Prévia do material em texto
DIREITO PROCESSUAL PENAL I - Prof. Mauro Andrade. RESOLUÇÃO DE CONFLITOS - Pressuposto de necessidade de regramentos para viver em grupo de forma pacífica. - Interesse enquanto a relação do homem com o bem da vida. - Havendo disputa ou ferimento sobre determinado bem, surge a necessidade de proteção ao interesse lesionado ou posto em perigo (conflito de interesse). - Exemplo: bem da vida disputado entre dois ou mais ser humanos, ou quando o bem de um é lesionado por outro. - Conflito de interesses > litígio. Formas de resolução: Autodefesa: Sujeito que se vê ameaçado ou agredido por uma ou mais pessoas, de modo a necessitar de uma postura defensiva. - Imposição/sacrifício do interesse alheio por meio da justiça com as próprias mãos. - Forma mais primitiva de resolução. - Menos complexa. - Reativa, reação natural do sujeito lesado. - Processo posterior para ratificação da conduta. Exige, ainda hoje, que haja um processo judicial sendo utilizado como ratificador da conduta, ou seja, deve haver a intervenção judicial para reconhecer que a conduta praticada em autodefesa seja válida. - Problemas: - É instintiva, não há uma racionalização sobre como atuar. - Há o risco do desequilíbrio de forças, como, por exemplo, o ofendido ser mais fraco que o ofensor. Excesso na legítima defesa. - Não reação do ofendido. Prisão preventiva. - Conversão do sujeito ativo da reação em sujeito passivo na persecução penal. DIREITO PROCESSUAL PENAL I - Prof. Mauro Andrade. - Instauração de processo para convalidação para forma de autodefesa. A reação, se não ficar plenamente configurada na fase de investigação, pode motivar o MP a ajuizar ação condenatória pedindo a condenação do sujeito ativo dessa reação (vítima) contra o ofendido (agressor), se houver excesso. - Índoles: - Bilateral: lógica antiga dos duelos. Os dois sujeitos que vão se enfrentar se colocam em situação de provável agressor e provável agredido. - Unilateral: exemplificada pelo Estado de necessidade, onde a vítima de uma agressão se coloca como o atacante, ou seja, ela que provoca a lesão em algum bem de terceiro para poder se defender (ofendido - coisa). - Difere da legítima defesa, em que o sujeito ativo seria o atacado, postura de resposta a uma agressão pessoal feita contra ele (ofendido - alguém). - Âmbito civil: desforço pessoal, art. 1210, §1º, e art. 1283 (árvores e raízes). Autocomposição: Solução parcial alcançada pelos envolvidos. Há um consentimento no sacrifício do próprio bem de um dos interessados pelo mínimo. Quem tem o interesse em conflito com um terceiro, acaba consentindo em perder algo nesse conflito, mas de modo que essa perda seja encarada como um benefício para ela. - Vários tipos de benefício. - Ajuste de vontades entre os envolvidos, de modo a que esse acordo firmado entre eles seja destinado a reparar os danos provocados pelo conflito de interesses/evitar que mais danos venham a ocorrer. - Processo posterior para ratificação da conduta. Intervenção judicial é necessária. - Ius puniendis ou ius libertatis . - Pontos positivos: - Reflexiva. Não mais intuitiva ou instintiva. - Celeridade na reparação do dano. DIREITO PROCESSUAL PENAL I - Prof. Mauro Andrade. - Economia de custos. Pode não ser necessário o ajuizamento de um processo penal condenatório. - Pode ocorrer antes (colaboração premiada) ou depois do processo finalizado (último caso só nos processos civis). - Pontos negativos: - Pode envolver litigante de menor resistência. Tratar com alguém, oferecendo uma negociação para aquela pessoa, de forma que ela não tenha condições de aceitar. - Excesso no exercício do direito de autocomposição. - Parte hipossuficiente (não consegue arcar com os custos dos danos provocados); - Parte não interessada na composição. - Índoles: - Unilateral: Quando a autocomposição parte de um lado só. - Desistência do pedido (pessoa que foi a vítima do infortúnio não ajuiza ação e deixa dessa forma). Não quis procurar seu direito à reparação. - Também quando já havendo o processo, quem figura como réu simplesmente reconhece o pedido. Confissão/revelia, em que a pessoa deixa claro que concorda com a pretensão do seu opositor. Consenso tácito. - Bilateral: Formas de resolução de conflitos aplicáveis no processo penal, como a composição de danos (JECrim), transação penal, suspensão condicionais do processo, perdão do ofendido aceito (ação penal privada), colaboração premiada e o acordo de não persecução penal. - Acordos formulados e caracterizados dessa índole bilateral da autocomposição. - Juizado Especial Criminal: depende do tipo de crime envolvido. Em um crime de menor potencial ofensivo é processado junto ao Jecrim, o primeiro ato que se terá será uma audiência de tentativa de conciliação entre o agressor e o agredido. Nessa audiência, verá se a vítima faz algum acordo com seu agressor. Se esse acordo foi alcançado e homologado judicialmente, em tese, termina ali e não se tem seguimento o processo. - Não sendo realizado acordo, é possível passar uma segunda etapa. A vítima não é mais alguem atuante, e DIREITO PROCESSUAL PENAL I - Prof. Mauro Andrade. a palavra vai para o MP, que propõe a transação penal para o autor do fato (agressor), como realização de serviços comunitários, etc. Se a transação for acolhida pelo ofendido e, após, cumprido os termos do acordo, termina ali o processo. Não sendo aceito/cumprido pelo agressor, o agredido poderá propor a denuncia e ajuizar ação (Lei 9.099/95). - Acordo não persecução penal (Resolução 181 CNMP, art. 18-A). - Todas as formas por meio da autocomposição também necessitam de intervenção judicial em nível processual. Processo: Solução parcial alcançada por um terceiro. - Grande pergunta: O que é processo penal? - Obra: Conceito do Processo Penal (Evandro Munis Netto). Do Contrato Social (Rousseau). - Ius puniendi : direito de punição ao quebrar regras básicas. - Nas mãos da vítima: vítima podendo punir o agressor (diferente de autodefesa). - Nas mãos da sociedade: possibilidade de punição saindo da vítima para a sociedade. - Deslocado para o Poder Judiciário : deveria se tirar o direito de punição das mãos de particulares, e passar para uma Instituição que pudesse efetuar essa punição de uma forma mais distante do envolvimento emocional relativo ao fato praticado. A instituição será o Judiciário. - Princípio da imparcialidade judicial. - Viabilidade ou inviabilidade do direito de punir. - Existem limitações ao poder punitivo do Estado: - Reserva legal (CF, art. 5º, XXXIX); - Devido processo legal (CF, art. 5º, LIV). - Juiz natural. - Previsão de qual será o juiz encarregado do julgamento do fato praticado por alguém e que ninguém possa tirar esse juiz para colocar outro (mais benéfico ou mais rigoroso). DIREITO PROCESSUAL PENAL I - Prof. Mauro Andrade. - Processo enquanto exercício da jurisdição. - Resolução de conflitos na esfera processual penal. - Ponto comum: - Necessidade de intervenção judicial. - Processo. - Finalidades do Direito Processual Penal:eram os representantes do MP. - Mas, ainda assim, a investigação criminal mais utilizada a época era a investigação dos juízes de instrução (juízes investigadores). Hoje, no brasil, seriam os delegados de polícia. - Principal problema do Sistema Misto: - Perda da imparcialidade do juiz , pois o juiz que investigava também poderia julgar. - Incidência do princípio contraditório na fase de investigação . - Repetição desnecessária da instrução feita na fase de investigação. DIREITO PROCESSUAL PENAL I - Prof. Mauro Andrade. - Quando o juiz já havia firmado sua convicção na fase de investigação, uma vez que era quem julgava. - A fase tida como mais importante era a fase de investigação, uma vez que a segunda fase se mostrava mais como uma uma repetição da primeira. Porém, entende-se que isso seria uma inversão de valores, visto que a fase mais importante deve ser sempre aquela posterior à acusação , uma vez que é a acusação que delimita o conteúdo do que será julgado. - Só que a acusação aparecia, portanto, após o término da investigação. A investigação serve para embasar o oferecimento da ação penal condenatória. Logo, o principal problema, aliado a perda de parcialidade do juiz, era o efeito que o princípio do contraditório trazia para a ação penal, que ficava inchada e, na fase probatória, teria que ficar sendo repetida. - Ainda hoje existe a Instauração de investigação criminal judicial pelo STF. - Exemplo: inquérito das Fake News (2019). - Solução encontrada: - Afastamento do juiz da presidência da investigação. - Se o juiz que investiga já forma sua convicção na fase de investigação e, portanto, na fase de julgamento, já não muda de percepção, o mais lógico é removê-lo da fase investigativa. - O juiz fica somente a cargo do julgamento, enquanto a investigação fica a cargo do MP. - Concessão da presidência da investigação ao Ministério Público. - Reformas na Alemanha (1974); Portugal (1988); Itália (1989). Linhas teóricas de Sistema Misto: - Qualquer Mistura: qualquer mistura entre sistema acusatório e sistema inquisitivo já é suficiente para justificar a existência do sistema misto. - O que não é verdade, pois não pode ser qualquer mistura. O que precisa haver é a mistura de certos elementos específicos. - Exemplo: se pegar o princípio inquisitivo (do sistema inquisitivo), que é a desnecessidade de um acusador diferente do juiz, e colocar o elemento “igualdade de armas” do sistema acusatório, não justificaria a criação do sistema misto. Isto pois o princípio inquisitivo nunca esteve presente do sistema misto e nem no acusatório. DIREITO PROCESSUAL PENAL I - Prof. Mauro Andrade. - Tipos Ideais: definições pessoais de cada autor, que não necessariamente possuem raízes históricas e, também, não se encaixam na forma como o código estruturou o sistema misto. - Cada autor acha que existe um tipo de atribuição de determinada configuração ao sistema misto, o que não leva a um critério seguro de identificação do sistema misto. - Teoria da Gestão da Prova: para essa linha teórica, não existe sistema misto, uma vez que define o sistema inquisitivo como sendo aquele em que há um juiz ativo na produção de provas e o acusatório enquanto sistema em que o juiz permanecesse inerte na produção probatória. - Inexistência de meio termo. - Teoria dos Elementos Fixos: propõe que é preciso ter dois elementos que nunca mudam no sistema misto: - Princípio acusatório: tem que ter um acusador diferente do juiz (buscado do sistema acusatório). - A forma como o processo começa aproveita duas situações próprias do sistema inquisitivo: - O processo começa de ofício (pelo juiz); - O processo começa com uma notitia criminis (B.O.). - A acusação fica no meio, na divisão, das duas fases do processo: a fase de investigação (processo) começa por um boletim de ocorrência ou porque o juiz quer, depois é feita toda a investigação e, após a conclusão, faz-se a acusação. - A acusação abre a segunda fase do processo que é a fase de instrução e julgamento. - Processo começa, portanto, já na fase de investigação. - Forma mais simples de assegurar que a persecução penal terá início, ou seja, que quem praticou um crime não ficará impune. - Mesmo que o acusador não queira oferecer a denúncia depois, a investigação criminal será realizada, podendo inclusive a pessoa ser presa em flagrante ou preventivamente. Logo, a primeira etapa do processo irá existir. Sistema Processual Penal Prevalente: Qual dos sistemas se ajusta as necessidades nos dias atuais? - Sistema Acusatório Clássico: apresenta, como problema, a imperfeição da impunidade pela existência da figura dos acusadores populares ou particulares. DIREITO PROCESSUAL PENAL I - Prof. Mauro Andrade. - Sistema Inquisitivo Clássico: tinha, como problema básico, o rigor na busca de informações, pela necessidade de se ter um ‘condenado’ e o modelo de participação do juiz do processo, com imparcialidade e erros judiciais. - Sistema Misto: o problema é a forma como o processo tem início, ou seja, mesmo antes da abertura da acusação. - A abertura do processo sem provocação do Poder Judiciário (= oferecimento da acusação). - Perda de imparcialidade do juiz que investiga (= juizado de instrução). Juiz agindo como delegado de polícia. Assim, todos os sistemas possuem seus problemas. Entretanto, o sistema acusatório é visto como sendo o melhor dentre os três que existiram ao longo da história, estando em ascenção no ocidente. No Brasil, o sistema misto é situação isolada, somente ocorrendo com a possibilidade de abertura de investigação pelo STF. Sistema Processual Penal Brasileiro: Qual dos sistemas nós temos? - Sistema acusatório: - O argumento utilizado para justificar que seria esse o nosso sistema é o de que o MP é o titular da ação penal (art. 129, I, CFB) . Assim, haveria separação obrigatória entre quem acusa e quem julga. - O problema é que deixa de fora as ações penais privadas que, embora não sejam muitas, existem no processo penal nacional. - Se a definição não abrange a totalidade das ações que temos, ela não responde a questão. - Outro argumento seria o das garantias processuais contidas na CFB. - O problema é que há países que adotam o sistema misto e possuem as mesmas garantias adotadas pela nossa (ou até mais). Logo, as garantias constitucionais não definem o sistema processual penal como sendo acusatório. - Ainda, tem-se o argumento de que o sistema é acusatório porque se adota o regime democrático de direito . - Mesma lógica dos países que tem o sistema misto mas também são países que adotam um estado democrático de direito (Espanha, por exemplo). - Não é suficiente, também, para delimitar um sistema processual penal como acusatório. Na Espanha, por exemplo, tem-se a lógica do DIREITO PROCESSUAL PENAL I - Prof. Mauro Andrade. juizado de instrução do sistema misto, ou seja, quem investiga é o juiz, ainda que seja um estado democrático. - Sistema Inquisitivo: - Tem-se o argumento de que seria o sistema inquisitivo o adotado noBrasil por conta da Teoria da Gestão da Prova , já que a legislação brasileira autoriza que o juiz atue de ofício na fase probatória, ainda que com limitações. - Teoria sem credibilidade e vazia de importância. - Sistema Misto: - A linha teórica que defende a existência do sistema misto no brasil pela existência do inquérito policial . Logo, para o autor que defende, a primeira fase do sistema misto seria o inquérito, que possui a lógica do sistema inquisitivo. E a segunda parte, com o oferecimento da denúncia, que possui uma lógica mais acusatória. - O problema é que o sistema misto, por ser de processo penal, exige que a primeira fase seja processual. Deveria ter natureza processual e o inquérito processual no brasil, todavia, é de natureza administrativa, portanto não tem o condão de iniciar um processo penal. - Via de regra, o processo começa por meio da acusação/pelo juiz. - Ainda, há uma indefinição sistêmica: ausência de previsão constitucional ou legal de um sistema processual penal misto. No brasil, temos, no mínimo, duas lógicas de sistema processual penal: - A lógica do Sistema Acusatório (teve ter um acusador diferente do juiz e processo iniciando com a acusação); - A lógica de que se deve ter um acusador diferente do juiz, mas com o processo iniciando através da investigação criminal judicial (caso dos processos/investigações liderados pelo STF). (exceção). A existência dessas duas lógicas exclui o conceito de sistema . Não sendo o processo penal de um país tratado de forma uníssona, tendo mais de um sistema aplicado no país (ou mais de uma lógica), não se tem, então, nenhum sistema aplicado . Portanto, é necessária uma definição legislativa. - Proposição: art. 5º (...). LIX - será admitida ação privada nos crimes de ação pública, se esta não for intentada no prazo legal. - Nesse caso, poderia ser alterado para constar “ o processo será de natureza acusatória , sendo admitida ação privada…(...)”. - Anteprojeto de Reforma do Código de Processo Penal: DIREITO PROCESSUAL PENAL I - Prof. Mauro Andrade. - Definição sistêmica (PLS 156/2009 - continua tramitando): - Art. 4º. O processo penal terá estrutura acusatória, nos limites definidos neste Código , vedada a iniciativa do juiz na fase de investigação e a substituição da atuação probatória do órgão de acusação. - PL 8045/2010: abriu novo número de processo, mantendo a preocupação com a definição do sistema, mantendo aquela redação. - CPP (Lei 13.964/2019 - Pacote Anti Crime) - Art. 3-Aº. O processo penal terá estrutura acusatória , (...). INVESTIGAÇÃO POLICIAL: Trata-se da investigação pela Polícia Judiciária, composta pela Polícia Federal e pela Polícia Civil. - Instrumento: - Inquérito policial. Teoria Geral do Inquérito Policial: - Definição: - Decreto nº 4.824, de 28/11/1871. Art. 42. O inquérito policial consiste em todas as diligências necessárias para o descobrimento dos fatos criminosos, de suas circunstâncias e de seus autores e cúmplices , devendo ser reduzido a instrumento inscrito. - Atualmente, não possui uma definição legal (prevista em lei). - Ao longo do tempo, essa lógica definitória foi se verificando com outras palavras em nossa legislação. O próprio CPP, em seu art. 4º, não fala do inquérito, mas fala do exercício da atividade da polícia judiciária. - Art. 4º CPP. A polícia judiciária será exercida pelas autoridades policiais no território de suas respectivas circunscrições e terá por fim a apuração das infrações penais e da sua autoria . - Lei nº 12.830/2013. Art. 2º, §1º. Ao delegado de polícia, na qualidade de autoridade policial, cabe a condução da investigação criminal por meio de inquérito policial ou outro procedimento previsto em lei, que tem como objetivo a apuração das circunstâncias, da materialidade e da autoria das infrações penais . DIREITO PROCESSUAL PENAL I - Prof. Mauro Andrade. - Não há uma definição específica do inquérito policial, mas fala da autoridade do delegado ser exercida por meio de inquérito ou outro procedimento previsto em lei, devendo estarem voltados à apuração das circuntâncias, materialidade e autoria . - Finalidade: - Apuratória, investigatória. - Não tem finalidade punitiva. - Não é por meio do inquérito que irá se chegar à condenação de alguém ou somente a apuração de informações destinadas a reforçar a atividade do acusador, seja ele público ou não-público. - Natureza jurídica: - Administrativa : - Ele não se configura como processo aberto. - Na nossa história, anteriormente à Constituição de 88, houveram situações em que o inquérito policial se configurava como processo aberto, tendo natureza processual, mas eram casos muito pontuais. - Com a Constituição de 88, que deu a titularidade exclusiva da ação penal ao MP e, por consequência, com a ação penal, a abertura do processo, somente ali é que o inquérito policial ficou restrito à esfera administrativa. - Para que algo seja considerado processo, portanto, somente a partir do ajuizamento da ação penal. - Presidência do Inquérito Policial: - Cabe, de forma exclusiva , à Autoridade Policial. - Art. 4º, caput, CPP. A polícia judiciária será exercida pelas autoridades policiais no território de suas respectivas circunscrições e terá por fim a apuração das infrações penais e sua autoria. - Art. 144, §4º, CF. Às polícias civis, dirigidas por delegados de polícia de carreira , incumbem, ressalvada a competência da União, as funções de polícia judiciária e apuração de infrações penais , exceto as militares. - Não é correto dizer que o MP, pelo controle externo que exerce sobre a investigação criminal da polícia, possui algum tipo de ascendência sobre à autoridade policial. - Da mesma forma, não se pode dizer que o fato de o juiz (Poder Judiciário) controlar a legalidade dos atos do inquérito policial e dos DIREITO PROCESSUAL PENAL I - Prof. Mauro Andrade. pedidos feitos na esfera de investigação, tem algum tipo de comando sobre o inquérito. - Somente a autoridade policial tem o comando sobre o inquérito . - Presidência x Condução: - Art. 47, CPP. Se o Ministério Público julgar necessários maiores esclarecimentos e documentos complementares ou novos elementos de convicção, deverá requisitá-los, diretamente, de quaisuqer autoridades ou funcionários que devam ou possam fornecê-los . - Significa que, de posse do inquérito policial, o MP pode complementá-lo. - Como que esse inquérito chega até o Ministério Público? - Quando ele já foi finalizado , momento em que o delegado de polícia encerrou a sua atividade investigatória e remeteu o inquérito ao Poder Judiciário, chegando às mãos do MP. - Em lugar do MP requisitar diligências para o delegado de polícia, ele pode já, de imediato, requisitar diligências diretamente para quem deve prestá-las, evitando a demora na tramitação do inquérito policial, em razão da sobrecarga de trabalho que atinge a Polícia Judiciária. - Quando a autoridade policial faz algum tipo de pedido de prorrogação do prazo do inquérito policial . Ele remete o inquérito àautoridade judicial, solicitando que o prazo da investigação seja ampliado. - De posse desse inquérito, pode o MP dar sequência a investigação dentro daquilo que ele entenda que seja necessário, com a finalidade de encerrar o quanto antes a investigação para que ele possa ajuizar, de logo, a ação penal condenatória que lhe cabe. - Verificação Preliminar de Informação: - Referido como “ outro tipo de instrumento investigatório .” - Art. 5º. (...)§ 3º, CPP. Qualquer pessoa do povo que tiver conhecimento da existência de infração penal em que caiba ação pública poderá, verbalmente ou por escrito, comunicá-la à autoridade policial, e esta, verificada a procedência das informações, mandará instaurar inquérito . - Sempre que a autoridade policial tiver dúvidas sobre a instauração ou não de inquérito policial, ele poderá dar margem a abertura de um expediente para obter informações que deem mais segurança para a instauração do inquérito policial. DIREITO PROCESSUAL PENAL I - Prof. Mauro Andrade. - Esse tipo de expediente não precisa ocorrer sempre, mas somente quando houver alguma dúvida sobre a veracidade das informações que foram dadas à autoridade policial quando da solicitação de abertura de algum inquérito policial. - Características da investigação criminal (inquérito) : - Prescindibilidade: - Art. 4º, § único. A competência definida neste artigo não excluirá a de autoridade administrativas , a quem por lei seja cometida a mesma função. - O inquérito policial não é imprescindível para o ajuizamento da ação penal condenatória, seja por parte do MP ou de outra pessoa com legitimidade para tanto. - Desde a década de 40, quando da entrada em vigor do CPP, era possível a existência de outras investigações diversas daquelas que é a policial. - Após a entrada em virgor do CPP, nunca a polícia judiciária teve a exclusividade da investigação criminal. - Importante ponto nas discussões que já ocorreram em torno da legalidade/constitucionalidade ou não da investigação do MP. - Indisponibilidade: - A autoridade policial não pode dispor de uma investigação criminal já instaurada , ou seja, não pode determinar o arquivamento de um inquérito policial. - Isto pois a investigação não tem por destino ele próprio. Uma vez instaurada a investigação criminal, ela deve ser levada até o final. - Boletins de Ocorrência - situação diferente. - Os B.O.s podem permitir o delegado utilizá-los para instaurar inquérito policial ou não instaurar. De um B.O. em que apareça um fato atípico, o delegado de polícia possui plena liberdade para determinar o seu arquivamento, justamente porque o fato não se configura em um ilícito que precise ser apurado na sequência. - Fatos em que há atipicidade material. Exemplo: crimes de bagatela (crimes de um valor insignificante). DIREITO PROCESSUAL PENAL I - Prof. Mauro Andrade. - Ruído na doutrina: delegado deve ou não instaurar inquéritos policiais quanto o crime apurado disser respeito a um fato que atinge ao princípio da insignificância? - Consolidado na jurisprudência e doutrina: não cabe ao delegado de polícia fazer essa avaliação, até porque ele não tem muitos elementos que estão junto ao MP ou junto ao Poder Judiciário que pode corroroborar ou afastar esse entendimento da autoridade policial quanto à atipicidade material. - Logo, o entendimento predominante é que mesmo diante de um fato que aparentemente tenha uma atipicidade material, a autoridade policial deve instaurar a investigação criminal e levá-la até o final. - Inquérito Escrito: - Art. 9º CPP. Todas as peças do inquérito policial serão, num só processado, reduzidas a escrito ou datilografadas e, neste caso, rubricadas pela autoridade. - “Datilografadas” por ser substituído, hoje, por digitado ou filmado, importando que as informações estejam materializadas em algum local a fim de que tudo aquilo que foi produzido ao longo do inquérito policial seja possível de ser acompanhado/conhecido por outras pessoas que não tiveram contato com o inquérito. - Ex.: O MP a hora de analisar a investigação para ver se oferece ou não a acusação; o Poder Judiciário, na hora de ver se concorda ou não com o recebimento da acusação apresentada pelo MP. - Escrito se refere à manuscrito. Os inquéritos policiais antigos eram redigidos à mão. - Sigiloso: - Art. 20, CPP. A autoridade assegurará no inquérito o sigilo necessário à elucidação do fato ou exigido pelo interesse da sociedade. - Art. 5º, inc. LX, CF: a lei só poderá restringir a publicidade dos atos processuais quando a defesa da intimidade ou o interesse social o exigirem. - Esse sigiliso não é uma peculiaridade do direito brasileiro, sendo encontrado em toda e qualquer legislação. - Motivos históricos: - Legislação espanhola. DIREITO PROCESSUAL PENAL I - Prof. Mauro Andrade. - Exposição de motivos do CPP espanhol (1882). - Francesco Carnelutti (doutrina clássica italiana). - Justificativa: - O investigado teve a possibilidade de planejar, executar, consumar a infração penal e se evadir. Caso desse a ele, também, a possibilidade de ter contato com a investigação criminal de forma completa, o que se daria ele seria a possibilidade de atrapalhar a investigação criminal. - Obs.: não se trata de juízo de valor em relação a se defesa fica prejudicada ou não, aqui só se está reproduzindo a lógica que levou a todo e qualquer país a possibilidade de haver o sigilo em sua investigação criminal. - Poderá ter um momento em que o investigado venha a ter contato com a investigação criminal, mas ela nunca se dará de forma completa, sob pena de atrapalhar a busca de informações para seu prosseguimento. - Súmula Vinculante n. 14, STF: “É direito do defensor, no interesse do representado, ter acesso amplo aos elementos de prova que, já documentados, em procedimento investigatório realizado por órgão com competência de polícia judiciária , digam respeito ao exercício do direito de defesa.” - O investigado, por meio de seu defensor, pode ter acesso a investigação criminal, mas somente aquilo que já estiver documentado. Essa exigência de documentação se refere àquelas medidas que ainda podem estar em andamento, como buscas e apreensões, cujos mandados estão na rua e ainda não foram cumpridos. Se a defesa souber desses mandados ainda não cumpridos, poderá ter-se uma dificuldade da autoridade policial em cumprí-los. - Também se aplica às situações de interceptações telefônicas em andamento, pois, caso o investigado saiba, será prejudicada a sua realização. - Quem decreta o sigilo? - Delegado de Polícia (autoridade policial). - Art. 20, CPP. A autoridade assegurará no inquérito o sigilo necessário à elucidação do fato ou exigido pelo interesse da sociedade. DIREITO PROCESSUAL PENAL I - Prof. Mauro Andrade. - É a autoridade policial a responsável pelo cuidado com o sigilo neste instrumento investigatório. - Poder Judiciário . - Lei nº 12.850/2013 - Lei das Organizações Criminosas. Art.23. O sigilo da investigação poderá ser decretado pela autoridade judicial competente , (...). - Não faz referência à autoridade policial, mas sim ao juiz. A lógica que atinge esse dispositivo, diz respeito a discussão acerca da natureza do sigilo e da publicidade. - O sigilo é uma exceção à publicidade dos atos processuais, no sentido mais amplo (não só do processo em si, mas também da investigação). - Por se encontrar no art. 5º da CF, a ideia é de que todo o direito fundamental deve ser restringido somente por ato da autoridade judicial, ou seja, neste ponto, haveria a reserva de jurisdição. (Questão defendida pelo professor desde 2006). - Porém, no direito brasileiro, é resguardada somente nesse dispositivo de Lei. - Há projetos de lei tramitando, de modo que cada vez mais se tem avançado para que a autoridade policial não seja a responsável pelo decreto de sigilo, e sim somente a autoridade judicial. - Inquérito Inquisitivo: - Motivos: - Ausência de publicidade da investigação criminal; - O fato de não haver uma ampla defesa, de forma tal como ocorre no processo; - Não poder incidir o princípio do contraditório. - Todos esses apontamentos não se justificam, todavia, para invocar o caráter inquisitivo do inquérito policial. - Isto pois, por ‘inquisitivo’, nós temos, tecnicamente, princípio inquisitivo ou sistema inquisitivo. Quando se fala em princípio inquisitivo , temos uma confusão entre quem acusa e quem julga - no inquérito policial, não tem nenhum acusador e nenhum julgador. Dessa forma, sob o ponto de vista DIREITO PROCESSUAL PENAL I - Prof. Mauro Andrade. principiologico, não cabe afirmar que o inquérito tem essa característica de ser inquisitivo. - Já sobre o aspecto sistêmico , vinculando-o ao sistema inquisitivo, o inquérito policial tampouco pode apresentar essa característica, vez que o sistema inquisitivo é um sistema de processo penal, e não um sistema de investigação criminal ou de persecução penal. - Quando se fala em sistema de persecução penal, aí sim tem-se a primária (fase de investigação), secundária (fase de processo de conhecimento), terceária (após a condenação, com a execução penal. O sistema inquisitivo só poderia existir na segunda fase. - Logo, a investigação/inquérito policial não poderia ter como característica ser inquisitva, por ser de natureza administrativa e não processual. - Ele é um procedimento de natureza administrativa veinculado ao princípio da legalidade. (Importante). - Sendo o inquérito policial um instrumento que não admite ilegalidades , sob pena de invalidade, ele não pode também, sob esse ponto de vista, ser considerado inquisitivo. Todo servidor público, de acordo com o art. 37 da CF, está veinculado ao princípio da legalidade, sendo o caso da autoridade policial. - O fundamento invocado para atribuir ter característica inquisitiva do inquérito policial cai por terra com o simples exame do que significa ser inquisitivo. - Ausência de exclusividade investigatória policial. - Art. 4º, §único, CPP. - PLS 135/2018. - Caso Favela Nova Brasília vs. Brasil. - Nos fatos envolvendo crimes praticados por policiais no exercício da função, e sendo esses fatos ligados a crimes de homicídios, tortura e estupro, esses crimes deveriam ser investigados não pode pela polícia judiciária, mas sim pelo MP ou pelo Poder Judiciário. - O parlamento brasileiro entendeu, em especial o Senado Federal, que essa investigação deveria ser realizada pelo MP, ao se propor o PLS 135/2018. DIREITO PROCESSUAL PENAL I - Prof. Mauro Andrade. - O importante é que se tenha noção dessa restrição que foi proposta - exclusão da polícia judiciária com a assunção da investigação criminal somente pelo MP ou pelo Poder Judiciário, tal qual foi a condenação que se teve no caso Favela Nova Brasília. - Início do Inquérito Policial: - Como que o fato/delito chega ao conhecimento da autoridade policial? Em três situações diferentes , conforme a doutrina: - Cognição imediata; - Meios de comunicação, informação pessoal. - Quando a autoridade policial toma contato diretamente com a existência de um fato seja por uma informação pessoal transmitida à ela, ou pelos meios de comunicação, em que o delegado de polícia tem condições de ter acesso. - Cognição mediata; - Notitia criminis por escrito. - É levado ao conhecimento do delegado pelos B.O.s. Não toma contato com pessoas, mas por meio de reclamações e pedidos de providências por escrito. - Cognição coercitiva. - APF. - Na lavratura dos autos de prisão em flagrante, onde o conhecimento sobre a infração penal é levado obrigatoriamente levado ao delegado de polícia, em razão de uma prisão em flagrante que veio a ocorrer. - Para que essa prisão seja formalizada, é preciso tomar uma série de procedimentos, sendo o primeiro deles levar essa pessoa à autoridade policial. - Formas de Instauração do Inquérito Policial: - De ofício; - Só nos crimes de ação penal pública incondicionada. - Caso em que o Estado tem a obrigação de atuar indepentemente da vontade da pessoa ofendida. - Por requerimento do ofendido; - Representação ; DIREITO PROCESSUAL PENAL I - Prof. Mauro Andrade. - Nas hipóteses em que o crime é de ação penal pública condicionada á vontade do ofendido. - Requerimento . - Provocação que uma pessoa faz à autoridade policial, pelo meio que entender adequada (geralmente por meio de registro de ocorrência (B.O.) ou por petição (chamada de requerimento) que, via de regra, é encaminhada pelo ofendido nos crimes de ação penal pública incondicionada ou nos crimes de ação penal privada. - Eventualmente, o requerimento também pode ser enviado por qualquer pessoa do povo, desde que o crime seja de ação pública incondicionada, dando informação ao delegado para que ele possa tomar providência. - Possibilidade de negativa do requerimento por parte da autoridade policial: o delegado de polícia não está vinculado à obrigação de atendê-lo. - No momento em que o delegado recebe o requerimento do ofendido, ele pode atender correto se negar a instaurar o inquérito policial. Isso se dá, dentre alguns motivos : - Fato manifestamente atípico (o que se está noticiando ao delegado não é crime); - Já extinta a punibilidade do agente; - Ser a autoridade incompetente para investigaão criminal. - Ocorre nos fatos em que aquele que deve ser investigado é alguém com prerrogativa de investigação (membro do MP ou integrante do Poder Judiciário). As investigações criminais, de acordo com legislação própria dessas instituições, devem ser realizadas interna corporis, ou seja, somente pelo próprio MP ou PJ. - Quando a autoridade policial se recusa a fazer essa investigação policial ou indefere o requerimento, deste indeferimento cabe recurso . - Recurso de natureza administrativa encaminhado ao Chefe de Polícia e, portanto, não é um recurso encaminhado ao Poder Judiciário. DIREITO PROCESSUAL PENAL I - Prof. Mauro Andrade. - Art. 5º, §2º, CPP. Do despacho que indeferiro requerimento de abertura de inquérito caberá recurso para o chefe de Polícia. - Não há um prazo específico para esse recurso, porém a lógica aponta para que, quanto antes esse recurso for interposto, mais rápida pode ser a definição desse tema, com a manutenção da negativa por parte do Chefe de Polícia ou pela reforma dessa decisão. - Em havendo a reforma dessa decisão, o delegado de polícia deverá instaurar a investigação criminal que anteriormente foi requerida. - Requisição. - É uma ordem endereçada à autoridade policial, encaminhada pelo: - Ministério Público. - A possibilidade de requisição pelo Ministério Público possui acento constitucional. - Poder Judiciário. - Problemática: possível parcialidade do juiz em requisitar a abertura de uma investigação criminal que ele mesmo irá julgar. - Ministro da Justiça. - Em relação ao Ministro da Justiça, essa requisição somente se dará em caso de crime de ação penal pública condicionada (a condição é justamente essa requisição). - Ocorre em situações que ocorrem o Chefe do Poder Executivo Nacional ou autoridades extrangeiras que estejam no Brasil (mandatários). - Crimes contra a honra de Chefes de Governo estrangeiro (art. 141, inc. I, c/c § único do art. 145, CP); - Crime de injúria cometido contra o Presidente da República (art. 141, inc. I, c/c § único do art. 145, CP e art. 26 da Lei de Segurança Nacional). - Crimes cometidos por estrangeiros contra brasileiros fora do Brasi l (art. 7, §3º, letra “b”, CP). DIREITO PROCESSUAL PENAL I - Prof. Mauro Andrade. - A abertura de inquérito policial por requisição também possui possibilidade de negativa por parte da autoridade policial . Logo, embora ela seja uma ordem, tem possibilidade de ser rechaçada ou negada, nos casos de: - Fato manifestamente atípico; - Exigência de representação do ofendido ou requisição do Ministro da Justiça no crime; - Nesses casos as requisições do Ministério Público e do Poder Judiciário não são possíveis. - Já extinta a punibilidade do agente/fato que seria investigado; - Ser a autoridade incompetente. - Ex.: Ministério Público requisitar a abertura de investigação criminal contra um juiz e vice-versa. Possibilidade de negativa pelo delegado judicial pois não seria a autoridade competente para investigar de acordo com a legislação brasileira. - Instrumento de Instauração do Inquérito Policial: - Por portaria. - Ato formal expedido pelo delegado de polícia que irá indicar a pessoa investigada, o fato e as providências iniciais que esse inquérito policial deverá seguir, a determinação da autoridade policial para que essas providências sejam cumpridas e a assinatura do inquérito policial. - Por auto de prisão em flagrante. - Controvérsia: não é o auto de prisão em flagrante que instaura o inquérito policial, mas sim a portaria. Porém, autores apontam a APF como fator determinante para instauração do inquérito. - o APF na verdade é uma forma de comunicação do crime/cognisção obrigatória. - O fato é que um fato somente será objeto de inquérito policial quando o delegado de polícia expedir a portaria. Teoria Geral do Inquérito Geral: - Quem não pode ser investigado por meio de Inquérito Policial: - Membros do MP. DIREITO PROCESSUAL PENAL I - Prof. Mauro Andrade. - Art. 41 da Lei nº 8.625/93. - Integrantes do Poder Judiciário . - Art. 33 da Lei Complementar nº 35/1979. - Se tratam de investigações criminais corporativas, que são aquelas realizadas pelas próprias instituições ou poderes quando o envolvido ou investigado é membro/integrante desta. Inquérito Policial nos crimes de Ação Penal Privada e Ação Penal Pública Condicionada: - Proibição de instauração de inquérito policial de ofício. - Nos crimes de ação penal pública incondicionada , entretanto, o Estado tem o dever de agir de ofício. - Necessidade de provocação da autoridade policial. - Quem pode provocar a instauração: - Ofendido; - Representante; - Menor de idade ou ofendido com doença mental. - CADI; - Cônjuge, ascendente, descendente ou irmão. - Exceto quando o ofendido já morreu ou está ausente (morte presumida). - Curador. - Quando há conflito de interesses entre ofendido e seu representante, caso em que o próprio representante pode ser o ofensor. - Também nos casos quando o ofendido necessita e ainda não possui representante. - Citação em sede de Inquérito Policial: - Art. 14-A. Nos casos em que servidores vinculados às instituições dispostas no art. 144 da Constituição Federal figurarem como investigados em inquéritos policiais, inquéritos policiais militares e demais procedimentos extrajudiciais, cujo objeto for investigação de fatos relacionados ao uso da força letal praticados no exercício profissional, de forma consumada ou DIREITO PROCESSUAL PENAL I - Prof. Mauro Andrade. tentada, incluindo as situações dispostas no art. 23 do Decreto-Lei nº 2.848, de 7 de dezembro de 1940 (Código Penal), o indiciado poderá constituir defendor. (Incluído pela Lei nº 13.964, de 2019). §1º Para os casos previstos no caput deste artigo, o investigado deverá ser citado da instauração do procedimento investigatório , podendo constituir defensor no prazo de até 48h a contar do recebimento da citação. - A citação é uma expressão que somente se aplica em processos instaurados , após a ajuização de uma acusação contra essa pessoa. No inquérito policial, de outra banda, não há processo instaurado e, também, não há acusação formalizada contra a pessoa investigada, justamente por ter natureza administrativa. - Logo, a expressão “citação” deve ser interpretada como sendo “notificação” . - Professor entende que o correto é dizer que o investigado seria “notificado” (e não citado) da investigação policial. - Prazo para Instauração: - 6 meses , a partir do conhecimento da autoria. - CPP, art. 38. Salvo disposição em contrário , o ofendido, ou o seu representante legal, decairá do direito de queixa ou de representação, se não o exercer dentro do prazo de 6 meses, contato do dia em que vier a saber quem é o autor do crime, ou, no caso do art. 29, do dia em que se esgotar o prazo para o oferecimento da denúncia. - Prazo aqui é decadencial . - Somente se conta o prazo da data do fato para verificar o prazo prescricional, que não é o caso aqui. - Prazo para conclusão: - Regra: - 10 dias para pessoa investigada presa . - 30 dias para pessoa investigada solta . - Não se falará em prazos especiais nessa cadeira, mas sim dos prazos gerais que o CPP apresenta. Os prazos especiais, que podem ser menores do que os expostos em aula, serão de conhecimento dos alunos em outro momento. - Formas de participação do Ministério Público: - Regra geral: DIREITO PROCESSUAL PENAL I - Prof. Mauro Andrade. - O MP pode requisitar a abertura do inquérito policial , sendo ele a pessoa responsável pela abertura do inquérito. - O MP também pode, ao longo da investigação criminal, determinar que o delegado de polícia realize certas diligências que a Instituição entende pertinentes. - Ex.:MP pode requisitar que certa pessoa, que diz saber de algum detalhe relevante, seja ouvida no inquérito por meio de depoimento - Outra forma de atuação é quando o Ministério Público recebe o inquérito de alguma forma, após a sua finalização e encaminhamento ao Poder Judiciário, que abriu vista ao Ministério Público. (situação mais frequente) - Exceção: acompanhamento. - Lei nº 12.850/2013 (Lei das Organizações Criminosas). Art. 2º, §7º. Se houver indícios de participação de policial nos crimes de que trata esta Lei, a Corregedoria de Polícia instaurará inquérito policial e comunicará ao Ministério Público, que designará membro para acompanhar o feito até sua conclusão. - MP irá acompanhar este inquérito policial. - Este acompanhamento não significa que o membro do MP terá alguma ingerência no inquérito policial, dividindo a sua presidência com o delegado que está à frente do inquérito. - Somente poderá acompanhar depoimentos e diligências que podem ser feitas fora da delegacia de polícia e requisitar diligências ao delegado de polícia, porém sempre respeitanto a hierarquia do delegado de polícia naquele inquérito. O inquérito, por ser policial, deve ter a presidência do delegado que, por conseguinte, será quem o comandará. MP somente acompanha, não preside. - Investigação Não Concluída: - Término do prazo da investigação criminal, quando ainda não concluída. - Ex.: o término do prazo do inquérito, que era de 30 dias para ser concluído, decorreu, porém a investigação ainda não terminou. - Art. 10, §3º, CPP. Quando o fato for de difícil elucidação, e o indiciado estiver solto, a autoridade poderá requerer ao juiz a devolução dos autos, para ulteriores diligências, que serão realizadas no prazo marcado pelo juiz. DIREITO PROCESSUAL PENAL I - Prof. Mauro Andrade. - Provocação judicial para que o Poder Judiciário autorize a sequência do inquérito policial dando mais prazo à polícia. - Ex.: indiciado solto - pedido de prorrogação de prazo. Juiz se manifesta sobre o pedido e, em caso de concordância, a investigação segue. - Em caso de Indiciado preso, quais as posturas do Ministério Público frente ao pedido de prorrogação de prazo pela autoridade policial? - Diligências imprescindíveis. - Aquelas em que o MP, frente ao conteúdo do inquérito, não tem condições de acusar ainda. - Nesses casos, a investigação deve continuar e o MP concorda com a dilatação do prazo. - Uma das consequências, todavia, poderá ser a soltura da pessoa presa, mas, atualmente, é avaliado caso a caso (vem sendo consolidada na jurisprudência). - O próprio MP complementar o inquérito (Art. 47, CPP). - Em lugar de concordar com a prorrogação do prazo do inquérito, ele mesmo complementa aquele inquérito com o que for considerado faltante. - Ex.: tomada de depoimentos de pessoas que ainda que haviam sido ouvidas. - Requisitar diretamente de uma entidade, empresa ou setor público documentos que o delegado gostaria que fizessem parte da investigação. - Antecipa aquilo que o delegado queria fazer, mas o próprio MP faz. Colaboração com a autoridade policial - celeridade. - Ainda, o próprio MP obtendo esses documentos, terá prazo mais enxuto para oferecer a denúncia, sem que tenha que esperar que a autoridade policial cumpra tudo que estava pretendendo fazer para dar curso à investigação e, depois, ainda tenha que remeter ao Poder Judiciário para que, só então, chegue ao MP. - Abrevia o caminho. - Diligências prescindíveis. - Aquelas que não são necessárias para que o MP possa acusar. Quando as diligências consideradas faltantes no inquérito são tidas como prescindíveis, e o delegado requer a DIREITO PROCESSUAL PENAL I - Prof. Mauro Andrade. prorrogação do prazo do inquérito, o MP pode oferecer a denúncia com o inquérito naquela forma e, depois, ficar esperando que essas diligências sejam apresentadas pelo delegado de polícia. - Ex.: falta ouvir uma ou duas testemunhas, que não são tão importantes assim que justifiquem a prorrogação do prazo para que possam ser ouvidas pelo delegado de polícia. Não são fundamentais para aquele fato. - Nesse caso, o MP pode oferecer a denúncia e já arrolar essas testemunhas na acusação - falem direto no processo. Ou então, sejam ouvidas posteriormente pelo delegado, que encaminha ao MP. - Relatório: - Peça final que o delegado de polícia realizada. Pode ser comparado à sentença que o juiz profere, pois possui a mesma estrutura de uma sentença. - No relatório, o delegado de polícia irá dizer: - Porque aquela investigação criminal foi instaurada. (relatório) - Quais as diligências realizadas. (fundamentação) - Qual foi sua convicção quanto ao fato praticado. (convicção) - Ao final, se há indícios ou não da prática daquele crime por parte da pessoa investigada (autoria). (dispositivo) . - Autenticação (data e assinatura) . - O relatório é formato pelas mesmas partes de uma sentença (conforme em parênteses). - A ausência de relatório não torna o inquérito nulo (prescindível). - Mas, ele é importante enquanto fechamento do inquérito policial. - Análise de mérito. - Questão: saber se o relatório é o momento em que o delegado deve se aprofundar no mérito da questão investigada (citar doutrina, jurisprudência, etc., para justificar sua convicção). - Lei nº 11.343/2006. Art. 52. Findos os prazos a que se refere o art. 51 desta Lei, a autoridade de polícia judiciária, rementendo os autos do inquérito ao juízo: I - relatará sumariamente as circunstâncias do fato, justificando as razões que a levaram à classificação do delito , indicando a quantidade e natureza da substância ou do produto apreendido, o local e as condições DIREITO PROCESSUAL PENAL I - Prof. Mauro Andrade. em que se desenvolveu a ação criminosa, as circuntâncias da prisão, a conduta, a qualificação e os antecedentes do agente. - Essa exigência somente existe na Lei de Drogas, e existe para que o delegado de polícia possa fundamentar a sua convicção sobre, por exemplo, se o fato praticado foi o art. 33 (tráfico de drogas) ou art. 28 (posse para uso próprio). - Pedido de Prisão Preventiva: - Pode ser requerida pelo delegado de polícia, seja: - Durante a investigação. - Ao final da investigação. - Pode ser requerida até mesmo no relatório, fazendo a justificativa do porque entende que a pessoa investigada deveria ser presa preventivamente. - Problema dos requerimentos ao final das investigações : - Deixam claro que não há uma necessidade de prisão preventiva dessa pessoa pois, se houvesse de fato essa necessidade, ela teria se dado ao longo da investigação e de forma apartada pelo delegado (ou seja, fora do inquérito policial), e não somente ao final dela. - Logo, quando os pedidos são feitos no final da investigação, dentro dos relatórios, possuem grande probabilidade de não serem acatados, justamente pela manifesta ausência de necessidade dessa prisão preventiva. - Indiciamento: - Trata-se do reconhecimento, por parte da autoridade investigante, de que há indícios de autoria contraa pessoa que está sendo investigada. - No RS, tem a tradição de ser realizado somente no relatório final autoridade policial. - No entanto, ele pode ocorrer ao longo de todo o inquérito policial. - É um ato exclusivo da autoridade policial . - Não é possível ao MP e ao Poder Judiciário requisitar à autoridade policial que indiciem tal e qual pessoa. - Antes de 2013, essa lógica de requisição de indiciamento para a autoridade policial ocorria eventualmente. - Situações em que membros do MP ou integrantes do Poder Judiciário requisitavam ao delegado de polícia que indiciassem tal e qual pessoa. DIREITO PROCESSUAL PENAL I - Prof. Mauro Andrade. - Divergência à época, que foi colocada a baixo com a Lei nº 12.830/2013: Art. 2º, §6º. O indiciamento, privativo do delegado de polícia, dar-se-á por ato fundamentado, mediante análise técnico-jurídica do fato, que deverá indicar a autoria, materialidade e suas circunstâncias. - Remessa do Inquérito: - Feito o indiciamento, concluído a investigação criminal com o relatório final, o inquérito é remetido para o Poder Judiciário ou imediatamente ao Ministério Público. - Ao Ministério Público (posturas): - Ajuizamento da ação penal . - Inquérito possui elementos suficientes. - Arquivamento do Inquérito Policial . - Em não havendo, o MP pode se manifestar pelo arquivamento do inquérito. - Hoje em dia, é encaminhado ao juiz, que fará a análise. Observação:o CPP foi alterado nesse sentido(em 2019, mas a alteração está suspensa por liminar do Supremo. - Requisição de diligências. - Em não havendo elementos suficientes, pode requisitar complementação (diligências) ao delegado de polícia. - Complementaão da investigação (conforme art. 47 do CPP). - Feita pelo próprio MP. - Incompetência do juízo. - Exceção de inconpetência é quando o MP entende que aquele juízo não é o competente para análise daquele fato. - Ex.: veio a uma determinada Vara Criminal comum e o membro do MP entende que não é o caso, devendo ser uma outra Vara criminal que tenha competência para analisar crimes dolosos contra a vida. - Ex.: em Porto Alegre, acontece muito de um homicídio culposo em uma Vara Criminal e o membro do MP mandar para o Tribunal do Júri, ou requisitar ao juiz. - Negativa de atribuição . - Atinge somente o MP, sendo uma expressão própria para tal. DIREITO PROCESSUAL PENAL I - Prof. Mauro Andrade. - Juiz tem “competência” e MP tem “atribuição”. - Quando o membro do MP entende que não é ele quem deva analisar aquele inquérito, mas sim algum colega dele, na mesma Vara Criminal. - Ex.: A 17ª Vara Criminal possui várias promotorias atuando. - MP diz que não irá atuar naquele caso em específico porque não é da atribuição dele. - Formalizar negócio jurídico processual. - Acordo de não persecução penal. - Inserido no CPP em 2019, com vigência apra 2020. Ainda não se tem uma dimensão de seu impacto. - Se aplica para crimes com penas de até 4 anos. Incide na quantidade de processos criminais tramitanto tramitando nas varas criminais, mas quando o membro do MP se depara com essa situação, terá que se manifestar se é caso de ANPP ou não. - Arquivamento do Inquérito Policial: - Quem não pode arquivar: - Art. 17, CPP. A autoridade policial não poderá mandar arquivar autor de inquérito. - O posicionamento sobre o inquérito policial é do MP e o juiz decide (CPP antigo). - Quem vai determinar esse arquivamento? - Pendência: julgamento da ADI que levou a suspensão do art. 28 do CPP (artigo que determinava que quem ordenada o ordenamento de inquérito policial era o juiz). - Com a reforma de 2019, quem deveria ser o responsável pelo arquivamento seria o MP. - Cuidado : hoje, o art. 28 do CPP ainda tem aplicabilidade, mas a sua redação foi modificada, porém está suspensa. - Hipóteses de arquivamento: - Atipicidade penal; - Ausência de prova da materialidade. - Ausência de indícios de autoria; DIREITO PROCESSUAL PENAL I - Prof. Mauro Andrade. - Extinção da punibilidade; - Excludente de ilicitude; - Cumprimento de acordo de não persecução penal. - Lembrar: também extingue a punibilidade, mas é preciso se atentar aos casos em que cabe ANPP. - Não acatamento do pedido de arquivamento: - Art. 28, CPP (?). - Hoje, se o juiz não deferir o pedido de arquivamento feito pelo MP, o correto é seguir a redação antiga do dispositivo. - Assim, o próximo passo será encaminhar o inquérito ao chefe do MP. Se o chefe do MP concordar com o membro do MP no sentido de que deve ser arquivado, a investigação termina ali. Do contrário, ou ele mesmo acusa ou ele nomear outro membro do MP para oferecer acusação (mais comum). - Possibilidade de retratação do pedido: - Membro do MP que requereu o arquivamento “volta atrás” e quer oferecer denúncia. Pode? - Vai depender de fato/informação nova ou provas novas obtidas posteriormente ao pedido de arquivamento. - Retratação do pedido significa que esse pedido ainda não foi avaliado judicial. No MP, significa que houve um pedido mas o juízo não analisou ainda. - .É possível mas, para fazer isso, precisa apresentar os elementos novos de cognição que teve, - Arquivamento implícito: - Hipóteses em que duas ou mais pessoas foram investigadas criminalmente, ou dois os mais fatos foram investigados, dentro de um mesmo inquérito. - Ocorre quando há o ajuizamento da acusação, mas se deixou de lado, nessa acusação, uma pessoa ou um fato . - Sem haver esclarecimento do porque essa pessoa ou fato ficou de fora do inquérito, chamamos de ‘arquivamento implícito’. DIREITO PROCESSUAL PENAL I - Prof. Mauro Andrade. - Quando ocorre, o juiz devolve o processo ao MP (já existe uma acusação, então é processo), para que ele informa o que ele pretende fazer com essa pessoa ou fato que ficou de fora. - Caso o MP não esclareça, o processo é remetido ao Chefe do MP, para que tome uma daquelas providências faladas há pouco (art. 28, CPP). - O ajuizamento de uma ação, por parte do Ministério Público, verificando-se a falta de informação em relação a outras pessoas ou fatos que não foram acusados e estavam presentes no inquérito. - Arquivamento parcial: - Quando o MP requer o arquivamento, mas deixa de se manifestar sobre outras pessoas ou outros fatos . - Ex.: requereu o arquivamento em relação a ‘a’ e ‘b’, mas não disse nada sobre ‘c’. - Vai precisar se explicar. - Diante dessa omissão, o resultado é o mesmo: juiz devolve ao MP. Se o MP insistir, deverá ser remetido ao Chefe do MP, que irá esclarecer ele mesmo ou nomeará alguém para esclarecer. - Arquivamento indireto: - Não é um arquivamento propriamente dito, significa o término de tramitação de um determinado inquérito junto a uma Justiça . - Ex.: Um inquérito sobre o tráfico de drogas internacional é distribuído à polícia federal. No entanto, lá se vê que esse tráfico, na verdade, é nacional, não sendo mais da competência da JF. E vice-versa. - Ele deverá sair da JF e ir para a Justiça Estadual, e o número de protocolo deste inquérito na PF tem que ser dado baixa.- Não é o arquivamento daquela investigação, mas sim a baixa da numeração relativa a um determinado inquérito pois ele deixou de tramitar perante àquela justiça. - Recurso quanto a decisão de arquivamento: - Lei nº 1.521/1951 (Crimes contra a Economia Popular ou contra a saúde pública), art. 7º. Os juízes recorrerão de ofício sempre que absolverem os acusados em processo por crime contra a economia popular ou contra a saúde pública, ou quando determinarem o arquivamento dos autos do respectivo inquérito policial. DIREITO PROCESSUAL PENAL I - Prof. Mauro Andrade. - O juiz que determinou o arquivamento fará o que hoje se chama de reexame necessário , remento esse inquérito para análise ao Tribunal que está acima desse juiz. - Lei nº 1.508/1951 (Procedimento nas contravenções de jogo do bicho e outros jogos não autorizados), art. 6º. Quando qualquer povo do povo provocar a iniciativa do Ministério Público, nos termos do art. 27 do CPP, para o processo tratado nesta Lei, a representação, depois do registro pelo distribuidor do juízo, será por este enviada, incontinente, ao Promotor Público, para os fins legais., § único: se a representação for arquivada, poderá o seu autor interpor recurso no sentido estrito. - Interposição por qualquer pessoa do povo, mas restrito a essa situação. - Duas únicas hipóteses de recurso aplicáveis ao arquivamento de inquérito policial. - Desarquivamento de Inquérito Policial: - Inquérito que foi arquivado e que precisa ser retomado. - Após a avaliação pelo juiz e determinado o desarquivamento. - Possibilidade: - Art. 18, CPP. Depois de ordenado o arquivamento do inquérito pela autoridade judiciária, por falta de base para a denúncia, a autoridade policial poderá proceder a novas pesquisas, se de outras provas tiver notícia. - Delegado de polícia obtem informações novas para dar sequência ao inquérito. - Não há o ajuizamento da ação aqui, mas o prosseguimento da investigação criminal. - Súmula 524 STF. Arquivado o inquérito policial, por despacho do juiz, a requerimento do promotor de justiça, não pode a ação penal ser iniciada sem novas provas. - MP obtém provas novas e, no lugar de reabrir o inquérito, utiliza aquele mesmo inquérito arquivado com a provas provas para oferecer a sua acusação. - Impossibilidade: - Arquivamento por atipicidade do fato. - Extinção da punibilidade. DIREITO PROCESSUAL PENAL I - Prof. Mauro Andrade. - Em ambas, não cabem, de acordo com doutrina e jurisprudência, o desarquivamento do inquérito. - Valor probatório do Inquérito Policial: - Via de regra, o inquérito, como um todo, não tem valor probatório . O que é considerado prova, é tudo aquilo que foi produzido sobre o crivo do contraditório (provas orais). - Art. 155, caput, CPP. O juiz formará a sua convicção pela livre apreciação da prova produzida em contraditório judicial, não podendo fundamentar sua decisão exclusivamente nos elementos informaticos colhidos na investigação, ressalvadas as provas cautelares, não repetíveis e antecipadas. - Outras provas que não foram submetidas ao contraditório podem e têm valor como se prova judicial fosse , como, por exemplo, as provas cautelares, as não repetíceis e as antecipadas. - Provas cautelares: busca e apreensão. - Provas não repetíveis: certas provas periciais (que não podem ser realizadas novamente - ex.: local do crime). - Provas antecipadas: aquelas que devem ser tomadas antes da fase probatória, na fase de investigação, pelo risco de perder essa prova. Ex.: pessoa doente que pode morrer ou para preservar a qualidade da prova. - A hipótese do 155 somente se aplica aos juízes. - No Tribunal do Júri , é autorizado julgar com base em qualquer informação que esteja nos autos do processo: - “Autos do processo” significa de capa a capa. - Art. 593. Caberá apelação no prazo de 5 dias: III - das decisões do Tribunal do Júri, quando: d) for decisão dos jurados manifestamente contrária à prova dos autos. - Vícios do Inquérito Policial: - Grau do Vício: será determinante para apontar qual o seu destino. - Alguns graus de irregularidades não levam a maiores consequências. - Porém, certos graus de irregularidade ou de ilegalidade podem macular todo o inquérito. DIREITO PROCESSUAL PENAL I - Prof. Mauro Andrade. - Ex.: Operação Satiagraha. Agentes da ABIN atuaram na investigação criminal juntamente com a PF. O STJ entendeu que os agentes da ABIN não poderiam ter feito esse tipo de atuação, de modo que tudo aquilo que foi produzido com a colaboração deles foi considerado ilícito e tudo desde o inquérito foi anulado. Isso tudo mesmo após a pessoa ter sido condenada em segundo grau. - Um vício no inquérito anulou tudo que ocorreu a partir do inquérito, inclusive a condenação. - É preciso cuidar o grau do vício para ver a consequência que será extraída de uma possível irregularidade ou ilegalidade verificada no inquérito policial. - Afastamento do Delegado Polícia: - Se o delegado pode ser afastado por suspeição ou por impedimento (instrumentos para preservar a imparcialidade judicial). - Art. 252-254, CPP. - O CPP diz de maneira expressa que não cabe , ou seja, não deve atingir o delegado situações de suspeição e, por extensão, impedimento. Caso ele entenda que deva sair, ele pode invocar a suspeição, mas não pode ser apontado como suspeito. - Art. 107, CPP. Não se poderá opor suspeição às autoridades policiais nos atos do inquérito, mas deverão elas declarar-se suspeitas, quando ocorrer motivo legal. - Problema: ele não se coaduna com a Constituição. A interpretação está sendo feita de cima pra baixo, pois considera-se que do art. 107 é Constitucional, quase que por que “ele estava lá” quando a CF entrou em vigor, então ela que se ‘coadune’ a ele. - Art. 37 CF. Diz que os agentes públicos estão sujeitos ao princípio da impessoalidade. Esse é o princípio que dá motivo ao afastamento das pessoas que tem algum tipo de comprometimento em sua atuação. - O princípio da impessoalidade, sob o aspecto constitucional, torna esse dispositivo do CPP inconstitucional. - Poderes do Delegado de Polícia: - Arbitramento de fiança. - Art. 322, CPP. A autoridade policial somente poderá conceder fiança nos casos de infração cuja pena privativa de liberdade máxiam não seja superior a 4 anos. DIREITO PROCESSUAL PENAL I - Prof. Mauro Andrade. - O delegado, pelo CPP, pode impor uma medida cautelar pessoal. - Problema: ela é uma cautelar e, por tal, há reserva de jurisdição, de modo que não deveria ser o delegado de polícia a arbitrar uma fiança (ou a impor uma medida cautelar pessoal), justamente porque isso está reservado, de acordo com o texto constitucional, somente para atuação judicial. - Medida Protetiva de Urgência (Lei Maria da Penha) . - Art. 12-C. Verificada a existência de risco atual ou iminente à vida ou à integridade física da mulher em situação de violência doméstica e familiar, ou de seus dependentes, o agressor será imediatamente afastado do lar, domicílio ou local de convivência com a ofendida: - I -pela autoridade judicial; - II - pelo delegado de polícia , quando o Município não for sede de comarca; ou - III - pelo policial , quando o Município não for sede de comarca e não houver delegado disponível no momento da denúncia. - Possibilita que o delegado possa, também, caso não haja juiz na cidade, determinar o afastamento do agressor do lar . - Contra esse dispositivo, houve ajuizamento de ADI, justamente por apontar o delegado de polícia como exercendo uma medida cautelar que é atingida pela reserva de jurisdição. - Celebrar Acordo de Colaboração Premiada. - Art. 4º, §2º. Considerando a relevância da colaboração prestada, o MP, a qualquer tempo, e o delegado de polícia, nos autos do inquérito policial , com a manifestação do MP, poderão requerer ou representar ao juiz pela concessão de perdão judicial ao colaborador, ainda que esse benefício não tenha sido previsto na proposta inicial, aplicando-se, no que couber, o art. 28 do CPP. - Diz respeito somente ao apenamento, e não ao ajuizamento ou não de ação penal. - Somente o delegado de polícia pode fazer isso . - Mesmo sem concordância do MP, é possível tratar o delegado de polícia deste tema, desde que não tenha reflexos no ajuizamento da ação, pois a questão que envolve o ajuizamento da ação é exclusiva do MP. - ADI 5503. Reconheceu que o delegado pode celebrar acordo de não persecução penal que não diga respeito ao ajuizamento ou não da ação, mas só com questões relativas à punição/pena. DIREITO PROCESSUAL PENAL I - Prof. Mauro Andrade. INVESTIGAÇÕES CRIMINAIS EXTRAPOLICIAIS Trata-se daquelas outras investigações criminais além daquelas procedidas pela polícia judiciária. Decorre do CPP: - Art. 4º, § único. A competência definida neste artigo não excluirá a de autoridades administrativas , a quem por lei seja cometida a mesma função. - Ausência de exclusividade investigatória policial. A Constituição Federal também prevendo quem pode investigar ou, a partir de seu texto, interpretando quem pode investigar criminalmente no Brasil. - Modalidades de Investigação Criminal (não é taxativo): - Investigação policial. - Inquérito Policial. - Aquela realizada em regra no Brasil. - Investigação do Ministério Público. - Procedimento investigatório criminal. - Investigação Judicial . - Inquérito judicial. - Investigação parlamentar . - Polícia parlamentar. - Não se trata de CPI, mas sim do trabalho realizado pela polícia parlamentar, nos crimes cuja competência cabe a ela realizar. Investigação Criminal do Ministério Público: Panorâma Histórico: - Origem da investigação criminal do acusador: - É uma realidade que remonta à Idade Antiga, tanto no Direito Ateniense, quanto no Direito Romano. - Era o costume de quem fosse oferecer a sua acusação, que ele mesmo se encarregasse de fazer a acusação criminal que sustentasse aquela investigação criminal. - A regra era, a época, que a acusação e, por consequência, a investigação fossem realizadas por um acusador particular (ofendido) ou por um acusador popular (qualquer pessoa do povo). DIREITO PROCESSUAL PENAL I - Prof. Mauro Andrade. - Raramente havia um acusador público (que acusasse em nome do Poder Público). - Com a criação do MP e a regulamentação de sua atividade, isso foi alterado. - Investigação criminal do Ministério Público: - O documento histórico que apresenta a primeira menção à investigação criminal do Ministério Público é o Code d’Instruccion Criminelle , de Napoleão Bonaparte (Decreto de 17/11/1808, entrou em vigor em 01/01/1811). - Esse foi o Código que substituiu a legislação pós-revolucionária na França e, por conseguinte, é o código que instituiu o sistema misto no Direito Francês e, após, por toda a Europa e suas Colônias (principalmente espanholas e portuguesas). - Principais Características desse Código: - Multiplicidade de legitimados a investigar (arts. 8 e 9, sendo neste último que aparece o MP). - Investigação criminal do Procurador Imperial: - Investigação oficial: primeiro tipo de investigação criminal. Prevista expressamente no texto daquela codificação. - Natureza Processual. A investigação criminal feita pelo MP, à época, era considerada processo instaurado. - Hipóteses: - Flagrante delito. - Mp tinha legitimidade para investigar. - Provocação do dono da casa. - Casa onde tinha sido cometido o delito. - Sem essa solicitação, não estava autorizado a investigar. - Investigação oficiosa do Procurador Imperial: - Natureza administrativa. - Feita fora dos casos admitidos pelo Código de instrução criminal francês. - Surgiu a partir do reconhecimento da sociedade francesa no que diz respeito a respeitabilidade da investigação criminal que era feita pelo MP. DIREITO PROCESSUAL PENAL I - Prof. Mauro Andrade. - Com o tempo, em razão daquelas duas possibilidades de investigação criminal previstas, como o MP atuava bem, a população começou a procurar à Instituição para que ela pudesse solucionar outros tipos de delitos fora aquelas duas possibilidades. - Em razão disso, o MP passou a se aventurar na investigação criminal de outros casos além daqueles dois. - Essas investigações oficiosas tiveram o reconhecimento de sua legalidade pelos Tribunais franceses do século XIX. - Foi reconhecida como tendo natureza administrativa por não possuir previsão legal. - Reflexos do reconhecimento da Investigação Criminal do MP na Europa: - Admissão da investigação criminal pelo MP na Alemanha (1974), Portugal (1988), Itália (1989). - Todos esses países fizeram alterações em seus CPPs para substituir a figura de um juiz investigador criminal, pela figura de um MP investigador criminal. - Reflexos no Brasil: - A investigação criminal pelo Ministério Público surgiu, pela primeira vez, na Lei Complementar nº 41/1980 (lei orgânica do MP). Art. 20, § único. Quando, no curso de investigação, houver indício de prática de infração penal por parte de membro do Ministério Público, a autoridade policial estadual remeterá imediatamente os respectivos autos ao Procurador-Geral de Justiça. - Ministério Público como um todo. - A investigação criminal ficou restrita às situações em que um membro do Ministério Público tivesse praticado algum tipo de infração penal. Neste caso, quem deveria investigar o membro seria o próprio MP, por meio do seu Procurador Geral em específico, ou mediante designação. - Essa Lei não permitia, portanto, que essa investigação criminal fosse conduzida pela polícia. Foi uma legislação que se constituiu enquanto marco da primeira vez em que uma legislação brasileira outorgava ao MP a legitimidade para investigar criminal, ainda que em uma situação particular . - Com a entrada em vigor da CF/88, o legislador entendeu por rever a Lei Orgânica do MP e fracionála entre Lei Orgânica do MPE e Lei Orgânica do MPU. DIREITO PROCESSUAL PENAL I - Prof. Mauro Andrade. - Lei Orgânica do Ministério Público Estadual: Lei Complementar nº 8.625/1993. - Art. 41, § único. Quando no curso de investigação, houver indício da prática de infração penal por parte de membro do Ministério Público,a autoridade policial, civil ou militar remeterá, imediatamente, os respectivos autos ao Procurador-Geral de Justiça, a quem competirá dar prosseguimento à apuração. - Reproduziu a ideia anterior: os crimes praticados por membros do MP só poderiam ser investigados pelo próprio MP. - Lei Orgânica do Ministério Público da União: Lei Complementar nº 75/1993. - Art. 18, § único. Quando, no curso de investigação, houver indício da prática de infração penal por membro do MPU, civil ou militar, remeterá imediatamente os autos ao Procurador-Geral da República, que designará membro do Ministério Público para prosseguimento da apuração do fato. - Também segue a mesma linha, consolidando a ideia de membros do MP investigados pelo próprio MP. - Com o tempo, essa lógica de investigação do MP passou a seguir a mesma trajetória da investigação criminal do MP francês: - Foi criada pelo legislador uma investigação presidida pelo MP para uma situação em particular, mas este passou a atuar além daquela autorização legal infraconstitucional. - O fato dele aprender como investigar acabou incentivando a própria Instituição a dar saltos maiores, fazendo com que essa investigação criminal do MP também ocorresse fora daqueles casos previstos nas Leis Orgânicas, ou seja, que ele também investigasse outras situações delitivas. - Tema controvérsio. - Posição do STF: Constitucionalidade com repercussão geral. - Um caso em específico recebeu a condição de repercussão geral, e nele houve o reconhecimento da constitucionalidade da investigação criminal do Ministério Público. - O argumento específico que vingou para justificar a constitucionalidade da investigação criminal do MP foi o da Teoria dos Poderes Implícitos, único entendido como correto DIREITO PROCESSUAL PENAL I - Prof. Mauro Andrade. dentre todos os argumentos favoráveis possíveis (na obra do professor). - Reconhecimento que ocorreu em 2015. - Em 2017, a Corte Interamericana dos DH proferiu um julgamento histórico para efeitos do direito brasileiro (Caso Favela Nova Brasília Vs. Brasil): - Brasil condenado em razão de mortes, estupros e torturas por policiais no exercício da função ocorridos em duas oportunidades no RJ, a que a investigação criminal nesses casos deveria se dar pelo MP ou pelo Poder Judiciário . - Como o Poder Judiciário não tem a tradição de conduzir investigações criminais envolvendo tais temas e nem possui estrutura para tanto, o governo brasileiro optou, por meio do Senado Federal, pela proposição de uma PLS para fins de que o MP fique responsável por esse tipo de investigação criminal (crimes de homicídio, tortura e estupros praticados por policiais). - O Senado ampliou esse leque de infrações penais que o MP devesse investigar: casos de crimes praticados por policiais no exercício das funções (no geral). Ainda em tramitação. - Resultado prático desse tipo de julgamento: - A investigação criminal do MP passou a ser vista enquanto instrumento de proteção dos direitos humanos. - Os críticos apontavam esse tipo de investigação como sendo veinculado a um sistema inquisitivo, ou uma usurpação de função pública pelo MP. - Entretanto, tal julgamento demonstrou que a investigação presidida pelo MP, ao menos nesses casos, era necessária. Investigação do Ministério Público: - Divisão das Investigações do Ministério Público: - Investigação Facultativa: - Crimes Comuns. - Investigação Obrigatória: - Crimes praticados por membros do MP. - Prevista nas leis complementares. - Caso Favela Nova Brasília vs. Brasil. - STF, ADPF 635. DIREITO PROCESSUAL PENAL I - Prof. Mauro Andrade. - O MP foi obrigado, por liminar concedida, a investigar criminalmente aquelas hipóteses delitivas que o Caso Favela Nova Brasília falava. - Não é possibilidade, mas sim uma obrigação. Hoje, há uma liminar que impõe ao MP a investigação criminal dos casos de violência policial. “11. Deferir os pedidos cautelares veiculados nas alíneas “l”, “m”, “n” e “o”, a fim de reconhecer que sempre que houver suspeita de envolvimento de agentes dos órgãos de segurança pública na prática de infração penal, a investigação será atribuição do órgão do MP competente. ” - Regulamentação: - Resolução 181/2017, CNMP. - Nomenclatura: - Art. 1º. O procedimento investigatório criminal é (...). - Mais conhecido como PIC. - Definição na redação original (2017) . - Art. 1º. O PIC é instrumento sumário e desburocratizado de natureza administrativa e inquisitorial , (...). - Administrativa = MP não exerce jurisdição. - Ser de natureza inquisitorial (?) - discussão. - Crítica: essa vinculação à natureza inquisitorial era desarrazoada, pois ‘inquisitorial’ só pode ser princípio (confusão de função entre quem acusa e quem julga) ou sistema (refere a processo). - Como o MP não julga, não poderia haver essa confusão entre MP e julgador para justificar essa natureza sob a modalidade de princípio. - Como tem natureza administrativa, não é processo, então não tem como ser sistema inquisitivo. - Pelo conflito dessas duas colocações, o art. 1º foi alterado, em 2018, pelo CNMP. - Art. 1º. (...) instrumento sumário e desburocratizado de natureza administrativa e investigatória , (...). - Finalidades: DIREITO PROCESSUAL PENAL I - Prof. Mauro Andrade. - Art. 1º. (...), e terá como finalidade apurar a ocorrência de infrações penais de iniciativa pública, servindo como preparação e embasamento para o juízo da propositura, ou não, da respectiva ação penal. - Lógica de que a atuação do MP na investigação criminal diz respeito às investigações de ações penais públicas, sejam condicionadas ou incondicionadas. - Falha: ausência de apontamento, como finalidade de investigação criminal do MP, a investigação nos crimes de ações penais privadas. - Mas por que o MP investigaria crimes de ações penais privadas, já que ele deveria “se meter” em assuntos de natureza particular? - Em razão do MP ser o competente por investigar crimes praticados por membros do Ministério Público, é importante lembrar que esses membros podem cometer crimes de ação penal privada e, cabendo ao MP, deveria essa resolução fazer referência aos crimes de ação penal privada quando cometidos pelos seus próprios membros (única exceção). - Entretanto, o CNMP não alterou sua posição até o presente momento, seguindo essa resolução como sendo somente dedicada a regulamentar os crimes de ação penal pública. - Com isso, o próprio MP dá margem à investigação defensiva , que consiste em uma investigação feita pelos integrantes inscritos na OAB e que serve, entre outras finalidades, para angariar elementos para a propositura de queixas crime. - Questões processuais: - Inexistência de impedimento: - Súmula 234 do STJ. A participação de membro do MP na fase investigatória criminal não acarreta o seu impedimento ou suspeição para o oferecimento da denúncia. - Não se vê essa discussão na esfera cível, onde o MP tem legitimidade investigatória cível no inquérito civil, para ajuizar, posteriormente, ação civil pública. - Mesma lógica está presente no- Mediata: paz social. - Assegurar que a forma como pode vir a aplicação da lei penal só vai ocorrer mediante a observância de certas regras que permitam o equilíbrio de atuação entre quem irá atuar no polo ativo e quem irá atuar no polo passivo deste mesmo processo. - Imediata : aplicação do Direito Penal. - Aplicação se for o caso. Ambiente em que o poder judiciário, mediante provocação, poderá impor a pena adequada a prática a determinado delito caso assim necessário. - Pontos do que se ocupa o DPP: - Início da persecução penal: é o continente. Pode ter seu início com um policial na rua fazendo a vigilância. - Ex.: obrigação de prender em flagrante quem quer que seja que venha a cometer uma infração penal. - Início do processo: é um ponto que faz parte do conteúdo do continente. - Desenvolvimento do procedimento e das relações entre o ius persequendi e o ius libertatis. - Alcance da decisão final: regular os efeitos civis dessa decisão final. Questão da indenização do ofendido em relação ao ofensor. - Preponderância do processo penal frente ao civil. DIREITO PROCESSUAL PENAL I - Prof. Mauro Andrade. FONTES DO DIREITO PROCESSUAL PENAL: A fonte seria a origem do Direito. O modo como a fonte é expressada é o seu modo de revelação; a manifestação do direito em si. Classificação das Fontes do DPP: Fontes Materiais Aquelas de produção ou substanciais. - União. - Art. 22. Compete privativamente à União legislar sobre: I - (...) direito penal, processual (...). - Discussão: as resoluções do CNJ nº 213/2015 e a do CNMP nº 181/2017 afrontariamo artigo 22, I, da CF? - A resolução do CNJ nº 213 regula a aplicabilidade da audiência de custódia no brasil, enquanto a resolução do CNMP nº 181 disciplina a investigação criminal do MP, tendo criado o acordo de não persecução penal (inserido no CP em 2019). - STF: - Ação direta de Inconstitucionalidade nº 2970. Normas de direito processual são aquelas que dizem respeito ao contraditório, devido processo legal, poderes, direitos e ônus da relação processual, assim como aquelas que dizem a regulamentação de atos destinados a efetivar a causa finalis da jurisdição. - Legitimidade normativa dos Conselhos Nacionais: - Têm competência normativa para expedir atos normativos primários, ou seja, aqueles atos marcados pela abstratividade, generalidade e impessoalidade, tratando dos temas em tese. - Reserva de lei vs. reserva de norma: o que for reserva de lei não pode ser abordado pelo CNJ. - Logo, podem disciplinar reserva de norma. - ADC 12. - Ao tratar da audiência de custódia, a Resolução nº 213 não foi considerada inconstitucional, pois o instituto não foi criado, já existia . Só não havia sido regulamentado, ainda, aos atos do Poder Judiciário. DIREITO PROCESSUAL PENAL I - Prof. Mauro Andrade. - A resolução somente tratou de questões de âmbito interno, não criando nada de diferente. - Já a resolução nº 181, do CNMP, desde que entrou em vigor, ficou 2 anos parada (2017 - 2019), só tendo sido julgada a liminar. Essa resolução, por criar um instituto novo , foi atacada. - Entretanto, a ADIN contra esse ato acabou perdendo seu sentido, pois no Pacote Anticrime (2019), foi colocado o acordo de persecução penal dentro do CPP, aderindo ou suprindo a exigência de disciplina/legislação só por ato legislativo. - Não se há, hoje, uma resposta mais definitiva da forma de atuar dos Conselhos Nacionais. Fontes Formais Aquelas relativas à cognição ou revelação. - Diretas ou imediatas: - Constituição Federal. - Normas de natureza processual. Ex.: normas de fixação de competência. - Normas supralegais. - Tratados de Direitos Humanos, supralegais e constitucionais. - Que não foram submetidos a votação pelo Congresso para atingirem quórum mínimo para serem considerados enquanto normas constitucionais, ainda que fora da constituição. - Ex.: Pacto de San José da Costa Rica, Pacto de Direitos Civis e Políticos, etc. - Código de Processo Penal. - Leis extravagantes. - Aquelas que diizem respeito a algum tema sobre direito processual penal. - Ex.: Lei Maria da Penha, Lei sobre Porte de Armas, Lei de Drogas, etc.. - Indiretas ou mediatas: - Costumes. DIREITO PROCESSUAL PENAL I - Prof. Mauro Andrade. - Uso constante e notório de determinada prática aceita como válida no meio jurídico. - Princípios gerais de direito . - Art. 3º CPP. A lei processual penal admitirá interpretação extensiva e aplicação analógica, bem como o suplemento dos princípios gerais de direito . - Premissas éticas, valores que conferem unidade e validade a todo o sistema jurídico, mesmo que não haja previsão expressa no CPP. - Doutrina. - “A processualística universitária: o ensino do direito processual no Brasil e seu atual estágio.” - Jurisprudência . - Acórdãos pontuais; - Súmulas vinculantes e súmulas; - Repercussão Geral. - Ex.: decisão que reconheceu a legitimidade constitucional do MP para fazer sua investigação criminal. - Direito histórico. - Textos anteriores a entrada em vigor do CPP. - Utilizados, atualmente, para poder entender certas lógicas e delimitar sobre como tal instituto deve ser encarado/interpretado. - Direito estrangeiro. - Jurisprudência de ribunais protetivos de direitos humanos (Tribunal Europeu e Interamericana de Direitos Humanos). - São utilizados como justificadores de práticas processuais/judiciais no Brasil, e muitas vezes como fundamento da necessidade de alteração da nossa legislação ou da aplicação de algum tipo de interpretação, de modo a atualizar nosso direito. DIREITO PROCESSUAL PENAL I - Prof. Mauro Andrade. PRINCÍPIOS PROCESSUAIS PENAIS: Princípio da Igualdade: - Previsto no art. 5º, caput , da CFB/88. - Pode ser encontrado sob o nome de: - Par conditio; - Igualdade de partes; - Paridade de armas; - Igualdade intraprocessual. - Âmbito de aplicação: - Processual. - Não se aplica em âmbito extraprocessual. - Isto se deve a lógica de que a pessoa investigada teria a possibilidade de planejar, executar, consumar e evadir (inter criminis). Se fosse dado ao investigado, também, a possibilidade de participar em igualdade de condições com o Estado na fase de investigação (fase administrativa), seria reconhecido que ele também tivesse o direito de atrapalhar a investigação . - Por isso, a igualdade não se daria por completo, aparecendo esse princípio com mais força na fase processual. - Conceito de armas: - Não há definição quanto ao que seriam essas armas na legislação, sendo na doutrina internacional encontrado esse o conceito: - São os meios, possibilidades, instrumentos ou possibilidades que teriam as partes para que pudessem, a partir de suas atuações, levar mais e melhores informações ao juízo a fim de que pudessem obter o resultado que pretendem. - O princípio da igualdade de armas está voltado a uma atuação direcionada ao resultado judicial . Finalidade última é obter, junto ao judiciário, o resultado que cada uma das partes tem em mente pelo menos ao longo da fase processual. - Espécies de igualdade:processo penal: quem investiga, pode acusar. Investigação Judicial: - Nomemclatura: - Nome do instituto: juizado de instrução . DIREITO PROCESSUAL PENAL I - Prof. Mauro Andrade. - Essa indicação de nome se dá porque esse instituto da investigação criminal judicial é conhecida internacionalmente como juizado de instrução. - Nome do instrumento: inquérito judicial. - Origem: - Code d’Instruccion Criminelle (1808, entrada em vigor: 1811). - Principais características : - Aparece como sendo o último legitimado para investigar (art. 9º do cpodigo). - Natureza jurídica: - É administrativa ou processual? - Não se pode fazer uma equiparação entre a natureza jurídica do inquérito policial e a da investigação criminal do MP com a natureza jurídica do juizado de instrução, porque o inquérito judicial em si, por ser presidido por um juiz, é considerado como tendo natureza processual. - Natureza processual. - Onde um juiz tem poder decisório, aquilo é considerado processo. - Ainda, é considerado processo justamente porque, no caso da investigação criminal presidida por um magistrado, ele não tem que fazer nenhum requerimento a um magistrado superior a ele. O próprio magistrado condutor da investigação criminal é o responsável por decretar, seja provocado ou de ofício, dentro de sua própria investigação criminal, a quebra de direitos fundamentais que forem pertinentes à apuração do fato criminal naquele caso. - No juizado de instrução, dentro do inquérito judicial, o magistrado investigador pode decretar quebra de um sigilo, prisão preventiva de alguém, qualquer tipo de quebra de direito fundamental que esteja ligado aos interesses da própria investigação criminal. - À vista disso, inclusive, este inquérito judicial foi chamado pelo Código de Instrução de 1808 de “Processo Verbal”. - Visão das Cortes Internacionais: - Caso Favela Nova Brasília vs. Brasil (2017). - Instrumento de proteção dos direitos humanos. DIREITO PROCESSUAL PENAL I - Prof. Mauro Andrade. - Alguns críticos da literatura brasileira demonizam esse juizado de instrução, entendendo-o como um representante do sistema inquisitivo. - Entretanto, alguns países ainda mantém esse ajuizado de instrução desde a entrada em vigor do Código Processual Penal Espanhol (1882), sendo que a Espanha é o maior exemplo, ainda mantendo como responsável pela investigação criminal um juiz. - Cortes Internacionais jamais apontaram o juizado de instrução ou a investigação judicial como sendo representativos do sistema inquisitivo. - Do contrário, cortes internacionais, principalmente as protetivas de direitos humanos, de alguma maneira, chancelaram ou incentivaram a adoção do juizado de instrução como um modelo de investigação criminal. - Criminal Europeu dos DH: - Nunca foi apontada a inconvencionalidade da investigação criminal presidida pelo juiz. - Intento de Inserção no Brasil: - Projeto Vicente Ráo (1933). - Projeto de novo CPP. Projeto de lei que antecedeu ao projeto que levou à criação do atual CPP. - Mais marcante. - Pretendia-se que as investigações criminais fossem presididas por juízes, e não por delegados de polícia. - Projetos de alteração pontual. - Ainda hoje, pontualmente se vê projetos de lei sendo apresentados no parlamento, tanto pela Câmara dos Deputados quanto pelo Senado Federal, propondo esta alteração (troca da condução da investigação criminal do delegado de polícia pela figura do juiz). - Hipóteses Nacionais: - Art. 307, CPP. Quando o fato for praticado em presença da autoridade, ou contra esta, no exercício de suas funções, constarão do auto a narração deste fato, a voz de prisão, as declarações que fizer o preso e os depoimentos das testemunhas, sendo tudo assinado pela autoridade, pelo preso e pelas testemunhas e remetido imediatamente ao juiz a quem couber tomar conhecimento do fato delituoso, se não o for a autoridade que houver presidido o auto . - Trata da lavratura do auto de prisão em flagrante. DIREITO PROCESSUAL PENAL I - Prof. Mauro Andrade. - Atribui ao juiz a possibilidade do juiz lavrar o auto de prisão em flagrante naquela situação específica. - Auto de prisão em flagrante é uma investigação criminal de urgência, onde se toma o depoimento das testemunhas, da pessoa eventualmente vítima e, se quiser falar, do preso em flagrante. - Com esses dados, o MP já está habilitado, se entender, de ajuizar a sua ação penal condenatória. Logo, o auto de prisão é apontado uma investigação criminal de urgência, devendo ser feito em até 24h, de acordo com legislação brasileira. - Sendo presidida por um juiz, aí está uma hipótese de juizado de instrução. - Lei Orgânica da Magistratura Nacional (LOMAN, 1979). - Art. 33. Sã prerrogativas do magistrado: (...). § único. Quando, no curso de investigação, houver indício da prática de crime por parte do magistrado, a autoridade policial, civil ou militar, remeterá os respectivos autos ao Tribunal ou órgão especial competente para o julgamento, a fim de que prossiga na investigação. - O magistrado só poderá ser investigado nos crimes que praticar somente pelo próprio Poder Judiciário, independe se o crime foi praticado no exercício da função ou não. A investigação criminal deve, portanto, ser conduza pelo Poder Judiciario. - Caso tenha sido iniciada junto a outra instituição (polícia judiciária ou MP), no momento em que se identificar a presença de um magistrato como pessoa que pode e deve ser investigada, os autos deverão ser remetidos ao Poder Judiciário para dar continuidade a essa investigação. - COJE TJ/SP. - Investigação de crimes praticados por integrantes da polícia judiciária. - Determinou-se que as investigações criminais presididas por juízes seriam somente, para os efeitos do COJE, relativas aos crimes praticados pelos integrantes da polícia judiciária. - Tradição de vinculação da polícia judiciária com o Poder Judiciário. - Pressuposto de que o fato da polícia se chamar “polícia judiciária” levaria ao PJ exercer, portanto, o controle dos atos praticados por ela e, dentre esses controles, estaria a investigação criminal por eventuais infrações penais praticadas por integrantes dessa polícia judiciária. DIREITO PROCESSUAL PENAL I - Prof. Mauro Andrade. - Regimento Interno STF. - Art. 43. Ocorrendo infração à lei penal na sede ou dependência do Tribunal, o presidente instaurará inquérito, se envolver autoridade ou pessoa sujeita à sua jurisdição, ou delegará esta atribuição a outro Ministro. - §1º. Nos demais casos, o Presidente poderá proceder na forma deste artigo ou requisitar a instauração de inquérito à autoridade competente. - §2º. O Ministro incumbido do inquérito designará escrivão dentre os servidores do Tribunal. - Discussão atual: instauração do inquérito judicial das Fake News (2019). - Instauração de investigação criminal judicial pelo STF. - Questão processual: - Ausência de regulamentação no Brasil. - Não há uma linha sequer que venha a regular, em âmbito nacional, esse modelo de investigação criminal. - O CNJ não procurouregulamentar a investigação criminal do próprio poder a que está inserido, trazendo dúvidas e confusões quanto ao procedimento relativo a essa investigação, principalmente quanto ao acesso do MP a esta investigação criminal (tema mais discutido durante ao inquérito das Fake News). - Há causa de impedimento que venha a impedir o juiz que está investigando? - Na época em que o Brasil adotava a investigação criminal judicial como regra, haviam causas de impedimento. - Brasil colonial: - Decisão de Governo 81, 02.04.1824. Juiz que investigou não poderia participar do julgamento. - Brasil republicano . - CPP: ausência de menção expressa. - Como o Brasil não quis seguir a lógica do juiz investigador, não haveria a necessidade de menção, no CPP, de uma causa de impedimento ligada a um tipo de investigação que o CPP não adotaria. DIREITO PROCESSUAL PENAL I - Prof. Mauro Andrade. - Discussão atual sobre o fato de juiz que investigou poder atuar como julgador também. - Direito Europeu: - Quem investiga não julga . - Pacificada desde 1984. - TEDH, Caso de Cubber vs. Bélgica (1984) . - Aquele magistrado que conduziu a investigação criminal estará autoricamente impedido de atuar na fase de julgamento. Investigação Defensiva: Modalidade de investigação criminal que surgiu no ano de 2009. - PLS 156/2009 - Projeto de Novo CPP. - Art. 13. É facultado à vítima, ou seu representante legal, e ao investigado identificar fontes de prova em favor de sua defesa, podendo inclusive indicar pessoas a serem entrevistadas, nos termos do art. 26 deste Código. (Redação original). - No primeiro momento, surge com o interesse de defender os interesses do investigado e, também, da vítima . - Quanto a nomenclatura inicial, portanto, não se poderia dizer que a investigação defensiva serviria somente para poder tratar dos interesses do sujeito passivo da investigação criminal. - Lei nº 13.432/2017 (Dispõe sobre o exercício da profissão de detetive particular). - Art. 2º. Para os fins desta Lei, considera-se detetive particular o profissional que, habitualmente, por contra própria ou na forma de sociedade civil ou empresarial, planeje e execute coleta de dados e informações de natureza não criminal , com conhecimento técnico e utilizando recursos e meios tecnológicos permitidos, visando ao esclarecimento de assuntos de interesse privado do contratante. - Justamente para não chocar com a investigação criminal tradicional feita pelo Estado. - Retrocesso em relação à pretensão do Projeto de CPP. - Avanço no sentido de regulamentar uma atividade/categoria profissional que possui, tradicionalmente, um vínculo de atividade não só voltada à esfera não criminal, mas também a criminal. DIREITO PROCESSUAL PENAL I - Prof. Mauro Andrade. - Art. 5º. O detetive particular pode colaborar com a investigação policial em curso , desde que expressamente autorizado pelo contratante. - Colide com o art. 2º. - Possibilita ao detetive particular colaborar com a investigação criminal, enquanto que o art. 2º trata de sua coleta de informações voltadas a uma atividade não criminal. - Avanço na cultura na busca de informações fora dos meios oficiais do estado. - Provimento nº 188, de 31 de dezembro de 2018, da OAB. - Essa cultura fez com que, um ano depois, a OAB regulamentasse o que vinha sendo chamado de “investigação criminal defensiva”. - Art. 1º. Compreende-se por investigação defensiva o complexo de atividades de natureza investigatória desenvolvido pelo advogado, com ou sem assistência de consultor técnico ou outros profissionais legalmente habilitados, em qualquer fase da persecução penal , procedimento ou grau de jurisdição, visando à obtenção de elementos de prova destinados à constituição de acervo probatório lícito, para a tutela de direitos de seu constituinte. - Direcionamento para que essa investigação defensiva esteja voltada à persecução penal, e não para matérias que fogem desta área de atuação. - Art. 2º. A investigação defensiva pode ser desenvolvida na etapa da investigação preliminar, no decorrer da instrução processual em juízo, na fase recursal em qualquer grau, durante a execução penal e, ainda, como medida preparatória para a propositura da revisão criminal ou em seu decorrer. - Aponta qual o destino que pode ter essa investigação defensiva. - Não é só para o processo de conhecimento de cunho condenátório, mas também para as revisões criminais. DIREITO PROCESSUAL PENAL I - Prof. Mauro Andrade. AÇÃO PENAL Quando se fala de ação penal no direito criminal, nem sempre está se referindo a ação penal condenatória, ou seja, aquela ação ajuizada pelo MP ou pela parte ofendida buscando a condenação de alguém. Noções Gerais: - Ação - actio - agere = ação judicial, pleitear. Requerer alguma coisa - direcionado para o poder judiciário. - Na esfera criminal, independentemente do tipo de ação que se venha a propor, o conceito de ação penal é: “instrumento para provocação do Poder Judiciário visando a aplicação do direito penal ( ius puniendi ) ou a preservação do direito de liberdade ( status libertatis )”. - O que se busca com a ação é algo relativo à punição de alguém ou relativo à busca da preservação da liberdade de alguém. - Conceito considerado como genérico dado pelo professor. No processo penal, tem-se as mesmas lógicas do processo civil. Classificação: - Ação de conhecimento: - Declaratória. - Ex.: habeas corpus preventivo. - Aquele que procura declarar uma situação em específico dando uma limitação ou impedimento por parte do Estado em relação à pessoa que é beneficiária daquele HC. - Há uma declaração da inexistência ou existência de uma determinada relação jurídica que é disciplinada pelo Direito Penal. - Constitutiva. - Ação que tem como objetivo criar, extinguir ou modificar uma situação jurídica relevante para o Direito Penal ou para o Processo Penal. - Ex.: Revisão criminal (chama no Direito Civil de Ação Revisória). - Ela desconstitui uma sentença transitada em julgado para modificar uma situação que já era existente. - Condenatória. - Ação mais frequente. DIREITO PROCESSUAL PENAL I - Prof. Mauro Andrade. - Ações onde se busca a aplicação de uma norma legal que imponha uma penalidade a alguém. - São dois tipos de ações condenatórias: - A denúncia (só pode ser ajuizada pelo MP). - A queixa-crime (aquela que não pode ser ajuizada pelo MP). - Quem poderá ou não ajuizar dependerá da legislação. - Ação Cautelar: - Tem como finalidade assegurar o alcance de um pedido realizado ao que será realizado no processo de conhecimento, ou seja, quando se pede algo para garantir o interesse processual lá presente naquele processo de conhecimento anterior. - Pessoais. - Dizem respeito à liberdade de uma pessoa. - Exemplos: prisão preventiva, prisão temporária, concessão de liberdade provisória, medidas cautelares diversas da prisão. - Reais. - Cautelares que atingem o patrimônio da pessoa. - Exemplo: sequestro, arresto, hipoteca legal. - Probatórias. - Exemplo: produção antecipada de prova. Situação presente noprocesso civil quanto no penal, embora no penal não seja tão bem regulada. - Ação Mandamental: - Mandado de segurança dentro da esfera criminal. - Ação de Execução: - Via de regra, quem dá início ao processo de execução é o próprio judiciário, de ofício. Mas as ações de execução com pena de multa geralmente se dão através de provocação do MP. Ação Penal Condenatória: Trata-se de ação penal em que o pedido é a condenação, através da imposição de uma pena criminal para quem praticou, em tese, uma infração penal. “Em tese” pois se está falando de um processo, e não de uma sentença condenatória. DIREITO PROCESSUAL PENAL I - Prof. Mauro Andrade. - Pode ser ajuizada por meio de: - Ação Penal Pública: - O Estado por meio do Ministério Público. - Ação Penal Privada: - O ofendido ou quem a lei preveja. - Ação Penal Popular: - Qualquer pessoa do povo poderá ajuizá-la. - Lógica dos sujeitos que a promovem: - Quando se fala em ação penal privada ou particular , por exemplo, não está se referindo somente à realidade brasileira, mas sim uma realidade no geral. - A ação penal pública, da mesma forma, somente pode ser ajuizada por alguém que represente do Estado na persecução penal, sendo este alguém somente o Ministério Público. - Condições da Ação Penal Condenatória: - Mesma lógica do processo civil. - Processo: - Objeto Material: - Mérito. Aquilo que vou descrever como fato que é objeto de atenção, descrição relativa à prática, em tese, de uma infração penal. - Objeto Formal: - Condições da ação e pressupostos processuais . - Conceito de Condições da Ação Penal Condenatória: - Dizem respeito a certos requisitos que precisam ser preenchidos para que o processo possa chegar tranquilamente à fase de julgamento . - A ação deve estar bem formalizada, requisitos preenchidos, para que permita sua normal tramitação, dando sequência à fase probatória e, após, a fase de julgamento pelo juiz. - Análise das Condições da Ação Penal Condenatória: - Quando que o juiz pode fazer essa análise. DIREITO PROCESSUAL PENAL I - Prof. Mauro Andrade. - Teoria da apresentação (ou prospettazione): essa linha teórica diz que a análise das condições da ação penal deve ser feita quando do ajuizamento da ação. É no momento em que o juiz diz o “Recebo a ação penal” que ele deve fazer essa análise, com o posterior comando para citar o réu e etc. - Mais aderida pelos juízes em primeiro grau. - No entanto, existe outro momento em que essa análise deve ser feita? - Análise em concreto: essa linha teórica defende que o juiz tem a possibilidade de fazer novamente a análise das condições da ação após a defesa do réu. - No CPP, tem dois momentos de análise: - No ajuizamento da ação (recebe ou não e após cita o réu); - Após a “defesa” do réu (chamada de resposta à acusação/resposta escrita/defesa preliminar - equivalente à contestação no civel). - Questão: depois disso, é possível ou não fazer essa análise? - Limitação doutrinária: no momento de abertura da fase probatória, o professor entende que não deveria mais ser feita essa análise. - Questão de construção doutrinária: no Brasil, tem-se a teoria da apresentação quando se ajuiza a ação e, depois da defesa apresentada pelo réu, se faz uma nova análise se invocada algo em sua defesa que atinge às condições da ação. Nada sendo invocado, a ação segue sem necessidade de novo revisamento pelo juiz das condições da ação. - No caso da análise do caso em concreto, não é dado um prazo ou momento fixo para essa análise, podendo o juiz fazer essa análise durante grande parte do processo, mas tem essa limitação sugerida pela doutrina que seria até a abertura da fase probatória. - Art. 395 do CPP. A denúncia ou queixa será rejeitada quando: I- for manifestamente inepta; II - faltar pressuposto processual ou condição para o exercício da ação penal; DIREITO PROCESSUAL PENAL I - Prof. Mauro Andrade. - É o que se chama de carência de ação (primeiro momento - quando do ajuizamento). - Quando não há satisfação de um ou de ambos requisitos para o ajuizamento da ação, rejeita-se a ação. - A expressão no direito criminal é Rejeição da ação (corresponde à carência de ação no direito civil). - Efeito da análise: a decisão de carência de ação faz coisa julgada? - Via de regra, essa decisão ela não faz coisa julgada, isto pois a ação pode ser ajuizada novamente caso quem ajuizou a ação reveja/corrija os problemas, se possíveis de serem corrigidos, que foram apontados pelo juiz. - Se o problema diz respeito a ilegitimidade para propor a ação, por exemplo, não teria como a mesma pessoa tentar ajuizá-la novamente/corrigir. - Sendo possível a correção, é possível um novo ajuizamento com uma nova análise pelo juiz em relação a esse tipo de seguimento da ação penal condenatória. - Quais seriam as Condições da Ação? - O CPP não indica, de modo que encontramos a resposta no CPC. Art. 330 do NCPC. A petição inicial será indeferida quando: I - for inepta; II - a parte for manifestamente ilegítima; III - o autor carecer de interesse processual; IV - não atendidas as prescrições dos arts. 106 e 321. - Existem três linhas teóricas, dentro do processo penal, que buscam explicar quais/quantas seriam as condições da ação: - Três condições (primeira linha teórica): a que defende que existe três condições da ação, que eram aquelas previstas antes do NCPC, ou seja, o CPC de 1973. - Legitimidade da parte. - Interesse processual. - Possibilidade jurídica do pedido (foi deixada de lado no novo CPC pois entendeu-se que ela foi incorporada pelo ‘interesse processual’). DIREITO PROCESSUAL PENAL I - Prof. Mauro Andrade. - Duas condições (segunda linha teórica): a que defende a existência de duas condições, atualmente alinhada ao NCPC. - Legitimidade de parte. - Interesse processual. - Condições próprias (terceira linha teórica): A que defende que, no processo penal, há condições da ações que seriam próprias dele, desvinculadas do processo civil. Quais sejam: - Prática de fato aparentemente criminoso ( fumus comissi delicti ). - Conduta típica, ilícita e culpável. - Punibilidade concreta. - Não tem uma causa extintiva da punibilidade, como a prescrição, por exemplo. - Legitimidade da parte. - Tanto para o ajuizamento, quanto para contra quem se irá ajuizar. - Justa causa. - Autoria e materialidade. “Elementos mínimos” que justifiquem, dos quais se buscaria uma comprovação maior na fase probatória. - Necessidade de intervenção judicial. - Outras condições da ação. - Professor acredita que a segunda linha teórica, ou seja, aquela que vai de encontro as condições elencadas pelo NCPC é a correta , pois já abarcam os casos/condições tanto da terceira, quanto da primeira linha teórica. - Condições da Ação Penal Condenatória, de acordo com à segunda linha teórica: - Duas condições: - Legitimidade de parte. - Interesse processual. - Legitimidade de parte: - Conceito: “parte” é quem pede ou contra quem se pede (quem demanda ou contra quem se demanda). É preciso saber se a DIREITO PROCESSUALPENAL I - Prof. Mauro Andrade. legislação prevê a possibilidade de que aquela pessoa que ajuizou a ação possa fazê-la, e se há a admissão de que a pessoa contra quem se ajuizou a ação possa figurar também no processo como parte demandada. - Reconhecimento que a legislação dá para que quem ajuizou a ação possa mesmo ajuizar, e contra quem se ajuizou, se é possível ter uma ação ajuizada contra ela. - Parte ativa: quem ajuiza a ação. - O MP nas Ações Penais Públicas. - Parte passiva: contra quem se ajuiza a ação. - Pessoa maior de 18 anos completados (maior civilmente). - Interesse de Agir: - Conceito: interesse na atuação do Poder Judiciário (atuação do Estado-Jurisdição). - No lugar de permitir uma “vingança privada”, a intenção é que se busque no poder Judiciário a resolução daquele conflito. - Requisitos: - Necessidade . A necessidade de recorrer às vias judiciais para obter a satisfação daquele pedido (no caso, a incidência do direito material - a pena). - Deve se averigurar se é possível aguardar uma solução voluntária, o que geralmente pouco ocorre no processo penal, ou se não há outras alternativas se não a provocação do Poder Judiciário. - Aqui, sempre se precisa provocar o PJ, pois no momento em que se quer a incidência de uma sanção penal contra alguém, tem que buscá-lo para tal. - Utilidade. - Preciso saber se o provimento buscado é útil para a satisfação do direito material violado. Ou seja, se a forma da provocação traz algum tipo de utilidade enquanto mecanismo para aplicação da pena. - Não seria útil ajuizar uma determinada ação penal se, no caso de uma aplicação de pena, já se teria a incidência de uma prescrição (no caso da pena em concreto). Isso porque o cálculo de prescrição in abstrato tem que levar em conta a pena máxima. Se há DIREITO PROCESSUAL PENAL I - Prof. Mauro Andrade. uma pena de 6 meses a 2 anos, o prazo de prescrição que deve ser contato é de 2 anos - deve-se olhar a tabelinha para ver a prescrição para o caso de condenação de 2 anos. - Se a pessoa, contudo, não tem nenhum tipo de condenação anterior, nada que justifique ela ser condenada a uma pena máxima de dois anos, ela provavelmente receberá uma pena mínima, devendo-se partir da pena de 6 meses o cálculo - deve ser olhada na tabela a prescrição para 6 meses. - Se a sentença só poderá, portanto, condenar a pessoa a 6 meses, e a condenação já estaria prescrita, porque se ajuizaria a ação, tendo que tramitar todo o processo se o resultado já seria a prescrição. - Questão da utilidade. Era chamada de Prescrição Antecipada (processo que não daria em nada - não era útil - sem interesse de agir). - Adequação. - Pedido adequado. - Tem que ver o pedido é adequado para se obter a satisfação do direito material que está sendo envocado. - Ou seja, o pedido não pode ser de pena de morte, pena perpétua, etc. Tem que pedir a condenação com base naquilo que está previsto na legislação para imposição da pena que se pretende no final. - Justa Causa (terceira linha teórica faz menção): - Na redação do original do CPP: - Art. 43. A denúncia ou queixa será rejeitada quando: I - o fato narrado evidentemente não constituir crime; II - já estiver extinta a punibilidade pela prescrição ou outra causa; III - for manifesta a ilegitimidade da parte ou faltar condição exigida pela lei para o exexício da ação penal. - Era tida como uma quarta condição da ação. - Na reforma de 2008 do CPP: - Art. 395. A denúncia ou queixa será rejeitada quando: DIREITO PROCESSUAL PENAL I - Prof. Mauro Andrade. I - (...); II - faltar pressuposto processual ou condição para o exercício da ação penal; ou III - faltar justa causa para o exercício da ação penal . - A justa causa não é uma condição da ação . Ainda há autores que insistem em ter a justa causa enquanto condição de uma ação penal, embora o CPP deixe claro que são coisas diferentes. - A justa causa tem como finalidade evitar que haja uma acusação infundada e temerária, pois ela procura fazer uma dupla análise: - A aparência do direito material violado, ou seja, a aparência do crime - elementos que procuram demonstrar que aquele crime realmente ocorreu. - Análise da presença de fundamento de fato e de direito para acusar, ou seja, uma mínima atividade probatória que mostre a viabilidade mínima de se conseguir uma condenação. - Gira em torno de elementos mínimos colhidos na fase de investigação que podem/irão justificar o ajuizamento daquela ação penal. - Controvérsia: se essa justa causa já faria parte da análise que se faz em relação a legitimidade ativa (se quem ajuiza ação pode estar ajuizando) e em relação ao interesse (se o interesse em si está plenamente configurado). - Entretanto, isso tudo é matéria probatória. Por isso, há quem diga (e o professor concorda), que a justa causa já faz parte de uma análise que deve ser feita nas condições da ação (legitimidade e interesse de agir). - Outras Condições da Ação Penal Acusatória: - Designações: - Condições específicas da ação penal. - Condições de procedibilidade. - Condições de Perseguibilidade. - Ao passo que as condições da ação já vistas tem o condão de proporcionar ao juiz que profira a sentença de mérita, essas outras condições tem natureza procedimental, consequentemente acaba acarretando o óbice da iniciativa válida do processo. - Representação do ofendido ou seu representante legal: art. 24 do CPP. DIREITO PROCESSUAL PENAL I - Prof. Mauro Andrade. - Para os casos de ação penal pública condicionada. - A ação penal pública condicionada é aquela que quem pode acusar é o MP, mas que necessita da autorização de quem a legislação prevê/indica. Via de regra, essa representação ou autorização é dada pelo ofendido ou pelo seu representante legal. - Requisição do Ministro da Justiça: art. 24 CPP. - Para certos crimes que atingem a honra de mandatários de seus países (Presidente da República ou outros Chefes de Estado que eventualmente estejam aqui). - O Ministro da Justiça que deve fazer essa provocação, do contrário, não ocorre o ajuizamento da ação e, caso ajuizada, não terá seguimento - juiz tem plena autorização de rejeitar. - Certidão do trânsito em julgado da sentença que, motivo de erro ou impedimento, anule o casamento . - Art. 236 CP. Contrair casamento, induzindo em erro essencial o outro contraente, ou ocultando-lhe impedimento que não seja casamento anterior. - Para que se possa ajuizar uma ação penal contra essa pessoa que enganou o cônjuge, antes disso, é preciso que se busque, no processo civil, a anulação do casamento e, somente com o trânsito em julgado dessa sentença que levou à anulação do casamento, é que é possível ajuizar essa ação. - Entrada do agente em território nacional, nos crimes cometidos fora do território nacional: art. 7º CP. - Autorização da Câmara dos Deputados para o processamento do Presidente da República, do Vice-Presidente da República, e Ministros de Estado . - Sem essa autorização, não é possível processar.- Exame pericial quando houver materialidade (art. 525 CPP) . - Quando determinado exame é fundamental para poder atestar a prática de uma infração penal. - Prova nova . - É exigível quando, depois da investigação terminada, esta investigação foi arquivada por falta de prova. O fato de se arquivar uma investigação criminal por falta de prova, não quer dizer que a autoridade policial não possa continuar DIREITO PROCESSUAL PENAL I - Prof. Mauro Andrade. investigando, ou que alguém possa levar uma nova prova/informação à autoridade policial. - Quando arquivada uma investigação policial, portanto, o MP ou querelante não pode ajuizar a sua acusação com base em investigação arquivada e sem informação nova/diferente. Pra ajuizar essa ação penal condenatória, somente pode ajuizar se utilizando daquela investigação policial se tiver uma prova a mais que justifique o ajuizamento. - Espécies de Ação Penal Condenatória: - Ação penal pública (Denúncia). - Ação penal privada (Queixa-crime). - Para se ajuizar uma ou outra, é necessário alguns requisitos: - Art. 41 CPP. A denúncia ou queixa conterá a exposição do fato criminoso, com todas as suas circunstâncias, a qualificação do acusado ou esclarecimentos pelos quais se possa identificá-lo, a classificação do crime e, quando necessário, o rol das testemunhas. - O rol de testemunhas não é obrigatório, mas o restante sim. - Artigo não exige o pedido de condenação. - Motivo: durante algum tempo, houve um tipo de ação penal (denúncia ou queixa) em que não era exigido o pedido de condenação no final delas - o pedido final era um pedido declaratório. Isso só se aplicava nos processos do júri. - Até 2008, as ações penais (denúncia ou queixa) que eram ajuizadas para iniciar um processo no Tribunal do Júri, não pediam condenação de alguém, mas sim que essa pessoa fosse reconhecida como pronunciada - levada a julgamento perante os jurados. Por isso que, à época, essa ação era considerada declaratória porque requeria a declaração dessas pessoas enquanto pronunciadas. - O pedido de condenação somente dava depois, no meio do processo. O juiz determinava, após toda a fase probatória, que essas pessoas fossem a Júri, proferindo uma decisão de pronúncia (declarando essas pessoas como pronunciadas) e essas pessoas eram submetidas ao júri. Porém, antes do julgamento perante aos jurados, cabia ao MP fazer uma peça chamada (na época) de libelo crime-acusatório, que era a descrição do fato, a indicação do sujeito e o pedido de condenação. Ali, somente, se dava o pedido de condenação. A defesa se chamava contra libelo. DIREITO PROCESSUAL PENAL I - Prof. Mauro Andrade. - O libelo foi extinto em 2008 , de modo que não há esse tipo de ação declaratória nos processos de competência do Tribunal do Júri terminaram. A partir de 2008, todas as denúncias e queixas crime devem ter pedido de condenação, ainda que isso não tenha sido alterado no CPP (redação ainda original). - Por isso, há autores que defendem (de forma correta segundo o professor) que, caso não haja o pedido de condenação por parte de quem ajuizou a ação, essa ação seria inepta por falta de preenchimento de requisito básico . Ação Penal Pública: É aquela ação que só pode promovida pelo Ministério Público , não podendo ninguém mais ajuizá-la senão o MP. A regra geral é que todos os crimes sejam de ação pública, de modo que não precisa constar, de maneira expressa no dispositivo, que tal crime é de ação penal pública. Assim, na omissão da lei, se sabe que esse tipo de crime só pode ser processado mediante acusação exclusiva do Ministério Público. Art. 100 CP. A ação penal é pública, salvo quando a lei expressamente a declara privativa do ofendido . - Princípios: - Oficialidade: só o Estado pode ajuizar esse tipo de ação, por meio do MP. - Legalidade ou obrigatoriedade: necessidade do ajuizamento da ação penal porque a lei obriga. - Todavia, em nenhum lugar da nossa legislação aponta a necessidade/obrigatoriedade de ajuizamento. - Art. 28 CPP. Interpretação de que esse princípio decorre desse artigo, que fala sobre o controle sobre o pedido de arquivamento feito pelo órgão do MP que se depara com a investigação. - Hoje quem faz a análise do pedido de arquivamento é o Poder Judiciário - mas se o judiciário não concordar, ele não pode obrigar o MP a ajuizar ação (situação em que o juiz remete investigação para o chefe do MP e lá se toma as providências para ver se mantém o pedido de arquivamento feito pelo membro do MP na origem (quem primeiro viu o inquérito) ou se concorda com o juiz). - Indisponibilidade: - Atinge três pontos: desistir da ação expressamente, pedido de absolvição e o momento de interposição de recurso - é vedada a desistência pelo MP . DIREITO PROCESSUAL PENAL I - Prof. Mauro Andrade. - Art. 42 CPP. O Ministério Público não poderá desistir da ação penal. - Isso porque o MP não é o titular do direito que foi violado, uma vez que o titular do direito violado, via de regra, é o próprio Estado. É ele quem detém o ius puniendi. - Art. 385 CPP. Nos crimes de ação pública, o juiz poderá proferir sentença condenatória, ainda que o Ministério Público tenha opinado pela absolvição, bem como reconhecer agravantes, embora nenhuma tenha sido alegada. - Tendo em vista o direito do juiz e o ius puniendi do Estado, titular do direito violado, ainda que o MP peça a absolvição, o juiz não está obrigado a absolver, podendo, inclusive, condenar. Isso porque o pedido de absolvição não pode ser entendido como uma desistência do ajuizamento da ação. - Art. 576 CPP. O Ministério Público não poderá desistir de recurso que haja interposto. - Não atinge somente o ajuizamento da ação, mas também os recursos. - Indivisibilidade: - Não posso escolher contra quem se vai ajuizar a ação, ou seja, no momento em que se tem duas ou mais pessoas envolvidas em crime, é preciso se ajuizar a ação contra todas elas. - Intranscendência: - A pena a ser aplicada não pode passar da pessoa de quem foi processado. - Art. 5º, inc. XLV, CF. Nenhuma pena passará da pessoa do condenado, podendo a obrigação de reparar o dano e a decretação do perdimento de bens ser, nos termos da lei, estendida aos sucessores e contra eles executada, até o limite do valor do patrimônio transferido. - Na visão do professor, esse princípio não teria “nada a ver” com ação penal, mas sim com execução penal (aplicação da pena). - Espécies de Ação Penal Pública: - Incondicionada: aquela em que a legitimidade para ajuizar é do MP e ele não precisa de nenhum tipo de autorização para ajuizar ação/oferecer acusação. - Sendo o artigo que descreve o crime omisso, o MP não precisa ser autorizado por ninguém para ajuizar ação caso o crime venha a ser cometido, sem necessidade de qualquer manifestação de terceiros. DIREITO PROCESSUAL PENAL I - Prof. Mauro Andrade. - Condicionada: já a condicionada é aquela ação penal pública em que é necessária uma autorização para que o MP ofereça a denúncia,que pode se dar por meio de: - Representação: o ofendido ou seu representante legal como regra (já outras possibilidades). - Requisição do Ministro da Justiça. - Fórmula: encontra-se logo abaixo do artigo que prevê o crime (parágrafo único, etc.). Sempre tem que ter esse esclarecimento, justamente pra deixar claro que não é um crime de ação penal pública incondicionada. - “somente se procede mediante representação.” - “procede-se mediante representação.” - “procede-se mediante requisição do Ministro da Justiça.” - Art. 24 CPP . Nos crimes de ação penal pública, esta será promovida por denúncia do Ministério Público, mas dependerá, quando a lei o exigir, de requisição do Ministro da Justiça, ou de representação do ofendido ou de quem tiver qualidade para representá-lo. - Art. 100, §1º, CP. A ação pública é promovida pelo Ministério Público, dependendo, quando a lei o exige, de representação do ofendido ou de requisição do Ministro da Justiça. - Representação: - Conceito: é uma manifestação de vontade do ofendido/representante legal ou de outra pessoa que a legislação preveja, para que o Estado possa dar início à persecução penal contra o suposto ofensor, aquele que, em tese, praticou a infração penal. - Tem natureza jurídica processual . Condição de procedibilidade para ajuizamento da ação penal (ou outras condições da ação). - Legitimidade : - Ofendido: pessoa de 18 anos ou mais e que é capaz. - Representante legal: quando o ofendido não tem 18 anos ou mais, ou já os tem mas não é capaz. - CADI: cônjuge, ascendente, descendente ou irmão. Incide quando o ofendido já morreu ou está ausente (ausência do código civil - morte presumida). - Curador: tem a possibilidade de atuar quando o ofendido não tiver representante legal ou quando houver um conflito de interesses entre o ofendido e o seu representante. Ex.: caso em que o próprio representante é o agressor do ofendido. DIREITO PROCESSUAL PENAL I - Prof. Mauro Andrade. - Prazo para oferecimento da representação : - Art. 38 CPP. Salvo disposição em contrário , o ofendido, ou o seu representante legal, decairá do direito de queixa ou de representação, se não o exercer dentro do prazo de 6 meses , contado do dia em que vier a saber quem é o autor do crime , ou, no caso do art. 29, do dia em que se esgotar o prazo para o oferecimento da denúncia. - Importante ressaltar que o prazo de 6 meses não é da data do fato/prática do fato. A data do fato é um marco para cálculo da prescrição, para a representação é necessário saber a autoria (ou seja, o dia em que se soube a autoriza - marco para contagem do prazo de representação). - Logo, após 6 meses do dia do conhecimento da autoria, tem-se o instituto da decadência. - Autoridade destinatária: manda-se para a autoridade policial (não é obrigatória). - Pode ser o Ministério Público ou o próprio Poder Judiciário. Entretanto, no momento em que o MP ou o PJ recebe essa representação, o que eles farão será o direcionamento para a autoridade que irá investigar. - O mais adequado é que a representação seja encaminhada, portanto, para a autoridade policial (pode fazer no próprio BO). - A forma da representação não exige grandes formalidades, bastando que a pessoa faça a descrição do fato da melhor forma que conseguir, diga o que ocorreu e deixe claro que está representando.contra aquela pessoa que, em tese, praticou o crime contra ela, ou que peça para o Estado fazer essa investigação/apure contra quem praticou o crime em tese. - Tem que ser claro que a pessoa está autorizado e pedindo ao Estado para fazer isso. - CPP não deixa a forma clara. - Retratação: quem ofereceu a representação pode voltar atrás (se retratar). - Art. 25 CPP. A representação será irretratável, depois de oferecida a denúncia. - A retratação só pode ser apresentada até antes do oferecimento da denúncia pois, sendo ação penal pública, só pode ser pelo MP - e o MP não pode desistir da ação penal ajuizada. DIREITO PROCESSUAL PENAL I - Prof. Mauro Andrade. - Crítica: preclusão consumativa. A legislação dá a possibilidade de atuar e, em atuando, aquela faculdade já foi satisfeita, não se pode mais refazer aquilo (lógica do processo civil). Ou seja, se o ofendido “satisfez” essa representação, essa condição que a legislação impõe, ele não poderia mais se retratar. Entretanto, a legislação faz previsão expressa de retratação, então não caberia essa crítica. - Retratação da retratação: - O ofendido vai à delegacia de polícia e faz a sua representação, ou seja, pede providências da polícia contra alguém que, em tese, praticou um crime de sanção penal pública condicionada contra ele e autoriza o ajuizamento de ação pelo MP contra essa pessoa. Depois, dentro do prazo de retratação, decide que não quer mais representar e informa a autoridade policial e retira a ‘representação’ ou ‘se retrata’, fazendo-o também por escrito. É possível ir novamente para dizer que quer representar ‘de novo’? - Sim, é possível. - Condição: representação nova - deve ser apresentada dentro do prazo decadencial de 6 meses. Sendo apresentada depois do prazo, não cabe mais falar nela. - Crítica: preclusão consumativa. - Se a legislação dá a oportunidade de representar e depois retratar, se a pessoa já se retratou, foi cumprido aquilo que a legislação permitia, não cabendo procurar novamente a autoridade policial manifestando que “agora ele quer representar”. - Requisição do Ministro da Justiça: - Mesmos artigos (art. 24 CPP e art. 100, §1º, CP). - Fundamento: conveniência política sobre o início ou não da persecução penal contra alguém. - Destinatário: Para quem que se pode oferecer essa requisição. - Discussão (doutrinária e jurisprudencial): seria para o chefe do MP o oferecimento ou aos outros membros? - Lei não esclarece - não há exigência legal. - Prazo: a legislação não fala em prazo para requisição do Ministro da Justiça, quer dizer que o prazo de 6 meses não existe. DIREITO PROCESSUAL PENAL I - Prof. Mauro Andrade. - Somente o prazo de prescrição (pode oferecer a requisição a qualquer momento, mas fica sujeito ao prazo prescricional - e não ao decadencial). - Retratação: as questões relativas à retratação também incidem aqui, conforme boa parte da doutrina, pois, na ausência de previsão legal, não há porque haver tratamento diferenciado. - Prazo para ajuizamento da Ação Penal Pública: - Vai depender do tipo de infração penal (tipo de crime). - Regra básica geral, prevista pelo CPP, para ajuizar ação é o de 5 dias para o sujeito que estiver preso (investigado preso) e 15 dias em caso de investigado solto (sujeito que está solto) . - Cuidado: Prazos especiais . - Código Eleitoral: 10 dias para o ajuizamento das ações. - A Lei de Drogas prevê 10 dias para sujeito tanto preso quanto solto. - Crimes contra a econômia popular: 2 dias. - JECRIM: tem que ser oferecida em audiência. - Importante saber que o prazo para ajuizamento da ação penal pública, via de regra, é de 5 dias quando o sujeito estiver preso,e de 15 dias quando estiver solto!!!. - Consequências da perda do prazo: - Habeas Corpus para réu preso. - É possível que se impetre habeas corpus para sua soltura, pois ele não pode ficar esperando eternamente que o MP ofereça essa acusação. - É claro que pode ser que o MP se estenda e mesmo assim o sujeito sija preso, pois dependerá mais da complexidade do caso (é possível pedir autorização judicial para ampliação do prazo da denúncia quando a investigação envolve fatos muito complexos). - Possibilidade de ajuizamento de Ação penal privada subsidiária da pública. - Art. 5º, inc. LIX do CP. - Art. 100, §3º, CP; art. 29, CPP. DIREITO PROCESSUAL PENAL I - Prof. Mauro Andrade. - Aquela ação em que o ofendido/representante/CADI/curador, etc.. ajuíza. Caso de ação condenatória ajuizada pelo ofendido quando o MP não ajuiza no prazo estabelecido pela lei. - Prazos e suas consequências entendidos enquanto mecanismo de controle contra a inércia do MP em ajuizar ação penal pública no prazo estabelecido pela legislação. Ação Penal Privada: Trata-se de todo aquele tipo de ação condenatória que não é ajuizada pelo Ministério Público. Se faz uma leitura/conceituação inversa da ação penal pública (conceito genérico). Quem poderá ajuizar? dependerá do regramento legal. - Regra: é preciso que a lei preveja expressamente que determinado tipo de crime somente será processado mediante queixa. - Art. 100 CP. A ação penal é pública, salvo quando a lei expressamente a declara privativa do ofendido. - Ex.: “somente se procede mediante queixa” - art. 145, § único, CP. - Não havendo essa previsão, a regra é que o crime é de ação penal pública, devendo prever expressamente que deve ser condicionada a representação. - Tipos de Ação Penal Privada: - Ação Penal Privada Propriamente Dita. - Ação Penal Privada Personalíssima. - Ação Penal Privada Subsidiária da Pública. Ação Penal Privada Propriamente Dita: Quando não for caso de ação penal privada personalíssima ou subsidiária da pública, será ação privada propriamente dita (critério por exclusão). - Parte geral da ação penal privada. - Princípios: - Oportunidade ou conveniência. - É o oposto ao princípio da legalidade. O ajuizamento da ação fica a critério de conveniência de quem tem legitimidade para ajuizá-lo. - Aqui, a autoridade policial não pode fazer nada em termos de investigação, inclusive se não houver a autorização por parte de quem tem legitimidade para ajuizar essa ação. DIREITO PROCESSUAL PENAL I - Prof. Mauro Andrade. - Disponibilidade. - Diz respeito a possibilidade de se dispor do conteúdo da relação jurídico-processual, ou seja, a própria ação. - Decorre do princípio da oportunidade. Logo, o sujeito pode desistir do processo ou abandoná-lo. - Exemplos.: perdão do ofendido, que pode ser concedido até o trânsito em julgado da sentença condenatória; perempção, que consiste no abandono do processo; desistência da ação/recurso; renúncia ao ajuizamento da ação. - Indivisibilidade. - Não se pode escolher a quem acusar. Essa ação penal privada deverá ser endereçada a todas as pessoas que, na visão de quem ajuizou a ação, acabou por praticar aquele crime que cabe a ação penal privada. - Ex.: se três pessoas ofenderam a minha honra dentro de um fato só, terei que ajuizar ação contra essas três (as três devem ser acusadas e processadas). - Art. 48, CPP. A queixa contra qualquer dos autores do crime obrigará o processo de todos, e o Ministério Público velará pela sua indivisibilidade. - Instranscendência. - A condenação não passa da figura do acusado. - Art. 5º, inc. XLV, CF. - Titularidade: - Obs.: quem ajuiza a ação penal privada é chamado de querelante, enquanto contra quem se ajuiza esse tipo de ação é chamado de querelado. - Quem pode ser QUERELANTE: - Ofendido ou representante (problema mental ou menor de idade). - CADI (morte ou ausência civil). - Curador (ofendido sem representante ou caso em que o ofensor é o representante do ofendido/conflito de interesses). - Prazo para oferecimento da Ação Penal Privada: - Prazo comum: - Art. 38, CPP. Prazo de 6 meses, contado a partir da data em que se souber quem é o autor do crime (conhecimento da autoria). DIREITO PROCESSUAL PENAL I - Prof. Mauro Andrade. - Não é contado do dia do crime (isso só serve pra prescrição). - Crimes contra a propriedade imateria l: - Art. 529. Nos crimes de ação privativa do ofendido, não será admitida queixa com fundamento em apreensão e em perícia, se decorrido o prazo de 30 dias, após a homologação do laudo. - Nesses crimes, se faz a busca e a apreensão do material. Se o material é apreendido, faz-se uma perícia sobre esse material. Se essa perícia constatar que, de fato, aquele material é adulterado, incidindo em algum dos crimes contra propriedade imaterial, e sse laudo deve ser homologado pelo juiz (ou seja, ele deve manifestar sua concordância com o resultado daquela perícia). Havendo a homologação, é da homologação que se parte o prazo de 30 DIAS para ajuizamento. - Prazo especial. Art. 530. Se ocorrer prisão em flagrante e o réu não for posto em lliberdade , o prazo a que se refere o artigo anterior será de 8 DIAS. - Prazo ainda mais restrito. Caso da pessoa que praticou o crime estiver presa. - Postura do Ministério Público: - O MP também vai atuar dentro do processo, ainda que não seja na função de quem ajuizou a ação. Ou seja, não será parte. - Atuação como custos legis . - “Fiscal da lei (ordem jurídica)”. - Ele irá sempre se manifestar depois das partes - geralmente depois da manifestação do réu. - O MP não pode recorrer contra os interesses do réu. - Recursos pró-réu - limite quanto aos recursos. - Pode pedir absolvição, diminuição da pena, etc., nunca em desfavor do réu. - Essa limitação da atividade do MP, porém, não tem previsão em lei, mas decorre da doutrina e da jurisprudência consolidada. - Renúncia: - Conceito: a abdicação do exercício da ação penal privada. Ou seja, se deixa manifesto que não se tem a intenção de ajuizar essa ação. DIREITO PROCESSUAL PENAL I - Prof. Mauro Andrade. - Ela só ocorre antes do ajuizamento da ação , somente tendo essa incidência em âmbito extraprocessual. - Tem que ser exercida dentro do prazo decadencial , sob pena de não ser esse o instituto que irá incidir no caso concreto. - Independente da concordância do sujeito passivo que, em tese, praticou aquele crime/delito contra quem se coloca na condição de querelante. - Ato unilateral. - Legitimidade para renunciar: somente aquele que pode ajuizar a ação. - Aproveitamento a todos: se renunciar em relação a um, a todos os outros será tida como aplicada essa renúncia. - Art. 49, CPP. A renúncia ao exercício do direito de queixa, em relação a um dos autores do crime, a todos se estenderá. - Efeito: a renúncia leva à extinção da punibilidade . Não há como voltar atrás (não há como se “retratar” ou retomar o direito de ajuizar). - Perdão: - Conceito: perdoar, desculpar o agressor. - Decorrência dos princípios da oportunidade e disponibilidade. - O perdão é possível depois deajuizada a ação penal privada . - Legitimidade para perdoar: querelante, quem tem legitimidade para ajuizar a ação. - Ato bilateral: não basta uma pessoa perdoar o seu ofensor. Quem foi perdoado também precisa concordar. - Para que o processo possa terminar e o perdão possa ser considerado como válido, que é a extinção da punibilidade, ele precisa ser aceito, porque o querelado pode entender que quer provar a sua inocência . - Ou seja, o querelado tem direito de querer provar a sua inocência e de buscar uma sentença absolutória, e mostrar que a queixa não era verdadeira. - Não cabe o perdão na fase de execução. - Ele só é possível até o trânsito em julgado daquela sentença. - Isto pois o perdão diz respeito à ação, e não à pena. E, também, o direito de punir após o trânsito em julgado é do Estado, e não do ofendido. DIREITO PROCESSUAL PENAL I - Prof. Mauro Andrade. - Aproveitamento a todos: igual como na renúncia - deve ser aplicado a todos. - O efeito é a extinção da punibilidade , tal qual a renúncia. - Limite temporal: é até o trânsito em julgado da sentença condenatória. - Perempção: - Deriva do desinteresse do autor em seguir com a ação penal privada. - Traz como efeito a extinção da punibilidade. - Art. 60 do CPP. Nos casos em que somente proceda mediante queixa, considerar-se-á perempta a ação penal: (...): - Não se aplica às ações penais privadas como um todo, mas sim nos crimes de ação penal privada. - Essa causa de extinção de punibilidade, portanto, só tem incidência em dois tipos de ação penal privada: a proprieamente dita e a personalíssima . - Isso porque a subsidiária da pública só tem incidência quando o MP não ajuíza a ação penal pública dentro do prazo que a lei prevê. Ali, o crime se procede mediante denúncia, mas como a denúncia não foi oferecida, abriu-se margem para a ação privada subsidiária (aqui, os crimes são de ação penal pública, e não específicos de ação penal privada). - Hipoteses: - Art. 60 CPP. Nos casos em que somente proceda mediante queixa, considerar-se-á perempta a ação penal: I - quando, iniciada esta, o querelante deixar de promover o andamento do processo durante 30 DIAS seguidos; (não faz distinção se o processo está parado por conta de quem ajuizou ou por conta do cartório - sempre requerer ao juízo que de seguimento ao processo). II - quando, falecendo o querelante, ou sobrevindo sua incapacidade, não comparecer em juízo para prosseguir no processo, dentro do prazo de 60 DIAS, qualquer das pessoas a quem couber fazê-lo, ressalvado o disposto no art. 36. - A intenção do legislador é desincentivar o ajuizamento de ações penais privadas - ele quer uma celeridade que nem o próprio judiciário tem. III - quando o querelante deixar de comparecer, sem motivo justificado, a qualquer ato do processo a que deva estar DIREITO PROCESSUAL PENAL I - Prof. Mauro Andrade. presente, ou deiar de formular o pedido de condenação (expresso) nas alegações finais (alegações finais = alegações verbais onde cada um pede o mais correto ou memoriais); IV - quando, sendo o querelante pessoa jurídica, esta se extinguir sem deixar sucessor, - Desistência: - Enquanto a perempção é vista como uma desistência tácita, um abandono da ação penal privada, a desistência enquanto instituto próprio é uma manifestação de vontade que não há, de maneira expressa, interesse no seguimento naquele processo/ação . - A existência leva à extinção da punibilidade. - Efeito igual ao da perempção. - Também tem sua incidência como causa extintiva da punibilidade na ação penal privada personalíssima. - Na privada subsidiária da pública ela não leva à extinção da punibilidade. Ação Penal Privada Personalíssima: Nesse tipo de ação, o legitimado é somente uma pessoa, previsto somente em um artigo do CP. Art. 236, CP. Contrair casamento, induzindo em erro essencial o outro contraentre, ou ocultando-lhe impedimento que não seja casamento anterior. Pena: detenção de 6 meses a 2 anos. - Só quem pode ajuizar essa ação é o contraente enganado . Não existe nem representante, nem curador e nem CADI. - Art. 236, § único, CP. A ação penal depende de queixa do contraente enganado e não pode ser intentada senão depois de transitar em julgado a sentença que, por motivo de erro ou impedimento, anule o casamento. - Os princípios que regem esse tipo de ação são os mesmos da ação penal privada propriamente dita. - Prazo: - 6 meses, contado do trânsito em julgado da sentença que reconheceu o erro/impedimento e anulando o casamento. - Prazo de natureza decadencial, levando à extinção da punibilidade. - Postura do MP: DIREITO PROCESSUAL PENAL I - Prof. Mauro Andrade. - Mesma da Ação Penal Privada Propriamente dita. - Atua como custos legis . - Recursos pró-réu. Ação Penal Privada Subsidiária da Pública: Essa ação pode ser definida como um mecanismo de controle sobre a inércia do MP caso ele venha a não acusar no prazo que a lei dá. - Previsão Constituicional: - Art. 5ª, inc. LIX. será admitida ação privada nos crimes de ação penal pública se esta não for intentada no prazo legal. - Essa é a única hipótese de ação penal prevista no nosso ordenamento constitucional. As ações penais privadas personalíssimas e propriamente ditas não têm previsão constitucional. - Previsão CP: - Art. 100, §3º. A ação de iniciativa privada pode intertar-se nos crimes de ação pública, se o MP não oferece denúncia no prazo legal. - Previsão no CPP: - Art. 38, CPP. - Legitimidade Ativa: - São as mesmas pessoas referidas: ofendido/representante legal, CADI ou curador nas hipóteses de conflito de interesses. - Situações especiais de legitimidade: - CDC, Art. 80º. No processo penal atinente aos crimes previstos nesse código, bem como a outros crimes e contravenções que envolvam relações de consumo, poderão intervir, como assistentes do MP, os legitimados no art. 82, inciso III e IV, aos quais também é facultado propor ação penal subsidiária, se a denúncia não for oferecida no prazo legal. - Para os fins do art. 81, parágrafo único, são legitimados concorrentemente: III - as entidades e órgãos da Administração Pública, direta e indireta, ainda que sem personalidade jurídica, especificamente destinados à defesa dos interesses e direitos protegidos por este código; (ex.: PROCON). DIREITO PROCESSUAL PENAL I - Prof. Mauro Andrade. IV - as associações legalmente constituídas há pelo menos um ano e que incluam entre seus fins institucionais a defesa dos interesses e direitos protegidos por este código, dispensada a autorização assemblear. - Lei de Recuperação Judicial - Lei nº 11.101/2005. Art. 184. Os crimes previstos nestaa Lei são de ação penal pública incondicionada. Parágrafo único. Decorrido o prazo a que se refere o art. 187, §1º, sem que o representante do MP ofereça denúncia, qualquer credor habilitado ou administrador judicial poderá oferecer ação penal privada subsidiária da pública, observado o prazo decadencial de 6 (seis) meses. - Prazo: - 6 meses para ajuizamento daação, contados do dia seguinte ao término do prazo que foi dado ao MP para acusar. - Ou seja, não é contato do dia do conhecimento da autoria do crime. - O prazo é improrrogável. - Durante o período em que se pode a ação privada subsidiária da pública, o MP não perde o direito de ajuizamento . - Regras aplicáveis quanto à omissão do MP em ajuizar a ação no tempo previsto em lei: procurar saber por que se deu essa omissão. - Para requerimento de arquivamentos pelo MP, não se admite a ação penal privada penal subsidiária da pública , uma vez que ela só é possível na hipótese de omissão do MP. - E não quando ele atua contra os interesses do próprio ofendido - ou seja, “paciência”. - Se ele requereu o arquivamento, significa que ele não se omitiu, de modo que esvaziado o fundamento para o ajuizamento da ação penal subsidiária. - No caso de requisição de diligências por parte do MP , é diferente. - O MP, quando recebe o inquérito, pode tomar algumas providências, dentre elas, requisitar a realização de diligências por parte da autoridade que estava investigando. - Se o MP requisitou diligências para autoridades ou pessoas fora do âmbito do Ministério Público, ou seja, pedidno à polícia, a determinada instituição financeira, etc., ele não se omitiu. - Mas se as diligências estão sendo feitas dentro do âmbito do MP, de maneira interna, como, por exemplo, DIREITO PROCESSUAL PENAL I - Prof. Mauro Andrade. em setores internos de avaliação pericial de certos documentos. Se as diligências são feitas por setores como esse, não se pode dizer que o MP ainda está dentro do seu prazo para o ajuizamento da ação. - No momento em que se supera o prazo previsto em lei para ajuizamento da ação, mas a investigação criminal continua com o MP porque ele está internamente vendo as diligências que lhe faltam para o ajuizamento, então considera-se que esse tipo de atraso é imputado ao MP ,. - Departamento internos do MP são responsáveis pelo próprio atraso, o que é diferente do atraso por instituições ou pessoas fora do âmbito do MP. - Nesses casos, cabe a ação penal privada subsidiária . - Renúncia: - Cabe renúncia nesse tipo de ação, no entanto, somente atingindo a pessoa de quem está renunciando , ou seja, do possível querelante, mas atinge a pessoa investigada. - Isso porque a ação penal privada subsidiária da pública diz respeito a crimes de ordem pública, e a sua renúncia, para provocar algum tipo de efeito, mais especificamente o da extinção da punibilidade, somente incide em crimes de ação penal privada. - O renunciante não dispõe do ajuizamento de uma ação penal pública. - Perdão e Perempção: mesma situação. - Ambos não atingem o querelado (sujeito passivo) , pois ambos são causas de extinção da punibilidade decorrentes da disponibilidade e da ação penal privada, dos crimes que motivaram a ação penal privada. - Sendo os crimes de ordem pública, não são cabíveis . - A ação penal privada subsidiária da pública só incide sobre os crimes de ação penal pública, então não cabe. - A decadência também não atinge o investigado (perda do prazo para ajuizamento da ação). - Atinge somente o direito de quem tinha o direito de ajuizar ação penal privada subsidiária da pública e acabou não o fazendo dentro do prazo. - Postura do Ministério Público: - Quando do ajuizamento da queixa crime: - Não atua como custos legis , mas como parte secundária. DIREITO PROCESSUAL PENAL I - Prof. Mauro Andrade. - Que tipo de parte? parte autora secundária. - Reversibilidade : - O MP retoma condição de titularidade da ação penal . Aqui, o MP deixa de ser parte secundária, para se tornar parte principal. Isso ocorre: - No caso de repúdio , quando o MP repudia a queixa crime que está muito mal redigida. - Tem que se oferecer uma ação nova (“denúncia substituiva” - MP como parte autora principal) - No caso de perempção, desistência, e perdão , há um afastamento do querelante daquele processo, e o MP retoma a condição de titular daquela ação. - MP não precisa ajuizar ação penal pública, pois será considerado parte principal daquele já ajuizado, ainda que tenha que dar seguimento a uma queixa crime. - Justificativa: crime de ordem pública, querelante não pode dispor dessa ação e muito menos da punibilidade do querelado, ou seja, não pode abandonar o processo na intenção de extinguir a punibilidade do querelado. - Princípios: - Nem todos os que estão presentes na ação penal privada propriamente dita/personalíssima. - O princípio da oportunidade, por exemplo, tem autores que entendem que não se aplicaria nas subsidiárias. - Os que entendem que se aplicaria, defendem que seria a oportunidade pela possibilidade de ajuizar “se quiser”. - O princípio da disponibilidade se entende que não cabe por alguns autores, enquanto outros entendem que cabe. - A desistência seria um princípio aplicável no momento em que é possível desistir da ação subsidiária, ainda que o MP retome ela. - Outros entendem que não não cabe a desistência na ação penal subsidiária da pública, porque a desistência “real” não irá ocorrer, uma vez que a ação irá se manter e ter seguimento pelo MP. - O princípio da intranscendência se aplica nas ações penais privadas subsidiárias da pública. - O princípio da indivisibilidade também se aplicaria nesse tipo de ação penal privada. DIREITO PROCESSUAL PENAL I - Prof. Mauro Andrade. Controvérsia: existe ação penal popular no país? - Conceito: aquela ação que pode ser ajuizada por qualquer pessoa do povo. - Na visão do professor, a nossa legislação não permite tal qual colocada nessa maneira , mas há uma corrente doutrinária que defende que a ação penal privada subsidiária da pública deve ser encarada como uma ação penal popular. - Art. 5º. Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes: LIX- será admitida ação privada nos crimes de ação penal pública se esta não for intentada no prazo legal. - Como o inciso termina ali, não tendo uma sequência dizendo “na forma da lei”, ou seja, em lei infraconstitucional, o próprio art. 5º, caput, traria consigo toda a regulamentação de uma ação penal popular (ação penal privada subsidiária dapública). - Pra essa linha teórica, porém, esse tipo de ação privada poderia ser ajuizada por qualquer pessoa (não só aquelas 3 opções). Ainda, essa ação, de acordo com essa linha teórica, poderia ser ajuizada por qualquer pessoa e a qualquer tempo, pois o artigo e o caput não impõe prazo fixo. - A limitação do prazo e da legitimidade vem do CPP somente. - Questão: por que o CPP (legislação infraconstitucional) prevê uma limitação que a própria constituição não prevê? - Análise histórica: nenhuma das Constituições de 1946, 1967 e 1969 fizeram qualquer menção à ação penal privada subsidiária da pública. Desde que o CPP entrou em vigor, portanto, nenhuma CF fez menção à esse tipo de ação, de modo que essa ação só poderiaser encontrada na legislação infraconstitucional, ou seja, no próprio CPP. - Com a entrada em vigor da CFB de 88, e lá fazendo menção pela primeira vez a esse tipo de ação, não foram colocadas limitações à legitimidade ativa e ao prazo. Se não há uma limitação ativa, segundo texto da CF, qualquer pessoa poderia ajuizá-la. - Por isso, esta é uma forma de entender a possibilidade de ação penal pública, dentro do ordenamento brasileiro, através de uma interpretação restrita do que nos diz a CFB. DIREITO PROCESSUAL PENAL I - Prof. Mauro Andrade. AÇÃO CIVIL EX DELICTO: Trata-se de uma Ação Civil, relacionada à uma infração penal e infração civil. Ideia de que toda infração penal tem potencialidade de causar prejuízo patrimonial ou moral à pessoa que é ofendida. A infração penal enquanto ato ilícito, que pode ser sujeito a autorizar a reparação do dano a quem se viu prejudicado . Art. 91 CP. São efeitos da condenação : I - tornar certa a obrigação de indenizar o dano causado pelo crime; - Exclui os efeitos dos acordos (transação penal, ANPP), suspensão condicional do processo). - Esses acordos não implicam, portanto, na obrigação legal de indenizar (a menos que previsto no acordo). - Condenação transitada em julgado / imodificável. - Se o ilícito é de ordem penal, também será um ilícito de ordem civil, o que fundamenta que a sentença condenatória obrigue o réu a indenizar a pessoa ofendida. - Controvérsia: Condenações no Tribunal do Júri contra a prova dos autos. - Nos processos do Tribunal do Juri, é possível que uma pessoa seja condenada mesmo que não haja prova contra ela, ao contrário do que funciona nos outros tribunais. - As decisões proferidas pelos jurados podem não ter base em qualquer prova nos autos - podem se basear pelo réu não ser uma pessoa “bem vista” no meio social. - Ex.: tráfico de drogas. - Quando a decisão dos Jurados for contrária as provas que existem nos autos, a legislação prevê o recurso de apelação. Numa hipótese como essa, a apelação será analisada pelo Tribunal de Justiça e ela não será, porém, reformada, mas sim anulada. - Vedado que os Desembargadores reformem decisão proferida pelo Júri. - Em sendo anulada, ela irá implicar na remessa do processo ao primeiro grau, para que se tenha uma nova sessão do Tribunal do Júri. Isso ocorrendo, pode ser que os julgadores voltem a condenar aquela pessoa que já havia sido condenada mesmo sem a existência de prova nos autos (não há impeditivo). DIREITO PROCESSUAL PENAL I - Prof. Mauro Andrade. - Os jurados devem ser diferentes daqueles que já haviam condenado. - Logo, teriam-se duas condenações do Tribunal do Júri contra as provas dos autos - essa segunda condenação, de acordo com o CPP, não comporta mais apelação. - O réu pode ser condenado sem que exista qualquer prova nos autos que demonstre isso. - Nesse ponto, o art. 91 do CP chama atenção - como alguém pode ser condenado a indenizar alguém se não há nenhuma prova de que ele foi o responsável pelo crime que lhe foi imputado? - Não há unanimidade no âmbito doutrinário. - Outra hipótese: condenações em que os jurados somente votam, não fundamentam (somente respondem aos quesitos dos juízes). - Alguns doutrinários acham que o fato de não haver fundamentação em suas decisões faz com que as condenações, no Tribunal do Júri, não possam comportar essa obrigação imediata de indenização. Outros, acreditam que esse tipo de condenação possa comportar. - Classificações de Ações Civis no Processo Penal: - Actio Civilis Ex Delicto (Ação Civil decorrente de crime). - Actio Judicati (Ação Julgada). Actio Civilis Ex Delicto: - Previsão legal: - Art. 64 CPP. Sem prejuízo do disposto no artigo anterior, a ação para ressarcimento do dano poderá ser proposta no juízo cível, (...). - Características: - Ação civil de conhecimento. - Pedido condenatório. - Objetivo: busca reparação do dano decorrente do crime. - É preciso que haja pedido expresso de condenação civil. - Ônus probatório do dano : do ofendido. - Necessidade de contraditório. É nessário discutir a temática dessa ação civil no bojo desse processo. - Vantagens: DIREITO PROCESSUAL PENAL I - Prof. Mauro Andrade. - Pode tramitar junto ao processo penal . Não há necessidade de aguardar a finalização do processo criminal. - Juiz pode condenar alguém ao pagamento de uma indenização dentro do processo criminal. - Pode ser ajuizada, inclusive, dentro do processo penal. - O valor a ser indenizado já constará na sentença civil (mesmo quando for proferida dentro do processo penal!). - Possibilidade de utilização das ações cautelares do CPC para proteger seu direito. - Pode se buscar a proteção do seu patrimônio, ou do seu direito de indenização impedindo ou obstaculizando a disponibilidade dos bens da pessoa que está sendo processada. - Pode ser ajuizada contra quem for réu no processo criminal, bem como, contra quem não for réu (não foi acusado ou é o responsável civil). Actio Judicati: - Previsão Legal: - Art. 63 CPP. Transitada em julgado a sentença condenatória, poderão promover-lhe a execução, no juízo cível , para o efeito da reparação do dano, (...). § único. Transitada em julgado a sentença condenatória, a execução poderá ser efetuada pelo valor fixado nos termos do inciso IV do caput do art. 387 deste Código sem prejuízo da liquidação para apuração do dano efetivamente sofrido. - Ação de execução que pressupõe o trânsito em julgado da sentença que condenou alguém na área criminal. - Para a actio iudicati, precisa o trânsito em julgado da sentença condenatória, a ação deve ser ajuizada em juízo cível e pode já executar imediatamente o valor que a sentença do processo criminal estipulou como sendo o valor de indenização. - O que superar esse valor ou que não estiver líquido: primeiro é feita a liquidação da sentença e, após, se executa. Tudo no juízo cível. - Art. 387 CPP. O juiz, ao proferir a sentença condenatória: IV - fixará o valor mínimo para reparação dos danos causados pela infração, considerando os prejuídos sofridos pelo ofendido. - Logo, o valor mínimo não significa que deva ser o único a ser buscado pela pessoa que sofreu o dano. Ex.: furto de um veículo - até a data da DIREITO PROCESSUAL PENAL I - Prof. Mauro Andrade. sentença, o valor atribuído ao veículo diminuiu muito. Assim, a pessoa que sofreu o dano pode requerer a atualização do valor daquele automóvel. O valor mínimo = valor do corre. Valor a mais = defasagem entre valor antigo x valor atual - o ofendido busca a liquidação deste dano, postulando um aumento nesse valor e, depois, se convertendo na execução da sentença (em juízo cível). - Art. 20 da Lei 9.605/1988 (Lei dos Crimes Ambientais) . A sentença condenatória, sempre que possível, fixará o valor mínimo para a reparação dos danos causados pela infração, considerando os prejuízos sofridos pelo ofendido ou pelo meio ambiente. - CPP trouxe para dentro de si, em 2008, essa possibilidade (previsão) de reparação para toda e qualquer infração- Formal: DIREITO PROCESSUAL PENAL I - Prof. Mauro Andrade. - Aquela modalidade que a própria Constituição faz referência: não admite qualquer tipo de diferenciação de tratamento . - Lógica de igualdade matemática: a todo aquele que recebe uma arma, a outra parte também deve receber. O que uma parte tem de possibilidade, meios, etc., a outra parte também deve ter de igual modo. - “Nas mesmas circunstâncias, me assistem os mesmos direitos que aos demais” - Demóstenes. - Base: art. 5º da CFB/88. - Função: uniformizar diferenças. - Problema: - A igualdade formal despreza as diferenças naturais que existem entre as pessoas, bem como as diferenças de caráter econômico , que podem existir entre os integrantes da relação processual. Além disso, despreza as dificuldades de atuação, ou seja, fecha os olhos para as naturais diferenças que podem existir entre os atuantes. - Material: - Igualdade que procura compensar as dificuldades que uma parte tem em relação a outra referente à atuação. Se procura dar mais armas para uma parte em detrimento da outra , com o propósito de igualar a balança (as possibilidades de atuação que uma tem em relação a outra). - Lógica de igualdade compensatória . - Não se tira armas de quem tem para que possa ficar igualada a quem não tem, mas sim partir do pressuposto que há alguem com uma deficiência e dar mais armas para essa que tem deficiência. - Pressuposto de aceitar as diferenças. - “Tratar os iguais de forma igual, e os desiguais de forma desigual” - Aristóteles. - Exemplos processuais: igualdade material de armas com a concessão de prazo em dobro para a defensoria pública, intimação pessoal (somente MP e DP) e prazos mais amplos de manifestação em razão do volume de material a ser avaliado pela defesa concedido pelo juiz. DIREITO PROCESSUAL PENAL I - Prof. Mauro Andrade. - Exemplo: resposta escrita tão logo o réu seja citado. Assim que o MP ou o querelante oferece a acusação, a lógica é que seja citado o réu e, com isso, ele tenha um prazo para oferecer sua defesa escrita. Essa defesa escrita o CPP prevê o prazo de 10 dias que, algumas vezes, é muito pequeno frente à quantidade de matéria que o MP/Polícia aportou à investigação. Por isso, algumas vezes é concedido um prazo ampliado por parte do juiz à defesa, a fim de melhor examinação do conteúdo da investigação e, consequentemente, uma defesa escrita mais elaborada, condizente com o princípio da ampla defesa. - Assim, também o julgador pode conceder mais armas para a defesa, a fim de que ela possa melhor desempenhar suas atividades, partindo do pressuposto de que há uma diferenciação muito grave de tratamento com a atuação do MP com a defesa. Princípio do Favor Rei: O réu deve ser tratado de forma diferente em relação ao acusador pois, aqui, parte-se de um pressuposto de política criminal, em que é preferível ter um culpado solto do que um inocente preso . - Sustenta a necessidade de mais armas para o réu em detrimento das armas concedidas ao acusador . O principio do favor Rei parte do pressuposto de que o acusado precisa de mais armas em razão de já se reconhecer a falibilidade do Estado na hora de produzir provas, bem como a do julgador em si. - Lógica de falha do Estado. - Lógica assentada há mais de 5 mil anos. - Garantias exclusivas do réu: - In dubio pro reo : presunção de inocência e ônus da prova; - Direito de falar por último: decorrência do contraditório; - Direito ao silêncio: restrição ética; - Proibição de reformatio in pejus : intuito de evitar surpresas ao réu em segundo grau. - Permissão da reformatio in mellius : aplicação do princípio da legalidade. - Armas exclusivas do réu: DIREITO PROCESSUAL PENAL I - Prof. Mauro Andrade. - Uso de provas ilícitas; - Se admite que só o réu se utilize de provas ilícitas, mas não de todas as provas ilícitas possíveis . Para que o réu possa utilizar essas provas, elas não podem decorrer de situações que tirem a vontade da pessoa que vai fornecer a informação que seria favorável ao acusado. - Três tipos que não podem ser utilizadas: - tortura; - derivadas de narcoanálise (soro da verdade); - hipnose. - Princípio do ne bis in idem : proibição de o réu voltar a ser acusado pelo mesmo fato; - Revisão criminal: somente o réu pode fazer uso da revisão criminal. - Trata-se de ação autônoma ajuizada com a finalidade de desconstituir a coisa julgada num processo criminal onde houve a condenação do réu. - Por ser arma esclusiva do réu, o acusador não possa buscar a desconstituição de uma sentença absolutória transitada em julgado, mas o réu pode fazer o contrário. - Recursos exclusivos do réu: - Embargos infringentes: só podem ser utilizados pelo acusado. - Só ocorrem quando frutos de uma apelação, ou seja, é preciso que primeiro haja apelação e, dependendo do resultado, em caso de 2 votos a 1 contra o réu, este pode fazer uso desse único voto em seu favor para continuar recorrendo. Consequência de sua incidência no direito processual penal: Como o princípio do Favor Rei trabalha com a diferenciação de tratamento do réu em relação ao acusador, não importando se o réu tem algum tipo de deficiência de atuação , este princípio provoca uma quebra no Princípio da Igualdade do processo penal em que ele se faz presente. - O Favor Rei procura tratar de forma diferente as pessoas - neste caso, o réu, sem que seja levado em consideração qualquer situação de compensação, posto que a intenção é tratar diferentemente, sem qualquer preocupação com igualdade, mais ou menos armas, com intuito de promover essa ‘desigualdade’. - O réu sempre terá melhores possibilidades de atuação que seu opositor, simplesmente por ser réu. DIREITO PROCESSUAL PENAL I - Prof. Mauro Andrade. Princípio do Contraditório: - Previsto no art. 5º, LV, da CFB/88. Também chamado de princípio da audiência bilateral. - Possui duas linhas conceituais : - Clássica: ligada à definição do Princípio do Contraditório, “ouça-se a outra parte”. - Parte-se do pressuposto de que, se uma afirmação foi feita por uma parte, dá-se a oportunidade de que a outra parte também conheça essa afirmação e possa rebatê-la, sendo o caso. - Problema: considera somente as duas partes no processo. - Atual : coloca o juiz dentro dessa lógica, admitindo que o juiz decida de ofício, inclusive podendo aportar informações de ofício no processo como, por exemplo, determinar produção de prova pericial, vinda de documento que não foi juntado, pedir para ouvir uma testemunha que não foi chamada, etc (necessário ter um controle). - Depois das perguntas que o juiz fizer, ele deve abrir a possibilidade para as partes complementarem as suas questões. As partes têm o direito, também, de ter contato com as provas produzidas, a fim de se manifestarem de seu conteúdo. - Lógica: quem pode ser afetado pelas informações novas contidas no processo deve ter contato prévio com essas informações antes que o juiz venha a decidir.penal, e não somente os crimes ambientais. - Vantagem: - Não há necessidade de produção sobre o mérito. - Já foi feita no processo criminal - trânsito em julgado. - É uma ação de cumprimento. - Desvantagem: - Precisa aguardar o encerramento do processo criminal. - Se alguém quiser buscar a reparação do dano antes do término da ação criminal, terá que ajuizar ação civil (no juízo civel). - Não abranje, por também necessitar do trânsito em julgado da sentença, aquelas pessoas absolvidas ou que não foram processadas. - Essas pessoas não serão alcançadas pela actio judicati . Sistemas de Ação Civil Ex Delicto : - Da Solidariedade: - Os pedidos de reparação civil e de imposição de pena criminal são apresentados em ações separadas, mas apresentados juntos ao mesmo juízo e no mesmo processo crimina l. - Ações distintas, mas ajuizadas na mesma Vara Criminal, dando motivo a instauração de um mesmo processo criminal. - Ocorre em: - Ex.: Ministério Público ajuiza a sua ação penal pública (denúncia). É possível que a parte ofendida queira ingressar nesse processo para buscar a condenação criminal do réu e, também, a condenação civil DIREITO PROCESSUAL PENAL I - Prof. Mauro Andrade. dele. Nessa situação, o ofendido ingressa no processo na condição de assistente do Ministério Público (ou assistente de acusação) e, nesse pedido de assistência, se admitido, o ofendido poderá propor provas, juntar documentar, fazer perguntas e, dentre essas possibilidades, poderá fazer o pedido de condenação do réu a indenização que o próprio ofendido julga pertinente. - Denúncia do MP, o pedido de habilitação do ofendido, onde há um pedido de condenação (criminal e cível) por parte do assistente - duas ações diferentes, dentro de um mesmo Juízo e de um mesmo processo. - Confusão: - Se refere aos pedidos de reparação e imposição de pena criminal em uma só ação, dando origem a um único processo . - Ocorre em : - Quando o MP ajuiza ação penal pública (denúncia) e, lá mesmo, faz pedido de reparação de danos para a vítima. - Ocorre frequentemente. - Ações penais privadas. - Ajuizada a ação pelo querelante, este pode fazer o pedido de condenação criminal juntoamente com o pedido de condenação civil por indenização. - Livre Escolha: - Aqui, basicamente diz respeito ao juízo onde tramitará a ação civil ex delicto . - O interessado pode escolher o juízo que irá apresentar o seu pedido de indenização (no juízo criminal ou no juízo civil). - Possível depois da reforma de 2008 (art. 387 CPP). - Separação ou Independência: - A pretensão de ressarcimento é obrigatoriamente ajuizado no cível . - Hoje em dia não ocorre - não existe mais essa obrigação. - Desde 2008, é possível que a reparação civil (pretensão indenização) ocorra dentro do processo criminal. Legitimidade Ativa: - Regra: DIREITO PROCESSUAL PENAL I - Prof. Mauro Andrade. - Art. 63 CPP. Transitada em julgado a sentença condenatória, poderão promover-lhe a execução , no juízo cível, para o efeito da reparação do dano, o ofendido, seu representante legal ou os herdeiros . - Art. 943 CC. O direito de exigir reparação e a obrigação de prestá-la transmitem-se com a herança . - O ofendido, seu representante legal ou os seus herdeiros são as pessoas que podem ajuizar esse tipo de ação. - Não tem-se o CADI. - Questão que envolve reparação - direito patrimonial. Sendo o Código Civil claro que a transmição somente se dá aos herdeiros, nesse sentido também vai o CPP. - Exceção: MP. - Art. 68 CPP. Quando o titular do direito à reparação do dano for pobre (art. 32, §§1º e 2º), a execução da sentença condenatória (art. 63) ou a ação civil (art. 64) será promovida, a seu requerimento , pelo Ministério Píblico. - Para que o MP possa atuar nesse caso como substituto processual, é preciso, portanto, dois requisitos: - Pessoa pobre. - Pessoa deve provocar o MP. - Logo, o MP não pode agir de ofício, somente mediante provocação. - Discussão: quem deve tutelar os interesses da pessoa ‘pobre’? - Quando a CF trata de pessoas a serem representadas por alguém, em âmbito processual, e que possuem problemas econômicos, sendo pobres (na linguagem do CPP) / hipossuficientes financeiramente (linguagem da CF), endereça esse cuidado a uma Instituição criada por ela: a Defensoria Pública. - O art. 68 do CPP ainda estaria em vigor ou teria sido derrogado pela CF/88, que endereçou à Defensoria Pública o cuidado? - O que se concluiu foi que o MP continua tendo legitimidade para o ajuizamento deste tipo de ação (ação de conhecimento/ou de execução). - Como se conciliaria, então, o art. 68 do CPP e a previsão constitucional em favor da Defensoria Pública? - A conciliação se fez a partir da manutenção da legitimidade do MP para esse ajuizamento somente naquelas Comarcas onde NÃO existir Defensoria Pública instalada. DIREITO PROCESSUAL PENAL I - Prof. Mauro Andrade. - DP ainda é deficitária em vários estados - inclusive é, por conta disso, que ainda possui o prazo em dobro. - Conclusão: Para que o MP possa ajuizar ação ex delicto/judicata, necessário ser provocado pela parte mediante requerimento, que a pessoa ofendida seja pobre e que não tenha Defensoria Pública instalada na Comarca (requisito jurisprudencial). Legitimidade Passiva: - Actio Civilis Ex Delicto: - Art. 64 CPP. Sem prejuízo do disposto no artigo anterior, a ação para ressarcimento do dano poderá ser proposta no juízo cível, contra o autor do crime e, se for o caso, contra o responsável civil . - No caso da ação civil ex delicto, a legitimidade passiva será do autor do crime, o responsável civil ou seus herdeiros. Não existe CADI. - Art. 943 CC. O direito de exigir reparação e a obrigação de prestá-la transmitem-se com a herança. - Actio Judicati: - Art. 943 CC. - Será o autor do crime ou seus herdeiros. - Não se atinge o responsável civil pois ele não foi parte no processo criminal. - Ação que decorre da sentença condenatória criminal. - O responsável civil não pode figurar como sujeito passivo de um processo de execução do qual ele não foi parte. - Quebra ou não do princípio da intranscendência? - Quando se fala em ação penal, pública ou privada, tem-se a proibição da pena ser transmitida ou alcançar a figura dos herdeiros do réu. - Ou seja, isso não ocorre no caso de pena criminal no nosso processo penal. - Todavia, como conciliar o princípio da intranscendência com essas disposições que falam que a herança será responsável pela obrigação de reparar o dano, tanto na actio ex delictus quanto na actio judicati? - A manutenção do princípio da intranscendência se responde pelo fato de a obrigação de indenizar ser efeito da sentença condenatória, e não a pena em si. DIREITO PROCESSUAL PENAL I - Prof. Mauro Andrade. - Logo, não se tem a quebra desse princípio , que diz respeito somente a pena, enquanto a indenização seria efeito civil/consequência da condenação. Ajuizamento: - Processo de Conhecimento ( Actio Civilis Ex Delicto ): - Antes, durante ou depois do processo criminal. - Depois, porque pode envolver pessoas que não foram processadascriminal. - Caso em que pessoas foram deixadas de fora do processo criminal à época por, por exemplo, desconhecimento, e acabam sendo processadas civilmente somente depois. - Processo de Execução ( Actio Judicat i): - Somente após o trânsito em julgado da sentença condenatória (art. 63 CPP). - Segurança em relação à imutabilidade da sentença condenatória criminal. In�luência da Jurisdição Penal sobre a Jurisdição Civil: - Art. 91 CP. São efeitos da condenação: I - tornar certa a obrigação de indenizar o dano causado pelo crime. - Art. 935 CC. A responsabilidade civil é independente da criminal, não se podendo questionar mais sobre a existência de fato, ou sobre quem seja o seu autor, quando estas questões se acharem decididas no juízo criminal. - Em suma, não é possível rediscutir, no juízo cível, as decisões tomadas no juízo criminal que digam respeito a existência do fato e sua autoria . - Se o juízo criminal identificou como sim ou como não, não pode o juiz cível ir em sentido contrário. - Após haver decisão no juízo criminal sobre existência do fato e de sua autoria, pode-se discutir no cível, somente, a busca pela reparação do dano ou, mais especificamente, o quantum de reparação a ser discutido. - O contrário, todavia, não ocorre: se a ação já foi resolvida no juízo cível e, somente após, se ajuiza a ação criminal, não existe nenhuma subordinação do juízo criminal sobre o que foi decidido no cível. - O juízo criminal impõe ao cível suas decisões a respeito do reconhecimento do fato e de sua autoria, mas o juízo cível não impõe ao criminal o reconhecimento dessas duas situações idênticas. - Há uma hierarquia entre os dois juízos: o crime sobre o cível. DIREITO PROCESSUAL PENAL I - Prof. Mauro Andrade. Suspensão da Ação Civil Ex Delicto : - Art. 64. (...) - §único. Intentada a ação penal, o juiz da ação civil poderá suspender o curso desta, até o julgamento definitivo daquela. - Para garantir esse juízo de segurança possa ocorrer em relação a decisão do juízo criminal. - Juízo cível suspende seu processo até que termine o processo no juízo criminal. - Isso pois, não há sentido que o processo de conhecimento tenha seguimento e chegue a um resultado mais rápido que o criminal e, com isso, tenha uma decisão antagônica àquela proferida pelo processo criminal. - Evita o choque de decisões. - Motivos: - Evitar decisões antegônicas nos juízos cível e crime, pois há prevalência do juízo criminal sobre o juízo civil; - Economia processual , evitando-se repetição de produção de prova e discussões em ambos os juízos. Causas que não Impedem o Ajuizamento: Aquelas que não impedem o ajuizamento de ação cível quando se tem uma decisão/processo já em andamento no crime. - Art. 67. Não impedirão igualmente a propositura da ação civil: I - despacho de arquivamento do inquérito ou das peças de informação; - Se o inquérito for arquivado, dependendo o conteúdo desse arquivamento, não há um impedimento para que se discuta, no cível, o que não foi discutido no crime. II - a decisão que julgar extinta a punibilidade; - Ex.: morte do agente. A pessoa que praticou o crime pode ter morrido, não sendo processada no criminal, mas isso não impede que, no cível, venha a se buscar a reparação do dano ajuizando-se ação contra os seus herdeiros. - III - a sentença absolutória que decidir que o fato imputado não constitui crime. DIREITO PROCESSUAL PENAL I - Prof. Mauro Andrade. - Cuidado: se a conduta não é considerada crime, não significa que ela não é um ilícito civil. Esse tipo de reparação pode ser buscada no cível. - Ex.: o crime de dano. O crime de dano só ocorre de modo doloso. Mas se a sentença for absolutória reconhecendo que o dano foi culposo, pode ser buscada a reparação por esse dano no cível. - Consequência: se a sentença é absolutória, pelo fato de não ser crime, o MP estará desautorizado de ajuizar esta ação. - Pois não é infração penal. Condições para a busca da reparação civil: - Art. 935 CC. A responsabilidade civil é independente da criminal , não se podendo questionar mais sobre a existência do fato, ou sobre quem seja o seu autor, quando estas questões se acharem decididas no juízo criminal. - Ou seja, sendo questão de responsabilidade civil, não é porque no crime não se determinou, que não possa ser buscado no cível, respeitando, por óbvio, decisões criminais sobre existência do fato ou sobre sua autoria. - Condições para a busca da reparação civil “ex delicto” : - Sentença criminal absolutória não reconhecer a inexistência do fato. - Art. 66 CPP. - Não se pode buscar reparação sobre o que “não existiu”; - A sentença criminal absolutória não reconhecer que o réu não praticou ou não concorreu para a prática do fato. - Se “não foi o réu” no criminal, não poderá ser responsabilizado no cível. - A sentença absolutória não conheça a que o fato foi praticado ao abrigo de uma causa excludente de ilicitude . - Art. 65 CPP. - Cuidado: não é toda a situação de excludente de ilicitude que pode levar ao impedimento da busca de ressarcimento. - Sentença Absolutória por Excludente de Ilicitude: - Art. 65 CPP. Faz coisa julgada no cível a sentença penal que reconhecer ter sido o ato praticado em estado de necessidade, em legítima defesa, em estrito cumprimento do dever legal ou no exercício regular de direito. - Exceções: DIREITO PROCESSUAL PENAL I - Prof. Mauro Andrade. - Legítima defesa putativa ; - Legítima defesa com erro na execução ; - Estado de necessidade defensivo ; - O ato foi praticado contra o bem jurídico do próprio agressor. Nesse caso, cabe ação civil contra o então réu. - Ex.: um bem do próprio réu é que está me colocando em risco, então eu posso atacar esse bem pra me defender. - Estado de necessidade ofensivo . - Extinção da punibilidade: - Como regra, não impedem a ação civil “ex delicto” . - Situações particulares: - Morte do agente. - Antes do trânsito em julgado da sentença condenatória. - Se ocorreu essa extinção da punibilidade, por exemplo, a morte do agente, só poderá ajuizar ação civil pelos herdeiros. A ação penal é extinta. - Depois do trânsito em julgado da sentença condenatória. - Como o agente respondeu a todo o processo de forma normal, pode-se ajuizar actio judicati, ou seja, também contra os herdeiros, mas havendo uma sentença que transitou em julgado contra o réu. - Perdão Judicial: - Divergência: - STF: permanecerá a obrigação de indenizar, podendo a sentença valer como título executivo no juízo cível. - Mesmo que o juiz tenha perdoado o réu, ele continuará tendo obrigação de indenizar, podendo a sentença valer como título executivo no cível. - Ex.: pais separados. O pai, no direito de visitação, acaba se envolvendo em um acidente de carro, que leva à morte do filho e é considerado como homicídio culposo. O juiz pode, nesse caso, perdoar o pai, mas esse perdão não importa que a mãe não possa buscar a indenização cível em relação a este ocorrido. DIREITO PROCESSUAL PENAL I - Prof. Mauro Andrade. - Súmula 18 do STJ: A sentença concessiva doperdão judicial é declaratória da extinção da punibilidade, não subsistindo qualquer efeito condenatório. - Efeito condenatório = efeitos da condenação (art. 91 CPP) . - Não confundir com perdão do ofendido. - Abolitio Criminis: - A extinção do crime (reforma legislativa que acaba não mantendo uma certa conduta como sendo crime). - Divergência: - Primeira posição: levaria à extinção dos efeitos extrapenais. - Segunda posição: os efeitos extrapenais permaneceriam. - Independentemente de haver efeitos extrapenais, como crime não é, o tema é regulado pelo Direito Civil e, se o Direito Civil entender que é caso de reparação do dano (indenização), nada mais tendo a ver o juízo criminal a tratar sobre o tema . - Se é caso de abolitio criminis, não se trata mais de Ação Civil Ex Delicto . - Impossibilidade do MP de ajuizar esse tipo de Ação de Conhecimento: incide essa lógica pois não há mais crime, que era o pressuposto para ação do MP. DIREITO PROCESSUAL PENAL I - Prof. Mauro Andrade. DO PROCESSO - Conceito: - Apresentado como sendo um instrumento ou espaço onde alguns temas serão debatidos, sempre dizendo respeito ao que é limitado pela ação que é apresentada pelo autor (condenatória, declaratória, constitutiva, mandamental, executória, etc.). - O Direito Processual Penal não trata unicamente, portanto, do Processo Penal Condenatório, também tendo a forma de regulamentação do processo de conhecimento, seja pela forma declaratória ou constitutiva. - Ex.: Habeas Corpus, como exemplo de processo penal constitutivo negativo. Desconstituição de decisão, até daquelas transitadas em julgado (não se fala, aqui, de sentença). - Ex.: desconstituição de decisão que determinou a prisão preventiva de alguém, algum ato que venha a restringir ou privar a liberdade de uma pessoa. - Ex.: Ação de reabilitação, como exemplo de ação penal declaratória. Serve para comprovar que aquela pessoa que já teve envolvimento com o crime, já teve uma condenação criminal, passados alguns anos, essa pessoa não mais cometeu nenhum tipo de infração criminal e, por isso, estaria reabilitada. - Fundamento: - ius puniendi: - Previsão legal: - Art. 5º, inc. XXXIX, CF - não há crime sem lei anterior que o defina, nem pena sem prévia cominação legal. - Art. 1º, CP. Não há crime sem lei anterior que o defina. Não há pena sem prévia cominação legal. - O Direito de punir somente pertence ao Poder Judiciário, sendo fruto de um Contrato Social, no sentido de que aquelas pessoas que virem vitimadas ou atingidas por uma conduta tida como criminosa, irão se opor a uma tomada de providências por elas mesmas (vingança privada). - Abrindo-se mão da vingança privada, isso terá que ser passado a alguém e, especificamente, é necessário que se tenham dispositivos que assegurem que o rechaço à vingança privada será respeitado. - ius persequendi ou ius persecutionis: DIREITO PROCESSUAL PENAL I - Prof. Mauro Andrade. - Essa questão que envolve a abertura de mão por parte da vítima de buscar, ela mesma, uma resposta ou uma reprimenda pela conduta que foi atingida, faz com que, se o Poder Judiciário é quem tem que tomar providências, alguém necessita provocar o PJ para que isso ocorra. - Lógica de busca de preservação de quem vai julgar. - A pessoa com poder de julgar não pode acumular funções. - Quem irá provocar o Poder Judiciário será o Ministério Público ou outras pessoas que não dizem respeito ao Ministério Público (legitimadas). - Nisso, tem-se o direito de perseguir conferido à pessoa pública (MP) ou à pessoa não pública (caso das ações penais privadas). - Para que se possa chegar ao ajuizamento da ação, é necessária a obtenção de alguns elementos que justifiquem o ajuizamento dessa ação . - A ação penal (e o direito de perseguir) precisa estar embasada em elementos prévios que justifiquem seu ajuizamento, de modo que, sem tais elementos prévios, não há como se justificar/admitir o ajuizamento e seguimento daquela ação. - É para isso que existe a investigação criminal. - Fases: - Investigação criminal. - Serve para proteger a sociedade contra todo o tipo de tentativa de ajuizamento de ação sem bases mínimas. - Protege quem pretende ingressar em cargos públicos, quem já está, pessoas que não fazem parte da administração pública - visão de que a lógica da justiça criminal é muito dura. - O gravame social e retorno contra a pessoa acusada é muito mais forte no criminal no que no cível. - O ius persequendi começa na investigação criminal, para ver se é possível ajuizar a ação. - Instrução criminal. - É a segunda fase do ius persequendi: após o ajuizamento da ação, baseada em elementos prévios DIREITO PROCESSUAL PENAL I - Prof. Mauro Andrade. que justifiquem o seu ajuizamento, começa a fase de instrução. - ius libertatis: - Direito de liberdade, direito que envolve a pessoa que está sendo investigada ou já acusada de querer preservar aquilo que é o foco do direito penal no final das contas. - Se, no Direito Penal, busca-se a condenação de alguém e, sendo os temas regulados por ele caracterizados como crimes ou contravenções, que possuem como consequência algum tipo de privação da liberdade, aí deve incidir a proteção do direito de liberdade daquele que é investigado/acusado . - Contra o ataque ao ius libertatis na fase de investigação, cabe habeas corpus, mandado de segurança. - Ex.: mandado de segurança - quando se tenta ter acesso à investigação e a autoridade que está investigando não dá esse acesso a pessoa alvo da investigação. - Início do Processo (três linhas teóricas): - Primeira: processo inicia com a citação do acusado. - Art. 363 CPP. O processo terá completada a sua formação quando realizada a citação do acusado. - Se fala em ter “completado”, significa que o processo já havia iniciado. - Afastada pelo próprop CPP. Entretanto, até hoje persiste o vício em alguns Tribunais (inclusive superiores), de acordo com o professor. - Segunda: com o recebimento da acusação. - Art. 117, CP. O curso da prescrição interrompe-se: I - pelo recebimento da denúncia ou da queixa. - Problema: legalmente, o único efeito que o recebimento da acusação tem é a interrupção da prescrição. - A noção de jurisdição, para que possa ser exercida, deve ser exercida dentro de um determinado “local”, que seria o processo. Sendo ali o local onde o juiz tem poder para julgar, há uma confluência entre o conceito de jurisdição e processo. A jurisdição só existe dentro de processo, e o processo só DIREITO PROCESSUAL PENAL I - Prof. Mauro Andrade. existe quando há a possibilidade do exercício da jurisdição. Logo, o processo precisa que a jurisdição seja executada. - O caso dessa segunda teoria não sustenta essa lógica - pois o juiz pode receber ou não. Não recebendo, é possível que se vá em outros tribunais requerendo que seja reconhecido, e nisso, mesmo nessa discussão sobre recebimento ou não, já se tem o exercício da jurisdição. - Nesse sentido, o mero recebimento ou não da acusação não delimitase é processo ou não, pois a jurisdição já está sendo exercida. - Terceira: processo inicia com o ajuizamento da ação: - Art. 2º CPC. O processo começa por iniciativa da parte e se desenvolve por impulso oficial, salvo as exceções previstas em lei. - A posição mais correta , na noção do professor. - Primeiro, porque não teria diferença entre processo de natureza criminal e de natureza não criminal. - A diferença, seria que os processos de natureza não criminal começariam com o ajuizamento da ação, enquanto os criminais começariam só com recebimento da ação. - Isso só reforça, na visão do professor, o quanto não faria sentido essa lógica e evidenciaria o mau trato do processo penal no direito brasileiro (doutrina e jurisprudência). - O próprio CPC pode trazer um auxílio ao CPP , na ausência de especificidades. - Segue a lógica, portanto, da terceira linha teórica, que entende o início do processo como sendo através do ajuizamento da ação, de maneira igual aos processos de natureza não criminais, utilizando o CPC como substituto nesse sentido. - Pressupostos Processuais : - Previsão Legal: - Art. 395, CPP. A denúncia ou queixa será rejeitada quando: II - faltar pressuposto processual ou condição para o exercício da ação penal (...). - É justamento do CPC que vem essa lógica de satisfação de certos pressupostos para que o processo tenha seguimento. - Existência: DIREITO PROCESSUAL PENAL I - Prof. Mauro Andrade. - Propositura ou incoação de ação. - nullum iudicium sine accusatione ( nullum uidicium sine actione ). - Necessita de ajuizamento da ação. - Órgão dotado de jurisdição: - Sem juiz (e sem jurisdição) não há processo. - O processo não inicia com o recebimento da ação, mas sim com a provocação da jurisdição. - Partes. - Validade. - Desenvolvimento válido do processo. - Inexistência de nulidades. - Pressupostos Inerentes ao Processo Penal: - Alguns autores entendem pela existência de pressupostos que são inerentes ao sistema penal, que seriam de caráter objetivo e subjetivo. - Objetivos: - Juiz Criminal (jurisdição). - Causa penal (a própria ação). - Partes (autor e ré). - Professor entende que foi somente uma adaptação de linguagem. - Subjetivos extrínsecos : - Inexistência de litispendência ou causa pendente. - Alguns autores não chamam de litispendência, pois não se trataria de “lide” (mas a lógica é a mesma). - Inexistência de coisa julgada. - O processo pode existir, mas será extinto. - Subjetivos intrínsecos: - Regularidade Procedimental. - Não faz sentido pois, o processo iniciando, eventual irregularidade processual poderá vir a maculá-lo, mas ele não DIREITO PROCESSUAL PENAL I - Prof. Mauro Andrade. deixou de existir. Se não deixou de existir, não é pressuposto para sua existência. - Ausência de Pressupostos Processuais: - Art. 395 CPP. A denúncia ou queixa será rejeitada quando: II - faltar pressuposto processual ou condição para o exercício da ação penal. - Detectando-se ausência de pressuposto processual, o resultado é que a acusação (denúncia ou queixa) deverá ser rejeitada. - Cuidado: rejeição/rejeitada é a expressão correta. JURISDIÇÃO: Panorâma Histórico: - Aristóteles (384 - 322 a.C.). - Política: “o Homem é um ser gregário, naturalmente um animal social, político.” - Marco Túlio Cícero (106 - 43 a.C.). - Da República: “A primeira causa de agregação de uns homens a outros é menos a sua debilidade do que um certo instinto de sociabilidade em todos inato; a espécie humana não nasceu para o isolamento e para a vida errante, mas com uma disposição que, mesmo na abundância de todos os bens, a leva a procurar o apoio comum.” - O homem se agrega aos outros não para se proteger, mas sim porque é natural para ele viver em comunidade. - A necessidade desse convívio acaba gerando a ocorrência de conflitos . - Para a resolução de conflitos se dar da melhor maneira possível, entrou-se a necessidade do estabelecimento de determinadas regras, a fim de evitar o que se chama de “vingança privada” . - Se tira a necessidade e a possibilidade de atuação de cada indivíduo na resolução dos problemas que ele tem de forma direta, e é depositada, com nível de confiança, nas mãos de um terceiro . - No lugar de resolver o problema que eventualmente se possa ter por outra pessoa por meio da força, cada indivíduo abre mão dessa possibilidade, em nome de uma harmonia social. - Esse terceiro, com o tempo, acabou se consolidando enquanto Poder Judiciário. DIREITO PROCESSUAL PENAL I - Prof. Mauro Andrade. - A partir desse acordo coletivo (Trato Social), surge a jurisdição. Noções Gerais: - Vida em sociedade > conflitos e convívio. - Legislação > tutela imediata de interesses. - Jurisdição : tutela imediata desses mesmos interesses. Base Constitucional: - Art. 5º, inc. XXXV, CF - a lei não excluirá da apreciação do Poder Judiciário lesão ou ameaça de direito. - Se é ao Poder Judiciário que cabe resolver as lesões ou ameaças ao direito das pessoas, para evitar que estas atuem de mãos próprias, é preciso que ele intervenha nesse sentido. Características da Jurisdição: - Atividade substitutiva à vontade dos membros da comunhão social. - Caráter substitutivo. - Pessoas abrem mão de resolverem seus problemas mediante a força e passam para um terceiro , que se encarregará disso. - Ésquilo (525 a.C. - 454 a.C). - Oresteia. - Tragédias: Agamemnon, Coéforas e Eumênides. - Direito subjetivo do cidadão. - Resultado da proibição da autotutela. - No momento em que o indivíduo abre mão de, ele mesmo, resolver a situação conflituosa, ele passa a ter o direito de provocar quem tem essa possibilidade. - Direito à provocação, que não pode ser cerceado. - Se não é reconhecido o direito de provocar a jurisdição a cada pessoa em específico, o resultado disso seria um retorno a auto tutela. - Para evitar esse retorno à autotutela, se reconhece o direito de provocação. - Dever de préstimo pelo Estado. DIREITO PROCESSUAL PENAL I - Prof. Mauro Andrade. - Caso ele não preste atividade que lhe foi confiada, não haverá confiança/credibilidade nessa instituição/terceiro pelas pessoas. - O resultado seria, também, a volta da autotutela. - Por isso, a lógica é que o Poder Judiciário não pode se recusar a prestar jurisdição . - Ainda, tem que ser de modo convincente - resposta minimamente plausível (necessidade de fundamentação adequada). - Decisão sobre o caso concreto. - Jurisdição enquanto Poder. - Poder não enquanto faculdade, mas como exercício de poder. - No momento em que se concede a um terceiro a possibilidade de decidir sobre uma questão envolvendo duas ou mais pessoas, o resultado desse préstimo tem que ser a última palavra. - Impondo essa palavra, as pessoas que não estiverem de acordo com essa resolução final não podem buscar outra solução, o que justifica que, além da palavra final, esse terceiro (Poder Judiciário) deve impor aquele dever de decidir. - Evitar o retorno do uso da força. Conceito: Jurisdição enquanto poder-dever de realização da justiça estatal, mediante aplicação de normas disciplinares da conduta dacomunhão social, incidentes sobre determinada relação jurídica, com a consequente finalidade de claração, satisfação ou assecuração de direito subjetivo material de um de seus destinatários. - Reunião de todas as características até agora faladas: poder e dever de decidir, possibilidade de provocação e resolução de um problema levado até ele. Características Formais: - Existência de órgão adequado (o juiz); - Pessoa “física” encarregada do exercício da jurisdição. - Se colocando o juiz dessa forma, é nisso que se formaliza esse caractere. - Presença do princípio do contraditório (para melhor aplicação da lei); - Dúvida: é um caractere formal da jurisdição ou formal para o processo? - A jurisdição pode ser compreendida como o exercício de se ouvir as duas partes e emitir uma decisão (lógica). Todavia, quando o DIREITO PROCESSUAL PENAL I - Prof. Mauro Andrade. processo é apresentado para o juiz, antes mesmo de se ouvir as duas partes, ele já faz jurisdição no momento em que avalia o seu recebimento ou não recebimento. - Isto se dá porque o poder já foi outorgado a ele (ao juiz). - A jurisdição já é reconhecida no momento em que as pessoas abrem mão de atuar por si próprias na resolução de seus conflitos (vingança privada), independentemente do exercício ou não dessa jurisdição. - Onde a jurisdição se exerce é diferente do conceito de ‘jurisdição’ sozinho. A jurisdição nasce no momento em que se abre mão dessa vingança privada com as próprias mãos, mas é exercida no momento do contraditório. - Procedimento estabelecido com formas predeterminadas . - A maneira como será conduzido determinado processo. - Jurisdição é precedente. No momento em que se reconhece alguém, já se tem jurisdição. Como a jurisdição será exercida, todavia, é outra questão. - Outros Caracteres: - Conflito de interesses : pretensão punitiva x pretensão de liberdade; - ius persequendi x ius libertatis . - A partir da provocação de quem tem o Direito de Punir, que decorre justamente da jurisdição e da retirada da “vingança privada” da sociedade como um todo, que retira seu direito de resolver seus próprios problemas de maneira privada, passando para o Poder Judiciário/um terceiro. - Função substitutiva ou secundária; - Professor não colocaria como ‘outros caracteres’, porque a jurisdição é substitutiva da vontade das pessoas. É o motivo de sua criação, e não algo secundário - é o caractere fundamental. - E só substitui porque as pessoas autorizaram, ainda que implicitamente. - Função inicialmente inerte. - ne procedat iudex ex officio = nemo iudex sine actore . - O juiz não vai atuar de ofício = não vale ter nenhum julgamento sem alguém que provoque a atuação judicial (autor). - Aqui, diz respeito ao exercício da jurisdição em si, e não ao seu surgimento (que diz respeito ao pacto social). DIREITO PROCESSUAL PENAL I - Prof. Mauro Andrade. - Temos processos/investigação criminal em que existe a possibilidade de processos serem iniciados de ofício. É possível, então, a atuação judicial mesmo sem provocação de terceiros. Elementos: - Notio ou Cognitio. - Faculdade de conhecer a causa penal e ordenar os atos destinados ao seu conhecimento (fase probatória). - Depende da provocação externa. - O simples conhecimento não exige a provocação externa. Há situações em que é possível a instauração de processo de ofício. - Juiz deixa de exercer sua atividade própria - julgamento. - Isto pois a jurisdição nasceu para se colocar como equidistante, e não como envolvido em uma determinada situação que trouxe desequilíbrio social. - Tem a ver com a questão de conhecer o que vai julgar. - Judicium. - Atividade julgadora. - Ato jurisdicional por excelência. - É a decisão daquilo que foi levado ao conhecimento do julgador. - Vocatio. - Faculdade de chamar todas as pessoas cuja presença seja necessária ao regular o andamento do processo. - Possibilidade de chamar aquelas pessoas que estão envolvidas naquele problema a ser resolvido pelo julgador. - Citação como sendo o primeiro ato. - Definida doutrinariamente como chamamento ao processo. - Forma clássica de vocatio. - Coertio ou Coercitio. - Poder de fazer comparecer essas pessoas ao processo. - Fazer essas pessoas envolvidas comparecerem aos atos do processo. DIREITO PROCESSUAL PENAL I - Prof. Mauro Andrade. - Também se aplica à imposição das decisões anteriores ao julgamento definitivo do processo (prisão cautelar). - Poder de impor as suas decisões - exercício da força por parte de quem exerce a jurisdição. - Executio. - Poder de tornar obrigatória e fazer cumprir a decisão final proferida. - Imposição de sua vontade justamente para que não se permita que a pessoa/parte descontente possa abandonar a lógica da jurisdição, que consiste no respeito ao pacto social, buscando, dessa maneira, resolver de seu modo o problema que a jurisdição entender que existe/existia. - Imperium. - Concretização do poder do Estado. - Questão do exercício de poder propriamente dito, a configuração de quem vai julgar (Poder Judiciário), como sendo alguém elegido exclusivamente para essa situação de poder acima do caso concreto, para que assim, de modo geral, possa impor sua vontade. Princípios: - Princípio da Investidura. - Diz respeito ao fato de haver sido regularmente nomeado juiz , ou por concurso público, ou por sorteio, no caso dos jurados (Tribunal do Júri). - Para que se possa exercer a jurisdição ou ter jurisdição, é preciso que se reconheça que essa pessoa tenha jurisdição. - Ela deve ser reconhecida como possuidora dela, o que se dá, no Brasil, através das formas desse artigo (concurso ou sorteio). - Os jurados tem jurisdição, uma vez que sua função é decidir em certas situações - crimes dolosos contra a vida. - Princípio da Indeclinabilidade. - Decorre do princípio da investidura. - Não pode o juiz se negar a prestar jurisdição. - Art. 5º, inc. XXXV, CF - a lei não excluirá da apreciação do Poder Judiciário lesão ou ameaça de direito. - É preciso ter a intervenção do Judiciário, ele não pode abrir mão. - Necessidade da jurisdição penal . DIREITO PROCESSUAL PENAL I - Prof. Mauro Andrade. - Princípio “nulla poena sine judicio” . - Essa jurisdição é necessária, pois não há pena sem julgamento. - “Non liquet” no Tribunal do Júri . - Exceção. Essa expressão significa não estar líquido/claro. Havendo dúvida, quem vai decidir pode se recusar a isso. No Direito Brasileiro essa situação ocorre somente no Tribunal do Júri, no artigo abaixo. - Art. 481, CPP. Se a verificação de qualquer fato, reconhecida como essencial para o julgamento da causa, não puder ser realizada imediatamente, o juiz-presidente dissolverá o Conselho, ordenando a realização das diligências entendidas necessárias. - O juiz pergunta aos jurados “os senhores estão satisfeitos? Tem condições de julgar?”. - Em caso de dúvida, “tome cuidado para não exteriorizar o seu voto” - se o jurado disser sua dúvida e ela puder ser respondida naquele momento, e o jurado entender que está satisfeito, o julgamento segue. Caso contrário, o juiz dissolve o conselho de sentença. - Princípio da Demanda:- “ne procedat iudex ex officio” , “nemo iudex sine actore” . - O juiz só se manifesta se provocado. - Art. 2º CPC. O processo começa por iniciativa da parte e se desenvolve por impulso oficial, salvo as exceções previstas em lei. - Aponta onde que o processo tem início, via de regra. - Exceção: investigação criminal judicial. - Natureza jurídica da investigação criminal judicial. - Princípio da Indelegabilidade: - Também decorre do princípio da investidura. - O juiz deve exercer pessoalmente suas funções , não podendo transferi-las ou delegá-las a terceiros. - Exceção: cumprimento de cartas precatórias - depoimentos prestados por pessoas que não residem na localidade (comarca) onde o juiz exerce jurisdição. Hipótese abandonada por conta das facilidades do processo eletrônico/audiências virtuais. - Princípio.da Improrrogabilidade ou Aderência. - O juiz só pode julgar o que for de sua competência . DIREITO PROCESSUAL PENAL I - Prof. Mauro Andrade. - Juiz natural. - Princípio próprio da jurisdição, tendo a ver com a sua delimitação, dizendo respeito aos critérios fixadores e de exclusão da competência. - Exceções: - Conexão ou continência; - Desaforamento no procedimento do júri; - desclassificação no procedimento do júri (onde o juiz julga o fato sob nova tipificação); - Princípio do Impulso Oficial: - Embora caiba ao autor dar início ao processo, o juiz, em determinadas situações, deverá se encarregar de fazer o processo se movimentar sem depender da iniciativa das partes. - Art. 2º CPC. O processo começa por iniciativa da parte e se desenvolve por impulso oficial, salvo as exceções previstas em lei. - Processo inicia mediante provocação de terceiro, mas quem se encarrega de dar impulso ao processo é o juiz. - Se aplica, no processo penal, SOMENTE aos crimes de ação penal pública. - Nos crimes de ação penal privada, se a parte autora deixar o processo parado por mais de 30 dias, esse processo poderá ter a incidência da perempção - extinção da punibilidade. - Princípio da Correlação entre Acusação e Sentença. - Princípio que diz mais a respeito da sentença do que da jurisdição como um instituto. - O que está colocado na acusação é o que vai deliminar a sentença. - Todavia, há situações específicas em que é preciso ter uma certa adaptação. - Emendatio Libelli. - Divergência quanto à classificação do fato . A descrição do fato, mas a tipificação (o artigo do crime que se dá para aquele fato é outra). - Art. 383, caput, CPP. O juiz, sem modificar a descrição do fato contida na denúncia ou queixa, poderá atribuir-lhe definição jurídica diversa, ainda que, em consequência, tenha de aplicar pena mais grave. DIREITO PROCESSUAL PENAL I - Prof. Mauro Andrade. - O juiz se atém ao fato descrito, e não ao tipo penal que foi apontado. O juiz pode condenar alguém por esse fato mesmo que a pena prevista para o artigo que foi colocado pelo acusador tenha pena mais branda. - Não pode o autor daquela ação escolher uma pena a ser aplicada - ele vai ter que descrever o fato em si e esse fato é que vai motivar a pena pelo juiz (que vai ver em qual melhor artigo se enquadra). - Mesmo se o apenamento for mais grave! ! - Acusação por 3 latrocínios e 1 roubo; condenação por 4 latrocínios (STJ, HC 89.232/SP, 6ª Turma, rel. Mina. Maria Thereza de Assis Moura). - Mutatio Libelli: - Divergência quanto à descrição do fato . Divergência entre o fato descrito na acusação e as provas contidas nos autos. - Ex.: Foi narrado um crime de furto, mas não foi verificado na prática - se viu como não existente, pois além de subtrair a bolsa de uma pessoa, eu também empurrei e agredi uma pessoa enquanto praticada esse fato (roubo). Entretanto, o acusador, ao redigir a acusação, não descreveu a violência, e essa violência somente apareceu na fase probatória. - O juiz não pode condenar com base na prova obtida, nesse caso em que a prova aponta para o roubo, mas a descrição do fato aponta para o furto. - É preciso que haja uma adaptação do que está descrito na acusação com a prova obtida - muda o conteúdo da acusação, da descrição do fato, por conta do apontamento obtido nas provas. - Sem essa alteração, não é possível uma sentença acusatória. - Art. 384, caput, do CPP. Encerrada a instrução probatória, se entender cabível nova definição jurídica do fato, em consequência de prova existente nos autos de elemento ou circunstância da infração penal não contida na acusação, o Ministério Público deverá aditar a denúncia ou queixa, no prazo de 5 dias, se em virtude desta houver sido instaurado o processo por crime de ação penal pública, reduzindo-se o aditamento a tempo, quando feito oralmente. - Pedido de Absolvição pelo Ministério Público. - Art. 385, CPP. Nos crimes de ação pública, o juiz poderá proferir sentença condenatória, ainda que o MP tenha opinado pela DIREITO PROCESSUAL PENAL I - Prof. Mauro Andrade. absolvição, bem como reconhecer agravantes, embora nenhuma tenha sido alegada. - Cuidado: se refere somente a hipótese em que o MP pede absolvição, porque se o querelante pede absolvição, este é um caso de perempção - juiz extingue punibilidade (caso de ação penal privada). - Se for ação penal privada subsidiária da pública e o querelante pedir absolvição do réu, tem-se o fenômeno da reversabilidade. - O juiz pode condenar. A legislação autoriza pois o convencimento do juiz se deu antes do pedido do MP, por isso, inclusive, que se tem o princípio da identidade física do juiz. - O juiz que melhor deve julgar é aquele que obteve a prova, pois seu conhecimento se deu na fase probatória. - Quando o MP está pedindo a absolvição, ele não está desistindo e nem retirando a acusação (!!!) . - Porque a ação penal pública é indisponível, de modo que o MP não pode dispor do seguimento ou do sucesso daquela ação. - Ele tem a obrigatoriedade de levar até o final - o pedido de absolvição não importa no encerramento daquela ação simplesmente porque ele quer, somente se tratando de uma manifestação sobre o que ele entendeu daquele caso concreto (que pode ser diferente do entendimento do juiz). - Também não há o que se falar em confusão de papéis do juiz , pois ele não está atuando como julgador e como autor, mas somente está proferindo a decisão baseada no seu convencimento, que independe do pedido de absolvição pelo MP (que também é uma opinião da instituição, não um pedido de desistência, até porque é vedado). - Princípio da Inevitabilidade ou Irrecusabilidade: - Impossibilidade de a parte recusar o juiz que lhe é posto no processo . Do contrário, poderia escolher o julgador. - Não significa que o indivíduo tem que aceitar quem se colocou como acusador - esse pode ser refutado/recusado. - Exceções: - Exceções de impedimento, suspeição e incompatibilidade. DIREITO PROCESSUAL PENAL I - Prof. Mauro Andrade. - Se procura demonstrar a falta de condições para que a aquele juiz possa atuar, porque ele não tem aquela imparcialidade necessária para isso. - O juiz nãopossui, nesses casos, o pressuposto que fez nascer a jurisdição (distanciamento). - Lógica de perda de jurisdição, para além da imparcialidade. . - Princípio da Unidade ou Identidade da Jurisdição: - A jurisdição é uma , não se podendo confundir com suas especializações. - Quem tem jurisdição é o Poder Judiciário, de modo que eventuais especificações estão vinculadas à competências (jurisdição trabalhista, jurisdição criminal, jurisdição civil). - Fracionamento/delimitação no exercício da jurisdição. Mas a jurisdição, em si, é dada para uma Instituição (Poder) maior, para que a sociedade possa viver em harmonia. Finalidade ou Escopo da Jurisdição: - Social: - Garantir a paz e harmonia sociais. - Evita-se a volta da autotutela, que enfraquece o Estado. - Político: - Funcionar como espaço de participação política acessível a todos. - O cidadão pode reinvidicar direitos e afirmar valores constitucionais, participando da vida da polis e ajudando na administração da coisa pública. - Pessoas venham a procurar de modo formal quem resolva os conflitos (Poder Judiciário). - Ex.: ação popular no cível. - Resultado é fazer com que cada pessoa saiba seus direitos e que possa procurar quem possa resolver seus conflitos, de modo a melhorar a própria convivência social. - Jurídico: - Assegurar o princípio da legalidade, com a atuação do direito material. - Manutenção da ordem por meio da preservação do princípio da legalidade. DIREITO PROCESSUAL PENAL I - Prof. Mauro Andrade. - Se há normas de convivência para serem respeitadas, elas só serão respeitadas se houver uma consciência coletiva e, em caso não se faça tão presente, a consequência é que a jurisdição fará impor o respeito a essa legalidade. - Noção de obediência e não de respeito. Espécies de Jurisdição: - Jurisdição de equidade, “post factum” ou em concreto. - O juiz formula a norma aplicável ao caso concreto , após examinar todas as circunstâncias do caso. - Não há regra legal preestabelecida. Lógica de referência no common law , em que o juiz formula caso a caso a resposta ao caso concreto. - Não existiria uma legislação estabelecendo forma de ação e resultados dessa atuação contra o entendimento geral. - Se confia ao prudente arbítrio do julgador para poder resolver tal ou qual problema. - Jurisdição legal ou jurisprudencial, “ante factum” ou em abstrato. - Um órgão do Estado estabelece como o juiz deverá decidir, ou seja, aquilo que deve ser julgado pelo juiz. - Esse órgão pode ser: - O legislador: impondo a lei a ser observada. O legislador prevê o que irá conter como consequência naquela determinada situação (lógica do direito continental). - Norma geral e abstrata. A pessoa já tem um “norte” sobre como proceder sobre aquele caso em concreto. - O direito constitucional. - Outro juiz, criando o ‘precedente’. - Sistema do common law. - Common law só segue essa lógica quando já se tem um precedente. Causas de Exclusão da Jurisdição: - Autotutela : a jurisdição foi criada para evitar essa forma de resolução de conflito. DIREITO PROCESSUAL PENAL I - Prof. Mauro Andrade. - Autocomposição : só vai excluir a jurisdição no momento em que não houver a necessidade da intervenção do Poder Judiciário para a convalidação dessa autocomposição. - Se é de natureza civil, via de regra, não precisa de homologação judicial. - Se é de caráter judicial, necessita de intervenção judicial. - Para outras materias, como na matéria criminal, não se configura como causa excludente da jurisdição. - Até o momento, nossa jurisdição exige a homologação judicial na esfera criminal, exigindo a presença de jurisdição para que possa ser convalidada. TEORIA GERAL DA PROVA: * Não cai na prova.- Problema: ativismo judicial. Se refere aos limites que devem ser traçados para que o juiz possa ter essa atuação sem comprometer sua imparcialidade. - Fundamentos: - Lógico: calcado na existência de uma informação que a parte prejudicada deve poder rebater. Dentro de uma informação que interessa a alguem e que vem contra os interesses de seu opositor, esse opositor tem direito de conhecer e rebater tais argumentos. - Ação e reação. - Prático: desrespeito à figura do juiz. Direcionado à formação do convencimento judicial. DIREITO PROCESSUAL PENAL I - Prof. Mauro Andrade. - Para o fundamento prático, quanto mais houver troca entre acusação e defesa, em termos de argumentos e documentos, melhor seria a formação do convencimento judicial, a fim de que o juiz decida com uma possibilidade e qualidade de acerto muito maior do que se fosse de modo diferente, com a argumentação e documentação mais restrita. - Âmbito de incidência: - Processual: o juiz só exerce jurisdição dentro de processo. Somente no processo haverá a figura do juiz e das partes, que tratam de completar essa relação. - Decisões surpresa: - Art. 10, CPC. O juiz não pode decidir, em grau algum de jurisdição, com base em fundamento a respeito do qual não se tenha dado às partes oportunidade de me manifestar, ainda que se trate de matéria sobre a qual deva decidir de ofício. - Reformatio in mellius : reforma que existe de uma decisão já submetida ao segundo grau, em que o MP é pego de surpresa pela decisão proferida pelos julgadores de segundo grau. - Caso em que um processo tramitou em primeiro grau e o réu foi condenado. Chegando a intimação para a defesa, a defesa não recorre , mas o MP recorre para aumentar a pena. Esse processo vai ao Tribunal de Justiça e, chegando no momento da decisão pela Camara Criminal, os desembargadores identificam uma situação que podem anular o processo ou redimensionar, de ofício, a pena para reduzí-la, partindo de argumento que nenhuma das partes havia apresentado (reforma para melhor sob perspectiva do réu). Entretanto, esse processo não chegou ao segundo grau por recurso do réu, mas sim do MP, que recorreu que houvesse o aumento da pena. Nessa decisão, o MP é surpreendido, no meio do julgamento, pela reforma da decisão de forma favorável ao réu. - Situação de decisão surpresa no Processo Penal brasileiro. - Art. 497, IX, CPP. São atribuições do juiz presidente do Tribunal do Júri: IX - decidir, de ofício, ouvidos o MP e a defesa, ou a requerimento de qualquer destes, a arguição de extinção de punibilidade. DIREITO PROCESSUAL PENAL I - Prof. Mauro Andrade. - Possibilidade de vedação a decisão surpresa que antecede qualquer preocupação que tenha existido em relação ao direito processual civil/penal. - Esteve limitada ao procedimento do Tribunal do Júri. - Limitações: - É possível afastar o princípio do contraditório do processo penal? SIM! - Em 2011, o legislador inseriu o §3º do art. 282 do CPP , sendo texto que trata das medidas cautelares pessoais (prisão, liberdade e cautelares diferentes das prisões). Na oportunidade o legislador entendeu que, para o deferimento de tais medidas, era preciso ouvir as partes antes, desde que houvesse requerimento. - No entanto, o legislador ressalvou duas hipóteses em que poderia ocasionar no afastamento do princípio do contraditório caso observadas: - A identificação de urgência do provimento jurisdicional; - Perigo de ineficácia da medida se fosse dada vista à parte contrária antes da decisão. - Em 2019, esse parágrafo foi redigido novamente, para melhor especificar como se dariam essas situações de afastamento do princípio do contraditório. - A lógica foi a de que “ ressalvados os casos de urgência ou de perigo de ineficácia da medida , o juiz, ao receber o pedido de medida cautelar, determinará a intimação da parte contrária, para se manifestar no prazo de 5 dias, acompanhada de cópia do requerimento e das peças necessárias, permanecendo os autos em juízo, e os casos de urgência ou de perigo deverão ser justificados e fundamentados em decisão que contenha elementos do caso concreto que justifiquem essa medida excepcional” . - Problema: restrição às medidas cautelares pessoais. - Até 2019, não havia exigência do processo ficar em cartório, no prazo de 5 dias. Foi preciso que esse conteúdo fosse inserido para obrigar os juízes a seguirem uma lógica de respeito ao princípio do contraditório. - Balanceamento de bens: o que é mais importante - conceder uma medida cautelar sem oitiva da parte contrária interessada ou se ouvir primeiro a parte interessada? DIREITO PROCESSUAL PENAL I - Prof. Mauro Andrade. - Se houver risco de prejuízo a medida cautelar, o contraditório é afastado. Princípio Acusatório: - Fundamento: diferenciação entre quem acusa e quem julga. - O julgador não pode somar forças à figura do acusador. Não pode se confundir de fato/de modo psicológico com quem irá atuar no polo ativo de uma ação condenatória. - Linhas conceituais: - Exige a presença de um acusador distinto do juiz. - Imprescindibilidade da presença de um acusador distinto do juiz. - De acordo com a primeira linha conceitual , um processo pode até admitir a presença de um juiz que faça a função de acusador, mas também autorizar a presença de um acusador diferente do juiz. O fato de ter um acusador diferente do juiz já seria suficiente, então, para preservar a imparcialidade do próprio julgados. Já a segunda linha conceitual não admite de forma alguma que um acusador possa dividir sua legitimidade com um juiz, somente um acusador diferente do juiz pode atuar em um determinado processo, o que não ocorre de acordo com a primeira linha. - Origem: - Relação entre juiz e acusado. - Antigamente, o chefe político ou religioso resolvia o problema que ocorreu com a vítima, chamando o agressor para prestar contas e ser punido. - A vítima quase não tinha atuação nessa forma de resolução de conflito. - O chefe daquela época, acumulava as funções de quem julgava e quem acusada. - A relação era entre juiz e acusado. - Com o tempo, viu-se que essa função do chefe em acumular essas atividades colocava em dúvida sua imparcialidade ou distanciamento necessário para poder bem julgar. - Necessidade de separar do juiz as funções de iniciar e julgar o processo. DIREITO PROCESSUAL PENAL I - Prof. Mauro Andrade. - Se as vítimas tivessem interesse em reparar o seu dano, elas que deveriam estar presentes e levar adiante suas reclamações por elas mesmas. - Se, vendo que o juiz tinha problemas quanto ao seu distanciamento ao suposto crime praticado/figura da vítima, tirou-se do juiz a parcialidade acusatória que ele detinha, passando-a com a pessoa com melhores condições de sustentar sua causa: a própria vítima, que passou a ter a legitimidade acusatória. - Figura do juiz, acusador e acusado. - Previsão constitucional: - Art. 129 da CFB/88. I - São funções institucionais do MP: promover,privativamente, a ação penal pública. - Críticas: - Não se aplica às ações penais privadas, em que também é necessária a presença de um acusador diferente do juiz (querelante). - Princípio do acusatório formal. - Forma de interpretação em que se admite a subordinação do MP ao juiz. - Espécies: - Princípio Acusatório material: - Art. 28 CPP. O princípio acusatório material não permite qualquer influência ou ordene o MP a acusar ou seguir investigando para futuramente acusar. - Exige a perfeita separação entre quem acusa e quem julga. Não só entre pessoas, mas entre funções. - O juiz, sendo diferente do acusador, em nível de profissão, não pode se imiscuir em nenhum tipo de atividade de cunho acusatório. Não pode determinar ao MP que acuse ou que siga investigando para poder acusar, por exemplo. - Princípio acusatório formal: - Diz respeito a uma separação de funções meramente formais entre quem julga e quem acusa, mas o juiz pode determinar o conteúdo ou a existência dessa acusação. DIREITO PROCESSUAL PENAL I - Prof. Mauro Andrade. - Juiz não se confunde física e profissionalmente com a figura do acusador, embora possa determinar questões de fundo que dizem respeito a atividade desse acusador. Princípio Inquisitivo: Fundamento na equivalência entre quem acusa e quem julga. Princípio melhor definido como sendo a figura de um juiz enquanto acusador de plantão. Se tiver acusador no processo, ótimo. Se não tiver, o juiz acusaria. - Linhas conceituais: - Identidade entre a pessoa que acusa e a pessoa que julga (uma só pessoa). - Prescindibilidade da presença de um acusador distinto do juiz. - Poderia haver um acusador diferente do juiz, mas o juiz já tinha sua imparcialidade afetada de antemão. - A prescindibilidade significa que, mesmo que venha a ter um acusador no processo, esse juiz já está previamente endereçado a ter uma postura acusatória, para que exista uma acusação no processo e o réu possa ser condenado. - Lógica que esteve presente em todos os textos históricos vinculados ao sistema inquisitivo. Princípio da Publicidade: Possibilidade de participação popular quando da realização dos julgamentos. É uma forma de controle sobre o conteúdo e correção do julgamento que é proferido. - Previsão constitucional: - Art. 5º, LX - a lei só poderá restringir a publicidade dos atos processuais quando a defesa da intimidade ou o interesse social o exigirem. - Art. 93, IX - todos os julgamentos dos órgãos do Poder Judiciário serão públicos, e fundamentadas todas as decisões, sob pena de nulidade, podendo a lei limitar a presença, em determinados atos, às próprias partes e a seus advogados, ou somente a estes, em casos nos quais a preservação do direito à intimidade do interessado no sigilo não prejudique o interesse público à informação. - Previsão no CPP: - Art. 20. A autoridade assegurará no inquérito o sigilo necessário à elucidação do fato ou exigido pelo interesse da sociedade. DIREITO PROCESSUAL PENAL I - Prof. Mauro Andrade. - Origem (Atenas e Roma): - Presença do “público”. - Teve origem pela própria forma como as resoluções de conflito se davam na antiguidade. - Num primeiro momento, a discussão em torno do objeto era realizado somente entre quem julgava, acusava e quem era acusado. As pessoas começaram a ter curiosidade sobre o que as três pessoas discutiam, de modo que essa curiosidade começou a tomar corpo e que aquele tipo de discussão teria reflexo na própria convivência social. Até mesmo no próprio destino da sociedade. - O que era curiosidade virou direito da população a acompanhar esses julgamentos. - Coletivo de julgadores (lógica de Tribunal do Júri) . - Situação de controle popular sobre o julgamento, que passou a fazer o papel de fiscalizador do que hoje chamamos de Poder Judiciário, controlando se o que foi discutido e as provas apresentadas poderiam de fato embasar a decisão que chegaram os julgadores. - Princípio da publicidade como forma de conferir legitimidade aos julgamentos. - O povo sendo juiz dos juízes (ver o discurso de Marco Túlio Cícero). - Restrições. - O sigilo. - Nas duas oportunidades em que a CF trata disso, ela não indica de quem seria essa intimidade - se seria do investigado, de testemunhas ou do autor. - Deve-se ver a situação no caso concreto para que seja decretado o sigilo. - O interesse de uma determinada testemunha pode ser suficiente para que seja decretado o sigilo somente de seu depoimento, ou do processo como um todo. - Fundamento das restrições: - Defesa da intimidade ou interesse social (art. 5º, LX, CF). - A CF não aponta a intimidade de quem, podendo ser do próprio investigado/réu. DIREITO PROCESSUAL PENAL I - Prof. Mauro Andrade. - A intimidade é o único fundamento para restrição que acaba sendo interpretado sem uma ampliação dentro de legislações infraconstitucionais. - Preservação do direito à intimidade do interessado no sigilo (Art. 93, IX, CF). - Elucidação do fato ou exigido pelo interesse da sociedade (art. 20, CPP). - Trata-se do interesse social previsto na CFB. - Garantia da celeridade e da eficácia das diligências investigatórias (art. 23, Lei n. 12.850/2012). - Também dentro do interesse social. - Quem decreta o sigilo? - Delegado de Polícia . - Art. 20, CPP. A autoridade policial assegurará no inquérito o sigilo necessário à elucidação do fato ou exigido pelo interesse da sociedade. - Juiz . - Art. 23 da Lei n. 12.850/2021. Autoridade judicial competente. - Interpretar dizendo que, nos casos dessa lei, o juiz é quem decretaria o sigilo e, em todos os demais, seria o delegado de polícia. - No entanto, é necessário que se diga que, desde 2006, o professor sustenta que a publicidade, por estar prevista no art. 5º da CF e se tratar de um direito fundamental, caracteriza-se como um direito que exige a reserva de jurisdição para ser deixada de lado ou excluída. - O sigilo só poderia ser afastado, nessa linha de pensamento, por uma ordem judicial. Também se aplicaria nas investigações presididas pelo MP. - Caráter prescindível da publicidade : - Há situações em que a publicidade pode ser afastada de acordo com a própria CF , quando se faz necessária a preservação de algum interesse. - Logo, o princípio da publicidade não é imprescindível para que o processo seja considerado adequado. Deve-se, todavia, ser devidamente fundamentada e justificada a ausência da publicidade. DIREITO PROCESSUAL PENAL I - Prof. Mauro Andrade. - Necessário, também, um decreto de sigilo para tal. - Também se dá pelo argumento de que a linguagem dos processos seria inacessível ao cidadão em geral, de modo que traria pouca efetividade no controle do cidadão. - A obrigatoriedade de fundamentação das decisões substitui o controle popular. O controle popular foi substituído pelo controle de necessidade de fundamentação. - Também pelas formas simplificadas de resolução de conflitos, como a negociação da pena. - Os recursos substituíram a fiscalização popular . Princípioda Oralidade: Forma de convencimento do juiz, especificamente definido como a necessidade de o juiz formar sua convicção predominantemente com base na prova oral produzida no processo. - A prova oral, representada pela prova testemunhal, interrogatório e depoimento pessoal da vítima, via de regra, será aquela em que o juiz deverá embasar sua decisão. - Outras provas, como as documentais, podem colaborar no processo, entretanto, as supracitadas são as principais. - Previsão legal: art. 98, I. (...) mediante os procedimentos oral (...). - Origem (Atenas e Roma): - O princípio da publicidade tinha a ver com a presença do público, a fim de permitir uma fiscalização popular sobre a qualidade do julgamento proferido. A partir dessa congruência entre as afirmações de modo verbal produzidas e a sentença, é que se dava o reconhecimento popular quanto à qualidade da decisão da sentença proferida pelos julgadores. - O princípio da oralidade se colocou como mecanismo de manifestação do princípio da publicidade. Para que o público pudesse acompanhar e fiscalizar, era preciso que o público soubesse o que estava sendo discutido e, por ser um público muito grande, não tinham como ter acesso aos autos do processo. - Para que elas pudessem saber se a decisão estava de acordo, precisavam saber o que era produzido, então, de modo verbal . - Finalidade: - Estar a serviço do principio da publicidade. DIREITO PROCESSUAL PENAL I - Prof. Mauro Andrade. - Fiscalização da atividade julgadora. - Subprincípios: - Identidade física do juiz. - Art. 399, CPP, §2º. O juiz que presidiu a instrução deverá proferir a sentença. Quem presidiu a fase probatória deverá ser aquele que irá proferir a sentença. - Não é, todavia, um princípio absoluto. Juízes podem estar em férias, licença saúde, promoção, etc. - Celeridade. - Processo tem que ser rápido para atingir sua finalidade. - Imediação. - Contato do juiz deve ser imediato com quem está prestando depoimento. - Concentração de atos . - Em lugar de se ter 10 pessoas que seriam ouvidas, uma a cada semana, marca-se uma audiência para se ouvir o máximo de pessoas possíveis. Se o princípio da oralidade significa que o juiz deverá decidir de acordo, predominantemente, com o material verbal transmitido a ele, e não com o que tiver contato visual, este juiz tem que ser o juiz da audiência , que tem o contato imediato com alguém. - A finalidade é que ele possa se lembrar daquelas impressões dadas a ele, de modo a que o processo seja rápido. E para que a tramitação seja rápida, deve-se ter essa concentração de atos. - Princípio que trabalha com memória visual e auditiva do juiz . - Para que seja utilizada por ele, é preciso que essa memória esteja ‘’fresca’’ no momento da decisão para poder bem julgar. Princípio da escritura: Juiz deve julgar com base no material escrito que lhe é fornecido. Qualquer informação marcada ou gravada de alguma forma (se aplica às imagens). - Incidência: - Ações penais originárias: aquelas ações ajuizadas diretamente nos tribunais. - Nesses tipos de ações, não são os desembargadores ou ministros que tomam os depoimentos das testemunhas em DIREITO PROCESSUAL PENAL I - Prof. Mauro Andrade. uma audiência, como é feito no primeiro grau. Aqui, os depoimentos são tomados por juízes instrutores designados, encarregados de tomarem esses depoimentos, materializarem-os de alguma forma por escrito ou por gravação e, por fim, repassar o material aos julgadores finais. - Obs.: recursos . Naquelas situações onde os julgadores de revisão ( ad quem ) vão se encarregar de manter ou alterar a decisão recorrida. Aqui, n ão realizam nova tomada de depoimento das partes/testemunhas, baseando-se somente nos depoimentos já presentes nos autos. - Exceção: cartas rogatórias (emitidas para o entrangeiro), precatórias (emitidas pra juízos diferentes) e de ordem (emitidas por um tribunal para órgãos jurisdicionais abaixo dele). - Ainda temos cartas precatórias, mas vem sendo deixadas de lado sob o argumento de que qualquer pessoa pode entrar em contato com o juízo por meio de telefone ou aplicativo de celular. Uma pessoa que reside em Santa Maria não precisa mais comparecer até o foro de Porto Alegre para prestar um depoimento, podendo ser contatada diretamente pelo juízo de Porto Alegre por telefone celular. - Vantagens do Princípio da Oralidade sobre o Princípio da Escritura: - Incremento quantitativo: diz respeito aos sentidos humanos envolvidos em relação aos dois princípios. Na oralidade, teriamos como mínimo os sentidos da audição e da visão (olfato e tato, talvez). Já na escritura, a formação do convencimento está restrito ao sentido da visão. - Mais sentidos envolvidos no primeiro do que no segundo, o que melhoraria a qualidade. - Incremento qualitativo: vinculado a forma como o sentido comum que há entre os dois princípios é tratado pela oralidade e escritura. A oralidade trabalha com a visão, mas não sob um objeto inerte, mas sim um objeto em movimento que emite posturas e sensações, fazendo com que um olhar/comportamento humano seja decisivo para a formação do convencimento do juiz. Já o sentido da visão na escritura é exercido sob um objeto inerte, como um depoimento. Não há interatividade para provocar algum sentimento/sensação no juiz, mas somente na forma como a pessoa conduziu a tomada daquela prova oral. - Qualidade maior na oralidade. DIREITO PROCESSUAL PENAL I - Prof. Mauro Andrade. Princípio da Documentação de Atos: Tem a ver com a documentação dos depoimentos prestados em nível de Princípio da Oralidade. O princípio da documentação de atos está vinculado ao princípio da oralidade como forma de manutenção da segurança e resguardo daquelas informações prestadas , não tendo a ver com o princípio da escritura. Em suma, esse princípio somente tem a ver com a documentação dos depoimentos prestados sob o princípio da oralidade. Na escritura, o processo de julgamento do juiz se dá com base na convicção a partir daquilo que leu, já a documentação de atos é a documentação de tudo aquilo que o juiz já presenciou (já viu). - Diferença em relação ao princípio da escritura: - Como será a formação do convencimento do juiz. - Na documentação de atos, será com base em tudo o que ele recebeu com base verbal. - Serve para caso haja recurso. - Na escritura, o convencimento do juiz somente se dará com base no que ele leu. Princípio do Devido Processo Legal: - Previsão constitucional: - Art. 5º, LIV - ninguém será privado da liberdade ou de seus bens sem o devido processo legal. - Componentes: - Habeas Corpus n. 100, 204 - STF. - Espécies: - Devido processo legal formal: - Respeito ao procedimento. Necessidade de observância das regras pré determinadas em lei para alguém ser condenado ou absolvido. - Devido processo formal legal: - Necessidade de razoabilidade das regras estabelecidas, sem que haja injustiça, nem discriminação no trato das partes. DIREITO PROCESSUAL PENAL I - Prof. Mauro Andrade. SISTEMAS PROCESSUAISPENAIS: Panorama Histórico : Grande parte das decisões, dentro da esfera do processo penal, que a doutrina e jurisprudência assumem estão centradas, justamente, em qual é o sistema processual que temos ou desejamos ter. Até 1988, antes da CBF, o trato do tema em questão pelos autores e pela jurisprudência era mínimo, de modo que pouco impacto tinham as posições que vinham a assumir a respeito de, por exemplo, a ação penal, recursos, investigação, inquérito, dentre outros. Ou seja, tais institutos não tinham relevância com o tema de sistemas processuais penais. Entretanto, com a entrada em vigor da CBF, houve mudança nesse sentido. Após 1988, o trato dos autores em relação ao tema mudou completamente. Os autores continuaram tratando do tema no início de suas obras, no entanto, tudo o que era abordado no começo das obras, tinha impacto direto na abordagem futura que esses autores fariam (ou fazem) em relação aos demais institutos penais. Assim, quando um autor tratava do conceito de um sistema processual penal como, por exemplo, acusatório, inquisitivo ou misto, essa abordagem tinha um impacto muito forte posteriormente. Logo, ao abordar, por exemplo, o inquérito, o autor ia tomar como base os conceitos que havia definido em relação aos sistemas penais, seguindo uma linha lógica de raciocínio. Abordagem aos sistemas processuais penais: - Autores que tratam somente de admitir dois tipos de sistemas (acusatório e inquisitivo); - Autores que tratam de três sistemas processuais (acusatório, inquisitivo e misto). Na atualidade, cada autor propõe um conceito diferente de sistemas, fazendo com que se tenha uma multiplicidade de conceitos. Há linhas doutrinárias e grupos conceituais, porém não existe uma uniformidade. Dessa maneira, uma mesma característica pode estar presente em dois ou três sistemas distintos, porque não há trato uniforme em relação a este termo. - Consequência: tem-se um país que não “sabe” o que tal sistema significa. - Há uma busca de uma adoção do sistema acusatório, mas qual seria a definição correta desse sistema? - Adota-se a linha ou conceito de um sistema ‘b’ ou ‘c’ de preferência de um grupo de autores, e não um conceito que tenha unanimidade de aceitação na doutrina e jurisprudência brasileira. DIREITO PROCESSUAL PENAL I - Prof. Mauro Andrade. - Disto, decorrem legislações aprovadas que, quando analisadas junto com a história do processo penal ou junto com a história daquele sistema penal em específico, não se ajustam ao que foi tal sistema de processo penal. - Exemplo : muitos querem que o sistema penal brasileiro seja reconhecido enquanto acusatório, mas não há uma definição correta sobre o que foi o sistema acusatório de fato. Mas, se há uma dificuldade de aceitação de um conceito unânime de sistema acusatório, qual seria então a correção de uma legislação que busca adaptar o processo penal brasileiro a essa lógica de processo/sistema acusatório? - O problema está no risco de se adotar no brasil um instituto que nunca teve a ver com o sistema acusatório . Um exemplo é a matéria recursal. Recurso nunca foi algo vinculado intrinsecamente ao sistema acusatório, ainda que apontado enquanto parte importante do exercício das funções acusatórias, defensivas e do próprio controle do poder judiciário. Mas, quando se fala em recursos como vinculados obrigatoriamente ao sistema acusatório, se está cometendo um equivoco. É um tema, portanto, delicado e espinhoso. Para tratar do tema de forma técnica, é preciso de uma análise bem detalhada e profunda da história do direito processual penal e seus institutos que compõem os sistemas penais. Conceito de Sistema Processual Penal: - Conceito de sistema: - Sistema é visto como algo amplo e complexo, formado por um agrupamento de elementos onde um só elemento não é suficiente para poder determinar a existência de um determinado sistema. Isso leva à organização dos sistemas de acordo com as áreas especializadas do conhecimento humano (sistema jurídico, matemático, etc.). - Uma definição de sistema jurídico seria a reunião conscientemente ordenada e organizada de entes, conceitos, enunciados jurídicos, princípios gerais, normas, fazendo com que se estabeleça, entre os sistemas jurídicos e esses elementos, uma relação de continente e conteúdo (sistema processual penal, sistema penal, sistema tributário etc.). - Conceito de Sistema Processual Penal: - Subsistema jurídico, formado pela reunião ordenada e unificada de elementos fixos e variáveis de natureza processual penal. - “Elementos” que devem sempre estar presentes (fixos) e aqueles que nem sempre precisam estar presentes (variáveis). Os elementos DIREITO PROCESSUAL PENAL I - Prof. Mauro Andrade. fixos são o núcleo duro do sistema, que permitem a criação desse sistema e a sua diferenciação dos demais, enquanto os elementos variáveis não tem presença obrigatória, mas tem o objetivo de permitir a mobilidade ou funcionamento desse sistema. - Exemplo: o princípio da publicidade, por exemplo, não precisa estar necessariamente dentro de todos os processos penais, pois a própria CF prevê a possibilidade de afastamento desse princípio. - Trata-se, portanto, de um elemento variável. - “Unificado”: todo o sistema processual penal de um determinado país tem que estar girando em torno em uma hipótese só, ou seja, ou ele é só acusatório, ou só aquisitivo ou apenas misto. - Dessa maneira, um país não pode ter dois sistemas processuais penais ao mesmo tempo sob pena de o próprio conceito de sistema ser afastado . Para que haja sistema processual penal em um país, só um deve estar em vigor. Funções dos sistemas processuais penais: - Duas funções (primeira linha teórica): - Delimitar ou determinar o grau de imparcialidade do julgador (qual o tipo de julgador que eu quero para um tipo de processo penal de determinado país?); - Regular o grau de repressão que se tem em um determinado país (será uma repressão mais rígida ou liberal?). - Exemplo: como determinar quando o processo penal de um determinado país terá início? Será que terá início com a acusação e o oferecimento da ação ou ele poderá iniciar antes do oferecimento da ação. - Terceira linha teórica: - Estabelecer o grau de tecnicidade da persecução penal (além das outras). - Ou seja, o trato de determinado institutos será feito de forma técnica ou mais simples? - Exemplo: denúncia. Tecnicamente, para o direito, significa acusação, mas já foi tratada também como notitia criminis . Para o processo penal, a denúncia vai significar o ajuizamento da ação ou o mero registro de ocorrência. DIREITO PROCESSUAL PENAL I - Prof. Mauro Andrade. - Dentro de um sistema mais técnico e rígido, a denúncia será tratada como a ação penal pública. E para um sistema mais liberal e simples, o grau de tecnicidade será mais baixa, de modo que a denúncia será tratada como uma notitia criminis (B.O.). Sistema Inquisitivo: O sistema inquisitivo foi o primeiro a se manifestar juntoa humanidade, pois exige lógica de resolução de conflito mais simplificada - Lógica de sua criação: concentração de poderes no líder político ou religioso. - Não havia triangularização para regularização do conflito: quem foi vítima de uma determinada “violação” transmitia ao líder político e religioso, que não só acolhia como resolvia ele mesmo a questão. - Chamava a pessoa que “em tese” praticou a conduta errada contra a vítima e exercia tanto o papel de julgador, quanto de acusador (representante da pessoa que teve seu interesse violado). Houve a retomada do sistema na Idade Média e na Idade Moderna, principalmente com os textos da Inquisição Católica : - Manual dos Inquisidores (Bernard Gui); Manual dos Inquisidores (Nicolau Eymerich); Instruções (Tomás de Torquemada e Fernando Valdez); Martelo das Feiticeiras (Heinrich Kramer e James Sprenger). Também pelos textos da Monarquia : - Espanha (Las Siete Partidas); França (Code Louis); Alemanha (Constitutio Criminalis e Carolina); Portugal (Ordenações). Linhas Teóricas: Não há uma definição uníssona sobre como configurar o sistema inquisitivo. Há 4 linhas teóricas que buscam definir quando que o sistema processual de determinado país está determinado a lógica do sistema inquisitivo: - Elemento Único: procura definir o sistema inquisitivo a partir de um único elemento: se o juiz pode acusar. - Não importa se, nesse país, o processo é público ou sigiloso, se tem contraditório ou não, mas somente se o juiz é quem acusa ou não. - Problema: não tem nenhum correspondente ao longo da história. Todos os documentos históricos que se tem desse sistema processual previam a possibilidade de ter um acusador diferente do juiz. Logo, desde a criação do sistema inquisitivo e o seu DIREITO PROCESSUAL PENAL I - Prof. Mauro Andrade. desenvolvimento, nunca se afastou a possibilidade de ter um acusador diferente do juiz. - Tipos Ideais (Weber) : busca definidir o sistema processual inquisitivo através de tipos ideais. - Problema: sem correspondência histórica, de modo a não passar de opinião pessoal e sem garantia dos autores. - Teoria da Gestão da Prova: procura definir o sistema inquisitivo como sendo aquele em que o juiz tem a gestão da prova, ou seja, o juiz tem liberdade para complementar a produção probatória, através de perguntas, documentos, chamar testemunhas, perícia, etc., sem necessidade de provocação das partes. - Linha que mais é adotada no processo penal brasileiro. - Entretanto, essa linha teórica foi construída baseada em pedaços da obra de um autor francês Cordero, já falecido, que davam a entender que o juiz deveria permanecer inerte no processo (sem pedir prova de ofício), porque, se o fizesse estaria, sendo parcial. Mas esse autor, na verdade, sempre sustentou o contrário, que este deveria sim produzir prova de ofício se estiver com dúvida ou se necessário. - No STJ, o Min. Rogério Schietti, no HC 367.156-MT), demonstrou o equívoco dessa teoria: “Permito-me, a respeito dessa questão, apenas mencionar, para registro, que o principal referencial teórico, Franco Cordero, invocado pelos que não admitem qualquer tipo de atividade oficiosa do juiz na busca de esclarecimento sobre fato duvidoso surgido no exercício da jurisdição, foi claro, ao contrário do que se costuma ver sustentado em obras nacionais, ao defender tal possibilidade.” - Teoria dos Elementos Fixos : propõe que há elementos fixos e variados que formam o sistema inquisitivo. - Os elementos fixos seriam: - O princípio inquisitivo: desnecessidade de acusador diferente do juiz. - Até pode ter, porém não é necessário. Juiz com perfil acusatório. - Forma como o processo tem início: se daria em razão de 3 modalidades: - Acusação , apresentada por acusador diferente do juiz, que não estava obrigado a aparecer. DIREITO PROCESSUAL PENAL I - Prof. Mauro Andrade. - Nesse caso, processo começava de ofício pelo juiz (2ª modalidade). - notitia criminis , que não é uma acusação, mas é como se fosse um B.O. - Pessoa leva ao conhecimento do juiz a notícia de determinado crime, sendo ela suficiente para abertura do processo. - Decadência do sistema inquisitivo: - Perda de imparcialidade judicial. Levou ao cometimento de erros judiciais graves, principalmente pela busca de culpados que era a sua lógica. - Tortura. - Obs.: não era prática exclusivamente presente nesse sistema processual. Na antiguidade, também se utilizava a tortura no sistema acusatório, ainda que regulamentada. Sistema Acusatório: A lógica desse sistema é que haja uma perfeita separação das funções de quem julga. Logo, quem acusa não julga e quem julga não acusa. Proíbe o juiz de ter perfil acusatório, inclusive em agir de ofício ou em substituição. Teve sua origem na idade Antiga, no Direito Ateniense e no Direito Romano Republicano. Sua decadência se deu na Antiguidade, devido a persecução penal estarnas mãos de particulares, em razão de não haver a figura de acusador público, enquanto profissão paga pelo poder geral/público. Como as pessoas que acusavam não tinham proteção do Poder Pentral, facilmente elas eram revitimizadas. Se quisessem acusar seus ofensores, eram ameaçadas ou agredidas pelos acusados, de modo a serem dissuadidas de oferecerem a acusação. Não havendo acusação pelo particular, não havia punição e os agressores continuavam praticando crimes. A impunidade decorrente da ausência de acusação fez com que a lógica desse sistema entrasse em declínio na idade antiga. Tal sistema processual foi, todavia, retomado recentemente: Alemanha (1974); Portugal (1988); Itália (1989). Linhas teóricas: - Elemento único: o sistema processual acusatório é aquele que possui um acusador diferente do juiz. - Problema: o sistema inquisitivo também previa essa possibilidade, a diferença é que este só não era necessário. Logo, a simples presença de um DIREITO PROCESSUAL PENAL I - Prof. Mauro Andrade. acusador diferente de um juiz não significa que o sistema seja acusatório por si só. - Ressalta-se que essa linha não fala em obrigatoriedade de juiz diferente de acusador. - Tipos ideais: são conceitos genéricos e abstratos que nunca existiram de verdade, não passando de mera opinião pessoal do autor. - Para a configuração de um sistema acusatório a partir dessa linha teórica, bastaria que somente houvessem elementos positivos no sistema processual de determinado país, como, por exemplo, processo sem tortura, juiz plenamente imparcial, somente uma pessoa para acusar, processo penal seria pautado pelo princípio da igualdade (o que não é possível), processo tendo contraditório, enfim, todos os elementos de ordem positiva. - Todavia, na prática, o processo nunca existiu de verdade da forma que definem os autores que procuram dar sua opinião pessoal. - Linha teórica que não precisa de correspondência histórica, o que é um grande problema. - Teoria da gestão da prova: procura definir um sistema acusatório a partir da inércia completa do juiz na fase probatória. Se o juiz não puder perguntar ou complementarde ofício na fase probatória, o sistema será considerado acusatório. - Problema: ela foi criada com base na palavra de um autor que nunca disse isso, mas que disse, inclusive, o contrário. - Considerada, pelo professor, como a teoria menos correta (tanto no sistema acusatório, quanto para definir o sistema inquisitivo). - Teoria dos elementos fixos: procura definir o sistema acusatório a partir da existência de dois elementos fixos: - Princípio acusatório: imprescindibilidade de um acusador diferente do juiz; - Forma como o processo começa: somente com o ajuizamento da ação. Sistema Misto: Decorreu do fracasso do sistema inquisitivo. Panorama Histórico: - Luiz LIX, Code Louis - Ordonnance Criminelle (1670) . - Muito rechaço do código inquisitivo. - Montesquieu - Iluministas . DIREITO PROCESSUAL PENAL I - Prof. Mauro Andrade. - Objetivo de iluminar os governantes da época para que alterassem suas legislações, a fim de terem uma lógica mais adequada às exigências humanitárias de processo penal. - Cartas Persas (1721); O Templo de Gnide (1728); Considerações sobre as Causas da Grandeza dos Romanos e de sua Decadência (1734); O Espírito das Leis (1748). - Para Montesquieu, o sistema mais adequado seria o da acusação popular , deixando de lado o juiz (sistema adotado pelos romanos no período republicano - acusatório). - Propõe retorno à lógica do sistema acusatório antigo. - Rousseau. - Discurso sobre a Origem e os Fundamentos da Desigualdade entre os Homens (1755); Os Devaneios do Caminhante Solitário (1782). - Voltaire. - Cartas Filosóficas (1734); Tratado da Tolerância (1763); Dicionário Filosófico (1764); O Preço da Justiça (1777); Comentários sobre o Espírito das Leis; Comentários sobre o livro Dos Delitos e das Penas; Comentários ao Contrato Social. - Atuou como advogado na defesa de uma pessoa em específico para poder buscar sua absolvição pos mortem , demonstrando o erro judiciário que o sistema inquisitivo cometeu por precisar ter uma pessoa “condenada” para manter sua lógica. - Pensava na destituição do poder inquisitivo. - Beccaria e Jocke . - Também se encontram nesse nicho de autores. - Revolução Francesa (14 de julho de 1789). - Efeitos sobre o direito processual penal: - Queda do sistema inquisitivo. - Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão (26/08/1789): - Art. 7º. Ninguém pode ser acusado, preso ou detido senão nos casos determinados pela lei e de acordo com as formas por esta prescritas. Os que solicitam, expedem, executam ou mandam executar ordens arbitrárias devem ser punidos; mas qualquer cidadão convocado ou detido em virtude da lei deve obedecer imediatamente, caso contrário torna-se culpado de resistência. DIREITO PROCESSUAL PENAL I - Prof. Mauro Andrade. - Art. 8º. A lei deve apenas estabelecer penas estrita e evidentemente necessárias e ninguém pode ser punido senão por força de uma lei estabelecida e promulgada antes do delito e legalmente aplicada. - Art. 9º. Todo acusado é considerado inocente até ser declarado culpado e, se julgar indispensável prendê-lo, todo o rigor desnecessário à guarda de sua pessoa deverá ser severamente reprimido pela lei. - Assembleia Constituinte pós revolucionária: - Legislação processual penal: - Decreto de 16/08/1790; - Decreto de 27/11/1790; - Decreto de 16-29/09/1791. - Resgate do sistema acusatório romano, criando uma lógica de processo penal que tirou a acusação das mãos do MP, criou o acusador popular e com publicidade, além de criar os julgamentos populares (juízes eleitos). - Juízes seriam eleitos para um mandato de seis anos, sendo permitida a reeleição. - O agente do Ministério Público passava a ser chamado de comissário do rei, e sua função era basicamente atuar como custos legis em âmbito processual penal. - Essa lógica do processo acusatório pós revolucionário, porém, também não deu certo . - Repetiu o mesmo erro do sistema acusatório do poder romano. - Acusador sem proteção estatal - quem era acusado iriam até esse acusador ameaçá-lo ou agredi-lo. - Desistência do processo ou da intenção de acusar. Muitas acusações não eram, então, ajuizadas, não tendo, por conseguinte, condenação. Sem a condenação, os crimes continuavam ocorrendo, comprometendo a segurança pública da época. - Impasse: sistema inquisitivo era ruim, mas o acusatório não deu certo. E agora? - Napoleão Bonaparte - Code d’Instruccion Criminelle . - Decreto de 17/11/1808. Promulgado em 27/11/1808. Entrou em vigor em 01/01/1811. DIREITO PROCESSUAL PENAL I - Prof. Mauro Andrade. - Juntou elementos do processo penal inquisitivo que eram considerados positivos, além dos positivos do processo acusatório, surgindo o código supracitado. - Codes De L’Empire Français. - Impacto sobre o Direito Europeu e Latino-Americano: - Derrubada do sistema inquisitivo. - Espanha, Bélgica, Holanda e Portugal, etc. - Implantação do novo modelo de processo penal criado por Napoleão. - Estrutura processual conhecida como Sistema Misto. - Principais Características: - O processo era divido em duas partes: - Fase de investigação: processo verbal. - Era a fase considerada ‘processo’, não sendo considerada como fase administrativa, como é no Brasil atualmente. - Fase de julgamento: a fase probatória e decisória (ou seja, de instrução) era englobada no processo. - Legitimidade exclusiva do Ministério Público nos crimes de interesse público. - Substituição do princípio inquisitivo pelo princípio acusatório. - Titularidade da acusação pública para o Ministério Público. - Abandono da prova legal. - Sistema em que dá pontuações/valores para certas provas, ou seja, algumas provas valem mais do que outras, ou umas valem e outras não. Houve o abandono dessa lógica. - Juiz não precisava ter a formação de sua convicção com base em valorações pré-determinadas de importância de provas. - Abandono da tortura. - Tortura extinta, até por ser considerada o meio de se obter a prova considerada mais valorosa no sistema insiquitivo (confissão). DIREITO PROCESSUAL PENAL I - Prof. Mauro Andrade. - Obs.: a tortura abandonada aqui mencionada era a tortura legal, ou seja, aquela que era regulada/prevista “por lei” . A tortura não era considerada como um ato ilegal, poderia ser imoral, mas não era ilegal. - Hoje, além de não ser legal, também é ilegal. - Foi a primeira regulamentação, desde a antiguidade, a eliminar a tortura de sua codificação/sistema. - Multiplicidade de legitimados a investigar: - Art. 8. La police judiciaire e recherche les crimes, les délits et les contravention, en rassemble les preuve, et en livre les auteurs aux tribunaux chargés de les punir. - Art. 9. La police judiciaire sera exercée sous l’autorié des cours impériales, et suivant les distinctions qui vont être établies, Par les commissaires de police, Par les maires et les ajoints de maire, Par les procureurs impériaux et leurs substituts, Par les juges de paix, Par les officiers de gendarmerie, Par les commissaires géneraux de police, Et par les juges d’instruction. - Primeiro a prever a investigação criminal do Ministério Público. - Os procuradores imperiais