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Curso Vida Nova de Teologia Básica FILOSOFIA JONAS MADUREIRACurso Vida Nova AUTORIZADA de Teologia Básica DIREITO FILOSOFIA JONAS MADUREIRA Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Madureira, Jonas Curso Vida Nova de Teologia Básica : Filosofia / Jonas -- Paulo : Vida Nova, 2008. Bibliografia. ISBN 978-85-275-0384-6 1. Filosofia- Estudo e ensino 2. Filosofia- Introduções 3. Filosofia e 4. Teologia I. Título. 07-8989 CDD-107 Índices para catálogo sistemático: VIDA NOVA 1. Filosofia: Estudo e ensino 107gráfico) e com todos os direitos ES VIDA NOVA, SP, 04810-020 or necânicos, eletrônicos, Conteúdo m em banco de indicação de fonte. Apresentação 7 Introdução 11 1. Para começar: o que é filosofia? 13 2. As origens da filosofia e a busca pela verdade 29 3. A passagem da filosofia cosmológica à filosofia antropológica 43 4. realismo das "ideias" e o realismo das "imagens" 63 5. encontro da filosofia grega com a teologia cristã 81 6. Da constituição do sujeito cognoscente à fabricação da realidade 107 Conclusão 137 Enriqueça sua biblioteca 139Apresentação Curso Vida Nova de Teologia Básica odos os cristãos precisam de teologia T Durante muito tempo a teologia esteve confinada nos círculos micos Sua linguagem técnica e seu rigor científico impediam que o público leigo, não-especializado, saboreasse a boa erudição bíblica. A parte que lhe cabia era ouvir longos sermões, que nem sempre atingiam o coração dos ouvintes, muito menos sua mente. A distinção entre clérigos e leigos, sem dúvida, contribuiu para o surgimento desse abismo entre a teologia e os não-iniciados no saber teoló- gico. O estudo sobre Deus e sua relação com seu povo foi se tornando cada vez mais propriedade de uma elite intelectual. As Escrituras, no entanto, apontam outro caminho. povo de Deus, e não apenas uma parcela desse povo (os mestres), é chamado de "sacerdócio real". Esse povo deve anunciar "as grandezas daquele que [o] chamou das trevas para sua maravilhosa luz" (1Pe 2.9). Todos estão obrigados a cumprir a Grande Comissão: fazer discípulos para o Mestre, ensinando-os a obede- cer todas as coisas que ele ordenou (Mt 28.19-20). Todos devem renovar a mente, para experimentar a "boa, agradável e perfeita vontade de Deus" (Rm 12.2). Todos devem estar preparados para "responder a todo aquele que [...] pedir a razão da esperança" que há neles (1Pe 3.15). Todos são instados a crescer não apenas na "graça", mas também "no conhecimento de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo" (2Pe 3.18). A retomada do ensino bíblico do sacerdócio de todos os crentes, no entanto, não significa que Deus não tenha capacitado especialmente alguns para exercer determinados dons na igreja. apóstolo Paulo afirma queFILOSOFIA 8 APRESENTAÇÃO Deus "designou uns como apóstolos, outros como profetas, e outros como A importância e as vantagens do Curso evangelistas, e ainda outros como pastores e mestres" (Ef 4.11). Esses espe- Vida Nova de Teologia Básica cialmente capacitados, porém, não deviam guardar para si o depósito do Edições Vida Nova reconhece o valor e a força da comunidade leiga conteúdo da fé. Eles tinham uma missão a cumprir: de nossas igrejas. Nossa missão é levar conhecimento e preparo teológico a todo o povo de Deus. Pensando nessa parcela significativa de cristãos e com o aperfeiçoamento dos santos para a obra do ministério e para a edificação do pleno conhecimento da necessidade do saber teológico para todos, temos o corpo de Cristo; até que todos cheguemos à unidade da fé e do pleno prazer de apresentar o Curso Vida Nova de Teologia Básica. Trata-se de do Filho de Deus, ao estado de homem feito, à medida da estatura da plenitude um curso básico de teologia para leigos. Isso quer dizer que esse curso está de Cristo; para que não sejamos mais como crianças, inconstantes, levados ao redor por todo vento de doutrina, pela mentira dos homens, pela sua astúcia na desprovido do jargão teológico tradicional e de tecnicismos dessa área. É invenção do erro; pelo contrário; seguindo a verdade em amor, cresçamos em um curso perfeito para leitores que desejam conhecer um pouco de teologia tudo naquele que é a cabeça, Cristo. numa linguagem informal, instrumental e não acadêmica. Nele o corpo inteiro, bem ajustado e ligado pelo auxílio de todas as juntas, material é altamente didático e informativo. É de fácil assimila- segundo a correta atuação de cada parte, efetua o seu crescimento para edificação ção. Os autores também se valem de perguntas para debate, que funcionam de si mesmo em amor como questões de recapitulação, a fim de fixar na mente do leitor os pontos principais apresentados ao longo de cada lição. Como se diz em homilética: Essas passagens bíblicas mostram claramente que a teologia deve estar a "A repetição é a mãe da retenção". Quanto mais recapitulamos, mais fixa- serviço de todo o povo de Deus. Mais ainda: que todo o povo de Deus deve se mos o que aprendemos. Além disso, há uma bibliografia ao mesmo tempo beneficiar de todos os campos do labor teológico. Vejamos alguns exemplos: concisa e precisa, conduzindo o leitor a obras que poderão auxiliá-lo em seu crescimento espiritual. 1. Anunciar as grandezas de Deus (1Pe 2.9) requer preparo no falar. A Todos os cristãos desejosos de crescer no "conhecimento de nosso parte da teologia que cuida da boa transmissão oral da Palavra de Deus Senhor e Salvador Jesus Cristo" se beneficiarão desse curso. Crentes bem é a homilética, cujos princípios não se aplicam somente à preparação preparados e conhecedores da Palavra de Deus farão das escolas dominicais, de sermão, mas à comunicação da Palavra de Deus como um todo. dos centros de treinamento de líderes e de outros ministérios voltados para 2. Não basta fazer discípulos, é preciso ensiná-los (Mt 28.19-20). Isso o aperfeiçoamento do corpo de Cristo um espaço agradável de estudo e requer conhecimento das coisas de Deus (e esta é uma definição básica reflexão das Escrituras. de teologia = estudo sobre Deus). 3. O currículo básico do curso inclui os seguintes assuntos: Estar preparado para "responder a todo aquele que [...] pedir a razão da esperança" que há em nós (1Pe 3.15) requer conhecimento bíblico 1. Introdução à Bíblia e o exercício da "apologética" (um discurso de defesa da fé cristã bem embasado nas Escrituras). 2. Panorama do Antigo Testamento 3. Panorama do Novo Testamento 4. Quando Pedro disse que os cristãos devem crescer "no conhecimento 4. Panorama da história da igreja de [...] Jesus Cristo" (2Pe 3.18), éle estava, segundo o contexto, 5. Homilética alertando-os a não se deixar levar pelos que "deturpam" as Escrituras (2Pe 3.14-17). Pedro também reconheceu que há passagens de difícil 6. Apologética cristã 7. Teologia sistemática interpretação (v. 16). A hermenêutica é a parte da teologia que se en- 8. Educação cristã carrega de avaliar o sentido preciso de uma passagem lidando 9. Filosofia com as "coisas difíceis". Bem preparados, não seremos "levados [...] 10. Aconselhamento por todo vento de doutrina, pela mentira dos homens, pela sua astú- 11. Louvor e adoração cia na invenção do erro" Ef 4.14). 12. Ética cristã É evidente, portanto, que todos nós, povo de Deus, precisamos de 13. Hermenêutica teologia. Todos nós precisamos aprimorar diariamente nosso conhecimento das Escrituras. Devemos ser realmente estudiosos da Palavra de E o labor teológico nos conduz a esses fins. (FILOSOFIA 10 Filosofia Neste nono volume da série, vamos estudar mais um tema de impor- tância vital para a teologia: a filosofia. A proposta deste volume é conduzir o leitor por uma jornada através da busca pela verdade. Como se deu essa busca ao longo da história do pensamento? Por que isso é importante para a fé Assim, este volume pretende fornecer respostas às seguintes perguntas: Introdução O que é filosofia? Quais são as origens da filosofia e da busca pela verdade? Como se deu a passagem da filosofia cosmológica para a filosofia antropológica? Quais são as visões de Platão e Aristóteles acerca da verdade? Como se deu o encontro da filosofia grega com a teologia ste é um livro de "introdução à filosofia" dedicado aos estudantes do Como as perspectivas de Descartes, Kant e Nietzsche influencia- Curso Vida Nova de Teologia Básica. Trata-se, portanto, de um livro ram o homem moderno? oferecido àqueles que estudam teologia. Ora, qualquer estudante de teologia, que conhece um pouquinho de história do pensamento cristão, sabe Escrito em uma linguagem simples e clara, este livro procura abordar que precisa estudar filosofia se deseja aprimorar sua reflexão teológica. Foi o tema proposto de forma menos árida e mais acessível. Esse é justamente observando essa necessidade que este livro surgiu. Por isso, a linguagem, um dos diferenciais desta obra: colocar a filosofia na linguagem do os exemplos e os assuntos foram cuidadosamente orientados para atender Outra característica importante: ao final de cada capítulo, com exceção aos anseios desse grupo seleto de estudantes. do primeiro, o leitor encontrará contrapontos teológicos, ou seja, aplicações livro está dividido em seis capítulos. No capítulo 1, trataremos de dos fundamentos filosóficos estudados à teologia. Portanto, diferente de questões introdutórias: "O que é filosofia?", "Qual é a sua tarefa?", "Qual o outras obras que se dedicam ao estudo da filosofia, os contrapontos teológi- ponto de partida da investigação filosófica?" etc. Além disso, apresentare- mos ao leitor o tema filosófico que será abordado nos demais capítulos. Dos cos tornam o estudo deste tema altamente relevante e pertinente para o contexto da igreja. diversos temas que poderíamos ter escolhido para introduzir o pensamento filosófico, escolhemos aquele que julgamos ser fundamental não apenas Aproveite o Curso Vida Nova de Teologia Básica. Este volume, Fi- losofia, mostra o valor de conhecermos a história do pensamento filosófico para quem estuda filosofia, mas também para aquele que se dedica aos estudos teológicos. Estamos falando da busca filosófica pelo conhecimento para servir a Cristo, entendendo e defendendo a razão da nossa esperança. da verdade. Nossa tarefa primordial será conduzir o leitor a uma reflexão "Antes, reverenciai a Cristo como Senhor no coração. Estai sempre prepara- sobre o desenvolvimento do problema filosófico da verdade. Esse é o nosso dos para responder a todo o que vos pedir a razão da esperança que há em tema central. Mas não é do nosso interesse apresentar uma pesquisa exaus- vós" (1Pe 3.15). tiva sobre o desenvolvimento histórico da busca filosófica pela verdade. Nosso objetivo é bem mais modesto. Sob o pretexto de analisar o tema da verdade, Os Editores queremos apenas apresentar o universo intelectual da filosofia. Janeiro de 2008 No capítulo 2, veremos em que consiste a busca pela verdade que gerou a atividade filosófica desde a constituição da filosofia na Grécia antiga. A filosofia nasceu de uma necessidade de explicar a razão de ser das coisas. Os primeiros filósofos, não aceitando mais o mito como a única possibilidade de explicação da realidade, desenvolveram explicações sus- tentadas na observação dos fenômenos da natureza. Com base na observa- ção empírica, eles apresentaram as primeiras explicações científicas doFILOSOFIA gimento do mundo, e todas elas sem recorrer ao mito. Os dois persona- is marcantes desse cenário são os poetas da Grécia antiga, como Homero e os primeiros filósofos, como Tales de Mileto. No capítulo 3, estudaremos uma mudança de temática no filosófico da Grécia antiga. Trata-se da passagem da filosofia mológica dos pré-socráticos à filosofia antropológica de Sócrates. Nossa enção, ao refletir sobre essa passagem, é mostrar que, em vez de se preo- exclusivamente com os fenômenos da natureza, os filósofos gregos saram a dedicar-se também ao estudo das questões humanas, dando cio a uma nova fase da busca filosófica pela verdade. As figuras marcantes se período são: Heráclito, os sofistas e Sócrates. Para começar: No capítulo 4, abordaremos duas filosofias que se tornaram os dois erenciais filosóficos mais importantes da história da formação do pensa- 0 que é filosofia? into ocidental: as filosofias de Platão e Aristóteles. Ambos fundaram olas filosóficas que atravessaram São filosofias que influencia- uma legião de teólogos cristãos. No capítulo 5, veremos que a filosofia grega sofreu várias modifica- Entretanto, nenhuma delas foi tão significativa para a formação do ocidental como foi a modificação resultante do encontro entre sofia grega e teologia Os dois grandes modelos de pensamento da da filosofia grega, o platonismo e o aristotelismo, foram pelos teólogos Agostinho e Tomás de Aquino. Embora palavra filosofia tem origem grega. É composta pelos termos philo am mais teólogos que filósofos, Agostinho e usufruíram do (de = "amor fraterno", "amizade entre os iguais") e sophia tonismo e do aristotelismo para explicar a realidade de Deus e do mundo ("sabedoria", da qual deriva = "sábio"). Juntos formam a que vivemos. Sob a ótica da revelação cristã, ambos reconsideraram, palavra que significa "amor pela sabedoria". Daí, diz-se que o a busca pela verdade. Em Agostinho e Tomás, filosofia e filósofo é "o amigo da sabedoria" ou "o que ama a sabedoria". logia encontram-se. Conhecer a verdade tornou-se o mesmo que conhe- Tradicionalmente, atribui-se ao filósofo grego Pitágoras de Samos a Deus. Por isso, nesse capítulo, abordaremos o problema filosófico da (c. 600 a.C.) a concepção das palavras filosofia e filósofo. Dizem que Pitágoras dade à luz da busca pelo conhecimento de Deus. não pretendia se passar por um (sábio), uma vez que ninguém pode- Por último, no capítulo 6, analisaremos três fatores que foram muitíssi- ria sê-lo a não ser Deus. Por isso, preferia ser chamado apenas de importantes para determinar os rumos filosóficos da Modernidade: a filo- ou seja, aquele que pratica a Entretanto, a palavra "filosofia", ia do sujeito cognoscente, elaborada por Rene Descartes; a noção iluminista com o passar do tempo, adquiriu outras conotações. Uma delas é a de que o sujeito autônomo, de Immanuel Kant; e a ideia de "fabricação da realidade", referido termo não designa apenas o "amor pela sabedoria", mas o próprio a partir da crítica de Friedrich Nietzsche ao pensamento iluminista. saber. Agora, que saber é esse? No final de cada capítulo, exceto no primeiro, encontram-se algumas Há pelo menos dois tipos de saber: (a) um que se limita a descrever lexões que oferecem ao leitor alguns contrapontos teológicos relacionados como as coisas são e (b) outro que compreende e explica o porqué das coisas emática abordada. Espero que este livro possa ajudar aqueles que estu- serem como Por exemplo, todos sabem que o fogo aquece e queima, e, m teologia a aprimorar uma vez mais sua reflexão teológica. Quem sabe, para saber isso, bastam a sensação e a constatação empírica, mas poucos final da leitura deste livro, não seja possível dar uma resposta sincera sabem por que o fogo aquece e queima. Ora, quem sabe apenas que o fogo uela famosa pergunta de Tertuliano: "Que tem a ver Atenas com Jerusa- aquece e queima tem apenas um saber descritivo. Em contrapartida, quem n? Ou a Academia com a Igreja?". sabe o ou a razão pela qual o fogo aquece e queima possui o conhe- cimento verdadeiro.FILOSOFIA PARA COMECAR: QUE É FILOSOFIA? 14 15 A filosofia não é um saber meramente descritivo, pois se propõe a Não se teria de fazer filosofia se o mundo em que somos destinados pensar, conhecer e explicar a razão de ser das coisas em vez de simplesmente a viver e a agir fosse transparente para as nossas sensações, se ele se compor- descrevê-las. É verdade que há outras formas de saber, bem como outras tasse sempre da mesma maneira e se todos os objetos que o compõem con- conotações que o termo "filosofia" possui. Mas a despeito da ambivalência sentissem em permanecer o que parecem, sem jamais causar espanto. É por do termo e da multiplicidade de formas de saber, optamos por essa conotação isso que Platão (427-347 diz que ponto de partida da filosofia é o mais específica da filosofia, justamente para facilitar a compreensão daque- respanto (thaumázein). Em suas palavras: "É do espanto que o filósofo mais les que começam a estudá-la. sofre, pois não há outro início para a Há algo importante nessa Como já dissemos, há, além da filosofia, outras formas de saber e de afirmação que não podemos perder de vista: thaumázein é um pathos, isto é, explicar a realidade. A matemática, a física, a biologia, a história, a sociolo- um padecer que não pode ser expresso por palavras. Isso se deve ao fato de gia, a psicologia, a teologia são exemplos de diferentes formas de explicação que o espanto é vivenciado em uma esfera de contemplação, terminante- da realidade. Por exemplo, no caso da teologia, o que ela visa a explicar é a mente misteriosa e que emudece o filósofo. Platão exemplifica esse estado realidade de Deus, da experiência religiosa etc. E baseado nesses saberes de mudez todas as vezes que relata os frequentes momentos em que Sócrates que o pensar teológico exerce sua função explicativa da realidade. Mas e a (470-399 a.C.), como que arrebatado por um caía de súbito numa filosofia? Qual é sua tarefa? De que forma ela explica a realidade? Qual é imobilidade total, ficava por um tempo parado, calado, apenas olhando seu ponto de partida? fixamente, sem ver ou ouvir nada. É assim que se começa a filosofar. Porém, é importante saber desde já que o espanto ainda não é filosofia, apenas pode e que isso não significa que a vivência do espanto princi- PONTO DE PARTIDA DA FILOSOFIA: o ESPANTO pia a filosofia, como, por exemplo, o ligar o carro principia o dirigir o carro. Para entrar no território da filosofia, é indispensável que o princi- Ora, o espanto é um pathos que permanece inextinguível no coração do filósofo. Portanto, não se trata de uma historinha em que num belo dia os piante tenha uma disposição de ânimo capaz de fazê-lo perceber, no mundo seres humanos se espantaram, e impelidos pelo espanto, começaram a filoso- em que vive, problemas últimos, enigmas insondáveis; que faça admirar e far, e ao filosofarem, a vivência do espanto tornou-se desnecessária. Muito refletir sobre os mistérios do universo que o cerca; que o coloque diante de todas as coisas com um sentimento de estupefação, assombro, admiração, pelo contrário. O espanto é a condição necessária que perpassa toda a ativi- dade filosófica e que permanece sempre viva em seu interior. curiosidade insaciável, como uma criancinha inquieta, que não entende nada Do que foi dito até aqui, podemos concluir pelo menos quatro coi- e não cessa de perguntar. Esse é o ponto de partida da filosofia. O poeta e sas: (a) que a filosofia começa com a vivência do espanto; (b) que essa romancista alemão W. Goethe (1749-1832) descreveu essa disposição de vivência inicial da filosofia é um padecer; (c) que espanto não desaparece ânimo da seguinte maneira: com o filosofar; e (d) que ele - espanto não pode ser expresso, isto é, Quando, à beira da cascata, ocultas sob os arbustos, descubro rente ao chão mil transformado em palavras. Sendo assim, o que o filósofo expressa em seu diferentes espécies de plantinhas; quando sinto mais perto do meu coração o discurso? Certamente, não é a vivência do espanto, mas variações infinitas formigar de um universo escondido embaixo das ervinhas, e são os insetos, de questões e problemas de ordem última, oriundos dessa vivência. Ou seja, moscardos de formas inumeráveis cuja variedade desafia o observador, e sinto a o espanto resulta inevitavelmente em perguntas como "O que é o ser?", presença do Todo-Poderoso que nos criou à sua imagem, o sopro do Todo-Amante "O que é o homem?", "O que é o mundo?", "Qual o significado da vida?", que nos sustenta e faz flutuar num mundo de ternas delícias (...); então, meu "O que é a morte?". Incita, portanto, o questionamento. Todavia, as ques- amigo, é quando o meu olhar amortece, e o mundo em redor, e o céu infinito tões que partem dessa vivência são peculiarmente filosóficas e têm em adormecem inteiramente na minha alma como a imagem da bem-amada; muitas comum o fato de que não podem ser respondidas cientificamente, isto é, as vezes, então, um desejo ardente me arrebata e digo a mim mesmo: "Oh! Se tu questões de ordem última não podem ser resolvidas como se fossem, por pudesses exprimir tudo isso! Se tu pudesses exalar, sequer, e fixar no papel tudo exemplo, um problema matemático. Assim, a característica essencial da quanto palpita dentro de ti com tanto calor e plenitude, de modo que essa obra se tornasse o espelho de tua alma, como tua alma é o espelho de experiência do espanto é o não saber que impele o filósofo a fazer pergun- tas últimas. No que diz respeito às respostas a tais perguntas, o filósofo 1 Fausto/Werther, p. 289. 2 Teeteto, p. 55 (155d).FILOSOFIA PARA o QUE É FILOSOFIA? 16 17 emudece, cala-se. Simplesmente porque ele não as tem. Sua palavra expressa "Alguns filósofos epicureus e estóicos começaram a discutir com ele. Alguns apenas problemas últimos, questões cruciais e "irrespondíveis". Talvez toda perguntavam: 'O que está tentando dizer esse tagarela?". Nesse caso, em a tarefa do filósofo reduza-se a pensar, conhecer e explicar devidamente Atenas, Paulo responde de maneira contextualizada, demonstrando conheci- esses problemas. mento e capacidade de lidar com a cultura especulativa dos antigos A partir disso, é possível notar a importância da filosofia para quem estuda teologia e, principalmente, para aqueles que praticam a fé cristã. A teologia deve ser vista como uma tarefa - teórica e prática a Todo o ser humano que faz perguntas últimas, "irrespondíveis", percebe-se serviço da igreja de Cristo, ou seja, da comunidade dos santos, que é o vivo como um ser questionador. Se algum dia perdêssemos essa peculiaridade, instrumento de proclamação da Palavra de Deus. Portanto, a teologia deve perderíamos também a capacidade de fazer perguntas respondíveis. Não cumprir, dentre outras missões, uma missão apologética, isto é, deve teste- seríamos mais um ser que faz perguntas, e isso significaria a extinção não só munhar as respostas da mensagem cristã às questões de ordem última, fei- da filosofia, mas também de todas as ciências. Portanto, a filosofia é resul- tas pela filosofia. Para isso, o estudante de teologia precisa se desvencilhar tado de uma experiência humana do não saber, e que, em última instância, de uma visão preconceituosa da atividade filosófica, tornando-se apto para nos possibilita fazer perguntas últimas, referentes ao significado da vida. ouvir os problemas que ela suscita. Só assim cumpriremos nossa vocação: Somente o estudante de teologia ou o praticante da fé cristã que percebe responder a razão da esperança que há em nós (cf. 1Pe 3.15). essa peculiaridade da natureza filosófica do ser humano é capaz de identi- ficar qual é a sua real tarefa diante do desafio da filosofia. Ora, o teólogo faz uso de material revelado, portanto, detém uma fonte material capaz de ENSINAR A FILOSOFAR OU A PENSAR oferecer soluções às perguntas últimas da filosofia. No entanto, para tornar FILOSOFICAMENTE relevante sua resposta, ele precisa antes vivenciar o espanto, ouvir as ques- tões feitas pelos filósofos, entender o problema. É um mérito do filósofo Immanuel Kant (1724-1804) a ênfase na Certamente, há muitas divergências entre filosofia e teologia, mas a distinção entre "ensinar filosofia ou conteúdos filosóficos" e "ensinar a filo- sofar ou a pensar filosoficamente". O primeiro diz respeito aos temas e convergência que nos interessa aqui é aquela que se estabelece na peculiari- dade da filosofia de fazer a pergunta mais importante, a pergunta pelo problemas pertinentes à filosofia; o segundo refere-se a uma atitude com significado ou sentido da vida, e na tarefa da teologia em tornar-se apta relação ao estudo dos conteúdos filosóficos. Concentremo-nos, por ora, no para ouvir as indagações filosóficas e dar a elas respostas no poder da men- filosofar ou no pensar filosoficamente. sagem revelada. Como se pode notar, o filosofar é uma atitude em face dos conteú- Mas quem nunca ouviu dizer que a filosofia cega a mente e o cora- dos filosóficos. Consequentemente, a pergunta de imediato se faz é a ção dos homens, que ela enfraquece a espiritualidade e piedade cristãs? seguinte: "Como se filosofa?". Há os que acreditam que é possível filosofar Alguns até mesmo utilizam base bíblica para condenar o estudo da filoso- a partir do nada. Desse ponto de vista, somente aqueles que "descobrem" fia: "Tenham cuidado para que ninguém os escravize a filosofias vãs e enga- algo notável são os que merecem o legítimo título de filósofo, e é em face nosas, que se fundamentam nas tradições humanas e nos princípios disso que a história da filosofia os reconhece. Portanto, uma filosofia dita elementares deste mundo, e não em Cristo" 2.8, NVI). Em um opús- "original" seria a produção filosófica de alguns poucos iluminados. Nossa culo de filosofia prática para cristãos, Luiz Sayão afirma algo com que opinião é justamente o contrário. Filosofar é um ato que não implica, neces- estamos de comum acordo: sariamente, a produção de um pensamento "original", mas é, efetivamente, um tipo de atividade comum àqueles que exercem o pensamento A palavra filosofia aparece no Novo Testamento, em Cl 2.8. Essa é a única sejam eles reconhecidos pela história da filosofia ou não. Isso não significa ocorrência da palavra filosofia em toda a Bíblia, e evidentemente o contexto é que tal atividade seja meramente decorrente da natureza filosófica do ser negativo. É necessário compreender que Paulo estava atacando a heresia humano, simplesmente por ser ele o feitor das perguntas últimas. gnóstica na cidade de Colossos e usa o termo filosofia para se referir a um tipo Referimo-nos, agora, a uma caracterização mais exigente do estudo filo- de filosofia, contrária a fé cristã e, portanto, herética. Isso não significa que ele sófico, pois se trata de uma atividade do pensamento que pressupõe uma esteja se referindo à filosofia no sentido geral do termo. De fato, Paulo não se refere à filosofia propriamente dita em nenhuma parte do Novo Testamento. Seu único contato registrado com filósofos gregos aparece em Atos 17.18: 3 Cabeças feitas: filosofia prática para cristãos, p. 7.FILOSOFIA PARA QUE É FILOSOFIA? 18 19 reflexão sistemática e metódica, que visa esclarecer e compreender um pro- o malabarismo estetizante ou simplesmente oco: tudo isto não é filosofia. blema que se pretende explicar. Onde há verdadeira filosofia o conteúdo está presente e, com ele, a necessi- Para muitos, parece que tal estudo não passaria de um esforço inte- dade de sua clarificação. lectual inútil, sem nenhuma finalidade prática. Além do mais, a própria filosofia é normalmente vista como um lugar onde impera o capricho, podendo cada um dizer o que quer e bem entende. Essa crítica comum à os PRINCIPAIS CONTEÚDOS FILOSÓFICOS: os TEMAS filosofia é compreensível, principalmente se considerarmos quão indis- E AS DISCIPLINAS DA FILOSOFIA ciplinada é a reflexão que pode se ocultar atrás de alguns livros e artigos publicados sobre a rubrica "filosofia" ou quão arbitrários são os interesses Busco aplicar neste livro duas lições que aprendi com Mario Porta. que constituem a real motivação para algumas alegações ditas "filosófi- A primeira, que já vimos, é a de que a filosofia constitui-se na compreensão cas". Por essas e outras, a filosofia é acusada de ser muito confusa, e, no dos problemas filosóficos. Isso significa que a filosofia é uma atividade que fim das contas, de falar meramente do que já sabemos, mas com palavras visa ao entendimento das coisas e não ao seu oposto: a confusão e a vagueza. que desconhecemos. A segunda lição é a de que o desenvolvimento histórico da filosofia pode Essa má impressão da filosofia pode ser resolvida se entendermos a ser visto a partir da evolução dos próprios problemas filosóficos. Vejamos, a atividade filosófica como um esforço de clareza e de compreensão. Ora, seguir, como ocorreu tal evolução. fazer filosofia não é ser confuso e muito menos falar difícil. É óbvio que, A filosofia existe desde o século VI a.C. Após uma longa história, como qualquer outra disciplina científica, a filosofia possui termos, expres- dividida em diferentes períodos, surgiram inúmeros temas, disciplinas e sões e jargões que fazem parte do seu próprio vocabulário. De fato, é necessá- campos de investigação filosóficos. Por exemplo, no primeiro período da rio aprender o mas como qualquer outra linguagem, isso demanda história da filosofia, o tema central era a origem do kósmos (mundo). Os tempo, um período de adaptação. O importante é não se desesperar. primeiros filósofos se perguntavam pelo princípio (arkhe) a partir do qual Indubitavelmente, aparecerão termos que o iniciante na filosofia nunca o mundo, e tudo o que nele há, veio a existir. A disciplina fundamental ouviu falar. Não há porque se preocupar. Existem excelentes dicionários de da filosofia neste período era a metafísica. Tal disciplina, também cha- filosofia à nossa disposição e que podem ser bastante úteis nessa fase inicial.1 mada de ontologia, era responsável pela investigação do ser das coisas, ou Agora, nunca devemos esquecer de que todos os que almejam filosofar melhor, dos princípios fundamentos últimos de toda a realidade. Os consequentemente enfrentam essa dificuldade. Esta só pode ser resolvida filósofos que marcaram essa época foram Heráclito (c. 500 a.C.), quando levamos a sério o fato de que a filosofia contém em si um movi- Parmênides 500 a.C.), Platão (427-347 a.C.), Aristóteles (384-322 mento rumo ao esclarecimento. a.C.), Agostinho (354-430), Tomás de Aquino (1224-1274), Duns Mario Porta, em seu livro A filosofia a partir de seus problemas, consi- Scotus (1274-1308), Guilherme de Ockham (c. 1349), entre outros. dera que a característica fundamental de um filósofo é sua habilidade de No período metafísico, que vai desde os primeiros filósofos gregos pensar com clareza, pois aprendeu a refletir de forma disciplinada e precisa. até a última geração dos filósofos medievais, a filosofia era vista como um Em suas palavras: discurso sobre as essências, isto é, sobre as formas suprassensíveis ou não empíricas que fundam a realidade de tudo o que existe. Não somente isso, Uma filosofia vaga ou nebulosa é, simplesmente, filosofia de má qualidade. pois desde sempre a filosofia também se perguntou pelo princípio gerador Um discurso confuso não é profundo, é apenas confuso. Confusão e vagueza das ações ou, mais precisamente, pelo critério de distinção entre o agir bem só podem ser admitidas como primeiro estágio no caminho rumo a uma trans- e o agir mal. Portanto, os primeiros filósofos perguntavam não somente "O parência ainda a ser alcançada. "Profundidade". é transparência. niilismo que é", mas também "O que deve ser", ou seja, além de buscarem os conceitual, o vazio elegante, o impressionismo imagético, o apelo sinestésico, pios do ser, buscavam também pelos princípios norteadores do agir. Ora, a disciplina filosófica responsável por essa busca era a ética. A fundamentação da ética estava em profunda relação de dependência Nicola. Dicionário de Filosofia. São Paulo, Martins Fontes, 2000; AUDI, com a metafísica. Ora, se a metafísica era considerada a ciência do princípio Robert (org.). Dicionário de Filosofia de Cambridge. São Paulo, Paulus, 2006; BLACKBURN, Simon. Dicionário Oxford de Filosofia. Rios de Janeiro, Jorge Zahar Ed., 1997. LALANDE, Vocabulário Técnico e Crítico da Filosofia. São Paulo, Martins Fontes, 1999; MORA, José Ferrater. Dicionário de Filosofia. São Paulo, Martins Fontes, 1998. 5 43-44.FILOSOFIA PARA COMEÇAR: QUE É FILOSOFIA? 20 21 gerador de tudo o que existe, então o critério ético, capaz de distinguir as conhecimento? De que forma conhecemos o mundo? Sob quais pressu- boas ações das más ações, deve ser encontrado no próprio princípio gerador postos - a experiência sensorial ou a razão pura estabelecemos o conhe- de todas as coisas. Por exemplo, no caso de Tomás de Aquino, o princípio cimento? Como definir um conhecimento como verdadeiro? Estas são as gerador de tudo é Deus. Isso significa que é em Deus que devemos encon- principais questões que os filósofos modernos, como Descartes (1596-1650), trar os princípios e critérios éticos de nossas ações. Pascal (1623-1677), Locke (1632-1704), Berkeley (1685-1753), Hume Prosseguindo em nossa tarefa de delinear os conteúdos filosóficos, (1711-1776), Kant (1724-1804) e Hegel (1770-1831), depararam-se em o próximo período que a história da filosofia testemunha é o epistemológico. sua atividade filosófica. Esse termo vem do grego epistéme e significa "conhecimento". Assim, en- Antes de prosseguirmos, convém perguntar se a passagem de um tendemos o período epistemológico como um momento em que os filó- período a outro é resultado de uma mudança arbitrária de interesses ou se sofos, em vez de perguntarem pelo "ser" das coisas, perguntavam pelo existe um princípio interno de evolução dos próprios problemas filosóficos. conhecimento que nós temos das coisas. Nesse período, a metafísica deixa É óbvio que a mudança de foco, nesses períodos, não é fruto de uma subs- de ser a disciplina elementar, dando lugar à epistemologia, ou teoria do tituição fortuita de temas. Do ponto de vista lógico, antes de nos pergun- conhecimento, que se torna a disciplina fundamental. tarmos pelas coisas que existem, devemos perguntar, previamente, pela Se no período metafísico o conceito-chave é o "ser", no epistemológico possibilidade de conhecermos as coisas, pois se perguntamos pelas coisas é o "conhecer". Essa virada caracterizada pela busca de fundamentação filo- mesmas, então pressupomos que podemos conhecê-las. A mudança do sófica do conhecimento surge com o filósofo francês Descartes (1596- paradigma metafísico para o epistemológico é resultado de uma evolução 1650) e culmina com o filósofo alemão Immanuel Kant (1724-1804). A da lógica do pensamento, em que se concluiu que a pergunta epistemológica primeira coisa que Descartes fez foi estabelecer uma distinção rigorosa é mais fundamental que a pergunta metafísica, uma vez que esta pressupõe entre a ordem do conhecimento e a ordem das coisas. Na ordem das coisas, aquela. Antes de apresentarmos o próximo período, precisamos lembrar o primeiro a existir é Deus, mas, na ordem do conhecimento, é o cogito, isto que, no pensamento metafísico, a ética estava fundamentada na ontologia, é, o "eu". Portanto, em sua teoria do conhecimento, Deus já não desempe- isto é, na ciência do ser. Ora, com a mudança para o pensamento episte- nha mais o papel fundamental que ele exercia no período metafísico. Ora, mológico, a ética também alterou o seu fundamento. Ela abriu mão da isso não significa que Deus esteja totalmente fora da epistemologia de Des- busca de um princípio externo ao sujeito (Deus) e passou a buscar, na cartes. A maior prova disso está nas páginas de sua obra Meditações sobre própria razão, o fundamento de seus critérios. filosofia primeira, publicada em 1641. Nessa obra, por exemplo, ele argu- O último período filosófico que consideramos é o da filosofia con- mentou em prol da existência de Deus, uma vez que é pelo fato de Deus temporânea. Tal período está longe de possuir unidade disciplinar. A pro- existir que possuímos a evidência de que nada pode nos enganar quanto aos pósito, Mario Porta, que se dedica ao estudo das principais correntes resultados adquiridos pelos conhecimentos matemáticos. Contudo, se em filosóficas contemporâneas, argumenta que, desde as primeiras décadas do Descartes Deus ainda desempenha alguma importância na fundamentação século XX, a filosofia desenvolveu-se no marco do enfrentamento de pelo do conhecimento, em Kant não podemos mais afirmar o mesmo, pois para menos dois tipos de pensamentos independentes e heterogêneos. Trata-se o filósofo alemão o conhecimento não pode ser legitimamente fundado em das filosofias analítica, representada por Gottlob Frege (1848-1925) e outra instância que seja externa ao sujeito cognoscente (o "eu" que conhe- Ludwig Wittgenstein (1889-1951) e repre- ce). Ou seja, o sujeito é o único fundamento legítimo do conhecimento. sentada por Edmund Husserl (1859-1938), Wilhelm Dilthey (1833- Portanto, para Kant, a segurança quanto à exatidão dos conhecimentos 1911) e Martin Heidegger (1889-1976).6 Entretanto, com o aparecimento matemáticos não está em Deus, mas no próprio sujeito. da "pós-modernidade", ou "modernidade tardia", como muitos preferem É preciso notar que houve uma mudança radical do conteúdo designar, a unidade disciplinar tornou-se mais impensável do que nunca. temático. No período metafísico, o discurso filosófico era sobre essências. Ora, a despeito dessa pluralidade de disciplinas filosóficas, pode-se dizer No epistemológico, a filosofia passa a ser um discurso sobre o que há, pelo menos, uma unidade de tema? Sendo assim, qual seria a uni- Portanto, a pergunta não é mais sobre as coisas que existem, mas sobre o dade temática ou o conceito-chave da filosofia contemporânea? nosso saber a respeito das coisas que existem. Na verdade, a questão epistemológica aparenta ser bem mais modesta do que a questão metafísica. Esta pressupõe o conhecimento, aquela indaga sobre a possibilidade do conhecimento. É possível conhecer o que existe? Quais são os limites do 6 Cf. Mario A. G. Porta. A filosofia a partir de seus problemas, p. 157-181.FILOSOFIA PARA COMEÇAR: QUE É FILOSOFIA? 22 23 Se somos seres dotados de linguagem e uso da linguagem é a con- Enfim, nossa intenção foi apenas apresentar um panorama dos prin- dição necessária para a produção e a transmissão de conhecimentos, parece cipais conteúdos filosóficos. É óbvio que a filosofia, nesses três períodos, óbvio concluir que o conceito-chave da filosofia contemporânea é a "lin- dialoga também com outras temáticas, como a estética ou filosofia da arte guagem". Assim, o período de que falamos pode ser designado pelo adje- (disciplina que tem como conceito-chave o "Belo", isto é, as formas artísti- tivo "linguístico". Nas palavras de Mario este fato é tão óbvio que cas) e a política (disciplina que estuda a natureza das relações de poder e parece incrível que os filósofos pudessem ter ignorado sua importância autoridade, tendo como conceitos-chave a ideia de direito, de lei, de justiça, durante séculos, colocando suas teorias no marco de pressupostos que impli- de dominação, de violência, além das formas dos regimes políticos e suas cam que os sujeitos cognoscentes não Parece, então, que a lingua- fundamentações). Todavia, semelhantemente à ética, essas disciplinas modi- gem é o problema-chave de nosso tempo. Porém, ainda não temos nem ficam seus fundamentos conforme mudam os períodos filosóficos. Nesse sabemos se teremos - uma disciplina-chave, como os períodos metafísico caso, surge em relação ao período linguístico uma questão crucial: se o con- e epistemológico tiveram. ceito-chave da filosofia contemporânea é a linguagem, então qual é o fun- No período linguístico, há várias disciplinas em evidência: damento da ética contemporânea? A mesma indagação pode ser aplicada, salvo as devidas proporções, à política e à estética. 1. A "filosofia analítica", que se fundamenta na análise lógica da nosso enfoque até agora foi simplesmente o de apresentar uma visão linguagem, ou seja, sua análise da linguagem é marcadamente geral dos temas filosóficos principais da história da filosofia. Nosso próximo orientada pela Lógica (conhecimento das formas gerais e regras passo será a delimitação do tema que norteará nossos estudos. gerais do pensamento correto e verdadeiro, independentemente dos objetos pensados). o TEMA FILOSÓFICO QUE DEFINE os RUMOS 2. A "fenomenologia", outra disciplina contemporânea, que analisa DESTE CURSO DE FILOSOFIA a linguagem, mas do ponto de vista das vivências intencionais, isto é, dos atos (representações, juízos, sentimentos) que se diri- Tendo em vista a tarefa filosófica do esclarecimento e a amplitude gem aos objetos conhecidos. dos temas filosóficos, apresentaremos, a partir dos próximos capítulos, uma introdução à filosofia, fundamentada em uma delimitação temática. Não é 3. A "hemenêutica", representada por Hans-Georg Gadamer (1900- possível estudar exaustivamente tudo o que a filosofia produziu até hoje. 2002) e Paul (1913-2005), que surge em diálogo direto Por isso, propomos uma reflexão histórica e filosófica centrada em um tema com a fenomenologia, mas que, também, possui uma análise pes- específico da filosofia, a saber, o "problema da verdade". soal das questões da linguagem, em especial das questões que Uma vez que a filosofia surge da busca dos seres humanos pela ver- envolvem o fenômeno da "compreensão" e "explicação" do dade, torna-se de suma importância principalmente para aqueles que Lebenswelt (mundo da vida). estão dando os primeiros passos na filosofia compreender como os filó- sofos, ao longo da história, lidaram com as questões pertinentes a essa 4. Teorias ditas "pós-modernas", que abordam o tema da linguagem busca. Ora, as teses de um tratado de filosofia são sempre soluções de pro- sob o prisma da "desconstrução do sujeito". Seus principais expoen- blemas com que os filósofos se defrontam. Por isso, só seremos capazes de tes são Michel Foucault (1926-1984), Roland Barthes (1915- decifrar o problema da verdade se antes entendermos quais são as questões 1980), Jacques Derrida (1930-2004). que o envolvem. Querer entender ou explicar as teses referentes ao tema da verdade sem conhecer e compreender a sua problemática é algo como que- Também existem, é claro, outras disciplinas e teorias que não seencai- rer responder sem saber qual é a pergunta. xam no período que denominamos de "linguístico". Por exemplo, as teses A reflexão sobre as questões é o momento essencial não apenas da dos existencialistas, como Jean Paul Sartre (1905-1980) e Karl Jaspers produção filosófica, mas da própria aprendizagem da filosofia. Como não (1883-1969), embora derivadas da fenomenologia, abordam mais as ques- há tal aprendizagem sem reflexão dirigida à compreensão e ao esclareci- tões da existência humana do que as questões propriamente linguísticas. mento das questões, nossa tarefa não poderia ser outra senão a de elucidar as teses de alguns filósofos a partir da noção de compreensão do problema 7 Afilosofia a partir de seus problemas, p. 163. filosófico. O que isso significa? Que o tema da verdade, que nos servirá deFILOSOFIA PARA QUE É FILOSOFIA? 24 25 pretexto para estudar filosofia, será primeiramente problematizado. Isso 4. Explique a distinção feita por Kant entre "ensinar filosofia ou con- quer dizer que antes de considerarmos a tese de cada filósofo, explicaremos teúdos filosóficos" e "ensinar a filosofar ou a pensar filosoficamente". as questões que cada um deles desenvolveu a partir do "problema da ver- dade". Nosso objetivo principal é entender como o filósofo, em seu tempo e contexto intelectual, recebeu tal problema e sob quais questões ele cons- truiu suas teses. Como se trata de uma introdução à filosofia direcionada aos estu- dantes de teologia, durante toda a reflexão abordaremos os possíveis pontos de diálogos entre esses dois tipos de saberes. Nosso convite é para que você, amante da Palavra de Deus, construa sua teologia, sensível às questões filo- 5. Qual é o objetivo central da atividade filosófica? sóficas. Fazer teologia ouvindo tais questões e respondendo-as no poder da mensagem cristã é, de certo modo, ouvir a voz de Deus. Pois como poderí- amos responder àqueles que nos perguntam sobre a razão da esperança que há em nós se não capazes de primeiramente ouvir a voz de Deus? PERGUNTAS DE RECAPITULAÇÃO 6. Qual é a disciplina-chave e o conceito-chave da filosofia no perí- odo "metafísico"? Quais são os filósofos que representam esse 1. Qual é a tarefa da filosofia? De que forma ela compreende e explica pensamento? a realidade? 2. Se a vivência do "espanto" (thaumázein) é um padecer, que não pode ser expresso em palavras, então o que o filósofo expressa em seu discurso? 7. Qual é a disciplina-chave e o conceito-chave da filosofia no perío- do "epistemológico"? Quais são os filósofos que representam esse pensamento? 3. Como a vivência do "espanto" pode auxiliar o teólogo a compreender a razão de ser da filosofia? ( (FILOSOFIA PARA o QUE É FILOSOFIA? 26 27 8. Quais são as disciplinas e o conceito-chave filosóficos do período "linguístico"? Quais são os filósofos contemporâneos que represen- ANOTAÇÕES tam as disciplinas filosóficas contemporâneas? 9. Por que o teólogo que ouve as questões filosóficas e as responde no poder da mensagem está, de certo modo, ouvindo a voz de Deus? 10. No próximo capítulo, abordaremos o "problema da verdade". Antes, porém, escreva com suas palavras o que você entende por "verdade".FILOSOFIA 28 ANOTAÇÕES As origens da filosofia e a busca pela verdade objetivo deste capítulo é mostrar que a busca pela verdade permeia a atividade filosófica desde a constituição da filosofia na Grécia antiga. Veremos que a filosofia nasceu de uma necessidade de ex- plicar a razão de ser das coisas. Os primeiros filósofos, não aceitando mais o mito como a única possibilidade de explicação da realidade, desenvolveram suas explicações sustentadas na observação dos fenômenos da natureza. Com base na observação empírica, eles deram as primeiras explicações científicas do surgimento do mundo, e todas elas sem recorrer ao mito. Essa passagem da explicação mitológica à explicação científica é o que nos interessa neste capítulo. Os dois personagens marcantes desse cenário são os poetas da Grécia antiga, como Homero e e os primeiros filósofos, como Tales de Mileto. A PREEMINÊNCIA DO DIÁLOGO NA VIDA COMUNITÁRIA DA PÓLIS O desejo de conhecer a verdade existe muito antes de a civilização ocidental desenvolver suas teorias modernas do conhecimento. Desde a suaFILOSOFIA AS ORIGENS DA FILOSOFIA E A BUSCA PELA VERDADE 30 31 aurora, a filosofia foi marcada pela presença inegável do desejo pela ver- o DISCURSO MÍTICO-RELIGIOSO DOS POETAS GREGOS Pode-se dizer que a própria filosofia surgiu desse sentimento. Para compreendermos devidamente o fato de que a origem da filo- O discurso do poeta é o discurso de um indivíduo investido de sofia está no desejo de conhecer a verdade é necessário considerar a trans- autoridade divina. Tal autoridade é incontestável; afinal, as revelações eram formação do contexto de vida espiritual ou intelectual dos gregos, ocorrida dadas pelos deuses. Em Teogonia ou A origem dos deuses, um dos entre os séculos VII e VI a.C. acontecimento decisivo para essa transfor- mais antigos poetas, cujas obras chegaram a nós, nos dá um exemplo con- mação foi o aparecimento da creto dessa noção mítica da palavra como manifestação da verdade. Em A pólis, a cidade grega, era o centro principal da estrutura comunitá- suas palavras: ria e política da Grécia antiga. No período primitivo da cultura helênica, todos os ramos de atividade espiritual ou intelectual brotavam diretamente Um dia, as Musas ensinaram a belo canto, da raiz unitária da vida em comunidade. Essas atividades apresentam-se quando ele pastoreava as ovelhas como rios e riachos que correm para um único mar, a vida comunitária. no sopé do divino monte Hélicon. Portanto, todas as atividades espirituais ou intelectuais dos gregos eram Esta palavra primeiro disseram-me as Deusas, realizadas na esfera da comunidade e tinham, como objetivo primordial, a Musas virgens de Zeus porta-égide: busca de um denominador comum diante das diferentes opiniões. Tal bus- "Pastores agrestes, vis infâmias e ventres só, ca realizava-se por meio da utilização preeminente da isto é, do sabemos dizer muitas mentiras semelhantes aos fatos diálogo, sobre todos os outros instrumentos políticos de ação e sabemos, se queremos, dar a ouvir revelações Os gregos fizeram do diálogo, ou da dialética, o instrumento prin- cipal de realização da vida política. Em grego, dia- quer dizer "dois", e é o vocábulo grego correspondente à palavra "verdade" na logo ou -lética, que derivam de lógos, significam "palavra". Diálogo, ou língua portuguesa. No entanto, nessa passagem de a palavra alethéia não foi traduzida por "verdade", mas por "revelações". O motivo é dialética é, portanto, a dupla palavra, isto é, o discurso significativo entre, pelo menos, dois indivíduos. Na vida comunitária da pólis, a palavra tinha muito simples: a alethéia de não é o que comumente entende- o poder de principiar e manter o diálogo entre os interlocutores, que, ao mos por "verdade". Segundo a narrativa do poeta, as Musas, deusas consi- deradas filhas de Zeus e de Mnemosyne (Memoria), manifestavam-se ao possuírem opiniões opostas sobre alguma coisa, deveriam discutir ou argu- mentar até que se pudesse determinar qual dos contrários era verdadeiro poeta ostentando o privilégio de "dar a ouvir revelações", ou seja, de dizer a "verdade" ocultada pelas "mentiras semelhantes aos fatos". É justamente e qual era falso. Essa forma de utilização da palavra, que surge na pólis, não era a pelo fato de suas narrativas serem baseadas nas revelações das Musas que os poetas não se consideravam inventores de suas histórias, pelo menos, mesma forma de utilização da palavra usada pelos poetas gregos, como não se apresentavam como ficcionistas. Muito pelo contrário, eles se auto- Homero e (c. 800 a.C.). Os poetas concebiam o verdadeiro como afirmavam portadores de revelações divinas. Mas o que dizem essas reve- "revelação divina", ou seja, como algo desvelado por meio de uma palavra lações? O conteúdo revelado correspondia aos acontecimentos, referentes mítico-religiosa, que guardava em sua significação a revelação das origens e às origens do mundo, perdidos em um "passado" muito distante daqueles princípios dos deuses e do kósmos (mundo). Foi a pólis que elaborou que estavam privados da revelação das Musas. Observe como gradativamente uma palavra-diálogo que se contrapôs a essa palavra mítico- narrou as origens do religiosa dos poetas homéricos. No entanto, em que se fundamentava o discurso dos poetas gregos? Em primeiro lugar nasceu Kháos (Caos), em seguida Gaia (Terra) de amplo seio (...) Gaia primeiro pariu, igual a si mesma, o Céu constelado, para cercá-la toda ao redor (...) 1 Cf. GOLDSCHMIDT, Victor. A religião de Platão. São Paulo, Difusão Européia do Pariu altas Montanhas, belos abrigos das Deusas, Livro, 1970, p. 19. ninfas que moram nas montanhas 2 Cf. Asorigens do pensamento grego. Rio de Janeiro, Difel, 2002, p. 53-72. 3 Cf. Jean-Pierre. As origens do pensamento grego. Rio de Janeiro, Difel, P. 22-28. 2002, p. 53.FILOSOFIA AS ORIGENS DA FILOSOFIA E A BUSCA PELA VERDADE 32 33 E pariu a infecunda planície impetuosa de ondas, de que o poeta era, no interior de sua cultura basicamente oral, o paradigma o Mar, sem o desejoso amor. Logo depois pariu, de "cultuador" da Memória Ou seja, o poeta era o paradigma do coito com Urano (Céu), de cultivador da arte de fazer da palavra um mecanismo linguístico de memo- o Oceano de fundos remoinhos... rização. Toda comunidade ágrafa (que não tinha desenvolvido a escrita) nutria-se da memória de seus poetas. Afinal, eles eram os responsáveis pela A RELAÇÃO NO perpetuação da história e da cultura de seu povo. As "mentiras semelhantes aos fatos" às "revelações". Essa DISCURSO DOS POETAS GREGOS oposição é, justamente, a possibilidade do jogo de apresentação e ocultação, Até aqui, abordamos apenas aquilo em que consistia a palavra do de revelação e encobrimento, provocado pelas Musas. Esse poder das Musas poeta. Agora veremos como os poetas expressavam a experiência da revela- é a experiência fundamental pela qual os gregos antigos conceberam a ção das deusas. Para o poeta realizar a façanha de ouvir as divinas revelações, alethéia. Ora, alethéia é o não esquecimento, vivenciado a partir do esqueci- ele deveria aproximar-se das Musas e pedir para que elas lhe dissessem a mento não como um fato psicológico, mas como uma força numinosa de verdade que só poderia ser contemplada pelos deuses. E não apenas isso. ocultação, de encobrimento, que é a condição necessária para as "revela- Desejavam que, de algum modo, elas lhe permitissem contemplar, através ções". Jaa Torrano, professor de língua e literatura grega da Universidade das palavras divinas, a verdade velada. Antes de se aproximar das Musas, o de São Paulo, adverte-nos do equívoco de interpretarmos a alethéia, pre- poeta passava por duas fontes vizinhas: Léthe (fonte do esquecimento) e sente no discurso dos aedos, a partir da noção moderna de verdade. Por Mnemosyne (fonte da Ao beber das águas da primeira fonte, um simples. motivo: as "revelações" das Musas retiram seres e fatos do esquecia de Porém, ao beber das águas da segunda fonte, ele se depa- reino do "esquecimento" e os tornam patentes por meio da "memória". rava imediatamente com as revelações das filhas de Zeus. Esse "não esque- Essa manifestação só é possível sob a experiência do "sagrado", isto é, cimento", ou memória recuperada pela revelação das Musas, é aquilo que sob a experiência de dizer o que não deve e jamais pode ser dito senão Homero chamava de alethéia, e que nós, ao longo de nossa história ociden- por "revelações". tal, traduzimos por Ora, "verdade" é o termo que usamos para afirmar o estado de conformidade com alguns princípios lógicos, ou a con- formidade com os fatos ou realidades. Contudo, também usamos a palavra AS PRIMEIRAS EXPLICAÇÕES DAS ORIGENS DO KÓSMOS "verdade" para designar aquilo que está em contraste com o que denomina- BASEADAS NA OBSERVAÇÃO DA PHYSIS mos "mentira". Porém, este não é o sentido de alethéia veiculado pelos gre- Vimos que com base nas revelações das Musas, narrou as gos antigos. Alethéia é uma palavra composta pelo prefixo negativo a- e origens do Agora, veremos que, ao contrário de os primei- pelo substantivo léthe (esquecimento). Portanto, alethéia é o não esquecido, o ros filósofos fundamentavam suas cosmogonias (explicações sobre as origens não perdido, o não oculto, ou seja, o lembrado, o encontrado, o visto, o do mundo) não mais sob os auspícios das revelações dadas pelos deuses, visível, o manifesto aos olhos da alma. Esse sentido de verdade, como não mas a partir de explicações baseadas na observação da physis, da esquecimento, permeia todo o discurso dos poetas homéricos, Conhecidos por nós como "pré-socráticos", ou seja, os que precederam transformando-o numa autêntica "mnemotécnica" uma espécie de técnica a Sócrates, esses filósofos eram homens de grande saber, teórico e prático, aos de Como isso acontecia? quais foram atribuídos diversos feitos notáveis. Por exemplo, Tales de Mileto Os aedos (como eram chamados os poetas da Grécia antiga), sob a conseguiu prever eclipses e medir distâncias de navios no mar, e inspiração divina, criavam suas poesias oralmente e de maneira direta, não Anaximandro (c. 611-547 a.C.) traçou mapas da Terra e construiu relógios através do uso irrestrito de palavras, mas por meio de fórmulas (métrica, de sol. Alguns desses feitos só se tornaram possíveis por causa dos conheci- rima, musicalidade etc) que exigiam certo condicionamento da memória. mentos astronômicos e matemáticos que eles adquiriram, provavelmente dos Ora, a importância que se conferia à palavra poética repousava o fato babilônios e egípcios.8 Porém, não é por conta disso que esses primeiros filó- sofos se distinguiram dos poetas. Na verdade, sua originalidade se torna mais 5 Teogonia ou A origem dos deuses, p. 116-133. Cf. Marilena Introdução à história da filosofia, p. 40-45. 7 Cf. Marcel Detienne. Os mestres da verdade na Grécia arcaica, p. 16. 8 Cf. Rodolfo Mondolfo. pensamento antigo, p.FILOSOFIA AS ORIGENS DA FILOSOFIA E A BUSCA PELA VERDADE 35 34 visível quando consideramos suas explicações sobre fenômenos naturais como pré-socráticos). Assim, sabemos que para Tales de Mileto a physis é a água, ou a chuva, o raio, o trovão, bem como suas cosmologias (descrições do kósmos). melhor, a qualidade da água, o úmido, porque Aristóteles (384-322 a.C.), É na comparação dessas explicações com a palavra mítico-religiosa dos poe- um dos filósofos antigos, descreveu em sua obra essas ideias de Tales. A pro- tas que notamos o surgimento de algo novo, a saber, o uso da especulação pósito, vejamos como uma descrição de Aristóteles pode ajudar-nos a ilustrar racional para a compreensão da realidade manifesta aos seres humanos. essa passagem da explicação mitológica à filosofia cosmológica: Durante todo o século VI a.C., o tema da physis, isto é, da natureza, exerceu forte impacto na especulação racional dos primeiros filósofos gre- Tales, iniciador desse tipo de filosofia [filosofia cosmológica], diz que o princí- gos (Tales de Mileto, Anaximandro, Anaximenes). Assim, se considerar- pio é a água (por isso afirma também que a terra flutua sobre a água), certa- mos que a filosofia nasceu com Tales de Mileto, então, de certo modo, mente tirando esta convicção da constatação de que o alimento de todas as teremos de afirmar que a filosofia nasceu, primeiramente, como "física", e, coisas é úmido, e da constatação de que até o calor se gera do úmido e vive no úmido. Ora, aquilo de que todas as coisas se geram é o princípio de tudo. Ele nesse caso, os primeiros filósofos deveriam ser chamados de Porém, tirou, pois, esta convicção desse fato e também do fato de que as sementes de apesar de o termo "física" vir de physis, o significado que os gregos deram a todas as coisas têm uma natureza úmida, sendo a água o princípio da natureza esse termo não é o mesmo significado que conferimos ao termo "física" em das coisas nossos dias. Por exemplo, os gregos não entendiam por physis a "ciência que investiga as leis do universo". Para eles, a physis não é uma ciência, mas o Não importa saber se do ponto de vista científico moderno Tales está fundamento eterno, perene, imortal e imperecível de onde brota tudo e certo ou não, se a água ou o úmido é ou não o princípio de todo o universo. para onde tudo retorna. Ela é o elemento primordial de tudo o que existe. Isso não importa, pois o grande feito de Tales foi o de ter apresentado outra Além do mais, a physis é aquilo que origina todos os seres infinitamente possibilidade de responder às questões últimas, isto é, de responder racio- variados e diferentes do mundo. Seres que, ao contrário do princípio gera- nalmente, e não mitologicamente, à questão da origem do kósmos. dor, são perecíveis ou mortais. Ou seja, embora a physis seja imortal, as coisas Outro dado que não podemos perder de vista é a maneira como geradas por ela são mortais. Tales raciocinou para chegar às suas conclusões. Na verdade, foi esse novo De início, algumas das questões que ocuparam os primeiros filósofos modo de explicação das origens do mundo que fez Tales não apenas per- não parecem ser propriamente "filosóficas". Isso ocorre porque, de acordo guntar pelo elemento primordial, o princípio gerador do universo, mas afir- com o nosso contexto moderno de ciência, as respostas às questões dos mar aquilo de que o mundo é feito: água. Ao estabelecer a água como primeiros filósofos são dadas pelas chamadas "ciências empíricas", e não princípio gerador de tudo o que há, Tales engendrou um novo conceito, o pela filosofia. Ora, não é comum procurarmos na filosofia as respostas das conceito filosófico de arkhé (princípio). Talvez este conceito tenha susci- questões sobre fenômenos naturais como a chuva, o raio ou o trovão. Há tado, de fato, a primeira questão filosófica, a saber, a questão da substância uma ciência empírica, a meteorologia, responsável por essa tarefa. Entre- ou essência do mundo diante das suas transformações. A solução que Tales tanto, os primeiros filósofos buscavam respostas para tais questões. É certo apresenta para essa questão é estabelecer a água como o princípio gerador que as respostas que deram a algumas dessas questões podem não ser a de todas as coisas. última palavra aceita pela física atual, porém elas apresentam um aspecto A filósofa Marilena Chauf aponta cinco razões pelas quais Tales muitíssimo relevante para o estudo sobre o surgimento da filosofia, que é a teria escolhido a água ou o úmido como princípio gerador do mudança na maneira de se lidar com as questões das origens. Isto é, a pas- sagem de uma reflexão mítico-religiosa para uma reflexão 1. A água apresenta-se sob as mais variadas formas e em todos os nal das questões últimas. estados em que vemos os corpos da líquido, sólido e gasoso. Vemos a água passar de um estado a outro, de uma forma a outra, num processo contínuo no qual mantém a identidade TALES DE MILETO E A NOVA MANEIRA DE consigo mesma. fenômeno da evaporação faz pensar que a água CONCEBER A ORIGEM DO KÓSMOS é a causa do céu e do que nele existe; o fenômeno da chuva, que a água é causa da terra e do que nela existe. Infelizmente, os escritos dos pré-socráticos foram perdidos. Só pode- mos conhecê-los por fragmentos e pela "doxografia" (compilação de pas- sagens de filósofos antigos que citavam o pensamento dos filósofos 9 Metafísica. Vol. II, p. 17 (983b 20).FILOSOFIA AS ORIGENS DA FILOSOFIA E A BUSCA PELA VERDADE 36 37 2. A água está diretamente vinculada à vida: as sementes, o sêmen animal e humano são úmidos (o cadáver em putrefação é uma CONTRAPONTOS TEOLÓGICOS umidade que vai se ressecando). Uma das fontes centrais da teologia cristã é a revelação de Deus, e é nela que a teologia encontra o alicerce constituinte de sua natureza e mis- 3. Tales viajou pelo Egito e certamente se assombrou com as cheias são. Em outras palavras, a teologia fundamenta toda a sua razão de ser em do Nilo: a terra seca e desértica, antes da cheia, tornava-se fértil, uma fonte divina de conhecimento, e não meramente na Ora, se verdejante, cheia de flores e frutos depois dela. Tales teria con- considerarmos que a filosofia nasceu de um contraste entre ciência e revela- cluído que a água é a causa das plantas. ção, então, perguntamos: seria a teologia cristã a expressão de um retrocesso a um tipo de discurso semelhante ao discurso dos poetas 4. A existência de fósseis de animais marinhos, descobertos nas mon- da Grécia antiga? tanhas e em grandes altitudes, teria levado Tales a considerar que, É óbvio que Pelo menos, por dois motivos. Primeiro, porque o no início, tudo era água e que a vida animal fora causada pela água. termo grego usado no Novo Testamento para designar "revelação" não é alethéia, mas apokalypsis. Segundo, porque a noção cristã de "revelação" é 5. A mitologia grega falava no rio Oceano que circundava toda a marcada por uma dupla realidade: Cristo e a Criação. É claro que não terra e que teria engendrado nosso mundo. Não seria descabido, podemos negar que o apokalypsis neotestamentário, que aponta para uma portanto, supor que Tales houvesse dado uma explicação racional dupla realidade da revelação cristã, veicula um sentido semelhante ao da para a narrativa alethéia dos poetas gregos, pois, em ambos os casos, o que está em jogo é o desvelamento de algo. Porém, essas duas experiências de conhecimento revelacional são absolutamente distintas. Se contemplarmos a revelação, na Enfim, para concluir que a água era a physis ou o princípio gerador ótica da Criação, concluiremos que não precisamos da ajuda de ninguém de todas as coisas (arkhe), Tales não recorreu diretamente aos mitos, mas para saber que Deus existe. Basta observarmos a natureza e descobriremos deduziu e inferiu a partir de fatos visíveis, isto é, observáveis, uma con- que Deus é o fundamento de todas as coisas. Ele está presente no kósmos clusão obtida apenas pelo pensamento ou pela razão. Essa maneira de como o seu Criador. E está presente de tal modo que qualquer ser humano raciocinar é a primeira expressão do pensamento filosófico na história da tem acesso. Portanto, não se trata de uma revelação dada a alguns poucos civilização ocidental. indivíduos, mas a todos os seres humanos. Lembremo-nos da epístola de Antes de apresentarmos os contrapontos teológicos, é necessário Paulo aos Romanos: dizer que o surgimento desse novo modo de pensar as origens do universo não significou um imediato e completo abandono da atitude religiosa. A ira de Deus é revelada dos céus contra toda impiedade e injustiça dos Equivoca-se aquele que defende a ideia simplista de que a filosofia teria homens que suprimem a verdade pela injustiça, pois o que de Deus se pode nascido da dissolução do mito e do pensamento mitológico. Por exemplo, conhecer é manifesto entre eles, porque Deus lhes manifestou. Pois desde a não podemos sequer afirmar, sem hesitar, que o próprio Tales tinha aban- criação do mundo os atributos invisíveis de Deus, seu eterno poder e sua donado todo o tipo de crença nos deuses ou de que ele tinha rejeitado natureza divina, têm sido vistos claramente, sendo compreendidos por meio todas as teogonias opondo-lhes à sua cosmogonia racional. Ora, das coisas criadas, de forma que tais homens são indesculpáveis; porque, tendo Aristóteles deixa bem claro que a afirmação "todas as coisas estão cheias conhecido a Deus, não o glorificam como Deus, nem lhe renderam graças, mas de deuses" pertence a Mas isso alguns filósofos, principalmente os seus pensamentos tornaram-se fúteis e o coração insensato deles obscure- aqueles que radicalmente a filosofia ao mito, não gostam de reco- ceu-se. Dizendo-se sábios, tornaram-se loucos e trocaram a glória do Deus nhecer, uma vez que teriam que se conformar com a ideia de uma caracte- imortal por imagens feitas segundo a semelhança do homem mortal, bem como rística mitico-religiosa da filosofia, pelo menos, no seu início. de quadrúpedes e répteis (Rm 1.18-23, NVI). Essa passagem apresenta pelo menos duas teses importantes acerca da revelação natural de Deus. A primeira delas é a de que o conteúdo da 10 Introdução à história da filosofia. Vol. 1, p. 56. revelação de Deus é o próprio Deus visto como o supremo Criador do 11 De Anima, p. 198 (411a 7). universo. Logo, a verdade cristã é o próprio Criador. A segunda tese refere-seFILOSOFIA AS ORIGENS DA FILOSOFIA E A BUSCA PELA VERDADE 38 39 ao fato de que esse Criador supremo é invisível, é oculto, ou, para usar as Assim como as pegadas de uma onça não revelam quem a onça é, palavras de Lutero, é absconditus, esconde (cf. Is 45.15). Contudo, mas apenas que há uma onça, a Criação também não revela, propriamen- o mesmo Paulo que afirma que Deus é invisível (cf. 1Tm 1.17), também te, quem Deus é, mas somente que há Deus. Portanto, para que Deus seja argumenta que esse Deus invisível saiu de sua ocultação, tornando-se, conhecido, é necessário que haja outra revelação diferente da revelação portanto, visível aos homens. Mas como? Por meio das obras de suas mãos. natural. A revelação que falta é aquela que os teólogos chamam de "reve- Ora, a Criação não é algo que existe nem por si mesmo nem por meio de lação especial", isto é, a revelação de Deus através de Jesus, o Cristo. A um princípio físico gerador de tudo (physis). Todas as coisas que existem propósito, Alister McGrath, professor de teologia histórica na Universi- como obras das mãos de Deus estão, por sua origem e essência, intima- dade de Oxford, sugere que há duas declarações do Novo Testamento mente ligadas a ele. Então, kósmos é de Deus. Não é um mundo cheio que não podemos perder de vista. Uma delas é a declaração de que Cristo de deuses, como dizia Tales de Assim, diante de Deus como Cri- é "o resplendor da glória de Deus e a expressão exata de seu ser" (Hb1.3); ador, tanto o discurso mítico dos aedos como o discurso científico dos a outra é a declaração de que Cristo é "a imagem do Deus invisível" pré-socráticos não passam de contrassenso, pois tudo o que existe mani- 1.15). Com essas duas passagens, McGrath quer mostrar caráter pesso- festa-se como algo criado por Deus. E é nesses seres criados que Deus se al da revelação de Deus, contrastando, assim, a pessoalidade de Cristo mostra, isto é, torna-se visível. com a impessoalidade da Criação. Ou seja, Cristo, uma pessoa em carne e Ao falar da revelação natural de Deus, isto é, da revelação oriunda de osso, é a revelação de quem Deus é. Por isso, ele não pode ser um mero sua ação criadora do kósmos, Paulo coloca todos os homens diante da possi- vestígio, mas a própria imagem de Deus. Nesse caso, a imago Dei (imagem bilidade de adquirirem um conhecimento de Deus. Porém, o conhecimento de Deus) deve ser entendida no sentido de uma personificação e auto- adquirido por intermédio da Criação é um conhecimento que, de certo revelação de Encerramos esses contrapontos teológicos com as modo, não nos apresenta Deus. Quem pode nos ajudar a entender isso é palavras de Lutero: Agostinho. Em sua obra magna A Trindade, ao comentar a passagem de Romanos 1.20, Agostinho afirmou que o conhecimento de Deus, adqui- Deus não quer ser conhecido a não ser por intermédio de Cristo; nem pode ele rido por meio da revelação natural, é sempre um conhecimento por "ves- ser conhecido de qualquer outro modo. Cristo é o descendente prometido a Ou seja, as coisas criadas são sempre de Deus. Por exemplo, Abraão; nele, Deus cumpriu todas as suas promessas. Portanto, somente Cristo quando alguém entra em uma mata fechada, e, no meio do caminho, depa- é o meio, a vida, espelho pelo qual vemos Deus e conhecemos sua vontade. ra-se com as pegadas de uma onça, apavora-se não porque viu de fato uma Por meio de Cristo, Deus declara seu favor e misericórdia para conosco. Em onça, mas porque viu as pegadas dela, isto é, os rastros que indicam que há Cristo, vemos que Deus não é um mestre irado e um juiz, mas sim um pai gracioso e bondoso, que nos abençoa, isto é, que nos salva da lei, do pecado, da uma onça pelas redondezas. Por analogia, podemos dizer que a revelação morte, e de todo o mal, e nos oferece a justiça e a vida eterna mediante Cristo. natural é como um rastro, um vestígio, que indica apenas que há Deus, mas Este é um conhecimento certo e verdadeiro de Deus; uma persuasão divina tais vestígios não podem revelar, de fato, quem Deus é. que não falha, mas retrata Deus mesmo numa forma específica, à parte da qual No livro X de suas Confissões, ao confrontar o pensamento de não há nenhum Anaxímenes, contemporâneo de Tales de Mileto, Agostinho negou que a Criação seja o princípio causador de todas as coisas. Em sua busca pelo conhecimento de Deus, o homem pode olhar para a Criação e saber apenas duas coisas: primeiro, que ela não é o princípio gerador de tudo o que existe; segundo, que todas as vezes que perguntamos para a Criação "quem é o seu Criador?", a única resposta que ouvimos dela é a seguinte: "Não somos o teu Deus. Procura-o acima de Ou seja, a Criação é incapaz de nos dizer quem é Deus, e sua incapacidade se deve à circunstância de que ela é apenas um vestígio do ato criador de Deus. 14 Cf. Paixão pela verdade, p. 32. 12 .231 (livro VI, capítulo 10, parágrafo 12). 15 Martin Luthers Werke: Kritische Gesamtausgabe, vol. 40. Weimar, Böhlau, 1911, 13 (X, 6). 607.19-609.14. Citado em Alister McGrath. Paixão pela p. 33.FILOSOFIA DA FILOSOFIA E A BUSCA PELA VERDADE 40 41 PERGUNTAS DE RECAPITULAÇÃO 6. O que os primeiros filósofos entendiam por physis (natureza)? 1. Em que consistia o diálogo ou a dialética na vida comunitária da pólis? 7. Como Tales de Mileto concebia a origem do kósmos? Por que ele estabeleceu a água, ou o úmido, como o princípio gerador de todas as coisas? 2. Qual é a diferença elementar entre a dialética e o discurso mítico- religioso dos poetas? 8. Qual a diferença entre a noção filosófica de "revelação" e a noção teológica de "revelação"? 3. Explique o sentido usual da palavra "verdade" (alethéia) na Grécia dos poetas Homero e 9. Como a teologia cristã resolve o problema filosófico da physis? Qual é a função da "natureza", segundo Agostinho? 4. Descreva a relação entre e "esquecimento" no discurso dos poetas gregos. 5. 10. Explique em que consiste a dupla realidade da "revelação" cristã Qual é a distinção entre as "revelações das Musas" e as explicações de Deus. das origens do kósmos dadas pelos pré-socráticos? (FILOSOFIA 42 ANOTAÇÕES A passagem da filosofia cosmológica à filosofia antropológica N o capítulo anterior, vimos que Tales de Mileto, o primeiro dos filó- sofos pré-socráticos, ofereceu as primeiras explicações sobre as origens do kósmos com base na observação da natureza. Entretanto, o período que agora estudaremos representa uma mudança de ênfase temática no pensamento filosófico da Grécia antiga, Trata-se da pas- sagem da filosofia cosmológica dos pré-socráticos à filosofia antropológica de Sócrates. A nossa intenção ao refletir sobre essa passagem é mostrar que em vez de se preocuparem exclusivamente com as questões da natureza (physis), os filósofos gregos passaram a dedicar-se, também, ao estudo das questões humanas, dando início a uma nova fase da história da filosofia. Começaremos, de antemão, pelos primeiros sinais dessa alteração temática. Esses primeiros sinais nos remetem às filosofias de Heráclito e à retórica dos sofistas e, por fim, à dialética de Sócrates. Já aprendemos que as explicações dos pré-socráticos sobre as origens do kósmos tornaram-se o marco de uma importante mudança na maneira de os gregos conceberem o mundo. Tales de Mileto foi, sem dúvida, o personagem de destaque dessa mudança, pois foi o primeiro filósofo que se propôs a buscar, a partir da observação dos fenômenos da natureza, um princípio gerador de todas as coisas que existem; um princípio que pudesse ser a origem e o fundamento absoluto de tudo o que há. Tales viu na physisFILOSOFIA A PASSAGEM DA FILOSOFIA COSMOLÓGICA À FILOSOFIA ANTROPOLÓGICA 44 45 esse elemento primordial. Viu na água, ou no úmido, a essência da qual se idêntico a si mesmo. A ideia do "ser idêntico a si mesmo" é uma O origina uma infinidade de seres, de diferentes espécies. Seres mutáveis, dife- que existe, verdadeiramente, é a tensão e a identidade entre ser.e não ser. E rentes entre si e mortais. Justamente, o oposto do princípio gerador, que é isso é um princípio dinâmico de vida. imutável, idêntico a si mesmo e eterno. É preciso nos precaver do equívoco de achar que as mudanças do kósmos É verdade que os outros filósofos pré-socráticos concordavam com indicam que ele seja caótico. Ora, as mudanças ininterruptas não são arbitrá- Tales, principalmente quanto à necessidade de buscar o fundamento expli- rias. Tudo o que existe e se transforma em seu contrário em profunda cativo das origens de todas as coisas na physis. Entretanto, parece que todos harmonia. Em um de seus fragmentos, Heráclito afirma o seguinte: "o que se eles discordaram das soluções que ele ofereceu à questão das origens do opõe a si mesmo está em acordo consigo mesmo; a harmonia está nas tensões kósmos. Gostaríamos de destacar, dentre esses filósofos, dois pensadores que contrárias, como as do arco e da Em outro fragmento, ele afirma que pertencem a fase final da filosofia pré-socrática: Heráclito de Éfeso e a guerra reúne as coisas, opostas entre si, para formar um mundo em co- de Eleia. Ou seja, a luta dos opostos é a mais bela harmonia. A tensão dos contrários é como as cordas da lira que, tendidas ao máximo pelo arco, produ- zem os mais perfeitos acordes e as mais encantadoras melodias. Portanto, a HERÁCLITO E "FLUXO CONTÍNUO" DA PHYSIS harmonia do mundo nasce da tensão entre os opostos. Heráclito de Éfeso (c. 500 a:C.) não concordava com a ideia de Outro dado importante da filosofia de Heráclito é o fato de o kósmos não ser pura multiplicidade nem pura unidade, mas uma unidade que per- Tales de que a arkhé, o princípio gerador de todas as coisas, era uma manece a despeito da multiplicidade e uma multiplicidade que permanece substância ou essência permanentemente idêntica a si mesma. Ele conce- a despeito da Isso é assim porque a unidade e a multiplicidade são bia a physis de modo diferente, e a compreendia como um "fluxo contí- inseparáveis. Para Heráclito, Tales foi enganado por sua percepção senso- nuo", uma constante mudança de estados contrários entre si. No seu ponto de vista, a physis é o devir de tudo o que há no kósmos. Portanto, nada do rial, que o impediu de compreender que "tudo é um". Ora, ao percebermos as coisas opostas, somos tentados a concebê-las separadas umas das outras. que existe no mundo permanece idêntico a si mesmo, nem mesmo o pró- Por isso, acreditamos que os contrários podem subsistir separadamente. O prio mundo. Não apenas isso, pois tudo o que se transforma, se trans- que, de acordo com Heráclito, é simplesmente impossível. Eis a nossa situa- forma no seu contrário. Assim, tudo o que é está sempre mudando e continuamente se modificando. ção: somos incapazes de perceber que a multiplicidade é a unidade e a O filósofo de Éfeso ilustrou esse "fluxo contínuo" da physis da se- unidade é a multiplicidade, pois nossas percepções sensoriais nos dão a falsa impressão de que todos os contrários que percebemos são realidades abso- guinte maneira: "não se pode entrar duas vezes no mesmo rio, pois suas lutamente distintas e independentes umas das outras. Sobre isso, Marilena águas não são nunca as mesmas e nós não somos nunca os mesmos". Ora, diz algo bastante pertinente: se colocarmos um de nossos pés no rio, no mesmo instante em que colocar- mos o outro, rio já não será mais o mesmo. Ele já terá mudado. Suas mar- Essa afirmação ["tudo é nuclear do pensamento de Heráclito não deve gens, em uma erosão quase imperceptível, serão a maior evidência de que o ser entendida como a entendemos nos outros pré-socráticos. De fato, para rio de fato mudou. Mas não foi só o rio que mudou. Nós, que colocamos os estes, há uma unidade primordial (a physis) que, mantendo-se em sua unidade pés no rio, também mudamos. Pelo menos ficamos alguns segundos mais eterna, dá origem a multiplicidade das coisas por meio de movimentos de velhos. Isso é a physis: mudança contínua e incessante de todas as coisas. separação e diferenciação. Ou seja, a unidade primordial não se confunde com Portanto, aquelas ideias de Tales acerca do "imutável" ou do "permanente- a multiplicidade nascida dela. Não é o que pensa Heráclito. Para ele, a unidade mente idêntico a si mesmo" não passam de ilusões oriundas de nossa per- primordial é múltipla, o um existe múltiplo, é múltiplo. "Tudo é um" significa cepção sensorial. Tudo na vida move sem cessar. Tudo se transforma no seu que a multiplicidade tensa, contraditória ou em luta é a unidade e a comuni- contrário: o quente esfria e o frio esquenta; o dia se torna noite e a noite se dade de todas as coisas.4 torna dia; o úmido seca e o seco umedece; a treva se torna luz e a luz se torna treva; novo fica velho e o velho fica novo. Tudo muda, nada permanece 2 Sobre a natureza. In: "Os pensadores originários" (Coleção Pensamento Humano). Bragança Paulista. EDUSF, 2005, p. 71, 83 (Fragmento 49a e 91). Sobre a natureza. In: "Os pensadores originários" (Coleção Pensamento Humano). 3 Idem, p. 81 (fragmento 80). Bragança Paulista. EDUSF, 2005, p. 71, 83 (fragmento 51). 4 Introdução à história da filosofia. Vol. 1, p. 83.FILOSOFIA A PASSAGEM DA FILOSOFIA COSMOLÓGICA À FILOSOFIA ANTROPOLÓGICA 46 47 Lembremo-nos de que a physis, na concepção de Tales, é uma unidade concebeu sua filosofia a partir de suas críticas às ideias do primordial, imutável, e geradora de uma multiplicidade de seres mutáveis e filósofo de Éfeso. Sua primeira crítica foi dirigida àquela noção de que que não podem ser jamais confundidos com a unidade primordial. Ora, uma coisa é e não é ao mesmo tempo. Parmênides constatou nessa noção Heráclito argumenta justamente o oposto. A physis é uma unidade que sub- uma contradição lógica, a saber, "que o ser não é e que o não ser Para siste na multiplicidade O múltiplo não deriva do uno, pois o uno demonstrar tal contradição, ele se pautou num princípio racional da mais é idêntico ao múltiplo. Não há, portanto, duas esferas em que, de um lado, alta importância: o princípio de identidade: que é, é, o que não é, não é. estaria o uno gerador imutável (o mundo verdadeiro) e, do outro, o Ou seja, o que não é idêntico a si mesmo, simplesmente não pode ser algo gerado e mutável (o mundo aparente). Em uma passagem de Crepúsculo dos que se possa compreender. Assim, refuta a ideia de que haja ídolos, o filósofo alemão Friedrich Nietzsche afirmou que Heráclito criticou, a possibilidade de identidade entre os contrários. Para ele, o uno só é veementemente, a ideia de que o kósmos possui um duplo, ou seja, de que o idêntico ao uno e o múltiplo só é idêntico ao múltiplo. É impossível "mundo verdadeiro" é imutável e independente do mundo mutável das coisas pensar que haja uma identidade entre eles. Convém notar a radicalidade geradas. Essa ideia do kósmos duplicado não passa de ficção vazia. O verda- do pensamento de Parmênides, pois ele não está meramente dizendo que deiro kósmos não é um princípio imutável, mas um único mundo que se podemos ou não pensar no que existe efetivamente ou não. Na verdade, o constitui nas mudanças, nos contrários, nas tensões. Esse é o único mundo que o filósofo de Eleia diz é que o pensável existe e o não pensável não que temos diante de nós. É nele que vivemos e é nele que A ideia existe. Por exemplo, nós podemos pensar em um ser que é metade peixe e de um "mundo verdadeiro", oculto e invisível no mundo das coisas geradas é metade mulher, mas nós não podemos pensar em um ser que é um qua- apenas uma ilusão causada pela limitação de nossa percepção drado redondo. Ora, ambos não existem efetivamente no mundo. Porém, Por causa dessa ilusão do kósmos duplicado, Heráclito estabeleceu uma uma "sereia" existe como uma imagem mental enquanto o "quadrado re- diferença entre as que formamos, por meio de nossas sensações, e a dondo" é, simplesmente, inimaginável. verdade que nosso pensamento pode alcançar pela própria razão. Enquanto Junto com o princípio de identidade, Parmênides, também, afirmou nossa percepção sensorial nos dá a impressão de que o mundo, apesar de suas outro princípio lógico: o da não contradição ou, como alguns pre- constantes transformações, é estável e permanente, o nosso pensamento sabe ferem chamar, o princípio da contradição. O que esse princípio afirma? Que que nada permanece o mesmo, que tudo se torna o contrário de si mesmo. ninguém pode pensar a identidade dos contrários. Algo que nega a si mesmo Essa verdade, alcançada pelo pensamento, não revela algo que está oculto no se autodestrói, desaparece, deixa de existir. Não é possível pensar algo que é, kósmos. Ela é a própria revelação do kósmos! Portanto, o mundo é aquilo que ao mesmo tempo, o contrário de si mesmo. Por exemplo, não conseguimos sai de sua ocultação, que se abre totalmente para nós, tornando-se patente aos pensar o "quadrado redondo". Portanto, só podemos pensar aquilo que per- olhos da razão. A partir de seus estudos dos fragmentos de Heráclito, filó- manece idêntico a si mesmo. Sendo assim, não é o pensamento que capta a sofo Martin Heidegger concluiu que, na ótica de Heráclito, o "mundo verda- tensão dos contrários como pensava Heráclito mas é a percepção deiro" é o próprio que aparece e que, no seu aparecer, deixa para trás sensorial que nos oferece a aparência de um mundo em constante mudança, todo o seu ocultamento.6 Portanto, não há mais necessidade de que se revele em que nada permanece idêntico a si mesmo. É um mundo em que tudo, a essência do mundo, pois o mundo já não está mais oculto, principalmente aparentemente, torna-se uma tensão dos contrários. Para são quando ele se manifesta aos olhos da razão. falsas as ideias de Heráclito de que a realidade do kósmos é o "fluxo" dos opostos e de que há uma identidade dos contrários. Todas essas ideias não passam de meras opiniões que podemos formar, justamente porque con- PARMÊNIDES CONTRA HERÁCLITO: A ILUSÃO DO fundimos a realidade com as aparências oriundas de nossas percepções sen- "FLUXO CONTÍNUO" DA PHYSIS soriais. Em suma, o que é tido como verdade para Heráclito, em não passa de mera opinião. A filosofia de de Eleia (c. 500 a.C.) só pode ser bem Como vimos, há em Heráclito dois tipos de conhecimento: a alethéia compreendida em sua polêmica com a filosofia de Heráclito. Na verdade, (verdade) adquirida pela razão, que é a própria realidade, e a dóxa (opinião) formada com base em nossas percepções sensoriais, que é o falso, o apa- rente. Entretanto, essa oposição entre "opinião" e "verdade" tomou uma 5 crepúsculo dos p. 26. dimensão bem mais ampla em Parmênides. Este identificou não só as opi- 6 Ensaios e Conferências, p. 227-249. niões com as aparências, como também identificou as próprias aparênciasFILOSOFIA A PASSAGEM DA FILOSOFIA COSMOLÓGICA À FILOSOFIA ANTROPOLÓGICA 48 49 com o "não ser", o "nada", o "falso", a "ilusão". Além do mais, no poema e ideais eram adquiridos por natureza. Em outras palavras, eles apreendiam Sobre a natureza, contrapôs a "verdade" (alethéia) às "opiniões os seus usos e costumes como se fossem semelhantes às leis inexoráveis da dos mortais" para mostrar que tomar a aparência como real, isto é, natureza, isto é, como se leis invioláveis. Ora, dizer que os usos, os tomar as opiniões como verdadeiras é perder de vista o caráter racional da costumes e as leis da pólis são adquiridos por natureza é o mesmo que dizer busca filosófica pela verdade. Ora, tal busca não pode prescindir de princí- que essas ordens humanas são necessárias, absolutas e perenes. Porém, para pios racionais de compreensão do real. Somente com base nesses princípios contrariar essa postura, entram em cena os sofistas, sábios menos dedicados às podemos chegar à verdade que está no ser das coisas pensadas e jamais nas questões da natureza e mais dispostos a refletir sobre as leis que governam as manifestações das coisas percebidas, relações entre os homens. Os sofistas não se preocupavam, especificamente, Como podemos perceber, o fim do período pré-socrático é marcado em conhecer a physis, mas em saber se a lei dos homens era estabelecida por por um impasse. De um lado, temos uma tese que afirma que a realidade é natureza ou por convenção. A preocupação dos sofistas possui uma razão de um contínuo devir; do outro lado, temos uma antítese que nega a tese do ser, que é muito simples de compreender: se os ordenamentos humanos, como devir ao afirmar que a realidade é imutável. Ora, a filosofia grega só encon- as leis da pólis, os usos e os costumes são estabelecidos por natureza, então, eles trará a solução desse impasse em Platão. Este procurou elaborar uma síntese são invioláveis; se, ao contrário, são estabelecidos por convenção, então, os capaz de explicar o "fluxo" contínuo das coisas e a imutabilidade do ser, ordenamentos humanos podem ser alterados e até mesmo transgredidos. como pólos que integram uma visão mais abrangente da Porém, Um dos fortes motivos dessa mudança de tema (de physis para nómos) antes de Platão, muitas coisas aconteceram. Uma delas é que a busca pelo foi o contato que os gregos tiveram com outras culturas (dos babilônios e princípio gerador de todas as coisas, iniciada por Tales de Mileto, com o egípcios, por exemplo). Esse contato revelou a diversidade dos valores, dos passar do tempo deu lugar a uma espécie de ceticismo ou descrença acerca costumes e das leis que regiam as diversas comunidades humanas ao redor do da possibilidade de encontrar-se a verdade última e absoluta, isto é, a razão mundo. Isso, de certo modo, proporcionou aos sofistas a possibilidade de de ser das coisas. Tal postura provocou o início de uma virada do pensa- exercerem um posicionamento relativizante das leis e regras de conduta da mento filosófico na Grécia antiga. pólis, pois, para eles, as leis, os usos e os costumes humanos não são por physis, mas por nómos, isto é, por convenção, e, por isso, relativos a cada sociedade. Em outras palavras, as leis, os usos e os costumes humanos não são institui- os SOFISTAS E CONTRASTE ENTRE NÓMOS E PHYSIS ções naturais ou divinas, mas ordenamentos estabelecidos pelos próprios Além do pensamento cosmológico dos pré-socráticos, surgiu na Grécia homens. Portanto, os sofistas tiram do nómos tanto as prerrogativas naturais antiga outro tipo de pensamento. Um pensamento que não se ocupou apenas como também as prerrogativas divinas. nómos não é mais visto como seme- com as questões referentes à physis, mas se interessou pelo contraste existente lhante à physis, nem tampouco como uma "revelação" de Zeus. Nómos são entre o nómos, que é a ordem estabelecida pelos homens para a vida comuni- convenções dos homens, são medidas e critérios de valoração das coisas e das tária da pólis, e a physis, que é a ordem natural do Como vimos, os ações. A propósito, é do sofista Protágoras de Abdera (c. 481-411 a.C.), o filósofos pré-socráticos procuravam na physis o princípio gerador que norteia famoso adágio: "O homem é a medida de todas as coisas". Ou seja, a physis o kósmos. Essa busca pelo princípio tinha a finalidade de descobrir e conhecer não é mais a medida de todas as coisas, mas o (homem). as leis imutáveis da natureza, isto é, objetivava descobrir e conhecer as leis que No lugar de Zeus e da physis, os sofistas colocaram o próprio homem regem o mundo em que vivemos. Essas leis, por sua vez, jamais poderiam ser como fundamento da vida comunitária na pólis. Por isso, em vez de opta- constituídas ou modificadas pelos humanos. Em contraste com a physis, rem por um discurso oracular e divinatório, os sofistas preferiram a via do temos o nómos, aquilo que é por convenção, isto é, as leis, os usos e os costumes debate, ou melhor, a via da retórica, do discurso persuasivo. Assim, é através constituídos, como leis máximas, por todos os integrantes da pólis. do debate - e não mais das proclamações dos que os homens são Notar o contraste entre nómos e physis não foi de pouca importância persuadidos. renomado estudioso da cultura helênica, Marcel Detienne, para os gregos antigos. Como eles concebiam a vida social e política a partir em seu clássico estudo Os mestres da verdade na Grécia arcaica, apontou para dos laços de sangue (parentesco), julgavam que seus usos e costumes, valores a realidade de um processo de dessacralização do discurso poético da "ver- De acordo com Detienne, enquanto o discurso divinatório do poeta 7 Sobre a natureza. In: "Os pensadores originários" (Coleção Pensamento Humano). Bragança Paulista. EDUSF, 2005, p. 45.FILOSOFIA A PASSAGEM DA FILOSOFIA COSMOLÓGICA À FILOSOFIA ANTROPOLÓGICA 50 51 era portador de uma alethéia divino-absoluta, alcançada de forma oracular Antes do advento da pólis, o aedo apresentava-se ao lado e, por diversas e dependente de dons sobrenaturais, discurso dos sofistas abriu mão de vezes, acima do rei (basileus). Ele tinha até mesmo o poder de conservar e buscar a alethéia, pois o que estava em jogo não era mais um discurso interpretar as leis, além de administrar a justiça. Ou seja, às vezes, os poetas revelacional, mas um discurso persuasivo. Esse processo de dessacralização encarnavam a autoridade mais alta entre os No entanto, a partir do discurso poético pelo discurso persuasivo viabilizou a notoriedade dos desse embargo do discurso poético, as narrativas secretas, as fórmulas ocul- sofistas, que foram conhecidos na Grécia antiga como os mestres incontestes tas, as revelações das Musas, enfim, toda a representação da retórica, isto é, da arte da persuasão perdeu o seu poder de influência nas deliberações da pólis. Além disso, as No contexto intelectual e espiritual da pólis, o êxito da ação comuni- verdades ditas pelos poetas tornaram-se verdades discutíveis, isto é, verda- tária dependia do bom uso das palavras. Isso não significa que os sofistas des que seriam contestadas pelos mestres do discurso e da persuasão. estavam dispostos a defender uma verdade "última" ou "absoluta", como os Os sofistas foram os legítimos fundadores da arte da retórica, isto é, aedos (os poetas) faziam. Muito pelo contrário, o seu objetivo era apenas da arte de apresentar como igualmente verdadeiros os argumentos prós e vencer as disputas e os debates políticos. Dentre os mais notórios sofistas da contras de um mesmo problema. Ora, isso só era possível porque eles não Antiguidade destacam-se Górgias de Leontini Protágoras acreditavam mais na possibilidade de se alcançar uma verdade última e de Abdera e Trasímaco (c. 459-347 a.C.). absoluta. Por isso, concentravam todos os seus esforços na eficácia do dis- Em contraposição ao caráter absoluto das verdades reveladas pelos curso, sendo o seu principal objetivo nada mais que a persuasão. Para que deuses, os sofistas enfatizavam que as verdades dos homens são relativas. haja persuasão, é necessário que haja opiniões contrárias. É por isso que a Eles diziam que tudo o que é referente ao humano é por convenção. Ora, se arte da persuasão parte de nossas opiniões sobre as coisas (dóxai) e nos tudo o que é de origem humana é por convenção, então, a verdade, tal como ensina a persuadir os outros de que nossa opinião (dóxa) é a melhor. No ela é conhecida e dita pelos homens, não pode ser absoluta, imutável, perene entanto, entre as opiniões contrárias não há a "opinião verdadeira" (dóxa etc. Esse caráter pessimista da sofística, relativo à possibilidade do conhe- que existe é uma opinião que pode ser apresentada de modo cimento da verdade última e absoluta não ocorreu da noite para o dia, mas mais persuasivo do que a outra. Em suma, a finalidade do sofista é conven- acompanhou o ritmo do aparecimento da pólis, que, como já dissemos, foi cer os interlocutores e não obter o da verdade. Afinal, a ver- um acontecimento decisivo na história do pensamento grego. dade não é outra coisa senão aquela opinião que, pelo discurso bem elaborado, Com o advento da pólis, a vida social adquiriu uma nova forma de vence o debate, isto é, convence o interlocutor. organização, acarretando mudanças significativas nos mecanismos de exer- Portanto, para usufruírem as vantagens da retórica, os sofistas não cício do poder público. Um desses mecanismos transmutados foi a lingua- poderiam aceitar a existência de um conhecimento verdadeiro e absoluto. gem. De acordo com Jean-Pierre Vernant, renomado helenista francês, o Aceitar a existência da verdade seria negar a via da retórica. Por isso, os sistema da pólis implicou uma extraordinária preeminência da palavra sofistas negam a existência da verdade absoluta, ou, pelo menos, da possibi- sobre todos os outros instrumentos de Para Vernant, a palavra, o lidade de conhecê-la, pois como seria possível persuadir aqueles que real- discurso dialético, tornou-se o instrumento político por excelência. Nesse mente sabem a verdade? Por conseguinte, na ótica do sofista, só existem caso, já não se trata mais de meramente ouvir as verdades dos deuses, mas de opiniões boas e más, melhores e piores, úteis e prejudiciais, mas jamais exercer a persuasão, que nada mais é que convencer os seus interlocutores opiniões falsas e verdadeiras. A verdade ou a busca pelo fundamento último de que a sua opinião é a melhor. Ora, quais foram as consequências dessa de todas as coisas pertencem ao passado dos poetas e dos primeiros filó- mudança de atitude? sofos. Agora, na era dos sofistas, são as convenções humanas que determi- aedo, que era o responsável por revelar um saber secreto de "tipo nam o que é a verdade. A alethéia não está mais oculta no universo dos esotérico", teve a sua autoridade "teonômica" confiscada pela pólis, que aban- deuses ou no interior da physis. Ela, simplesmente, não existe. Nas palavras donou definitivamente as "verdades" das deusas, abraçando um espírito de de Górgias: "Nada existe. Se existisse algo, esse algo não poderia ser conhe- disputas retóricas abertas ao público. Portanto, o poder do discurso verda- cido. E mesmo que alguém pudesse conhecer esse algo, não seria possível deiro não estava mais nas mãos de um indivíduo investido de autoridade comunicá-lo a outro esse divina, mas na aptidão daquele que fosse capaz de exercer melhor a retórica. 10 Cf. Teogonia ou A origem dos deuses, p. 17. 9 As origens do pensamento grego, p. 53. 11 Testemunbos e fragmentos, p. 30-31.FILOSOFIA A PASSAGEM DA FILOSOFIA COSMOLÓGICA À FILOSOFIA ANTROPOLÓGICA 52 53 ele, "e espero que me perdoes quando ouvires a razão, ou seja, que sou um A FILOSOFIA ANTROPOLÓGICA DE SÓCRATES amante do conhecimento, e os homens que residem na cidade são meus mestres, e não as árvores, ou o Os sofistas possibilitaram a mudança de ênfase do pensamento filo- sófico na Grécia antiga. Ao se preocuparem mais com as questões humanas Para alguns integrantes da pólis, Sócrates não passava de mais um (nómos) do que com as questões da natureza (physis), os sofistas proporcio- sofista, pois se ocupava do mesmo tipo de questões, isto é, das questões naram o início de uma nova fase da filosofia grega. Portanto, a mesma busca antropológicas. Porém, o que fez de Sócrates um filósofo e não um sofista? pela verdade que fez a filosofia se interessar pelas questões relativas ao kósmos, Talvez a diferença mais marcante entre Sócrates e os mestres da retórica agora, na era dos sofistas, faz com que a filosofia se interesse mais pelas seja o fato de que Sócrates preferiu a arte da dialética à da retórica, a arte da questões referentes ao anthropos, ao homem. Essa mudança de interesse persuasão. A retórica dirige-se sempre a uma multidão, ao passo que a dia- filosófico está expressa na passagem da filosofia cosmológica dos pré-socráticos lética só é possível em um diálogo entre dois. Sócrates dirigia-se aos "homens à filosofia antropológica de Sócrates (470-399 a.C.). que residem pólis" usando a arte do filósofo: o diálogo. Desde já, é bom Sócrates nada escreveu. Tudo, ou melhor, quase tudo o que dele conhe- que se leve em consideração o fato de que a dialética não é a via da mera cemos vem de Platão, que o elegeu personagem principal de todos os seus persuasão, mas da verdade. Sócrates acreditava que por meio da dialética diálogos escritos. Já os sofistas seguiram um curso semelhante ao dos pré- seria possível chegar à verdade. Somente após alcançar-se a verdade vem a socráticos em suas obras, ou seja, tudo o que temos deles são apenas alguns persuasão. Ora, a retórica dos sofistas busca uma persuasão que não advém pequenos tratados e fragmentos. Sendo assim, todo o imaginário que cria- da verdade, mas meramente das opiniões Para persuadir os mos, tanto de Sócrates como dos sofistas, praticamente vem das descrições interlocutores, o sofista impunha a sua própria opinião. Usava toda retórica que Platão fez deles. Ora, para Platão, enquanto Sócrates é o filósofo por possível para convencer os outros de que a sua opinião era a melhor. Sócrates, excelência, os sofistas não passam de charlatães e enganadores, cujo saber se porém, propôs outro tipo de discurso cuja persuasão não dependia exclusi- reduz à mera capacidade de usar bem a palavra e de, a partir dela, criar uma vamente da habilidade retórica, mas da capacidade de dialogar com alguém aparência de saber. Por isso, é natural que se reconheça apenas em Sócrates até o fim, ou seja, até encontrar a verdade. o marco da virada do pensamento filosófico grego, uma vez que os sofistas Tanto Sócrates como os integrantes da polis entendiam as opiniões não são considerados "filósofos" por Platão. Sobre essa virada do pensa- como se fossem expressões daquilo que aparece, isto é, das aparências. Por- mento ou melhor, sobre essa passagem de uma filosofia cosmológica tanto, a opinião expressa o mundo tal como ele se manifesta diante de nós. (pré-socrática) para uma filosofia antropológica (socrática), o filósofo ale- Isso não quer dizer que as opiniões eram compreendidas como representa- mão Ernst Cassirer afirmou o seguinte: ções subjetivas, isto é, representações que pertencem, exclusivamente, àqueles que as têm. Tampouco quer dizer que eram assimiladas como se fossem Os problemas da filosofia natural são subitamente eclipsados por uma nova questão que, a partir de então, parece absorver todo o interesse teórico do verdades últimas, válidas para todos os homens. Pelo contrário, o pressu- homem. Em Sócrates, não temos mais uma teoria independente da natureza posto das opiniões é de que o mundo é o mesmo para todos, embora se ou uma teoria lógica independente. Não temos sequer uma teoria ética manifeste de diversos modos a cada homem. congruente e sistemática no sentido em que foi desenvolvida nos sistemas Desenvolvida por Sócrates, a arte da dialética reconhece que assim éticos posteriores. Resta apenas uma questão: o que é o homem? Sócrates como todos possuem um lugar no mundo, do mesmo modo todos têm sua sustenta e defende sempre o ideal de uma verdade objetiva, absoluta e própria isto é, uma opinião própria acerca do mundo. Sabendo disso, universal. Mas o único universo que ele conhece, e ao qual se referem todas Sócrates iniciava seus diálogos sempre com perguntas, pois não é possível as suas indagações, é o universo do homem. Sua filosofia se é que ele saber qual é a visão de mundo de alguém se esse alguém não se expressar. possui é estritamente antropológica. Em um dos diálogos platônicos, Portanto, é preciso dialogar. É no diálogo que os homens conhecem suas Sócrates é descrito envolvido em uma conversa com seu pupilo Fedro. Estão opiniões e, consequentemente, suas verdades. caminhando, e logo chegam a um lugar fora dos portões de Atenas. Sócrates Sócrates queria fazer com que cada integrante da pólis "desse à luz" exprime sua admiração pela beleza do lugar. Fica deliciado com a paisagem, à qual faz grandes elogios. Mas Fedro o interrompe. Surpreende-se pelo fato às suas verdades. A metáfora recorrente é a da termo que vem do de que Sócrates se comporte como um estrangeiro passeando com um guia. "Cruzas a fronteira alguma vez?", pergunta-lhe. Sócrates introduz um signi- ficado simbólico em sua resposta. "É bem verdade, meu bom amigo", retruca 12 Ensaio sobre homem, p. 14-15.FILOSOFIA A PASSAGEM DA FILOSOFIA COSMOLÓGICA FILOSOFIA ANTROPOLÓGICA 55 54 grego e significa "realizar um parto". O método socrático de "parir" ou socrática, além de ser uma busca racional pela verdade, é uma ativida- as verdades é a dialética, o diálogo até o fim. importante notar que a dialética de que depende do diálogo. Se o pensamento pré-socrático buscava por socrática não obtém a verdade pela destruição da opinião. Pelo contrário, um lado a verdade observando solitariamente a natureza, por outro lado alcança a verdade a partir da confrontação de nossas opiniões, que exercem indaga os seres humanos e busca alcançar o conhecimento da verdade por um papel fundamental no processo de da verdade. meio do confronto das opiniões. O diálogo filosófico tem a missão de fomentar o conhecimento da verdade através do diálogo. Não é possível detectar a verdade do mesmo modo que os primeiros filósofos detectavam a natureza das coisas físicas. CONTRAPONTOS TEOLÓGICOS Sócrates entendia que o caminho da verdade só pode ser percorrido a partir Certa vez, propus aos meus alunos do curso de teologia a seguinte das relações humanas. Isso significa que a via da verdade começa com o questão: É possível pensar o "quadrado redondo"? Após um breve momento diálogo, com o confronto de opiniões. Observe o que Cassirer diz a respeito de silêncio todos, impetuosamente, manifestaram-se unânimes em negar dessa experiência de confronto, vivenciada pelo diálogo filosófico: tal possibilidade. A razão da unanimidade se deu pelo fato de todos con- cordarem que o "quadrado redondo" é um absurdo e, por isso, racional- Na verdade confrontar o homem, devemos enfrentá-lo diretamente, mente impensável. Em seguida, li para eles um trecho de A Trindade, de frente à frente, para entendê-lo. Logo, a característica distintiva da filosofia de Sócrates não é um conteúdo objetivo, mas uma nova atividade e função do Agostinho, e outro trecho das Institutas, de João Calvino. Eis os trechos: pensamento. A filosofia, que fora até então concebida como monólogo inte- lectual, é transformada em um diálogo. Só por meio do pensamento dialógico O Pai, o Filho e o Espírito Santo perfazem uma unidade divina pela inseparável ou dialético podemos abordar o conhecimento da natureza humana. Antes igualdade de uma única e mesma substância. Não são, portanto, três deuses, a verdade podia ter sido concebida como uma espécie de coisa pronta mas um só Deus, embora o Pai tenha gerado o filho, e assim, o Filho não é o que que poderia ser apreendida por um esforço do pensador individual e pronta- é o Pai. O Filho foi gerado pelo Pai, e assim, o Pai não é o que o Filho é. E o mente transferida e comunicada a outros. Mas Sócrates não pôde continuar a Espírito Santo não é nem o Pai nem o Filho, mas somente o do Pai e do subscrever essa opinião. É tão impossível implantar a verdade na alma de um Filho, igual ao Pai e ao Filho. homem quanto o é dar o poder de ver a um homem que nasceu cego. Por A Trindade, livro I, natureza, a verdade é fruto do pensamento Logo,'s só pode ser obtida mediante uma constante cooperação dos sujeitos em mútua interrogação e A fim de que ninguém sonhe com um Deus de três cabeças, nem pense que a resposta. Não é, portanto, como se fosse um objeto empírico; deve ser enten- substância divina se divide em três pessoas, será necessário buscar uma defini- dida como produto de um ato ção breve e fácil, que nos livre de todo erro: Deus é Três uma Única e mesma Ao dizer a Fedro "Sou um filósofo e os homens que residem na Institutas, livro I, cap. XIII, §2 pólis são meus mestres", Sócrates estava argumentando que a via para o conhecimento da verdade é uma via que não pode ser percorrida solitaria- Depois que terminei de ler os trechos, fiz uma série de perguntas. A mente. Filosofia em permanente diálogo com os outros. Portanto, primeira delas foi: "Vocês pensam em Deus quando oram?". E eles me o filósofo socrático não se propõe a buscar a verdade pela observação do. responderam afirmativamente. Então fiz outra pergunta: "Deus é Trino?". O valor de sua busca não está na revelação da physis como funda- E eles, novamente, responderam com um enfático "sim!". Nesse exato mento do kósmos, mas na pretensão de ser uma explicação racional, e não momento, fiz a última pergunta: "Sendo assim, qual é a diferença entre mitológica, das origens do mundo. Embora o pensamento cosmológico pensar no 'Deus Trino' e pensar no 'quadrado Percebi que eles seja uma explicação racional, o seu método é monológico, ou seja, é um ficaram totalmente sem reação. Fez-se um silêncio sepulcral. E por quê? método que pressupõe apenas a observação. Isso significa que a filosofia Baseados em princípios racionais (identidade e não contradição), eles tinham cosmológica ou pré-socrática não depende da interação com outro ser negado a possibilidade de pensar no "quadrado redondo". Como esses alu- humano para ser realizada. Em contrapartida, a filosofia antropológica nos de teologia poderiam argumentar a favor da possibilidade de pensar no Deus Trino sem abrir mão de seus princípios racionais? Ou seja, até que ponto devemos usar a razão e os seus princípios como base elementar de nossas construções teológicas? 13 Ensaio sobre homem, p. 16-17.FILOSOFIA A PASSAGEM DA FILOSOFIA COSMOLÓGICA À FILOSOFIA ANTROPOLÓGICA 56 57 Sempre que o nosso objetivo for a elaboração de uma teologia coe- Uma das tarefas mais importantes da teologia cristã é pensar sobre rente, isto é, racional, necessariamente faremos uso da razão. Como diz o Deus. Contudo, para realizar o pensamento sobre Deus, o teólogo deve ir, anglicano Robinson Cavalcanti: "Preguiça e ignorância não são sinônimos diretamente, à fonte primária de revelação máxima que temos à nossa dis- de espiritualidade cristã e dependência de Deus, isto é, do Deus que nos posição: a Sagrada Escritura. Ela é o ponto de partida e a fonte elementar fez Entretanto, a razão não é fonte de teologia. Ela não pode da teologia cristã. É nela que está o fundamento das respostas que podemos nos revelar Deus. Na verdade, é Deus quem se revela à nossa razão. Ora, um dar às indagações da filosofia. Entretanto, nessa fonte primária, a Bíblia, "quadrado redondo" é um absurdo porque é a produção humana de uma Deus se apresenta como um "mistério revelado" (cf. Rm 16.25-27, NVI). contradição que fere nossos princípios racionais. Jamais o Deus Trino poderia Ora, mistério é aquilo que para continuar sendo mistério deve permanecer ser um absurdo. E por um simples motivo: o Deus Trino não é uma produ- oculto. No entanto, quando falamos do conhecimento de Deus como mis- ção dos seres humanos. Absurdos são as contradições que nós, seres huma- tério oculto, não falamos de um conhecimento impossível, mas apenas que- nos, produzimos. remos evitar aquele discurso arrogante que pressupõe, nas entrelinhas, um É óbvio que uma definição de Trindade pode ser produzida pelos saber exaustivo de Deus. Quando falamos a respeito do mistério, que é a homens. Contudo, o Deus Trino não é criado por nada nem ninguém. plenitude do conhecimento de Deus, não nos referimos meramente a algo Sabemos que Deus. é Trino justamente porque ele se fez homem. Deus escondido e que deve permanecer como tal. Não afirmamos a realidade do possibilitou-nos conhecê-lo como Trino através da encarnação de Cristo. mistério para fugir de nossa responsabilidade de proclamar a "razão da espe- Não podemos perder de vista que a iniciativa de tornar-se conhecido como rança que há em nós" (cf. 1Pe 3.15, NVI). Trata-se, antes, de afirmar o Trino foi dada pelo próprio Deus. Se ele não se revelasse dessa maneira, mistério que deve ser dito e não silenciado, comunicado e não guardado nada nos faria conhecê-lo como Trino. Porém, Paulo disse aos coríntios: para Observe o que diz Salomão: "Agora, pois, vemos apenas um reflexo obscuro, como em espelho; mas, então, veremos face a face. Agora conheço em parte; então, conhecerei ple- Meu filho, se você aceitar as minhas palavras namente, da mesma forma como sou plenamente conhecido" (1Co 13.12, e guardar no seu coração os meus mandamentos; NVI). Em outras palavras, Paulo diz que não possuímos um conhecimento se der ouvidos à sabedoria pleno de Deus. É verdade que por meio de Jesus Cristo conhecemos o Pai, e inclinar o coração para o entendimento; Criador do Universo, mas, em certo sentido, esse conhecimento não é pleno. se clamar por entendimento e por discernimento gritar bem alto; A obra completa da revelação de Deus, efetuada por Cristo, apenas come- se procurar a sabedoria çou. A revelação plena ainda não se concretizou. como se procura a prata Portanto, a plenitude do conhecimento de Deus permanece como e buscá-la como quem busca um mistério a ser revelado. Para Martinho Lutero, o pai da Reforma Pro- um tesouro escondido, testante, Deus revelou-se por meio de Jesus, o Cristo, mas, mesmo assim, então você entenderá permaneceu como "mistério que nos fascina e nos conduz ao temor do o que é temer o SENHOR Senhor". Lutero pensava assim porque no estado de vida que nos encontra- e achará o conhecimento de Deus. mos não podemos conhecer a Deus plenamente. Assim, por mais que o Pois o SENHOR é quem dá sabedoria; Deus Trino não seja compreendido por nós, isso não significa que ele seja de sua boca procedem o conhecimento e o discernimento. (Provérbios 2.1-6, NVI) incompreensível ou irracional. A experiência de vida nos ensina que pode- mos levar um longo tempo para compreender determinadas coisas. Con- tudo, o fato de não as compreendermos agora não quer dizer que elas não A palavra "provérbio" vem do latim proverbia, e significa o "ato de sejam compreensíveis. Hoje podemos não entender dogma da Trindade, proclamar um dito breve sem argumentá-lo". O sentido latino de "provér- mas isso não significa que se trate de um absurdo incompreensível, tal como bio" está em profunda consonância com a finalidade do provérbio de é o "quadrado redondo". Afinal de contas, chegará o dia em que veremos Salomão. sábio rei de Israel não quer argumentar. Ele toma por certo o Deus face a face. que diz. Em outras palavras, seu propósito não é explicar um assunto, mas dá-lo a conhecer de modo enfático. Se observarmos bem o provérbio, vere- mos que Salomão não tenta provar que Deus dá o conhecimento. Pelo 14 A utopia p. 34. contrário, ele afirma enfaticamente: Deus dá o conhecimento! Ou seja, seFILOSOFIA A PASSAGEM DA FILOSOFIA COSMOLÓGICA À FILOSOFIA ANTROPOLÓGICA 59 58 conhecemos algo, é porque Deus nos deu a conhecer. E isso não é um 4. O Vermelho abrir-se para ele e seu povo passar. absurdo, pois se Deus não quisesse que o conhecêssemos jamais suspeitarí- amos de sua presença. Ora, se por meio das coisas criadas nós já suspeitamos 5. Faraó com seus cavaleiros serem tragados pelas águas do mesmo de sua presença, é porque, de algum modo, ele já se revelou a nós. Porém, mar. além de nos dar vestígios de sua presença, Deus nos deu o seu provérbio divino, a sua Palavra encarnada. Isto é, em vez de nos oferecer argumentos 6. Uma coluna de fogo em cada noite do deserto, e uma nuvem capazes de provar a sua existência, Deus nos a maior revelação que tranquila que o guiava protegendo-o do sol em cada novo dia. poderíamos ter dele nesse mundo: Jesus Cristo. Outro fato interessante é a comparação feita por Salomão no seu 7. O monte Sinai inteiro fumegando. provérbio. Ele fala do conhecimento de Deus como um "tesouro escondi- do". Não fala de um tesouro que deve permanecer oculto, mas de um te- Moisés viu tudo isso e outros tantos feitos extraordinários jamais vistos souro que devemos buscar de todo o coração. Nos tempos de Salomão, não por nós. Todavia, esse mesmo homem não inferiu de suas experiências extra- havia grandes empresas bancárias onde as pessoas pudessem depositar suas ordinárias a evidência do conhecimento de Deus. Pelo contrário, Moisés sabia riquezas. Portanto, era costume enterrar tesouros em lugares de difícil aces- que Deus estava muito acima de seus grandes e pequenos feitos: so. Analogamente, podemos dizer que o tesouro de Deus está aberto à busca, mas isso não quer dizer que ele seja obtido facilmente como pensam Disse Moisés ao "Tu me ordenaste: 'Conduza este povo', mas não alguns mercadores da "graça barata". Eles afirmam o tempo todo: "Conhe- me permites saber quem enviarás comigo. Disseste: 'Eu o conheço pelo nome e de você tenho me agradado'. Se me vês com agrado, revela-me os teus cemos a Deus!"; mas nem sequer manejam bem a palavra da verdade, isto é, propósitos, para que eu te conheça e continue sendo aceito por ti...". a palavra que lhes foi revelada. Quando a manejam, usam-na como Pedro, 33.12-13, NVI) que arrancou com um golpe de espada as orelhas do soldado Malco. A esses mercadores do evangelho que ferem com seus sofismas os ouvintes da proclamação divina Deus tem dito as mesmas palavras que Jesus disse a Pedro: "Embainha tua espada!" (Jo 18.11). Pensar sobre Deus é pensar no "mistério revelado". Mistério que se busca no silêncio da alma que ora. Mistério que embora nos coloque em pé diante dos grandes problemas da existência humana, ao mesmo tempo nos de joelhos diante de Deus. Mistério que nos fascina a alma e enche nosso coração de amor e desejo pelo cumprimento do propósito divino. Ora, não há dúvidas de que Paulo estava preocupado em ensinar a seu discípulo Timóteo a importância de manejar bem a "palavra da verdade" (cf. 2Tm 2.15). Entretanto, Paulo estava ciente de que conhecer bem as Escrituras é só o início de tudo, pois o estado de "pleno conhecimento de Deus" é ainda um mistério, uma promessa a ser cumprida (cf. 13.12). Gostaríamos de terminar este contraponto teológico com uma ora- ção de Moisés, que expressa de modo desafiador a busca pelo conhecimen- to de Deus. Não seríamos capazes de perceber a dimensão desafiadora da oração de Moisés sem antes lembrarmos que ele viu: 1. A sarça arder em chamas sem se consumir. 2. As águas transformarem-se em sangue. 3. O seu cajado engolir as serpentes deFILOSOFIA A PASSAGEM DA FILOSOFIA COSMOLÓGICA À FILOSOFIA ANTROPOLÓGICA 60 61 6. PERGUNTAS DE RECAPITULAÇÃO Qual é a diferença entre physis e nómos? 1. Em que consiste a crítica de Heráclito às explicações cosmológicas centradas na ideia de um princípio imutável de geração do kósmos? que significa as expressões "fluxo contínuo" e "tensão dos contrários"? 7. Quem eram os sofistas? O que é a retórica sofística? Qual a diferença entre o discurso dos poetas e o discurso dos sofistas? 2. Explique a distinção que Heráclito estabelece entre verdade e 8. Quais são as divergências entre Sócrates e os sofistas? Como se dis- tingue o discurso dialógico de Sócrates do discurso monológico dos pré-socráticos? 3. Por que considera a ideia heracliteana de "fluxo contí- nuo" uma ilusão? 9. Por que a filosofia de Sócrates é uma "filosofia antropológica"? Em que se fundamenta a dialética socrática? 4. que são os princípios de identidade e da não contradição? De acor- do com as ideias de Parmênides, explique por que podemos pensar numa "sereia", mas não num "quadrado redondo". 10. Até que ponto nós devemos usar a razão e os seus princípios como base elementar de nossas construções teológicas? 5. Explique a distinção que estabelece entre verdade e ( (FILOSOFIA 62 ANOTAÇÕES 0 realismo das "ideias" e realismo das "imagens" A necessidade de solucionar o impasse gerado pelas reflexões de Heráclito e Parmênides e, ao mesmo tempo, de combater mais efe- tivamente o relativismo dos sofistas, gerou duas filosofias que se tornaram os dois referenciais filosóficos mais importantes da história da formação do pensamento ocidental. Trata-se das filosofias de Platão e Aristóteles. Ambos fundaram escolas filosóficas que atravessaram séculos. São filosofias que influenciaram até mesmo uma legião de teólogos cristãos. Para solucionar o impasse entre Heráclito e Parmênides, Platão concebeu dois mundos: o "das ideias" e o "sensível". O mundo sensível é o mundo das "imagens", da "aparência". O mundo das ideias é o mundo da "verdade", portanto, o mundo "real". Aristóteles, que foi discípulo de Platão, discor- dou dessa solução de seu mestre. Para ele, Platão equivocou-se ao negar a importância do mundo sensível para o conhecimento do mundo inteligível das ideias. Portanto, enquanto a filosofia de Platão constituiu-se uma filo- sofia que afirmava a realidade das "ideias", a filosofia de Aristóteles consti- tuiu-se afirmando o oposto, isto é, a realidade das "imagens". Mas antes de falarmos sobre esses dois pontos de vista distintos, é necessário retomarmos a noção de "dialética socrática" e sua importância para o desenvolvimento das filosofias posteriores.FILOSOFIA REALISMO DAS "IDEIAS" E REALISMO DAS "IMAGENS" 64 65 A DIALÉTICA SOCRÁTICA E atenienses desconfiassem de suas intenções. A propósito, uma parte da juven- tude que seguia o filósofo tornou-se conhecida pelas traições que pratica- CONHECIMENTO DA VERDADE ram contra a pátria. Por exemplo, (c. 450-404 a.C.), um dos Os sofistas não acreditavam na possibilidade da isto é, do jovens seguidores de Sócrates, traiu os atenienses, passando para o lado dos "conhecimento da verdade". Por isso, preocupavam-se apenas em persuadir espartanos. Em consequência disso, Sócrates foi julgado e condenado à pena de morte em 399 a.C. seus interlocutores. Ao contrário dos sofistas, Sócrates não estava disposto a abandonar a busca pela verdade. Sua proposta era alcançá-la, e, por isso, não podia aceitar o método sofístico da retórica. Enquanto o método dos sofis- o REALISMO DAS "IDEIAS" tas concentrava-se em dar respostas eloquentes às questões feitas pelos discí- pulos, o método socrático consistia, basicamente, em interrogar os discípulos Platão (427-347 a.C.) conheceu Sócrates com aproximadamente 20 a fim de que eles, por si só, pudessem alcançar o verdadeiro saber. anos de idade. Ele era um daqueles jovens atenienses que seguiam o filó- A palavra "método" vem do grego méthodos e significa "via", "cami- sofo dialético. Depois da morte de seu mestre (399), Platão, com aproxi- nho", "rota". Método, portanto, é o caminho que se deve percorrer para madamente 28 anos, deixou Atenas e foi viajar pelo mundo. Somente chegar-se a determinado lugar. No final do capítulo anterior, aprendemos quando estava próximo de completar os seus 40 anos, ele resolveu voltar que Sócrates criticou o método retórico dos sofistas, estabelecendo a arte da para sua pátria. Ao chegar a Atenas, fundou sua escola filosófica, bati- dialética como método apropriado para se alcançar a Vimos que a zando-a de "Academia". A escola foi assim chamada porque o pedaço de dialética é a arte que busca a verdade através da confrontação das opiniões terra que ela ocupava foi um presente que Academos, um benfeitor de consideradas "verdadeiras". Agora, daremos mais um passo. Veremos em Atenas, deu para Platão. Portanto, o nome "Academia" não é nada mais que que consiste a confrontação das opiniões realizada pelo diálogo socrático. uma homenagem a Academos. O diálogo socrático constituía-se em dois momentos. No primeiro, A Academia é a primeira instituição permanente de pesquisa e ensino chamado de protréptico, isto é, "exortação", Sócrates convidava seu superiores do Ocidente, isto é, o primeiro modelo de universidade. obje- interlocutor a filosofar, ou seja, a buscar a verdade; no segundo momento, tivo da Academia não era, simplesmente, realizar investigações científicas e chamado de élenkhos, isto é, "indagação", Sócrates interrogava o seu filosóficas. Ela pretendia ser também um centro de preparação para uma interlocutor a fim de que este oferecesse os seus argumentos. Em seguida, atuação eficaz na vida comunitária da pólis. Tal preparação consistia, essen- tais argumentos eram comentados e refutados por Sócrates, que, novamente, cialmente, no esforço conjunto de pessoas dedicadas a buscar o conheci- interrogava o seu interlocutor. Como se pode notar, o élenkhos era um mento da verdade. momento dividido em duas fases de indagações. Na primeira fase, as inda- A peculiaridade da filosofia de Platão foi a de ter sido a primeira gações fundamentavam-se na eiróneia, isto é, na "ironia". Nessa fase, Sócrates grande síntese do pensamento grego antigo. Lembremo-nos de que depois mostrava-se interessado em aprender algo de seu interlocutor. Como se de Heráclito e Parmênides, a filosofia grega ficou refém de um impasse. nada soubesse do assunto, interrogava-o. seu objetivo era fazê-lo argu- De um lado, estava a tese de Heráclito de que a realidade é mutável e a mentar sua opinião. Depois que o seu interlocutor expusesse seus argumen- imutabilidade é uma ilusão, e, do outro, estava a antítese de Parmênides tos, Sócrates refutava-os com a finalidade de mostrar ao seu interlocutor de que a realidade é imutável e a mutabilidade é uma ilusão. Quem ofe- que a opinião que ele acreditava ser a mais pura verdade não passava de uma receu a primeira solução desse impasse foi Platão, que elaborou uma sin- "sombra da verdade". Portanto, o objetivo da ironia era levar o interlocutor tese capaz de explicar que o "fluxo contínuo das coisas" e a "imutabilidade a descobrir, por si só, que não sabia nada daquilo que dizia saber. Na segunda do ser" são pólos que podem ser considerados a partir de uma visão. mais fase, denominada de (maieutike), Sócrates indagava o seu abrangente da realidade. interlocutor sugerindo novos caminhos ou soluções para o problema. Sua Platão propôs a ideia de dois "mundos" diferentes. Um deles é o finalidade era libertá-lo de suas opiniões para que ele alcance à epistéme, mundo inteligível, que é o "mundo das ideias"; o outro é o mundo sensível, isto é, o conhecimento da verdade. que é o "mundo das coisas sensíveis ou aparentes". mundo das ideias é a Talvez não seja exagero dizer que Sócrates deu a sua vida pelo método esfera do verdadeiro conhecimento. Já o mundo das coisas sensíveis é a dialético. O fato de apresentar-se como inquiridor implacável dos atenienses, esfera das opiniões, das aparências, da ilusão. Ora, essa noção de dois mundos questionando-os sobre os mais diversos temas, fez com que os próprios diferentes era completamente nova no cenário filosófico da Grécia antiga.FILOSOFIA o REALISMO DAS "IDEIAS" E REALISMO DAS "IMAGENS" 66 67 Para explicá-la, Platão usou uma alegoria que ficou conhecida como mito mundo das coisas tais como elas são. que mais poderia acontecer após da esse retorno? Os demais prisioneiros zombariam dele, não acreditariam em No livro VII da uma das obras mais importantes de suas palavras, pois o único mundo real é o mundo da caverna. Por isso, Platão, o filósofo narrou o episódio em que Sócrates explica ao jovem tentariam silenciá-lo de todas as formas. No entanto, se ele teimasse em Glauco como se conhece a verdade. Para tanto, Sócrates estabeleceu uma afirmar o que viu e insistisse em convidá-los a sair da caverna, os homens analogia entre conhecer e contemplar. Essa analogia é o próprio mito da das sombras o matariam. Foi assim que Sócrates concluiu o mito da caverna. caverna, que é basicamente uma narrativa sobre seres humanos que estão, O mito da caverna expressa o desejo natural dos seres humanos pelo desde o seu nascimento, aprisionados em uma caverna subterrânea. Eles conhecimento da verdade. Entretanto, além de expressar esse desejo, o mito não sabem o que é o mundo fora da caverna. Suas pernas e seu pescoço também revela a missão do filósofo, que é libertar os prisioneiros do mundo estão algemados de tal sorte que são forçados a permanecer sempre no soturno da caverna. Os prisioneiros são aqueles que tomam as sombras como mesmo lugar e a olhar apenas em direção a uma parede. Atrás deles, na se fossem as coisas mesmas. O filósofo, porém, é aquele que não se satisfaz entrada da caverna, há um foco de luz que ilumina todo o ambiente. com as imagens projetadas no fundo da caverna, mas impulsionado pelo Entre esse foco de luz e os prisioneiros, há uma subida ao longo da qual desejo de contemplar as coisas mesmas, arrebenta os grilhões que aprisio- foi erguido um pequeno muro. Para além desse pequeno muro, encon- nam. Ao se libertar, dirige-se ao mundo verdadeiro. Quando o mundo ver- tram-se homens que transportam estátuas que ultrapassam a altura do dadeiro se abre para ele, ou seja, no momento em que ocorre a revelação da pequeno muro. Eles carregam estátuas de todos os tipos: de seres huma- verdade (alethéia), o filósofo se compraz apenas em contemplar. Essa con- nos, de animais e de toda sorte de objetos. Por causa do foco de luz e da templação é o que Platão chamou "conhecimento da verdade". posição que ele ocupava, os prisioneiros são capazes de enxergar, na parede Contemplar a verdade é contemplar o Eidos, que é a "ideia", isto é, a do fundo, as sombras dessas estátuas, mas sem verem as próprias estátuas, "forma inteligível" captada pelo pensamento (nóesis). Nas palavras do nem os homens que as transportam. Como nunca viram outra coisa além helenista italiano Rodolfo Mondolfo: prisioneiro libertado das cadeias, das sombras, os prisioneiros pensam que elas são as próprias coisas. Ou que conseguiu ver a luz, é o filósofo que, da contemplação das coisas sensí- seja, não podem saber que as sombras não passam de projeções das coisas, veis, sombras das ideias, se eleva à contemplação da luz das ideias nem podem saber que as coisas projetadas são, na verdade, estátuas carre- É preciso tomar cuidado para não confundir a "ideia" com a fisionomia das gadas por outros seres humanos fora da caverna. coisas percebidas. A ideia não é a fisionomia, mas é a forma inteligível das O que aconteceria, pergunta Sócrates a Glauco, se alguém libertasse coisas. Forma que, diga-se de passagem, é conhecida apenas pelo intelecto, os prisioneiros? que faria um prisioneiro liberto daquelas algemas? Sem ou seja, racionalmente. eidos ou a ideia é a forma própria, isto é, a essência dúvida, olharia toda a caverna. Ao seu redor, veria os outros prisioneiros, o de uma coisa que a distingue de todas as outras. Logo, o eidos é a verdade pequeno muro às suas costas, as estátuas e a entrada da caverna. Seu corpo que o intelecto (nous) contempla. doeria a cada passo dado. Afinal de contas, ele ficou imóvel durante muitos Enquanto as coisas sensíveis são múltiplas, as ideias são unas. Por exem- anos. Não as dores do corpo, ao se dirigir à entrada da caverna plo, existem diversos tipos de cadeira: de madeira, de plástico, de metal; azul, ficaria momentaneamente cego, pois aquele foco de luz que clareava a verde, amarela; com encosto, sem encosto; enfim, há uma infinidade de caverna, na verdade, era o sol. Porém, com o passar do tempo, já acostu- tipos de cadeira no "mundo Entretanto, no "mundo das ideias" há mado com a claridade, seria capaz de ver não só as estátuas, mas também os apenas uma ideia de cadeira. Esta ideia de cadeira é a "cadeiridade", isto é, a homens que as carregavam. Prosseguindo em seu caminho, passaria a enxergar "essência de cadeira", aquilo que faz com que jamais uma cadeira de plás- as próprias coisas, descobrindo que, durante toda sua vida, não contemplara tico seja confundida com uma mesa de plástico. Sendo assim, há, pelo senão sombras das estátuas projetadas no fundo da caverna. menos, duas espécies de contemplação: a intelectual e a sensível. Quando Na condição de conhecedor desse "novo" mundo, o prisioneiro liberto contemplamos uma cadeira de plástico vemos, por meio de nossos olhos regressaria ao velho mundo subterrâneo. Ao chegar, ele contaria aos outros (órgão sensorial), apenas uma "sombra", entre outras, da ideia de cadeira. prisioneiros, ainda algemados, o que viu. Sua missão seria libertá-los, pois é Porém, quando contemplamos a própria ideia de cadeira vemos, através do somente na condição de livre que alguém pode ser capaz de contemplar o nous, a "cadeiridade", ou seja, a essência da cadeira, que é sempre una. 1 Cf. Platão. República, p. 319-324 (514a-518b). 2 pensamento antigo, p. 218.FILOSOFIA REALISMO DAS "IDEIAS" E REALISMO DAS "IMAGENS" 68 69 Essa captação ou contemplação do intelecto é o que, comumente, se das coisas) confrontando-as. Só a partir dessa confrontação é possível alcan- chama de "visão intelectual" ou "visão espiritual" do mundo das ideias. çar o legítimo conhecimento da verdade. Em outras palavras, a dialética mundo oposto ao mundo das ideias é o mundo sensível ou o mundo do provoca o confronto das opiniões, das imagens. E nesse confronto torna-se eidolon. o eídolon é a "imagem", o "fantasma", a "sombra" do eidos. filóso- possível recuperarmos a verdade esquecida nos mais profundos fo é aquele que sabe distinguir os dois mundos, compreendendo que o da alma. Observe o que diz Rodolfo Mondolfo: mundo sensível é apenas aparente, isto é, uma realidade inferior ao mundo inteligível, que é a realidade suprema, a essência das coisas, a morada da Diante da dificuldade que a alma experimenta para recordar o que aprendeu verdade. A caverna é o mundo da das sombras, das imagens, das apa- na sua existência anterior ao seu ingresso no corpo, surge o método socrático da rências. As "coisas mesmas" estão do lado de fora da caverna, em outro que ajuda a alma a extrair de si os conhecimentos que contém em si mundo. Em suma, Platão concebe dois mundos, e a verdade está apenas em mesma. Assim, do método socrático da maiêutica Platão extraiu não só uma um deles: o mundo das ideias. ontologia da alma cognoscente, mas também uma ontologia da verdade conhe- Ora, é importante que saibamos que Platão não nega a existência das cida, isto é, das sombras. Pelo contrário, elas existem, mas não podem ser consideradas como se fossem as coisas mesmas. Na verdade, as sombras só existem porque "par- Agora, passamos ao estudo da filosofia de Aristóteles. ticipam" (méthexis = "que procede de") das ideias. Isso não significa que as ideias estejam nas coisas sensíveis. Pelo contrário, as coisas sensíveis são refle- XOS e sombras das ideias. Estas são a razão de ser daquelas, e não o contrário. REALISMO DAS "IMAGENS" Por esse motivo, a percepção sensorial jamais poderia ser o ponto de partida Aristóteles (384-322 a.C.) nasceu em Estagira (atualmente Tessa- para alcançar o eidos. Qual seria, então, o ponto de partida? A causa e a lônica), cidade grega que ficava cerca de 300 quilômetros ao norte de Ate- fonte de tal contemplação está na anámnesis, isto é, na "reminiscência" (recor- nas. Era descendente de uma geração de médicos. Seu pai foi o médico dação). A busca platônica pela verdade (alethéia) está profundamente particular de Amintas II (rei da Macedônia e avô de Alexandre, o Grande). enraizada na "teoria da reminiscência" ou "teoria da recordação". O que isso Entretanto, em vez de tornar-se mais um médico da família, o jovem significa? Platão argumentava a favor da preexistência da alma no mundo Aristóteles, aos 17 anos, decidiu mudar-se para Atenas a fim de estudar das ideias. Isso quer dizer que o ato de contemplar a verdade é um ato de filosofia com Platão. Durante aproximadamente 20 anos frequentou a Aca- recordação das ideias que já foram contempladas antes mesmo de a alma demia, deixando-a somente após a morte de seu mestre em 347. encarnar. Por isso, Platão diz que "conhecer é lembrar", isto é, conhecer é Em 342, Aristóteles foi chamado à Macedônia por Filipe II para ser recordar as "ideias" perdidas "nas águas do esquecimento" (léthe). o preceptor de seu filho Alexandre. Alguns anos depois, com o advento de Não devemos entender que o fundador da Academia, por ter recor- Alexandre ao trono (335), Aristóteles retornou a Atenas e fundou sua pró- rido à teoria da reminiscência, aderiu a busca da verdade tal como os pria escola em um ginásio chamado Liceu. Esse ginásio situava-se em meio poetas homéricos faziam. Platão tentou revitalizar a busca pela verdade, a um bosque e era contornado por uma alameda, onde Aristóteles e seus enfraquecida pelos sofistas, mas sem retornar às origens pré-filosóficas da discípulos costumavam conversar enquanto passeavam. Essa atividade era alethéia poética. Seu esforço era resgatar a importância da busca pelo conhe- conhecida como perípatos, a filosofia aristotélica ser denominada de cimento da verdade, que só pode ser alcançado pela contemplação das filosofia peripatética. Aristóteles dirigiu o Liceu por treze anos. Depois da "ideias". Platão não queria uma revelação dos deuses - como queriam os morte de Alexandre, o partido antimacedônico obrigou-o a se retirar de poetas mas apenas a recordação pela contemplação do mundo Atenas para a Calcídia, onde morreu em 322. inteligível. Nesse processo de recordação, também é importante notar que Apesar de ter sido um dos mais famosos discípulos de Platão, não está em jogo possuir a verdade, mas simplesmente recordá-la. Portanto, Aristóteles rompeu com platonismo. Aristóteles não acreditava que as conhecer a verdade é reencontrar um saber já adquirido, porém esquecido. "ideias" estavam à parte do mundo sensível. No entanto, para alguns histo- O filósofo dialético é aquele que é capaz de despertar a alma de seus riadores da filosofia, como Jean Bernhardt, Aristóteles não rompeu propria- interlocutores para a recordação da verdade. Platão, seguindo os passos de mente com Platão, mas apenas desejou ser mais platônico que o fundador seu mestre, mostra que só há um caminho para recordar o que já foi apren- dido. Esse caminho é a dialética. A dialética é o método filosófico, por excelência, pois tem a finalidade de superar as opiniões (imagens que temos 3 pensamento antigo, p. 215. (FILOSOFIA REALISMO DAS "IDEIAS" E REALISMO DAS "IMAGENS" 70 71 da Academia.4 Seja como for, o fato que Aristóteles não concordou com a nunca admirou o mundo com espanto e, logo em seguida, não passou a bus- "teoria das ideias", ou seja, discordou da síntese que Platão fez dos pensa- car explicações da razão de ser das coisas admiradas? Ora, a admiração não é mentos de Heráclito e nada mais que um olhar pasmo para o mundo. É como diz Fernando Pessoa: Na ótica aristotélica, Platão errou ao considerar o mundo das coisas sensíveis como se fosse um engodo, uma ilusão, um mundo aparente. Ora, O meu olhar é nítido como um girassol. de acordo com Aristóteles, o mundo das coisas sensíveis é o único mundo Tenho o costume de andar pelas estradas real. Portanto, não podemos afirmar que ele é uma "sombra da verdade", Olhando para a direita e para a esquerda, pois o mundo sensível é o único mundo que existe. Aristóteles também não E de vez em quando olhando para trás... E o que vejo a cada momento concordava com a noção platônica de que a verdade está apenas no mundo É aquilo que nunca antes eu tinha visto, inteligível. A verdade, segundo Aristóteles, está nas próprias coisas e a tarefa E eu sei dar por isso muito bem.. da filosofia consiste em conhecê-la tal como ela é. Entretanto, para conhe- Sei ter pasmo essencial cê-la, é preciso partir de nossas sensações. É certo que a verdade torna-se Que tem uma criança se, ao nascer, conhecida pelo pensamento (nóesis) que capta a "realidade das coisas", isto Reparasse que nascera deveras... é, a "essência" que faz as coisas serem o que elas são. Porém, a busca inte- Sinto-me nascido a cada momento lectual pela verdade não deve nos levar para longe do mundo que vivemos, Para a eterna novidade do Mundo...6 pois a verdade que buscamos está justamente em nosso mundo. Nas pri- meiras linhas da Metafísica, Aristóteles diz algo que merece toda atenção: A prova de que nossa natureza humana nos impele a buscar pelo saber está nas nossas próprias sensações, pois é por meio de nossa capaci- Todos os homens, por natureza, tendem ao saber. Sinal disso é o amor pelas dade de perceber o mundo que somos despertados para buscar o sentido ou sensações (...) De fato, os homens começaram a filosofar, agora e desde sempre, a razão de ser das coisas. É através das sensações que podemos admirar o por causa do espanto (thaumázein), na medida em que, inicialmente, ficavam mundo e ao mesmo tempo ser afetados por ele. E mesmo que nossas expe- perplexos diante dos fenômenos surpreendentes mais comuns (...) Ora, quem riências sensoriais não nos digam o porquê das coisas, não devemos reduzi- é tomado pela dúvida e pelo espanto reconhece sua ignorância. E é por isso las à mera ilusão, pois, como nos ensina Aristóteles, é preciso partir das que, também, o philómitos (aquele que ama o mito) é, de certo modo, sensações se queremos conhecer as próprias coisas, (aquele que ama a sabedoria), pois mito constitui-se de elementos espanto- Tanto Platão como Aristóteles vêem no espanto o ponto de partida De modo que, se os homens filosofaram para libertarem-se da ignorância, da filosofia. Porém, Aristóteles difere de Platão ao indicar que são as sensa- é evidente que buscavam o conhecimento unicamente em vista de saber e não por alguma utilidade ções - e não as reminiscências - que nos despertam para o conhecimento da verdade. Platão, ao contrário, acreditava que as sensações eram a causa de Se nos espantamos com o mundo em que vivemos é porque em nossa todo engano. Por isso, deve-se "abandonar" as sensações se o objetivo é conhe- natureza está engendrada a busca pelo saber, isto é, a busca pela verdade. cer a verdade. Para Platão, só a reminiscência ou a recordação das ideias Olhamos para as pequenas manifestações da vida e elas nos causam um pode levar os seres humanos à Ora, para mostrar que não é neces- profundo assombro. Sentimos o cheiro, o gosto, o calor e o frescor das míni- sário conceber uma doutrina da reminiscência, nem mesmo a separação mas coisas e isso é o suficiente para fazer-nos procurar explicações últimas. entre o mundo inteligível e o mundo sensível, Aristóteles dedicou-se a ana- Os poetas homéricos, autênticos philómitos, manifestavam essa tendência lisar, minuciosamente, as coisas a partir de suas "causas primeiras". natural em suas narrativas e, por isso, buscavam, na mitologia, explicações As causas primeiras são as razões que nos dizem que é, como é, por que para suas indagações. O mesmo ocorre com os primeiros filósofos, que, é e para que é uma coisa. Aristóteles não apresentou uma única causa, mas admirados com a physis, passaram a buscar explicações cosmológicas para os quatro causas ou razões pelas quais podemos dizer que uma coisa é. São elas: Nós mesmos passamos por essa vivência do espanto quando nos permitimos ver e contemplar o universo ao nosso redor. Quem de nós 1. Causa material: aquilo de que uma coisa é feita (por exemplo, a matéria dos animais são a carne e o osso; a matéria da esfera de Cf. François Châtelet (ed.). História da filosofia. Vol. 1, p. 89. e 11 (980b21 e 982b11). eu profundo e os outros eus. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980, p. 137.FILOSOFIA REALISMO DAS "IDEIAS" E REALISMO DAS "IMAGENS" 72 73 bronze é o bronze; o brinco de ouro é o ouro; da estátua de aristotélica, ato é a causa formal das coisas. Dessas breves observações pode- madeira é a madeira; e assim por diante). mos concluir, em primeiro lugar, que a potência e a matéria são idênticas, tal como a forma e o ato são idênticos. Em segundo lugar, que a matéria é uma 2. Causa formal: a própria "forma" (eidos) ou a essência das coisas realidade passiva (potência), que precisa da forma, isto é, do ato, para cons- (por exemplo, o rio ou o mar são formas distintas da matéria tituir os seres. água; a mesa é a forma assumida pela matéria madeira etc.). A atualização da forma é o fim de todo movimento. Aristóteles con- sidera que, se aquilo que é visado no movimento é a "atualização" da forma, 3. Causa eficiente ou motora: aquilo de que provêm a mudança e o deve-se, necessariamente, admitir que o ato, como fim, antecede a potência movimento das coisas (por exemplo, o pai é a causa eficiente do e é mais perfeito que ela. Esse raciocínio deve nos conduzir, por uma neces- filho; a vontade é a causa eficiente de várias ações dos homens; o sidade lógica, a um primeiro ato, que antecede e sustenta todos os outros, chute que um jogador de futebol dá em uma determinada bola é isto é, uma forma perfeita, que atua como motor do kósmos harmonioso e causa eficiente de seu movimento etc.). ordenado em que vivemos. Esse primeiro ato é Deus, que é a causa do mundo, e não o seu criador - o conceito de Deus como criador só surge 4. Causa final: a razão que dá o motivo ou a finalidade para alguma com a revelação cristã de Deus. coisa existir e ser tal é (por exemplo, o bem comum é a Precisamos agora elucidar dois conceitos-chave da metafísica causa final da política; a felicidade é a causa final da ação ética etc.). aristotélica: a substância e o acidente. As coisas que Aristóteles chama de "substâncias" não são as coisas reais, mas são as mais importantes. Das quatro causas que acabamos de descrever, as duas primeiras são Há, pelo menos, dois sentidos de "substância": num primeiro sentido, as responsáveis pela estrutura de todas as coisas sensíveis. Quando Aristóteles "substância" significa aquilo que nós designamos de sujeito (Sócrates, João, argumenta que a forma e a matéria são as causas dos sensíveis, podemos Maria, este cão, esta flor, esta mesa etc.); num segundo sentido, a substân- entender, em outras palavras, que a forma e a matéria fundam, condicionam cia significa o ou a espécie a que o sujeito pertence (homem, grego; e estruturam as coisas que são. animal, bípede; vegetal, erva; mineral, ferro etc.). No primeiro sentido, a Aristóteles afirma que não podemos prescindir do fato de que a forma substância é um ser individual, que existe efetivamente; no segundo é o é imutável. Ora, de acordo com a nossa percepção sensorial, constatamos que conjunto das características gerais que os sujeitos de um gênero e de uma as coisas mudam, ou seja, se transformam. Por exemplo, a semente se trans- espécie possuem. Aristóteles usa a expressão substância primeira para refe- forma em árvore; o ovo se transforma em ave; o bebê se transforma em ado- rir-se aos sujeitos individuais que existem efetivamente (por exemplo, lescente; e assim por diante. Se a forma é imutável, então, qual é a razão dessa Sócrates); e substância segunda para referir-se aos sujeitos universais, isto é, transformação? Segundo Aristóteles, o devir ocorre porque é da natureza da e espécies que não existem em si e por si mesmos, mas apenas nos matéria transformar-se. Assim, a causa da transformação é a matéria e não a indivíduos. Em outras palavras, os gêneros e as espécies são universalidades forma. Os seres compostos de matéria e forma sempre mudam. Contudo, é que não existem em si mesmas e que o pensamento só conhece através de importante notar que as mudanças ocorrem em coisas que já têm uma com- sua presença nos particulares. binação de forma e matéria. As mudanças jamais ocorrem pela combinação Qualquer coisa no mundo, além de ser substância possui "acidentes". da matéria sem forma com a forma sem matéria. Por uma razão bem simples. Apesar de não ser parte necessária da substância, o acidente é uma proprie- Não existe forma sem matéria e vice-versa. Formas ou "ideias" não podem dade ou um atributo que acompanha sempre uma substância, como a cor existir à parte da matéria. Portanto, não existe um mundo ideal onde existem vermelha que acompanha uma maçã. Ora, existem maçãs que não são verme- formas ou ideias separadas, como entendia Platão. lhas. Logo, a "cor vermelha", que é um acidente da substância "maçã", não faz A dinâmica das transformações está ligada às noções de ato (atuali- parte da essência da maçã. Um acidente nunca tem existência independente, dade) e potência A potência é o que está contido numa nunca pode ser autossuficiente como é a substância. Por exemplo, o acidente matéria e que pode vir a existir (por exemplo: a semente é uma árvore em cor jamais existe separado de uma substância. Não dá para separar a cor ver- potência ou uma árvore em potencial). ato é a atualização de uma maté- melha da maçã! A cor, para existir, precisa uma substância. No ria, isto é, a forma que atualiza uma potência contida na matéria. (por entanto, o acidente não é o que a coisa é. Se dissermos que uma maçã é exemplo: a árvore é o ato da semente). Não podemos confundir a atualiza- vermelha estamos dizendo apenas que a maçã possui a qualidade de ser ção da matéria com as "ações físicas ou psíquicas". No contexto da metafísica vermelha. A maçã não é uma cor, mas uma fruta. A propósito, o teólogo (FILOSOFIA 74 REALISMO DAS "IDEIAS" EO REALISMO DAS "IMAGENS" 75 reformado, R. C. Sproul, em seu livro Filosofia para iniciantes, faz-nos lem- brar que essas noções aristotélicas de substância e acidente foram usadas na dúvida ou um questionamento sobre a pessoa de Deus. Por exemplo, Agos- igreja para definir conceitos teológicos da mais alta importância: tinho não pergunta pela existência do Altíssimo. E o motivo é simples. Quando amamos não nos preocupamos em provar a existência da pessoa Um exemplo termo "transubstanciação", usado pela Igreja Católica para amada, pois aquele que ama não necessita de uma prova mais contundente descrever o mistério da missa. Aristóteles fizera distinção entre a substância que o seu próprio amor. Isso é assim porque não podemos simplesmente e os acidentes de uma coisa. A substância é a essência da sua natureza, amar. Quem ama, ama alguém ou alguma coisa. Sempre que amamos há enquanto seus acidentes são suas qualidades externas, Um algo a que se dirige nosso amor. Não podemos escapar carvalho tem os acidentes de ser alto e rígido porque esses acidentes estão Outra coisa da qual não podemos duvidar é o nosso próprio amor. ligados à substância da árvore. A doutrina da transubstanciação afirma que, Quando amamos temos sempre a certeza de que amamos, pois ninguém na missa, a substância do pão e do vinho é transformada milagrosamente na pode duvidar do amor que possui. Podemos até dizer que não amamos, mas substância do corpo e do sangue de Cristo, enquanto os acidentes do pão e nossa consciência não nos permite mentir, para nós mesmos, o amor que do vinho permanecem os mesmos. Essa transação envolve um duplo milagre. sentimos. Nossa consciência é, portanto, a testemunha ocular de nosso amor. Por um lado, você tem a substância do corpo e do sangue de Cristo presente Por isso, não conseguimos negá-lo. A consciência de Agostinho testifica o sem os acidentes do corpo e do sangue de Cristo. Por outro lado, você tem os acidentes do pão e do vinho sem a substância do pão e do vinho. por isso que seu amor a Deus (cf. 2Co Como não existe testemunho tão indubitável os elementos ainda têm a aparência de pão e vinho, o gosto de pão e vinho, e como esse, não sobra espaço em seu coração para duvidar de seu amor a parecem ao tato serem pão e vinho. Apesar de a linguagem de Aristóteles ser Deus. Nada pode abalar ou pôr em dúvida a certeza garantida pelo teste- usada para formulá-la, a doutrina da transubstanciação representa um dis- munho de sua consciência. tanciamento total da sua filosofia. Aristóteles aceitava a distinção entre a fato de amarmos a Deus não implica nosso conhecimento dele. substância de uma entidade e seus acidentes, mas jamais a separação deles A certeza que Agostinho tem de seu amor a Deus, advinda do testemunho (como exige a transubstanciação). Ele afirmava que os acidentes de uma de sua consciência, não pode ser transferida para os limites de seu conheci- coisa são gerados por sua substância ou fluem dela. Um carvalho tem bolotas mento de Em outras palavras, sua consciência, embora testifique o porque esse tipo de fruto faz parte dos acidentes da substância de um carva- seu amor, não testemunha a favor de seu conhecimento de Deus. Portanto, lho. A presença de bolotas sinaliza a presença de um carvalho, e não de um a dúvida de Agostinho não é referente ao seu amor a Deus, mas ao seu elefante, porque a substância de um elefante não produz os acidentes das bolotas. Portanto, a substância de uma coisa gera seus acidentes. É claro que conhecimento dele. Observe que essa dúvida não faz desfalecer o seu amor a Igreja Católica compreendeu a filosofia de Aristóteles ponto e enten- nem o faz negar Deus, antes em questão o homem que ele é e o conhe- deu que um milagre era necessário para transcender a relação natural entre cimento que ele tem de Deus. substância e Quando amamos, não podemos duvidar que amamos algo ou alguém, mas é possível duvidar que conhecemos, verdadeiramente, o que amamos. Isso significa que não se pode derivar do amor o conhecimento, ou seja, CONTRAPONTOS TEOLÓGICOS podemos amar sem conhecer aquilo que amamos. Entretanto, se não conhe- cemos o que amamos, então, o que amamos quando nós amamos? Talvez Observe, com atenção, o seguinte trecho das Confissões de Agostinho: "A minha consciência, Senhor, não duvida, antes tem a certeza de que eu te uma mera imagem. Ora, quando encontramos uma pessoa e passamos a amá-la, inevitavelmente formamos imagens dela. Tais imagens vêem carre- amo. Mas, o que eu amo, quando te amo?"8 gadas de expectativas que, ao serem frustradas, nos deixam decepcionados Agostinho, ao mesmo tempo que declara seu amor, questiona seu com a pessoa amada. Isso acontece porque nós, seres humanos, somos assim. conhecimento acerca de Deus. É importante notar que Deus não é o alvo Nada conhecemos sem a intermediação das imagens. de seu questionamento. Na verdade, sua indagação se dirige às limitações de Acabamos de aprender que a filosofia de Platão ensina que o mundo seu conhecimento de Deus. Portanto, não há, da parte de Agostinho, uma que aparece a partir de nossa sensação ou percepção sensorial não é real, mas apenas uma "imagem" (phantasma). Isso quer dizer que o mundo sensível ou corpóreo não passa de mera ilusão. Em Platão, o corpo. e as suas sensa- 7 47-48. ções não passam de um empecilho ao desenvolvimento da alma que busca o 8 (X, 6). conhecimento da verdade. Já Aristóteles, ao contrário de Platão, não via nas sensações um impedimento, mas um auxílio para a alma que visa a alcançarFILOSOFIA REALISMO DAS "IDEIAS" E REALISMO DAS "IMAGENS" 77 76 a verdade. Enquanto Platão afirmava que a verdade só poderia ser conhe- nado com Deus, sua resposta deveria ser sempre uma única pergunta: cida por meio da "recordação" intelectual do mundo das ideias, Aristóteles "Você está decepcionado com Deus ou com as imagens que você fez dele?". dizia que as "imagens" que formamos na mente por causa das sensações é Constantemente, vemo-nos diante de situações conflitantes em nossos justamente o ponto de partida para o conhecimento das coisas mesmas. relacionamentos. Sempre é o outro que nos frustra, é o outro que nos A propósito, em seu tratado Sobre a alma, Aristóteles afirmou que a alma decepciona. Nós nunca estamos dispostos a viver com as pessoas com que não pode alcançar a verdade a não ser por intermédio das imagens nos relacionamos sem depositar demasiada confiança em nossas expecta- (phantasmata). Isso significa que tudo o que conhecemos é intermediado tivas e imagens delas. Cabe sempre perguntarmos a nós mesmos se real- mente estamos frustrados com o outro ou se, na verdade, estamos frustrados pelas imagens que produzimos em nossa mente. Imagine uma moça chamada Maria e que se apaixonou por um com nossas expectativas dos outros. rapaz chamado João. A primeira coisa que aconteceu foi que Maria, Acredito que, no fim das contas, Agostinho queria mesmo era nos inevitavelmente, criou imagens e expectativas de João. Tais imagens eram prevenir da idolatria: "Não façam ídolos, nem imagens, nem colunas sagra- de João como um marido exemplar, carinhoso, bom pai, trabalhador. En- das para vocês, e não coloquem nenhuma pedra esculpida em sua terra para fim, tudo o que ela tinha pedido a Deus. Então eles se casam, mas, com o curvar-se diante dela. Eu sou o SENHOR, o Deus de vocês" (Lv 26.1, NVI). passar do tempo, João mostrou-se totalmente diferente daquilo que ela Nossa maior tentação é dar às imagens aquilo que só pertence a imaginava e esperava. Tornou-se um homem violento, que passava o dia Só Deus deve ser amado, cultuado e adorado. Certamente, não inteiro no bar, sem dar nenhuma atenção necessária aos seus filhos. Maria podemos amar a Deus sem a intermediação das imagens. Isso ainda não é entra em crise, pois, apesar de ainda amá-lo, alega, o tempo todo, que João pecado. Pecado é tratar as imagens como se elas fossem Deus e não meras não é quem ela imaginava que era. Ora, aquela imagem de "um marido imagens. Imagens ou teologias que ocupam o lugar de Deus, isto é, que exemplar, carinhoso, bom pai, trabalhador" era o que" que Maria ama- são amadas no lugar de Deus, deixam de cumprir sua função vital, que é va quando amava João. serem ponto de partida para conhecermos a Deus. Todas as imagens que Em se tratando de Deus, podemos dizer que nossas teologias são este ocupam o lugar de Deus são frágeis, são ídolos que têm pés de barro. E, se "o que", ou seja, as imagens e expectativas que criamos de Deus (cf. Mc 8.27- são de barro, basta um golpe para Basta Deus não corresponder 33). Por exemplo, se alguém é adepto da teologia da prosperidade, então com nossos "ídolos" para nos decepcionarmos com ele (cf. Jo 6.60-66). amará a Deus amando-o como aquele que sempre o fará vencedor. Se alguém Mas a pergunta permanece: Estamos decepcionados com Deus ou com as é calvinista, então amará a Deus como aquele que é soberano sobre todas as imagens que fizemos dele? coisas, isto é, que determina, entre outras coisas, aqueles que vão para o céu. Sempre que Deus for amado, será amado em meio às nossas imagens Outros exemplos de teologias ou imagens de Deus não faltariam à lista. Po- e expectativas. Então, nossa tarefa é não confundi-las com Deus. Agosti- rém, o que está em jogo aqui não é saber qual delas teria a razão. Isso, por nho nos mostra que essa é a nossa realidade. É verdade que nossas imagens enquanto, não vem ao caso, pois o que realmente interessa agora é saber que nos dão certo conhecimento de Deus. Porém, não podemos ter a é impossível amar a Deus sem elas, ou seja, sem a mediação das imagens. Isto como temos acerca do nosso amor - de que esse certo conhecimento que é, não conseguimos amar a Deus sem, ao mesmo tempo, produzir teologias construímos, com base na revelação de Deus, representa o que, de fato, que expressam o que nós compreendemos acerca dele. Deus é. Em contrapartida, Deus nos deu a sua Palavra, e ela é a maior Voltemos à nossa ilustração. Maria está diante de uma situação cons- garantia que temos de que nossas imagens e expectativas, enfim, nossas trangedora. Ela ainda ama João, mas está decepcionada com ele. Será que teologias não passam de mediações do amor dos seres humanos. Quando ela está mesmo decepcionada com João? Ou será que João não correspondeu elas deixam de ser mediações, a própria Palavra de Deus nos adverte: às expectativas geradas pela imagem que Maria tinha dele? Parece que Maria não se deu conta de que as imagens que ela possui de João não são e jamais Porque ninguém pode colocar outro alicerce além do que já está posto, que é serão o que João é. João é uma pessoa. As imagens que Maria fez de João são Jesus Cristo. Se alguém constrói sobre esse alicerce usando ouro, prata, pedras preciosas, madeira feno ou palha, sua obra será mostrada, porque o Dia a trará mediações de Maria. A situação não é tão diferente, como parece, quando à luz; pois será revelada pelo fogo, que provará a qualidade da obra de cada um. se trata de nossas imagens de Deus. Quantas pessoas não dizem por aí Se o que alguém construiu permanecer, esse receberá recompensa. Se o que que amam a Deus, mas que estão decepcionadas com ele? Ora, elas estão alguém construiu se queimar, esse sofrerá prejuízo; contudo, será salvo como decepcionadas com Deus mesmo ou com a não correspondência de suas alguém que escapa através do fogo (Rm 3.11-15, NVI). expectativas? Quando um pastor recebe alguém que diz estar decepcio- (FILOSOFIA REALISMO DAS "IDEIAS" E REALISMO DAS "IMAGENS" 78 79 PERGUNTAS DE RECAPITULAÇÃO 5. Qual é a distinção entre eidos e eidolon? O que significa "realismo das ideias"? 1. Em que consiste a confrontação das opiniões realizadas pelo diálogo socrático? Quais são os seus momentos e fases essenciais? 6. Por que a verdade só está no "mundo das ideias"? O que você entende por "conhecer é lembrar"? 2. Qual foi o impasse filosófico causado pelas filosofias de Heráclito e Parmênides? 7. Em que consistia a critica de Aristóteles à teoria da reminiscência de Platão? O que significa "realismo das imagens"? 8. Quais são as "causas primeiras"? Explique cada uma delas. 3. Qual a diferença que Platão estabelece entre o "mundo inteligível" e o "mundo sensível"? 9. Defina o que é "substância" e "acidente"; "forma" e "matéria"; "ato" e "potência". 4. De que modo o mito da caverna expressa o desejo natural dos seres humanos pelo conhecimento da verdade? Qual é a missão do filó- sofo na ótica desse mito? 10. Desenvolva uma breve dissertação sobre a noção de "imagem" como mediação do conhecimento de Deus.( FILOSOFIA 80 ANOTAÇÕES 0 encontro da filosofia grega com a teologia cristã A filosofia grega sofreu várias modificações, mas nenhuma delas foi tão significativa para a formação do pensamento ocidental como a modificação resultante do encontro entre filosofia grega e teo- logia cristã. Os dois grandes modelos de pensamento da história da filo- sofia grega, o platonismo e o aristotelismo, foram reinterpretados pelos teólogos Agostinho e Tomás de Aquino. Embora sejam mais teólogos que filósofos, Agostinho e Tomás usufruíram do platonismo e do aris- totelismo para explicar a realidade de Deus e do kósmos. Sob a ótica da revelação cristã, ambos reconsideraram, filosoficamente, a busca pela ver- dade. Em Agostinho e Tomás, filosofia e teologia encontram-se. Conhe- cer a verdade tornou-se conhecer a Deus. Por isso, neste capítulo, abordaremos o problema filosófico da verdade à luz da busca pelo conheci- mento de Deus. Em primeiro lugar, comentaremos a reconsideração do platonismo elaborada por Agostinho. Em seguida, veremos a reconsi- deração do aristotelismo feita por Tomás de Aquino. PLATONISMO DE AGOSTINHO, o "BISPO DE HIPONA" Agostinho, o Bispo de Hipona, nasceu no norte da África proconsular, em uma pequena cidade chamada Tagaste. Seu pai, Patricius, era pagão, e sua mãe, Mônica, cristã. Sua mãe educou-o nos princípios do cristianismo, (FILOSOFIA ENCONTRO DA FILOSOFIA GREGA COM A TEOLOGIA 82 83 fazendo-o passar pelo ritual do catecumenato. No entanto, Agostinho não tal conhecimento por intermédio da contemplação das verdades eternas, chegou a ser batizado. Embora tenha se tornado um brilhante professor de absolutas e imutáveis. Em conformidade com Platão, Agostinho acredi- Retórica, o filho "perdido" de Mônica viveu uma vida totalmente desre- tava que o conhecimento intelectual sempre é verdadeiro, pois os objetos grada. Conta-se a história de que Mônica orava e chorava pela alma perdida desse conhecimento são, absolutamente, imutáveis. Ora, se o conheci- de seu filho. Um dia, ela foi pedir conselhos a um bispo da igreja e, diante mento sensorial é um conhecimento de objetos sempre mutáveis, então, o dele, desabafou todo o seu desespero. Percebendo o tamanho do desespero sensorial não pode ser um conhecimento verdadeiro. É óbvio que o conhe- daquela mãe, o tal bispo respondeu-lhe: "Acalma-te, mulher! É impossível cimento sensorial tem a sua importância, principalmente, se levarmos em que se perca um filho de tantas lágrimas!". Mais tarde, depois de ter sido consideração a vida no seu dia a dia. Porém, segundo Agostinho, se concen- batizado, diz-se que Agostinho teria dito que as lágrimas de sua mãe tor- trarmos nossa atenção apenas na esfera do mutável, do transitório, do naram-se o início de seu batismo. O que Mônica não sabia, enquanto cho- passageiro, perderemos a visão do eterno, do imutável, do duradouro. Em rava, era que Agostinho não só se converteria ao cristianismo, mas também outras palavras, perderemos o alvo de toda nossa busca, que é alcançar a se tornaria o piedoso e amoroso Bispo de Hipona. verdade em toda a sua plenitude. Como os jovens de seu tempo, Agostinho foi profundamente edu- Antes de prosseguirmos, é necessário advertir que o sensorial não é cado de acordo com a tradição do platonismo, que, sem dúvida, foi a filoso- uma exclusividade dos seres humanos. A sensação também é comum aos fia que mais influenciou pensamento cristão primitivo. A síntese dos dois animais. Um substrato marinho, como a anêmona, por exemplo, tem sen- mundos, que estudamos no capítulo anterior, foi usada por muitos pensa- sação. Porém, isso não significa que as anêmonas sejam racionais. Dife- dores cristãos como a mais apropriada síntese explicativa da cosmologia rentemente dos animais, os seres humanos têm, além do conhecimento cristã, isto é, da doutrina cristã do "mundo". No período do cristianismo sensorial, um conhecimento intelectual, que possibilita o juízo sobre as primitivo, muitos pensadores cristãos usavam o platonismo para explicar coisas sensíveis. No capítulo dois de A Trindade, Agostinho afirma que os que as coisas materiais não são as realidades últimas e que existe uma rea- animais podem perceber o mundo sensível através das sensações, podendo lidade espiritual que, de fato, é a verdadeira realidade. A felicidade, no inclusive recordar e desejar o que é útil ou evitar o que é nocivo. Todavia, mundo sensível, é mera aparência, só o mundo celestial pode ser a verda- não podem efetuar nenhuma outra operação da alma que requeira o uso deira felicidade, pois é lá que veremos a Deus face a face. Portanto, a base da exclusivo da Por exemplo, um animal não pode julgar sobre as rejeição do mundo sensível surgiu de uma negação da experiência sensorial coisas sensíveis a ponto de concluir que elas não passam de sombras das e de uma supervalorização da contemplação de Deus. Para entendermos ideias eternas e imutáveis. Em contrapartida, o ser humano pode julgar melhor o sentido dessa visão pessimista do mundo sensível, precisamos apre- sobre as coisas sensíveis e também percebê-las como aproximações do que sentar a síntese platônica tal como Agostinho a concebia. é perfeito. Em suas palavras: A partir da síntese platônica, entendia-se que os seres humanos pos- suíam dois tipos de conhecimento: o intelectual e o sensorial. conheci- Pertence a razão superior [conhecimento intelectual] a possibilidade de jul- mento sensorial é inferior ao conhecimento intelectual, pois depende da gar a respeito das realidades sensíveis, segundo razões incorpóreas e eternas. sensação para Agostinho, baseado na psicologia platônica, con- Essas razões, se não estiverem acima da mente humana não seriam imutá- siderava a sensação (visão, audição, tato, olfato e paladar) como uma vivência veis. Entretanto, se elas não tivessem nenhuma ligação com nosso ser, que da alma realizada por meio dos órgãos sensoriais (olhos, ouvidos, nariz etc.). lhes é submisso, não poderíamos emitir juízo algum a respeito daquelas rea- Estes são, para a alma, instrumentos que captam o mundo sensível. Em lidades corporais. Ora, fazemos juízos sobre tais realidades, baseados na outras palavras, o sensorial é um conhecimento mediado pelos órgãos dos razão de suas dimensões e figuras, e cuja razão nossa mente [intelecto] reconhece como cinco sentidos. Por isso, torna-se um conhecimento aparente, pois as sensa- ções captam apenas as coisas em devir, em transformação, ou seja, o senso- rial apreende apenas as cópias ou imagens do mundo sensível. Agostinho considerava dois tipos de conhecimento: o conhecimento sensorial e o conhecimento intelectual. O sensorial é infe- Já o intelectual é um conhecimento obtido pelas ações da mente. A mente ou o intelecto é a faculdade da alma que pode contemplar as coisas rior ao intelectual, pois não é capaz de contemplar as coisas eternas sem a tais como elas são. Só o intelecto é capaz de captar as "ideias", isto é, as intermediação dos órgãos sensoriais. Porém, é importante notar que não é verdades eternas, sem depender da mediação dos órgãos sensoriais. Pelo intelecto, a alma alcança o verdadeiro conhecimento e obtém a certeza de 367 (livro XII, capítulo 2, $2).FILOSOFIA ENCONTRO DA FILOSOFIA GREGA COM A TEOLOGIA 84 85 somente o conhecimento sensorial que é inferior ao conhecimento inte- Para descobrirmos as respostas que Agostinho deu a essas questões, lectual. O objeto do conhecimento sensorial também é inferior ao obje- precisamos dar mais alguns passos. Bispo de Hipona afirmou que todas to do conhecimento intelectual. Isso significa que as coisas "sensíveis" as vezes que apreendemos uma "ideia", apreendemos uma verdade eterna. são, absolutamente, distintas das coisas "inteligíveis". Vejamos o que As coisas sensíveis, percebidas pelas sensações, são instáveis, mudam o tempo Gilson, especialista em história e filosofia medieval, afirma so- Essa falta de estabilidade das coisas sensíveis exclui o sensorial do bre essas distinções: conhecimento verdadeiro, pois conhecer verdadeiramente é apreender, pelo intelecto, um objeto que não muda. caráter de imutabilidade dos objetos Existem, pois, duas espécies de seres: os modelos e as cópias. o mundo dos inteligíveis permite que eles sejam contemplados sob o olhar da alma. Nesse modelos (exempla) é o mundo inteligível; o das cópias ou imagens é caso, poderíamos dizer que é na alma que se encontram as verdades eternas. o mundo sensível (mundus sensilis), produzido à semelhança de seu modelo. O Contudo, a presença de verdades eternas na alma coloca-nos diante de uma nome técnico de um modelo é "Ideia". É uma substância incorpórea, sem cor, difícil questão: seríamos, pois, nós mesmos a fonte dos conhecimentos ver- sem fisionomia, impalpável, compreensível apenas pelo intelecto e pela razão, dadeiros? Mas nós não somos contingentes e mutáveis assim como são as causa dos seres que participam da sua semelhança (...) É um fato que temos coisas sensíveis? Nesse caso, as "ideias" ou as "verdades eternas" não podem dois meios distintos de conhecer: o sensorial e o intelectual. Seus objetos devem ser, pois, igualmente distintos: são o sensível e o inteligível. Os sensíveis são ser subjetivas, isto é, não podem estar em nossa alma como estão, por exem- mutáveis, temporais, perceptíveis pelos sentidos e só se prestam a os plo, as cópias ou as imagens do mundo sensível. As verdades eternas são inteligíveis são imutáveis, eternos, conhecíveis pela razão e objetos de ciência essências objetivas e imateriais. Logo, a pergunta "Onde estão as verdades propriamente dita. Por natureza, os inteligíveis são anteriores aos sensíveis, eternas?" não deve referir-se a um lugar concreto, mas ao status ontológico mas os sensíveis nos são mais facilmente da verdade, isto é, o modo de ser da verdade. Nos tempos de Agostinho, havia um tipo de platonismo ou Há poucos instantes consideramos que o nosso intelecto pode julgar neoplatonismo que pretendia resolver essa dificuldade afirmando uma ideia sobre as coisas sensíveis. Como? A partir do que é inteligível, isto é, das que Platão mesmo não afirmou: que as verdades eternas estão em Deus e "ideias". Se consideramos o mundo sensível como uma cópia é porque pres- emanam dele. representante mais conhecido desse tipo de platonismo supomos um modelo, isto é, o mundo inteligível. Se virmos, por exemplo, era Plotino (205-270). Plotino argumentava que Deus ou o "Ser inefável" uma obra de arte e a julgarmos que é mais ou menos bela, é porque tal juízo é aquele que está acima de toda essência e de qualquer nome que a ele possa pressupõe não apenas a "ideia do belo" (objeto inteligível), mas também o ser conferido. Além do mais, é por meio dele que todas as coisas existem, nosso "conhecimento da ideia do belo". Pois como poderíamos julgar que mas não através de um ato de criação, e sim de emanação. É verdade que determinada obra de arte é imperfeita ou menos bela se não tivéssemos Agostinho concordava com a ideia de Plotino de que as verdades eternas previamente o conhecimento do que é a perfeição, do que é a beleza? De estão. em Deus, mas discordava de que eram "emanações" do divino. Para modo semelhante, o geômetra necessita esforçar-se para conhecer as "linhas Plotino, a criação do mundo inteligível e do mundo sensível foi o resultado e circunferências perfeitas". Só depois de conhecê-las é que o geômetra de um processo de emanação, semelhante ao modo pelo qual a luz do sol se pode julgar se as linhas e circunferências estão mais ou menos de acordo propaga no universo. Esse processo não ocorreu de acordo com o desejo de com o modelo. Por exemplo, somente a partir da ideia de circunferência é Deus, mas conforme a natureza de sua emanação. O mundo criado é que nós podemos julgar se a circunferência riscada na lousa está ou não imanente a Deus. Ora, pertence aos cristãos a crença em Deus como ser corretamente apresentada. Mais um exemplo: podemos somar 2 laranjas + absolutamente transcendente ao mundo. Portanto, como cristão, Agosti- 3 laranjas e obter como resultado 5 laranjas. As laranjas que contamos são nho não poderia concordar com a cosmologia da imanência de Plotino. A coisas sensíveis, mutáveis e passageiras. Todavia sempre que somamos os revelação cristã de Deus afirma a criação como resultado de uma delibera- números 2 e 3, considerados em si mesmos e separados das coisas sensíveis, ção de um Deus pessoal e transcendente. Assim, a doutrina da revelação o resultado é sempre o mesmo: 5. Ora, onde está o número 5? Quanto ele pessoal de Deus fez Agostinho repensar o seu platonismo. Não há dúvidas pesa? De que cor é belo? Onde está o modelo de circunferência perfeita, de que o Bispo de Hipona considerava o platonismo como a filosofia que imutável e comum a todos os seres humanos? mais se encaixava com as doutrinas cristãs. Porém, o deus de Platão e o deus do neoplatonismo não eram o mesmo Deus revelado por Jesus. Agostinho acreditava que toda a filosofia grega carecia da revelação 2 na Idade Média, p. Os filósofos gregos, por não conhecerem tal revelação, acreditavamFILOSOFIA ENCONTRO DA FILOSOFIA GREGA COM A TEOLOGIA 86 87 que a única via para o conhecimento da verdade era a A consequência servir para designá-lo, mas todas têm, finalmente, o mesmo sentido. Ele é o sol disso foi uma superestimação do poder da razão. Nas palavras do filósofo inteligível, à luz do qual a razão vê a verdade, é o Mestre interior, que responde alemão Ernst Cassirer: de dentro à razão que o consulta. Como quer que se o chame, sempre se pretende designar essa realidade divina que é a vida da nossa vida, mais interior a nós mesmos do que nosso próprio interior. É por isso que todos os O poder da razão era exaltado como o mais alto poder do homem. Mas o que o homem jamais poderia ter sabido, até ser iluminado por uma revelação divina caminhos agostinianos para Deus seguem itinerários análogos, do exterior para o interior e do interior para o superior.4 especial, é que a própria razão é uma das coisas mais questionáveis e ambíguas do mundo. A razão não nos pode mostrar o caminho para a clareza, a verdade e a sabedoria, pois é em si mesma obscura em seu sentido, e sua origem está A razão não chega, por si só, à revelação da verdade. Ela depende da envolta em mistério um mistério que só pode ser solucionado pela revelação ação iluminadora de Deus. A iluminação divina opera sobre as coisas inte- Para Agostinho, a razão não tem uma natureza simples e única, mas ligíveis assim como a luz do sol torna visível aos nossos olhos as coisas sen- antes dupla e dividida; em seu estado original, no qual saiu das mãos de Deus, síveis, ou seja, a iluminação divina torna as verdades eternas visíveis à nossa igual ao seu arquétipo (modelo). Mas tudo isso foi perdido com a queda de mente. Contudo, o que o intelecto contempla não é nem a iluminação nem Adão. A partir desse momento, todo o poder original de raciocínio ficou obscu- tampouco o "sol inteligível", mas as próprias verdades eternas. recido. E a razão sozinha, deixada a si mesma e as suas próprias faculdades, A verdade não está em nós, como Sócrates e Platão pensavam. A nunca pode encontrar o caminho de volta. Não pode reconstruir-se; não pode, verdade é superior e está além do alcance de nossa mente. E certo que a por seus próprios esforços, retornar à sua pura essência anterior. Se tal transfor- razão que contempla a verdade está em nós. Porém, a verdade que contem- mação for algum dia será apenas por ajuda sobrenatural, pelo poder da graça plamos em nosso interior é, de fato, superior a nós mesmos. Por isso, neces- sitamos de uma iluminação divina que nos torne capazes de apreender, Por não conhecer a revelação cristã, Platão acreditava que as almas racionalmente, o que transcende a nossa alma, pois nenhuma criatura por humanas já viviam no mundo inteligível antes de habitarem o mundo sen- mais racional e intelectual que seja pode iluminar as verdades eternas. Em sível. Por isso, entendia que os seres humanos não adquiriam novos conhe- outras palavras, a razão humana. não é autossuficiente. Certamente, Deus cimentos, mas apenas se lembravam de verdades anteriormente conhecidas. criou a alma dos seres humanos diferente da alma dos animais. Afinal, Em Solilóquios, Agostinho, ao criticar essa teoria de Platão, diz que não Deus deu aos seres humanos um intelecto. Porém, Deus não deu um inte- podemos apreender as verdades eternas sem que elas sejam iluminadas por lecto capaz de alcançar a verdade sem o auxílio da "luz verdadeira". Deus. Em vez de apelar para a teoria da reminiscência da alma, Agostinho Como podemos notar, Agostinho transformou a busca pela ver- recorreu à doutrina da iluminação divina, Tal doutrina afirmava que a luz dade em uma busca pelo conhecimento de Deus. Portanto, é a partir do inteligível que ilumina nossa mente para contemplarmos as verdades eter- pensamento agostiniano que a busca filosófica pela verdade passou a ser tam- nas procede exclusivamente de Deus. Sob a base da revelação cristã de Deus, bém uma busca teológica pela verdade. Além. do mais, Agostinho situa-se como Criador de todas as coisas, inclusive da alma, Agostinho negou a na fronteira entre duas fases filosóficas: o fim da filosofia antiga e o início possibilidade da doutrina platônica da reminiscência. Para Agostinho, as- da filosofia medieval. Ele não é, propriamente, um filósofo medieval, mas sim como o olho vê apenas aquilo que está iluminado, nosso intelecto só se tornou a base sobre a qual se solidificou todo o pensamento medieval. pode contemplar as verdades eternas que Deus iluminar. Portanto, conhe- O pensamento, na fase medieval, é basicamente teológico. E a filosofia é cer não é lembrar, conhecer é contemplar as verdades que excedem nossa considerada "serva da teologia". Nesse período, a busca filosófica pela ver- alma e que são iluminadas por Deus. Sobre isso, Étienne Gilson diz algo dade identificou-se com a busca pelo conhecimento de Deus. pensa- bastante pertinente: dor mais notável dessa época foi, sem dúvida, Tomás de Aquino. Sua posição filosófica diferiu-se bastante da de Agostinho. Um dos motivos Há no homem, portanto, algo que excede o homem. Já que é a verdade, esse foi o fato de que Tomás usou a filosofia aristotélica e não o platonismo algo é uma realidade puramente inteligível, necessária, imutável, eterna. como meio para explicar como podemos obter o conhecimento intelectual É precisamente o que chamamos de Deus. As metáforas mais variadas podem de Deus e das verdades eternas. 3 Ensaio sobre homem; p. 22-23. 4 A filosofia na Idade p. 147-148.FILOSOFIA ENCONTRO DA FILOSOFIA GREGA COM A TEOLOGIA 89 88 Tomás não negava as doutrinas da iluminação e revelação divinas. Porém, ARISTOTELISMO DE TOMÁS DE AQUINO, concedeu à razão um poder bem maior que o concedido por Agostinho. "BOI MUDO DA SICÍLIA" Tomás acreditava piamente que a natureza racional dos seres humanos tornava-os capazes de conhecer as verdades eternas sem necessitarem do Tomás de Aquino nasceu por volta de 1225, no castelo de auxílio constante da iluminação divina. As passagens da Escritura pelas Roccasecca, no condado de Aquino, pertencente ao reino da Com quais Agostinho justificava a sua doutrina da iluminação são rein- a idade de 20 anos foi para Colônia estudar com Alberto Magno (1206- terpretadas por Tomás como referentes não propriamente à luz divina, mas 1280), o maior filósofo e teólogo daqueles dias. Chegando lá, seus colegas à "luz natural" do intelecto, outorgado por Deus aos humanos. Segundo logo o apelidaram de o "Boi Mudo da "Boi", por seu físico avan- Tomás, a revelação e a razão são de procedência divina. Ora, se a revelação, tajado; "Mudo", por passar a maior parte do tempo em silêncio; e, final- porque vem de Deus, não é enganosa, a razão, pelo mesmo motivo, seria mente, "Sicília", por ser esta a sua pátria. Guilherme de Tocco, que foi seu incapaz de nos enganar. discípulo e principal biógrafo, conta-nos que Tomás, na sua estada em Para reconsiderar as ideias de Agostinho, Tomás seguiu à risca a Colônia, foi convocado por seu mestre Alberto para responder questões crítica que Aristóteles fez a Platão. No platonismo, o mundo que aparece muito difíceis. Humildemente, ele respondeu a todas elas. Seu mestre, a partir de nossa sensação ou percepção sensorial não é real, mas apenas admirado com a inteligência de seu discípulo, exclamou: "Nós chamamos uma "imagem" (phantasma). Isso quer dizer que o mundo sensível ou este jovem de Boi Mudo, mas, com os seus ensinos, ele ainda dará mugi- corpóreo não passa de mera ilusão. o corpo e suas sensações são empeci- dos que ressoarão no mundo inteiro". Um desses ensinos, prenunciados lhos para a alma que busca o conhecimento das verdades eternas. Aristóteles por Alberto Magno, e que nos interessa aqui, é o de que o conhecimento não concordava com essa depreciação que Platão fazia das imagens. Ao intelectual depende do conhecimento sensorial para realizar sua finalida- contrário de seu mestre, não via nas sensações um impedimento, mas um de: alcançar as verdades eternas. auxílio para a alma alcançar a verdade. Enquanto Platão afirmava que a Assim como Agostinho, Tomás também concebia dois tipos de co- verdade só poderia ser conhecida por meio da "recordação" intelectual do nhecimento: o sensorial e o intelectual. Porém, ao contrário do Bispo de mundo das ideias, Aristóteles dizia que as "imagens" que formamos em Hipona, Tomás considerava que o conhecimento sensorial é uma condição nossa mente por causa das sensações é, justamente, o ponto de partida necessária para a realização do conhecimento intelectual. É o conhecimen- para o conhecimento das verdades eternas. Tomás considerou imprescin- to sensorial que torna possível a atividade do intelecto na contemplação das dível essa tese aristotélica das imagens como mediações do conhecimento verdades eternas. Nenhum conhecimento intelectual é possível sem a media- da verdade. A tese de Aristóteles de que "a alma nada pode conhecer sem ção do sensorial. É claro que o objeto do conhecimento intelectual (a essên- a mediação das imagens deveria aplicar-se, inclusive, ao cia) é diferente do objeto do conhecimento sensorial (as coisas sensíveis que conhecimento que a mente humana pode ter de Deus. Encontram-se portam a essência). Porém, isso não significa que a essência seja separada espalhadas em sua obra inúmeras passagens em que Tomás das coisas sensíveis, como pensavam Platão e Agostinho. Não há conheci- argumentou a favor da tese de que o nosso conhecimento intelectual de mento imediato das coisas inteligíveis. A mente não pode contemplar dire- Deus jamais ocorre diretamente, mas é sempre mediado pelas imagens. tamente as verdades eternas. As coisas inteligíveis só podem ser alcançadas Por enquanto, contentemo-nos em examinar apenas um trecho da famosa por intermédio das coisas sensíveis. Esse princípio Tomás aprendeu lendo e passagem do artigo 7 da questão 84 da primeira parte da Suma de teologia, admirando Portanto, com na filosofia aristotélica, Tomás sua obra principal: rejeitou a hipótese agostiniana de conhecimento imediato das verdades eter- nas iluminadas por Deus. Contra Agostinho, Tomás também afirmava a possibilidade do conhe- Conhecemos as coisas intelectuais, das quais não temos imagens, por compa- cimento intelectual a despeito da iluminação divina. Ou seja, a razão, por ração com as coisas sensíveis, das quais temos imagens. Portanto, conhece- mos a verdade considerando a coisa a respeito da qual buscamos a verdade. sua própria natureza, é capaz de alcançar as verdades eternas. É claro que No caso de Deus, nós o conhecemos como diz Dionísio cap. 1]: por causalidade, por transcendência e por remoção. Também não podemos conhecer as demais substâncias incorpóreas [verdades eternas], no estado Cf. WEISHEIPL, James A. Friar Thomas d'Aquino. Oxford, Basil Blackwell, 1974, da vida presente, senão por remoção, ou alguma comparação com as coisas p. 44-45. sensíveis. Por isso, quando conhecemos algo do que é desse tipo [verdadesFILOSOFIA ENCONTRO DA FILOSOFIA GREGA COM A TEOLOGIA 91 90 eternas], necessariamente temos de nos voltar para as imagens dos corpos, Apesar de Pseudo-Dionísio representar um marco importante para embora daquele algo não haja imagens.6 o desenvolvimento do pensamento teológico e filosófico do Ocidente, pouco se sabe a seu respeito. Para os teólogos do medievo, o autor de Nomes divinos À luz da tese de Aristóteles de que "a alma nada conhece sem a era o tal areopagita que se convertera ao cristianismo após a pregação de mediação da imagem", Tomás rejeitou a possibilidade do intelecto, unido Paulo no Areópago (cf. At 17.34). Porém, como afirma o medievalista ao corpo, conhecer algo sem voltar-se às imagens. Essa impossibilidade advém Édouard Jeauneau, essa infeliz associação não passava de uma farsa insus- do presente "estado corpóreo de vida". Isto é, porque a alma está unida ao tentável que os teólogos medievais, como Tomás de Aquino, por exemplo, corpo, o intelecto não pode conhecer sem se valer das imagens. O "estado não conseguiram de vida presente" denota a situação de nossa mente que, unida ao corpo, O Dionísio que se converteu com a pregação de Paulo não foi o torna-se totalmente dependente das imagens oriundas do conhecimento legítimo autor do Corpus Areopagyticum. Corpus Areopagyticum (ou Corpus sensorial. Para Tomás, nada chega ao intelecto humano sem antes passar Dionysiacum) é o nome que foi dado ao grupo de obras que pertenciam a pelos sentidos. Dessa maneira, torna-se impossível aos seres humanos co- um escritor do século IV ou V, provavelmente, de origem síria, que escre- nhecer a Deus ou as verdades eternas sem antes perceber as coisas sensíveis veu essas obras assinando-as com o nome de Dionísio, o Areopagita. Hoje, e delas formar imagens. como já se sabe da "farsa", o autor, cujo nome ainda não foi descoberto, foi Se todo o conhecimento que podemos obter é resultado da mediação designado pelos medievalistas pelo nome de "Pseudo-Dionísio". Atualmente, das imagens oriundas do sensorial, então, como podemos o Corpus é composto de quatro tratados e dez cartas. Os tratados são Hie- conhecer a Deus que é Como podemos formar imagens de rarquia celeste, Hierarquia eclesiástica, Nomes divinos e Teologia Deus se ele mesmo não está unido a um corpo? E se não podemos formar Atualmente ninguém contestaria a falsificação que pesa sobre tal imagens de Deus, como podemos conhecê-lo se só conhecemos algo a par- Corpus. Entretanto, é preciso reconsiderar os fatos, pois aquilo que hoje tir de imagens? Tomás afirma que o conhecimento de Deus se dá por com- parece ser uma falsificação, na verdade, era um "costume" antigo. Assinar o paração com as perfeições presentes nas coisas sensíveis. Tal comparação se próprio livro com o nome de pessoas famosas não significava mera falsifica- realiza através de três vias: a causalidade, a transcendência e a remoção. Ora, ção, mas uma maneira de conferir autoridade a alguma A despeito de onde vêm essas três vias? Tomás deixa bem claro que as três vias, que dessa discussão sobre a procedência ou não de falsificação do Corpus possibilitam o conhecimento das verdades eternas e, especialmente, de Deus, Areopagyticum, alguns medievalistas afirmam que Pseudo-Dionísio foi esco- vêm dos escritos de Pseudo-Dionísio, em particular, do tratado Nomes divi- lhido entre todos não por sua áurea apostólica, mas por ser ele, de fato, um nos. Portanto, além da influência de Aristóteles, Tomás foi bastante influen- "mestre incontestável". ciado pelas ideias de Pseudo-Dionísio. Em face disso, propomos uma prestígio dos escritos de Pseudo-Dionísio foi enorme durante toda introdução ao pensamento de Pseudo-Dionísio, antes de explicarmos a tese a Idade Média a ponto de ser temerário manifestar qualquer dúvida sobre de Tomás sobre o conhecimento de Deus e das verdades eternas. o conteúdo de sua reflexão. Fato pouco divulgado e, por isso, digno de nota é que Dionísio desfrutava de uma autoridade até maior que a do prestigiado Agostinho, perdendo apenas, é claro, para as No entanto, é PENSAMENTO DE PSEUDO-DIONÍSIO, o AREOPAGITA preciso notar que o valor de seus escritos não se deu meramente por uma investidura apostólica, mas também por conterem em si uma profunda Pseudo-Dionísio foi um dos mais fascinantes teólogos da cristan- reflexão acerca do conhecimento de Deus e das verda- dade. Ele exerceu grande influência não só entre os mais destacados teólo- des eternas. Não é razoável crer que um pensador extremamente meticu- gos da Idade Média, como Tomás de Aquino, mas também entre os teólogos loso, como Tomás de Aquino, por exemplo, teria dialogado com as ideias que marcaram, consideravelmente, a história da teologia contemporânea, de somente por causa de sua autoridade doutrinária. como o luterano Paul Tillich8 ou o católico Karl Rahner.9 10 A filosofia medieval, p. 15. 6 518 (I, questão 84, a. 7). 11 Cf. Pseudo-Dionísio. Obra completa. 12 7 De Anima, p. 119 (livro III, 7, 431 a. 16). Cf. Paul Tillich. História do pensamento cristão, p. 105. 8 Cf. Paul Tillich. História do pensamento cristão, p. 107. 13 Cf. Carlos Arthur R. do Nascimento. Santo Tomás de Aquino, Boi Mudo da 9 Cf. Karl Rahner. Espiritu en el mundo, p. 65-69. p. 40.FILOSOFIA ENCONTRO DA FILOSOFIA GREGA COM A TEOLOGIA 92 93 Segundo consta na contabilidade de Marie-Dominique Chenu, especia- Dizemos, pois, que a causa de todas as coisas, situa-se além de todas elas, lista em filosofia e teologia medieval, Tomás de Aquino citou o nome de não é nem matéria isenta de essência, de vida, de razão ou de inteligência, Dionísio para além de 1700 Isso é suficiente para rejeitar qualquer nem corpo; que ela não tem figura nem forma, nem qualidade ou quantidade hipótese que postule a irrelevância dos escritos de Pseudo-Dionísio para o ou massa; que ela não está em lugar algum, que escapa a toda compreensão desenvolvimento do pensamento de Tomás. dos sentidos; que não percebe nem é percebida; que não está sujeita nem à Mas, afinal, de que tratam os escritos de Pseudo-Dionisio? Antes perturbação nem à desordem sob o choque das paixões materiais; que os acidentes sensíveis não a subjugam nem a reduzem à impotência; que não mesmo de apontar as influências de outros pensadores e de outras doutri- está de modo algum privada de luz; que ela própria não possui mutação, nem nas, o primeiro passo para se compreender qualquer sistema teológico ou destruição, nem partilha, nem privação, nem derivação, nem nada que per- filosófico é identificar o problema arrazoado. Pode-se asseverar que o prin- tença ao cipal problema de Pseudo-Dionísio é o da natureza de Deus e as possibi- lidades e impossibilidades de nomeá-lo adequadamente. Como, Segundo Pseudo-Dionísio, o impensável ou não-pensável só é, de para Pseudo-Dionísio, "nomear" pode ser entendido como sinônimo de fato, impensável se se mantém impensável. o mesmo se pode dizer do "conhecer", o núcleo do seu problema reside em saber como Deus é conhe- indizível, pois o indizível só é indizível se se mantém indizível. Ora, é razoável cido, uma vez que ele transcende as reais capacidades intelectuais huma- a via negativa para um pensamento que se diz teológico? Diante do apo- nas. Nisso, Pseudo-Dionísio não apresenta nenhuma distinção que lhe fatismo, a própria teologia não sucumbiria? Se Deus, para usar os termos de garanta um lugar especial no dos grandes teólogos da cristandade. Pseudo-Dionísio, é "treva divina", "escuridão indizível", então, a teologia Porém, em relação ao método que propõe, o seu teologar sobressai ao de não deveria se resignar ao silêncio? É óbvio que Pseudo-Dionísio con- todos os teólogos de sua época, marcando, portanto, um novo modo de cebe uma teologia e não uma ateologia (conceito usado pelos teólogos cha- fazer teologia. mados "pós-modernos" para designar a desconstrução do pensamento Sem dúvida, foi de suma importância para o desenvolvimento do A teologia, segundo Pseudo-Dionísio, apresenta uma dupla pensamento medieval a distinção metódica que Pseudo- atividade teológica e não duas atividades teológicas excludentes. Isto é, Dionísio estabeleceu entre a teologia positiva ou catafática (gr. = embora sejam distintas entre si, a teologia negativa e a teologia positiva são afirmação) e a teologia negativa ou apofática (gr. apóphasis = negação). Essa duas vias que integram um único ato: conhecer a Deus. Logo, são vias que distinção, estabelecida especialmente em relação à teologia, aponta para duas se correlacionam naturalmente. Enquanto a teologia positiva afirma as per- vias que possibilitam o conhecimento de Deus. A primeira via adota uma feições de Deus encontradas na Criação, a teologia negativa considera o postura afirmativa ou pois consiste em afirmar as perfeições de divino na sua absoluta transcendência e, portanto, sublinha a sua iniludível Deus que se encontram presentes nas coisas criadas. Não somente isso, pois diferença e distância em relação às coisas sensíveis. É por meio dessas duas todo o conhecimento que temos de Deus vem dele mesmo. Logo, tudo o vias que nós podemos conhecer e a Deus. Nas palavras do teólogo que se pode afirmar de Deus deve estar contido na Escritura. Assim, Pseudo- inglês Philip Sheldrake: Dionísio conclui que os nomes bíblicos de Deus constituem o conteúdo essencial da teologia afirmativa. Já a segunda via opera com um método Por que possa ser, a tradição cristã indica que devemos manter em tensão justamente oposto; por isso, é negativa ou apofática. Se a teologia afirmativa criativa o processo de imaginar Deus e o processo de negação de que qualquer fundamenta-se numa absoluta correspondência entre a descrição da ver- imagem seja Deus. Para algumas pessoas, a teologia apofática ou negativa é em dade (o conhecimento de Deus) e a verdade descrita (Deus), na teologia última análise normativa. Isso porque a via apofática não deve ser vista como negativa o que é descrito afasta-se radicalmente da descrição. Deus, a ver- uma via que corrige a teologia "positiva" desequilibrada. A apófase não é um dade suprema, está além de todo nome, é anônimo. Isso significa que a ramo da teologia, mas uma atitude que deve cingir todo o discurso teológico e verdade eterna, que é a causa de ser das coisas sensíveis, torna-se impensável levá-lo na direção do silêncio de contemplação e e, portanto, indizível, uma vez que ultrapassa o universo das próprias coisas sensíveis. Em suas palavras: 15 Cf. Teologia IV, 1040D. 16 Cf. Georges L'expérience intérieure, Paris, Gallimard, 2004; Mark Taylor, C. Erring: A Postmodern A/theology, Michel Onfray. Tratado de Ateologia. São Paulo, Martins 14 Introduction à l'étude de saint Thomas d'Aquin. Montreal-Paris, Publications de Fontes, 2007, "Introdução", p. xxiii-xxv, e p. 45-48. l'Institut d'études médiévales XI, 1950, p. 193 (Nota de rodapé, n° 1). 17 Espiritualidade e teologia, p. 42.FILOSOFIA ENCONTRO DA FILOSOFIA GREGA COM A TEOLOGIA 94 95 Ao considerarmos o vínculo que Pseudo-Dionísio estabelece entre Como podemos notar, é indubitável que, desde a sua formação teo- as duas vias, não impondo oposição nem contradição podemos lógica, Tomás foi influenciado pelas ideias pseudo-dionisianas. Prova disso notar que o seu objetivo é afirmar, ao mesmo tempo, a absoluta transcen- é o fato de que Tomás apropriou-se da noção de apofático de Pseudo- dência divina (acepção de radical desligamento, separação ou distanciamento Dionísio para justificar que não podemos conhecer a Deus imediatamente. do mundo criado) e a "cognoscibilidade" de Deus, isto é, a possibilidade de Portanto, nosso intelecto não pode contemplar diretamente a Deus como conhecê-lo. Mas apesar de considerar a correlação essencial entre o catafático dizia Agostinho. Ora, tanto o Bispo de Hipona como o Boi mudo da e o apofático, Pseudo-Dionísio concedia ao apofático a primazia. Segundo entendiam que conhecimento que podemos ter de Deus não é as observações de Gilson: pleno. Porém, a diferença está no fato de que, para Agostinho, nosso conhe- cimento parcial de Deus não é mediado pelas imagens. Aliás, para os Os conceitos positivos e negativos são os que mais se aproximam entre si. São incautos, as imagens são tomadas como se fossem o próprio Deus. De os mais valiosos, cabendo a primazia aos negativos. As noções positivas se acordo com Agostinho, a parte de Deus que pode ser conhecida direta- originam da obscuridade e, por isso, na proporção em que se aproximam das mente pelo nosso intelecto depende de que o próprio Deus ilumine-se a coisas humanas e terrenas, tendem a servir-se progressivamente de expressões si mesmo. Em contrapartida, Tomás via nas imagens a única possibili- conhecidas, razão por que vão se tornando sempre mais verborrágicas. Quando, dade do intelecto conhecer a Deus. Para realizar tal conhecimento, o inte- ao contrário, nos elevamos a Deus a partir da criatura, eliminando gradual- lecto não depende exclusivamente da luz divina, pois ele mesmo possui mente tudo quanto é incompatível com Ele, a nossa linguagem se revela sem- pre mais débil e inadequada, terminando por emudecer totalmente, quando, uma luz natural outorgada pelo próprio Deus. Em seu ponto de vista, o intimamente, unidos a Deus, nos sentimos envoltos na intelecto conhece a Deus ao iluminar as imagens que possui e ao abstrair delas a essência das coisas. Como Deus não tem imagens pois é incorpóreo -, a única maneira de o intelecto conhecê-lo é comparando-o TOMÁS DE AQUINO E A QUESTÃO DO com as coisas criadas. Nessa comparação, o intelecto precisa negar de Deus as imperfeições presentes na imagem que formamos e afirmar a trans- CONHECIMENTO DE DEUS cendência das perfeições divinas presentes nas coisas criadas. Sem levarmos em consideração as inúmeras citações que Tomás de Ora, se Deus não pode ser captado pelo conhecimento sensorial e se Aquino fez de Pseudo-Dionísio, podemos dizer que há, pelo menos, dois o conhecimento sensorial, no estado de vida é o único meio pelo fortes motivos que indicam que Tomás foi, consideravelmente, influenciado qual podemos conhecer intelectualmente a Deus; então, não podemos pelas ideias pseudodionisianas. O primeiro motivo está na sua estadia em saber de Deus o que ele é (catafático), mas só o que ele não é (apofático). Colônia. Nessa ocasião, Tomás era aprendiz do filósofo e teólogo Alberto Portanto, todo o conhecimento intelectual que o ser humano pode ter de Magno. Em 7 de junho de 1248, a ordem católica dos dominicanos, reunida Deus é apofático, isto é, negativo. Nas palavras de Tomás: "Quando algo nos em Paris, decidiu pela criação de um studium genérale (estúdio geral). Esse é conhecido, então, nos resta investigar como este algo é, para que se saiba a acontecimento foi muitíssimo importante para o desenvolvimento teológico seu respeito o que é; ora, como não podemos saber a respeito de Deus o que do jovem Tomás, pois foi nesse estúdio que ele "iniciou" os seus estudos de ele é, mas o que ele não é, então, não considerar a respeito de Deus teologia sob a direção de Alberto Magno.19 Sabe-se que, em Paris, o mestre como ele é, mas antes como ele não Sobre essa afirmação de Alberto ministrara vários cursos sobre Dionísio, o Areopagita, e que levara Étienne Gilson diz algo sobremodo esclarecedor: consigo para Colônia as notas desses cursos. O importante disso é saber que Tomás retranscreveu as notas do mestre referentes ao curso que ele havia Tomás de Aquino, tudo o que se diz acerca de Deus origina-se no ministrado sobre o tratado Nomes divinos. O segundo motivo está na sua conhecimento sensível que temos dos seres naturais. Removendo, estadia em Roma. Nessa fase, não mais como aprendiz, mas como mestre, gradativamente, das noções que formamos dos seres físicos, tudo o que implica a mínima conotação de imperfeição, chegaremos a uma noção, completamente Tomás de Aquino escreveu o seu próprio comentário dos Nomes divinos. Diga- purificada daquele que é a absoluta perfeição de ser. Esta é uma formulação se de passagem, o único livro do Corpus Areopagyticum que ele comentou. negativa do mais positivo de todos os objetos concebíveis pela inteligência 18 Philotheus Boehner e Etienne Gilson. História da filosofia p. 117. 19 Cf. Jean-Pierre Iniciação a santo Tomás de Aquino: sua pessoa e obra, p. 26. 20 Suma de teologia. Vol I, Ia. Parte, questão 3 (Prólogo), p. 169.FILOSOFIA ENCONTRO DA FILOSOFIA GREGA COM A TEOLOGIA 96 97 humana. Para conferir-lhe um mínimo de conceptibilidade, Tomás parece ter pois Ele transcende toda sabedoria. Terceiro, de acordo com a causalidade de aderido com rigor à "via remotionis", defendida por Dionísio e abertamente tudo, pois consideramos que o que quer que haja nas criaturas procede de recomendada pelo próprio Deus como causa. Portanto, nosso conhecimento se apresenta de modo contrá- rio ao conhecimento de Deus, pois Deus conhece as criaturas diretamente, nós, A via remotionis é a via da aphairesis ou aférese (remoção). Este é um porém, conhecemos a Deus pelas termo preciso e caro à teologia pseudodionisiana. Para explicar o termo, Pseudo-Dionísio recorreu à metáfora do artista que, para esculpir uma está- As vias se determinam a partir de um centro comum: a distância entre tua, remove todas as excrescências que impedem a contemplação da forma Deus e as criaturas. Essa distância é, ao mesmo tempo, dependência de Deus Do mesmo modo, a contemplação de Deus só é possível por (conforme a causalidade), transcendência de Deus (conforme a eminência da meio da aférese, isto é, da "remoção" das imperfeições presentes nas coisas causa em vista de seus efeitos) e, por último, consciência de que Deus é trans- criadas. Um exemplo de imperfeição é o corpo: diz-se que Deus não tem cendente (conforme o processo da negação). Por certo, as três vias acentuam corpo porque o corpo é uma imperfeição presente apenas nas coisas criadas. caráter transcendente de Deus. Contudo, é preciso notar que a triplex via de Removidas as imperfeições sobram apenas as perfeições que estão aquém Tomás não é determinada apenas pelo conhecimento intelectual, mas tam- da verdade suprema: Deus. Por exemplo, uma perfeição que permanece a bém pelo conhecimento sensorial. Não podemos esquecer que é devido ao despeito da aférese do corpo é a sabedoria. Porém, trata-se de uma sabedo- estado de vida corpórea, isto é, do intelecto unido ao corpo, que se torna ria inferior a sabedoria divina que está além do nosso alcance. Segundo impossível conhecer qualquer coisa sem se voltar às imagens. Gilson, Tomás de Aquino aderiu, rigorosamente, a essa metodologia. No Comentário ao Tratado da Trindade de Boécio, pode-se encontrar Como vimos, anteriormente, Tomás considerava que o conheci- o mesmo entendimento: mento de Deus ocorre por comparação com as perfeições presentes nas coisas Tal comparação realiza-se através de três vias: a causali- Conhecemos as coisas inteligíveis por negação, por causalidade e por dade, a transcendência e a remoção. Tomás deixa bem claro que as três vias, transcendência. Modos que Dionísio sustenta também no livro Nomes Divi- que possibilitam o conhecimento das verdades eternas e, especialmente, nos. Boécio entende que cabe contemplar a própria forma divina desse modo, de Deus, vêm dos escritos de Pseudo-Dionísio, em particular, dos Nomes isto é, pela remoção de todas as imagens. Mas não para que se saiba a respeito dela o que ela divinos. Para Tomás, essa citação é "fonte de doutrina", ou seja, é matriz que indica a estrutura básica de como devemos conceber o conhecimento Segundo Tomás, Boécio não tinha a intenção de dizer que é possível de Deus e das verdades eternas. Portanto, a triplex via de Pseudo-Dionísio contemplar as verdades eternas por meio de uma iluminação divina, como é da mais alta relevância para Tomás. Seria bastante proveitoso citar e afirmava Agostinho. Para ele, as verdades eternas estão além de todas as analisar todas as passagens da obra de Tomás em que a triplex via aparece. imagens. Deus só é conhecido nas criaturas (causalidade) e através delas Porém, é suficiente conhecermos apenas mais duas passagens: uma do (transcendência e remoção). No entanto, embora seja possível, por meio da Comentário ao Tratado da Trindade de Boécio, e a outra, é claro, do comen- causalidade, saber o que Deus é, o mesmo não pode ser dito do "ato de ser tário de Tomás aos Nomes divinos. Neste último, o próprio Tomás definiu cada uma das três vias: de Deus", isto é, a sua essência. Isso significa que para o ser humano, que ainda está em fase de peregrinação (cf. 1Pe 2.11), a essência de Deus é desconhecida. Por causa disso, o conhecimento que temos de Deus é imper- Assim, portanto, a partir da ordem do universo, como por uma certa via e ordem, subimos pelo intelecto, de acordo com nossa virtude, a Deus, que está acima de feito. Nem sequer um conhecimento perfeito das verdades eternas é viável Isto, de três maneiras. Primeiro e, principalmente, pela remoção de tudo, aos seres humanos no presente estado de vida corpórea. Esse conhecimento pois nada daquilo que contemplamos na ordem das criaturas, julgamos ser imperfeito opõe-se ao conhecimento perfeito que só será possível na pátria Deus ou adequado a Deus. Segundo, por transcendência. Com efeito, não celestial. Importante é notar que Tomás finaliza essa argumentação removemos de Deus as perfeições presentes nas criaturas (...) mas, pelo fato de que Ele transcende toda perfeição da criatura, removemos dele a sabedoria, 23 In librum Beati Dionysii De divinis nominibus expositio, Lect. IV; cap. VII; expositio n. 729. Tradução de Carlos Arthur R. do Nascimento. In: Intelecto e imaginação na filosofia 21 A existência na filosofia de S. Tomás, p. 31. medieval, Porto, Faculdade de Letras da Universidade do Porto, 2004, V. 4, p. 249-258. 22 Cf. Obras completas, p. 133, "Teologia 1025C. 24 163 (q. 6, a. 3).FILOSOFIA ENCONTRO DA FILOSOFIA GREGA COM A TEOLOGIA 99 98 enfatizando que esse conhecimento perfeito jamais se dará por alguma ciência tentamos falar de Deus. Enquanto temos uma noção precisa do que ele não é, especulativa, mas apenas pela "luz da glória de Deus" (cf. Hb 11.14-16). nossas palavras guardam certo sentido positivo, mas quando chegamos à ques- As citações destacadas do Comentário ao Tratado da Trindade de Boécio tão: "é Deus distinto do seu próprio ato de ser?", então é a hora de nosso intelecto cortar as amarras, perder contato com a terra firme da essência, ou e do Comentário dos Nomes divinos de Dionísio evidenciam que o intelecto quididade, e lançar-se no oceano infinito da pura atualidade humano pode conhecer a Deus e as verdades eternas somente por compara- ção ou remoção do que é corpóreo. Mas, mesmo assim, é necessário destacar Podemos dizer que, segundo Tomás, o nosso conhecimento de Deus que, ao conhecer as coisas inteligíveis, o intelecto necessita voltar-se às ima- é imperfeito, porque só podemos conhecê-lo a partir da comparação com as gens, ainda que seja para negá-las. Essa necessidade de confrontar as ima- coisas sensíveis. Tendo em vista o fato de que não podemos saber o que gens vem do presente estado de vida, em que o intelecto, unido ao corpo, Deus é, mas só o que ele não é, Tomás conclui que todo o conhecimento de não pode conhecer as verdades eternas diretamente ou imediatamente. Em Deus é negativo. Certamente, o seu objetivo não era negar a possibilidade suma, para Tomás, Deus não pode ser conhecido em sua essência: se de ter-se um conhecimento positivo de Deus, mas afirmar a transcendência intelecto humano no presente estado de vida não pode sequer conhecer divina a partir de um conhecimento negativo: conhecer Deus consiste em imediatamente as coisas criadas, então, como podemos dizer que é possível reconhecer que não se sabe o que Deus é. Na verdade, o apofatismo de conhecer a essência de Deus? Tomás visa quebrar a impressão que nós temos da total distância de Deus, No artigo 3 do Comentário ao Tratado da Trindade de Boécio, para causada pela impossibilidade de um conhecimento imediato de sua essên- fundamentar sua argumentação sobre a impossibilidade de conhecermos cia. apofatismo é a "espada" que Tomás usa para separar e, portanto, man- a essência de Deus, Tomás de Aquino recorreu a três escritos de peso: a ter em equilíbrio a afirmação do ser de Deus e de seu conhecimento. Deus Teologia mistica de Pseudo-Dionísio, a Metafísica de Aristóteles e a epístola realmente está além de todo o nosso conhecimento, porém o motivo da de Paulo aos Romanos. No primeiro capítulo da Teologia Tomás ignorância encontra-se no conhecimento imperfeito que nós temos das ver- encontrou os argumentos a favor da incognoscibilidade de Deus, isto é, a dades eternas. impossibilidade de conhecê-lo imediatamente. Entretanto, para apoiar Segundo Segismundo Spina, professor emérito da Universidade de essa doutrina, cita um trecho do livro II da Metafísica em que Aristóteles São Paulo, o século de Tomás de Aquino foi um "século visceralmente compara o intelecto humano com a coruja: o olho da coruja não pode de época em que a razão era quase um objeto de culto. Entre- modo nenhum ver o Sol. Logo, nem o nosso intelecto pode ver a própria tanto, ainda que se espelhem em Tomás as marcas de seu tempo, procura- essência Além de Aristóteles, Tomás cita, também, uma passa- mos destacar nos textos citados aquilo que Géry Prouvost chamou de gem da Escritura que parece concordar com as ideias aristotélicas. Nessa "movimento de transgressão do ser", o que nada mais é que "compreender passagem, Paulo afirma que Deus é aquele a quem conhecemos pelas que não se compreende Deus". Essa constatação, ao mesmo tempo que criaturas (cf. Rm 1.20). Isso reforça o que já foi dito: o intelecto humano, aponta para a finitude humana, "esposa o ritmo do infinito em no presente estado de vida, não pode conhecer diretamente as coisas inte- Essa é, em suma, a finalidade da teologia de Tomás de Aquino: salvaguar- ligíveis, muito menos a essência divina. Sobre essa impossibilidade de dar a realidade absolutamente transcendente do Criador em relação às apreender a essência de Deus, Gilson fez uma comparação bas- suas tante pertinente: Suponhamos, então, que empreendemos uma viagem marítima. Começamos CONTRAPONTOS TEOLÓGICOS por nos separar de tudo o que havemos de deixar atrás, pessoas e coisas. Encontramo-nos a bordo, no universo estranhamente limitado, que será o nosso Aristóteles está para a teologia como as trevas estão para a luz (...). É um erro universo por alguns dias; mas nada acontece de decisivo, até que chega o dizer que, sem Aristóteles, ninguém se torna teólogo. último momento, quando o navio finalmente corta as amarras e parte. Estamos no mar e se nos perguntarem onde nos encontramos, não poderemos respon- Lutero, Debate sobre a teologia escolástica (1517). der citando o nome de nenhum lugar preciso. Tudo o que podemos dizer é a quantas mil milhas longe da terra nos encontramos. Algo parecido ocorre quando 26 A existência na filosofia de S. Tomás, p. 32-33. 27 A cultura literária medieval, p. 85. 25 Comentário ao Tratado da Trindade de Boécio, p. 159 (q. 6, a. 3). 28 Thomas d'Aquin et les thomismes, p. 172.