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INSTITUTOS DESPENALIZADORES Alexandre Moraes da Rosa: Justiça Negocial é a possibilidade de o Estado (por seus agentes: investigação ou acusação) e investigado/ acusado (necessariamente assistido por defensor), por meio de acordo, determinarem os fatos e as sanções de modo consensual (ganha-ganha), com posterior homologação judicial. Atenção: a investigação defensiva confere meios de contraposição às pretensões acusatórias, senão a defesa fica à mercê dos elementos probatórios produzidos pela investigação oficial, perdendo a chance de um acordo favorável e tendendo a aceitar propostas oportunistas pelo MP. A investigação defensiva, ainda, amplia os horizontes do objeto da negociação e promove condições à tomada de decisão informada. 1) Composição civil dos danos e transação penal: infrações de menor potencial ofensivo Art. 98 da CF. A União, no Distrito Federal e nos Territórios, e os Estados criarão: I - juizados especiais, providos por juízes togados, ou togados e leigos, competentes para a conciliação, o julgamento e a execução de causas cíveis de menor complexidade e infrações penais de menor potencial ofensivo, mediante os procedimentos oral e sumaríssimo, permitidos, nas hipóteses previstas em lei, a transação e o julgamento de recursos por turmas de juízes de primeiro grau Art. 60 da Lei 9.099/95: O Juizado Especial Criminal, provido por juízes togados ou togados e leigos, tem competência para a conciliação, o julgamento e a execução das infrações penais de menor potencial ofensivo, respeitadas as regras de conexão e continência. Parágrafo único. Na reunião de processos, perante o juízo comum ou o tribunal do júri, decorrentes da aplicação das regras de conexão e continência, observar-se-ão os institutos da transação penal e da composição dos danos civis. Art. 61: Consideram-se infrações penais de menor potencial ofensivo, para os efeitos desta Lei, as contravenções penais e 1 os crimes a que a lei comine pena máxima não superior a 2 (dois) anos, cumulada ou não com multa. ➢ Infrações de menor potencial ofensivo: contravenções penais e crimes cuja pena privativa de liberdade máxima cominada não exceda dois anos (consideradas as causas de aumento e de diminuição de pena). ➢ Competência dos Juizados Especiais Criminais. ➢ Procedimento sumaríssimo. ➢ Cabimento dos institutos despenalizadores da composição civil dos danos e da transação penal. * Art. 41 da Lei 11.340/06. Aos crimes praticados com violência doméstica e familiar contra a mulher, independentemente da pena prevista, não se aplica a Lei 9.099/95. Assim, não se aplica o procedimento sumaríssimo, nem os institutos despenalizadores da Lei 9.099/95 e a competência não é do Jecrim. * Art. 226, § 1º, do ECA, inserido pela Lei 14.344/22 (Lei Henry Borel), que entrou em vigor em 08/07/2022: aos crimes cometidos contra a criança e o adolescente, independentemente da pena prevista, não se aplica a Lei nº 9.099/95. Vale indagar se a disposição legal se aplica 1) a todos os crimes cometidos contra a criança e o adolescente, previstos no ECA e nas demais leis; ou 2) apenas aos crimes cometidos contra a criança e o adolescente tipificados no ECA, diante da previsão do caput do art. 226 (predominante). * Art. 94 do Estatuto do Idoso: Aos crimes previstos nesta Lei, cuja pena máxima privativa de liberdade não ultrapasse 4 anos, aplica-se o procedimento previsto na Lei no 9.099/95, e, subsidiariamente, no que couber, as disposições do Código Penal e do Código de Processo Penal. STF, ADI 3096, DJe 02.09.10: interpretação conforme ao art. 94 da referida lei para apenas o procedimento previsto na Lei nº 9.099/95 e não outros benefícios ali previstos. Assim, os institutos despenalizadores da Lei nº 9.099/95 só serão cabíveis para as infrações de menor potencial ofensivo previstas no Estatuto do Idoso. 2 ➢ Hipóteses de modificação da competência para processo e julgamento das infrações de menor potencial ofensivo: - conexão ou continência com infração penal comum (art. 60, p. único) - impossibilidade de citação pessoal do acusado (art. 66, p. único), hipótese em que os autos são remetidos ao juízo comum para a citação editalícia e é adotado o rito sumário. - complexidade da causa (art. 77, § 2º) * Hipóteses de conexão ou continência: podem deslocar a competência para o tribunal do júri ou o juízo comum. Contudo, permanecerá a aplicabilidade da transação penal e da composição civil dos danos em relação à infração de menor potencial ofensivo. STF, ADI 5264, Inf. 1001/20: Os Juizados Especiais Criminais são dotados de competência relativa para julgamento das infrações penais de menor potencial ofensivo, razão pela qual se permite que essas infrações sejam julgadas por outro juízo com vis atractiva para o crime de maior gravidade, pela conexão ou continência, observados, quanto àqueles, os institutos despenalizadores, quando cabíveis. O art. 98, I, da Constituição Federal garantiu aos processos nos quais julgados infrações penais de menor potencial ofensivo a observância de peculiaridades procedimentais e a incidência de institutos despenalizadores. Entretanto, não há, na norma constitucional, determinação de exclusividade dos Juizados Especiais Criminais para o julgamento dos crimes de menor potencial ofensivo. A especialização dos Juizados Especiais Criminais tem como objetivo tornar o procedimento célere e informal, bem como a possibilidade de se obter a transação penal e a composição dos danos, não sendo definida a competência jurisdicional em razão do direito material tutelado. Há no §2º do art. 77 e no parágrafo único do art. 66 da Lei 9.099/1995 outras duas causas modificativas da competência dos Juizados Especiais para o Juízo comum, a saber, a complexidade ou circunstâncias da causa que dificultem a formulação oral da peça acusatória e o réu não ser encontrado para a citação pessoal. Fosse absoluta a competência do Juizado Especial Criminal em razão da matéria, aquelas previsões legais, não impugnadas por esta ação direta, ofenderiam o princípio do juiz 3 natural, pois permitiriam o julgamento por órgão materialmente incompetente. Nesse sentido, os institutos despenalizadores dos juizados constituem garantias individuais do acusado e devem ser asseguradas, independente do juízo em que tramitarem as infrações penais. Assim, se praticada infração penal de menor potencial ofensivo em concurso com outra infração penal comum e deslocada a competência para a Justiça comum ou Tribunal do Júri, não há óbice, senão determinação constitucional, à aplicação dos institutos despenalizadores da transação penal e da composição civil dos danos quanto à infração de menor potencial ofensivo, em respeito ao devido processo legal. Ademais, não se deve somar à pena máxima da infração de menor potencial ofensivo com a da infração conexa (de maior gravidade) para excluir a incidência da fase consensual e ser invocada como fator impeditivo da transação penal ou composição civil dos danos. Com base nesse entendimento, o Plenário, por unanimidade, julgou improcedente o pedido formulado na ação direta de inconstitucionalidade e declarou a constitucionalidade dos arts. 1º e 2º da Lei 11.313/2006, nas alterações e acréscimos por eles promovidos no art. 60, caput e parágrafo único, da Lei 9.099/1995 e no art. 2º, caput e parágrafo único, da Lei 10.259/2001. ➢ Excesso de acusação e emendatio libelli (art. 383 do CPP) no ato de recebimento da denúncia: STJ: Quanto à desclassificação da conduta no ato de recebimento da denúncia, a medida só é admitida pela jurisprudência desta Corte Superior em situações excepcionais, quando evidenciado que a alteração traz reflexos na competência do Juízo ou na obtenção de algum benefício previsto em lei. Confira-se: AGRAVO REGIMENTAL NO RECURSO ESPECIAL. TORTURA. NARRATIVA FÁTICA INSUFICIENTE NA DENÚNCIA. DESCLASSIFICAÇÃO PARA ABUSO DE AUTORIDADE NO ATO DE RECEBIMENTO DA INICIAL ACUSATÓRIA. EXCEPCIONALIDADE QUE AUTORIZA A EMENDATIO LIBELLI. AGRAVO REGIMENTAL PROVIDO. 1. A descriçãoPGJ nos termos do art. 28, § 14, do CPP. Todavia, ao exigir a existência de confissão formal e circunstanciada do crime, o novel art. 28-A do CPP não impõe que tal ato ocorra necessariamente no inquérito, sobretudo quando não consta que o acusado – o qual estava desacompanhado de defesa técnica e ficou em silêncio ao ser interrogado perante a autoridade policial – haja sido informado sobre a possibilidade de celebrar a avença com o Parquet caso admitisse a prática da conduta apurada. 3. Não há como simplesmente considerar ausente o requisito objetivo da confissão sem que, no mínimo, o investigado tenha ciência sobre a existência do novo instituto legal (ANPP) e possa, uma vez equilibrada a assimetria técnico-informacional, refletir sobre o custo-benefício da proposta, razão pela qual “o fato de o investigado não ter confessado na fase investigatória, obviamente, não quer significar o descabimento do acordo de não persecução” (CABRAL, Rodrigo Leite Ferreira. Manual do Acordo de Não Persecução Penal à luz da Lei 13.963/2019 (Pacote Anticrime). Salvador: JusPodivm, 2020, p. 112). 4. É também nessa linha o Enunciado n. 13, aprovado durante a I 34 Jornada de Direito Penal e Processo Penal do CJF/STJ: “A inexistência de confissão do investigado antes da formação da opinio delicti do Ministério Público não pode ser interpretada como desinteresse em entabular eventual acordo de não persecução penal”. 5. A exigência de que a confissão ocorra no inquérito para que o Ministério Público ofereça o acordo de não persecução penal traz, ainda, alguns inconvenientes que evidenciam a impossibilidade de se obrigar que ela aconteça necessariamente naquele momento. Deveras, além de, na enorme maioria dos casos, o investigado ser ouvido pela autoridade policial sem a presença de defesa técnica e sem que tenha conhecimento sobre a existência do benefício legal, não há como ele saber, já naquela oportunidade, se o representante do Ministério Público efetivamente oferecerá a proposta de ANPP ao receber o inquérito relatado. Isso poderia levar a uma autoincriminação antecipada realizada apenas com base na esperança de ser agraciado com o acordo, o qual poderá não ser oferecido pela ausência, por exemplo, de requisitos subjetivos a serem avaliados pelo membro do Parquet. 6. No caso, porque foi negada a remessa dos autos à Procuradoria-Geral de Justiça (art. 28-A, § 14, do CPP) pela mera ausência de confissão do réu no inquérito, oportunidade em que ele estava desacompanhado de defesa técnica, ficou em silêncio e não tinha conhecimento sobre a possibilidade de eventualmente vir a receber a proposta de acordo, a concessão da ordem é medida que se impõe. 7. Ordem concedida, para anular a decisão que recusou a remessa dos autos à Procuradoria Geral de Justiça – bem como todos os atos processuais a ela posteriores – e determinar que os autos sejam remetidos à instância revisora do Ministério Público nos termos do art. 28-A, § 14, do CPP e a tramitação do processo fique suspensa até a apreciação da matéria pela referida instituição. Enunciado nº 3 da DPRJ, “constará expressamente do acordo de não persecução penal cláusula indicando que a confissão, apesar da duvidosa constitucionalidade de sua exigência, dá-se exclusivamente para os efeitos de celebração do acordo de não persecução penal”. Enunciado nº 4 da DPRJ: “Para efeitos do acordo de não persecução penal, a confissão, apesar da duvidosa constitucionalidade de sua exigência, buscará se resumir à confirmação do relatado no inquérito ou no auto de prisão em flagrante 35 quanto à autoria e à materialidade, buscando a preservação do direito e garantia fundamental à não-autoincriminação, previsto nas normas de superior hierarquia, quais sejam, o artigo 5º, inciso LXIII da CRFB/1988 e o artigo 8º, parágrafo 2º, alínea “g” da Convenção Americana de Direitos Humanos (Pacto de São Jose da Costa Rica)”. A rigor, a exigência de confissão se trata de requisito de duvidosa constitucionalidade, diante dos princípios constitucionais da presunção de inocência (art. 5º, LVII, da CF) e do devido processo legal (art. 5º, LIV, da CF). Ora, se o indivíduo só pode ser considerado culpado após o trânsito em julgado de sentença penal condenatória, uma vez observado o devido processo legal, a exigência da confissão mostra-se em dissonância com os ditames da Constituição Federal. Inclusive, o tema é objeto de ADI em curso perante o STF, sob o nº 6304. Aponta-se, ainda, que a manifestação de vontade no sentido da confissão é destituída de voluntariedade, já que colhida sob a ameaça de deflagração de uma ação penal e, por vezes, até mesmo de uma prisão cautelar. Assim, plenamente factível que o investigado confesse os fatos a ele imputados tão-somente para usufruir do instituto despenalizador, sem os desgastes e riscos inerentes a um processo judicial. O art. 197 do CPP dispõe que a confissão possui valor relativo, sendo certo que, diante do contexto acima descrito, a mesma deve ser encarada com ainda mais reservas pelo julgador. Não olvidar, ainda, que o art. 200 do CPP prevê que toda confissão é retratável. Ademais, como não é feita na presença do juiz, trata-se de mero indício, produzido extrajudicialmente. Conforme é sabido, a implantação do juiz das garantias e normas correlatas (artigos 3o-A, 3o-B, 3o-C, 3o-D, 3a-E, 3o-F, do CPP, inseridos pela Lei 13.964/19, mas que não chegaram a entrar em vigor) está suspensa por tempo indeterminado em razão de medida cautelar concedida no bojo das ADIs 6298, 6299, 6300 e 6305. Ocorre que o ANPP foi inserido também pela Lei 13.964/19, exatamente no contexto da implantação do juiz de garantias, o qual é responsável pelo controle da legalidade da investigação 36 criminal e pela salvaguarda dos direitos individuais, com atuação até a fase do recebimento da denúncia (leia-se, art. 399 do CPP), de forma que a confissão fornecida para fins do ANPP não permaneceria à disposição do juiz da instrução e julgamento (art. 3º-C, § 3º, CPP). Isso porque, no desiderato de assegurar o sistema acusatório, a imparcialidade do juízo e os princípios constitucionais do devido processo legal, do contraditório e da ampla defesa, a Lei 13.964/19 previu, no art. 3º-C, § 2º, do CPP (que se encontra com a eficácia suspensa), que os autos que compõem as matérias de competência do juiz das garantias não seriam apensados aos autos do processo enviados ao juiz da instrução e julgamento, ressalvados os documentos relativos às provas irrepetíveis, medidas de obtenção de provas ou de antecipação de provas. Verifica-se, portanto, que a previsão do juiz de garantias visa conferir maior exequibilidade ao princípio constitucional do devido processo legal e maior densidade ao sistema acusatório, consagrado na CF no art. 129, I, garantindo a imparcialidade do juiz da instrução e julgamento, o qual não poderia ter acesso à indigitada confissão. Inclusive, a ANADEP (Associação Nacional dos Defensores Públicos) foi admitida como amicus curie pelo STF nas ADIs que questionam a constitucionalidade da previsão do juiz de garantias pelo “pacote anticrime”. 6ª Turma do STJ, Inf. 758/22: Não é compatível com a via do habeas corpus a pretensão de declaração de inconstitucionalidade do art. 28-A do Código de Processo Penal. Inteiro teor Inicialmente cumpre salientar que, a confissão, formal e circunstanciada, do fato criminoso é um dos requisitos exigidos pelo art. 28-A do Código de Processo Penal para a celebração do acordo de não persecução penal (ANPP). Essa exigência legal não implica violação do direito à não autoincriminação. A admissão da imputação deve ser voluntária, espontânea, livre de qualquer coação. Afinal, o réu é livre para analisar a conveniência de confessar, assim como ocorre com a própria atenuante prevista no art. 65, inciso III, alínea d, do Código Penal, na medida em que, se de um lado, a confissão 37 pode robustecer a tese acusatória (ônus), também pode franquear a diminuição da reprimenda (bônus). Para se afastaro requisito legal da confissão da imputação, como etapa necessária da celebração do acordo de não persecução penal, seria imprescindível a afetação da matéria à Corte Especial para a declaração de inconstitucionalidade parcial do art. 28-A do Código de Processo Penal, sob pena de violação da Súmula Vinculante n. 10 do Supremo Tribunal Federal, procedimento incompatível com a célere via de habeas corpus, cujo rito não admite a suspensão do feito e afetação da matéria à Corte Especial para o exame da matéria prejudicial relativa à constitucionalidade do dispositivo impugnado. Enunciado nº 7 da DPRJ: “Descumprido o acordo de não persecução penal, nenhum de seus termos ou eventuais anexos serão juntados aos autos do processo de conhecimento ou a qualquer outro procedimento e, caso venham a ser, será requerido o seu desentranhamento, por constituírem prova ilícita”. 6ª Turma do STJ, HC 756907, j. 13.09.22: “Se a sentença condenou o paciente por falsidade ideológica e reconheceu a autoria delitiva exclusivamente com lastro em elementos produzidos na fase extrajudicial (depoimentos prestados durante o inquérito policial e ao Promotor de Justiça, além de confissão do celebrante de ANPP), não reproduzidos durante a instrução criminal e não submetidos ao devido contraditório, é de rigor reconhecer a insuficiência do standard probatório que autorizaria a condenação. Demonstrada a ofensa ao art. 155 do CPP, impõe-se a absolvição do paciente nos termos do art. 386, VII, do CPP”. ➢ O art. 28-A do CPP condiciona, ainda, o acordo de não persecução penal a ser necessário e suficiente para a reprovação e prevenção do crime. Enunciado interpretativo nº 19 do Conselho Nacional dos Procuradores Gerais dos Ministérios Públicos dos Estados e da União sobre o pacote anticrime: o acordo de não persecução penal é faculdade do Ministério Público, que avaliará, inclusive em última análise (§ 14), se o instrumento é necessário e suficiente para a reprovação e prevenção do crime no caso concreto. 38 5ª Turma do STJ, Inf. 739/22: A possibilidade de oferecimento do acordo de não persecução penal é conferida exclusivamente ao Ministério Público, não cabendo ao Poder Judiciário determinar ao Parquet que o oferte. O acordo de não persecução penal, previsto no art. 28-A do Código Penal, implementado pela Lei n. 13.964/2019, indica a possibilidade de realização de negócio jurídico pré-processual entre a acusação e o investigado. Trata-se de fase prévia e alternativa à propositura de ação penal, que exige, dentre outros requisitos, aqueles previstos no caput do artigo: 1) delito sem violência ou grave ameaça com pena mínima inferior a 4 anos; 2) ter o investigado confessado formal e circunstancialmente a infração; e 3) suficiência e necessidade da medida para reprovação e prevenção do crime. Além disso, extrai-se do §2º, inciso II, que a reincidência ou a conduta criminal habitual, reiterada ou profissional afasta a possibilidade da proposta. Esta Corte Superior entende que não há ilegalidade na recusa do oferecimento de proposta de acordo de não persecução penal quando o representante do Ministério Público, de forma fundamentada, constata a ausência dos requisitos subjetivos legais necessários à elaboração do acordo, de modo que este não atenderia aos critérios de necessidade e suficiência em face do caso concreto. De acordo com entendimento já esposado pela Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal, a possibilidade de oferecimento do acordo de não persecução penal é conferida exclusivamente ao Ministério Público, não constituindo direito subjetivo do investigado. Em arremate, cuidando-se de faculdade do Parquet, a partir da ponderação da discricionariedade da propositura do acordo, mitigada pela devida observância do cumprimento dos requisitos legais, não cabe ao Poder Judiciário determinar ao Ministério Público que oferte o acordo de não persecução penal. Em sentido contrário, é possível sustentar que, uma vez preenchidos os requisitos legais, o ANPP é verdadeiro direito subjetivo do imputado, não podendo estar sujeito ao arbítrio estatal. Nesse sentido, o requisito apontado é vago e abstrato, carente de precisão semântica, violando flagrantemente o princípio da legalidade penal (art. 5º, XXXIX, CF), no particular aspecto da exigência de lex certa. 39 Há, ainda, uma terceira corrente, que sustenta que a natureza jurídica do ANPP é de poder-dever do MP, vez que a recusa está sujeita a controle pelo próprio órgão superior do MP (art. 28-A, § 14, do CPP). Nesse sentido, 6ª Turma do STJ, Inf. 769/23: Por constituir um poder-dever do Ministério Público, o não oferecimento tempestivo do acordo de não persecução penal desacompanhado de motivação idônea constitui nulidade absoluta. ➢ Enunciado nº 9 da DPRJ: “Não serão realizados acordos de não persecução penal em audiência de custódia, tendo em vista a ausência de conclusão do inquérito policial, a falta de prova pericial definitiva e o cerceamento da liberdade do custodiado, fatores que restringem sua manifestação livre, voluntária e consciente, além da ausência de atribuição do(a) Defensor(a) Público(a) em atuação na audiência de custódia”. A Resolução CNJ 213/2015, que regulamentou o procedimento, impede que sejam abordadas questões de mérito na audiência de custódia , ao passo que o ANPP1 exige confissão circunstanciada, configurando uma antecipação do interrogatório, em violação ao devido processo legal e à ampla defesa. A finalidade precípua da audiência de custódia é coibir maus tratos e tortura de presos, além da análise da legalidade e necessidade da prisão. Além disso, há que se questionar a própria voluntariedade do ato de confissão obtido do preso, quando a sua liberdade está em jogo. A Resolução CNJ 357/20 chegou a alterar o art. 19, § 3º, da Resolução CNJ 329/20, para prever a possibilidade de oferta de proposta de ANPP pelo MP em 1 Art. 8º, § 1º, da Resolução CNJ 213/2015: Após a oitiva da pessoa presa em flagrante delito, o juiz deferirá ao Ministério Público e à defesa técnica, nesta ordem, reperguntas compatíveis com a natureza do ato, devendo indeferir as perguntas relativas ao mérito dos fatos que possam constituir eventual imputação, permitindo-lhes, em seguida, requerer: I - o relaxamento da prisão em flagrante; II - a concessão da liberdade provisória sem ou com aplicação de medida cautelar diversa da prisão; III - a decretação de prisão preventiva; IV - a adoção de outras medidas necessárias à preservação de direitos da pessoa presa. 40 audiência de custódia, inclusive realizada de modo virtual em razão da pandemia do COVID-19. Contudo, a Resolução CNJ 481/22 revogou as resoluções vigentes à época da pandemia do Coronavírus. Outrossim, o art. 28-A do CPP prevê que o ANPP só será oferecido se não for caso de arquivamento, ou seja, se presente justa causa para a deflagração da ação penal. Contudo, notadamente em casos de prisão em flagrante, diante da ausência de conclusão do inquérito policial, haja vista a exiguidade do tempo desde a prisão, não há elementos idôneos ao oferecimento da denúncia, tanto que isso não ocorre por ocasião da audiência de custódia. Logo, tampouco há elementos para o ANPP. Alega-se, ademais, a ausência de atribuição do MP oficiante na audiência de custódia para oferecer denúncia e, portanto, para celebrar o acordo de não persecução. Alexandre Moraes leciona que o ambiente negocial aceita propostas e contrapropostas dentro do enquadramento da boa-fé objetiva. Por sua vez, o agente oportunista pode se valer de posição privilegiada, como, p. ex., nos casos de oferta de ANPP em audiência de custódia, em que está em jogo a imediata liberdade do conduzido, para impor uma proposta ilícita. Nina Muniz aponta, ainda, que a investigação defensiva tem, no processo penal negocial, papel fundamental, pois sua ausência implica que a defesa ingresse nas tratativas do acordo em patamar dissonante do parquet: a acusação abastecida de elementos informativos colhidosno auto de prisão em flagrante e a defesa apenas brandando a presumida inocência do autuado (artigo no CONJUR). ➢ O art. 28-A, § 2º, II, do CPP, afasta a aplicabilidade do acordo de não persecução penal se o investigado for reincidente ou se houver elementos probatórios que indiquem conduta criminal habitual, reiterada ou profissional, exceto se insignificantes as infrações penais pretéritas. Enunciado nº 6 da DPRJ: “A expressão conduta criminal habitual, reiterada ou profissional, constante do artigo 28-A, parágrafo 2º, inciso II, do 41 Código de Processo Penal, viola os princípios da legalidade e da taxatividade, não podendo tais termos serem utilizados, por si sós, como fundamento para a negativa de oferecimento de proposta de acordo de não persecução penal”. Critica-se, ainda, a alusão à conduta criminal habitual, reiterada ou profissional diante do princípio constitucional da presunção de inocência (art. 5º, LVII, da CF). Assim, se o indivíduo é tecnicamente primário, não há como presumir que se dedique às atividades criminosas. Nesse sentido, cabe invocar a Súmula 444 do STJ para impedir que a mera existência de inquérito ou processo penal em curso não impede o acordo de não persecução penal. Ademais, o STF (Inf. 973/20 e Inf. 967/20) entende que não cabe afastar o privilégio no crime de tráfico com base em condenações não transitadas em julgado, mesmo que em grau recursal. X Em sentido diverso, 5ª Turma do STJ, Inf. 750/22: Constitui fundamentação idônea para o não oferecimento de ANPP a existência de vários registros policiais e infracionais, embora o réu seja tecnicamente primário, bem como a utilização de posição de liderança religiosa para a prática de delito de violação sexual mediante fraude. Outrossim, ainda que se trate de imputado reincidente, é possível o ANPP, desde que a condenação anterior seja por fato juridicamente insignificante. Veja que, nos casos em que aplicável o princípio da insignificância, a conduta é materialmente atípica, conduzindo à absolvição. Desta feita, o termo “exceto se insignificantes as infrações penais pretéritas” deve ser compreendido como aquelas condenações de menor relevância penal. Para o Enunciado 21 do CNPG, o termo se refere às condenações anteriores de menor potencial ofensivo. Em síntese, a reincidência não é um requisito absoluto que obstaculiza a aplicabilidade do acordo de não persecução penal. Condenação definitiva já depurada, que não serve mais para fins de caracterizar a reincidência, não pode ser utilizada em prejuízo do investigado, diante do princípio constitucional da proporcionalidade, da finalidade da pena e da proibição da utilização de paradigmas do direito penal do autor e das penas de caráter perpétuo. 42 ➢ Nos casos em que cabível a transação penal (art. 76 da Lei 9.099/95), não se aplica o ANPP. X Por outro lado, ainda que cabível a suspensão condicional do processo, o imputado faz jus ao ANPP. E, acaso recusado o acordo, o acusado possui direito subjetivo à proposta de suspensão condicional do processo. Enunciado nº 12 da DPRJ: A NÃO ACEITAÇÃO DE ACORDO DE NÃO PERSECUÇÃO PENAL NÃO IMPEDE POSTERIOR ACEITAÇÃO DE SUSPENSÃO CONDICIONAL DO PROCESSO. Note-se que o § 11 se refere apenas ao descumprimento do ANPP, que poderá ser utilizado pelo MP como justificativa para o eventual não oferecimento de suspensão condicional do processo. Enunciado nº 11 da DPRJ: Nas hipóteses em que cabíveis tanto a suspensão condicional do processo quanto o acordo de não persecução penal, deve a defesa técnica avaliar, no caso concreto, o instituto mais benéfico e vantajoso para o assistido. ➢ O art. 28-A, § 2º, III, do CPP, veda o ANPP no caso de ter sido o agente beneficiado nos 5 anos anteriores ao cometimento da infração, em acordo de não persecução penal, transação penal ou suspensão condicional do processo. Com fundamento no princípio da proporcionalidade, é possível sustentar que a transação penal e a suspensão condicional do processo não impedem o ANPP se tiverem sido concedidos em infrações de menor potencial ofensivo. Além disso, parte da doutrina sustenta que, se o imputado tiver aceito transação penal ou suspensão condicional do processo antes da entrada em vigor da Lei Anticrime, não é possível aplicar a vedação, em homenagem ao princípio da irretroatividade mais gravosa. ➢ Não cabe o ANPP nos crimes praticados no âmbito de violência doméstica ou familiar, ou praticados contra a mulher por razões da condição de sexo feminino, em favor do agressor. Interpretação teleológica: a vedação não abrange as hipóteses em que a vítima seja homem. ➢ 2ª Turma do STF, no RHC 222.599/SC, j. 06/02/2023: não cabe ANPP em caso de crimes raciais, inclusive a injúria racial, porque deve ser considerada a teleologia da excepcionalidade imposta no art. 28, § 2º, IV, do CPP (vedação nos crimes 43 praticados no âmbito de violência doméstica ou familiar, ou praticados contra a mulher por razões da condição de sexo feminino, em favor do agressor) e a natureza do bem jurídico a que se busca tutelar. Conforme assentado pelo STF, a delimitação do alcance material para a aplicação do acordo “despenalizador” e a inibição da persecutio criminis exige conformidade com o texto Constitucional e com os compromissos assumidos pelo Estado brasileiro internacionalmente, como limite necessário para a preservação do direito fundamental à não discriminação e à não submissão à tortura – seja ela psicológica ou física -, ao tratamento desumano ou degradante, operada pelo conjunto de sentidos estereotipados que circula e que atribui tanto às mulheres quanto às pessoas negras posição inferior, numa perversa hierarquia de humanidades. ➢ O art. 28-A, § 14, prevê que, NO CASO DE RECUSA DO ANPP, o investigado poderá requerer a remessa dos autos ao órgão superior para reexame da manifestação, na forma do art. 28 do CPP. Assim, a recusa em propor o acordo de não persecução penal deve ser fundamentada em razões concretas e tangíveis (STF, HC 83.926), podendo o investigado requerer a remessa dos autos ao órgão superior do MP para reexame da decisão. STJ, RHC 161.423/SC, Rel. Min. JOEL ILAN PACIORNIK, DJe 09/02/2023: A recusa do oferecimento de proposta de acordo de não persecução penal deve ser realizada de forma fundamentada pelo Ministério Público. Posição predominante: o ANPP é um dever-poder do MP (em caso de recusa, o controle é feito pelo próprio MP) X direito subjetivo do imputado (em caso de recusa, a proposta pode ser oferecida pelo juiz) X faculdade do MP (Enunciado 19 do CNPG; decisão do STJ no Inf. 739/22) * IMPORTANTÍSSIMO: STF, Inf. 1017/21: em caso de recusa do MP em oferecer o ANPP, O JUIZ NÃO PODE NEGAR REMESSA AO ÓRGÃO SUPERIOR DO MP PARA REEXAME DA RECUSA QUANDO REQUERIDO PELA DEFESA, salvo por manifesta inadmissibilidade, não sendo legítimo, portanto, que o Judiciário controle o mérito do ato de recusa para impedir a remessa dos autos. 44 O Poder Judiciário não pode impor ao Ministério Público (MP) a obrigação de ofertar acordo de não persecução penal (ANPP). Não cabe ao Poder Judiciário, que não detém atribuição para participar de negociações na seara investigatória, impor ao MP a celebração de acordos Não se tratando de hipótese de manifesta inadmissibilidade do ANPP, a defesa pode requerer o reexame de sua negativa, nos termos do art. 28-A, § 14, do Código de Processo Penal (CPP) , não sendo legítimo, em regra, que o Judiciário controle o ato de recusa, quanto ao mérito, a fim de impedir a remessa ao órgão superior no MP. Isso porque a redação do art. 28-A, § 14, do CPP determina a iniciativa da defesa para requerer a sua aplicação. Com base nesse entendimento, a Segunda Turma concedeu parcialmente a ordem, para determinar a remessa dos autos à Câmara de Revisão do Ministério Público Federal, a fim de que seja apreciado o ato que negou a oferta de ANPP. Vencido, parcialmente, o ministro Ricardo Lewandowski, que concedia a ordem em maior extensão (2ª Turma do STF, HC194.677, j. 11/05/2021) Com efeito, nos casos de recusa de oferecimento do acordo, a remessa ao Procurador-Geral de Justiça para reexame constitui providência automática, a ser adotada no caso de requerimento da defesa, independentemente de avaliação do mérito da recusa por parte do juiz. Assim, não pode o juiz indeferir o requerimento de remessa ao órgão superior do MP, ainda que concorde com a manifestação ministerial de recurso do acordo, porque o investigado possui direito ao reexame da questão. Inclusive, a redação conferida pela Lei 13.964/19 ao art. 28 do CPP, que se encontra com a eficácia suspensa por tempo indeterminado por força de medida cautelar concedida pelo STF no bojo do controle de constitucionalidade concentrado, prevê a remessa automática à instância revisora do Ministério Público, independentemente da concordância ou não do juiz. Vale lembrar que a decisão de suspensão da eficácia do art. 28 do CPP se deu em razão, tão-somente, do impacto orçamentário e estrutural que ele acarretaria para os casos de arquivamento, não tendo relação com o seu escopo para os fins do 45 acordo de não persecução penal. Assim, o art. 28-A, § 14, do CPP, deve ser interpretado em sintonia com o contexto normativo de sua previsão, considerado o sistema instituído pela Lei 13.964/19. Outrossim, essa é uma imposição do próprio sistema acusatório, consagrado no art. 129, I, da CF, em que é defeso ao juiz se imiscuir nas atividades próprias das partes, devendo unicamente presidir os atos e julgar, a fim de garantir sua imparcialidade. Assim, no caso de indeferimento da remessa dos autos ao órgão superior do MP pelo juiz, cabe HC ao TJ, apontando como autoridade coatora o Juízo de Direito. Ainda que adotada a posição prevalecente, no sentido de ser o ANPP um poder-dever do MP, isso não afasta o CONTROLE JURISDICIONAL, o que deriva dos princípios da inafastabilidade da jurisdição (art. 5º, XXXV, da CF), do devido processo legal (art. 5º, LIV, da CF) e do art. 28-A, § 7º, do CPP. ➢ Melhor entendimento para sustentar, principalmente na fase discursiva: A AUSÊNCIA DE MANIFESTAÇÃO SOBRE O ANPP ANTES DO OFERECIMENTO DA DENÚNCIA OU A RECUSA INFUNDADA constitui violação do devido processo legal (art. 5º, LIV, CF), eis que, havendo a possibilidade de adoção de via processual mais adequada à hipótese, a opção por via diversa demonstra a AUSÊNCIA DO INTERESSE DE AGIR, relacionada à utilidade da prestação jurisdicional, que traz como consequência a conclusão de que o direito de ação foi exercido de forma irregular. Assim, na RESPOSTA PRELIMINAR, é possível postular a rejeição da denúncia, ou, subsidiariamente, o reconhecimento da nulidade processual, com a remessa dos autos ao MP para se manifestar sobre o cabimento do ANPP (no caso de ausência de manifestação) ou a remessa dos autos ao órgão revisor do MP com base no art. 28-A, § 14 (no caso de recusa considerada infundada). No caso de manutenção da decisão de recebimento da denúncia, cabe HC ao TJ, apontando como autoridade coatora o Juízo de Direito. Nesse sentido, julgados do TJRJ: 46 Recurso em sentido estrito interposto pelo Ministério Público. Imputação concernente ao crime de furto mediante fraude, quatro vezes, em continuidade delitiva. Hostilização de decisão que rejeitou a denúncia, tendo em vista que o MP não esgotou todas as possibilidades para afastar o não oferecimento do acordo de não persecução penal. Irresignação ministerial que persegue o recebimento da denúncia. Mérito que se resolve em desfavor da Acusação. Acordo de não persecução penal (ANPP) que, uma vez firmado e homologado, encerra a natureza de negócio jurídico pré-processual entre o Ministério Público e o investigado com seu defensor (que confessa formal e circunstanciadamente a prática do delito) (§ 3º), nas hipóteses de infração penal sem violência ou grave ameaça, na qual a lei comine pena mínima inferior a quatro anos, mediante o cumprimento de determinadas condições (incisos I a V), gerando, ao final, a extinção de punibilidade (§ 13º) e evitando, como consequência, a deflagração da respectiva ação penal. Instituto do ANPP que não gera para o investigado qualquer direito subjetivo à sua fruição, tanto que o mesmo não pode ser diretamente concedido pelo Poder Judiciário, caracterizando-se, à luz dos seus requisitos conformadores, como um autêntico poder-dever do Ministério Público, uma faculdade regrada e exercida, sob o influxo do princípio da oportunidade da ação penal por este titularizada (CF, art. 129; CPP, art. 3ºA), no espaço inerente à concepção da chamada justiça penal consensuada. Investigado que, todavia, ostenta direito subjetivo a uma manifestação motivada e oportuna, ainda que negativa, por parte do Ministério Público sobre o ANPP, sobretudo por lhe gerar a legítima pretensão de buscar, na sequência, a atuação revisora do Procurador Geral da Justiça (CPP, § 14 do art. 28-A), animado pela justa expectativa de poder gozar de benefícios jurídico-penais a partir da sua eventual proposição e posterior homologação judicial (CPP, § 4º do art. 28-A). Procurador Geral da Justiça do ERJ que, no exercício de sua legítima atividade regulamentadora (Lei Complementar Estadual n. 106/03, art. 11, X), disciplinou internamente a atividade ministerial em sede de ANPP, regulamentação essa que, ao contrário do sustentado pelo Recorrente, guarda ressonância na Constituição Federal (§ 5º do art. 128), sobretudo porque alça em relevo o princípio da unidade institucional igualmente previsto no § 1º do art. 127 do mesmo Diploma Maior. 47 Rotina normatizada que se posta a imprimir concretude ao princípio da “homogeneidade na atuação funcional” dos membros do Ministério Público, preservando, em tom mediato, a potencial competência revisora do PGJ e os interesses do investigado. Resolução Conjunta GPGJ/CGMP n. 20/2020 que, no seu art. 6º, dispõe expressamente que “a recusa em propor o acordo de não persecução penal será fundamentada e certificada nos próprios autos do inquérito policial ou peça informativa, com a comprovação da ciência do investigado, que terá, a contar de então, o prazo de 5 (cinco) dias para requerer a remessa dos autos ao Procurador-Geral de Justiça, com vistas ao reexame da decisão” (caput). E acrescenta que “a comunicação ao investigado dar-se-á, preferencialmente, por meio eletrônico, inclusive pela utilização de aplicativos de mensagens, devendo ser realizada por edital, no Diário Oficial do Ministério Público, caso não seja localizado o destinatário” (§ 1°). Investigado que não foi ouvido em sede policial e em face de quem não houve qualquer tentativa de localização a cargo do Ministério Público, ônus que logicamente deflui da sistemática imposta pela Lei 13.964/19 e diretamente da referida norma de regulamentação (art. 6º), sendo obstada àquele toda e qualquer chance de buscar a concreção do ANPP, pelos caminhos legais previstos. Disposição regulamentar que, ao prever a necessidade de cientificação prévia do investigado acerca de eventual recusa do Parquet em propor o ANPP, não criou uma espúria condição especial de procedibilidade para a deflagração da ação penal, mas apenas compatibilizou a exequibilidade do instituto frente aos termos do art. 28-A, § 14º, do CPP, o qual faculta ao investigado requerer a remessa dos autos ao órgão superior do Ministério Público, para fins de reexame do pronunciamento a quo. ANPP que, exibindo contornos de autêntico instrumento de despenalização, se mostra capaz de obstar, quando presentes seus requisitos, a instauração do processocrime correspondente, o que implica dizer, na linha do magistério de Nucci, que “o novo instituto de processual penal – acordo de não persecução penal – precisa ser decidido antes do advento de uma denúncia”. Eventual possibilidade de oferecimento e efetivação tardia do ANPP, durante a persecução penal em juízo, que tende a representar autêntica proposta de exceção, sabendo-se, em casos como tais, por regra primária de hermenêutica, que as disposições excepcionaisse interpretam restritivamente (Tercio Forjaz Sampaio). Daí não se poder prestigiar o descumprimento da norma regulamentar, só porque 48 este ou aquele Promotor de Justiça resolva, em tese, por desinteresse, lassidão ou arbítrio, inverter a lógica do instituto e o momento típico de sua proposição. Necessidade de se superar antigas posturas construídas à sombra do Poder Judiciário, alvitrando o cumprimento de novos desafios institucionais, fruto da teoria dos poderes (e ônus) implícitos. Início da persecutio criminis in juditio que, segundo o magistério de Nucci, se subordina “à necessidade, à adequação e à utilidade que a ação penal possa representar ao Estado”, ciente de que, na linha da fundamentação trazida pelo D. Juiz a quo (Dr. Adriano Celestino), “a ideia de interesse de agir ou interesse processual está relacionada à utilidade da prestação jurisdicional que se pretende obter com a movimentação do aparato judiciário”. Daí arrematar S. Exa. no sentido de que “o representante do Ministério Público não esgotou todas as possibilidades para afastar, de forma contundente e justificada, o não oferecimento do acordo de não persecução penal. Pelo contrário, se recusou a tomar as providências que lhe são atribuídas por lei e por resolução do MPRJ”. Recurso a que se nega provimento. (3ª Câmara Criminal, Recurso em sentido estrito nº 0003044-59.2020.8.19.0054, j. 01/09/2020) Para Marcos Paulo, por sua vez, a inviabilidade da transação penal ou do ANPP consubstancia condição especial de procedibilidade da ação penal, de modo que o juiz deverá rejeitar a denúncia caso entenda juridicamente viável o negócio jurídico pré-processual. Segundo Alexandre Morais, por força do princípio da inafastabilidade da jurisdição, a recusa infundada do ANPP deve ensejar o não recebimento da ação penal. Caso contrário, cabe HC trancativo. Já no caso de ação penal privada, Alexandre Morais sustenta ser cabível o reconhecimento da perempção pelo juiz em caso de negativa ou mora do querelante em apresentar ou reformular a proposta de ANPP. EM SENTIDO DIVERSO, o STJ vem entendendo que a recusa do MP em ofertar o ANPP não ensejaria a possibilidade de rejeição da denúncia ofertada, como forma de o Judiciário forçar a propositura de eventual ANPP que, no entendimento do julgador de piso, seria possível (notem que os julgados selecionados abaixo não se 49 referem à ausência de manifestação sobre a proposta de ANPP, mas apenas à recusa considerada infundada). Assim, a jurisprudência do STJ tem se manifestado pela desnecessidade de prévia notificação do imputado acerca da recusa do ANPP, que pode ser veiculada, acompanhada das devidas razões, na cota denuncial, sendo o imputado cientificado por ocasião da citação, e devendo a Defesa diligenciar em requerer a remessa dos autos ao órgão de revisão ministerial para reexame da recusa na primeira oportunidade que falar nos autos, ou seja, na resposta à acusação. Confira-se: 5ª Turma STJ, REsp 1.948.350-RS, DJe de 17/11/2021, Edição Especial do Informativo STJ: Não há necessidade do Ministério Público, ao entender pelo não cabimento do acordo de não persecução penal, intimar o acusado para que esta possa recorrer da decisão, nos termos do art. 28- A, § 14, do CPP. INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR O acordo de não persecução penal não constitui direito subjetivo do investigado, podendo ser proposto pelo Ministério Público conforme as peculiaridades do caso concreto e quando considerado necessário e suficiente para a reprovação e a prevenção da infração penal. Por outro lado, o art. 28-A, § 14, do CPP garantiu a possibilidade de o investigado requerer a remessa dos autos ao órgão superior do Ministério Público nas hipóteses em que a Acusação tenha se recusado a oferecer a proposta de acordo de não persecução penal. A norma condiciona o direito de revisão à observância da forma prevista no art. 28 do CPP, cuja redação a ser observada continua sendo aquela anterior à edição da Lei n. 13.964/2019, tendo em vista que a nova redação está com a eficácia suspensa desde janeiro de 2020 em razão da concessão de medida cautelar, nos autos da ADI n. 6.298/DF. No entanto, na legislação vigente atualmente que permanece em vigor não existe a obrigatoriedade do Ministério Público notificar o investigado em caso de recusa em se propor o 28 acordo de não persecução penal. Desse modo, o Juízo de 1º grau deve decidir acerca do recebimento da denúncia, sem que exija do Ministério Público a comprovação de que intimou o acusado, até porque não existe condição de procedibilidade não prevista em lei. Apenas a partir desse momento processual, caso seja recebida a denúncia, será o acusado citado, oportunidade em que poderá, por ocasião da resposta a acusação, questionar o não oferecimento de acordo de não persecução penal por parte de Ministério Público e requerer 50 ao Juiz que remeta os autos ao órgão superior do Ministério Público, nos termos do art. 28, caput e 28-A, § 14, ambos do CPP. Embora seja assegurado o pedido de revisão por parte da defesa do investigado, impende frisar que o Juízo de 1º grau analisará as razões invocadas, considerando a legislação em vigor atualmente (art. 28, caput do CPP), e poderá, fundamentadamente, negar o envio dos autos à instância revisora, em caso de manifesta inadmissibilidade do ANPP, por não estarem presentes, por exemplo, seus requisitos objetivos, pois o simples requerimento do acusado não impõe a remessa automática do processo. 6ª Turma do STJ, Inf. 766/23: Por ausência de previsão legal, o Ministério Público não é obrigado a notificar o investigado acerca da proposta do Acordo de Não Persecução Penal. Inteiro teor: O Tribunal de origem concluiu que, ante a ausência de previsão legal, não pode o Juízo a quo simplesmente rejeitar denúncia ofertada, por ausência de interesse processual do Ministério Público, como forma de o Judiciário forçar a propositura de eventual acordo de não persecução penal (ANPP) que, no entendimento do julgador de piso, seria possível. Dessa forma, entendendo que, ao oferecer a denúncia, o Ministério Público não expôs motivação idônea para a recusa em propor o ANPP, a Corte a quo determinou a manifestação do representante ministerial a esse respeito. Com relação ao tema, o entendimento do Tribunal de origem encontra respaldo na jurisprudência do STJ, no sentido de que, por ausência de previsão legal, não está o Ministério Público obrigado a notificar o investigado acerca da propositura do acordo de não persecução penal, podendo a acusação, no ato do oferecimento da denúncia, expor os motivos pelos quais optou pela não propositura do acordo e, na ocasião do recebimento da denúncia e citação, será o acusado cientificado da recusa quanto à propositura do ANPP. Assim, ao se interpretar conjuntamente os arts. 28-A, § 14, e 28, caput, ambos do Código de Processo Penal, chega-se às seguintes conclusões: a) Em razão da natureza jurídica do acordo de não persecução penal (negócio jurídico pré-processual) e por não haver, atualmente, normal legal que impõe ao Ministério Público a remessa automática dos autos ao órgão de revisão, tampouco que o obriga a expedir notificação ao investigado, poderá a acusação apresentar os fundamentos pelos quais entende incabível a propositura do ajuste na cota 51 da denúncia; b) Recebida a inicial acusatória e realizada a citação, momento no qual o acusado terá ciência da recusa ministerial em propor o acordo, cabe ao denunciado requerer (conforme exige o art. 28-A, § 14, do CPP) ao Juízo (aplicação do art. 28, caput, do CPP, atualmente em vigor), na primeira oportunidade dada para a manifestação nos autos, a remessa dos autos ao órgão de revisão ministerial" (HC 664.016/SP, Rel. Ministra Laurita Vaz, Sexta Turma, DJe 17/12/2021).Portanto, conforme a jurisprudência desta Corte Superior, por ausência de previsão legal, o Ministério Público não é obrigado a notificar o investigado acerca da propositura do acordo de não persecução penal, sendo que, ao se interpretar conjuntamente os artigos28-A, § 14, e 28, caput, do CPP, este último em vigor em virtude de medida cautelar deferida pelo STF, na ADI n. 6.298/DF, a ciência da recusa ministerial deve ocorrer por ocasião da citação, após o recebimento da denúncia, podendo o acusado, na primeira oportunidade para manifestação nos autos, requerer a remessa dos autos ao órgão de revisão ministerial.Nesse contexto, tem-se que o acórdão recorrido, ao anular a sentença que rejeitou a denúncia em razão da ausência de notificação específica do investigado acerca da propositura ou recusa do acordo de não persecução penal, determinando o prosseguimento do feito, para que o Ministério Público apresente manifestação fundamentada sobre o ANPP, não diverge do entendimento firmado por este Superior Tribunal de Justiça. Ainda em relação ao tema, destaque-se julgado da 5ª Turma do STJ, Inf. 780/23: No caso de recusa de oferecimento do acordo de não persecução penal pelo representante do Ministério Público, o recurso dirigido às instâncias administrativas contra o parecer da instância superior do Ministério Público não detém efeito suspensivo capaz de sustar o andamento de ação penal. INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR O § 14 do art. 28-A do Código de Processo Penal garantiu a possibilidade de o investigado requerer a remessa dos autos a órgão superior do Ministério Público nas hipóteses em que a acusação tenha se recusado a oferecer a proposta de Acordo de Não Persecução Penal na origem. No caso, verifica-se que, diante da recusa do representante do Ministério Público Federal em primeiro grau para propor o acordo, a defesa pugnou pela reapreciação do tema pela Câmara 52 de Coordenação e Revisão do Ministério Público Federal - MPF, o que foi deferido no próprio âmbito administrativo. Contudo o órgão superior do Ministério Público ratificou o entendimento acerca da impossibilidade concreta da propositura do acordo aos acusados. Nesse caso, por ausência de previsão legal, afasta-se a obrigatoriedade de suspensão das duas ações penais em curso na origem diante da pendência do julgamento de recurso administrativo interposto pela defesa no âmbito interno do Ministério Público Federal. Isso porque cumpre ao Ministério Público, como titular da ação penal pública, a propositura, ou não, do ANPP (art. 28-A do CPP). Além disso, não há ilegalidade pelo fato de o órgão acusatório sequer ter iniciado diálogo com a defesa sobre o tema, notadamente porque, de forma fundamentada, explicitou as razões pelas quais entendeu não ser viável a propositura do acordo. O oferecimento submete-se à discricionariedade do Ministério Público como titular da ação penal. Não constitui direito subjetivo do acusado a oferta do acordo. Por fim, também não cabe ao Poder Judiciário impor ao Ministério Público a obrigação de ofertá-lo. ATENÇÃO!!! EM CASO EM QUE RECONHECIDA A RECUSA INJUSTIFICADA DA OFERTA DO ANPP NO MOMENTO OPORTUNO (que é antes do oferecimento da ação penal), HÁ IMPORTANTÍSSIMO JULGADO DO STJ RECONHECENDO A NULIDADE ABSOLUTA, o que consequentemente faz desaparecer a decisão de recebimento da denúncia enquanto marco interruptivo da prescrição e pode desaguar no reconhecimento da extinção da punibilidade do imputado. Inclusive, o STJ ressalvou expressamente que o fato de o acordo tardiamente oferecido não ter chegado a bom termo não supera a nulidade apontada. Nesse sentido, 6ª Turma do STJ, Inf. 769/23: Por constituir um poder-dever do Ministério Público, o não oferecimento tempestivo do acordo de não persecução penal desacompanhado de motivação idônea constitui nulidade absoluta. INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR Inicialmente, frisa-se que o STJ já decidiu que configuradas as demais condições objetivas, a propositura do acordo não pode ser condicionada à confissão extrajudicial, 53 na fase inquisitorial. Precedente: HC 657.165/RJ, Relator Ministro Rogério Schietti Cruz, Sexta Turma, DJe 18/8/2022. O acordo de não persecução penal foi instituído com o propósito de resguardar tanto o agente do delito, quanto o aparelho estatal, das desvantagens inerentes à instauração do processo-crime em casos desnecessários à devida reprovação e prevenção do delito. Para isso, o Legislador editou o art. 28-A, caput, do Código de Processo Penal, norma despenalizadora que atribui ao Ministério Público o poder-dever de oferecer, segundo sua discricionariedade regrada, condições para o então investigado (e não acusado) não ser denunciado, caso atendidos os requisitos legais. Ou seja, o benefício a ser eventualmente ofertado ao agente em hipótese na qual há, em tese, justa causa para o oferecimento de denúncia, aplica-se ainda na fase pré-processual e, evidentemente, consubstancia hipótese legal de mitigação do princípio da obrigatoriedade da ação penal. No caso, também como razões de decidir extraídas do voto-vista do Ministro Sebastião Reis Junior, evidencia-se que todas as condições objetivas, salvo a confissão, exigidas para a propositura do ANPP, estavam presentes; que o Ministério Público local reconheceu que o ANPP não foi apresentado no momento oportuno em razão da ausência da confissão; que a confissão, no inquérito, não é condicionante para o ANPP; e que o acordo veio a ser apresentado, após o recebimento da denúncia, mesmo tendo o réu, por meio de sua defesa, afirmado que só confessaria se e quando formalizado o ANPP. O evidente prejuízo alegado centra-se no ato de recebimento da inicial acusatória, porquanto o fato criminoso atribuído ao réu teria ocorrido em 31/08/2009, ao passo que a denúncia foi recebida pelo Juízo em 26/07/2021, ou seja, 35 (trinta e cinco) dias antes do escoamento do prazo prescricional pela pena em abstrato. Assim, presentes as condições para a oferta do ANPP, ele teria de ter sido ofertado antes do oferecimento da denúncia, até porque o Ministério Público reconheceu, quando o ofertou tardiamente, que, se aceita a proposta, deixaria de denunciar o acusado. Silente o Ministério Público antes do oferecimento da denúncia quanto às razões pelas quais não ofertou o ANPP. Reconheceu-se, apenas, ao longo do feito, que o acordo poderia ter sido oferecido antes do oferecimento da denúncia, apesar de ausente a confissão. Há, portanto, uma nulidade que prejudica todo o processo a partir deste momento. 54 A consequência jurídica do descumprimento ou da não homologação do acordo é exatamente a complementação das investigações ou o oferecimento da denúncia, nos termos dos §§ 8.º e 10 do art. 28-A do Código de Processo Penal, e não o prosseguimento da instrução. Não há previsão legal de que a oferta do ANPP seja formalizada após a instauração da fase processual. Nesse contexto, para a correta aplicação da regra, há de se considerar o momento processual adequado para sua incidência, sob pena de se desvirtuar o instituto despenalizador. Portanto, o fato de o acordo tardiamente oferecido não ter chegado a bom termo não supera a nulidade acima apontada, até porque não há como se dizer se o acordo poderia ter outros termos ou se o réu poderia ter eventualmente aceito a proposta ofertada naquele momento. ➢ Enunciado nº 10 da DPRJ: No caso de o investigado, após informado sobre discordância da defesa técnica em relação à proposta de acordo de não persecução penal, optar mesmo assim pela sua aceitação, a vontade esclarecida deste deve prevalecer, considerando se tratar de acordo em que as condições impostas e consequências processuais e penais recaem sobre o mesmo, o que não impede o(a) Defensor(a) Público(a) de consignar sua discordância e tomar medidas que entender cabíveis para impugnar a celebração. * Cabimento de habeas corpus trancativo do procedimento investigativo ao TJ, apontando como autoridade coatora o Juízo de Direito da Vara Criminal da Comarca ___ (ex.: atipicidade material; causa extintiva da punibilidade). * Decisão monocrática do STJ, no RHC 174.870/SP, Rel. Min. ROGERIO SCHIETTI CRUZ, DJe 28/02/2023, divulgada em informativo da DPE RJ: É possível o reconhecimento da atipicidade da conduta, com a consequente absolvição, mesmoapós aceitação e homologação de acordo de não persecução penal Decisão monocrática: (...) O recorrente foi denunciado por suposta prática do delito previsto no art. 1º, II, c/c o art. 11 da Lei n. 8.137/1990, em continuidade delitiva. Foi homologado acordo de não persecução penal, em 12/2/2020 (fl. 600). A defesa impetrou ordem de habeas corpus, o qual foi julgado prejudicado. O impetrante aponta o seguinte constrangimento ilegal (fl. 726): [...] (a) não reconheceu que o valor do tributo apontado 55 como sonegado era irrisório, condição que afasta a tipicidade da conduta, de maneira a impor que o Juiz absolvesse sumariamente o Réu nos termos do art. 397, Inc. III, do CPP; (b) não reconheceu que a reparação de dano no valor do Auto de Infração solicitada pelo MP acarreta a extinção da punibilidade do Acusado e exige que o Juiz absolva sumariamente, nos termos do art. 397, Inc. IV, do CPP. 9 Requer o provimento do recurso ordinário, a fim de que seja declarada a absolvição do recorrente, por atipicidade da conduta ou pela quitação do débito tributário. O Ministério Público Federal, em parecer do Subprocurador-Geral da República Francisco Rodrigues dos Santos Sobrinho, às fls. 800-804, opinou pelo não provimento do recurso. Decido. (...) A Terceira Seção fixou, em recurso repetitivo, que: incide o princípio da insignificância aos crimes tributários federais e de descaminho quando o débito tributário verificado não ultrapassar o limite de R$ 20 mil, a teor do disposto no art. 20 da Lei n. 10.522/2002, com as atualizações efetivadas pelas Portarias n. 75 e 130, ambas do Ministério da Fazenda. Em relação aos tributos estaduais, o parâmetro a ser observado é a existência de norma semelhante à Lei Federal n. 10.522/2002, que define valores de referência para propositura e desistência de execuções fiscais. No caso de São Paulo, a Lei Estadual n. 14.272/2010 e suas atualizações estabelecem os referidos critérios (1.200 UFESPs). (...) O recorrente sonegou tributos estaduais da ordem de R$ 4.556,50 (fl. 491), no período de abril de 2011 a abril de 2013, por meio de "fraude à fiscalização tributária consistente na omissão de operações de qualquer natureza em livros e documentos exigidos pela lei fiscal" (fl. 314). O crédito tributário devido era inferior ao valor atualizado de 1.200 UFESPs (Lei n. 14.272/2010), definido pela Procuradoria-Geral do Estado de São Paulo (Comunicado Dicar/SP), para todo o período compreendido entre 2011 e 2023. Dessa forma, a absolvição seria cogente (art. 386, III, do Código de Processo Penal). Muito embora o réu, inicialmente, haja concordado com as condições propostas pelo Ministério Público por ocasião do ANPP, não há como manter acordo firmado nesses termos, em vista tratar-se de conduta materialmente atípica. À vista do exposto, dou provimento ao recurso 56 ordinário, para declarar a absolvição do recorrente, com fulcro no art. 395, III, do Código de Processo Penal. ➢ Homologação do ANPP pelo juiz: Controle de voluntariedade e de legalidade da medida (§ 4º). Controle sobre o conteúdo das condições impostas (§5º) Em caso de recusa de homologação do acordo, cabe RESE (art. 581, XXV, do CPP). * Atenção: quando não for realizada a adequação das condições pelo MP, deve o juiz homologar parcialmente o acordo, decotando ou ajustando as condições abusivas ou inadequadas. Subsidiariamente, remessa ao PGJ para manifestação sobre a abusividade da cláusula. Contra a decisão de homologação parcial, questiona-se se cabe RESE (art. 581, XXV, do CPP) ou apelação residual (art. 593, II, CPP) pelo MP. Contra decisão que se recusa a efetuar o controle da abusividade da cláusula, cabe HC para o TJ, apontando como autoridade coatora o Juízo de Direito e a Promotoria de Justiça. Obs.: o Enunciado 24 CNPG dispõe que a homologação do acordo de não persecução penal, a ser realizada pelo juiz competente, é ato judicial de natureza declaratória, cujo conteúdo analisará apenas a voluntariedade e a legalidade da medida, não cabendo ao magistrado proceder a um juízo quanto ao mérito/conteúdo do acordo, sob pena de afronta ao princípio da imparcialidade, atributo que lhe é indispensável no sistema acusatório. Como crítica, ao realizar a homologação, o juízo deve realizar um juízo de legalidade lato sensu, o que inclui um juízo de constitucionalidade e de convencionalidade, efetuando controle sobre os requisitos do instituto e sobre a abusividade ou desproporcionalidade das condições impostas. ➢ O ANPP não equivale a condenação, não podendo ser utilizado para fins de reincidência ou maus antecedentes (§ 12). Nesse sentido enunciado interpretativo 25 do Conselho Nacional de Procuradores Gerais dos Ministérios 57 Públicos dos Estados e da União sobre o Pacote Anticrime: “o acordo de não persecução penal não impõe penas, mas somente estabelece direitos e obrigações de natureza negocial e as medidas acordadas voluntariamente pelas partes não produzirão quaisquer efeitos daí decorrentes, incluindo a reincidência”. ➢ Muito embora seja possível a rescisão do acordo de não persecução penal (§10 do art. 28-A do CPP), necessário, para preservação dos princípios constitucionais do contraditório e da ampla defesa, oportunizar à defesa a manifestação acerca do pedido formulado pelo Ministério Público (5ª Turma do STJ, HC 615384 / SP, DJe 11/02/2021). Nesse sentido, enunciado institucional nº 19 da Defensoria Pública de Minas Gerais sobre o Pacote Anticrime: “ante a notícia de descumprimento de condição estipulada no acordo de não persecução penal (artigo 28-A, §10, do CPP), em homenagem aos princípios do contraditório e da ampla defesa constitucionalmente determinados, a análise da rescisão pressupõe a oitiva do investigado e da defesa técnica”. Teoria do adimplemento substancial - se o imputado cumpre a sanção imposta substancialmente, a prorrogação ou mesmo a revogação violam o princípio da proporcionalidade, devendo ser declarada extinta a punibilidade com base na teoria do adimplemento substancial (Alexandre Moraes da Rosa). ➢ Causa suspensiva/ impeditiva do prazo da prescrição da pretensão punitiva (art. 116 do CP). Atenção: Alexandre Paranhos sustenta que a nova causa impeditiva somente incidirá sobre os acordos firmados após vigência e eficácia da Lei 13.964/19. Por sua vez, em relação aos acordos de não persecução penal lastreados na Resolução nº. 181 do CNMP, houve novatio legis in pejus, não podendo a causa impeditiva se aplicar retroativamente. ➢ 3ª Seção do STJ, Inf. 757/22: A competência para a execução do acordo de não persecução penal é do Juízo que o homologou. Inteiro teor: O art. 28-A, § 6º, do Código de Processo Penal, ao determinar que o acordo de não persecução penal será executado no juízo da execução penal, implicitamente, estabeleceu que o 58 cumprimento das condições impostas no referido acordo deverá observar, no que forem compatíveis, as regras pertinentes à execução das penas. Segundo pacífica orientação desta Corte Superior, a competência para a execução das penas é do Juízo da condenação. No caso específico de execução de penas restritivas de direitos, em se tratando de condenado residente em jurisdição diversa do Juízo que o condenou, também é sedimentada a orientação de que a competência para a execução permanece com o Juízo da condenação, que deprecará ao Juízo da localidade em que reside o apenado tão-somente o acompanhamento e a fiscalização do cumprimento da reprimenda. Sendo assim, em se tratando de cumprimento das condições impostas em acordo de não persecução penal, a competência para a sua execução é do Juízo que o homologou, o qual poderá deprecar a fiscalização do cumprimento do ajuste e a prática de atos processuais para o atual domicílio do apenado. ➢ Enunciado nº 14 da DPRJ: Por ausência de vedação legal, é cabível o acordo de não persecução penal aos crimes militares, devendo o(a) Defensor(a) Público(a) analisar a situação em concreto de cada assistido. 59fática feita na denúncia não traz todas as circunstâncias necessárias para configurar o delito previsto no inciso II do art. 1º da Lei n. 9.455/1997. 4 2. O tipo penal em questão, definido pela doutrina como tortura-pena ou tortura-castigo, a qual requer intenso sofrimento físico ou mental, além do objetivo de aplicar castigo pessoal ou medida de caráter preventivo. 3. Na hipótese dos autos, a denúncia é clara ao evidenciar que o intuito dos acusados era de conter a rebelião, mas não descreve que estavam imbuídos de vontade de aplicar castigo às ofendidas. 4. Assim, e como o Ministério Público foi expresso ao afirmar que os agentes extrapolaram os meios moderadamente necessários, ressai correta a conclusão do Juízo singular, ao entender que a conduta descrita poderia, quando muito, se adequar aos tipos penais dos arts. 3º e 4º da Lei n. 4.898/1965, vigente à data dos fatos. 5. Quanto à desclassificação da conduta no ato de recebimento da denúncia, a medida só é admitida pela jurisprudência desta Corte Superior em situações excepcionais, quando evidenciado que a alteração traz reflexos na competência do Juízo ou na obtenção de algum benefício previsto em lei. Precedentes. 6. Na hipótese dos autos, a desclassificação operada pelo Magistrado de primeiro grau permitiria a obtenção de benefícios exclusivos dos delitos de menor potencial ofensivo, diante da reprimenda prevista em abstrato para o crime de abuso de autoridade (detenção, de 10 dias a 6 meses), situação que configura a excepcionalidade admitida pela jurisprudência e torna válida a decisão prolatada. 7. Agravo regimental provido para restabelecer a decisão do Juízo de primeiro grau, que declarou extinta a punibilidade dos agravantes. (6ª Turma do STJ, AgRg no REsp 1201963 / SP, DJe 06/03/2023) ➢ Termo circunstanciado (ao invés de instauração de inquérito policial ou de lavratura de auto de prisão em flagrante): Art. 69, p. único, da Lei 9.099/95: Ao autor do fato que, após a lavratura do termo, for imediatamente encaminhado ao juizado ou assumir o compromisso de a ele comparecer, não se imporá prisão em flagrante, nem se exigirá fiança. * Pleno do STF, Inf. 1083/23, ADI 6.245/DF e ADI 6.264/DF: O Termo Circunstanciado de Ocorrência (TCO) não possui natureza investigativa, podendo 5 ser lavrado por integrantes da polícia judiciária ou da polícia administrativa. É constitucional — por ausência de usurpação das funções das polícias judiciárias — a prerrogativa conferida à Polícia Rodoviária Federal de lavrar termo circunstanciado de ocorrência (TCO), o qual, diversamente do inquérito policial, não constitui ato de natureza investigativa, dada a sua finalidade de apenas constatar um fato e registrá-lo com detalhes. O TCO, nos moldes definidos pela Lei 9.099/1995, destina-se a registrar ocorrências de crimes de menor potencial ofensivo, sem dar margem a qualquer procedimento que acarrete diligências para esclarecimento dos fatos ou da autoria delitiva. Esta Corte já reputou constitucional a lavratura de TCO por autoridade policial que não seja delegado de polícia, por considerar que essa atribuição não é exclusiva da polícia judiciária, tal como ocorre nos casos submetidos à investigação mediante inquérito policial. Com base nesse entendimento, o Plenário, por unanimidade, em apreciação conjunta, julgou improcedentes as ações para assentar a constitucionalidade do art. 6º do Decreto 10.073/2019, na parte em que modificou o art. 47, XII, do Decreto 9.662/2019. Pleno do STF, ADI 5637, DJ 11/04/2022: A lavratura de termo circunstanciado não configura atividade investigativa, nem é atividade privativa da polícia judiciária. Precedentes. No âmbito da competência concorrente, Estados e Distrito Federal têm competência para definir as autoridades legitimadas para a lavratura do termo circunstanciado. Como não há atribuição privativa de delegado de polícia ou mesmo da polícia judiciária para a lavratura do termo circunstanciado, norma estadual que atribui essa competência à polícia militar não viola a divisão constitucional de funções entre os órgãos de segurança pública. ➢ Composição civil dos danos: Art. 74 da Lei 9.099/95: A composição dos danos civis será reduzida a escrito e, homologada pelo Juiz mediante sentença irrecorrível, terá eficácia de título a ser executado no juízo civil competente. 6 Parágrafo único. Tratando-se de ação penal de iniciativa privada ou de ação penal pública condicionada à representação, o acordo homologado acarreta a renúncia ao direito de queixa ou representação. - Nos crimes de ação penal privada ou de ação penal pública condicionada à representação, a composição civil dos danos implica na extinção da punibilidade pela renúncia ao direito de queixa ou de representação. A sentença homologatória da composição civil terá eficácia de título executivo perante o juízo cível, em caso de descumprimento, mantendo-se inalterada a extinção da punibilidade. - Nos crimes de ação penal pública incondicionada, também é admitida a composição civil dos danos, contudo ela não acarretará a extinção da punibilidade do agente, sendo possível a transação penal. ➢ Transação penal: Art. 76 da Lei 9.099/95: Havendo representação ou tratando-se de crime de ação penal pública incondicionada, não sendo caso de arquivamento, o Ministério Público poderá propor a aplicação imediata de pena restritiva de direitos ou multas, a ser especificada na proposta. § 1º Nas hipóteses de ser a pena de multa a única aplicável, o Juiz poderá reduzi-la até a metade. § 2º Não se admitirá a proposta se ficar comprovado: I - ter sido o autor da infração condenado, pela prática de crime, à pena privativa de liberdade, por sentença definitiva; II - ter sido o agente beneficiado anteriormente, no prazo de cinco anos, pela aplicação de pena restritiva ou multa, nos termos deste artigo; III - não indicarem os antecedentes, a conduta social e a personalidade do agente, bem como os motivos e as circunstâncias, ser necessária e suficiente a adoção da medida. § 3º Aceita a proposta pelo autor da infração e seu defensor, será submetida à apreciação do Juiz. § 4º Acolhendo a proposta do Ministério Público aceita pelo autor da infração, o Juiz aplicará a pena restritiva de direitos ou multa, que não importará em reincidência, sendo registrada apenas para impedir novamente o mesmo benefício no prazo de cinco anos. 7 § 5º Da sentença prevista no parágrafo anterior caberá a apelação referida no art. 82 desta Lei. § 6º A imposição da sanção de que trata o § 4º deste artigo não constará de certidão de antecedentes criminais, salvo para os fins previstos no mesmo dispositivo, e não terá efeitos civis, cabendo aos interessados propor ação cabível no juízo cível. - negócio jurídico pré-processual. Atenção: art. 28,-A, § 2º, I, do CPP: não cabe o ANPP se for cabível transação penal de competência dos Juizados Especiais Criminais, nos termos da lei. - a transação cabe nos crimes de ação penal pública incondicionada ou condicionada, embora prevaleça o entendimento de que também é cabível nos crimes de ação penal privada por analogia in bonam partem, discutindo-se sobre a legitimidade para a formulação da proposta neste último caso. Para o Enunciado 112 do FONAJE, na ação penal de iniciativa privada, cabem transação penal e suspensão condicional do processo, mediante proposta do Ministério Público. Já para Renato Brasileiro, invocando alguns julgados do STJ, a legitimidade para a proposta é do querelante. - a transação penal exige a presença de justa causa para o oferecimento da acusação, não sendo caso de arquivamento do termo circunstanciado. - o autor da infração não pode ter sido condenado, pela prática de crime, à pena privativa de liberdade, por sentença transitada em julgado. Obs.: nesse caso, pode ser cabível o ANPP, notadamente se “insignificantes as infrações penais pretéritas” (art. 28-A, § 2º, II, do CPP). Por sua vez, se a condenação for por contravenção, ou a pena restritiva de direitos ou multa, caberáa transação penal. - possuem o acusado e a defesa técnica a faculdade de aceitar ou não a proposta de transação penal. Havendo divergência, prevalece a vontade do imputado. - diverge-se se a homologação da transação penal impede a impetração de habeas corpus em que se busca o trancamento da ação penal, ficando prejudicado eventual wrti já impetrado pela perda do objeto. Para a 6ª Turma do STJ, HC 495.148-DF, Info 657/19, SIM. X Para a 2ª Turma do STF, Inf. 964/20, HC 176785/DF, NÃO. 8 - a transação enseja a aplicação imediata de pena restritiva de direitos ou multa, sem assunção de culpa, não gerando reincidência, maus antecedentes, nem efeitos civis. Ela apenas impede a concessão de nova transação penal dentro do período de 5 anos, bem como de celebração de ANPP no prazo de 5 anos (art. 28-A, § 2º, III, do CPP - considerando se tratar de norma inserida pela Lei Anticrime, parte da doutrina sustenta que tal óbice só se aplica no caso da transação ter sido celebrada após a sua entrada em vigor). - Súmula 536 do STJ: a suspensão condicional do processo e a transação penal não se aplicam na hipótese de delitos sujeitos ao rito da Lei Maria da Penha. - se o MP, injustificadamente, não formular a proposta de transação penal, prevalece a aplicação, por analogia, o art. 28 do CPP, remetendo-se a questão ao Procurador-Geral para reexame (ratio da Súmula 696 do STF). Nesse sentido, em relação ao ANPP, preconiza o art. 28-A, § 14, do CPP. Alexandre Moraes sustenta, por sua vez, que, diante de negativa genérica, inidônea ou desproporcional do MP em ofertar proposta de transação penal, deve o juiz rejeitar a denúncia (princípio constitucional da inafastabilidade da jurisdição) ou, no caso de abuso do querelante em ação penal privada, declarar a extinção da punibilidade pela perempção. - Súmula Vinculante 35 do STF: A homologação da transação penal prevista no artigo 76 da Lei 9.099/95 não faz coisa julgada material e, descumpridas suas cláusulas, retoma-se a situação anterior, possibilitando-se ao Ministério Público a continuidade da persecução penal mediante oferecimento de denúncia ou requisição de inquérito policial. Atenção para a possibilidade de prescrição da pretensão punitiva em abstrato, notadamente porque a celebração da transação penal não é causa de suspensão do prazo prescricional! Atenção ainda para a necessidade de oportunizar o contraditório prévio, com a oitiva do imputado e da defesa técnica antes da decisão de revogação. - no caso de desclassificação de infração para outra de menor potencial ofensivo (decisão interlocutória), uma vez preclusa, devem ser os autos remetidos ao MP para 9 análise do cabimento das medidas despenalizadoras (ratio do art. 383, § 1º, do CPP, e da Súmula 337 do STJ) - STJ, HC 382.372/SC. Nesse sentido, confira-se julgado recente: EMBARGOS DE DECLARAÇÃO NO HABEAS CORPUS. PROCESSUAL PENAL. LESÃO CORPORAL GRAVÍSSIMA. DESCLASSIFICAÇÃO DA IMPUTAÇÃO. FORMA SIMPLES DO DELITO. POSSIBILIDADE DE OFERECIMENTO DOS INSTITUTOS DESPENALIZADORES. SÚMULA N. 337/STJ. SENTENÇA E ACÓRDÃOS CONDENATÓRIOS. ANULAÇÃO. PRESCRIÇÃO DA PRETENSÃO PUNITIVA. CONSUMAÇÃO. EMBARGOS DE DECLARAÇÃO ACOLHIDOS COM A ATRIBUIÇÃO DE EFEITOS INFRINGENTES. 1. Havendo desclassificação do delito ou procedência parcial da pretensão punitiva, é cabível a aplicação dos institutos despenalizadores da Lei n. 9.099/1995. Incidência da orientação jurisprudencial sedimentada na Súmula n. 337 do Superior Tribunal de Justiça. 2. Se a nova capitulação jurídica do fato criminoso permite a celebração de transação penal ou até mesmo o sursis processual, não se pode retirar do Réu a possibilidade de fruir tais benefícios que não lhes foram ofertados no início da ação penal, em razão do equívoco na qualificação jurídica dada ao fato criminoso. 3. Ante a desclassificação e sendo possível, ao menos em tese, a aplicação dos institutos despenalizadores previstos na Lei dos Juizados Especiais, os éditos condenatórios de primeiro e segundo graus não podem subsistir, isto é, devem ser anulados, porque somente assim se garante, ao Réu, idêntico tratamento que seria conferido àquele que praticasse conduta semelhante cuja capitulação jurídica fosse realizada corretamente desde o princípio da persecução penal. 4. Desconstituída a condenação - e os marcos interruptivos da prescrição dela decorrentes - está extinta a punibilidade do Embargante pela prescrição da pretensão punitiva. (6ª Turma do STJ, EDcl no HC 689921 / SP, DJe 26/04/2023) 2) Suspensão condicional do processo Art. 89. Nos crimes em que a pena mínima cominada for igual ou inferior a um ano, abrangidas ou não por esta Lei, o Ministério Público, ao oferecer a denúncia, poderá propor a suspensão do processo, por dois a quatro anos, desde que o 10 acusado não esteja sendo processado ou não tenha sido condenado por outro crime, presentes os demais requisitos que autorizariam a suspensão condicional da pena (art. 77 do Código Penal). § 1º Aceita a proposta pelo acusado e seu defensor, na presença do Juiz, este, recebendo a denúncia, poderá suspender o processo, submetendo o acusado a período de prova, sob as seguintes condições: I - reparação do dano, salvo impossibilidade de fazê-lo; II - proibição de freqüentar determinados lugares; III - proibição de ausentar-se da comarca onde reside, sem autorização do Juiz; IV - comparecimento pessoal e obrigatório a juízo, mensalmente, para informar e justificar suas atividades. § 2º O Juiz poderá especificar outras condições a que fica subordinada a suspensão, desde que adequadas ao fato e à situação pessoal do acusado. § 3º A suspensão será revogada se, no curso do prazo, o beneficiário vier a ser processado por outro crime ou não efetuar, sem motivo justificado, a reparação do dano. § 4º A suspensão poderá ser revogada se o acusado vier a ser processado, no curso do prazo, por contravenção, ou descumprir qualquer outra condição imposta. § 5º Expirado o prazo sem revogação, o Juiz declarará extinta a punibilidade. § 6º Não correrá a prescrição durante o prazo de suspensão do processo. § 7º Se o acusado não aceitar a proposta prevista neste artigo, o processo prosseguirá em seus ulteriores termos. ➢ A suspensão condicional do processo (sursis processual) não está vinculada às infrações de menor potencial ofensivo, embora prevista na Lei 9099/95. ➢ Aplica-se aos crimes com pena mínima cominada igual ou inferior a um ano, computados os acréscimos e diminuições decorrentes de qualificadoras, majorantes e minorantes, bem como levando em consideração o crime continuado e o concurso formal ou material (denominados crimes de médio potencial ofensivo). Súmula 723 do STF: não se admite a suspensão condicional do processo por crime continuado, se a soma da pena mínima da 11 infração mais grave com o aumento mínimo de um sexto for superior a um ano. Súmula 243 do STJ: o benefício da suspensão do processo não é aplicável em relação às infrações penais cometidas em concurso material, concurso formal ou continuidade delitiva, quando a pena mínima cominada, seja pelo somatório, seja pela incidência da majorante, ultrapassar o limite de um (01) ano. ➢ Não estar sendo processado (questionável à luz do princípio da presunção de inocência) nem ter sido condenado por outro crime: o processo ou condenação por contravenção não impede a suspensão condicional do processo. ➢ Requisitos do art. 77 do CP. ➢ A anterior celebração de suspensão condicional do processo, transação penal ou ANPP não obsta a proposta de sursis processual por ausência de previsão legal. Atenção: o art. 28-A, § 11, do CPP, prevê que o descumprimento do ANPP pelo investigado também poderá ser utilizado pelo Ministério Público como justificativa para o eventual não oferecimento de suspensão condicional do processo. O dispositivo, saliente-se, não abrange as hipóteses de não aceitação da proposta de ANPP, mas apenas o descumprimento. ➢ Súmula 536 do STJ: a suspensão condicional do processo e a transação penal não se aplicamna hipótese de delitos sujeitos ao rito da Lei Maria da Penha. ➢ Condições: art. 89, § 1º * 6ª Turma do STJ, Inf. 754/22: A falta de acordo entre as partes quanto ao valor a ser pago a título de reparação do dano inviabiliza o benefício legal da suspensão condicional do processo. Inteiro teor: Nos termos da jurisprudência desta Corte "a suspensão condicional do processo, proposta pela acusação, é solução extrapenal que cumpre ser prestigiada como instrumento de controle social de crimes de menor potencial ofensivo. Na presença dos requisitos objetivos e subjetivos previstos na legislação de regência, impõe-se sua homologação após o recebimento da denúncia, com suspensão do processo e do prazo prescricional" (APn n. 954/DF, relator Ministro João Otávio de 12 Noronha, Corte Especial, julgado em 6/10/2021, DJe de 15/10/2021). No caso, não se verifica constrangimento ilegal, pois foi proposta pelo Ministério Público a suspensão condicional do processo, não tendo sido o benefício homologado pelo juízo em razão do desacordo entre as partes acerca do valor a ser pago a título de reparação do dano, uma das condições para a concessão desse benefício, previsto no art. 89, §1º, I, da Lei n. 9.099/1995. "A reparação do dano causado, salvo na impossibilidade de fazê-lo, prevista no art. 89, § 1º, I, da Lei n. 9.099/1995, é imprescindível para concessão do sursis processual". (RHC 62.119/SP, Rel. Ministro Gurgel De Faria, Quinta Turma, julgado em 10/12/2015, DJe 05/02/2016). Outrossim, em situação análoga, decidiu esta Corte que, "no que diz respeito à alegada afronta ao art. 89 da Lei n. 9.099/1995, tem-se que a suspensão condicional do processo deixou de ser oferecida não em virtude da ausência de prévia reparação do dano, mas sim em razão da ausência de acordo sobre o ressarcimento do dano, situação que, de fato, inviabiliza o benefício legal". (AgRg no AREsp n. 1.751.724/RJ, relator Ministro Reynaldo Soares da Fonseca, Quinta Turma, julgado em 21/9/2021, DJe de 27/9/2021). ➢ 3ª Seção do STJ, recurso repetitivo, REsp 1498034 RS, DJe 02/12/2015: não há óbice a que se estabeleçam, no prudente uso da faculdade judicial disposta no art. 89, § 2º, da Lei n. 9.099/1995, obrigações equivalentes, do ponto de vista prático, a sanções penais (tais como a prestação de serviços comunitários ou a prestação pecuniária), mas que, para os fins do sursis processual, se apresentam tão somente como condições para sua incidência. ➢ Crimes ambientais: art. 28 da Lei 9.605/98. ➢ Prevalece o cabimento da suspensão condicional do processo também nos crimes de ação penal privada, divergindo-se, neste caso, sobre o legitimado para oferecer a proposta: se o querelante, o MP (Enunciado 112 do FONAJE) ou o juiz. ➢ Pressupõe o recebimento da denúncia. Segundo Renato Brasileiro, o acusado é citado para apresentar resposta preliminar e, não sendo o caso de rejeição da denúncia, de absolvição sumária ou de extinção da punibilidade, é designada audiência 13 especial para veiculação da proposta, tendo o acusado e a defesa técnica a faculdade de aceitar ou não. Havendo divergência, prevalece a vontade do imputado. ➢ 2ª Turma do STF, HC 145.875/SP, DJe 16/12/2022, decisão veiculada em informativo da DPE RJ: A inimputabilidade ou a semi-imputabilidade do agente não pode impedi-lo de receber tratamento processual mais benéfico, sendo possível viabilizar as medidas despenalizadoras com a nomeação de curador especial HABEAS CORPUS. SUBSTITUTIVO DE RECURSO ORDINÁRIO CONSTITUCIONAL. ADMISSIBILIDADE. LESÃO CORPORAL LEVE. CRIME DE MENOR POTENCIAL OFENSIVO. LEI 9.099/1995. INIMPUTABILIDADE. DIREITO À COMPOSIÇÃO DE DANOS. 3 TRANSAÇÃO PENAL. SUSPENSÃO CONDICIONAL DO PROCESSO. CURADOR ESPECIAL. ORDEM CONCEDIDA. 1. Esta Suprema Corte admite a impetração de habeas corpus em substituição ao recurso ordinário constitucional. 2. A Lei 9.099/95, cumprindo mandamento constitucional, trouxe ao ordenamento jurídico brasileiro novo modelo de Justiça Criminal Consensual. Diversamente do processo penal comum, em que a finalidade é a punição do agente em caso de condenação após o devido processo legal, no Juizado Especial Criminal, o objetivo do processo, na dicção do art. 62 da Lei, deve ser, sempre que possível, a reparação dos danos sofridos pela vítima e a aplicação de medida não privativa de liberdade. 3. Com vistas a alcançar o seu fim, a norma conferiu um espaço consensual às partes, que dispõem de medidas despenalizadoras, como a composição civil (art. 74, parágrafo único), a transação (art. 76) e a suspensão condicional do processo (art. 89), instrumentos favoráveis ao autor do fato que materializam o princípio da subsidiariedade do Direito Penal. 4. A inimputabilidade ou a semi-imputabilidade do agente não pode impedi-lo de receber tratamento processual mais benéfico, sendo possível viabilizar as medidas despenalizadoras com a nomeação de curador especial. 5. No caso, a ausência de realização da audiência preliminar impediu provável composição dos danos mediante acordo, situação que demonstra o prejuízo concreto sofrido pelo paciente a ensejar a anulação processual. 6. Ordem concedida para anular a audiência de instrução e julgamento e os atos subsequentes, bem como determinar a realização de audiência preliminar para possibilitar ao autor do fato, por intermédio de 14 curador especial, os benefícios despenalizadores previstos na Lei 9.099/95. ➢ O juiz deve controlar os abusos nas cláusulas, decotando as abusivas ou ilegais, ou mesmo rejeitando a denúncia em caso de recusa inidônea ou reconhecendo a perempção em caso de inércia do querelante em apresentar a proposta. ➢ Período de prova de 2 a 4 anos, em que fica sujeito a condições. X Na suspensão condicional da pena (pressupõe condenação transitada em julgado), o período de prova também é de 2 a 4 anos, em que fica sujeito a condições, ou de 4 a 6 anos na hipótese do art. 77, § 2º, do CP. X Período de prova do livramento condicional (pressupõe condenação e é a última etapa do sistema progressivo de cumprimento de pena) pelo tempo que resta de pena a cumprir, em que fica sujeito a condições. ➢ Súmula 337 do STJ: é cabível a suspensão condicional do processo na desclassificação do crime e na procedência parcial da pretensão punitiva. Art. 383, § 1º (emendatio libelli), e art. 384, § 3º (mutatio libelli), do CPP. Jurisprudência em teses nº 93 do STJ, atualizada em 2023: Nos casos de aplicação da Súmula n. 337/STJ, os autos devem ser encaminhados ao Ministério Público para que se manifeste sobre a possibilidade de suspensão condicional do processo ou de transação penal. ➢ Súmula 696 do STF: reunidos os pressupostos legais permissivos da suspensão condicional do processo, mas se recusando o Promotor de Justiça a propô-la, o Juiz, dissentindo, remeterá a questão ao Procurador-Geral, aplicando-se por analogia o art. 28 do Código de Processo Penal. Atenção para o princípio constitucional da inafastabilidade da jurisdição! ➢ A suspensão condicional do processo não gera reincidência ou maus antecedentes. Em apreço ao princípio da legalidade penal, que veda a analogia in malam partem, diante da ausência de norma equivalente ao art. 76, § 2º, não é possível extrair qualquer limitação temporal para a suspensão condicional do processo ou mesmo transação penal. Em sentido contrário, edição nº 93 da Jurisprudência em Teses do STJ: aplica-se, por analogia, o prazo de 5 anos para concessão de nova transação penal ao 15 instituto despenalizador da suspensão condicional do processo. Contudo, em relação ao ANPP, o art. 28-A, § 2º, III, do CPP, prevê que o ANPP não será cabível se o agente tiver sido beneficiado por suspensão condicional do processo nos 5 anos anteriores ao cometimento da infração penal. ➢ Diversamente da transação penal, o art. 89, § 6º, prevê que causa suspensiva da prescrição no caso de suspensão condicional do processo. ➢ STJ: eventual aceitação de proposta de suspensão condicional do processo não prejudica a análise de habeas corpusem que se pleiteia o trancamento de ação penal (edição nº 93 da Jurisprudência em Teses do STJ). ➢ Findo o período de prova sem revogação, o juiz deve declarar a extinção da punibilidade. ➢ A revogação da suspensão condicional do processo é obrigatória no art. 89, § 3º, da Lei nº 9.099/95, e facultativa no art. 89, § 4º, devendo ser observado o contraditório prévio. Inf. 668/20, 5ª Turma do STJ: o processamento do réu pela prática da conduta descrita no art. 28 da Lei de Drogas no curso do período de prova deve ser considerado como causa de revogação facultativa da suspensão condicional do processo, tal qual ocorre com a contravenção penal, por força do princípio da proporcionalidade. ➢ STJ (3ª Seção, REsp 1498034 RS, recurso repetitivo, DJe 02/12/2015, tema 920) e STF: o sursis processual pode ser revogado após o período de prova, desde que os fatos que ensejaram a revogação tenham ocorrido antes do término do período. Jurisprudência em teses nº 3 (suspensão condicional do processo), atualizada: Se descumpridas as condições impostas durante o período de prova da suspensão condicional do processo, o benefício poderá ser revogado, mesmo se já ultrapassado o prazo legal, desde que referente a fato ocorrido durante sua vigência. X Súmula 617 do STJ: a ausência de suspensão ou revogação do livramento condicional 16 antes do término do período de prova enseja a extinção da punibilidade pelo integral cumprimento da pena. 3) ACORDO DE NÃO PERSECUÇÃO PENAL O acordo de não persecução penal foi inserido no art. 28-A do CPP pela Lei 13.964/19. Art. 28-A. Não sendo caso de arquivamento e tendo o investigado confessado formal e circunstancialmente a prática de infração penal sem violência ou grave ameaça e com pena mínima inferior a 4 (quatro) anos, o Ministério Público poderá propor acordo de não persecução penal, desde que necessário e suficiente para reprovação e prevenção do crime, mediante as seguintes condições ajustadas cumulativa e alternativamente: I - reparar o dano ou restituir a coisa à vítima, exceto na impossibilidade de fazê-lo; II - renunciar voluntariamente a bens e direitos indicados pelo Ministério Público como instrumentos, produto ou proveito do crime; III - prestar serviço à comunidade ou a entidades públicas por período correspondente à pena mínima cominada ao delito diminuída de um a dois terços, em local a ser indicado pelo juízo da execução, na forma do art. 46 do Decreto-Lei nº 2.848, de 7 de dezembro de 1940 (Código Penal); IV - pagar prestação pecuniária, a ser estipulada nos termos do art. 45 do Decreto-Lei nº 2.848, de 7 de dezembro de 1940 (Código Penal), a entidade pública ou de interesse social, a ser indicada pelo juízo da execução, que tenha, preferencialmente, como função proteger bens jurídicos iguais ou semelhantes aos aparentemente lesados pelo delito; ou V - cumprir, por prazo determinado, outra condição indicada pelo Ministério Público, desde que proporcional e compatível com a infração penal imputada. § 1º Para aferição da pena mínima cominada ao delito a que se refere o caput deste artigo, serão consideradas as causas de aumento e diminuição aplicáveis ao caso concreto. § 2º O disposto no caput deste artigo não se aplica nas seguintes hipóteses: I - se for cabível transação penal de competência dos Juizados Especiais Criminais, nos termos da lei; 17 II - se o investigado for reincidente ou se houver elementos probatórios que indiquem conduta criminal habitual, reiterada ou profissional, exceto se insignificantes as infrações penais pretéritas; III - ter sido o agente beneficiado nos 5 (cinco) anos anteriores ao cometimento da infração, em acordo de não persecução penal, transação penal ou suspensão condicional do processo; e IV - nos crimes praticados no âmbito de violência doméstica ou familiar, ou praticados contra a mulher por razões da condição de sexo feminino, em favor do agressor. § 3º O acordo de não persecução penal será formalizado por escrito e será firmado pelo membro do Ministério Público, pelo investigado e por seu defensor. § 4º Para a homologação do acordo de não persecução penal, será realizada audiência na qual o juiz deverá verificar a sua voluntariedade, por meio da oitiva do investigado na presença do seu defensor, e sua legalidade. § 5º Se o juiz considerar inadequadas, insuficientes ou abusivas as condições dispostas no acordo de não persecução penal, devolverá os autos ao Ministério Público para que seja reformulada a proposta de acordo, com concordância do investigado e seu defensor. § 6º Homologado judicialmente o acordo de não persecução penal, o juiz devolverá os autos ao Ministério Público para que inicie sua execução perante o juízo de execução penal. § 7º O juiz poderá recusar homologação à proposta que não atender aos requisitos legais ou quando não for realizada a adequação a que se refere o § 5º deste artigo. § 8º Recusada a homologação, o juiz devolverá os autos ao Ministério Público para a análise da necessidade de complementação das investigações ou o oferecimento da denúncia. § 9º A vítima será intimada da homologação do acordo de não persecução penal e de seu descumprimento. § 10. Descumpridas quaisquer das condições estipuladas no acordo de não persecução penal, o Ministério Público deverá comunicar ao juízo, para fins de sua rescisão e posterior oferecimento de denúncia § 11. O descumprimento do acordo de não persecução penal pelo investigado também poderá ser utilizado pelo Ministério Público como justificativa para o eventual não oferecimento de suspensão condicional do processo. § 12. A celebração e o cumprimento do acordo de não persecução penal não constarão de certidão de antecedentes 18 criminais, exceto para os fins previstos no inciso III do § 2º deste artigo. § 13. Cumprido integralmente o acordo de não persecução penal, o juízo competente decretará a extinção de punibilidade. § 14. No caso de recusa, por parte do Ministério Público, em propor o acordo de não persecução penal, o investigado poderá requerer a remessa dos autos a órgão superior, na forma do art. 28 deste Código. ➢ Negócio jurídico pré-processual celebrado entre o Ministério Público e o investigado, assistido por seu defensor, e devidamente homologado pelo juiz, em que pactuadas condições. Uma vez cumprido o acordo, opera-se a extinção da punibilidade do agente. ➢ 5ª Turma do STJ, Inf. 761/22: O Acordo de Não Persecução Penal (ANPP), inserido pela Lei n. 13.924/2019, aplica-se retroativamente desde que não tenha havido o recebimento da denúncia. Nesse sentido, julgados também da 6ª Turma do STJ, da 1ª Turma do STF, bem como enunciado interpretativo nº 20 do Conselho Nacional dos Procuradores Gerais dos Ministérios Públicos dos Estados e da União sobre o Pacote Anticrime: “cabe acordo de não persecução penal para fatos ocorridos antes da vigência da Lei nº 13.964/2019, desde que não recebida a denúncia”. EM SENTIDO DIVERSO, Enunciado nº 17 da Defensoria Pública de Minas Gerais sobre o Pacote Anticrime: “o artigo 28-A do CPP é aplicável aos feitos em curso e em qualquer fase processual, visto que se trata de norma que também possui caráter penal e consiste em direito subjetivo do indivíduo”. Na mesma esteira, o Enunciado nº 2 da DPRJ: “Tendo em vista o preceituado no artigo 5º, inciso XL da CRFB/1988, bem como no artigo 2º, parágrafo único do Código Penal, e sendo o acordo de não persecução penal norma de natureza híbrida com conteúdo penal material benéfico, por ter como consequência de seu cumprimento integral a extinção da punibilidade, é cabível nos processos em andamento, mesmo após o recebimento da denúncia”. Também Enunciado 98 da 2ª Câmara Criminal do Ministério Público Federal admite a possibilidade de assinatura de acordo de não 19 persecução penal em ações que já estão em tramitação, ainda que em recurso, e desde que haja confissão. Na doutrina, Alexandre Morais da Rosa. No HC 199180, a 2ª Turma do STF concedeu a ordem para anular o trânsito em julgado da condenação, suspendereventual execução da pena e determinar o retorno dos autos ao Ministério Público para consideração do entendimento firmado pela Câmara de Coordenação e Revisão e a análise dos demais requisitos exigidos para a celebração do ANPP. No caso em análise, um homem foi condenado à pena de um ano e dois meses de reclusão, em regime inicial aberto. Após a sentença, ele requereu designação de audiência de proposta de acordo de não persecução penal, dentro do prazo estabelecido no artigo 28-A do CPP. O pedido foi deferido pela Câmara de Coordenação e Revisão do MPF, que condicionou a realização do acordo à ausência de trânsito em julgado da condenação. Durante o andamento, contudo, a sentença transitou em julgado, e a magistrada de origem, ao constatar o ocorrido, determinou o arquivamento do pedido. O STF, então, entendeu que o condenado apresentou o pedido de acordo dentro do prazo estabelecido no CPP e teve o direito reconhecido, mas a medida só não foi efetivada em razão da demora na prestação jurisdicional, de modo que, se o procurador tivesse oferecido o acordo quando solicitado pela defesa, não haveria ocorrido o trânsito em julgado da condenação. Nessa esteira, o Min. Edson Fachin, em decisão monocrática proferida no AG.REG. NO HABEAS CORPUS 217.275, j. 19.01.23, reconheceu a retroatividade do art. 28-A do CPP, apesar de já terem sido proferidos a sentença e o acórdão condenatórios, e mesmo a despeito de haver um título judicial transitado em julgado (sentença por homicídio culposo), uma vez que o feito ainda estava em curso quando a Lei 13.964/2019 entrou em vigor. Assim, concedeu a ordem de ofício a fim de oportunizar ao Ministério Público, em primeira instância, a propositura do Acordo de Não Persecução Penal, caso preenchidos os requisitos. A decisão foi confirmada em sede de agravo pela 2ª Turma do STF, acolhendo o entendimento de que o art. 28-A do CPP, que dispõe sobre o acordo de não persecução penal, é norma de conteúdo 20 processual-penal ou híbrido mais favorável ao réu, devendo ser aplicada de forma retroativa a atingir tanto investigações criminais quanto ações penais em curso até o trânsito em julgado: SEGUNDO AGRAVO REGIMENTAL EM HABEAS CORPUS. MATÉRIA CRIMINAL. SUPRESSÃO DE INSTÂNCIA. INOCORRÊNCIA. ACORDO DE NÃO PERSECUÇÃO PENAL. APLICAÇÃO DO ART. 28-A DO CPP. NORMA DE CONTEÚDO MISTO. RETROATIVIDADE DA LEI PENAL MAIS BENÉFICA. ART. 5º, XL, CF. ILEGALIDADE FLAGRANTE. CONCESSÃO DA ORDEM DE OFÍCIO. AGRAVO REGIMENTAL A QUE SE NEGA PROVIMENTO. 1. É descabida a alegação de supressão de instância quando o Superior Tribunal de Justiça se pronunciou de maneira expressa sobre a questão controvertida do habeas corpus impetrado nesta Corte. 2. A expressão “lei penal” contida no art. 5º, inciso XL, da Constituição Federal é de ser interpretada como gênero, de maneira a abranger tanto leis penais em sentido estrito quanto leis penais processuais que disciplinam o exercício da pretensão punitiva do Estado ou que interferem diretamente no status libertatis do indivíduo. 3. O art. 28-A do Código de Processo Penal, acrescido pela Lei 13.964/2019, é norma de conteúdo processual-penal ou híbrido, porque consiste em medida despenalizadora, que atinge a própria pretensão punitiva estatal. Conforme explicita a lei, o cumprimento integral do acordo importa extinção da punibilidade, sem caracterizar maus antecedentes ou reincidência. 4. Essa inovação legislativa, por ser norma penal de caráter mais favorável ao réu, nos termos do art. 5º, inciso XL, da Constituição Federal, deve ser aplicada de forma retroativa a atingir tanto investigações criminais quanto ações penais em curso até o trânsito em julgado. Precedentes do STF. 5. A incidência do art. 5º, inciso XL, da Constituição Federal, como norma constitucional de eficácia plena e aplicabilidade imediata, não está condicionada à atuação do legislador ordinário. 6. A indevida negativa de aplicação retroativa do art. 28-A do CPP configura hipótese de concessão da ordem de habeas corpus de ofício. 7. Agravo regimental desprovido. 21 (2ª Turma do STF, AgRg no AgRg no HC 217.275/SP, DJe 10/04/2023) No mesmo sentido: 2ª Turma do STF, AgRg no AgRg no HC 206.660/SC, DJe 06/03/2023: O acordo de não persecução penal é aplicável também aos processos iniciados em data anterior à vigência da Lei 13.964/2019, desde que ainda não transitados em julgado e mesmo que ausente a confissão do réu até o momento de sua proposição. 2ª Turma do STF, RHC 213118 AgR, DJ 07/07/2023: O art. 28-A do CPP é norma de natureza híbrida, ou mista, porque, embora discipline instituto processual, repercute na pretensão punitiva (de natureza material), devendo retroagir, ante o princípio da retroatividade da norma penal benéfica (CRFB, art. 5º, inc. XL). 2. O conteúdo processual da norma (e do instituto) obriga observar como marco temporal o momento processual do ANPP, e não o tempus delicti. 3. A retroatividade alcança processos em curso, tendo como limite o trânsito em julgado, pois, após esse momento, encerra-se a persecução penal e inicia-se a persecução executória. 4. O recebimento da denúncia e a existência de sentença condenatória não impedem a propositura do acordo. 5. No ANPP, a confissão não se destina à formação da culpa, podendo, então, haver retroação da norma a acusados não confessos, ainda que condenados, desde que o façam posteriormente, nos termos da lei. 6. O julgamento definitivo do Habeas Corpus nº 185.913/DF pelo Plenário, certamente, contribuiria para a segurança jurídica e a pacificação social sobre o tema. No entanto, após as idas e vindas concernentes à sua pauta, a análise da matéria tornou-se imperativa, sob pena de negar-se jurisdição, especialmente diante de recentes pronunciamentos de Ministros da Segunda Turma. 2ª Turma do STF, HC 228425 AgR, DJ 02/08/2023: A Segunda Turma desta Suprema Corte firmou o entendimento no sentido de que o art. 28-A retroage às ações que estavam em curso quando a Lei n. 13.964/2019 entrou em vigor, ainda que recebida a denúncia ou prolatada a sentença penal condenatória. No caso 22 concreto, apesar de os fatos serem anteriores à alteração legislativa, o feito ainda aguardava a prolação da sentença condenatória quando a Lei 13.964/2019 entrou em vigor, de modo que é imperativo é a concessão da ordem, a fim de reconhecer o efeito retroativo do art. 28-A do CPP e possibilitar ao Ministério Público a propositura do ANPP, se atendidos os requisitos legais. Outrossim, há precedentes da lavra do Ministro Ricardo Lewandowski, em que, baseado no entendimento firmado no HC 180.421/SP quanto à retroação da Lei 13.964/2019 em relação ao art. 171, § 5º, do CP, concedeu a ordem para determinar a remessa dos autos a órgão superior do Ministério Público, a fim de verificar a possibilidade de celebração do ANPP, entendendo que o acordo de não persecução penal é aplicável também aos processos iniciados em data anterior à vigência da Lei 13.964/2019, desde que ainda não transitados em julgados e mesmo que ausente a confissão do réu até o momento de sua proposição: HC 221.969, DJe 07.11.2022; HC 221.756, DJe 28.10.2022; HC 214.408, DJe 05.10.2022; DJe 221.878, DJe 09.11.2022; HC 213.966 no AgRg, DJe 05.10.2022; HC 218.725, DJe 06.10.2022. Quanto ao tema, a 3ª Seção do STJ afetou o REsp 1890343 / SC ao rito dos recursos repetitivos, com a delimitação da seguinte controvérsia: "(im)possibilidade de acordo de não persecução penal posteriormente ao recebimento da denúncia". Pleno do STF, HC 185913, pendente de julgamento: a) O ANPP pode ser oferecido em processos já em curso quando do surgimento da Lei 13.964/19? Qual é a natureza da norma inserida no art. 28-A do CPP? É possível a sua aplicação retroativa em benefício do imputado? b) É potencialmente cabível o oferecimento do ANPP mesmo em casos nos quais o imputado não tenha confessado anteriormente, durante a investigação ou o processo? Observação: dentre as teses propostas no HC 185.913, destaca-se ea retroatividadedo ANPP até o trânsito em julgado de sentença condenatória, “desde que requerida na primeira intervenção procedimental das partes após a vigência da Lei 13964/19 [23/01/2020]”; a necessidade de motivação concreta para a negativa de 23 oferecimento do ANPP, em especial quanto às circunstâncias que tornam insuficientes à reprovação e prevenção do crime; a invalidade da exigência de prévia confissão durante a investigação criminal para a celebração do acordo; e a impossibilidade de utilização da confissão como elemento de prova em ação penal, em caso de revogação do acordo. Decisão de julgamento: Após os votos dos Ministros Gilmar Mendes (Relator), Edson Fachin e Dias Toffoli, que concediam a ordem, de ofício, nos termos do art. 654, § 2º, do CPP, para o fim de determinar a análise do cabimento do ANPP pelo Juízo de origem, e propunham a fixação da seguinte tese: "[a] O Acordo de Não Persecução Penal é norma de natureza híbrida [material-processual], diante da consequente extinção da punibilidade, com incidência imediata em todos os casos sem trânsito em julgado da sentença condenatória, desde que requerida na primeira intervenção procedimental das partes após a vigência da Lei 13964/19 [23/01/2020], em observância à boa-fé objetiva e à autovinculação das partes aos comportamentos assumidos [comissivos ou omissivos]; [b] O arguido não tem o direito subjetivo ao Acordo de Não Persecução Penal, mas sim o direito subjetivo à devida motivação e fundamentação quanto à negativa. A recusa ao Acordo de Não Persecução Penal deve ser motivada concretamente, com a indicação tangível dos requisitos objetivos e subjetivos ausentes [ônus argumentativo do legitimado ativo da ação penal], especialmente as circunstâncias que tornam insuficientes à reprovação e prevenção do crime; [c] É inválida a exigência de prévia confissão durante a Etapa de Investigação Criminal, porque dado o caráter negocial do Acordo de Não Persecução Penal, a confissão é circunstancial, relacionada à manifestação da autonomia privada para fins negociais, em que os cenários, os custos e benefícios são analisados, vedado, no caso de revogação do acordo, o reaproveitamento da confissão circunstancial [adhoc] como prova desfavorável durante a Etapa do Procedimento Judicial; e, [d] O Órgão Judicial exerce controle quanto ao objeto e termos do acordo, mediante a verificação do preenchimento dos pressupostos de existência, dos requisitos de validade e das condições da eficácia, podendo decotar ou negar, de modo motivado e fundamentado, a respectiva 24 homologação [CPP, art. 28-A, §§ 7º, 8º e 14]", pediu vista dos autos o Ministro Alexandre de Moraes. Falaram: pelo amicus curiae Defensoria Pública da União, o Gustavo de Almeida Ribeiro, Defensor Público Federal; e, pelo amicus curiae Ministério Público do Estado do Rio Grande do Sul, o Dr. Fabiano Dallazen, Procurador de Justiça do Estado. (STF, HC 185.913/DF, Rel. Min. GILMAR MENDES, PLENÁRIO, Sessão virtual de 15/09 a 22/09/2023, grifos nossos) ➢ As condições podem ser pactuadas de forma cumulativa ou alternativa (motivação). * Atenção: a prestação de serviço à comunidade ou a entidades públicas não pode exceder o período correspondente à pena mínima cominada ao delito diminuída de um a dois terços. Obs.: o art. 46 do CP só admite prestação de serviços se for por períodos superiores a 6 meses. Inciso II: instrumentos, produto ou proveito. Não abrange bens lícitos de valor equivalente ao produto ou proveito da infração. Enunciado 18 DP/MG: O prazo determinado para a condição do inciso V, do artigo 28-A, do CPP, não pode ser superior àquele previsto no artigo 28-A, III, do CPP, ou seja, àquele correspondente à pena mínima cominada ao delito, diminuída de um a dois terços, já que uma condição genérica não pode perdurar por tempo superior a obrigação de natureza penal. ➢ Enunciado nº 8 da DPRJ: Procurado o(a) Defensor(a) Público(a) para acompanhar o interessado em celebrar acordo de não persecução penal, será oficiado o órgão do Ministério Público emissor da notificação, postulando cópia da proposta e da íntegra do procedimento investigatório, a fim de possibilitar a orientação do investigado, bem como com base na prerrogativa funcional de vista dos autos (artigo 128, I, da LC 80/94). ➢ Infrações penais com pena mínima inferior a 4 anos. Nos termos do § 1º do art. 28-A, para aferição da pena mínima cominada, serão consideradas as causas de aumento e diminuição aplicáveis ao caso concreto (majorantes e minorantes). 25 * Atenção: tráfico privilegiado (não é equiparado a hediondo!) Posição 1) a pena mínima cominada ao crime de tráfico de drogas, previsto no art. 33 da Lei 11.343/06, é de 5 anos de reclusão. Contudo, no caso de incidência do privilégio do art. 33, § 4º, da Lei 11.343/06, a pena mínima passa a ser de 1 ano e 8 meses de reclusão, de forma a admitir o ANPP. Importante destacar que o ônus da prova no processo penal pertence ao Ministério Público, o que decorre da garantia constitucional de não-culpabilidade, insculpida no art. 5º, LVII, da CF. Assim, é possível sustentar que o acusado possui o direito subjetivo ao privilégio do art. 33, § 4º, da Lei 11.343/06, sendo a presunção no sentido do seu cabimento, salvo se o MP produzir prova em sentido contrário. Nesse sentido, Inf. 958/19 do STF. Posição 2) STJ: para serem consideradas as causas de aumento e diminuição, para aplicação do ANPP, essas devem estar descritas na denúncia. IMPORTANTE: no HC 194.677, a 2ª Turma do STF reconheceu que, se o MP posicionou-se favoravelmente à aplicação do redutor de tráfico privilegiado em sede de alegações finais, altera-se o quadro fático, tornando-se potencialmente cabível o ANPP. Enunciado nº 13 da DPRJ: “Tendo em vista a similitude do acordo de não persecução penal com os institutos da transação penal e suspensão condicional do processo, bem como o pacífico entendimento jurisprudencial nos Tribunais Superiores, EM CASO DE DESCLASSIFICAÇÃO DA CONDUTA OU PROCEDÊNCIA PARCIAL DA PRETENSÃO PUNITIVA, QUE ENSEJE POSTERIOR ENQUADRAMENTO AO ACORDO DE NÃO PERSECUÇÃO PENAL, DEVE A DEFESA TÉCNICA PERSEGUIR A OPORTUNIZAÇÃO DO ACORDO, se em concreto for mais benéfico ao réu”. Art. 383, § 1º, do CPP (emendatio libelli): Se, em consequência de definição jurídica diversa, houver possibilidade de proposta de suspensão condicional do processo, o juiz procederá de acordo com o disposto na lei. Art. 384, § 3º, do CPP 26 (mutatio libelli): Aplicam-se as disposições dos §§ 1º e 2º do art. 383 ao caput deste artigo. Súmula 337 do STJ: é cabível a suspensão condicional do processo na desclassificação do crime e na procedência parcial da pretensão punitiva. Assim, p. ex., mesmo nos casos em que o MP não tenha descrito a minorante do tráfico privilegiado já na denúncia, é fato que o OVERCHARGING (excesso de acusação) NÃO pode prejudicar o réu, a quem deve ser assegurado o direito à possibilidade do ANPP, com a remessa dos autos ao MP para manifestação nos casos em que ocorre a alteração do enquadramento jurídico ou a desclassificação do delito, seja por meio de emendatio libelli ou de mutatio libelli. Na esteira do julgado acima do STF, o STJ também vem encampando tal entendimento: 5ª Turma do STJ, Inf. 772/23, AgRg no REsp 2.016.905/SP: Nos casos em que houver a modificação do quadro fático-jurídico, e, ainda, em situações em que houver a desclassificação do delito - seja por emendatio ou mutatio libelli -, uma vez preenchidos os requisitos legais exigidos para o Acordo de Não Persecução Penal, torna-se cabível o instituto negocial. INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR No caso, houve uma relevante alteração do quadro fático-jurídico, tornando-se potencialmente cabível o instituto negocial do Acordo de Não Persecução Penal - ANPP. Afinal, o Tribunal a quo, ao julgar o recurso de apelação interposto pela defesa, deu-lhe parcial provimento, a fim de reconhecer a continuidade delitiva entre os crimes de falsidade ideológica (CP,art. 299), tornando, assim, objetivamente viável a realização do referido acordo, em razão do novo patamar de apenamento - pena mínima cominada inferior a 4 (quatro) anos. Trata-se, mutatis mutandis, de raciocínio similar àquele constante da Súmula n. 337 desta Corte Superior, a saber: "É cabível a suspensão condicional do processo na desclassificação do crime e na procedência parcial da pretensão punitiva". De fato, ao longo da ação penal até a prolação da sentença condenatória, o ANPP não era cabível, seja porque a Lei n. 13.964/2019 (Pacote Anticrime) entrou em vigor em 23/1/2020, após o oferecimento da denúncia (26/4/2019), seja porque o crime imputado - falsidade ideológica, por sete vezes, em 27 concurso material - não tornava viável o referido acordo, tendo em vista que a pena mínima cominada era superior a 4 (quatro) anos, em razão do concurso material de crimes. Ocorre que o Tribunal de origem, já na vigência da Lei n. 13.964/2019, deu parcial provimento ao recurso de apelação interposto pela defesa para reconhecer a continuidade delitiva entre os crimes de falsidade ideológica, afastando, assim, o concurso material. Essa modificação do quadro fático-jurídico não somente resultou numa considerável redução da pena, mas também tornou objetivamente cabível a formulação de acordo de não persecução penal, ao menos sob o aspecto referente ao requisito da pena mínima cominada ser inferior a 4 (quatro) anos, conforme previsto no art. 28-A do CPP. Assim, nos casos em que houver a modificação do quadro fático-jurídico, como no caso em questão, e ainda em situações em que houver a desclassificação do delito - seja por emendatio ou mutatio libelli -, uma vez preenchidos os requisitos legais exigidos para o ANPP, torna-se cabível o instituto negocial. Cabe salientar, ainda, que, no caso, não se faz necessária a discussão acerca da questão da retroatividade do ANPP, mas, sim, unicamente a circunstância de que a alteração do quadro fático-jurídico tornou potencialmente cabível o instituto negocial, de maneira que o entendimento externado na presente decisão não entra em confronto com a jurisprudência desta Corte Superior. O entendimento foi novamente corroborado na Edição especial nº 13/23 do Inf. do STJ, 5ª Turma: Tema Tráfico de drogas. Art. 33, § 4º, da Lei n. 11.343/2006. Princípio in dubio pro reo. Dedicação criminosa. Interpretação restritiva. Requisitos do tráfico privilegiado. Ocorrência. Possibilidade de acordo de não persecução penal. Descrição dos fatos na denúncia. Desnecessidade. Excesso de acusação (overcharging) que não deve prejudicar o acusado. Requisitos para a possibilidade de ANPP atendidos. DESTAQUE: Reconhecida a aplicação da minorante do tráfico privilegiado, com patamares abstratos de pena dentro do limite de 4 anos para a pena mínima, o acusado tem direito à possibilidade do acordo de não persecução penal, mesmo se o 28 Parquet tiver descrito os fatos na denúncia de maneira imperfeita, pois o excesso de acusação (overcharging) não deve prejudicar o acusado. INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR O acordo de não persecução penal é um ajuste pré-processual celebrado entre o órgão acusador e o autor do delito se atendidos os requisitos previstos, expressamente, no Código de Processo Penal: 1) confissão formal e circunstanciada; 2) infração penal sem violência ou grave ameaça e com pena mínima inferior a 4 (quatro) anos; e 3) necessidade e suficiência para reprovação e prevenção do crime. Trata-se de instituto resultante de acordo de vontades entre o Ministério Público e o acusado com vistas a dar solução negociada a processos cuja origem sejam crimes de menor gravidade. Porém, não se trata de direito subjetivo do acusado, devendo existir, além da confluência dos requisitos exigidos pela lei, o interesse do órgão acusador em propor o acordo. No julgamento do AgRg no REsp 2.016.905/SP, a Quinta Turma do STJ estabeleceu que, nos casos em que ocorre a alteração do enquadramento jurídico ou da desclassificação do delito, seja por meio de emendatio libelli ou de mutatio libelli, é possível aplicar o ANPP, desde que preenchidos os requisitos legais exigidos para esse instituto negocial. Esse precedente reconheceu a aplicação adaptada da Súmula 337/STJ, que prevê ser cabível a suspensão condicional do processo na desclassificação do crime e procedência parcial da pretensão punitiva. Portanto, se houver a desclassificação da imputação para outra infração que admite benefícios despenalizadores do art. 89, caput, da Lei n. 9.099/1995, os autos do processo devem retornar à instância de origem para aplicação desses institutos. A situação em análise segue o mesmo raciocínio, uma vez que foi constatado um equívoco na descrição dos fatos narrados para a imputação do art. 33, caput, da Lei n. 11.343/2006 (tráfico de drogas) ao acusado. Isto posto, é necessário que o processo retorne à sua origem para avaliar a possibilidade de propositura do ANPP, independentemente das consequências jurídicas da aplicação da minorante do art. 33, § 4º, da Lei n. 11.343/2006 (tráfico privilegiado) na dosimetria da pena, ou seja, para reduzir a pena. Sob outra perspectiva, a jurisprudência consolidada da Quinta Turma desta Corte, em relação ao § 1º do art. 28-A do CPP, firmada no julgamento dos EDcl no AgRg no AgRg no AREsp 1.635.787/SP, estabeleceu que, ao avaliar a pena mínima do crime, devem ser consideradas as causas de aumento e 29 diminuição previstas, as quais devem estar descritas na denúncia, não sendo possível levar em conta a pena mínima calculada após a aplicação da causa de diminuição, que só é reconhecida no momento da prolação da sentença condenatória. Entretanto, após reflexão profunda sobre o tema, penso que o acusado teria o direito de ter a proposta do ANPP independentemente de as descrições dos fatos na denúncia coincidirem com a imputação do crime de tráfico privilegiado. Caso fosse imposta essa exigência, estaríamos praticamente inviabilizando a aplicação desse instituto nos casos de tráfico de drogas. Reconhecida a aplicação da minorante do tráfico privilegiado, os patamares abstratos de pena estabelecidos na lei situam-se dentro do limite de 4 anos para a pena mínima, previsto no art. 28-A do CPP. Além disso, com a aplicação da minorante neste STJ, o acusado tem direito ao ANPP, mesmo se o Parquet tiver descrito os fatos na denúncia de maneira imperfeita, pois o excesso de acusação (overcharging) não deve prejudicar o acusado. É essencial garantir que o acusado possa usufruir do ANPP, independentemente das descrições exatas dos fatos na denúncia. Afinal, a finalidade desse instituto é oferecer uma alternativa para a resolução de casos penais, proporcionando uma solução negociada. Por fim, enfatiza-se que não se está reconhecendo um direito subjetivo do réu à proposta do acordo de não persecução penal, mas, sim, realizando uma interpretação adequada do art. 28-A do CPP. Essa é uma condição jurídica inerente ao próprio ANPP quando presentes os requisitos para sua proposição, que deve ser devidamente considerada. 5ª Turma do STJ, Inf. 789/23: A ausência de confissão formal e circunstanciada no curso da ação penal não impede a remessa dos autos ao Parquet para avaliar a possibilidade de propositura do acordo de não persecução penal, uma vez que essa confissão pode ser formalizada perante o Ministério Público, no ato de assinatura do acordo. INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR O acordo de não persecução penal, previsto no art. 28-A do CPP, tem lugar "Não sendo caso de arquivamento e tendo o investigado confessado formal e circunstancialmente a prática de infração penal sem violência ou grave ameaça e com pena mínima inferior a 4 30 (quatro) anos, o Ministério Público poderá propor acordo de não persecução penal, desde que necessário e suficiente para reprovação e prevenção do crime". Sobre o tema, a Quinta Turma do STJ, no julgamento do AgRg no REsp 2.016.905/SP, Rel. Ministro Messod Azulay Neto, estabeleceu que, em casos de alteração do enquadramento jurídico ou desclassificaçãodo delito, é possível aplicar o ANPP, desde que preenchidos os requisitos legais. Esse precedente reconheceu incidir, extensivamente, às hipóteses de ANPP, o Enunciado n. 337 da Súmula do STJ, que prevê ser cabível a suspensão condicional do processo na desclassificação do crime e procedência parcial da pretensão punitiva, devendo os autos do processo retornarem à instância de origem para aplicação desses institutos. Oportuno lembrar, também, que no julgamento do REsp 1.972.098/SC, Rel. Ministro Ribeiro Dantas, a Quinta Turma decidiu que "o réu fará jus à atenuante do art. 65, III, 'd', do CP quando houver admitido a autoria do crime perante a autoridade, independentemente de a confissão ser utilizada pelo juiz como um dos fundamentos da sentença condenatória, e mesmo que seja ela parcial, qualificada, extrajudicial ou retratada", o que sobrelevou e desburocratizou o reconhecimento e a importância da confissão para o deslinde do processo penal. No caso, o Tribunal de origem asseverou que o óbice ao encaminhamento dos autos ao Ministério Público para que se manifestasse sobre a proposição do ANPP seria a ausência de confissão formal e circunstanciada, haja vista o exercício, pelo denunciado, no curso da ação penal, do direito ao silêncio. Contudo, é de se destacar que, ao tempo da opção pela não autoincriminação, não estava no horizonte do acusado a possibilidade de entabulação do acordo de não persecução penal, uma vez que a denúncia não postulou o reconhecimento da minorante do tráfico de drogas, o que só se tornou possível com a prolação da sentença penal condenatória que aplicou em seu favor a causa de diminuição de pena prevista no §4º do art. 33 da Lei n. 11.343/2006. O direito à não autoincriminação, vocalizado pelo brocardo latino nemo tenetur se detegere, não pode ser interpretado em desfavor do réu, nos termos do que veicula a norma contida no inciso LXIII do art. 5º da Constituição da República e no parágrafo único do art. 186 do Código de Processo Penal. Assim, a invocação do direito ao silêncio durante a persecução penal não pode impedir a incidência posterior do ANPP, caso a superveniência de sentença condenatória autorize objetiva e subjetivamente sua 31 proposição. Lado outro, sequer a negativa de autoria é capaz de impedir a incidência do mencionado instituto despenalizador, não se podendo olvidar, como afirmado em doutrina, que o acordo de não persecução penal é medida de natureza negocial, cuja prerrogativa para o oferecimento é do Ministério Público, cabendo ao Judiciário a homologação ou não dos termos ali contidos. Deve-se, por conseguinte, diferenciar a postura legítima do réu que nega envolvimento com crime apurado em ação penal com a posição de parte do ANPP, certamente muito mais favorável do que aquela que lhe valeria o cumprimento de pena privativa de liberdade nos estabelecimentos penais à disposição nesse país, devendo lhe ser permitida a confissão, tal qual àquele que nega a conduta no interrogatório policial e, em juízo, a confessa, contradição que não impossibilita o reconhecimento da atenuante em seu favor. A dúvida remanescente residiria sobre o momento a formalização da confissão para fins do ANPP diferido, ao que se responde prontamente: no ato da assinatura do acordo. O Código de Processo Penal, em seu art. 28-A, não determinou quando a confissão deve ser colhida, apenas que ela deve ser formal e circunstanciada. Isso pode ser providenciado pelo próprio órgão ministerial, se decidir propor o acordo, devendo o beneficiário, no momento de firmá-lo, se assim o quiser, confessar formal e circunstanciadamente, perante o Parquet, o cometimento do crime. ASSIM: i. reconhecendo o MP a aplicabilidade do privilégio em sede de alegações finais, é possível suscitar a remessa dos autos para manifestação sobre o ANPP em sede de preliminar, cabendo o requerimento de remessa ao PGJ para reexame em caso de recusa; ii. ainda que o MP não reconheça o tráfico privilegiado, a Defesa, em sede de alegações finais, ao pleitear a aplicação do privilégio, deve pugnar pela consequente oportunização do ANPP. Logo, 1) se o Juízo admitir a incidência do tráfico privilegiado, deve determinar a abertura de vista ao MP para se pronunciar sobre o ANPP. Se o MP discordar do reconhecimento do tráfico privilegiado, cabe apelação (art. 593, II, do CPP - decisão interlocutória mista não terminativa, não atacável por RESE porque o art. 581, II, se refere às decisões que que concluem pela incompetência do juízo). Se o MP concordar com a decisão, mas recusar o oferecimento de proposta de 32 ANPP, cabe requerimento de remessa dos autos ao órgão superior do MP para reexame da recusa (art. 24-A, § 14, CPP). 2) Por sua vez, se o Juízo proferir sentença condenatória pelo tráfico privilegiado sem se manifestar sobre o ANPP, cabem embargos de declaração para sanar a omissão, sem prejuízo do cabimento de apelação suscitando a nulidade da sentença por violação ao entendimento cristalizado na Súmula 337 do STJ e aplicável analogicamente ao caso. ➢ Discute-se se, nas hipóteses de infrações penais cometidas em concurso material, concurso formal ou continuidade delitiva, será aplicado o raciocínio das Súmulas 723 do STF e 243 do STJ em relação à suspensão condicional do processo, ou o tratamento dispensado à transação penal no art. 60, parágrafo único, da Lei 9.099/95. ➢ O ANPP exige a presença de justa causa para o oferecimento da acusação, não sendo caso de arquivamento. ➢ Infrações penais penais praticadas sem violência ou grave ameaça. * Atenção: Enunciado interpretativo nº 23 do Conselho Nacional dos Procuradores Gerais dos Ministérios Públicos dos Estados e da União acerca do pacote anticrime: “é cabível o acordo de não persecução penal nos crimes culposos com resultado violento, uma vez que nos delitos desta natureza a conduta consiste na violação de um dever de cuidado objetivo por negligência, imperícia ou imprudência, cujo resultado é involuntário, não desejado e nem aceito pela agente, apesar de previsível”. ➢ Confissão formal e circunstancial do imputado: Enunciado nº 5 da DPRJ: “A ausência de confissão, apesar da duvidosa constitucionalidade de sua exigência, em sede policial, não impede a celebração do acordo de não persecução penal”. No mesmo sentido, Enunciado 3 da I Jornada de Direito e Processo Penal do CJF: “A inexistência de confissão do investigado antes da formação da opinio delicti do Ministério Público não pode ser interpretada como desinteresse em entabular eventual acordo de não persecução penal”. Nesse sentido, 6ª Turma do STJ, HC 657.165, j. 09.08.22: 33 HABEAS CORPUS. TRÁFICO DE DROGAS. ACORDO DE NÃO PERSECUÇÃO PENAL. PODER-DEVER DO MINISTÉRIO PÚBLICO. AUSÊNCIA DE CONFISSÃO NO INQUÉRITO POLICIAL. NÃO IMPEDIMENTO. REMESSA DOS AUTOS À PROCURADORIA-GERAL DE JUSTIÇA. INTELIGÊNCIA DO ART. 28-A, § 14, DO CPP. NECESSIDADE. ORDEM CONCEDIDA. 1. O acordo de não persecução penal, de modo semelhante ao que ocorre com a transação penal ou com a suspensão condicional do processo, introduziu, no sistema processual, mais uma forma de justiça penal negociada. Se, por um lado, não se trata de direito subjetivo do réu, por outro, também não é mera faculdade a ser exercida ao alvedrio do Parquet. O ANPP é um poder-dever do Ministério Público, negócio jurídico pré-processual entre o órgão (consoante sua discricionariedade regrada) e o averiguado, com o fim de evitar a judicialização criminal, e que culmina na assunção de obrigações por ajuste voluntário entre os envolvidos. Como poder-dever, portanto, observa o princípio da supremacia do interesse-público – consistente na criação de mais um instituto despenalizador em prol da otimização do sistema de justiça criminal – e não pode ser renunciado, tampouco deixar de ser exercido sem fundamentação idônea, pautada pelas balizas legais estabelecidas no art. 28-A do CPP. 2. A ausência de confissão, como requisito objetivo, ao menos em tese, pode ser aferida pelo Juiz de direito para negar a remessa dos autos à