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A civilização do Vera Lúcia Amaral Ferlini tudo Brasil nasceu no Nordeste de uma sociedade de senhores e escravos, massapé e açúcar. Os traços ainda permanecem: marginalizado homem do campo; a exportação asfixiando mercado interno; séculos de escravismo impondo preconceitos éticos e étnicos ao trabalho. Sob a máscara do paternalismo das relações senhores- escravos, fermentava uma sociedade violenta, cujos conflitos marcaram com sangue a apenas aparentemente história do Brasil. ISBN 85-11-02088-8 9 788511 020885 88 editora brasiliensetudo é história 88Vera Lúcia Amaral Ferlini A CIVILIZAÇÃO DO (séculos XVI a XVIII) editora brasilienseCopyright by Vera Lúcia Amaral Ferlini Nenhuma parte desta publicação pode ser gravada, armazenada em sistemas eletrônicos, fotocopiada, reproduzida por meios mecânicos ou outros quaisquer sem autorização prévia do editor. ISBN: 85-11-02088-8 Primeira edição, 1984 11. edição, 1994 reimpressão, 1998 Revisão: José W. S. Moraes e Mansueto Bernardi Capa: Miguel Paiva Introdução 7 Açúcar e colonização 10 A agroindústria do açúcar 29 Os trabalhadores do açúcar 45 Os negócios do açúcar 63 O cotidiano do açúcar 78 Indicações para leitura 96 editora brasiliense s.a. MATRIZ: Rua Atucuri, 318 - Tatuapé - São Paulo - SP cep: 03411-000 - Fone/Fax: (011) 6942-0545 VENDAS/DEPÓSITO: Rua Mariano de Souza, 664 - Tatuapé - São Paulo - SP cep: 03411-090 - Fones: (011) 293-5858 - 293-0357 - 6942-8170 - 6191-2585 - Fax:INTRODUÇÃO Perante a avalanche de problemas que marcam a realidade brasileira, são comuns as perguntas: Onde tudo começou? Por que essa dependência, esse "atra- so"? Ao analisarmos a situação sócio-econômica do Brasil, realmente encontramos entraves poderosos ao crescimento: o latifúndio que expulsa o homem do campo, a agricultura de exportação que sufoca o mercado, o monopólio da terra que plasma o poder político, séculos de escravismo impondo o precon- ceito ao trabalho. Como se forças do passado sempre se levantassem, atrelando-nos, impedindo a renova- ção, barrando o progresso e a liberdade. Impossível entender o Brasil sem mergulharmos em nossa História, buscando no período colonial a gênese dessas estruturas, as motivações que nortea- ram nossa formação, o sentido mesmo da ocupação de nosso território. Primeiro momento da dominação portuguesa na8 Vera Lúcia Amaral Ferlini A civilização do açúcar 9 Colônia, o Nordeste açucareiro deu a luz ao Brasil. puramente econômica e imediata. Na Colônia, não Era uma nova sociedade, sonhada pela ambição eu- era primordial o lucro, o investimento, mas a posse ropéia, moldada em massapé e açúcar, em sangue e de terras e de escravos, signos e conteúdos da aristo- suor de escravos. As articulações sociais, a composi- cracia rural. ção étnica, os padrões culturais, as relações de tra- escravismo do mundo dos senhores do açúcar balho e de poder forjaram-se em torno dos engenhos foi elemento da história da gênese do capitalismo, e das lavouras de cana. E se bem que ao longo de três mas este não foi seu referencial ideológico. A socie- séculos a colônia tenha sofrido modificações, as li- dade nascida no Nordeste açucareiro transcendeu nhas gerais, marcadas pela produção açucareira sua finalidade puramente mercantil e constituiu-se, permaneceram como matriz de nossa sociedade. com seus próprios valores, na "civilização do açú- A estrutura agrária brasileira nasceu do açúcar. car". Para sua produção terras foram doadas, homens dei- Por que e para que se formou esse universo de xaram a Europa sonhando com a riqueza, organizou- engenhos e de lavouras de cana? Como foi organi- se o comércio, o tráfico negreiro ganhou fôlego. Pro- zada a produção? Quem foram os homens que lhe duto mais importante da economia colonial, o açúcar deram vida? Quais suas tensões? O que foi, enfim, a oscilou, desde o século XVI, ao sabor do mercado e aventura cotidiana da sociedade açucareira? São al- da política mas se manteve, mantendo gumas das perguntas que procuramos responder, uma sociedade violenta onde, sob a capa do paterna- oferecendo ao leitor, em linguagem simples, um lismo, senhores esmagaram escravos e, ainda hoje, painel do mundo do açúcar, nos primeiros séculos da usineiros esmagam camponeses. colonização. No início da colonização, os cronistas assinala- vam que os portugueses, no Brasil, não pensavam senão em voltar para Portugal. Com o passar do tempo, porém, o modo de vida criado na Colônia os retinha e a Europa tornava-se o referencial distante do universo singular dos trópicos. O colono deixava-se ficar, sempre na esperança de enriquecer e retornar. Mas se enraizava, afidal- gando-se em escala jamais sonhada. A riqueza, o fausto, o poder que obtinham na Colônia, no mundo do açúcar, eram muito maiores do que a recompensaA civilização do açúcar 11 (principalmente nas regiões próximas às grandes rotas comerciais), ou para o enrijecimento dos víncu- los de dependência feudais (nas áreas onde os conta- tos com os mercadores restringiam-se à camada se- nhorial). De uma forma ou de outra, a economia autárquica do feudalismo dissolvera-se ante a nova economia mercantil. O agravamento das condições servis, o rural, o alargamento de mercados, o fortalecimento AÇÚCAR E COLONIZAÇÃO da burguesia, o crescimento das cidades levaram a crises sociais: revoltas camponesas, insur- reições urbanas. A produção desorganizou-se e fo- mes, pestes e guerras sucederam-se ao longo do sé- porque o açúcar é a principal cousa com que todo este culo XIV. Brasil se enobrece e faz rico, e na lavra dele se tem guardado Lentamente, no século XV, a expansão do co- até " mércio europeu recobrou certo ritmo. Surgiram, po- Diálogo das Grandezas do Brasil rém, novos entraves. Escassearam as moedas. Mono- polizaram-se certos setores especialmente o de pro- A implantação da lavoura canavieira no Brasil, dutos orientais, o mais rentável comércio do final da nos primórdios do século XVI, inscreveu-se na Idade Média. E a intensa disputa que se travava pela mica geral dos descobrimentos, da ocupação e da mercantilização das especiarias do Oriente restringiu exploração das terras americanas: o desenvolvimento essa atividade ao domínio dos centros italianos, prin- mercantil europeu, iniciado no século XI. cipalmente Gênova e Veneza. O comércio europeu debatia-se nos quadros de uma mercantilização restringida pela própria estru- A dinâmica dos descobrimentos tura feudal. Era tarefa urgente a conquista de apoios externos, de abertura de novas rotas para a obtenção O revivescimento comercial, na Baixa Idade de especiarias, de aumento do fluxo monetário, de Média, não fora linear e ininterrupto. O comércio ampliação da oferta de produtos e de alargamento dos irrompera das contradições do feudalismo e concor- mercados consumidores. rera ou para a aceleração da ruptura dos laços servis A retomada do ritmo de expansão comercial exi-12 Vera Lúcia Amaral Ferlini A civilização do açúcar 13 gia, assim, profundas mudanças econômicas, políti- tenção de Balança Comercial favorável; das práticas cas e sociais. A empresa de expansão marítimo-co- monopolistas, que reservavam aos comerciantes na- mercial requeria vultosos investimentos, de que as cionais os setores mais lucrativos das atividades mer- embrionárias organizações mercantis de então não cantis (protecionismo); e da conquista de colônias. podiam dispor. O conjunto dessas práticas constituiu o mercanti- Os problemas internos do feudalismo que gera- lismo, propulsor da ascensão burguesa, elemento de ram, no final da Idade Média, o avanço do comércio unificação e poder do Estado. e da burguesia, haviam também levado ao processo A plena realização do mercantilismo estava no de centralização política e à formação de Monar- estabelecimento de colônias ultramarinas que ofere- quias Nacionais. O Estado Nacional Absolutista, que cessem, a baixíssimos custos, produtos altamente marcaria a Idade Moderna, estruturava-se. rentáveis no comércio europeu, propiciando balança A centralização monárquica permitia o carrea- comercial favorável ao estado metropolitano. As co- mento de amplos recursos financeiros, através da lônias deveriam ser, ainda, mercados potenciais para criação de organismos fiscais. Por outro lado, o Es- a absorção dos excedentes da produção européia e tado Nacional tinha, na conquista de novos territó- subordinarem-se ao rigoroso esquema de monopólio, rios e na aceleração do comércio, elementos de forta- ao exclusivo colonial. lecimento de seu poder. O processo de expansão européia da Mo- Na fase de transição entre o feudalismo e o capi- derna, que teve em Portugal seu precursor, orientou- talismo, o Estado Nacional Absolutista impôs-se, su- se, primeiramente, para o estabelecimento de entre- bordinando tudo e todos ao rei e orientando o comér- postos privilegiados do comércio de certos cio no sentido do progresso da burguesia. As medi- como as especiarias do Oriente. Era o regime de fei- das oriundas desse poder centralizado atuaram eli- torias. minando pontos de entraves ao desenvolvimento da economia de mercado. Aboliram-se aduanas inter- nas. Estabeleceram-se tarifas protecionistas. Promo- Um problema para Portugal: veu-se a conquista de territórios ultramarinos. Den- ocupar o Brasil tro dessa perspectiva, a política econômica dos Esta- dos Modernos orientou-se para a criação de estímu- O descobrimento do Brasil em 1500 de início los ao desenvolvimento mercantil, através da busca não representou, para Portugal, mudança em sua de metais amoedáveis (metalismo); do incentivo à política de implantação de feitorias comerciais no exportação e da restrição às importações, para a ob- Oriente. A nova marcava o domínio português14 Vera Lúcia Amaral Ferlini A civilização do açúcar 15 na América, era rica em pau-brasil (cuja exploração dade o problema da ocupação de seus territórios El-Rei preferiu arrendar), mas não dispunha, à pri- americanos. Os metais preciosos, em abundância, meira vista, de metais preciosos. Nada estimulava, praticamente autofinanciaram a colonização. ainda, a efetiva ocupação da Terra de Santa Cruz. A ocupação da América Portuguesa, entretanto, Durante os primeiros trinta anos após a chegada deveria ser feita com recursos externos, mas sem pre- de Cabral, os vastos territórios americanos que ca- judicar o Império Colonial das Indias, que começava biam à Coroa Portuguesa foram relegados a segundo a vacilar. Os gastos com a manutenção das posses- plano. Portugal dedicava-se a conquistar e explorar o sões orientais cedo se mostraram tão grandes, que Oriente. Dominava a euforia pelas possessões das pouco sobrava do lucro do comércio das especiarias. Indias. Realmente, a prosperidade das feitorias do Oriente Se o Brasil, entretanto, não interessava a Portu- era tão ilusória, que os cronistas da época a ela se gal, outras nações européias procuravam firmar do- referiam como o "fumo das Indias", fumaça de ri- mínio em nosso território. Franceses, principalmen- queza rapidamente dissipada. te, eram assíduos do litoral brasi- Era preciso explorar novas fontes de riqueza e, leiro, onde desenvolviam intenso escambo. Travavam ao mesmo tempo, manter as terras da América. Mas amizade com os índios, aos quais ofereciam bugi- onde os recursos? Como mobilizar o interesse da gangas (espelhos, colares, machados, facas, por burguesia portuguesa, motivando-a a investir na Co- exemplo), em troca de pau-brasil. lônia e prover sua defesa? A ocupação da América assumia, gradativa- mente, outras dimensões. A Espanha descobrira, em seus territórios, prata em abundância. A perspectiva O açúcar como solução dos metais preciosos aguçava a cobiça européia. As nações marginalizadas pelo Tratado de Tordesilhas Coube a Portugal encontrar outra fórmula para consideravam que os portugueses teriam direito às a ocupação econômica de suas colônias americanas terras americanas apenas se ocupassem efetiva- que não fosse a simples extração de recursos natu- mente o território. Manter o domínio sobre o Brasil rais. Fazia-se imperiosa a organização de exploração tornou-se, então, preocupação política para Portu- agrícola rentável que, ao mesmo tempo, interessasse gal, pressionado pela disputa, que se acelerava, pela os investidores metropolitanos e propiciasse recursos posse de colônias na América. Era uma empreitada para a manutenção e defesa destes domínios. A dis- difícil e, economicamente, pouco atrativa. tância entre o Brasil e Portugal só tornava viável a Os espanhóis haviam solucionado com facili- produção de mercadorias que, gozando de altos pre-16 Vera Lúcia Amaral Ferlini A civilização do açúcar 17 no mercado europeu, pudessem arcar com os ção portuguesa passou a ser comercializada por fla- custos do frete marítimo. A Coroa Portuguesa pos- mengos. No final do século, Flandres distribuía cerca suía um trunfo: dominava desde o século XV a pro- de 1/3 da produção da Ilha da Madeira. Os novos dução do açúcar, com suas plantações nas Ilhas do contatos comerciais alargaram o mercado do açúcar, Atlântico. estimulando a alta de preços, no século XVI. açúcar, praticamente uma especiaria, alcan- A lavoura canavieira, como opção para a ocu- çava então altos preços e dispunha de mercado em pação do Brasil, inaugurava nova forma de coloni- expansão. De produto medicinal na Idade Média, o zação. A ocupação dos territórios conquistados limi- açúcar passava lentamente a gênero de primeira ne- tara-se, até então, à comercialização de produtos cessidade. Durante largo período a fora encontrados nas terras descobertas. Portugal trans- abastecida pela produção das plantações do Mediter- formava a empresa colonial em sistema produtivo, râneo. Essa cerca de 700 d.C., onde técnicas e recursos metropolitanos criavam quando os árabes introduziram o plantio de cana na fluxo constante de produtos destinados ao comércio e na Espanha produção açucareira europeu. florescera, até sucumbir durante o século em A escolha do açúcar era amplamente justificável virtude da competição das novas plantações ameri- no momento em que se buscava a solução para a efe- canas. tiva ocupação do Brasil. Portugal já possuía expe- infante D. Henrique importou da Sicília as riência em sua produção; dispunha de contatos co- primeiras mudas de cana, mandando-as plantar na merciais que permitiam a colocação do produto no Ilha da Madeira. Dali, rapidamente, a cultura di- mercado europeu; seu relacionamento com o mundo fundiu-se para os arquipélagos de Açores, Cabo financeiro de então, principalmente com banqueiros Verde e São Tomé. genoveses e flamengos, abria-lhe linhas de crédito açúcar das ilhas do Atlântico inicialmente foi para os investimentos básicos; o Brasil possuía terras distribuído por genoveses e venezianos. Mas a possi- em abundância e o açúcar poderia, aqui, ser produ- bilidade de absorção do produto através desses ca- zido em larga escala. nais comerciais não crescia na medida exigida pelo A existência dessa ampla oferta de terra, porém, aumento da produção. A baixa de preços, ocorrida poderia ser um estímulo à fixação de pequenos pro- no último quartel do século XV, indicava claramente dutores e à agricultura de subsistência. Ora, era que a oferta portuguesa do produto, esbarrava na intenção da Coroa Portuguesa incentivar a produção inelasticidade do mercado italiano. especializada para o mercado europeu e não o esta- Por volta de 1472, parte considerável da produ- belecimento de população. Não se tratava simples-18 Vera Lúcia Amaral Ferlini A civilização do açúcar 19 mente de ocupar terras, mas de explorá-las da ma- cias de produção em larga escala para um mercado neira mais rentável possível. Era preciso, pois, res- europeu ávido por açúcar e, de outro, atava a Colônia tringir o acesso à terra, impedindo o estabelecimento às linhas de comércio metropolitano. Concentrando da pequena produção diversificada, que fugia ao sen- seus esforços na produção açucareira, a Colônia em tido da colonização mercantilista. tudo dependia do abastecimento metropolitano, A produção em grande escala e a especialização constituindo-se em mercado consumidor de produtos foram decorrências do sentido dado à colonização em europeus. áreas tropicais. A ocupação do Brasil, dentro do sistema legal para a ocupação das terras foi quadro de determinações da Moderna, deve- formulado no Regimento de Tomé de Souza, go- ria orientar-se para a produção do açúcar, gênero de vernador-geral do Brasil, em 1548. Determinava que grande valor comercial e cujo consumo, na Europa, fossem concedidas terras às pessoas que pedissem, crescia. Portugal, de sua parte, desde o século XV devendo ser cultivadas em três anos para que se estava articulado ao mercado de distribuição do pro- efetivasse a plena apropriação. A concessão far-se-ia duto dominado pelos comerciantes flamengos. A for- levando em conta a capacidade de o requerente de- mação de grandes unidades produtivas, dotadas de dicar-se ao plantio de cana ou ao estabelecimento de larga extensão de terras, bem como a monocultura, engenhos. atenderam a uma política de economia de recursos e de maximização de lucros. Nos trópicos, as atividades de desmatamento e Escravos para o açúcar de instalação da produção eram bastante onerosas e não permitiam a multiplicação das unidades de pro- Escolhida a produção - o açúcar - fixavam-se cessamento, girando as lavouras em torno de um en- as condições para a apropriação das terras: a posse genho, responsável pela elaboração final do produto. de "cabedais", isto é, de recursos para o erguimento A grande extensão de terras doadas para o plantio de de engenhos, para o trato das lavouras e, principal- cana garantia ao engenho a possibilidade de aumen- mente, para a obtenção de mão-de-obra. E mão-de- tar sua produção e de auferir maiores lucros. lati- obra, na lavoura do açúcar, significou, desde o iní- fúndio permitia a substituição constante das terras cio, trabalho escravo. A exploração do indígena, ten- utilizadas por outras ainda virgens, dispensando in- tada nos primeiros tempos, foi desestimulada e prati- vestimentos em práticas de fertilização ou em me- camente abandonada. Alegava-se ser o silvícola re- lhorias técnicas. belde, e seu trabalho, pouco eficiente. Na verdade, o A monocultura, de um lado, atendia às exigên- índio não era mais rebelde ou indolente do que qual-20 Vera Lúcia Amaral Ferlini A civilização do açúcar 21 quer outro ser humano submetido à escravidão. Pois riência não tivera continuidade. A instituição da la- não é a natureza do escravo que explica o pouco ren- voura canavieira no Brasil pelos portugueses, porém, dimento do trabalho ou a rebeldia. A escravidão, em marcou-se justamente pelo caráter sistemático e pla- si, implica em produtividade reduzida e insubordi- nejado. Se a responsabilidade e o ônus do empreendi- nação. mento foram delegados a particulares, coube à Coroa Os colonos portugueses, insatisfeitos, clamaram Portuguesa organizar a ocupação agrícola da Colô- por negros africanos como solução para o provimento nia, enquadrando-a rigidamente de acordo com os de mão-de-obra. Alegavam serem os negros mais interesses mercantilistas. aptos ao trabalho agrícola e mais submissos. Esses A primeira notícia que se tem da intenção de mitos, porém, a história desmente. Os negros fugi- Portugal implantar no Brasil a produção açucareira ram onde e quando puderam: os quilombos foram está num alvará datado de 1516. Nele, D. Manuel uma constante enquanto perdurou o escravismo. A ordenava que fossem dados machados, enxadas e subordinação do escravo negro era obtida apenas mais ferramentas às pessoas que fossem povoar o pela coação, pela manutenção de rigoroso e violento Brasil e que se procurasse um homem prático e capaz esquema de punições e castigos físicos. de ali dar princípio a um engenho de açúcar e a ele se Por que então, a escolha da escravidão negra? entregasse tudo que fosse necessário a tal fim. Em primeiro lugar, o tráfico negreiro era fonte de vul- tosos lucros para Portugal. A compra de escravos, Se a intenção foi precoce, sua realização tarda- por sua vez, representava o adiantamento à Metró- ria um pouco. A iniciativa para a construção do pri- pole, de parte considerável da renda a ser gerada na meiro engenho caberia a Martim Afonso de Souza, Colônia, e que em outras condições (por exemplo, em 1532. A mobilização dos recursos para a empresa trabalho livre) ficaria retida na Colônia. Finalmente, levara à constituição de uma sociedade mercantil, da o alto custo dos negros dificultava a aquisição de qual faziam parte, além do próprio Martim Afonso, escravaria suficiente para o trato do açúcar, restrin- seu irmão Pero Lopes de Souza, Francisco Lobo, Vi- cente Gonçalves e o flamengo Johann Van Hielst, gindo a obtenção de lotes de a poucos indi- víduos. conhecido como João Vaniste. Este, em Lisboa, de- sempenhava as funções de representante comercial dos Schetz, armadores, banqueiros e comerciantes As primeiras tentativas estabelecidos em Bruxelas e e que tinham grandes interesses em Portugal. A produção açucareira na América já havia sido engenho, estabelecido na capitania de São tentada anteriormente pelos mas a expe- Vicente, e do qual ainda hoje existem ruínas, teve22 Vera Lúcia Amaral Ferlini A civilização do açúcar 23 várias denominações: do Governador, do Trato, dos Armadores e, finalmente, São Jorge dos Erasmos. Engenhos de açúcar no Brasil É que os negócios do açúcar não estimularam o inte- resse dos sócios portugueses. Martim Afonso foi para as Indias e, como os outros não estavam dispostos a Oceano Atlântico liberar mais recursos para o funcionamento da em- presa, van Hielst introduziu a capacidade e o capital mercantil dos Schetz, que em 1550 adquiriram as partes dos portugueses. Algum tempo depois, o pró- Natal prio van Hielst venderia sua participação aos filhos Paraíba de Erasmo Schetz. Olinda Essa primeira iniciativa, na capitania de São Recife Porto Calvo Vicente, teria seguidores e até o final do século XVI Penedo havia mais de uma dúzia de estabelecimentos produ- tores de açúcar na Baixada Santista, o que dava certa Cachoeira prosperidade à região, que no Natal de 1591 foi ata- de Salvador cada pelo corsário inglês Cavendish. Mais ou menos Ellhéus nessa época, os Schetz quiseram vender o engenho por 12 ou 14 mil ducados, mas não conseguiram compradores. Em janeiro de 1615, quando o almi- rante holandês Joris van Spilberg atacou o litoral paulista, o engenho foi ocupado, saqueado e incen- Vitória: diado e seus proprietários terminaram por aban- Campos de Goitacazes doná-lo. Rio de Janeiro Santos São Vicente açúcar domina a Colônia centro da produção açucareira não ficaria no Áreas de cultivo Sul. Seria o Nordeste, com seu solo de aluvião fértil, o massapé que desenvolveria a lavoura de cana e o24 Vera Lúcia Amaral Ferlini A civilização do açúcar 25 fabrico do açúcar, transformando a Colônia em ele- dela desenvolveram-se outras atividades, fornecendo mento fundamental do Império Português. os produtos de subsistência, provendo o comércio Não apenas favorecia o plantio da cana e local e o escambo de escravos. os negócios do açúcar no Nordeste. Servida por vasta A produção, no Nordeste, estava ordenada pela rede hidrográfica litorânea, com clima quente e úmi- possibilidade de exportação. Em primeiro lugar, é do, as comunicações com a Metrópole eram facili- claro, figurava o açúcar. O tabaco, essencial para o tadas pela menor distância em relação à Europa e tráfico negreiro, foi cultivado desde o final do século pelo regime favorável de ventos, fundamental à nave- XVI. A área central do cultivo, na Bahia, era a de gação. Cachoeira, no e mais ao norte, Monte- Os primeiros engenhos de Pernambuco come- gordo, Torre, Rio Real e São Cristóvão de Sergipe çaram a funcionar a partir de 1535, com Duarte Coe- del-Rei. Cerca de 90% da produção provinha dessas lho. Em 1550, já eram 4 os estabelecimentos, 30 em regiões. 1570 e 140 na época da conquista holandesa. A pro- Como o açúcar, o tabaco era uma agricultura dução canavieira avançava para a Paraíba e para o baseada no trabalho escravo e consolidada em lati- Rio Grande do Norte, que em meados do século fúndios. Dentro da hierarquia social, porém, o plan- XVII possuíam cerca de 22 engenhos. tador de tabaco não dispunha de prestígio e poder, No século XVI, a produção também prosperava como os senhores de engenho. na Bahia. que em 1570 contava com 18 A pecuária foi outra importante atividade ligada engenhos, em 1584 já atingia 40 unidades de pro- ao mundo açucareiro. O gado bovino era indispensá- dução. vel ao trato das lavouras e dos engenhos, principal- Ao final do primeiro século de colonização, o mente para o transporte de cana e de lenha. A cria- Brasil produzia, anualmente, 350 mil arrobas de ção de gado fornecia, além do transporte, força açúcar. A produção brasileira conheceria anos de motriz para as moendas mais simples e alimento glória até 1650, quando começaria a manifestar-se para a população. a concorrência das Antilhas e da América Central. Introduzido no século XVI, o gado bovino foi criado, inicialmente, no litoral. Mas a expansão dos canaviais afastou a pecuária das regiões litorâneas, Em torno do açúcar empurrando o gado para o interior e iniciando a ocupação do sertão. A razão de ser da Colônia, nos dois primeiros A partir da criação de gado, organizou-se uma séculos, era a exportação do açúcar, mas em torno forma diferente de povoamento e de sociedade, sem26 Vera Lúcia Amaral Ferlini A civilização do açúcar 27 escravos, de costumes rudes e simples. ceria, como o vaqueiro, ou assalariados, os "fábri- As áreas canavieiras da Bahia e de Pernam- cas". buco foram os focos de irradiação da pecuária. Na Os vaqueiros trabalhavam em parceria com o Bahia, à época de Tomé de Souza, Garcia proprietário do rebanho, ganhando uma cria de cada estabelecera as primeiras fazendas de gado, que ja no quatro. De cinco em cinco anos, dava-se o acerto de século XVII atingiam a região do Rio São Francisco, contas, podendo então o vaqueiro formar um pe- caracteristicamente denominado "rio dos currais". queno rebanho. Os "fábricas" eram assalariados, A partir daí, a criação de gado estendia-se em pagos em dinheiro ou crédito, e não dispunham de duas direções: para o sul, acompanhando o curso do condições para se tornar criadores. rio e atingindo a região de Minas; e para o norte, A ocupação do sertão hostil gerou um tipo pe- alcançando os chapadões do Piauí, onde, às margens culiar de cultura, comumente chamada "civilização do Parnaíba, multiplicaram-se as fazendas de gado. do couro": alimentação frugal, baseada na carne Graças à pecuária, o Piauí apresenta, hoje, uma seca na farinha de mandioca; rude, utilizando o configuração peculiar. Foi o único estado nordestino couro como matéria-prima para todos os artefatos. colonizado a partir do interior, e a expansão da pe- A produção de alimentos para a subsistência cuária, desde São Francisco, deu-lhe a forma de dependia de lavradores de roça, que plantavam para um bolsão, largo no interior, estreitando-se à medida seu consumo e abasteciam os mercados locais com os que se aproxima do litoral. excedentes. A cana, porém, ocupava as melhores Ao lado de uma sociedade feita de açúcar e es- terras e atraía a todos e a Colônia sofria freqüente- cravos, desenvolveu-se, no sertão, uma "civilização mente a falta de alimentos e os preços altos. do couro", feita de gado e homens livres, em con- Para o provisionamento dos escravos era essen- fronto com a natureza, tocando seu gado através de cial a mandioca. De acordo com a legislação, os pastagens naturais. A atividade criatória era simples plantadores de cana deveriam reservar terras e tempo e não exigia grandes contingentes humanos. Pouco para que os próprios escravos plantassem mandioca. mais de doze homens, geralmente mestiços, cuida- Todavia, nem sempre isso acontecia e a demanda de vam do gado: um vaqueiro e seus auxiliares (os "fá- mandioca para os escravos diminuía a quantidade bricas"). regime de liberdade, típico dessa ativi- desse alimento para a população urbana. dade, extensiva, que ocupava largos espaços, não se No Nordeste, a formação de vilas e cidades, a harmonizava com a escravidão (embora, raramente, defesa do território, a repartição de terras, o trato os escravos tenham sido utilizados). Assim, predo- com os indígenas, as relações entre as várias catego- minaram os trabalhadores livres, em regime de par- rias sociais, enfim, todas as instâncias da vida colo-28 Vera Lúcia Amaral Ferlini nial delinearam-se, desde o século XVI, a partir do complexo produtor do açúcar. Durante os dois pri- meiros séculos da colonização, aí se plantou cana e enraizou-se a dominação portuguesa. As moendas esmagaram a cana, retiraram-lhe o sumo e transfor- maram-no em doce açúcar. Mas o engenho repre- sentou também o esmagamento, o total aproveita- mento da força de trabalho do negro escravo, traba- lho convertido em capital originário, alavanca do moderno capitalismo. A DO AÇÚCAR "É reparo singular dos que contemplaram as cousas natu- rais ver que as que são de maior proveito ao gênero humano não se reduzem à sua perfeição, sem passarem primeiro por notáveis apertos." Antonil A partir dos engenhos, nos dois primeiros sécu- los de nossa história, o vasto complexo sócio-econô- mico colonial movimentou-se. As praças escravistas da África adquiriram vitalidade, os centros mercan- tis europeus viram crescer seus negócios, recebendo açúcar, vendendo manufaturas. E, mesmo no Brasil, Moendas de Rolos: Até o início do século XVII, o engenho em que pese a força da política monopolística de de "eixo" horizontais era o tipo predominante na produ- Portugal, produções e atividades subsidiárias foram ção açucareira do Nordeste. Além de os rolos serem de impulsionadas. Tabaco, pecuária, lavoura de subsis- madeira, não permitia a alimentação pelos dois lados, tência, olarias produtoras de telhas, tijolos e formas, o que implicava a movimentação do operador para repas- sar o bagaço e assim obter mais caldo. (Fonte: Hamilton o abastecimento de lenha para as fornalhas e de Fernandes) madeira para as construções interligavam-se no pro-30 Vera Lúcia Amaral Ferlini A civilização do açúcar 31 cesso produtivo em que o centro e unidade era o mulava as funções de fortaleza, hospedaria e escri- engenho. tório. Quer fosse térrea ou assobradada, seu estilo era imponente. A senzala, construção vital desse conjunto, abri- coração da produção colonial gava, amontoados e em péssimas condições de salu- bridade e higiene, dezenas de escravos, em suas pou- A denominação engenho, de início restrita às cas horas de repouso. instalações onde se dava a manipulação da cana, es- A capela era elemento indispensável nesse mun- tendeu-se, com o passar do tempo, a toda proprie- do de senhores e escravos. Parte integrante da casa- dade açucareira, com suas terras e lavouras. Em si, grande ou edificação separada atraía, em dias san- constituía um conjunto de edificações, em geral in- tos e domingos, os moradores da vizinhança. terligadas, formando um impressionante conjunto Esse verdadeiro coração da produção colonial arquitetônico. De acordo com Vanderley Pinho, os- centralizava a exploração açucareira, articulada em principais edifícios do engenho eram: "uma grande três setores conjugados: a produção de cana, o fa- casa de paredes de alvenaria, assentada a cobertura brico do açúcar e sua exportação. de telhas sobre 22 pilares dobrados, com varanda em roda, a cobrir picadeiros de pedra e cal, ou seja, os depósitos das canas que os carros vêm trazendo para a moagem, de onde são retiradas para ser lançadas à Lavradores de cana moenda. Desdobra-se a construção em casas de cal- deiras, com suas fornalhas; casa de purgar, onde se O setor produtor de matéria-prima, os cana- nas formas; caixaria onde se pesa e viais, podia ser constituído por terras do engenho ou se encaixa o açúcar, com quatro balcões ou grandes de terceiros. As terras do engenho, por sua vez, eram tabuleiros que sobre rodas e trilhos, saem com o açú- cultivadas às expensas de seus proprietários ou arren- car ao sol para secar; o sobradinho ou palanque, de dadas a lavradores, dotados de recursos para organi- onde o mestre de açúcar assiste e superintende o zarem o plantio. Tanto no caso de terras arrendadas, cozinhamento, (...) e o senhor, às vezes, com a famí- como na relação com os lavradores proprietários, po- lia, vem gozar do espetáculo de sua fábrica a laborar; deria ocorrer a vinculação da produção à moagem, o curral (...) os cais de pedra e cal em toda a extensão em um engenho, o que constituía "cana-obrigada". de uma das varandas." Os arrendatários pagavam, ainda, uma porcentagem A casa-grande, residência do proprietário, acu- da parte que lhes cabia, após a moagem, pelo arren-32 Vera Lúcia Amaral Ferlini A civilização do açúcar 33 damento: era o "terço", caso se tratasse de terra Senhores de fazenda, sua importância econômica ti- fértil ou próxima ao engenho, ou o "quarto", quando nha por base o trabalho A empresa da la- tais condições não ocorriam. voura exigia recursos extensos. O lavrador que plan- A contribuição dos lavradores de cana variou tasse quarenta tarefas de cana (uma tarefa corres- durante o período colonial. Até 1650, sua participa- pondia à quantidade moída por um engenho-er 24 ção foi fundamental para a produção, e os engenhos horas, cerca de 40 carros de cana, ou uma área cul- do Nordeste moíam quase que exclusivamente cana tivada de 30 braças em quadro, o que corresponde a de terceiros. cerca de 4356 deveria dispor de mais ou menos A necessidade de fornecimento de cana por 20 escravos, aparelhados de enxadas, machados e parte dos lavradores esteve ligada à escassez de re- foices, e de 4 a 8 carros de boi, com 12 a 14 animais. cursos para o investimento, nas épocas de maior No caso de lavradores proprietários, colocava-se ain- lucratividade do açúcar. Fernão Cardim, no século da o problema da terra, obtida por doação ou compra. XVI, notava que havia engenhos carentes de cana Embora a Colônia dispusesse de muita terra, já no para atingir sua total capacidade de moagem. Houve, início do século XVII, as áreas férteis do litoral nor- portanto, íntima relação entre a existência dos lavra- destino haviam sido doadas e o acesso à produção de dores de cana e a necessidade de máxima produti- cana só era possível por compra ou por arrenda- vidade dos engenhos em períodos de expansão. Já no mento. A documentação colonial é rica em escrituras início da colonização, o Regimento de Tomé de Souza que intenso movimento de mercantilização impunha aos senhores de engenho a obrigação de das férteis terras do e de Pernambuco, moerem as canas de lavradores, bem como estipulava oferecendo interessante quadro das variações de a doação de terras em sesmarias para aqueles que preço, de acordo com a conjuntura, o tipo de terra, quisessem se dedicar à lavoura de cana, com a obri- distância de engenhos e de rios, condições de cana- gação de moagem em determinado engenho. livre ou cana-obrigada. No Nordeste, com o decréscimo da produção, A existência dos lavradores de cana constituiu a partir da segunda metade do século XVII, a parti- particularidade da produção brasileira. Nas colônias cipação dos lavradores de cana declinou. A queda do inglesas e francesas e nos engenhos de Morellos, no preço do açúcar, a retração das exportações e o au- México, processava-se exclusivamente cana dos pro- mento do preço dos escravos reduziam a margem de prietários. Os cultivadores autônomos, que já ha- lucro dentro da qual eram possíveis as relações con- viam sido importantes na produção da Madeira, e tratuais entre senhores de engenho e lavradores. cuja persistência na economia açucareira é fato ex- Os lavradores de cana não eram camponeses. cepcional no conjunto da produção americana, con-34 Vera Lúcia Amaral Ferlini A civilização do açúcar 35 tribuíram, sem dúvida, para tornar mais complexas datas de moagem nos engenhos, pois a cana, depois as relações sociais na Colônia. de cortada, deve ser processada em 24 horas, caso contrário seu teor de sacarose fica diminuído. A cultura era feita nos mesmos terrenos durante O trato dos canaviais muitos anos. Antonil falava em permanência das la- vouras nos mesmos terrenos durante seis ou sete O plantio da cana, no Brasil, começava na época anos, mas são frequentes as alusões de outros cronis- das primeiras chuvas, no final de fevereiro, esten- tas a plantações de cinqüenta ou sessenta anos. dendo-se até maio. Nas regiões mais úmidas, plan- Das lavouras para o engenho, seguia a cana em tava-se cana também nos meses de julho, agosto e barcos ou carros de bois. uso de barcos era mais setembro. Os melhores terrenos para o plantio eram vantajoso para os plantadores, e as terras próximas a os altos, pois nas várzeas a concentração de umidade rios, que permitiam o transporte fluvial para os en- estimulava o crescimento de capim, exigindo contí- genhos, mais valorizadas. A vizinhança dos rios era nuas operações de limpeza. As ervas daninhas eram elemento fundamental para a agroindústria do açú- o grande inimigo do canavial, e no inverno, princi- car. Além de meio de transporte, os rios forneciam palmente, a limpeza deveria ser cuidadosa. força motriz para os engenhos de grande porte, os O preparo do solo limitava-se à prática indígena engenhos chamados da queimada e da coivara, ou seja, após a derrubada ateava-se fogo à vegetação verde ou seca. Depois juntavam-se os restos da ramagem, lançando-lhes As moendas novamente fogo. O arado não era utilizado e revol- vimento da terra resumia-se no emprego, pelos es- A Carta Regimento de Tomé de Souza insistia cravos, da enxada. na cessão de sesmarias em regiões próximas a rios, A cana tipo "crioula", originária: da India e como incentivo para o erguimento de engenhos introduzida na durante a Idade Média, foi o d'água. A denominação "engenhos reais" não se de- único tipo cultivado no Brasil, até o início do século via a serem propriedade da Coroa, mas por serem os XIX. Era uma planta fina, de gomos relativamente "reis" dos engenhos, produzindo mais. comparada a outros tipos, de produtividade Os engenhos d'água conviveram, em todo o pe- pequena. ríodo colonial, com outros tipos de aparelhagens, Cerca de 12 a 18 meses depois, iniciava-se a como os engenhos movidos a bois, bestas ou cavalos e colheita. Esta era programada de acordo com as mesmo, em alguns casos, a tração humana. No sé-36 Vera Lúcia Amaral Ferlini A civilização do açúcar 37 culo XVI, Fernão Cardim assinalava que "outros não tos", como também foi chamado o novo sistema, são de águas, mas moem com bois e são chamados permaneceram variadas formas, utilizando diferen- trapiches". Para essas moendas eram conhecidas, tes fontes motrizes. também, outras denominações: molinetes ou alman- A moenda de entrosas ou de palitos oferecia jaras. No início do século XIX, Vilhena chamou-os muitas vantagens. Possuía três cilindros revestidos de de engenhos menos compostos. metal, cuja rotação permitia a alimentação por dois Além das diferenças quanto ao uso de força lados, reduzindo o número de trabalhadores e agili- motriz, os engenhos apresentaram formas diversas zando a produção. de moagem. Até o século XVII, tipo dominante foi A água necessária para a movimentação da roda o engenho constituído por dois tambores horizontais, era provida pelo escoamento da levada, espécie de construídos em madeira. Esse tipo apresentava in- tanque ou açude, com barragem de pedras e tijolos. convenientes: a madeira não resistia ao desgaste e a O nome remonta ao medievo português e liga-se ao um único sentido não permitia a alimen- fato de que a água represada era conduzida (levada) tação pelos dois lados. O trabalhador deveria retirar para girar a roda. Mourões de o bagaço de um lado e deslocar-se para repassá-lo, a calha que conduzia a água à roda. pois a máquina tinha um lado de entrada e outro de A construção das rodas e sua manutenção exi- saída. Esses procedimentos o ritmo de giam mão-de-obra especializada. Seu material básico produção e exigiam número maior de trabalhadores era a madeira. Os reparos eram constantes, e a cada no trato da moenda. três anos, todo o equipamento era trocado. Um dos maiores acontecimentos na melhoria da Para o manejo de um engenho era fundamental técnica de ocorreu por volta de a lenha, combustível que alimentava as fornalhas, à 1610. Frei Vicente do Salvador descrevia o uso de razão de um carro de boi por hora, no período da diferentes tipos de aparelhos para a moagem de cana safra. Por isso, foram justamente chamadas por An- (pilões, mós, eixos) mas chamava a atenção para tonil de "bocas verdadeiramente tragadoras de ma- o uso do engenho de "entrosas", introduzido por tos, cárceres de fogo e fumo perpétuo e viva imagem um clérigo de origem espanhola, vindo do Peru ao de vulcões, vesúvios, etnas". O litoral nordestino, pri- tempo do governo de D. Diogo de Menezes (1602- mitivamente recoberto de matas, foi devastado. Em 1613). O autor anônimo de Diálogo das Grandezas 1660 os Oficiais da Câmara da Bahia enviavam ao do Brasil estimava que rapidamente o uso do novo Rei uma representação "sobre o prejuízo que se se- sistema se difundiria, desaparecendo os outros tipos guia em se fabricarem muitos engenhos de açúcar de aparelhos. Todavia, ao lado do engenho de "pali- juntos uns dos outros pela terra a dentro, sem terem38 A civilização do açúcar A civilização do açúcar 39 lenhas bastante para seu gasto". A escassez de lenha obrigou, com o tempo, à construção de engenhos mais afastados do litoral. Por outro lado, no Brasil resultaram improfícuas as tentativas de utilização do bagaço de cana como combustível, ao contrário das Antilhas, onde o processo era adotado. A necessi- dade de maior evaporação no cozimento do caldo, no Brasil, devia-se à qualidade de nossa cana, mais aguada que o tipo da cana antilhana, mais açuca- rada. bagaço não aproveitado encarecia a produ- ção, pois eram necessários quatro ou seis escravos para diariamente lançá-lo ao campo, onde, no final da safra, era queimado. Depois da introdução dos palitos ou moendas verticais, o processo de transformação da cana-de- açúcar não sofreu substanciais diferenciações, até o advento da máquina a vapor, no século XIX. fabrico do açúcar A moagem de cana iniciava-se, em geral, no mês de agosto, prolongando-se até abril ou início de maio. O corte-e o envio de cana ao engenho eram progra- mados pelo senhor e comunicados aos lavradores pelo feitor-mor. No século XVII, um engenho de grande porte, como o de Sergipe do Conde, do moía cerca de 203 tarefas, significando 203 dias líquidos de trabalho. Para manter tal ritmo de produção, o40 Vera Lúcia Amaral Ferlini A civilização do açúcar 41 setor de moagem e de cozimento trabalhava diutur- tural da aguardente. Em seguida, processava-se o namente, revezando-se duas turmas de trabalhado- branqueamento, com adição de barro e água, du- res. Já os setores de purga, secagem e encaixota- rante mais ou menos quarenta dias. mento trabalhavam apenas um período. A secagem era o passo seguinte. Em dias quen- O ritmo de trabalho, no engenho, era intenso. tes e secos, colocavam-se as formas ao sol, em mesas Mas em dez meses de atividades, o total de 203 dias recobertas de couro. Desenformado o açúcar, sepa- líquidos de moagem demonstra, também, que as rava-se, com faca fina, a parte branca da "masca- paralisações eram freqüentes. Quebra de aparelhos vada" (assim chamada a parte escura, "masca- (roda, moenda, calha da levada), falta de lenha, rada"). Do processo de transformação resultavam domingos e dias santos eram os principais motivos da diferentes tipos de açúcar, a que correspondiam pre- suspensão dos trabalhos do açúcar. diversos. Os açúcares resultantes da primeira Chegando à casa da moenda, trazida do porto cocção, e que alcançavam os melhores preços, eram pelos carros de bois, as canas eram limpadas e prepa- denominados "macho", subdivididos em branco radas. Iniciava-se então o processo de moagem. Os fino, branco redondo, branco baixo e mascavado, de roletes eram introduzidos entre dois tambores e, ao acordo com a posição na forma e o grau de bran- sair do lado oposto, repassados, completando-se a queamento adquirido. Os meles que escorriam du- extração do caldo. Mesmo assim o aproveitamento rante o primeiro processo de purga eram recolhidos e da cana era reduzido, em torno de 56% do caldo era reprocessados, dando os açúcares "batidos" ou "re- realmente extraído. sumo obtido ia para um reser- tames", de cotação inferior. melaço escorrido da vatório, o parol, sendo depois conduzido, por gravi- forma constituía, também, a matéria-prima para o dade ou guindagem, à casa das fornalhas, onde se fabrico de aguardente, de amplo_consumo na Colô- processava o cozimento. nia e de alto valor para o escambo de negros na Cozido e clarificado em enormes recipientes de África. cobre (tachos, paróis e caldeiras), o caldo, livre de Separado de acordo com a qualidade, ia o açú- impurezas, transformava-se em melaço e era colo- car para o balcão de peso. A unidade utilizada era a cado, em graus de cozimento diferentes, nas formas. arroba, subdividida em 32 libras. Cuidadosamente, Estas, vasos de barro queimado em forma de sinos, com o auxílio de uma pequena pá, o açúcar era pe- comportavam cerca de 32 litros. sado, sendo registradas as partes que cabiam ao Conduzidas para a casa de purgar, as formas senhor de engenho, ao lavrador e ao dízimo. Seguia- eram assentadas em mesas com cavidades para en- se o encaixotamento. As caixas eram de madeira bem caixe, onde se esperava a "purga" drenagem na- seca e bem aparelhada, calafetadas com barro e for-42 Vera Lúcia Amaral Ferlini A civilização do açúcar 43 radas com folhas de bananeira. Comportavam entre 20 e 35 arrobas, ou seja, de 300 a 525 quilos. Mar- diâmetro 40 cm cadas com ferro ou tinta, identificando tipo, peso, proprietário e mercador, seguiam para o trapiche, em barcos. envio para o Reino podia ser feito dire- tamente pelo produtor ou por um mercador. O engenho era, pois, uma complexa combina- ção de terra, técnica, trabalho compulsório, empresa e capital, que abrangia moendas, partidos de cana, pastos, senzalas, casa-grande, escravos e equipamen- tos. Atividade peculiar, que combinava no campo a Branco fino plantation e o processo semi-industrial de transfor- mação da cana, a economia açucareira criou uma sociedade sui-generis, com uma hierarquização in- terna de poderes e dependência mais diversificada. Branco redondo O conjunto de atividades e operações complexas que constituíam os trabalhos do açúcar requeriam altura 77 cm equipamentos caros e quantidade considerável de Branco baixo braços. O valor de um engenho, com suas terras, aparelhamento, culturas e benfeitorias, era calcu- lado, em 1635, em cerca de sessenta mil cruzados. No final do século XVIII, o valor de um engenho, no litoral, girava em torno de 8 mil libras. Mascavado Se a instalação de um engenho exigia grandes recursos, seu manejo implicava largas despesas. Capacidade engenho de Sergipe do Conde, da Bahia, que perten- 32,2 litros 2 arrobas cia a apresentava, em 1623, o quadro de e 6 despesas (em mil réis) da página seguinte. O estabelecimento inicial de um engenho era também obra de vulto e requeria investimento da ordem de 40 mil cruzados. Mas, se era preciso muito Forma de açúcar.44 Vera Lúcia Amaral Ferlini Salários 939.800 16,2% Lenha 1.056.050 18,3% Manutenção de barcas 213.908 3,7% Obras de manutenção 462.898 8,0% Cobres 636.482 11,0% Obras (ampliação) 206.968 3,6% Embalagens 239.160 4,1% Fretes 22.300 0,4% Armazenamento 54.130 0,9% Móveis e utensílios 152.872 2,6% Alimentação 534.173 9,4% os TRABALHADORES DO AÇÚCAR Vestuário 109.767 1,9% Porção dos padres 80.000 1,4% Pagamento de dívidas 556.739 9,6% Compra de escravos (reposição) 171.500 3,0% Compra de escravos (ampliação) 171.500 3,0% "E verdadeiramente quem via na escuridade da noite aque- Demandas judiciais 21.780 0,2% las fornalhas tremendas perpetuamente ardentes (...) o Diversos 156.190 2,7% ruído das rodas, das cadeias, da gente toda de cor da mesma noite, trabalhando vivamente, e gemendo tudo ao mesmo Total 5.786.220 100,0% tempo, sem momento de tréguas, nem de descanso; quem vir enfim toda a máquina e aparato confuso e estrondoso daquela Babilônia, não poderá duvidar, ainda que tenha visto Etnas e Vesúvios, que é uma semelhança do inferno.' dinheiro para mover tal empresa, as atividades do açú- Padre Antonio Vieira car apresentavam resultados generosos. Os comer- ciantes europeus, que adiantavam recursos para os senhores, beneficiavam-se com a compra antecipada Ao observador do século XVII chocava a ima- das safras, lucrando na venda na Metrópole, cem por gem de pesadelo, do trabalho nos engenhos do açú- cento do preço pago na Colônia. Para os senhores, a re- car. Fogo, suor, negros, correntes, rodas, caldeiras compensa estava no poder e no status desfrutados, e, ferventes compunham o quadro de labor incessante embora eternamente endividados em relação ao co- das fábricas de açúcar, diuturnamente, nos meses de merciante metropolitano, ostentavam vida opulenta, safra, de agosto a maio. onde não faltavam a criadagem numerosa, roupas de seda e de veludo, a prataria, os cristais.46 Vera Lúcia Amaral Ferlini A civilização do açúcar 47 Uma verdadeira fábrica nas moendas e o caldo processado na casa de cozer era sucessivamente fervido, coado, purificado, até Até o século XVIII, a produção de açúcar nas obter o ponto para ser colocado nas formas. Estas, colônias americanas foi a atividade mais complexa e depois de e colocadas nos balcões da casa mecanizada conhecida pelos europeus. A necessi- de purgar, eram submetidas ao longo processo de dade da produção em larga escala organizou o traba- clarificação. O açúcar aguardaria cerca de quarenta lho, nas unidades açucareiras, dentro de um rígido dias para ser desenformado, dividido, pesado e en- espírito de ordem, hierarquia, seqüência e disciplina. caixotado. Visto desse ângulo, constituiu-se, caracteristica- Todo esse processo intenso e complexo de ativi- mente, em manufatura moderna. Em seu espaço, o dades era articulado de forma a evitar perdas e asse- processo produtivo decompôs o ofício manual, espe- gurar a produção. O trabalho englobava fases cone- cializou ferramentas, formou trabalhadores parciais, xas e seqüenciais, e as operações parciais e sucessi- agrupando-os e combinando-os num mecanismo vas, desenvolvidas em espaços contíguos, garantiam único. uniformidade, regularidade, ordenamento e intensi- A jornada de trabalho dos engenhos estendia-se dade. Cada grupo isolado de trabalhadores, que exe- aos limites da exaustão física: moendo ininterrupta- cutavam tarefas ligadas à mesma função parcial mente, utilizavam dois turnos de trabalhadores. O (moer, cozinhar, purgar, embalar) integrava-se en- processo de produção, dividido em tarefas simples e quanto peça da produção total. O aumento da pro- executado por trabalhadores sem habilidade especí- dução só era possível pela alteração proporcional de fica, sob a direção de alguns artesãos especializados. cada setor do processo. Assim, se a capacidade de O trabalho seqüencial não comportava paradas para moagem fosse aumentada, pela utilização de mais mudanças de local ou de ferramentas. A matéria- uma moenda, por exemplo, os setores de cozimento, prima - a cana, o caldo, o mel percorria dife- purga, de caixotaria, deveriam ser alterados na rentes de processamento. Os trabalhadores mesma proporção. estavam organizados, espacial e funcionalmente, em Perante essa formidável organização, o trabalho equipes. O açúcar resultou da articulação de uma individual era imperativo, ditado pelo próprio fun- estrutura técnica e social de produção, cionamento do engenho, escapando à vontade dos se engrenava como um complexo "engenho". trabalhadores. Equacionado quase como uma fá- Durante a safra, o engenho operava vinte horas brica no sentido atual do termo, nele os trabalha- seguidas, com um descanso de quatro horas para a dores escravos na maioria e alguns poucos assala- limpeza dos equipamentos. As canas eram colocadas riados não tinham empenho pessoal na produção,48 Vera Lúcia Amaral Ferlini A civilização do açúcar 49 ditada pelos interesses do comércio europeu. A organização do engenho É possível distinguir, pela análise dos documen- tos coloniais, o esquema de organização dos enge- nhos, estruturados em quatro setores fundamentais: administração, manutenção, transporte e processa- mento de cana. de Ao senhor cabia a administração. proprie- tário do engenho, no Brasil, era residente e presente em toda a safra, enquanto nas Antilhas os proprie- o tários viviam na Metrópole, delegando a direção dos negócios a terceiros. Cabia ao senhor, assessorado 0000 por um padre e pelo feitor-mor, a supervisão de todas as atividades ligadas à produção do açúcar. Os engenhos de grande porte, como o de Sergipe 00000 do Conde, na Bahia, que processavam cana de lavra- dores e tinham terras arrendadas, possuíam um es- quema de apoio legal e contábil, formado por um solicitador, dois licenciados, um cobrador de rendas da e um escrivão. A eles cabia resolver questões de terras, o cumprimento da obrigação de entrega das canas e do pagamento das rendas, a contabilização da distribuição do açúcar produzido. Como apoio, o engenho contava ainda com os serviços de um cirur- gião, encarregado de cuidar dos negros, e de um cai- xeiro da cidade, responsável pelo setor comercial. A incrível maquinaria do engenho requeria fre- qüentes consertos e manutenção. Para esse fim, con-50 Lúcia Ferlini A civilização do açúcar 51 tava com um carapina fixo, assalariado, que cuidava tura. Verificou-se a substituição de assalariados por da roda d'água, do engatamento e da moenda. Para escravos e notável aumento da escravaria, estimada os outros serviços de manutenção, eram contratados para o século XVII em 90 peças. A partir de 1650, trabalhadores eventuais: carpinteiros para as barcas, cresceu a utilização de trabalhadores eventuais para pedreiros, calafates, etc. os serviços de construção e manutenção, diminuíram transporte da cana para o engenho, do porto os assalariados e a remuneração decresceu, enquanto para a moenda e do açúcar para os armazéns da ci- aumentava a compra de escravos. No início do século dade, era garantido pelo concurso de carros de bois e XVIII, de acordo com a descrição de Antonil, o de, pelo menos, três barcas. Originalmente os enge- engenho Sergipe do Conde, na Bahia, que em 1635 nhos contavam com três barqueiros livres e assala- contava com 80 escravos e 13 assalariados, possuía riados, auxiliados por cerca de dezesseis escravos. Nos então cerca de 200 escravos e seis assalariados. séculos XVIII e XIX, os cronistas fazem referências apenas a barqueiros escravos. Os carros de bois (em geral quatro, somente para o trabalho do engenho) Trabalhadores livres exigiam o trabalho de dois escravos para cada um. processo de produção do açúcar compreendia O que era esse trabalhador livre e assalariado? tarefas seqüenciais na moenda, na cozinha, na casa Seu conceito, na produção açucareira do período de purgar e no setor de secagem e caixotaria. Nas colonial não pode ser confundido com os trabalha- moendas trabalhavam o feitor-pequeno e o levadeiro, dores livres europeus, artesãos ou jornaleiros, nem mais sete ou oito escravas por turno. Na cozinha com o do proletário do capitalismo. Na Colônia, a estavam o mestre de açúcar, o banqueiro, dois cal- determinação básica das categorias sociais foi a es- deireiros de melar, um caldeireiro de escumar e 14 cravidão. Somente no trabalho escravo e dentro de escravos por turno. No trabalho da noite, as funções sua dinâmica é possível entender as funções dos tra- do mestre de açúcar eram exercidas pelo sotoban- balhadores livres. queiro. A casa de purgar contava com o trabalho de O trabalhador livre era, fundamentalmente, um um purgador e cinco escravos, apenas no período técnico habilitado, conhecedor de procedimentos diurno. A secagem, pesagem e encaixotamento re- indispensáveis ao processo do açúcar ou de habili- queriam um caixeiro e dezenove escravos, também dades artesanais desconhecidas pelos negros. em turno único. Entretanto, na medida em que esses trabalha- Durante a segunda metade do século XVII, essa dores habilitados, donos de conhecimentos especia- organização básica sofreu modificações em sua estru- lizados, só podiam existir no âmbito da linha. de pro-52 Vera Lúcia Amaral Ferlini A civilização do açúcar 53 dução do engenho, essas capacidades intelectuais passavam a fazer parte da própria estrutura produ- e tiva, tornando-se, gradativamente, alheias ao traba- lhador. Aos poucos tais técnicas foram sendo domi- nadas, subdivididas e executadas por trabalhadores menos hábeis, com menor remuneração, ou por es- cravos. (Vilhena, no início do século XIX, assinalava de da de que as funções de mestre de açúcar, na Bahia, eram usualmente exercidas por um negro alforriado.) Dentre os trabalhadores livres, pagos sistemati- camente pelos engenhos, podemos destacar: de Feitor-mor: era uma espécie de gerente. Cui- dava de todos os problemas com o pessoal do en- de de genho. Na época da safra devia estar ciente da ordem 28 de corte de cana, avisando os lavradores e provi- denciando o transporte das tarefas dos partidos para o engenho. Cabia-lhe, também, verificar o estado dos diversos setores e dos apetrechos, providenciando consertos e substituição. Era responsável pelos es- cravos, quer quanto à distribuição, quer quanto à de disciplina. Em caso de doença, cabia a ele afastar o 9 escravo do trabalho. Estando o negro à morte, cum- pria-lhe providenciar que recebesse os últimos sacra- mentos. Antonil adverte que o feitor deveria ser o braço do senhor, mas que não deveria arvorar-se em cabeça, cumprindo sempre ao proprietário tomar de- 3 18 cisões. Na época colonial, o do feitor-mor de variou de 110.000 réis, na primeira metade do século XVII, a 60.000 réis, no século XVIII. Nessa época, parte das funções do feitor-mor eram exercidas pelo feitor de partidos, a quem cabia cuidar das planta-54 Vera Lúcia Amaral Ferlini A civilização do açúcar 55 ções. Letrados: em época de demandas judiciais, as- Caixeiro da cidade: sua função era de agente sessoravam o solicitador. Percebiam 30.000 réis comercial. Recebia do engenho o açúcar encaixotado anuais. e colocava-o no armazém do cais do porto. Encar- cuidava dos negros, sangrando-os e regava-se da venda ou do embarque (quando o pro- aplicando-lhes medicamentos, em geral ervas (as dutor negociava o açúcar diretamente em Lisboa). mezinhas). Citado na documentação dos séculos XVI Sua remuneração oscilou entre 28.000 e 90.000 réis, e XVII, não há referências às suas funções no século em geral numa média de 40.000 réis. Essa função era XVIII. Sua soldada era de 30.000 normalmente exercida por um comerciante da ci- Mestre de açúcar: era o mais especializado dos dade, que, com adiantava recursos ao trabalhadores. Espécie de engenheiro de produção, engenho. comandava todos os processos técnicos para a obten- Cobrador de rendas: função típica da época em ção do açúcar. A ele cabia: controlar a moagem de que os engenhos moíam predominantemente cana de acordo com o funcionamento da cozinha, evitando lavradores e que arrendavam suas terras. Deveria que o excesso de caldo, se não processado, azedasse; fazer cumprir a obrigação de moagem dos lavradores controlar o cozimento, de acordo com o tipo de cana; de cana obrigada, bem como receber as rendas dos estabelecer as diversas têmperas do açúcar para sua lavradores arrendatários. Recebia anualmente cerca colocação nas formas; administração direta da co- de 40.000 réis. zinha e do trabalho dos tacheiros e caldeireiros. Sua também citado como despenseiro. remuneração, entre o século XVII e XVIII, variou de Controlava os estoques (ferramentas, tecidos, ali- 170.000 a 120.000 réis. mentos) e transcrevia os livros de controle. Esta cate- Caldeireiro de escumar: tinha por encargo a goria, bem como a de cobrador de rendas, a de soli- limpeza do caldo no processo de decoada. Percebia citador e a de licenciado, parece ter sido específica em média 35.000 réis anuais. dos engenhos pertencentes aos que dispu- Banqueiro: auxiliar direto do mestre de açúcar, nham de uma organização administrativa mais racio- substituía-o na supervisão, durante o trabalho no- nal. Nos engenhos de leigos, quando necessárias, tais turno, recebendo 50.000 réis anuais. funções eram exercidas pelo próprio senhor. Carapina (ou carpinteiro): na primeira metade Solicitador: procurador do engenho em deman- do século XVII era trabalhador fixo dos engenhos. das em relação à posse ou questões com os lavrado- Por haver constantes citações de outros carapinas res. Sua remuneração era de cerca de 40.000 réis para serviços específicos, deduz-se que sua função anuais. fosse a manutenção das rodas da moenda. Recebia56 Vera Lúcia Amaral Ferlini A civilização do açúcar 57 80.000 réis anuais. profissionais habilitados, percebiam menos que os Feitor-pequeno: cuidava de todo o setor de moa- aprendizes brancos. gem e era assistido pelo levadeiro. Deveria cuidar do recebimento da cana e de sua introdução na moenda, de acordo com o ritmo determinado pelo mestre de O trabalho dos índios açúcar. Era seu encargo atentar para que as negras não dormissem, "pelo perigo que há de ficarem pre- Em alguns engenhos, especialmente nos admi- sas e moídas, se lhes não cortarem a mão quando isto nistrados por encontramos referências ao sucede", advertia Antonil. Sua remuneração era de trabalho de indígenas. Não eram utilizados como es- 50.000 réis por ano. cravos, mas exerciam tarefas simples como a da lim- Levadeiro: era responsável pela relação entre a peza anual da levada, cuidar do sangradouro, cortar força d'água e o funcionamento da moenda. Re- lenha. Esporadicamente trabalhavam como carapi- cebia, anualmente, 45.000 réis. nas, nas barcas ou na casa de purgar. Purgador: responsável pela supervisão do pro- O que mais chama a atenção, porém, é a utili- cesso de clarificação do açúcar. Recebia como sol- zação sistemática do indígena como capitão-de- dada 50.000 réis anuais. mato, na caça aos escravos negros fugidos. Tal ati- Barqueiros: no século XVII eram três, assala- vidade criava uma distinção ideológica entre negros e riados, assessorados por cerca de dezesseis escravos. índios. Os índios, "livres", caçavam negros escravos. Recebiam cerca de 40.000 réis anuais. Os negros viam no índio um inimigo, jamais um Além desses trabalhadores fixos, constantes nas aliado, um igual na opressão. Os índios, europei- escriturações dos engenhos e nas descrições dos cro- zados nos aldeamentos, identificavam-se aos coloni- nistas, concorriam para a produção, trabalhadores zadores, opondo-se aos negros "colonizados". De pagos por dia ou por empreitada: carapinas, calafa- conquistados, travestiam-se em conquistadores. Nes- tes (para o serviço de calafetagem dos barcos), fer- se sentido, o índio era utilizado como peça da colo- reiros, pedreiros, tacheiros (para refazer os tachos de nização, agente e paciente da sua própria submissão. cobre), etc. Na documentação colonial nota-se dife- renciação dos pagamentos em relação à habilidade e à raça. Quanto à habilidade, a remuneração era dife- renciada quer se tratasse de artesão mestre ou apren- Escravos negros diz. Os índios recebiam remuneração menor que os Mas a base desse trabalho, e de toda sociedade brancos e os negros forros. E os negros, mesmo se colonial, era o escravo negro. Era ele o fundamento58 Vera Lúcia Amaral Ferlini A civilização do açúcar 59 de todo o processo de produção, de toda a organi- realmente o caráter de trabalho (do latim tripaliare, zação do engenho e da lavoura. Antonil, no princípio torturar). Era um fardo, um sofrimento a ser supor- do século XVIII, cristalizou o sentido mesmo da tado, uma punição, uma pena. Era também uma colonização, ao afirmar: "Os escravos são as mãos e atividade disciplinadora. Submetido a tarefas repeti- os pés do senhor de engenho, porque sem eles no tivas, desprovidas, em si, de qualquer sentido, o es- Brasil não é possível fazer, conservar e aumentar cravo era levado à exaustão e à alienação. padre fazenda, nem ter engenho corrente." Jorge Benci, no início do século XVIII, ponderava A gênese do escravismo moderno está profunda- que a principal razão para submeter os escravos mente ligada à articulação, nas colônias, de grandes ao trabalho era "para que não se façam insolentes, e unidades de produção, voltadas para o mercado eu- para que não busquem traças e modos com que se ropeu. A produção, em larga escala, para um mer- livrem da sujeição do seu senhor, fazendo-se rebeldes cado distante e sem qualquer ligação imediata com o e indômitos". consumo, exigia um grande contingente de traba- Mesmo mascarada pelas formas paternalistas, lhadores que se submetessem a trabalhar para ou- a escravidão, nas unidades açucareiras do período tros, sem terem, eles mesmos, qualquer motivação colonial, estava intimamente ligada à violência. A pessoal pelo processo de produção. captura do negro, em África, havia sido violenta. Tratou-se, então, da constituição de uma nova Violenta era a jornada para o Brasil. A atividade forma de organização do trabalho, sem parâmetros produtiva, sem qualquer sentido, repetitiva e cansa- na Europa, que exigia uma nova categoria de traba- tiva, era uma profunda violência. As próprias con- lhadores, alienados de tudo: dos meios de produção, dições de compulsoriedade do trabalho impunham de suas origens, de sua liberdade. processo de pro- formas coercitivas de motivação ao trabalho, como o dução, o destino do produto, o da medo ao castigo. Mas embora durante todo o período atividade produtiva escapavam ao produtor direto. colonial se tenham organizado códigos disciplinares A organização do engenho como linha de pro- para os escravos, a docilidade, a obediência ao tra- dução, ao mesmo tempo que dividia tarefas, organi- balho, a humildade eram preferencialmente obtidas zava os trabalhadores dentro de uma atividade con- pela introjeção da superioridade e do poder do se- tínua e seqüencial, que os transformava em objetos nhor. Os castigos, as punições, os açoites, o tronco do processo. A produção era o comandante do tra- eram medidas extremas, reservadas aos que não se balho escravo, ao invés de ser o resultado desse tra- submetessem. De qualquer forma, essa submissão, balho. essa introjeção da figura do senhor, constituía-se em A atividade produtiva, no engenho, assumia profunda violência, na medida em que despersonali-60 Vera Lúcia Amaral Ferlini A civilização do açúcar 61 zava o negro, criando-lhe uma nova identidade, a de 80.000 réis (44.000 pela compra e 36.000 pela manu- escravo. tenção). Nesse mesmo período, teria gerado por seu Ligado inicialmente à necessidade de prover a trabalho um valor de cerca de 320.000 réis. Um mão-de-obra numerosa para a produção colonial, o assalariado de 40.000 réis representaria, em igual escravismo moderno intensificou-se ao longo de nossa período, um desembolso de 320.000 réis. E, em ter- história, penetrando em toda a sociedade colonial. mos absolutos, cada escravo engajado na produção Gradativamente, a nível do engenho, observou- de açúcar repunha o investimento inicial (de 44.000 se a substituição do trabalho dos "oficiais" de açú- réis), após 14 meses de trabalho. car, assalariados, por escravos. Ao mesmo tempo, Essa substituição do assalariado pelo escravo pode-se notar que o tratamento dado aos escravos resultou, todavia, em perda de qualidade do açú- piorou: desapareceu a categoria de que car. Vilhena, no início do século XIX, observava que cuidava dos escravos doentes, como_um elemento a ignorância dos mestres de açúcar, mulatos ou ne- permanente do engenho; diminuíram as compras de gros em geral, implicava a péssima qualidade do alimentos para os escravos; aumentaram as referên- açúcar. Dessa forma, não podemos entender a subs- cias às mortes e às epidemias; sucederam-se as fugas; tituição dos assalariados especializados por escravos, cresceu a da compra de escravos para a apenas pela ótica econômica. A disseminação do es- reposição do plantel, e a vida útil do negro cativo, em cravismo representou, sobretudo, na produção açu- geral, não ultrapassava dez anos. careira, a cristalização de formas específicas de vida Do ponto de vista puramente monetário (que social e de dominação. não sabemos ocorresse ao senhor de engenho), a A organização produtiva do açúcar foi equacio- substituição do assalariado por escravos era vanta- nada de forma a maximizar a produção, através de josa. Considerando-se que um plantel de 110 escra- trabalhadores que não tinham razões diretas para se vos processava uma tarefa diária de cana, gerando empenharem no trabalho, já que os objetivos da cerca de 30 formas de açúcar, ao final da safra o própria produção eram ditados por uma vontade engenho retinha, para si, 4500 arrobas de açúcar. alheia, a do proprietário. Era necessário, ao senhor, Ao preço médio de 1.000 réis a arroba, cada escravo que esses trabalhadores perdessem todo o controle do produzia, com seu trabalho, um valor anual de processo, assegurando a completa subordinação da 40.000 réis. Estimando-se o custo da manutenção de produção ao proprietário dos meios de produção. cada negro em 4.500 réis anuais, ao final de oito anos Era preciso, inclusive, que o saber especial*dos pro- de vida útil (vida média dos escravos na produção do cessos de fabricação do açúcar também fosse escra- açúcar), cada negro representava um desembolso de vizado. Dessa forma, o senhor colocava-se como o62 Vera Lúcia Amaral Ferlini único coordenador do processo de produção, único capaz de dar unidade ao mundo fragmentado do açúcar. A produção de açúcar na Colônia permitiu ao comércio europeu intensificar a acumulação de capitais, que resultaria, no século XVIII, na Revolu- ção Industrial e na afirmação do capitalismo. Mas, ao mesmo tempo, a nível colonial, consolidava-se uma sociedade escravista cujo sentido era dado pela posse e pelo trabalho dos escravos e não pela idéia de os NEGÓCIOS DO AÇÚCAR lucro e produtividade, típicas da mentalidade bur- guesa. considerar atentamente esse caráter da produção colonial, para entendermos, entre ou- que trata de suas navegações e vem aos por- tras coisas, a substituição inexorável do trabalho livre tos.. com suas naus e caravelas carregadas de fazenda que trazem por seu frete, aonde descarregam e adubam suas de assalariados na produção do açúcar, por escravos, naus e as tornam a carregar. declinando a qualidade e a quantidade produzidas. Diálogo das Grandezas do Brasil Num movimento contraditório, enquanto a nível mundial delineava-se a economia capitalista, aufe- Dois mundos complementares, mas diferentes, rindo os lucros comerciais da produção colonial, in- tocavam-se quando os navios chegavam aos portos ternamente à Colônia, o processo produtivo esclero- brasileiros. um lado, o dinamismo do comércio, sava-se em imenso quadro de geração e de manu- que via no lucro, nos negócios o único sentido da tenção do poder. produção. De outro lado, a Colônia produtora de açúcar, que descobrira sua lógica interna nesse mundo de senhores e escravos. Dois universos tão intimamente ligados, que era impossível a existência de um sem o outro. Mas tão profundamente dife- rentes que as relações entre a Colônia e a Metrópole seriam eternamente tensas. A Colônia nascera da dinamização das ativi- dades mercantis européias e apenas no comércio sua64 Vera Lúcia Amaral Ferlini Acivilização do açúcar 65 produção adquiria sentido. Para o mercado interno se presas fáceis dos comerciantes. Vendiam seus pro- não se fazia necessária tal quantidade de açúcar. dutos a preços baixos, comprando os produtos euro- Colocado nos trapiches a beira-mar, era produto peus a preços muito altos, endividando-se. Muitas morto, sem utilidade. No mercado europeu, assumia vezes, vendiam antecipadamente suas safras ou hipo- seu caráter de mercadoria, alvo de transações e de tecavam seus engenhos. Insolventes, eram obrigados consumo. O comércio era o cordão umbilical, o ele- a entregar seus bens. Os mercadores, que já lucra- mento de ligação entre a produção e o mercado dis- vam na venda do açúcar, constituíam-se gradativa- tante. A rede mercantil abastecia a Colônia de tudo mente em verdadeiros banqueiros, financiando a que era necessário e regulava a produção açucareira, venda de escravos e o fornecimento dos senhores de de acordo com a demanda européia. engenho e lavradores de cana. O comércio triangular O regime de frotas Na segunda metade do século XVI, o açúcar do Depositados nos armazéns do porto (chamados Brasil constituía um dos vértices do sistema trian- "passos" em Pernambuco e "trapiches" na Bahia), o gular de comércio, que envolvia a América, a Europa açúcar aguardava o embarque. Transportado para e a África. Navios partidos de Lisboa carregavam Lisboa, era acompanhado de um para as costas do golfo da Guiné produtos manufa- que garantia a legalidade do carreto. Inicialmente turados, conduzindo depois para o Brasil escravos esse procedimento objetivava assegurar o monopólio negros e, posteriormente, açúcar brasileiro para Lis- português do comércio do açúcar, todavia a produ- boa. Numa outra corrente de comércio, navios carre- ção crescente levou a Coroa a conceder licenças es- gavam produtos manufaturados, vinhos e alimentos, peciais a navios estrangeiros. artefatos de cobre para o Brasil, levavam aguardente Nos primeiros tempos da colonização, o trans- e tabaco para a África, retornavam ao Brasil com porte e o comércio do açúcar eram feitos normal- negros, seguindo abarrotados de açúcar para Lisboa. mente, podendo os navios vir ao Brasil de acordo A viagem entre Lisboa e o Brasil durava cerca de com seus interesses. Mas à medida que as lutas pela três meses. Os negociantes, que acompanhavam suas hegemonia européia se agravavam, alcançando as mercadorias, eram os grandes beneficiários dos ne- rotas marítimas, Portugal restringiu o comércio ao gócios do açúcar. Ansiosos por comprar as merca- sistema de comboios ou frotas. dorias do Reino, os produtores de açúcar tornavam- Durante a União Ibérica, o conflito com a Ho-66 Vera Lúcia Amaral Ferlini civilização do açúcar 67 landa atingiu o comércio açucareiro, e entre 1624 e culo XVIII. A partir de 1640, com a Restauração, 1626, apenas, Portugal perdeu 120 navios, 60 mil Portugal buscou reorganizar seus esquemas comer- caixas de açúcar, além de pau-brasil, tabaco, algo- ciais. Sem uma frota naval de peso, foi necessário dão, âmbar, escravos e dinheiro. Minguando o fluxo de barcos, declinavam os engenhos e a produção. O recorrer a capitais judeus. O peso da Inquisição, porém, tolhia o concurso desses recursos. Para isso, o produto dos saques era levado aos mercados euro- padre Antonio Vieira interveio, mostrando ao rei as peus, a preços baixos, concorrendo com os preços vantagens de suspender o seqüestro dos bens dos normais. judeus para que aplicassem na constituição de uma Essa longa conjuntura de guerras e invasões, que marcou a primeira metade do século XVII, en- poderosa companhia de comércio. Assim foi feito e fraqueceu a rede de transportes e de comércio de em 1649 era aprovado, por D. João IV, o estatuto da Portugal. Até então, a associação com os flamengos primeira Companhia de Comércio para o Brasil. De garantira o escoamento e a rentabilidade dos negó- sua organização poderiam participar cidadãos portu- cios coloniais. A ruptura com os holandeses, porém, gueses ou estrangeiros, residentes em Portugal. A colocou a questão da necessidade de um esquema Companhia tinha uma série de privilégios. comér- comercial seguro e constante. Num primeiro mo- cio de toda a costa do Brasil era monopólio seu. mento, a solução foi a adoção do regime de frotas, Comboiaria todos os navios mercantes que viessem comboiadas por navios de guerra. Os navios só pode- ao Brasil ou dele voltassem, a uma taxa não superior riam zarpar do Reino entre de agosto e 31 de a 10% e seguro não inferior a 25%. O vinho, o março, em função do regime de ventos, sempre em azeite, a farinha de trigo e o bacalhau eram gêneros estancados da Companhia. Em troca de todos os di- número superior a quatro. O regime de frotas foi alvo das críticas dos dos produtores. Os reitos, a Companhia se obrigava a enviar, por ano, duas frotas de comércio. comerciantes do Reino perdiam a liberdade de ação, que lhes impedia aproveitar as oportunidades de rea- Os resultados não foram favoráveis. A Inquisi- ção questionava a isenção dada aos judeus. Comer- lização de negócios. Os produtores do Brasil sofriam ciantes e produtores alegavam que a Companhia não o peso do que os obrigava a vender e comprar em datas determinadas, sem possibilidade cumpria a obrigação contratual e que as frotas vi- de escolha ou alternativa de preços. nham irregularmente ao Brasil. As queixas avolu- mavam-se, e em 1657 a suspensão do confisco dos Estabélecido primeiramente devido à instabili- dade das guerras, o sistema de frotas continuou a capitais judeus foi revogada e no ano seguinte foram dominar o comércio, praticamente até o final do sé- suspensos os estancos da Companhia. A navegação de vinda para o Brasil ficava livre, mas o retorno68 Vera Lúcia Amaral Ferlini A civilização do açúcar 69 devia aguardar a frota da Companhia. A perda dos vender diretamente nos engenhos e fazendas mais estancos era provida pelo aumento da taxação do distantes. açúcar, que agravava ainda mais a situação da ex- comércio colonial era atividade altamente lu- portação. Gradativamente, a Companhia passava ao crativa. Os mercadores vendiam aos lavradores e aos Estado, e os interesses comerciais declinavam, junta- mente com a rentabilidade dos negócios do senhores de engenho, em troca da entrega de açúcar O regime de frotas, porém, persistia, sob dire- em safras seguintes, lucrando até 85% ao ano. Todo ção da Coroa, sujeitando o comércio do açúcar à esse lucro, porém, não ficava em mão de portugue- servidão dos preços de monopólio. No século XVIII, ses. Muitos desses comerciantes autorizados nas sob Pombal, o sistema de Companhias de Comércio praças brasileiras não desfrutavam de situação bri- foi restaurado, em benefício dos comerciantes metro- lhante: ofereciam mercadorias estrangeiras, compra- das fiado em troca da hipoteca antecipada de açúcar, politanos. o que restringia a margem de lucro. Por outro lado, embora rigorosamente estabelecido por lei, o mono- pólio português era burlado. Depois Paraíso dos comerciantes da Restauração, a dependência de Portugal em rela- ção à Inglaterra facilitou a presença, no Brasil, de A partir do século XVII, a Colônia passou a produtos ingleses contrabandeados. Mercadores es- pulsar no ritmo das frotas. Todos os negócios e paga- trangeiros serviam-se de "comissários volantes" que mentos eram marcados para a época da chegada dos iam diretamente aos produtores, oferecendo merca- navios, geralmente pelo mês de maio, quando termi- dorias européias a preços mais baixos e pagando nava a safra do açúcar. Com a frota chegavam os melhor pelo açúcar. Esses agentes do contrabando, mercadores, trazendo os da Europa e com- em geral, eram tripulantes dos navios portugueses, prando os produtos da terra. Mas nem todos podiam elementos da milícia ou membros do corpo admi- comprar o que era necessário, ao tempo da frota, e como durante o ano novas necessidades se criavam, nistrativo da Colônia. Os cronistas da época regis- nos portos de açúcar prosperavam as lojas, atulhadas tram que, sob as vistas grossas do governo colonial, mantinham-se no porto armazéns de mercadorias de mercadorias, principalmente tecidos. Eram os co- contrabandeadas. merciantes da terra, que compravam grandes lotes dos mercadores das frotas e revendiam com altos lucros. Além desses, com lojas abertas na cidade, proliferavam os mascates, que levavam tecidos para70 Vera Lúcia Amaral Ferlini A civilização do açúcar 71 negro como moeda favorecia uma economia sem moedas, pois a quase totalidade dos serviços era provida por mão-de-obra comércio de negros era de vital importância escrava. A auto-suficiência de uma sociedade onde o na Colônia. Em torno dos mercados de escravos de- nível de existência era baixo, aliado ao pouco uso do senvolviam-se os negócios envolvendo açúcar e ta- salariato, favorecia os pagamentos em espécie. A baco, pois a moeda era escassa. Os mercados de moeda era usada apenas como elemento de conta, e negros, nos primeiros tempos, não passavam de bar- sua circulação, na realidade, era escassa. Nos negó- toscos, onde os cativos eram amontoados à cios de importação tudo era calculado na base de dé- espera de comprador. No século XVIII, com o au- bitos e créditos, e essa escassez crônica de meio circu- mento da demanda, em função da mineração, verda- lante esclarece a importância do comércio com a deiros bairros foram construídos para abrigar a pre- região do Rio da Prata, onde se conseguiam moedas ciosa mercadoria, como a região do Pilar, em Sal- de prata e mesmo o que a descoberta das vador. Freyuss, que visitou o Brasil no século XIX, minas de ouro provocou sobre a economia açuca- observava que "apinhados às centenas num barra- reira. cão, sumariamente cobertos com um pedaço de pano tráfico negreiro assumia, assim, seu pleno sen- ou de que trazem à cintura (...) nus e pelados, tido. Sem o negro, Portugal teria de comprar os sentados no chão, observando curiosos os transeun- produtos coloniais em moeda corrente, fluindo me- tes, pouco se diferenciam, aparentemente, dos ma- tais para a Colônia, em prejuízo da Metrópole. Tro- cacos (...) chegam da África já marcados a ferro em cando as mercadorias por negros, obtinham-se pro- brasa, como os animais". dutos coloniais a baixo custo, ganhando-se tanto no O tráfico negreiro era na verdade a moeda para tráfico negreiro como na comercialização do açúcar. a aquisição dos produtos coloniais. comércio trian- Os produtores coloniais, por sua vez, ficavam atre- gular permitia aos comerciantes europeus a obtenção lados aos fornecedores metropolitanos, trocando açú- do açúcar e do tabaco sem o desembolso de moeda car pela mão-de-obra necessária para produzi-lo. metálica. Na Guiné, para a compra de escravos, Como a necessidade de reposição da força de traba- entravam panos grosseiros, contas de vidro colorido, lho era constante, os senhores viam-se obrigados a espelhos, bebidas, bugigangas. Na Colônia, em troca consumir quase toda a produção na compra de ne- de escravos, obtinha-se açúcar e tabaco, que se trans- gros, endividando-se e nada sobrando para capita- formariam em moeda no circuito europeu de comér- lizar na Colônia. cio. A economia colonial, dominada pela grande Sem liquidez, a produção açucareira era extre- unidade açucareira, predominantemente autárquica, mamente dependente dos comerciantes. Os produ-72 Vera Lúcia Amaral Ferlini civilização do açúcar 73 tores não dispunham de moeda para a compra de para a produção do açúcar através de casamen- escravos, instrumentos agrícolas e gêneros europeus. tos. Os mercadores europeus, em geral agiotas, anteci- Na Colônia a relação entre cristãos-novos e cris- pavam esses recursos, tendo como garantia a produ- tãos-velhos não foi um obstáculo intransponível. O ção do açúcar, sob cotações extremamente baixas. cristão-velho, senhor de engenho, dependia do cris- Sobre esses empréstimos, os comerciantes chegavam tão-novo, comerciante e capitalista. Casando-se com a arbitrar juros de até 4% ao mês. a filha de um senhor, o cristão-novo buscava a as- A irregularidade das frotas causava sérios pro- censão social e a segurança. blemas aos colonos. Por não venderem seu açúcar no Os cristãos-novos do Nordeste açucareiro não prazo estipulado, não podiam quitar seus débitos, eram, em geral, judaizantes (isto é, adeptos da fé e sendo onerados com pesados juros. Esse atraso, por dos ritos do judaísmo). Com exceção de Pernambuco, outro lado, obrigava-os a recorrer novamente aos durante a invasão holandesa, quando os cristãos- comerciantes, para a aquisição de gêneros que-lhes novos que aí viviam voltaram às práticas judaicas, permitissem continuar a produção. procuraram ser absorvidos pela sociedade, galgando cargos administrativos e enriquecendo. Desse modo, os judeus imigrados no Brasil ficavam mais seguros. Os cristãos-novos no mundo do açúcar A Coroa Portuguesa parece ter estimulado a emi- gração dos cristãos-novos para o Brasil, fechando os O Brasil permitia, aos que dispunham de recur- olhos à "pureza de sangue", no interesse da coloni- SOS em moeda corrente, vultosos lucros. Nessa me- zação. Mesmo assim, a Inquisição estendeu seus dida, atraía os cristãos-novos perseguidos pela Inqui- poderosos braços em direção à Colônia, realizando sição e impossibilitados de, na Metrópole, desenvol- visitações do Santo Ofício entre 1591 e 1769. verem seus negócios. Inicialmente empenharam-se Partes importantes da burguesia comercial euro- no comércio, mas rapidamente tornaram-se agentes péia, figuras centrais do mercado financeiro e do financeiros, fornecendo capital para a realização de tráfico marítimo, também no Brasil a atuação dos safras e para a compra de escravos, adquirindo açú- cristãos-novos foi marcante. Com capitais e com co- car e vendendo-o na Europa com grandes lucros. mércio, atuando nas praças européias como inter- Muitos aliaram à condição de mercador a de proprie- mediadores ou no tráfico africano, aparelharam ca- tário de engenho. Alguns erguiam engenhos em ter- naviais e engenhos de recursos e braços. ras obtidas para liquidação de débitos. Outros ad- quiriam engenhos insolventes ou conseguiam entrar74 Vera Lúcia Amaral Ferlini A civilização do açúcar 75 A guerra do açúcar que anualmente cerca de 50 mil caixas de açúcar do Brasil chegavam à Holanda para serem processadas Criando no Nordeste seu próprio mundo, o açú- nas 29 refinarias ali existentes. car prosperava e no final do século XVI a produção Em 1621, finda a Trégua, os espanhóis procu- brasileira era hegemônica. Ao mesmo tempo aumen- raram cortar as ligações dos holandeses no negócio tava a importância dos flamengos no negócio do açucareiro. Mas a burguesia mercantil de açúcar. Com sua poderosa frota mercantil e sua vasta reagiu, criando, nesse mesmo ano, a Companhia das rede bancária, possuíam as condições necessárias Indias Ocidentais, cuja finalidade era a ocupação do para ampliar o mercado consumidor. Estimulado Nordeste brasileiro. Em 1624, os holandeses faziam pela prosperidade provocada com a chegada dos me- sua primeira investida, contra a Bahia, mas recha- tais das colônias espanholas, o consumo europeu çados por uma armada espanhola, retiravam-se em crescera no século XVI. Era a "revolução dos pre- 1625. Em 1630, porém, seriam bem-sucedidos, to- possibilitada pela grande circulação de moedas mando Pernambuco, e a partir daí, estendendo seus que incentivava a compra de produtos caros, como o domínios às capitanias mais ao norte. Durante 24 açúcar, empurrando para cima seus preços. anos, os holandeses dominaram metade da produção A lucratividade desse império do açúcar não açucareira brasileira, apossando-se das técnicas de ficaria muito tempo apenas em mãos dos portugue- produção e conquistando, durante certo tempo, o co- ses. Em 1580, Filipe II da Espanha apossou-se do mércio dos escravos, ao dominar praças escravistas trono português, interrompendo o comércio entre portuguesas na África. Portugal e as regiões flamengas. Até então, as ope- rações de financiamento e comercialização do açúcar eram centralizadas em- Antuérpia. Mas, insurgidos contra os espanhóis, os Países-Baixos sofreriam ata- A perda da hegemonia ques constantes, e o centro vital dos negócios do açúcar transferiu-se para As represálias Ao saírem do Brasil, em 1654, os holandeses espanholas continuaram e em 1595 quatrocentos levavam consigo os conhecimentos adquiridos na navios holandeses foram capturados nos portos ibé- produção do açúcar, implantando-a, a seguir, em ricos, com carregamento de açúcar. suas colônias antilhanas. A produção nordestina, Com a Trégua dos Doze Anos entre a Espanha e massacrada pelos vinte e quatro anos de luta e pri- as Províncias Unidas, os holandeses voltaram aos vada do mercado flamengo, começava a declinar. negócios do açúcar. Entre 1609 e 1621, calcula-se Rapidamente os preços da produção brasileira caí-76 Vera Lúcia Amaral Ferlini civilização do açúcar 77 ram. Em 1650, antes da expulsão dos holandeses, uma renda de cerca de 300 milhões de libras, pro- o açúcar rendia 3,8 milhões de libras, mas em 1700 o duzindo em valor, mais que a mineração, cuja total de nossas exportações alcançava com dificul- produção foi de cerca de 200 milhões de libras ester- dade a cifra de 1,8 milhão de libras esterlinas. linas. A sociedade açucareira iniciava uma fase de declínio econômico, mas não abandonaria seus pa- drões escravistas nem os negócios do açúcar. No sé- culo XVIII, como podemos observar pelo quadro a seguir, a produção retomou parcialmente sua impor- tância, estimulada pela mineração e pela ampliação do consumo à época da Revolução Industrial. Data Número Exportação Preço Valor de em em em engenhos arrobas Lisboa libras 1570 60 1$400 270.406 1580 118 350 000 1$600 528.181 1600 200 1610 400 4 000 000 1630 2.454.140 1640 1650 3.765.620 1670 2 000 000 2.247.920 1710 650 2$400 1.726.230 1760 2.379.710 Mas mesmo no período de o açúcar foi importante para Portugal. Calculada a sua contri- buição para os cofres metropolitanos, verifica-se que até o final do século XVIII o açúcar havia geradocivilização do açúcar 79 e a formação de comunidades caracterizadas por uma estrutura social rigidamente estratificada, onde as grandes distâncias sociais eram acentuadas pelos componentes étnicos. O escravismo colonial não foi simplesmente um conjunto de relações de trabalho, ou mera instância jurídica. Implicou a constituição de personalidade social própria, onde o escravo negro era a medida de todas as coisas. Todos os momentos do cotidiano do COTIDIANO DO AÇÚCAR açúcar marcavam-se pela presença do escravismo. A liberdade, aspiração suprema do cativo, confundia- se, então, com o ócio. Ser livre era não ser obrigado a trabalhar. E, ao lado da função disciplinadora do "O ser senhor de engenho é título a que muitos aspiram, trabalho, a que nos referimos anteriormente, estava porque traz consigo o ser servido, obedecido e respeitado de a visão preguiçosa da liberdade. muitos. E se for, qual deve ser, homem de cabedal e go- verno, bem se pode estimar no Brasil ser senhor de engenho, Referencial da sociedade açucareira, era o negro quanto proporcionalmente se estimam os títulos entre os a moeda para a obtenção de terras e de poder. O fidalgos do Reino." número de escravos definia o status de um branco. Antonil Sem escravos, um que fosse, nenhum colono poderia ser considerado, realmente, um homem livre. E A economia açucareira criou no Brasil uma so- mesmo as famílias mais pobres tinham o seu negro, ciedade de senhores e escravos, cujos valores éticos, que muitas vezes ganhava o sustento de todos. étnicos e morais ponteiam a atualidade. Sociedade Nada se fazia sem escravos. Saía-se à rua carre- autoritária, aristocrática e violenta, onde se tocavam gado em liteiras por escravos. Para montar, para antípodas. O açúcar era branco, o trabalho era vestir, para comer, para banhar-se, para tudo era negro. Havia nas mesas e sofrimento nos mister escravos. Era ele o moleque de brinquedos, o engenhos; riqueza nas casas-grandes e miséria nas negro de recados, a mucama da casa, a ama-de- senzalas. leite, o trabalhador, "o pau-para-toda-obra" o cul- O poderoso senhor de engenho ocupava o ápice pado pelas desgraças, o objeto de prazer sexual. da pirâmide social, sobre a imensa massa de escravos branco só se definia em contraposição ao africanos. Condicionava-se um tipo patriarcal de vida negro, onipresente. Mas ao contrário da visão da80 Vera Lúcia Amaral Ferlini civilização do açúcar 81 democracia racial que muitos tentaram imprimir, zenda e do engenho que os indivíduos do universo essa intimidade com o negro apenas interiorizava as do açúcar se reuniram. No ambiente rural, onde a diferenças e estabelecia distâncias, cristalizando as autoridade pública era fraca ou mesmo inexistente, posições de senhor e de cativo, enegrecendo o tra- a grande propriedade constituiu-se em único centro balho manual e branqueando o poder a riqueza. de poder e riqueza. À sombra da casa-grande, em Sociedade de senhores porque sociedade de es- seu ambiente largo e acolhedor, junto à autoridade cravos, era na sujeição do negro que se definia a do senhor, todos buscavam proteção. personalidade do senhor. E sob relações paterna- O centro desse mundo era o grande proprietá- listas estava mascarada a extrema violência do escra- rio, o fidalgo do açúcar, o senhor de engenho, que vismo. Donos da vida e da morte em seu mundo, aos guiava sua vida e as de todos que o cercavam por senhores cabia velar pelos negros, nutrindo-os, ves- padrões aristocráticos. Seu objetivo não era o lucro tindo-os castigando-os. Pão, pano e pau eram os ele- ou a racionalidade empresarial, mas a acumulação mentos fundamentais das obrigações do proprietário de escravos e terras, fatores de honraria e poder. A para com seus escravos. Pouca comida, vestuário ele se subordinavam familiares, agregados (negros miserável, castigo duro e contínuo, a realidade. alforriados, mulatos livres, pobres, que prestavam A rígida hierarquia dessa sociedade não signi- ajuda no engenho), escravos, lavradores de cana e o ficou, em absoluto, acalmia social. Nos três séculos próprio clero. Entre eles, mais do que frias relações de vida colonial, as regiões do açúcar foram palco de econômicas, desenvolveu-se intrincada rede de afeto, tensões e conflitos entre senhores e escravos, entre compadrio e poder. brancos e índios, entre colonos e agentes metropoli- Senhores do mundo do açúcar, os grandes pro- tanos, entre proprietários de engenho e lavradores e prietários procuravam ostentar poder em roupas, ca- comerciantes, que marcaram com sangue a apenas valos, arreios, móveis, louças, cristais, mesa farta, aparentemente plácida História do Brasil. serviçais. Arrogantes, senhores de si, donos de um modo de vida peculiar, caminhavam empertigados, chicote na mão, visitando seus domínios. Os fidalgos do açúcar Essa riqueza, porém, não era real, e no dizer de um viajante, apenas "um véu de opulência que enco- Célula orgânica da sociedade colonial, o grande bria a miséria geral". Nas lides do açúcar os senhores domínio açucareiro modelou as relações internas de obtinham pouco mais de 5% sobre o capital inves- dominação, disfarçando em seu ambiente familiar as tido, mal dando para o sustento de sua família. Com- marcas violentas do escravismo. Foi em torno da fa- pravam fiado dos fornecedores metropolitanos, hipo-Vera Lúcia Amaral Ferlini civilização do açúcar 83 82 tecando safras e bens. Insolventes, apelavam às auto- A família patriarcal ridades portuguesas. Na documentação colonial en- contramos freqüentemente ordens régias impedindo Modelo dessa sociedade, organizada como clã o seqüestro dos bens de senhores de engenho e de patriarcal, a família era a escola onde se aprendia a lavradores de cana, para o pagamento de dívidas. subordinação, a passividade, a obediência, o respeito Mas mesmo garantidos na posse de suas proprie- à autoridade suprema do pai. Sob o mesmo teto con- dades, o endividamento os obrigava a vender o açú- viviam filhos, tios, tias, sobrinhos, irmãos, bastar- car a preços baixíssimos, agravando ainda mais sua dos, afilhados, agregados, escravos. No centro esta- difícil situação econômica. va o senhor, que determinava o papel de cada um. A Embora a historiografia tradicional tenha insis- esposa, geralmente muito mais jovem, vivia para ge- tido na imagem de vida opulenta dos senhores do rar filhos, fazer doces, costurar e bordar. Não tinha açúcar, muitas vezes essa fartura e riqueza ocorriam cultura e sua única atividade social, quando na ci- apenas nas festas, quando recebiam convidados e es- dade, era a Igreja. Em casa, rodeada de trangeiros. No dia-a-dia, muitas vezes a ração era escravas, vivia em solidão. Educavam-se as filhas mínima, a roupa simples, os costumes grosseiros. para reproduzir o papel da mãe, como esposas servis Homens de poder mas não de trabalho, sempre e submissas. Aos homens reservavam-se as posições escandalizaram os viajantes por sua indolência. Dei- de mando: o mais velho educado para substituir o tados em redes, ficavam a gozar da sombra das va- pai, os outros destinando-se invariavelmente ao sa- randas, observando sua propriedade, o labor dos cerdócio ou ao estudo acadêmico. escravos. Mundo da escravidão, nele o branco não se A família era a formulação exterior de uma notabilizava pelo esforço físico, pois apenas aos ne- sociedade, mas não o domínio do prazer sexual. A gros cabia o trabalho duro. E deles dependia esse mo- possibilidade de se servirem de escravas criou no do de vida aristocrático, essa desterrada fidalguia tro- mundo dos senhores uma divisão racial do sexo. A pical. Dependência estrita, contínua, palpável, que se esposa branca era a dona da casa, a mãe dos filhos. procurava diluir pelo aviltamento do escravo, subme- A negra, a mulata, o território do prazer. tido ao labor incessante, à obediência cega, à humi- não tinha condições de constituir fa- lhação e ao castigo. mília. Longe de sua terra, de seus parentes, impedi- dos de dar seguimento à linhagem, os negros per- diam as suas estruturas familiares. E, no Brasil, a poligamia tribal da cultura africana foi substituída pelas ligações múltiplas e passageiras.84 Vera Lúcia Amaral Ferlini A civilização do açúcar 85 Nos Estados Unidos, principalmente no século A moradia do senhor, colocada em sítio privile- XIX, houve interesse por parte dos senhores na for- giado de onde se descortinava todo o domínio, era mação de núcleos familiares que pudessem garantir a ampla, de cal e pedra. Geralmente construída em proliferação dos negros. A família negra, constituída dois pavimentos, amplas varandas garantiam som- à semelhança da dos brancos, recebia casa e terreno bra e temperatura agradável aos cômodos internos: para cultivo, prendendo-se ao senhor e garantindo a numerosos quartos, amplas salas, imensa cozinha. reposição do plantel. Ao lado dos senhores, dentro da casa-grande, Aqui tal não aconteceu. o tráfico regular até convivia a escravaria doméstica: mucamas, amas-de- 1850 garantia o abastecimento de negros, e comprar leite, arrumadeiras, cozinheiras. Em dias de festas escravos adultos saía mais barato do que criar seus esses escravos, bem vestidos mas circula- filhos. Homens e mulheres alojavam-se separada- vam pelas salas e varandas, trazendo refrescos, arru- mente nas senzalas, dificultando os contatos sexuais, mando mesas, oferecendo iguarias. E no dia-a-dia, que eram realizados furtivamente, sem interesse na embora faltasse a opulência e o luxo das festas, lá constituição de prole. Tais uniões eram toleradas, estavam os serviçais que tudo faziam: adormeciam embora desestimuladas. crianças, costuravam, limpavam, arrumavam, cozi- Mesmo assim, crianças negras e mulatas nas- nhavam. ciam. Privados de outra família que não a do senhor, A influência negra na foi marcante. a comunidade negra era seu lar. A política dos se- uso do quiabo, da banana, a grande variedade de nhores, que dissolveu a família africana e não esti- formas de preparo de peixes e de aves, o vatapá, o mulou a agregação dentro dos padrões europeus, deu caruru, a feijoada, o acarajé, o sabor forte do dendê e origem a uma forte solidariedade grupal, onde a vida da pimenta, a utilização do coco testemunham a da comunidade era mais importante do que a fa- presença dos escravos na cozinha colonial, trazendo mília. até nós o tempero e a criatividade do africano. A senzala era território dos negros. Construída à de cárcere, retangular, térrea, sem outra mobí- Casa-grande & senzala lia que os catres de palha suja, recobertos de trapos, poucos tamboretes e baús. Mundo de senhores e de escravos, a sociedade Ao amanhecer, o gongo marcava o despertar, açucareira vivia em função da casa-grande e da sen- seguido de uma ração de farinha de mandioca e zala, habitações fundamentais da grande proprie- um pouco de caldo de cana. Partiam os escravos para dade. o trabalho, distribuído após a prece comum frente à86 Vera Lúcia Amaral Ferlini A civilização do açúcar 87 casa-grande, levando mais um pouco de farinha, um A religião pedaço de peixe ou carne-seca, para matar a fome durante a longa jornada. Alguns senhores não forne- Impossível pensar esse universo sem a força do ciam a alimentação a seus escravos, deixando-lhes os catolicismo. A colonização do Brasil, marcada desde domingos para trabalharem suas roças de mandioca, o início pela cruz, teve na religião ponto de apoio com o que se sustentavam, enriquecendo a ração com para a dominação e para a repressão e subordinação melaço, siris, caranguejos e mariscos, abundantes do negro e do índio. No engenho, ao lado da casa- nos mangues. maltratar escravos não era sinônimo grande ou mesmo em seu interior, a capela estava de pobreza dos senhores. Os relatos coloniais teste- presente. A religiosidade, porém, não era profunda, munham que os proprietários mais pobres cuidavam mas a manifestação de um culto misto de respeito aos de seus negros com mais humanidade. costumes europeus e reunião social, ponto impor- Mal alimentado, andava o escravo praticamente tante dos principais momentos da vida da colônia. em farrapos. Sua vestimenta para um ano não exce- As festas e cerimônias religiosas uniam o mundo dia um par de camisas e saias ou de algodão do açúcar. A missa dominical trazia às capelas a grosseiro, mais dois pedaços de baeta para dormi- população das lavouras mais próximas. Os dias san- rem. Apenas os domésticos usavam, em festas ou ao tos multiplicavam-se ao ano, propiciando novos en- acompanharem os senhores, vestimenta melhor, às contros. Batizados e casamentos eram, também, vezes até luxuosa. celebrações importantes. Nos primeiros dias de moa- Terminado o trabalho, era para a senzala que gem da cana realizava-se missa solene, seguida de o negro voltava. Ali recordava a liberdade perdida, das instalações e da introdução simbólica de a África distante. Seus cantos e danças, marcados feixes na moenda. início da safra ocorria em pelo som mágico dos atabaques, não eram facilmente agosto, e a festa, em muitas localidades, realizava-se tolerados pelos proprietários. Privados no dia 6, sendo conhecido como dia do Bom Jesus da mente dessas humildes alegrias de povo oprimido, os Cana Verde. Em todas essas comemorações, termi- negros eram vítimas do banzo, da catatonia, da lou- nada a cerimônia religiosa, iniciavam-se os banque- cura mansa, que os livrava da escravidão, deixando- tes e até se permitiam, aos negros, danças e cantos. se morrer indiferentes à fome, aos castigos. universo religioso dos negros foi dilacerado no convívio colonial. A integração ao cristianismo dava- se praticamente à força. Batizados muitas vezes ainda em África antes do embarque nos tumbeiros, no Brasil só eram permitidas aos negros manifesta-88 Vera Lúcia Amaral Ferlini A civilização do açúcar 89 ções religiosas dentro dos parâmetros do catolicismo. lores místicos primitivos. Vítima de um processo constante de despersonali- A organização de confrarias católicas negras, a zação, o escravo era desafricanizado, obrigado a falar partir do século XVII e principalmente durante o o português e a seguir a religião dos brancos. Os século XVIII, atendeu à necessidade de criação de cultos africanos, ilegais, levavam o estigma de bru- um espaço religioso para os negros, que dissolvesse a xaria e feitiçaria, sendo relegados à obscuridade, à resistência e facilitasse sua acomodação à cultura marginalidade. Vilhena, no início do século XIX, dominante. Embora permitissem a participação dos observava, em suas Notícias Soteropolitanas, que não negros em festas religiosas, as formas musicais e se devia tolerar, nas cidades, a prática dos cultos estéticas africanas eram diluídas e formalizadas den- negros, com seus batuques bárbaros, "dançando de- tro dos padrões brancos. Com o passar do tempo, a sonestamente as canções gentílicas e falando línguas repetição transformava essas manifestações mais em diversas, em alaridos tão horrendos e dissonantes lembrança de extintos valores do que expressão cria- que causam medo e estranheza". tiva da cultura negra. De qualquer forma, as con- Media-se a integração do negro aos valores frarias foram elementos de solidariedade dos negros, brancos, além da submissão ao trabalho, pela prá- possibilitando sua aproximação, o contato e a orga- tica do catolicismo. Ir à missa, entoar cânticos reli- nização dos escravos, ainda que sob as vistas vigilan- giosos, seguir procissões, acompanhar o terço às tar- tes da sociedade branca. Dentro dos seus limites, des eram manifestações exteriores de adesão aos pa- procuravam socorrer escravos doentes, abandonados drões dos senhores. A persistência nas práticas reli- pelos senhores, dotar negras livres pobres para casa- giosas africanas representava rebeldia e era punida. mento, comprar alforrias. Acusados de feitiçaria, bruxaria, magia, negros fo- Mas mesmo perseguidos, os cultos afros perma- ram levados, durante o período colonial, às barras do neceram. Por muito tempo, em locais escondidos, Tribunal da Inquisição. nas capoeiras das matas, distantes dos núcleos ur- Submetido a verdadeiro estado de sítio, proibido banos. Depois, lentamente, em unidades quase con- de expressar qualquer coisa que lembrasse a África, ventuais, nos de subúrbio. Sempre, po- o escravo vivia duas realidades religiosas: o catoli- rém, protegidos da curiosidade dos brancos, prati- cismo do branco, símbolo da opressão mas passa- camente secretos. candomblé baiano guarda, até porte para a integração; e as religiões africanas, resto hoje, esse caráter reservado. de liberdade perdida, símbolo de resistência, mas E o tão divulgado sincretismo entre os ritos ne- sinônimo de rebeldia. A prática do catolicismo pelos gros e o culto católico? Rigorosamente não existe, escravos, em geral, era superficial e remetia aos va- pois o que os negros nos legaram, sob a imposição da90 Vera Lúcia Amaral Ferlini A civilização do açúcar 91 situação de escravidão, não é a fusão de elementos culturais diferentes. Aproveitando-se de exteriori- habitantes. Olinda e Recife, à época das invasões dades católicas, principalmente seus santos e dias holandesas, contavam, juntas, cerca de 12 mil habi- tantes. consagrados, os negros mantiveram a essência ani- mista de seu culto e o caráter mágico de seus ritos. Se Os senhores de engenho e lavradores possuíam os orixás adquiriram imagens católicas, não perde- casas nas cidades, mas delas estavam ausentes a ram suas virtudes e seu papel, antes os santos foram maior parte do ano, entregues aos trabalhos da safra. levados ao universo de valores dos negros. Em geral, entre os meses de maio e de julho as cida- des ficavam repletas, estimuladas pelos negócios e pela chegada dos navios. A marca do escravismo era visível nos centros As cidades do açúcar urbanos. Os principais portos possuíam mercados de escravos, às vezes grandes onde os ne- Embora os canaviais e os engenhos fossem o gros aguardavam comprador. Nas construções urba- próprio centro da Colônia, o açúcar gerou cidades. nas, a estratificação social era visível. Quando se tra- Foram cidades administrativas e mercantis, cidades tasse de sobrado, as acomodações ao rés do chão de magistrados, de governadores, de embarcadouros, serviam de abrigo aos escravos, enquanto os brancos de navios e comerciantes, com urbanização peculiar. proprietários viviam no pavimento superior. As casas Próximo ao porto estava a cidade comercial, com seus armazéns e lojas de mercadores; mais distantes, baixas, de chão de terra batida, eram sinônimo de de preferência num plano mais alto, situavam-se as baixa condição social e apenas a população mais habitações e prédios administrativos. Salvador, sem pobre nelas habitava. mundo urbano reproduzia a dúvida, era uma cidade característica, com dois pla- seu modo a diferenciação rural das casas-grandes e das senzalas. nos distintos: a cidade baixa, com sua longa e si- nuosa rua da Praia, entrecortada por becos e ponti- A cidade representava o mundo da dominação lhada de casarões e armazéns, e a cidade alta, onde metropolitana, da administração e do fisco, do porto e do comércio. Essa oposição entre os interesses dos estavam as residências nobres e os prédios adminis- plantadores de cana e dos senhores de engenho e os trativos, as igrejas e as praças. representantes da Coroa e do comércio europeu fi- Cidades pobres, que viviam dos rendimentos do caram patentes em diversos momentos. comércio e que nada produziam, consideradas pe- Os primeiros atritos entre os colonos e os repre- quenas pelos padrões europeus contemporâneos. Sal- sentantes da administração e do capital mercantil vador, a maior, tinha em 1724 pouco mais de 25 mil europeu se fizeram sentir a partir da segunda metade92 Vera Lúcia Ferlini A civilização do açúcar 93 do século XVII, quando a importância do açúcar lavoura de exportação eram então empregados como brasileiro iniciou seu declínio. A centralização do mão-de-obra das construções e como criadagem. governo aumentou, submetendo os segmentos de ex- O econômico dos senhores de engenho e portação a rígido controle. Intensificaram-se o mo- dos lavradores de cana foi acompanhado pelo cresci- nopólio e a exploração comercial, principalmente em mento da importância burocrática e financeira dos função do regime de frotas. Os proprietários rurais comerciantes, gerando atritos diretos entre os dois passaram a sofrer novos encargos fiscais, ao mesmo grupos. A nova situação representou o início de um tempo que os preços do açúcar caíam acentuada- período de conflitos, com a eclosão de revoltas como mente. a do Barbalho, em 1660 no Rio de Janeiro, a de A sociedade açucareira entrou numa espécie de Beckman, em 1684 no Maranhão. Mas o exemplo amortecimento, embora os engenhos continuassem a mais radical desse confronto foi a Guerra dos Mas- operar, buscando manter o padrão anterior. Decli- cates, em Pernambuco, no início do século XVIII. nou, porém, o interesse dos proprietários menos abo- A aristocracia de plantadores de Olinda resistia à nados pelas lavouras de cana, que voltaram a ser emancipação do Recife, até então habitada pelos cultivadas às expensas dos engenhos. Esses exceden- comerciantes do Reino, apelidados, pejorativamente tes populacionais passaram a buscar outras ocupa- "mascates". Não era apenas uma questão social, ções, quer a agricultura de subsistência, quer as mas sim jurídica e econômica. Se Recife fosse ele- ocupações urbanas. Ao mesmo tempo, a política de vada à categoria de vila, disporia de Câmara Muni- centralização comercial reforçava a transferência cipal autônoma e de mecanismos legais para execu- para o Brasil de portugueses dedicados ao grande tar os débitos dos plantadores de Olinda. O conflito comércio, sob o controle das Companhias. Aos colo- que explodiu entre 1710 e com a nos restavam apenas o pequeno comércio de varejo e vitória de Recife e, conseqüentemente, dos comer- as profissões mecânicas. ciantes sobre a aristocracia rural. Com seu desenvolvimento tolhido, submetida ao controle político e comercial de Portugal, a aristo- cracia rural buscou sua afirmação no plano político interno, vetando a participação dos comerciantes nas Os pobres do açúcar Câmaras, adotando padrões de vida luxuosos, osten- Não nos enganemos também com a opulência tando escravos, construindo residências urbanas ri- dos senhores, pois além da miséria visível e impres- quíssimas. Toda essa ostentação era uma forma de cindível do negro, a sociedade açucareira arrastava esconder a crise, pois os escravos antes ocupados na consigo uma legião de marginalizados, de excluídos,94 Vera Lúcia Amaral Ferlini A civilização do açúcar 95 que compunham o pano de fundo do "paraíso do ticulares, ativadas pelos constantes conflitos por açúcar": prostitutas, ladrões, mendigos, feiticeiros, terra e por honra, entre as famílias de proprietários. biscateiros. Outros excluídos da riqueza do açúcar viviam na ci- Em Salvador, no século XVIII, a prostituição dade, exercendo profissões humildes: barbeiros, sa- era praticada por mulatas livres e mesmo por mu- pateiros, ferreiros, pobres alfaiates, vendedores de lheres brancas, oriundas das camadas mais pobres. cestos, quituteiras a oferecer em tabuleiros seus do- Embora o meretrício não fosse permitido, era tole- ces e guloseimas. E embora fossem pobres, não lhes rado, e multiplicavam-se as queixas de que, mistura- das à população "honesta", essas mulheres, com pesava essa pobreza. A maior humilhação dessa so- ciedade não era a miséria, nem ao menos a mendi- suas "palavras torpes, proferidas altamente e sem pejo", servissem de mau exemplo. Recomendava-se cância. O ponto mais baixo era a escravidão, e para fossem elas transferidas para os subúrbios, limpando não serem confundidos o escravo, tudo era su- a cidade do que se chamava "praga contagiosa da portável. Conta-se que criados brancos, trazidos de Portugal, ao se aperceberem de que no Brasil seu depravação". trabalho era atribuição de escravos, procuravam se O mulato e a mulata eram os mais estigmati- zados nessa sociedade. Criados à sombra da casa- acomodar a qualquer emprego público a que os ne- gros não tivessem acesso. Se não conseguissem, pre- grande e à margem da senzala, não se enquadravam feriam ser vadios ou soldados, simplesmente para no mundo dos brancos nem dos negros. Essa posição não se submeterem a "trabalhos de negros". deu ao mulato a agressividade, que foi seu instru- Do mundo do açúcar nascia o Brasil, marcado a mento de sobrevivência. Eram, por isso, conside- ferro e fogo pela colonização, pelo estigma do tra- rados vadios, insolentes, atrevidos e preguiçosos. balho escravo, pela tirania do mercado externo. E Apenas, como os brancos, os mulatos livres abomi- assim permaneceria, escravizado pela ditadura do navam o trabalho, marcado pelo estigma da escravi- latifúndio. dão. E, igualmente, brancos pobres e mulatos livres preferiam a mendicância ao trabalho manual. Muitos desses pobres livres viviam à sombra do engenho, onde obtinham comida e proteção, em troca de pequenos serviços. Formavam a legião de agregados da casa-grande, parte do mundo do açú- car. Os senhores também arregimentavam entre essa população pobre os "soldados" de suas milícias par-A civilização do açúcar 97 portantes subsídios sobre os mecanismos de monopólio, capitalização e fluxo de renda. Incorporando e ampliando as análises de Caio Prado Júnior e Celso Furtado, a obra de Fernando Novais, Portugal e Brasil na Crise do Antigo Sistema Colonial (1979) constitui o mais abrangente es- tudo da colonização como sistema integrado ao processo geral de acumulação primitiva de capitais, articulado es- truturalmente em torno do escravismo, a partir da INDICAÇÕES PARA LEITURA mica mercantilista. Polêmico, iconoclasta, discutível, mas instigante, Jacob Gorender, em Escravismo Colonial (1978), procura demonstrar haver sido o complexo mono- cultor escravista colonial um modo de produção especí- Procuramos, neste livro, oferecer uma visão geral da fico, dotado de leis de funcionamento e de reprodução próprias. sociedade açucareira nos primeiros tempos da coloni- zação, de forma a estimular o questionamento e aprofun- Para o estudo da história geral do açúcar, da anti- damento dos temas abordados. Para isso, dentre a vasta güidade ao século XX, consulte-se Noel Deerr, The His- bibliografia sobre o assunto, apontamos um roteiro crítico tory of Sugar (1950) e Edmund O. von Lippmann, Histó- de leituras básicas. ria do Açúcar (trad. port. 1942). Sobre o sentido da colonização, devem ser lidos ini- Quadros gerais sobre o complexo açucareiro nordes- cialmente os clássicos de Caio Prado Júnior, marcos da tino podem ser encontrados em Gileno de Carli, Açúcar historiografia marxista no Brasil: Evolução Política do na Formação Econômica do Brasil (s.d.), Hamilton Fer- Brasil (1933), Formação do Brasil (1942) nandes, Açúcar e Ontem e Hoje (1971) e Manuel e História Econômica do Brasil (1945).* Tomando por Diégues Júnior, Engenho de Açúcar no Nordeste (1952). base de reflexão o cerceamento estrutural à industriali- Dentre os relatos da época colonial destacamos: Fernão zação e o estrangulamento do mercado interno no Brasil, Cardim, Tratados da Terra e Gente do Brasil (século Celso Furtado, em Formação Econômica do Brasil (1959), XVI); Gabriel Soares de Sousa, Notícia do Brasil (1587); analisa a estrutura de implantação e funcionamento da Diálogos das Grandezas do Brasil (anônimo, 1618); economia açucareira nordestina, oferecendo ao leitor im- Adriaen van der Dussen. Relatório sobre as Capitanias Conquistadas (1639); Frei Vicente do Salvador, História do Brasil (1627); Antonil, Cultura e Opulência do Brasil (*) As datas referem-se às primeiras edições das obras citadas. por suas Drogas e Minas (1711); Luiz dos Santos Vilhena,