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1 SUMÁRIO UNIDADE 1 - INTRODUÇÃO 2 UNIDADE 2 - RECORTES DA HISTORIOGRAFIA 5 UNIDADE 3 - CONCEITOS DE POLÍTICA 7 UNIDADE 4 - CONCEITOS QUE PERMEIAM A POLÍTICA 17 4.1 Discurso 18 4.2 Poder 21 4.3 Ideologia 23 4.4 Partidos 27 4.5 Movimentos sociais 32 Conflitos 35 UNIDADE 5 - HISTÓRIA POLÍTICA 37 5.1 Os primórdios da Historiografia Política 37 5.2 Metodologias e fontes 39 Os primeiros passos da Escola dos Annales rumo à Nova História Política40 5.4 Orientações inovadoras da Nova História Política 42 UNIDADE 6 - A HISTÓRIA POLÍTICA NO BRASIL 44 6.1 José Murilo de Carvalho 45 6.2 Luiz Carlos Bresser Pereira 48 6.3 Cultura política e poder na Nova História Política no Brasil 49 6.4 O historiador do imaginário 51 REFERÊNCIAS 532 UNIDADE 1 - INTRODUÇÃO homem e seus feitos ao longo de sua existência, seja no tempo e no espaço, compõem objeto e objetivo da História, e os historiadores costumam dividir a história em alguns períodos, algo bem didático: Pré-história, História Antiga, Medieval, Moderna e Se tomarmos ao pé da letra, já teríamos passado dessa contemporaneidade e talvez estivéssemos além da pós- modernidade, num movimento de reconstrução, mas não são essas divisões e discussões que nos interessam no momento. Podemos também fazer recortes, o que em Historiografia significa trabalhar com um tema ou período histórico específico. Como exemplo, podemos citar a Historiografia do período colonial mineiro e mais especificamente, a vida cotidiana dos escravos, tendo ainda outro recorte: os que viveram nas lavras de ouro e diamante das Minas Gerais. Ainda falando de "Historiografia" de maneira geral, este vocábulo é usado para falar do conjunto de historiadores de uma nação, em dado período histórico e utilizando metodologias próprias. O modo como a História é contada e por quem é contada nos ajuda a refletir, analisar e ver de vários ângulos os acontecimentos que foram se sucedendo. Neste módulo, temos como objetivo apresentar, discutir, analisar e refletir sobre a História Política, o que requer apreciar alguns conceitos básicos como poder, política, discurso, Ideologia, movimentos sociais, entre outros, que formam uma teia, um encadeamento que se tornará lógico ao final da construção. De imediato, podemos falar em História Política Clássica ou Tradicional e Nova História Política. A primeira definição ao privilegiar a narração das grandes ações humanas, os historiadores acabaram por eleger o Estado como o foco mais importante. A denominada História Política Tradicional, ao longo de seu processo de construção, foi demarcando temas, objetos e métodos, mas sempre tendo como alicerce a visão centralizada e institucionalizada do poder. A narrativa histórica revelava os eventos, as rupturas e os períodos das formas de poder dos soberanos (OLIVEIRA, 2007). Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados - sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas.3 Segundo Hobsbawm (1990), a definição de ciência histórica no século XIX, junto com a afirmação das nações e da nova ordem burguesa, corroborou ainda mais para a hegemonia do político nos estudos da História. A História Política do século XIX teve como objeto de estudo, basicamente, os fenômenos referentes aos Estados, dirigidos por seus líderes. As preocupações dessa História Política Metódica foram os estudos das grandes personalidades como presidentes, reis, heróis nacionais, generais, eclesiásticos, dirigentes partidários, ilustrados as descrições dos episódios heroicos - tais como as batalhas, as crises e as revoluções e as menções sobre elite social e instituições estatais. Poder significava a formação, a distribuição e o seu exercício a partir e por intermédio do Estado, tanto no âmbito nacional quanto no internacional (RÉMOND, 1994). Em 1929, com a criação da Escola dos Annales, sob a direção de Marc Bloch e Lucien Febvre, a própria concepção de História com a hegemonia do político "vista de cima" começou a sofrer ataques e a produção historiográfica foi se transformando. Saíram em defesa de novos paradigmas para a interpretação da História e foram, paulatinamente, formulando uma nova percepção de História, pela qual o econômico e o social ocupavam o lugar principal. Seus pressupostos enfatizavam a longa duração como mais importante do que os movimentos de ruptura ou de curta duração. Privilegiaram a continuidade, as entidades coletivas, os fenômenos sociais e suas relações com o econômico e o mental, o mundo do trabalho, da produção e as relações sociais daí resultantes; enfim, a análise das estruturas "vista de baixo", a opinião das pessoas comuns e o interesse por toda a atividade humana a História Total (REIS, 2000) passa a revelar a Nova História Política. Por trás da História Política de qualquer história política, das antigas às novas possibilidades - está uma palavra apenas, ou um aspecto, que ocupa o papel de centro de gravidade de todos os fazeres e abordagens históricas que se abrigam sobre esta categoria: poder! A palavra "poder" rege os caminhos internos da História Política da mesma maneira que a palavra "cultura" rege os caminhos internos da História Cultural, ou Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados - sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas.4 que a palavra "imagem" erige-se como horizonte fundamental para a História do Imaginário (BARROS, 2009). Pois bem, veremos então, ao longo do módulo, um pouco dos recortes da Historiografia, os conceitos já citados anteriormente e detalhes da História Política e alguns historiadores brasileiros que fazem parte dessa modalidade. Ressaltamos em primeiro lugar que embora a escrita acadêmica tenha como premissa ser científica, baseada em normas e padrões da academia, fugiremos um pouco às regras para nos aproximarmos de vocês e para que os temas abordados cheguem de maneira clara e objetiva, mas não menos científicos. Em segundo lugar, deixamos claro que este módulo é uma compilação das ideias de vários autores, incluindo aqueles que consideramos clássicos, não se tratando, portanto, de uma redação original e tendo em vista o caráter didático da obra, não serão expressas opiniões pessoais. Ao final do módulo, além da lista de referências básicas, encontram-se muitas outras que foram ora utilizadas, ora somente consultadas e que podem servir para sanar lacunas que por ventura surgirem ao longo dos estudos. Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados - sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas.5 UNIDADE 2 - RECORTES DA HISTORIOGRAFIA Para nos situarmos em relação ao que oferece a História Política, vamos relembrar rapidamente que a Historiografia Metódica ou Positivista instituiu a verdade histórica, ou seja, a tarefa do historiador significava, segundo Leopold von Ranke (1795-1886 apud OLIVEIRA, 2007), um comprometimento em escrever a História "como ela essencialmente foi" (wie es eigentlich gewesen ist) ou "o saber sobre ela [História] é ela própria". De maneira geral, Historiografia equivale a qualquer parte da produção historiográfica, ou seja: ao conjunto dos escritos dos historiadores acerca de um tema ou período histórico específico. Quando falamos em "recorte", estamos querendo dizer exatamente uma parte de uma produção sobre um determinado assunto e estes recortes podem ser temporais, espaciais, metodológicos, temáticos. Vejamos: O recorte temporal se justifica utilizando o tempo histórico, ou seja, aquelas periodizações clássicas que citamos na introdução. É um recorte que mostra a visão eurocentrista da história como se a história só acontecesse naquele continente, tendo como personalidades e fatos importantes somente os seus. Há certa dificuldade em fazer recorte temporal, exigindo muito conhecimento sobre o tema a ser pesquisado, pois apenas assim detectamos questões e períodos menos estudados nos quais residem as principais dúvidas e "contradições" da Historiografia. A disponibilidade de fontes também é um elemento que incide sobre a delimitação do recorte. Temas e períodos marcados por menor disponibilidade de fontes geralmente resultam em recortes temporais mais amplos para que seja possível apreender as rupturas e permanências que nós historiadores sempre buscamos. Raramente encontramos, por exemplo, um estudo sobre a "Antiguidade" ou sobre a "Idade Média" restrito a dois ou três anos. Ou seja, a delimitação do recorte temporal depende da formulação de um problema a ser investigado e da existência de condições que viabilizem o desenvolvimento do trabalho (SILVA, 2013). O recorte espacial diz respeito, por exemplo, à História Continental, História Nacional, Regional ou mesmo História Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados - sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas.6 Em se tratando de História Continental, exemplo dos mais comuns seria a História do Brasil, ou História dos Países Quanto ao recorte metodológico, um bom exemplo seria o período pré- histórico, no qual encontramos uma diferença radical entre fontes e métodos. Essas diferenças entre fonte escrita e não escrita, no caso da pré-história, a falta de fontes escritas, faz com que seja uma ciência muito distante daquela feita pelos historiadores, sobretudo quando tais fontes e métodos se prolongam, dando primazia à utilização das fontes arqueológicas e ao estudo da cultura material em períodos para os quais já existam fontes escritas, falando-se então não da Pré- história, mas sim propriamente da Arqueologia com as suas próprias periodizações (Arqueologia Clássica, Arqueologia Medieval e mesmo Arqueologia Industrial). Uma diferença menor pode ser encontrada com o uso de fontes orais, no que é chamado de História Oral. Por fim, no recorte temático, a Historiografia parte dos acontecimentos, dando lugar a uma História Setorial. Por exemplo: a História dos sistemas políticos visa reduzir a história à categorização de instituições, como História do Direito, História Militar; a História Econômica, algumas vezes germinada com a História Social ou de movimentos operários; a História da Igreja buscando conhecer detalhes do cristianismo, judaísmo, protestantismo e outras religiões. Podemos ainda falar em História da Arte; História das Ideias; História das Doutrinas Econômicas, História da Guerra Civil Espanhola; História da Revolução Francesa; enfim, uma gama de variantes. Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados - sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas.7 UNIDADE 3 - CONCEITOS DE POLÍTICA Concordamos com Barros (2009), ao afirmar que Política e Poder, é quase um truísmo dizer, são indissociáveis. Por outro lado, tanto a Política, campo de expressão por excelência do Poder nos seus âmbitos mais tradicionais, como o Poder em seu sentido mais amplo (o que inclui toda uma diversidade de setores da vida social e das atividades humanas nas quais tal noção se aplica de maneira imperiosa) são igualmente indissociáveis da História. A Política, em sentido mais restrito, e o Poder, em sentido mais amplo, são construídos, percebidos, exercidos, apropriados, imaginados e discursados de modos diferenciados ao longo da História. Nada mais natural é do que, diante do incessante fluxo da História no que tange às múltiplas perspectivas sobre o Poder que vão surgindo e se desenvolvendo, também tenha se afirmado no da Historiografia um campo mais específico de estudos, também em permanente transformação: a História Política. Entretanto, na construção do nosso arcabouço, primeiro, vamos nos deleitar com os conceitos para política, em toda sua amplitude, em seguida, os conceitos que permeiam a política para finalmente passarmos a discutir a História Política propriamente dita. Ao final do módulo, vocês conseguirão entender nossa lógica. A política é uma dimensão essencial da vida humana, então podemos inferir que sua finalidade consiste em organizar a sociedade de tal modo que nela seja possível a cada cidadão viver uma vida virtuosa e feliz e não apenas materialmente Nesse sentido, a existência humana é essencialmente política porque o homem é dotado não só de linguagem, mas principalmente de razão (AZAMBUJA, 2008). O mesmo autor acima nos oferece cinco sentidos para política, sendo que a primeira política é de significação popular e comum; a quinta, científica; mas ambas estão muito próximos no sentido; as três outras são eruditas, aceitas por alguns escritores, conforme pontos de vista doutrinários ou empíricos. Vejamos: a) No uso trivial, vago e às vezes um tanto pejorativo, "política", como substantivo ou adjetivo, compreende as ações, comportamentos, intuitos, manobras, Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas.8 entendimentos e desentendimentos dos homens (os políticos) para conquistar o poder, ou uma parcela dele, ou um lugar nele: eleições, campanhas eleitorais, comícios, lutas de partidos, entre outros. b) A conceituação erudita, no fundo síntese da anterior, considera política a arte de conquistar, manter e exercer o poder, o governo. É a noção dada por Maquiavel, em 'O c) Política denomina-se a orientação ou a atitude de um governo em relação a certos assuntos e problemas de interesse público: política financeira, política educacional, política social, política do café, entre outras. d) Para muitos pensadores, política é a ciência moral normativa do governo da sociedade civil (LIMA, 1932). e) Outros a delineiam como conhecimento ou estudo "das relações de regularidade e concordância dos fatos com os motivos que inspiram as lutas em torno do poder do Estado e entre os listados" (Wolf Von Eckardt, Fundamentos de la política, s.d. Labor, p. 14). Azambuja (2008) ainda nos lembra que mesmo na atualidade, a maioria dos tratadistas e escritores se divide em duas correntes. Para uns, política é a ciência do Estado; para outros, é a ciência do poder como já o dissemos anteriormente. Como é possível notar, mesmo os que querem fazê-la uma ciência "positiva", "concreta", divergem; e, ainda no interior dos dois grupos citados, há discrepâncias de conceituação, quanto à compreensão e à extensão do objeto e quanto à metodologia, além de outras. O que não é de estranhar, pois se trata de uma ciência em formação, a mais recente entre as ciências sociais, e está atravessando fase preparatória em que há bem pouco tempo estava, por exemplo, a Sociologia. Em "Reflexões sobre o conceito de Política" no módulo do Curso Introdutório à Ciência Política da Universidade de Brasília, o professor Philippe C. Schmitter (2001) divide a política em quatro conceitos que em linhas gerais podem ser assim definidos: a) Suas "instituições", pelo quadro social concreto e estabelecido dentro do qual participam os atores. Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados - sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas.9 b) Seus "recursos", pelos meios utilizados pelos atores. c) Seus "processos" pela atividade principal à qual se consagram os atores. d) Sua "função" pelas consequências da sua atividade para a sociedade global de que faz parte. Para essa tipologia geral corresponderiam quatro definições específicas de campo de investigação da política, buscadas também em Schmitter (2001). Antes, porém, julgamos necessário explicar que, uma vez que a História Política se voltar aos assuntos que remetem muito à política como ciência, os conceitos que ora apresentamos são voltados para essa ciência, mas logo adiante voltaremos a outros conceitos que permeiam a política aos olhos dos historiadores. Vejamos: a) Instituição - "Estado ou Governo" A definição que predominava no sec. XIX e que ainda predomina nos dicionários e em muitas faculdades é da política como "a arte e a ciência do Estado ou do Governo". Marcel Prélot (1964 apud SCHMITTER, 2001) a define como o "conhecimento sistemático e ordenado dos fenômenos concernentes ao Estado". Com a descoberta da importância política de instituições não-constitucionais, esta delimitação parecia estrita demais. Então, os políticos ampliaram-na para incluir algumas organizações anexas que intervêm regularmente ou mesmo ocasionalmente na atividade estatal; órgãos como partidos, facções, grupos de pressão, ligas conspiratórias, sociedades de economia mista, cliques militares e grupos informais. Por exemplo, o próprio Prélot afirma que: a Politologia que considera, como se acaba de ver, a instituição estatal em sua totalidade, não se limita, entretanto, a ela. Toma-se como ponto de partida e como referência para o estudo dos fenômenos que se ligam ao Estado na qualidade pré-estatais e supraestatais. Muitos politistas contemporâneos, dentre os quais o suíço Jean Meynaud (1960), relutam em abandonar este foco tradicional, concreto e aparentemente bem delimitado, por outras definições mais abstratas e difusas. Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados - sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas.10 b) Recurso "Poder, influência ou autoridade" Sob essa rubrica, segundo Duverger (1964), abriga-se a grande maioria dos politistas contemporâneos, inclusive ele próprio. Infelizmente, essa maioria está longe de ser unânime na utilização desses termos: "poder" para alguns significa "influência"; para outros, "autoridades". Não obstante, Schmitter acha possível distinguir entre três "escolas" e "subescolas" todas tomando meios e recursos utilizados como foco principal da ciência política. b.1) "Poder": aqui podemos incluir todos os politistas que lembrando a afirmação de Max Weber de que "o meio decisivo na política é a violência", dão ênfase ao fenômeno da coesão, a dominação ou a monopolização da violência ou de força física. Friedrich Engels, por exemplo, afirmou: A sociedade até agora, baseada nos antagonismos de classe, teve a necessidade do Estado. Quer dizer, da organização de uma classe particular que era a classe exploradora [...] especialmente com a intenção de conservar com a (força) as classes exploradas na condição de opressão correspondente a um modo dado de produção. Um antropólogo se expressou de maneira semelhante (sem a suposição de dominância de classe): "A organização política de uma sociedade é o aspecto de sua organização total que interessa ao controle e à regulamentação da força física" (RADCLIFFE-BROWN, 1962 apud SCHMITTER, 2001). Finalmente, um politista inglês, baseando-se em um inquérito internacional sobre a natureza da ciência política, chegou à seguinte conclusão: foco de interesse do politista é claro e não ambíguo: ele se concentra sobre a luta para obter ou reter o poder, para exercer poder ou influência sobre os outros ou para resistir a esse exercício (WILLIAM ROBSON, 1964 apud SCHMITTER, 2001). Com esta última definição, aproximamo-nos à segunda "escola", a da influência. b.2) "Influência": muitos estudiosos da política norte-americana rejeitam esta ênfase na força e na variedade e na sutileza dos meios e recursos utilizados pelos atores políticos. Para eles, não se poderia reduzir a política a um só tipo de relação de dominância. Esta é o produto da interação de uma pluralidade de Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados - sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas.11 tipos de dominância, dentro dos quais estão a força ou a coação. Eles preferem o termo influência por ser o mais abrangente. Segundo a célebre fórmula do livro de Harold Lasswell, "Politics: Who Gets What. When and How", o estudo da política é o estudo da influência e dos que têm influência. Outro norte-americano, Quincy Wright, define a política de modo semelhante como "a arte de influenciar, manipular ou controlar grupos com a intenção de avançar os propósitos de alguns contra a oposição de outros". Provavelmente o mais destacado representante desta escola nos Estados Unidos é Robert Dahl. No seu livro "Who Governs", ele não apenas oferece uma tipologia dos diferentes recursos que são a base de diferentes tipos de influência, mas faz a importante observação de que o grau de influência depende dos recursos disponíveis e da vontade de utilizá-los. Nesse livro, ele estuda empiricamente a distribuição de ambos os elementos de influência (mensurada como capacidade de iniciar ou vetar uma "policy") na cidade de New Havan, Connecticut. Ele concluiu que em um sistema político pluralista (caso de New Haven, e, por extensão, dos EUA) a influência apresenta um padrão de "desigualdades dispersas" e não "desigualdades cumulativas", o que parece estar implícito no modelo que utilizam os teoristas de poder ou força física acima mencionados. b.3 "Autoridade": nesta terceira subcategoria para os politistas que tomam como foco a disciplina, nem a ultima ratio do poder, nem as formas vagas e múltiplas de influência, mas um tipo específico de relação social que combina os dois: a autoridade, poder legítimo ou herrschaft em alemão. Uma autoridade, conforme Weber, é um poder que se faz obedecer voluntariamente. Haveria vários tipos, mas o elemento comum é essa capacidade de criar e manter a crença de que as repartições de poder e influência existentes são as mais apropriadas, "justas" e "naturais" para essa sociedade. Como diz a feliz expressão francesa: Gouverner c'est faire croire (governar é acreditar). Sendo assim, aceita essa noção como foco principal, o estudo da política seria o estudo das relações de autoridade entre os indivíduos e os grupos, da hierarquia de forças que estabelecem no interior de todas as comunidades numerosas e complexas. A cúpula desta estrutura é o Estado ou Governo, a instituição que tem a autoridade última e o "direito" de utilizar a força física para se Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados - sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas.12 fazer respeitar; mas a tarefa da ciência política seria a de analisar e explicar toda essa estrutura e as forças e influências respectivas que a compõem. Duverger, quando afirma que a ciência política é a ciência do poder, quer dizer, a "ciência da autoridade", porque anteriormente declarou que o poder é reconhecido como poder; sua autoridade é admitida. sociólogo norte-americano, Talcott Parsons também prestou o seu imenso prestígio intelectual a uma delimitação da ciência política em termos de "poder". Como foi o caso de Duverger, o seu conceito de poder é equivalente ao fenômeno que aqui chamamos de autoridade. Não são raros os estudiosos da política que combinam todos ou alguns desses meios de ação nas suas tentativas de definir a política. O mais conhecido exemplo deste ecletismo é provavelmente o de Max Weber, que acentuou poder e influência na sua definição formal: política significa, para nós, elevação para a participação no (poder) ou para a (influência) na sua repartição, seja entre Estados, seja no interior de um Estado, e que concentrou a sua atenção empírica sobre tipos ideais de autoridades. Recentemente um destacado politista norte-americano, Robert Dahl (falecido em 2014) optou por um ecletismo semelhante. c) Decision-Making (formulação de decisões sobre linhas de conduta coletivas) Surgiu por volta dos anos 70, 80 uma nova tentativa de situar campos de investigação da política, desta vez em termos de um processo social processo que evidentemente utilizaria os meios de ação social acima mencionados. Esta tentativa destaca a formulação de decisões ou de "policies" como foco de análise. A tarefa de uma ciência da política seria, a de explicar e presumivelmente predizer, porque uma determinada linha de conduta foi, é ou será adotada. Como foi formulada? Quem participou? Quais foram os determinantes desta atividade? Qual foi o resultado e seu impado sobre decisões posteriores? Essas são algumas das perguntas implícitas nesta definição. O intérprete mais conhecido desta linha é o cientista político da Universidade de Chicago, David Easton, o qual afirmava que esta deve se aplicar ao estudo da alocação autoritária ou imperiosa dos valores, de maneira que essa alocação seja influenciada pela distribuição e utilização do poder. A ênfase é sobre o fenômeno da Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados - sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas.13 repartição - da administração de decisões sobre bens escassos na sociedade; mas Easton chega a incluir na definição todos os meios acima citados: autoridade, influência e poder. Numa outra definição, menos conhecida, embora no entendimento de Schmitter, mais clara, ele fixa os limites do sistema político como todas as ações mais ou menos relacionadas com a formulação de decisões autoritárias ou imperiosas para uma sociedade: "the making of binding decisons for a society". O emprego do qualificativo "autoritário" ou "imperioso" implica que o autor limitaria a ciência política ao estudo do órgão que toma e implementa as decisões que são authoriative ou binding para toda a sociedade, o que chega a voltar a definir a política em termos de Estado - Estado sendo desta vez definido como processo e não como instituição. Outros politistas que utilizam o decision making approach estão na linha da flexibilidade, na possibilidade de aplicá-la a vários níveis da sociedade, pelos quais as decisões parciais ou parcialmente imperiosas são tomadas. Um importante foco de análise seria precisamente o de fazer comparações entre esse processo social nos diferentes níveis, como já o fizeram na Antiguidade, Platão e Aristóteles. Eles testaram a hipótese de que decisões aplicáveis à sociedade inteira, decisões públicas têm características e padrões diversos das decisões tomadas em sociedades menos globais, i.e., decisões privadas. Se a definição da política pelo Estado foi formulada especialmente pelos politistas que utilizaram métodos jurídico- formais, se a definição em termos de poder parece mais utilizada pelos marxistas e behavioristas, se a definição em termos de influência parece especialmente compatível com a "teoria política dos grupos", em termos e autoridade com a Sociologia histórica a definição de política pelo decision making vai de acordo com a teoria dos sistemas políticos. A última hipótese abordada por Schmitter acompanha essencialmente uma abordagem funcionalista do estudo da política. d) A Resolução não-violenta dos Conflitos A última novidade em termos de definição é o funcionalismo. No seu sentido mais amplo, definir algo pela sua função quer dizer considerá-lo sob o aspecto da sua consequência ou consequências no sistema global do qual faz parte. O algo pode ser concebido como "requisito", isto é, atividade necessária ao bom Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados - sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas.14 funcionamento do sistema global, ou como "tarefa", isto é, padrão de atividade geralmente encontrado em qualquer sociedade. Utilizando o primeiro e mais rigoroso conceito de função como "requisito", Talcott Parsons sugeriu que o subsistema político se aplica principalmente à "realização de objetivos coletivos" "goal attainment". politista David Apter define a função da política como a manutenção do sistema do qual faz parte. A tentativa de Schmitter de delimitar o campo da investigação política se inspira na segunda tradição. Ele não afirma que a seguinte função é um requisito para a manutenção do sistema existente; afirma simplesmente que o padrão de atividade que chamamos política se encontra em muitas sociedades com vários graus de complexidade. Para ele, a função da política é a de resolver conflitos entre indivíduos e grupos, sem que este conflito destrua um dos partidos em conflito. Talvez, resolução não seja a melhor expressão porque implica (falsamente) que a atividade política fim ao conflito. Ao contrário, existem conflitos permanentes dentro de qualquer sociedade que a política não pode extinguir, embora a sociedade sem conflito seja um antigo sonho de muitos filósofos políticos. A política pode simplesmente "desarmar" o conflito, canalizá-lo, transformá-lo em formas não destrutivas para os partidos e a coletividade em geral. Dentro dessa perspectiva, para que um ato social seja político, precisa satisfazer duas condições: A condição necessária é que o ato deva ser controverso, indique um conflito, um antagonismo entre interesses ou atitudes expressas por diferentes indivíduos ou grupos. Isto implica que muitos atos governamentais não sejam políticos por não serem controversos, tal como a publicação de documentos, a vacinação de cães, entre outros. Mas, Schmitter insiste em que qualquer acontecimento social é potencialmente político. A condição suficiente para que os conflitos sejam políticos é a de que os atores reconheçam reciprocamente suas limitações nas reivindicações das suas exigências. Isto quer dizer que os conflitos políticos acontecem dentro de um quadro (framework) de restrições mútuas, o que implica que o conflito político exige um certo grau de integração, de cooperação entre os combatentes, "integração" ou "cooperação" entre indivíduos e grupos, é, então, o segundo elemento da equação Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados - sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas.15 política. Essa qualidade de autolimitação ou restrição mútua pode ser baseada em uma crença comum nos atores em conflitos (então haveria uma estrutura de autoridade entre eles) ou pode ser simplesmente prudencial baseada no medo e na antecipação do poder de retaliação do oponente. Mas, a partir do momento em que os combatentes decidem limitar reciprocamente os seus esforços competitivos em vez de se destruírem, estão, no entendimento de Schmitter, numa situação política. A primeira expressão dessa qualidade "dualista" da atividade política é encontrada na Política de Aristóteles. Argumentando com a de Platão, o nega que a sociedade política (a cidade-estado) possa ser governada por uma família. A sociedade política, à medida que se forma e se torna mais una deixa de ser sociedade política; porque, naturalmente, a sociedade política é a Se for levada à unidade, tornar-se-á família; de família, indivíduo, porque a palavra "um" deve ser aplicada mais à família que a sociedade política, e ao indivíduo, de preferência a família. A sociedade política não se compõe apenas de indivíduos reunidos em maior ou menor número; ela se forma de homens especificamente diferentes; os elementos que a constituem não são absolutamente semelhantes. importante a reter é a última frase. Os elementos-componentes de uma sociedade política são heterogêneos, isto é, estão ao mesmo tempo em conflito e em interdependência. A natureza da dominância política, contrariamente a outras formas de dominância, é a de reconhecer os conflitos e a variedade de interesse e atitudes que dão base a esses conflitos e a de tratar de contê-los dentro de um quadro social comum. A dominância do tipo político não destrói essa heterogeneidade natural para fazer uma sociedade mais unificada - o que implicaria um tipo de dominância mais repressiva. Segundo essa concepção, o estudo da política compreenderá dois focos distintos, mas altamente relacionados. De um lado, o estudo do "conflito" - tipos, fontes, padrões e intensidades -; e de outro lado, o estudo da "integração" - autoridade, estruturas, formulação de decisões e crenças comuns. Como afirma Duverger, quando os homens pensam na política, eles oscilam entre duas interpretações completamente opostas. Para alguns, a política é essencialmente uma luta, um combate em que o poder permite a alguns, que o têm, Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados - sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas.16 assegurar a sua dominância sobre a sociedade e desta tirar partido. Para outros, a política é um esforço para fazer governar a ordem e a justiça em que o poder permite a proteção do interesse geral e do bem comum contra a pressão das reivindicações particulares. O Estado é, mais geralmente, o poder institucionalizado de uma sociedade; é sempre, em toda parte, tanto o instrumento da dominância de certas classes sobre outras como o meio de assegurar uma certa ordem social, uma certa integração de todos na coletividade para o bem comum. Schmitter nos mostra que é interessante observar que alguns, especialmente os marxistas oposicionistas e revolucionários nacionalistas, tendem a ver unicamente a face "conflito", enquanto outros, especialmente muitos politistas norte-americanos e marxistas situacionalistas tendem a ver somente a face "integração". Como se percebe, até o momento, o conceito de política pende bastante para a esfera de poder, governamental, já é algum caminho percorrido, e quando nos apossarmos dos conceitos que permeiam a política, o caminho para a História Política ficará mais claro, podem acreditar. Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados - sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas.17 UNIDADE 4 CONCEITOS QUE PERMEIAM A POLÍTICA Todos os conceitos apresentados a seguir abraçam, circulam a esfera da História Política, principalmente discurso e poder e nos ajudarão na construção do nosso arcabouço para entendermos a "modalidade" História Política. Barros (2012) cita como exemplo o seguinte: Quando um historiador estuda a Roma Antiga, na verdade está estudando o que nos dizem as fontes a respeito da Roma Antiga. Dito de outra forma, está estudando, neste caso, discursos sobre a Roma Antiga. E estará estudando mais especificamente aqueles documentos da Roma Antiga que chegaram ao nosso tempo, e na verdade aqueles documentos, dentre estes, que o historiador resolveu constituir como fontes históricas. De alguma maneira, para complicar a questão, poderíamos dizer que a História também é a História dos Discursos dos Historiadores. Como diz Barros (2009), os objetos da História Política são todos aqueles que se mostram atravessados pela noção de poder em todas as direções e sentidos, e não mais exclusivamente de uma perspectiva da centralidade estatal ou da imposição dos grupos dominantes de uma sociedade. Neste sentido, teremos, de um lado, aqueles antigos enfoques da História Política tradicional que, apesar de terem sido rejeitados pela Historiografia mais moderna a partir dos anos 1930 (Escola dos Annales e novos marxismos), com as últimas décadas do século XX começaram a retornar dotados de um novo sentido. A Guerra, a Diplomacia, as Instituições, ou até mesmo a trajetória política dos indivíduos que ocuparam lugares privilegiados na organização do poder, tudo isso começa a retornar a partir do final do último século com um novo interesse. De outro lado, além desses objetos já tradicionais que se referem às relações entre as grandes unidades políticas e aos modos de organização dessas macrounidades políticas que são os Estados e as Instituições, adquirem especial destaque, por exemplo, as relações políticas entre grupos sociais de diversos tipos. A rigor, as Ideologias e os movimentos sociais e políticos (por exemplo, as Revoluções) sempre constituíram pontos de especial interesse por parte da nova Historiografia que se inicia com o século XX, mesmo porque, estes eram campos de interesses muito caros à nova História Social que estava então se formando. Por outro lado, porém, tal como já ressaltamos, hoje despertam um interesse análogo as Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas.18 relações interindividuais (micropoderes, relações de poder no interior da família, relacionamentos intergrupais), bem como o campo das representações políticas, dos símbolos, dos mitos políticos, do teatro do poder, ou do discurso (BARROS, 2009). Feitas as considerações que justificam os conceitos pertinentes ao campo da História Política, vamos a alguns deles, mas que se observarem, são muitos outros como mostra o quadro abaixo. Interesses e objetos da História Política Relações de dominação e Diplomacia interdependência política Processos de Colonização Guerras RELAÇÃO ENTRE / Descolonização AS UNIDADES Estados POLÍTICAS Movimentos PROCESSOS políticos Cidades POLÍTICOS Mecanismos de controle Movimentos Sociais Sistemas Políticos Tensões ORGANIZAÇÃO sociais DAS UNIDADES Interesses e objetos da Instituições e RELAÇÕES POLÍTICAS poderes HISTÓRIA POLÍTICA POLÍTICAS Hierarquias institucionais (lugares onde pode ser e formas de ENTRE GRUPOS estudado Poder) dominação Estratégias Discursivas e padrões de discurso Ideologias RELAÇÕES INTER- REPRESENTAÇÕES INDIVIDUAIS Ideias POLÍTICAS Micropoderes Símbolos Relações intrafamiliares Mitos políticos Representações Ações individuais do Poder conectadas com o universo Fonte: Barros (2009, p. 151). 4.1 Discurso Numa definição bem simplista, o discurso pode ser definido como uma exposição metódica sobre certo assunto, igualmente pode ser uma fala longa, fastidiosa ou indo além, um suporte abstrato que sustenta os vários textos (concretos) que circulam em uma sociedade. Na literatura, seria qualquer manifestação por meio da linguagem, em que há predomínio da função poética (FERREIRA, 2004). Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados - sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas.19 O conceito de discurso é muitas vezes equivocadamente usado como sinônimo de pronunciamento, de texto formal. Não há nenhum problema em se usar a palavra para nomear pronunciamentos, entretanto, quando se trata de Teoria do Discurso, isto leva a um erro grave. Em uma sociedade como a nossa, uma grande parte dos discursos se expressa na escrita, mas também há importantes discursos visuais, desde as manifestações artísticas até a própria moda. Nada mais cheio de significado, nada mais discursivo do que a forma de vestir dos adolescentes, por exemplo (PINTO, 2006). discurso pode ser inicialmente definido como uma bem sucedida, mas provisória, fixação de sentidos, daí que o conceito de discurso e a teoria do discurso partem do princípio que as verdades anteriores aos discursos não existem, isto dito de outra forma, coloca-se diametralmente na oposição a posturas essencialistas, que pensam em uma realidade pré-dada, que deve ser descoberta através da mediação da teoria. Para a teoria do discurso, a verdade é uma construção discursiva, afirmação que não pode ser confundida com a simplista ideia de que a verdade não existe. Entretanto, recolocar-se desta forma, envolve uma importante ruptura que o conceito de discurso faz com o conceito de Ideologia entendido como falsa consciência, presente na teoria marxista. O discurso existe porque ele é uma tentativa de dar sentido ao real, uma tentativa de fixar sentidos, precária, mas exitosa: precária enquanto não essencial e, por isso, constantemente ameaçada de ser desconstruída; exitosa porque, no que pese a ameaça, contém uma continuidade histórica. Quando o tema é o discurso político, esta dinâmica é muito simples de ser observada: o que é um discurso político, se não uma repetida tentativa de fixar sentidos em um cenário de disputa? Os exemplos podem se multiplicar, atualmente, há uma disputa sobre os significados de noções como "esquerda", "direita", "reforma", "revolução", todos estes termos tiveram sentidos muito mais fixos do que têm hoje. Quando analisamos o discurso político, verifica-se que esta é uma tentativa de fixar sentidos, que têm a urgência como condição e durante as campanhas eleitorais esta urgência é ainda mais fácil de ser verificada (PINTO, 2006). Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados - sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas.20 Evidentemente que precisamos trazer à cena, Michel Foucault, não só para falar em discurso, mas em poder logo adiante. De acordo com Barros (2009), a revolução de Michel Foucault no âmbito da História dos Discursos vai mais além, pois o filósofo chama atenção para a necessidade de uma ampliação da noção de discurso. Para além da Ciência, da Literatura e dos objetos culturais produzidos pelos sistemas de pensamento em suas formas mais explícitas, o corpo, a sexualidade, a loucura, a economia ou o Estado são eles mesmos discursos. Segundo Foucault (1972, p. 48-49), "Discurso será visto ainda como a ordenação dos objetos [...] e não apenas como grupo de signos, mas como relações de poder". Essas noções fundamentais permitiram ainda uma verdadeira revolução na História Política, pois interligavam a percepção de que o Poder não tem um centro único (isto é, não é apenas uma forma de repressão encaminhada a partir dos mecanismos estatais a serviço de uma classe dominante) e a ideia de que esse Poder, que está por toda a parte, inclusive sob a forma de micropoderes, aparece entranhado em diversas outras relações que coexistem no mundo humano: a família, a sexualidade, a amor, parentesco, a produção, a comunicação através do uso da língua. Por isso, as relações de poder poderiam ser estudadas por meio de todos esses discursos, que vão do discurso amoroso e da sexualidade às relações expressas no seio da família ou no âmbito da produção. É interessante notar que essa análise política do discurso, tal como é proposta por Foucault, sugere que o historiador deva buscar a percepção das relações de poder nos lugares menos previsíveis, menos formalizados, menos anunciados. Esse método genealógico, que busca o poder em todos os pontos da sociedade e não mais nos lugares congelados pelo aparato estatal, vai ao encontro, também, das abordagens que exigirão do historiador que ele desenvolva uma meticulosidade, que passe a cultivar os detalhes, o acidental, aquilo que aparentemente é insignificante, mas que pode, precisamente, compor, com outros elementos, a chave para a compreensão das relações sociais examinadas. Essa atenção ao detalhe e ao acidental é a mesma, também podemos lembrar que será Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados - sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas.21 incorporada pela abordagem historiográfica conhecida como Micro-História (BARROS, 2009). Para além de focalizar o discurso como lugar de lutas sociais e de confrontos políticos, ou como um lugar onde se expressam essas lutas e esses confrontos (o que, já de per se, abre um verdadeiro leque de possibilidades para os historiadores do discurso em todas as especialidades), Foucault (1996) chama atenção para o fato de que o próprio discurso pode ser também aquilo por que se luta. Daí a sua preocupação em examinar os mecanismos de interdição que se afirmam nas práticas discursivas de uma sociedade, seja através dos objetos permitidos e proibidos (não se tem o direito de dizer tudo), dos rituais de circunstância (não se pode falar de tudo em qualquer circunstância), ou dos direitos diferenciados atribuídos aos sujeitos que falam (quem pode dizer o quê, sem sofrer a reprovação social ou até uma punição). Analisar um discurso em toda a sua complexidade, portanto, envolve muitas e muitas coisas: desde as técnicas que visam enxergar a sociedade através do discurso, até as técnicas que visam enxergar os modos pelos quais a sociedade se apodera dos discursos. Trabalhar com o texto, conforme pode ser percebido, é muito mais difícil do que habitualmente parece. E o historiador deve seguir adiante na sofisticação de seus métodos de decifração do texto (BARROS, 2009). 4.2 Poder Política pode ser definida como o campo de práxis e o conjunto de meios que permite aos homens alcançarem os objetivos desejados. Para alcançar estes objetivos, a Política lança mão do poder, isto é, de uma relação entre sujeitos, dos quais um (ou alguns) impõe ao outro (ou outros) a própria vontade e determina o seu comportamento. Forma-se o poder político, ou seja, uma forma específica de poder, que se distingue do poder que o homem exerce sobre a natureza e de outras formas de poder que o homem exerce sobre outros homens (poder paterno, poder despótico, entre outros). poder político na tradição clássica ocorre apenas nas formas corretas de Governo. Nas formas viciadas, o poder político é exercido em benefício dos governantes, o que significa um poder não político (BARBOSA, 2003). Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados - sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas.22 Em um mundo contemporâneo no qual tem se tornado cada vez mais clara a multiplicidade de poderes de todos os tipos que envolvem a vida social e individual, da coerção ou planificação governamental mais direta às sutis formas de propaganda subliminares, a História Política viu-se sensivelmente renovada nesse novo rearranjo de modalidades históricas (BARROS, 2009). Podemos distinguir três grandes classes de poder. a) O poder econômico, que se baseia na posse de certos bens para induzir aqueles que não os possuem a manter um certo comportamento, sobretudo na realização de um certo tipo de trabalho. De tal forma que aqueles que possuem abundância de bens são capazes de determinar o comportamento de quem se encontra em condições de penúria, por meio de promessa, concessão de vantagens, e assim por diante. b) O poder ideológico, que se baseia na influência que as ideias formuladas de um certo modo, por um grupo investido de certa autoridade, expressas em certas circunstâncias e difundidas mediante certos processos, exercem sobre as condutas da sociedade. Este poder pode assumir uma forma laica ou religiosa. c) O poder político, que se baseia na posse dos instrumentos mediante os quais se exerce a força física. É o poder coator no sentido mais estrito da palavra. Essas três formas de poder fundamentam e mantêm uma sociedade de desiguais, isto é, dividida em ricos e pobres com base na primeira classe de poder; em sábios e ignorantes com base na segunda classe de poder; e em fortes e fracos com base na terceira classe de poder. As três grandes classes de poder estão profundamente condicionadas pelas relações de produção dominantes em cada sociedade, isto é, pela forma como os homens, distribuídos por meio de classes sociais e em conflito, organizados a partir de um tipo específico de propriedade e de trabalho, produzem e distribuem os excedentes. Portanto, o conflito, no âmbito das relações de produção, percorre as três grandes classes de poder e vice-versa. Daí a necessidade de apreendermos as três grandes classes de poder em perspectiva ampla, isto é, de maneira a incorporar as formas de contrapoder. O poder político, como possui como meio específico de exercício a força, é o poder supremo ao qual todos os demais estão de algum modo subordinados. Exatamente por isso, é o poder a que recorrem todos os grupos sociais dominantes Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados - sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas.23 (a classe dominante), em última instância, para manter o domínio interno, para se defender dos ataques externos e para impedir a desagregação do seu próprio grupo e sua eliminação. Por conseguinte, é a construção do contrapoder a que recorrem todos os grupos sociais dominados (classe social, grupo ético, entre outros) conscientes da sua condição, tendo em vista resistir ou construir uma nova ordem social e, por consequência, um novo poder (BARBOSA, 2003). Além desses micropoderes temos visto se impor o poder sob outra ótica, aquela que exercemos na nossa vida cotidiana, uns sobre os outros, como membros de uma família, de uma vizinhança ou de uma comunidade. Poder é o que exercemos através das palavras e das imagens, dos modos de comportamento, dos preconceitos. Como diz Barros (2009), os objetos da História Política são todos aqueles que se mostram atravessados pela noção de poder, em todas as direções e sentidos, e não mais exclusivamente de uma perspectiva da centralidade estatal ou da imposição dos grupos dominantes de uma sociedade. 4.3 Ideologia termo Ideologia aparece pela primeira vez em 1801 no livro de Destutt de Tracy, Eléments (Elementos de Ideologia). Juntamente com o médico Cabanis, com De Gérando e Volney, DeStutt de Tracy pretendia elaborar uma ciência da gênese das ideias, tratando-as como fenômenos naturais que exprimem a relação do corpo humano, enquanto organismo vivo, com o meio ambiente. Elabora uma teoria sobre as faculdades sensíveis, responsáveis pela formação de todas as nossas ideias: querer (vontade), julgar (razão), sentir (percepção) e recordar Os ideólogos franceses eram antiteológicos, antimetafísicos e antimonárquicos. Pertenciam ao partido liberal e esperavam que o progresso das ciências experimentais, baseadas exclusivamente na observação, na análise e síntese dos dados observados, pudesse levar a uma nova pedagogia e a uma nova moral. Contra a educação religiosa e metafísica, que permite assegurar o poder político de um monarca, De Tracy propõe o ensino das ciências físicas e químicas para "formar um bom isto é, um espírito capaz de observar, decompor e recompor os fatos, sem se perder em vazias especulações. Cabanis pretende Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados - sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas.24 construir ciências morais dotadas de tanta certeza quanto as naturais, capazes de trazer a felicidade coletiva e de acabar com os dogmas, desde que a moralidade não seja separada da Fisiologia do corpo humano (CHAUÍ, 2004). Numa breve evolução, o termo Ideologia voltou a ser empregado em um sentido próximo ao do original por Augusto Comte em seu Cours de Philosophie Positive. O termo, agora, possui dois significados por um lado, a Ideologia continua sendo aquela atividade que estuda a formação das ideias a partir da observação das relações entre o corpo humano e o meio ambiente, tomando como ponto de partida as sensações; por outro lado, Ideologia passa a significar também o conjunto de ideias de uma época, tanto como "opinião geral" quanto no sentido de elaboração teórica dos pensadores dessa época. Concordamos com Ramalho (2012) que Ideologia é um termo que acumula contradições, paradoxos, arbitrariedades, ambiguidades, equívocos e mal- entendidos, o que torna exatamente difícil encontrar seu caminho nesse labirinto. Em 1812, Napoleão Bonaparte, utilizou o termo Ideologia como o de "ideia falsa" ou "ilusão", num discurso perante Conselho de Estado, ao afirmar que seus adversários eram apenas metafísicos, pois o que pensavam não tinha conexão com que estava acontecendo na realidade, na história. Karl Marx retomou esse conceito, conservando esse significado napoleônico do termo, isto, o ideólogo é o sujeito que inverte as relações entre as ideias e o real. Em A Ideologia (1846), o conceito de Ideologia parece como equivalente à ilusão, falsa consciência, concepção idealista na qual a realidade é invertida e as ideias aparecem como motor da vida real. Trata-se de um sistema elaborado de representações e de ideias que correspondem a formas de consciência que os homens têm em determinada época. Para Marx, claramente, as ideias das classes dominantes são as Ideologias dominantes na sociedade. Com base nos pressupostos teóricos do materialismo histórico, o pensador alemão demonstra que a Ideologia não surge do nada. Ou seja, é produzida a partir das relações socioeconômicas, da luta de classes, das contradições que existem na sociedade em que vivemos, com o objetivo de tentar justificar, amenizar ou ocultar seus conflitos, tornando-os aceitáveis e naturais. Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados - sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas.25 A existência da propriedade privada e as diferenças entre proprietários e não proprietários aparecem, por exemplo, nas apresentações sociais dos indivíduos como algo que sempre existiu e que faz parte da "ordem natural" das coisas. Essas representações sociais, porém, servem aos interesses da burguesia, classe social que controla os meios de produção numa sociedade capitalista. Uma verdade é que por meio da Ideologia, a classe dominante busca fazer com que seus interesses e ideias transformem-se nos de todos, dificultando o surgimento de outros contrários aos seus. Desse modo, a elite tende a orientar, de acordo com seus objetivos, a conduta da sociedade e os valores dos indivíduos. É comum a tentativa dessa universalização das ideias da classe dominante através da mídia. Os meios de comunicação como o rádio, a TV, o cinema, o teatro, a imprensa, as instituições como o Estado, a igreja e a escola atingem um grande número de pessoa e por isso são usados como meios para a transmissão de Ideologias. Para tanto, utilizam a linguagem simples e apelativa que atraia atenção de todos e seja facilmente compreendida e inculcada. No entanto, as Ideologias, para serem eficazes, devem dar algum sentido por menor que seja às experiências das pessoas. As Ideologias dominantes podem moldar as necessidades e os desejos daqueles a quem elas submetem, mas também, devem comprometer-se com as necessidades que as pessoas já têm, captar as esperanças e carências, revesti-las em sua própria linguagem e retorná-las aos sujeitos de modo a converterem-se em Ideologias plausíveis e atraentes (RAMALHO, 2012). Enfim, considerando a Ideologia como um conjunto de ideias e representações que contribuem para a reprodução e manutenção da sociedade, sabemos que existem outros tipos de Ideologia que não estão, necessariamente, vinculadas ao mercado ou ao grupo dominante. Na sociedade, existem diversas representações e normas que "ensinam a conhecer" motivações para a ação efetiva. Se, e por um lado, temos Ideologias favoráveis que dominam a sociedade, temos também, crenças que reúnem e inspiram um grupo específico a perseguir interesses políticos considerados desejáveis. Esses interesses se expressam das mais variadas formas, seja através da formação de sindicatos, de partidos políticos ligados a lutas democráticas e aos trabalhadores, seja por meio de vários movimentos sociais feministas, negros, Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados - sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas.26 étnicos, estudantis, do campo e da cidade, pelo direito à terra, por moradia, dentre outros. Tais grupos se contrapõem às Ideologias dominantes e possibilitam que outras formas de pensar e de agir se desenvolvam, permitindo, sobretudo, um questionamento sobre organizamos a nossa sociedade (RAMALHO, 2012). Posteriormente à visão de Marx, o conceito de Ideologia perdeu esse caráter meramente negativo e passou a tomar outros significados. Com a Ideologia começou a ser atribuída não só à classe dominante, mas a todas as classes, significando as ideias características de determinada classe social e, nesse caso, é possível falar de uma "Ideologia socialista" ou "Ideologia marxista". (HEYWOOD, 2010, p. 22). No século XX o sociólogo alemão Karl Mannheim (apud 2010, p. 22) descreveu as Ideologias "como sistemas de pensamentos que servem para defender determinada ordem social e que expressam em sentido amplo os interesses de seu grupo dominante ou governante". Atualmente, a palavra "Ideologia" adquiriu uma definição bem mais ampla, não sendo nem boa nem má, nem verdadeira nem falsa, nem libertária nem opressora, mas podendo assumir qualquer uma dessas características, tem sido bastante pronunciada, principalmente por grupos sociais, Partidos Políticos, indivíduos e organizações sociais inseridos direta ou indiretamente na política. Como visão de mundo, a Ideologia pode desempenhar um papel de sustentação da estrutura de poder dominante retratando-a como justa, correta e natural ou desafiar estas mesmas estruturas, destacar suas injustiças e apontar para a necessidade de mudanças das estruturas de poder. A Ideologia como visão de mundo, vai nos fornecer "um conjunto de suposições e pressupostos sobre como a sociedade funciona e deveria funcionar, que acaba estruturando nosso pensamento e o modo como agimos" (HEYWOOD, 2010, p. 28). Neste caso, pode haver tantas Ideologias quantos forem os princípios vistos pelos indivíduos como necessários para organizar a ordem social e política de uma sociedade. Mas e a Ideologia Política? Esta contém uma determinada visão de como deve ser organizada a sociedade e qual deve ser a relação entre a sociedade e Estado, o que está Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados - sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas.27 permeado pelos mais variados valores, crenças e princípios e vícios. Tais Ideologias estão sempre ligadas a grupos sociais, movimentos e partidos políticos, e cada proposta e projetos possuem um ideal. Como diz Berstein (1996, p. 87-90), a Ideologia é a coluna vertebral das opiniões da massa componente dos partidos, mas, na maioria das vezes, a doutrina não está explícita e sim presente por meio de referências implícitas, expressando-se em lembranças históricas comuns, heróis consagrados, documentos fundamentais, símbolos, bandeiras, comemorações, vocabulário decodificado, gestos e ritos. campo das Ideologias políticas é amplo e propício a debates, questionamentos, ideais, atuações e ações. Nesse campo, como indica Sell (2006), há um intenso desenvolvimento de atividades. Atividades que podem ser desenvolvidas por diversos sujeitos sociais que possuem determinados valores e princípios que nortearão tais ações. Quando essas ações e ideais são compartilhadas por outros cidadãos, grupos ou organizações sociais, voltadas para a ação prática na sociedade, estes valores e princípios são chamados de "Ideologia Política" e dessa forma podemos dizer que a Ideologia está presente no cotidiano das pessoas, muitas vezes de forma implícita ou explícita. 4.4 Partidos Etimologicamente, a palavra "partido" vem do latim "partire", que significa dividir ou partir, sendo que na Grécia antiga este termo ainda não possuía nenhuma conotação política (SANTANO, 2007). Peres (2009) conta que o desenvolvimento da democracia representativa foi uma longa marcha que começou com a fundamentação dos direitos civis nos Séculos XVII e XVIII, ensejada pelo pensamento liberal e as revoluções burguesas, seguindo com a posterior luta pelos direitos políticos, nos Séculos XIX e XX. Nesse contexto, os partidos políticos surgiram, já no século XIX e, especialmente, nas primeiras décadas do Século XX, como os instrumentos centrais das democracias representativas. Embora muitas vezes vistos de forma negativa e outras tantas de forma positiva, o fato indisputável é que os partidos realmente mostraram ser os elementos básicos e crucias da dinâmica democrática, a ponto dos governos parlamentares sempre terem sido considerados governos partidários. Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados - sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas.28 Amaral (2013) também ressalta que há mais de cem anos, os estudiosos da política reconhecem a importância e a necessidade dos partidos políticos para o funcionamento dos regimes democráticos. É por meio deles que as democracias se estruturam e a competição política se organiza. Embora exista muita divergência sobre como as agremiações políticas funcionam e se comportam, há praticamente um consenso em torno de sua importância para a viabilidade das democracias representativas. Nesse sentido, ainda no final do século XIX, James Bryce concluiu o seguinte: "Os partidos são inevitáveis. Nenhum país livre não conta com eles. Ninguém até agora demonstrou como os governos representativos podem funcionar sem eles. Eles ordenam o caos para a multidão de eleitores" (BRYCE, s.d. apud AMARAL, 2013). De acordo com Bonavides (2009), as mais expressivas definições de partido político são as de Jellinek (1914), Max Weber (1956), Nawiasky (1924), Kelsen (1929), Hasbach (1912), Field (1956), Schattschneider (1942), Sait (1927), Goguel (1947) e Burdeau (1957), algumas citadas a seguir. Os partidos políticos, em sua essência, são grupos que, unidos por comuns, dirigidas a determinados fins estatais, buscam realizar esses fins (JELLINEK). Ao estudar os partidos políticos do ponto de vista sociológico, Max Weber já percebia que, não importando os meios que empreguem para afiliação de sua clientela, são na essência mais íntima, organizações criadas de maneira voluntária, que partem de uma propaganda livre e que necessariamente se renova, em contraste com todas as entidades firmemente delimitadas por lei ou contrato. De conformidade com o pensamento de Nawiasky, num ângulo bem formal, os partidos políticos nada mais são do que o princípio de organização da sociedade humana em relação a um determinado domínio da vida espiritual. O mesmo jurista, em obra mais recente (1955) - o seu primoroso tratado de Teoria Geral do Estado - nos deixou porém uma segunda definição do verdadeiro caráter do partido político: uniões de grupos populacionais com base em objetivos políticos comuns. Pertencendo à camada de escritores políticos modernos e contemporâneos que mais cedo compreenderam a importância dos partidos políticos, com respeito à Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. 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E o publicista acrescenta: através, possivelmente, de "meios constitucionais". Dos autores americanos que mais seguramente versaram o tema relativo ao conceito de partido político Bonavides (2009) distingue Schattschneider e Sait: o primeiro diz que se trata de "uma organização para ganhar eleições e obter o controle e direção do pessoal governante", ao passo que o segundo, com mais exação, assevera que o partido político representa "um grupo organizado que busca dominar tanto o pessoal como a política do governo". Enfim, para os publicistas franceses Goguel e Burdeau, respectivamente, partido político é um grupo organizado para participar na vida política, com o objetivo da conquista total ou parcial do poder, a fim de fazer prevalecer as ideias e os interesses de seus membros, e o partido representa uma associação política organizada para dar forma e eficácia a um poder de fato. Claro que entre nós também existem doutrinadores que deram sua contribuição como, por exemplo, Cretella Junior (1994) que define partido político como entidades de livre criação, fusão, incorporação e extinção no Brasil. É a pessoa jurídica de direito privado, de âmbito nacional, registrada no registro de pessoas jurídicas, na forma da lei civil e com seus estatutos registrados no Tribunal Superior Eleitoral, ao qual também prestará contas, com funcionamento parlamentar de acordo com a lei, tendo autonomia para a definição de sua estrutura interna, vedada organização paramilitar e recebimento de recursos financeiros de governo ou entidade do exterior e subordinação a governo estrangeiro. Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados - sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas.30 Bastos (2002), citando as lições de Georges Burdeau, conceitua partido político como sendo "uma organização de pessoas reunidas em torno de um mesmo programa político com a finalidade de assumir o poder e mantê-lo ou, ao menos, de influenciar na gestão da coisa pública através de críticas e oposição". O autor atribui a existência dos partidos políticos somente à presença do sistema de democracia representativa. Enfim, o partido político é uma organização de pessoas que inspiradas por ideias ou movidas por interesses, buscam tomar o poder, normalmente pelo emprego de meios legais, e nele conservar-se para realização dos fins propugnados. Das definições expostas, deduz-se sumariamente que vários dados entram de maneira indispensável na composição dos ordenamentos partidários: a) Um grupo social. b) Um princípio de organização. c) Um acervo de ideias e princípios, que inspiram a ação do partido. d) Um interesse básico em vista: a tomada do poder. e) Um sentimento de conservação desse mesmo poder ou de domínio do aparelho governativo quando este lhes chega às mãos (BONAVIDES, 2009). Santano (2007) faz questão de lembrar que somente existirão partidos políticos em um sistema de democracia indireta ou representativa. A democracia indireta ou representativa é aquela que, nos ensinamentos de Kelsen (1992), a função legislativa é exercida por um parlamento eleito pelo povo, e as funções administrativa e judiciária, por funcionários igualmente escolhidos por um eleitorado. Dessa forma, um governo é porque e na medida em que os seus funcionários, durante a ocupação do poder, refletem a vontade do eleitorado e são responsáveis para com este. Já Dallari (2000) diz que na democracia representativa o povo concede um mandato a alguns cidadãos, para, na condição de representantes, externarem a vontade popular e tomarem decisões em seu nome como se o próprio povo estivesse governando. Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados - sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas.31 Em âmbito mundial, é pacífico que o berço dos partidos políticos foi a Inglaterra, bem como na sociedade europeia em geral, com o marco inicial no reinado liberal de Isabel, por volta de 1558-1603. Todavia, é somente em 1680 que surgem efetivamente dois grupos de formação definidamente política, que eram os "Tories", que representavam o remanescente do feudalismo agrário inglês e os "Whigs", representando as novas forças urbanas e capitalistas. Destes dois grupos, tempos mais tarde, surgiriam dois grandes e tradicionais grupos políticos: os conservadores e os liberais (SANTANO, 2007). É com base nos estudos do mesmo autor que continuamos a contar a história dos partidos políticos que, na França, começaram a surgir em 1789, implantados pela Revolução Francesa, em formas de associações civis e clubes. A mais importante associação da época foi a Sociedade dos Amigos da Constituição, que posteriormente transformou-se em Clube dos Jacobinos, reunindo deputados e líderes monarquistas, que aderiram ao movimento após a execução de Luiz XVI. Já no governo de Napoleão Bonaparte, este consolidou os partidos em âmbito constitucional, outorgada por Luiz XVIII, fazendo surgir também dois grandes blocos de pensamento, também denominados de conservadores e liberais. Na Alemanha, os partidos surgiram em 1848, também seguindo as linhas conservadora e liberal, nos moldes genuinamente ingleses. Nos EUA, o primeiro partido foi idealizado em 1787, na Convenção da o qual foi estruturado a partir das treze colônias libertadas do império inglês, com a denominação de partido democrático, gerando mais tarde o partido republicano, em 1854. No Brasil, também existiram os partidos conservador e liberal, no final da Regência Trina, em 1838. Ainda durante o Império, constituiu-se o partido republicano e, 1870, devido à tendência republicana da época, já se caminhando para a instauração da república no Brasil Império. Este partido republicano sucumbiu às potências regionais da época, que eram São Paulo e Minas Gerais, dividindo-se em duas correntes: o partido republicano paulista (PRP) e o partido republicano mineiro (PRM). Quanto aos tipos dos sistemas partidários, Nicolau (1996, p. 38) ensina que existem três leituras acerca das diversas tipologias dos sistemas partidários e que Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados - sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas.32 explicam a existência de determinado número de partidos nas democracias: a ideológica, a sociológica e a institucionalista. Na versão ideológica, a principal função dos partidos é expressar diversas opiniões da sociedade, de modo que o número de partidos decorre da diversidade de opiniões relevantes da sociedade. Segundo a interpretação sociológica, os partidos são canalizadores de interesses de determinados segmentos ou classes sociais. Nessa perspectiva, uma sociedade com estrutura socioeconômica complexa, provavelmente, terá mais partidos do que aquelas com menores divisões sociais. Por último, a abordagem institucionalista enfatiza o impacto da estrutura institucional sobre o sistema partidário. Assim, as instituições democráticas (sistema eleitoral, sistema de governo, estrutura de Estado) estabelecem o cenário para a atuação dos partidos políticos. 4.5 Movimentos sociais termo "movimentos sociais" diz respeito aos processos não institucionalizados e aos grupos que os desencadeiam, às lutas políticas, às organizações e discursos dos líderes e seguidores que se formaram com a finalidade de mudar, de modo frequentemente radical, a distribuição vigente das recompensas e sanções sociais, as formas de interação individual e os grandes ideais culturais (ALEXANDER, 1998). Ferreira (2003) define os movimentos sociais a partir das ações de grupos organizados que objetivam determinados fins, ou seja, os movimentos sociais se definem por uma ação coletiva de um grupo organizado e que objetiva alcançar mudanças sociais por meio da luta política, em função de valores ideológicos compartilhados, questionando uma determinada realidade que se caracteriza por algo impeditivo da realização dos anseios de tal movimento. De imediato, vale citar as características de um movimento social: possui liderança, base, demanda, opositores e antagonistas, conflitos sociais, um projeto sociopolítico, entre outros. Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados - sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas.33 Essas características nos levam a entender um sentido mais amplo para movimentos sociais, ou seja, esses movimentos se definem em torno de uma identificação de sujeitos coletivos que possuem adversários e opositores em torno de um projeto social (SCHERER-WARREN, 2006). Como exemplo teríamos os movimentos Negro e Indígena, que se unem pela força de uma identidade étnica (negra ou índia) e combatem o adversário do colonialismo, racismo e expropriação, tendo como projeto de luta o reconhecimento de sua identidade, suas tradições, valores e até mesmo de manutenção de um território que vive sob constante ameaça de invasão (os quilombos no caso dos negros e a luta pela demarcação de terras indígenas) (GOHN, 2014). Esses movimentos podem ser analisados por várias óticas, vieses ou abordagens (como queiram definir), sendo que nos estudos clássicos encontramos pelo menos três abordagens teóricas: histórico-estrutural, culturalista-identitária e institucional/organizacional-comportamentalista, além de ser hoje um recorte bem explorado pela História Política. A corrente histórico-estrutural, tem influência de autores como Karl Marx, Antônio Gramsci, Henri Lefebvre, Rosa Luxemburgo, Leon Trotsky e Vladimir llitch Lenin. A discussão travada por essa abordagem gira em torno da categoria de movimento social dos trabalhadores, melhor dizendo, o movimento revolucionário. A abordagem culturalista-identitária teve influências de diversas teorias. Podemos destacar dentro dessa linha teórica autores clássicos como Kant, Hegel, Rousseau, Nietzsche, Weber, a Escola de Frankfurt e a teoria crítica de forma geral. Essas teorias destacavam o papel da formação de uma cultura e uma identidade coletiva de acordo com aparatos de dominação que transpunham a ideia de um poder que não operasse somente no âmbito estrutural das contradições da dinâmica de classe. Melhor dizendo, essas teorias davam importância para um processo de dominação que não ocorria somente no campo da economia, mas também no campo das ideias (COSTA, 2013). A partir dos anos 1960, autores como Pierre Bourdieu, Michel Foucault, Jürgen Habermas, Norberto Bobbio, Hanna Arendt e Anthony Giddens davam atenção a uma produção em que o tema do poder era importante para pensar a dinâmica social. A proposta para esses autores era pensar as dinâmicas sociais Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados - sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas.34 como produto de relações entre estrutura e agência. Dentro do tema do poder e, principalmente da dominação, é preciso dar destaque para Bourdieu e Foucault. Bourdieu (2007) analisa o processo de dominação e a interiorização de estruturas objetivas nas relações entre os indivíduos, e Foucault através da discussão sobre o discurso e suas práticas de subjetivação. Para Foucault (2012), como já apresentamos, funcionava a noção de discurso não como aquilo que traduz as lutas ou os sistemas de dominação, mas aquilo pelo que se luta, o poder que queremos nos apoderar. Na gama dos autores que se utilizaram dessa matriz teórica estão Alain Touraine, Alberto Melucci, Claus Offe, Clifford Geertz, Alessandro Pizzorno, Hanspeter Kriesi e John Scott. Esses autores procuraram destacar a questão da identidade dos movimentos sociais em contraposto às abordagens estruturalistas ortodoxas. Apesar da crítica às análises estruturalistas ortodoxas, havia um diálogo profícuo com a dialética marxiana, principalmente com os trabalhos desenvolvidos pela corrente heterodoxa (COSTA, 2013). A última abordagem teórica clássica é a corrente denominada que se desenvolveu principalmente nos Estados Unidos, a qual leva em consideração fatores econômicos ou sociopsicológicos inseridos na teoria estrutural-funcionalista. Todo o pressuposto se fundamentava na ideia da escolha racional dos atores no processo de deliberação (COSTA, 2013). Como aponta Gohn (2008, p. 30), "nesta corrente, de certa forma, um movimento atingia seus objetivos quando se transformava numa organização institucionalizada". A rigor, as Ideologias e os movimentos sociais e políticos (por exemplo, as Revoluções) sempre constituíram pontos de especial interesse por parte da nova Historiografia que se inicia com o século XX, mesmo porque estes eram campos de interesses muito caros à nova História Social que estava então se formando. Por outro lado, hoje despertam um interesse análogo as relações interindividuais (micropoderes, relações de poder no interior da família, relacionamentos intergrupais), bem como o campo das representações políticas, dos símbolos, dos mitos políticos, do teatro do poder, ou do discurso. Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados - sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas.35 Se pensarmos no Brasil, os momentos de tensão desde o século XVI quando da Confederação dos Tamoios (1562), passando pela Inconfidência Mineira (1789), Revolução Constitucionalista de 1932, o Impeachment do ex-presidente Fernando (1992), são movimentos sociais e políticos que merecem atenção da História Política. Chegamos aos anos 90, 2000 com uma ebulição de demandas sociais que passam pelo Movimento de Mulheres, Movimento LGBT, Movimento Negro, Movimento Indígena e tantos outros. E bem recentemente o movimento via redes sociais que tem conseguido unificar "tribos" e até mesmo partidos políticos. São as relações de micropoder que vimos falando e que possibilitam a história traçar uma gama de relações: poder, discurso... 4.6 Conflitos conflito acompanha a história do homem. Nos primórdios, o homem conflitava consigo mesmo por meio de comunidades ordenadas a partir do sexo e da idade e praticando economias destruidoras dos recursos naturais, as comunidades disputavam as regiões de caça e as florestas. A liberdade e o igualitarismo da comunidade contrastavam com a constante condução de guerras às outras comunidades. Não havia lugar para a Política porque não havia conflito de interesses sociais distintos e uma estrutura de pensamento racional na comunidade (BARBOSA, 2003). O surgimento da propriedade privada, usufruída pela aristocracia agrária, a exemplo da Antiga Grécia, ou da propriedade pública, usufruída pela burocracia de Estado, a exemplo do Antigo Egito, inauguraram o conflito de interesse social distinto. A comunidade deu lugar à sociedade, isto é, uma organização social fundada na diferenciação social. A Política, tal como a conhecemos hoje, é inventada em uma sociedade na qual a propriedade privada, a desigualdade social e os novos conflitos são acompanhados por uma forma racional de conceber o mundo. A Política consiste em uma forma racional de administrar e/ou superar os conflitos a partir da construção de uma esfera pública por meio de leis, de instituições e da prática do debate público. Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados - sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas.36 A Política não assegura objetivos comuns. A Política se constitui inicialmente em um campo de prática tendo em vista legalizar, justificar e legitimar a propriedade privada e a opressão sobre o mundo do trabalho. Nesta direção, a classe proprietária e dominante lança mão dos filósofos (intelectuais) que, liberalizados da produção, produz ideias e concepções de mundo do interesse desta classe. A Política se constitui, também, em um campo de prática tendo em vista resistir e, no limite, romper com a propriedade privada e a opressão do mundo do trabalho. Diferentemente da classe proprietária e dominante, as classes do mundo do trabalho não pôde dispor, por um longo período histórico, de filósofos (intelectuais) que, liberalizados da produção, produzissem ideias e concepções de mundo do seu interesse. A Política possui como função associar e defender os amigos em face dos inimigos. Estes podem se servir de leis, instituições, instrumentos políticos, isto é, de diversos meios legais, físicos e culturais para atingir os próprios fins. Isso transforma o poder político em um poder superior a todas as outras formas de poder e ao qual todos recorrem para resolver os conflitos. A não solução dos conflitos no contexto de uma ordem social e/ou internacional pode acarretar a decomposição do Estado e/ou da ordem internacional, de forma a dar lugar à anarquia destrutiva do Estado e/ou da ordem internacional e das próprias relações de produção, a reformulação do Estado e/ou da ordem internacional nos limites das relações de produção vigentes ou a construção do novo Estado e/ou nova ordem internacional a partir de novas relações de produção (BARBOSA, 2003). Se formos citar exemplos da influência dos conflitos na História Política dos povos ficaremos páginas e mais páginas, mas a título de exemplo, citamos os casos do Haiti, Libâno, Israel e Palestina, Tunísia, Egito e indo para um universo micro, demarcação de terras indígenas, o movimento dos trabalhadores rurais pela terra, dos sem teto por moradia, das questões de gênero, enfim, são tantos (volte à ilustração da página 20 - "Interesses e objetos da História Política") e analise as inúmeras possibilidades de conflitos que podem ser analisados pela História Política. Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados - sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas.37 UNIDADE 5 - HISTÓRIA POLÍTICA Vamos iniciar nossa unidade com a frase vitoriana de Sir John Seeley, Catedrático de História em Cambridge: "História é a política passada: política é a história presente". A política foi admitida para ser essencialmente relacionada ao Estado; em outras palavras, era mais nacional e internacional, do que regional (BURKE, 1992). Esta é uma síntese da História Política Tradicional: os grandes feitos dos grandes reis! 5.1 Os primórdios da Historiografia Política Vários autores pesquisados são unânimes em nos lembrar o começo da História Política. A origem do termo política vem do grego pólis. A vida de um cidadão na pólis - pólis significando cidade estava centrada na sua atuação em duas esferas: a privada, que envolvia o âmbito familiar, e a esfera pública, que era exercida no espaço público urbano ou no ordenamento político - denominado espaço da pólis (BOBBIO, 1990). Privilegiando a narração das grandes ações humanas, os historiadores acabaram por eleger o Estado como o foco mais importante. A denominada História Política Tradicional, ao longo de seu processo de construção, foi demarcando temas, objetos e métodos, mas sempre tendo como alicerce a visão centralizada e institucionalizada do poder. A narrativa histórica revelava os eventos, as rupturas e os períodos das formas de poder dos soberanos (OLIVEIRA, 2007). A definição de ciência histórica no século XIX, junto com a afirmação das nações e da nova ordem burguesa, corroborou ainda mais para a hegemonia do político nos estudos da História (HOBSBAWM, 1990). A História Política do século XIX teve como objeto de estudo, basicamente, os fenômenos referentes aos Estados, dirigidos por seus líderes. As preocupações dessa História Política Metódica foram os estudos das grandes personalidades - como presidentes, reis, heróis nacionais, generais, eclesiásticos, dirigentes partidários, ilustrados -, as descrições dos episódios heroicos tais como as batalhas, as crises e as revoluções e as menções sobre elite social e instituições Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados - sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas.38 estatais. Poder significava a formação, a distribuição e o seu exercício a partir e por intermédio do Estado, tanto no âmbito nacional quanto no internacional (RÉMOND, 1994). Os historiadores destacavam figuras relevantes que ocupavam postos institucionais como os únicos condutores da História. Os demais membros da sociedade desempenhavam uma ação periférica nessa narrativa dos acontecimentos (OLIVEIRA, 2007). Grzybowski (2007) também nos conta que os estudos de História Política dominaram a produção historiográfica durante o início da institucionalização da História enquanto disciplina acadêmica. Neste período surgiram grandes tratados de profunda erudição que se propunham a abarcar todo o conhecimento acerca da História do mundo. Em âmbito nacional, cada país apresentava uma Historiografia centrada na problemática da delimitação do sentido de nação e das origens dessa nacionalidade. Por muito tempo, meados do século XX, a História Política ainda era fortemente identificada com a História Tradicional ou Positivista e a visão que os historiadores tinham dela era ainda muito semelhante elaborada pelas primeiras gerações da Escola dos Annales. No senso comum, corrente entre historiadores dos Annales, a História Política refere-se a um tipo de História que estaria inevitavelmente ligada a uma concepção estatista do poder e a uma estrutura narrativa (FALCON, 1997). Assim, a História Política Tradicional teria como objeto de estudo preferido o Estado e as classes dominantes, apresentando-as geralmente como sujeitos do desenvolvimento histórico, quando não como agentes civilizadores. Partindo dessas concepções, a História Política Tradicional procurava destacar as ideias, os planos, as estratégias, enfim, os aspectos conscientes da ação humana, por isso era uma história narrativa presa ao tempo do vivido, a curta duração. Consequentemente, a História Política Tradicional trata de acontecimentos, momentos singulares que não se comparam a nenhum outro, afirmando-se, portanto, como uma disciplina ideográfica, que pesquisa o particular, o singular, aquilo que não se reproduz e que, sendo assim, afirmavam os Annales, não poderia nunca se tornar uma ciência (NESPOLI, 2015). Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados - sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas.39 Corrente historiográfica que esteve ligada intimamente às visualizações do poder no Estado, a Historiografia Política começou por uma análise das pessoas importantes e de grande poder na sociedade, o que era um alvo mais fácil e mesmo o ideal para historiadores que, num dado momento, ansiavam por renovações nos olhares da História, a ponto de marcar a vida historiográfica com estudos que usavam como veículo uma revista e transformou-se em um movimento. Nascia os Annales e com ele uma crítica aos velhos métodos para o estudo da História (CLEMENTE, 2011). 5.2 Metodologias e fontes Segundo Barros (2011, p. 28), nenhuma disciplina adquire sentido sem que desenvolva ou ponha em movimento certas teorias, metodologias e práticas discursivas. Para ele, a metodologia remete sempre a uma maneira de trabalhar algo, de eleger ou constituir materiais, de extrair algo específico desses materiais, de se movimentar sistematicamente em torno do tema e dos materiais concretamente definidos pelo historiador. Essa eleição de materiais dos quais se extrai algo específico, esse movimento sistemático em torno dos materiais, nos remete imediatamente ao tema das fontes históricas (ANGELI; 2012). Até as primeiras décadas do século XX, o conhecimento era dominado pelo primado absoluto da razão. Dessa forma, a História deveria ser escrita dentro de um modelo que buscava fazer dela uma mestra para as futuras gerações. Na busca de uma História "verídica" e acreditando que o fundamento de toda a verdade estava na razão e sua capacidade de extrair das experiências estas verdades, as fontes monumentais tinham grande importância, através delas se poderia ter a comprovação do fato. Assim, eram consideradas apenas como fontes confiáveis os monumentos e os documentos escritos (OLIVEIRA, 1999). O depoimento oral, por exemplo, seria descartado como fonte verdadeira, pois é passível de sofrer alterações sob influência da imaginação. Cabia ao historiador ater-se à verdade: aquela que pudesse ser devidamente comprovada pelos documentos. Sendo assim, era exigida do historiador uma total objetividade e Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados - sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas.40 neutralidade. Não tendo o historiador qualquer envolvimento com seus estudos, permitiria que os fatos e as fontes falassem por si mesmos. Frente às transformações ocorridas na Historiografia e diante das constantes mudanças, característica da sociedade moderna, no início do século XX, o primado da razão e da produção de verdades absolutas sofreram contestações. Não se tem mais a pretensão de fazer da História uma mestra para o futuro, especialmente se considerarmos que o tão almejado "progresso" não trouxe para a humanidade apenas aspectos positivos, mas também a morte e os preconceitos. Segundo Félix (1998, p. 51), A História, unificada pelo fio condutor do progresso, sob a égide de um Estado-organizador de homens e individualidades submetidas a uma construção abstrata de uma humanidade voltada para as grandes utopias, acreditando num tempo uno e eternamente ascensional, esbarrou no século XX na tomada de consciência de que este tipo de razão, de logos condutor, justificador e legitimador não levaria o homem a essa perfeição sonhada, mas, entre outras coisas, ao horror de duas grandes guerras mundiais. Em função das novas perspectivas da Historiografia, a História Política tradicional, elaborada dentro do modelo positivista, sofre uma série de críticas pelo marxismo, o estruturalismo e a Escola dos Annales. Para os seguidores dessas correntes historiográficas, a História Política Tradicional restringia suas análises de conhecimento. Através de narrativas, dispostas de forma linear e cronológica, determinados sujeitos eram privilegiados enquanto seres históricos, ou seja, tratava-se de uma história elitista. Os acontecimentos não eram abordados e analisados dentro de um contexto mais amplo, ignorando-se, dessa forma, as conjunturas em que os fatos pontuais estavam inseridos. Conforme Félix (1998, p. 55), Historiadores destas três tendências: seguidores dos Annales, do marxismo e do estruturalismo contribuíram para o descrédito da história política ao identificá-la exclusivamente com o modelo de história acontecimento e narração de fatos. 5,3 Os primeiros passos da Escola dos Annales rumo à Nova História Política O campo da História passou por diversas transformações entre as décadas de 1970 e 1980, sendo as mais expressivas aquelas relacionadas à incorporação de Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados - sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas.41 temas contemporâneos, a revalorização da análise qualitativa e o retorno do singular FRANCO, 2009, p. 58). Juntamente com o novo impulso da história cultural, a partir da terceira geração dos Annales, ocorreu o retorno da política na cena historiográfica. A Escola do Annales havia sido criticada por uma suposta negligência em relação à História Política, mas como nos lembra Peter Burke (1995), ainda que Febvre e Braudel tenham se preocupado pouco com a política nacional, isso não ocorreu com um bom número de historiadores ligados à revista (ANGELI; SIMÕES, 2012). A primeira geração dos Annales buscou se contrapor ao modo como antes esta dimensão era trabalhada pelos historiadores: a História Política esteve ligada às monarquias e formação dos Estados Nacionais, dominando os estudos históricos no século XIX e no início do século XX, ou seja, no "momento de construção e consolidação dos Estados Nacionais que, como se sabe, utilizaram a história para legitimar seus projetos de poder" (D'ALESSIO, 2008, p. 39). Em Les Rois Thaumaturges, Marc Bloch apresenta uma nova forma de encarar o fenômeno político: seu tema é a crença, difundida na Inglaterra e na França (da Idade Média até o século XVIII), de que os reis tinham o poder de curar os doentes de escrófula (doença de pele conhecida como "mal dos reis") através do toque real ritualístico. objetivo de Bloch era contribuir com a História Política da Europa ao analisar a monarquia, pois, para ele, "o milagre real foi acima de tudo a expressão de uma concepção particular do poder político supremo" (BLOCH apud BURKE, 1997, p. 29). Lucien Febvre e Marc Bloch, fundadores da revista, criticavam a valorização do político em detrimento do econômico e do social, sobretudo porque a aparente objetividade deste tipo de História, na prática, dissimulava uma escolha arbitrária que valorizava as elites, os grandes acontecimentos e o tempo curto. Passou-se, a partir dos Annales, a condenar a preocupação com fatos únicos, com o particular em detrimento da comparação e do geral, além do caráter elitista de uma preocupação exclusiva com grupos sociais dominantes. A partir da análise braudeliana, os fatos políticos são consagrados como uma "espuma" fortuita de importância secundária no "oceano das estruturas e processos de longa duração". Para os Annales, a história Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados - sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas.42 política tinha um número infinito de defeitos, era elitista, anedótica, individualista, factual, subjetiva, enquanto que a concepção de História dos Annales caracteriza-se principalmente pela ênfase nas massas e na longa duração, entendida, sobretudo, como História Econômica e Social (BORGES, 1991/92). Somente na década de 1970, como já pontuado, que alguns historiadores dos Annales buscaram superar esta concepção tradicional, tão criticada pelas gerações anteriores, e demonstrar que a História Política é tão científica como qualquer outro campo de estudo. Como afirmou Jacques Juliard, havia na verdade uma grande confusão entre as insuficiências de um método e seus objetos de estudo, ou seja, acreditava-se, entre os historiadores dos Annales, que era da natureza dos fenômenos políticos a sua limitação à categoria de fatos, à relação indissociável entre história tradicional e história política (FALCON, 1997). Coube, deste modo, aos historiadores da geração dos Annales (1968- 1989) desfazer a confusão entre método e objeto que predominava na Historiografia annalista acerca do estudo da História Política, demonstrando que este tipo de história não é forçosamente factual nem está condicionada a sê-lo. Assim, o desafio para a História Política consistia em superar a abordagem tradicional (narrativa e concepção institucional do poder) e assimilar a noção dos Annales de que a História é composta por uma pluralidade de tempos com diferentes ritmos de "duração" (NESPOLI, 2015). 5.4 Orientações inovadoras da Nova História Política De acordo com Gomes (1996), a ressignificação da História Política trouxe orientações inovadoras e fundamentais: a) A História Política não só não é redutível a um reflexo superestrutural de um determinante qualquer de outra natureza (seja econômico ou não), como goza de autonomia ampla. b) A História Política deve ser pensada como um campo mutável através do tempo e do espaço, podendo expandir-se ou contrair-se, incorporando ou eliminando temas. c) A História Política tem fronteiras fluidas com outros campos da realidade social, questões culturais. Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados - sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas.43 d) A História Política privilegia o acontecimento, que não pode ser superestimado nem banalizado, mas sim investido de um valor "próprio" que lhe é em grande parte atribuído/vivenciado pelos seus contemporâneos. e) A História Política sofre, de forma ainda mais radical, uma demanda social pela incorporação do tempo presente. f) A História Política também sofre o impacto da absorção de novos objetos e metodologias - a História Oral, por exemplo -, mais ainda quando associada à História Cultural, o que também a aproxima particularmente dos trabalhos dos cientistas sociais, políticos em especial. Ferreira (1992) e Oliveira (1999) também destacam o eixo central dessa renovação da História Política. Segundo a primeira, ocorreu grande intercâmbio da História com a Ciência Política, "permitindo que o tema da participação na vida política ocupe um espaço fundamental na história" e levando os historiadores aos estudos sobre processos eleitorais, partidos políticos, grupos de pressão, opinião pública, mídia e relações internacionais, enquanto contatos com a Sociologia, a Linguística e a Antropologia têm rendido frutos em trabalhos sobre a sociabilidade, análises de discurso e história da cultura (OLIVEIRA, 1999). Nos últimos dez anos, conforme Roger Chartier (1994 apud OLIVEIRA, 1999), os historiadores vão perceber a importância do indivíduo, sua forma de agir e pensar na formação do todo social. Chartier ressalta, ainda, a importância de se compreender que o discurso e a representação de uma classe ou de um determinado grupo tornam-se muitas vezes hegemônicos, moldando o comportamento dos indivíduos que dele se apropriam. Houve também, segundo o mesmo autor, uma conscientização por parte dos historiadores que seu discurso é uma narrativa, não dos grandes heróis, mas das entidades anônimas e abstratas. Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados - sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas.44 UNIDADE 6 A HISTÓRIA POLÍTICA NO BRASIL Barros (2009) nos deixou claro ao longo de várias falas, que a História Política pode ser apresentada, inicialmente, como a modalidade da história que se organiza em torno do conceito de Poder, cumprindo observar que foi precisamente a expansão e o enriquecimento desse conceito o que permitiu uma ampliação de objetos e de interesses por parte dos historiadores políticos, deslocando seus objetos de estudo para microespaços. Segundo Gomes (s.d. apud OLIVEIRA, 2007), é significativa a produção historiográfica sobre os estudos políticos no Brasil, tanto sob a ótica da Nova História Política, quanto sob as lentes da ciência política no campo das Ciências Sociais. A pesquisadora afirma que esses novos modelos interpretativos da História do Brasil estão entrelaçados com as mudanças teóricas e metodológicas da Historiografia Internacional e os denominam História Política Renovada. Mesmo os estudos na dimensão da História Social, Gomes considera importante privilegiar abordagens que ressaltam variáveis políticas e culturais, reconhecendo-as como instituintes da realidade social. Como a História tem o objetivo de explicar o tempo atual e o historiador é um sujeito de seu tempo, o conhecimento historiográfico recente tem procurado reinterpretar o passado em razão do presente ou mesmo motivado pelo futuro tal como este é posto como ideal. Comprometidas com esta problemática atual, as vertentes da Historiografia do Brasil não poderiam deixar de ter uma preocupação crescente com o enfoque político, a exemplo de José Murilo de Carvalho que discutiremos adiante. As razões da continuidade e da revitalização da História Política se devem à importância do político no mundo moderno, principalmente às mudanças no cenário internacional a partir da década de 1980, exemplificadas nas críticas ao modelo soviético autoritário e no de democracia, no reformismo, no surgimento dos movimentos nacionalistas e na reordenação da economia mundial. No Brasil, o principal motivo foi o processo da transição democrática nos anos de 1980 e todos os desafios da sociedade brasileira para consolidar a democracia, fundamentada nos princípios básicos de cidadania. Garantida a democracia de direito, com a Constituição de 1988, restam ainda, para os diversos Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas.45 setores sociais brasileiros, analisar de que forma estes estão sendo alcançados ou quais são as chances de se realizarem (OLIVEIRA, 2007). Dentre os principais desafios, podemos citar: a erradicação das práticas políticas autoritárias, a redução da desigualdade social e construção da cidadania plena, a eliminação do clientelismo dos partidos, a organização dos serviços públicos, o banimento da corrupção dos políticos; corrupção esta que também está entranhada nas relações interpessoais (BETHEL, 2002). Mas continuemos. Vamos analisar alguns historiadores que fazem parte da Nova História Política. 6.1 José Murilo de Carvalho José Murilo de Carvalho, mineiro de Andrelândia, nascido em 1939, cientista político e historiador, é uma das maiores referências nacionais no que tange à História Política. Em Desenvolvimiento de la ciudadania en Brasil, Carvalho confere um valor praticamente universal à caracterização da evolução da cidadania na sociedade industrial moderna, proposta por Marshall em "Cidadania, classe social e status". Analisando a Inglaterra contemporânea, esse autor detectara a concretização, nesse país, de um certo padrão de evolução da cidadania: instauração predominante das liberdades civis elementares no século XVIII; de direitos políticos no século XIX; e de direitos sociais no século XX. Já Carvalho vai mais longe, sustentando que o padrão inglês, desenhado por Marshall, é na verdade o padrão normal de instauração progressiva da cidadania na sociedade contemporânea. Na sua perspectiva, qualquer outro padrão seria anômalo, isto é, representaria um desvio da normalidade com consequências funestas sobre aquilo que poderíamos chamar "o resultado final": a situação presente da cidadania, considerada globalmente, numa sociedade qualquer (SAES, 2001). Munido desse dispositivo teórico, Carvalho passa à análise política da sociedade brasileira e detecta a presença constante de pelo menos duas grandes anomalias no processo de implantação e de desenvolvimento da cidadania no Brasil. Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados - sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas.46 A primeira anomalia consistiria na existência de uma defasagem permanente entre os direitos legalmente declarados e os direitos efetivamente exercidos, ou melhor, numa contradição persistente entre o "país legal" e o "país real". A segunda anomalia consistiria numa inversão constante da ordem normal de implantação de diversos elencos de direitos. Assim, por exemplo, amplas liberdades políticas ter-se-iam instaurado em pleno Império, isso ocorrendo paradoxalmente numa sociedade (escravocrata) que negava liberdades civis elementares a escravos e a homens livres pobres. Além disso, os direitos políticos teriam passado por sucessivos avanços e recuos (o que implicaria a alternância, na História Política do Brasil, de períodos democráticos e de períodos ditatoriais). Finalmente, importantes elencos de direitos sociais teriam sido concedidos, a título compensatório, por dois regimes ditatoriais: o Estado Novo e o regime militar de 1964-1984 (o que significaria uma antecipação anômala da instauração de direitos sociais sobre a de direitos políticos). Na reflexão sobre as causas históricas desse desvio, dessa anomalia, o autor recorre em primeira instância ao tema da carência relativa de lutas populares pela conquista de direitos no Brasil; carência essa que se evidenciaria na comparação com o caso inglês, no qual avulta a importância, no processo de conquista de direitos, de movimentos populares como o cartismo, numa primeira etapa, e o trabalhismo organizado em partido político, numa segunda etapa. Porém, é um fator cultural de natureza trans-histórica que explica em última instância, segundo Carvalho, não só tal carência de lutas populares pela cidadania como também, de um modo mais geral, as anomalias da implantação e do desenvolvimento da cidadania no Brasil. Esse fator seria a cultura política ibérica: ela teria transmitido ao Brasil, desde o início da colonização, um ideal de comunidade paternalista, no qual não há lugar para a luta pela conquista de direitos, substituída esta pela distribuição de favores por parte dos de cima e pela manifestação de lealdade ou gratidão por parte dos de baixo (SAES, 2001, p. 385). modelo explicativo esboçado por Carvalho coloca, ao leitor minucioso, problemas teóricos que não são de pequena monta: o fator cultural de caráter trans- histórico intervém, como uma força externa deformadora, num processo - o da emergência e desenvolvimento da cidadania - cujas causas se encontram alhures? Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados - sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas.47 Ou ele é a causa geral de um processo anômalo único - o da emergência e desenvolvimento da cidadania insuscetível de ser decomposto, para fins explicativos, em aspectos "positivo" (a ideia de direitos) e "negativo" (o desrespeito prático à ideia de direitos)? No caso de a primeira fórmula exprimir mais adequadamente o pensamento de Carvalho, o problema não resolvido é o da caracterização do motor do processo, cujo percurso sofreria um desvio por obra da influência do fator cultural de natureza trans-histórica. No caso de a segunda fórmula corresponden mais estreitamente à perspectiva de Carvalho, avultará a incongruência metodológica consistente em buscar a explicação de uma mudança política real (a instauração e o desenvolvimento da cidadania, ainda que com "déficits" e "carências") em elementos invariantes, quando seria mais razoável pesquisar, na busca de alguma relação causal entre processos, variações concomitantes. Em qualquer um dos dois casos, é o modelo culturalista de Carvalho que bloqueia a busca do motor do processo de implantação e de desenvolvimento da cidadania; processo esse que se configura como uma mudança política real, por mais "atípica" e "anômala" que possa ser considerada com relação ao padrão inglês (SAES, 2001). No Brasil, José Murilo de Carvalho já esteve envolvido em problemática semelhante, ao escrever "A formação das almas: o imaginário da República no Brasil". Nessa obra, que enfatiza o imaginário republicano, o autor busca a explicação do fracasso da representação da República enquanto mulher: "ela falhava dos dois lados do significado, no qual a República se mostrava longe dos sonhos de seus idealizadores, e do significante, no qual inexistia a mulher cívica" (CARVALHO, 1990, p. 96). Sua maneira inovadora está presente no texto sobre a criação do mito Tiradentes, também em A formação das almas: Heróis são símbolos poderosos, encarnações de ideias e aspirações, pontos de referência, fulcros de identificação coletiva. São, por isso, instrumentos eficazes para atingir a cabeça e o coração dos cidadãos a serviço da legitimação de regimes políticos (CARVALHO, 1990, p. 55). Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados - sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas.48 Já no clássico "Os bestializados: o Rio de Janeiro e a República que não foi", Carvalho dá ênfase à questão da cidadania: "Na República que não era, a cidade não tinha cidadãos" (ANGELI; SIMÕES, 2012). Para a grande maioria dos fluminenses, "o poder permanecia fora do alcance, do controle e mesmo da compreensão" (CARVALHO, 1987, p. 162-163). Na mesma obra, referência para a História Política, o autor busca as motivações da Revolta da Vacina, entre as quais os valores ameaçados pela interferência do Estado, como o respeito à virtude da mulher e a honra do chefe de família (idem, p. 136). Mais recentemente, em Cidadania no Brasil, longo caminho, Carvalho (2011) aborda a história política brasileira do ponto de vista dos direitos sociais, civis e políticos (ANGELI; SIMÕES, 2012). 6.2 Luiz Carlos Bresser Pereira Outro escritor, não especificamente um historiador, mas que se mostra tão consciente de não ser possível passar pelo tema da evolução da cidadania em geral ou da cidadania especificamente política no Brasil sem que se reflita minimamente sobre as causas históricas da emergência de um certo padrão evolutivo, temos José Carlos Bresser Pereira (1987), que busca, em "Cidadania e res publica: a emergência dos direitos republicanos", um modelo explicativo que capte a relação causal subjacente a duas variações concomitantes: o desenvolvimento do capitalismo e o processo de instauração de direitos políticos. Para Bresser Pereira (1997), o desenvolvimento do capitalismo ocasiona a desconcentração de quatro atributos que conferem poder aos grupos sociais: a força, a riqueza, a hegemonia ideológica e o conhecimento técnico e organizacional. Ora, essa desconcentração de recursos, engendrada no longo prazo pelo capitalismo, é, segundo o autor, o patamar indispensável à instauração efetiva de direitos políticos e à consequente implantação de regimes democráticos. Num outro texto: Sociedade civil: sua democratização para a reforma do Estado (1998), Bresser Pereira parece se servir desse modelo explicativo na análise do processo histórico brasileiro. Para ele, há uma clara defasagem entre a evolução política dos países capitalistas avançados e a de países periféricos, como o Brasil ou outros da América Latina: enquanto os primeiros alcançaram a cidadania política Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados - sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas.49 e o regime democrático na primeira metade do século XX, os últimos só chegaram a esse patamar na segunda metade do século XX. E essa defasagem no plano do advento da cidadania política e da democracia parece exprimir atraso dos países periféricos no plano do desenvolvimento do capitalismo (SAES, 2001). A reflexão crítica sobre o esquema explicativo sugerido por Bresser Pereira deve começar destacando o seu aspecto positivo: vale dizer, as implicações materialistas de sua postura teórica. Tais implicações conferem à sua análise um interesse superior apresentado por análises fundadas numa postura idealista. A seguir, porém, deve-se qualificar como problemática a tese de que o desenvolvimento do capitalismo produz genericamente efeitos desconcentradores. De acordo com Saes (2001), é certo que tal desenvolvimento engendrou um aparelho de serviços e, consequentemente, uma nova classe média, em permanente expansão, o que desmentiu a suposição marxiana inicial de uma crescente polarização econômica na sociedade capitalista. Também é incontestável que os ganhos de produtividade, ensejados por esse desenvolvimento, viabilizaram o aumento dos salários reais dos trabalhadores (aumento esse que exprimiria, não a liberalidade da classe capitalista, mas a complexificação crescente da pauta de consumo incorporada ao processo de reprodução da força de trabalho alocada no sistema produtivo capitalista). 6,3 Cultura política e poder na Nova História Política no Brasil Santos (2013) apresenta cultura política como sendo o conjunto de pessoas que partilham e informam o modo de perceber e agir politicamente, ou seja, representações amplamente disseminadas de uma tradição política. Em outros termos: Conjunto de valores, tradições, práticas e representações políticas partilhado por determinado grupo humano, que expressa uma identidade coletiva e fornece leituras comuns do passado, assim como fornece inspiração para projetos políticos direcionados ao futuro (MOTTA, 2009, p. 21). Para Berstein (1995 apud SANTOS, 2013), cultura política possibilita ajustar de forma mais eficiente a complexidade humana diante das relações de poder, os atos políticos e suas motivações. Para tanto, Berstein destaca a relevância das Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados - sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas.50 representações como elemento definidor de uma cultura política. Outro aspecto que vai rever o caráter homogêneo, estático e ideal da ciência política clássica é a dinâmica e a pluralidade das culturas políticas, mesmo que tendendo a uma condução de uma cultura dominante. Dois aspectos devem ser destacados dentro dessa dinâmica e pluralidade citadas. Quanto a essa pluralidade, a cultura política se vale do conceito de subcultura como um instrumento facilitador para analisar essa complexidade, admitindo uma cultura própria mesmo comungando de elementos de uma cultura maior. Por sua vez, apesar de dinâmica, uma cultura política requer que se elabore e socialize, enfim, encarne nos atores sociais, implicando uma análise temporal duradoura, superando a curta duração das análises políticas clássicas. Vale ressaltar que a cultura política não exclui esse enfoque clássico, mas apresenta uma nova vertente, superando o poder apenas no campo institucional, ao mesmo tempo em que inclui outros conceitos. Ocorre para o historiador um duplo interesse na cultura política: o da dimensão individual, ligado ao discurso, a encarnação de valores comuns que o homem adota; e o da dimensão coletiva, que comunga uma mesma leitura expressa em símbolos, rituais, atitudes, entre outros. (SANTOS, 2013). Segundo Nespoli (2015), os historiadores só começaram a utilizar o conceito de cultura política por volta de meados da década de 1970, em função da revisão de algumas proposições que vigoravam na Escola dos Annales. Entre pioneiros na renovação da História Política, geralmente destacam-se a importância de Jacques Le Goff, Jacques Juliard, Maurice Agulhon, François Furet, René Rémond. Esses historiadores estavam preocupados em rebater as críticas que durante décadas inferiorizaram o estudo da política no interior dos Annales. Esse movimento de recuperação e renovação da história política implicou a incorporação de novas ideias e conceitos que afirmavam a não limitação do político ao fato, à dimensão do tempo curto. É justamente neste sentido que a apropriação do conceito de cultura política é apresentada como "renovadora" para a História Política na medida em que lhe possibilita superar o fato e entrar em contato com fenômenos duradouros e estáveis no tempo. 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