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RUBEM ALVES ENTRE O SABER E O SABOR: O DILEMA DA EDUCAÇÃO Organizado por Raquel Alves Prefácio por José Pacheco RUBEM ALVES CRÔNICAS PUBLICADAS NA REVISTA EDUCAÇÃO ENTRE O SABER E O SABOR: O DILEMA DA EDUCAÇÃO Organizado por Raquel Alves Prefácio por José Pacheco 2 “Sonho com uma escola em que se cultivem pelo menos três coisas. Primeiro, a sabedoria de viver juntos: o olhar manso, a paciência de ouvir, o prazer em cooperar. (...) Segundo, a arte de pensar, porque é a partir dela que se constroem todos os saberes. Pensar é saber o que fazer com as informações. Informação sem pensamento é coisa morta. (...) Terceiro, o prazer de ler. Jamais o hábito da leitura, porque o hábito pertence ao mundo dos deveres, dos automatismos: cortar as unhas, escovar os dentes, rezar de noite. Não hábito, mas leitura amorosa. Na leitura amorosa entramos em mundos desconhecidos e isso nos faz mais ricos interiormente. Quem aprendeu a amar os livros tem a chave do conhecimento. (...) Mas essa escola não se constrói por meio de leis e parafernália tecnológica. De que vale uma cozinha dotada das panelas mais modernas se o cozinheiro não sabe cozinhar? É o cozinheiro que faz a comida boa mesmo em panela velha. O cozinheiro está para a comida boa da mesma forma como o educador está para o prazer de pensar e aprender.” Rubem Alves 3 Apresentação Ler Rubem Alves é surfar sobre uma onda carregada de saber e de sa- bor, o que por si só justifica o título deste livro. Não importa se foi escrito e pensado há uma década atrás ou mais, os escritos deste autor são sempre atuais. Afinal de contas, pensar e desejar a vida são questões intrinseca- mente humanas e não há tempo certo para sermos nós, humanos da forma como somos, cheios de sonhos, desejos, medos, dúvidas e assim por diante. Quando Rubem Alves fala sobre educação, ele não fala sobre métodos e receitas, mas sobre melhorar a relação das pessoas com a vida delas e, qual a receita para viver? Creio que, receita não há alguma, mas acredito que não haja qualidade de vida se não aprendermos a pensar e a desejar a vida. É o desejo pela vida que nos dá o sabor e o prazer de estarmos aqui. Como filha, sempre ouvi de forma diplomática as inúmeras apre- sentações feitas para designar meu pai: escritor, palestrante, filósofo, teólogo, educador, psicanalista... Títulos! Mas para mim, nada o repre- senta mais que o desejo de mostrar a vida aos outros por meio do seu olhar, da sua lente, da sua sensibilidade... Ele antes de pensar e educar, amou a vida profundamente e isso o impulsionou a pensar, falar, escre- ver e nos educar incessantemente. Como organizadora deste livro, desejo que ele te dê prazer e faça pensar e, acima de tudo, te instigue a ser cada vez mais humano(a), se entregando ao maravilhoso universo daqueles que, por meio da educa- ção, apontam para a vida e dizem: “olha que maravilhoso que é estar aqui, usufruam!”. RAquel Alves 4 PREFÁCIO Inventava o que não existia Conheci o amigo Rubem na manhã de um dia claro, num encontro que viria a mudar a minha vida, que me levaria a viver uma segunda vida, no Brasil. Na sua primeira visita à Escola da Ponte, ele se deteve a observar uma menina, que consultava um dicionário. Perguntou-lhe por que o fazia. A menina respondeu: Estou a fazer uma lista de palavras “difíceis” deste texto e a escrevê- -las de uma maneira mais simples”. O Rubem insistiu: “Foi um professor que te mandou fazer essa tarefa?” “Não.” – disse a menina – “Eu sei o sentido destas palavras. Mas os meus colegas pequeninos ainda não sabem consultar o dicionário. E eu decidi ajudá-los. Assim, eles compreendem o texto. Visivelmente, emocionado, o Rubem enxugou furtivas lágrimas. Quando um homem chora, quando se comove, passa a ocupar o topo do meu ranking de humanidade. Emocionado já eu o vira, nas nossas visitas ao seu sítio de Pocinhos de Rio Verde. Nessas viagens, era o Ru- bem quem dirigia e, sempre que ele parava o veículo, eu sabia que isso se devia a ter surgido a visão de um ipê. Quando perguntaram a uma criança quem tinha sido Rubem Alves, a criança respondeu: “O Rubem era um homem que gostava de ipês”. Foi a melhor definição desse ex- traordinário ser humano. Enviei algumas cartinhas à minha neta, nos seus primeiros dias de vida. A última tem a data de 15 de setembro, o dia previsto da sua entrada na escola e de aniversário do saudoso amigo Rubem. Contei- -lhe que um “Pássaro Encantado” tinha ido ao outro lado do mar, ao encontro da escola com que sempre sonhara. 5 Incompreendido pelos pássaros cativos era a esperança dos pássaros fraternos e sonhadores. Comovia-se perante o canto inventado por um outro pássaro mágico de nome Bach, ou quando escutava melo- dias inventadas por Ravel, um pássaro que deixou muitas melodias por inventar… O Pássaro Encantado havia lido “A poética do deva- neio”, de Bachelard, e descoberto poetas que punham palavras nos sentimentos. Preocupava-se com o futuro dos jovens, mas não se abstraía da necessidade da felicidade do imediato. O Pássaro Encantado ia de terra em terra, ensinando a desaprender. Seguindo o seu exemplo, muitos educadores, conscientes de que o tempo foge enquanto a eternidade avança, ousavam reinventar a Escola, reivindicavam a felicidade do “aqui e agora”. Em palavras suas: Eu tenho um jeito socrático de entender a educação. Acho que o seu objetivo é despertar nas pessoas aquilo que está adormecido dentro delas. Nós somos como palácios maravilhosos onde dormem cente- nas de inteligências diferentes, uma coisa parecida com a história da Bela Adormecida. A função principal do educador é dar o beijo que desperta a Bela Adormecida. Você tem de provocar, para que algumas dessas inteligências acordem. Digo algumas, porque nem todas podem ser despertadas, a gente não tem tempo para tudo. É isso o que a gente faz, provocar os alunos para que eles despertem as suas inteligências e possam então lidar com a vida. Um amigo comum, ao se referir ao Rubem, dizia ser a educação um permanente movimento no sentido da decantação e intersecção de olhares. Começamos por treinar e desenvolver apenas o olhar para fora. Durante alguns anos, permanecemos cegos para o que não existe. Só descobrimos o olhar para dentro e começamos a pressentir o que não existe quando se nos impõe ou nos é imposta a necessidade de interrogar e compreender o que vemos fora de nós. Este é o primei- ro momento mágico da educação. O momento em que finalmente nos 6 apercebemos de que há um imenso mundo, para além ou aquém do mundo que espreitamos fora de nós. O Rubem admirava Pessoa, que, no heterônimo Álvaro de Cam- pos, dizia ser o intervalo entre o que desejava ser e o que outros o fi- zeram. A educação é isso, um caminho. O caminho dissociado das ex- periências de quem o percorre é apenas uma proposta de trajeto, não um projeto de vida. O caminho só existe quando o percorremos, tal como o define Machado: “Caminhante, é o teu rastro o caminho, e nada mais”. Rubem reagia perante uma escola que colocava entraves a esse caminhar, dava-lhe nome: pinoquização cultural. E, nas suas crônicas, à semelhança do Manoel, inventava o que não existia, antecipava e ger- minava o futuro. Fico grato à Raquel, filha dileta, que nos diz que quando o seu pai fala sobre educação, “ele não fala sobre métodos e receitas, mas sobre melhorar a relação das pessoas com a vida delas”. Plenamente de acordo! Rubem era um observador de almas, possuidor de um olhar com brilho de inícios, um ser que enxergava aquilo que só uma criança conseguia ver. Enxergava o mundo interior, só captável pelo olhar para dentro. Era um educador nato que, à medida que tomava consciência desse mundo, alcançava o segundo e decisivo momento mágico da edu- cação, o momento em que começamos a escrever a nossa própria vida. Peço perdão à Raquel, se eu não soube enaltecer condignamente a memória do seu pai neste breve prefácio. Ainda que eu soubessepensamento surgiu para compensar a nossa inferioridade. Os animais não precisam pensar. As casas dos animais têm as formas mais diferentes umas das outras. Os moluscos, animais de corpo mole, fazem casas na forma espiral, chamadas conchas. As aranhas fazem casas como rendas, que além de serem casas são armadilhas para insetos. Os guaxos fazem ninhos incríveis, do tamanho de uma jaca, pendurados num ramo de árvore, com pauzinhos entrelaçados. Os pássaros joão-de-barro foram os primeiros pedreiros; fazem casas de barro. As formigas fazem labi- rintos profundos, subterrâneos. Você não sabe o que significa a palavra “labirinto”. Há um livro em que se encontram todas as palavras, por ordem alfabética, com os seus sentidos. É o “dicionário”. O que é ordem alfabética? É a ordem das letras: a, b, c, d, e, f. Você abre o dicionário na letra “L”, e procura a palavra “labirinto”. Lá está escrito: “Labirinto: jardim ou palácio de feitio tão complicado que é muito difícil acertar com a saída”. Na ci- dade de Nova Petrópolis, no Rio Grande do Sul, há um labirinto feito com plantas, num jardim. Entrei dentro dele e depois não encontrava a saída. Foi preciso que alguém me ajudasse. Assim são os formigueiros. Só que as formigas nunca se perdem dentro dele. Elas têm um mapa virtual (“virtual”: o que é isso?) dentro dos seus corpos. Os gregos de há muitos séculos atrás contavam a estória de um labirinto onde morava um touro ferocíssimo. Teseu, um herói, entrou AS CASAS 48 no labirinto para matar o touro. Mas, para que ele não se perdesse, uma jovem chamada Ariadne (ela amava Teseu...) lhe deu um novelo de linha que ele ia desenrolando à medida que entrava no labirinto. Para sair era só seguir o fio do novelo. João e Maria, para não se perderem no labirinto da floresta, foram jogando pedrinhas no caminho. Preste atenção na casa de abelhas. Elas são feitas com cera que elas mesmas produzem. Preste atenção nos buraquinhos. Todos eles têm a forma de “hexágonos” perfeitos. “Hexágono” é uma figura de seis lados. “Triângulos” são figuras de três lados; “quadrados” são figuras de quatro lados: “pentágonos” são figuras de cinco lados. Quanto mais lados, mais a figura vai se parecendo com “círculo”. O “círculo” é uma figura de tantos lados que não se pode dizer quan- tos: um número infinito de lados... As abelhas, para construir cen- tenas de celas hexagonais, têm de ser muito boas em geometria... Procure, na internet, fotografias das casas desses animais. Procure, na biblioteca da sua escola, um livro de mitologia grega e leia a estó- ria de Teseu. Nesse livro você encontrará muitos mitos fascinantes. 49 Os materiais que usamos em nossa morada são extensões de nosso corpo A inteligência tem uma orientação ecológica. Ecologia é uma palavra derivada da palavra grega oikia, que quer dizer “casa”. No início, a pes- quisa é bem prática e imediata: a busca dos materiais para fazer a casa. Resolvido o problema inicial, a pesquisa se amplia. O corpo precisa co- nhecer os arredores, rios, montanhas, matas, porque, para sobreviver, não pode ficar metido na sua toca. Esse espaço é o “quintal” da casa. É preciso conhecer os sinais do tempo. A sobrevivência no verão é dife- rente da sobrevivência no inverno. É preciso conhecer os hábitos dos bi- chos e dos peixes, para serem caçados e pescados. É preciso conhecer as propriedades alimentícias e medicinais das plantas. Pelo conheci- mento, o espaço da casa se amplia. O homem pode sair de sua casa sem se perder. Pode sair de sua casa para sobreviver. Mas ele volta sempre. A concha que o nosso corpo mole produz, assim, não é feita só com materiais físicos. É feita com conhecimento. Por vezes esse co- nhecimento fica mais duro que as conchas dos moluscos – havendo sempre o perigo de que ela se transforme numa prisão, como uma concha que não se abre. Conheço muitas pessoas assim. A inteligência é uma corda esticada entre dois pontos. De um lado, a necessidade: construir a casa. Do outro, os materiais disponí- veis. As primeiras casas foram grutas. Gruta é uma casa pronta. Não precisa ser inventada. É só entrar dentro dela. Mas nos lugares onde não há grutas foi necessário construir grutas artificiais. A inteligência dos esquimós produziu o iglu, concha maravilhosa feita com blocos de gelo. Lá dentro é quentinho. Curioso que dentro de uma concha de gelo faça calor! Nos países frios, os pássaros se abrigam dentro dos iglus na- turais que a neve faz sobre os arbustos. Os esquimós jamais pensariam CONSTRUIR UMA CASA 50 em construir casas de madeira ou de lona porque esses materiais não são encontrados no mundo em que vivem. E os beduínos, no deserto, jamais poderiam imaginar um iglu. No deserto não há gelo. Nem fa- riam uma casa fixa: são tribos errantes. Suas casas são tendas de pano que podem ser desmontadas e transportadas. Populações que moram à beira de rios sujeitos a enchentes logo perceberam que suas casas deve- riam ter pernas de pau: inventaram as palafitas. Que coisa interessante seria estudar, com as crianças, os vários tipos de casa. A necessidade de construir casa é universal. Mas dessa necessidade surgem as mais diferentes “ciências” do mundo, em função dos materiais usados para a construção das casas. Casas são extensões do corpo – prolongamentos dos nossos órgãos. Anote isto: o corpo é egoísta; pensa e age no sentido de vi- ver. Por isso, pensa e age praticamente. O que não é prático, ignora – esquece. Os materiais com que a casa é construída – paredes, teto, portas – são extensões dos meus ossos e músculos. As janelas são extensões dos pulmões e dos olhos. O fogão de lenha, em sua função de aquecer, é uma expansão da pele. Mas na sua função de cozinhar ele é uma extensão da boca (o gosto bom da comida) e do aparelho digestivo: co- mida cozida ajuda a digestão. A casa está cheia de uma infinidade de objetos que usamos constantemente. Faça, com os seus alunos, um inventário desses objetos, da caixa de fósforos ao computador! Cada um desses objetos é um mundo. Cada um deles é produto de inven- ção. Cada um deles está cheio de inteligência. Uma casa que provoca a inteligência deve estar cheia desses objetos. 51 O processo de aprendizagem se inicia com a formulação de perguntas Sugeri, faz tempo, que para entrar numa escola alunos e professores deveriam passar por uma cozinha. Os cozinheiros podem dar lições aos professores. Foi na cozinha que a Babette e a Tita realizaram suas feitiçarias. Babette e Tita, feiticeiras, sabiam que os banquetes não se iniciam com a comida que se serve. Eles se iniciam com a fome. A ver- dadeira cozinheira é aquela que sabe a arte de produzir fome. Toda experiência de aprendizagem se inicia com uma experiência afetiva. É a fome que põe em funcionamento o aparelho pensador. Eu era menino. Ao lado da pequena casa onde eu morava havia um pomar enor- me que eu devorava com os olhos. Pois aconteceu que uma árvore cujos galhos chegavam a dois metros do muro se cobriu de frutinhas que eu não conhecia. Eram pequenas, redondas, vermelhas, brilhantes. A sim- ples visão daquelas pitangas provocou o meu desejo. Eu queria comê-las. E foi então que, provocada pelo meu desejo, minha máquina de pensar se pôs a funcionar. O pensamento é a ponte que o corpo constrói a fim de chegar ao objeto do seu desejo. Se eu não tivesse visto e desejado as ditas pitan- gas minha máquina de pensar teria permanecido parada. Imagine que a vizinha, ao ver os meus olhos desejantes, com dó de mim, tivesse me dado um punhado das pitangas. Nesse caso também minha máquina de pensar não teria funcionado. Meu desejo teria se realizado por meio de um atalho sem que eu tivesse tido necessidade de pensar. Se o desejo for satisfeito a máquina de pensar não pensa. A ma- neira mais fácil de abortar o pensamento é realizando o desejo. Esse é o pecado de muitos pais e professores que ensinam as respostas an- tes que tivesse havido as perguntas. Provocada pelo meu desejo minha COMEÇANDOPELA COZINHA 52 máquina de pensar me fez uma primeira sugestão, criminosa. “Pule o muro à noite e roube as frutas.” Sim, de fato era uma solução racional. O furto me levaria ao fruto desejado. Mas havia um senão: o medo. Assim, rejeitei o pensamento criminoso. Mas o desejo continuou e tra- tei de encontrar outra solução: “construa uma maquineta de roubar pitangas”. McLuhan ensinou que os meios técnicos são extensões do corpo. Bicicletas são extensões das pernas, por exemplo. Uma maquineta de roubar frutas seria uma extensão do braço. Peguei um pedaço de bambu. Mas um braço comprido de bambu, sem uma mão, seria inútil: as pitan- gas cairiam. Achei uma lata de massa de tomates vazia. Amarrei-a com um arame na ponta do bambu. E lhe fiz um dente, que funcionasse como um dedo que segura. Feita a minha máquina apanhei todas as pitangas que quis e satisfiz meu desejo. Conhecimentos são extensões do corpo para a realização do desejo. Imagine agora que eu, mudando-me para um apartamento no Rio de Janeiro, tivesse a ideia de ensinar meu vi- zinho a fabricar maquinetas de roubar pitangas. Ele me olharia com desinteresse e pensaria que eu estava louco: não havia pitangas para serem roubadas. A cabeça não pensa aquilo que o coração não pede. Conhecimen- tos que não são nascidos do desejo são como uma maravilhosa cozinha na casa de um homem que sofre de anorexia. Homem sem fome: o fo- gão nunca será aceso. O banquete nunca será servido. Dizia Miguel de Unamuno: “saber por saber: isso é inumano...”. A tarefa do professor é a mesma da cozinheira: antes de dar a faca e o queijo ao aluno, deve provocar a fome. O prazer de ler CAPÍTULO 4 54 Ou a arte de educar por mágicas Vivia num país de céu cor de anil um rei que muito amava o seu povo e queria que ele fosse inteligente. A prova de que não era inteligente estava no fato de que aquele povo não sabia e não gostava de ler. O rei passava dias e noites pensando: “Que fazer para que meu povo seja in- teligente?”. E, como não sabia o que fazer para isso, ficou triste. Viviam naquele país dois espertalhões, chapeleiros por profissão. Ficaram sabendo da tristeza do rei. E maquinaram um plano para ga- nhar dinheiro às custas dela. Dirigiram-se ao palácio e anunciaram: – Fizemos doutoramentos no exterior sobre a arte de tornar o povo inteligente. O rei ficou felicíssimo: Por favor, expliquem essa ciência – disse. – Majestade, o que torna uma pessoa inteligente? Com essa per- gunta, abriram um álbum de fotografias. – Veja. Estão aqui as pessoas mais inteligentes da história. Em primeiro lugar, Merlin, o maior dos magos. Note que tem um chapéu de feiticeiro na cabeça. Viraram a página e lá estavam as fotos dos doutores de Oxford e Harvard. Todos eles de chapéu na cabeça. – Veja agora o maior general de todos os tempos, Napoleão Bo na- parte. Sabe Vossa Excelência a razão por que ele perdeu a batalha de Waterloo? Um espião inglês infiltrado lhe roubou o chapéu. Sem cha- péu, não pôde competir com Wellington, que usava chapéu. E veja ago- ra os grandes gênios da humanidade: Sigmund Freud, Winston Chur- chill, Santos Dummont, todos com chapéus na cabeça. Os chapéus dão inteligência. Propomos, então, um programa nacional: “Chapéus para todos”. Por pura coincidência somos chapeleiros e teremos prazer em ajudá-lo na sua cruzada contra a burrice. Montaremos muitas fábricas e lojas de chapéus.. O PAÍS DOS CHAPÉUS 55 O rei ficou entusiasmadíssimo e lançou a campanha: “Chapéus para todos”. Os outdoors se encheram de slogans: “Prepare-se para o mercado de trabalho: use um chapéu”; “Garanta um futuro para o seu filho: dê-lhe um chapéu!”. A indústria chapeleira progrediu. Até as cidades mais pobres anunciavam com orgulho: “Também temos uma fábrica de chapéus...”. Agências internacionais, sabedoras da campanha “cha péus para todos”, mediram os resultados dessa técnica pedagógica. Fizeram pes- quisas para avaliar o efeito dos chapéus sobre os hábitos de leitura do povo. Mas o resultado foi desapontador. O número de chapéus na ca- beça não era proporcional ao número de livros lidos. O rei ficou bravo. Mandou chamar os chapeleiros e pediu explicações. – Senhores, o povo continua burro. O povo não lê... Os espertalhões não se apertaram. – Majestade, é que ainda não entramos na segunda fase do progra- ma. Um chapéu não basta. Sobre o primeiro chapéu as pessoas terão de usar um pós-chapéu amarelo. O rei acreditou. Tomou as providências para que todos pudes- sem ter pós-chapéus amarelos Daí para frente quem só usava o pri- meiro não valia nada. Para conseguir um emprego, era necessário usar os dois chapéus. Mas nem assim o povo aprendeu a ler. Aí os espertalhões explicaram ao rei que faltava o chapéu que real- mente importava: o vermelho. O país ficou conhecido como o país dos chapéus. Todo mundo tinha chapéu. O resultado da última pesquisa internacional sobre os hábitos de leitura do povo do país dos enchape- lados ainda não foi anunciado. Assim, ainda não se sabe sobre o efeito do chapéu pós-vermelho sobre os hábitos alimentares da inteligência do povo. Mas uma coisa já é sabida: de todos, os mais inteligentes são os chapeleiros... 56 Ela me olhou e disse: “Encontrei um lindo poema em Fernando Pes- soa.” Fiquei contente porque gosto muito de Fernando Pessoa. Aí ela começou a ler. Epa! Senti-me mal. As palavras estavam certas, mas ela tropeçava, parava onde não devia, não tinha ritmo nem música. Não, aquilo não era Fernando Pessoa, embora as palavras fossem suas. Senti o mesmo que já sentira em audições de alunos principiantes. Percebi, então, que a arte de ler é exatamente igual à arte de tocar piano – ou qualquer outro instrumento. Como é que se aprende a gostar de piano? O gostar começa pelo ouvir. É preciso ouvir o piano bem tocado. Há pianistas que já nascem com o piano dentro deles. O piano é uma extensão dos seus corpos. E há os “pianeiros”, como eu, que me esforcei sem sucesso para ser pianista. Diferentes dos pianistas, os “pianeiros” têm o piano do lado de fora. Esforçam-se para pôr o piano do lado de dentro, mas é inútil. As notas se aprendem. Mas isso não é o bastante. Os dedos esbarram, erram, tropeçam – e aquilo que deveria ser uma experiência de prazer se transforma numa experiência de sofrimento para quem ouve e para quem toca. Um pianista, quando toca, não pensa nas notas. A partitura já está dentro dele. Ele se encontra num estado de “possessão”. Nem pensa na técnica, é um problema resolvido. Ele simplesmente “surfa” sobre as teclas seguindo o movimento das ondas. Pois é assim que se aprende o gosto pela leitura: ouvindo-se o artista – o que lê – interpretar o texto. Uso a palavra “interpretar” no sentido artístico, teatral. O “intérprete” é o possuído. É ele que faz vi- ver seja a partitura musical silenciosa, seja o texto teatral ou poético, silencioso na imobilidade da escrita. Disse Shakespeare no 2o. ato de Hamlet: “Não é incrível que um ator, por uma simples ficção, um so- nho apaixonado, amolde tanto a sua alma à imaginação, que todo se lhe transfigura o semblante, por completo o rosto lhe empalideça, lá- É COMO OUVIR MÚSICA 57 grimas vertam dos seus olhos, suas palavras tremam, e inteiro o seu organismo se acomode a essa mesma ficção?” Se os jovens não gostam de ler é porque não tiveram a experiência de ouvir a leitura feita por um possuído. Há de se dominar a técnica da leitura como se domina a técnica do piano. Acontece que o domínio da técnica é cansativo e freqüente- mente aborrecido. Antigamente, o aprendiz de piano tinha de gastar horas nos monótonos exercícios de mecanismo do Hannon. Mas mes- mo os grandes pianistas que já dominaram os essenciais da técnica têm de gastar tempo e atenção debulhando as passagens complicadas que não podem ser pensadas ao ser tocadas. Mas só têm paciência para suportar o aborrecido da técnica aque- les que foram fascinados pela beleza da música. Estuda-se a técnica por amor à interpretação,que é o evento orgiástico de possessão. Por isso tenho sugerido a escolas e prefeituras que promovam “Concertos de leitura” para seduzir os ouvintes à beleza da leitura. Não custam nada. Uma única coisa é necessária: o artista, o intérprete... Um Concerto de leitura poderia organizar-se assim: Primeira parte: Poemas da Adélia Prado. É impossível não gostar dela... Segunda parte: “O afogado mais lindo do mundo”, conto de Gabriel Garcia Marquez. Terceira parte: Hai-kais de Bashô. Todo mundo gostaria e sairia decidido a dominar a arte da leitura. 58 Interpretar significa construir uma narrativa própria “Hoje vamos interpretar um poema”, disse a professora de literatura. “Trata-se de um poema mínimo da poetisa portuguesa Sophia de Mello Breyner Andressen”, ela continuou. “O seu título é ‘Intacta Memória’”. E com essas palavras começou a leitura.“Intacta memória – se eu cha- masse/Uma por uma as coisas que adorei/Talvez que a minha vida re- gressasse/Vencida pelo amor com que a sonhei”. Ela tira os olhos do li- vro e fala: “O que é que a autora queria dizer ao escrever esse poema?”. Essa pergunta é muito importante. Ela é o início do processo de interpretação. Na vida estamos envolvidos o tempo todo em interpre- tar. A interpretação é aquilo que se deve fazer com os textos que se lê. Para que sejam compreendidos. É claro que a interpretação só se aplica a textos obscuros. Não se interpretam textos claros. “O que é que o au- tor queria dizer?” Note: o autor queria dizer algo. Queria dizer mas não disse. Por que será que ele não disse o que queria dizer? Só existe uma resposta: “por incompetência linguística”. Ele queria dizer algo, mas o que saiu foi apenas um gaguejo, uma coisa que ele não queria dizer. A interpretação, assim, se revela necessária para salvar o texto da incompetência linguística do autor... Claro que tudo o que eu disse é uma brincadeira. É preciso compreender que o escritor nunca quer dizer alguma coisa. Ele simplesmente diz. O que está escrito é o que ele queria dizer. Se me perguntam: “O que é que você queria dizer?”, eu respondo: “eu queria dizer o que disse. Se eu quisesse dizer outra coisa eu teria dito outra coisa e não aquilo que eu disse”. Estremeço quando me ameaçam com interpretações de textos meus. Escrevi uma estória com o título “ O gambá que não sabia sorrir”. É a estória de um gam- bazinho chamado “Cheiroso” que ficava pendurado pelo rabo no galho de uma árvore. Uma escola me convidou para assistir à interpretação SOBRE A INTERPRETAÇÃO 59 do texto que seria feita pelas crianças. Fiquei feliz. Iniciada a interpre- tação eu fiquei pasmo! A interpretação começava com o gambá. O que é que o Rubem Alves queria dizer com o gambá? Foram ao dicionário e lá encontraram: “gambá: nome de animais marsupiais do gênero Didel- phys, de hábitos noturnos que vivem em árvores e são fedorentos. São omnívoros, tendo predileção por ovos e galinhas”. Seguiam descrições científicas de todos os bichos que apareciam na estória. Fiquei a pen- sar: “o que é que fizeram com o meu gambá? Meu gambazinho não é um marsupial fedorento”. Octávio Paz diz que a resposta a um texto nunca deve ser uma interpretação. Deve ser um outro texto. Quando um professor lê um poema para os seus alunos, deve fazer-lhes uma provocação: “o que é que esse poema lhes sugere? O que é que vocês veem? Que imagens? Que associações?”. Assim o aluno, ao invés de se entregar à duvidosa tarefa de descobrir o que o autor queria dizer, en- trega-se à criativa tarefa de produzir o seu próprio texto literário. Mas há um tipo de interpretação que eu amo. É aquela que se inspira na interpretação musical. O pianista interpreta uma peça. Isso não quer dizer que ele esteja tentando dizer o que o compositor queria dizer. Ao contrário, possuído pela partitura, ele a torna viva, transforma-a em objeto musical, tal como ele a vive na sua possessão. Os poemas, as- sim, podem ser interpretados, transformados em gestos, em dança, em teatro, em pintura. O meu amigo Laerte Asnis transformou a minha estória “A pipa e a flor” num maravilhoso espetáculo teatral. Pela arte do intérprete, o Laerte, palhaço, o texto que estava preso no livro fica livre, ganha vida, movimento, música, humor. E com isso a estória se apossa daqueles que assistem ao espetáculo. E o extraordinário é que todos entendem, crianças e adultos. Organização: Raquel Alves Realização: Revista Educação/RFM Editores Projeto gráfico e diagramação: Angela Mendes Apoio:es- crever perfeitas palavras, não conseguiria expressar a admiração que sinto por ele. Campinas, fevereiro de 2022, José Pacheco 7 CAPÍTULO 1 ENTRE O SABER E O SABOR: O DILEMA DA EDUCAÇÃO 8 EDIÇÃO 124 Formação do educador 9 EDIÇÃO 152 Pimentas na inteligência 11 EDIÇÃO 122 A caixa de ferramentas 13 EDIÇÃO 123 A caixa de brinquedos 15 EDIÇÃO 164 o que é ensinar? 17 EDIÇÃO 151 Gansos e patês 19 EDIÇÃO 161 Depois do esquecimento 21 EDIÇÃO 148 O fim dos vestibulares 23 CAPÍTULO 2 A SABEDORIA DA CONVIVÊNCIA 25 EDIÇÃO 154 “... E uma criança pequena os guiará” 26 EDIÇÃO 141 A autoridade de fora 28 EDIÇÃO 142 A autoridade de dentro 30 EDIÇÃO 157 Um segredo... 32 EDIÇÃO 150 Livro que faz chorar 34 CAPÍTULO 3 A ARTE DE PENSAR 36 EDIÇÃO 126 Esquecer 37 EDIÇÃO 163 Criatividade 39 EDIÇÃO 143 O carrinho 41 EDIÇÃO 140 Moluscos e homens 43 EDIÇÃO 172 A casa que educa 45 EDIÇÃO 173 As casas 47 EDIÇÃO 139 Construir uma casa 49 EDIÇÃO 181 Começando pela cozinha 51 CAPÍTULO 4 O PRAZER DE LER 53 EDIÇÃO 159 O país dos chapéus 54 EDIÇÃO 121 É como ouvir música 56 EDIÇÃO 180 Sobre a interpretação 58 Sumário Entre o saber e o sabor: o dilema da educação CAPÍTULO 1 9 A mensagem que educa não são os conteúdos curriculares, e sim o “embrulho” em que eles são ensinados. Sonho com uma escola em que se cultivem pelo menos três coisas. Primeiro, a sabedoria de viver juntos: o olhar manso, a paciência de ouvir, o prazer em cooperar. A sabedoria de viver juntos é a base de tudo o mais. Segundo, a arte de pensar, porque é a partir dela que se cons- troem todos os saberes. Pensar é saber o que fazer com as informações. Informação sem pensamento é coisa morta. A arte de pensar tem a ver com um permanente espantar-se diante do assombro do mundo, fazer perguntas diante do desconhecido, não ter medo de errar porque os saberes se encontram sempre depois de muitos erros. Terceiro, o prazer de ler. Jamais o hábito da leitura, porque o hábito pertence ao mundo dos deveres, dos automatismos: cortar as unhas, escovar os dentes, rezar de noite. Não hábito, mas leitura amo- rosa. Na leitura amorosa entramos em mundos desconhecidos e isso nos faz mais ricos interiormente. Quem aprendeu a amar os livros tem a chave do conhecimento. Mas essa escola não se constrói por meio de leis e parafernália tecnológica. De que vale uma cozinha dotada das panelas mais moder- nas se o cozinheiro não sabe cozinhar? É o cozinheiro que faz a comida boa mesmo em panela velha. O cozinheiro está para a comida boa da mesma forma como o educador está para o prazer de pensar e apren- der. Sem o educador o sonho da escola não se realiza. A questão crucial da educação, portanto, é a formação do educa- dor. “Como educar os educadores?” FORMAÇÃO DO EDUCADOR 10 Imagine que você quer ensinar a voar. Na imaginação tudo é pos- sível. Os mestres do vôo são os pássaros. Aí você aprisiona um pássaro numa gaiola e pede que ele o ensine a voar. Pássaros engaiolados não podem ensinar o vôo. Por mais que eles expliquem a teoria do vôo, só ensinarão gaiolas. Marshal McLuhan disse que a mensagem, aquilo que se comu- nica efetivamente, não é o seu conteúdo consciente, mas o pacote em que a mensagem é transmitida. “O meio é a mensagem”. Se o meio para se aprender o vôo dos pássaros é a gaiola, o que se aprende não é o vôo, é a gaiola. Aplicando-se essa metáfora à educação podemos dizer que a men- sagem que educa não são os conteúdos curriculares, a teoria que se en- sina nas aulas, educação libertária etc. A mensagem verdadeira, aquilo que se aprende, é o “embrulho” em que esses conteúdos curriculares são supostamente ensinados. Tenho a suspeita, entretanto, que se pretende formar educadores em gaiolas idênticas àquelas que desejamos destruir. Os alunos se assentam em carteiras. Professores dão aulas. Os alunos anotam. Tudo de acordo com a “grade curricular”. “Grade” = “gaiola”. Essa expressão revela a qualidade do “espaço” educacional em que vivem os aprendizes de educador. O tempo do pensamento também está submetido às grades do relógio. Toca a campainha. É hora de pensar “psicologia”. Toca a cam- painha. É hora de parar de pensar “psicologia”. É hora de pensar “mé- todo”... Os futuros educadores fazem provas e escrevem papers pelos quais receberão notas que lhes permitirão tirar o diploma que atesta que eles aprenderam os saberes que fazem um educador. Desejamos quebrar as gaiolas para que os aprendizes aprendam a arte do vôo. Mas, para que isso aconteça é preciso que as escolas que preparam educadores sejam a própria experiência do vôo. 11 Pouco se faz referência à importância da educação do olhar Pimentas são frutinhas coloridas que podem provocar incêndios na boca. Há ideias que se assemelham a elas: podem incendiar os pensa- mentos. Nietzsche era especialista em ideias incendiárias. Um eremita que vivia na floresta, ao ver Zaratustra descer das montanhas para as planícies, percebeu que ele estava a fim de pôr fogo no mundo com suas ideias. Zaratustra sabia que elas queimavam e que muitos, ao lê-lo, “pensariam que estavam devorando fogo e queimariam suas bocas”. Mas, para provocar um incêndio, não é preciso fogo. Basta a brasa, um único pensamento... Van Gogh tem uma tela que representa essa cena: o pai, jardi- neiro, interrompeu seu trabalho, está ajoelhado no chão, com os bra- ços estendidos para a criança conduzida pela mãe. O rosto do pai não pode ser visto. Mas ele está sorrindo. O rosto-olhar do pai diz para o filho: “Vem. Quero que você ande”. É o desejo de que a criança ande que a incita ao aprendizado de algo que não pode ser ensinado com exemplos ou palavras. Aquele pai agachado, braços estendidos, não é uma linda imagem para o educador? A primeira tarefa da educação é ensinar a ver: assim Nietzsche resumiu sua filosofia da educação. É através dos olhos que as crianças tomam contato com o assombro do mundo. Os olhos têm de ser educados para que a alegria aumente. As crianças não veem “a fim de”. Seu olhar não tem objetivo prático. Educar é mostrar a vida a quem ainda não a viu. O educador diz: “Veja!”– e ao falar, aponta. O aluno olha na direção apontada e vê o que nunca viu. Seu mundo se expande, fica mais rico interior- mente e permite sentir mais alegria e dar mais alegria, razão pela qual vivemos. PIMENTAS NA INTELIGÊNCIA 12 Já li muitos livros sobre psicologia da educação, sociologia da edu- cação, filosofia da educação, didática – mas, por mais que me esforce, não consigo me lembrar de qualquer referência à educação do olhar, ou à importância do olhar. “O sentido está guardado no rosto com que te miro” (Cecília Mei- reles). Não te miro com os meus olhos. Te miro com o meu rosto. É o rosto que desvenda o mistério do olhar. O rosto da mãe revela à criança o segredo do seu olhar. O rosto da criança revela à mãe o segredo do seu olhar. E o rosto do professor revela ao aluno o segredo do seu olhar. “O meu lábio zombeteiro faz a lança dele refluir”. (Adélia Prado). Lança? Metáfora para o falo ereto. Mas o lábio zombeteiro transforma a lança em macarrão cozido... A lança, humilhada, se encolhe, torna-se incapaz do ato do amor. Há uma relação metafórica entre a lança fálica e a inteligência. Como a lança fálica, a inteligência ou se alonga e levanta para o ato de conhecer, ou se encolhe, flácida e impotente. O olhar de um professor tem o poder de fazer a inteligência de uma criança ficar ereta ou flácida... O lábio zombeteiro do professor faz a inteligência do aluno refluir. “Formatura”: “formar” é colocar na forma, fechar. Um ser huma- no “formado” é um ser humano fechado, emburrecido. Educar é abrir. Educar é “desformar”. Uma festa de “desformatura”... 13 A arte de pensar é a ponte para o desconhecido. Fica ao lado das ferramentas existentes, mas num compartimento separado. São duas apenas as tarefas da educação. Como acho queas explicações conceituais são difíceis de aprender e fáceis de esquecer, caminho sem- pre pelo caminho dos poetas, que é o caminho das imagens. Uma boa imagem é inesquecível. Assim, ao invés de explicar o que disse, vou mostrar o que disse por meio de uma imagem. O corpo carrega duas caixas. Na mão direita, leva uma caixa de fer- ramentas. E na mão esquerda leva uma caixa de brinquedos. Os animais não precisam de ferramentas porque seus corpos já são ferramentas. Seus corpos lhes dão tudo aquilo de que necessitam para sobreviver. Como são desajeitados os seres humanos quando comparados com os animais! Veja, por exemplo, os macacos. Sem nenhum treina- mento especial, eles tirariam medalhas de ouro na ginástica olímpica. E os saltos das pulgas e dos gafanhotos! Já prestou atenção na velocida- de das formigas? Mais velozes a pé, proporcionalmente, que os bólidos de Fórmula-1! O vôo dos urubus, os buracos dos tatus, as teias das ara- nhas, as conchas dos moluscos, a língua saltadora dos sapos, o veneno das taturanas, os dentes dos castores... Nossa inteligência se desenvolveu para compensar nossa incom- petência corporal. Inventou melhorias para o corpo: porretes, pilões, facas, flechas, redes, barcos, jegues, bicicletas, casas... Disse Marshall McLuhan corretamente que todas as ferramentas que inventamos são extensões do corpo: meios para se viver. Sem ser dotado de força de cor- po, pela inteligência o homem se transformou no mais forte de todos os animais, o mais terrível, o mais criador, o mais destruidor. O homem tem poder para transformar o mundo num paraíso ou num deserto. A CAIXA DE FERRAMENTAS 14 A primeira tarefa de cada geração é passar aos filhos, como he- rança, a caixa de ferramentas. Para que eles não tenham de começar da estaca zero. Muitas ferramentas são objetos: sapatos, escovas, facas, cane- tas, óculos, carros, computadores. Os mestres apresentam tais ferra- mentas aos seus filhos e lhes ensinam como devem ser usadas. Com o passar do tempo muitas ferramentas se tornam obsoletas. Quando isso acontece, elas são retiradas da caixa e esquecidas por não terem mais uso. Outras ferramentas são as habilidades. Andar, falar, construir. Uma habilidade extraordinária que usamos o tempo todo, mas de que não temos consciência, é a capacidade de construir, na cabeça, as reali- dades virtuais chamadas mapas. Para nos entendermos na nossa casa, temos de ter mapas dos seus cômodos e mapas dos lugares onde as coisas estão guardadas. Fazemos mapas da cidade, do mundo, do uni- verso. Sem mapas seríamos seres perdidos, sem direção. A ciência é uma enorme caixa de ferramentas e, mais importante que suas ferramentas, um saber de como se fazem as ferramentas. O uso das ferramentas que já existem pode ser ensinado. Mas a arte de construir ferramentas novas, para isso há de se saber pensar. A arte de pensar é a ponte para o desconhecido. Na caixa das ferramentas, ao lado das ferramentas existentes, mas num compartimento separado, está a arte de pensar. Diante da caixa de ferramentas, o professor tem de se perguntar: “Isso que estou ensinando é ferramenta para quê? Para que serve?” Se não houver resposta, pode estar certo de uma coisa: ferramenta não é. Sobre a “Caixa dos Brinquedos”, falo depois... 15 A vida não se justifica pela utilidade. Ela se justifica pelo prazer e pela alegria A idéia de que o corpo carrega duas caixas – uma de ferramentas e cai- xa de brinquedos - me apareceu quando lia um antiqüíssimo texto de Santo Agostinho. Santo Agostinho disse do jeito dele. Eu digo do meu jeito, depois de havê-lo devorado e digerido. Ele disse na grave linguagem dos teó- logos e filósofos. E eu digo a mesma coisa na leve linguagem do riso. Pois ele disse que todas as coisas que existem se dividem em duas ordens distintas. A ordem do uti (ele escrevia em latim) e a ordem do frui. Uti, útil, utilizável, utensílio: uma coisa que se usa para obter outra. Frui, fruir, usufruir, desfrutar, amar uma coisa por causa dela mesma. A ordem do uti é o lugar do poder. As ferramentas são inventa- das para tornar o corpo mais poderoso. A ordem do frui, ao contrário, é a ordem do amor. As coisas dessa ordem não são ferramentas, não servem para nada. Não são úteis. Não são para serem usadas; existem para serem gozadas. Faz tempo preguei uma peça num grupo de cidadãos da terceira idade. Velhos aposentados. Inúteis. Comecei a minha fala solenemen- te. “Então os senhores e as senhoras finalmente chegaram à idade em que são totalmente inúteis...” Foi um pandemônio! Ficaram bravos e trataram de apresentar as provas da sua utilidade. Da sua utilidade de- pendia o sentido de suas vidas. Comecei, então, mansamente, a argumentar. “Então, vocês en- contram sentido para suas vidas na sua utilidade... Vocês são ferramen- tas. Não serão jogados no lixo. Vassouras, mesmo velhas, são úteis. Já uma música do Tom Jobim é inútil. Não há o que se fazer com ela. Os A CAIXA DE BRINQUEDOS 16 senhores e as senhoras estão me dizendo que se parecem mais com as vassouras que com a música do Tom... Papel higiênico é muito útil. Mas um poema da Cecília Meireles é inútil. Não há o que fazer com ele. Os senhores e as senhoras estão me dizendo que preferem a companhia do papel higiênico à companhia do poema da Cecília...” De repente os seus rostos se modificaram e compreenderam... A vida não se justifica pela utilidade. Ela se justifica pelo prazer e pela alegria. E foi precisamente isso que disse Santo Agostinho. As coisas da caixa de ferramentas nos dão meios para viver. Mas elas não nos dão razões para viver. Coisas inúteis que dão prazer têm o nome de “brinquedos”. Ar- mar quebra-cabeças, empinar pipa, rodar pião, jogar xadrez, bilboquê, jogar sinuca, dançar, ler um conto, ver caleidoscópio, não levam a nada. Não existem para levar a coisa alguma. Quem está brincando já chegou. Compare a intensidade das crianças brincando, com o seu sofrimento ao fazer fichas de leitura! Afinal de contas, para que servem as fichas de leitura? São úteis? Dão prazer? Arte e brinquedo são a mesma coisa: atividades inúteis que dão prazer e alegria. Poesia, música, pintura, escultura, dança, teatro, culi- nária: são brincadeiras que inventamos para que o corpo encontre a felicidade, ainda que em breves momentos de distração, como diria Guimarães Rosa. Assim vocês, professores e professoras, ao tentar ensinar algo aos seus alunos, devem se perguntar: Isso é útil? Se não for útil tem de ser brinquedo... Faz os alunos sorrir? Esse é o resumo da minha filoso- fia da educação. PS: Você é ferramenta ou brinquedo? 17 Um olhar do crepúsculo para a infância Numa manhã, ainda na cama, pus-me a pensar em como usar a minha vida nos anos que me restam. É normal que isso aconteça com os ve- lhos. Quando os anos são poucos os dias se aceleram e o pensamento se põe a procurar, no meio das brumas e das espumas, o que é essencial. Tempo curto é tempo crepuscular. E o crepúsculo é uma mistura de beleza e tristeza. Albert Camus escreveu em seus Cadernos: “Céu de trovoada em agosto. Aragem escaldante. Nuvens negras. No entan- to, do lado do nascente, uma faixa azul, delicada, transparente. A sua presença é uma tortura para os olhos e para a alma. Porque a beleza é insuportável. Ela desespera-nos, eternidade de um minuto que deseja- ríamos prolongar pelo tempo afora”. Faz muito tempo que mandei esculpir em madeira uma frase lati- na que tenho agora pendurada na varanda: Tempus fugit – o tempo foge. Na minha sonolência lembrei-me de Hermann Hesse, escritor que marcou minha geração e que também se propôs a mesma pergun- ta. Fui ao escritório e tirei da estante o livro O jogo das contas de vidro. Procurei nele as marcas que fiz quando o li, muitos anos atrás. O personagem central do romance é Joseph Knecht, mestre su- premo de Castalia, uma ordem monástica que se dedicava ao cultivo e gozo da beleza. Seu ponto culminante era uma celebração anual, cha- mada “Jogo das contasde vidro”. Esse jogo se inspirava na brincadeira musical denominada “variações sobre um tema”. Brincar com a beleza. Knecht era o regente da beleza, magister ludi, o “mestre do jogo”. Mas agora ele estava velho. As cores da vida estavam esmaecendo e a alma se sentia dominada pela nostalgia da morte. Tendo atingido o ponto máximo da sua carreira, viu-se invadido pelo desejo de deixar tudo e se dedicar a educar uma criança “que ainda não tivesse sido O QUE É ENSINAR? 18 deformada pela escola”. Deixa a ordem monástica a que pertencia e se torna tutor de um menino. Ele então explica o seu gesto. “A melhor coisa que a minha po- sição como Magister Ludi me deu foi a descoberta de que fazer música e tocar Bach não são as únicas atividades felizes na vida, e que ensinar e educar podem ser igualmente atividades que nos trazem grande felicida- de. Aos poucos descobri, além disso, que ensinar me dá tanto mais prazer quanto mais jovens e não estragados pela deseducação os alunos são. Isso fez com que, ao passar dos anos, eu desejasse ser um professor numa esco- la primária...” Meditando sobre essa condição, descobre um poeminha de Rüc- kert que continha o resumo da sua sabedoria de velho: “Nossos dias são preciosos mas com alegria os vemos passando se no seu lugar encontramos uma coisa mais preciosa crescendo: uma planta rara e exótica que traz alegria ao nosso coração jardineiro, uma criança que estamos ensinando, um livrinho que estamos escrevendo...” Escrever um livrinho, plantar um jardim, ensinar uma criança. Essas são as vocações que me comovem. Livrinhos para crianças, já es- crevi muitos. Jardins, não sei quantos plantei. Agora sinto que gostaria de ser um professor de crianças ainda no curso primário. As crianças nos salvam do envelhecimento triste. Recordo o que Bachelard disse sobre elas: “Na idade do envelhecimento a lembrança da infância devol- ve-nos aos sentimentos finos, a essa “saudade risonha” das grandes at- mosferas baudelerianas. A infância não é uma coisa que morre em nós e seca uma vez cumprido o seu ciclo. É o mais vivo dos tesouros e continua a nos enriquecer sem que o saibamos”. Eu quero voltar às crianças para me salvar... 19 Vale a pena enfiar algo goela abaixo do educando? Uma amiga tem ideias curiosas sobre as escolas. Vivendo numa cidade do interior, viu-se diante da encruzilhada: “qual a melhor escola para o meu filho?”. Pôs-se a campo visitando as escolas tidas como as me- lhores, para conversar com os diretores. A cena se repetia. O diretor ou diretora se encantava com a perspectiva de uma matrícula a mais. Fazia seus melhores esforços para convencer a mãe. Mostrava as salas, os laboratórios, as quadras de esportes. Terminada a excursão, de volta à sala da diretoria, minha amiga tinha duas perguntas a fazer. “O senhor sabe, nosso mundo é competitivo, há o vestibular no horizonte, o mercado de trabalho. Gostaria de saber como sua escola lida com esses problemas...” O diretor, seguro de sua filosofia de edu- cação, respondia: “Essa é nossa grande preocupação. Precisamos preparar as crian- ças para o futuro. Nossos professores são orientados no sentido de apertar as crianças ao máximo para que sejam vencedoras. Quanto a isso a senhora pode estar tranquila”. Aí ela continuava: “Sua resposta me esclareceu muito. Mas há uma última pergun- ta que quero fazer. As crianças passam apenas um período na escola. No outro período elas ficam com o tempo livre. O que fazer com esse tempo?” Respondia o diretor: “a resposta a essa pergunta já está implícita no que eu disse. Não permitimos que as crianças tenham esse tem- po ocioso. Damos lições para casa de forma que não sobra tempo ocio- so. Elas têm de trabalhar o dia inteiro”. Aí a minha amiga concluía: “Sabe, senhor diretor, acho que a infância é um tempo tão boni- to que é triste apertar as crianças em nome de um futuro hipotético. GANSOS E PATÊS 20 As crianças não podem viver hoje em função do amanhã. A vida delas é no hoje. Se elas forem “apertadas”, vão acabar por odiar a escola e o aprender. Além do que, as crianças devem ter um tempo livre para viver suas próprias fantasias, para brincar. Se elas tiverem todo o seu tempo tomado por deveres de casa, perderão a alegria...” E com essas palavras despedia-se do diretor perplexo. Peregrinou de escola em escola, e era sempre a mesma coisa. Até que chegou a uma escola de periferia, condições físicas precárias, um diretor esquisito. Perguntado sobre a sua filosofia de educação, respondeu: “A coisa mais importante para as crianças nessa fase é que aprendam a se comunicar. Que aprendam a amar os livros. Que gos- tem de escrever. Uma criança que ama os livros tem o mundo aberto à sua frente...” Minha amiga matriculou o seu filho nessa escola e ainda fez pro- paganda. É preciso reconhecer que essa amiga anda na direção contrária. A maioria dos pais caminha na outra direção. Querem escolas fortes, que apertam, que preparam seus filhos para o vestibular, que enchem o tempo dos alunos com um mundo de lições para fazer em casa. Não estão interessados na educação dos seus filhos. Talvez nem saibam o que isto seja. Vi, na antiga revista Life, a foto de um ganso sendo engordado para que seu fígado ficasse dilatado, próprio para ser transformado em patê. O cuidador do ganso segurava a sua cabeça apontando para cima, um funil enfiado no seu bico, por onde a comida era enfiada, à força. Terminada a operação, para evitar que ele vomitasse a comida que não queria, seu pescoço era amarrado. Essa imagem dispensa explicações. Quem é o ganso? Quem é aquele que segura a cabeça do ganso? Quem é aquele que lhe enfia comida goela abaixo? E o patê? Quem vai comer o patê? De uma coisa eu sei: não será o ganso 21 Aquilo que resta na mente é o que realmente foi objeto de aprendizado Quando um professor tenta ensinar alguma coisa tem de pressupor que aquilo é importante e vai fazer uma diferença na vida do seu aluno. Caso contrário, seu trabalho não terá sentido. Assim, deve ter a curio- sidade de saber sobre o destino das informações e habilidades que ten- tou ensinar. O que aconteceu com elas? Quero sugerir um método, valendo-me para isso de uma metá- fora. Imagine que você resolveu se dedicar ao negócio de fabricação de salsichas. Para transformar carne em salsichas há uma máquina. Numa das extremidades da máquina coloca-se a carne. Aperta-se um botão. A máquina se põe a funcionar. Na outra extremidade, saem as salsichas, prontinhas. Para avaliar se a máquina é comercialmente vantajosa basta comparar o peso da carne que foi colocada no funil de entrada com o peso das salsichas produzidas. Se 100 quilos de carne foram colocados na entrada e saíram 95 quilos de salsicha, a máquina é ótima. Mas se só saírem 10 quilos de salsicha, a máquina não presta. Imaginei que se poderia avaliar o desempenho das escolas – uma alternativa ao Enem – por meio de um exame elaborado segundo o mode- lo da máquina de salsichas. O objetivo seria comparar o que entrou com o que ficou. Frequentei escolas por 17 anos: quatro anos no curso primá- rio, um no curso de admissão, quatro no ginásio, três no curso científico e cinco no curso superior. Multipliquei o número de meses, pelo número de dias, pelo número de horas, pelo número de anos: cheguei ao número 16.320 – o número de horas que passei sentado em carteiras ouvindo as coisas que os professores tentavam me ensinar. É claro que esse número deve estar errado. Seja. De qualquer forma, é muito tempo de vida nos bancos escolares. O que sobrou? O exame seria assim: DEPOIS DO ESQUECIMENTO 22 Primeiro: o programa seria constituído de tudo, absolutamente tudo que se pretendeu ensinar nesses 17 anos, do primeiro ao último ano. Segundo: aqueles que farão o exame não assinarão os seus nomes porque o que se procura não é o desempenho individual, mas o desem- penho da máquina escolar. Terceiro: será proibido haver cursos preparatórios para tais exa- mes. Será proibidotambém recordar a matéria. O propósito do exame seria abortado porque o aprendido é aquilo que fica depois que o esque- cimento fez o seu trabalho. O exame que proponho quer saber o que sobrou depois do esquecimento. Eu me sairia muito mal. Não me lembro das classificações das ro- chas. Lembro-me dos nomes “dolomitas” e “piroclásticas”, mas não sei o que significam. Esqueci-me do “crivo de Erastóstenes”. Não sei fazer raiz quadrada. Não sei onde se encontra a serra da Mata da Corda. Tam- bém me esqueci das dinastias dos faraós e dos nomes dos imperadores romanos. Lembro-me do princípio de Arquimedes, mas não sei a lei de Avogadro. Não aprendi latim. E tudo isso era matéria de classe... Acho que dos 100% de saberes que as escolas tentaram enfiar dentro de mim só sobrariam uns 10%. Você depositaria suas economias mensalmente, num fundo de investimento, por dezessete anos, se você soubesse que depois desses 17 anos receberia só 10% do que você depositou? Alguns concluirão que a culpa é dos professores. Outros que é dos alunos. Não creio que a culpa seja dos professores ou dos alunos. Acho mesmo é que a culpa é da carne que se põe na máquina: ela está estra- gada. As salsichas cheiram mal. O nariz as reprova. Concluo: a perfor- mance das escolas melhorará se a carne estragada for substituída por uma carne que produza salsichas apetitosas... 23 A memória não é burra, não carrega o que não faz sentido Minha neta tinha 16 anos. Uma menina inteligente, determinada e com a cabeça cheia daquelas ideias fantásticas que habitam as cabeças ado- lescentes. Estava se preparando para o vestibular. No sofá ela lia um caderno espiralado lindamente ilustrado. Biologia, ciência fascinante! Quantas revelações fantásticas sobre a vida deveriam se encontrar na- quele caderno! Mas ela lia com uma cara de absurdo. O absurdo produz uma expressão facial característica, mistura de raiva e tédio. Raiva porque é obrigatório que se engula aquilo contra a vontade. Tédio porque aquilo que é obrigatório engolir não faz o menor sentido. E que, por isso mes- mo, será logo esquecido. É preciso que algum fenomenólogo descreva essa expressão fisionômica, tão frequente no rosto dos alunos que se preparam para o vestibular. Fiquei mordido de curiosidade e quis saber o que ela estava aprendendo de biologia para entrar na universidade. “O que é que você está lendo?”, perguntei. Com uma cara desanimada ela apontou com o dedo o parágrafo que estava lendo e me passou o ca- derno. Comecei a ler. E, na medida em que lia, minha cara foi ficando igual à dela. Eis o que li. “Além da catálase, existem nos peroxíssomos enzimas que par- ticipam da degradação de outras substâncias tóxicas, como o etanol e certos radicais livres. Células vegetais possuem glioxissomos, peroxis- somos especializados e relacionados com a conversão das reservas de lipídios em carbohidratos. O citosol (ou hialoplasma) é um colóide... No ciosol das células eucarióticas, existe um citoesqueleto constituído fundamentalmente por microfilamentos e microtúbulos, responsável pela ancoragem de organoides... Os microtúbulos têm paredes forma- O FIM DOS VESTIBULARES 24 das por moléculas de tubulina...” Seguia-se uma descrição da complexa rede que forma o rabo do espermatozoide... A raiva cresceu dentro de mim e quis encontrar o culpado. Pus- -me a perguntar: Quem tomou a decisão de tornar obrigatório o conhe- cimento dessas informações? Por que esses saberes devem ser aprendi- dos? O que é que os adolescentes vão fazer com esses nomes? Nomes, nada mais do que nomes... Esforço inútil porque tudo será esquecido. A memória não é burra. Não carrega conhecimentos que não fazem sentido. A memória inteligente sabe esquecer. O absurdo educacional dos vestibulares se encontra no fato de que serei reprovado, os reitores serão reprovados, os professores universitários serão reprovados, os professores de cursinhos serão reprovados... Agora os vestibulares tiveram o seu fim decretado. Fico feliz por- que há mais de 20 anos tenho estado lutando por isso. O que me levou a pensar muito e a escrever muito sobre esse equívoco educacional. Mas tenho um receio. Imaginem um restaurante que servia uma comida de gosto ruim, indigesta e que provocava vômitos e diarreia. O dono do restaurante, diante das queixas dos seus clientes, resolve fazer uma reforma na forma como a comida era servida: trocou as panelas velhas por panelas novas e a louça branca antiga por uma louça azul. Mas a comida continuou a mesma... Será que é possível que isso aconteça? A sabedoria da convivência CAPÍTULO 2 26 A educação é um progressivo despedir-se da infância A fotografia é simples: duas mãos dadas, uma mão segurando a outra. Uma delas é grande, a outra é pequena, rechonchuda. Isso é tudo. Mas imaginação não se contenta com o fragmento e completa o quadro: é um pai que passeia com seu filhinho. O pai segura com firmeza e ter- nura a mãozinha do filho, que termina no meio da palma de sua mão. O pai conduz o filho, indica o caminho, aponta para as coisas, mostra como são interessantes, bonitas, engraçadas. O menininho vai sendo apresentado ao mundo. É assim que as coisas acontecem: os grandes ensinam, os peque- nos aprendem. As crianças nada sabem sobre o mundo. Também pu- dera! Nunca estiveram aqui. Tudo é novidade. Alberto Caeiro tem um poema sobre o olhar (dele), que diz ser igual ao de uma criança: Meu olhar é nítido como um girassol. E o que vejo a cada momento é aquilo que nunca antes eu tinha visto, eu sei dar por isso muito bem... Sei ter o pasmo essencial que tem uma criança se, ao nascer, reparasse que nascera deveras... Sinto-me nascido a cada momento para a eterna novidade do mundo. O olhar das crianças é pasmado! Veem o que nunca tinham visto! Não sabem o nome das coisas. O pai vai dando os nomes. Aprendendo os nomes as coisas estranhas vão ficando conhecidas e amigas. Trans- formam-se num rebanho manso de ovelhas que atendem quando são chamadas. Quem sabe as coisas são os adultos. Conhecem o mundo. Não nasceram sabendo. Tiveram de aprender. Houve um tempo em que a mãozinha gorda rechonchuda era a deles. Um outro, de mão grande, os conduziu. O mais difícil foi aprender quando não havia ninguém que ensinasse. Tiveram de tatear pelo desconhecido. Erraram muitas ve- “... E UMA CRIANÇA PEQUENA OS GUIARÁ” 27 zes. Foi assim que os caminhos e rotas foram descobertos. Já imagina- ram os milhares de anos que tiveram de se passar até que os homens aprendessem que certas ervas têm poderes de cura? E as comidas que comemos, os pratos que nos dão prazer! Por detrás deles há milênios de experimentos, acidentes felizes, fracassos! Vejam o fósforo, essa coisa insignificante e mágica: um esfregão e eis o milagre: o fogo na ponta de um pauzinho. Gostaria, um dia, de dar um curso sobre a história do pau de fósforo. Na sua história há uma enormidade de experimentos e pensamentos. Ensinar é um ato de amor. Se as gerações mais velhas não trans- mitissem o seu conhecimento às gerações mais novas, nós ainda esta- ríamos na condição dos homens pré-históricos. Ensinar é o processo pelo qual as gerações mais velhas transmitem às gerações mais novas, como herança, a caixa onde guardam seus mapas e ferramentas. As- sim, as crianças não precisam começar da estaca zero. Ensinam-se os saberes para poupar àqueles que não sabem o tempo e o cansaço do pensamento: saber para não pensar. Não preciso pensar para riscar um pau de fósforo. Os grandes sabem. As crianças não sabem. Os gran- des ensinam. As crianças aprendem. A educação é um progressivo des- pedir-se da infância. Todo mundo sabe que as coisas são assim: as crianças nada sa- bem, quem sabe são os adultos. Segue-se, então, logicamente, que as crianças são os alunos e os adultos são os professores. Pois o Natal é uma absurda inversão pedagógica: os grandes aprendendo dos pequenos. Um profeta do Antigo Testamento – certa- mente sem entender o que escrevia, pois osprofetas nunca sabem o que estão dizendo – resumiu essa pedagogia invertida numa frase curta e maravilhosa: .. e uma criança pequena os guiará (Isaías. 11.6). 28 Os detentores de poderes se distinguem por meio de símbolos consagrados Há dois tipos de autoridade: autoridade imposta e autoridade reconhe- cida. Ambas estão presentes nas escolas. A autoridade imposta defor- ma a inteligência porque se realiza através do medo. O seu símbolo são as gaiolas. A autoridade reconhecida, ao contrário, liberta a inteligên- cia porque se realiza através da admiração. O seu símbolo são as asas. Quando eu era pequeno, morava perto da cadeia. Dentro das gra- des estavam os presos. Do lado de fora, estavam os soldados que os haviam prendido e os mantinham presos. Eu os olhava nas suas fardas e sabia que aquelas fardas os distinguiam das demais pessoas. Eram símbolos de autoridade. Eles podiam fazer o que o comum dos homens não podia fazer. Eles podiam prender as pessoas – ninguém mais tinha autoridade para tanto – e na minha fantasia infantil, eu pensava que eles poderiam me prender. Prender um menino por quê? Um menino, sem que eu me desse conta disso, era símbolo daqueles que não têm poder e que, por isso mesmo, estão à mercê daqueles que têm poder. Acho que, já naquele tempo, suspeitava que o poder tinha algo de arbitrário. Quem sabe de sádico? A autoridade, pelo poder que possui, pode exercê-lo sem ter razões. Quem tem autoridade pode... A autori- dade freqüentemente está associada à impunidade. Eu passava longe dos soldados, com medo... A autoridade se distingue daqueles que não têm autoridade por meio de símbolos, da mesma forma como os soldados da polícia se identificam por suas fardas. Os símbolos podem ser materiais ou podem ser simplesmente nomes. Mas a sua função é a mesma: mostrar quem tem poder. Um ca- pitão do exército se distingue pelas três estrelas que traz no seu ombro. A AUTORIDADE DE FORA 29 Um juiz do Supremo Tribunal se distingue pela beca que usa. Anéis com pedras preciosas específicas também são usados por certas pro- fissões para anunciar sua autoridade. Os símbolos-nomes podem ser “doutor”, para os professores universitários que defenderam tese, “ba- charel” para delegados (que também carregam, como símbolos físicos, o distintivo e a pistola), “excelentíssimo” para os deputados e presiden- tes e “magnífico” para os reitores. O dicionário Webster assim define “autoridade”: “L. auctoritas, de ‘auctor’, autor. Poder legal ou direito de ordenar e agir”. Essa é uma autoridade que vem de fora, por força de uma lei. Nin- guém pode dar autoridade a si mesmo. O guarda de trânsito que aplica uma multa, o policial que prende um suspeito, um professor que repro- va um aluno, um pai que matricula seu filho numa escola, um médico que prescreve um medicamento controlado, um carrasco que enforca um condenado, o papa que excomunga um herege, todos fazem o que fazem em decorrência de uma lei que lhes dá autoridade para fazê-lo. Essa autoridade, tal como definida pelo Webster, não depende do caráter da pessoa portadora de autoridade. Não são as virtudes da pessoa que lhe dão autoridade. A autoridade pertence ao ofício que a pessoa exerce e não a ela mesma. O guarda de trânsito tem autoridade para aplicar a multa mesmo que bata na mulher, e o médico tem auto- ridade para prescrever a receita mesmo que seja viciado em cocaína. O nome “professor” define uma autoridade. Um professor tem poder. Era assim e ainda é em muitas escolas. (Leia na próxima edição, o texto “A autoridade de dentro”) 30 O convencimento e os sonhos fundamentais de cada um Meu tio Agenor descrevia o que acontecia na sua sala de aula, quando menino. O professor chamava os alunos, que recitavam o “ponto”. O “ponto” era um assunto que o professor ditava e os alunos escreviam e tinham de decorar. Alguns pontos que tive de decorar: a Proclamação da República, os metais, os afluentes do rio Amazonas...Alguns decora- vam o ponto e o repetiam de cabo a rabo. Outros gaguejavam e emba- ralhavam as coisas... Terminada a argüição o professor tomava sua caixinha de rapé, inspirava o fumo em ambas as narinas e espirrava (naqueles tempos isso era elegante...). Satisfeito o seu desejo de orgasmos nasais, passa- va a chamar aqueles que não haviam decorado o ponto para o castigo de bolos de palmatória. Sua condição de professor lhe dava autoridade para fazer o que fazia. No ginásio, tinha um professor que, ao entrar em sala, todos de- viam ficar de pé, em posição de sentido, uns atrás dos outros, rigorosa- mente. O professor, então, “passava em revista a tropa”, examinando todas as fileiras para verificar se todas as cabeças estavam umas atrás das outras. Qual era a função educacional desse procedimento? Nenhu- ma. Mas ele era professor e, dentro da sala de aula, tinha autoridade absoluta. Nenhum aluno jamais se atreveu a contestá-lo. Se o fizesse, sofreria uma punição. Ele tinha autoridade, exercia sua autoridade, mesmo que nenhum aluno a reconhecesse internamente. Sua autoridade se impunha pelo medo! Assim é a autoridade por decreto: se impõe independentemente das pessoas sobre as quais é exercida. Mas há um outro sentido de au- toridade: um poder interior que se impõe sem necessitar de palmatórias A AUTORIDADE DE DENTRO 31 ou ferros, que vem de dentro e é reconhecido pelas pessoas por ele tocadas. Eu estava no curso científico. Anunciaram que tería mos um novo professor de literatura. Não gostávamos de literatura. Os professores, valendo-se de sua autoridade, nos obrigavam a coisas que detestáva- mos: análise sintática, resumos de livros, escolas literárias, provas. O novo professor, Leônidas Sobrinho Porto, entrou na sala sorridente e começou: “Temos dois problemas preliminares para resolver. Primeiro, essa caderneta onde deverei registrar sua presença. Quero dizer que todos vocês já têm 100% de presença. Se não quiserem assistir às minhas aulas, não precisam. Eu lhes darei presença. Segundo: as provas que vocês terão de fazer para passar de ano. Quero dizer que não haverá provas. Todos vocês já passaram de ano. Resolvidas essas duas questões preliminares ir- relevantes, podemos nos dedicar ao que importa: literatura...”. Aí ele começou a falar coisas que nunca tínhamos ouvido. A litera- tura se encarnou nele. Ele ficou “possuí do” e começou a viver as gran- des obras literárias bem ali, na nossa frente. Não pediu que comprásse- mos livros ou que lêssemos. Sabia que não sabíamos ler; só sabíamos juntar letras... Não tínhamos o poder para surfar sobre as palavras. Se fôssemos ler, a leitura seria tão mal feita que acabaríamos por detestar o que líamos. E ele, possuído, ia tornando vivas as obras literárias. Fi- camos seduzidos. Ninguém faltava às suas aulas. Ninguém falava. Ao ouvi-lo, éramos tocados por sua autoridade mansa e maravilhosa. Como professor e funcionário de um colégio, tinha autoridade para nos obrigar. Mas sabia que há coisas que não podem ser feitas com a autoridade de fora. As coisas que têm a ver com a alma só podem ser feitas com a autoridade de dentro. Bachelard escreveu em algum lugar que só se convence despertando os sonhos fundamentais. O pro- fessor Leônidas nos fazia entrar no mundo dos sonhos. Não precisava valer-se da autoridade exterior. Sua autoridade brotava de dentro e nós a reconhecíamos. * * * A menina voltava de seu primeiro dia na escola. “Como é a profes- sora?”, perguntaram os pais. Respondeu com a precisão de quem havia percebido essências: “Ela grita!”. 32 que nunca revelei Tenho uma ternura especial pelas coisas fracas, que não sabem ou não conseguem se defender. E não só a fraqueza física: são as humilhações silenciosas que dilaceram a alma dos fracos. Costumava caminhar num jardim que terminava em frente a uma escola. Observava meninos e meninas que iam juntos, bonitos, esbanjando alegria. Mas havia uma menina muito gorda que caminha- va sempre só. Nunca vi um gestodos alegres e bonitos convidando-a a juntar-se ao grupo. E ela nem tentava. Havia outra, magra, alta, sem seios, rosto coberto de espinhas, encurvada como se quisesse escon- der-se dentro de si. Ficava pensando que havia nelas uma mocinha que desejava ser amada. O que pensavam quando iam para a cama? Certamente chora- vam. Mas essas percepções não passavam pela cabeça dos outros. No Ginásio era assim também. Os bonitos se juntavam. Os feios eram deixados de lado. Um incidente ocorrido há 60 anos continua vívi- do na minha cabeça. Era uma moça feia, desengonçada, magra. Jamais a vi conversando com um menino ou sorrindo. Entrava na sala e ia para sua carteira, encostada na parede. Um dia, chegou atrasada, a turma já assentada. Não havia jeito de se esconder, desfilou diante de todos. E foi então que um colega deu um daqueles assobios... A classe estourou na gargalhada. Ela continuou a caminhar, as lágrimas escorrendo. Tive vontade de berrar, um grito de ódio, mas nada fiz. Porque também era fraco e feio e ridículo. Ela é a única colega cujo nome não me esqueci. Suas iniciais eram I.K. Eu era novo no Rio de Janeiro, vindo do interior de Minas, onde ir à escola de sapato era um luxo. Fui ao co- légio no primeiro dia de aula com sapato sem meia. Todos riram. No dia seguinte, fui de meia. Não adiantou. Riram-se do meu sotaque caipira. UM SEGREDO... 33 Tornei-me vítima dos valentões. Apanhei muito em silêncio porque não sabia me defender. Não tinha a quem apelar. Acontecia na rua, fora do olhar dos professores. Meus pais não saberiam o que fazer. Minha mãe me daria o único conselho que sabia dar: “Quando um não quer dois não brigam”. É verdade, quando um não quer, um bate e o outro apanha. Uma pessoa querida me disse que tenho raiva das mulheres. Fico a pensar se essa raiva não tem raízes na minha mãe, que só me ensi- nava a não reagir, que desejava que eu fosse fraco e não enfrentasse a luta. A pancada que mais doeu foi dada por um colega que se dizia filho de governador, rico, arrogante, ouro nos dentes. Sem motivo, na hora do recreio veio até mim e disse: “Você é ridículo...” Essas experiências não podem ser esquecidas. A gente faz força para não as revelar, por vergonha. Durante toda a vida, foram um se- gredo só meu. Nunca as contei nem para os amigos mais íntimos. É a primeira vez que as revelo. Fui me enchendo de vergonha e de humilhação. Daí nasce o ódio. À medida que crescia e me tornava adulto, esses sentimentos criaram em mim um lado que não suporta a injustiça dos fortes contra os fra- cos. O que me leva, por vezes, a fazer coisas imprudentes a favor dos fracos, mesmo com risco de ser agredido. Mas há algo que me magoa. É como se a minha pele de ternura, de voz baixa, de poesia, que deseja proteger as coisas fracas, morasse no mesmo quarto onde mora esse jeito bravo. E, de vez em quando, sem me dar conta, fico irônico, impaciente, a voz se encrespa. Imagi- no que isso aconteça quando, lá no meu inconsciente, onde mora o menino ridículo que apanhava, o sentimento de humilhação aparece. Magoei muitas pessoas com esse meu jeito, algumas de forma irreme- diável. Por isso estou triste. Mais triste porque sei que hoje, no mundo todo, os fracos são humilhados e apanham... 34 Um texto não interpretado permanece vivo para sempre Uma livreira me contou. Um pai foi à sua livraria e comprou o livro O patinho que não aprendeu a voar, para seu filho. No dia seguinte, voltou muito bravo. “Meu filho chorou ao final do livro. Ainda chora quando se lembra do patinho que não aprendeu a voar. Isso é livro que se dê a uma criança?” Eu compreendo. Ele quer que seu filho só tenha alegrias. Ele quer que os livros que seu filho lê sejam engraçados e façam rir. As crianças não deveriam ler livros que fazem chorar. Mas tristeza não é coisa ruim. A poesia brota da tristeza. Alberto Caeiro escreveu: “Mas eu fico triste como um pôr de sol/Para a nossa imaginação/Quando esfria no fundo da planície/E se sente a noite en- trada/Como uma borboleta pela janela/Mas minha tristeza é sossego/ Porque é natural e justa/E é o que deve estar na alma...” Escrevi muitas estórias alegres e que fazem rir. Mas as que mais amo são aquelas que fazem chorar. Por que é que o menininho chorou ao ler a estória do patinho que não aprendeu a voar? Porque sentiu aquilo que minha neta sen- tiu. Ela falou, em meio às lágrimas: “Vovô, eu não consigo ver uma pessoa sofrendo sem sofrer. Quando vejo uma pessoa sofrendo o meu coração fica junto ao coração dela...” Ela e o menininho senti- ram compaixão. Seus corações ficaram junto ao coração de alguém ou de algum bichinho que estava sofrendo. Sofreram um sofrimento que não era seu. Como ensinar a compaixão? De que vale conhecimento sem com- paixão? Somente o conhecimento com compaixão cria a bondade. E uma sociedade em que não existe a bondade não é digna de que viva- LIVRO QUE FAZ CHORAR 35 mos nela. Como a nossa, em que a bondade foi espremida nos cantos e as ruas se encheram de medo. Gandhi relata que a experiência que mudou o seu coração foi a leitura de um livro. Ele era ainda adolescente. O livro o comoveu tanto que ele queria ser como o herói, nobre e generoso. Esse sentimento o acompanhou pelo resto da vida. Seu coração ficou junto ao coração do herói. E não importava que o herói nunca tivesse existido, que fosse apenas uma ficção literária. Pois é isso que a literatura faz: se desprega da vida real para dar-lhe um sentido. Livros engraçados são bons. O riso tem a função de mostrar que o rei está nu. Mas não conheço nenhum caso de uma pessoa que tenha sido transformada por um livro engraçado. O riso provoca crítica, mas não provoca compaixão. Pensei então que essa poderia ser uma das maneiras de ensinar compaixão: lendo para o aluno ouvir. Mas para que as estórias façam os seus milagres é preciso que o ouvinte seja possuído pelas palavras e levado ao sabor da voz de quem lê a estória. Fiquei então pensando que seria melhor que gastássemos menos tempo com gramática e análise sintática, e mais tempo com a leitura. É na leitura que se aprende a língua. Leitura sem testes de compreensão, sem interpretações, o que é que o autor queria dizer etc. Pura emoção. Um texto não interpretado permanece vivo para sempre, porque per- manece como um enigma que nos comove todas as vezes que o lemos. Mas um texto interpretado é um texto esgotado do seu mistério, es- quartejado sobre a mesa de anatomia da linguagem. Gostaria de conversar com o pai do menino que chorou ao ler O patinho que não aprendeu a voar. O menino entendeu. Sentiu compai- xão. Mas o pai não entendeu. Não chorou. Ou, quem sabe, ele ficou bra- vo não pelo choro do seu filho mas por ter, ele mesmo, sentido vontade de chorar – mas não chorou de vergonha... A arte de pensar CAPÍTULO 3 37 O que marca o nascimento de um educador é ter olhos para ver o que nunca se viu Era uma menina de nove anos. Caminhava segura à minha frente. O diretor da Escola da Ponte lhe pedira que mostrasse e explicasse a es- cola. Fiquei ofendido. Esperava que ele, diretor, me respeitasse como visitante estrangeiro e me mostrasse e explicasse a sua escola. Chegando à porta da escola ela parou, deu meia volta, olhou-me nos olhos e me disse: “Para o senhor entender a nossa escola o senhor terá de se esquecer de tudo o que o senhor sabe sobre escolas...”. Decidi- damente ela se dirigia a mim de uma forma petulante. Então eu, um educador velho que tenho a estar a pensar sobre as escolas desde me- nino, com a cabeça cheia de livros, teorias e experiências, deveria es- quecer-me do que sabia? A menina estava certa. Meu espanto era sinal de que ela acabara de me aplicar um “koan” – um artifício pedagógico dos mestres Zen. Para aprender coisas novas é preciso esquecer as velhas. O que sabemos torna-se hábito de ver e de pensar que nos faz ver o novo atra- vés dos óculos do velho – e o transforma no que sempre vimos, e tudo continua do jeito como semprefoi. Roland Barthes, ao final de sua famosa Aula, disse que naquele momento de sua vida se dedicava a desaprender o que havia aprendido para aprender o que não havia aprendido. Não havia aprendido porque a memória do sabido havia bloqueado a aprendizagem. “Empreendo, pois, o deixar-me levar pela força de toda a vida viva: o esquecimento. Vem agora a idade de desaprender, de deixar trabalhar o remanejamento imprevisível que o esquecimento impõe à sedimentação dos saberes, das culturas, das crenças que atravessamos...” ESQUECER 38 Para entendê-lo, é preciso que você ponha seus saberes entre pa- rêntesis, que veja o mundo pela primeira vez, como sugeriu Alberto Caeiro. Se não fizer isso, a leitura será inútil. Você continuará a ver o mundo velho que já conhecia. Para um pássaro engaiolado o mundo tem barras... A psicanálise é uma pedagogia do esquecimento. Freud percebeu que as pessoas, por causa da memória, ficam prisioneiras do passado. Os neuróticos repetem o passado. Sua memória é a sua teoria do futu- ro. O presente e o futuro são como minha memória diz. Por isso são incapazes de ver o novo. “Uma cobra que não pode livrar-se de sua casca perece. O mesmo acontece com aqueles espíritos que são impedidos de mudar suas opiniões; cessam de ser espírito.” (Nietzsche) Os mestres Zen eram mestres de um tipo estranho: não tinham saber algum para ensinar aos seus discípulos. Sua atividade pedagógica se resumia em passar rasteiras nos saberes que seus discípulos traziam consigo. ( Se há “construtivismo”, os mestres Zen eram “desconstruti- vistas”... ). Eles perceberam que os saberes que pensamos são seme- lhantes à “catarata”: uma nuvem que obscurece os olhos. Para operar a catarata dos seus discípulos, se valiam dos “koans”. Um “koan” é uma afirmação que “desconstrói” o nosso saber como um terremoto derru- ba uma casa. Quando a nuvem de pretenso saber é retirada, o discípulo vê o que nunca havia visto. Experimenta o “satori”, a iluminação. Quando a menina me disse que eu tinha de me esquecer do que sabia sobre escolas ela me aplicou um “koan”. E passei a ver as escolas como nunca havia visto. Esse é o evento que marca o nascimento de um educador: olhos novos para ver o que nunca se viu. 39 Ou as diferenças entre homens e animais Hoje serei didático. Direto. O assunto é a criatividade. Criatividade deve ser coisa boa porque todo mundo a deseja, mesmo sem saber do que se trata. Começamos com uma afirmação óbvia: somente os seres huma- nos são criativos; os animais não são criativos. O mundo dos animais se desenvolve dentro de uma tranquila mesmice que se perde no passado: as abelhas fazem suas colmeias como sempre fizeram, os caramujos fazem suas conchas como sempre fizeram, os sabiás cantam seus can- tos como sempre fizeram, os beija-flores chupam flores como sempre fizeram, os guaxos fazem ninhos como sempre fizeram. Animal não inventa. Não precisa inventar. O corpo deles nasce sabendo. Criatividade é inventar. Fazer existir coisa que não existia. Nós inventamos músicas, roupas, armas, comidas, técnicas, jogos, brinque- dos, livros. Essas coisas não existiam. Os animais, ao contrário, de- sejam que nunca haja mudanças. As mudanças, imperceptíveis, acon- tecem à revelia do que eles possam pensar. Animal não pensa, não precisa pensar. O pensamento é a busca do que não existe, a gestação do que não existe, o não existente, sob forma virtual, antes de existir de forma real. Os animais não precisam nem pensar e nem criar porque eles são perfeitos. O que é perfeito não precisa mudar. Não quer mudar. Gato quer ser gato, borboleta quer ser borboleta, caramujo quer ser caramujo. Usando uma imagem do biólogo Uexküll, depois adotada por Goldstein, Cassirer e Merleau-Ponty, digo que os animais são músicas completas. Cada uma de um jeito. Alguns são músicas curtinhas, ou- tros músicas mais compridas. Uns, músicas monótonas como o canto- chão. Outros, saltitantes como a Pequena serenata noturna de Mozart. CRIATIVIDADE 40 Mas o que importa não são as diferenças. O que importa é que todas elas são completas. Sendo completas, são perfeitas. Sendo perfeitas, são sempre repetidas. Todos os animais são melodias que se tocam, sem fim. Melodias acabadas. Terminadas as melodias, o compositor, seja o criador ou a evolução, colocou nelas a sua assinatura: “Amém, assim seja por todos os séculos”. Agora o absurdo, o contraponto, o tema invertido: os homens pre- cisam pensar e criar porque eles são imperfeitos. Pensamento e criativi- dade nascem da imperfeição. Como os animais, os homens são também melodias. Melodias interrompidas, melodias inacabadas, como A arte da fuga, de Bach – ele morreu, antes de terminar – ou a Sinfonia Inacabada de Schubert. Deus (ou a evolução) compôs só um pouquinho, muito pou- co – escolheu os instrumentos da orquestra, tocou a introdução, e com um sorriso matreiro na boca disse para a melodia assim iniciada: “Termi- ne-se! Se você não se terminar você vai desaparecer!”. E essa é a história da humanidade: os homens, as culturas, tentando continuar a composição inacabada. Os animais, acabados. Nós, inacabados. Os animais, perfeitos. Nós, imperfeitos. Os animais felizes, nós infelizes. Os animais, não pre- cisando criar. Nós, obrigados a criar. O homem, escreveu Camus, “é o único animal que se recusa a ser o que é”. Ele se recusa a ser o que ele é porque ele é só começo, esboço, possibilidade, travessia. Não está agarrado do lado da partida e nem agarrado do lado da chegada. É corda sobre o abismo sobre o qual o corpo se dependura... 41 A riqueza não faz bem ao pensamento; mas a pobreza faz sonhar e inventar Ganhei um carrinho de presente. Coloquei-o sobre minha mesa de tra- balho. Olho para ele quando escrevo e escrevo os pensamentos que ele me faz pensar. Não são todos os objetos que têm esse poder de fazer pensar. A caneta, o grampeador, a lâmpada, a cadeira, objetos à minha volta: eu os uso automaticamente; eles não me fazem pensar. Mas o carrinho é diferente. Meu pensamento começa a voar. O que eu vejo nele não é nada comparado àquilo que ele me faz imaginar. Sonho. Uma lata de sardinha. A tampa foi dobrada inteligentemente, e assim se produziu a capota. As rodas foram feitas de uma sandália ha- vaiana velha. Os eixos, dois galhinhos de arbusto. E ei-lo pronto! Fosse um carrinho comprado em loja, e eu nada pensaria. Mas basta olhar para o carrinho para eu ver o menino que o fez, menino que nunca vi, menino que sempre morou em mim. Sei que o menino é pobre. Se fosse rico teria pedido ao pai, que lhe teria comprado um brinquedo importado. Dinheiro é um objeto que só dá pensamentos de comprar. A riqueza, com freqüência, não faz bem ao pensamento. Mas a pobreza faz sonhar e inventar. Carrinho de po- bre tem de ser parido. A professora – se é que ele vai à escola – deve ter notado que ele estava distraído, ausente, olhando o vazio fora da janela. Falou alto para chamar sua atenção. Ela não percebeu que distração é atração por um outro mundo. Penso que o menino devia andar lá pela favela, olhos atentos, pro- curando algo, sem saber direito o quê. Até que deram com a lata de sardinha jogada no lixo. Foi um momento de iluminação. A lata de sar- dinha virou uma outra coisa. Ele disse: “Essa lata de sardinha é o meu carro...” O menino dobrou a tampa e se sentou ao volante. O CARRINHO 42 Faltavam as rodas. Se tivesse uma serra tico-tico poderia fazer ro- dinhas de um pedaço de compensado abandonado. Mas é certo que tal ferramenta ele não tinha. Pois se tivesse, teria feito. Suas ferramentas: uma faca, subtraída da cozinha, um prego para fazer os buracos, e uma pedra, à guisa de martelo. O material deveria ser dócil às ferramentas que possuía. Seria fácil fazer rodas de papelão. Mas as rodas se desfa- riam, depois de passar pela primeira poça de água. Seus olhos e pensa- mento procuram. E aquilo que calçara pés se transformou em calçado de automóvel. Quatro buracos na lata de sardinha,dois galhinhos de ár- vores e ei-lo pronto: o carrinho! O menino sabia pensar. Pensava bem, concentrado. É sempre assim. Quando o sonho é forte, o pensamento vem. O amor é o pai da inteligência. O menino e o seu carrinho resumem tudo o que penso sobre a educação. As escolas: imensas oficinas, ferramentas de todos os tipos, capazes dos maiores milagres. Mas de nada valem para aqueles que não sabem sonhar. O nascimento do pensamento é igual ao nascimento de uma criança: tudo começa com um ato de amor. Uma semente há de ser depositada no ventre vazio. E a semente do pensamento é o sonho. Por isso os educadores, antes de serem especialistas em ferramentas do saber, deveriam ser especialistas em amor: intérpretes de sonhos. O menininho sonhava. Como Deus, que do nada criou tudo, ele tomou o nada em suas mãos, e com ele fez o seu carrinho. Imagino que, também como Deus, ele deve ter sorrido de felicidade ao contemplar a obra de suas mãos... 43 O que há de comum entre seres aparentemente tão diferentes Meu amigo Fábio Roland, da Universidade de Juiz de Fora, cientista es- pecializado na biologia dos lagos, contou-me que o primeiro interesse científico de Piaget foram os moluscos dos lagos da Suíça. Molluscus em latim quer dizer “mole”, e deriva de mollis = mole. Moluscos são animais invertebrados que normalmente têm seu corpo protegido por uma concha, tais como as ostras, os mariscos, os caramujos. Eu me juntaria alegremente a Piaget em suas pesquisas, porque as conchas dos moluscos sempre me fascinaram. Veja, por exemplo, a concha frágil de um simples caramujo gelatinoso, essa praga inimi- ga de jardins: assombro bioquímico, assombro arquitetônico, assom- bro matemático, assombro estético. Não admira que haja pessoas que se dediquem a fazer coleção de conchas, como foi o caso de Neruda. Quem tem olhos de poeta vê nas conchas sugestões metafísicas: elas falam sobre a intenção estética que pulsa no universo. Depois, Piaget abandonou os moluscos. Seu interesse voltou-se para a psicologia, a compreensão dos processos de conhecimento, seu nascimento, seu desenvolvimento e seus mecanismos. Aparentemen- te, parece que Piaget mudou repentinamente o foco do seu interesse. Que ligação poderia haver entre os moluscos e a psicologia humana? Minha hipótese é que ele não se desviou do seu interesse original pe- los moluscos. Moluscos e homens têm algo em comum: ambos têm corpo mole. Os moluscos, para proteger o seu corpo mole – delicadas delícias culinárias, como é o caso das ostras e dos escargots – e sobreviver, cons- troem casas chamadas conchas. Os homens, para proteger seu corpo mole e sobreviver, têm também de construir casas. Moluscos e homens MOLUSCOS E HOMENS 44 são ambos “construtivistas”. A diferença é que o corpo dos moluscos já nasce sabendo a arte de construir sua casa. O modelo, os materiais e a forma de suas casas já estão dentro deles. Moluscos não precisam ir à escola. Não precisam pensar para inventar suas conchas. Mas, ai de nós! Nascemos com um corpo mais mole que o dos moluscos: a pele frágil, desprotegida. Não temos nem penas, nem escamas, nem couro, nem ca- belos, nem carapaças. Nascemos nus no sentido mais bruto da palavra. Nus, não sobreviveríamos diante do frio, da neve, da chuva, do calor. Sem saber o que fazer – inferiores, portanto, aos moluscos –, esse corpo mole, nu e desajeitado teve de inventar sua casa. Para isso, teve de aprender a pensar. Foi da moleza do nosso corpo que nasceu a inteligência. Você sabe isso por experiência própria: a inteligência só funciona quando o corpo não dá conta de resolver um impasse prático. Diante de um impas- se prático, ele pensa. Inventa. Como diz o ditado: “A necessidade é a mãe da invenção”. A inteli- gência é a função que torna possível aos homens construir suas casas. E como o nosso corpo, mais incompetente que o corpo dos moluscos, não pode secretar sua própria casa, o jeito é fazer a casa com os mate- riais que se encontram espalhados pelo espaço ao redor, no mundo. A construção da casa exige conhecimento do mundo. Essa é a origem da ciên cia. A inteligência sai à procura dos seus materiais. Tem de incur- sionar pelo mundo: pesquisar. Mas suas incursões e pesquisas não se fazem a esmo: fazem-se guiadas por um motivo prático. A inteligência busca o que é útil. O que é inútil ela ignora. 45 As lições que se aprendem “construindo” Escrevo para vocês, crianças! O Amyr Klink é um navegador. Navega num barco a vela. Vela é uma armadilha para pegar o vento. O vento tem força. Os barcos a vela navegam movidos pela força do vento. O vento vem, bate nas velas e empurra o barco. Mas, o que fazer quando o navegador quer ir para o sul e o vento sopra para o norte? Peça a um professor para lhe explicar isto. Antes das velas era preciso remar para o barco navegar. Dava muita canseira. Mas aí um dos nossos antepassa- dos descobriu que o vento faria o serviço dos remos e o homem poderia fazer outras coisas... Toda a nossa história passada, desde os tempos das cavernas, é a história dos homens aprendendo a fazer a natureza fazer o trabalho por eles. Os moinhos de vento, os moinhos de água, o arco e a flecha, as alavancas, os monjolos, o fogo... O Amyr Klink não é só navegador. Ele pensa sobre as escolas. Perguntaram ao Amyr Klink: “Qual é a escola que você desejaria para os seus filhos?”. Ele respondeu: “Uma escola que há na Ilha Faroe, entre a Inglaterra e a Islândia. Lá as crianças aprendem tudo o que devem aprender construindo uma casa viking...” Quem eram os vikings? Eram navegantes ousados. Há uma aventura do Asterix e do Obelix, heróis gauleses, entre os vikings. Muito divertida! O Amyr Klink disse que as crianças aprendem “construindo” uma casa. Concordo. Para aprender uma coisa é preciso fazê-la. As crianças da ilha Faroe aprendiam o que precisavam saber para viver construin- do uma casa! Mas não será muito difícil construir uma casa? É difícil. Mas há um truque: a gente pode “imaginar” a casa que a gente quer construir. Tudo o que a gente faz começa na imaginação: um quadro, um avião. Santos Dummont imaginou o 14-Bis antes de construí-lo. Uma viagem, uma técnica cirúrgica, um foguete, uma música, um li- A CASA QUE EDUCA 46 vro... – tudo começa na imaginação. Quando vou fazer um papagaio, a primeira coisa é imaginá-lo na minha cabeça: o seu tipo (há papagaios do tamanho de uma casa!), as suas cores, as ferramentas de que vou precisar e os materiais que vou usar: tesoura, canivete, serra, linha, cola, papel... O mesmo vale para uma casa. A primeira coisa é imaginar a casa, como se estivesse pronta. O Oscar Niemeyer, que planejou os edifícios fantásticos de Brasília, a primeira coisa que faz é “desenhar” no papel o edifício que ele vê com os olhos da imaginação. Imagine a casa que você gostaria de construir. Terá um ou dois andares? As telhas serão vermelhas? E a paredes? De que cor serão? Terá uma chaminé para um fogão de lenha ou uma lareira? Terá um jardim na frente? Para que lado estará virada? Na sua cidade, qual é a direção do sul? E do oeste? Onde nasce o sol? Onde se põe? Mas o sol se põe? Esses são os pontos cardeais. É importante saber onde estão os pontos cardeais por causa da luz do sol. Aí é preciso desenhar essa casa no papel, para que os pedreiros e carpinteiros saibam como a imaginei. O desenho torna a imaginação visível. Quem faz esse desenho é o arquiteto. Aí será pre- ciso fazer uma lista dos materiais que você terá de usar para construir sua casa. Começando com tijolo, cimento, areia, e sem se esquecer dos pregos. Não se esqueça do dinheiro, sem o qual não se compra nada. Seu pai e sua mãe terão prazer em ajudá-lo. 47 E a sabedoria dos animais Muitos mil anos atrás, antes que os homens soubessem construir ca- sas, os animais já construíam as suas. Eles já nascem sabendo. Nisso somos inferiores aos animais: não nascemos sabendo. Temos de inven- tar as nossas casas. E, para inventar, temos de pensar. O