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1 DESTAQUES DE TEORIA DA NORMA NORMA PENAL EM BRANCO 1) Normas penais em branco ou primariamente remetidas Preceito primário incompleto e secundário completo. Por isso, precisa ser complementada ou integrada por ato normativo, em regra de cunho extrapenal, senão carece de efetividade. 1.1) Normas penais em branco homólogas/ homogêneas/ homovitelíneas/ em sentido lato/ impróprias: o complemento é oriundo da mesma fonte (lei). Ex: art. 236 e 237 do CP, cujas normas são complementadas pelos arts. 1.521 e 1.557 do CC; art. 24-A da Lei Maria da Penha; art. 25 da Lei Henry Borel. Serão homovitelinas quando a norma complementar se encontrar no mesmo documento legal; e heterovitelinas quando oriunda de outro documento legal da mesma instância legislativa. Ex.: o crime de descumprimento de decisão judicial que defere medida protetiva de urgência prevista na Lei 14.344/22, tipificado no art. 25 da referida legislação, tem o preceito primário incompleto, necessitando ser complementado ou integrado por ato normativo, que é oriundo da mesma fonte normativa (lei). Portanto, trata-se de norma penal em branco homogênea. Atenção: o tipo penal do art. 25 da Lei 14.344/22 não se configura se descumprida decisão judicial que defere medida protetiva em favor de criança ou adolescente com base em outro diploma legislativo, como no caso de descumprimento de medida cautelar diversa da prisão prevista nos arts. 319 e 320 do CPP. Para fins de tipificação, é imprescindível que a medida protetiva tenha sido deferida pelo juiz, independentemente da competência cível ou criminal, com base na Lei 14.344/22. Daí se tratar de norma penal em branco homogênea homovitelina. 1.2) Normas penais em branco heterólogas/ heterogêneas/ em sentido estrito/ próprias: o complemento provém de normas de hierarquia inferior (ex.: decreto, portaria). 2 Ex.: art. 33 da Lei de Drogas, cujo “complemento” provém de Portarias editadas pela ANVISA - Agência Nacional de Vigilância Sanitária. * Questão da constitucionalidade frente ao princípio da legalidade penal, especialmente quando o complemento provém de norma federativa diversa da União diante da previsão do art. 22, I, da CF. - 1ª corrente: Nilo Batista, Zaffaroni Greco e Paulo Queiroz asseveram que ela é inconstitucional porque o complemento da norma penal em branco heteróloga não advém do Legislativo, não respeitando o princípio da reserva legal. O emprego das normas penais em branco demonstra a tendência moderna de administrativização do Direito Penal. - 2ª corrente (majoritária): a lei penal em branco stricto sensu ou heteróloga não viola o princípio da legalidade, desde que comporte os pressupostos mínimos de punibilidade, o núcleo essencial da conduta. Como as estruturas gerais e diretrizes da norma penal incriminadora já estão previstas no tipo legal, sendo apenas complementada no seu sentido por meio de um ato normativo infralegal, inexistiria afronta ao princípio da legalidade. * Pleno do STF, Inf. 1088/23, ARE 1.418.846/RS (Tema 1.246 RG), tese de repercussão geral: O art. 268 do Código Penal (crime de infração de medida sanitária preventiva) veicula norma penal em branco que pode ser complementada por atos normativos infralegais editados pelos entes federados (União, Estados, Distrito Federal e Municípios), respeitadas as respectivas esferas de atuação, sem que isso implique ofensa à competência privativa da União para legislar sobre direito penal (CF, art. 22, I). RESUMO: A complementação de norma penal em branco por ato normativo estadual, distrital ou municipal, para aplicação do tipo de infração de medida sanitária preventiva (Código Penal, art. 268), não viola a competência privativa da União para legislar sobre direito penal (CF/1988, art. 22, I). O art. 268 do Código Penal veicula, em sua redação, o preceito primário incriminador, isto é, o núcleo essencial da conduta punível, de modo que a União exerceu, de forma legítima e com objetivo de salvaguardar a incolumidade da saúde pública, sua competência privativa de legislar sobre direito penal. No entanto, o referido tipo penal configura norma penal em branco heterogênea, razão pela qual necessita de 3 complementação por atos normativos infralegais, tais como decretos, portarias e resoluções. Na espécie, essa complementação se faz mediante ato do poder público, compreendida a competência de quaisquer dos entes federados. Ademais, ela não se reveste de natureza criminal, mas, via de regra, administrativa e técnico-científica, o que justifica a possibilidade de edição do ato normativo suplementador pelo ente federado com competência administrativa para tanto. Nesse contexto, de acordo com o entendimento desta Corte, a competência para proteção da saúde, no plano administrativo e no legislativo, é compartilhada entre a União, o Distrito Federal, os estados e os municípios, inclusive para impor medidas restritivas destinadas a impedir a introdução ou propagação de doença contagiosa. Assim, o descumprimento das medidas e dos atos normativos de controle epidemiológico previstos na Lei 13.979/2020, editados pelos entes federados em prol da incolumidade pública, enseja consequências no campo do direito penal. Com base nesse entendimento, o Plenário, por unanimidade, reconheceu a existência da repercussão geral da questão constitucional suscitada (Tema 1.246 da repercussão pgeral) e, no mérito, por maioria, reafirmou a jurisprudência dominante sobre a matéria para dar provimento ao recurso extraordinário e, consequentemente, determinar o prosseguimento da ação penal ao afastar a alegação de atipicidade da conduta por ausência de norma complementadora do art. 268 do Código Penal. 2) Normas penais incompletas ou imperfeitas ou secundariamente remetidas/ Normas penais em branco inversa ou ao avesso Preceitos primário e secundário em dispositivos separados, em outro dispositivo da lei ou em diploma legal diferente. Ex. Lei 2.889, que reprime o delito de Genocídio. * Art. 304 do CP (uso de documento falso): lei penal em branco e lei penal imperfeita, pois remete tanto o conteúdo completo do preceito primário, quanto a pena cominada no preceito secundário para outra norma penal. PRINCÍPIO DA PROPORCIONALIDADE 4 Princípio constitucional implícito, extraído do princípio da individualização da pena e do princípio do devido processo legal. 1) O princípio da proporcionalidade, sob o enfoque da proibição de excesso, se manifesta nas fases legislativa, judiciária e executória. - Fase legislativa/ proporcionalidade abstrata: Ex.: como a jurisprudência vinha tratando a prática de atos libidinosos em geral dentro da mesma figura típica do estupro, ainda que ausente violência ou grave ameaça, rechaçando a tese da desclassificação para o art. 61 da LCP, o STJ (AgRg no REsp 1730341, DJ 13/11/18) entendeu que a Lei 13.718/18, ao inserir o art. 215-A para prever o crime de importunação sexual, trouxe tratamento mais benéfico em prol do princípio da proporcionalidade (obs.: tal entendimento é rechaçado pela jurisprudência no caso da prática de ato libidinoso em face de vulnerável, de forma a caracterizar crime de estupro de vulnerável, desde que presente dolo específico). ATENÇÃO: princípio da proporcionalidade como parâmetro para o controle de constitucionalidade da atividade legislativa em matéria penal: Pleno do STF, Inf. 1011/21, Tema 1003, tese de repercussão geral: É inconstitucional a aplicação do preceito secundário do art. 273 do Código Penal, com redação dada pela Lei nº 9.677/98 (reclusão, de 10 a 15 anos, e multa), à hipótese prevista no seu § 1º-B, I, que versa sobre a importação de medicamento sem registro no órgão de vigilância sanitária. Para esta situação específica, fica repristinado o preceito secundário do art. 273, na redação originária (reclusão,GO, onde também a Ofendida entregou voluntariamente ao Investigado o numerário. 3. Em casos de furto mediante fraude por meios eletrônicos, esta Corte pacificou o entendimento de que a consumação se dá onde ocorreu o efetivo prejuízo à vítima, que ocorre no local onde a vítima possui conta bancária e o dinheiro sai da sua esfera de disponibilidade. Na espécie, contudo, o numerário foi efetivamente sacado com a senha e cartão da Vítima. Assim, por não se tratar de fraude eletrônica, os furtos se consumaram no local em que ocorreram os saques. Precedentes. 4. Os três crimes de furto qualificado mediante fraude possuem penas abstratamente cominadas que vão de 2 (dois) a 8 (oito) anos de reclusão, além de serem cometidos em continuidade delitiva. Logo, nos termos da jurisprudência consolidada neste Superior Tribunal de Justiça, será possível exasperar a pena máxima pela continuidade delitiva em 1/5 (um quinto), alcançando a pena máxima pelos delitos o patamar de 9 (nove) anos, 7 (sete) meses e 6 (seis) dias de reclusão. 32 5. O crime de estelionato, no caso, é mais grave do que os delitos de furto, pois tem pena abstrata que vai de 1 (um) a 5 (cinco) anos de reclusão e poderá ser aumentado no dobro pela vulnerabilidade etária da Vítima, nos termos do § 5.º do art. 171 do Estatuto Repressivo, podendo a reprimenda máxima atingir 10 (dez) anos de reclusão. Por isso, atrai a prevenção para os delitos conexos de furto, por força do art. 78, inciso II, alínea a, do Código de Processo Penal. 6. Ante o exposto, conheço do conflito para declarar competente o JUÍZO DA 3.ª VARA CRIMINAL DE ÁGUAS LINDAS DE GOIÁS - GO, ora Suscitante. (3ª Seção do STJ, CC 183754 / SP, DJe 19/12/2022) Ex.: caso em que a vítima transferiu, de forma lícita, valores legitimamente recebidos a título de auxílio emergencial para conta do Mercado Pago. O agente, então, efetuou uma transferência fraudulenta de valores da conta Mercado Pago de titularidade da vítima para a sua, configurando furto mediante fraude, de competência da Justiça Comum, já que não foi fraudado o sistema de segurança da CEF, mas sim o sistema de segurança do Mercado Pago, instituição privada para a qual o numerário foi transferido por livre vontade da vítima. De acordo com a 3ª Seção do STJ, CC 182940 / SP, DJe 03/11/2021, Inf. 716/21: Não compete à Justiça Federal processar e julgar o desvio de valores do auxílio emergencial pagos durante a pandemia da covid-19, por meio de violação do sistema de segurança de instituição privada, sem que haja fraude direcionada à instituição financeira federal. INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR O núcleo da controvérsia consiste em definir o Juízo competente no âmbito de inquérito policial instaurado para investigar conduta de desvio de valores relativos ao auxílio emergencial pago durante a pandemia do Covid-19. No caso concreto não se identificou ofensa direta à Caixa Econômica Federal - CEF ou à União, uma vez que não houve qualquer notícia de que a beneficiária tenha empregado fraude. Em outras palavras, houve ingresso lícito no programa referente ao auxílio emergencial e transferência lícita da conta da Caixa Econômica Federal para a conta do Mercado Pago, ambas de titularidade da beneficiária do auxílio. Por outro lado, o procedimento investigatório revela transferência fraudulenta de valores entre contas do Mercado Pago de titularidade da vítima e do agente delituoso, ou seja, a vítima não foi induzida a erro e tampouco entregou 33 espontaneamente o numerário, de tal forma que o atual estágio das investigações indica suposta prática de furto mediante fraude. Dessa forma, o agente delituoso ao transferir para si os valores pertencentes à vítima não fraudou eletronicamente o sistema de segurança da Caixa Econômica Federal, mas apenas o sistema de segurança de instituição privada para a qual o numerário foi transferido por livre vontade da vítima. Neste contexto, sem fraude ao sistema de segurança da instituição financeira federal não há de se falar em competência da Justiça Federal. Com efeito, no caso de violação ao sistema de segurança de instituição privada, qual seja, o Mercado Pago, sem qualquer fraude ou violação de segurança direcionada à Caixa Econômica Federal, o prejuízo fica adstrito à instituição privada e particulares, não se identificando situação prevista no art. 109, inciso I, da Constituição Federal. 5) Crimes de racismo e Lei 14.532/23 A Lei 14.532/23, que entrou em vigor em 11/01/23, retirou os elementos referentes a raça, cor, etnia e origem do crime de injúria preconceituosa do art. 140, § 3º, do CP, e previu tipo penal específico de injúria racial (injúria em razão de raça, cor, etnia ou procedência nacional) no art. 2º-A da Lei 7.716/89, prevendo, ainda, no p. único, que a pena é aumentada de metade se o crime for cometido mediante concurso de 2 ou mais pessoas. Assim, foi reforçado o entendimento que já havia sido consagrado na jurisprudência do STF e do STJ de que o crime de injúria racial é espécie de crime de racismo. Por sua vez, permanece atualmente no crime de injúria preconceituosa do art. 140, § 3º, do CP, apenas a utilização de elementos referentes à religião ou à condição de pessoa idosa ou com deficiência. Trata-se de crime de ação penal pública condicionada à representação (art. 145, p. único, do CP). Obs.: salta aos olhos a manutenção da injúria religiosa no Código Penal, quando a Lei 7.716/89 abrange, conforme art. 1º, os crimes resultantes de discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência. Trata-se de tratamento desproporcional. Além do crime de injúria racial (atual art. 2º-A da Lei 7.716/89), há, ainda, os crimes de racismo dos demais tipos penais da Lei 7.716/89. Diferenças: na injúria racial, que é espécie do crime de racismo, há um xingamento com intenção de ofender (animus 34 injuriandi), especificamente, a honra subjetiva de certa pessoa (vítima determinada), em razão de raça, cor, etnia e origem, de modo que se consuma quando a ofensa chega ao conhecimento da vítima. Já nos demais crimes de racismo da Lei 7.716/89, há uma pregação genérica contra determinada raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional (vítima indeterminada – art. 20) ou mesmo a prática de condutas de segregação (demais tipos penais da Lei 7716/89 - ex.: impedir matrícula por conta da cor da pele). Assim, os crimes se consumam pelo impedimento ao exercício de algum direito (arts. 3º a 14) ou pela discriminação genérica em razão da raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional (art. 20 – vítima indeterminada). Quanto à injúria racial, houve uma alteração relevante na descrição do tipo penal. Enquanto o art. 140, § 3º, do CP, falava em “utilizando-se de elementos referentes a raça, cor, etnia ou procedência nacional”, o atual art. 2º-A da Lei 7.716/89 fala em “injuriar alguém, ofendendo-lhe a dignidade ou o decoro, em razão de raça, cor, etnia ou procedência nacional”. Assim, de acordo com Bruno Gilaberte, em artigo publicado no CONJUR, “Lei 14.532/23: avanço no combate ao racismo e a perda de uma oportunidade”: “na antiga norma (cuja lógica se mantém para as espécies de preconceito ali previstas), a ofensa deveria conter elementos referentes à raça, cor, etnia ou procedência nacional da vítima, o que ora é dispensado, bastando que a ofensa tenha por motivação a condição da vítima. Assim, xingar um negro de "bandido", na redação anterior, era injúria em sua forma simples (salvo se agregado o elemento de cor à ofensa, como chamá-lo de "preto bandido"). Doravante, xingar um negro de bandido, pois o sujeito ativo assim o enxerga em razão de sua cor, é injúria racial”. Redação anterior à Lei 14.532/23 Redação após a Lei 14.532/23 Art. 140, § 3º, do CP: Se a injúria consiste na utilização de elementos referentesa raça, cor, etnia, religião, origem ou a condição de pessoa idosa ou portadora de deficiência: Pena - reclusão de um a três anos e multa. Art. 140, § 3º, do CP: Se a injúria consiste na utilização de elementos referentes a religião ou à condição de pessoa idosa ou com deficiência: Pena - reclusão de um a três anos e multa. Art. 2º-A da Lei 7.716/89: Injuriar alguém, ofendendo-lhe a dignidade ou o decoro, em 35 razão de raça, cor, etnia ou procedência nacional. Pena: reclusão, de 2 a 5 anos, e multa. Parágrafo único. A pena é aumentada de metade se o crime for cometido mediante concurso de 2 ou mais pessoas. * A alteração legislativa promovida no crime de injúria racial pela Lei 14.532/23 consubstancia NOVATIO LEGIS IN PEJUS e, portanto, irretroativa (art. 5º, XL, da CF), porque: - a pena do crime de injúria racial, inserido no art. 2º-A da Lei 7.716/89, deixou de ser de 1 a 3 anos de reclusão para ser de 2 a 5 anos de reclusão; - com isso, não mais é cabível a suspensão condicional do processo. Obs.: apesar de, em tese, cabível o ANPP em razão da pena mínima cominada, a 2ª Turma do STF, no RHC 222.599/SC, j. 06/02/2023, decidiu que não cabe ANPP em caso de crimes raciais, inclusive a injúria racial, porque deve ser considerada a teleologia da excepcionalidade imposta no art. 28, § 2º, IV, do CPP (vedação nos crimes praticados no âmbito de violência doméstica ou familiar, ou praticados contra a mulher por razões da condição de sexo feminino, em favor do agressor) e a natureza do bem jurídico a que se busca tutelar. Conforme assentado pelo STF, a delimitação do alcance material para a aplicação do acordo “despenalizador” e a inibição da persecutio criminis exige conformidade com o texto Constitucional e com os compromissos assumidos pelo Estado brasileiro internacionalmente, como limite necessário para a preservação do direito fundamental à não discriminação e à não submissão à tortura – seja ela psicológica ou física -, ao tratamento desumano ou degradante, operada pelo conjunto de sentidos estereotipados que circula e que atribui tanto às mulheres quanto às pessoas negras posição inferior, numa perversa hierarquia de humanidades. - a ação penal deixou de ser pública condicionada à representação para ser pública incondicionada, assim como nos demais crimes de preconceito ou discriminação da Lei 7716/89; - foi inserida majorante, aumentando-se a pena de metade, se o crime for cometido mediante concurso de duas ou mais pessoas. 36 * Note-se que as causas de aumento de pena do art. 141 do CP, previstas para os crimes contra a honra do CP (calúnia, difamação e injúria), não mais se aplicam ao atual art. 2º-A da Lei 7.716/89. Por outro lado, a Lei 14.532/23 inseriu causas de aumento de pena específicas para o crime do art. 2º-A da Lei 7.716/89. A par das futuras discussões casuísticas sobre hipótese de combinação de leis, vejamos as hipóteses de maior destaque: - não houve previsão na Lei 7.716/89 de majorante equivalente àquela do art. 141, III, do CP, que se refere ao aumento da pena em 1/3 se o crime é cometido na presença de várias pessoas ou por meio que facilite a divulgação. Ainda assim, diante do preceito secundário do art. 2º-A da Lei 7.716/89, a Lei 14.532/23 importou em novatio legis in pejus. - em relação ao crime de injúria racial, não houve previsão na Lei 7.716/89 de majorante equivalente àquela do art. 141, § 2º, do CP (inserido pela derrubada do veto presidencial à Lei 13.964/19), que se refere ao aumento da pena no triplo se o crime é cometido ou divulgado em quaisquer modalidades das redes sociais da rede mundial de computadores (ou seja, de 3 a 9 anos de reclusão para o crime de injúria preconceituosa do art. 140, § 3º, do CP). Assim, diante do preceito secundário do art. 2º-A da Lei 7.716/89, a Lei 14.532/23 importou em NOVATIO LEGIS IN MELLIUS no caso de injúria racial praticada ou divulgada em quaisquer modalidades das redes sociais da rede mundial de computadores. Obs.: a Lei 7.716/89 prevê qualificadora equivalente especificamente em relação ao crime do art. 20, não podendo, todavia, ser aplicada ao crime do art. 2º-A porque o princípio da legalidade veda o emprego de analogia in malam partem. - não houve previsão na Lei 7.716/89 de majorante equivalente àquela do art. 141, § 1º, do CP, que se refere ao aumento da pena no dobro se o crime é cometido mediante paga ou promessa de recompensa (ou seja, de 2 a 6 anos de reclusão para o crime de injúria preconceituosa do art. 140, § 3º, do CP). Assim, diante do preceito secundário do art. 2º-A da Lei 7.716/89, a Lei 14.532/23 importou em NOVATIO LEGIS IN MELLIUS no caso de injúria racial praticada mediante paga ou promessa de recompensa. - não houve previsão na Lei 7.716/89 de majorante equivalente àquela do art. 141, § 1º, do CP, que se refere ao aumento da pena se o crime é praticado contra funcionário público, em razão de suas funções (ou seja, de 2 a 6 anos de reclusão para o crime de 37 injúria preconceituosa do art. 140, § 3º, do CP). Assim, diante do preceito secundário do art. 2º-A da Lei 7.716/89, a Lei 14.532/23 importou em NOVATIO LEGIS IN MELLIUS no caso de injúria racial praticada contra funcionário público, em razão de suas funções. - por sua vez, no caso de injúria racial praticada por funcionário público, no exercício de suas funções ou a pretexto de exercê-las, a Lei 14.532/23 inseriu causa de aumento de pena no art. 20-B da Lei 7.716/89. Assim, trata-se de novatio legis in pejus. Atenção: a majorante é aplicável não apenas ao crime de injúria racial, mas também ao crime do art. 20 da Lei 7.716/89. Obs.: os arts. 16 e 17 preveem como efeito (não automático) da condenação a perda do cargo ou função pública, para o servidor público, e a suspensão do funcionamento do estabelecimento particular por prazo não superior a três meses. - a Lei 14.532/23 inovou ao inserir causa de aumento de pena referente ao racismo recreativo, descartando as alegações de atipicidade por animus jocandi. Art. 20-A: Os crimes previstos nesta Lei terão as penas aumentadas de 1/3 até a metade, quando ocorrerem em contexto ou com intuito de descontração, diversão ou recreação. Assim, trata-se de novatio legis in pejus. Atenção: a nova majorante é aplicável não apenas ao crime de injúria racial, mas a todos os tipos penais de racismo da Lei 7.716/89. No caso de concurso de causas de aumento de pena na parte especial, lembrar do art. 68, p. único, do CP, que prevê que pode o juiz limitar-se a um só aumento, prevalecendo, todavia, a causa que mais aumente. * Antes mesmo da Lei 14.532/23, STF e STJ já reconheciam que o crime de injúria racial, mesmo quando ainda inserido no art. 140, § 3º, do CP, deveria ser considerado como um dos tipos penais de racismo. Assim, a Lei 14.532/23 REFORÇOU o entendimento de que o art. 5º, XLII, da CF, se aplica a todos os crimes de racismo, inclusive o de injúria racial (que hoje está previsto no art. 2º-A da Lei 7.716/89): “a prática do racismo constitui crime inafiançável e imprescritível, sujeito à pena de reclusão, nos termos da lei”. Portanto, não houve, no ponto, novatio legis in pejus, mas consagração legislativa de entendimento jurisprudencial firmado antes mesmo da Lei 14.532/23. Confira-se: 38 STF (Pleno, Inf. 1036/21) e STJ (6ª Turma, AgRg no AREsp 734.236, DJ 08/03/2018): o crime de injúria racial (art. 140, § 3º, CP), espécie do gênero racismo, é imprescritível. A prática de injúria racial traz em seu bojo o emprego de elementos associados aos que se definem como raça, cor, etnia, religião ou origem para se ofender ou insultar alguém. Consistindo o racismo em processo sistemático de discriminação que elege a raça como critério distintivo para estabelecer desvantagens valorativas e materiais, a injúria racial consuma os objetivos concretos dacirculação de estereótipos e estigmas raciais. Nesse sentido, é insubsistente a alegação de que há distinção ontológica entre as condutas previstas na Lei 7.716/1989 e aquela constante do art. 140, § 3º, do CP. Em ambos os casos, há o emprego de elementos discriminatórios baseados naquilo que sociopoliticamente constitui raça, para a violação, o ataque, a supressão de direitos fundamentais do ofendido. Sendo assim, excluir o crime de injúria racial do âmbito do mandado constitucional de criminalização por meras considerações formalistas desprovidas de substância, por uma leitura geográfica apartada da busca da compreensão do sentido e do alcance do mandado constitucional de criminalização, é restringir-lhe indevidamente a aplicabilidade, negando-lhe vigência. Obs.: atentar que, na primeira fase da prova da DPE RJ, de acordo com gabarito preliminar, a banca examinadora considerou que, antes da Lei 14.532/23, o crime de injúria racial, apesar de imprescritível, seria afiançável. * Note-se que a Lei 7.716/89 foi denominada pela Lei 14.532/23 como Lei do Crime Racial, terminologia esta mais adequada para abarcar os diversos crimes de racismo previstos na legislação especial, que, de acordo com o art. 1º da Lei 7.716/89, são aqueles resultantes de discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional, inclusive o crime de injúria racial (inserido em tipo penal específico no art. 2º-A). STF, ADO 26, j. 06/10/2020: I - Até que sobrevenha lei emanada do Congresso Nacional destinada a implementar os mandados de criminalização definidos nos incisos XLI e XLII do art. 5º da Constituição da República, as condutas homofóbicas e transfóbicas, reais ou supostas, que envolvem aversão odiosa à orientação sexual ou à identidade de gênero de alguém, por traduzirem expressões de racismo, compreendido 39 este em sua dimensão social, ajustam-se, por identidade de razão e mediante adequação típica, aos preceitos primários de incriminação definidos na Lei nº 7.716/89, constituindo, também, na hipótese de homicídio doloso, circunstância que o qualifica, por configurar motivo torpe (Código Penal, art. 121, § 2º, I, “in fine”).”. II - A repressão penal à prática da homotransfobia não alcança nem restringe ou limita o exercício da liberdade religiosa, qualquer que seja a denominação confessional professada, a cujos fiéis e ministros (sacerdotes, pastores, rabinos, mulás ou clérigos muçulmanos e líderes ou celebrantes das religiões afro-brasileiras, entre outros) é assegurado o direito de pregar e de divulgar, livremente, pela palavra, pela imagem ou por qualquer outro meio, o seu pensamento e de externar suas convicções de acordo com o que se contiver em seus livros e códigos sagrados, bem assim o de ensinar segundo sua orientação doutrinária e/ou teológica, podendo buscar e conquistar prosélitos e praticar os atos de culto e respectiva liturgia, independentemente do espaço, público ou privado, de sua atuação individual ou coletiva, desde que tais manifestações não configurem discurso de ódio, assim entendidas aquelas exteriorizações que incitem a discriminação, a hostilidade ou a violência contra pessoas em razão de sua orientação sexual ou de sua identidade de gênero; III - O conceito de racismo, compreendido em sua dimensão social, projeta-se para além de aspectos estritamente biológicos ou fenotípicos, pois resulta, enquanto manifestação de poder, de uma construção de índole histórico-cultural motivada pelo objetivo de justificar a desigualdade e destinada ao controle ideológico, à dominação política, à subjugação social e à negação da alteridade, da dignidade e da humanidade daqueles que, por integrarem grupo vulnerável (LGBTI+) e por não pertencerem ao estamento que detém posição de hegemonia em uma dada estrutura social, são considerados estranhos e diferentes, degradados à condição de marginais do ordenamento jurídico, expostos, em consequência de odiosa inferiorização e de perversa estigmatização, a uma injusta e lesiva situação de exclusão do sistema geral de proteção do direito. Por outro giro, vejamos as alterações promovidas pela Lei 14.532/23 em relação ao tipo penal do art. 20 da Lei 7.716/89: Redação anterior à Lei 14.532/23 Redação após a Lei 14.532/23 40 Art. 20. Praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional. Pena: reclusão de um a três anos e multa. § 1º Fabricar, comercializar, distribuir ou veicular símbolos, emblemas, ornamentos, distintivos ou propaganda que utilizem a cruz suástica ou gamada, para fins de divulgação do nazismo. Pena: reclusão de dois a cinco anos e multa. § 2º Se qualquer dos crimes previstos no caput é cometido por intermédio dos meios de comunicação social ou publicação de qualquer natureza: Pena: reclusão de dois a cinco anos e multa. § 3º No caso do parágrafo anterior, o juiz poderá determinar, ouvido o Ministério Público ou a pedido deste, ainda antes do inquérito policial, sob pena de desobediência: I - o recolhimento imediato ou a busca e apreensão dos exemplares do material respectivo; II - a cessação das respectivas transmissões radiofônicas, televisivas, eletrônicas ou da publicação por qualquer meio; III - a interdição das respectivas mensagens ou páginas de informação na rede mundial de computadores. § 4º Na hipótese do § 2º, constitui efeito da condenação, após o trânsito em julgado da decisão, a destruição do material apreendido. Art. 20. Praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional. Pena: reclusão de um a três anos e multa. § 1º Fabricar, comercializar, distribuir ou veicular símbolos, emblemas, ornamentos, distintivos ou propaganda que utilizem a cruz suástica ou gamada, para fins de divulgação do nazismo. Pena: reclusão de dois a cinco anos e multa. § 2º Se qualquer dos crimes previstos neste artigo for cometido por intermédio dos meios de comunicação social, de publicação em redes sociais, da rede mundial de computadores ou de publicação de qualquer natureza: (Redação dada pela Lei nº 14.532/23) Pena: reclusão de dois a cinco anos e multa. § 2º-A Se qualquer dos crimes previstos neste artigo for cometido no contexto de atividades esportivas, religiosas, artísticas ou culturais destinadas ao público: (Incluído pela Lei nº 14.532/23) Pena: reclusão, de 2 a 5 anos, e proibição de frequência, por 3 anos, a locais destinados a práticas esportivas, artísticas ou culturais destinadas ao público, conforme o caso. (Incluído pela Lei nº 14.532/23) § 2º-B Sem prejuízo da pena correspondente à violência, incorre nas mesmas penas previstas no caput deste artigo quem obstar, impedir ou empregar violência contra quaisquer manifestações ou práticas religiosas. (Incluído pela Lei nº 14.532/23) § 3º No caso do § 2º deste artigo, o juiz poderá determinar, ouvido o Ministério Público ou a pedido deste, ainda antes do inquérito policial, sob pena de desobediência: (Redação dada pela Lei nº 14.532/23) I - o recolhimento imediato ou a busca e apreensão dos exemplares do material respectivo; II - a cessação das respectivas transmissões radiofônicas, televisivas, eletrônicas ou da publicação por qualquer meio; III - a interdição das respectivas mensagens ou páginas de informação na rede mundial de computadores. 41 § 4º Na hipótese do § 2º, constitui efeito da condenação, após o trânsito em julgado da decisão, a destruição do material apreendido Art. 20-A. Os crimes previstos nesta Lei terão as penas aumentadas de 1/3 até a metade, quando ocorrerem em contexto ou com intuito de descontração, diversão ou recreação. (Incluído pela Lei nº 14.532/23) Art. 20-B. Os crimes previstos nosarts. 2º-A e 20 desta Lei terão as penas aumentadas de 1/3 até a metade, quando praticados por funcionário público, conforme definição prevista no CP, no exercício de suas funções ou a pretexto de exercê-las. (Incluído pela Lei nº 14.532/23) Por fim, vejamos as disposições comuns aos tipos penais de racismo, previstos na Lei 7.716/89 e inseridos pela Lei 14.532/23: - Art. 20-C. Na interpretação desta Lei, o juiz deve considerar como discriminatória qualquer atitude ou tratamento dado à pessoa ou a grupos minoritários que cause constrangimento, humilhação, vergonha, medo ou exposição indevida, e que usualmente não se dispensaria a outros grupos em razão da cor, etnia, religião ou procedência. Vedação ao racismo reverso. - Art. 20-D. Em todos os atos processuais, cíveis e criminais, a vítima dos crimes de racismo deverá estar acompanhada de advogado ou defensor público. Trata-se de assistência qualificada à vítima de racismo, tal qual a previsão dos arts. 27 e 28 da Lei Maria da Penha à mulher vítima de violência doméstica, que não se confunde com a figura do assistente de acusação. Assim, a assistência qualificada é plena, decorre de lei, independe de autorização judicial, alcança a fase policial e judicial, abrange atos judiciais e extrajudiciais, cíveis e criminais, e independe da hipossuficiência econômica diante da condição da vítima de necessitada jurídica em razão da vulnerabilidade, prestando-se atendimento integral e humanizado. Trata-se de função atípica da Defensoria Pública (ou de função não tradicional ou tendencialmente solidarista, conforme classificação de José Augusto Garcia), a teor do art. 4º, XI e XVIII, da LC 80/94. 42 ATENÇÃO: a DPE RJ, através do NUDIVERSIS, tem atuado na assistência qualificada à vítima em casos envolvendo lgbtfobia, tendo em vista que o STF e o STJ adotam o conceito de racismo em sua dimensão social, enquanto manifestação de poder, que abrange também os casos de homofobia e transfobia. Assim, recentemente, o Nudiversis, está atuando como “assistente da vítima” em caso de homicídio de mulher trans esquartejada por transfobia, desde a fase do inquérito policial, dando protagonismo e voz ao longo de todo o processo. Trata-se de assistência integral e humanizada aos familiares da vítima, abrangendo as fases judicial e extrajudicial, inclusive providenciando a requalificação civil post-mortem para que a certidão de óbito seja reemitida com nome e gênero femininos e providenciando a ação de reparação cível. Cm isso, o Nudiversis passa a atuar da mesma forma que: 1- o Núcleo de Defesa da Mulher (Nudem) nos casos de feminicídio tentado ou consumado, 2- o Núcleo de Defesa dos Direitos Humanos (Nudedh) na assistência às vítimas e familiares de vítimas de violência policial (violência institucional), 3- o Núcleo de Combate ao Racismo e à Discriminação Étnico-Racial (Nucora) na assistência às vítimas de racismo. Atenção para a existência de outros tipos penais de racismo na legislação esparsa, que também devem ser considerados imprescritíveis e inafiançáveis (art. 5º, XLII, da CF), como: - crime de tortura preconceituosa, previsto no art. 1º, I, c, da Lei 9.455/97: Constitui crime de tortura: I - constranger alguém com emprego de violência ou grave ameaça, causando-lhe sofrimento físico ou mental: c) em razão de discriminação racial ou religiosa; - crime de redução a condição análoga à de escravo por motivo de preconceito de raça, cor, etnia, religião ou origem, previsto no art. 149, § 2º, II, do CP. RETROATIVIDADE DA INTERPRETAÇÃO JUDICIAL Note-se que não há disciplina legal para os casos de alteração de interpretação judicial, haja vista não se tratar de sucessão de leis no tempo. 43 1) No caso de alteração de interpretação jurisprudencial em prejuízo do réu (ex.: jurisprudência passou a considerar o acórdão condenatório que diminui a pena como marco interruptivo da prescrição), entende o STJ: “A jurisprudência desta Corte é firme no sentido de que é impossível se falar em irretroatividade de interpretação jurisprudencial, pois o ordenamento jurídico somente proíbe a retroatividade da lei penal mais gravosa. Isso porque a jurisprudência corresponde apenas à melhor interpretação a ser dada a lei já existente”. EM SENTIDO CONTRÁRIO, 2ª Turma do STF, AgRg no HC 192.757/RO, DJe 09/08/2023: “Entendimento jurisprudencial não retroage para prejudicar o réu. Decisão favorável reformada apenas em razão de novel jurisprudência maléfica. Impossibilidade”. O caso versou sobre a irretroatividade do entendimento jurisprudencial fixado no julgamento do HC 176.473, em que se considerou que o acórdão condenatório sempre interrompe a prescrição, inclusive quando confirmatório da sentença de 1º grau, seja mantendo, reduzindo ou aumentando a pena anteriormente imposta. 2) Por sua vez, no caso de alteração de interpretação jurisprudencial em benefício do réu, notadamente nos casos em que já houve o trânsito em julgado da sentença penal condenatória, tem prevalecido o entendimento pela retroatividade do entendimento jurisprudencial mais favorável, por razões de equidade e em atenção ao princípio da isonomia. Discute-se, contudo, qual seria a via mais adequada a ser utilizada: revisão criminal (3ª Seção do STJ, RvCr 3900 / SP, DJe 15/12/2017: é cabível o manejo da revisão criminal fundada no art. 621, I, do CPP em situações nas quais se pleiteia a adoção de novo entendimento jurisprudencial mais benigno, desde que a mudança jurisprudencial corresponda a um novo entendimento pacífico e relevante), simples petição ao juízo da execução penal (em analogia in bonam partem ao art. 66 da LEP), ou mesmo o habeas corpus. Casos recentes de alteração de interpretação judicial em benefício dos acusados: - Mudança de jurisprudência quanto à nulidade (e não mera irregularidade) do reconhecimento de pessoas em violação às garantias mínimas do art. 226 do CPP: O STJ tem entendido pelo não conhecimento do HC substitutivo de revisão criminal, mas vem concedendo a ordem de HC de ofício nas hipóteses de flagrante ilegalidade, como a 44 apontada, com a absolvição do paciente nos casos em que não haja prova independente que corrobore a sentença condenatória baseada em reconhecimento eivado de nulidade. Apesar de também ser viável a revisão criminal, é certo que o manejo do habeas corpus tem se mostrado mais célere e efetivo. - 3ª Seção do STJ, Inf. 714/21: É cabível o manejo da revisão criminal fundada no art. 621, I, do CPP, para aplicação da minorante prevista no § 4º do art. 33 da Lei n. 11.343/2006 nos crimes previstos no art. 273, § 1º-B, do CP. Isso em consideração ao entendimento esposado pela Corte Especial do STJ, no Inf. 559/15, pela inconstitucionalidade do preceito secundário do art. 273, § 1º-B, V, do CP – ‘reclusão, de 10 (dez) a 15 (quinze) anos, e multa’ –, devendo-se considerar, no cálculo da reprimenda, a pena prevista no caput do art. 33 da Lei 11.343/2006 (Lei de Drogas), com possibilidade de incidência da causa de diminuição de pena do respectivo § 4º. Inteiro teor: Declarada a inconstitucionalidade do preceito secundário previsto no art. 273, § 1º-B, do Código Penal pela Corte Especial do Superior Tribunal de Justiça, no julgamento da Arguição de Inconstitucionalidade no Habeas Corpus 239.363/PR, as Turmas que compõem a Terceira Seção do STJ passaram a determinar a aplicação da pena prevista no crime de contrabando ou no crime de tráfico de drogas do art. 33 da Lei de Drogas. A partir da solução da quaestio, verifica-se oscilação na jurisprudência desta Corte. Destarte, a maioria dos julgadores da Terceira Seção passou a adotar a orientação de aplicação da minorante prevista no § 4º do art. 33 da Lei n. 11.343/2006 nos crimes previstos no art. 273, § 1º-B, do Código Penal. Assim, embora não tenha havido necessariamentealteração jurisprudencial, e sim mudança de direcionamento, ainda que não pacífica, a respeito do tema, a interpretação que deve ser dada ao artigo 621, I, do CPP é aquela de acolhimento da revisão criminal para fins de aplicação do entendimento desta Corte mais benigno e atual. Obs.: especificamente em relação à importação de medicamento sem registro no órgão de vigilância sanitária (art. 273, § 1º-B, I), lembrar que o Pleno do STF, no Inf. 1011/21, Tema 1003, fixou como tese de repercussão geral a inconstitucionalidade da aplicação do preceito secundário do art. 273 do Código Penal, com redação dada pela Lei nº 9.677/98 (reclusão, de 10 a 15 anos, e multa), ficando repristinado o preceito 45 secundário do art. 273, na redação originária (reclusão, de 1 a 3 anos, e multa). De todo modo, trata-se também de interpretação judicial mais favorável, cabendo a discussão sobre o meio para se postular a sua aplicação retroativa aos casos já transitados em julgado. - O posicionamento tradicional do STJ (Inf. 554/15) e do STF (v. Inf. 851) sempre foi no sentido de que a majorante se aplica também ao furto qualificado. OVERRULING: a 3ª Seção do STJ, em sede de recurso repetitivo (tema 1087), Inf. 738/22, passou a entender que a causa de aumento prevista no § 1° do art. 155 do Código Penal NÃO incide no crime de furto na sua forma qualificada (§ 4°). INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR Ressalte-se, preliminarmente, que se pode pensar que a fixação de um precedente judicial guarda relação direta com a consolidação da orientação jurisprudencial uníssona e reiterada do Superior Tribunal de Justiça, sobretudo quanto coincidente com a posição adotada pelo Supremo Tribunal Federal. Entretanto, essa premissa não é absoluta. Se a orientação jurisprudencial não guarda compatibilidade com a melhor interpretação dos postulados de regência e com o contexto social em que se insere a aplicação das normas jurídicas, mostra-se inequívoca a necessidade de sua revisão, mormente quando desta resultará um posicionamento judicial vinculatório que pressupõe segurança jurídica e, por conseguinte, longevidade. Assim, a constrlescução de precedente judicial na via do recurso especial repetitivo constitui momento adequado para o reexame de entendimentos derivados da interpretação do direito infraconstitucional, para que se mantenham ou se adéquem a novas realidades. A disposição técnica do Código Penal assim se apresenta: refere-se o art. 155, § 1º, do CP à pena do furto simples, prevista no caput desse dispositivo. Desse modo, não se refere à cominação do furto qualificado, que se encontra três parágrafos depois. Seguindo a técnica legislativa, para que considerasse aplicável a majorante no furto qualificado, deveria o legislador colocar o § 1º após a pena atribuída, o que não ocorreu. Se a qualificação do delito é apresentada em parágrafo posterior ao que trata da majorante, é porque o legislador afastou a incidência desta em relação aos crimes qualificados previstos no § 4º do art. 155 do CP. Nesse contexto, aderindo a uma interpretação sistemática sob o viés topográfico, em que se define a extensão interpretativa de um dispositivo legal levando-se em conta sua localização no conjunto normativo, a aplicação da referida causa 46 de aumento limitar-se-ia ao furto simples, não incidindo, pois, no furto qualificado. Outra forma interpretativa para dirimir a questão é o método hermenêutico teleológico. Aqui, o que se propõe é a averiguação do objetivo da norma, de seus fins sociais, objetivos ligados à justiça, à segurança jurídica e à dignidade da pessoa humana. Com efeito, quando se busca o atendimento a esses aspectos, especialmente o relativo à dignidade humana, devem ser atendidos os princípios da proporcionalidade e da taxatividade. Sob o viés do princípio da proporcionalidade, objetiva-se evitar excesso de punição, mormente a possibilidade de aplicação de reprimendas mais severas a infrações que refletem menor gravidade, assim como evitar que haja proteção insuficiente aos bens jurídicos resguardados pelas normas penais. Ora, a agravação da pena derivada da incidência da majorante do furto noturno nas hipóteses do furto qualificado resultaria em um desproporcional quantitativo. Veja-se: o dispositivo relacionado ao furto cometido durante o repouso noturno (art. 155, § 1º, do CP) prevê acréscimo fixo de 1/3 da pena. Se possível a incidência dessa mesma majorante no furto qualificado (art. 155, § 4º, do CP), seriam gerados aumentos excessivos no quantitativo da pena: se considerada a pena mínima, o acréscimo seria de 8 meses (pena mínima de 2 anos do crime qualificado, aumentada em 1/3). De outra parte, se considerada a pena máxima, o aumento resultaria em 2 anos e 8 meses. Dessa forma, a pena do crime de furto qualificado, acrescida do quantum relativo à incidência da majorante, desconsiderando-se a incidência de quaisquer outras circunstâncias agravantes ou causas de aumento, poderia resultar em 10 anos e 8 meses, pena superior à do crime de roubo, tipo penal em que se protegem não só bens patrimoniais, tal qual no crime de furto, mas também a integridade corporal. Sendo assim, não se mostra razoável que determinada pena possa ser semelhante para crimes de gravidades diversas, como são o furto, ainda que em sua forma qualificada, e o roubo. Acrescente-se, também sob o enfoque do princípio da proporcionalidade, que, sendo a controvérsia a interpretação de normas penais que podem ensejar, em um cenário de dúvida, a incidência de penas mais severas, é razoável que também se analise o tema sob a perspectiva das circunstâncias a seguir relacionadas, muitas delas relativas à política criminal, que não contribuirão para a concretização do escopo preventivo, repressivo e reabilitatório do Direito Penal: a) busca de resolução de questões sociais mediante a exagerada edição da legislação penal e processual penal mais severa; b) existência de componentes administrativos na seara criminal que operam com 47 deficiência, tais como os estabelecimentos prisionais, a sobrecarga dos tribunais, a ineficácia de aplicação de penas clássicas, sobretudo sobre o aspecto da reabilitação do condenado, o alto custo do sistema penitenciário associado à escassez de recursos públicos para sua manutenção e melhoria, etc. Deve-se registrar também que o princípio da proporcionalidade destina-se igualmente a evitar a proteção insuficiente ou deficiente dos bens jurídicos resguardados pelo Direito Penal. Ora, é evidente que a lesividade advinda do cometimento do furto qualificado durante o repouso noturno é maior que a do furto simples ocorrente no mesmo período. Assim, é razoável admitir a possibilidade de, diante das circunstâncias fáticas, a prática do furto durante o período de repouso noturno ser levada em consideração na dosimetria da pena. Em outras palavras, se a incidência da majorante no furto qualificado mostra-se excessiva, poderá ser utilizada como circunstância judicial negativa na primeira fase da dosimetria (art. 59 do CP). Nessa oportunidade, o órgão julgador avaliará, sob a ótica de sua discricionariedade, o elemento relativo ao espaço temporal em que a infração foi cometida, podendo, se assim considerar, analisar a circunstância judicial referente às circunstâncias do crime com maior reprovabilidade. Esse proceder possibilitaria calibrar a reprimenda de modo a atender o postulado da proporcionalidade diante do caso concreto. Entretanto, ressalte-se que essa matéria - possibilidade de consideração da causa de aumento relativa ao repouso noturno como circunstância judicial desfavorável (art. 59 do CP) quando do cometimento do furto qualificado - NÃO enseja a fixação de tese vinculante na via do recurso especial repetitivo, visto que a variabilidade dos conceitosempregados no exercício discricionário do órgão julgador na confecção da primeira etapa da dosimetria penal é incompatível com o estabelecimento de fundamentos vinculatórios, tais como os exigidos na fixação de tese no sistema de precedentes judiciais. Sob o prisma do princípio da taxatividade, como garantia expressa do postulado da legalidade, deve-se entender que, ao ser positivada uma norma penal incriminadora - tal como uma causa de aumento de pena -, deve ela ser clara e precisa com vistas a não permitir discricionariedades, bem como ser de fácil compreensão para os destinatários. Efetivamente, não há precisão e clareza desejáveis na proposição penal prevista no art. 155, § 1º, do CP quando se deve definir sua aplicabilidade tanto ao furto simples quanto ao furto 48 qualificado. Restrita essa norma a indicar situação temporal em que há aumento de pena, não se veem nela elementos que lhe confiram extensão para que incida nas hipóteses do furto qualificado. Pensamento diverso, de modo a justificar a incidência extensiva dessa disposição legal, equivaleria a um agravamento dos tipos já existentes através de uma reinterpretação de garantias do Direito Penal, especialmente aquela relacionada à interpretação favorável ao réu nos casos em que há dúvida acerca do sentido da norma. Deve-se ressaltar que a interpretação no sentido de possibilitar a existência de bens jurídico-penais não expressamente definidos amplia os espaços de riscos jurídico-penais relevantes e a flexibilização das regras de imputação e relativização dos princípios político-criminais de garantia, circunstâncias que não condizem com a excepcionalidade inerente às normas penais sancionatórias, assim como não se compatibilizam com a necessária segurança jurídica, fundamento do Direito Penal. Também não se justifica a premissa de que, uma vez possível a aplicação da regra do furto privilegiado (art. 155, § 2º, do CP) ao furto qualificado, seria possível a incidência da causa de aumento relativa ao cometimento do furto durante o repouso noturno (art. 155, § 1º, do CP) no furto qualificado. Essa situação merece algumas observações. O privilégio previsto no § 2º do art. 155 e a causa de aumento relativa ao furto noturno são hipóteses fático-jurídicas diversas. A primeira refere-se a uma norma penal não incriminadora; a segunda, a uma causa de aumento, uma norma penal incriminadora. Sendo o furto privilegiado uma norma não incriminadora, pode comportar extensividade quando utilizado para integração do sistema jurídico penal. Já o furto cometido durante o repouso noturno, por ser uma norma incriminadora, tem sua extensividade vedada, visto que tem por consectário o agravamento da situação do réu. Com efeito, o uso de raciocínio analógico integrativo no âmbito do Direito Penal é inadmissível em hipótese em que haja prejuízo para o acusado. Desse modo, também sob a ótica de uma interpretação finalística, em que se deve conferir aplicabilidade aos princípios da proporcionalidade e da taxatividade, a incidência da causa de aumento referente ao cometimento do furto noturno limita-se ao furto simples, não se aplicando ao furto qualificado. Na jurisprudência do STJ, há casos de aplicação retroativa da revisão jurisprudencial mais benéfica, para o decote da majorante do repouso noturno em casos 49 de condenação por furto qualificado, pela via do habeas corpus. Confira-se: 5ª Turma do STJ, no AgRg no HC 748463 / SC, DJe 26/08/2022; 5ª Turma do STJ, AgRg no HC 780521 / SC, DJe 14/12/2022. Diversamente, não admitindo a retroatividade do entendimento jurisprudencial ocorrido após o trânsito em julgado da condenação, decisão monocrática do Min. Sebastião Reis Júnior, no REsp 2062302, interposto em face de acórdão proferido em sede de revisão criminal, DJ 02.05.23. Por seu turno, admitindo a possibilidade de apreciação do tema pelo próprio juízo da execução penal: “Compete ao Juízo da Vara de Execução Penal analisar e aplicar ao apenado, se for o caso, a tese fixada pelo Superior Tribunal de Justiça em julgamento de recurso especial repetitivo, no Tema 1087, segundo o qual: 'A causa de aumento prevista no § 1° do art. 155 do Código Penal (prática do crime de furto no período noturno) não incide no crime de furto na sua forma qualificada (§ 4°).” (Acórdão 1631940, 07315641820228070000, Relator: SILVANIO BARBOSA DOS SANTOS, Segunda Turma Criminal, data de julgamento: 20/10/2022, publicado no PJe: 31/10/2022). Obs.: Súmula 511 do STJ: é possível o reconhecimento do privilégio previsto no § 2º do art. 155 do CP nos casos de crime de furto qualificado, se estiverem presentes a primariedade do agente, o pequeno valor da coisa e a qualificadora for de ordem objetiva. Predomina o entendimento de que o abuso de confiança é a única qualificadora de natureza subjetiva e, portanto, incompatível com o privilégio. Obs.: 3ª Seção do STJ, nos REsps 1.979.989/RS e 1.979.998/RS, sujeitos ao rito dos recursos repetitivos (tema 1144), Inf. 742/22: O repouso noturno compreende o período em que a população se recolhe para descansar, devendo o julgador atentar-se às características do caso concreto. A situação de repouso está configurada quando presente a condição de sossego/tranquilidade do período da noite, caso em que, em razão da diminuição ou precariedade de vigilância dos bens, ou, ainda, da menor capacidade de resistência da vítima, facilita-se a concretização do crime. São irrelevantes os fatos das vítimas estarem, ou não, dormindo no momento do crime, ou o local de sua ocorrência, em estabelecimento comercial, via pública, residência desabitada ou em veículos, bastando que o furto ocorra, obrigatoriamente, à noite E em situação de repouso. Destaques do inteiro teor: No tocante ao horário de aplicação, este Superior Tribunal de Justiça já definiu que "este é variável, devendo obedecer aos costumes locais relativos à 50 hora em que a população se recolhe e a em que desperta para a vida cotidiana". Sendo assim, não há um horário prefixado, devendo, portanto, atentar-se às características da vida cotidiana da localidade (REsp 1.659.208/RS, Rel. Ministra Maria Thereza De Assis Moura, DJ 31/3/2017). Assim, se o crime de furto é praticado durante o repouso noturno, na hora em que a população se recolhe para descansar, valendo-se da diminuição ou precariedade de vigilância dos bens, ou, ainda, da menor capacidade de resistência da vítima, a pena será aumentada de um terço, não importando se as vítimas estão ou não dormindo no momento do crime, ou o local de sua ocorrência, em estabelecimento comercial, residência desabitada, via pública ou veículos. TODAVIA, haverá casos em que, mesmo nos furtos praticados no período da noite, mas em lugares amplamente vigiados, tais como em boates e comércios noturnos, ou, ainda, em situações de repouso, mas ocorridas nos períodos diurno ou vespertino, NÃO se poderá valer-se dessa causa de aumento. - 3ª Seção do STJ, Inf. 789/23: TEMA Latrocínio. Subtração de um só patrimônio. Pluralidade de vítimas da violência. Concurso formal impróprio. Descabimento. Overruling. Adequação à jurisprudência do STF. DESTAQUE Subtraído um só patrimônio, a pluralidade de vítimas da violência não impede o reconhecimento de crime único de latrocínio. INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR Na origem, houve a condenação por três crimes de latrocínio tentado, em concurso formal impróprio, quando, na verdade, foram atingidos apenas dois patrimônios. É certo que o entendimento adotado pelas instâncias ordinárias encontra respaldo na jurisprudência do STJ, no sentido de que há concurso formal impróprio no crime de latrocínio quando, não obstante houver a subtração de um só patrimônio, o animus necandi seja direcionado a mais de um indivíduo, ou seja, a quantidade de latrocínios será aferida a partir do número de vítimasem relação às quais foi dirigida a violência, e não pela quantidade de patrimônios atingidos. No entanto, essa posição destoa da orientação do Supremo Tribunal Federal, que têm afastado o concurso formal impróprio, e reconhecido a ocorrência de crime único de latrocínio, nas situações em que, embora o animus necandi seja dirigido a mais de uma pessoa, apenas um patrimônio tenha sido atingido. Por essa razão, mostra-se prudente proceder ao overruling da jurisprudência deste Tribunal Superior, adequando-a à firme compreensão do STF acerca do tema. No caso, as instâncias ordinárias afirmaram que 51 houve desígnios autônomos em relação ao animus necandi, motivo pelo qual entenderam pelo concurso formal impróprio, o qual deve ser afastado, nos termos do entendimento do STF. No entanto, é inviável o reconhecimento de crime único, porque foram atingidos dois patrimônios distintos. Nesse contexto, deve ser reconhecida a prática de dois delitos de latrocínio, na forma tentada, em concurso formal próprio, pois não foi mencionado pela Corte de origem que também teria havido autonomia de desígnios em relação às subtrações patrimoniais, mas tão somente no tocante ao animus necandi. PRINCÍPIO DO NE BIS IN IDEM Art. 8º, 4, Pacto de São José da Costa Rica, c/c art. 5º, § 2º, CF: O acusado absolvido por sentença passada em julgado não poderá se submetido a novo processo pelos mesmos fatos. 1) Proibição de múltipla persecução penal pelo mesmo fato. 1.1) Crime permanente Ex.: art. 35 da Lei 11.343/06 (crime permanente) Obs.: 5ª Turma do STJ, Inf. 737/22: A imputação de dois crimes de organização criminosa ao agente não revela, por si só, a litispendência das ações penais, se não ficar demonstrado o liame entre as condutas praticadas por ambas as organizações criminosas. 1.2) Processos em curso em diferentes Justiças 5ª Turma do STJ, REsp 1.847.488-SP, DJe 26/04/2021, Edição Especial do Informativo do STJ 2022: O ajuizamento de duas ações penais referentes aos mesmos fatos, uma na Justiça Comum Estadual e outra na Justiça Eleitoral, viola a garantia contra a dupla incriminação. INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR No caso, os mesmos fatos que levaram ao oferecimento da denúncia discutida também foram apreciados em ação de improbidade administrativa e ação penal na Justiça Eleitoral, sendo que ambas culminaram com a absolvição. Frisa-se que a sentença absolutória por ato improbidade não vincula o resultado do presente feito, porquanto proferida na esfera do direito administrativo sancionador que é independente da instância penal, embora seja possível, em tese, considerar como elementos de persuasão os argumentos nela lançados. No entanto, quanto à absolvição perante a Justiça Eleitoral, a questão adquire 52 peculiaridades que reclamam tratamento diferenciado. Isso porque a sentença, não recorrida pelo MPE, foi proferida no exercício de verdadeira jurisdição criminal, de modo que o prosseguimento da ação penal da qual se originou este habeas corpus encontra óbice no princípio da vedação à dupla incriminação, também conhecido como double jeopardy clause ou (mais comumente no direito brasileiro) postulado do ne bis in idem, ou ainda da proibição da dupla persecução penal. Embora não tenha previsão expressa na Constituição Federal de 1988, a garantia do ne bis in idem é certamente um limite implícito ao poder estatal, derivada da própria coisa julgada (art. 5º, XXXVI, da Carta Magna) e decorrente de compromissos internacionais assumidos pelo Brasil (§ 2º do mesmo art. 5º). Isso porque a Convenção Americana de Direitos Humanos (art. 8º, n. 4) e o Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos (art. 14, n. 7), incorporados ao direito brasileiro com status supralegal pelos Decretos 678/1992 e 592/1992, respectivamente, tratam da vedação à dupla incriminação. Tendo o Ministério Público, instituição una (à luz do art. 127, § 1º, da CF/1988) ajuizado duas ações penais referentes aos mesmos fatos, uma na Justiça Comum Estadual e outra na Justiça Eleitoral, há violação à garantia contra a dupla incriminação. Por conseguinte, a independência de instâncias não permite, por si só, a continuidade da persecução penal na Justiça Estadual, haja vista que a decisão proferida na Justiça Especializada foi de natureza penal, e não cível. Tanto o processo resolvido na esfera eleitoral como o presente versam sobre crimes, e como tais se inserem na jurisdição criminal, una por natureza. O que diferencia as hipóteses de atuação da Justiça Comum Estadual e da Justiça Eleitoral, quando exercem jurisdição penal, é a sua competência; ambas, contudo, realizam julgamentos em cognição exauriente sobre a prática de condutas delitivas. Sendo distintas as imputações vertidas num e noutro processo, é certo que cada braço do Judiciário poderá julgá-las; inobstante, tratando-se de acusações idênticas, não é o argumento genérico de independência entre as instâncias que permitirá o prosseguimento da ação penal remanescente. 1.3) Coisa julgada (divergência) 5ª Turma do STJ, Inf. 562/2015: Constatado o trânsito em julgado de duas decisões condenando o agente pela prática de um único crime - a primeira proferida por juízo estadual absolutamente incompetente e a segunda proferida pelo juízo federal 53 constitucionalmente competente -, a condenação anterior deve ser anulada caso se verifique que nela fora imposta pena maior do que a fixada posteriormente. Em primeiro lugar, faz-se necessário asseverar que o STJ já se pronunciou no sentido de que "A sentença proferida por juízo absolutamente incompetente impede o exame dos mesmos fatos ainda que pela justiça constitucionalmente competente, pois, ao contrário, estar-se- ia não só diante de vedado bis in idem como também na contramão da necessária segurança jurídica que a imutabilidade da coisa julgada visa garantir" (RHC 29.775-PI, Quinta Turma, DJe 25/6/2013). Com efeito, sopesando a garantia do juiz natural em face do princípio do ne bis in idem, deve preponderar este último como decorrência do princípio fundamental da dignidade da pessoa humana, princípio basilar do Estado Democrático de Direito, consoante explicita o inciso III do art. 1º da CF. Cabe ressaltar, a propósito, que esse entendimento foi consolidado para, dando efetividade ao princípio do favor rei, impedir o início ou a continuidade de outro processo que tenha por objetivo discutir os mesmos fatos que já foram objeto de decisão anterior. A situação em análise, entretanto, é peculiar. Existem duas condenações transitadas em julgado, sendo que a primeira foi proferida por juízo estadual absolutamente incompetente e a segunda pelo juízo constitucionalmente competente, tendo este estabelecido, inclusive, quantum de pena inferior ao definido anteriormente. Dessa forma, nessa hipótese, considerando a situação mais favorável ao réu, bem como a existência de trânsito em julgado perante a justiça competente para análise do feito, deve ser relativizada a coisa julgada, de modo a tornar possível a prevalência do princípio fundamental da dignidade da pessoa humana. X STF, 1ª Turma, HC 101131, j. 25/10/2011: Os institutos da litispendência e da coisa julgada direcionam à insubsistência do segundo processo e da segunda sentença proferida, sendo imprópria a prevalência do que seja mais favorável ao acusado. 6ª Turma do STJ, Inf. 642/2019: Diante do duplo julgamento do mesmo fato, deve prevalecer a sentença que transitou em julgado em primeiro lugar. Cinge-se a controvérsia a definir qual sentença deve prevalecer na hipótese da existência de duas sentenças definitivas em ações penais distintas pelo mesmo fato. No caso em exame, a prevalência da primeira decisão imutável é reforçada pela quebra do dever de lealdade processual por parte da defesa. Ainda que os documentos anexados aos autos permitam concluir que eles 54 foramassistidos pela Defensoria Pública nas duas ações penais - possivelmente, por profissionais distintos -, é pouco crível que, quando cientificados da segunda persecução criminal existente em seu desfavor, não hajam informado a pessoa responsável pela sua defesa que já estavam sendo processados pelos mesmos fatos. A leitura da segunda sentença - proferida após o trânsito em julgado da condenação - permite concluir que a duplicidade não foi mencionada sequer nas alegações finais. Tudo leva a crer que, sabedora da dupla persecução criminal contra os réus, e que já haviam sido condenados no outro processo a defesa prosseguiu na segunda ação e, ao ser exitosa, buscou a anulação do primeiro decisum na via mandamental. No ponto, deve-se destacar ser assente nessa Corte Superior o entendimento de que: "Vige no sistema processual penal o princípio da lealdade, da boa-fé objetiva e da cooperação entre os sujeitos processuais, não sendo lícito à parte arguir vício para o qual concorreu em sua produção, sob pena de se violar o princípio de que ninguém pode se beneficiar da própria torpeza - nemo auditur propriam turpitudinem allegans" (RHC n. 77.692/BA, Rel. Ministro Felix Fischer, 5ª Turma, DJe 18/10/2017). Ademais, sobre o tema, o Supremo Tribunal Federal entende que "demonstrado o 'bis in idem', e assim a litispendência, prevalece a condenação imposta na primeira ação" (HC n. 69.615/SP, Rel. Ministro Carlos Velloso, 2ª Turma, DJ 19/2/1993) e que "os institutos da litispendência e da coisa julgada direcionam à insubsistência do segundo processo e da segunda sentença proferida, sendo imprópria a prevalência do que seja mais favorável ao acusado" (HC n. 101.131/DF, Rel. Ministro Luiz Fux, Rel. p/ acórdão Ministro Marco Aurélio, 1ª Turma, DJe 10/2/2012). Com base nessas premissas, reconhece-se a prevalência da primeira sentença transitada em julgado. 1.4) Princípio da consunção 5ª Turma do STJ, HC 285.589, j. 04/08/2015, Inf. 569: O agente que, numa primeira ação penal, tenha sido condenado pela prática de crime de roubo contra uma instituição bancária não poderá ser, numa segunda ação penal, condenado por crime de roubo supostamente cometido contra o gerente do banco no mesmo contexto fático considerado na primeira ação penal, ainda que a conduta referente a este suposto roubo contra o gerente não tenha sido sequer levada ao conhecimento do juízo da primeira ação penal, vindo à tona somente no segundo processo. De fato, conquanto o suposto roubo contra o gerente do banco não tenha sido sequer levado ao 55 conhecimento do juízo da primeira ação penal, ele se encontra sob o âmbito de incidência do princípio ne bis in idem, na medida em que praticado no mesmo contexto fático da primeira ação. Além disso, do contrário ocorreria violação da garantia constitucional da coisa julgada. Sobre o tema, há entendimento doutrinário no sentido de que "Com o trânsito em julgado da sentença condenatória, o ato adquire a autoridade de coisa julgada, tornando-se imutável tanto no processo em que veio a ser proferida a decisão (coisa julgada formal) quanto em qualquer outro processo onde se pretenda discutir o mesmo fato criminoso objeto da decisão original (coisa julgada material). No direito brasileiro, a sentença condenatória evita se instaure novo processo contra o réu condenado, em razão do mesmo fato, quer para impingir ao sentenciado acusação mais gravosa, quer para aplicar-lhe pena mais elevada". Portanto, não há se falar, na hipótese em análise, em arquivamento implícito, inadmitido pela doutrina e pela jurisprudência, tendo em vista que não se cuida de fatos diversos, mas sim de um mesmo fato com desdobramentos diversos e apreciáveis ao tempo da instauração da primeira ação penal. Ademais, a doutrina sustenta que "a proibição (ne) de imposição de mais de uma (bis) consequência jurídico-repressiva pela prática dos mesmos fatos (idem) ocorre, ainda, quando o comportamento definido espaço-temporalmente imputado ao acusado não foi trazido por inteiro para apreciação do juízo. Isso porque o objeto do processo é informado pelo princípio da consunção, pelo qual tudo aquilo que poderia ter sido imputado ao acusado, em referência a dada situação histórica e não o foi, jamais poderá vir a sê-lo novamente. E também se orienta pelos princípios da unidade e da indivisibilidade, devendo o caso penal ser conhecido e julgado na sua totalidade - unitária e indivisivelmente - e, mesmo quando não o tenha sido, considerar-se-á irrepetivelmente decidido". Assim, em Direito Penal, "deve-se reconhecer a prevalência dos princípios do favor rei, favor libertatis e ne bis in idem, de modo a preservar a segurança jurídica que o ordenamento jurídico demanda. 1.5) Litispendência e coisa julgada internacional (divergência) Pelas regras do Código Penal, uma pessoa pode ser processada e condenada, tanto no estrangeiro, quanto no Brasil, pelo mesmo fato, especialmente nos casos de extraterritorialidade incondicionada e de territorialidade (bis in idem). O art. 8º do CP, para abrandar tal situação, prevê que a pena cumprida no estrangeiro atenua a pena 56 imposta no Brasil pelo mesmo crime, quando diversas, ou nela é computada, quando idênticas. Art. 8º do CP x princípio do ne bis in idem (art. 8.4 do Pacto de São José da Costa Rica - Decreto 678/1992 c/c art. 5º, § 2º, da CF) Inf. 656/19, 6ª Turma do STJ: A pendência de julgamento de litígio no exterior não impede, por si só, o processamento da ação penal no Brasil, não configurando bis in idem. INTEIRO TEOR As mudanças ocorridas no Direito, principalmente a partir da universalização dos direitos humanos e da criação consensual de instâncias supranacionais para protegê-los e punir os responsáveis por suas violações, implicou a progressiva e lenta reestruturação do processo penal moderno, para um modelo incriminatório universal em que as fronteiras não sejam obstáculo para a justiça ou refúgio para a impunidade. Uma dessas mudanças diz respeito aos limites de aplicação do ne bis in idem, a um primeiro olhar mais restritos quando aplicados no âmbito da jurisdição transnacional do que em sua corrente incidência dentro de cada ordenamento jurídico. Nesse contexto, pela análise de normativas internacionais incorporadas e vigentes no ordenamento jurídico brasileiro, constata-se a regra de que é a sentença definitiva oriunda de distintos Estados soberanos – e não a existência de litígio pendente de julgamento – que pode obstar a formação, a continuação ou a sobrevivência da relação jurídica processual que configuraria a litispendência. Prevalece, portanto, que a pendência de julgamento de litígio no exterior não impede o processamento de demanda no Brasil, até mesmo porque, como é cediço, no curso da ação penal pode ocorrer tanto a alteração da capitulação (emendatio libeli) como, também, da imputação penal (mutatio libeli), o que, por si só, é suficiente para exigir maior cautela na extinção prematura de demandas criminais em Estados soberanos distintos. Seria temerário, pois, também sob esse aspecto, aniquilar o cumprimento da pena no território brasileiro. Além disso, poderá incidir o art. 8º do Código Penal, que, embora não cuide propriamente da proibição de dupla punição e persecução penais, dispõe sobre o modo como deve ser resolvida a situação de quem é punido por distintos Estados soberanos pela prática do mesmo delito, nos seguintes termos: "A pena cumprida no estrangeiro atenua a pena imposta no Brasil pelo mesmo crime, quando diversas, ou nela é computada, quando idênticas". X 57 Inf. 959/19 do STF: Dupla persecução penal em âmbito internacional: A 2ª Turma do STF concedeu a ordem em habeas corpus para determinar o trancamento de ação penal movida contra o paciente, denunciado pela suposta prática do crime de lavagem de capitais, em razão de haver transferido dinheiro oriundode tráfico de drogas da Suíça para o Brasil, utilizando-se de contrato de fachada para dar aparência de licitude aos ativos em solo brasileiro. No caso, o paciente já teria sido processado e julgado na Suíça pelos mesmos fatos, o que culminou em condenação transitada em julgado e cômputo de período de encarceramento de caráter preventivo como execução antecipada da pena naquele Estado. De acordo com o Superior Tribunal de Justiça, o fato de o crime também ter sido cometido no Brasil, uma vez que a execução e os efeitos da lavagem de dinheiro ocorreram em território nacional, permite a persecução penal pela justiça brasileira, independentemente de outra condenação no exterior. Dessa forma, adota-se o princípio da territorialidade, nos termos do art. 5º do Código Penal (CP) (1), segundo o qual aplica- se a lei brasileira a qualquer crime cometido no Brasil. Inicialmente, a Turma reconheceu que os fatos apreciados pela justiça brasileira são coincidentes com os já analisados pelo Estado suíço. Ademais, apontou que a redação do art. 5º do CP contém a ressalva de que devem ser observados convenções, tratados e regras de direito internacional. Desse modo, deve-se cotejar a redação dos arts. 5º, 6º e 8º do CP com o que dispõe a Lei 13.445/2017 (Lei de Migração), a qual elenca o rol de casos em que o Estado brasileiro não concede extradição, notadamente o disposto no art. 82, V. O art. 100, caput, do mesmo diploma legal exige a observância do princípio do ne bis in idem. A proteção ao indivíduo selada por esses dispositivos é muito cara ao direito brasileiro. Revela-se evidente garantia contra nova persecução penal pelos mesmos fatos, de modo a se consagrar a proibição de dupla persecução penal também entre países, no âmbito internacional. Por outro lado, de acordo com a jurisprudência do Supremo Tribunal Federal (STF), assentou-se o status normativo supralegal aos tratados internacionais de direitos humanos, ou seja, abaixo da Constituição, mas acima das leis infraconstitucionais. Portanto, consagrou-se que o controle de convencionalidade pode ser realizado sobre as leis infraconstitucionais. Assim, o CP deve ser aplicado em conformidade com os direitos assegurados na Convenção Americana de Direitos Humanos e com o Pacto Internacional de Direitos Civis e 58 Políticos. Em relação à proibição de dupla persecução penal, tais diplomas o fazem de forma expressa (CADH, art. 8.4; PIDCP, art. 14.7). O STF já teve a oportunidade de se manifestar a respeito dessas regras, e, ao fazê-lo obstou o prosseguimento de processo penal quanto a fatos já julgados por jurisdição diversa (Ext 1.223). Assim, O EXERCÍCIO DO CONTROLE DE CONVENCIONALIDADE, TENDO POR PARADIGMAS OS DISPOSITIVOS DO ART. 14.7, DO PACTO INTERNACIONAL SOBRE DIREITOS CIVIS E POLÍTICOS E DO ART. 8.4, DA CONVENÇÃO AMERICANA DE DIREITOS HUMANOS, DETERMINA A VEDAÇÃO À DUPLA PERSECUÇÃO PENAL, AINDA QUE EM JURISDIÇÕES DE PAÍSES DISTINTOS. Por sua vez, o art. 8º do CP deve ser lido em conformidade com os preceitos convencionais e a jurisprudência da Corte Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), vedando-se a dupla persecução penal por idênticos fatos. Por fim, a vedação à dupla persecução penal em âmbito internacional deve ser ponderada com a soberania dos Estados e com as obrigações processuais positivas impostas pela CIDH. Em casos de violação de tais deveres de investigação e persecução efetiva, o julgamento em país estrangeiro pode ser considerado ilegítimo, como em precedentes em que a própria CIDH determinou a reabertura de investigações em processos de Estados que não verificaram devidamente situações de violações de direitos humanos. Portanto, se houver a devida comprovação de que o julgamento em outro país sobre os mesmos fatos não se realizou de modo justo e legítimo, desrespeitando obrigações processuais positivas, a vedação de dupla persecução pode ser eventualmente ponderada para complementação em persecução interna. Contudo, neste caso concreto, não há qualquer elemento que indique dúvida sobre a legitimidade da persecução penal e da punição imposta em processo penal na Suíça por idênticos fatos ao agora denunciado no Brasil. Dessa forma, a proibição de dupla persecução deve ser respeitada de modo integral, nos termos constitucionais e convencionais 2) Aplicabilidade do princípio do ne bis in idem na dosimetria penal O Pleno do STF, em sede de repercussão geral, no ARE 666334, DJ 06/05/2014, assentou a seguinte tese: “as circunstâncias da natureza e da quantidade da droga apreendida devem ser levadas em consideração apenas em uma das fases do cálculo de pena”. Com efeito, a partir de uma compreensão ampliada do princípio do ne bis in idem 59 (art. 8º, 4, Pacto de São José da Costa Rica), não restrito à impossibilidade das persecuções penais múltiplas, desenvolveu-se uma das mais relevantes funções no direito penal constitucional: balizar a individualização da pena, com vistas a impedir mais de uma punição individual pelo mesmo fato em momentos diversos do sistema trifásico adotado pelo Código Penal. Diante disso, o Pleno decidiu que os critérios previstos no art. 42 da Lei 11.343/06 não podem ser utilizados para exasperar a pena-base e influenciar na fração adotada por ocasião da minorante do art. 33, § 4º, da Lei 11.343/06, mas caberá ao magistrado, alternativamente e com vistas ao princípio da individualização da pena, fazer com que tais circunstâncias recaiam na primeira ou na terceira fase da dosimetria penal (juízo de discricionariedade juridicamente vinculada). Súmula 241 do STJ: A reincidência penal não pode ser considerada como circunstância agravante e, simultaneamente, como circunstância judicial. 3) Aplicabilidade do princípio do ne bis in idem na execução penal Súmula 493 do STJ: É inadmissível a fixação de pena substitutiva (CP, art. 44) como condição especial ao regime aberto.de 1 a 3 anos, e multa). RESUMO É inconstitucional a cominação da pena em abstrato atualmente prevista no art. 273 do Código Penal (CP) — reclusão, de dez a quinze anos, e multa — para a importação de medicamentos sem registro no órgão de vigilância sanitária competente, conduta tipificada no art. 273, § 1º-B, I, do CP. O vício decorre da ofensa à vedação de penas cruéis e da afronta a princípios constitucionais, como o da proporcionalidade e o da individualização da pena. Presente contexto de clamor público, houve a modificação do art. 273 do CP pela Lei 9.677/1998 (Lei dos Remédios), inclusive com a criação de figuras delitivas. Atualmente, o CP equipara situações de fato bastante distintas 5 quanto à conduta e as consequências potenciais. Nesse sentido, pune-se a mera importação e comercialização de medicamento sem registro sanitário com as mesmas penas da falsificação ou da adulteração de medicamentos. Ocorre que, se a norma trata com idêntica gravidade situações de reprovabilidade diversas, não há individualização da pena. Impende registrar que o princípio da proporcionalidade proíbe a proteção deficiente e também o excesso. A respeito do comportamento em debate, a pena mínima é maior do que aquela prevista para o estupro de vulnerável, a extorsão mediante sequestro e a tortura seguida de morte. Em matéria penal, a proporcionalidade deve levar em conta a importância do bem jurídico tutelado, o grau de afetação do bem jurídico, o elemento subjetivo e a forma de participação do agente no delito. Dessa maneira, é evidente a desproporcionalidade do preceito secundário impugnado considerada a conduta específica de importar medicação sem registro sanitário. Agrega-se não serem admitidas penas cruéis e incomuns. Aplicam-se os efeitos repristinatórios da declaração de inconstitucionalidade, com o retorno do preceito secundário do art. 273 do CP em sua redação original — reclusão, de um a três anos, e multa — na hipótese de importação de medicamentos sem o mencionado registro. A sanção estipulada irá abarcar apenas a conduta delitiva de importar medicação sem registro, uma vez que não foi declarada a inconstitucionalidade de toda a alteração legislativa do art. 273 do CP. Ressalta-se que a objetividade jurídica defendida pelo aludido artigo — o bem jurídico tutelado — é a saúde pública. Além disso, embora possa parecer razoável, permitir a aplicação de norma secundária de tipo penal diverso pode gerar insegurança jurídica. Na espécie, trata-se de dois recursos extraordinários. Um deles interposto pelo Ministério Público e o outro, pelo réu, que foi condenado por haver importado irregularmente, e posto à venda, remédio sem o devido registro na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). No acórdão recorrido, o tribunal compreendeu ser inconstitucional o preceito secundário do tipo penal e aplicou sanção estabelecida para o delito de tráfico de drogas e minorante a ele correspondente. Ao apreciar o Tema 1003 da repercussão geral, o Plenário, por maioria e em conclusão de julgamento, negou provimento ao recurso extraordinário do Parquet e deu parcial provimento ao recurso do condenado, determinando o retorno do processo ao tribunal de origem para aplicação da tese jurídica fixada. Vencidos os ministros Edson Fachin, Luiz Fux e Marco Aurélio 6 ATENÇÃO: O Tribunal acolheu os embargos de declaração opostos pela Defensoria Pública da União, para estender os efeitos da declaração de inconstitucionalidade do preceito secundário do art. 273 do Código Penal, com redação dada pela Lei nº 9.677/98, aos demais núcleos típicos verbais a que se refere o art. 273, § 1º-B, I, do Código Penal. Assim, em decisão publicada em 19.06.23, foi readequada a tese jurídica nos seguintes termos (tema 1.003 da repercussão geral): "É inconstitucional a aplicação do preceito secundário do art. 273 do Código Penal, com redação dada pela Lei nº 9.677/98 (reclusão, de 10 a 15 anos, e multa), à hipótese prevista no seu § 1º-B, I, que versa sobre importar, vender, expor à venda, ter em depósito para vender ou, de qualquer forma, distribuir ou entregar produto sem registro no órgão de vigilância sanitária. Para estas situações específicas, fica repristinado o preceito secundário do art. 273, na sua redação originária (reclusão, de 1 a 3 anos, e multa)". - Fase judiciária/ proporcionalidade concreta: o princípio da proporcionalidade se manifesta na fase judiaria, principalmente quando da dosimetria da pena, encerrando um juízo de discricionariedade juridicamente vinculado, mas também auxiliando na interpretação dos tipos penais. Ex.: 1) STJ e STF: por força do princípio constitucional da proporcionalidade, condenação transitada em julgado pelo crime do art. 28 da Lei 11.343/06 não gera a reincidência caso praticado novo crime dentro do período depurador, porque o crime de porte de droga para consumo próprio é ontologicamente menos grave que as próprias contravenções penais. 2) STF, HC 123108, 123533 e 123734, j. 03/08/15: na hipótese de o juiz da causa considerar penal ou socialmente indesejável a aplicação do princípio da insignificância por furto, em situações em que tal enquadramento seja cogitável, eventual sanção privativa de liberdade deverá ser fixada, como regra geral, em regime inicial aberto, paralisando-se a incidência do art. 33, § 2º, c, do CP no caso concreto, com base no princípio da proporcionalidade. - Fase executória/ proporcionalidade concreta: Ex.: 3ª Seção do STJ, no REsp 1.977.135/SC, sob o rito dos recursos repetitivos (tema 1155), Inf. 758/22, decidiu que: 1. O período de recolhimento obrigatório noturno e nos dias de folga, por comprometer o status libertatis do acusado, deve ser reconhecido como período a ser detraído da pena privativa de liberdade e da medida 7 de segurança, em homenagem aos princípios da proporcionalidade e do non bis in idem. 2. O monitoramento eletrônico associado, atribuição do Estado, não é condição indeclinável para a detração dos períodos de submissão a essas medidas cautelares, não se justificando distinção de tratamento ao investigado ao qual não é determinado e disponibilizado o aparelhamento. 3. A soma das horas de recolhimento domiciliar a que o réu foi submetido devem ser convertidas em dias para contagem da detração da pena. Se no cômputo total remanescer período menor que vinte e quatro horas, essa fração de dia deverá ser desprezada. 2) Parte da doutrina também tem considerado o princípio da proporcionalidade sob o enfoque da vedação de proteção deficiente: não se admite que um direito fundamental seja deficientemente protegido, seja mediante a eliminação de figuras típicas, seja pela cominação de penas que ficam aquém da importância exigida pelo bem que se quer proteger. Dentro desse contexto, fala-se em mandados constitucionais de criminalização, dirigidos ao legislador ordinário, para que criminalize algumas condutas ou estabeleça um tratamento penal mais recrudescido, como no caso dos incisos XLI, XLII, XLIII e XLIV do art. 5º da CF. Nesse sentido, decisão do STF na ADO 26, j. 06/10/2020: Até que sobrevenha lei emanada do Congresso Nacional destinada a implementar os mandados de criminalização definidos nos incisos XLI e XLII do art. 5º da Constituição da República, as condutas homofóbicas e transfóbicas, reais ou supostas, que envolvem aversão odiosa à orientação sexual ou à identidade de gênero de alguém, por traduzirem expressões de racismo, compreendido este em sua dimensão social, ajustam-se, por identidade de razão e mediante adequação típica, aos preceitos primários de incriminação definidos na Lei nº 7.716, de 08/01/1989, constituindo, também, na hipótese de homicídio doloso, circunstância que o qualifica, por configurar motivo torpe (Código Penal, art. 121, § 2º, I, “in fine”). Também o STJfez alusão à proibição de proteção deficiente e à existência de um mandado constitucional de criminalização no art. 227, § 4º, da CF, no Inf. 740/22, decisão 3ª Seção do STJ, em sede de recurso repetitivo, tema 1121: Presente o dolo específico de satisfazer à lascívia, própria ou de terceiro, a prática de ato libidinoso 8 com menor de 14 anos configura o crime de estupro de vulnerável (art. 217-A do CP), independentemente da ligeireza ou da superficialidade da conduta, não sendo possível a desclassificação para o delito de importunação sexual (art. 215-A do CP). Em alguns precedentes, ressaltou-se até mesmo que o delito prescinde inclusive de contato físico entre vítima e agressor. A pretensão de se desclassificar a conduta de violar a dignidade sexual de pessoa menor de 14 anos para uma contravenção penal (punida, no máximo, com pena de prisão simples) já foi reiteradamente rechaçada pela jurisprudência desta Corte. A superveniência do art. 215-A do CP (crime de importunação sexual) trouxe novamente a discussão à tona, mas o conflito aparente de normas é resolvido pelo princípio da especialidade do art. 217-A do CP, que possui o elemento especializante "menor de 14 anos", e também pelo princípio da subsidiariedade expressa do art. 215-A do CP, conforme se verifica de seu preceito secundário in fine. Ao contrário do que ocorre no cotejo entre os arts. 213 e 215-A, ambos do CP, o constrangimento não é elemento especializante do estupro de vulnerável, mas o fator especializante do art. 217-A do CP, na sistemática da Lei n. 12.015/2009, é simplesmente a idade da vítima: "vítima menor de 14 (catorze) anos". Desclassificar a prática de ato libidinoso com pessoa menor de 14 anos para o delito do art. 215-A do CP, crime de médio potencial ofensivo que admite a suspensão condicional do processo, desrespeitaria ao mandamento constitucional de criminalização do art. 227, §4º, da CRFB, que determina a punição severa do abuso ou exploração sexual de crianças e adolescentes. Haveria também descumprimento a tratados internacionais. O art. 19 da Convenção Internacional sobre os Direitos da Criança é peremptório ao impor aos Estados a adoção de medidas legislativas, administrativas, sociais e educacionais apropriadas para proteger a criança contra "todas" as formas de abuso. Em verdade, a subsunção no art. 217-A do CP prestigia o princípio da proporcionalidade, notadamente no aspecto da proibição da proteção insuficiente, bem como o princípio da proteção integral, conforme visto. Críticas ao enfoque da proteção deficiente para o princípio da proporcionalidade: - violação ao princípio da legalidade penal, em especial no que tange à reserva absoluta. - dissocia-se da concepção limitadora da teoria do bem jurídico 9 * Juarez Tavares defende uma posição crítica e estritamente limitadora do bem jurídico, definido como “um valor que se incorpora à norma como um objeto de preferência real e constitui, portanto, o elemento primário da estrutura do tipo, ao qual se devem referir a ação típica e todos os seus demais componentes.” E este valor deve estar vinculado à proteção da pessoa humana. Assim, para Tavares, o bem jurídico exerce dois papéis fundamentais: 1 - condiciona a validade da norma penal incriminadora (são inválidas normas incriminadoras sem referência direta a qualquer bem jurídico, compreendido enquanto um valor e que visa a proteção da pessoa humana, não se vinculando a finalidades políticas de segurança); e 2 - subordina sua eficácia à demonstração de que tenha sido lesado ou posto em perigo (não há crime sem resultado normativo, ou seja, sem que verificado efetivo dano ou perigo de lesão ao bem jurídico). * Já para uma concepção fundamentadora, a ideia de proteção ao bem jurídico consubstancia forma de legitimação da incriminação, já que o Direito Penal se destinaria à tutela dos bens jurídicos, que devem estar em compasso axiológico com a Constituição. PRINCÍPIO DA LEGALIDADE PENAL Art. 5º, XXXIX, da CF, e art. 1º do CP Nullum crimen, nulla poena sine lege (Feuerbach): - Scripta: a lei penal deve ser escrita e, pela reserva absoluta, deve emanar do Congresso Nacional. X decretos, resoluções, medidas provisórias (art. 62, § 1º, I, b, da CF – como ressalva, a vedação de medida provisória em matéria penal não abrange as normas penais benéficas, conforme decidiu o STF no RE 254.818). Inconstitucionalidade formal. Discussão quanto à constitucionalidade das leis penais em branco heterólogas. O costume não é admitido para criação ou agravamento de crimes e penas. - Stricta: a analogia in malam partem é proibida. Ex.: 1) art. 158, § 2º, do CP, deixou de ser hediondo por ter sido suprimido do rol taxativo do art. 1º da Lei 8.072/90 X Rogério Sanches sustenta que permanece hediondo sob a alegação de se tratar de 10 interpretação extensiva. 2) 6ª Turma do STJ, Inf. 678/20: o requisito “não ter integrado organização criminosa”, incluso no inciso V do § 3º do art. 112 da LEP, para progressão de regime da mulher gestante, mãe ou responsável por criança ou pessoa com deficiência, deve ser interpretado de acordo com a definição de organização criminosa da Lei 12.850/2013. No mesmo sentido, 2ª Turma do STF, HC 183.610, j. 19.10.21, e 5ª Turma do STJ, HC 679.715, j. 26.10.21, afirmando que o crime de organização criminosa (Lei 12.850/2013) tem definição autônoma e limites próprios, não sendo intercambiável com o delito de associação criminosa (art. 288 do CP) ou mesmo associação para o tráfico (art. 35 da Lei 11.343/2006), de modo que, em prol da legalidade, da taxatividade e do favor rei, a interpretação do art. 112, §3°,V da LEP deve se dar de modo restritivo. * 5ª Turma do STJ, Inf. 788/23: Somente configura o crime de constituição de milícia privada se a atuação do grupo criminoso se restringe aos delitos previstos no Código Penal. INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR A controvérsia está em definir se somente configura o crime de milícia privada se o grupo praticar exclusivamente delitos previstos no Código Penal. Na hipótese, o Tribunal estadual desclassificou o crime de constituição de milícia privada (art. 288-A do CP) para o delito de associação criminosa armada (art. 288, parágrafo único, do CP), mais favorável ao réus, em razão de o grupo criminoso não ter se limitado a praticar somente os delitos dispostos no Código Penal, destacando que também praticavam outros crimes previstos em legislação extravagante, notadamente o porte ou posse ilegal de arma de fogo. Com efeito, comete o crime de constituição de milícia privada, nos termos do art. 288-A do Código Penal, quem "Constituir, organizar, integrar, manter ou custear organização paramilitar, milícia particular, grupo ou esquadrão com a finalidade de praticar qualquer dos crimes previstos neste Código." Depreende-se da interpretação literal da norma acima descrita, que o legislador restringiu as hipóteses para a caracterização da milícia privada à prática dos crimes previstos no Código Penal. Desse modo, deve prevalecer a desclassificação para o delito de associação criminosa armada, pois a ampliação do alcance da norma disposta no art. 288-A do Código Penal, para incluir no âmbito de atuação do grupo criminoso os crimes previstos em legislação extravagante, não pode ser admitida, na medida em que a interpretação extensiva em prejuízo ao réu (in malam partem) é vedada no âmbito do direito penal. 11 * 5ª Turma do STJ, Inf. 771/23: A receptação, em sua forma qualificada, demanda especial qualidade do sujeito ativo, que deve ser comerciante ou industrial. INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR Para que se configure a modalidade qualificada no crime de receptação, há a exigência legal de que a prática de um dos verbos nucleares ocorra no exercício de atividade comercial ou industrial com efetiva habitualidade. A figura do § 1º doart. 180 do Código Penal foi introduzida para punir mais severamente os proprietários de "desmanches" de carros, exigindo-se ainda o exercício de atividade comercial ou industrial, devendo ser lembrado que o § 2º equipara à atividade comercial, para efeito de configuração da receptação qualificada, qualquer forma de comércio irregular ou clandestino, inclusive o exercido em residência, abrangendo, com isso, o "desmanche" ou "ferro-velho" caseiro, sem aparência de comércio legalizado (REsp 1.743.514/RS, relator Ministro Jorge Mussi, Quinta Turma, julgado em 14/8/2018, DJe 22/8/2018). O entendimento doutrinário, por sua vez, considera que a expressão "no exercício de atividade comercial ou industrial" pressupõe habitualidade no exercício do comércio ou da indústria, pois é sabido que a atividade comercial (em sentido amplo) não se aperfeiçoa com um único ato, sem continuidade no tempo. No caso, as instâncias consignaram a demonstração de que as peças retiradas dos carros furtados/roubados seriam vendidas no estabelecimento comercial do acusado. Porém, com relação aos outros réus, não se comprovou o exercício da atividade comercial prestado de forma habitual, atraindo, quanto a eles, a desclassificação do crime qualificado para receptação simples (art. 180, caput, do CP). * 3ª Seção do STJ, Inf. 768/23: Não se enquadra como dano qualificado a lesão a bens das entidades não previstas expressamente no rol do art. 163, parágrafo único, inciso III, do Código Penal, em sua redação originária - anterior à alteração legislativa promovida pela Lei n. 13.531/2017 -, em razão da vedação da analogia in malam partem no sistema penal brasileiro. No caso, o crime imputado de dano qualificado decorre de avarias a um imóvel pertencente à Caixa Econômica Federal - CEF, empresa pública. Não se trata da utilização da técnica da interpretação extensiva para ampliar a vontade do legislador, consoante concluído no aresto embargado, mas ausência de expressa previsão legal a respeito do enquadramento do patrimônio das empresas públicas no rol dos entes dispostos na redação originária do art. 163, parágrafo 12 único, III, do CP. Assim, qualificar o dano praticado em detrimento dos bens da referida entidade seria hipótese de aplicação da analogia in malam partem, não admitida no direito penal. Desse modo, deve prevalecer o entendimento da Quinta Turma desta Corte, no sentido da impossibilidade de se enquadrar como dano qualificado a lesão a bens das entidades não previstas expressamente no rol do art. 163, parágrafo único, inciso III, do Código Penal, em sua redação originária, haja vista a vedação da analogia in malam partem no sistema penal brasileiro. - Certa: é proibida a incriminação vaga, que pode ocorrer pela ocultação do núcleo do tipo, pela ausência de precisão semântica dos elementos do tipo e pelas tipificações abertas e exemplificativas. Exigência de taxatividade/ determinação da lei penal. Ex.: art. 288-A do CP; art. 50, I, e 118, § 1º, da LEP; tráfico de drogas e de armas com o agente disfarçado (art. 33, § 1º, IV, da Lei 11.343/06, e arts. 17, § 2º, e 18, parágrafo único, da Lei 10.826/03, inseridos pela Lei 13.964/19). - Praevia: irretroatividade da lei penal (art. 5º, XL, da CF e art. 2º do CP), com ressalva para a retroatividade mais benéfica. APLICAÇÃO DA LEI NO TEMPO 1) Alterações legislativas recentes de destaque É importante que o candidato dê um enfoque especial para as alterações legislativas mais recentes, com especial atenção para as regras de direito intertemporal, que variarão conforme se trate de norma de natureza penal ou híbrida (processual com reflexos no direito material), ou de norma de caráter processual. Destaques: - Lei nº 14.532/23: alterações no crime de injúria racial e na Lei de Crime Racial. - Lei nº 14.562/23: alteração no crime de adulteração de sinal identificador de veículo (art. 311 do CP). - Lei nº 14.344/22 (Lei Henry Borel): criou mecanismos para a prevenção e o enfrentamento da violência doméstica e familiar contra a criança e o adolescente, inclusive com a previsão de novos tipos penais de descumprimento de medida protetiva e de omissão de comunicação de violência a autoridade pública. Além disso, efetuou 13 diversas alterações legislativas em outros diplomas legais, valendo salientar as alterações no termo inicial da prescrição, no tipo penal do homicídio e na lei de crime de hediondos, no art. 226 do ECA, dentre outras. - Lei nº 14.188/21: destaque para a qualificadora do art. 129, § 13, do CP, no caso de lesão corporal simples cometida contra a mulher por razões da condição do sexo feminino, e para a previsão do tipo penal de violência psicológica contra a mulher (art. 147-B do CP). - Lei nº 14.132/21: inseriu o tipo penal de stalking. - Lei nº 14.155/21: alterações nos crimes de violação de dispositivo informático (art. 154-A do CP), de furto e estelionato (art. 155, § 4º-B e § 4º-C, e art. 171, § 2º-A, § 2º-B, § 4º, do CP) e na competência modalidades de estelionato (art. 70, § 4º, do CPP). * A regra da ação penal no crime de estelionato foi alterada pela Lei nº 13.964/19 (Lei Anticrime). - Lei nº 14.245/21 (Lei Mariana Ferrer): inseriu majorante no crime de coação no curso do processo (art. 344, p. único, do CP), bem como vedação a atitudes de revitimização nos procedimentos ordinário, sumário e sumaríssimo (arts. 400-A e 471-A do CPP e art. 81, § 1º-A, da Lei 9.099/95). - Lei nº 13.869/19: crimes de abuso de autoridade, com destaque para a inserção do tipo penal de violência institucional no art. 15-A pela Lei nº 14.321/22. - Lei nº 14.197/21: inseriu no título XII da parte especial do CP os crimes contra o Estado Democrático de Direito, revogando a Lei de Segurança Nacional, e inseriu modalidade específica de incitação ao crime no art. 286, p. único, do CP. - Lei nº 14.110/20: alterou o crime de denunciação caluniosa (art. 339 do CP) - Lei nº 13.968/19: alterou o crime de induzimento, instigação ou auxílio a suicídio, bem como à automutilação (art. 122 do CP). - Lei nº 13.964/19 (Lei Anticrime) 2) Sucessão de leis penais no tempo: EXTRA-ATIVIDADE DA LEI PENAL MAIS FAVORÁVEL (lex mitior) A lei permanece em vigor até que outra posterior a modifique ou revogue. A revogação da lei em vigor pode ser total, também chamada de ab-rogação, ou parcial, isto 14 é, derrogação. Pode, ainda, a revogação ser expressa, quando assim declarada pela lei posterior, ou tácita, quando a lei nova for incompatível com a lei anterior ou quando regular inteiramente a matéria que esta tratava. Como exceção, as leis temporárias e excepcionais (leis intermitentes) são automaticamente revogadas. No âmbito da aplicação da lei penal no tempo, temos: 1) Atividade da lei penal: se refere à aplicação da lei penal durante o seu período de vigência; 2) Extra-atividade da lei penal: se refere à aplicação da lei penal fora do seu período de vigência. Espécies: retroatividade (aplicação da lei penal para alcançar atos praticados anteriormente à sua vigência) e ultratividade (aplicação da lei penal para frente, ainda que cessada a sua vigência, para alcançar atos praticados durante a sua vigência). A regra que orienta a extra-atividade da lei penal, no caso de sucessão de leis de natureza penal no tempo, se encontra no art. 5º, XXXIX e XL, da CF, e no art. 2º do CP: princípio da irretroatividade da lei penal mais gravosa (acarreta a ultratividade da lei penal mais benéfica) e princípio da retroatividade da lei benéfica, ou seja, EXTRA-ATIVIDADE DA LEX MITIOR, o que decorre da consagração do princípio da legalidade penal. Atenção: a análise da lei penal mais benéfica, no caso de sucessão de leis no tempo, deve levar em consideração o tempo do crime. Art. 4º do CP: Considera-se praticado o crime no momento da ação ou omissão,ainda que outro seja o momento do resultado. Adoção da teoria da atividade. Sendo assim: - as alterações legislativas que importem em criminalização de conduta (novatio legis incriminadora – ex.: novos tipos penais de tráfico de drogas e de armas com o agente policial disfarçado) ou que prejudiquem o acusado de qualquer forma (novatio legis in pejus – ex.: inclusão do delito de roubo circunstanciado pelo emprego de arma de fogo no rol de crimes hediondos; previsão de novas hipóteses de vedação ao livramento condicional nos casos de crimes hediondos ou equiparados com resultado morte; inserção da causa suspensiva da prescrição no art. 116, inciso VI do CP, inserida pela Lei Anticirme, que não poderá se aplicar ao ANPP firmado com arrimo na Resolução 181 e 183 do CNMP) só serão aplicadas aos fatos praticados a partir da entrada em vigor da lei (princípio da irretroatividade da lei penal mais gravosa). Nesse ponto, teremos a 15 ultratividade da lei anterior mais benéfica, que continuará regendo os fatos praticados durante a sua vigência. - as alterações legislativas que importem em descriminalização de conduta (abolitio criminis – ex.: (1) a revogação dos delitos de adultério, sedução e rapto consensual (Lei nº 11.106/2005); (2) descriminalização formal da posse ou porte de munição de uso proibido pela Lei Anticrime no art. 16 da Lei 10.826/03) ou que beneficiem o acusado de qualquer forma (novatio legis in mellius – ex.: exclusão de um delito do rol de crimes hediondos; previsão de requisito temporal mais benéfico para progressão de regime) deverão ser aplicadas retroativamente aos fatos praticados antes mesmo da entrada em vigor da lei (princípio da retroatividade da lei penal mais benéfica). * A aplicação retroativa da lei penal mais benéfica consiste em matéria de ordem pública e, portanto, cognoscível pelo juiz a qualquer tempo, independentemente de provocação da parte. Dessa forma, nos casos em que a mudança legislativa ocorrer estando o processo ainda em curso, certo é que a lei nova deverá ser aplicada pelo juiz do conhecimento, em qualquer grau de jurisdição. Outrossim, mesmo as condenações já transitadas em julgado são alcançadas pelo princípio constitucional da retroatividade da lei penal mais benéfica. Nesse caso, mostra-se desnecessário o manejo de revisão criminal, bastando a apresentação de simples petição ao juízo da execução penal, uma vez que o art. 66, I, da LEP, c/c Súmula 611 do STF preveem ser da competência do juízo da execução penal aplicar a lei posterior mais benéfica às condenações já transitadas em julgados. Parte da doutrina (Rogério Sanches) ressalva a necessidade de ajuizamento de revisão criminal apenas se for necessário juízo de valor para aplicação da lei nova mais favorável. 2.1) Estelionato contra idoso ou vulnerável (majorante) Art. 171, § 4º, com redação alterada pela Lei 14.155/21: A pena aumenta-se de 1/3 (um terço) ao dobro, se o crime é cometido contra idoso ou vulnerável, considerada a relevância do resultado gravoso. * Antes, o dispositivo previa que a pena se aumentava em dobro se o crime for cometido contra idoso. 16 * Novatio legis in mellius em relação ao estelionato contra idoso (aqui, utiliza-se o referencial do Estatuto da Pessoa Idosa, ou seja, pessoa com idade igual ou superior a 60 anos). * Novatio legis in pejus em relação ao estelionato contra vulnerável. 2.2) Estelionato qualificado pela fraude eletrônica Inserido pela Lei 14.155/21. Novatio legis in pejus. Art. 171, § 2º-A (qualificadora): A pena é de reclusão, de 4 (quatro) a 8 (oito) anos, e multa, se a fraude é cometida com a utilização de informações fornecidas pela vítima ou por terceiro induzido a erro por meio de redes sociais, contatos telefônicos ou envio de correio eletrônico fraudulento, ou por qualquer outro meio fraudulento análogo. * Exige um atuar positivo da vítima ou do terceiro. Ex.: golpe do e-mail pedindo informações, golpe da página eletrônica clonada em que a vítima insere os dados bancários, dados de cartão, golpe do telefonema simulando instituição financeira, golpe do whatsapp com foto de parente pedindo senha do cartão de crédito para fazer compras... Cuidado com os casos que caracterizarão, na verdade, furto mediante fraude eletrônica. * Note-se que a fraude eletrônica deve ser o meio pelo qual o agente induz a vítima ou o terceiro em erro. Já na hipótese, por exemplo, em que a fraude que induziu a vítima em erro foi praticada presencialmente, fazendo com que a vítima fizesse uma compra virtual (vantagem indevida), não se caracteriza a qualificadora. § 2º-B (causa de aumento de pena). A pena prevista no § 2º-A deste artigo, considerada a relevância do resultado gravoso, aumenta-se de 1/3 (um terço) a 2/3 (dois terços), se o crime é praticado mediante a utilização de servidor mantido fora do território nacional. 2.3) Furto qualificado pela fraude eletrônica Inserido pela Lei 14.155/21. Novatio legis in pejus. Art. 155, § 4º-B (qualificadora): A pena é de reclusão, de 4 (quatro) a 8 (oito) anos, e multa, se o furto mediante fraude é cometido por meio de dispositivo eletrônico ou informático, conectado ou não à rede de computadores, com ou sem a 17 violação de mecanismo de segurança ou a utilização de programa malicioso, ou por qualquer outro meio fraudulento análogo. * Para que se configure o delito de estelionato (art. 171 do Código Penal), é necessário que o agente, induza ou mantenha a vítima em erro, mediante artifício, ardil, ou qualquer outro meio fraudulento, de maneira que esta lhe entregue voluntariamente o bem ou a vantagem. Se não houve voluntariedade na entrega, o delito praticado é o de furto mediante fraude eletrônica (art. 155, § 4.º-B, do CP) (3ª Seção do STJ, CC 181.538/SP, DJe 1º/9/2021). Ilustração da diferenciação por Rogério Sanches: a) Aproveitando a vulnerabilidade de pessoas que utilizam uma rede pública de internet, um hacker intercepta a conexão e obtém dados de acesso a contas bancárias. Com esses dados à disposição, acessa as contas e transfere quantias em dinheiro para outra conta da qual efetua saques. É um caso típico de furto mediante fraude, no qual a manobra ardilosa (interceptar os dados transmitidos entre o usuário e o ponto de conexão) é utilizada para que as vítimas sejam despojadas de seus bens sem que nada percebam. b) Pretendendo adquirir um televisor, um indivíduo faz uma pesquisa na internet e encontra a página de uma conhecida rede varejista na qual o produto está sendo anunciado por um preço muito abaixo das concorrentes. Insere seus dados pessoais e bancários sem saber que, na verdade, se trata de uma página clonada, que apenas copia os caracteres da famosa rede varejista, para induzir as pessoas em erro. Efetuado o pagamento, o dinheiro é creditado ao autor da fraude, que evidentemente não pretende entregar o produto anunciado. Nesse exemplo, ao contrário do anterior, a vítima tem participação direta, pois, induzida por um anúncio enganoso, fornece os dados para que o autor da fraude possa obter a vantagem. Trata-se, portanto, de estelionato. * Modalidade específica de furto mediante fraude, prevalecendo sobre o art. 155, § 4º, II, CP. * Princípio da consunção: se o agente utiliza a invasão de dispositivo informático de uso alheio para cometer furto qualificado pelo emprego de fraude eletrônica, o art. 154-A do CP é absorvido pelo furto. Atenção: com a alteração da Lei 14.155/21, não mais se exige que a invasão de dispositivo informático se dê através da violação de mecanismo de segurança (novatio legis in pejus). 18 Ex.: indivíduo invade o computador da vítima, instala um programa malicioso e consegue obter a sua senha bancária, subtraindo valores da conta; indivíduo intercepta a conexão de alguém que está utilizando uma rede pública de internete, com isso, obtém dados bancários e subtrai valor da conta da vítima; indivíduo saca valores da conta da vítima utilizando-se de cartão subtraído ou clonado. § 4º-C (causa de aumento de pena) A pena prevista no § 4º-B deste artigo, considerada a relevância do resultado gravoso: I – aumenta-se de 1/3 (um terço) a 2/3 (dois terços), se o crime é praticado mediante a utilização de servidor mantido fora do território nacional; II – aumenta-se de 1/3 (um terço) ao dobro, se o crime é praticado contra idoso ou vulnerável. 3) Sucessão de leis de natureza híbrida Em havendo sucessão de normas de natureza híbrida (processual-penal) no tempo, a regra aplicável também é a da EXTRA-ATIVIDADE DA LEI MAIS BENÉFICA, haja vista as consequências que a mudança legislativa acarreta para o exercício do poder punitivo e para o status libertatis do indivíduo. É o caso, por exemplo, das normas que versam sobre a natureza da ação penal e sobre o acordo de não persecução penal, que podem dar ensejo, conforme o caso, à extinção da punibilidade do agente. Tem-se discutido, atualmente, nesses casos, o alcance da retroatividade da norma processual com caráter material, devendo-se defender a máxima efetividade dos direitos fundamentais. 3.1) Alteração na regra da ação penal no estelionato Redação anterior Redação atual Art. 171. Art. 182. Somente se procede mediante representação, se o crime previsto neste título é cometido em prejuízo: I - do cônjuge desquitado ou judicialmente separado; II - de irmão, legítimo ou ilegítimo; Art. 171. § 5º Somente se procede mediante representação, salvo se a vítima for: (inserido pela Lei 13.964/19) I - a Administração Pública, direta ou indireta; II - criança ou adolescente; 19 III - de tio ou sobrinho, com quem o agente coabita. Art. 183. Não se aplica o disposto nos dois artigos anteriores: I - se o crime é de roubo ou de extorsão, ou, em geral, quando haja emprego de grave ameaça ou violência à pessoa; II - ao estranho que participa do crime. III - se o crime é praticado contra pessoa com idade igual ou superior a 60 (sessenta) anos. III - pessoa com deficiência mental; ou IV - maior de 70 (setenta) anos de idade ou incapaz. A regra, no crime de estelionato, era a ação penal pública incondicionada, salvo art. 182 do CP. Lei 13.964/19: a regra passou a ser de ação penal pública condicionada à REPRESENTAÇÃO, salvo as exceções ali contempladas. * Norma de caráter híbrido e alcance do princípio da retroatividade da lei posterior mais benéfica (art. 5º, XL, da CF): 1) Para Rogério Sanches, i. Se a denúncia já foi ofertada, trata-se de ato jurídico perfeito, não sendo alcançado pela mudança legislativa; ii. se a denúncia ainda não foi oferecida, deve o MP aguardar a oportuna representação da vítima ou o decurso do prazo decadencial, cujo termo inicial, para os fatos pretéritos, é o da vigência da nova lei. Nesse sentido, 3ª Seção do STJ, Inf. 691/21: A exigência de representação da vítima no crime de estelionato não retroage aos processos cuja denúncia já foi oferecida. Em relação ao aspecto material, tem-se que a irretroatividade do art. 171, §5º, do CP, decorre da própria mens legis, pois, mesmo podendo, o legislador previu apenas a condição de procedibilidade, nada dispondo sobre a condição de prosseguibilidade. Ademais, necessário ainda registrar a importância de se resguardar a segurança jurídica e o ato jurídico perfeito (art. 25 do CPP), quando já oferecida a denúncia. 1ª Turma do STF, Inf. 995/20: Não retroage a norma prevista no § 5º do art. 171 do Código Penal, incluída pela Lei 13.964/2019 (“Pacote Anticrime”), que passou a exigir a representação da vítima como condição de procedibilidade para a instauração de ação penal, nas hipóteses em que o Ministério Público tiver oferecido a denúncia antes da entrada em vigor do novo diploma legal. X 20 2) No HC 180421, Inf. 1023/21, a 2ª Turma do STF decidiu que a modificação da natureza da ação pública para ação penal condicionada à representação deve retroagir e ter aplicação mesmo em ações penais já iniciadas, sendo o caso de intimar a vítima para que diga se tem interesse no prosseguimento da ação, no prazo legal de 30 dias. Nessa esteira, precedente da 6ª Turma do STJ, Inf. 677/20: “A retroatividade da representação no crime de estelionato alcança todos os processos ainda não transitados em julgado”, que acabou, por ora, superado em razão da decisão da 3ª Seção do STJ. Nesse sentido, Enunciado 4 do CNPG: nas investigações e processos em curso, o ofendido ou seu representante legal será intimado para oferecer representação no prazo de 30 dias, sob pena de decadência. Trata-se de aplicação analógica do art. 91 da Lei 9.099/95. ATENÇÃO: O PLENO DO STF, no AgRg no HC 208.817/RJ, DJe 02/05/2023, em caso que a Lei Anticrime entrou em vigor após a deflagração da ação penal, decidiu que a exigência de representação do ofendido para o crime de estelionato é norma processual de caráter híbrido favorável ao acusado, sendo aplicável de forma retroativa (art. 5º, XL, da CF), haja vista a máxima efetividade dos direitos fundamentais, devendo a vítima ser intimada para exercer representação no prazo de 30 dias, sob pena de decadência. HABEAS CORPUS. CONSTITUCIONAL. PROCESSO PENAL. RETROATIVIDADE DO § 5º DO ART. 171, INCLUÍDO NO CÓDIGO PENAL PELA LEI N. 13.964/2019. ALTERAÇÃO DA NATUREZA DA AÇÃO PENAL PARA O CRIME DE ESTELIONATO COMUM. INCLUSÃO DE CONDIÇÃO DE PROCEDIBILIDADE. NORMA DE NATUREZA HÍBRIDA. RETROAÇÃO EM BENEFÍCIO DO ACUSADO. MÁXIMA EFETIVIDADE DOS DIREITOS FUNDAMENTAIS. INC. XL DO ART. 5º DA CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA. NECESSIDADE DE INTIMAÇÃO DA VÍTIMA PARA PROSSEGUIMENTO DA AÇÃO. PRECEDENTES. ORDEM CONCEDIDA. (STF, AgRg no HC 208.817/RJ, Rel. Min. CARMEN LÚCIA, PLENÁRIO, julgado em 13/04/2023, DJe 02/05/2023) Inclusive, vale registrar que, no âmbito da 5ª Turma do STJ, já há um julgado que sinaliza a tendência do STJ em adotar a posição do STF sobre o tema (muito embora a 6ª Turma ainda esteja resistindo na uniformização da jurisprudência, o que 21 entendemos que é uma questão de tempo para reconhecer a superação e se filiar à posição do STF): AGRAVO REGIMENTAL NO HABEAS CORPUS. ART. 171, CAPUT, DO CP. LEI N. 13.964/2019 (PACOTE ANTICRIME).. REPRESENTAÇÃO. ART. 171, § 5º, DO CP. RETROATIVIDADE DA LEI NOVA. EXTINÇÃO DA PUNIBILIDADE. INVIABILIDADE. DIRETRIZ DA TERCEIRA SEÇÃO DO STJ. DENÚNCIA OFERECIDA EM MOMENTO ANTERIOR AO INÍCIO DA VIGÊNCIA DO REFERIDO DIPLOMA LEGAL. UNIFORMIZAÇÃO DA JURISPRUDÊNCIA PELO PLENÁRIO DO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL EM SENTIDO DIVERSO. ADEQUAÇÃO DA JURISPRUDÊNCIA DO TRIBUNAL DA CIDADANIA. POSSIBILIDADE. REPRESENTAÇÃO. AÇÃO PENAL PÚBLICA CONDICIONADA. DISPENSA DE FORMALIDADES. PRECEDENTES DO STJ. AGRAVO REGIMENTAL IMPROVIDO. 1. Firmou-se a jurisprudência da Terceira Seção do Superior Tribunal de Justiça no sentido da inaplicabilidade da retroatividade do § 5º, do art. 171, do Código Penal, às hipóteses nas quais o Ministério Público tiver oferecido a denúncia antes da entrada em vigor da Lei n. 13.964/2019. Ato jurídico perfeito (HC 610.201/SP, Rel. Ministro RIBEIRO DANTAS, Terceira Seção, julgado em 24/3/2021, DJe de 8/4/2021). 2. Todavia, em recente decisão, o Plenário do Supremo Tribunal Federal uniformizou, por maioria, a interpretação da questão, em sentido inverso. Proclamou o Excelso Pretório a retroatividade da lei nova, mesmo após o recebimento da denúncia. A propósito: EMENTA: HABEAS CORPUS. CONSTITUCIONAL. PROCESSO PENAL. RETROATIVIDADE DO § 5º DO ART. 171, INCLUÍDO NO CÓDIGO PENAL PELA LEI N. 13.964/2019. ALTERAÇÃO DA NATUREZA DA AÇÃO PENAL PARA O CRIME DE ESTELIONATO COMUM. INCLUSÃO DE CONDIÇÃO DE PROCEDIBILIDADE. NORMA DE NATUREZA HÍBRIDA. RETROAÇÃO EM BENEFÍCIODO ACUSADO. MÁXIMA EFETIVIDADE DOS DIREITOS FUNDAMENTAIS. INC. XL DO ART. 5º DA CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA. NECESSIDADE DE INTIMAÇÃO DA VÍTIMA PARA PROSSEGUIMENTO DA AÇÃO. PRECEDENTES. ORDEM CONCEDIDA. (HC 208817 AgR, Relator(a): CÁRMEN LÚCIA, Tribunal Pleno, julgado em 13/04/2023, PROCESSO ELETRÔNICO DJe-s/n DIVULG 28-04-2023 PUBLIC 02-05- 2023). 22 3. Na hipótese dos autos, a denúncia foi recebida em 13/12/2019, antes, portanto, da entrada em vigor da Lei n. 13.964/2019, que ocorreu no dia 23/1/2020. De tal forma, o ato jurídico perfeito referente ao oferecimento e recebimento da denúncia em época na qual não era ainda exigida a representação da vítima não seria afetado pela entrada em vigor do Pacote Anticrime. Acontece que a orientação do STF consolidou-se em sentido diverso, caso não houvesse manifestação expressa da vítima na perspectiva da concreta apuração criminal dos fatos 4. No caso em tela, a Corte de origem destacou a demonstração inequívoca da parte interessada de que fosse apurada e processada a conduta ilícita. Logo, a decisão agravada deve ser mantida pela fundamentação subsidiária: comprovação do efetivo propósito da vítima quanto à investigação do delito de estelionato. 5. A representação, nos crimes de ação penal pública condicionada, prescinde de formalidades. Dessa forma, pode ser depreendida do boletim de ocorrência e de declarações prestadas em juízo (AgRg no REsp 1.912.568/SP, Rel. Ministro Rogério Schietti Cruz, Sexta Turma, julgado em 20/4/2021, DJe 30/4/2021). No mesmo diapasão: AgRg no RHC n. 168.517/PR, relator Ministro Reynaldo Soares da Fonseca, Quinta Turma, DJe de 10/10/2022; AgRg no HC n. 731.395/MS, relator Ministro Joel Ilan Paciornik, Quinta Turma, julgado em 17/4/2023, DJe de 19/4/2023 e AgRg no RHC n. 156.133/CE, relatora Ministra Laurita Vaz, Sexta Turma, julgado em 27/3/2023, DJe de 31/3/2023 6. Agravo regimental improvido, com base na fundamentação subsidiária da decisão impugnada. (5ª Turma do STJ, AgRg no HC 817678 / SP, DJe 17/05/2023) ATENÇÃO: a 2ª Turma do STF (RHC 215.032/SC, DJe 10/03/2023; ARE 1.385.977/SP, DJe 18/11/2022) tem considerado que o comparecimento da vítima em Delegacia ou em Juízo para prestar declarações não traduz, necessariamente, manifestação de vontade inequívoca de representar criminalmente contra o acusado. Conforme assentado, vítimas, assim como testemunhas, são intimadas a comparecer na fase inquisitorial ou processual, sob pena de sofrer sanções processuais (arts. 201, § 1º e 224, do CPP). Assim, nos casos em que sobreveio a Lei n. 13.964/2019 no curso da ação penal, não havendo inequívoca manifestação de vontade da vítima no sentido do interesse na persecução criminal, cumpre intimar a pessoa ofendida para oferecer representação no prazo de 30 dias, sob pena de decadência, nos moldes do 23 previsto no art. 91 da Lei 9.099/95, aplicado por analogia ao procedimento comum ordinário, consoante o art. 3º do CPP. * No STJ, a 3ª Seção acolheu a proposta de afetação dos REsps 1.923.354/SC e 1.930.192/SP ao rito dos recursos repetitivos (tema 1138), a fim de uniformizar o entendimento a respeito da seguinte controvérsia: retroatividade ou não da Lei n. 13.964/2019 (Pacote Anticrime), relativamente à natureza jurídica da ação penal no delito de estelionato (art. 171 do Código Penal), a qual outrora era pública incondicionada e, atualmente, passou a exigir a representação da vítima, como condição de procedibilidade, tornando-se, assim, ação pública condicionada à representação. Inclusive, houve a habilitação do Grupo de Atuação Estratégica das Defensorias Públicas Estaduais e Distrital nos tribunais superiores como amicus curiae. * EXCEÇÕES: a ação penal no estelionato será PÚBLICA INCONDICIONADA nas seguintes hipóteses: I - a Administração Pública, direta ou indireta; II - criança ou adolescente; III - pessoa com deficiência mental; ou IV - maior de 70 anos de idade ou incapaz. Note-se que a ação penal será pública condicionada à representação mesmo que a vítima seja pessoa idosa (de acordo com o Estatuto da Pessoa Idosa, idoso é a pessoa com idade igual ou superior a 60 anos), a menos que seja maior de 70 anos (quando, aí sim, será pública incondicionada). 4) Sucessão de leis de natureza processual Por fim, no caso de sucessão de leis de natureza processual no tempo, o ordenamento jurídico brasileiro adota o princípio tempus regit actum (art. 2º do CPP), de forma que a alteração legislativa tenha aplicabilidade imediata, ressalvados os atos processuais já praticados. Trata-se do sistema do isolamento dos atos processuais. Ex.: alterações nas regras de competência. 24 4.1) Alteração na regra de competência em relação a hipóteses específicas de estelionato ANTES da Lei 14.155/21: Inf. 663/20, 3ª Seção do STJ: Quanto ao delito de estelionato (tipificado no art. 171, caput, do Código Penal), a 3ª Seção do STJ havia pacificado o entendimento de que a consumação ocorre no lugar onde aconteceu o efetivo prejuízo à vítima (Inf. 663/20), critério este estabelecido para definição da competência territorial. Assim, distinguia-se entre a hipótese de estelionato mediante depósito de cheque clonado ou adulterado (competência do Juízo do local onde a vítima mantém conta bancária), daquela na qual a vítima é induzida a efetivar depósito ou transferência bancária em prol do beneficiário da fraude (competência do Juízo onde situada a agência bancária beneficiária do depósito ou transferência). Ademais, as Súmulas 521 do STF e 244 do STJ estabeleciam que compete ao foro do local da recusa processar e julgar o crime de estelionato mediante cheque sem provisão de fundos. Art. 70, § 4º, do CPP, inserido pela Lei 14.155/21: Nos crimes previstos no art. 171 do CP, quando praticados mediante depósito, mediante emissão de cheques sem suficiente provisão de fundos em poder do sacado ou com o pagamento frustrado ou mediante transferência de valores, a competência será definida pelo LOCAL DO DOMICÍLIO DA VÍTIMA, e, em caso de pluralidade de vítimas, a competência firmar- se-á pela prevenção. Trata-se de exceção ao art. 70, caput, do CPP, que estabelece que a competência territorial será, de regra, determinada pelo lugar em que se consumar a infração (teoria do resultado). Hipóteses legais de competência pelo local de domicílio da vítima no estelionato: 1) A vítima é induzida a erro, mediante meio fraudulento, a efetivar depósito ou transferência bancária em prol do beneficiário da fraude (art. 171, caput ou § 2º-A, CP - ex.: depósito ou transferência em razão da falsa oferta de produto, em razão de golpe do whatsapp, dentre outros) 2) O estelionatário emite cheque sem fundos ou lhe frustra o pagamento para induzir a vítima em erro (art. 171, § 2º, VI, do CP) * Superação das Súmulas 521 do STF e 244 do STJ (art. 171, § 2º, VI, do CP), e de parte do entendimento definido pela 3ª Seção do STJ no Inf. 663/20. 25 * 3ª Seção do STJ, Informativo Edição Especial nº 7/22: A competência para o julgamento do crime de estelionato, ainda que se tenha se utilizado de imagens digitais adulteradas de passaporte válido de terceiro e documentos emitidos por órgão públicos federais, quando inexistente evidência de prejuízo a interesses, bens ou serviços da União, é da Justiça Estadual, devendo ser respeitada a regra de foro do domicílio da vítima no caso de o crime ser praticado mediante depósito, transferência de valores ou cheque sem provisão de fundos em poder do sacado ou com o pagamento frustrado. A nova lei é norma processual, de forma que deve ser aplicada de imediato, ainda que os fatos tenham sido anteriormente praticados, uma vez que a persecução ainda está em fase de inquérito policial, razão pela qual a competência no caso é do Juízo do domicílio da vítima. * 3ª Seção do STJ, Inf. 706/21:Como a nova lei é norma processual, esta deve ser APLICADA DE IMEDIATO, ainda que os fatos tenham sido anteriores à nova lei, notadamente quando o processo ainda estiver em fase de inquérito policial. Obs.: 3ª Seção do STJ, CC 181.726-PR, DJe 17/09/2021, Edição especial nº 4/2022 do STJ: A modificação de competência promovida pela Lei n. 14.155/2021 tem aplicação imediata, contudo, por se cuidar de competência em razão do lugar, de natureza relativa, incide a regra da PERPETUATIO JURISDICIONIS, quando já oferecida a denúncia. * ATENÇÃO: O art. 70, § 4º, do CPP, NÃO abrange as hipóteses de estelionato não contempladas no dispositivo legal, quando a regra continuará regida pelo caput, sendo a competência do Juízo do local do eventual prejuízo. Ex.: caso do depósito de cheque fraudado (clonado ou adulterado) em prejuízo do correntista - crime de estelionato previsto no art. 171, caput, do CP. Regra geral de definição da competência pelo lugar em que se consuma a infração (art. 70, caput, do CPP), que se dá, no estelionato, no lugar onde aconteceu o efetivo prejuízo à vítima; assim, a competência é do local da agência bancária da vítima, onde autorizado o saque do numerário. Assim decidiu a 3ª Seção do STJ, em decisão publicada no Inf. 728/22, CC 182.977-PR, DJe 14/03/2022: O crime de estelionato praticado por meio saque de cheque fraudado compete ao Juízo do local da agência bancária da vítima. INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR O delito de estelionato, tipificado no art. 171, caput, do Código Penal, consuma-se no lugar onde aconteceu o efetivo 26 prejuízo à vítima. Por essa razão, a Terceira Seção do Superior Tribunal de Justiça, no caso específico de estelionato praticado por meio de depósito em dinheiro ou transferência de valores, firmara a compreensão de que a competência seria do Juízo onde se auferiu a vantagem ilícita em prejuízo da vítima, ou seja, o local onde se situava a conta que recebeu os valores depositados. Sobreveio a Lei n. 14.155/2021, que incluiu o § 4.º no art. 70 do Código de Processo Penal e criou hipótese específica de competência no caso de crime de estelionato praticado mediante depósito, transferência de valores ou cheque sem provisão de fundos em poder do sacado ou com o pagamento frustrado. Diante da modificação legislativa, não mais subsiste o entendimento firmado por esta Corte Superior, devendo ser reconhecida a competência do Juízo do domicílio da vítima. Contudo, a hipótese em análise não foi expressamente prevista na nova legislação, visto que não se trata de cheque emitido sem provisão de fundos ou com pagamento frustrado, mas de tentativa de saque de cártula falsa, em prejuízo de correntista. Sobre o tema, destaque-se que "(...) 3. Há que se diferenciar a situação em que o estelionato ocorre por meio do saque (ou compensação) de cheque clonado, adulterado ou falsificado, da hipótese em que a própria vítima, iludida por um ardil, voluntariamente, efetua depósitos e/ou transferências de valores para a conta corrente de estelionatário. Quando se está diante de estelionato cometido por meio de cheques adulterados ou falsificados, a obtenção da vantagem ilícita ocorre no momento em que o cheque é sacado, pois é nesse momento que o dinheiro sai efetivamente da disponibilidade da entidade financeira sacada para, em seguida, entrar na esfera de disposição do estelionatário. Em tais casos, entende-se que o local da obtenção da vantagem ilícita é aquele em que se situa a agência bancária onde foi sacado o cheque adulterado, seja dizer, onde a vítima possui conta bancária. (....)" (AgRg no CC 171.632/SC, Rel. Ministro Reynaldo Sores da Fonseca, Terceira Seção, DJe 16/06/2020). Assim, aplica-se o entendimento pela competência do Juízo do local do eventual prejuízo, que ocorre com a autorização para o saque do numerário no local da agência bancária da vítima. Ex.: 3ª Seção do STJ, Inf. 736/22: No crime de estelionato, não identificadas as hipóteses descritas no § 4º do art. 70 do CPP, a competência deve ser fixada no local onde o agente delituoso obteve, mediante fraude, em benefício próprio e de terceiros, os serviços custeados pela vítima. Hipótese em que o ex-funcionário de uma empresa de 27 turismo simulava contratos de parcerias com empresas terceiras, usufruindo e/ou repassando a terceiros os serviços prestados (como passagens aéreas e reserva de veículos e hotéis). Portanto, o juízo competente é o do local do prejuízo, a saber, o local da prestação de serviços. INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR No caso dos autos, um ex-funcionário da empresa vítima, atuante no ramo de turismo, em associação com os outros dois agentes delituosos, teriam simulado contratos de parcerias com empresas terceiras, com a intenção de obter para si vantagens ilícitas, a saber: passagens aéreas e reserva de veículos e hotéis. De acordo com inquérito policial, o estelionatário fazia uso próprio de tais passagens, bem como as repassava para terceiros, obtendo o proveito do crime. A empresa vítima possui sede em Brasília/DF, contudo o ex-funcionário apontado como estelionatário trabalhava como representante comercial na filial localizada no município de São Paulo, onde os golpes teriam sido praticados em conluio com outros dois agentes, também residentes em municípios localizados no Estado de São Paulo. O núcleo da controvérsia consiste em definir se o julgamento do delito de estelionato compete ao Juízo de Direito da 4ª Vara Criminal de Brasília/DF, considerando-se o local da sede da empresa vítima e de sua agência bancária; ou ao Juízo de Direito da Vara Criminal do Foro Central Barra Funda/SP, em razão do local onde o agente delituoso auferiu o proveito do crime. O dissenso jurisprudencial retratado nos precedentes colacionados pelos Juízos envolvidos neste conflito deixou de existir com o advento da Lei n. 14.155/2021, que acrescentou o § 4º do art. 70 do Código de Processo Penal - CPP com o seguinte teor: "nos crimes previstos no art. 171 do Decreto-Lei n. 2.848, de 7 de dezembro de 1940 (Código Penal), quando praticados mediante depósito, mediante emissão de cheques sem suficiente provisão de fundos em poder do sacado ou com o pagamento frustrado ou mediante transferência de valores, a competência será definida pelo local do domicílio da vítima, e, em caso de pluralidade de vítimas, a competência firmar-se-á pela prevenção". Todavia, a inovação legislativa disciplinou a competência do delito de estelionato em situações específicas descritas pelo legislador, as quais não ocorrem no caso concreto, porquanto os autos não noticiam a ocorrência transferências bancárias ou depósitos efetuados pela empresa vítima e tampouco de cheque emitido sem suficiente provisão de fundos. 28 No contexto dos autos, não identificadas as hipóteses descritas no § 4º do art. 70 do CPP deve incidir o teor do caput do mesmo dispositivo legal, segundo o qual "a competência será, de regra, determinada pelo lugar em que se consumar a infração, ou, no caso de tentativa, pelo lugar em que for praticado o último ato de execução". Sobre o tema a Terceira Seção desta Corte Superior, recentemente, pronunciou-se no sentido de que nas situações não contempladas pela novatio legis, aplica-se o entendimento pela competência do Juízo do local do eventual prejuízo. Conflito conhecido para declarar competente o Juízo de Direito da Vara Criminal do Foro Central Barra Funda – DIPO 4 – SÃO PAULO – SP, o suscitado. Ex.: 3ª Seção do STJ, CC 160053 / SP, DJe 27/08/2018; CC 158703 / DF, DJe 27/08/2018; CC 101900 / RS, DJe 06/09/2010 (vítima é vendedora do produto): hipótese em que a vítima, iludida por um ardil, é levada a crer que o pagamento pelo produto por ela vendido foi devidamente efetuado (ex.: através do envio de e-mail com falso comprovante de pagamento; atravésde cheque falsificado; através de cartão clonado) e, em consequência disso, voluntariamente entrega a mercadoria. O local em que é obtida a vantagem ilícita é o local da retirada do produto. Hipótese em que se aplica a Súmula 48 do STJ, segundo a qual compete ao juízo do local da obtenção da vantagem ilícita processar e julgar crime de estelionato cometido mediante falsificação de cheque. Obs.: lembrar que, se a vítima for vendedora do produto, pago por cheque sem fundos ou com o pagamento frustrado pelo fraudador, a competência passou a ser do domicílio da vítima (art. 70, § 4º, do CPP, inserido pela Lei 14.155/21). Obs.: hipótese em que a vítima é compradora do produto, falsamente anunciado pelo estelionatário: no Inf. 663/20, a 3ª Seção do STJ havia pacificado o entendimento de que, na hipótese de estelionato no qual a vítima é induzida a efetivar depósito ou transferência bancária em prol do beneficiário da fraude, a competência seria do Juízo onde situada a agência bancária beneficiária do depósito ou transferência (agência bancária onde entrou o numerário em favor do estelionatário). Contudo, com a Lei 14.155/21, que inseriu o § 4º ao art. 70 do CPP, a competência no caso de estelionato praticado mediante depósito ou transferência de valores passou a ser do domicílio da vítima. 29 ATENÇÃO: 3ª Seção do STJ, Inf. 775/23: Compete ao juízo estadual processar e julgar crime de estelionato contra fundo estrangeiro no qual os atos desenvolvidos foram praticados em território nacional, ainda que diverso o domicílio de sócio lesado. INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR O § 4º do art. 70 do Código de Processo Penal, incluído pela Lei n. 14.155/2021, dispõe que "[n]os crimes previstos no art. 171 do CP, quando praticados mediante depósito, mediante emissão de cheques sem suficiente provisão de fundos em poder do sacado ou com o pagamento frustrado ou mediante transferência de valores, a competência será definida pelo local do domicílio da vítima, e, em caso de pluralidade de vítimas, a competência firmar-se-á pela prevenção. A regra, porém, não abarca - e nem poderia abarcar - todas as situações relacionadas ao delito de estelionato, razão pela qual são possíveis exceções. No caso, o fundo estrangeiro, vítima dos delitos em investigação, sustenta a necessidade de reforma da decisão para fixar a competência da Justiça Federal, a pretexto de que o bem jurídico tutelado é o Sistema Financeiro Nacional (art. 26 da Lei n. 7.492/1986). Afirma que há sócio lesado residente no Brasil, na cidade do Rio de Janeiro, devendo ser declarada a competência da Justiça Federal da Seção Judiciária daquele estado. Todavia, há apuração de delito de estelionato (e não contra o Sistema Financeiro Nacional) praticados por representantes de empresa, em prejuízo de fundo estrangeiro sediado em Nassau- Bahamas, e representado por diretor residente e domiciliado em Lugano-Suíça. Por sua vez, os atos criminosos foram desenvolvidos na cidade de Barueri-SP (sede da empresa dos supostos estelionatários), o que torna este o Juízo competente - inclusive em prol da melhor colheita das provas e da efetivação da defesa dos denunciados. Ademais, a existência de possíveis vítimas domiciliadas no Rio de Janeiro não é circunstância suficiente para o deslocamento da competência, sobretudo porque a empresa pode possuir sócios em diversas localidades, sendo a empresa a vítima em questão, que efetiva negociações financeiras com os acusados, e não cada um dos sócios individualmente representados. Como também destacou o Juízo federal suscitante, o fato de a vítima se encontrar sediada no exterior, por si só, não é capaz de configurar a competência da Justiça Federal. De igual modo, o simples fato de as atividades desempenhadas pelos réus serem fiscalizadas pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM) não são suficientes para em razão delas somente atrair a aplicação do art. 109, IV, da Constituição Federal. 30 Desse modo, "com relação à competência para julgamento do delito de estelionato, fixada pelo local de residência da vítima, este critério somente incide na hipótese prevista no art. 70, § 4º, do CPP. Sendo vítima sediada no estrangeiro, e tendo as transferências ocorrido no exterior, não há como aplicá-lo, valendo, pois, a regra do caput do art. 70 do Código Penal, sendo o local de consumação do delito a cidade de Barueri". Por fim, não obstante o Juízo de Direito da Comarca de Barueri não figurar como suscitante ou suscitado "A jurisprudência tem reconhecido a possibilidade de declaração da competência de um terceiro juízo que não figure no conflito de competência em julgamento, quer na qualidade de suscitante, quer na qualidade de suscitado" (CC 168.575/MS, Rel. Ministro Reynaldo Soares da Fonseca, Terceira Seção, DJe 14/10/2019). * ATENÇÃO: O art. 70, § 4º, do CPP, NÃO abrange as hipóteses de furto mediante fraude (meio fraudulento é utilizado para afastar a vigilância da vítima e possibilitar a subtração), pois continuam regidas pela regra do art. 70, caput, do CPP. Nesses casos, é necessário distinguir: 1) hipótese de furto mediante fraude por meios eletrônicos (ex.: transferência bancária via internet sem o consentimento da vítima), quando se entende que a consumação se dá onde ocorreu o efetivo prejuízo à vítima, ou seja, no local onde a vítima possui conta bancária e o dinheiro sai da sua esfera de disponibilidade; 2) hipótese de saque do numerário (p. ex.: saque com o uso da senha e cartão obtidos fraudulentamente da vítima; saque de valores do seguro-desemprego em agência bancária da CEF, em máquinas de autoatendimento ou em lotérica; saque de valores com o uso de cartão clonado ou furtado), quando, por não se tratar de fraude eletrônica, os furtos se consumam no local em que ocorrem os saques. Confira-se: CONFLITO NEGATIVO DE COMPETÊNCIA. FURTO MEDIANTE FRAUDE E ESTELIONATO. SAQUE EM CAIXA ELETRÔNICO COM CARTÃO E SENHA FORNECIDOS PELA VÍTIMA. CONSUMAÇÃO. LOCAL DA OBTENÇÃO DO NUMERÁRIO. PRECEDENTES. REALIZAÇÃO DE EMPRÉSTIMOS FRAUDADOS E ENTREGA VOLUNTÁRIA DE VALORES, CONDUTAS MAIS GRAVES PORQUE COMETIDAS CONTRA IDOSO, CONSUMADAS NA JURISDIÇÃO DO JUÍZO SUSCITANTE. APLICAÇÃO DO ART. 78, INCISO II, ALÍNEA C, DO CÓDIGO DE PROCESSO PENAL. CONFLITO CONHECIDO 31 PARA DECLARAR A COMPETÊNCIA DO JUÍZO SUSCITANTE. 1. Narra o relatório policial que o Indiciado, no exercício da advocacia, em terminal de autoatendimento situado no Fórum de Samambaia/DF, efetuou dois empréstimos e sacou por três vezes quantias em dinheiro de conta bancária de idosa, a qual convenceu a lhe fornecer o cartão, com a respectiva senha, alegando ser necessário para iniciar o processo de inventário do falecido marido da Vítima. Outrossim, a Ofendida foi induzida a realizar empréstimo em agência bancária situada em Águas Lindas/GO, onde voluntariamente entregou ao Investigado valores obtidos. 2. Para que se configure o delito de estelionato (art. 171 do Código Penal), é necessário que o agente induza ou mantenha a vítima em erro, mediante artifício, ardil, ou qualquer outro meio fraudulento, de maneira que esta lhe entregue voluntariamente o bem ou a vantagem. Se não houve voluntariedade na entrega, o delito praticado é o de furto mediante fraude (art. 155, § 4.º, inciso II, do mesmo Estatuto). No caso concreto, não houve entrega voluntária dos valores pela Vítima no Fórum de Samambaia/DF, mas, sim, foram efetuados dois empréstimos e três saques de valores vinculados a sua conta corrente, sem o seu consentimento, em continuidade delitiva. Logo, esses saques fraudulentos em conta corrente configuram o delito de furto mediante fraude, mas não o de estelionato, que se consumou com a contratação de empréstimos vinculados à conta corrente da Vítima em agência bancária na cidade de Águas Lindas de Goiás -