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eca da SBPdePA Franco Borgogno ): 000 226 Psicanálise como Percurso Tradução Marina Rossi Revisão de Ester Hadassa Sandler e Paulo Cesar Sandler IMAGOcomo Capítulo 3 caso clínico do "pequeno Hans" como artigo de A origem e a forma primitiva do jogo são uma rea- ção: somente sobre sua base podem crescer as formas mais complicadas. Diria que a linguagem é um refinamento, "no princípio era a Wittgenstein, Pensamentos diversos "Ammu, se você está feliz em um sonho, perguntou Estha. "Vale o "A felicidade... é Ela sabia muito bem qual era a intenção daquele seu filho com o topete desarrumado. Porque a verdade é que somente aquilo que vale e válido. A simples, inabalável sabedoria das crianças. Arundhati Roy, o deus das pequenas coisas Como trabalha a mente do analista: uma premissa teórica Mais de vinte anos depois dos precursores escritos de Ferenczi sobre o pro- cesso como transação bipessoal e, concomitante à sua publicação no International Journal of Psycho-Analysis, em 1949, Paula Hei- mann apresentou em Zurique, no 16° Congresso Internacional, o seu traba- lho sobre contratransferência, inaugurando oficialmente uma nova época na história da Nesse trabalho, partindo de Ferenczi, que inúmeras vezes havia ressaltado a vasta gama de sentimentos e anseios estimulados na analise até delinear uma específica e verdadeira "metapsicologia dos proces- Este capítulo, publicado em boa parte em Borgogno (1998b), retoma a minha lição decenal a psicote- rapeutas infantis da Escola-Modelo Tavistock de Turim, ligada à de Neuropsiquiatria Infantil, e meus seminários aos candidatos psicanalistas da Sociedade Italiana. 2 Este atraso foi determinado pelo ostracismo de Jones em acordo com Freud. Rickman (analisado por Ferenczi e analista de Bion) se opôs tenazmente, promovendo e facilitando a divulgação de suas A rivalidade fraterna, como sustenta a própria Heimann (1979), que pagou preço depois de ter-se afastado de Klein, deveria ter um papel mais importante na teoria psicanalítica. Ela é, porém, um elemento essencial para entender os complexos fatos históricos da e estudar os vários destinos que encontram os novos pensamentos. Dina Vallino Maccio e Marco Maccio estão atualmente examinando este ponto em sua reflexão. 3 Entre os primeiros analistas que se interessaram pela estão Helene Deutsch e Theodor Reik (dos quais deriva Racker) e Alice Balint, aluna de Ferenczi. Wilhelm Reich utilizou certamente a contratransferência para conseguir descrever de mancira mais detalhada as atitudes defensivas do paciente, mas não a cita em seus escritos, assim como não a citam Abraham eartigo de do analista" (Ferenczi, 1928a), Heimann propõe a resposta São esses fatores que nos permitem dar um nome e verbalizar aquilo que emocional como "chave" fundamental "para acessar o inconsciente do paciente". percebemos, visualizamos e imaginamos, e a que, certas vezes, respondemos reativamente na interação com o paciente, tornando-nos conscientes disso A partir daquele momento, para a comunidade, a contratransferência somente em um segundo momento e não enquanto o ato cognitivo acontece, não é mais um fator a ser evitado, mas sim um preciso "instrumento de pes- quisa" e "de conhecimento" psicanalítico. Além disso, é um "meio de encon- como imporia "o equivocado juízo que emana do Superego" (Heimann, tro" do paciente, segundo o que ela elegantemente conccitua, mas não ainda 1975d, p. 384). aquele "motor" de qualquer transformação psíquica a que mais adiante Paula Heimann afirmará com cada vez mais força (1967, 1975a, d, alcançará inconscientemente. 1978, 1979, 1981a, b), também nisso concordando com Ferenczi, que De fato Heimann, com a sua maturidade de analista, irá reconsiderar as tipo de compreensão que exige o Superego, com as suas expectativas dema- siadamente "remotas" e "elevadas", na verdade bloqueia a efetiva explora- suas primeiras teses que em parte se distanciavam das de Ferenczi, reatan- ção que promove o conhecimento sem, de maneira alguma, sustentá-la ou do-se, sob muitos aspectos como defenderei no próximo capítulo às problemáticas e indicações que ele evidenciou, de um modo muito precoce para tempo (também para aquele tempo no qual a própria Heimann as reto- A especial atenção que Heimann dedicou progressivamente aos proces- mou). cognitivos do analista foi antecipada no estudo do qual estou falando, embora possa ser pouco evidente até para o leitor culto e informado. Igual- No escrito de 1949, embora aprecie a orientação geral de Ferenczi (que mente, pode não ser evidente para ele todo o interesse que Heimann deu ao para o jovem grupo de analistas que lhe contemporâneos tinha posto os funcionamento mental do analista no trabalho (na sala de análise e quando afetos em primeiro plano, ligando o conhecimento autêntico ao profundo escreve), se comparado à mais famosa e reconhecida contribuição de Bion a movimento de identificação no outro e com o outro), Paula Heimann não compartilha com o mesmo entusiasmo aquela que chama de a sua "honesti- respeito, em parte posterior e em parte à de Heimann, psica- nalista que ele, aliás, estimava muito conforme me referiu Parthenope dade", à qual se expressava no participar aos pacientes os Bion Talamo. próprios sentimentos. Falando da contratransferência em 1949, Heimann já esboça sumaria- Porém, em seguida, aprofundando a sua experiência am- mente uma concepção mais ampla do que aquela que estava em vigor naque- pliará a sua visão, tornando-a mais complexa e menos definida. Distinguirá, les anos, compreendendo a atividade do analista como pesquisador e teórico. por exemplo, no interior da necessária resposta recíproca e sincrônica do Não é somente a compreensão do paciente que deriva da experiência emotiva analista, aquilo que, se comunicado, torna-se um ônus para o e relacional global, mas desta surgem também, acrescenta ela, os conceitos e as aquilo que, ao contrário, pode ser um passo inevitável para alcançá-lo e com- favorecendo seu desenvolvimento psíquico e o desenvolvi- hipóteses teóricas. mento da Para manter essa sua intuição, como lembrei no capítulo anterior, Hei- mann cita Freud. Descreve como ele chegou a descobrir a resistência e a Assim, para ela o analisar significará, essencialmente, vários fatores cria- repressão sobre as quais se fundamenta a psicanálise, aprendendo a partir das tivos que não devem ser subestimados se quisermos melhorá-lo e torná-lo próprias vicissitudes afetivas quando estava com paciente. funciona- sempre mais vivo e atento e menos automático e estereotipado. Dentre esses mento da mente refletiria por isso, segundo Heimann, a fatores, Heimann incluirá "imaginação criativa", "naturalidade", "tato", "tra- mica interpessoal que se apresenta na situação psicanalítica. jeto" e "estilo" pessoais.5 ponto de vista que expus até aqui serve de premissa e de contexto idea- tivo ao meu discurso sobre o caso do "pequeno Hans" como artigo de técnica. 4 Isto lhe será possibilitado por uma maior reflexão a respeito das funções do analista e as dos pais no que tange a tudo que permita que o paciente desenvolva sua capacidade de pensamento. Porém, são necessárias algumas últimas observações para que eu possa Como sustentará em todos os seus últimos trabalhos, importante não é tanto que se diz ou chegar ao ponto. A primeira diz respeito ao fato que deve ser considerado que não se mas se que se diz ou não se diz promove progressivo crescimento do ideal o modelo indicado por Heimann, sobre como trabalha a mente do ana- paciente e do par (Heimann, 1981a). Nesta perspectiva, tornar-se-ão mais impor- tantes para ela as qualidades afetivas profundas da interpretação do que as condições que ante- lista quando compreende o paciente e teoriza o que acontece na relação trans- riormente havia explicado em detalhes, sublinhando as perguntas a que a interpretação, para ser A segunda refere-se aos tempos mais consisten- mutativa, deveria responder (Heimann, 1981b). tes que são requeridos para que as "descobertas" se tornem realmente opera- 5 A conceitualização de tato como "elemento da psicanálise" deriva de Ferenczi, mas Heimann tivas e possam ser utilizadas habitualmente como instrumento comum de também contribuirá a ela descrevendo as complexas operações cognitivas e afetivas implicadas. Ver, em particular, Heimann (1970, 1975d, 1978, 1979). trabalho. 45do consciente de alguns aspectos da interação e do diálogo que se gradativa alcance do "fato selecionado", a que hoje nos reportamos, seguindo Bion (1992), para descrever o nosso modo de proceder em sessão, é reciprocamente construindo. temente mais tortuoso e complicado e, principalmente, implica um período Especifico que esta "realidade última das coisas" absolutamente não nos de tempo real maior para que possamos com objetivo didático. isenta de virmos a ser conscientes e não atenua minimamente a nossa respon- sabilidade primária como analistas, que consiste em tornar conhecido e ver- Além do mais, para proceder conforme sugere o modelo, o analista deve balizado tudo o que ocorre na relação, depois de elaborado com profun- sentir-se essencialmente seguro de si, isto é, permitindo-se ser ele mesmo e didade. também de errar, desvinculado das teorias e princípios programáticos que, Portanto, dar-se conta de maneira mais realista e menos mitificada como em alguns casos, evitam o desconhecido ao invés de ir ao seu encontro. realmente se trabalha não nos convida a afrouxar a disciplina e, de quando em Provavelmente, essa disposição está mais acessível ao analista experien- quando, cruzar os braços. Mesmo que isso inevitavelmente aconteça, a nossa te, que consegue manter uma boa dose de entusiasmo e curiosidade em rela- receptividade não deveria diminuir, pelo menos até que o paciente "saia pela ção à análise; mas também ele isso deve ser dito para não idealizar o que porta". Usando as palavras de Heimann, "não se deveria trancar enquanto fazemos-não evitará momentos de rotina e automatismo nos quais prevale- ainda existirem coisas para se ver" (Heimann, 1981b). cerão um envolvimento mais frouxo e fraco e uma tendência a utilizar com- Detive-me nessas reflexões para ressaltar essencialmente ao leitor portamentos mais pedagógicos e prescritivos, menos comprometidos com a duradouro e árduo exercício e a assídua e contínua realização de um busca de contato que é, em um dado momento, autenticamente significativo. pio, de uma regra, de uma teoria, antes que estes se tornem efetivamente pra- com as teorias já vêm impostas e por ticáveis e praticados, vindo a constituir uma bagagem cotidiana e habitual do nada apreendidas singularmente pela experiência em cada caso; mas isso não analista. Fiz isso para ressaltar que, na época em que Heimann escreveu sobre deveria nos assustar, porque seria imaginar uma boa relação e a contratransferência, o proceder pré-consciente que entreviu em Freud, pro- também uma boa análise sempre no nível maior de esforço e de tensão cria- curando reconstruir como hipoteticamente a psicanálise foi criada por ele, tiva sem os intervalos de menor compromisso e maior relaxamento e, às metabolizando a sua experiência afetiva com os pacientes, foi mais ampla- vezes, preguiçosos e desinteressados sob alguns aspectos. Na formação da mente acessível e em nível de formulação consciente com a qual rede que constitui aquilo que definimos como o ritmo adequado ao par psica- Heimann a conceitualiza, graças ao sólido trabalho de quase meio século efe- nalítico isso também pode acontecer. Portanto, a repetição de algumas inter- tuado por toda a comunidade de psicanalistas. pretações, mais desgastadas e assertivas, assim mesmo base da relação e da Aquilo que, em Heimann evidencia nos Estudos sobre a histeria vida, não é negativa se for reconhecida e se não for ligada a uma pura rejeição, não é, pois, mais do que os primeiros passos que Freud deu em direção aos a algum tipo de ansiedade persistente e a estereotipias e rigidez mentais fran- futuros instrumentos que vieram a ser usufruídos pelo analista destas últimas cas e talvez inconscientemente recorrentes. décadas. Por outro lado, como sabemos, quando uma "circulação" mais automá- Será necessário, portanto, um repetido confronto experimental e entre tica torna-se impossível pela própria natureza dos fatos e eventos, o encontro colegas para que se chegue ao modo de trabalhar que Heimann imagina que onde há envolvimento pessoal direto fica em estado de alerta. Nessas oca- foi intuído por Freud na base das teorias que ele vai delineando naquele período; e, se as coisas não fossem dessa maneira, não veríamos razão para que não coincidem obrigatoriamente com circunstâncias sérias e gra- que ainda à época de sua apresentação e por muitos anos consecutivos as con- ves, a atenção para com os micromovimentos do aqui e agora e para com siderações de Heimann, que hoje nos parecem naturais e quase aqueles de um período mais longo, amiúde não percebidos e não pensados, tenham constituído argumento de debate e também de sem que, por torna-se prioritária para a auto-análise uma vez que se vai adiante com pouca outro lado, tenham sido muito visibilidade e lentamente. No "automático" não há apenas um possível defeito no cuidado e no 6 Um exemplo histórico clássico é comportamento de suspeita que teve Melanie Klein em relação método do analista em situações particulares, aos quais espera-se que ele à Igualava o interesse pela contratransferência à indulgência e "laicismo" retorne o mais rápido possível, tornando-se consciente Como justa- (N.R.: palavra não encontrada em designa uma corrente no catolicismo, especial- mente lembrou Bion, depois da guinada de pensamento que caracterizou a mente no século XVIII, que tendia a atenuar os preceitos cristãos) para com as próprias inadequa- ções e erros. o comportamento de Melanie Klein naquele tempo era muito comum e até o final sua obra será esse o argumento dos capítulos que lhe serão dedicados neste dos anos 1970 e início dos anos 1980 a contratransferência, mesmo sendo reconhecida como um parte dos processos de encontro e narração, e portanto também a contra- fator psicanalítico central, ficou às margens dos programas de estudo dos institutos de treina- é sempre inconsciente, e só esporadicamente analista se torna mento e nos projetos oficiais de pesquisa. 47 46como artigo de do "pequeno Hans" como técnica encontrando-os profundamente empenhados como agentes e protagonistas, em parte não conscientes de sua troca recíproca, mas mantendo-se firme- Indo que sobre o caso do "pequeno Hans" será então visto dentro mente distintos em seus respectivos papéis. premissa e desse contexto de pensamentos. De fato nesses, seguindo as poderíamos dizer que por meio da experiência de preciosas indicações de Heimann, se manifestam os igualmente importantes supervisão de Hans e seu pai Freud está de certa maneira adquirindo aquele primeiros passos de Freud em direção que atualmente é considerada a nossa de mais atenta às características únicas € singulares do "segundo olhar" que dá ao analista um mais fecundo entre partici- pação e observação, tornando-o mais preparado para distinguir e separar a paciente e que é re-proposto, a cada momento, nas trocas afetivas e ver- sua própria contribuição da contribuição do paciente a auxiliar e dar repre- bais entre paciente e analista e vice-versa. sentação responsiva às necessidades, fantasias, problemas, conflitos internos Este ensaio (Freud, 1909), como é dito na Introdução, é para ele um feliz e externos trazidos na sessão pelo paciente. exemplo, em um tratamento psicanalítico de uma criança, de suas teorias sobre a sexualidade de 1905 (complexo de rivalidade fraterna, angús- Em outras palavras, Freud adquire mais mobilidade em suas possibilida- tia de castração, curiosidade infantil e impulsos eróticos pré-genitais) e, mais des de identificar-se ora com paciente, ora com o analista e, portanto, torna-se mais capaz de compreender os movimentos comunicativos profundos que especificamente, do aparecimento de uma fobia e da sua lenta transformação alicerçam o seu discurso a ponto de protagonizar nas páginas desse resolução permitida pelo trabalho de Todavia, se formos além das declarações conscientes de Freud e se olharmos o pré-consciente do seu artigo um analista que ao acompanhar e valorizar o material do paciente percurso global de estudioso e terapeuta, a leitura revelará bem mais do que o sem antecipá-lo e orientá-lo com base em motivos e preferências pessoais (Freud insiste neste ponto) deve poder se escutar enquanto pensa e fala, objetivo expresso em nível manifesto de provar de modo evidente a neurose monitorando as respostas e as reações do paciente durante e depois de seu infantil que Freud supunha escondida e reprimida nos fenômenos neuróticos adultos. silêncio ou sua interpretação. Em suma, Freud anuncia nesse momento, mediante pequenos comentá- Sob este o caso do "pequeno Hans" é, em primeiro lugar, um rios e observações, escutar a escuta do analista", de que falou recente- re-pensar da experiência anterior de Freud e uma exploração mente Faimberg (1981, 1996), partindo de um quadro teórico que possui daqueles estados infantis da mente com os quais ele regularmente se depa- rava, focalizando a transferência como centro do tratamento; e também das muitos pontos em comum com o que estou Uma escuta que exige do analista considerar principalmente, para entender as próprias inter- suas dificuldades pessoais e limites de analista ainda principiante. Em venções e as próprias identificações inconscientes subjacentes, as úteis segundo lugar, representa a conquista de uma nova e mais madura posição sugestões que provêm do paciente, e dar-se mais conta daquele acervo de psicanalítica, capaz de um maior distanciamento e de um contato mais sau- memórias e desejos, freqüentemente ocultos nas proposições teóricas que dável com os seus pacientes e as suas histórias. nos inspiram, mas que podem escoltar algumas formas de pressão que são A sensibilidade demonstrada por Freud para com o "pequeno Hans", e em inadequadas ao âmago do processo geral para com as crianças e as suas características e exigências específicas, nes- "escutar a escuta" implica, de fato, uma maior função ses anos que precedem e acompanham a escrita do trabalho que estou exami- nando, não pode deixar de remeter a uma de suas concomitantes por parte do analista que, reconhecendo não ser totalmente consciente do que, refazendo os vínculos consigo mesmo criança e com sua infância, próprio envolvimento afetivo, não somente examina os próprios sentimentos conscientes na sessão, mas observa a resposta do paciente à sua conduta levam-no a repensar seu comportamento psicanalítico e a rever até de modo como um sinal potencial da posição emotiva inconsciente que esses lhe atri- crítico algumas de suas atitudes marcadamente autoritárias e impositivas, par- ticularmente evidentes no tratamento de Dora. buíram no diálogo. Além disso, Freud representa, nos relacionamentos entre Hans e seu pai, Questionar-se sobre este aspecto, como sabemos hoje, re-propõe o traba- o supervisor e não o analista: um fato que nos autoriza a pensar em um lho de working through que cabe ao analista, permitindo-lhe ao conceder aumento de sua capacidade de olhar o encontro do par a partir que o paciente seja, com todo o direito, parceiro do processo uma melhor de um vértice de menor envolvimento direto e mais atento ao diálogo mútuo, discriminação de possíveis parcelas suas insuficientemente bem elaboradas no próprio processo. 7 Também segundo Bergeret (1987), por meio do caso do "pequeno Hans" Freud continua a pró- Tais parcelas poderiam momentaneamente ter influenciado e dirigido reatando os fios de sua "um pouco como ressaltam os diversamente à transferência colocando-se em primeiro plano; ter simples- Geismann (1992). mente contribuído para alimentá-la e ou ainda acontece com 48 49de ter permitido o seu emergir, dado que o analista, para poder paciente acreditava, como me disse mais tarde, que as minhas observações por em palavras os acontecimentos relacionais presentes, teve de primeira- eram psicanaliticas, me tornava seu pai, e ele usava as defesas que havia cla mente pessoalmente e personifica-los tornando-se intérprete de borado para se defender das intrusões do pai. Uma vez desvelado esse fator gene- tico, a tendencia do paciente a se distanciar claro que essa sua rela- objetos e partes do Self do paciente. ção altamente complexa conflituosa com pai foi analisada e elaborada cada Antecipo neste momento, mas voltarei a aborda-lo no final do trabalho, vez mais (p. 381). que tipo de atenção que ressalto será levado adiante por Ferenczi em seus escritos e, em particular, em Sintomas transitórios no decorrer da analise Passo agora a Freud, abrindo um breve parêntese sobre os artigos aqui (1912a), onde lerá os sintomas que aparecem na sessão e de uma sessão para citados que serviram de moldura para "pequeno Hans" e que, provavel- outra como devidos à atitude do analista para com o paciente portanto, em mente, pareceram muito afins aos de Ferenczi, que os retomou e ampliou no termos de comentário enigmático e inteligente, a qualquer ação ou não ação princípio de sua atividade como psicanalista. sua. Ferenczi está certamente em sintonia com "Freud do Hans' e Embora Freud tivesse acabado de a teoria do trauma em cercanias", como o denominei em 1990 meus primeiros seminários aos favor da fantasia inconsciente e da realidade a sua solicitude candidatos a psicanalista; e compartilha as rellexões e modelo de criança perante as razões e os direitos da criança, suplantados, silenciados e que Freud descreveu naqueles anos, talvez para atenuar momentos de não duramente testados por comportamentos adultos inadequados e traumáti- compreensão e de não escuta das comunicações de Dora. cos, não se aquietaram nesses Ao contrário, como disse, parece flo- quero ressaltar que, apesar de os analistas concordarem com a rescer e expandir-se inesperadamente, mostrando um Freud atento conhe- importância da auto-análise do analista, nem todos a utilizam na investigação cedor do ambiente onde cresce e se forma uma criança c, por isso mesmo, do diálogo prevendo uma decisiva co-responsabilidade que mais e próximo aos encontros com os movimentos infantis da coloca em jogo a influência do analista no andamento desse diálogo, especial- alma, nem sempre causados por fantasias inconscientes sustentadas pela mente perante rápidas variações de tom e conteúdo na sessão, bruscas inter- emergente e mutante evolução libidinal, mas devido a considerável hipocri- rupções da comunicação reações e bizarras. sia descuido parental. Ferenczi a utilizará, Paula Heimann também a terá bcm mente, A criança que aflora nessas considerações é uma criança saudável e pedindo até mesmo que seus pacientes a interrompam, intuindo, como dotada de uma resposta inteligente e curiosa, orientada para a realidade e Ferenczi, o quanto é fácil que no ato interpretativo se mobilizem alguns ele- para a relação, aberta à vida e à novidade. Freud a denomina, como recorda mentos narcisistas do próprio analista porventura conduzidos pela paixão à Erikson (1977), die strahlende Intelligenz des Kindes: a radiante inteligência psicanálise e pela idealização dos mestres. das Estas são as palavras de Heimann: Em alguns casos, porém, essa inteligência pode ser apagada e corrom- pida por reticências evasivas e denegações repetidas, ou repudiada e invali- Criei para mim uma regra de dizer a meus pacientes que, se for o caso, gostaria dada pelo desinteresse e falta de amor dos adultos (Freud, 1907, 1908, 1909). que me que não ficassem em silêncio caso seu interesse fosse Não obstante, a criança não deixa de lado a procura da verdade, mas con- atraído por qualquer processo em curso na sua mente. Essa é, talvez, uma outra regra fundamental que merece uma discussão generalizada. Revela-se particu- tinua perseguindo-a conquanto em circunstâncias adversas. De maneira larmente necessária na análise de pacientes introvertidos, como pude constatar "inconsciente" e "cindida" especifica Freud- acrescentando que aquilo com extrema clareza na análise de um adolescente gravemente esquizóide com que inicialmente deve ser segredo cm relação aos "adultos" e para os "adul- impulsos suicidas e um atroz sentimento de solidão. desde o lenta e sucessivamente segredo também para si mesmo. A su- cio, estava consciente do perigo implicito em sua efetiva retirada de contato gestionabilidade, que leva as crianças a aceitarem aparentemente sem comigo, e quando eu falava nunca diminuía a atenção em Amiúde eu parava para notar a minha impressão de que havia se distanciado, e isto a "versão oficial da realidade" imposta pelos pais, não impede assim necessa- lhe permitia retroceder, mesmo que apenas para confirmar a minha observação, riamente o processo veritativo nem suspende propriamente a reflexão pes- mas sem saber onde tinha estado. Às vezes, o fato de restabelecer o contato fazia com que ele desejasse ativamente escutar a comunicação que havia perdido. Mas 8 Assinalo que Freud nunca abandonará totalmente a teoria do trauma, nem a idéia do ambiente o que realmente importava não era tanto uma idéia específica, mas sim a sua como fator etiológico relevante. As considerações presentes em sintoma e angustia experiência de poder recuperar o contato perdido. (1925) são, quanto a esse aspecto, importantes e - como especifica Martin-Cabré (1997), reto- Nas fases seguintes da análise, foi possível descobrir o significado da transfe- mado por Goretti (1997) Freud fala em terminável "força pulsional do rência de alguns desses episódios. Seu pai tinha o hábito de fazer longos discur- momento" reforçada por novos traumas e frustrações e não de "força constitucional". Além sos ao filho sobre assuntos que não lhe Por azar, dentre esses, disso, Freud retoma em Moises o três ensaios (1934-38) conceito ferencziano de estava a (obviamente o pai não era um analista). Todas as vezes que o "mortificação 50 51Psicanalise como () caso clinico do "pequeno Hans" como artigo de técnica soal, mas a compele - como diz Freud - a renunciar ao importante con- Chego finalmente ao caso do "pequeno Hans", descrevendo rapidamente fronto com os adultos, visto que a criança aprende a se diminuir em função de alguns trechos de diálogos importantes, de meu ponto de vista, para a história não ser ouvida por eles, por subestimarem a perspicácia infantil subestimada, da técnica psicanalítica. pela sua falta de atenção e, às vezes, evidente nocividade, com graves perdas e Deter-me-ei exclusivamente em um único elemento: a vivaz perspicácia danos para o seu posterior desenvolvimento, que irá essencialmente, de Hans, que Freud descreve como quase capaz de apresentar, em nível de uma função pré-consciente, pensamentos psicanalíticos. Ao irei enumerar poucos A este quadro apresentado por Freud acrescenta-se aquilo que ele disse momentos significativos, relatando as palavras de Hans e os comentários de em 1906 em do fato e acerca de as crianças se sentirem Freud, e dando por conhecida a sequência inteira da qual os extraio. culpadas de algum modo, de forma que, tranquilamente, podem ser acusadas Inicio com uma típica resposta que Hans a seu pai quando este discute de qualquer coisa com o próprio consentimento final. com ele tema da masturbação: "querer" não é "fazer" "fazer" não é "que- rer" (Freud, 1909, SEB, vol. X, p. 41). Muitas vezes uma criança acusada de uma transgressão nega veementemente sua Disse "típica" porque acontecerá outras vezes: por exemplo, quando culpa, embora chore como um criminoso desmascarado. Talvez pensem que a Hans, em tratamento avançado, distinguirá "pensamento" de "ação". Isso é, criança mentiu ao afirmar sua inocência, mas isto nem sempre é verdade. Pode ser quando diante do pai que tomado por regras de boa conduta sugere que um que, embora não tenha cometido uma falta de que a acusam, tenha cometido uma outra que permanece ignorada e que não lhe foi imputada. Assim, fala a verdade ao "bom menino" não pode ter certos desejos (sexuais e agressivos), Hans fará negar ser culpada da primeira transgressão, ao mesmo tempo em que revela seu uma correção no alvo, propondo que, ao contrário, elc pode "pensá-los" por- sentimento de culpa proveniente da outra falta. Nesse particular, como em muitos que assim depois alguém pode escrevê-los ao professor, que os entenderá. outros pontos, o adulto neurótico comporta-se exatamente como uma criança. professor Freud - escreve: "Muito bem, pequeno Hans! Eu não poderia Muitas pessoas são assim, e ainda é muito se a sua técnica logrará distin- desejar uma compreensão melhor da psicanálise por parte de nenhum guir tais indivíduos auto-acusadores daqueles que são realmente culpados. Final- mente, mais uma questão. Os senhores sabem que, pelas normas do direito penal, adulto" (p. 81). é vedado sujeitar o acusado a qualquer medida que tome de surpresa; portanto, Um pouco adiante no texto, com relação a esse diálogo inicial acima ele deverá ter sido advertido de que poderá denunciar-se nessa Isso citado, Hans, cujo pai-analista um pouco obtuso demais o trata como se fosse leva a perguntar se podem ser esperadas as mesmas reações tanto quando a aten- um simplório, incapaz de ter observações agudas e adequadas, apela nova- ção do sujeito está dirigida para complexo como quando está afastada desse mesmo complexo, e a que ponto a intenção de ocultar alguma coisa pode afetar os mente ao professor, desejando um pai-analista que o leve a sério, sem titubear modos de reação em pessoas diferentes (SEB, vol. IX, pp. 114-15). e sem se fazer de "desentendido" (p. 48). De mancira semelhante, em uma de minhas primeiras análises avança- Se a mensagem eventual, implicita na passagem citada acima, pode ser, das, um paciente, diante de minhas dúvidas e hesitações exclamou (porque nessa minha leitura, a necessidade de distinguir a satisfação de uma concor- esse foi o tom com que o disse) por meio de um sonho: "Costure logo, doutor, dância por parte do paciente, constrangida, por exemplo, pelo desamparo somos de raça camponesa!" tema do sonho, como se pode imaginar, era pela intensidade da necessidade, daquilo que é falsidade e mentira intencio- uma operação ("análise") que demorou demais. nal e empedernida, pode-se notar de modo geral, em todas essas observações, Voltando a Hans e seu pai, o contexto é a exploração de que os pais um Freud que exercita a prudência e a paciência, discriminando a complexidade fazem na cama" e quais são os sentimentos de Hans a esse respeito. Hans trata dos fatos do assunto nos termos de - como se lembrará o leitor - duas girafas: uma Um Freud que nota como facilmente podem nos cegar a própria teoria e grande e uma estragada; uma estragada sobre a qual Hans teria se sentado imaginariamente, provocando os gritos de protesto da girafa grande (ibid.). os próprios preconceitos, até aqueles de natureza moralista, e que, portanto, convida a termos cautela ao atingirmos hipóteses interpretativas e ao dedu- pai persiste na averiguação, demonstrando-se incrédulo perante a solu- ção narrativa de Hans, fazendo-lhe uma série de perguntas pedantes, até que zirmos provas de sua veracidade na resposta do paciente. Hans, diante da sua enésima sobre a irrealidade de sua história, que de Um Freud, em suma, sempre menos convencido de uma análise à Sher- resto Hans sabe que é uma fantasia, conclui com evidente impaciência, até por- lock Holmes, uma vez que agora conhece pessoalmente a vulnerabilidade do que nota que o pai transcreve tudo ao professor: "Ah, então você escreveu tam- paciente a ser e a sentir-se acusado (às vezes, em alguns aspectos, com razão), bém que a mamãe tirou a camisa, e vai dar também para o professor?" (ibid.) que parece questionar o próprio fervor na conquista do conhecimento e se Irritado depois pela surda insistência do pai, que naquele momento novas perguntas sobre a qualidade e a natureza de sua escuta. pouco contato tinha com o filho-paciente e, no geral, com as fantasiosas 52 53artigo de Percurso Fica bem evidente nesta passagem e no tom global do escrito que Freud maneiras infantis de representar através das quais as crianças representam suas percepções e conhecimentos, visto que esperava um discurso lógico e não está seguindo unicamente a evolução e transformação dos conteudos do racional, Hans responde ao pai, que pede um instante de silêncio: diálogo, que certamente estão na origem da nem pensando unilateral- mente nos termos clássicos de e da pré-genitalidade. Em muitos pon- "diga-me depressa o que você está pensando com um tom espirituoso de quem está pensando em uma "calda de framboesa", mas percebendo em tos Freud parece, ao contrário, realizar as suas observações sobre processo comunicativo entre analista paciente, entre pai e filho, identificando aspec- seguida que pai não desiste, responde: "penso em um para matar as tos nos instrumentos psicanalíticos de seu discipulo, aspectos pessoas com um tiro" (p. 48). Pouco se precisa para compreender, com "discernimento de hoje", que devem ainda crescer para se autenticamente úteis e funcionais como essas duas respostas são totalmente determinadas pela viscosidade para tratamento. insistentemente importuna e intrusiva do pai-analista e por sua agressiva pre- Estes aspectos, sinteticamente, dizem respeito a uma certa impulsividade cisão de principiante que pegou a técnica ao pé da letra, mas não captou do pai de Hans, cm cuja base existe hostilidade inconsciente ainda não comple- profundo que a como próprio Freud explicita em uma tamente elaborada e, sobretudo, uma mascarada narcisicamente nota de pelo fato de estar completamente inserido em seu papel e não Mas um mês depois, o comentário de Freud sobre esta parte da análise presente e nem sempre adequado ao oferecer a ajuda que Hans necessitaria. Não é simples, a tarefa que Freud conota como psicanalitica fala por si: quando diz que médico está um passo à frente" do paciente "no caminho pai de Hans estava perguntas estava pressionando inquérito do conhecimento" (p. 127), mas sugere, ao mesmo tempo, que primeiro através de suas próprias linhas, em vez de permitir ao garotinho que expressasse não deverá se exceder nesse sentido já que ambos devem "encontrar-se na próprios pensamentos. Por esta razão a análise começou a ficar obscura e meta marcada" (ibid.); quando especifica que "reconhecer" no material um incerta. Hans tomou seu próprio caminho e não produziria nada se fossem feitas "complexo inconsciente" não coincide com fato de que o paciente real- tentativas para tirá-lo deste So posso dizer aqueles de meus leitores que até agora ainda não tenham conduzido uma que não tentem compreender mente o assimile, acrescentando que assimilar não significa necessariamente tudo de uma vez, mas que um tipo de atenção não tendenciosa para todo "curar" e levar o paciente a uma resolução segura de seus distúrbios; quando ponto que surgir e aguardem desenvolvimentos posteriores 74). assinala que existirão sempre os momentos, principalmente em análises avançadas, nos quais não será mais analista que antecipará que está para E mais adiante, na página seguirite, Freud reforçará este conselho afir- emergir e está pronto para receber um nome, mas será paciente a correr mando que que emerge do inconsciente deve ser compreendido não à luz adiante e, às vezes, o próprio analista terá dificuldade de quando, do que vem antes, mas do que vem depois" (p. 75). na prática, em todo o artigo descreve com filigranas uma análise que, mais do Porque, todavia, apesar das boas intenções e da entusiasmada atenção que descoberta, é elaboração contínua e diária, com todas as possíveis vicissi- dada ao filho, pai de Hans não retrocede em certas atitudes de "primeiro da tudes que esta comporta tanto para o paciente quanto para o analista. classe", sendo excessivamente detalhista e pouco divertido e livre, pois para A análise definitiva afirma Freud ao concluir o caso na "Discussão" ele Freud, e não o seu filho-paciente, é o professor e a principal referência; (p. 112) não é uma investigação imparcial, mas interven- explicita o leitor não se tenha apercebido os absur- ção terapêutica" que deve "modificar alguma coisa" por meio de "uma ajuda dos sustentados com obstinação por Hans são uma paródia e uma vingança particularmente grande" (grifo acrescentado). inconscientes, exigidas pelo modo evasivo do pai, pela sua maneira de ser Nessa ótica, que dá valor à ajuda, é necessário que haja tempo e, princi- misteriosamente superior e, definitivamente, por seu comportamento extre- palmente, que existam qualidades emotivas e mentais, sintetizáveis nas mamente ambivalente, pois continua a subestimar a perspicácia emotiva de seguintes tarefas que Freud parece indicar como prioritárias. analista deve seu pequeno paciente (neste momento o pai não tem certeza se o filho já per- exercitar, in primis, uma forte função dando representação cons- cebeu que sua mãe está grávida). ciente a tudo que está na mente do paciente, silencioso, não expresso, obs- Vingança e paródia significam, segundo Freud, nesta particular curo, já que ainda não tem, ou não encontra, palavras. Deve sim ter capaci- dade afetiva e de constância relacional, não se deixando pelos Se você realmente espera que acredite que a cegonha Hanna em outubro, acontecimentos, que deve poder entender de modo mais otimista do que quando até mesmo no verão, enquanto estávamos viajando para Gmunden, eu paciente e os pais dele (internos e externos), com uma perspicácia especial notei como de mamãe estava grande então espero que você acredite que lhe permita ver as coisas em perspectiva e não de modo estatístico. nas minhas mentiras... (p. 74). 55 54caso do "pequeno Hans" como artigo de tecnica Psicanalise como Um bom analista sabe - continua Freud - que "progressos" e "repeti- tempo, possa ser padronizada e diferenciada nos seus aspectos realistas constituem o estofo de que é feita a existência, e que a emergência e a desejáveis. manifestação aberta de impulsos mais intensos e até violentos não são, forço- atitude básica, que percorre as páginas de todo o caso, é reafirmada samente, destruição e morte, mas antes de tudo vida e movimento. Até no final, quando Freud claramente valoriza as fantasias inconscientes de mesmo a doença é, para este analista, vida e sinal de saúde, e ele não irá se Hans, que prenunciam a sua "cura" do temor à castração e de um florido assustar por ela, pois em seu irromper colherá dela um novo fermento mental conflito edípico que os seus pensamentos não tinham sabido conter ou e um pedido subjacente de maior assistência e apoio. governar (p. Em resumo, um bom analista- declara Freud é aquele que tem con- Por isso, não me parece fortuito que ao concluir, congratulando-se com fiança em si próprio e em seu pré-consciente, e está disposto a depositar a as originais fantasias de Hans que predizem uma vitória sobre a fobia, retome mesma confiança em seus pacientes, nos aspectos competentes de sua imagi- uma famosa vinheta de Heine sobre o "Simplizissimus", que conta a história nação e em suas tentativas de ajuda e cooperação, por mais desajeitadas e iná- do "filho do salsicheiro que na máquina de salsicha e depois, na forma de beis que sejam. uma pequena salsicha, foi pranteado pelos pais, recebeu a bênção da Igreja e Se por todo o percurso do artigo Freud foi particularmente receptivo na voou para céu" (ibid.). Um pouco antes, de fato, Freud recordou a mortifi- consideração desse último ponto, nas primeiras páginas da "Discussão" cação que Hans experimentou por ter sido enganado pelo pai com a história encontramos uma verdadeira homenagem à inteligente percepção do pré- da cegonha: uma mortificação que atingiu a dignidade de um "pequeno consciente de Hans que, de seu ponto de vista, é confirmada e reconhecida, mesmo quando ainda não existem provas para compreende-la e identificá-la Contudo, o que apresento são relances de um progresso: fragmen- completamente. tos de uma notável e decidida sensibilidade, e respeito nos encontros com a Freud escreve: singularidade do paciente, questões que pouco a pouco analistas irão focali- zar em sua técnica a partir do momento em que ficam menos preocupados com Não compartilho do ponto de vista, que está em voga atualmente, de que as afir- a comprovação dos fundamentos da nascente psicanálise. mações pelas crianças são invariavelmente arbitrárias e indignas de confiança. Oar- bitrário não tem existência na vida mental. A não confiabilidade das afirmações Freud, nessa última que estou ilustrando, conecta, a bem da das crianças é devida à predominância da sua imaginação, exatamente como a não verdade e como sumário, a desilusão e o rancor de Hans a aspectos relevan- confiabilidade das afirmações das pessoas crescidas é devida à de tes da sua teoria em construção, e não ao fato de serem, antes de tudo, uma seus preconceitos. Quanto ao resto, mesmo as crianças não mentem sem um resposta a um pai muito comprometido e identificado com Freud e com a psica- motivo e, no todo, são mais inclinadas para um amor da verdade do que os mais nalise do que identificado com ele, em suas necessidades de afeto e aproxima- velhos (pp. 110-11). ção. A irritação com a qual Hans responde às alfinetadas e provocações que Freud quer combater, expressando desse modo a idéia de que a criança faz são para ele uma réplica, uma expressão de protesto, mas depois são é dominada pela extravagância de sua fantasia inconsciente e pela estra- concreta e principalmente tratadas como oriundas de impulsos sádicos e pos- nheza de seu funcionamento mental infantil; e luta igualmente contra a sessivos que confirmariam o que a teoria sugere, explicando mais uma vez concepção de uma resistência que irrompe exclusivamente por motivos nesses termos por ela prescritos a resposta sintomática de que Hans sofre. irracionais, sustentados por componentes libidinais e destrutivos que E ainda, entre as linhas transcritas por Freud e em muitos dos seus fazem pressão naquele momento, sem a presença e a intervenção de funda- comentários, é impossível não ver como ele, aos poucos, percebe as razões da mentais "restos diurnos". Esses são sempre minuciosamente explicados, criança e os grosseiros limites da escuta do pai que se, inegavelmente, é bene- pois é a eles que se ligam os nossos movimentos afetivos universais, tornan- volente e dedicado pelo tempo e atenção concedidos, parece por obje- do-se identificáveis e significativos para nós como elementos singulares e tivos que transcendem a própria criança e que nem sempre parecem ser únicos de um destino. A habilidade do pré-consciente é atestada por Freud até mesmo nas defe- 9 Relembro-as ao leitor: a primeira quando Hans se proclama "papai" e nomeia o seu pai a sas, nas quais ele sempre vê além da ótica psicopatológica um trabalho psi- segunda, quando imagina a chegada de um "soldador" que lhe dá um "faz pipi" maior, aproxi- mando-o de seu pai. Com a primeira, Freud ressalta que, ao invés de matar o pai-rival, Hans "tor- quico em ação, à procura de solução e proteção adaptativas, apesar de seus promovendo-o pai de seus filhos e marido da e concedendo-lhe "a mesma resultados serem parciais, insatisfatórios e, com comprometedo- felicidade que ambiciona para si" (cada um casa com a própria mãe). Com a segunda, supera res. existe nas defesas uma forma de sabedoria nunca medo de castração, projetando-se através da fantasia, em um futuro grande e potente totalmente fora de lugar, a serviço do socorro do adulto, para que, com o como seu pai. 57 56como Percurso caso do "pequeno como artigo de caracterizados por respeito e sensibilidade que se exige de quem se ocupa do De Dora a Hans: uma evolução Isto é evidente quando, por exemplo, Hans intui que o pai está tenso e Por todos esses motivos, não me parece errada a hipótese de que Freud, ao bravo, e quer então que o admita. Quando reclama de um pai "orgulhoso" e escrever sobre Hans e o seu pai, estivesse repensando o seu trabalho clínico "superior" que, distante dos fatos emotivos da troca que ocorre entre eles, anterior, as suas interpretações e as respostas dos pacientes a elas, dotando a não está em contato com o que ele realmente está pensando (pp. 90, 96). Ou sua escuta de uma maior prontidão para recuperar as mensagens comunicati- ainda quando não prontamente responsivo a seus pontos de vista e à pes- vas do paciente sobre os ritmos e as características do diálogo, moderando quisa que está fazendo, que - como ressalta agudamente Freud ele intui uma certa assertividade sua, de caráter diretivo ao significar o material de acontecimentos, sem saber completamente. modo muito saturado e decidido. Nestas ocasiões, relembro o leitor do que Hans dizia: "Sim, é verdade, você Desde início, Freud estava disposto programaticamente para a análise fica bravo, eu sei. É assim que deve ser" (p. 91); ou então: "Você sabe tudo, eu não sabia nada" ou na volta da conversa com Freud: professor con- com a intenção de aprender da experiência e das contribuições dos pacientes. versa com Deus? Parece que já sabe tudo de antemão!" (p. 52). Porém, logo como ele próprio testemunha É importante acrescentar aqui a observação autocritica que Freud que, às vezes, a pega pela tornando-se um interesse mais forte sobre a última frase de Hans que referi acima: "Eu ficaria extraordinaria- do que a identificação com as necessidades e solicitações que o paciente mente orgulhoso, vendo as minhas deduções confirmadas pela boca de uma manifesta, de modo que nesses casos o parece se transfor- criança, se próprio não tivesse provocado com a minha ostentação, à mar em um tipo de leito de Procusto, ao qual paciente deve se adaptar, guisa de brincadeira" (grifo meu). renunciando em parte às singularidades que traz na sessão e a escuta que Por isso tem razão Antonino Ferro (1992) quando supõe que Hans, seria necessária. naqueles momentos, pudesse se sentir, cle mesmo, a "girafa estragada" e, para De meu ponto de vista, tudo isso está mais evidente no tratamento de usar o adjetivo que Ferro retoma, a amarrotada". Dora (Freud, 1905a), onde não prevalece apenas o pela teoria Hans é realmente considerado mais como um texto de "papel" e menos mas um descuido global de Freud relação aos problemas de relacionamento como um ser vivo, e talvez tenha precisado "conduzir-se" naqueles momen- que a paciente lhe relata sem hesitação, sem receber em troca reconheci- tos diante de tanto "barulho" e "gritos" da "girafa grande"; isto é, diante de mento que lhe caberia. tantas palavras devotas e apaixonadas que, todavia, podem ter sofrimento que Dora descreve diz respeito a uma sutil manipulação ocultado a sua própria voz e a sua presença, pois esqueceram do que os que ela sofre por parte de sua família, que a trata como uma "coisa" que serve "restos diurnos" são "restos de como os chamará Ferenczi (1934 a, b), para realizar os objetivos alheios, e completamente trocada como uma "mer- evidenciando que estes são, em primeira instância, introduzidos pela situa- cadoria", sem valor pessoal e sem o próprio direito de se auto-representar e ção presente e pelo ambiente do qual fazem parte. representar as próprias vivências. 10 Pode-se assim compreender de onde vêm as duras críticas, mesmo que em relação a Então, caso se vejam as coisas nessa otica, a repentina interrupção do esse Giani Gallino por exemplo, evidencia o lado persecutório da aná- tratamento posta em ação por Dora não surpreende, mas deveriam ser lise destacando a maneira pela qual menino visto como que não pensa e não reconsiderados os motivos que determinaram essa interrupção, produzi- é dotado de raciocínio próprio. Além disso, esta autora capta, no comportamento do pai de Hans, uma marcante superioridade e uma acentuada infantilidade, que tornam duvidosa a verdadeira ram na paciente "ofensa" e "ressentimento" (pp. 91-119). consistência de sua saúde mental que, ao invés, é tida como saudável. Hans manifestaria sinto- leitor moderno que enfrenta o caso de Dora imediatamente percebe a mas induzidos em parte pelas e inseguranças dos pais que, se de um lado reduzem a sua ambiguidade e a hipocrisia do ambiente que a circundava, e não pode deixar imaginação à manifestação do outro atenuam o próprio medo e a da confundindo-a a respeito das "realidades" sexuais. Este último aspecto é também tratado por de criticar Freud que a vê, mas em parte cede e faz conluio com isso, reapre- Rudnytsky (1993), que - como Giani Gallino denuncia ponto de vista absolutamente falo- sentando, ele mesmo, um tipo de acoplamento mental que no fim exclui a do pai e da mãe de Hans, e do próprio Freud, os quais negam a singularidade da sexuali- real interessada, isto é, Dora. dade desvalorizando-a por sua diferença. Silverman para terminar, focaliza como a própria sexualidade masculina é dividida, já que no artigo não se fala dos nem Talvez, como diz Levenson (1972), era essa a sedução e manipulação que do escroto, mas só e unicamente do Dora denunciava, ou seja, a traição que dali a pouco teria brandido por revan- 11 Quem quiser se aprofundar na história do "pequeno Hans" (Herbert Graf), na época de sua che e vingança: uma sedução velada mascarada por parte de um adulto que lise com Freud e depois dela, consulte Bergeret (1987); Graf (1972); Lindon (1992); Silverman (1980) e Stream (1967). dá a ilusão de que você tem importância, mas depois trama e conspira contra 58 59duzi-las a uma integração mais eficaz que as individualizasse de forma ade à medida que a sua importância é a de ser um "objeto de troca" em um quada, religando-as "às suas fontes". Está igualmente consciente de não ter comércio para fins e propósitos sabido elaborar em tempo hábil as suas respostas emocionais ao material, e de Freud entende tudo, mas descuida disso, pois segue as fantasias incons- em ter-se tornado para Dora o pai que não é sincero, que cons- cientes subjacentes (Erikson, 1964), privando-as do contexto subjetivo mais pira e prefere "guardar os segredos e sempre fazer rodeios" (pp. 115 e seg.). peculiar em que surgem. Por isso Dora, que já na sua infância e pré-ado- Freud parece até discernir a própria e exclusiva identificação com pai lescência não tinha sido ouvida € acreditada em relação a tudo que via muito que lhe impediu a "descida às mães", mas a ligação da criança pequena com a bem, vê-se mais uma vez não escutada e não acreditada, pois não se acreditou mãe é curiosamente vista por ele como "impulso crótico homossexual" a ser em uma parte de seu protesto, que, não foi validado e reconhecido, e por circunscrito como aspecto ambivalente da vivência edípica e igualado tout isso não foi investigado. court como fará aliás com às verdadeiras e próprias "cor- Freud assim como ressalta por sua vez Goretti (1997) - termina mal- rentes" da homossexualidade, com perda segura da área mais vasta e articu- lui em posição "-K" (Bion, 1962) e se torna também "violador" "narcisi- lada referente à transferência infantil materna sobre a qual se apóiam as bases camente pago" dos próprios resultados teóricos, pois não explora com mais de toda e qualquer identidade, quer seja masculina ou profundidade a negação de Dora, e não percebe que a disponibilidade para Certamente não posso aprofundar-me aqui na exploração das dificulda- escutar e se escutar, próprio derivam do fato de ter sido antes cuida- des de Dora, arraigadas nas exigências arcaicas e primitivas de relaciona- dosamente ouvido e mento e dinâmicas mais avançadas de natureza adolescente. Porém, quero Percebe-se, sem sombra de dúvida, que Dora queria ser amada, mas de ressaltar que faltavam a Freud as coordenadas teóricas que hoje nos são que amor se trata? Do amor pela do amor pelos disponíveis e soli- essenciais para entender os processos de identificação (pouco tempo depois dários, como venho dizendo há anos, ou do amor à vista do "leito conjugal"? começariam a ser em seu estudo sobre Leonardo, e em Luto € Não seria a história de Dora, assim como tantas histórias das histéricas melancolia e em Introdução ao narcisismo) e as fortes necessidades afetivas e das quais Freud cuida, uma história de pessoas que, de alguma forma, "per- emocionais da transferência primária; e que, analogamente, lhe escaparam os dem" totalmente "a própria voz" e com isso a possibilidade de falar, devendo perigos e as ciladas narcisistas que uma mente jovem e cm formação impli- submeter-se a uma "outra palavra" mais potente? cam também para o analista. Mas de quem é esta "outra palavra" muito potente que Freud exprime Perigos e ciladas tanto maiores quando nos ocupamos de pacientes seme- com o termo Machtwort, fazendo referência a ela quando fala dela, pri- lhantes às histéricas de Freud, que sofrem de deficiências ligadas a um am- meira instância, com o pai? biente primordial confuso e incerto e não possuem uma individua- "De quem" é a insinceridade? que" grita na doença? como questio- lizada, capaz de se expressar e de SC fazer ouvir de modo genuinamente sepa- nei no anterior? E se Dora se sente "excluída", "de onde vem" tal rado diferenciado mediante o uso da linguagem compartilhada. exclusão? "Qual é" fundamentalmente o limite da legítima queixa de Portanto, desse vértice, Caso do "pequeno Hans" poderia ser, segundo ávido, pretensioso, ciumento, que confirma as nossas concepções teóricas clássicas? Estamos diante sempre do mesmo que une todos os homens, que proponho, uma primeira tentativa de reparar insuficiências revistas ao dar maior dignidade à contribuição e aos recursos do paciente e ao ou talvez diferenciar, por exemplo, entre os tipos de "cena entender trabalho terapêutico principalmente como fruto do encontro de duas ria", para colher principalmente a unicidade de situações singulares e não mentes e não de uma só, ligada exclusivamente à psicanálise. Essa última, a confundir as várias necessidades de afeto e intimidade? Freud está consciente de que algo não funcionou com Dora "não sei que 14 Este mal-entendido é na correspondência entre Freud Ferenczi onde Freud espécie de ajuda a paciente quis me pedir" (Freud, 1905a, p. 118) ao provocar a chama de homossexuais as necessidades de (de reciprocidade e reconhecimento) interrupção da análise, como uma "bofetada" recebida e revidada. Freud ofe- que Ferenczi expressa claramente, confundindo, porém, a exigência de ver reconhecida e garan- rece todas as peças do mas ainda não tem os instrumentos para recon- tida a própria voz e o próprio pensamento com uma lamentação de natureza infantil. Ver em par- ticular "O incidente de Palermo". em que Freud ve como normal fato de Ferenczi bancar amanuense, escrevendo o que lhe é ditado e interpreta como "homossexual" o seu pedido para 12 Este tipo de desilusão foi descrita por Ferenczi no Diário definindo-a como uma "forma que escrevessem juntos, dividindo entre eles dois as idéias. Freud está igualmente incerto, como de crueldade". Ver Maddi Rief (1989) Decker que enfatizam em particular, ressaltaram muitos autores, ao diferenciar identificação com a mãe e homossexua- como Freud, em nome das teorias, sacrificou as verdades de Dora, sustentando as mentiras e as lidade, e tem uma muito rígida sobre as necessidades de e afeto. Será Bowlby hipocrisias dos sustentar com decisão que tais necessidades atingem a todos os homens diariamente, mesmo sem 13 Ver em relação a isso as minhas considerações em Narcisismo, riconoscimento psichicoe convalida intensidade manifestada por determinados pacientes. un contrappunto (1997b) e na minha Prefazione à edição italiana de Rayner (1990). 61 60mente do analista, está convenientemente preparada e apoiada pelo saber Nesse breve diálogo, Ferenczi, unindo-se a Freud, quer evidenciar a para acolher, existir e crescer a mente do paciente em um ligência da resposta do paciente à interpretação do analista, quando esta não lhe clima de ajuda, lealdade e parece de crédito e não está de acordo com as exigências e os conteúdos inconscientes do relacionamento, importantes para a sessão. Aonde os pensamentos vão dar: Sándor Ferenczi Em tais circunstâncias escreve Ferenczi o paciente não só pode manifestar abertamente sua resposta um comentário consciente sobre as Para concluir, quero ampliar aquilo que antecipei anteriormente sobre Fe- palavras e sobre a posição emocional do analista, mas pode de modo renczi como herdeiro dessa nova e particular direção do trabalho freudiano. obscuro por temor à sua reação, como fez um paciente dele que começou a à comunidade psicanalítica, Ferenczi inaugurou um dis- comportar-se como um idiota para contradizer e contestar uma linha de curso mais que sob muitos aspectos foi influenciado por essa interpretação que não sentia como pertinente. elaboração que estava aflorando em Freud, como ressaltarei em seguida na parte do livro dedicada a seu pensamento. Portanto, é levado a se questionar Comportava-se literalmente como um idiota. então que por meio da sobre qual é a natureza do interesse "caloroso e ativo" que deseja o paciente, sua incompreensão ele exprimia literalmente a sua Na e queria me ridicularizar (c às minhas mas esta e está mais inclinado a compreender a verdade psíquica subjetiva, em busca da se comportava como como se quisesse dizer: SC aceito esses absurdos sou qual vai, na história passada e atual, além das "verdades psicanalíticas" san- louco cionadas pelas construções teóricas e pelo "ethos investigador" do papel. Ferenczi parece saber que não é de uma interpretação que o paciente pre- Um outro paciente dele, para manifestar a sua oposição às explicações do cisa, mas de um reconhecimento de existência acima de tudo, que passa pela analista, aceitava-as com complacência, mas depois se afundava em pensa- "validação" do encontro com a mente, com o corpo e coração do outro, e mentos obsessivos transitórios, escandindo simples como se não ainda do confronto com as qualidades afetivas do relacionamento. conseguisse Em um primeiro momento, Ferenczi, indo atrás do Uma questão de "convicção" para cle que deve e pode amadurecer impasse do paciente, que não produzia mais nenhuma associação significa- somente pela experiência emocional que a análise coloca à disposição e nas tiva, se lança em "teorias sobre a formação da linguagem" e sobre a natureza características profundas que ela informa. da idealização obsessiva; mas percebendo que as suas explicações não inte- ressavam ao paciente, pressente uma resistência, que ele mesmo acredita ter Nasce assim, dessa original maneira de pensar o processo psicanalitico, a ajudado a gerar ao entender erroneamente a situação emocional em ação. sua atenção aos microacontecimentos emotivos da sessão, atenção que consi- dera onde terminam as palavras do analista e como elas são vividas e experi- Nesse caso, a sua conclusão é que o analista pode não compreender e mentadas pelo paciente "ao vivo" no aqui e agora para criar melhores "condi- errar e que o paciente intimidado pode ter medo de dizer isso ao analista; às ções" de pensamento e troca Ferenczi, vezes, pode estar até mesmo aterrorizado de pensar nisso Ferenczi acrescenta: amiúde "com razão", pois os adultos não poucas vezes Algumas vinhetas presentes em seu trabalho de 1912 testemunham que podem ser realmente incoerentes e loucos e não escutar as considerações da Ferenczi estava nessa procura, na trilha do "Freud do Hans' e afins" criança, esquecendo a forma imaginativa e bizarra que podem assumir Por isso, concedo-lhe diretamente a palavra: naquela idade Uma vez disse a um menino de cinco anos que não era preciso temer os bas- Para Ferenczi, as interpretações e os comportamentos profundos do ana- tava fixamente nos olhos para que fugissem. "Também carneiro pode, às lista não estimulam e evocam apenas os ideativos, mas também os vezes, comer leão, não é perguntou-me "Então você não acredi- somáticos de natureza "sensorial" ou "motora" que surgem na tou no que lhe disse sobre os rebati. "Na verdade, não! Mas, por favor, não me respondeu diplomaticamente o pequeno (Ferenczi, 1912a, p. 185). Dores de dente, sensações repentinas de calor e frio, vertigem, dores car- díacas, sabores estranhos na língua, cabeça pesada etc. podem ser 15 Ver Capítulo 10. 16 Valeria a pena retomar, juntamente com Ferenczi, pequeno escrito de Freud sobre as "lembran- para ele sinais de sofrimento determinado por propostas interpreta- de 1899, em que ele atribui ao aqui agora um valor determinante para a solici- tivas que não levaram em consideração do modo como foram formuladas tação e compreensão do material e das recordações trazidas pelo paciente. papel fundamental verbal e paraverbalmente do que poderiam ter suscitado no paciente. desenvolvido pelo contexto da situação intuído por Freud nessas Até mesmo as alucinações, em sua são uma possível resposta páginas, será de fato inicialmente teorizado e colocado em prática por Ferenczi em seu cuidado para com os fatores relacionais interativos do diálogo entre paciente e analista. momentânea a algo que está acontecendo, oferecendo de "forma drama- 62 63Psicanalise caso clinico do "pequeno como artigo de tica"e "simbólica" uma evidência do consistente impacto afetivo que bado de começar quando fui interrompida por uma senhora sentada sobre um analista tem sobre o tronco de madeira, que pretendia interpretar meu sonho de mancira mais popu- Ferenczi começa, por isso, raciocinando analiticamente desse modo, a lar (como fazem as velhinhas). Disse ao analista que seria capaz de contar melhor escrever um novo capítulo da história da psicanalise: aquele que ilustra como os sonho, se não tivesse sido interrompida pela velhinha. Então, ele pediu que cla ficasse levantou-se e, agarrando com as duas mãos a rede na qual agora pacientes, em seus "deslocamentos de expressão", que envolvem "regressões parecia estar deitada, ergueu-me e me sacudiu Depois disse: temporárias" a impulsos pré-genitais (repentina necessidade de urinar, de defe- "Quando estava toda vermelha (a face); depois foi posta sobre um e car, masturbação) ou a modalidades de relações arcaicas (submissão homosse- seu pai se sentou ao seu lado." No sonho maravilhada pela explicação e pen- xual, tendência sadomasoquista, incontinência enfática e nar- "São coisas tão (Ferenczi, 1926d, p. 381). ram continuamente junto com a "dinamica de instauração da doença" e do con- flito inconsciente, os acontecimentos do relacionamento Em outras Este é o comentário: palavras, indicam- como o próprio Ferro (1998) irá iluminar de forma exem- plan - que no diálogo recíproco algo do analista estimulou em qualquer ponto Rank interpreta este sonho como um encontro da analitica com pró- o seu Ego", ferindo-o e atingindo-o ou, se o contato foi oportuno e prio e verdadeiro nascimento, no qual analista realiza trabalho do obstetra: ele sacode a paciente até que esta venha ao mundo, com o rosto todo vermelho. Não é dosado em relação às suas capacidades de tolerância, sustentando-o e revigo- muito mais verossimil interpretar esse fragmento de sonho em relação à situação rando-o. Uma paciente de Ferenczi exclamou a uma interpretação que teve dizendo que as "carentes interpretações da situação materna da agora não está mais tudo "sem brilho, insosso e plano (...) de repente dadas anteriormente à paciente bastaram para despertar nela todo escárnio e agora vejo tudo real e diferente (...) cores claras e naturais" (1912a, p. 186). desprezo perante aquelas mesmas interpretações? Ela define O analista como uma velha que interpreta à maneira das velhinhas, não a deixa falar, a interrompe conti- As reações do paciente, além disso, na ótica de Ferenczi um nuamente e a sacode até que aceite a interpretação materna (ter nascido pelas conhecimento dos sentimentos inconscientes do analista (Ferenczi, 1919b). mãos do analista). Portanto, Rank se deixou enganar pela paciente, a partir do Esta concepção da como comunicação bipessoal faz parte do momento que levou a sério a sua concordância ironicamente exagerada, utilizan- estilo de leitura de Ferenczi dos acontecimentos da sessão. do-o como base para a sua teoria do nascimento (ibid.). Os sonhos também eram considerados por ele quadros e esboços que E, recordando Freud, que afirmava que se a casa está pegando fogo, é inú- elucidam o tipo de ligação em curso e, repensando atualmente as suas inter- til tentar procurar a lâmpada que o provocou, sublinha em seguida que as pretações que cle dava a eles, é impossível não como precursor de auto- associações do paciente são o ponto de partida da para "percorrer com res mais recentes como último Rosenfeld ou, junto a nós, Luciana Nissim e já citado Ferro, além de ser o continuador do "Freud do 'pequeno paciência o caminho que o seu destino pessoal determina a ele e a na conti- nuidade, às vezes turbulenta e penosa, do encontro p. 384; itálico que neste meu trabalho tentei descrever. acrescido). Em homenagem à sua extraordinária coragem de sonhador (dos sonhos do paciente, mas também de uma psicanálise melhor), concedo no fecha- Gostaria de ressaltar a expressão "a ele e a dita por Ferenczi, porque mento novamente a palavra a ele que, 1926 - criticando o analista sufo- é exatamente nesse ponto do "seu caminho" que ele se prepara para elaborar cado pelo "excesso do saber", que não se importa mais de compreender onde uma outra faceta desse novo e importante capítulo da história da técnica psi- o paciente "pegou o resfriado" e por que "a infecção se instalou" reforça canalítica, que não posso abordar nestas páginas. Entendo que o da que assim fazendo analista torna a análise estéril e morta, perdendo o acesso continência, da transformação e de seus fatores afetivos- como atesta Ferenczi à significação dos acontecimentos. na própria pele no Diário clínico (1932b) requer muito mais do analista e Nesse exemplo, Ferenczi refere-se a Rank, mas o procedimento que mos- exige, com uma necessária e longa personificação para que se tra atinge a todos nós em muitas situações de nosso trabalho. possa individualizar no processo analítico personagens e sentimentos que estão em jogo na comunicação, e para que se possa recuperar em tudo o sonho é o seguinte: que ali foi vivido contido a preço de ter ficado queimado- as vias e as condi- Eu estava em deitado no Conhecia o analista, mas não sei dizer quem ções para ultrapassar proficuamente o de paixões às quais Freud era. Tinha que lhe contar o sonho de uma viagem que fiz com amigos. Tinha aca- alude ou o resfriado, que de modo superior e astuto Rank parece desvalorizar de uma de suas teses preestabelecidas (Ferenczi, 1926d, p. 380). 18 17 Segundo Ferenczi ver a carta para Freud de 14 de outubro de 1909 - os próprios pensamen- Outros passos, outra história... da nossa história. tos conscientes e inconscientes podem despertar "impressões visíveis na psique de uma outra pessoa". 18 Ver Capítulo 12. 64 65

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