730
km2 de floresta derrubada ou degradada entre janeiro e maio, 2.571 km2 estão dentro do Estado,
segundo o Deter. Roraima aparece em um distante segundo lugar, com 464 km2 (12%), e o Paráem
terceiro, com 383 km2 (10%) desmatados.
Gabarito:
A resposta deve atender os seguintes critérios:
• continuidade ao texto apresentado no enunciado da questão e articulação clara com os parágrafos
iniciais do texto-base;
• introdução de informação nova que garanta a progressão no tratamento do tema;
• qualidade da informação nova incluída na continuidade do texto: não necessariamente verdadeira,
mas pelo menos verossímil;
• respeito aos critérios de composição textual e às normas gramaticais.
Questão 8
Para responder, leia a fábula “A última vontade”, de Millôr Fernandes.
Aben Assan, filho espúrio1 e estrafalário2, sempre contrariava as decisões de Ibin Bibar, seu pai. Desde menino — já lá
vão quatro décadas —, fazia exatamente o oposto do que o velho mandava ou sugeria. A princípio, o pai não
percebeu, depois percebeu, enfim certificou-se — o comportamento do filho era coisa cruel e deliberada. Por isso,
quando sentiu que ia morrer, querendo ser enterrado no maravilhoso mausoléu da família, Ibin Bibar chamou Aben
Assan e disse:
— Meu filho, não quero ir pro cemitério da cidade, onde estão enterrados todos os nossos ancestrais. Quero estar num
lugar onde não sejam possíveis reverências nem adulações póstumas, todas hipócritas. Pegue meu corpo e jogue no
lamaçal lá no fim da estrada. — E, dizendo isso, condizentemente, morreu.
Ao ver o pai morto, Aben Assan teve uma súbita crise de arrependimento por tudo que havia feito na vida. E resolveu
mudar seu comportamento para com aquele que sempre o tratara como... um pai. Pensou: “Não, ele nunca mereceu a
maneira como eu o tratei. Desta vez, a última, vou fazer exatamente o que ele pediu.”
E ajudado por empregados um tanto relutantes, pegou o corpo do pai e o atirou no lamaçal no fim da estrada.
MORAL: Cria corvos e te arrancam os olhos.
1 espúrio: ilegítimo, bastardo.
2 estrafalário: desprezível.
O narrador da fábula relata uma série de eventos ocorridos no passado. Um evento anterior a esse tempo passado
está indicado pela forma verbal destacada em:
a) “Aben Assan, filho espúrio e estrafalário, sempre contrariava as decisões de Ibin Bibar, seu pai.” (1º parágrafo)
b) “Desde menino — já lá vão quatro décadas —, fazia exatamente o oposto do que o velho mandava ou
sugeria.” (1º parágrafo)
c) “A princípio, o pai não percebeu, depois percebeu, enfim certificou-se — o comportamento do filho era coisa
cruel e deliberada.” (1º parágrafo)
d) “Pegue meu corpo e jogue no lamaçal lá no fim da estrada.” (2º parágrafo)
e) “E resolveu mudar seu comportamento para com aquele que sempre o tratara como... um pai.” (3º parágrafo)
Gabarito:
E
Resolução:
Um evento anterior ao tempo passado em que se situa o narrador está indicado pela forma verbal
"tratara", conjugada no pretérito mais-que-perfeito, que serve justamente para expressar um fato
passado anterior a uma ação também passada.
Questão 9
Leia o texto da orelha do livro O capital no século XXI, do economista Thomas Piketty, para responder.
Que dinâmicas movimentam o acúmulo e a distribuição do capital? O tema da política econômica há muito
suscita debates constantes sobre crescimento, concentração da riqueza e aumento da desigualdade. No
entanto, a carência de dados adequados dificulta o acesso a respostas satisfatórias.
Em O capital no século XXI, o economista francês Thomas Piketty apresenta um conjunto inédito de dados de
vinte países para os últimos duzentos anos. O autor demonstra que o crescimento econômico e a difusão do
conhecimento ao longo do século XX impediram que se concretizasse o cenário apocalíptico preconizado por
Karl Marx, mas, ao contrário do que o otimismo dominante após a Segunda Guerra Mundial costuma sugerir, a
estrutura básica do capital e da desigualdade permaneceu relativamente inalterada. Piketty constata, com
absoluta clareza, que a taxa de rendimento do capital supera o crescimento econômico — e isso se traduz numa
concentração cada vez maior da riqueza, um círculo vicioso de desigualdade que, a um nível extremo, pode
levar a um descontentamento geral e até ameaçar os valores democráticos. Contudo, Piketty ressalta que
tendências econômicas não são forças da natureza: a intervenção política já foi capaz de reverter tal quadro no
passado e poderá voltar a fazê-lo.
O capital no século XXI, já considerado referência entre os economistas, contribui para renovar inteiramente
nossa compreensão sobre a dinâmica do capitalismo. Por destacar a contradição fundamental da relação entre
o crescimento econômico e o rendimento do capital, esta obra monumental está revolucionando o pensamento
econômico atual e instigando uma reflexão profunda sobre as questões mais prementes de nosso tempo.
O capital no século XXI, 2014. (Adaptado).
“Por destacar a contradição fundamental da relação entre o crescimento econômico e o
rendimento do capital, esta obra monumental está revolucionando o pensamento
econômico atual” (3º parágrafo) Em relação à oração que a sucede, a oração destacada expressa
ideia de
a) conformidade.
b) condição.
c) causa.
d) consequência.
e) concessão.
Gabarito:
C
Resolução:
Em relação à oração que a sucede, a oração destacada expressa ideia de causa. Ou seja, a oração
"Por destacar a contradição fundamental da relação entre o crescimento econômico e o rendimento
do capital” estabelece a causa da oração "esta obra monumental está revolucionando o pensamento
econômico atual".
Questão 10
Leia o texto da orelha do livro O capital no século XXI, do economista Thomas Piketty, para responder.
Que dinâmicas movimentam o acúmulo e a distribuição do capital? O tema da política econômica há muito
suscita debates constantes sobre crescimento, concentração da riqueza e aumento da desigualdade. No
entanto, a carência de dados adequados dificulta o acesso a respostas satisfatórias.
Em O capital no século XXI, o economista francês Thomas Piketty apresenta um conjunto inédito de dados de
vinte países para os últimos duzentos anos. O autor demonstra que o crescimento econômico e a difusão do
conhecimento ao longo do século XX impediram que se concretizasse o cenário apocalíptico preconizado por
Karl Marx, mas, ao contrário do que o otimismo dominante após a Segunda Guerra Mundial costuma sugerir, a
estrutura básica do capital e da desigualdade permaneceu relativamente inalterada. Piketty constata, com
absoluta clareza, que a taxa de rendimento do capital supera o crescimento econômico — e isso se traduz numa
concentração cada vez maior da riqueza, um círculo vicioso de desigualdade que, a um nível extremo, pode
levar a um descontentamento geral e até ameaçar os valores democráticos. Contudo, Piketty ressalta que
tendências econômicas não são forças da natureza: a intervenção política já foi capaz de reverter tal quadro no
passado e poderá voltar a fazê-lo.
O capital no século XXI, já considerado referência entre os economistas, contribui para renovar inteiramente
nossa compreensão sobre a dinâmica do capitalismo. Por destacar a contradição fundamental da relação entre
o crescimento econômico e o rendimento do capital, esta obra monumental está revolucionando o pensamento
econômico atual e instigando uma reflexão profunda sobre as questões mais prementes de nosso tempo.
O capital no século XXI, 2014. (Adaptado).
A palavra destacada em “a intervenção política já foi capaz de reverter tal quadro no passado e
poderá voltar a fazê-lo” (2º parágrafo) pertence à mesma classe gramatical da palavra destacada em:
a) “O tema da política econômica há muito suscita debates constantes sobre crescimento”
(1º parágrafo).
b) “Em O capital no século XXI, o economista francês Thomas Piketty apresenta um conjunto inédito
de dados” (2º parágrafo).
c) “ao contrário do que o otimismo dominante após a Segunda Guerra Mundial costuma sugerir” (2º
parágrafo).
d) “e isso se traduz numa concentração cada vez maior da riqueza” (2º parágrafo).
e) “O capital no século XXI, já considerado referência entre os economistas, contribui para renovar
inteiramente nossa compreensão” (3º parágrafo).
Gabarito:A
Resolução:
No trecho destacado "a" é preposição e, portanto, pertence à mesma classe gramatical do termo
"sobre" em "(...) debates constantes sobre o crescimento". Nas demais alternativas, há,
respectivamente, dois artigos ("um" e "a"), pronome ("isso") e advérbio ("já").
Questão 11
Leia o texto para responder.
Os que se dedicam à crítica das ações humanas jamais se sentem tão embaraçados como quando procuram agrupar
e harmonizar sob uma mesma luz todos os atos dos homens, pois estes se contradizem comumente a tal ponto que
não parecem provir de um mesmo indivíduo. [...] Somos todos constituídos de peças e pedaços juntados de maneira
casual e diversa, e cada peça funciona independentemente das demais. Daí ser tão grande a diferença entre nós e
nós mesmos quanto entre nós e outrem: “Crede-me, não é coisa fácil conduzir-se como um só homem” [Sêneca].
Michel de Montaigne apud Eduardo Giannetti. O livro das citações.
Os pronomes destacados no texto referem-se a
a) “atos dos homens” e “homens”, respectivamente.
b) “homens”, em ambos os casos.
c) “homens” e “os atos dos homens”, respectivamente.
d) “atos dos homens”, em ambos os casos.
e) “homens” e “contradizem”, respectivamente.
Gabarito:
D
Resolução:
Os termos destacados ("estes" e "se") retomam o mesmo elemento do texto, sendo usados,
repectivamente, como sujeito do verbo "contradizer" e partícula atrelada ao verbo com função
pronominal. Os termos se referem aos "atos dos homens", pois segundo o autor, tais atos são
contraditórios e são eles que não parecem provir de um mesmo indivíduo.
Questão 12
Leia o texto para responder.
Os que se dedicam à crítica das ações humanas jamais se sentem tão embaraçados como quando procuram
agrupar e harmonizar sob uma mesma luz todos os atos dos homens, pois estes se contradizem comumente a
tal ponto que não parecem provir de um mesmo indivíduo. [...] Somos todos constituídos de peças e pedaços
juntados de maneira casual e diversa, e cada peça funciona independentemente das demais. Daí ser tão
grande a diferença entre nós e nós mesmos quanto entre nós e outrem: “Crede-me, não é coisa fácil conduzir-
se como um só homem” [Sêneca].
Michel de Montaigne apud Eduardo Giannetti. O livro das citações.
Para evitar a sua repetição, o autor omite um substantivo no seguinte trecho:
a) “Os que se dedicam à crítica das ações humanas jamais se sentem tão embaraçados”.
b) “Somos todos constituídos de peças e pedaços juntados de maneira casual e diversa”.
c) “e cada peça funciona independentemente das demais”.
d) “Daí ser tão grande a diferença entre nós e nós mesmos”.
e) “Crede-me, não é coisa fácil conduzir-se como um só homem”.
Gabarito:
C
Resolução:
No trecho "e cada peça funciona independentemente das demais" foi omitido o segundo uso da
palavra "peça" no final da oração, um recurso estilístico muito utilizado a fim de evitar a repetição.
Questão 13
Qual romance você está lendo?
Sempre pensei que fosse sábio desconfiar de quem não lê literatura. Ler ou não ler romances é para mim um
critério.
Algo que eu acreditava intuitivamente foi confirmado por uma pesquisa que acaba de ser publicada pela revista
"Science", "Reading Literary Fiction Improves Theory of Mind" (Ler ficção literária melhora a teoria da mente),
de David C. Kidd e Emanuele Castano.
Em psicologia, a "teoria da mente" é nossa capacidade de enxergar os outros e de lhes atribuir de maneira
correta crenças, ideias, intenções, afetos e sentimentos.
A teoria da mente emocional é a capacidade de reconhecer o que os outros sentem e, portanto, de
experimentar empatia e compaixão por eles; a teoria da mente cognitiva é a capacidade de reconhecer o que
os outros pensam e sabem e, portanto, de dialogar e de negociar soluções racionais.
Existem vários testes para medir nossa "teoria da mente" — os mais conhecidos são o RMET ou o DANVA. Em
geral, esses testes são usados no diagnóstico de transtornos que vão desde o isolamento autista até a
inquietante indiferença ao destino dos outros, da qual dão prova psicopatas e sociopatas.
Kidd e Castano aplicaram esses testes em diferentes grupos, criados a partir de uma amostra homogênea: 1)
um grupo que acabara de ler trechos de ficção literária, 2) um grupo que acabara de ler trechos de não ficção,
3) um grupo que acabara de ler trechos de ficção popular, 4) um grupo que não lera nada.
Conclusão: os leitores de ficção literária enxergam melhor a complexidade do outro e, com isso, podem
aumentar sua empatia e seu respeito pela diferença de seus semelhantes. Com um pouco de otimismo, seria
possível apostar que ler literatura seja um jeito de se precaver contra sociopatia e psicopatia. A pesquisa
constata que a ficção popular não tem o mesmo efeito da literária. A diferença é explicada assim: a leitura de
ficção literária nos mobiliza para entender a experiência das personagens.
"Como na vida real, os mundos da ficção literária são povoados por indivíduos complexos, cujas vidas interiores
devem ser investigadas, pois são raramente de fácil acesso."
"Contrariamente à ficção literária, a ficção popular tende a retratar o mundo e as personagens como
interiormente coerentes e previsíveis. Ela pode confirmar as expectativas do leitor em vez de promover o
trabalho de sua teoria da mente."
Em suma, o texto literário é aquele que pede esforços de interpretação por aquelas caraterísticas que foram
notadas pelos melhores leitores do século 20: por ser ambíguo (William Empson), aberto (Umberto Eco) e
repleto de significações secundárias (Roland Barthes).
Contardo Calligaris, Folha de S.Paulo, 17/10/2013. Adaptado.
Para a formação das palavras “empatia”, “sociopatia” e “psicopatia”, empregadas no texto, contribui
um mesmo radical de origem grega. Seu sentido é o mesmo nas três palavras? Justifique.
Gabarito:
Para a formação das palavras ?empatia?, ?sociopatia? e ?psicopatia?, empregadas no texto, contribui
um mesmo radical de origem grega: "-patia". Esse radical "-patia", do grego "páthe", refere-se a
estado de sofrimento, doença ou infortúnio. Nas três palavras, têm o sentido de sofrimento ou
acometimento, guardadas as sutilezas: em "empatia", significa uma forma de identificação com o
sofrimento alheio, o que caracteriza a partilha de um sofrimento; já em "sociopatia" e "psicopatia",
temos a mesma ideia de sofrimento, mas em uma manifestação patológica, de acometimento mental,
pois ambos se referem a desequilíbrios comportamentais.
Questão 14
A vida ao rés-do-chão
A crônica não é um “gênero maior”.
“Graças a Deus”, seria o caso de dizer, porque sendo assim ela fica mais perto de nós. E para muitos pode
servir de caminho não apenas para a vida, que ela serve de perto, mas para a literatura. Por meio dos assuntos,
da composição solta, do ar de coisa sem necessidade que costuma assumir, ela se ajusta à sensibilidade de
todo o dia. Principalmente porque elabora uma linguagem que fala de perto ao nosso modo de ser mais natural.
Na sua despretensão, humaniza; e esta humanização lhe permite, como compensação sorrateira, recuperar
com a outra mão certa profundidade de significado e certo acabamento de forma, que de repente podem fazer
dela uma inesperada embora discreta candidata à perfeição.
É curioso como ela mantém o ar despreocupado, de quem está falando de coisas sem maior consequência e, no
entanto, não apenas entra fundo no significado dos atos e sentimentos do homem, mas pode levar longe a
crítica social. Veja-se a extraordinária “Carta a uma senhora”, de Carlos Drummond de Andrade, onde a
menininha que não possui nem vinte cruzeiros faz desfilar na imaginação os presentes que desejaria oferecer à
sua mãe no Dia das Mães. É como se ela estivesse do lado de fora de uma vitrine imensa, onde se acham os
objetos maravilhosos que a propaganda criadora de aspirações e necessidades transformou em bens ideais. Ela
os enumera numa escrita que o cronista fez ao mesmo tempo belíssima e liricamente infantil. A impressão do
leitor é de divertida simplicidade que se esgota em si mesma; mas por trás está todo o drama dasociedade
chamada de consumo, muito mais iníqua num país como o nosso, cheio de pobres e miseráveis que ficam
alijados da sua miragem sedutora e inacessível:
“Mammy, o braço dói de escrever e tinha um liquidificador de 3 velocidades, sempre quis que a Sra. não
tomasse trabalho de espremer laranja, a máquina de tricô faz 500 pontos, a Sra. sozinha faz muito mais. Um
secador de cabelo para Mammy! gritei, com capacete plástico mas passei adiante, a Sra. não é desses luxos, e
a poltrona anatômica me tentou, é um estouro, mas eu sabia que a Mãezinha nunca tem tempo de sentar. Mais
o quê? Ah sim, o colar de pérolas acetinadas, caixa de talco de plástico perolado, par de meias, etc.”
É importante insistir no papel da simplicidade e da brevidade e graça próprias da crônica. Na verdade, aprende-
se muito quando se diverte, e aqueles traços constitutivos da crônica são um veículo privilegiado para mostrar
de modo persuasivo muita coisa que, divertindo, atrai, inspira e faz amadurecer a nossa visão das coisas.
Antonio Candido de M. e Souza, Para gostar de ler, vol. 5. São Paulo: Ática, 1980. Adaptado.
Sem alterar seu sentido, reescreva o trecho “que a propaganda criadora de aspirações e necessidades transformou
em bens ideais” (3º parágrafo), usando a voz passiva.
Gabarito:
Sem que se altere o seu sentido, o trecho destacado se apresenta da seguinte forma na voz passiva:
"que foram transformados em bens ideais pela propaganda criadora de aspirações e necessidades".
Questão 15
'Novo normal' é o novo anormal
Dizer que a expressão “novo normal” é um clichê de sucesso é dizer o óbvio, mas isso mal começa a dar conta
dela. Os chavões, os lugares-comuns, as frases feitas não são todos iguais — pelo contrário, compõem uma
fauna variada e interessantíssima.
“Novo normal” é um bicho peçonhento, mas clichês não são vilões em si. Todos carregamos no bolso essas
moedinhas verbais, expressões cristalizadas que trocamos no dia a dia. Na maior parte das vezes, nem nos
damos conta disso. Nossas chuvas fortes tendem a ser torrenciais, o toque do craque adora ser sutil, os ânimos
ficam logo exaltados, suamos em bicas, às vezes somos acometidos de curiosidade mórbida e sempre
valorizamos o sucesso avassalador e a ascensão meteórica. Clichezentos somos — pura e simplesmente.
(...)
A frase feita nos dispensa de pensar, nos acolhe em seu pacto morninho de compreensão suficiente, de
premissas aceitas por todos, para que possamos tocar a vida. No dia em que existir uma ciência chamada
clichelogia, acredito que ela identificará dois perigos principais em nossa atração pela ideia pré-fabricada. Um é
o risco para quem deveria fugir do caminho batido. Rebaixam seus ofícios pensadores que pensam chavões,
escritores que os escrevem, cineastas que os dirigem. Arte e pensamento só combinam com clichê quando o
tratam com ironia.
(...)
Segundo Hannah Arendt, “Clichês, frases feitas, adesão a códigos de expressão e conduta convencionais e
padronizados têm a função socialmente reconhecida de proteger-nos da realidade, ou seja, da exigência de
atenção do pensamento feita por todos os fatos e acontecimentos em virtude de sua mera existência.”
No entanto, o clichê para a pensadora alemã é mais do que conforto preguiçoso ou convencionalismo de estilo.
É uma ferramenta linguística que ideologias autoritárias usam para induzir letargia crítica, indiferença, distância
entre pensamento e realidade: “O pensamento ideológico se emancipa da realidade que captamos com nossos
cinco sentidos”.
Pois é: conheço poucas expressões mais indutoras desse tipo de letargia crítica do que “novo normal”.
Naturaliza de imediato qualquer coisa, do anormal ao subnormal, do vagamente anômalo ao definitivamente
criminoso, passando pelo indefinido, o tumultuado e o obsceno.
Só quem viajar ao futuro e consultar livros de história sobre o desditoso ano de 2020 poderá dizer se nosso
tempo pariu mesmo um “novo normal” e, em caso positivo, qual foi ele. Quando o normal já era, seu sucessor
imediato só pode ser o não normal, o anormal. O resto, se não for letargia, é má-fé.
Sérgio Rodrigues, https://www1.folha.uol.com.br/, 16.jul.2020.
Entre os clichês citados pelo autor do texto, aponte quatro, que sejam constituídos de substantivo + adjetivo.
Gabarito:
Dentre os exemplos mencionados pelo autor, constituem-se de substantivo seguidos de adjetivo:
"ânimos exaltados", "curiosidade mórbida", "sucesso avassalador" e "ascensão meteórica".
Questão 16
A preocupante queda da inteligência média mundial
Até o final dos anos 90 a inteligência média mundial, medida pelo método Flynn, vinha crescendo a uma média
de três pontos por década. Este crescimento estava associado à melhoria das condições de nutrição, saúde e
educação. Mas nas últimas duas décadas ela vem caindo, especialmente nos países mais desenvolvidos, no que
se chamou de “efeito Flynn reverso”.
Este efeito coincide com o avanço da tecnologia digital e o uso cada vez menor da escrita.
O primeiro passo para isto foi a introdução de ícones e comandos voices nos sistemas operacionais dos
computadores. Muitos aplicativos têm limitações de escrita. O Tweeter só aceita 280 toques e não permite o
desenvolvimento de um raciocínio completo. O Instagram transmite imagens com brevíssimas legendas e no
WhatsApp se criou o “digitês” com abreviaturas idiotas. Nele, é cada vez mais frequente a substituição da
escrita por voz. Na maioria dos e-mails já vem a resposta: “obrigado”, “confirmado”, “não concordo” e basta
clicar num quadradinho. Em outras palavras, estamos criando uma comunicação ágrafa, sem ou com escrita
restrita.
A escrita, surgida em 3.500 a.C., permitiu registrar materialmente a memória e criar uma linha do tempo, a
História. Conservam-se tabuletas cerâmicas com escrita cuneiforme da Mesopotâmia de 3.200 a.C. e rolos de
pergaminho dos Essênios do século II a.C., em Israel. A memória digital é volátil, os suportes, os drives e os
aplicativos se deterioram ou mudam e as nuvens, se não são pagas, desabam. A correspondência social acabou
e só fica a História Oficial dos documentos publicados.
A linguagem simplificada da internet está eliminando as flexões verbais do passado e do futuro e achatando
tudo no presente. Sutilezas expressas pelo futuro do pretérito, pelo imperfeito e pelo subjuntivo estão
desaparecendo e toda subjetividade morrendo. Para Lacan o inconsciente tem a estrutura de um idioma. Para
ele, a criança só se torna um sujeito quando aprende uma língua. Sem a língua, não existe o inconsciente.
O Prof. Mark Bauerlein publicou em 2009 o livro “A geração burríssima: como a era digital torna os jovens
americanos mais estúpidos e ameaça nosso futuro”, não lançado no Brasil. Diz ele: há indícios de que o uso de
smartphones e tablets na infância já esteja causando efeitos negativos. Na Inglaterra, 28% das crianças da pré-
escola (4 e 5 anos) não sabem se comunicar utilizando frases completas, como seria normal nessa idade.
No filme Yesterday quando um rapaz acorda de um longo coma e toca as músicas dos Beatles ninguém
reconhece, porque houve um apagão da memória de todos os computadores. A terceirização da memória e o
empobrecimento da língua significam incapacidade de expressar emoções e de formular um pensamento
complexo. E isso explica a redução da inteligência da população mais rica do planeta.
“Contrariamente à ficção literária, a ficção popular tende a retratar o mundo e as personagens como
interiormente coerentes e previsíveis. Ela pode confirmar as expectativas do leitor em vez de promover o
trabalho de sua teoria da mente.”
Paulo O. Azevedo, http://www.pauloormindo.com.br.
Considere as afirmações sobre as seguintes palavras do texto:
I. O substantivo “avanço” formou-se pelo processo de derivação imprópria, que ocorre a partir da mudança da classe
gramatical da palavra primitiva.
II. As aspas foram usadas na palavra “digitês” para sinalizar que se trata de um neologismo.
III. Os prefixos que entram na formação das palavras “ágrafa”, “desaparecendo” e “incapacidade” podem
ser consideradossinônimos.
IV. O substantivo “empobrecimento” deriva do verbo “empobrecer”, que constitui um exemplo de
“parassíntese” (quando ocorre o acréscimo simultâneo de prefixo e sufixo a um radical).
Está correto o que se afirma em
a) II e IV, apenas.
b) II, III e IV, apenas.
c) I, II e III, apenas.
d) I e III, apenas.
e) I e IV, apenas.
Gabarito:
B
Resolução:
A única afirmação incorreta é a I, já o substantivo “avanço” formou-se pelo processo de derivação
regressiva do verbo "avançar", e não por derivação imprópria.
Questão 17
Capítulo XCVIII
(...). De noite fui ao Teatro de São Pedro; representava-se uma grande peça, em que a Estela1 arrancava
lágrimas. Entro; corro os olhos pelos camarotes; vejo em um deles Damasceno e a família. Trajava a filha com
outra elegância e certo apuro, cousa difícil de explicar, porque o pai ganhava apenas o necessário para
endividar-se; e daí, talvez fosse por isso mesmo.
No intervalo fui visitá-los. O Damasceno recebeu-me com muitas palavras, a mulher com muitos sorrisos.
Quanto a Nhãloló, não tirou mais os olhos de mim. Parecia-me agora mais bonita que no dia do jantar. Achei-lhe
certa suavidade etérea casada ao polido das formas terrenas: — expressão vaga, e condigna de um capítulo em
que tudo há de ser vago. Realmente, não sei como lhes diga que não me senti mal, ao pé da moça, trajando
garridamente um vestido fino, um vestido que me dava cócegas de Tartufo2. Ao contemplá-lo, cobrindo casta e
redondamente o joelho, foi que eu fiz uma descoberta sutil, a saber, que a natureza previu a vestidura humana,
condição necessária ao desenvolvimento da nossa espécie. A nudez habitual, dada a multiplicação das obras e
dos cuidados do indivíduo, tenderia a embotar os sentidos e a retardar os sexos, ao passo que o vestuário,
negaceando a natureza, aguça e atrai as vontades, ativa-as, reprodu-las, e conseguintemente faz andar a
civilização. Abençoado uso que nos deu Otelo3 e os paquetes transatlânticos!
Estou com vontade de suprimir este capítulo. O declive é perigoso. Mas enfim eu escrevo as minhas memórias e
não as tuas, leitor pacato. Ao pé da graciosa donzela, parecia-me tomado de uma sensação dupla e indefinível.
Ela exprimia inteiramente a dualidade de Pascal4, l’ange et la bête5, com a diferença que o jansenista6 não
admitia a simultaneidade das duas naturezas, ao passo que elas aí estavam bem juntinhas, — l’ange, que dizia
algumas coisas do céu, — e la bête, que... Não; decididamente suprimo este capítulo.
Machado de Assis, Memórias Póstumas de Brás Cubas.
Glossário
1Estela Sezefreda: atriz famosa da época.2Tartufo: personagem da comédia homônima, de Molière. Homem maduro, Tartufo tenta seduzir a jovem filha
do homem em cuja casa se hospeda. Seu nome tornou-se sinônimo de indivíduo hipócrita, dissimulado, falso
beato, enganador.3Otelo: tragédia de Shakespeare, que também serviu de base a óperas homônimas famosas.4Pascal: Blaise Pascal, célebre pensador francês do século XVII.5“l'ange et la bête": o anjo e a fera.6Jansenista: relativo ao Jansenismo, doutrina filosófico-religiosa marcada pelo rigor moral, pelo dogmatismo e
pelo caráter disciplinador.
Zeugma é uma das formas de elipse. Consiste em fazer participar de dois ou mais enunciados um termo
expresso apenas em um deles.
Celso Cunha, Gramática da Língua Portuguesa.
Serve de exemplo para essa figura de sintaxe a seguinte frase do texto:
a) “Abençoado uso que nos deu Otelo e os paquetes transatlânticos!”
b) “Ao pé da graciosa donzela, parecia-me tomado de uma sensação dupla e indefinível.”
c) “Achei-lhe certa suavidade etérea casada ao polido das formas terrenas: — expressão vaga, e condigna de
um capítulo em que tudo há de ser vago.”
d) “Realmente, não sei como lhes diga que não me senti mal, ao pé da moça, trajando garridamente um vestido fino,
um vestido que me dava cócegas de Tartufo.”
e) “O Damasceno recebeu-me com muitas palavras, a mulher com muitos sorrisos.”
Gabarito:
E
Resolução:
Identificamos o uso do zeugma em “O Damasceno recebeu-me com muitas palavras, a mulher com
muitos sorrisos.”, pois o verbo "receber" participa das duas orações e está omisso na segunda ("a
mulher [recebeu-me] com muitos sorrisos.”).
Questão 18
Pobre alimária
O cavalo e a carroça
Estavam atravancados no trilho
E como o motorneiro se impacientasse
Porque levava os advogados para os escritórios
Desatravancaram o veículo
E o animal disparou
Mas o lesto carroceiro
Trepou na boleia
E castigou o fugitivo atrelado
Com um grandioso chicote
Oswald de Andrade, Pau Brasil.
Constitui exemplo de parassíntese (processo de formação de palavras que consiste em acrescentar a
um radical, simultaneamente, prefixo e sufixo) a seguinte palavra do texto:
a) “atrelado”.
b) “grandioso”.
c) “impacientasse”.
d) “escritórios”.
e) “advogado”.
Gabarito:
A
Resolução:
A parassíntese é o processo de formação de um nome por meio do uso concomitante de um prefixo e
um sufixo. Dentre os termos destacados, ocorre parassíntese em "atrelado", cujo significado é preso
com trela, ou guia. Nesta palavra, usa-se tanto o prefixo "a-" quanto o sufixo "-ado".
Questão 19
Leia o ensaio “Império reverso”, de Eduardo Giannetti, para responder.
Império reverso — O filósofo grego Diógenes fez da autossuficiência e do controle das paixões os valores
centrais de sua vida: um casaco, uma mochila e uma cisterna de argila no interior da qual pernoitava eram suas
únicas posses. Intrigado com relatos sobre essa estranha figura, o imperador Alexandre Magno resolveu conferir
de perto. Foi até ele e propôs: “Sou o homem mais poderoso do mundo, peça-me o que desejar e lhe
atenderei.” Diógenes [...] não titubeou: “O senhor teria a delicadeza de afastar-se um pouco? Sua sombra está
bloqueando o meu banho de sol.” O filósofo e o imperador são casos extremos, mas ambos ilustram a tese
socrática de que, entre os mortais, o mais próximo dos deuses em felicidade é aquele que de menor número de
coisas carece. Alexandre, ex-pupilo e depois mecenas de Aristóteles, aprendeu a lição. Quando um cortesão
zombou do morador da cisterna por ter “desperdiçado” a oferta que lhe caíra do céu, o imperador rebateu:
“Pois saiba então você que, se eu não fosse Alexandre, eu teria desejado ser Diógenes.” Os extremos se tocam.
— “Querei só o que podeis”, pondera o padre Antônio Vieira, “e sereis omnipotentes.”
(Eduardo Giannetti. Trópicos utópicos, 2016.)
Ao se transpor o trecho “Foi até ele e propôs: ‘Sou o homem mais poderoso do mundo, peça-me o que desejar e lhe
atenderei.’” para o discurso indireto, os termos destacados assumem as formas:
(A) pedisse e atenderia.
(B) pedia e atendia.
(C) pediria e atenderia.
(D) pedisse e atendesse.
(E) pediria e atendesse.
Gabarito:
A
Resolução:
Ao se transpor o trecho “Foi até ele e propôs: ‘Sou o homem mais poderoso do mundo, peça-me o
que desejar e lhe atenderei.’” para o discurso indireto, os termos sublinhados, que se encontram
respectivamente no imperativo e futuro do presente, assumem as formas: "pedisse" (pretérito
imperfeito do subjuntivo) e "atenderia" (futuro do pretérito).
Questão 20
Leia a crônica “Elegia do Guandu”, de Carlos Drummond de Andrade, publicada originalmente em 2 de
novembro de 1974.
E se reverenciássemos neste 2 de novembro os mortos do Guandu, que descem a correnteza, a caminho do
mar — o mar que eles não alcançam, pois encalham na areia das margens, e os urubus os devoram?
Perdoai se apresento matéria tão feia, em dia de flores consagradas aos mortos queridos. Estes não são
amados de ninguém, ou o são de mínima gente. Seus corpos, não há quem os reclame, de medo ou seja lá pelo
que for.
Se algum deles tem sorte de derivar pela restinga da Marambaia e ali é recolhido por pescadores — ah, peixe
menos desejado — ganha sepultura anônima, que a piedade dos humildes providencia. Mas não é prudente
pescar mortos do Guandu: há sempre a perspectiva de interrogatórios que fazem perder o dia de trabalho, às
vezes mais do que isso: a liberdade, que se confisca aos suspeitos e aos que explicam mal suas pescarias
macabras.São marginais caçados pela polícia ou por outros marginais, são suicidas, são acidentados? Difícil classificá-los,
se não trazem a marca registrada dos trucidadores ou estes sinais: mãos amarradas, amarrado de vários
corpos, pesos amarrados aos pés. Estes últimos são mortos fáceis de catalogar, embora só se lhes vejam as
cabeças em rodopio à flor d’água, mas os que vêm boiando e fluindo, fluindo e boiando, em sonho aquático
deslizante, estes desesperaram da vida, ou a vida lhes faltou de surpresa?
Os mortos vão passando, procissão falhada. Eis desce o rio um lote de seis, uns aos outros ligados pela corda
fraternizante. É espetáculo para se ver da janela de moradores de Itaguaí, assistentes ribeirinhos de novela de
espaçados capítulos. Ver e não contar. Ver e guardar para conversas íntimas:
— Ontem, na tintura da madrugada, passaram três garrafinhas. Eu vi, chamei a Teresa pra espiar também...
Garrafinhas chamam-se eles, os trucidados com chumbo aos pés, e não mais como ficou escrito em livros de
cartório. O garrafinha no 1 não é diferente do garrafinha no 2 ou 3. Foram todos nivelados pelo Guandu. Como
frascos vazios, de pequeno porte e nenhuma importância, lá vão rio abaixo, Nova Iguaçu abaixo, rumo do
esquecimento das garrafas e dos crimes que cometeram ou não cometeram, ou dos crimes que neles foram
cometidos.
[...]
O Guandu não responde a inquéritos nem a repórteres. Não distingue, carrega. Não comenta, não julga, não
reclama se lhe corrompem as águas; transporta. Em sua impessoalidade serve a desígnios vários, favorece a
vida que quer se desembaraçar da morte, facilita a morte que quer se libertar da vida. Pela justiça sumária,
pelo absurdo, pelo desespero.
Mas não é ao Guandu que cabe dedicar uma elegia, é aos mortos do Guandu, nos quais ninguém pensa no dia
de pensar os e nos mortos. Os criminosos, os não criminosos, os que se destruíram, os que resvalaram. Mortos
sem sepultura e sem lembrança. Trágicos e apagados deslizantes na correnteza. Passageiros do Guandu,
apenas e afinal.
(Carlos Drummond de Andrade. Os dias lindos, 2013.)
O termo sublinhado em “Estes últimos são mortos fáceis de catalogar, embora só se lhes vejam as cabeças em
rodopio à flor d’água” (4º parágrafo) pertence à mesma classe gramatical do termo destacado em:
(A) “Mas não é prudente pescar mortos do Guandu” (3º parágrafo)
(B) “Eis desce o rio um lote de seis, uns aos outros ligados pela corda fraternizante” (5º parágrafo)
(C) “Difícil classificá-los, se não trazem a marca registrada dos trucidadores” (4º parágrafo)
(D) “É espetáculo para se ver da janela de moradores de Itaguaí” (5º parágrafo)
(E) “Estes não são amados de ninguém, ou o são de mínima gente” (2º parágrafo)
Gabarito:
E
Resolução:
Nos excertos em destaque "mas" é conjunção coordenativa adversativa, "o" (em "o rio") é artigo
definido masculino, "se" é conjunção subordinativa condicional e "para" é preposição. Por sua vez, no
enunciado da questão, "se" é um pronome que expressa a ideia de posse (isto é, substitui um
pronome possessivo), uso análogo ao de "o" no último excerto, pronome que substitui o sintagma
"são amados".