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1 
 
DESTAQUES DE TEORIA DA NORMA 
 
NORMA PENAL EM BRANCO 
 
1) Normas penais em branco ou primariamente remetidas 
Preceito primário incompleto e secundário completo. Por isso, precisa ser 
complementada ou integrada por ato normativo, em regra de cunho extrapenal, senão 
carece de efetividade. 
 
1.1) Normas penais em branco homólogas/ homogêneas/ homovitelíneas/ em 
sentido lato/ impróprias: o complemento é oriundo da mesma fonte (lei). 
Ex: art. 236 e 237 do CP, cujas normas são complementadas pelos arts. 1.521 e 
1.557 do CC; art. 24-A da Lei Maria da Penha; art. 25 da Lei Henry Borel. 
Serão homovitelinas quando a norma complementar se encontrar no mesmo 
documento legal; e heterovitelinas quando oriunda de outro documento legal da mesma 
instância legislativa. 
Ex.: o crime de descumprimento de decisão judicial que defere medida 
protetiva de urgência prevista na Lei 14.344/22, tipificado no art. 25 da referida 
legislação, tem o preceito primário incompleto, necessitando ser complementado ou 
integrado por ato normativo, que é oriundo da mesma fonte normativa (lei). Portanto, 
trata-se de norma penal em branco homogênea. Atenção: o tipo penal do art. 25 da Lei 
14.344/22 não se configura se descumprida decisão judicial que defere medida protetiva 
em favor de criança ou adolescente com base em outro diploma legislativo, como no caso 
de descumprimento de medida cautelar diversa da prisão prevista nos arts. 319 e 320 do 
CPP. Para fins de tipificação, é imprescindível que a medida protetiva tenha sido deferida 
pelo juiz, independentemente da competência cível ou criminal, com base na Lei 
14.344/22. Daí se tratar de norma penal em branco homogênea homovitelina. 
 
1.2) Normas penais em branco heterólogas/ heterogêneas/ em sentido estrito/ 
próprias: o complemento provém de normas de hierarquia inferior (ex.: decreto, 
portaria). 
 
2 
 
Ex.: art. 33 da Lei de Drogas, cujo “complemento” provém de Portarias editadas 
pela ANVISA - Agência Nacional de Vigilância Sanitária. 
* Questão da constitucionalidade frente ao princípio da legalidade penal, 
especialmente quando o complemento provém de norma federativa diversa da União 
diante da previsão do art. 22, I, da CF. 
- 1ª corrente: Nilo Batista, Zaffaroni Greco e Paulo Queiroz asseveram que ela é 
inconstitucional porque o complemento da norma penal em branco heteróloga não advém 
do Legislativo, não respeitando o princípio da reserva legal. O emprego das normas penais 
em branco demonstra a tendência moderna de administrativização do Direito Penal. 
- 2ª corrente (majoritária): a lei penal em branco stricto sensu ou heteróloga não 
viola o princípio da legalidade, desde que comporte os pressupostos mínimos de 
punibilidade, o núcleo essencial da conduta. Como as estruturas gerais e diretrizes da 
norma penal incriminadora já estão previstas no tipo legal, sendo apenas complementada 
no seu sentido por meio de um ato normativo infralegal, inexistiria afronta ao princípio 
da legalidade. 
 * Pleno do STF, Inf. 1088/23, ARE 1.418.846/RS (Tema 1.246 RG), tese de 
repercussão geral: O art. 268 do Código Penal (crime de infração de medida sanitária 
preventiva) veicula norma penal em branco que pode ser complementada por atos 
normativos infralegais editados pelos entes federados (União, Estados, Distrito 
Federal e Municípios), respeitadas as respectivas esferas de atuação, sem que isso 
implique ofensa à competência privativa da União para legislar sobre direito penal 
(CF, art. 22, I). 
RESUMO: 
A complementação de norma penal em branco por ato normativo 
estadual, distrital ou municipal, para aplicação do tipo de infração 
de medida sanitária preventiva (Código Penal, art. 268), não viola 
a competência privativa da União para legislar sobre direito penal 
(CF/1988, art. 22, I). 
O art. 268 do Código Penal veicula, em sua redação, o preceito 
primário incriminador, isto é, o núcleo essencial da conduta 
punível, de modo que a União exerceu, de forma legítima e com 
objetivo de salvaguardar a incolumidade da saúde pública, sua 
competência privativa de legislar sobre direito penal. 
No entanto, o referido tipo penal configura norma penal em 
branco heterogênea, razão pela qual necessita de 
 
3 
 
complementação por atos normativos infralegais, tais como 
decretos, portarias e resoluções. Na espécie, essa 
complementação se faz mediante ato do poder público, 
compreendida a competência de quaisquer dos entes 
federados. Ademais, ela não se reveste de natureza criminal, mas, 
via de regra, administrativa e técnico-científica, o que justifica a 
possibilidade de edição do ato normativo suplementador pelo ente 
federado com competência administrativa para tanto. Nesse 
contexto, de acordo com o entendimento desta Corte, a 
competência para proteção da saúde, no plano administrativo 
e no legislativo, é compartilhada entre a União, o Distrito 
Federal, os estados e os municípios, inclusive para impor 
medidas restritivas destinadas a impedir a introdução ou 
propagação de doença contagiosa. Assim, o descumprimento 
das medidas e dos atos normativos de controle epidemiológico 
previstos na Lei 13.979/2020, editados pelos entes federados em 
prol da incolumidade pública, enseja consequências no campo do 
direito penal. 
Com base nesse entendimento, o Plenário, por unanimidade, 
reconheceu a existência da repercussão geral da questão 
constitucional suscitada (Tema 1.246 da repercussão pgeral) e, no 
mérito, por maioria, reafirmou a jurisprudência dominante sobre 
a matéria para dar provimento ao recurso extraordinário e, 
consequentemente, determinar o prosseguimento da ação penal 
ao afastar a alegação de atipicidade da conduta por ausência de 
norma complementadora do art. 268 do Código Penal. 
 
2) Normas penais incompletas ou imperfeitas ou secundariamente remetidas/ 
Normas penais em branco inversa ou ao avesso 
Preceitos primário e secundário em dispositivos separados, em outro dispositivo 
da lei ou em diploma legal diferente. 
Ex. Lei 2.889, que reprime o delito de Genocídio. 
 
* Art. 304 do CP (uso de documento falso): lei penal em branco e lei penal 
imperfeita, pois remete tanto o conteúdo completo do preceito primário, quanto a pena 
cominada no preceito secundário para outra norma penal. 
 
PRINCÍPIO DA PROPORCIONALIDADE 
 
 
4 
 
Princípio constitucional implícito, extraído do princípio da individualização da 
pena e do princípio do devido processo legal. 
 
1) O princípio da proporcionalidade, sob o enfoque da proibição de excesso, se 
manifesta nas fases legislativa, judiciária e executória. 
- Fase legislativa/ proporcionalidade abstrata: 
Ex.: como a jurisprudência vinha tratando a prática de atos libidinosos em geral 
dentro da mesma figura típica do estupro, ainda que ausente violência ou grave ameaça, 
rechaçando a tese da desclassificação para o art. 61 da LCP, o STJ (AgRg no REsp 
1730341, DJ 13/11/18) entendeu que a Lei 13.718/18, ao inserir o art. 215-A para prever 
o crime de importunação sexual, trouxe tratamento mais benéfico em prol do princípio da 
proporcionalidade (obs.: tal entendimento é rechaçado pela jurisprudência no caso da 
prática de ato libidinoso em face de vulnerável, de forma a caracterizar crime de estupro 
de vulnerável, desde que presente dolo específico). 
ATENÇÃO: princípio da proporcionalidade como parâmetro para o controle de 
constitucionalidade da atividade legislativa em matéria penal: 
Pleno do STF, Inf. 1011/21, Tema 1003, tese de repercussão geral: É 
inconstitucional a aplicação do preceito secundário do art. 273 do Código Penal, com 
redação dada pela Lei nº 9.677/98 (reclusão, de 10 a 15 anos, e multa), à hipótese 
prevista no seu § 1º-B, I, que versa sobre a importação de medicamento sem registro 
no órgão de vigilância sanitária. Para esta situação específica, fica repristinado o 
preceito secundário do art. 273, na redação originária (reclusão,GO, onde também a Ofendida 
entregou voluntariamente ao Investigado o numerário. 
3. Em casos de furto mediante fraude por meios eletrônicos, 
esta Corte pacificou o entendimento de que a consumação se 
dá onde ocorreu o efetivo prejuízo à vítima, que ocorre no 
local onde a vítima possui conta bancária e o dinheiro sai da 
sua esfera de disponibilidade. Na espécie, contudo, o 
numerário foi efetivamente sacado com a senha e cartão da 
Vítima. Assim, por não se tratar de fraude eletrônica, os 
furtos se consumaram no local em que ocorreram os saques. 
Precedentes. 
4. Os três crimes de furto qualificado mediante fraude possuem 
penas abstratamente cominadas que vão de 2 (dois) a 8 (oito) anos 
de reclusão, além de serem cometidos em continuidade delitiva. 
Logo, nos termos da jurisprudência consolidada neste Superior 
Tribunal de Justiça, será possível exasperar a pena máxima pela 
continuidade delitiva em 1/5 (um quinto), alcançando a pena 
máxima pelos delitos o patamar de 9 (nove) anos, 7 (sete) meses 
e 6 (seis) dias de reclusão. 
 
32 
 
5. O crime de estelionato, no caso, é mais grave do que os delitos 
de furto, pois tem pena abstrata que vai de 1 (um) a 5 (cinco) anos 
de reclusão e poderá ser aumentado no dobro pela vulnerabilidade 
etária da Vítima, nos termos do § 5.º do art. 171 do Estatuto 
Repressivo, podendo a reprimenda máxima atingir 10 (dez) anos 
de reclusão. Por isso, atrai a prevenção para os delitos conexos de 
furto, por força do art. 78, inciso II, alínea a, do Código de 
Processo Penal. 
6. Ante o exposto, conheço do conflito para declarar competente 
o JUÍZO DA 3.ª VARA CRIMINAL DE ÁGUAS LINDAS DE 
GOIÁS - GO, ora Suscitante. 
(3ª Seção do STJ, CC 183754 / SP, DJe 19/12/2022) 
 
Ex.: caso em que a vítima transferiu, de forma lícita, valores legitimamente 
recebidos a título de auxílio emergencial para conta do Mercado Pago. O agente, 
então, efetuou uma transferência fraudulenta de valores da conta Mercado Pago de 
titularidade da vítima para a sua, configurando furto mediante fraude, de competência da 
Justiça Comum, já que não foi fraudado o sistema de segurança da CEF, mas sim o 
sistema de segurança do Mercado Pago, instituição privada para a qual o numerário foi 
transferido por livre vontade da vítima. De acordo com a 3ª Seção do STJ, CC 182940 / 
SP, DJe 03/11/2021, Inf. 716/21: 
Não compete à Justiça Federal processar e julgar o desvio de 
valores do auxílio emergencial pagos durante a pandemia da 
covid-19, por meio de violação do sistema de segurança de 
instituição privada, sem que haja fraude direcionada à 
instituição financeira federal. 
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR 
O núcleo da controvérsia consiste em definir o Juízo competente 
no âmbito de inquérito policial instaurado para investigar conduta 
de desvio de valores relativos ao auxílio emergencial pago 
durante a pandemia do Covid-19. 
No caso concreto não se identificou ofensa direta à Caixa 
Econômica Federal - CEF ou à União, uma vez que não houve 
qualquer notícia de que a beneficiária tenha empregado fraude. 
Em outras palavras, houve ingresso lícito no programa referente 
ao auxílio emergencial e transferência lícita da conta da Caixa 
Econômica Federal para a conta do Mercado Pago, ambas de 
titularidade da beneficiária do auxílio. 
Por outro lado, o procedimento investigatório revela 
transferência fraudulenta de valores entre contas do Mercado 
Pago de titularidade da vítima e do agente delituoso, ou seja, 
a vítima não foi induzida a erro e tampouco entregou 
 
33 
 
espontaneamente o numerário, de tal forma que o atual estágio 
das investigações indica suposta prática de furto mediante 
fraude. 
Dessa forma, o agente delituoso ao transferir para si os valores 
pertencentes à vítima não fraudou eletronicamente o sistema 
de segurança da Caixa Econômica Federal, mas apenas o 
sistema de segurança de instituição privada para a qual o 
numerário foi transferido por livre vontade da vítima. Neste 
contexto, sem fraude ao sistema de segurança da instituição 
financeira federal não há de se falar em competência da Justiça 
Federal. 
Com efeito, no caso de violação ao sistema de segurança de 
instituição privada, qual seja, o Mercado Pago, sem qualquer 
fraude ou violação de segurança direcionada à Caixa Econômica 
Federal, o prejuízo fica adstrito à instituição privada e 
particulares, não se identificando situação prevista no art. 109, 
inciso I, da Constituição Federal. 
 
 5) Crimes de racismo e Lei 14.532/23 
A Lei 14.532/23, que entrou em vigor em 11/01/23, retirou os elementos 
referentes a raça, cor, etnia e origem do crime de injúria preconceituosa do art. 140, § 3º, 
do CP, e previu tipo penal específico de injúria racial (injúria em razão de raça, cor, 
etnia ou procedência nacional) no art. 2º-A da Lei 7.716/89, prevendo, ainda, no p. 
único, que a pena é aumentada de metade se o crime for cometido mediante concurso de 
2 ou mais pessoas. Assim, foi reforçado o entendimento que já havia sido consagrado na 
jurisprudência do STF e do STJ de que o crime de injúria racial é espécie de crime de 
racismo. 
Por sua vez, permanece atualmente no crime de injúria preconceituosa do art. 140, 
§ 3º, do CP, apenas a utilização de elementos referentes à religião ou à condição de pessoa 
idosa ou com deficiência. Trata-se de crime de ação penal pública condicionada à 
representação (art. 145, p. único, do CP). Obs.: salta aos olhos a manutenção da injúria 
religiosa no Código Penal, quando a Lei 7.716/89 abrange, conforme art. 1º, os crimes 
resultantes de discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência. 
Trata-se de tratamento desproporcional. 
Além do crime de injúria racial (atual art. 2º-A da Lei 7.716/89), há, ainda, os 
crimes de racismo dos demais tipos penais da Lei 7.716/89. Diferenças: na injúria racial, 
que é espécie do crime de racismo, há um xingamento com intenção de ofender (animus 
 
34 
 
injuriandi), especificamente, a honra subjetiva de certa pessoa (vítima determinada), em 
razão de raça, cor, etnia e origem, de modo que se consuma quando a ofensa chega ao 
conhecimento da vítima. Já nos demais crimes de racismo da Lei 7.716/89, há uma 
pregação genérica contra determinada raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional 
(vítima indeterminada – art. 20) ou mesmo a prática de condutas de segregação (demais 
tipos penais da Lei 7716/89 - ex.: impedir matrícula por conta da cor da pele). Assim, os 
crimes se consumam pelo impedimento ao exercício de algum direito (arts. 3º a 14) ou 
pela discriminação genérica em razão da raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional 
(art. 20 – vítima indeterminada). 
Quanto à injúria racial, houve uma alteração relevante na descrição do tipo penal. 
Enquanto o art. 140, § 3º, do CP, falava em “utilizando-se de elementos referentes a raça, 
cor, etnia ou procedência nacional”, o atual art. 2º-A da Lei 7.716/89 fala em “injuriar 
alguém, ofendendo-lhe a dignidade ou o decoro, em razão de raça, cor, etnia ou 
procedência nacional”. Assim, de acordo com Bruno Gilaberte, em artigo publicado no 
CONJUR, “Lei 14.532/23: avanço no combate ao racismo e a perda de uma 
oportunidade”: “na antiga norma (cuja lógica se mantém para as espécies de preconceito 
ali previstas), a ofensa deveria conter elementos referentes à raça, cor, etnia ou 
procedência nacional da vítima, o que ora é dispensado, bastando que a ofensa tenha por 
motivação a condição da vítima. Assim, xingar um negro de "bandido", na redação 
anterior, era injúria em sua forma simples (salvo se agregado o elemento de cor à ofensa, 
como chamá-lo de "preto bandido"). Doravante, xingar um negro de bandido, pois o 
sujeito ativo assim o enxerga em razão de sua cor, é injúria racial”. 
 
Redação anterior à Lei 14.532/23 Redação após a Lei 14.532/23 
Art. 140, § 3º, do CP: Se a injúria 
consiste na utilização de elementos 
referentesa raça, cor, etnia, 
religião, origem ou a condição de 
pessoa idosa ou portadora de 
deficiência: 
Pena - reclusão de um a três anos e 
multa. 
Art. 140, § 3º, do CP: Se a injúria consiste na 
utilização de elementos referentes a religião ou 
à condição de pessoa idosa ou com 
deficiência: 
Pena - reclusão de um a três anos e multa. 
 Art. 2º-A da Lei 7.716/89: Injuriar alguém, 
ofendendo-lhe a dignidade ou o decoro, em 
 
35 
 
razão de raça, cor, etnia ou procedência 
nacional. 
Pena: reclusão, de 2 a 5 anos, e multa. 
Parágrafo único. A pena é aumentada de metade 
se o crime for cometido mediante concurso de 2 
ou mais pessoas. 
 
* A alteração legislativa promovida no crime de injúria racial pela Lei 14.532/23 
consubstancia NOVATIO LEGIS IN PEJUS e, portanto, irretroativa (art. 5º, XL, da CF), 
porque: 
- a pena do crime de injúria racial, inserido no art. 2º-A da Lei 7.716/89, deixou 
de ser de 1 a 3 anos de reclusão para ser de 2 a 5 anos de reclusão; 
- com isso, não mais é cabível a suspensão condicional do processo. Obs.: apesar 
de, em tese, cabível o ANPP em razão da pena mínima cominada, a 2ª Turma do STF, no 
RHC 222.599/SC, j. 06/02/2023, decidiu que não cabe ANPP em caso de crimes raciais, 
inclusive a injúria racial, porque deve ser considerada a teleologia da excepcionalidade 
imposta no art. 28, § 2º, IV, do CPP (vedação nos crimes praticados no âmbito de 
violência doméstica ou familiar, ou praticados contra a mulher por razões da condição de 
sexo feminino, em favor do agressor) e a natureza do bem jurídico a que se busca tutelar. 
Conforme assentado pelo STF, a delimitação do alcance material para a aplicação do 
acordo “despenalizador” e a inibição da persecutio criminis exige conformidade com o 
texto Constitucional e com os compromissos assumidos pelo Estado brasileiro 
internacionalmente, como limite necessário para a preservação do direito fundamental à 
não discriminação e à não submissão à tortura – seja ela psicológica ou física -, ao 
tratamento desumano ou degradante, operada pelo conjunto de sentidos estereotipados 
que circula e que atribui tanto às mulheres quanto às pessoas negras posição inferior, 
numa perversa hierarquia de humanidades. 
- a ação penal deixou de ser pública condicionada à representação para ser pública 
incondicionada, assim como nos demais crimes de preconceito ou discriminação da Lei 
7716/89; 
- foi inserida majorante, aumentando-se a pena de metade, se o crime for cometido 
mediante concurso de duas ou mais pessoas. 
 
36 
 
* Note-se que as causas de aumento de pena do art. 141 do CP, previstas para 
os crimes contra a honra do CP (calúnia, difamação e injúria), não mais se aplicam ao 
atual art. 2º-A da Lei 7.716/89. Por outro lado, a Lei 14.532/23 inseriu causas de aumento 
de pena específicas para o crime do art. 2º-A da Lei 7.716/89. A par das futuras discussões 
casuísticas sobre hipótese de combinação de leis, vejamos as hipóteses de maior destaque: 
- não houve previsão na Lei 7.716/89 de majorante equivalente àquela do art. 141, 
III, do CP, que se refere ao aumento da pena em 1/3 se o crime é cometido na presença 
de várias pessoas ou por meio que facilite a divulgação. Ainda assim, diante do preceito 
secundário do art. 2º-A da Lei 7.716/89, a Lei 14.532/23 importou em novatio legis in 
pejus. 
- em relação ao crime de injúria racial, não houve previsão na Lei 7.716/89 de 
majorante equivalente àquela do art. 141, § 2º, do CP (inserido pela derrubada do veto 
presidencial à Lei 13.964/19), que se refere ao aumento da pena no triplo se o crime é 
cometido ou divulgado em quaisquer modalidades das redes sociais da rede mundial de 
computadores (ou seja, de 3 a 9 anos de reclusão para o crime de injúria preconceituosa 
do art. 140, § 3º, do CP). Assim, diante do preceito secundário do art. 2º-A da Lei 
7.716/89, a Lei 14.532/23 importou em NOVATIO LEGIS IN MELLIUS no caso de 
injúria racial praticada ou divulgada em quaisquer modalidades das redes sociais 
da rede mundial de computadores. Obs.: a Lei 7.716/89 prevê qualificadora equivalente 
especificamente em relação ao crime do art. 20, não podendo, todavia, ser aplicada ao 
crime do art. 2º-A porque o princípio da legalidade veda o emprego de analogia in malam 
partem. 
- não houve previsão na Lei 7.716/89 de majorante equivalente àquela do art. 141, 
§ 1º, do CP, que se refere ao aumento da pena no dobro se o crime é cometido mediante 
paga ou promessa de recompensa (ou seja, de 2 a 6 anos de reclusão para o crime de 
injúria preconceituosa do art. 140, § 3º, do CP). Assim, diante do preceito secundário do 
art. 2º-A da Lei 7.716/89, a Lei 14.532/23 importou em NOVATIO LEGIS IN MELLIUS 
no caso de injúria racial praticada mediante paga ou promessa de recompensa. 
- não houve previsão na Lei 7.716/89 de majorante equivalente àquela do art. 141, 
§ 1º, do CP, que se refere ao aumento da pena se o crime é praticado contra funcionário 
público, em razão de suas funções (ou seja, de 2 a 6 anos de reclusão para o crime de 
 
37 
 
injúria preconceituosa do art. 140, § 3º, do CP). Assim, diante do preceito secundário do 
art. 2º-A da Lei 7.716/89, a Lei 14.532/23 importou em NOVATIO LEGIS IN MELLIUS 
no caso de injúria racial praticada contra funcionário público, em razão de suas 
funções. 
- por sua vez, no caso de injúria racial praticada por funcionário público, no 
exercício de suas funções ou a pretexto de exercê-las, a Lei 14.532/23 inseriu causa de 
aumento de pena no art. 20-B da Lei 7.716/89. Assim, trata-se de novatio legis in pejus. 
Atenção: a majorante é aplicável não apenas ao crime de injúria racial, mas também ao 
crime do art. 20 da Lei 7.716/89. 
Obs.: os arts. 16 e 17 preveem como efeito (não automático) da condenação a 
perda do cargo ou função pública, para o servidor público, e a suspensão do 
funcionamento do estabelecimento particular por prazo não superior a três meses. 
- a Lei 14.532/23 inovou ao inserir causa de aumento de pena referente ao racismo 
recreativo, descartando as alegações de atipicidade por animus jocandi. Art. 20-A: Os 
crimes previstos nesta Lei terão as penas aumentadas de 1/3 até a metade, quando 
ocorrerem em contexto ou com intuito de descontração, diversão ou recreação. Assim, 
trata-se de novatio legis in pejus. Atenção: a nova majorante é aplicável não apenas ao 
crime de injúria racial, mas a todos os tipos penais de racismo da Lei 7.716/89. 
No caso de concurso de causas de aumento de pena na parte especial, lembrar do 
art. 68, p. único, do CP, que prevê que pode o juiz limitar-se a um só aumento, 
prevalecendo, todavia, a causa que mais aumente. 
* Antes mesmo da Lei 14.532/23, STF e STJ já reconheciam que o crime de 
injúria racial, mesmo quando ainda inserido no art. 140, § 3º, do CP, deveria ser 
considerado como um dos tipos penais de racismo. Assim, a Lei 14.532/23 REFORÇOU 
o entendimento de que o art. 5º, XLII, da CF, se aplica a todos os crimes de racismo, 
inclusive o de injúria racial (que hoje está previsto no art. 2º-A da Lei 7.716/89): “a 
prática do racismo constitui crime inafiançável e imprescritível, sujeito à pena de 
reclusão, nos termos da lei”. Portanto, não houve, no ponto, novatio legis in pejus, mas 
consagração legislativa de entendimento jurisprudencial firmado antes mesmo da Lei 
14.532/23. Confira-se: 
 
38 
 
STF (Pleno, Inf. 1036/21) e STJ (6ª Turma, AgRg no AREsp 734.236, DJ 
08/03/2018): o crime de injúria racial (art. 140, § 3º, CP), espécie do gênero racismo, 
é imprescritível. A prática de injúria racial traz em seu bojo o emprego de elementos 
associados aos que se definem como raça, cor, etnia, religião ou origem para se 
ofender ou insultar alguém. Consistindo o racismo em processo sistemático de 
discriminação que elege a raça como critério distintivo para estabelecer desvantagens 
valorativas e materiais, a injúria racial consuma os objetivos concretos dacirculação de 
estereótipos e estigmas raciais. Nesse sentido, é insubsistente a alegação de que há 
distinção ontológica entre as condutas previstas na Lei 7.716/1989 e aquela constante do 
art. 140, § 3º, do CP. Em ambos os casos, há o emprego de elementos 
discriminatórios baseados naquilo que sociopoliticamente constitui raça, para a 
violação, o ataque, a supressão de direitos fundamentais do ofendido. Sendo assim, 
excluir o crime de injúria racial do âmbito do mandado constitucional de criminalização 
por meras considerações formalistas desprovidas de substância, por uma leitura 
geográfica apartada da busca da compreensão do sentido e do alcance do mandado 
constitucional de criminalização, é restringir-lhe indevidamente a aplicabilidade, 
negando-lhe vigência. 
Obs.: atentar que, na primeira fase da prova da DPE RJ, de acordo com gabarito 
preliminar, a banca examinadora considerou que, antes da Lei 14.532/23, o crime de 
injúria racial, apesar de imprescritível, seria afiançável. 
* Note-se que a Lei 7.716/89 foi denominada pela Lei 14.532/23 como Lei do 
Crime Racial, terminologia esta mais adequada para abarcar os diversos crimes de 
racismo previstos na legislação especial, que, de acordo com o art. 1º da Lei 7.716/89, 
são aqueles resultantes de discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou 
procedência nacional, inclusive o crime de injúria racial (inserido em tipo penal específico 
no art. 2º-A). 
STF, ADO 26, j. 06/10/2020: I - Até que sobrevenha lei emanada do Congresso 
Nacional destinada a implementar os mandados de criminalização definidos nos incisos 
XLI e XLII do art. 5º da Constituição da República, as condutas homofóbicas e 
transfóbicas, reais ou supostas, que envolvem aversão odiosa à orientação sexual ou à 
identidade de gênero de alguém, por traduzirem expressões de racismo, compreendido 
 
39 
 
este em sua dimensão social, ajustam-se, por identidade de razão e mediante adequação 
típica, aos preceitos primários de incriminação definidos na Lei nº 7.716/89, constituindo, 
também, na hipótese de homicídio doloso, circunstância que o qualifica, por configurar 
motivo torpe (Código Penal, art. 121, § 2º, I, “in fine”).”. II - A repressão penal à prática 
da homotransfobia não alcança nem restringe ou limita o exercício da liberdade religiosa, 
qualquer que seja a denominação confessional professada, a cujos fiéis e ministros 
(sacerdotes, pastores, rabinos, mulás ou clérigos muçulmanos e líderes ou celebrantes das 
religiões afro-brasileiras, entre outros) é assegurado o direito de pregar e de divulgar, 
livremente, pela palavra, pela imagem ou por qualquer outro meio, o seu pensamento e 
de externar suas convicções de acordo com o que se contiver em seus livros e códigos 
sagrados, bem assim o de ensinar segundo sua orientação doutrinária e/ou teológica, 
podendo buscar e conquistar prosélitos e praticar os atos de culto e respectiva liturgia, 
independentemente do espaço, público ou privado, de sua atuação individual ou coletiva, 
desde que tais manifestações não configurem discurso de ódio, assim entendidas aquelas 
exteriorizações que incitem a discriminação, a hostilidade ou a violência contra pessoas 
em razão de sua orientação sexual ou de sua identidade de gênero; III - O conceito de 
racismo, compreendido em sua dimensão social, projeta-se para além de aspectos 
estritamente biológicos ou fenotípicos, pois resulta, enquanto manifestação de poder, de 
uma construção de índole histórico-cultural motivada pelo objetivo de justificar a 
desigualdade e destinada ao controle ideológico, à dominação política, à subjugação 
social e à negação da alteridade, da dignidade e da humanidade daqueles que, por 
integrarem grupo vulnerável (LGBTI+) e por não pertencerem ao estamento que detém 
posição de hegemonia em uma dada estrutura social, são considerados estranhos e 
diferentes, degradados à condição de marginais do ordenamento jurídico, expostos, em 
consequência de odiosa inferiorização e de perversa estigmatização, a uma injusta e lesiva 
situação de exclusão do sistema geral de proteção do direito. 
 Por outro giro, vejamos as alterações promovidas pela Lei 14.532/23 em relação 
ao tipo penal do art. 20 da Lei 7.716/89: 
 
Redação anterior à Lei 14.532/23 Redação após a Lei 14.532/23 
 
40 
 
Art. 20. Praticar, induzir ou incitar a 
discriminação ou preconceito de raça, cor, 
etnia, religião ou procedência nacional. 
Pena: reclusão de um a três anos e multa. 
 
§ 1º Fabricar, comercializar, distribuir ou 
veicular símbolos, emblemas, ornamentos, 
distintivos ou propaganda que utilizem a cruz 
suástica ou gamada, para fins de divulgação 
do nazismo. 
Pena: reclusão de dois a cinco anos e multa. 
 
§ 2º Se qualquer dos crimes previstos no 
caput é cometido por intermédio dos meios 
de comunicação social ou publicação de 
qualquer natureza: 
Pena: reclusão de dois a cinco anos e multa. 
 
§ 3º No caso do parágrafo anterior, o juiz 
poderá determinar, ouvido o Ministério 
Público ou a pedido deste, ainda antes do 
inquérito policial, sob pena de desobediência: 
I - o recolhimento imediato ou a busca e 
apreensão dos exemplares do material 
respectivo; 
II - a cessação das respectivas transmissões 
radiofônicas, televisivas, eletrônicas ou da 
publicação por qualquer meio; 
III - a interdição das respectivas mensagens 
ou páginas de informação na rede mundial de 
computadores. 
 
§ 4º Na hipótese do § 2º, constitui efeito da 
condenação, após o trânsito em julgado da 
decisão, a destruição do material apreendido. 
 
Art. 20. Praticar, induzir ou incitar a discriminação ou 
preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência 
nacional. 
Pena: reclusão de um a três anos e multa. 
 
§ 1º Fabricar, comercializar, distribuir ou veicular 
símbolos, emblemas, ornamentos, distintivos ou 
propaganda que utilizem a cruz suástica ou gamada, para 
fins de divulgação do nazismo. 
Pena: reclusão de dois a cinco anos e multa. 
 
§ 2º Se qualquer dos crimes previstos neste artigo for 
cometido por intermédio dos meios de comunicação 
social, de publicação em redes sociais, da rede 
mundial de computadores ou de publicação de 
qualquer natureza: (Redação dada pela Lei nº 
14.532/23) 
Pena: reclusão de dois a cinco anos e multa. 
 
§ 2º-A Se qualquer dos crimes previstos neste artigo 
for cometido no contexto de atividades esportivas, 
religiosas, artísticas ou culturais destinadas ao 
público: (Incluído pela Lei nº 14.532/23) 
Pena: reclusão, de 2 a 5 anos, e proibição de frequência, 
por 3 anos, a locais destinados a práticas esportivas, 
artísticas ou culturais destinadas ao público, conforme o 
caso. (Incluído pela Lei nº 14.532/23) 
 
§ 2º-B Sem prejuízo da pena correspondente à violência, 
incorre nas mesmas penas previstas no caput deste artigo 
quem obstar, impedir ou empregar violência contra 
quaisquer manifestações ou práticas religiosas. 
(Incluído pela Lei nº 14.532/23) 
 
§ 3º No caso do § 2º deste artigo, o juiz poderá 
determinar, ouvido o Ministério Público ou a pedido 
deste, ainda antes do inquérito policial, sob pena de 
desobediência: (Redação dada pela Lei nº 14.532/23) 
I - o recolhimento imediato ou a busca e apreensão dos 
exemplares do material respectivo; 
II - a cessação das respectivas transmissões radiofônicas, 
televisivas, eletrônicas ou da publicação por qualquer 
meio; 
III - a interdição das respectivas mensagens ou páginas 
de informação na rede mundial de computadores. 
 
 
41 
 
§ 4º Na hipótese do § 2º, constitui efeito da condenação, 
após o trânsito em julgado da decisão, a destruição do 
material apreendido 
 
Art. 20-A. Os crimes previstos nesta Lei terão as penas 
aumentadas de 1/3 até a metade, quando ocorrerem em 
contexto ou com intuito de descontração, diversão ou 
recreação. (Incluído pela Lei nº 14.532/23) 
 
Art. 20-B. Os crimes previstos nosarts. 2º-A e 20 desta 
Lei terão as penas aumentadas de 1/3 até a metade, 
quando praticados por funcionário público, conforme 
definição prevista no CP, no exercício de suas funções 
ou a pretexto de exercê-las. (Incluído pela Lei nº 
14.532/23) 
 
Por fim, vejamos as disposições comuns aos tipos penais de racismo, previstos na 
Lei 7.716/89 e inseridos pela Lei 14.532/23: 
- Art. 20-C. Na interpretação desta Lei, o juiz deve considerar como 
discriminatória qualquer atitude ou tratamento dado à pessoa ou a grupos minoritários 
que cause constrangimento, humilhação, vergonha, medo ou exposição indevida, e que 
usualmente não se dispensaria a outros grupos em razão da cor, etnia, religião ou 
procedência. 
Vedação ao racismo reverso. 
- Art. 20-D. Em todos os atos processuais, cíveis e criminais, a vítima dos crimes 
de racismo deverá estar acompanhada de advogado ou defensor público. 
Trata-se de assistência qualificada à vítima de racismo, tal qual a previsão dos 
arts. 27 e 28 da Lei Maria da Penha à mulher vítima de violência doméstica, que não se 
confunde com a figura do assistente de acusação. Assim, a assistência qualificada é plena, 
decorre de lei, independe de autorização judicial, alcança a fase policial e judicial, 
abrange atos judiciais e extrajudiciais, cíveis e criminais, e independe da hipossuficiência 
econômica diante da condição da vítima de necessitada jurídica em razão da 
vulnerabilidade, prestando-se atendimento integral e humanizado. Trata-se de função 
atípica da Defensoria Pública (ou de função não tradicional ou tendencialmente 
solidarista, conforme classificação de José Augusto Garcia), a teor do art. 4º, XI e XVIII, 
da LC 80/94. 
 
42 
 
ATENÇÃO: a DPE RJ, através do NUDIVERSIS, tem atuado na assistência 
qualificada à vítima em casos envolvendo lgbtfobia, tendo em vista que o STF e o STJ 
adotam o conceito de racismo em sua dimensão social, enquanto manifestação de poder, 
que abrange também os casos de homofobia e transfobia. Assim, recentemente, o 
Nudiversis, está atuando como “assistente da vítima” em caso de homicídio de mulher 
trans esquartejada por transfobia, desde a fase do inquérito policial, dando protagonismo 
e voz ao longo de todo o processo. Trata-se de assistência integral e humanizada aos 
familiares da vítima, abrangendo as fases judicial e extrajudicial, inclusive 
providenciando a requalificação civil post-mortem para que a certidão de óbito seja 
reemitida com nome e gênero femininos e providenciando a ação de reparação cível. Cm 
isso, o Nudiversis passa a atuar da mesma forma que: 1- o Núcleo de Defesa da Mulher 
(Nudem) nos casos de feminicídio tentado ou consumado, 2- o Núcleo de Defesa dos 
Direitos Humanos (Nudedh) na assistência às vítimas e familiares de vítimas de violência 
policial (violência institucional), 3- o Núcleo de Combate ao Racismo e à Discriminação 
Étnico-Racial (Nucora) na assistência às vítimas de racismo. 
 
Atenção para a existência de outros tipos penais de racismo na legislação esparsa, 
que também devem ser considerados imprescritíveis e inafiançáveis (art. 5º, XLII, da CF), 
como: 
- crime de tortura preconceituosa, previsto no art. 1º, I, c, da Lei 9.455/97: 
Constitui crime de tortura: I - constranger alguém com emprego de violência ou grave 
ameaça, causando-lhe sofrimento físico ou mental: c) em razão de discriminação racial 
ou religiosa; 
- crime de redução a condição análoga à de escravo por motivo de preconceito de 
raça, cor, etnia, religião ou origem, previsto no art. 149, § 2º, II, do CP. 
 
RETROATIVIDADE DA INTERPRETAÇÃO JUDICIAL 
 
Note-se que não há disciplina legal para os casos de alteração de interpretação 
judicial, haja vista não se tratar de sucessão de leis no tempo. 
 
43 
 
1) No caso de alteração de interpretação jurisprudencial em prejuízo do réu (ex.: 
jurisprudência passou a considerar o acórdão condenatório que diminui a pena como 
marco interruptivo da prescrição), entende o STJ: “A jurisprudência desta Corte é firme 
no sentido de que é impossível se falar em irretroatividade de interpretação 
jurisprudencial, pois o ordenamento jurídico somente proíbe a retroatividade da lei 
penal mais gravosa. Isso porque a jurisprudência corresponde apenas à melhor 
interpretação a ser dada a lei já existente”. EM SENTIDO CONTRÁRIO, 2ª Turma do 
STF, AgRg no HC 192.757/RO, DJe 09/08/2023: “Entendimento jurisprudencial não 
retroage para prejudicar o réu. Decisão favorável reformada apenas em razão de novel 
jurisprudência maléfica. Impossibilidade”. O caso versou sobre a irretroatividade do 
entendimento jurisprudencial fixado no julgamento do HC 176.473, em que se considerou 
que o acórdão condenatório sempre interrompe a prescrição, inclusive quando 
confirmatório da sentença de 1º grau, seja mantendo, reduzindo ou aumentando a pena 
anteriormente imposta. 
2) Por sua vez, no caso de alteração de interpretação jurisprudencial em benefício 
do réu, notadamente nos casos em que já houve o trânsito em julgado da sentença penal 
condenatória, tem prevalecido o entendimento pela retroatividade do entendimento 
jurisprudencial mais favorável, por razões de equidade e em atenção ao princípio da 
isonomia. 
Discute-se, contudo, qual seria a via mais adequada a ser utilizada: revisão 
criminal (3ª Seção do STJ, RvCr 3900 / SP, DJe 15/12/2017: é cabível o manejo da 
revisão criminal fundada no art. 621, I, do CPP em situações nas quais se pleiteia a adoção 
de novo entendimento jurisprudencial mais benigno, desde que a mudança 
jurisprudencial corresponda a um novo entendimento pacífico e relevante), simples 
petição ao juízo da execução penal (em analogia in bonam partem ao art. 66 da LEP), ou 
mesmo o habeas corpus. 
Casos recentes de alteração de interpretação judicial em benefício dos acusados: 
- Mudança de jurisprudência quanto à nulidade (e não mera irregularidade) 
do reconhecimento de pessoas em violação às garantias mínimas do art. 226 do CPP: 
O STJ tem entendido pelo não conhecimento do HC substitutivo de revisão criminal, mas 
vem concedendo a ordem de HC de ofício nas hipóteses de flagrante ilegalidade, como a 
 
44 
 
apontada, com a absolvição do paciente nos casos em que não haja prova independente 
que corrobore a sentença condenatória baseada em reconhecimento eivado de nulidade. 
Apesar de também ser viável a revisão criminal, é certo que o manejo do habeas corpus 
tem se mostrado mais célere e efetivo. 
- 3ª Seção do STJ, Inf. 714/21: É cabível o manejo da revisão criminal fundada 
no art. 621, I, do CPP, para aplicação da minorante prevista no § 4º do art. 33 da Lei 
n. 11.343/2006 nos crimes previstos no art. 273, § 1º-B, do CP. Isso em consideração 
ao entendimento esposado pela Corte Especial do STJ, no Inf. 559/15, pela 
inconstitucionalidade do preceito secundário do art. 273, § 1º-B, V, do CP – ‘reclusão, de 
10 (dez) a 15 (quinze) anos, e multa’ –, devendo-se considerar, no cálculo da reprimenda, 
a pena prevista no caput do art. 33 da Lei 11.343/2006 (Lei de Drogas), com possibilidade 
de incidência da causa de diminuição de pena do respectivo § 4º. 
Inteiro teor: 
Declarada a inconstitucionalidade do preceito secundário previsto 
no art. 273, § 1º-B, do Código Penal pela Corte Especial do 
Superior Tribunal de Justiça, no julgamento da Arguição de 
Inconstitucionalidade no Habeas Corpus 239.363/PR, as Turmas 
que compõem a Terceira Seção do STJ passaram a determinar a 
aplicação da pena prevista no crime de contrabando ou no crime 
de tráfico de drogas do art. 33 da Lei de Drogas. 
A partir da solução da quaestio, verifica-se oscilação na 
jurisprudência desta Corte. Destarte, a maioria dos julgadores 
da Terceira Seção passou a adotar a orientação de aplicação 
da minorante prevista no § 4º do art. 33 da Lei n. 11.343/2006 
nos crimes previstos no art. 273, § 1º-B, do Código Penal. 
Assim, embora não tenha havido necessariamentealteração 
jurisprudencial, e sim mudança de direcionamento, ainda que 
não pacífica, a respeito do tema, a interpretação que deve ser 
dada ao artigo 621, I, do CPP é aquela de acolhimento da 
revisão criminal para fins de aplicação do entendimento desta 
Corte mais benigno e atual. 
 
Obs.: especificamente em relação à importação de medicamento sem registro 
no órgão de vigilância sanitária (art. 273, § 1º-B, I), lembrar que o Pleno do STF, no 
Inf. 1011/21, Tema 1003, fixou como tese de repercussão geral a inconstitucionalidade 
da aplicação do preceito secundário do art. 273 do Código Penal, com redação dada pela 
Lei nº 9.677/98 (reclusão, de 10 a 15 anos, e multa), ficando repristinado o preceito 
 
45 
 
secundário do art. 273, na redação originária (reclusão, de 1 a 3 anos, e multa). De todo 
modo, trata-se também de interpretação judicial mais favorável, cabendo a discussão 
sobre o meio para se postular a sua aplicação retroativa aos casos já transitados em 
julgado. 
 - O posicionamento tradicional do STJ (Inf. 554/15) e do STF (v. Inf. 851) sempre 
foi no sentido de que a majorante se aplica também ao furto qualificado. 
OVERRULING: a 3ª Seção do STJ, em sede de recurso repetitivo (tema 1087), Inf. 
738/22, passou a entender que a causa de aumento prevista no § 1° do art. 155 do 
Código Penal NÃO incide no crime de furto na sua forma qualificada (§ 4°). 
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR 
Ressalte-se, preliminarmente, que se pode pensar que a 
fixação de um precedente judicial guarda relação direta com a 
consolidação da orientação jurisprudencial uníssona e reiterada 
do Superior Tribunal de Justiça, sobretudo quanto coincidente 
com a posição adotada pelo Supremo Tribunal Federal. 
Entretanto, essa premissa não é absoluta. Se a orientação 
jurisprudencial não guarda compatibilidade com a melhor 
interpretação dos postulados de regência e com o contexto social 
em que se insere a aplicação das normas jurídicas, mostra-se 
inequívoca a necessidade de sua revisão, mormente quando desta 
resultará um posicionamento judicial vinculatório que pressupõe 
segurança jurídica e, por conseguinte, longevidade. Assim, a 
constrlescução de precedente judicial na via do recurso especial 
repetitivo constitui momento adequado para o reexame de 
entendimentos derivados da interpretação do direito 
infraconstitucional, para que se mantenham ou se adéquem a 
novas realidades. 
A disposição técnica do Código Penal assim se apresenta: 
refere-se o art. 155, § 1º, do CP à pena do furto simples, prevista 
no caput desse dispositivo. Desse modo, não se refere à 
cominação do furto qualificado, que se encontra três parágrafos 
depois. Seguindo a técnica legislativa, para que considerasse 
aplicável a majorante no furto qualificado, deveria o legislador 
colocar o § 1º após a pena atribuída, o que não ocorreu. Se a 
qualificação do delito é apresentada em parágrafo posterior ao 
que trata da majorante, é porque o legislador afastou a incidência 
desta em relação aos crimes qualificados previstos no § 4º do art. 
155 do CP. Nesse contexto, aderindo a uma interpretação 
sistemática sob o viés topográfico, em que se define a extensão 
interpretativa de um dispositivo legal levando-se em conta sua 
localização no conjunto normativo, a aplicação da referida causa 
 
46 
 
de aumento limitar-se-ia ao furto simples, não incidindo, pois, no 
furto qualificado. 
Outra forma interpretativa para dirimir a questão é o método 
hermenêutico teleológico. Aqui, o que se propõe é a averiguação 
do objetivo da norma, de seus fins sociais, objetivos ligados à 
justiça, à segurança jurídica e à dignidade da pessoa humana. 
Com efeito, quando se busca o atendimento a esses aspectos, 
especialmente o relativo à dignidade humana, devem ser 
atendidos os princípios da proporcionalidade e da taxatividade. 
Sob o viés do princípio da proporcionalidade, objetiva-se 
evitar excesso de punição, mormente a possibilidade de aplicação 
de reprimendas mais severas a infrações que refletem menor 
gravidade, assim como evitar que haja proteção insuficiente aos 
bens jurídicos resguardados pelas normas penais. 
Ora, a agravação da pena derivada da incidência da 
majorante do furto noturno nas hipóteses do furto qualificado 
resultaria em um desproporcional quantitativo. Veja-se: o 
dispositivo relacionado ao furto cometido durante o repouso 
noturno (art. 155, § 1º, do CP) prevê acréscimo fixo de 1/3 da 
pena. Se possível a incidência dessa mesma majorante no furto 
qualificado (art. 155, § 4º, do CP), seriam gerados aumentos 
excessivos no quantitativo da pena: se considerada a pena 
mínima, o acréscimo seria de 8 meses (pena mínima de 2 anos do 
crime qualificado, aumentada em 1/3). De outra parte, se 
considerada a pena máxima, o aumento resultaria em 2 anos e 8 
meses. Dessa forma, a pena do crime de furto qualificado, 
acrescida do quantum relativo à incidência da majorante, 
desconsiderando-se a incidência de quaisquer outras 
circunstâncias agravantes ou causas de aumento, poderia resultar 
em 10 anos e 8 meses, pena superior à do crime de roubo, tipo 
penal em que se protegem não só bens patrimoniais, tal qual no 
crime de furto, mas também a integridade corporal. Sendo assim, 
não se mostra razoável que determinada pena possa ser 
semelhante para crimes de gravidades diversas, como são o furto, 
ainda que em sua forma qualificada, e o roubo. 
Acrescente-se, também sob o enfoque do princípio da 
proporcionalidade, que, sendo a controvérsia a interpretação de 
normas penais que podem ensejar, em um cenário de dúvida, a 
incidência de penas mais severas, é razoável que também se 
analise o tema sob a perspectiva das circunstâncias a seguir 
relacionadas, muitas delas relativas à política criminal, que não 
contribuirão para a concretização do escopo preventivo, 
repressivo e reabilitatório do Direito Penal: a) busca de resolução 
de questões sociais mediante a exagerada edição da legislação 
penal e processual penal mais severa; b) existência de 
componentes administrativos na seara criminal que operam com 
 
47 
 
deficiência, tais como os estabelecimentos prisionais, a 
sobrecarga dos tribunais, a ineficácia de aplicação de penas 
clássicas, sobretudo sobre o aspecto da reabilitação do 
condenado, o alto custo do sistema penitenciário associado à 
escassez de recursos públicos para sua manutenção e melhoria, 
etc. 
Deve-se registrar também que o princípio da 
proporcionalidade destina-se igualmente a evitar a proteção 
insuficiente ou deficiente dos bens jurídicos resguardados pelo 
Direito Penal. 
Ora, é evidente que a lesividade advinda do cometimento 
do furto qualificado durante o repouso noturno é maior que a do 
furto simples ocorrente no mesmo período. 
Assim, é razoável admitir a possibilidade de, diante das 
circunstâncias fáticas, a prática do furto durante o período de 
repouso noturno ser levada em consideração na dosimetria da 
pena. Em outras palavras, se a incidência da majorante no furto 
qualificado mostra-se excessiva, poderá ser utilizada como 
circunstância judicial negativa na primeira fase da dosimetria 
(art. 59 do CP). Nessa oportunidade, o órgão julgador 
avaliará, sob a ótica de sua discricionariedade, o elemento 
relativo ao espaço temporal em que a infração foi cometida, 
podendo, se assim considerar, analisar a circunstância 
judicial referente às circunstâncias do crime com maior 
reprovabilidade. Esse proceder possibilitaria calibrar a 
reprimenda de modo a atender o postulado da proporcionalidade 
diante do caso concreto. 
Entretanto, ressalte-se que essa matéria - possibilidade de 
consideração da causa de aumento relativa ao repouso 
noturno como circunstância judicial desfavorável (art. 59 do 
CP) quando do cometimento do furto qualificado - NÃO 
enseja a fixação de tese vinculante na via do recurso especial 
repetitivo, visto que a variabilidade dos conceitosempregados no 
exercício discricionário do órgão julgador na confecção da 
primeira etapa da dosimetria penal é incompatível com o 
estabelecimento de fundamentos vinculatórios, tais como os 
exigidos na fixação de tese no sistema de precedentes judiciais. 
Sob o prisma do princípio da taxatividade, como garantia 
expressa do postulado da legalidade, deve-se entender que, ao ser 
positivada uma norma penal incriminadora - tal como uma causa 
de aumento de pena -, deve ela ser clara e precisa com vistas a 
não permitir discricionariedades, bem como ser de fácil 
compreensão para os destinatários. 
Efetivamente, não há precisão e clareza desejáveis na 
proposição penal prevista no art. 155, § 1º, do CP quando se deve 
definir sua aplicabilidade tanto ao furto simples quanto ao furto 
 
48 
 
qualificado. Restrita essa norma a indicar situação temporal em 
que há aumento de pena, não se veem nela elementos que lhe 
confiram extensão para que incida nas hipóteses do furto 
qualificado. Pensamento diverso, de modo a justificar a 
incidência extensiva dessa disposição legal, equivaleria a um 
agravamento dos tipos já existentes através de uma 
reinterpretação de garantias do Direito Penal, especialmente 
aquela relacionada à interpretação favorável ao réu nos casos em 
que há dúvida acerca do sentido da norma. Deve-se ressaltar que 
a interpretação no sentido de possibilitar a existência de bens 
jurídico-penais não expressamente definidos amplia os espaços 
de riscos jurídico-penais relevantes e a flexibilização das regras 
de imputação e relativização dos princípios político-criminais de 
garantia, circunstâncias que não condizem com a 
excepcionalidade inerente às normas penais sancionatórias, assim 
como não se compatibilizam com a necessária segurança jurídica, 
fundamento do Direito Penal. 
Também não se justifica a premissa de que, uma vez 
possível a aplicação da regra do furto privilegiado (art. 155, § 2º, 
do CP) ao furto qualificado, seria possível a incidência da causa 
de aumento relativa ao cometimento do furto durante o repouso 
noturno (art. 155, § 1º, do CP) no furto qualificado. 
Essa situação merece algumas observações. 
O privilégio previsto no § 2º do art. 155 e a causa de 
aumento relativa ao furto noturno são hipóteses fático-jurídicas 
diversas. A primeira refere-se a uma norma penal não 
incriminadora; a segunda, a uma causa de aumento, uma norma 
penal incriminadora. 
Sendo o furto privilegiado uma norma não 
incriminadora, pode comportar extensividade quando 
utilizado para integração do sistema jurídico penal. Já o furto 
cometido durante o repouso noturno, por ser uma norma 
incriminadora, tem sua extensividade vedada, visto que tem 
por consectário o agravamento da situação do réu. Com efeito, 
o uso de raciocínio analógico integrativo no âmbito do Direito 
Penal é inadmissível em hipótese em que haja prejuízo para o 
acusado. 
Desse modo, também sob a ótica de uma interpretação 
finalística, em que se deve conferir aplicabilidade aos princípios 
da proporcionalidade e da taxatividade, a incidência da causa de 
aumento referente ao cometimento do furto noturno limita-se ao 
furto simples, não se aplicando ao furto qualificado. 
 
 Na jurisprudência do STJ, há casos de aplicação retroativa da revisão 
jurisprudencial mais benéfica, para o decote da majorante do repouso noturno em casos 
 
49 
 
de condenação por furto qualificado, pela via do habeas corpus. Confira-se: 5ª Turma do 
STJ, no AgRg no HC 748463 / SC, DJe 26/08/2022; 5ª Turma do STJ, AgRg no HC 
780521 / SC, DJe 14/12/2022. Diversamente, não admitindo a retroatividade do 
entendimento jurisprudencial ocorrido após o trânsito em julgado da condenação, 
decisão monocrática do Min. Sebastião Reis Júnior, no REsp 2062302, interposto em face 
de acórdão proferido em sede de revisão criminal, DJ 02.05.23. Por seu turno, admitindo 
a possibilidade de apreciação do tema pelo próprio juízo da execução penal: “Compete 
ao Juízo da Vara de Execução Penal analisar e aplicar ao apenado, se for o caso, a tese 
fixada pelo Superior Tribunal de Justiça em julgamento de recurso especial repetitivo, no 
Tema 1087, segundo o qual: 'A causa de aumento prevista no § 1° do art. 155 do Código 
Penal (prática do crime de furto no período noturno) não incide no crime de furto na sua 
forma qualificada (§ 4°).” (Acórdão 1631940, 07315641820228070000, Relator: 
SILVANIO BARBOSA DOS SANTOS, Segunda Turma Criminal, data de julgamento: 
20/10/2022, publicado no PJe: 31/10/2022). 
 Obs.: Súmula 511 do STJ: é possível o reconhecimento do privilégio previsto 
no § 2º do art. 155 do CP nos casos de crime de furto qualificado, se estiverem presentes 
a primariedade do agente, o pequeno valor da coisa e a qualificadora for de ordem 
objetiva. Predomina o entendimento de que o abuso de confiança é a única qualificadora 
de natureza subjetiva e, portanto, incompatível com o privilégio. 
 Obs.: 3ª Seção do STJ, nos REsps 1.979.989/RS e 1.979.998/RS, sujeitos ao rito 
dos recursos repetitivos (tema 1144), Inf. 742/22: O repouso noturno compreende o 
período em que a população se recolhe para descansar, devendo o julgador atentar-se às 
características do caso concreto. A situação de repouso está configurada quando presente 
a condição de sossego/tranquilidade do período da noite, caso em que, em razão da 
diminuição ou precariedade de vigilância dos bens, ou, ainda, da menor capacidade de 
resistência da vítima, facilita-se a concretização do crime. São irrelevantes os fatos das 
vítimas estarem, ou não, dormindo no momento do crime, ou o local de sua ocorrência, 
em estabelecimento comercial, via pública, residência desabitada ou em veículos, 
bastando que o furto ocorra, obrigatoriamente, à noite E em situação de repouso. 
Destaques do inteiro teor: No tocante ao horário de aplicação, este Superior Tribunal de 
Justiça já definiu que "este é variável, devendo obedecer aos costumes locais relativos à 
 
50 
 
hora em que a população se recolhe e a em que desperta para a vida cotidiana". Sendo 
assim, não há um horário prefixado, devendo, portanto, atentar-se às características da 
vida cotidiana da localidade (REsp 1.659.208/RS, Rel. Ministra Maria Thereza De Assis 
Moura, DJ 31/3/2017). Assim, se o crime de furto é praticado durante o repouso noturno, 
na hora em que a população se recolhe para descansar, valendo-se da diminuição ou 
precariedade de vigilância dos bens, ou, ainda, da menor capacidade de resistência da 
vítima, a pena será aumentada de um terço, não importando se as vítimas estão ou não 
dormindo no momento do crime, ou o local de sua ocorrência, em estabelecimento 
comercial, residência desabitada, via pública ou veículos. TODAVIA, haverá casos em 
que, mesmo nos furtos praticados no período da noite, mas em lugares amplamente 
vigiados, tais como em boates e comércios noturnos, ou, ainda, em situações de 
repouso, mas ocorridas nos períodos diurno ou vespertino, NÃO se poderá valer-se 
dessa causa de aumento. 
 - 3ª Seção do STJ, Inf. 789/23: TEMA Latrocínio. Subtração de um só patrimônio. 
Pluralidade de vítimas da violência. Concurso formal impróprio. Descabimento. 
Overruling. Adequação à jurisprudência do STF. DESTAQUE Subtraído um só 
patrimônio, a pluralidade de vítimas da violência não impede o reconhecimento de 
crime único de latrocínio. INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR Na origem, houve a 
condenação por três crimes de latrocínio tentado, em concurso formal impróprio, quando, 
na verdade, foram atingidos apenas dois patrimônios. É certo que o entendimento adotado 
pelas instâncias ordinárias encontra respaldo na jurisprudência do STJ, no sentido de que 
há concurso formal impróprio no crime de latrocínio quando, não obstante houver a 
subtração de um só patrimônio, o animus necandi seja direcionado a mais de um 
indivíduo, ou seja, a quantidade de latrocínios será aferida a partir do número de vítimasem relação às quais foi dirigida a violência, e não pela quantidade de patrimônios 
atingidos. No entanto, essa posição destoa da orientação do Supremo Tribunal Federal, 
que têm afastado o concurso formal impróprio, e reconhecido a ocorrência de crime único 
de latrocínio, nas situações em que, embora o animus necandi seja dirigido a mais de uma 
pessoa, apenas um patrimônio tenha sido atingido. Por essa razão, mostra-se prudente 
proceder ao overruling da jurisprudência deste Tribunal Superior, adequando-a à firme 
compreensão do STF acerca do tema. No caso, as instâncias ordinárias afirmaram que 
 
51 
 
houve desígnios autônomos em relação ao animus necandi, motivo pelo qual entenderam 
pelo concurso formal impróprio, o qual deve ser afastado, nos termos do entendimento 
do STF. No entanto, é inviável o reconhecimento de crime único, porque foram atingidos 
dois patrimônios distintos. Nesse contexto, deve ser reconhecida a prática de dois delitos 
de latrocínio, na forma tentada, em concurso formal próprio, pois não foi mencionado 
pela Corte de origem que também teria havido autonomia de desígnios em relação às 
subtrações patrimoniais, mas tão somente no tocante ao animus necandi. 
 
PRINCÍPIO DO NE BIS IN IDEM 
 
 Art. 8º, 4, Pacto de São José da Costa Rica, c/c art. 5º, § 2º, CF: O acusado 
absolvido por sentença passada em julgado não poderá se submetido a novo processo 
pelos mesmos fatos. 
1) Proibição de múltipla persecução penal pelo mesmo fato. 
1.1) Crime permanente 
 Ex.: art. 35 da Lei 11.343/06 (crime permanente) 
Obs.: 5ª Turma do STJ, Inf. 737/22: A imputação de dois crimes de organização 
criminosa ao agente não revela, por si só, a litispendência das ações penais, se não ficar 
demonstrado o liame entre as condutas praticadas por ambas as organizações criminosas. 
1.2) Processos em curso em diferentes Justiças 
5ª Turma do STJ, REsp 1.847.488-SP, DJe 26/04/2021, Edição Especial do 
Informativo do STJ 2022: O ajuizamento de duas ações penais referentes aos mesmos 
fatos, uma na Justiça Comum Estadual e outra na Justiça Eleitoral, viola a garantia 
contra a dupla incriminação. INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR No caso, os 
mesmos fatos que levaram ao oferecimento da denúncia discutida também foram 
apreciados em ação de improbidade administrativa e ação penal na Justiça Eleitoral, sendo 
que ambas culminaram com a absolvição. Frisa-se que a sentença absolutória por ato 
improbidade não vincula o resultado do presente feito, porquanto proferida na esfera do 
direito administrativo sancionador que é independente da instância penal, embora seja 
possível, em tese, considerar como elementos de persuasão os argumentos nela lançados. 
No entanto, quanto à absolvição perante a Justiça Eleitoral, a questão adquire 
 
52 
 
peculiaridades que reclamam tratamento diferenciado. Isso porque a sentença, não 
recorrida pelo MPE, foi proferida no exercício de verdadeira jurisdição criminal, de modo 
que o prosseguimento da ação penal da qual se originou este habeas corpus encontra óbice 
no princípio da vedação à dupla incriminação, também conhecido como double jeopardy 
clause ou (mais comumente no direito brasileiro) postulado do ne bis in idem, ou ainda 
da proibição da dupla persecução penal. Embora não tenha previsão expressa na 
Constituição Federal de 1988, a garantia do ne bis in idem é certamente um limite 
implícito ao poder estatal, derivada da própria coisa julgada (art. 5º, XXXVI, da 
Carta Magna) e decorrente de compromissos internacionais assumidos pelo Brasil 
(§ 2º do mesmo art. 5º). Isso porque a Convenção Americana de Direitos Humanos 
(art. 8º, n. 4) e o Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos (art. 14, n. 7), 
incorporados ao direito brasileiro com status supralegal pelos Decretos 678/1992 e 
592/1992, respectivamente, tratam da vedação à dupla incriminação. Tendo o 
Ministério Público, instituição una (à luz do art. 127, § 1º, da CF/1988) ajuizado duas 
ações penais referentes aos mesmos fatos, uma na Justiça Comum Estadual e outra na 
Justiça Eleitoral, há violação à garantia contra a dupla incriminação. Por conseguinte, a 
independência de instâncias não permite, por si só, a continuidade da persecução penal 
na Justiça Estadual, haja vista que a decisão proferida na Justiça Especializada foi de 
natureza penal, e não cível. Tanto o processo resolvido na esfera eleitoral como o 
presente versam sobre crimes, e como tais se inserem na jurisdição criminal, una 
por natureza. O que diferencia as hipóteses de atuação da Justiça Comum Estadual 
e da Justiça Eleitoral, quando exercem jurisdição penal, é a sua competência; 
ambas, contudo, realizam julgamentos em cognição exauriente sobre a prática de 
condutas delitivas. Sendo distintas as imputações vertidas num e noutro processo, é certo 
que cada braço do Judiciário poderá julgá-las; inobstante, tratando-se de acusações 
idênticas, não é o argumento genérico de independência entre as instâncias que permitirá 
o prosseguimento da ação penal remanescente. 
1.3) Coisa julgada (divergência) 
5ª Turma do STJ, Inf. 562/2015: Constatado o trânsito em julgado de duas 
decisões condenando o agente pela prática de um único crime - a primeira proferida por 
juízo estadual absolutamente incompetente e a segunda proferida pelo juízo federal 
 
53 
 
constitucionalmente competente -, a condenação anterior deve ser anulada caso se 
verifique que nela fora imposta pena maior do que a fixada posteriormente. Em primeiro 
lugar, faz-se necessário asseverar que o STJ já se pronunciou no sentido de que "A 
sentença proferida por juízo absolutamente incompetente impede o exame dos mesmos 
fatos ainda que pela justiça constitucionalmente competente, pois, ao contrário, estar-se-
ia não só diante de vedado bis in idem como também na contramão da necessária 
segurança jurídica que a imutabilidade da coisa julgada visa garantir" (RHC 29.775-PI, 
Quinta Turma, DJe 25/6/2013). Com efeito, sopesando a garantia do juiz natural em face 
do princípio do ne bis in idem, deve preponderar este último como decorrência do 
princípio fundamental da dignidade da pessoa humana, princípio basilar do Estado 
Democrático de Direito, consoante explicita o inciso III do art. 1º da CF. Cabe ressaltar, 
a propósito, que esse entendimento foi consolidado para, dando efetividade ao princípio 
do favor rei, impedir o início ou a continuidade de outro processo que tenha por objetivo 
discutir os mesmos fatos que já foram objeto de decisão anterior. A situação em análise, 
entretanto, é peculiar. Existem duas condenações transitadas em julgado, sendo que a 
primeira foi proferida por juízo estadual absolutamente incompetente e a segunda pelo 
juízo constitucionalmente competente, tendo este estabelecido, inclusive, quantum de 
pena inferior ao definido anteriormente. Dessa forma, nessa hipótese, considerando a 
situação mais favorável ao réu, bem como a existência de trânsito em julgado perante a 
justiça competente para análise do feito, deve ser relativizada a coisa julgada, de modo a 
tornar possível a prevalência do princípio fundamental da dignidade da pessoa humana. 
X 
STF, 1ª Turma, HC 101131, j. 25/10/2011: Os institutos da litispendência e da 
coisa julgada direcionam à insubsistência do segundo processo e da segunda sentença 
proferida, sendo imprópria a prevalência do que seja mais favorável ao acusado. 
6ª Turma do STJ, Inf. 642/2019: Diante do duplo julgamento do mesmo fato, deve 
prevalecer a sentença que transitou em julgado em primeiro lugar. Cinge-se a controvérsia 
a definir qual sentença deve prevalecer na hipótese da existência de duas sentenças 
definitivas em ações penais distintas pelo mesmo fato. No caso em exame, a prevalência 
da primeira decisão imutável é reforçada pela quebra do dever de lealdade processual por 
parte da defesa. Ainda que os documentos anexados aos autos permitam concluir que eles 
 
54 
 
foramassistidos pela Defensoria Pública nas duas ações penais - possivelmente, por 
profissionais distintos -, é pouco crível que, quando cientificados da segunda persecução 
criminal existente em seu desfavor, não hajam informado a pessoa responsável pela sua 
defesa que já estavam sendo processados pelos mesmos fatos. A leitura da segunda 
sentença - proferida após o trânsito em julgado da condenação - permite concluir que a 
duplicidade não foi mencionada sequer nas alegações finais. Tudo leva a crer que, 
sabedora da dupla persecução criminal contra os réus, e que já haviam sido condenados 
no outro processo a defesa prosseguiu na segunda ação e, ao ser exitosa, buscou a 
anulação do primeiro decisum na via mandamental. No ponto, deve-se destacar ser 
assente nessa Corte Superior o entendimento de que: "Vige no sistema processual penal 
o princípio da lealdade, da boa-fé objetiva e da cooperação entre os sujeitos processuais, 
não sendo lícito à parte arguir vício para o qual concorreu em sua produção, sob pena de 
se violar o princípio de que ninguém pode se beneficiar da própria torpeza - nemo auditur 
propriam turpitudinem allegans" (RHC n. 77.692/BA, Rel. Ministro Felix Fischer, 5ª 
Turma, DJe 18/10/2017). Ademais, sobre o tema, o Supremo Tribunal Federal entende 
que "demonstrado o 'bis in idem', e assim a litispendência, prevalece a condenação 
imposta na primeira ação" (HC n. 69.615/SP, Rel. Ministro Carlos Velloso, 2ª Turma, DJ 
19/2/1993) e que "os institutos da litispendência e da coisa julgada direcionam à 
insubsistência do segundo processo e da segunda sentença proferida, sendo imprópria a 
prevalência do que seja mais favorável ao acusado" (HC n. 101.131/DF, Rel. Ministro 
Luiz Fux, Rel. p/ acórdão Ministro Marco Aurélio, 1ª Turma, DJe 10/2/2012). Com base 
nessas premissas, reconhece-se a prevalência da primeira sentença transitada em julgado. 
1.4) Princípio da consunção 
5ª Turma do STJ, HC 285.589, j. 04/08/2015, Inf. 569: O agente que, numa 
primeira ação penal, tenha sido condenado pela prática de crime de roubo contra 
uma instituição bancária não poderá ser, numa segunda ação penal, condenado por 
crime de roubo supostamente cometido contra o gerente do banco no mesmo 
contexto fático considerado na primeira ação penal, ainda que a conduta referente 
a este suposto roubo contra o gerente não tenha sido sequer levada ao conhecimento 
do juízo da primeira ação penal, vindo à tona somente no segundo processo. De fato, 
conquanto o suposto roubo contra o gerente do banco não tenha sido sequer levado ao 
 
55 
 
conhecimento do juízo da primeira ação penal, ele se encontra sob o âmbito de incidência 
do princípio ne bis in idem, na medida em que praticado no mesmo contexto fático da 
primeira ação. Além disso, do contrário ocorreria violação da garantia constitucional da 
coisa julgada. Sobre o tema, há entendimento doutrinário no sentido de que "Com o 
trânsito em julgado da sentença condenatória, o ato adquire a autoridade de coisa julgada, 
tornando-se imutável tanto no processo em que veio a ser proferida a decisão (coisa 
julgada formal) quanto em qualquer outro processo onde se pretenda discutir o mesmo 
fato criminoso objeto da decisão original (coisa julgada material). No direito brasileiro, a 
sentença condenatória evita se instaure novo processo contra o réu condenado, em razão 
do mesmo fato, quer para impingir ao sentenciado acusação mais gravosa, quer para 
aplicar-lhe pena mais elevada". Portanto, não há se falar, na hipótese em análise, em 
arquivamento implícito, inadmitido pela doutrina e pela jurisprudência, tendo em vista 
que não se cuida de fatos diversos, mas sim de um mesmo fato com desdobramentos 
diversos e apreciáveis ao tempo da instauração da primeira ação penal. Ademais, a 
doutrina sustenta que "a proibição (ne) de imposição de mais de uma (bis) consequência 
jurídico-repressiva pela prática dos mesmos fatos (idem) ocorre, ainda, quando o 
comportamento definido espaço-temporalmente imputado ao acusado não foi trazido por 
inteiro para apreciação do juízo. Isso porque o objeto do processo é informado pelo 
princípio da consunção, pelo qual tudo aquilo que poderia ter sido imputado ao acusado, 
em referência a dada situação histórica e não o foi, jamais poderá vir a sê-lo novamente. 
E também se orienta pelos princípios da unidade e da indivisibilidade, devendo o caso 
penal ser conhecido e julgado na sua totalidade - unitária e indivisivelmente - e, mesmo 
quando não o tenha sido, considerar-se-á irrepetivelmente decidido". Assim, em Direito 
Penal, "deve-se reconhecer a prevalência dos princípios do favor rei, favor libertatis e ne 
bis in idem, de modo a preservar a segurança jurídica que o ordenamento jurídico 
demanda. 
1.5) Litispendência e coisa julgada internacional (divergência) 
Pelas regras do Código Penal, uma pessoa pode ser processada e condenada, tanto 
no estrangeiro, quanto no Brasil, pelo mesmo fato, especialmente nos casos de 
extraterritorialidade incondicionada e de territorialidade (bis in idem). O art. 8º do CP, 
para abrandar tal situação, prevê que a pena cumprida no estrangeiro atenua a pena 
 
56 
 
imposta no Brasil pelo mesmo crime, quando diversas, ou nela é computada, quando 
idênticas. 
Art. 8º do CP x princípio do ne bis in idem (art. 8.4 do Pacto de São José da Costa 
Rica - Decreto 678/1992 c/c art. 5º, § 2º, da CF) 
 Inf. 656/19, 6ª Turma do STJ: A pendência de julgamento de litígio no exterior 
não impede, por si só, o processamento da ação penal no Brasil, não configurando 
bis in idem. INTEIRO TEOR As mudanças ocorridas no Direito, principalmente a partir 
da universalização dos direitos humanos e da criação consensual de instâncias 
supranacionais para protegê-los e punir os responsáveis por suas violações, implicou a 
progressiva e lenta reestruturação do processo penal moderno, para um modelo 
incriminatório universal em que as fronteiras não sejam obstáculo para a justiça ou refúgio 
para a impunidade. Uma dessas mudanças diz respeito aos limites de aplicação do ne bis 
in idem, a um primeiro olhar mais restritos quando aplicados no âmbito da jurisdição 
transnacional do que em sua corrente incidência dentro de cada ordenamento jurídico. 
Nesse contexto, pela análise de normativas internacionais incorporadas e vigentes no 
ordenamento jurídico brasileiro, constata-se a regra de que é a sentença definitiva oriunda 
de distintos Estados soberanos – e não a existência de litígio pendente de julgamento – 
que pode obstar a formação, a continuação ou a sobrevivência da relação jurídica 
processual que configuraria a litispendência. Prevalece, portanto, que a pendência de 
julgamento de litígio no exterior não impede o processamento de demanda no Brasil, até 
mesmo porque, como é cediço, no curso da ação penal pode ocorrer tanto a alteração da 
capitulação (emendatio libeli) como, também, da imputação penal (mutatio libeli), o que, 
por si só, é suficiente para exigir maior cautela na extinção prematura de demandas 
criminais em Estados soberanos distintos. Seria temerário, pois, também sob esse aspecto, 
aniquilar o cumprimento da pena no território brasileiro. Além disso, poderá incidir o art. 
8º do Código Penal, que, embora não cuide propriamente da proibição de dupla punição 
e persecução penais, dispõe sobre o modo como deve ser resolvida a situação de quem é 
punido por distintos Estados soberanos pela prática do mesmo delito, nos seguintes 
termos: "A pena cumprida no estrangeiro atenua a pena imposta no Brasil pelo mesmo 
crime, quando diversas, ou nela é computada, quando idênticas". 
X 
 
57 
 
 Inf. 959/19 do STF: Dupla persecução penal em âmbito internacional: A 2ª Turma 
do STF concedeu a ordem em habeas corpus para determinar o trancamento de ação penal 
movida contra o paciente, denunciado pela suposta prática do crime de lavagem de 
capitais, em razão de haver transferido dinheiro oriundode tráfico de drogas da Suíça 
para o Brasil, utilizando-se de contrato de fachada para dar aparência de licitude aos ativos 
em solo brasileiro. No caso, o paciente já teria sido processado e julgado na Suíça pelos 
mesmos fatos, o que culminou em condenação transitada em julgado e cômputo de 
período de encarceramento de caráter preventivo como execução antecipada da pena 
naquele Estado. De acordo com o Superior Tribunal de Justiça, o fato de o crime também 
ter sido cometido no Brasil, uma vez que a execução e os efeitos da lavagem de dinheiro 
ocorreram em território nacional, permite a persecução penal pela justiça brasileira, 
independentemente de outra condenação no exterior. Dessa forma, adota-se o princípio 
da territorialidade, nos termos do art. 5º do Código Penal (CP) (1), segundo o qual aplica-
se a lei brasileira a qualquer crime cometido no Brasil. Inicialmente, a Turma reconheceu 
que os fatos apreciados pela justiça brasileira são coincidentes com os já analisados pelo 
Estado suíço. Ademais, apontou que a redação do art. 5º do CP contém a ressalva de que 
devem ser observados convenções, tratados e regras de direito internacional. Desse modo, 
deve-se cotejar a redação dos arts. 5º, 6º e 8º do CP com o que dispõe a Lei 
13.445/2017 (Lei de Migração), a qual elenca o rol de casos em que o Estado 
brasileiro não concede extradição, notadamente o disposto no art. 82, V. O art. 100, 
caput, do mesmo diploma legal exige a observância do princípio do ne bis in idem. A 
proteção ao indivíduo selada por esses dispositivos é muito cara ao direito brasileiro. 
Revela-se evidente garantia contra nova persecução penal pelos mesmos fatos, de 
modo a se consagrar a proibição de dupla persecução penal também entre países, no 
âmbito internacional. Por outro lado, de acordo com a jurisprudência do Supremo 
Tribunal Federal (STF), assentou-se o status normativo supralegal aos tratados 
internacionais de direitos humanos, ou seja, abaixo da Constituição, mas acima das 
leis infraconstitucionais. Portanto, consagrou-se que o controle de 
convencionalidade pode ser realizado sobre as leis infraconstitucionais. Assim, o CP 
deve ser aplicado em conformidade com os direitos assegurados na Convenção 
Americana de Direitos Humanos e com o Pacto Internacional de Direitos Civis e 
 
58 
 
Políticos. Em relação à proibição de dupla persecução penal, tais diplomas o fazem 
de forma expressa (CADH, art. 8.4; PIDCP, art. 14.7). O STF já teve a oportunidade 
de se manifestar a respeito dessas regras, e, ao fazê-lo obstou o prosseguimento de 
processo penal quanto a fatos já julgados por jurisdição diversa (Ext 1.223). Assim, O 
EXERCÍCIO DO CONTROLE DE CONVENCIONALIDADE, TENDO POR 
PARADIGMAS OS DISPOSITIVOS DO ART. 14.7, DO PACTO 
INTERNACIONAL SOBRE DIREITOS CIVIS E POLÍTICOS E DO ART. 8.4, DA 
CONVENÇÃO AMERICANA DE DIREITOS HUMANOS, DETERMINA A 
VEDAÇÃO À DUPLA PERSECUÇÃO PENAL, AINDA QUE EM JURISDIÇÕES 
DE PAÍSES DISTINTOS. Por sua vez, o art. 8º do CP deve ser lido em conformidade 
com os preceitos convencionais e a jurisprudência da Corte Interamericana de Direitos 
Humanos (CIDH), vedando-se a dupla persecução penal por idênticos fatos. Por fim, a 
vedação à dupla persecução penal em âmbito internacional deve ser ponderada com a 
soberania dos Estados e com as obrigações processuais positivas impostas pela CIDH. 
Em casos de violação de tais deveres de investigação e persecução efetiva, o julgamento 
em país estrangeiro pode ser considerado ilegítimo, como em precedentes em que a 
própria CIDH determinou a reabertura de investigações em processos de Estados que não 
verificaram devidamente situações de violações de direitos humanos. Portanto, se houver 
a devida comprovação de que o julgamento em outro país sobre os mesmos fatos não 
se realizou de modo justo e legítimo, desrespeitando obrigações processuais 
positivas, a vedação de dupla persecução pode ser eventualmente ponderada para 
complementação em persecução interna. Contudo, neste caso concreto, não há 
qualquer elemento que indique dúvida sobre a legitimidade da persecução penal e da 
punição imposta em processo penal na Suíça por idênticos fatos ao agora denunciado no 
Brasil. Dessa forma, a proibição de dupla persecução deve ser respeitada de modo 
integral, nos termos constitucionais e convencionais 
2) Aplicabilidade do princípio do ne bis in idem na dosimetria penal 
O Pleno do STF, em sede de repercussão geral, no ARE 666334, DJ 06/05/2014, 
assentou a seguinte tese: “as circunstâncias da natureza e da quantidade da droga 
apreendida devem ser levadas em consideração apenas em uma das fases do cálculo de 
pena”. Com efeito, a partir de uma compreensão ampliada do princípio do ne bis in idem 
 
59 
 
(art. 8º, 4, Pacto de São José da Costa Rica), não restrito à impossibilidade das 
persecuções penais múltiplas, desenvolveu-se uma das mais relevantes funções no direito 
penal constitucional: balizar a individualização da pena, com vistas a impedir mais de 
uma punição individual pelo mesmo fato em momentos diversos do sistema trifásico 
adotado pelo Código Penal. Diante disso, o Pleno decidiu que os critérios previstos no 
art. 42 da Lei 11.343/06 não podem ser utilizados para exasperar a pena-base e influenciar 
na fração adotada por ocasião da minorante do art. 33, § 4º, da Lei 11.343/06, mas caberá 
ao magistrado, alternativamente e com vistas ao princípio da individualização da pena, 
fazer com que tais circunstâncias recaiam na primeira ou na terceira fase da dosimetria 
penal (juízo de discricionariedade juridicamente vinculada). 
Súmula 241 do STJ: A reincidência penal não pode ser considerada como 
circunstância agravante e, simultaneamente, como circunstância judicial. 
3) Aplicabilidade do princípio do ne bis in idem na execução penal 
 Súmula 493 do STJ: É inadmissível a fixação de pena substitutiva (CP, art. 44) 
como condição especial ao regime aberto.de 1 a 3 anos, e 
multa). 
RESUMO 
É inconstitucional a cominação da pena em abstrato atualmente 
prevista no art. 273 do Código Penal (CP) — reclusão, de dez a 
quinze anos, e multa — para a importação de medicamentos sem 
registro no órgão de vigilância sanitária competente, conduta 
tipificada no art. 273, § 1º-B, I, do CP. O vício decorre da ofensa 
à vedação de penas cruéis e da afronta a princípios 
constitucionais, como o da proporcionalidade e o da 
individualização da pena. Presente contexto de clamor público, 
houve a modificação do art. 273 do CP pela Lei 9.677/1998 (Lei 
dos Remédios), inclusive com a criação de figuras delitivas. 
Atualmente, o CP equipara situações de fato bastante distintas 
 
5 
 
quanto à conduta e as consequências potenciais. Nesse sentido, 
pune-se a mera importação e comercialização de medicamento 
sem registro sanitário com as mesmas penas da falsificação ou da 
adulteração de medicamentos. Ocorre que, se a norma trata com 
idêntica gravidade situações de reprovabilidade diversas, não 
há individualização da pena. Impende registrar que o princípio 
da proporcionalidade proíbe a proteção deficiente e também o 
excesso. A respeito do comportamento em debate, a pena mínima 
é maior do que aquela prevista para o estupro de vulnerável, a 
extorsão mediante sequestro e a tortura seguida de morte. Em 
matéria penal, a proporcionalidade deve levar em conta a 
importância do bem jurídico tutelado, o grau de afetação do 
bem jurídico, o elemento subjetivo e a forma de participação 
do agente no delito. Dessa maneira, é evidente a 
desproporcionalidade do preceito secundário impugnado 
considerada a conduta específica de importar medicação sem 
registro sanitário. Agrega-se não serem admitidas penas cruéis 
e incomuns. Aplicam-se os efeitos repristinatórios da 
declaração de inconstitucionalidade, com o retorno do preceito 
secundário do art. 273 do CP em sua redação original — reclusão, 
de um a três anos, e multa — na hipótese de importação de 
medicamentos sem o mencionado registro. A sanção estipulada 
irá abarcar apenas a conduta delitiva de importar medicação 
sem registro, uma vez que não foi declarada a 
inconstitucionalidade de toda a alteração legislativa do art. 273 do 
CP. Ressalta-se que a objetividade jurídica defendida pelo 
aludido artigo — o bem jurídico tutelado — é a saúde pública. 
Além disso, embora possa parecer razoável, permitir a 
aplicação de norma secundária de tipo penal diverso pode 
gerar insegurança jurídica. Na espécie, trata-se de dois recursos 
extraordinários. Um deles interposto pelo Ministério Público e o 
outro, pelo réu, que foi condenado por haver importado 
irregularmente, e posto à venda, remédio sem o devido registro 
na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). No 
acórdão recorrido, o tribunal compreendeu ser inconstitucional o 
preceito secundário do tipo penal e aplicou sanção estabelecida 
para o delito de tráfico de drogas e minorante a ele 
correspondente. Ao apreciar o Tema 1003 da repercussão geral, o 
Plenário, por maioria e em conclusão de julgamento, negou 
provimento ao recurso extraordinário do Parquet e deu parcial 
provimento ao recurso do condenado, determinando o retorno do 
processo ao tribunal de origem para aplicação da tese jurídica 
fixada. Vencidos os ministros Edson Fachin, Luiz Fux e Marco 
Aurélio 
 
 
6 
 
ATENÇÃO: O Tribunal acolheu os embargos de declaração opostos pela 
Defensoria Pública da União, para estender os efeitos da declaração de 
inconstitucionalidade do preceito secundário do art. 273 do Código Penal, com redação 
dada pela Lei nº 9.677/98, aos demais núcleos típicos verbais a que se refere o art. 273, § 
1º-B, I, do Código Penal. Assim, em decisão publicada em 19.06.23, foi readequada a 
tese jurídica nos seguintes termos (tema 1.003 da repercussão geral): "É inconstitucional 
a aplicação do preceito secundário do art. 273 do Código Penal, com redação dada 
pela Lei nº 9.677/98 (reclusão, de 10 a 15 anos, e multa), à hipótese prevista no seu § 
1º-B, I, que versa sobre importar, vender, expor à venda, ter em depósito para vender 
ou, de qualquer forma, distribuir ou entregar produto sem registro no órgão de 
vigilância sanitária. Para estas situações específicas, fica repristinado o preceito 
secundário do art. 273, na sua redação originária (reclusão, de 1 a 3 anos, e multa)". 
- Fase judiciária/ proporcionalidade concreta: o princípio da proporcionalidade 
se manifesta na fase judiaria, principalmente quando da dosimetria da pena, encerrando 
um juízo de discricionariedade juridicamente vinculado, mas também auxiliando na 
interpretação dos tipos penais. 
Ex.: 1) STJ e STF: por força do princípio constitucional da proporcionalidade, 
condenação transitada em julgado pelo crime do art. 28 da Lei 11.343/06 não gera a 
reincidência caso praticado novo crime dentro do período depurador, porque o crime de 
porte de droga para consumo próprio é ontologicamente menos grave que as próprias 
contravenções penais. 2) STF, HC 123108, 123533 e 123734, j. 03/08/15: na hipótese de 
o juiz da causa considerar penal ou socialmente indesejável a aplicação do princípio da 
insignificância por furto, em situações em que tal enquadramento seja cogitável, eventual 
sanção privativa de liberdade deverá ser fixada, como regra geral, em regime inicial 
aberto, paralisando-se a incidência do art. 33, § 2º, c, do CP no caso concreto, com base 
no princípio da proporcionalidade. 
- Fase executória/ proporcionalidade concreta: 
Ex.: 3ª Seção do STJ, no REsp 1.977.135/SC, sob o rito dos recursos repetitivos 
(tema 1155), Inf. 758/22, decidiu que: 1. O período de recolhimento obrigatório 
noturno e nos dias de folga, por comprometer o status libertatis do acusado, deve ser 
reconhecido como período a ser detraído da pena privativa de liberdade e da medida 
 
7 
 
de segurança, em homenagem aos princípios da proporcionalidade e do non bis in 
idem. 2. O monitoramento eletrônico associado, atribuição do Estado, não é 
condição indeclinável para a detração dos períodos de submissão a essas medidas 
cautelares, não se justificando distinção de tratamento ao investigado ao qual não é 
determinado e disponibilizado o aparelhamento. 3. A soma das horas de 
recolhimento domiciliar a que o réu foi submetido devem ser convertidas em dias 
para contagem da detração da pena. Se no cômputo total remanescer período menor 
que vinte e quatro horas, essa fração de dia deverá ser desprezada. 
 
2) Parte da doutrina também tem considerado o princípio da proporcionalidade 
sob o enfoque da vedação de proteção deficiente: não se admite que um direito 
fundamental seja deficientemente protegido, seja mediante a eliminação de figuras 
típicas, seja pela cominação de penas que ficam aquém da importância exigida pelo bem 
que se quer proteger. Dentro desse contexto, fala-se em mandados constitucionais de 
criminalização, dirigidos ao legislador ordinário, para que criminalize algumas condutas 
ou estabeleça um tratamento penal mais recrudescido, como no caso dos incisos XLI, 
XLII, XLIII e XLIV do art. 5º da CF. 
Nesse sentido, decisão do STF na ADO 26, j. 06/10/2020: Até que sobrevenha 
lei emanada do Congresso Nacional destinada a implementar os mandados de 
criminalização definidos nos incisos XLI e XLII do art. 5º da Constituição da 
República, as condutas homofóbicas e transfóbicas, reais ou supostas, que envolvem 
aversão odiosa à orientação sexual ou à identidade de gênero de alguém, por traduzirem 
expressões de racismo, compreendido este em sua dimensão social, ajustam-se, por 
identidade de razão e mediante adequação típica, aos preceitos primários de incriminação 
definidos na Lei nº 7.716, de 08/01/1989, constituindo, também, na hipótese de homicídio 
doloso, circunstância que o qualifica, por configurar motivo torpe (Código Penal, art. 121, 
§ 2º, I, “in fine”). 
Também o STJfez alusão à proibição de proteção deficiente e à existência de um 
mandado constitucional de criminalização no art. 227, § 4º, da CF, no Inf. 740/22, 
decisão 3ª Seção do STJ, em sede de recurso repetitivo, tema 1121: Presente o dolo 
específico de satisfazer à lascívia, própria ou de terceiro, a prática de ato libidinoso 
 
8 
 
com menor de 14 anos configura o crime de estupro de vulnerável (art. 217-A do 
CP), independentemente da ligeireza ou da superficialidade da conduta, não sendo 
possível a desclassificação para o delito de importunação sexual (art. 215-A do CP). 
Em alguns precedentes, ressaltou-se até mesmo que o delito prescinde inclusive de 
contato físico entre vítima e agressor. A pretensão de se desclassificar a conduta de violar 
a dignidade sexual de pessoa menor de 14 anos para uma contravenção penal (punida, no 
máximo, com pena de prisão simples) já foi reiteradamente rechaçada pela jurisprudência 
desta Corte. A superveniência do art. 215-A do CP (crime de importunação sexual) trouxe 
novamente a discussão à tona, mas o conflito aparente de normas é resolvido pelo 
princípio da especialidade do art. 217-A do CP, que possui o elemento especializante 
"menor de 14 anos", e também pelo princípio da subsidiariedade expressa do art. 215-A 
do CP, conforme se verifica de seu preceito secundário in fine. Ao contrário do que ocorre 
no cotejo entre os arts. 213 e 215-A, ambos do CP, o constrangimento não é elemento 
especializante do estupro de vulnerável, mas o fator especializante do art. 217-A do CP, 
na sistemática da Lei n. 12.015/2009, é simplesmente a idade da vítima: "vítima menor 
de 14 (catorze) anos". Desclassificar a prática de ato libidinoso com pessoa menor de 14 
anos para o delito do art. 215-A do CP, crime de médio potencial ofensivo que admite a 
suspensão condicional do processo, desrespeitaria ao mandamento constitucional de 
criminalização do art. 227, §4º, da CRFB, que determina a punição severa do abuso ou 
exploração sexual de crianças e adolescentes. Haveria também descumprimento a 
tratados internacionais. O art. 19 da Convenção Internacional sobre os Direitos da Criança 
é peremptório ao impor aos Estados a adoção de medidas legislativas, administrativas, 
sociais e educacionais apropriadas para proteger a criança contra "todas" as formas de 
abuso. Em verdade, a subsunção no art. 217-A do CP prestigia o princípio da 
proporcionalidade, notadamente no aspecto da proibição da proteção insuficiente, bem 
como o princípio da proteção integral, conforme visto. 
Críticas ao enfoque da proteção deficiente para o princípio da proporcionalidade: 
- violação ao princípio da legalidade penal, em especial no que tange à reserva 
absoluta. 
- dissocia-se da concepção limitadora da teoria do bem jurídico 
 
9 
 
* Juarez Tavares defende uma posição crítica e estritamente limitadora do bem 
jurídico, definido como “um valor que se incorpora à norma como um objeto de 
preferência real e constitui, portanto, o elemento primário da estrutura do tipo, ao qual se 
devem referir a ação típica e todos os seus demais componentes.” E este valor deve estar 
vinculado à proteção da pessoa humana. Assim, para Tavares, o bem jurídico exerce dois 
papéis fundamentais: 
1 - condiciona a validade da norma penal incriminadora (são inválidas normas 
incriminadoras sem referência direta a qualquer bem jurídico, compreendido enquanto 
um valor e que visa a proteção da pessoa humana, não se vinculando a finalidades 
políticas de segurança); e 
2 - subordina sua eficácia à demonstração de que tenha sido lesado ou posto em 
perigo (não há crime sem resultado normativo, ou seja, sem que verificado efetivo dano 
ou perigo de lesão ao bem jurídico). 
* Já para uma concepção fundamentadora, a ideia de proteção ao bem jurídico 
consubstancia forma de legitimação da incriminação, já que o Direito Penal se destinaria 
à tutela dos bens jurídicos, que devem estar em compasso axiológico com a Constituição. 
 
PRINCÍPIO DA LEGALIDADE PENAL 
 
Art. 5º, XXXIX, da CF, e art. 1º do CP 
Nullum crimen, nulla poena sine lege (Feuerbach): 
- Scripta: a lei penal deve ser escrita e, pela reserva absoluta, deve emanar do 
Congresso Nacional. 
X decretos, resoluções, medidas provisórias (art. 62, § 1º, I, b, da CF – como 
ressalva, a vedação de medida provisória em matéria penal não abrange as normas penais 
benéficas, conforme decidiu o STF no RE 254.818). Inconstitucionalidade formal. 
Discussão quanto à constitucionalidade das leis penais em branco heterólogas. 
O costume não é admitido para criação ou agravamento de crimes e penas. 
- Stricta: a analogia in malam partem é proibida. Ex.: 1) art. 158, § 2º, do CP, 
deixou de ser hediondo por ter sido suprimido do rol taxativo do art. 1º da Lei 8.072/90 
X Rogério Sanches sustenta que permanece hediondo sob a alegação de se tratar de 
 
10 
 
interpretação extensiva. 2) 6ª Turma do STJ, Inf. 678/20: o requisito “não ter integrado 
organização criminosa”, incluso no inciso V do § 3º do art. 112 da LEP, para progressão 
de regime da mulher gestante, mãe ou responsável por criança ou pessoa com deficiência, 
deve ser interpretado de acordo com a definição de organização criminosa da Lei 
12.850/2013. No mesmo sentido, 2ª Turma do STF, HC 183.610, j. 19.10.21, e 5ª Turma 
do STJ, HC 679.715, j. 26.10.21, afirmando que o crime de organização criminosa (Lei 
12.850/2013) tem definição autônoma e limites próprios, não sendo intercambiável com 
o delito de associação criminosa (art. 288 do CP) ou mesmo associação para o tráfico (art. 
35 da Lei 11.343/2006), de modo que, em prol da legalidade, da taxatividade e do favor 
rei, a interpretação do art. 112, §3°,V da LEP deve se dar de modo restritivo. 
* 5ª Turma do STJ, Inf. 788/23: Somente configura o crime de constituição de 
milícia privada se a atuação do grupo criminoso se restringe aos delitos previstos no 
Código Penal. INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR A controvérsia está em definir se 
somente configura o crime de milícia privada se o grupo praticar exclusivamente delitos 
previstos no Código Penal. Na hipótese, o Tribunal estadual desclassificou o crime de 
constituição de milícia privada (art. 288-A do CP) para o delito de associação criminosa 
armada (art. 288, parágrafo único, do CP), mais favorável ao réus, em razão de o grupo 
criminoso não ter se limitado a praticar somente os delitos dispostos no Código Penal, 
destacando que também praticavam outros crimes previstos em legislação extravagante, 
notadamente o porte ou posse ilegal de arma de fogo. Com efeito, comete o crime de 
constituição de milícia privada, nos termos do art. 288-A do Código Penal, quem 
"Constituir, organizar, integrar, manter ou custear organização paramilitar, milícia 
particular, grupo ou esquadrão com a finalidade de praticar qualquer dos crimes previstos 
neste Código." Depreende-se da interpretação literal da norma acima descrita, que 
o legislador restringiu as hipóteses para a caracterização da milícia privada à 
prática dos crimes previstos no Código Penal. Desse modo, deve prevalecer a 
desclassificação para o delito de associação criminosa armada, pois a ampliação do 
alcance da norma disposta no art. 288-A do Código Penal, para incluir no âmbito de 
atuação do grupo criminoso os crimes previstos em legislação extravagante, não 
pode ser admitida, na medida em que a interpretação extensiva em prejuízo ao réu 
(in malam partem) é vedada no âmbito do direito penal. 
 
11 
 
 * 5ª Turma do STJ, Inf. 771/23: A receptação, em sua forma qualificada, 
demanda especial qualidade do sujeito ativo, que deve ser comerciante ou industrial. 
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR 
Para que se configure a modalidade qualificada no crime de 
receptação, há a exigência legal de que a prática de um dos verbos 
nucleares ocorra no exercício de atividade comercial ou 
industrial com efetiva habitualidade. 
A figura do § 1º doart. 180 do Código Penal foi introduzida para 
punir mais severamente os proprietários de "desmanches" de 
carros, exigindo-se ainda o exercício de atividade comercial ou 
industrial, devendo ser lembrado que o § 2º equipara à atividade 
comercial, para efeito de configuração da receptação qualificada, 
qualquer forma de comércio irregular ou clandestino, 
inclusive o exercido em residência, abrangendo, com isso, o 
"desmanche" ou "ferro-velho" caseiro, sem aparência de 
comércio legalizado (REsp 1.743.514/RS, relator Ministro Jorge 
Mussi, Quinta Turma, julgado em 14/8/2018, DJe 22/8/2018). 
O entendimento doutrinário, por sua vez, considera que a 
expressão "no exercício de atividade comercial ou industrial" 
pressupõe habitualidade no exercício do comércio ou da 
indústria, pois é sabido que a atividade comercial (em sentido 
amplo) não se aperfeiçoa com um único ato, sem continuidade no 
tempo. 
No caso, as instâncias consignaram a demonstração de que as 
peças retiradas dos carros furtados/roubados seriam vendidas no 
estabelecimento comercial do acusado. Porém, com relação aos 
outros réus, não se comprovou o exercício da atividade comercial 
prestado de forma habitual, atraindo, quanto a eles, a 
desclassificação do crime qualificado para receptação simples 
(art. 180, caput, do CP). 
 
 * 3ª Seção do STJ, Inf. 768/23: Não se enquadra como dano qualificado a 
lesão a bens das entidades não previstas expressamente no rol do art. 163, parágrafo 
único, inciso III, do Código Penal, em sua redação originária - anterior à alteração 
legislativa promovida pela Lei n. 13.531/2017 -, em razão da vedação da analogia in 
malam partem no sistema penal brasileiro. No caso, o crime imputado de dano 
qualificado decorre de avarias a um imóvel pertencente à Caixa Econômica Federal - 
CEF, empresa pública. Não se trata da utilização da técnica da interpretação extensiva 
para ampliar a vontade do legislador, consoante concluído no aresto embargado, mas 
ausência de expressa previsão legal a respeito do enquadramento do patrimônio das 
empresas públicas no rol dos entes dispostos na redação originária do art. 163, parágrafo 
 
12 
 
único, III, do CP. Assim, qualificar o dano praticado em detrimento dos bens da referida 
entidade seria hipótese de aplicação da analogia in malam partem, não admitida no direito 
penal. Desse modo, deve prevalecer o entendimento da Quinta Turma desta Corte, no 
sentido da impossibilidade de se enquadrar como dano qualificado a lesão a bens das 
entidades não previstas expressamente no rol do art. 163, parágrafo único, inciso III, do 
Código Penal, em sua redação originária, haja vista a vedação da analogia in malam 
partem no sistema penal brasileiro. 
- Certa: é proibida a incriminação vaga, que pode ocorrer pela ocultação do núcleo 
do tipo, pela ausência de precisão semântica dos elementos do tipo e pelas tipificações 
abertas e exemplificativas. Exigência de taxatividade/ determinação da lei penal. Ex.: art. 
288-A do CP; art. 50, I, e 118, § 1º, da LEP; tráfico de drogas e de armas com o agente 
disfarçado (art. 33, § 1º, IV, da Lei 11.343/06, e arts. 17, § 2º, e 18, parágrafo único, da 
Lei 10.826/03, inseridos pela Lei 13.964/19). 
- Praevia: irretroatividade da lei penal (art. 5º, XL, da CF e art. 2º do CP), com 
ressalva para a retroatividade mais benéfica. 
 
APLICAÇÃO DA LEI NO TEMPO 
 
 1) Alterações legislativas recentes de destaque 
 É importante que o candidato dê um enfoque especial para as alterações 
legislativas mais recentes, com especial atenção para as regras de direito intertemporal, 
que variarão conforme se trate de norma de natureza penal ou híbrida (processual com 
reflexos no direito material), ou de norma de caráter processual. 
 Destaques: 
 - Lei nº 14.532/23: alterações no crime de injúria racial e na Lei de Crime Racial. 
 - Lei nº 14.562/23: alteração no crime de adulteração de sinal identificador de 
veículo (art. 311 do CP). 
 - Lei nº 14.344/22 (Lei Henry Borel): criou mecanismos para a prevenção e o 
enfrentamento da violência doméstica e familiar contra a criança e o adolescente, 
inclusive com a previsão de novos tipos penais de descumprimento de medida protetiva 
e de omissão de comunicação de violência a autoridade pública. Além disso, efetuou 
 
13 
 
diversas alterações legislativas em outros diplomas legais, valendo salientar as alterações 
no termo inicial da prescrição, no tipo penal do homicídio e na lei de crime de hediondos, 
no art. 226 do ECA, dentre outras. 
 - Lei nº 14.188/21: destaque para a qualificadora do art. 129, § 13, do CP, no 
caso de lesão corporal simples cometida contra a mulher por razões da condição do sexo 
feminino, e para a previsão do tipo penal de violência psicológica contra a mulher (art. 
147-B do CP). 
 - Lei nº 14.132/21: inseriu o tipo penal de stalking. 
 - Lei nº 14.155/21: alterações nos crimes de violação de dispositivo informático 
(art. 154-A do CP), de furto e estelionato (art. 155, § 4º-B e § 4º-C, e art. 171, § 2º-A, § 
2º-B, § 4º, do CP) e na competência modalidades de estelionato (art. 70, § 4º, do CPP). * 
A regra da ação penal no crime de estelionato foi alterada pela Lei nº 13.964/19 (Lei 
Anticrime). 
 - Lei nº 14.245/21 (Lei Mariana Ferrer): inseriu majorante no crime de coação no 
curso do processo (art. 344, p. único, do CP), bem como vedação a atitudes de 
revitimização nos procedimentos ordinário, sumário e sumaríssimo (arts. 400-A e 471-A 
do CPP e art. 81, § 1º-A, da Lei 9.099/95). 
 - Lei nº 13.869/19: crimes de abuso de autoridade, com destaque para a inserção 
do tipo penal de violência institucional no art. 15-A pela Lei nº 14.321/22. 
 - Lei nº 14.197/21: inseriu no título XII da parte especial do CP os crimes contra 
o Estado Democrático de Direito, revogando a Lei de Segurança Nacional, e inseriu 
modalidade específica de incitação ao crime no art. 286, p. único, do CP. 
 - Lei nº 14.110/20: alterou o crime de denunciação caluniosa (art. 339 do CP) 
 - Lei nº 13.968/19: alterou o crime de induzimento, instigação ou auxílio a 
suicídio, bem como à automutilação (art. 122 do CP). 
 - Lei nº 13.964/19 (Lei Anticrime) 
 
2) Sucessão de leis penais no tempo: EXTRA-ATIVIDADE DA LEI PENAL 
MAIS FAVORÁVEL (lex mitior) 
A lei permanece em vigor até que outra posterior a modifique ou revogue. A 
revogação da lei em vigor pode ser total, também chamada de ab-rogação, ou parcial, isto 
 
14 
 
é, derrogação. Pode, ainda, a revogação ser expressa, quando assim declarada pela lei 
posterior, ou tácita, quando a lei nova for incompatível com a lei anterior ou quando 
regular inteiramente a matéria que esta tratava. Como exceção, as leis temporárias e 
excepcionais (leis intermitentes) são automaticamente revogadas. 
No âmbito da aplicação da lei penal no tempo, temos: 1) Atividade da lei penal: 
se refere à aplicação da lei penal durante o seu período de vigência; 2) Extra-atividade da 
lei penal: se refere à aplicação da lei penal fora do seu período de vigência. Espécies: 
retroatividade (aplicação da lei penal para alcançar atos praticados anteriormente à sua 
vigência) e ultratividade (aplicação da lei penal para frente, ainda que cessada a sua 
vigência, para alcançar atos praticados durante a sua vigência). 
A regra que orienta a extra-atividade da lei penal, no caso de sucessão de leis de 
natureza penal no tempo, se encontra no art. 5º, XXXIX e XL, da CF, e no art. 2º do CP: 
princípio da irretroatividade da lei penal mais gravosa (acarreta a ultratividade da 
lei penal mais benéfica) e princípio da retroatividade da lei benéfica, ou seja, 
EXTRA-ATIVIDADE DA LEX MITIOR, o que decorre da consagração do princípio 
da legalidade penal. 
Atenção: a análise da lei penal mais benéfica, no caso de sucessão de leis no 
tempo, deve levar em consideração o tempo do crime. Art. 4º do CP: Considera-se 
praticado o crime no momento da ação ou omissão,ainda que outro seja o momento do 
resultado. Adoção da teoria da atividade. 
Sendo assim: 
- as alterações legislativas que importem em criminalização de conduta (novatio 
legis incriminadora – ex.: novos tipos penais de tráfico de drogas e de armas com o 
agente policial disfarçado) ou que prejudiquem o acusado de qualquer forma (novatio 
legis in pejus – ex.: inclusão do delito de roubo circunstanciado pelo emprego de arma 
de fogo no rol de crimes hediondos; previsão de novas hipóteses de vedação ao livramento 
condicional nos casos de crimes hediondos ou equiparados com resultado morte; inserção 
da causa suspensiva da prescrição no art. 116, inciso VI do CP, inserida pela Lei 
Anticirme, que não poderá se aplicar ao ANPP firmado com arrimo na Resolução 181 e 
183 do CNMP) só serão aplicadas aos fatos praticados a partir da entrada em vigor da lei 
(princípio da irretroatividade da lei penal mais gravosa). Nesse ponto, teremos a 
 
15 
 
ultratividade da lei anterior mais benéfica, que continuará regendo os fatos praticados 
durante a sua vigência. 
- as alterações legislativas que importem em descriminalização de conduta 
(abolitio criminis – ex.: (1) a revogação dos delitos de adultério, sedução e rapto 
consensual (Lei nº 11.106/2005); (2) descriminalização formal da posse ou porte de 
munição de uso proibido pela Lei Anticrime no art. 16 da Lei 10.826/03) ou que 
beneficiem o acusado de qualquer forma (novatio legis in mellius – ex.: exclusão de um 
delito do rol de crimes hediondos; previsão de requisito temporal mais benéfico para 
progressão de regime) deverão ser aplicadas retroativamente aos fatos praticados antes 
mesmo da entrada em vigor da lei (princípio da retroatividade da lei penal mais 
benéfica). 
* A aplicação retroativa da lei penal mais benéfica consiste em matéria de ordem 
pública e, portanto, cognoscível pelo juiz a qualquer tempo, independentemente de 
provocação da parte. Dessa forma, nos casos em que a mudança legislativa ocorrer 
estando o processo ainda em curso, certo é que a lei nova deverá ser aplicada pelo juiz do 
conhecimento, em qualquer grau de jurisdição. Outrossim, mesmo as condenações já 
transitadas em julgado são alcançadas pelo princípio constitucional da retroatividade da 
lei penal mais benéfica. Nesse caso, mostra-se desnecessário o manejo de revisão 
criminal, bastando a apresentação de simples petição ao juízo da execução penal, uma vez 
que o art. 66, I, da LEP, c/c Súmula 611 do STF preveem ser da competência do juízo 
da execução penal aplicar a lei posterior mais benéfica às condenações já transitadas 
em julgados. Parte da doutrina (Rogério Sanches) ressalva a necessidade de ajuizamento 
de revisão criminal apenas se for necessário juízo de valor para aplicação da lei nova mais 
favorável. 
 
 2.1) Estelionato contra idoso ou vulnerável (majorante) 
Art. 171, § 4º, com redação alterada pela Lei 14.155/21: A pena aumenta-se de 
1/3 (um terço) ao dobro, se o crime é cometido contra idoso ou vulnerável, considerada a 
relevância do resultado gravoso. 
* Antes, o dispositivo previa que a pena se aumentava em dobro se o crime for 
cometido contra idoso. 
 
16 
 
* Novatio legis in mellius em relação ao estelionato contra idoso (aqui, utiliza-se 
o referencial do Estatuto da Pessoa Idosa, ou seja, pessoa com idade igual ou superior a 
60 anos). 
* Novatio legis in pejus em relação ao estelionato contra vulnerável. 
 
2.2) Estelionato qualificado pela fraude eletrônica 
Inserido pela Lei 14.155/21. Novatio legis in pejus. 
Art. 171, § 2º-A (qualificadora): A pena é de reclusão, de 4 (quatro) a 8 (oito) 
anos, e multa, se a fraude é cometida com a utilização de informações fornecidas pela 
vítima ou por terceiro induzido a erro por meio de redes sociais, contatos telefônicos 
ou envio de correio eletrônico fraudulento, ou por qualquer outro meio fraudulento 
análogo. 
* Exige um atuar positivo da vítima ou do terceiro. Ex.: golpe do e-mail pedindo 
informações, golpe da página eletrônica clonada em que a vítima insere os dados 
bancários, dados de cartão, golpe do telefonema simulando instituição financeira, golpe 
do whatsapp com foto de parente pedindo senha do cartão de crédito para fazer compras... 
Cuidado com os casos que caracterizarão, na verdade, furto mediante fraude eletrônica. 
* Note-se que a fraude eletrônica deve ser o meio pelo qual o agente induz a vítima 
ou o terceiro em erro. Já na hipótese, por exemplo, em que a fraude que induziu a vítima 
em erro foi praticada presencialmente, fazendo com que a vítima fizesse uma compra 
virtual (vantagem indevida), não se caracteriza a qualificadora. 
§ 2º-B (causa de aumento de pena). A pena prevista no § 2º-A deste artigo, 
considerada a relevância do resultado gravoso, aumenta-se de 1/3 (um terço) a 2/3 (dois 
terços), se o crime é praticado mediante a utilização de servidor mantido fora do 
território nacional. 
 
2.3) Furto qualificado pela fraude eletrônica 
Inserido pela Lei 14.155/21. Novatio legis in pejus. 
Art. 155, § 4º-B (qualificadora): A pena é de reclusão, de 4 (quatro) a 8 (oito) 
anos, e multa, se o furto mediante fraude é cometido por meio de dispositivo 
eletrônico ou informático, conectado ou não à rede de computadores, com ou sem a 
 
17 
 
violação de mecanismo de segurança ou a utilização de programa malicioso, ou por 
qualquer outro meio fraudulento análogo. 
* Para que se configure o delito de estelionato (art. 171 do Código Penal), é 
necessário que o agente, induza ou mantenha a vítima em erro, mediante artifício, ardil, 
ou qualquer outro meio fraudulento, de maneira que esta lhe entregue voluntariamente o 
bem ou a vantagem. Se não houve voluntariedade na entrega, o delito praticado é o de 
furto mediante fraude eletrônica (art. 155, § 4.º-B, do CP) (3ª Seção do STJ, CC 
181.538/SP, DJe 1º/9/2021). 
Ilustração da diferenciação por Rogério Sanches: 
a) Aproveitando a vulnerabilidade de pessoas que utilizam uma 
rede pública de internet, um hacker intercepta a conexão e obtém 
dados de acesso a contas bancárias. Com esses dados à 
disposição, acessa as contas e transfere quantias em dinheiro para 
outra conta da qual efetua saques. É um caso típico de furto 
mediante fraude, no qual a manobra ardilosa (interceptar os dados 
transmitidos entre o usuário e o ponto de conexão) é utilizada para 
que as vítimas sejam despojadas de seus bens sem que nada 
percebam. 
b) Pretendendo adquirir um televisor, um indivíduo faz uma 
pesquisa na internet e encontra a página de uma conhecida rede 
varejista na qual o produto está sendo anunciado por um preço 
muito abaixo das concorrentes. Insere seus dados pessoais e 
bancários sem saber que, na verdade, se trata de uma página 
clonada, que apenas copia os caracteres da famosa rede varejista, 
para induzir as pessoas em erro. Efetuado o pagamento, o dinheiro 
é creditado ao autor da fraude, que evidentemente não pretende 
entregar o produto anunciado. Nesse exemplo, ao contrário do 
anterior, a vítima tem participação direta, pois, induzida por um 
anúncio enganoso, fornece os dados para que o autor da fraude 
possa obter a vantagem. Trata-se, portanto, de estelionato. 
 
* Modalidade específica de furto mediante fraude, prevalecendo sobre o art. 155, 
§ 4º, II, CP. 
* Princípio da consunção: se o agente utiliza a invasão de dispositivo informático 
de uso alheio para cometer furto qualificado pelo emprego de fraude eletrônica, o art. 
154-A do CP é absorvido pelo furto. Atenção: com a alteração da Lei 14.155/21, não mais 
se exige que a invasão de dispositivo informático se dê através da violação de mecanismo 
de segurança (novatio legis in pejus). 
 
18 
 
Ex.: indivíduo invade o computador da vítima, instala um programa malicioso e 
consegue obter a sua senha bancária, subtraindo valores da conta; indivíduo intercepta a 
conexão de alguém que está utilizando uma rede pública de internete, com isso, obtém 
dados bancários e subtrai valor da conta da vítima; indivíduo saca valores da conta da 
vítima utilizando-se de cartão subtraído ou clonado. 
§ 4º-C (causa de aumento de pena) A pena prevista no § 4º-B deste artigo, 
considerada a relevância do resultado gravoso: 
I – aumenta-se de 1/3 (um terço) a 2/3 (dois terços), se o crime é praticado 
mediante a utilização de servidor mantido fora do território nacional; 
II – aumenta-se de 1/3 (um terço) ao dobro, se o crime é praticado contra idoso 
ou vulnerável. 
 
3) Sucessão de leis de natureza híbrida 
Em havendo sucessão de normas de natureza híbrida (processual-penal) no 
tempo, a regra aplicável também é a da EXTRA-ATIVIDADE DA LEI MAIS 
BENÉFICA, haja vista as consequências que a mudança legislativa acarreta para o 
exercício do poder punitivo e para o status libertatis do indivíduo. 
É o caso, por exemplo, das normas que versam sobre a natureza da ação penal e 
sobre o acordo de não persecução penal, que podem dar ensejo, conforme o caso, à 
extinção da punibilidade do agente. Tem-se discutido, atualmente, nesses casos, o alcance 
da retroatividade da norma processual com caráter material, devendo-se defender a 
máxima efetividade dos direitos fundamentais. 
 
3.1) Alteração na regra da ação penal no estelionato 
 
Redação anterior Redação atual 
Art. 171. 
 
Art. 182. Somente se procede mediante 
representação, se o crime previsto neste 
título é cometido em prejuízo: 
I - do cônjuge desquitado ou judicialmente 
separado; 
II - de irmão, legítimo ou ilegítimo; 
Art. 171. 
§ 5º Somente se procede mediante 
representação, salvo se a vítima for: 
(inserido pela Lei 13.964/19) 
I - a Administração Pública, direta ou 
indireta; 
II - criança ou adolescente; 
 
19 
 
III - de tio ou sobrinho, com quem o agente 
coabita. 
Art. 183. Não se aplica o disposto nos dois 
artigos anteriores: 
I - se o crime é de roubo ou de extorsão, ou, 
em geral, quando haja emprego de grave 
ameaça ou violência à pessoa; 
II - ao estranho que participa do crime. 
III - se o crime é praticado contra pessoa 
com idade igual ou superior a 60 (sessenta) 
anos. 
III - pessoa com deficiência mental; 
ou 
IV - maior de 70 (setenta) anos de 
idade ou incapaz. 
 
 A regra, no crime de estelionato, era a ação penal pública incondicionada, salvo 
art. 182 do CP. 
 Lei 13.964/19: a regra passou a ser de ação penal pública condicionada à 
REPRESENTAÇÃO, salvo as exceções ali contempladas. 
 * Norma de caráter híbrido e alcance do princípio da retroatividade da lei 
posterior mais benéfica (art. 5º, XL, da CF): 
 1) Para Rogério Sanches, i. Se a denúncia já foi ofertada, trata-se de ato jurídico 
perfeito, não sendo alcançado pela mudança legislativa; ii. se a denúncia ainda não foi 
oferecida, deve o MP aguardar a oportuna representação da vítima ou o decurso do prazo 
decadencial, cujo termo inicial, para os fatos pretéritos, é o da vigência da nova lei. 
 Nesse sentido, 3ª Seção do STJ, Inf. 691/21: A exigência de representação da 
vítima no crime de estelionato não retroage aos processos cuja denúncia já foi 
oferecida. Em relação ao aspecto material, tem-se que a irretroatividade do art. 171, §5º, 
do CP, decorre da própria mens legis, pois, mesmo podendo, o legislador previu apenas 
a condição de procedibilidade, nada dispondo sobre a condição de prosseguibilidade. 
Ademais, necessário ainda registrar a importância de se resguardar a segurança jurídica e 
o ato jurídico perfeito (art. 25 do CPP), quando já oferecida a denúncia. 
 1ª Turma do STF, Inf. 995/20: Não retroage a norma prevista no § 5º do art. 
171 do Código Penal, incluída pela Lei 13.964/2019 (“Pacote Anticrime”), que 
passou a exigir a representação da vítima como condição de procedibilidade para a 
instauração de ação penal, nas hipóteses em que o Ministério Público tiver oferecido 
a denúncia antes da entrada em vigor do novo diploma legal. 
X 
 
20 
 
 2) No HC 180421, Inf. 1023/21, a 2ª Turma do STF decidiu que a modificação 
da natureza da ação pública para ação penal condicionada à representação deve 
retroagir e ter aplicação mesmo em ações penais já iniciadas, sendo o caso de intimar 
a vítima para que diga se tem interesse no prosseguimento da ação, no prazo legal 
de 30 dias. Nessa esteira, precedente da 6ª Turma do STJ, Inf. 677/20: “A retroatividade 
da representação no crime de estelionato alcança todos os processos ainda não transitados 
em julgado”, que acabou, por ora, superado em razão da decisão da 3ª Seção do STJ. 
Nesse sentido, Enunciado 4 do CNPG: nas investigações e processos em curso, o 
ofendido ou seu representante legal será intimado para oferecer representação no prazo 
de 30 dias, sob pena de decadência. Trata-se de aplicação analógica do art. 91 da Lei 
9.099/95. 
 ATENÇÃO: O PLENO DO STF, no AgRg no HC 208.817/RJ, DJe 02/05/2023, 
em caso que a Lei Anticrime entrou em vigor após a deflagração da ação penal, decidiu 
que a exigência de representação do ofendido para o crime de estelionato é norma 
processual de caráter híbrido favorável ao acusado, sendo aplicável de forma 
retroativa (art. 5º, XL, da CF), haja vista a máxima efetividade dos direitos 
fundamentais, devendo a vítima ser intimada para exercer representação no prazo 
de 30 dias, sob pena de decadência. 
HABEAS CORPUS. CONSTITUCIONAL. PROCESSO 
PENAL. RETROATIVIDADE DO § 5º DO ART. 171, 
INCLUÍDO NO CÓDIGO PENAL PELA LEI N. 13.964/2019. 
ALTERAÇÃO DA NATUREZA DA AÇÃO PENAL PARA O 
CRIME DE ESTELIONATO COMUM. INCLUSÃO DE 
CONDIÇÃO DE PROCEDIBILIDADE. NORMA DE 
NATUREZA HÍBRIDA. RETROAÇÃO EM BENEFÍCIO 
DO ACUSADO. MÁXIMA EFETIVIDADE DOS DIREITOS 
FUNDAMENTAIS. INC. XL DO ART. 5º DA 
CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA. NECESSIDADE DE 
INTIMAÇÃO DA VÍTIMA PARA PROSSEGUIMENTO 
DA AÇÃO. PRECEDENTES. ORDEM CONCEDIDA. (STF, 
AgRg no HC 208.817/RJ, Rel. Min. CARMEN LÚCIA, 
PLENÁRIO, julgado em 13/04/2023, DJe 02/05/2023) 
 
 Inclusive, vale registrar que, no âmbito da 5ª Turma do STJ, já há um 
julgado que sinaliza a tendência do STJ em adotar a posição do STF sobre o tema (muito 
embora a 6ª Turma ainda esteja resistindo na uniformização da jurisprudência, o que 
 
21 
 
entendemos que é uma questão de tempo para reconhecer a superação e se filiar à posição 
do STF): 
AGRAVO REGIMENTAL NO HABEAS CORPUS. ART. 171, 
CAPUT, DO CP. LEI N. 13.964/2019 (PACOTE ANTICRIME).. 
REPRESENTAÇÃO. ART. 171, § 5º, DO CP. 
RETROATIVIDADE DA LEI NOVA. EXTINÇÃO DA 
PUNIBILIDADE. INVIABILIDADE. DIRETRIZ DA 
TERCEIRA SEÇÃO DO STJ. DENÚNCIA OFERECIDA EM 
MOMENTO ANTERIOR AO INÍCIO DA VIGÊNCIA DO 
REFERIDO DIPLOMA LEGAL. UNIFORMIZAÇÃO DA 
JURISPRUDÊNCIA PELO PLENÁRIO DO SUPREMO 
TRIBUNAL FEDERAL EM SENTIDO DIVERSO. 
ADEQUAÇÃO DA JURISPRUDÊNCIA DO TRIBUNAL DA 
CIDADANIA. POSSIBILIDADE. REPRESENTAÇÃO. AÇÃO 
PENAL PÚBLICA CONDICIONADA. DISPENSA DE 
FORMALIDADES. PRECEDENTES DO STJ. AGRAVO 
REGIMENTAL IMPROVIDO. 
1. Firmou-se a jurisprudência da Terceira Seção do Superior 
Tribunal de Justiça no sentido da inaplicabilidade da 
retroatividade do § 5º, do art. 171, do Código Penal, às hipóteses 
nas quais o Ministério Público tiver oferecido a denúncia antes da 
entrada em vigor da Lei n. 13.964/2019. Ato jurídico perfeito (HC 
610.201/SP, Rel. Ministro RIBEIRO DANTAS, Terceira Seção, 
julgado em 24/3/2021, DJe de 8/4/2021). 
2. Todavia, em recente decisão, o Plenário do Supremo 
Tribunal Federal uniformizou, por maioria, a interpretação 
da questão, em sentido inverso. Proclamou o Excelso Pretório 
a retroatividade da lei nova, mesmo após o recebimento da 
denúncia. A propósito: EMENTA: HABEAS CORPUS. 
CONSTITUCIONAL. PROCESSO PENAL. 
RETROATIVIDADE DO § 5º DO ART. 171, INCLUÍDO NO 
CÓDIGO PENAL PELA LEI N. 13.964/2019. ALTERAÇÃO 
DA NATUREZA DA AÇÃO PENAL PARA O CRIME DE 
ESTELIONATO COMUM. INCLUSÃO DE CONDIÇÃO DE 
PROCEDIBILIDADE. NORMA DE NATUREZA HÍBRIDA. 
RETROAÇÃO EM BENEFÍCIODO ACUSADO. MÁXIMA 
EFETIVIDADE DOS DIREITOS FUNDAMENTAIS. INC. XL 
DO ART. 5º DA CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA. 
NECESSIDADE DE INTIMAÇÃO DA VÍTIMA PARA 
PROSSEGUIMENTO DA AÇÃO. PRECEDENTES. ORDEM 
CONCEDIDA. (HC 208817 AgR, Relator(a): CÁRMEN 
LÚCIA, Tribunal Pleno, julgado em 13/04/2023, PROCESSO 
ELETRÔNICO DJe-s/n DIVULG 28-04-2023 PUBLIC 02-05-
2023). 
 
22 
 
3. Na hipótese dos autos, a denúncia foi recebida em 13/12/2019, 
antes, portanto, da entrada em vigor da Lei n. 13.964/2019, que 
ocorreu no dia 23/1/2020. De tal forma, o ato jurídico perfeito 
referente ao oferecimento e recebimento da denúncia em época 
na qual não era ainda exigida a representação da vítima não seria 
afetado pela entrada em vigor do Pacote Anticrime. Acontece que 
a orientação do STF consolidou-se em sentido diverso, caso não 
houvesse manifestação expressa da vítima na perspectiva da 
concreta apuração criminal dos fatos 4. No caso em tela, a Corte 
de origem destacou a demonstração inequívoca da parte 
interessada de que fosse apurada e processada a conduta ilícita. 
Logo, a decisão agravada deve ser mantida pela fundamentação 
subsidiária: comprovação do efetivo propósito da vítima quanto à 
investigação do delito de estelionato. 
5. A representação, nos crimes de ação penal pública 
condicionada, prescinde de formalidades. Dessa forma, pode ser 
depreendida do boletim de ocorrência e de declarações prestadas 
em juízo (AgRg no REsp 1.912.568/SP, Rel. Ministro Rogério 
Schietti Cruz, Sexta Turma, julgado em 20/4/2021, DJe 
30/4/2021). No mesmo diapasão: AgRg no RHC n. 168.517/PR, 
relator Ministro Reynaldo Soares da Fonseca, Quinta Turma, DJe 
de 10/10/2022; AgRg no HC n. 731.395/MS, relator Ministro Joel 
Ilan Paciornik, Quinta Turma, julgado em 17/4/2023, DJe de 
19/4/2023 e AgRg no RHC n. 156.133/CE, relatora Ministra 
Laurita Vaz, Sexta Turma, julgado em 27/3/2023, DJe de 
31/3/2023 6. Agravo regimental improvido, com base na 
fundamentação subsidiária da decisão impugnada. 
(5ª Turma do STJ, AgRg no HC 817678 / SP, DJe 17/05/2023) 
 
ATENÇÃO: a 2ª Turma do STF (RHC 215.032/SC, DJe 10/03/2023; ARE 
1.385.977/SP, DJe 18/11/2022) tem considerado que o comparecimento da vítima em 
Delegacia ou em Juízo para prestar declarações não traduz, necessariamente, 
manifestação de vontade inequívoca de representar criminalmente contra o 
acusado. Conforme assentado, vítimas, assim como testemunhas, são intimadas a 
comparecer na fase inquisitorial ou processual, sob pena de sofrer sanções processuais 
(arts. 201, § 1º e 224, do CPP). Assim, nos casos em que sobreveio a Lei n. 13.964/2019 
no curso da ação penal, não havendo inequívoca manifestação de vontade da vítima no 
sentido do interesse na persecução criminal, cumpre intimar a pessoa ofendida para 
oferecer representação no prazo de 30 dias, sob pena de decadência, nos moldes do 
 
23 
 
previsto no art. 91 da Lei 9.099/95, aplicado por analogia ao procedimento comum 
ordinário, consoante o art. 3º do CPP. 
* No STJ, a 3ª Seção acolheu a proposta de afetação dos REsps 1.923.354/SC e 
1.930.192/SP ao rito dos recursos repetitivos (tema 1138), a fim de uniformizar o 
entendimento a respeito da seguinte controvérsia: retroatividade ou não da Lei n. 
13.964/2019 (Pacote Anticrime), relativamente à natureza jurídica da ação penal no delito 
de estelionato (art. 171 do Código Penal), a qual outrora era pública incondicionada e, 
atualmente, passou a exigir a representação da vítima, como condição de procedibilidade, 
tornando-se, assim, ação pública condicionada à representação. Inclusive, houve a 
habilitação do Grupo de Atuação Estratégica das Defensorias Públicas Estaduais e 
Distrital nos tribunais superiores como amicus curiae. 
 
* EXCEÇÕES: a ação penal no estelionato será PÚBLICA 
INCONDICIONADA nas seguintes hipóteses: 
I - a Administração Pública, direta ou indireta; 
II - criança ou adolescente; 
III - pessoa com deficiência mental; ou 
IV - maior de 70 anos de idade ou incapaz. 
Note-se que a ação penal será pública condicionada à representação mesmo que a 
vítima seja pessoa idosa (de acordo com o Estatuto da Pessoa Idosa, idoso é a pessoa com 
idade igual ou superior a 60 anos), a menos que seja maior de 70 anos (quando, aí sim, 
será pública incondicionada). 
 
4) Sucessão de leis de natureza processual 
Por fim, no caso de sucessão de leis de natureza processual no tempo, o 
ordenamento jurídico brasileiro adota o princípio tempus regit actum (art. 2º do CPP), de 
forma que a alteração legislativa tenha aplicabilidade imediata, ressalvados os atos 
processuais já praticados. Trata-se do sistema do isolamento dos atos processuais. Ex.: 
alterações nas regras de competência. 
 
 
24 
 
4.1) Alteração na regra de competência em relação a hipóteses específicas de 
estelionato 
 ANTES da Lei 14.155/21: Inf. 663/20, 3ª Seção do STJ: Quanto ao delito de 
estelionato (tipificado no art. 171, caput, do Código Penal), a 3ª Seção do STJ havia 
pacificado o entendimento de que a consumação ocorre no lugar onde aconteceu o efetivo 
prejuízo à vítima (Inf. 663/20), critério este estabelecido para definição da competência 
territorial. Assim, distinguia-se entre a hipótese de estelionato mediante depósito de 
cheque clonado ou adulterado (competência do Juízo do local onde a vítima mantém conta 
bancária), daquela na qual a vítima é induzida a efetivar depósito ou transferência 
bancária em prol do beneficiário da fraude (competência do Juízo onde situada a agência 
bancária beneficiária do depósito ou transferência). Ademais, as Súmulas 521 do STF e 
244 do STJ estabeleciam que compete ao foro do local da recusa processar e julgar o 
crime de estelionato mediante cheque sem provisão de fundos. 
Art. 70, § 4º, do CPP, inserido pela Lei 14.155/21: Nos crimes previstos no art. 
171 do CP, quando praticados mediante depósito, mediante emissão de cheques sem 
suficiente provisão de fundos em poder do sacado ou com o pagamento frustrado ou 
mediante transferência de valores, a competência será definida pelo LOCAL DO 
DOMICÍLIO DA VÍTIMA, e, em caso de pluralidade de vítimas, a competência firmar-
se-á pela prevenção. 
Trata-se de exceção ao art. 70, caput, do CPP, que estabelece que a competência 
territorial será, de regra, determinada pelo lugar em que se consumar a infração (teoria do 
resultado). 
Hipóteses legais de competência pelo local de domicílio da vítima no estelionato: 
1) A vítima é induzida a erro, mediante meio fraudulento, a efetivar depósito ou 
transferência bancária em prol do beneficiário da fraude (art. 171, caput ou § 2º-A, CP - 
ex.: depósito ou transferência em razão da falsa oferta de produto, em razão de golpe do 
whatsapp, dentre outros) 
2) O estelionatário emite cheque sem fundos ou lhe frustra o pagamento para 
induzir a vítima em erro (art. 171, § 2º, VI, do CP) 
* Superação das Súmulas 521 do STF e 244 do STJ (art. 171, § 2º, VI, do CP), e 
de parte do entendimento definido pela 3ª Seção do STJ no Inf. 663/20. 
 
25 
 
* 3ª Seção do STJ, Informativo Edição Especial nº 7/22: A competência para o 
julgamento do crime de estelionato, ainda que se tenha se utilizado de imagens digitais 
adulteradas de passaporte válido de terceiro e documentos emitidos por órgão públicos 
federais, quando inexistente evidência de prejuízo a interesses, bens ou serviços da União, 
é da Justiça Estadual, devendo ser respeitada a regra de foro do domicílio da vítima no 
caso de o crime ser praticado mediante depósito, transferência de valores ou cheque sem 
provisão de fundos em poder do sacado ou com o pagamento frustrado. A nova lei é 
norma processual, de forma que deve ser aplicada de imediato, ainda que os fatos tenham 
sido anteriormente praticados, uma vez que a persecução ainda está em fase de inquérito 
policial, razão pela qual a competência no caso é do Juízo do domicílio da vítima. 
 * 3ª Seção do STJ, Inf. 706/21:Como a nova lei é norma processual, esta deve 
ser APLICADA DE IMEDIATO, ainda que os fatos tenham sido anteriores à nova lei, 
notadamente quando o processo ainda estiver em fase de inquérito policial. Obs.: 3ª Seção 
do STJ, CC 181.726-PR, DJe 17/09/2021, Edição especial nº 4/2022 do STJ: A 
modificação de competência promovida pela Lei n. 14.155/2021 tem aplicação imediata, 
contudo, por se cuidar de competência em razão do lugar, de natureza relativa, incide a 
regra da PERPETUATIO JURISDICIONIS, quando já oferecida a denúncia. 
* ATENÇÃO: O art. 70, § 4º, do CPP, NÃO abrange as hipóteses de 
estelionato não contempladas no dispositivo legal, quando a regra continuará regida 
pelo caput, sendo a competência do Juízo do local do eventual prejuízo. 
Ex.: caso do depósito de cheque fraudado (clonado ou adulterado) em 
prejuízo do correntista - crime de estelionato previsto no art. 171, caput, do CP. Regra 
geral de definição da competência pelo lugar em que se consuma a infração (art. 70, caput, 
do CPP), que se dá, no estelionato, no lugar onde aconteceu o efetivo prejuízo à vítima; 
assim, a competência é do local da agência bancária da vítima, onde autorizado o saque 
do numerário. Assim decidiu a 3ª Seção do STJ, em decisão publicada no Inf. 728/22, 
CC 182.977-PR, DJe 14/03/2022: 
O crime de estelionato praticado por meio saque de 
cheque fraudado compete ao Juízo do local da agência 
bancária da vítima. 
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR 
O delito de estelionato, tipificado no art. 171, caput, do 
Código Penal, consuma-se no lugar onde aconteceu o efetivo 
 
26 
 
prejuízo à vítima. Por essa razão, a Terceira Seção do Superior 
Tribunal de Justiça, no caso específico de estelionato praticado 
por meio de depósito em dinheiro ou transferência de valores, 
firmara a compreensão de que a competência seria do Juízo onde 
se auferiu a vantagem ilícita em prejuízo da vítima, ou seja, o 
local onde se situava a conta que recebeu os valores depositados. 
Sobreveio a Lei n. 14.155/2021, que incluiu o § 4.º no art. 
70 do Código de Processo Penal e criou hipótese específica de 
competência no caso de crime de estelionato praticado 
mediante depósito, transferência de valores ou cheque sem 
provisão de fundos em poder do sacado ou com o pagamento 
frustrado. Diante da modificação legislativa, não mais subsiste o 
entendimento firmado por esta Corte Superior, devendo ser 
reconhecida a competência do Juízo do domicílio da vítima. 
Contudo, a hipótese em análise não foi expressamente 
prevista na nova legislação, visto que não se trata de cheque 
emitido sem provisão de fundos ou com pagamento frustrado, 
mas de tentativa de saque de cártula falsa, em prejuízo de 
correntista. 
Sobre o tema, destaque-se que "(...) 3. Há que se diferenciar 
a situação em que o estelionato ocorre por meio do saque (ou 
compensação) de cheque clonado, adulterado ou falsificado, da 
hipótese em que a própria vítima, iludida por um ardil, 
voluntariamente, efetua depósitos e/ou transferências de valores 
para a conta corrente de estelionatário. Quando se está diante de 
estelionato cometido por meio de cheques adulterados ou 
falsificados, a obtenção da vantagem ilícita ocorre no momento 
em que o cheque é sacado, pois é nesse momento que o dinheiro 
sai efetivamente da disponibilidade da entidade financeira sacada 
para, em seguida, entrar na esfera de disposição do estelionatário. 
Em tais casos, entende-se que o local da obtenção da vantagem 
ilícita é aquele em que se situa a agência bancária onde foi sacado 
o cheque adulterado, seja dizer, onde a vítima possui conta 
bancária. (....)" (AgRg no CC 171.632/SC, Rel. Ministro 
Reynaldo Sores da Fonseca, Terceira Seção, DJe 16/06/2020). 
Assim, aplica-se o entendimento pela competência do Juízo 
do local do eventual prejuízo, que ocorre com a autorização 
para o saque do numerário no local da agência bancária da 
vítima. 
 
Ex.: 3ª Seção do STJ, Inf. 736/22: No crime de estelionato, não identificadas as 
hipóteses descritas no § 4º do art. 70 do CPP, a competência deve ser fixada no local onde 
o agente delituoso obteve, mediante fraude, em benefício próprio e de terceiros, os 
serviços custeados pela vítima. Hipótese em que o ex-funcionário de uma empresa de 
 
27 
 
turismo simulava contratos de parcerias com empresas terceiras, usufruindo e/ou 
repassando a terceiros os serviços prestados (como passagens aéreas e reserva de veículos 
e hotéis). Portanto, o juízo competente é o do local do prejuízo, a saber, o local da 
prestação de serviços. 
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR 
No caso dos autos, um ex-funcionário da empresa vítima, 
atuante no ramo de turismo, em associação com os outros dois 
agentes delituosos, teriam simulado contratos de parcerias 
com empresas terceiras, com a intenção de obter para si 
vantagens ilícitas, a saber: passagens aéreas e reserva de 
veículos e hotéis. De acordo com inquérito policial, o 
estelionatário fazia uso próprio de tais passagens, bem como as 
repassava para terceiros, obtendo o proveito do crime. A empresa 
vítima possui sede em Brasília/DF, contudo o ex-funcionário 
apontado como estelionatário trabalhava como representante 
comercial na filial localizada no município de São Paulo, onde os 
golpes teriam sido praticados em conluio com outros dois agentes, 
também residentes em municípios localizados no Estado de São 
Paulo. 
O núcleo da controvérsia consiste em definir se o julgamento do 
delito de estelionato compete ao Juízo de Direito da 4ª Vara 
Criminal de Brasília/DF, considerando-se o local da sede da 
empresa vítima e de sua agência bancária; ou ao Juízo de Direito 
da Vara Criminal do Foro Central Barra Funda/SP, em razão do 
local onde o agente delituoso auferiu o proveito do crime. 
O dissenso jurisprudencial retratado nos precedentes 
colacionados pelos Juízos envolvidos neste conflito deixou de 
existir com o advento da Lei n. 14.155/2021, que acrescentou o § 
4º do art. 70 do Código de Processo Penal - CPP com o seguinte 
teor: "nos crimes previstos no art. 171 do Decreto-Lei n. 2.848, 
de 7 de dezembro de 1940 (Código Penal), quando praticados 
mediante depósito, mediante emissão de cheques sem suficiente 
provisão de fundos em poder do sacado ou com o pagamento 
frustrado ou mediante transferência de valores, a competência 
será definida pelo local do domicílio da vítima, e, em caso de 
pluralidade de vítimas, a competência firmar-se-á pela 
prevenção". 
Todavia, a inovação legislativa disciplinou a competência do 
delito de estelionato em situações específicas descritas pelo 
legislador, as quais não ocorrem no caso concreto, porquanto 
os autos não noticiam a ocorrência transferências bancárias 
ou depósitos efetuados pela empresa vítima e tampouco de 
cheque emitido sem suficiente provisão de fundos. 
 
28 
 
No contexto dos autos, não identificadas as hipóteses descritas 
no § 4º do art. 70 do CPP deve incidir o teor do caput do 
mesmo dispositivo legal, segundo o qual "a competência será, de 
regra, determinada pelo lugar em que se consumar a infração, ou, 
no caso de tentativa, pelo lugar em que for praticado o último ato 
de execução". Sobre o tema a Terceira Seção desta Corte 
Superior, recentemente, pronunciou-se no sentido de que nas 
situações não contempladas pela novatio legis, aplica-se o 
entendimento pela competência do Juízo do local do eventual 
prejuízo. 
Conflito conhecido para declarar competente o Juízo de Direito 
da Vara Criminal do Foro Central Barra Funda – DIPO 4 – SÃO 
PAULO – SP, o suscitado. 
 
Ex.: 3ª Seção do STJ, CC 160053 / SP, DJe 27/08/2018; CC 158703 / DF, DJe 
27/08/2018; CC 101900 / RS, DJe 06/09/2010 (vítima é vendedora do produto): hipótese 
em que a vítima, iludida por um ardil, é levada a crer que o pagamento pelo produto por 
ela vendido foi devidamente efetuado (ex.: através do envio de e-mail com falso 
comprovante de pagamento; atravésde cheque falsificado; através de cartão clonado) e, 
em consequência disso, voluntariamente entrega a mercadoria. O local em que é obtida a 
vantagem ilícita é o local da retirada do produto. Hipótese em que se aplica a Súmula 48 
do STJ, segundo a qual compete ao juízo do local da obtenção da vantagem ilícita 
processar e julgar crime de estelionato cometido mediante falsificação de cheque. 
Obs.: lembrar que, se a vítima for vendedora do produto, pago por cheque sem 
fundos ou com o pagamento frustrado pelo fraudador, a competência passou a ser do 
domicílio da vítima (art. 70, § 4º, do CPP, inserido pela Lei 14.155/21). 
Obs.: hipótese em que a vítima é compradora do produto, falsamente anunciado 
pelo estelionatário: no Inf. 663/20, a 3ª Seção do STJ havia pacificado o entendimento de 
que, na hipótese de estelionato no qual a vítima é induzida a efetivar depósito ou 
transferência bancária em prol do beneficiário da fraude, a competência seria do Juízo 
onde situada a agência bancária beneficiária do depósito ou transferência (agência 
bancária onde entrou o numerário em favor do estelionatário). Contudo, com a Lei 
14.155/21, que inseriu o § 4º ao art. 70 do CPP, a competência no caso de estelionato 
praticado mediante depósito ou transferência de valores passou a ser do domicílio da 
vítima. 
 
29 
 
ATENÇÃO: 3ª Seção do STJ, Inf. 775/23: Compete ao juízo estadual processar 
e julgar crime de estelionato contra fundo estrangeiro no qual os atos desenvolvidos foram 
praticados em território nacional, ainda que diverso o domicílio de sócio lesado. 
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR 
O § 4º do art. 70 do Código de Processo Penal, incluído pela Lei 
n. 14.155/2021, dispõe que "[n]os crimes previstos no art. 171 do 
CP, quando praticados mediante depósito, mediante emissão de 
cheques sem suficiente provisão de fundos em poder do sacado 
ou com o pagamento frustrado ou mediante transferência de 
valores, a competência será definida pelo local do domicílio da 
vítima, e, em caso de pluralidade de vítimas, a competência 
firmar-se-á pela prevenção. A regra, porém, não abarca - e nem 
poderia abarcar - todas as situações relacionadas ao delito de 
estelionato, razão pela qual são possíveis exceções. 
No caso, o fundo estrangeiro, vítima dos delitos em investigação, 
sustenta a necessidade de reforma da decisão para fixar a 
competência da Justiça Federal, a pretexto de que o bem jurídico 
tutelado é o Sistema Financeiro Nacional (art. 26 da Lei n. 
7.492/1986). Afirma que há sócio lesado residente no Brasil, na 
cidade do Rio de Janeiro, devendo ser declarada a competência 
da Justiça Federal da Seção Judiciária daquele estado. 
Todavia, há apuração de delito de estelionato (e não contra o 
Sistema Financeiro Nacional) praticados por representantes de 
empresa, em prejuízo de fundo estrangeiro sediado em Nassau-
Bahamas, e representado por diretor residente e domiciliado em 
Lugano-Suíça. 
Por sua vez, os atos criminosos foram desenvolvidos na cidade 
de Barueri-SP (sede da empresa dos supostos estelionatários), 
o que torna este o Juízo competente - inclusive em prol da 
melhor colheita das provas e da efetivação da defesa dos 
denunciados. Ademais, a existência de possíveis vítimas 
domiciliadas no Rio de Janeiro não é circunstância suficiente para 
o deslocamento da competência, sobretudo porque a empresa 
pode possuir sócios em diversas localidades, sendo a empresa a 
vítima em questão, que efetiva negociações financeiras com os 
acusados, e não cada um dos sócios individualmente 
representados. 
Como também destacou o Juízo federal suscitante, o fato de a 
vítima se encontrar sediada no exterior, por si só, não é capaz de 
configurar a competência da Justiça Federal. De igual modo, o 
simples fato de as atividades desempenhadas pelos réus serem 
fiscalizadas pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM) não 
são suficientes para em razão delas somente atrair a aplicação do 
art. 109, IV, da Constituição Federal. 
 
30 
 
Desse modo, "com relação à competência para julgamento do 
delito de estelionato, fixada pelo local de residência da vítima, 
este critério somente incide na hipótese prevista no art. 70, § 
4º, do CPP. Sendo vítima sediada no estrangeiro, e tendo as 
transferências ocorrido no exterior, não há como aplicá-lo, 
valendo, pois, a regra do caput do art. 70 do Código Penal, 
sendo o local de consumação do delito a cidade de Barueri". 
Por fim, não obstante o Juízo de Direito da Comarca de Barueri 
não figurar como suscitante ou suscitado "A jurisprudência tem 
reconhecido a possibilidade de declaração da competência de 
um terceiro juízo que não figure no conflito de competência 
em julgamento, quer na qualidade de suscitante, quer na 
qualidade de suscitado" (CC 168.575/MS, Rel. Ministro 
Reynaldo Soares da Fonseca, Terceira Seção, DJe 14/10/2019). 
 
* ATENÇÃO: O art. 70, § 4º, do CPP, NÃO abrange as hipóteses de furto 
mediante fraude (meio fraudulento é utilizado para afastar a vigilância da vítima e 
possibilitar a subtração), pois continuam regidas pela regra do art. 70, caput, do CPP. 
Nesses casos, é necessário distinguir: 1) hipótese de furto mediante fraude por meios 
eletrônicos (ex.: transferência bancária via internet sem o consentimento da vítima), 
quando se entende que a consumação se dá onde ocorreu o efetivo prejuízo à vítima, ou 
seja, no local onde a vítima possui conta bancária e o dinheiro sai da sua esfera de 
disponibilidade; 2) hipótese de saque do numerário (p. ex.: saque com o uso da senha e 
cartão obtidos fraudulentamente da vítima; saque de valores do seguro-desemprego em 
agência bancária da CEF, em máquinas de autoatendimento ou em lotérica; saque de 
valores com o uso de cartão clonado ou furtado), quando, por não se tratar de fraude 
eletrônica, os furtos se consumam no local em que ocorrem os saques. 
Confira-se: 
CONFLITO NEGATIVO DE COMPETÊNCIA. FURTO 
MEDIANTE FRAUDE E ESTELIONATO. SAQUE EM 
CAIXA ELETRÔNICO COM CARTÃO E SENHA 
FORNECIDOS PELA VÍTIMA. CONSUMAÇÃO. LOCAL DA 
OBTENÇÃO DO NUMERÁRIO. PRECEDENTES. 
REALIZAÇÃO DE EMPRÉSTIMOS FRAUDADOS E 
ENTREGA VOLUNTÁRIA DE VALORES, CONDUTAS 
MAIS GRAVES PORQUE COMETIDAS CONTRA IDOSO, 
CONSUMADAS NA JURISDIÇÃO DO JUÍZO SUSCITANTE. 
APLICAÇÃO DO ART. 78, INCISO II, ALÍNEA C, DO 
CÓDIGO DE PROCESSO PENAL. CONFLITO CONHECIDO 
 
31 
 
PARA DECLARAR A COMPETÊNCIA DO JUÍZO 
SUSCITANTE. 
1. Narra o relatório policial que o Indiciado, no exercício da 
advocacia, em terminal de autoatendimento situado no Fórum de 
Samambaia/DF, efetuou dois empréstimos e sacou por três vezes 
quantias em dinheiro de conta bancária de idosa, a qual 
convenceu a lhe fornecer o cartão, com a respectiva senha, 
alegando ser necessário para iniciar o processo de inventário do 
falecido marido da Vítima. Outrossim, a Ofendida foi induzida a 
realizar empréstimo em agência bancária situada em Águas 
Lindas/GO, onde voluntariamente entregou ao Investigado 
valores obtidos. 
2. Para que se configure o delito de estelionato (art. 171 do 
Código Penal), é necessário que o agente induza ou mantenha a 
vítima em erro, mediante artifício, ardil, ou qualquer outro meio 
fraudulento, de maneira que esta lhe entregue voluntariamente o 
bem ou a vantagem. Se não houve voluntariedade na entrega, 
o delito praticado é o de furto mediante fraude (art. 155, § 4.º, 
inciso II, do mesmo Estatuto). No caso concreto, não houve 
entrega voluntária dos valores pela Vítima no Fórum de 
Samambaia/DF, mas, sim, foram efetuados dois empréstimos e 
três saques de valores vinculados a sua conta corrente, sem o seu 
consentimento, em continuidade delitiva. 
Logo, esses saques fraudulentos em conta corrente 
configuram o delito de furto mediante fraude, mas não o de 
estelionato, que se consumou com a contratação de empréstimos 
vinculados à conta corrente da Vítima em agência bancária na 
cidade de Águas Lindas de Goiás -

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