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Questão 1
A chamada Lei do Agrotóxico (no 7.802, de 11/06/89) determina que os rótulos dos produtos não
contenham afirmações ou imagens que possam induzir o usuário a erro quanto à sua natureza,
composição, segurança, eficácia e uso. Também proíbe declarações sobre a inocuidade, tais como
“seguro”, “não venenoso”, “não tóxico”, mesmo que complementadas por afirmações do tipo
“quando utilizado segundo as instruções”. Em face das proibições da Lei, a compreensão da frase:
“Cuidado, este produto pode ser tóxico”:
a) precisa levar em consideração que a condição suficiente para que um produto possa ser tóxico é
sua ingestão, inalação ou contato com a pele e não sua composição.
b) exige cautela, pois a expressão “pode ser” pressupõe “pode não ser”, permitindo a interpretação
de que se trata de um produto “seguro”, “não venenoso”, “não tóxico”.
c) precisa levar em consideração que a expressão “pode ser” elimina o sentido de “pode não ser”,
consistindo em um alerta ao usuário sobre a inocuidade dos produtos.
d) exige admitir que a condição necessária para que um produto seja tóxico é a sua composição,
induzindo o usuário a erro quanto à inocuidade e ao mau uso dos produtos.
e) precisa ser complementada com a consideração de que a segurança no manuseio dos agrotóxicos
elimina sua toxicidade, bem como eventuais riscos de intoxicação.
Gabarito:
B
Resolução:
A modalização possibilita saber se o locutor crê no que diz, se atenua ou impõe algo que diz. É uma expressão que possibilita
verificar a atitude do locutor na defesa do texto.
A palavra “pode” como modelizador não configura essência precisa do que se quer anunciar. A palavra “pode” deixa ambígua a
recomendação: “pode ser” mas “pode não ser”. Assim, abre para o consumidor a perspectiva de que talvez não aconteça, o que
pode levar alguns a arriscar. Isso pode convencer o usuário de alguma segurança, o que não é nenhuma certeza. Pode, inclusive,
dar ao possível usuário uma certeza de que, se usado, o produto será corretamente seguro.
Questão 2
A única frase que segue as normas da língua escrita padrão é:
a) A janela propiciava uma vista para cuja beleza muito contribuía a mata no alto do morro.
b) Em pouco tempo e gratuitamente, prepare-se para a universidade que você se inscreveu.
c) Apesar do rigor da disciplina, militares se mobilizam no sentido de voltar a cujos postos estavam
antes de se licenciarem.
d) Sem pretender passar por herói, aproveito para contar coisas as quais fui testemunha nos idos de
1968 e que hoje tanto se fala.
e) Sem muito sacrifício, adotou um modo de vida a qual o permitia fazer o regime recomendado pelo
médico.
Gabarito:
A
Resolução:
A única frase de acordo com a norma culta está em A. Em B, a forma correta seria: "Em pouco tempo
e gratuitamente, prepare-se para a universidade em que você se inscreveu"; em C "Apesar do rigor
da disciplina, militares se mobilizam no sentido de voltar aos postos em que estavam antes de se
licenciarem"; em D, "Sem pretender passar por herói, aproveito para contar coisas das quais fui
testemunha nos idos de 1968 e que hoje tanto se fala."; em E: "Sem muito sacrifício, adotou um
modo de vida que (ou o qual) lhe permitia fazer o regime recomendado pelo médico".
Questão 3
A flexão de voz do verbo na língua portuguesa diz respeito à relação estabelecida entre o verbo e seu
sujeito. Dessa forma, o verbo pode apresentar-se na voz ativa (quando o sujeito é aquele que
executa a ação expressa pelo verbo) e na voz passiva (quando o receptor é paciente, ou seja, sofre
a ação expressa pelo verbo). Nesse sentido,ao transpor para a voz ativa a frase: “Para uma parcela
da coletividade são assegurados [...] os direitos individuais”, obtém-se:
a. Para uma parcela da coletividade se assegura [...] os direitos individuais.
b. Para que uma parcela da coletividade assegure [...] os direitos individuais.
c. Uma parcela da coletividade assegura [...] os direitos individuais.
d. Para uma parcela da coletividade asseguram-se [...] os direitos individuais.
e. Para uma parcela da coletividade assegurou-se [...] os direitos individuais.
Gabarito:
C
Resolução:
Na transposição da voz passiva para a voz ativa, o sujeito paciente ("os direitos individuais") torna-se
objeto, e o objeto ("para uma parcela da coletividade") torna-se sujeito agente, o que resultará na
frase: "Uma parcela da coletividade assegura os diretos individuais".
Questão 4
A conjunção mas na frase “Das 245 pessoas presas em 10 operações realizadas pela Polícia Federal,
entre 2003 e 2004, sessenta e quatro foram julgadas, mas só duas continuam na cadeia” (Revista
Veja, ed. 2028, ano 40, nº. 39, de 03/10/2007). exprime sentido de:
a. oposição.
b. enumeração.
c. coordenação.
d. conclusão.
e. concessão.
Gabarito:
A
Resolução:
Na frase apresentada, a conjunção coordenativa "mas" é adversativa, ou seja, tem o sentido de
oposição: na primeira parte do período, anuncia-se o número de prisões efetuadas pelas operação da
Polícia Federal, e o "mas" introduz uma oposição à ideia de eficiência que essa informação poderia
sugerir.
Questão 5
A única frase escrita de forma correta e coerente é:
A O fato das pessoas ficarem cada vez mais vaidosas fazem com que se valorize demais as técnicas
de embelezamento.
B A preocupação excessiva com o corpo revela que a sociedade tem despido-se de valores éticos em
detrimento das questões concernentes à estética.
C Fica cada vez mais patente, no mundo de hoje, de que as pessoas querem saber como funcionam
as regras de conduta, para cobrá-la dos outros e não para si mesmo.
D Devido à obsessão pela beleza física, começaram a surgir problemas clínicos que antes não havia,
como o fisiculturismo compulsivo e a anorexia.
E O cuidado exagerado do corpo e da aparência já fazem parte da cultura social e é esse o conceito
que toda sociedade já aderiu.
Gabarito:
D
Resolução:
Em A, a forma correta seria "O fato das pessoas ficarem cada vez mais vaidosas faz com que se
valorizem demais as técnicas de embelezamento". A frase contida em B não é coerente, por conta da
expressão "em detrimento das". Ela ficaria coerente na forma "A preocupação excessiva com o corpo
revela que a sociedade tem se despido de valores éticos em favor das questões concernentes à
estética". A forma correta em C seria: "Fica cada vez mais patente, no mundo de hoje, que as pessoas
querem saber como funcionam as regras de conduta para cobrá-las dos outros, e não de si mesmas".
Em E, a forma correta seria: "O cuidado exagerado com o corpo e com a aparência já faz parte da
cultura social e é esse o conceito a que toda sociedade já aderiu".
Questão 6
A linguística se ocupa de muitos aspectos da linguagem e de seu uso; um aspecto do uso da
linguagem de que a linguística não se ocupa é a distinção entre o “certo” e o “errado” na língua.
O ensino do português muitas vezes difunde a crença de que existe uma maneira “certa” de usar a
língua, e que essa é a única maneira aceitável; todas as outras são “erradas”, devem ser evitadas.
Isso é reforçado por colunas em jornais, gramáticas escolares, livros de “não erre mais” e a pressão
social de todo momento. Essa atitude, com suas perniciosas consequências, tem sido objeto de crítica
por parte de linguistas e professores, mas continua muito presente na escola e na vida.
Não há a menor base linguística para a distinção entre “certo” e “errado” – o linguista se interessa
pela língua como ela é, e não como ela deveria ser. Imagine-se um historiador que descobre que
determinado povo antigo praticava sacrifícios humanos. Ele, pessoalmente, pode desaprovar esse
costume, mas nem por isso tem o direito de afirmar que os sacrifícios não ocorriam – um fato é um
fato, e precisa ser respeitado. No entanto, quantas vezes não nos dizem que a palavra chipanzé “não
existe” (porque o “certo” seria chimpanzé)? Dizer isso é desrespeitar o fato de que milhões de
pessoas dizem chipanzé.
Um linguista parte sempre dos fatos, e a cada passo verifica suas teorias em confronto com eles: se
muitos falantes dizemchipanzé, então ele precisa registrar esse fato, e levá-lo em conta em sua
descrição e teorização. E se todo mundo diz me dá ele aí, essa é uma estrutura legítima da língua
falada do Brasil, e precisa figurar na descrição.
A oposição entre “certo” e “errado” muitas vezes corresponde, no fundo, à oposição – essa, sim,
legítima – entre língua falada e língua escrita. É fato (e, portanto, temos que respeitar) que a gente
não escreve como fala.
E se é um fato, deve figurar em algum ponto de uma gramática completa da língua. Mas se é errado
escrever me dá ele aí em uma carta formal de pedido de emprego, é igualmente errado sentar na
mesa do bar e dizer dê-me esse copo. Cada variedade da língua é apropriada em seu contexto
próprio, e os falantes sabem isso muito bem, tanto é que empregam com toda a segurança a
variedade adequada à situação do momento: ninguém fala como escreve, e ninguém escreve como
fala.
Isso, já que é um fato, merece ser descrito e eventualmente ensinado. Mas note-se a diferença: não
se trata de dizer que me dá ele aí é “errado”, mas que é uma forma coloquial, usada na fala. Diga-se,
de passagem, que as formas faladas são usadas em uma variedade muito maior de situações, em
ocasiões muito mais numerosas, por um número muito maior de falantes do que as formas escritas.
Assim, elas são as representantes mais genuínas da língua do Brasil. [...]
Diz-se, às vezes, que os linguistas são permissivistas para quem “tudo vale, desde que haja
comunicação.” Não é verdade. Por exemplo, praticamente ninguém questiona a conveniência de se
ensinar o uso do português padrão escrito, desde que limitado aos contextos em que ele é
socialmente aceito. O português padrão é, queiramos ou não, a nossa língua erudita, e, no que pese
seu caráter exclusivamente escrito, está aí para ficar. O que se defende é o respeito aos fatos: a
língua falada também existe e constitui um objeto de estudo interessante e importante.
Um linguista, portanto, não deve fazer julgamentos de valor a respeito de seu objeto de estudo – para
ele, qualquer variedade da língua tem interesse, desde que realmente exista e seja usada (ou tenha
sido usada) por uma comunidade. Uma pessoa que não consegue se libertar da sensação de que
certas formas da língua são “feias”, “erradas” ou de alguma maneira desagradáveis deveria procurar
outra profissão que não a de linguista ou professor de línguas.
(PERINI, Mário A. Princípios de linguística descritiva: introdução ao pensamento gramatical. São Paulo:
Parábola, 2006, p.21-23. Adaptado.)
O entendimento da coerência de um texto decorre, em muito, das relações de sentido estabelecidas
ao longo de seu percurso. No texto, por exemplo, concorrem para a sua coerência:
0-0) a reiteração promovida pela repetição de palavras como: ‘língua’, ‘fala’, ‘escrita’, ‘uso’, entre
outras.
1-1) a associação semântica entre expressões do tipo ‘linguista’, ‘professor de língua’ e ‘ensino’;
‘português padrão’ e ‘língua erudita’.
2-2) a oposição entre os conceitos de ‘certo’ e ‘errado’, de ‘língua falada’ e de ‘língua escrita’.
3-3) as retomadas pronominais, que promovem a continuidade das referências feitas, como em:
“Cada variedade da língua é apropriada em seu contexto próprio, e os falantes sabem isso muito
bem”.
4-4) as relações de hiperonímia responsáveis por nexos de equivalência semântica entre duas ou
mais expressões, como em: “Diz-se, às vezes, que os linguistas são permissivistas para quem ‘tudo
vale, desde que haja comunicação'”.
Gabarito:
V V V V F
Resolução:
(Resolução oficial)
0-0) Verdadeiro. A repetição de palavras constitui um recurso da reiteração requerida pela coerência
do texto.
1-1) Verdadeiro. Igualmente, a associação semântica entre expressões do texto concorre para a
unidade semântica, própria de textos coerente.
2-2) Verdadeiro. Mesmo as expressões com sentidos opostos podem constituir itens coesivos.
3-3) Verdadeiro. As retomadas pronominais são um recurso muito produtivo na sinalização dos nexos
que promovem a continuidade referencial do texto.
4-4) Falso. Não há nesse trecho ocorrência de relações hiperonímicas entre termos.
Questão 7
A linguística se ocupa de muitos aspectos da linguagem e de seu uso; um aspecto do uso da
linguagem de que a linguística não se ocupa é a distinção entre o “certo” e o “errado” na língua.
O ensino do português muitas vezes difunde a crença de que existe uma maneira “certa” de usar a
língua, e que essa é a única maneira aceitável; todas as outras são “erradas”, devem ser evitadas.
Isso é reforçado por colunas em jornais, gramáticas escolares, livros de “não erre mais” e a pressão
social de todo momento. Essa atitude, com suas perniciosas consequências, tem sido objeto de crítica
por parte de linguistas e professores, mas continua muito presente na escola e na vida.
Não há a menor base linguística para a distinção entre “certo” e “errado” – o linguista se interessa
pela língua como ela é, e não como ela deveria ser. Imagine-se um historiador que descobre que
determinado povo antigo praticava sacrifícios humanos. Ele, pessoalmente, pode desaprovar esse
costume, mas nem por isso tem o direito de afirmar que os sacrifícios não ocorriam – um fato é um
fato, e precisa ser respeitado. No entanto, quantas vezes não nos dizem que a palavra chipanzé “não
existe” (porque o “certo” seria chimpanzé)? Dizer isso é desrespeitar o fato de que milhões de
pessoas dizem chipanzé.
Um linguista parte sempre dos fatos, e a cada passo verifica suas teorias em confronto com eles: se
muitos falantes dizem chipanzé, então ele precisa registrar esse fato, e levá-lo em conta em sua
descrição e teorização. E se todo mundo diz me dá ele aí, essa é uma estrutura legítima da língua
falada do Brasil, e precisa figurar na descrição.
A oposição entre “certo” e “errado” muitas vezes corresponde, no fundo, à oposição – essa, sim,
legítima – entre língua falada e língua escrita. É fato (e, portanto, temos que respeitar) que a gente
não escreve como fala.
E se é um fato, deve figurar em algum ponto de uma gramática completa da língua. Mas se é errado
escrever me dá ele aí em uma carta formal de pedido de emprego, é igualmente errado sentar na
mesa do bar e dizer dê-me esse copo. Cada variedade da língua é apropriada em seu contexto
próprio, e os falantes sabem isso muito bem, tanto é que empregam com toda a segurança a
variedade adequada à situação do momento: ninguém fala como escreve, e ninguém escreve como
fala.
Isso, já que é um fato, merece ser descrito e eventualmente ensinado. Mas note-se a diferença: não
se trata de dizer que me dá ele aí é “errado”, mas que é uma forma coloquial, usada na fala. Diga-se,
de passagem, que as formas faladas são usadas em uma variedade muito maior de situações, em
ocasiões muito mais numerosas, por um número muito maior de falantes do que as formas escritas.
Assim, elas são as representantes mais genuínas da língua do Brasil. [...]
Diz-se, às vezes, que os linguistas são permissivistas para quem “tudo vale, desde que haja
comunicação.” Não é verdade. Por exemplo, praticamente ninguém questiona a conveniência de se
ensinar o uso do português padrão escrito, desde que limitado aos contextos em que ele é
socialmente aceito. O português padrão é, queiramos ou não, a nossa língua erudita, e, no que pese
seu caráter exclusivamente escrito, está aí para ficar. O que se defende é o respeito aos fatos: a
língua falada também existe e constitui um objeto de estudo interessante e importante.
Um linguista, portanto, não deve fazer julgamentos de valor a respeito de seu objeto de estudo – para
ele, qualquer variedade da língua tem interesse, desde que realmente exista e seja usada (ou tenha
sido usada) por uma comunidade. Uma pessoa que não consegue se libertar da sensação de que
certas formas da língua são “feias”, “erradas” ou de alguma maneira desagradáveis deveria procurar
outra profissão que não a de linguista ou professor de línguas.
(PERINI, Mário A. Princípios de linguística descritiva: introdução ao pensamento gramatical.São Paulo:
Parábola, 2006, p.21-23. Adaptado.)
Todas as partes de um texto estão interrelacionadas, mantendo entre si relações de várias naturezas.
Analise as proposições a seguir, acerca de algumas relações sintático-semânticas que se evidenciam
no texto.
0-0) No período: “A linguística se ocupa de muitos aspectos da linguagem e de seu uso; um aspecto
do uso da linguagem de que a linguística não se ocupa é a distinção entre o 'certo' e o
'errado' na língua.”, o segmento sublinhado funciona como uma ressalva em relação ao conteúdo
informado na primeira oração.
1-1) No trecho: “É fato (e, portanto, temos que respeitar) que a gente não escreve como fala.”, o
comentário inserido entre parênteses estabelece uma relação conclusiva com o segmento anterior.
2-2) No trecho: “... e os falantes sabem isso muito bem, tanto é que empregam com toda a
segurança a variedade adequada à situação do momento”, o segmento sublinhado mantém
com o anterior uma relação condicional.
3-3) No enunciado: “Por exemplo, praticamente ninguém questiona a conveniência de se ensinar o
uso do português padrão escrito, desde que limitado aos contextos em que ele é socialmente
aceito.”, o segmento destacado instaura uma noção temporal.
4-4) Ao afirmar que: “Um linguista, portanto, não deve fazer julgamentos de valor a respeito de seu
objeto de estudo”, o autor pretendeu sintetizar as ideias apresentadas no texto, daí por que o
enunciado é conclusivo.
Gabarito:
V V F F V
Resolução:
(Resolução oficial)
0-0) Verdadeiro. De fato, o segmento sublinhado no período funciona como uma ressalva em relação
ao conteúdo informado na primeira oração.
1-1) Verdadeiro. No trecho dado, o comentário inserido entre parênteses estabelece uma relação
conclusiva com o segmento anterior.
2-2) Falso. No trecho dado, o segmento sublinhado não mantém com o anterior uma relação
condicional.
3-3) Falso. O segmento destacado não instaura uma noção temporal.
4-4) Verdadeiro. Realmente, com o enunciado dado, o autor pretendeu sintetizar as ideias
apresentadas no texto, daí por que o enunciado é conclusivo.
Questão 8
A minha subida ao Everest
1 Seja por causa da pressão atmosférica ou efeito de embaraço gástrico, há dias em que nos
pomos a
2 olhar o transcurso passado da nossa vida e o vemos vazio, inútil, assim como um deserto de
esterilidades
3 por cima do qual brilha um grande sol autoritário que não nos atrevemos a olhar de frente.
Qualquer recanto
4 nos serviria então para recolher a vergonha de não termos alcançado um simples patamar
donde outra
5 paisagem mais fértil se mostrasse. Nunca como nessas ocasiões se toma maior consciência de
quanto é
6 difícil este aparentemente imediato ofício de viver, que não parece sequer requerer
aprendizagem.
7 É nesses momentos que fazemos decididos projectos de exaltação pessoal e nos dispomos a
modificar
8 o mundo. O espelho é de muito auxílio no dispor das feições adequadas ao modelo que vamos
seguir.
9 Mas sobe a pressão, o bicarbonato equilibrou a acidez – e a vida vai andando, cambaia como se
10 levasse um prego no tacão e uma invencível preguiça de o arrancar. De modo que o mundo
será de facto
11 transformado mas não por nós.
12 Não estarei, contudo, cometendo grave injustiça? Não haverá no deserto uma súbita ascensão
que de
13 longe ainda precipite a vertigem ímpar que é o lastro denso que nos justifica? Por outras
palavras, e mais
14 simples: não seremos todos nós transformadores do mundo? um certo e breve minuto da
existência não será
15 a nossa prova, em vez de todos os sessenta ou setenta anos que nos couberam em quinhão?
16 Mal é se vamos encontrar esse minuto num passado longe, ou no momento não temos olhos
para
17 outras ascensões mais próximas. Mas talvez haja aí uma escolha deliberada, consoante o lugar
onde
18 falamos do nosso deserto pessoal ou os ouvidos que nos escutam.
19 Hoje, por exemplo, seja qual for a razão, estou a ver, à distância de trinta e muitos, uma árvore
20 gigantesca, toda projectada em altura, que parecia, na lezíria circular e lisa, a haste de um
grande relógio de
21 sol. Era um freixo de couraça rugosa, toda fendida na base, e que desenvolvia ao longo do
tronco uma
22 sucessão de tufos ramosos, como andares que prometiam uma escada fácil. Mas eram, pelo
menos, trinta
23 metros de altura.
24 Vejo um garoto descalço rodear a árvore pela centésima vez. Ouço o bater do seu coração e
sinto-lhe
25 as palmas húmidas das mãos e um vago cheiro de seiva quente que sobe das ervas. O
rapazinho levanta a
26 cabeça e vê lá no alto o topo da árvore que se agita lentamente como se estivesse caiando o
céu de azul.
27 Os dedos do pé descalço firmam-se na casca do freixo, enquanto o outro pé balouça o impulso
que
28 fará chegar a mão ansiosa ao primeiro ramo. Todo o corpo se cinge contra o corpo áspero e a
árvore decerto
29 ouve as pancadas surdas do coração que se lhe entrega. Até o nível das outras árvores antes
conquistadas,
30 a agilidade e a segurança alimentam-se do hábito. Mas, a partir daí, o mundo alarga-se
subitamente, e todas
31 as coisas, até então familiares, se vão tornando estranhas, pequenas, é como um abandono de
tudo – e tudo
32 abandona o rapaz que sobe.
33 Dez metros, quinze metros. O horizonte roda devagar e cambaleia quando o tronco, cada vez
mais
34 delgado, oscila ao vento. E há uma vertigem que ameaça e não se decide nunca. Os pés
arranhados são
35 como garras que se prendem nos ramos e não os querem largar, enquanto as mãos buscam
frementes a
36 altura, e o corpo se contorce contra o corpo vertical da árvore. O suor escorre, e de repente um
soluço seco
37 irrompe à altura dos ninhos e dos cantos das aves.
38 É o soluço do medo de não ter coragem. Vinte metros. A terra está definitivamente longe. As
casas
39 rasteiras são insignificantes, e as pessoas é como se tivessem desaparecido, e de todas apenas
restasse o
40 rapaz que sobe – precisamente porque sobe.
41 Os braços já podem cingir o tronco, as mãos já se unem do outro lado. O topo está perto,
oscilante
42 como um pêndulo invertido. Todo o céu se adensa por cima da última folha. O silêncio cobre a
respiração
43 arquejante e o sussurro do vento nos ramos. É este o grande dia da vitória.
44 Não me lembro se o rapaz chegou ao cimo da árvore. Uma névoa persistente cobre essa
memória.
45 Mas talvez seja melhor assim: não ter alcançado o pináculo então, é uma boa razão para
continuar subindo.
46 Como um dever que nasce de dentro e porque o sol ainda vai alto.
José Saramago, A bagagem do viajante: crônicas.
VOCABULÁRIO:
bicarbonato – sal ou ânion derivado do ácido carbônico.
cambaia – que tem dificuldade em andar ou manter-se de pé.
tacão – parte da sola do calçado a que se prende o salto, na altura do calcanhar.
lastro – base sólida que legitima ou autoriza alguma coisa; assento, fundamento.
quinhão – o que cabe ou deveria caber a uma pessoa ou coisa.
leziria – leito maior ou planície de inundação, junto a certos rios, onde há depressões que são
invadidas pelas cheias.
freixo – designação comum a diversas plantas do gênero Fraxinus, da família das oleáceas, cuja
madeira elástica tem diferentes empregos.
caiar – pintar ou recobrir com qualquer produto ou substância branca.
balouçar – fazer mover ou mover(-se); balançar(-se).
cingir – estar à volta de; conter ou incluir em seu interior; fechar, rodear, circundar, cercar.
fremente – agitado, trêmulo; (sentido figurado) apaixonado, vibrante.
cimo – a parte superior de uma coisa que tem maior altura que comprimento ou largura; a parte de
cima; alto, topo.
pináculo – o ponto mais alto de um lugar.
No trecho “De modo que o mundo será de facto transformado mas não por nós.” (linhas 10 e 11), a
expressão “de facto” imprime ao enunciado a ideia de que o autor
A) teme a transformação do mundo.
B) julga necessária a transformação do mundo.
C) torce por uma possível transformação do mundo.
D) se esforça para transformar o mundo.
E) tem certeza de que o mundo será transformado.
Gabarito:
E
Resolução:
Justifica-sea alternativa E, já que a expressão "de facto", adjunto adverbial de afirmação, é usada
para dar certeza sobre algo de que se tem convicção.
Questão 9
A comunidade do Orkut “Eu tenho medo do Mesmo” foi criada em função do aviso bastante
conhecido dos usuários de elevadores: “Antes de entrar no elevador, verifique se o mesmo encontra-
se parado neste andar”.
(Adaptado de http://www.orkut.com.br/Main#community?cmm=525458. Acesso em 20 dez. 2010)
a) Explique o que torna possível o jogo de palavras “Mesmo, o maníaco dos elevadores” usado pelos
membros dessa comunidade.
b) Reescreva o aviso de forma que essa leitura não seja mais possível.
Gabarito:
(Resolução oficial)
O jogo de palavras que dá nome à comunidade do Orkut se deve ao fato de 'mesmo' ter sido utilizado
equivocadamente no aviso como substituto de ‘elevador’, equivalendo, portanto, a um substantivo.
Nesse efeito de substantivação, ‘o mesmo’, que deveria remeter a elevador, por substituição, acaba
funcionando como um outro substantivo na brincadeira da comunidade, associado a uma pessoa (‘o
Mesmo’). Como o aviso adverte que se deve verificar se 'o mesmo' encontra-se parado no andar, a
brincadeira o interpreta como uma referência ao “maníaco dos elevadores”. Na reescrita do aviso,
basta repetir a palavra ‘elevador’, ou substituí-la por 'ele' ou ‘este’. São possíveis também paráfrases
que evitem a repetição. Em ambos os casos, 'mesmo' não deverá constar.
Questão 10
A palavra falada é um fenômeno natural; a palavra escrita é um fenômeno cultural. O homem natural
pode viver perfeitamente sem ler nem escrever. Não o pode o homem a que chamamos civilizado:
por isso, como disse, a palavra escrita é um fenômeno cultural, não da natureza mas da civilização,
da qual a cultura é a essência e o esteio.
Pertencendo, pois, a mundos (mentais) essencialmente diferentes, os dois tipos de palavra obedecem
forçosamente a leis ou regras essencialmente diferentes. A palavra falada é um caso, por assim dizer,
democrático. Ao falar, temos que obedecer à lei do maior número, sob pena de ou não sermos
compreendidos ou sermos inutilmente ridículos. Se a maioria pronuncia mal uma palavra, temos que
a pronunciar mal. Se a maioria usa de uma construção gramatical errada, da mesma construção
teremos que usar. Se a maioria caiu em usar estrangeirismos ou outras irregularidades verbais, assim
temos que fazer. Os termos ou expressões que na linguagem escrita são justos, e até obrigatórios,
tornam-se em estupidez e pedantaria, se deles fazemos uso no trato verbal. Tornam-se até em má-
criação, pois o preceito fundamental da civilidade é que nos conformemos o mais possível com
as maneiras, os hábitos, e a educação da pessoa com quem falamos, ainda que nisso faltemos às
boas maneiras ou à etiqueta, que são a cultura exterior.
PESSOA, Fernando. A língua portuguesa, 1999. Adaptado.
De acordo com o autor, "ao falar, temos que obedecer à lei do maior número". Atendendo a esse
princípio, para o português oral contemporâneo, está adequado o enunciado:
a) Olvidei-me de trazer seu livro. Assistia a um filme deveras interessante. Você não se sente
chateado por isso, não é mesmo?
b) Caso assistisse a um filme e esquecesse teu livro... Sentir-te-ias magoado com esse meu
comportamento?
c) Cara, @#$&*...! Demorô!!! O fdm nem tchum... E pá... :) E o livro... Nem... :( Que m***a!!!
d) Me esqueci de trazer seu livro, porque fiquei assistindo um filme. Cê não tá chateado por causa
disso, né?
e) Nóis ia lê o livro na aula, mais fiquei veno TV, sistino um firme e isquici dele. Ocê tá chateado
cumigu não né?
Gabarito:
D
Resolução:
A alternativa correta é a D, pois, seguindo a formulação do autor, no português oral contemporâneo,
o enunciado dessa alternativa está correto. Isso porque nessa variedade linguística, o pronome
oblíquo átono "me" é empregado para iniciar a frase, a regência formal do verbo "assistir" não é
seguida, há abreviação do pronome "você" para "cê" e do verbo "está" para "tá", bem como há uso
do marcador conversacional "né".
Questão 11
A única frase em que o pronome “o” está corretamente empregado é:
a) O garoto aguardava uma proposta que o permitisse ficar em casa se divertindo.
b) Antes da viagem, o grupo fez uma oração pedindo que nada de mal o acontecesse.
c) Depois de assistir a algumas competições de surfe, o garoto aderiu-o definitivamente.
d) O técnico não tolerará que os jogadores o respondam quando forem advertidos.
e) O motorista está convicto de que os próprios passageiros o implicaram no acidente.
Gabarito:
E
Resolução:
A alternativa a ser assinalada é a E. Nas demais o pronome “o” está incorretamente empregado, pois
aparece ligado a um verbo transitivo indireto, que exige o pronome “lhe”. Em cada uma delas o
correto seria:
a) O garoto aguardava uma proposta que lhe permitisse ficar em casa se divertindo.
b) Antes da viagem, o grupo fez uma oração pedindo que nada de mal lhes acontecesse.
c) Depois de assistir a algumas competições de surfe, o garoto aderiu-lhe definitivamente.
d) O técnico não tolerará que os jogadores lhe respondam quando forem advertidos.
Questão 12
A Cidade
Destinava-se a uma cidade maior, mas o trem permaneceu indefinidamente na
antepenúltima
estação.
Cariba acreditou que a demora poderia ser atribuída a algum comboio1 de carga
descarrilado na
linha, acidente comum naquele trecho da ferrovia. Como se fizesse excessivo o
atraso e ninguém
5 o procurasse para lhe explicar o que estava ocorrendo, pensou numa provável
desconsideração
à sua pessoa, em virtude de ser o único passageiro do trem.
Chamou o funcionário que examinara as passagens e quis saber se constituía
motivo para tanta
negligência o fato de ir vazia a composição.
Não recebeu uma resposta direta do empregado da estrada, que se limitou a
apontar o morro,
10 onde se dispunham, sem simetria, dezenas de casinhas brancas.
– Belas mulheres? – indagou o viajante.
– Casas vazias.
Percebeu logo que tinha pela frente um cretino. Apanhou as malas e se dispôs a
subir as íngremes
ladeiras que o conduziriam ao povoado.
(...)
15 Durante todo o percurso, desde as vias secundárias à avenida principal, os
moradores do lugar
observaram Cariba com desconfiança. Talvez estranhassem as valises2 de couro de
camelo que
carregava ou o seu paletó xadrez, as calças de veludo azul. Mesmo sendo o seu
traje usual nas
constantes viagens que fazia, achou prudente desfazer qualquer mal-entendido
provocado pela
sua presença entre eles:
20 – Que cidade é esta? – perguntou, esforçando-se para dar às palavras o máximo de
cordialidade.
Nem chegou a indagar pelas mulheres, conforme pretendia. Pegaram-no com
violência pelos
braços e o foram levando, aos trancos, para a delegacia de polícia:
– É o homem procurado – disseram ao delegado, um sargento espadaúdo3 e rude.
(...)
O sargento chegara a uma conclusão, entretanto divagava:
25 – O telegrama da Chefia de Polícia não esclarece nada sobre a nacionalidade do
delinquente, sua
aparência, idade e quais os crimes que cometeu. Diz tratar-se de elemento
altamente perigoso,
identificável pelo mau hábito de fazer perguntas e que estaria hoje neste lugar.
(...)
Cinco meses após a sua detenção, ele não mais espera sair da cadeia. Das suas
grades, observa
os homens que passam na rua. Mal o encaram, amedrontados, apressam o passo.
30 Pressente, às vezes, que irão perguntar qualquer coisa aos companheiros e fica à
espreita,
ansioso que isso aconteça. Logo se desengana. Abrem a boca, arrependem-se, e se
afastam
rapidamente.
Caminha, dentro da noite, de um lado para outro. E, ao avistar o guarda, cumprindo
sua ronda
noturna, a examinar se as celas estão em ordem, corre para as grades internas,
impelido por
35 uma débil esperança:
– Alguém fez hoje alguma pergunta?
– Não. Ainda é você a única pessoa que faz perguntas nesta cidade.
RUBIÃO, Murilo. Obra completa. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
1comboio: trem;
2valise: mala de mão;
3espadaúdo: de ombros largos.
Leia os trechos abaixo,que apresentam, respectivamente, um fragmento do texto e sua reescritura:
1) “Apanhou as malas e se dispôs a subir as íngremes ladeiras que o conduziriam ao povoado.” (l.
13-14)
2) Apanhou as malas e se dispôs a subir as íngremes ladeiras que o conduziam ao povoado.
Explique a diferença de sentido entre as duas construções. Justifique, ainda, a opção do autor pela
primeira formulação, tendo em vista o desenrolar da narrativa.
Gabarito:
(Resolução oficial)
Em (1), as ladeiras poderiam conduzi-lo, ou não, ao povoado.
Em (2), as ladeiras o conduziam ao povoado necessariamente.
Na construção que o conduziriam ao povoado, o emprego do futuro do pretérito exprime a
incerteza explorada na narrativa quanto à chegada de Cariba ao povoado.
Resolução:
Questão 13
A Cidade
Destinava-se a uma cidade maior, mas o trem permaneceu indefinidamente na
antepenúltima
estação.
Cariba acreditou que a demora poderia ser atribuída a algum comboio1 de carga
descarrilado na
linha, acidente comum naquele trecho da ferrovia. Como se fizesse excessivo o
atraso e ninguém
5 o procurasse para lhe explicar o que estava ocorrendo, pensou numa provável
desconsideração
à sua pessoa, em virtude de ser o único passageiro do trem.
Chamou o funcionário que examinara as passagens e quis saber se constituía
motivo para tanta
negligência o fato de ir vazia a composição.
Não recebeu uma resposta direta do empregado da estrada, que se limitou a
apontar o morro,
10 onde se dispunham, sem simetria, dezenas de casinhas brancas.
– Belas mulheres? – indagou o viajante.
– Casas vazias.
Percebeu logo que tinha pela frente um cretino. Apanhou as malas e se dispôs a
subir as íngremes
ladeiras que o conduziriam ao povoado.
(...)
15 Durante todo o percurso, desde as vias secundárias à avenida principal, os
moradores do lugar
observaram Cariba com desconfiança. Talvez estranhassem as valises2 de couro de
camelo que
carregava ou o seu paletó xadrez, as calças de veludo azul. Mesmo sendo o seu
traje usual nas
constantes viagens que fazia, achou prudente desfazer qualquer mal-entendido
provocado pela
sua presença entre eles:
20 – Que cidade é esta? – perguntou, esforçando-se para dar às palavras o máximo de
cordialidade.
Nem chegou a indagar pelas mulheres, conforme pretendia. Pegaram-no com
violência pelos
braços e o foram levando, aos trancos, para a delegacia de polícia:
– É o homem procurado – disseram ao delegado, um sargento espadaúdo3 e rude.
(...)
O sargento chegara a uma conclusão, entretanto divagava:
25 – O telegrama da Chefia de Polícia não esclarece nada sobre a nacionalidade do
delinquente, sua
aparência, idade e quais os crimes que cometeu. Diz tratar-se de elemento
altamente perigoso,
identificável pelo mau hábito de fazer perguntas e que estaria hoje neste lugar.
(...)
Cinco meses após a sua detenção, ele não mais espera sair da cadeia. Das suas
grades, observa
os homens que passam na rua. Mal o encaram, amedrontados, apressam o passo.
30 Pressente, às vezes, que irão perguntar qualquer coisa aos companheiros e fica à
espreita,
ansioso que isso aconteça. Logo se desengana. Abrem a boca, arrependem-se, e se
afastam
rapidamente.
Caminha, dentro da noite, de um lado para outro. E, ao avistar o guarda, cumprindo
sua ronda
noturna, a examinar se as celas estão em ordem, corre para as grades internas,
impelido por
35 uma débil esperança:
– Alguém fez hoje alguma pergunta?
– Não. Ainda é você a única pessoa que faz perguntas nesta cidade.
RUBIÃO, Murilo. Obra completa. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
1comboio: trem;
2valise: mala de mão;
3espadaúdo: de ombros largos.
“Cinco meses após a sua detenção, ele não mais espera sair da cadeia. Das suas grades, observa os
homens que passam na rua. Mal o encaram, amedrontados, apressam o passo.” (l. 28-29)
A partir do parágrafo acima, a narração passa a ser feita no tempo e modo verbal das
formas destacadas.
Identifique esse tempo e modo verbal e explique o efeito que seu emprego produz, considerando a
situação em que Cariba se encontra.
Gabarito:
(Resolução oficial)
Presente do indicativo.
Efeito: o emprego dos verbos no presente do indicativo traz para a narrativa a ideia de
permanência, em consonância com o fato de Cariba continuar preso sem nenhuma perspectiva de
mudança.
Resolução:
Questão 14
A doida habitava um chalé no centro do jardim maltratado. E a rua descia para o córrego, onde os
meninos costumavam banhar-se. Era só aquele chalezinho, à esquerda, entre o barranco e um chão
abandonado; à direita, o muro de um grande quintal. E na rua, tornada maior pelo silêncio, o burro
que pastava. Rua cheia de capim, pedras soltas, num declive áspero. Onde estava o fiscal, que não
mandava capiná-la?
Os três garotos desceram manhã cedo, para o banho e a pega de passarinho. Só com essa intenção.
Mas era bom passar pela casa da doida e provocá-la. As mães diziam o contrário: que era horroroso,
poucos pecados seriam maiores. Dos doidos devemos ter piedade, porque eles não gozam dos
benefícios com que nós, os sãos, fomos aquinhoados. Não explicavam bem quais fossem esses
benefícios, ou explicavam demais, e restava a impressão de que eram todos privilégios de gente
adulta, como fazer visitas, receber cartas, entrar para irmandades. E isso não comovia ninguém. A
loucura parecia antes erro do que miséria. E os três sentiam-se inclinados a lapidar1 a doida, isolada e
agreste no seu jardim.
Como era mesmo a cara da doida, poucos poderiam dizê-lo. Não aparecia de frente e de corpo inteiro,
como as outras pessoas, conversando na calma. Só o busto, recortado numa das janelas da frente, as
mãos magras, ameaçando. Os cabelos, brancos e desgrenhados. E a boca inflamada, soltando
xingamentos, pragas, numa voz rouca. Eram palavras da Bíblia misturadas a termos populares, dos
quais alguns pareciam escabrosos, e todos fortíssimos na sua cólera.
Sabia-se confusamente que a doida tinha sido moça igual às outras no seu tempo remoto (contava
mais de sessenta anos, e loucura e idade, juntas, lhe lavraram o corpo). Corria, com variantes, a
história de que fora noiva de um fazendeiro, e o casamento uma festa estrondosa; mas na própria
noite de núpcias o homem a repudiara, Deus sabe por que razão. O marido ergueu-se terrível e
empurrou-a, no calor do bate--boca; ela rolou escada abaixo, foi quebrando ossos, arrebentando-se.
Os dois nunca mais se veriam. Já outros contavam que o pai, não o marido, a expulsara, e
esclareciam que certa manhã o velho sentira um amargo diferente no café, ele que tinha dinheiro
grosso e estava custando a morrer – mas nos racontos2 antigos abusava-se de veneno. De qualquer
modo, as pessoas grandes não contavam a história direito, e os meninos deformavam o conto.
Repudiada por todos, ela se fechou naquele chalé do caminho do córrego, e acabou perdendo o juízo.
Perdera antes todas as relações. Ninguém tinha ânimo de visitá-la. O padeiro mal jogava o pão na
caixa de madeira, à entrada, e eclipsava-se. Diziam que nessa caixa uns primos generosos
mandavam pôr, à noite, provisões e roupas, embora oficialmente a ruptura com a família se
mantivesse inalterável. Às vezes uma preta velha arriscava-se a entrar, com seu cachimbo e sua
paciência educada no cativeiro, e lá ficava dois ou três meses, cozinhando. Por fim a doida enxotava-
a. E, afinal, empregada nenhuma queria servi-la. Ir viver com a doida, pedir a bênção à doida, jantar
em casa da doida, passaram a ser, na cidade, expressões de castigo e símbolos de irrisão3.
Vinte anos de uma tal existência, e a legenda está feita. Quarenta, e não há mudá-la. O sentimento
de que a doida carregava uma culpa, que sua própria doidice era uma falta grave, uma coisa
aberrante, instalou-se no espírito das crianças. E assim, gerações sucessivas de moleques passavam
pela porta, fixavam cuidadosamente a vidraça e lascavam uma pedra. A princípio, como justa
penalidade. Depois, por prazer. Finalmente, e já havia muito tempo, por hábito. Como a doida
respondesse sempre furiosa, criara-se na menteinfantil a ideia de um equilíbrio por compensação,
que afogava o remorso.
Em vão os pais censuravam tal procedimento. Quando meninos, os pais daqueles três tinham feito o
mesmo, com relação à mesma doida, ou a outras. Pessoas sensíveis lamentavam o fato, sugeriam
que se desse um jeito para internar a doida. Mas como? O hospício era longe, os parentes não se
interessavam. E daí – explicava-se ao forasteiro que porventura estranhasse a situação – toda cidade
tem seus doidos; quase que toda família os tem. Quando se tornam ferozes, são trancados no sótão;
fora disto, circulam pacificamente pelas ruas, se querem fazê-lo, ou não, se preferem ficar em casa. E
doido é quem Deus quis que ficasse doido... Respeitemos sua vontade. Não há remédio para loucura;
nunca nenhum doido se curou, que a cidade soubesse; e a cidade sabe bastante, ao passo que livros
mentem.
Contos de aprendiz, 2012.
1 lapidar: apedrejar.
2 raconto: relato, narrativa.
3 irrisão: zombaria.
Em “Não aparecia de frente e de corpo inteiro, como as outras pessoas, conversando na calma” (3º
parágrafo), o termo destacado é um verbo
a) de ligação.
b) transitivo direto e indireto.
c) transitivo direto.
d) intransitivo.
e) transitivo indireto
Gabarito:
D
Resolução:
Em “Não aparecia de frente e de corpo inteiro, como as outras pessoas, conversando na calma”, o
termo destacado "aparecia" é um verbo intransitivo, que não necessita de complemento verbal. Os
segmentos “de frente e de corpo inteiro” e “como as outras pessoas”, são adjuntos adverbiais –
respectivamente, de modo e de comparação.
Questão 15
A doida habitava um chalé no centro do jardim maltratado. E a rua descia para o córrego, onde os
meninos costumavam banhar-se. Era só aquele chalezinho, à esquerda, entre o barranco e um chão
abandonado; à direita, o muro de um grande quintal. E na rua, tornada maior pelo silêncio, o burro
que pastava. Rua cheia de capim, pedras soltas, num declive áspero. Onde estava o fiscal, que não
mandava capiná-la?
Os três garotos desceram manhã cedo, para o banho e a pega de passarinho. Só com essa intenção.
Mas era bom passar pela casa da doida e provocá-la. As mães diziam o contrário: que era horroroso,
poucos pecados seriam maiores. Dos doidos devemos ter piedade, porque eles não gozam dos
benefícios com que nós, os sãos, fomos aquinhoados. Não explicavam bem quais fossem esses
benefícios, ou explicavam demais, e restava a impressão de que eram todos privilégios de gente
adulta, como fazer visitas, receber cartas, entrar para irmandades. E isso não comovia ninguém. A
loucura parecia antes erro do que miséria. E os três sentiam-se inclinados a lapidar1 a doida, isolada e
agreste no seu jardim.
Como era mesmo a cara da doida, poucos poderiam dizê-lo. Não aparecia de frente e de corpo inteiro,
como as outras pessoas, conversando na calma. Só o busto, recortado numa das janelas da frente, as
mãos magras, ameaçando. Os cabelos, brancos e desgrenhados. E a boca inflamada, soltando
xingamentos, pragas, numa voz rouca. Eram palavras da Bíblia misturadas a termos populares, dos
quais alguns pareciam escabrosos, e todos fortíssimos na sua cólera.
Sabia-se confusamente que a doida tinha sido moça igual às outras no seu tempo remoto (contava
mais de sessenta anos, e loucura e idade, juntas, lhe lavraram o corpo). Corria, com variantes, a
história de que fora noiva de um fazendeiro, e o casamento uma festa estrondosa; mas na própria
noite de núpcias o homem a repudiara, Deus sabe por que razão. O marido ergueu-se terrível e
empurrou-a, no calor do bate--boca; ela rolou escada abaixo, foi quebrando ossos, arrebentando-se.
Os dois nunca mais se veriam. Já outros contavam que o pai, não o marido, a expulsara, e
esclareciam que certa manhã o velho sentira um amargo diferente no café, ele que tinha dinheiro
grosso e estava custando a morrer – mas nos racontos2 antigos abusava-se de veneno. De qualquer
modo, as pessoas grandes não contavam a história direito, e os meninos deformavam o conto.
Repudiada por todos, ela se fechou naquele chalé do caminho do córrego, e acabou perdendo o juízo.
Perdera antes todas as relações. Ninguém tinha ânimo de visitá-la. O padeiro mal jogava o pão na
caixa de madeira, à entrada, e eclipsava-se. Diziam que nessa caixa uns primos generosos
mandavam pôr, à noite, provisões e roupas, embora oficialmente a ruptura com a família se
mantivesse inalterável. Às vezes uma preta velha arriscava-se a entrar, com seu cachimbo e sua
paciência educada no cativeiro, e lá ficava dois ou três meses, cozinhando. Por fim a doida enxotava-
a. E, afinal, empregada nenhuma queria servi-la. Ir viver com a doida, pedir a bênção à doida, jantar
em casa da doida, passaram a ser, na cidade, expressões de castigo e símbolos de irrisão3.
Vinte anos de uma tal existência, e a legenda está feita. Quarenta, e não há mudá-la. O sentimento
de que a doida carregava uma culpa, que sua própria doidice era uma falta grave, uma coisa
aberrante, instalou-se no espírito das crianças. E assim, gerações sucessivas de moleques passavam
pela porta, fixavam cuidadosamente a vidraça e lascavam uma pedra. A princípio, como justa
penalidade. Depois, por prazer. Finalmente, e já havia muito tempo, por hábito. Como a doida
respondesse sempre furiosa, criara-se na mente infantil a ideia de um equilíbrio por compensação,
que afogava o remorso.
Em vão os pais censuravam tal procedimento. Quando meninos, os pais daqueles três tinham feito o
mesmo, com relação à mesma doida, ou a outras. Pessoas sensíveis lamentavam o fato, sugeriam
que se desse um jeito para internar a doida. Mas como? O hospício era longe, os parentes não se
interessavam. E daí – explicava-se ao forasteiro que porventura estranhasse a situação – toda cidade
tem seus doidos; quase que toda família os tem. Quando se tornam ferozes, são trancados no sótão;
fora disto, circulam pacificamente pelas ruas, se querem fazê-lo, ou não, se preferem ficar em casa. E
doido é quem Deus quis que ficasse doido... Respeitemos sua vontade. Não há remédio para loucura;
nunca nenhum doido se curou, que a cidade soubesse; e a cidade sabe bastante, ao passo que livros
mentem.
Contos de aprendiz, 2012.
1 lapidar: apedrejar.
2 raconto: relato, narrativa.
3 irrisão: zombaria.
Derivação regressiva: formação de palavras novas pela redução de uma palavra já existente. A
redução se faz mediante supressão de elementos terminais (sufixos, desinências).
Celso Pedro Luft. Gramática resumida, 2004.
Constitui exemplo de palavra formada pelo processo de derivação regressiva o termo destacado em:
a) “Sabia-se confusamente que a doida tinha sido moça igual às outras no seu tempo remoto” (4º
parágrafo)
b) “E a boca inflamada, soltando xingamentos, pragas, numa voz rouca.” (3º parágrafo)
e) “Os três garotos desceram manhã cedo, para o banho e a pega de passarinho.” (2º parágrafo)
d) “A doida habitava um chalé no centro do jardim maltratado.” (1º parágrafo)
e) “O sentimento de que a doida carregava uma culpa, que sua própria doidice era uma falta grave”
(5º parágrafo)
Gabarito:
C
Resolução:
A derivação regressiva, que ocorre quando o verbo sofre redução e transforma-se em substantivo,
pode ser identificada no termo destacado "pega", que deriva de "pegar", em "Os três garotos
desceram manhã cedo, para o banho e a pega de passarinho".
Questão 16
A essência da teoria democrática é a supressão de qualquer imposição de classe, fundada no
postulado ou na crença de que os conflitos e problemas humanos – econômicos, políticos, ou sociais –
são solucionáveis pela educação, isto é, pela cooperação voluntária, mobilizada pela opinião pública
esclarecida. Está claro que essa opinião pública terá de ser formada à luz dos melhores
conhecimentos existentes e, assim, a pesquisa científica nos campos das ciências naturais e das
chamadas ciências sociais deverá se fazer a mais ampla, a mais vigorosa, a mais livre, e a difusão
desses conhecimentos, a mais completa, a mais imparcial e em termos que os tornem acessíveis a
todos.
TEIXEIRA, Anísio. Educação é um direito.Adaptado.
De acordo com o texto, a sociedade será democrática quando
a) sua base for a educação sólida do povo, realizada por meio da ampla difusão do conhecimento.
b) a parcela do público que detém acesso ao conhecimento científico e político passar a controlar a
opinião pública.
c) a opinião pública se formar com base tanto no respeito às crenças religiosas de todos quanto no
conhecimento científico.
d) a desigualdade econômica for eliminada, criando-se, assim, a condição necessária para que o povo
seja livremente educado.
e) a propriedade dos meios de comunicação e difusão do conhecimento se tornar pública.
Gabarito:
A
Resolução:
A alternativa correta é a A. Justifica-se pela leitura atenta do texto, segundo o qual a "essência da
teoria democrática" funda-se "no postulado ou na crença de que os conflitos e problemas humanos –
econômicos, políticos, ou sociais – são solucionáveis pela educação".
Questão 17
A essência da teoria democrática é a supressão de qualquer imposição de classe, fundada no
postulado ou na crença de que os conflitos e problemas humanos – econômicos, políticos, ou sociais –
são solucionáveis pela educação, isto é, pela cooperação voluntária, mobilizada pela opinião pública
esclarecida. Está claro que essa opinião pública terá de ser formada à luz dos melhores
conhecimentos existentes e, assim, a pesquisa científica nos campos das ciências naturais e das
chamadas ciências sociais deverá se fazer a mais ampla, a mais vigorosa, a mais livre, e a difusão
desses conhecimentos, a mais completa, a mais imparcial e em termos que os tornem acessíveis a
todos.
TEIXEIRA, Anísio. Educação é um direito. Adaptado.
No trecho "chamadas ciências sociais", o emprego do termo "chamadas" indica que o autor
a) vê, nas "ciências sociais", uma panaceia, não uma análise crítica da sociedade.
b) considera utópicos os objetivos dessas ciências.
c) prefere a denominação "teoria social" à denominação "ciências sociais".
d) discorda dos pressupostos teóricos dessas ciências.
e) utiliza com reserva a denominação "ciências sociais".
Gabarito:
E
Resolução:
A alternativa correta é a E. Ao empregar o adjetivo "chamadas" para qualificar "ciências sociais", o
autor transparece reserva com relação a essa denominação, relativamente a métodos e objetivos.
Isso fica mais claro com a interpretação do paralelismo cauteloso destas "ciências sociais" com as
"ciências naturais", estas últimas associadas a um método rigoroso de análise objetiva e imparcial, tal
qual defendido pelo autor no excerto.
Questão 18
A essência da teoria democrática é a supressão de qualquer imposição de classe, fundada no
postulado ou na crença de que os conflitos e problemas humanos – econômicos, políticos, ou sociais –
são solucionáveis pela educação, isto é, pela cooperação voluntária, mobilizada pela opinião pública
esclarecida. Está claro que essa opinião pública terá de ser formada à luz dos melhores
conhecimentos existentes e, assim, a pesquisa científica nos campos das ciências naturais e das
chamadas ciências sociais deverá se fazer a mais ampla, a mais vigorosa, a mais livre, e a difusão
desses conhecimentos, a mais completa, a mais imparcial e em termos que os tornem acessíveis a
todos.
TEIXEIRA, Anísio. Educação é um direito. Adaptado.
Dos seguintes comentários linguísticos sobre diferentes trechos do texto, o único correto é:
a) Os prefixos das palavras "imposição" e "imparcial" têm o mesmo sentido.
b) As palavras "postulado" e "crença" foram usadas no texto como sinônimas.
c) A norma-padrão condena o uso de "essa", no trecho “essa opinião”, pois, nesse caso, o correto
seria usar "esta".
d) A vírgula empregada no trecho "e a difusão desses conhecimentos, a mais completa" indica que,
aí, ocorre a elipse de um verbo.
e) O pronome destacado em "que os tornem" tem como referente o substantivo "termos".
Gabarito:
D
Resolução:
A alternativa correta é a D, por ser a única que contém um comentário linguístico adequado. A vírgula
empregada no trecho indica uma elipse, especificamente um zeugma, da locução verbal "deverá se
fazer". Em a) o prefixo im- tem diferentes sentidos; de negação em "imparcial", e de equivalência
com "sobre" na palavra "imposição". Em b) "postulado" (princípio) e "crença" (algo em que se
acredita, fé) não são sinônimos. Em c), o pronome "essa" está corretamente empregado. Finalmente,
em d), o pronome "os" refere-se ao termo "conhecimentos".
Questão 19
A experiência que comprovou a existência da partícula conhecida como bóson de Higgs teve ampla
repercussão na imprensa de todo o mundo, pelo papel fundamental que tal partícula teria no
funcionamento do universo. Leia o comentário a seguir, retirado de um texto jornalístico, e responda
às questões propostas.
Por alguma razão, em língua portuguesa convencionou-se traduzir o apelido do bóson como “partícula
de Deus” e não “partícula Deus”, que seria a forma correta.
Folha de S.Paulo, São Paulo, 5 jul. 2012, Caderno Ciência. p. 10.
a) Explique a diferença sintática que se pode identificar entre as duas expressões mencionadas no
trecho reproduzido: "partícula de Deus" e "partícula Deus".
b) Explique a diferença de sentido entre uma e outra expressão em português.
Gabarito:
(Resolução oficial)
Espera-se que o candidato perceba que as duas expressões mencionadas no trecho jornalístico
correspondem a duas estruturas sintáticas diferentes e explique essa diferença. A primeira expressão
– "partícula de Deus" – é uma construção em que o termo de Deus funciona como um adjunto
adnominal do termo partícula, o que pode ser descrito em outros termos, atribuindo-se ao termo de
Deus o papel de determinante do termo partícula ou tomando-o como uma expressão de natureza
adjetiva. Já a segunda expressão – “partícula Deus” – é uma construção em que o termo Deus pode
ser tomado como um aposto de partícula (função que pode ser descrita como um termo equivalente
sintaticamente ao termo partícula, isto é, ambos são de natureza substantiva). Ou, numa outra
leitura possível, o substantivo Deus desempenha diretamente uma função adjetiva, o que leva a um
deslocamento metafórico de sentido.
Espera-se ainda que o candidato explicite as diferenças semânticas que o emprego de uma ou outra
expressão implica. Dessa maneira, na construção "partícula de Deus", uma vez que o termo de Deus
é um adjunto adnominal, partícula é qualificada como algo divino ou que pertence a Deus ou provém
de Deus. No segundo caso, partícula e Deus têm o mesmo referente, ou o nome atribuído à
partícula é Deus, ou ainda a partícula tem a própria natureza de Deus e, de alguma, forma equivale a
ele.
Resolução:
Questão 20
A crise por que passa o país impõe redução de gastos, ____________ os candidatos garantem que não
descumprirão as promessas de realizar as obras de que a cidade necessita.
Tendo em vista o tipo de relação de sentido que se verifica entre as orações dessa frase, a lacuna
deverá ser corretamente preenchida pelo conectivo
a) onde.
b) contudo.
c) embora.
d) visto que.
e) dessa forma.
Gabarito:
B
Resolução:
a) Incorreto. "Onde" refere-se a lugar, portanto seu emprego seria inadequado, já que o referencial é
"a crise". Além disso, esse pronome não estabelece a relação de oposição existente entre as duas
orações.
b) Correto. "Contudo" é uma conjunção que relaciona as duas frases estabelecendo a relação de
oposição existente entre elas.
c) Incorreto. O uso de "embora" estabelece a relação de contrariedade, porém a escolha dessa
conjunção implicaria na flexão do verbo "garantir", o que provocaria uma alteração na frase: "...
embora os candidatos garantam...".
d) Incorreta. "Visto que" propõe uma relação de explicação (causa e consequência) inexistente na
sentença.
e) Incorreta. "Dessa forma" tem sentido conclusivo, inadequado para o que se pretende expressar.