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<p>História</p><p>Medieval</p><p>Professor Dr. João Paulo Pacheco Rodrigues</p><p>EduFatecie</p><p>E D I T O R A</p><p>Reitor</p><p>Prof. Ms. Gilmar de Oliveira</p><p>Diretor de Ensino</p><p>Prof. Ms. Daniel de Lima</p><p>Diretor Financeiro</p><p>Prof. Eduardo Luiz</p><p>Campano Santini</p><p>Diretor Administrativo</p><p>Prof. Ms. Renato Valença Correia</p><p>Secretário Acadêmico</p><p>Tiago Pereira da Silva</p><p>Coord. de Ensino, Pesquisa e</p><p>Extensão - CONPEX</p><p>Prof. Dr. Hudson Sérgio de Souza</p><p>Coordenação Adjunta de Ensino</p><p>Prof.ª Dra. Nelma Sgarbosa</p><p>Roman de Araújo</p><p>Coordenação Adjunta de</p><p>Pesquisa</p><p>Prof. Dr. Flávio Ricardo Guilherme</p><p>Coordenação Adjunta de</p><p>Extensão</p><p>Prof. Esp. Heider Jeferson</p><p>Gonçalves</p><p>Coordenador NEAD - Núcleo de</p><p>Educação a Distância</p><p>Prof. Me. Jorge Luiz Garcia Van Dal</p><p>Web Designer</p><p>Thiago Azenha</p><p>Revisão Textual</p><p>Kauê Berto</p><p>Projeto Gráfico, Design</p><p>e Diagramação</p><p>André Dudatt</p><p>UNIFATECIE Unidade 1</p><p>Rua Getúlio Vargas, 333,</p><p>Centro, Paranavaí-PR</p><p>(44) 3045 9898</p><p>UNIFATECIE Unidade 2</p><p>Rua Candido Berthier Fortes,</p><p>2177, Centro Paranavaí-PR</p><p>(44) 3045 9898</p><p>UNIFATECIE Unidade 3</p><p>Rua Pernambuco, 1.169,</p><p>Centro, Paranavaí-PR</p><p>(44) 3045 9898</p><p>UNIFATECIE Unidade 4</p><p>BR-376 , km 102,</p><p>Saída para Nova Londrina</p><p>Paranavaí-PR</p><p>(44) 3045 9898</p><p>www.unifatecie.edu.br/site/</p><p>As imagens utilizadas neste</p><p>livro foram obtidas a partir do</p><p>site ShutterStock</p><p>https://orcid.org/0000-0001-5409-4194</p><p>2021 by Editora EduFatecie</p><p>Copyright do Texto © 2021 Os autores</p><p>Copyright © Edição 2021 Editora EduFatecie</p><p>O conteúdo dos artigos e seus dados em sua forma, correção e confiabilidade são de responsabilidade exclusiva</p><p>dos autores e não representam necessariamente a posição oficial da Editora EduFatecie. Permitido</p><p>o download da obra e o compartilhamento desde que sejam atribuídos créditos aos autores, mas sem a</p><p>possibilidade de alterá-la de nenhuma forma ou utilizá-la para fins comerciais.</p><p>EQUIPE EXECUTIVA</p><p>Editora-Chefe</p><p>Prof.ª Dra. Denise</p><p>Kloeckner Sbardeloto</p><p>Editor-Adjunto</p><p>Prof. Dr. Flávio Ricardo</p><p>Guilherme</p><p>Assessoria Jurídica</p><p>Prof.ª Dra. Letícia</p><p>Baptista Rosa</p><p>Ficha Catalográfica</p><p>Tatiane Viturino de</p><p>Oliveira</p><p>Zineide Pereira dos</p><p>Santos</p><p>Revisão Ortográ-</p><p>fica e Gramatical</p><p>Prof.ª Esp. Bruna</p><p>Tavares Fernades</p><p>Secretária</p><p>Geovana Agostinho</p><p>Daminelli</p><p>Setor Técnico</p><p>Fernando dos Santos</p><p>Barbosa</p><p>Projeto Gráfico,</p><p>Design e</p><p>Diagramação</p><p>André Dudatt</p><p>www.unifatecie.edu.br/</p><p>editora-edufatecie</p><p>edufatecie@fatecie.edu.br</p><p>Dados Internacionais de Catalogação na Publicação - CIP</p><p>R696h Rodrigues, João Paulo Pacheco</p><p>História medieval / João Paulo Pacheco Rodrigues .</p><p>Paranavaí: EduFatecie, 2021.</p><p>97 p. : il. Color.</p><p>ISBN 978-65-87911-38-0</p><p>1. Idade Média - História. 2. História – Período medieval.</p><p>I. Faculdade de Tecnologia e Ciências do Norte do Paraná - UniFatecie.</p><p>II. Núcleo de Educação a Distância. III. Título.</p><p>CDD : 23 ed. 909.07</p><p>Catalogação na publicação: Zineide Pereira dos Santos – CRB 9/1577</p><p>AUTOR</p><p>Prof: João Paulo Pacheco Rodrigues</p><p>• Doutor em História Social pela Universidade Estadual de Maringá (2019), Mestre</p><p>em História Cultural pela mesma (2012), Especialista em História do Brasil pela</p><p>Universidade Cândido Mendes-RJ (2015). Graduado em História pela Univer-</p><p>sidade Estadual de Maringá (2007). Tem experiência na área de História , com</p><p>ênfase em História do Brasil, História do Paraná e Patrimônio Cultural.</p><p>• Autor dos livros:</p><p>• AS ARTES DA HISTÓRIA: Memórias, Fontes e Métodos.. 1. ed. Maringá: Diá-</p><p>logos, 2019</p><p>• Estudos de História Regional no Vale do Ivaí. 1. ed. Maringá: Unicorpore, 2017.</p><p>• Ivatuba: História, Memória e Tradição Paranaense. 1. ed. Maringá: Unicorpore,</p><p>2014.</p><p>Link do Currículo na Plataforma Lattes.</p><p>http://lattes.cnpq.br/1673126629080517</p><p>APRESENTAÇÃO DO MATERIAL</p><p>Bem-vindo, caro aluno (a), nas próximas páginas vamos mergulhar no período me-</p><p>dieval da história da humanidade e discutir questões importantes e que influenciaram todas</p><p>as sociedades do mundo moderno e contemporâneo. Através de documentos, imagens e</p><p>outras fontes históricas faremos uma reflexão sobre esses mil anos de História e o legado</p><p>deixado para o homem.</p><p>Antes de iniciar a nossa discussão vamos levantar algumas questões! Muitos co-</p><p>nhecem a Idade Média como a Idade das Trevas. Mas será que realmente esse período foi</p><p>uma época das trevas, de escuridão, em que não houve produção de conhecimento?</p><p>Outra questão importante, qual era o papel da figura do rei nesse período? Será que esse</p><p>rei foi tão absoluto como vimos nos filmes de Hollywood? Por último, quando nos</p><p>lembramos da Idade Média, sempre associamos a Igreja e o cristianismo como os maiores</p><p>influenciadores desse período, porém o poder estava apenas na mão dessa instituição?</p><p>Visando responder essas dúvidas, dividimos o nosso material em quatro partes.</p><p>Na unidade I vamos definir o que foi o termo idade Média e o principal modo de</p><p>produção desse período, o feudalismo. Na unidade II você ira saber mais sobre o Islamismo</p><p>e os Impérios Bizantinos e Otomanos que marcaram esse período seja com sua forma de</p><p>expressão, domínio, arte e religião, na terceira unidade focamos na questão da produção do</p><p>conhecimento e na consolidação do saber, falando sobre movimentos como a “escolástica”</p><p>e a “patrísticas” e grandes pensadores como Santo Agostinho e São Tomaz de Aquino, por</p><p>ultimo encerramos as nossas discussões, conhecendo sobre a arte na Idade medieval, des-</p><p>de a românica até a gótica, passando por práticas culturais como as tapeçarias, iluminuras</p><p>medievais, pinturas, e romances”.</p><p>Dessa forma, pretendemos mostrar uma nova vertente da Idade Média e que esse</p><p>conhecimento contribua na formação de cada novo historiador.</p><p>Tenham bons estudos e muito obrigado!</p><p>SUMÁRIO</p><p>UNIDADE I ...................................................................................................... 3</p><p>O que foi a Idade Média ?</p><p>UNIDADE II ................................................................................................... 25</p><p>O Oriente</p><p>UNIDADE III .................................................................................................. 47</p><p>O Saber Medieval</p><p>UNIDADE IV .................................................................................................. 68</p><p>A Cultura Medieval</p><p>3</p><p>Plano de Estudo:</p><p>• Periodização de uma época – Ocidental;</p><p>• A alta idade média e o surgimento do feudalismo.</p><p>Objetivos da Aprendizagem:</p><p>• Contextualizar o que foi a Idade Média;</p><p>• Examinar a visão renascentista desse período;</p><p>• Analisar o principal modo de produção.</p><p>UNIDADE I</p><p>O que foi a Idade Média ?</p><p>Professor Doutor João Paulo Pacheco Rodrigues</p><p>4UNIDADE I O que foi a Idade Média ?</p><p>INTRODUÇÃO</p><p>Quem inventou o nome Idade Média? Esse termo, assim como outras denomina-</p><p>ções históricas, foi criado depois que ela ocorreu. Imagina que você está com seus amigos,</p><p>discutindo a vida e vocês começam a pensar que o momento que vocês estão vivendo é</p><p>muito mais bacana que o momento em que seus pais viveram. Então você pode dizer que</p><p>você é um cara moderno e que quem veio antes de você é um mediano, um tempo das</p><p>trevas.</p><p>5UNIDADE I O que foi a Idade Média ?</p><p>1. O QUE FOI A IDADE MÉDIA?</p><p>E assim, por muito tempo a Idade Média foi classificada como a idade das trevas!</p><p>Mas será que esse período foi sempre escuro? Não havia luz? Isso que vamos descobrir</p><p>nessa unidade.</p><p>Os humanistas da Renascença observam a Idade Média apoiados em um</p><p>fator de medo, gerado pela peste, fome e constantes guerras entre os mouros</p><p>e cristãos. Eles partem desse princípio para homogeneizar a Idade Média em</p><p>um período obscurecido pelas mazelas produzidas pelas instituições. Tem-</p><p>-se, nesse aspecto, uma clara amostragem do dispositivo. Os renascentistas</p><p>escrevem a história a partir de seus preceitos morais, condenando ou elo-</p><p>giando os acontecimentos.(BARBOSA e SILVA, 2018, p,5)</p><p>O termo idade das trevas é discriminatório e preconceituoso, essa visão deturpada</p><p>deve-se justamente por conta dos homens que viveram posteriormente a Idade Média,</p><p>principalmente os renascentistas que</p><p>ainda no período da Antiguidade,</p><p>os eventos foram realizados no Coliseu, no Império Bizantino, a grande diversão eram as</p><p>corridas de cavalos, no hipódromo da cidade. Existia uma grande rivalidade entre dois</p><p>grupos a “verde” e a “äzul”, sobre esses grupos,</p><p>Na tentativa de explicar a separação entre os Verdes e Azuis no Império Bi-</p><p>zantino muitos historiadores criaram teorias de diferenciação destas duas</p><p>facções. Manojlović aponta para a separação entre duas classes sociais:</p><p>sendo os aristocratas a cor azul, e o povo verde45. Manojlović também apon-</p><p>ta para uma separação de cunho religioso, vinculado à própria questão so-</p><p>cial. Assim, propõe que os Azuis seriam aristocratas, de Constantinopla, de</p><p>províncias europeias, da elite intelectual de províncias da Ásia ou do Egito,</p><p>sendo ortodoxos, enquanto os Verdes seriam o povo de classe mais baixa,</p><p>dos fellahin do Egito, dos estrangeiros da Síria ou Antioquia, sendo monofisi-</p><p>tas (NETE, 2012, p. 82).</p><p>Havia muita violência entre esses dois grupos, e na tentativa de reduzir essa rixa,</p><p>Justiniano decidiu punir os líderes de ambas, condenando-os à morte. A decisão do então</p><p>imperador desagradou os dois grupos e durante uma das corridas, os mesmos se uniram e</p><p>levantaram um motim contra Justiniano. Esse conflito foi apenas o estopim da</p><p>insatisfação dos moradores da região contra o imperador. O levante durou cerca de três</p><p>dias, aconselhado por sua esposa a Imperatriz Teodora, Justiniano resistiu aos ataques.</p><p>Resultando no total de 30 mil mortos dentro do hipódromo.</p><p>E quais as consequências da “Revolta de Nika”? Justiniano tornou-se ainda mais</p><p>forte e as pessoas passaram a temê-lo, além disso o Império Bizantino começou a se</p><p>expandir, aumentando as suas fronteiras para áreas da Ásia e Europa. Esse crescimento</p><p>teve uma queda com a morte de Justiniano em 14 de novembro de 565 aos 83 anos.</p><p>Sobre a economia do Império Bizantino, ela era pautada no comércio do Mar Me-</p><p>diterrâneo, era uma economia baseada na produção de tecidos, na agricultura realizada</p><p>pelos camponeses e pelo domínio das rotas comerciais do mar já citado. Existia uma gama</p><p>de manufaturas, compostas por servos que trabalhavam nesse império e nessas rotas co-</p><p>merciais, eram negociados produtos como trigo, o ouro e alguns condimentos e temperos.</p><p>A existência milenar do Império Bizantino em boa parte foi resultado de uma</p><p>economia estável, que lhe dava os recursos necessários para enfrentar os</p><p>inúmeros inimigos externos e para sustentar os imensos gastos exigidos pela</p><p>corte e pela Igreja. Quando as vigas mestras de sua economia foram enfra-</p><p>quecidas, todo o império oscilou: a decadência econômica preparou o desa-</p><p>parecimento político de Bizâncio (JUNIOR, 1977, p. 23) .</p><p>De acordo com Giordani (1998), a religião do Império Bizantino era predominante</p><p>cristã, no entanto devido às distintas diferenças culturais e sociais, existiam vertentes que</p><p>pensavam o cristianismo de maneiras diferentes. Como por exemplo o “movimento icono-</p><p>37UNIDADE II O Oriente</p><p>clasta” que eram aqueles que não aceitavam a adoração de imagens sagradas. Eles tinham</p><p>o costume de invadir igrejas, templos religiosos e quebrar imagens, pois acreditavam que</p><p>aquilo não representava a verdadeira fé. Afirmavam que você não poderia orar por aquela</p><p>imagem e sim somente ter uma ligação direta com Deus. Os imperadores tentavam reprimir</p><p>esse movimento, porém era muito difícil, pois agiam sempre às escondidas, na madrugada.</p><p>Outro movimento de grande influência no Império Bizantino, eram os “monofisis-</p><p>tas”, que acreditavam que Jesus não era formado pelo corpo e alma, ou seja pelo divino e</p><p>humano mas sim apenas pela parte sacra, nesta visão, Jesus teria apenas uma natureza</p><p>e não duas como defendido pelo cristianismo. Sobre essa ordem, Maria Regina da Cunha</p><p>Rodrigues (1963) destaca que:</p><p>O Monofisismo, heresia cristológica do V século provocada pelo arquimandri-</p><p>ta Eutíquio, ao ensinar que em Cristo havia uma só natureza, foi condenado</p><p>no Concílio Ecumênico de Calcedônia em 451. As decisões dogmáticas deste</p><p>Concílio — dualidade das naturezas divina e humana unidas pelo mistério da</p><p>união hipostática na pessoa de Jesus Cristo, Filho de Deus feito homem, —</p><p>foram pacificamente recebidas no Ocidente Cristão; recusadas, desvirtuadas,</p><p>criticadas, entretanto o foram no Oriente, com a cumplicidade dos Patriarcas</p><p>do Egito e Constantinopla. ( RODRIGUES, 1963, p. 1).</p><p>E haviam os opositores a esse grupo, os chamados “arianos ”que negavam a</p><p>existência da consubstancialidade entre Jesus e Deus, ou seja, eram contra o dogma da</p><p>Santíssima Trindade (Deus seria ao mesmo tempo o pai, filho e o espírito santo). O “aria-</p><p>nismo” foi um movimento presente desde os primórdios da Igreja Católica, ainda no ano de</p><p>319, defendido por Ário, em Alexandria e acreditavam que a única natureza de Jesus era</p><p>corporal.</p><p>Então existiam diversas correntes do cristianismo na Europa oriental, e a Igreja</p><p>Católica de Roma sempre procurou reprimir esses movimentos, ela julgava que todos</p><p>aqueles que seguiam essas vertentes eram infiéis, hereges.</p><p>Assim, as disputas de caráter teológicos e eclesiásticas culminaram no desgas-</p><p>tes entre as duas igrejas e na separação de poderes religiosos da capital do berço do</p><p>cristianismo no ocidente (Roma) e do Império Romano do Oriente (Constantinopla). Ao</p><p>longo dos séculos, os conflitos de ordem política entre as duas aumentaram, e a Igreja de</p><p>Constantinopla deixou de ser subordinada a Roma, em 867.</p><p>No início do século XI, a crítica dos romanos centrava-se no “Cesaropapismo” e em</p><p>outros usos de objetos e símbolos durante as celebrações, como o pão não fermentado.</p><p>Sobre a crítica da figura patriarcal na Igreja, Maria Leonor Ferreira (2019) ressalta que :</p><p>Em Bizâncio exercia-se ainda o cesaropapismo, um “sistema político em que</p><p>se encontram fundidos o poder civil e o religioso” (Moderna Enciclopédia Uni-</p><p>versal, 1985), ou seja, o soberano político, o imperador, tinha poder sobre a</p><p>38UNIDADE II O Oriente</p><p>Igreja, escolhendo os patriarcas e demais cargos eclesiásticos dentro dos</p><p>seus favoritos, dentro da sua livre vontade, tendo também o poder de de-</p><p>por quem havia sido eleito por si. Em Roma a situação não era idêntica. No</p><p>Ocidente, o Papa ganha maiores poderes e lutava por uma cada vez maior</p><p>teocracia Papal, ou seja, um sistema em que o Papa estava acima dos reis,</p><p>podendo destituí-los, coroá-los imperadores ou excomunga-los. Assim, a di-</p><p>ferenciação entre o exercer do poder era ainda considerável, na medida em</p><p>que, a Oriente o Patriarca se havia tornado num peão do imperador, e a Oci-</p><p>dente o Papa podia tornar os imperadores seus peões. (FERREIRA, 2019,</p><p>p. 4).</p><p>Portanto, a relação cada vez mais irregular culminou no rompimento entre as duas</p><p>instituições, chegando ao ponto do Papa Leão IX e o Patriarca Miguel I Cerulário se ex-</p><p>comungarem mutuamente. Esse evento, ficou conhecido como o Cisma do Oriente, ou</p><p>Grande Cisma e tornou-se um marco importante nos estudos das Histórias das Religiões</p><p>pois data o rompimento e a divisão da Igreja Católica, entre a Igreja comandada pelo pontí-</p><p>fice de Roma, e a Igreja chefiada pelo patriarca, em Constantinopla no ano de 1054.</p><p>Essa ruptura, originou a Igreja Católica Ortodoxa, assim, o cristianismo passou a</p><p>se constituir em dois centros, os Ortodoxos e a Igreja Católica Apostólica Romana, com</p><p>sede em Roma. Existem diferenças substanciais entre as duas Igrejas, a de rito ortodoxo</p><p>acredita que a salvação é resultado apenas da fé, já a de Roma além da fé, o fiel necessita</p><p>realizar obras em prol da instituição. Outro aspecto que distingue as duas Igrejas, é a</p><p>crença no purgatório, uma vez que este foi instituído por Roma no “Segundo Concílio de</p><p>Lyon” no ano 1274, quando Constantinopla não reconhecia a supremacia papal.</p><p>Além disso, podemos considerar que no que tange a natureza dos seus ritos</p><p>litúrgicos, a Igreja Ortodoxa é estática, diferente da Igreja Católica de Roma, no qual</p><p>houve</p><p>uma série de reuniões entre o papa e os bispos da Europa, concílios que</p><p>transformaram as cerimônias religiosas, na instituição de Constantinopla os ritos sofreram</p><p>poucas mudanças. Outra diferença entre as duas igrejas é o idioma oficial, enquanto em</p><p>Roma temos o latim, em Constantinopla temos o grego, reforçando mais uma vez a</p><p>influência dessa cultura no Império Bizantino. É nesse período que temos a construção da</p><p>basílica de Santa Sofia, a mesma que foi invadida pelo exército Otamano em 1453 e</p><p>transformada em mesquita.</p><p>Ao estudar esses fatos históricos, notamos como a História e os</p><p>acontecimentos estão conectados, sendo grande parte a sucessão de eventos que</p><p>ocasionaram mudanças substanciais na forma de viver e se organizar socialmente. Além</p><p>do surgimento da igreja Ortodoxa, outras vertentes cristãs, todas de origem católica,</p><p>emergiram nesse período, como por exemplo a Igreja Cristã Ucraniana, que passou a</p><p>ser administrada pelo patriarcado de Constantinopla.</p><p>39UNIDADE II O Oriente</p><p>Se no começo desse tópico destacamos a posição geográfica privilegiada do Im-</p><p>pério Bizantino, podemos considerar que a mesma também acarretou em sua ruína, em</p><p>1453. A localização próximo ao continente da Ásia, possibilitava o ataque de diversos</p><p>grupos rivais, entre eles os próprios romanos, através das Cruzadas e o islamismo, ataques</p><p>oriundos do mundo Arábe.</p><p>Em 1204, através do processo de cruzadas, os cristãos romanos promovem uma</p><p>série de saques para amedrontar a população, eles não chegam a dominar politicamente</p><p>a região, mas enfraquecem Constantinopla, tornando-a cada vez fragmentada, até a sua</p><p>ruptura em 1453.</p><p>A conquista de Constantinopla, mais do que um feito do Império Otomano, foi</p><p>também consequência dessa descentralização de poder de um Império que vigorou por</p><p>mais de mil anos e influencia até os dias de hoje a sociedade, seja ela através da sua</p><p>língua, dos seus dogmas cristãos ou de sua arte e expressão cultural.</p><p>40UNIDADE II O Oriente</p><p>3. A RECONQUISTA IBÉRICA</p><p>Pouquíssimas histórias são tão arrepiantes e inspiradas no puro heroísmo como</p><p>foi o lento processo de retomada cristã dos territórios que haviam sido conquistados pelos</p><p>mouros na Península Ibérica. Foram quase oito séculos de forte presença islâmica nos</p><p>territórios que hoje correspondem a Portugal e a Espanha (711 a 1492).</p><p>Como já dito anteriormente, a História da humanidade é resultado de processos</p><p>contínuos interligados, Eric Wolf (1999) destaca que é dever do historiador, compreender</p><p>que a sociedade possui um total de processos múltiplos que são interconectados, e se</p><p>forem compreendidos isoladamente empobrecem o entendimento histórico. Por muitos</p><p>anos, permaneceu a ideia de que a História ocidental era o centro, e de que esta poderia</p><p>ser compreendida por si só, no entanto, ela só é compreendida de uma maneira ampla se</p><p>percebermos as conexões existentes entre as culturas.</p><p>O tema desse tópico e resultado desses processos, é decorrência da rivalidade en-</p><p>tre cristãos e mulçumanos que levaram a conquista de Constantinopla na parte oriental e a</p><p>forte influência da Igreja Católica na parte ocidental. É durante esse contexto que acontece</p><p>o processo de “Reconquista da Península Ibérica” ou também denominada a “Retomada</p><p>Cristã”.</p><p>A Península Ibérica está localizada no continente europeu, e está dividida por dois</p><p>territórios, a Espanha e Portugal, além disso, há também outras regiões como o principado</p><p>de Andorra e a Gibraltar, pertencente à ordem britânica.</p><p>41UNIDADE II O Oriente</p><p>O conflito opôs cristãos e mulçumanos em uma disputa que perdurou por séculos</p><p>e modificou parte da estrutura política, econômica e social dessa região. Mas por que esse</p><p>território foi alvo de disputas entre esses dois povos? O que havia de tão importante na Pe-</p><p>nínsula Ibérica? Para responder essas perguntas, precisamos realizar uma breve reflexão</p><p>sobre a origem dessa região. Estudiosos afirmam que a Península Ibérica chegou a ser</p><p>povoada até 10 mil anos atrás, os nômades que viviam nesse espaço compartilhavam da</p><p>agricultura de subsistência, além da domesticação de animais. No entanto, é a partir do</p><p>século III a.c, que o poderoso Império Romano invade a região e domina os povos celtas e</p><p>iberos presentes. De acordo com Nilsa Areán García (2006).</p><p>No ano de 210 a. C., iniciou-se a colonização da Península Ibérica como em-</p><p>preendimento da expansão do Império Romano, que inicialmente, se deteve</p><p>no litoral mediterrâneo principalmente visando a estabelecer o domínio de</p><p>cidades de colonização grega e fenícia. Posteriormente, de 197 a 133 a. C.,</p><p>durante o Império de Augusto, houve uma grande investida em direção ao</p><p>interior da Península com sua quase total incorporação ao Império, ficando</p><p>apenas o extremo norte povoado pelos bascos e cántabros, e extremo no-</p><p>roeste, povoado pelos galaicos à margem imperial. Segundo Bassetto (2001,</p><p>p. 102), somente em 19 d.C. os povos do norte e noroeste foram romaniza-</p><p>dos, ainda que Estrabão, em sua Geografia (29 a. C.), afirme que estes povos</p><p>caracterizavam-se pela “brutalidade e selvageria”. (GARCÍA, 2009, p. 26).</p><p>Os romanos controlaram as fronteiras da Península Ibérica por quase sete séculos</p><p>e as práticas fundidas nesse território influenciaram grande parte da economia do mundo</p><p>Medieval e Moderno, como por exemplo a rota marítima e o comércio local, a construção</p><p>de estradas, vias e alamedas que ligavam os territórios, além da fusão do latim nas regiões</p><p>da Espanha e Portugal.</p><p>Como já discutido no primeiro tópico dessa unidade, a partir do século VIII, os</p><p>mulçumanos estavam empenhados cada vez mais em expandir os seus domínios políticos</p><p>e econômicos na Europa. Após a morte de Maomé, os Árabes focaram seus esforços no</p><p>norte da África, continente próximo a Península Ibérica, em 711 o líder do Império Islâmico</p><p>Tarik ibn-Zyiad, junto com o seu exército marchou até o estreito de Gibraltar e invadiu a</p><p>Península. O exército cristão, que naquele período era formado por povos germânicos</p><p>convertidos, foi derrotado e a partir desse momento, por longos oito séculos, uma série de</p><p>conflitos e guerras de ordem religiosa e política aconteceram.</p><p>No entanto a resposta dos Visigodos ( os povos germânicos que viviam no local) foi</p><p>de certa forma rápida, sete anos após a derrota dos cristãos, Pelágio, chefe dos Visigodos,</p><p>reuniu parte do exército que encontrava-se isolados nas montanhas, dando início a uma</p><p>nova empreitada em busca da conquista de parte das terras que foram conquistadas pelos</p><p>mouros. Essa disputa ficou conhecida como “Batalha de Covadonga” e quase vinte anos</p><p>42UNIDADE II O Oriente</p><p>após o conflito, o território próximo ao rio Douro, voltou a pertencer mais uma vez aos</p><p>cristãos. É importante destacar que esse conflito refere-se apenas a uma parte das terras</p><p>dominadas pelos Árabes, ao estudar sobre esse império precisamos compreender que</p><p>as suas forças são cada vez mais pujantes e por onde passavam iam controlando esses</p><p>territórios por meio da força.</p><p>Para compreender melhor o quadro desses conflitos, listamos um quadro com os</p><p>acontecimentos mais marcantes desse processo de reconquista da Península Ibérica.</p><p>Quadro 1: Linha temporal da Reconquista Ibérica</p><p>Ano Acontecimento Histórico</p><p>711 O mulçumanos invadem a Península Ibérica.</p><p>718</p><p>Pelágio, chefe dos Visigodos, avança sobre o exército dos</p><p>Mouros dando início ao processo de reconquista da Península.</p><p>750</p><p>Afonso I lidera o ataque à região da Galiza, antes pertencente aos</p><p>Árabes.</p><p>791</p><p>Acontece a “Batalha de Burbia”, onde os mouros conquistaram parte</p><p>da região da Galiza. O conflito foi liderado por Emir Hixam I.</p><p>930-950</p><p>Mais um conflito na Península, dessa vez, vitória dos povos cristãos.</p><p>A “Batalha de Simancas”, é marcada pela presença do</p><p>imperador Ramiro II, que vence o líder árabe Abd al- Rahman III.</p><p>981</p><p>O filho do Imperador Ramiro II, é derrotado pelos mouros na “Bata-</p><p>lha de Rueda” e o reino é obrigado a pagar tributos ao</p><p>Califado de</p><p>Córdova, localizado no norte da África.</p><p>1118</p><p>Afonso I do reino de Aragão, conquista o território de</p><p>Saragoça, atualmente um município da Espanha.</p><p>1147</p><p>Com apoio da Segunda Cruzada, o rei D. Afonso Henrique recon-</p><p>quista a cidade de Lisboa no episódio chamado “Cerco de Lisboa”</p><p>1212</p><p>Acontece a “Batalha de Navas de Tolosa”, conflito que reuniu líderes</p><p>da igreja católica e os reinos de Portugal, Leão e Espanha derrotan-</p><p>do o Califado Almóada.</p><p>1252</p><p>A cidade de Sevilha, até então uma das poucas províncias ainda sob</p><p>domínio dos Mouros é reconquistada pelos espanhóis sob a lideran-</p><p>ça de Fernando III de Castela</p><p>1340</p><p>Após um longo período de conflitos, portugueses e espanhóis vol-</p><p>tam a controlar parte do reino de Granada. A disputa ficou conhecida</p><p>como “Batalha do Salado”.</p><p>1469</p><p>Início da criação do estado moderno da Espanha, com o casamento</p><p>de Isabel, de Castela, e o príncipe Fernando, de Aragão</p><p>1482-1492 Conquista total do reino de Granada.</p><p>1493</p><p>Inicia-se o período das Grandes navegações e descobertas</p><p>marítimas por parte de Portugal e Espanha..</p><p>Fonte: adaptado pelo autor.</p><p>43UNIDADE II O Oriente</p><p>Como podemos observar, o processo de reconquista da Península Ibérica foi mo-</p><p>tivado por dois pontos centrais: o primeiro de cunho religioso e o segundo político. Havia</p><p>uma preocupação em expandir e reconquistar os territórios que já tinham sido de domínios</p><p>da Igreja Católica, é nesse quadro que temos o apogeu das Cruzadas. Quanto mais terras,</p><p>mais riquezas, mais poder e maior a influência religiosa. Outro fato que merece destaque,</p><p>os moradores dos reinos que antes pertenciam aos Mouros e depois passou a ser controla-</p><p>do pelos povos cristãos, tiveram duas opções: ou aceitavam a fé católica ou eram expulsos</p><p>da região.</p><p>SAIBA MAIS</p><p>A reconquista da Península Ibérica foi possível através do movimento militar religioso da</p><p>Igreja Católica, na qual chamamos de Cruzadas. Ela teve início em 1095 após o Concí-</p><p>lio de Clermont pelo Papa Urbano II, no qual prometia a todos os fiéis a salvação para</p><p>aqueles que lutassem em favor da Igreja. A tomada de Jerusalém em 1099 foi um dos</p><p>maiores feitos desse movimento.</p><p>Fonte: MARCHON, B.; KIEFFER, J.-F. As grandes religiões do mundo. São Paulo: Paulinas, 1995.</p><p>REFLITA</p><p>De acordo com o que foi discutido nessa unidade, como podemos refletir sobre a figura</p><p>de Allah (Alá) no Islamismo?</p><p>“Também grafado como al – Llah ou Allah: Deus único dos muçulmanos, sendo o mes-</p><p>mo de judeus e de cristãos que, de acordo com a crença muçulmana, revelou-se para</p><p>Muhammad (por volta do ano 610. Para o Islã, Alá está acima da imaginação e da con-</p><p>cepção humana, sendo proibida a sua representação”. (COSTA, 2006, p.6).</p><p>44UNIDADE II O Oriente</p><p>CONSIDERAÇÕES FINAIS</p><p>Como dito na introdução desta unidade, discutimos uma série de aspectos da Idade</p><p>Média que estão conectados historicamente. É preciso compreender que cada território,</p><p>por mais que apresentasse a sua própria cultura, ao entrar em contato com outros povos</p><p>também absorveu essas características desses. Temos como exemplo a expansão do isla-</p><p>mismo, que ao passar do tempo foi agregando cada vez mais fiéis e as cidades que por ora</p><p>foram de domínios dos cristãos e depois dos mouros.</p><p>45UNIDADE II O Oriente</p><p>LEITURA COMPLEMENTAR</p><p>AS GRANDES RELIGIÕES DO MUNDO</p><p>Nesse livro os autores contextualizam historicamente as varias religiões do mun-</p><p>do, como o cristianismo e o islamismo pelo viés de categorias de diferentes disciplinas(</p><p>sociologia, antropologia, literatura) . Compreendendo esses fenômenos religiosos através</p><p>da luz de alguns conceitos desenvolvidos por cientistas da religião.</p><p>Fonte: MARCHON, B.; KIEFFER, J.-F.As grandes religiões do mundo.São Paulo: Paulinas, 1995.</p><p>Disponível em:</p><p>http://ensinoreligiosonreapucarana.pbworks.com/w/file/fetch/82875070/E.R%20</p><p>As%20grandes%20religi%C3%B5es%20do%20mundo.pdf</p><p>46UNIDADE II O Oriente</p><p>MATERIAL COMPLEMENTAR</p><p>LIVRO</p><p>Título: História Do Império Bizantino</p><p>Autor: Mario Curtis Giordani</p><p>Editora: Vozes, 2001</p><p>Nessa obra de grande importância para os estudos da história</p><p>Medieval, Mario Curtis Giordani, o autor apresenta as principais</p><p>características do Império Bizantino e a influência que o mesmo</p><p>exerce até os dias de hoje, principalmente aos povos do leste</p><p>europeu. Destaque para a análise do Código Justiniano e do</p><p>processo de conquista da cidade de Constantinopla .</p><p>FILME/VÍDEO</p><p>Título: Cruzada</p><p>Ano: 2005</p><p>Sinopse: O épico protagonizado por Orlando Bloom narra as</p><p>aventuras do ferreiro Balian e seu pai Baron Godfrey, na primeira</p><p>cruzada organizada pela Igreja Católica, entre os séculos XI e XII.</p><p>A conquista da cidade de Jerusalém é retratada nesse conflito</p><p>que conta com elenco de peso, como os atores Eva Green, Liam</p><p>Neeson, Jeremy Irons e David Thewlis.</p><p>WEB</p><p>O que você precisa saber sobre o Império otomano.</p><p>Nessa reportagem da revista Galileu do grupo Globo, o Império Otomano é apresen-</p><p>tado desde a sua origem no século XIII e suas conquistas territoriais, até a sua derrocada</p><p>no pós Primeira Guerra Mundial.</p><p>Fonte: PETERSEM Tomas. O que você precisa saber sobre o Império Otomano. Revista Galileu.</p><p>Novembro de 2019.</p><p>Disponível em:</p><p>https://revistagalileu.globo.com/Sociedade/Historia/noticia/2019/11/o-que-voce-precisa-</p><p>-saber-sobre-o-imperio-otomano.html</p><p>Acesso em: 25 de agosto de 2020.</p><p>47</p><p>Plano de Estudo:</p><p>● A Escolástica e as Universidades;</p><p>● A produção e a conservação do saber.</p><p>Objetivos da Aprendizagem:</p><p>● Analisar o surgimento das primeiras universidade da Idade Média;</p><p>● Examinar a obra de São Tomaz de Aquino;</p><p>● Compreender a relação entre fé e filosofia nos estudos de Santo Agostinho e da</p><p>escolástica.</p><p>UNIDADE III</p><p>O Saber Medieval</p><p>Professor Doutor João Paulo Pacheco Rodrigues</p><p>48UNIDADE III O Saber Medieval</p><p>INTRODUÇÃO</p><p>Caro aluno e aluna, neste capítulo vamos discutir um dos aspectos mais importan-</p><p>tes da Idade Média e que derruba por terra o mito de que esse período das trevas, pois foi</p><p>durante essa era que as grandes universidades surgiram na Europa.</p><p>49UNIDADE III O Saber Medieval</p><p>1. A ESCOLÁSTICA E AS UNIVERSIDADES</p><p>As universidades na Idade Média foram em parte, uma marca da Igreja e foi à</p><p>base do conhecimento e do ensino que temos até o dia de hoje. Foi à época das grandes</p><p>construções, catedrais e cruzadas e todas essas eram argumentadas pelo amor de Deus.</p><p>As Catedrais eram construídas para o louvor a Deus, as cruzadas para o combate em favor</p><p>de Deus e a universidade era a busca do saber e ensinamentos de Cristo.</p><p>É durante a Idade Média que surge um dos maiores contribuintes intelectuais para</p><p>o mundo: o sistema universitário No seio da Igreja Católica nasceu uma das primeiras</p><p>universidades do mundo por volta do século XII, no meio de uma agitação intelectual.</p><p>As instituições que a Idade Média nos legou são de um valor maior e mais im-</p><p>perecível do que suas catedrais. E a universidade é nitidamente uma institui-</p><p>ção medieval – tanto quanto a monarquia constitucional, ou os parlamentos,</p><p>ou o julgamento por meio do júri. As universidades e os produtos imediatos</p><p>das suas atividades podem ser afirmados, constituem a grande realização</p><p>da Idade Média na esfera intelectual. Sua organização, suas tradições, seus</p><p>estudos e seus exercícios influenciaram o progresso e o desenvolvimento</p><p>intelectual da Europa mais poderosamente, ou (talvez devesse ser dito) mais</p><p>exclusivamente, do que qualquer escola, com toda a probabilidade, jamais</p><p>fará novamente. (RASHDALL, 1952, p.3)</p><p>De acordo com Le Goff (1977) elas nasceram próximas das catedrais e mosteiros,</p><p>pois em cada um desses tinha ao lado um colégio e esses ao passar dos anos foram se</p><p>transformando em pequenos centros de estudos, recebendo o apoio de autoridades locais.</p><p>Como por exemplo, a Universidade de Montpellier na França que fica ao lado da fachada</p><p>da Catedral.</p><p>50UNIDADE III O Saber Medieval</p><p>A primeira universidade foi a de Bolonha, fundada em 1158 na Itália, que teve a</p><p>sua origem da fusão da escola episcopal</p><p>com a escola monacal camaldulense de São</p><p>Félix, onde estudavam profundamente o direito. No mesmo ano também foi fundada a</p><p>Universidade de Sorbonne em Paris.</p><p>No século XIII o número de estudantes matriculados na universidade italiana já</p><p>passava de dez mil e reunia grupos étnicos distintos, como além dos italianos, os mouros e</p><p>espanhóis. “Em Bolonha, o sistema de organização e de ensino dos Estudos Gerais segue</p><p>outros moldes para atender anseios municipais, carente de juristas e de administradores”</p><p>(BOHER, 2012, p.3).</p><p>Já na universidade francesa formaram grandes pesquisadores, como Tomás de</p><p>Aquino, responsável pela “escolástica” no qual veremos a seguir.</p><p>No século XII, as escolas em Paris já alcançavam um extraordinário desen-</p><p>volvimento. As Escolas de Artes Liberais e as de Teologia se agruparam às</p><p>Escolas de Direito e de Medicina na região da Île de la Cité, nascendo assim</p><p>a Universidade de Paris na França (1150), com seus renomados mestres</p><p>(Guillaume de Champeaux, Abélard, Gilbert de la Porrée, Petrus Lombardus</p><p>e muitos outros), que atraíam estudantes de todas as partes do país e das</p><p>regiões próximas. Nesse mesmo século, surgiu, ainda, a universidade de Mo-</p><p>dena (1175) na Itália. (SIMÕES. 2013, p. 136).</p><p>Na Inglaterra, a conceituada Universidade de Oxford teve sua gênese sob os olhos</p><p>do Papa Inocêncio IV, ainda no século XII. Os alunos ingleses frequentavam a</p><p>Universidade de Paris, contrário dessa ideia, o rei Henrique II da Inglaterra os proibiu.</p><p>O núcleo de pesquisa de Oxford rapidamente se expandiu e em 1167 estava</p><p>estabelecida como um grande centro de conhecimento.</p><p>O primeiro sentimento que se experimenta quando se visita Oxford é um res-</p><p>peito involuntário pela antiguidade que fundou estabelecimentos tão imensos</p><p>a fim de facilitar o desenvolvimento do espírito humano, e pelas instituições</p><p>políticas do povo que as preservou intactas através dos tempos. (...) As fa-</p><p>culdades, cujo conjunto constitui a Universidade de Oxford, foram fundadas</p><p>originalmente para que nelas se pudesse adquirir toda a instrução que com-</p><p>portavam os séculos que as viram nascer. Foram ricamente dotadas no ob-</p><p>jetivo de nelas fixar os melhores mestres e oferecer gratuitamente a melhor</p><p>educação possível. Tal é, evidentemente, o objetivo e o espírito dessas fun-</p><p>ções, várias das quais remontam aos séculos XIII e XIV. Segundo o costume</p><p>dessa época, que tinha poucos conhecimentos e prezava apenas a riqueza</p><p>territorial, uma imensa extensão de terreno foi concedida às faculdades como</p><p>propriedade inalienável (TOCQUEVILE, 2000, p. 51).</p><p>Posteriormente inicia-se um processo de expansão dessas universidades para o</p><p>leste europeu, onde são criadas as universidades de: Lérida (1300) na Espanha, a de</p><p>Roma (1303) na Itália, a de Avignon (1303) e a de Orléans (1305) na França, a de Perugia</p><p>51UNIDADE III O Saber Medieval</p><p>(1308) em Portugal, a de Cambridge (1318) na Inglaterra, a de Florença (1321) na Itália, a</p><p>de Grenoble na França (1339), a de Pisa (1343) na Itália, a de Praga (1348) na República</p><p>Tcheca, a de Pávia (1361) na Itália, a de Jagiellonian (1364) na Cracóvia na Polônia, a de</p><p>Viena (1365) na Áustria, a de Heidelberg (1367) na Alemanha, a de Ferrara (1391) na Itália</p><p>(SIMÕES, 2013, p 137).</p><p>Thomas Ransom Giles destaca que:</p><p>É nas universidades que o acervo dos conhecimentos se organiza, se con-</p><p>serva e se transmite. A universidade é o verdadeiro centro da atividade in-</p><p>telectual onde o processo educativo progride mais do que em qualquer ou-</p><p>tra instituição. A função da universidade como casa de liberdade intelectual,</p><p>numa época altamente desconfiada de qualquer suspeita de heresia, é de</p><p>máxima importância. É o único lugar onde assuntos proibidos ou suspeitos</p><p>podem ser discutidos com certa impunidade. (GILES, 1987, p.63).</p><p>No século seguinte, o desenvolvimento universitário continuou com a criação das</p><p>universidades alemãs nas cidades de Wurzburg (1402) de Leipzig (1409) e Rostock (1419),</p><p>ainda na Itália, criando a universidade de Turim e na Escócia o centro de estudos de St.</p><p>Andrews e de Glasgow.</p><p>Desde a Idade Média, as universidades eram tidas como locais de grandes prestí-</p><p>gios, “a universidade era uma escola de fundação pontifícia cujos membros, organizados</p><p>em corporações ou não, gozavam de certos privilégios eclesiásticos” (ROSSATO, 2005,</p><p>p.19).</p><p>Giles (1987) ressalta que para ingressar ao campo universitário o aluno deveria</p><p>passar por um processo rigoroso e atender algumas necessidades, como por exemplo, ser</p><p>maior de 21 anos, ter no mínimo seis anos dedicados a estudos e por último ser aprovado</p><p>em um debate que julgaria se o aluno estava apto para cursar bacharelado e ou licenciatura.</p><p>Com o passar dos anos as universidades vão lentamente se afastando os mu-</p><p>ros teológicos da Igreja, esse é um processo devagar, que vai culminar apenas na Idade</p><p>Moderna, porém a França é umas das primeiras a dar indícios dessa relação, quando a</p><p>colação de grau passa a funcionar como uma licença para lecionar, ela passa a ter uma</p><p>autonomia, e isso anteriormente só era cedido pela Igreja.</p><p>Quanto a forma como o ensino era transmitido, no princípio era através da fala e</p><p>reprodução, os livros eram lidos pelos professores e os alunos os reproduziam, uma vez</p><p>que o custo desses eram muito altos.</p><p>A educação universitária, a princípio, era totalmente livresca, feita por uma</p><p>seleção muito limitada de livros em cada campo, livros que eram aceitos</p><p>como se suas palavras fossem a absoluta e última verdade. Era dirigida mui-</p><p>to mais para o domínio do poder dos discursos formais, especialmente ar-</p><p>gumentação, do que para a aquisição de conhecimento ou para a busca da</p><p>verdade no sentido mais amplo, ou mesmo para familiarizar o estudante com</p><p>aquelas fontes literárias do saber que, embora ao seu alcance, estavam fora</p><p>da aprovação eclesiástica ortodoxa (MONROE, 1939, p. 133).</p><p>52UNIDADE III O Saber Medieval</p><p>Nas aulas do curso de direito, havia um espaço para o debate, professor e aluno se</p><p>organizavam e apresentavam posicionamentos ideológicos de natureza jurídica, na qual era</p><p>fundamental dominar a arte da retórica. “O importante nesse processo de materialização de</p><p>suas ideias é que elas foram tão reais e corresponderam, significativamente, aos interesses</p><p>dos homens e que muitas prevalecem ainda hoje” (OLIVEIRA, 2007, 118).</p><p>Outro fator que merece atenção no que tange às universidades na Idade Média</p><p>foram os conflitos de ordem política entre realeza e papado que vão interferir diretamente</p><p>nos campos universitários. Ainda no século XIII, ou seja, na Baixa Idade Média, essas insti-</p><p>tuições enxergavam as universidades como centros essenciais de apoio político e cultural,</p><p>como já dito anteriormente, existiam uma fermentação artística e científica que acabava se</p><p>disseminando por grande parte da sociedade.</p><p>Assim, eram publicadas leis e bulas papais na finalidade de deliberar sobre o</p><p>funcionamento e organização das mesmas. Temos como exemplo a Authentica Habita,</p><p>de Frederico Barba Roxa, de 1158, e a bula de Gregório IX intitulada Parens scientiarum</p><p>universitas, de 1231. “Ambas foram promulgadas para proteger a vida e os interesses dos</p><p>estudantes e mestres e para organizar a vida acadêmica” (OLIVEIRA, 2007, 118).</p><p>Enquanto as universidades estiverem atreladas aos pensamentos católicos, surgiu</p><p>nesses centros de pesquisa uma corrente filosófica responsável por um método de pensa-</p><p>mento crítico. A “escolástica”. Tanto a ciência moderna, quanto os postulados filosóficos que</p><p>hoje permeiam a sociedade são heranças que nós temos na Idade Média e do pensamento</p><p>dos escolásticos.</p><p>O que foi a Escolástica? Em linhas gerais, chamava-se de Escolástica todo mé-</p><p>todo de pensamento crítico e os trabalhos feitos nas universidades medievais da Europa</p><p>fundadas pela Igreja, em que eram conjunto do pensamento e do saber dos intelectuais da</p><p>época. Acima de tudo o uso da razão como ferramenta indispensável no que tange tanto a</p><p>teologia como a filosofia.</p><p>A escolástica foi um método de pensamento e de ensino que surgiu e se</p><p>formou nas escolas medievais e se plasmou de modo inexcedível nas univer-</p><p>sidades do século XIII, máxime através do magistério e das obras de Santo</p><p>Tomás de Aquino. O termo escolástica, porém, significa ainda o conjunto das</p><p>doutrinas literárias, filosóficas, jurídicas, médicas e teológicas, e mais outras</p><p>científicas, que se elaboraram e corporificam no ensino das escolas univer-</p><p>sitárias do século XII ao século XV, pois não nos cabe considerar a Segunda</p><p>Escolástica que floresceu na época do Renascimento (NUNES, 1979, p. 244).</p><p>Então se pode dizer que a Escolástica foi basicamente o movimento nas universi-</p><p>dades europeias medievais que buscavam racionalizar a fé. Para entendermos bem essa</p><p>questão, temos que mergulhar na História e entender que desde a era da “Patrística”, ou</p><p>53UNIDADE III O Saber Medieval</p><p>seja, os pais da igreja que fundamentaram toda a teologia cristã nos primeiros séculos, e</p><p>que teve como maior expoente Santo Agostinho, sempre houve no ambiente católico uma</p><p>divergência muito grande entre questões teológicas e os debates sobre como fundamentar</p><p>a doutrina cristã.</p><p>De acordo com Dario Antiseri (2003) o principal objetivo que estabeleceu a “Esco-</p><p>lástica” nas universidades de toda a Europa era justamente provar a existência de Deus</p><p>e os dogmas da Igreja através da síntese, ou seja, a união entre a Filosofia ou razão e a</p><p>Teologia ou o estudo da fé.</p><p>Neste cenário de disputas intelectuais que nós temos Santo Anselmo da Cantuária,</p><p>um monge Agostiniano que é considerado o primeiro grande pensador escolástico no final</p><p>do século XI, com a sua tentativa de provar Deus através do argumento ontológico, que diz</p><p>que a mera possibilidade de conseguirmos conceber um ser tão perfeito, quanto Deus isso</p><p>por si só já é a prova de que ele exista na realidade.</p><p>Posteriormente, no século XII, a Europa começa a vivenciar um impacto cultural</p><p>muito grande com a introdução das obras de Aristóteles trazidas e traduzidas por árabes e</p><p>muçulmanos que estavam instalados na Península Ibérica, como já discutido no capítulo</p><p>dois. E assim que a filosofia platônica aliada aos escritos de Agostinho deixa de ser a</p><p>centralidade de todo o pensamento cristão e a filosofia aristotélica passa a ser a nova fonte</p><p>de fundamentação diante da teologia católica.</p><p>Então essa união da fé e da razão (a fé a serviço da razão e a razão a serviço da</p><p>fé) e nesse caso centrada nas obras de Aristóteles, foi o que deu início ao que nós podemos</p><p>chamar de o auge da tradição “Escolástica” no século XIII, principalmente com São Tomás</p><p>de Aquino, que sem dúvidas foi o maior expoente de toda essa metodologia.</p><p>Uma dupla condição domina o desenvolvimento da filosofia tomista: a distin-</p><p>ção entre razão e fé, e a necessidade de sua concordância. Todo o domínio</p><p>da filosofia pertence exclusivamente à razão; isso significa que a filosofia</p><p>deve admitir apenas o que é acessível à luz natural e demonstrável apenas</p><p>por seus recursos. A teologia baseia-se, ao contrário, na revelação, isto é,</p><p>afinal de contas, na autoridade de Deus (GILSON, 1995, p. 655).</p><p>Sua influência é tamanha, que dividimos os escolásticos em pré e pós-tomista. São</p><p>Tomás é considerado o maior pensador escolástico, pois interpretou as noções aristotélicas</p><p>que haviam acabado de chegar à Europa e com isso criou uma metodologia a serviço da</p><p>fé cristã.</p><p>Para Aquino, basta olharmos a criação para vermos que Deus existe e que</p><p>o mundo e o homem são imagens de Deus. Porque, ao observarmos o mun-</p><p>do, vemos todos os tipos de efeitos para os quais devemos supor que haja</p><p>uma causa. E essa causa supõe, necessariamente, uma “causa primeira”,</p><p>começo e fim de todo o movimento. É um universo finito, limitado e ordenado</p><p>pela “causa primeira”, pois sua ausência levaria a uma proliferação infinita de</p><p>causas, à desordem, ao caos. (ALMEIDA, 2005, p. 25).</p><p>54UNIDADE III O Saber Medieval</p><p>A grande contribuição de São Tomás de Aquino foi justamente ter conseguido se</p><p>utilizar a refinada filosofia grega em Aristóteles para fazer da doutrina católica uma doutrina</p><p>racional, uma doutrina fundamentada não somente na fé, mas também na razão, para</p><p>aquele período.</p><p>A Igreja precisava de alguém que compreendesse a filosofia de Aristóteles e mos-</p><p>trasse que ela não estava em desacordo com a fé cristã, com a doutrina católica, mas sim</p><p>que o aristotelismo era um importante instrumento para que as pessoas pudessem entender</p><p>ainda mais a fé e com isso se tornarem um instrumento para que pudessem compreender</p><p>a revelação de Deus que está no evangelho, nas sagradas escrituras.</p><p>A Suma teológica de Tomás de Aquino, texto de fins pedagógicos, um manual</p><p>para as novas universidades, marca profundamente até hoje a concepção de</p><p>conhecimento, e a pedagogia curricular de nossas universidades, principal-</p><p>mente o campo da educação, herdeira direta e persistente da educação cris-</p><p>tã. A Suma é perfeito exemplo do pensamento e da dialética escolásticos: não</p><p>admite contradição, é um sistema de argumentação que parte de verdades</p><p>indemonstráveis, princípios, e por intermédio de perguntas e respostas divide</p><p>os argumentos por meio da distinção de oposições, e, como conclusão, afir-</p><p>ma uma unidade, uma resposta única e inequívoca. (ALMEIDA, 2005, p.25)</p><p>Através da “Suma teológica”, obra escrita entre 1265 a 1273 em que Aquino dialoga</p><p>com questões referentes a Deus, natureza, filosofia e o ser humano os escritos de Tomás</p><p>de Aquino “são indiciários tanto de um rompimento de uma tradição agostiniana na Idade</p><p>Média central quanto de uma aproximação com os escritos de Aristóteles” (FONTOURA,</p><p>2016, p.72).</p><p>Em sua dissertação de mestrado, Lucia Sant’Anna elucida a importância desse</p><p>conjunto de obras com a necessidade de uma nova formação acadêmica.</p><p>Sto. Tomás percebe a necessidade de escrever uma Suma de Teologia quan-</p><p>do, em Orvieto, ocupa a função de leitor conventual. O leitor conventual era</p><p>responsável pela formação dos frades que não haviam tido oportunidade de</p><p>estudar na universidade. Essa formação tinha como objetivo preparar melhor</p><p>os frades para as suas duas principais tarefas: pregar e ouvir confissões.</p><p>Os leitores conventuais usavam para a instrução dos frades uma série de</p><p>manuais de pastoral do Santo. Tomás percebe a necessidade de escrever</p><p>uma Suma de Teologia quando, em Orvieto, ocupa a função de leitor conven-</p><p>tual. O leitor conventual era responsável pela formação dos frades que não</p><p>haviam tido oportunidade de estudar na universidade. Essa formação tinha</p><p>como objetivo preparar melhor os frades para as suas duas principais tarefas:</p><p>pregar e ouvir confissões. (SANT’ANNA, 2008, p. 20).</p><p>Aquino se torna não apenas o grande nome da “Escolástica”, mas ele se torna</p><p>também uma referência da filosofia e teologia na Idade Média. Pautada em parâmetros</p><p>criados para o agir, para o pensar e como compreender a sociedade naquele tempo em</p><p>forma de diálogos.</p><p>E como que se dá a relação entre fé e razão, entre filosofia e teologia no pensa-</p><p>mento de São Tomás de Aquino? O teólogo, ao valorizar a razão, equilibra a filosofia junto</p><p>55UNIDADE III O Saber Medieval</p><p>com a teologia. Assim, para entender o homem e o mundo, é necessário se ater a Deus. O</p><p>ser divino seja na filosofia ou na teologia deve ser o principal de observação, na qual o ho-</p><p>mem encontraria as respostas na sagrada escritura. A razão nesse pensamento funcionaria</p><p>como um mecanismo para preparar as pessoas, para sim elas terem fé e crer em Deus.</p><p>Nesse âmbito, filosofia e teologia têm as suas diferenças, pois, enquanto a primeira</p><p>vai nos conceder um conhecimento imperfeito sobre as coisas, a segunda será responsável</p><p>por revelar, esclarecer esse conhecimento.</p><p>Para São Tomás de Aquino, a fé qualifica a razão, essa poderia até possuir conheci-</p><p>mento sobre as coisas sobre o homem, mas é uma noção imperfeita na qual é aperfeiçoada</p><p>pela fé, pelo dom divino, através da graça. Assim, a natureza racional do homem</p><p>agiria de</p><p>certa forma mais equilibrada se a fé conduzisse a sua vida. Aquino defendia que o ponto</p><p>de partida para esse diálogo entre fé e razão, seria por meio das “verdades racionais” uma</p><p>vez que seria ele o elo que ligaria os cristãos e os pagãos que deveriam ser convertidos, a</p><p>razão seria o ponto comum entre esses dois grupos.</p><p>Figura 1: São Thomaz de Aquino, retratado por Gentile da Fabriano.</p><p>Fonte: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Gentile_da_Fabriano_052.jpg</p><p>Outros grandes pensadores do movimento escolásticos foram Alberto Magno,</p><p>professor de São Tomás de Aquino, Roger Bacon um dos maiores cientistas de todos os</p><p>tempos, São Boaventura, Pedro Abelardo, Duns Escoto, grande parte destes que viveram</p><p>no século XIII, que com suas obras revolucionaram a filosofia e a teologia no mundo oci-</p><p>dental, de uma forma nunca vista até então.</p><p>56UNIDADE III O Saber Medieval</p><p>Quanto ao método utilizado pelos “escolásticos” como era sua forma de produção</p><p>de conhecimento? O que os diferenciava?</p><p>Na Idade Média se seguia um padrão “dialético” a fim de se obter conhecimento,</p><p>era então colocada uma questão a ser tratada e o autor, ou aquela pessoa que iria debater,</p><p>criava uma consideração, um argumento que deveria ser confrontado, por último o pro-</p><p>fessor escolástico fazia uma síntese do que analisava como verdadeiro, como correto, ao</p><p>contrastar argumentos contrários debatidos.</p><p>O que traz uma verdadeira unidade à Escolástica é o seu método: o mestre</p><p>escolástico deve extrair do texto canônico – que traz a Escolástica o princípio</p><p>de Autoridade – a matéria para um problema, e a partir daí desenvolvê-lo</p><p>em relação a um interlocutor imaginário pronto a lhe opor objeções. A base</p><p>do método é o desejo de explicitar tudo, esgotando sistematicamente todas</p><p>as possibilidades. O método escolástico desenvolve-se em torno de alguns</p><p>pontos essenciais, entre eles a ‘precisão vocabular’ e a ‘Dialética’ – conjunto</p><p>de operações que fazem do objeto de saber um problema que será exposto e</p><p>sustentado contra o interlocutor real ou imaginário (BARROS, 2012, p. 233).</p><p>Esse era o método escolástico de aprendizagem, na qual as conclusões eram</p><p>retiradas sempre através do debate de ideias, que nas escolas medievais eram sempre</p><p>regidas pelo bom uso da lógica formal através de um mestre que ministrava os debates dos</p><p>seus alunos.</p><p>A Escolástica fundamenta-se, neste aspecto em particular, no ‘princípio de</p><p>autoridade’: será uma ciência do comentário, e, por mais magistrais e criati-</p><p>vas que sejam as elaborações produzidas por seus mestres, existirá sempre</p><p>uma série de textos canônicos dos quais os mestres escolásticos deverão</p><p>extrair toda a exposição de seus pensamentos (BARROS, 2012, p. 233).</p><p>Valemos lembrar que há quase mil anos atrás nós não tínhamos os mesmos recur-</p><p>sos de ensino que nós temos hoje, então tem que se levar em conta a dificuldade de cada</p><p>época, nesse período, o estudo era voltado para a oratória, da dialética, e da retórica.</p><p>A diferenciação que geralmente se faz entre a filosofia patrística, ou seja, dos pa-</p><p>dres dos primeiros séculos do cristianismo que veremos a seguir, pela tradição Escolástica,</p><p>que começou pelo século X está marcada, principalmente, na forma como os dois lidaram</p><p>com a filosofia grega.</p><p>Os “Patrísticos” e os primeiros escolásticos anteriores a São Tomás de Aquino</p><p>cujo pensamento pertence a uma divisão majoritariamente platônica, especialmente se</p><p>consideramos a figura de Agostinho o maior expoente da patrística, não admitiam que sob</p><p>nenhuma hipótese que a ciência fosse separada da teologia, pois na visão deles, razão e</p><p>fé estava sempre atrelada a outra, em alguns casos, os “Patrísticos”, preferiam dar valor</p><p>somente à fé em detrimento da razão.</p><p>57UNIDADE III O Saber Medieval</p><p>Já com a introdução das obras de Aristóteles nas universidades europeias no final</p><p>do século XII, os escolásticos, começaram a adotar a concepção de teologia independente</p><p>da filosofia, embora eles concebessem que a filosofia estivesse a serviço da teologia, os</p><p>escolásticos afirmavam que a fé e a razão possuíam papéis distintos, porém complementa-</p><p>res, uma vez que levam a um só objetivo: compreender a Deus e a realidade por ele criada.</p><p>São Tomás de Aquino entende que o papel da razão, nesse caso é justamente de</p><p>demonstrar e explicar os mistérios revelados pela fé, e esse debate acerca da autonomia</p><p>ou não da fé sobre a razão se dá até o século XIV, quando o teólogo Guilherme de Ockham,</p><p>também do pensamento escolástico é considerado o precursor do racionalismo, do carte-</p><p>sianismo e do empirismo moderno concebe a separação entre razão e fé, adjunto com as</p><p>novas descobertas da Ciência Moderna.</p><p>Guilherme de Ockham (1290-1349) – franciscano que inicia seus estudos em</p><p>Oxford – representará a segunda força do pensamento escolástico no século</p><p>XIV. Na verdade, tal como observa Chaunu, ele “só penetra no interior do</p><p>aristotelismo para melhor o desmantelar” (CHAUNU, 1993, p.103). O nomina-</p><p>lismo que será introduzido por Ockham no pensamento escolástico, na ver-</p><p>dade destruindo-o ou desmantelando-o, traduz de certo modo a consciência</p><p>de um fracasso do antigo pensamento escolástico diante de um novo mundo</p><p>para o qual já não fornece as respostas. (BARROS, 2012, p. 238).</p><p>De acordo com Le Goff (1977), entre os séculos XIV e XV, a “Escolástica” começou</p><p>a perder espaço e consequentemente seguidores, pois esse período marcou as renovações</p><p>culturais na Europa, principalmente com advento do Renascentismo e o fim da Idade</p><p>Média.</p><p>No entanto, nessa época, que marcou também o início da contrarreforma</p><p>católica contra os protestantes carismáticos, vamos ter grandes obras de escolásticos</p><p>tardios que escreveram sobre importantes temas como o jusnaturalismo, além de tratado</p><p>sobre economia que forneceram as bases para o liberalismo austríaco.</p><p>58UNIDADE III O Saber Medieval</p><p>2. A PRODUÇÃO E A CONSERVAÇÃO DO SABER</p><p>Até o presente momento, procuramos refletir como o conhecimento, a produção do</p><p>saber se desenvolveu durante a Idade Média, na primeira unidade focamos nos séculos XI</p><p>até o século XV, período que compreender a Baixa Idade Média, nessa época como já ex-</p><p>posto, a principal metodologia e produção de ensino foi influenciada pela “Escolástica”, no</p><p>entanto antes dela, havia outras ramificações dentro da Igreja que afirmavam a importância</p><p>da fé para compreensão do mundo humano. Nesse período, anterior a “escolástica”, temos</p><p>o surgimento dos “patrícios”, movimento filosófico empreendido pelos padres, que tinham</p><p>a finalidade de evangelizar os pagãos e converter aqueles que a Igreja considerava infiéis</p><p>para a fé cristã.</p><p>Mas o que foi a “Patrística”? No que esses padres se fundamentavam?</p><p>A “patrística” foi um movimento de transição da Antiguidade Clássica para a Idade</p><p>Média, na qual a filosofia dessa metodologia não é marcada por característica nem perten-</p><p>cente do período antigo, nem do medievo, ao menos da Alta Idade Média.</p><p>A Patrística, gênese da literatura cristã, representa a expressão da fé dos</p><p>denominados Santos Padres da Igreja, teólogos de excepcional saber e de</p><p>reconhecida santidade. Construtores da teologia católica e mestres da dou-</p><p>trina cristã floresceram entre os séculos 11 e VIII. Melchior Cano (2) assim os</p><p>caracteriza:</p><p>1. Ortodoxia doutrinária;</p><p>2. Santidade de vida;</p><p>3. Reconhecimento, ao menos indireto, por parte da Igreja;</p><p>4. Antiguidade. (SOUZA e FILHO, 1988, p.202).</p><p>59UNIDADE III O Saber Medieval</p><p>Os adeptos a “patrística” tinham como finalidade dar continuidade as palavras de</p><p>Cristo presente na bíblia, ou seja, levar a palavra de Deus aos homens e nessa empreitada</p><p>eles utilizavam as escrituras sagradas como um instrumento muito poderoso, principalmen-</p><p>te as epístolas de Paulo e o evangelho de João.</p><p>Quando o cristianismo passou a ser a religião oficial do Império Romano ainda</p><p>no século IV com o decreto do Imperador Teodósio I, os cristãos ainda eram alvos de</p><p>perseguições e como era uma prática que estava</p><p>crescendo, não havia seguidores em</p><p>alguns territórios europeus.</p><p>Vencido o paganismo (Edito de Constantino, 313) a Igreja concentra a sua</p><p>atividade nas próprias doutrinas. As heresias surgidas então, como o arianis-</p><p>mo, o maniqueísmo, o pelagianismo, o donatismo, o nestorianismo e outras,</p><p>ensejaram o despontar dos apologistas da fé no campo filosófico quanto no</p><p>teológico. Conquanto a filosofia patrística não tenha alcançado um corpo e</p><p>uno, desenvolveu-se amplamente no que concerne ao dogma, às questões</p><p>morais, ao fim do homem, às virtudes, à existência, à natureza e atributos de</p><p>Deus, sua relação com o mundo, à graça, à natureza da alma e suas faculda-</p><p>des. (SOUZA e FILHO, 1988, p. 203).</p><p>A principal dificuldade encontrada entre os “Patrísticos” foi difundir a fé católica</p><p>entre aqueles povos que já estavam acostumados com a filosofia e a cultura grega. Estes</p><p>já possuíam uma visão de mundo pautada na racionalidade. Então os padres equacio-</p><p>naram, ou seja, delimitaram a relação entre fé e razão, para assim poder converter essas</p><p>sociedades.</p><p>Ou seja, eles inseriram o evangelho, as escrituras bíblicas nesses grupos que para</p><p>eles eram totalmente novos, desconhecidos e por muitos visto como absurdas. Entre os</p><p>princípios introduzidos pelos “Patrísticos” está à criação do mundo, o pecado original,</p><p>o juízo final, a santíssima trindade e a ressurreição de Jesus.</p><p>Todas essas passagens tinham como principal fio condutor a figura de Deus, elas</p><p>eram explicadas através da fé, afastando-se da racionalidade e isso para os gregos princi-</p><p>palmente, era algo inaceitável. Havia então uma incompatibilidade de ideias, de visões de</p><p>mundo, da maneira como esses grupos enxergavam o papel do homem na sociedade.</p><p>De acordo com Claudio Moreschini (2008) a primeiro fase da “Patrística” foi formada</p><p>por padres apologistas, ou seja, aqueles que eram pagãos e se converteram ao cristianis-</p><p>mo e escreviam apologias, ou seja, defendia a fé de Cristo através de elogios e exaltação.</p><p>Nessa fase, a obra de Justino, mártir vai ser de grande importância a esses padres, uma</p><p>vez que ele narrava sua trajetória de vida e afirmava que a busca pela verdade só seria</p><p>alcançada após a sua conversão.</p><p>60UNIDADE III O Saber Medieval</p><p>S. Justino (166), nascido em Naplusa na Galiléia, mártir. Escritor leigo, au-</p><p>tor de duas Apologias e do Diálogo com o judeu Trifão, é o mais destacado</p><p>apologista do século li. ‘“‘ “O cristianismo para ele não é, antes de tudo, uma</p><p>doutrina, porém, uma pessoa: o Verbo encarnado e crucificado em Jesus”</p><p>(SOUZA e FILHO, 1988, p. 205).</p><p>A segunda corrente afirmava que fé e razão eram conciliáveis e que cada uma</p><p>teria o seu campo de atuação. Por último, a terceira corrente afirmava que a fé traz as</p><p>verdades e a razão auxilia o seu entendimento. Importante destacar que os embates entre</p><p>fé e razão nunca cessaram durante a Idade Média, houve conflitos entre os dois, por isso</p><p>os “Patrísticos” vão se apoiar na filosofia de Platão para desvelar a relação entre religião e</p><p>racionalidade.</p><p>Os “Patrísticos” mergulharam nas filosofias do “Neoplatonismo”, escola fundada</p><p>no século III em Alexandria que no seu cerne era composto por argumentos metafísicos</p><p>e epistemológicos. Essa teoria era fundamentada nos escritos de Platão. Os principais</p><p>pensadores desse período foram Plotino e seu discípulo Porfírio, ambos no século III.</p><p>Os “Patrísticos” também exploraram a figura da Virgem Maria, para os seus devo-</p><p>tos, ela era a protetora, a mãe bondosa, a justiceira e defensora das minorias. Apesar de</p><p>existirem poucas passagens de sua vida na Bíblia, Maria, ao longo do tempo tornou-se um</p><p>personagem extremamente familiar e habituado na Igreja Católica. (RODRIGUES, 2012, p.</p><p>12).</p><p>O documento biográfico de santos “Legenda Áurea”, escrito no século XIII pelo fra-</p><p>de Jacopo de Varazze (2003), revela que Maria foi gerada da união de Joaquim, fazendeiro</p><p>e criador de ovelhas, natural de Nazaré, e Ana, filha de Nathan, um sacerdote que vivia em</p><p>Belém e tinha outras duas irmãs. Casaram-se prematuramente, o documento menciona</p><p>que constituíam um casal “justo” e seguidor dos mandamentos do Senhor, no entanto, não</p><p>conseguiam dar a luz a nenhum filho.</p><p>Após 20 anos de amargura e pedidos, Ana engravidou e deu à luz a uma filha, que</p><p>recebeu o nome de Maria. Ao completar três anos, a menina foi levada ao templo, onde, de</p><p>acordo com a promessa dos pais, viveria a serviço do divino. A Virgem foi ali educada e só</p><p>retornou à casa dos pais aos 14 anos para se casar com José.</p><p>Segundo a historiadora Edilece Souza Couto (2004), até esse período são pou-</p><p>quíssimos os registros sobre a vida de Maria. Sua biografia torna-se mais completa após</p><p>o nascimento de Jesus Cristo, nas passagens bíblicas. O historiador Oscar Calavia Saez</p><p>(2008) ressalta a existência de diversos fatores que contribuíram para transformar a figura</p><p>de Nossa Senhora de uma vaga referência evangélica a um personagem eximiamente fami-</p><p>liar e divino de modo equivalente ao seu filho como, por exemplo, o dogma da Maternidade</p><p>61UNIDADE III O Saber Medieval</p><p>Divina, i proclamado pela Igreja Católica no Concílio de Éfeso em 431 considerando Maria</p><p>a “Mãe de Deus”. O Dogma sobre a Virgindade perpétua enveredou-se nas falas do</p><p>Bispo Ambrósio de Milão, por volta do ano 391 ou 392, no documento “De Institutione</p><p>Virginis”, que se dedica em defender a virgindade perpétua de Nossa Senhora</p><p>(RODRIGUES, 2012, p. 23).</p><p>Sobre essa temática, os cristãos acreditam que Maria era pura quando concebeu</p><p>Jesus, mas apenas a Igreja Católica e os ortodoxos creem que ela ficou eternamente vir-</p><p>gem. Alguns setores do catolicismo ligam a ideia da sua pureza na tese do nascimento de</p><p>Cristo pela profecia de Isaías, presente no capítulo 7 da Bíblia Sagrada “Pois saibam que</p><p>Javé lhes dará um sinal: A jovem concebeu e dará à luz um filho, e o chamará pelo nome de</p><p>Emanuel”. O terceiro dogma refere-se à Imaculada Conceição, em 8 de dezembro de 1854,</p><p>publicada pelo Papa Pio IX</p><p>Que a doutrina que defende que a beatíssima Virgem Maria foi preservada de</p><p>toda a mancha do pecado original desde o primeiro instante da sua concep-</p><p>ção, por singular graça de privilégio de Deus omnipotente e em atenção aos</p><p>merecimentos de Jesus Cristo salvador do gênero humano, foi revelada por</p><p>Deus e que, por isso deve ser admitida com fé firme e constante por todos</p><p>os fiéis “1.</p><p>Por meio dessas bulas dogmáticas, Maria paulatinamente passa da condição de</p><p>Serva do Senhor conforme é mencionada em Lucas, capítulo 1 versículo 38-48, para Mãe</p><p>de Deus e Mãe da Igreja.</p><p>Assim, consideramos que por quase sete séculos, os “Patrísticos” foram responsá-</p><p>veis por firmar a fé católica, fortalecer os ritos cristãos e difundir os dogmas do cristianismo</p><p>pela Europa. É nesse contexto, que vamos ter o desenvolvimento do maior expoente da</p><p>“Patrística”, que foi Santo Agostinho.</p><p>Agostinho de Hipona, nascido em Tagaste, no norte da África no ano de 354 é</p><p>considerado o mais dos “Patrísticos” e responsável por refletir sobre a história do homem e</p><p>a sua relação com a Igreja.</p><p>Le Goff (1977) aponta que Agostinho era um homem inquieto e estava sempre</p><p>em busca de um conforto para a alma, de uma verdade que ele pudesse abraçar e que</p><p>pudesse mostrar o caminho certo para um caminho de uma vida tranquila. E através dessa</p><p>jornada, nesse caminho que ele percorre, encontra Cristo.</p><p>Agostinho iniciou seus estudos na própria Tagaste e, posteriormente, foi a</p><p>Madauro cursar gramática, com a intenção de formar-se em retórica, estudo</p><p>que poderia garantir a profissão de advogado ou seguir carreira burocrática,</p><p>mas devido à falta de dinheiro retornou à sua casa. Somente iria concluir</p><p>1Disponível em http://www.montfort.org.br/old/index.php?secao=documentos&subsecao=decretos&artigo=20060220&lang=bra.</p><p>Acesso no dia 27/08/2020.</p><p>62UNIDADE III O Saber Medieval</p><p>sua formação em Cartago, com a ajuda financeira de um amigo da família,</p><p>Romaniano. Sua formação cultural se deu pelos</p><p>autores latinos, estudando</p><p>principalmente Virgílio e Cícero, assim como os demais clássicos. (PIRATELI,</p><p>2003, p. 329).</p><p>Por longos anos, Agostinho se dedicou a estudar outras doutrinas, só que o seu</p><p>espírito inquieto teria feito com que ele questionasse todas essas dogmas, até a sua con-</p><p>versão. Para isso, inicialmente nós temos os esforços da sua mãe da Mônica ao tentar</p><p>converter o Agostinho ao cristianismo, Mônica era uma pessoa humilde, não era letrada,</p><p>simplesmente uma dona de casa trabalhadora que não tinha instrução mas que tinha a fé</p><p>fervorosa de uma verdadeira serva de Deus.</p><p>Mas isso não foi suficiente para converter Agostinho à fé cristã, pois o mesmo</p><p>não simpatizava com cristianismo. A princípio, começou a flertar com a filosofia quando</p><p>descobriu as obras do Cícero, principalmente o “Hortênsio” mostrou uma filosofia como</p><p>uma arte de viver típica do período Helenístico.</p><p>Após ter lido Hortênsio, de Cícero, - livro escrito em forma de diálogos, no</p><p>qual o pensador latino respondeu às dificuldades de Hortênsio com a filosofia</p><p>- o estudante Agostinho considerou ter passado por sua primeira “conversão”:</p><p>à Filosofia, despertando em sua alma, segundo seu próprio testemunho, o</p><p>“amor da sabedoria”. (PIRATELI, 2003, p. 329).</p><p>Posteriormente, o Santo Agostinho, foi se dedicando aos estudos do maniqueísmo,</p><p>que era uma doutrina em que afirmava que o bem e o mal são as únicas coisas existem</p><p>nesse mundo e que não apenas existem, elas constitui o nosso mundo, são princípios</p><p>ontológicos, estão no fundamento de todas as coisas.</p><p>O amadurecimento do próprio pensamento do autor, tanto em nível intelectual</p><p>como espiritual, através de sua maior compreensão do cristianismo, mostra</p><p>como em seu pensamento a ontologia e a ética se relacionam profundamen-</p><p>te. A compreensão do “ser” tanto da natureza humana como da realidade do</p><p>mundo fazem parte de uma mesma interrogação do pensar que redundam</p><p>diretamente na forma como o homem se comporta frente a seu mundo. A</p><p>interrogação ontológica e a interrogação ética em Agostinho estão absoluta-</p><p>mente implicadas, logo, a fundamentação do agir não pode ser reduzida a um</p><p>aspecto da realidade humana, precisa partir da relação do ser humano com a</p><p>totalidade desta realidade (VAHL, 2016, p.15).</p><p>Assim, na concepção Agostiniana, o pecado não seria fruto de um erro da vontade</p><p>humana, mas sim fruto do mal que é constitutivo desse nosso próprio mundo. Se o mal</p><p>assim como o bem, constitui o mundo e está presente em toda a nossa essência, então o</p><p>pecado faz parte do homem, ele estaria intrínseco na sociedade.</p><p>De acordo com Agostinho:</p><p>A defectibilidade da alma vem de seus atos e da pena que padece pelas di-</p><p>ficuldades - consequência dessa defectibilidade. Todo o mal se reduz a isso.</p><p>Ora, o agir ou o padecer não são substâncias. Portanto, a substância não é</p><p>um mal. [...] Por exemplo, [...] se alguém, repentinamente, fixasse de frente</p><p>63UNIDADE III O Saber Medieval</p><p>o sol de meio-dia, seus olhos feridos pelos raios se ofuscariam. Serão por</p><p>acaso maus, por isso, o sol ou os olhos? De modo algum, porque eles são</p><p>substâncias. O mal está em mirar imprudentemente e no incômodo que se</p><p>segue. Esse desaparecerá, porém, depois de os olhos terem descansado e</p><p>se dirigido a uma luz conveniente (AGOSTINHO, 1992: 70-71).</p><p>Posteriormente, Agostinho encontra o Bispo Ambrósio, que naquele período era um</p><p>grande orador, e ao presenciar um dos sermões, durante a vigília da Páscoa, na cidade de</p><p>Milão, se converte à fé cristã no ano de 387.</p><p>Agostinho narra esse episódio na obra “Confissões”</p><p>Chegando a Milão, fui visitar o bispo Ambrósio, conhecido pelas suas quali-</p><p>dades em toda a terra e vosso piedoso servidor, cuja eloquência zelosamente</p><p>servia ao vosso povo “a fina flor do vosso trigo, a alegria do azeite de oliveira</p><p>e a sóbria embriaguez do vinho” (AGOSTINHO, 1999, p. 140).</p><p>Esse cristianismo é reverenciado nas epístolas de Paulo, quando Agostinho perce-</p><p>be que a conversão não é sim um ato íntimo mas sim um olhar para dentro de si, uma forma</p><p>de encontrar Jesus Cristo e as suas verdades.</p><p>Milão foi o ponto decisivo da conversão do futuro bispo de Hipona, o local</p><p>que, segundo o filósofo-teólogo, o “levou” a Deus. Sua conversão se deu</p><p>a partir de três situações: o encontro com o bispo Ambrósio; a adoção da</p><p>filosofia neoplatônica e a preferência pela leitura das cartas de São Paulo.</p><p>(PIRATELI, 2003, p. 330).</p><p>Assim como outros “Patrísticos” Santo Agostinho também foi influenciado pelo</p><p>Neoplatonismo, pela forma que as ideias platônicas coincidem com as do Evangelho, da</p><p>cristandade. Quando este começa a harmonizar as ideias filosóficas com as verdades da</p><p>Bíblia dá-se início ao que podemos denominar de filosofar na fé. É nesse momento, que</p><p>apesar dos esforços dos primeiros padres do movimento “Patrísticos”, a Igreja Católica</p><p>apresenta uma filosofia Cristã. Uma vez que para ele a fé é uma substância de vida e</p><p>de pensamento, ela não seria apenas um apetrecho que a pessoa deveria usar quando</p><p>convém, mas sim a fé seria a substância da vida do homem.</p><p>Santo Agostinho afirmava que era necessário crer para entender e entender para</p><p>crer. Assim a razão e fé são sim conciliáveis e dessa forma era possível vivenciar o mundo</p><p>e Deus . Nesse quadro, a razão continuava submissa à fé, ela seria um instrumento, que</p><p>vai servir para entender as verdades que foram reveladas no Evangelho.</p><p>Em sua vida, Agostinho publicou mais de cem obras, que versavam sobre as</p><p>here-sias dos arianos (aqueles mencionados no capítulo II), dos maniqueistas e dos</p><p>povos pagãos. Uma de suas produções mais conhecidas, se chama “Confissões” na qual</p><p>ele narrou os primeiros anos de vida, quando ainda era pagão, até o momento em que é</p><p>convertido. É considerada uma autobiografia, mesmo que conte apenas uma parte dos</p><p>64UNIDADE III O Saber Medieval</p><p>acontecimentos vividos por Agostinho.</p><p>Outra obra de grande relevância foi “Cidade de Deus”, na qual o autor descreveu</p><p>o mundo em duas partes: a dos homens e a dos céus, ou o mundo terreno e o mundo</p><p>espiritual. No ano de 391, foi ordenado padre na cidade de Hipoana, posteriormente Bispo</p><p>da mesma em 397, onde permaneceu até 430 quando faleceu. Quase um milênio depois,</p><p>foi proclamado Santo pelo papa Bonifácio VIII em 1298.</p><p>SAIBA MAIS</p><p>Tanto os “Patrísticos” quanto os “escolásticos” foram responsáveis pela formação e pro-</p><p>dução do saber durante a Idade Média, porém esse conhecimento não se ateve apenas</p><p>nas mãos da Igreja, outros pensadores difundiram suas ideias e foram importantes para</p><p>compreensão da forma como as sociedades se organizavam no mundo medieval, como</p><p>por exemplo os mouros : Avicena, Averróis, Alfarabi e Algazáli.</p><p>Fonte: OLIVEIRA. Terezinha. Origem e memória das universidades medievais a preservação de</p><p>uma instituição educacional. Varia hist. vol.23 no.37 Belo Horizonte Jan./June 2007</p><p>REFLITA</p><p>Observe abaixo o trecho da obra “A predestinação dos Patrísticos”, na qual Agostinha</p><p>revela o momento em que seu coração se converte ao cristianismo.</p><p>Quando, por uma análise profunda, arranquei do mais íntimo toda a minha miséria e</p><p>a reuni perante a vista do meu coração, levantou-se enorme tempestade que arrastou</p><p>consigo uma chuva torrencial de lágrimas. [...] oprimido pela mais antiga dor do coração.</p><p>[...] Eis que ouço uma voz [...]. Cantava e repetia frequentes vezes: “Toma e lê; toma e</p><p>lê”. [...] persuadindo-me de que Deus só me mandava uma coisa: abrir o códice, e ler o</p><p>primeiro capítulo que encontrasse. [...]. Apenas acabei de ler estas frases, penetrou-me</p><p>no coração uma espécie de luz serena, e todas as trevas da dúvida fugiram</p><p>(AGOSTINHO, 1999, p. 222-223).</p><p>65UNIDADE III O Saber Medieval</p><p>CONSIDERAÇÕES FINAIS</p><p>Nessa unidade realizamos uma reflexão sobre a forma que a produção do saber e o</p><p>conhecimento foram praticados durante a Idade Média. No final da Antiguidade observamos</p><p>o surgimento dos “Patrísticos”, liderados pelos padres da Igreja, esse movimento perdurou</p><p>por sete séculos</p><p>e teve como principal pensador Santo Agostinho, posteriormente, outro</p><p>organização metodológica ganhou força, os “escolásticos” apresentaram ao mundo a filo-</p><p>sofia medieval, pautada na racionalização da fé, tendo como maior expoente São Thomaz</p><p>de Aquino.</p><p>66UNIDADE III O Saber Medieval</p><p>LEITURA COMPLEMENTAR</p><p>As virtudes no pensamento de Santo Tomás de Aquino</p><p>Nesse artigo, o autor discute sobre o tratado das virtudes de Tomás de Aquino,</p><p>tendo como base a ética de Aristóteles como objetivo esclarecer qual a finalidade do homem</p><p>em suas ações. No tratado das virtudes, Tomás faz uma distinção entre virtudes morais e</p><p>virtudes intelectuais.</p><p>http://www.uel.br/eventos/sepech/sumarios/temas/as_virtudes_no_pensamento_de_santo_to-</p><p>mas_de_aquino.pdf</p><p>67UNIDADE III O Saber Medieval</p><p>MATERIAL COMPLEMENTAR</p><p>LIVRO</p><p>Título: Confissões</p><p>Autor: Santo Agostinho</p><p>Editora : Penguin; 1ª Edição (12 abril 2017)</p><p>A obra que narra a vida de Santo Agostinho, desde os primeiros</p><p>anos de vida no norte da África, até o processo de conversão ao</p><p>cristianismo em 387 na cidade de Milão.</p><p>FILME/VÍDEO</p><p>Título: O Nome da Rosa</p><p>Ano: 1986</p><p>Sinopse: O longa narra a história de William de Baskerville,</p><p>monge franciscano interpretado pelo autor Sean Connery, que ao</p><p>chegar a um mosteiro na Itália em 1327 presencia uma série de</p><p>assassinatos. Seus pares vão afirmar que se tratava de obra do</p><p>Diabo, porém o Monge questiona a natureza dos crimes e passa</p><p>a investigá-los.</p><p>WEB</p><p>Título: Santo Tomás de Aquino - Razão a serviço da fé</p><p>Matéria produzida pelo portal de educação do UOL, na qual apresenta a influência</p><p>do filósofo Aristóteles na obra de São Tomás de Aquino.</p><p>Fonte: SALATIEL, José Renato. Santo Tomás de Aquino - Razão a serviço da fé.</p><p>UOL Educação. 28 de novembro de 2012.</p><p>Disponível em https://educacao.uol.com.br/disciplinas/filosofia/santo-tomas-de-a-</p><p>quino-razao-a-servico-da-fe.htm</p><p>Acesso em 29 de agosto de 2020V</p><p>68</p><p>Plano de Estudo:</p><p>• Arte românica e gótica;</p><p>• Pinturas, iluminuras e tapeçarias;</p><p>• O Romance de cavalaria.</p><p>Objetivos da Aprendizagem:</p><p>• Explorar a arquitetura românica e gótica;</p><p>• Refletir sobre as práticas culturais medievais como pinturas, tapeçarias e iluminuras;</p><p>• Apreender sobre o movimento literário medieval</p><p>denominado Romance de Cavalaria.</p><p>UNIDADE IV</p><p>A Cultura Medieval</p><p>Professor Doutor João Paulo Pacheco Rodrigues</p><p>69UNIDADE IV A Cultura Medieval</p><p>INTRODUÇÃO</p><p>Até o momento discutimos vários aspectos da Idade Média, sua organização polí-</p><p>tica, econômica, social e religiosa. Nesta última unidade vamos refletir um pouco sobre o</p><p>legado cultural desse período. Na primeira parte, uma discussão sobre a arte Românica e</p><p>arte Gótica, as duas mais expoentes do período medieval. Em seguida, uma síntese sobre</p><p>algumas práticas e costumes culturais desses povos, como as pinturas, iluminuras e tape-</p><p>çarias e por último uma discussão literária, sobre as “Novelas” ou Romances Medievais.</p><p>70UNIDADE IV A Cultura Medieval</p><p>1. ARTE ROMÂNICA E GÓTICA</p><p>Antes de iniciar as nossas observações sobre a História da Arte na Idade Média,</p><p>é importante salientar, que podemos considerar o termo Arte como um reflexo do que as</p><p>sociedade está vivendo. Nesse período dominado pelas instituições religiosas, por boa par-</p><p>te, as construções, símbolos e signos estiveram ligados e sob domínio da Igreja Católica.</p><p>Podemos considerar que grande parte da arte na Idade Média foi expressa principalmente</p><p>por meio da arquitetura. Foi nessa época que os arquitetos avançaram nos padrões de</p><p>construção, tornando possível construir edifícios mais altos, mais pesados e mais fortes.</p><p>O progresso dessas construções deveu-se ao contexto de grande abundância agrícola</p><p>trazida pelo regime feudal, como vimos na primeira unidade.</p><p>A arte da Idade Média transmite-nos um conceito alargado do homem e da</p><p>sua relação com o mundo e constitui a própria essência desta época. Dá-nos</p><p>a justa medida das misérias e grandezas do seu espírito. Mostra-o em todas</p><p>as etapas e vicissitudes da sua vida. Deus está no centro do Universo mas,</p><p>através do seu filho encarnado, Jesus Cristo, dá ao homem e å humanidade</p><p>uma dimensão divina.( MARQUES, 2007, p. 3).</p><p>Para Marcelo Cândido da Silva (2019), nesse meio, duas correntes firmaram-se</p><p>durante este período. A partir do século X tivemos o desenvolvimento da arte românica.</p><p>Os princípios arquitetônicos dominaram as novas construções até o século XII. Foi neste</p><p>ponto que a arte gótica gradualmente tomou o lugar do romance. No entanto, essa subs-</p><p>tituição não foi feita da noite para o dia: esses dois gêneros estiveram em contato por um</p><p>breve período transitório.</p><p>71UNIDADE IV A Cultura Medieval</p><p>Podemos definir a arte românica como um estilo arquitetônico, pictórico e de-</p><p>corativo ao mesmo tempo. As decorações (pinturas, esculturas) da arte românica estão</p><p>diretamente ligadas à arquitetura, uma vez que nela estão integradas. As influências da arte</p><p>românica são numerosas: este movimento foi influenciado pelas ideias do Renascimento</p><p>Carolíngio, da Antiguidade, do Império Bizantino, dos Orientais e dos Celtas.</p><p>De acordo Marisa Marques (2007), originária do norte da Itália, a arte românica</p><p>surgiu em meados do século X, período em que foram construídas as primeiras igrejas</p><p>românicas. Elas eram caracterizadas por abóbadas, variavam entre dois tipos: as de berço</p><p>e as de arestas. Esta forma também inspirou o nome de nave, designando a parte principal</p><p>da igreja.</p><p>Gradualmente, o estilo românico se espalhou pela Europa. Naquela época, várias</p><p>igrejas haviam sido destruídas durante as invasões bárbaras ou por incêndios. É por esta</p><p>razão que se realizou uma vasta obra de reconstrução e os arquitetos aproveitaram para</p><p>melhorar os métodos construtivos e também os materiais.</p><p>As construções de pedra foram sendo substituídas gradativamente as de madeira,</p><p>mais suscetíveis a incêndios. Grandes edifícios religiosos como abadias, mosteiros e igrejas</p><p>foram praticamente as únicas construções que exibiam a arquitetura românica.</p><p>A arte esteve então ao serviço da religião e da fé, principalmente pelo que a maioria</p><p>dos edifícios românicos se caracterizam pelo rigor e pela austeridade arquitetônica.</p><p>A forma exterior era maciça, construída com grandes abóbadas de pedra. No geral,</p><p>a altura dos edifícios também eram limitadas. Todas as aberturas nas paredes possuíam</p><p>uma forma arredondada, as torres geralmente quadradas (ou poligonais) e não muito pon-</p><p>tiagudas. As paredes decoradas com inúmeras esculturas e pinturas.</p><p>Se na arquitetura romana a ordem a que pertenciam os capitéis era a de-</p><p>finição primordial. já no Românico esses capitéis serão um dos fatores de</p><p>inovação da arte cristã e é neles que a escultura românica mais se afirma. “É</p><p>no período Românico que se reinventa o uso da escultura, colocando-a ao</p><p>serviço da arquitetura, da ilustração religiosa e da devoção “ Não obstante o</p><p>significado dessas figuras poder ser múltiplo, as iconografias remetem-nos</p><p>para tempos ancestrais em que esses seres imaginários passaram da tra-</p><p>dição oral às imagens dos manuscritos e finalmente å pedra. (MARQUES,</p><p>2007, p. 36).</p><p>Na arquitetura românica, geralmente, a porta da igreja era colocada sob três arcos</p><p>e estes arcos acima, por uma abertura circular. Entre a porta e os arcos encontrava-se o</p><p>lintel, geralmente ornamentado ou gravado, e o tímpano que era o espaço semicircular entre</p><p>o arco e o lintel. A abóbada também era desenhada com o mesmo espírito do semicírculo,</p><p>visto que geralmente formava-se um semicilindro.</p><p>72UNIDADE IV A Cultura Medieval</p><p>Por diversas vezes, a igreja possuía duas naves, uma principal e outra transversal.</p><p>É esta nave transversal que dá a forma de cruz a várias igrejas românicas. As igrejas</p><p>românicas também tinham criptas acessíveis a todos. As criptas eram pequenas cavidades</p><p>recuadas que continham relíquias de um santo.</p><p>Todas essas novas características puderam se desenvolver graças às inovações</p><p>técnicas na construção. Embora</p><p>os trabalhadores não usassem muitos equipamentos de</p><p>elevação, eles ainda conseguiram erguer essas igrejas de tamanho impressionante e so-</p><p>fisticação técnica. Além disso, a pedra passou a ser extraída diretamente das pedreiras, o</p><p>que aumentou sua qualidade. Os pisos dos edifícios eram geralmente de terra batida. No</p><p>entanto, em alguns lugares, o chão era coberto por um enorme mosaico colorido ou calçada</p><p>de pedra.</p><p>Figura 1: Basílica de Saint-Sernin em Toulouse</p><p>Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Bas%C3%ADlica_de_Saint-Sernin_de_Toulouse#/media/Ficheiro:Basilique_Saint-Ser-</p><p>nin_de_Toulouse_-_exposition_ouest-1-.jpg</p><p>Os escultores do período românico eram muito criativos, e fizeram várias escul-</p><p>turas de um mundo imaginário ou onírico, muitas vezes inspirado em mitos e folclore. É</p><p>por isso que muitas dessas esculturas representavam bestas imaginárias (dragões, grifos).</p><p>As esculturas eram integradas, adornam paredes e colunas, decoram criptas, claustros e</p><p>igrejas. Na verdade, cada espaço livre costumava ser ocupado por uma escultura.</p><p>73UNIDADE IV A Cultura Medieval</p><p>Os monstros nos capitéis fizeram parte dos programas escatológicos, deli-</p><p>mitando as possibilidades do homem face ao desconhecido, tanto no plano</p><p>terreno como no plano místico. Para o homem da Idade Média não existe</p><p>fronteira entre o visível e o invisível, entre o real e o sobrenatural, entre este</p><p>mundo e o outro. Essas estranhas criaturas simbolizam uma reflexão sobre</p><p>o mundo físico e seus limites perante o mundo espiritual, atestando assim os</p><p>objetivos didáticos dos programas iconográficos (MARQUES, 2007 p. 38).</p><p>Além de decorar as instalações, as esculturas também desempenharam um pa-</p><p>pel de transmissão de conhecimento. Os escultores frequentemente ilustravam assuntos</p><p>bíblicos, incluindo conexões entre o Antigo e o Novo Testamentos. Os episódios cristãos</p><p>representados por essas esculturas permitiriam, assim, aumentar a fé cristã. Esculturas</p><p>representavam cenas de vários personagens, sejam da vida cotidiana ou bíblicas. Outras</p><p>esculturas apresentavam bestas fantásticas, plantas imaginárias ou padrões geométricos.</p><p>A tinta também foi usada como ornamento em edifícios religiosos. Várias igrejas</p><p>foram decoradas com grandes afrescos. Geralmente, estas eram realizadas com a arga-</p><p>massa da parede ainda molhada. Essa prática também favoreceu a conservação desses</p><p>afrescos.</p><p>Os artistas embelezaram suas pinturas com muitos detalhes e deram um estilo</p><p>realista às suas obras. Os temas das pinturas foram retirados de manuscritos populares,</p><p>referências diárias ou folclóricas ou mesmo temas sagrados importantes. Quase todas as</p><p>superfícies disponíveis foram pintadas ou cobertas com mosaicos. Por outro lado, o uso</p><p>do mosaico para fins decorativos diminuiu durante o período românico, uma vez que esta</p><p>técnica era bastante cara. Os pintores usaram cores vivas, como amarelo, vermelho, verde,</p><p>branco e preto.</p><p>Outras artes praticadas durante o período românico incluíam esmaltação (prática</p><p>ornamental) e iluminação (manuscritos de imagem) capitulares (adornando as primeiras</p><p>letras de um manuscrito), vitrais (várias aberturas foram decoradas com vitrais coloridos,</p><p>embora estes não fossem tão grandes ou tão numerosos como os vitrais do período gótico).</p><p>“Se na igreja românica a luz contrasta com a substância pesada e sombria das</p><p>paredes, na igreja gótica a luz é filtrada através dos vitrais. absorvendo e transfigurando</p><p>essas mesmas paredes” (MARQUES, 2007 p.38).</p><p>Posteriormente a arte românica, tivemos no século XII, o surgimento de uma nova</p><p>vertente na história das Artes. O gótico nasceu na região de Paris, e dissipou-se</p><p>depois pela Europa. A arte gótica foi um fenômeno europeu de características muito</p><p>complexas e variadas, que influenciou todos os setores da produção artística, conduzindo</p><p>a grandes desenvolvimentos também nas chamadas artes menores: como a ourivesaria,</p><p>miniatura, talha em marfim, vitral e tecidos.</p><p>74UNIDADE IV A Cultura Medieval</p><p>Em meados do século XII, o prestígio dos grandes mosteiros era incontestá-</p><p>vel. Os religiosos e intelectuais mais influentes eram monges, como o abade</p><p>beneditino Surger e o organizador da Ordem Cisterciense, São Bernardo de</p><p>Clairvaux. Os empreendimentos artísticos eram totalmente dominados e con-</p><p>trolados pelos principais hierarcas monásticos, e era nos mosteiros que se</p><p>encontravam as melhores oportunidades de trabalho. (WILLIAMSON, 1998,</p><p>introdução).</p><p>O nascimento oficial do estilo é identificado na arquitetura, com a construção do coro</p><p>da Abadia de Saint-Denis em Paris, consagrado em 1144. Da França a notícia se espalhou</p><p>de diferentes maneiras e tempos na Inglaterra, Alemanha, Espanha, Itália, Áustria, Boêmia,</p><p>Hungria, Escandinávia, Polônia, Transilvânia, Moldávia, diversificando-se e adaptando-se a</p><p>um grande número de clientes e finalidades diferentes.</p><p>Por exemplo, na Espanha e na Inglaterra, o gótico marca o nascimento de monar-</p><p>quias nacionais, enquanto em outras áreas foi uma expressão de poderes feudais, ou de</p><p>comunas livres dominadas pela nova rica burguesia urbana. No período gótico existia uma</p><p>estreita relação entre arte e fé cristã, mas foi também o período em que renasceu a arte se-</p><p>cular e profana. Se em algumas áreas buscavam-se expressivos efeitos antinaturalíssimos,</p><p>em outras (como na escultura renascentista) assistimos ao resgate do estudo do corpo</p><p>humano e de outros elementos do cotidiano.</p><p>Devido à sua origem francesa, a arquitetura gótica foi chamada de “opus francige-</p><p>num” na Idade Média. Em Veneza, porém, era conhecida como uma forma de construção</p><p>“ao estilo alemão”. O termo “gótico”, propriamente “dos godos”, um antigo povo germânico,</p><p>foi usado pela primeira vez para indicar este estilo artístico e arquitetônico por Giorgio Vasari</p><p>no século XVI como sinônimo de nórdico, bárbaro, caprichoso, oposto ao renascimento da</p><p>linguagem clássica Renascença</p><p>Era o aparecimento do estilo gótico. [...] Era principalmente uma invenção técni-</p><p>ca; contudo, em seus efeitos, tornou-se muito mais do que isso, foi descoberta</p><p>de que o método de abobadar uma igreja por meio de arcos transversais podia</p><p>ser desenvolvido de maneira [...] sistemática e com objetivos mais ambiciosos</p><p>do que arquitetos normandos sequer chegaram a imaginar. [...] era possível</p><p>erigir uma espécie de estrutura de pedra para manter o edifício coeso. Bastava</p><p>empregar pilares leves e costelas estreitas nas arestas da abóbada. [...] Não</p><p>havia necessidade alguma de pesadas paredes de pedra, pelo contrário, nas</p><p>paredes podiam ser abertas grandes janelas. Essa era a ideia dominante das</p><p>catedrais góticas desenvolvidas no norte da França [...]. O princípio de cruza-</p><p>mento de “nervuras” não era bastante, por si só, para esse estilo revolucionário</p><p>de construção gótica foi necessário um número de outras invenções técnicas</p><p>para tornar possível o milagre. (GOMBRICH, 1993, p. 137).</p><p>A perda da conotação negativa do termo remonta à segunda metade do século</p><p>XVIII quando, primeiro na Inglaterra e na Alemanha, houve uma reavaliação desse período</p><p>da história da arte, que resultou também em um verdadeiro renascimento, o Neo-Gótico,</p><p>que gradualmente se enraizou também na França, Itália e parte dos países anglo-saxões.</p><p>75UNIDADE IV A Cultura Medieval</p><p>A originalidade da arquitetura gótica deu-se pelo desaparecimento das grossas pa-</p><p>redes típicas do românico. O peso da estrutura não era mais absorvido pelas paredes, mas</p><p>distribuído em pilares e uma série de estruturas secundárias colocadas fora dos edifícios.</p><p>Assim nasceram as paredes de luz, cobertas por janelas, que correspondiam ao exterior,</p><p>uma complexa rede de elementos para a liberação das forças. Os arcobotantes, os piná-</p><p>culos, os arcos de descarga eram todos elementos estruturais, que continham e dirigiam</p><p>os impulsos laterais da cobertura ao solo, enquanto as paredes de enchimento perderam</p><p>importância, substituídas pelas janelas.</p><p>Além disso, a arquitetura gótica</p><p>criticavam a Idade Média como uma época de muita</p><p>superstição, crença apenas na Igreja e ignorância por parte da sociedade. Qualificações</p><p>como “Período em que a humanidade não tomou banho” (BESSELAAR, 1970 p. 89-95),</p><p>“Idade das Trevas” (FRANCO JÚNIOR, 1988, p. 17-19), “Civilização da Barbárie” (INÁCIO</p><p>& LUCA, 1988, p.7), foram utilizadas por adeptos do renascimento na tentativa de denegrir</p><p>a Idade Média.</p><p>Esses intelectuais, acreditavam que o período mais fascinante na história da hu-</p><p>manidade, teria sido a Antiguidade, com sua filosofia, artes plásticas, ciência e também a</p><p>maneira de produzir História e preservar a memória.</p><p>6UNIDADE I O que foi a Idade Média ?</p><p>De acordo com Jérôme Baschet, a Idade Média recebia este nome pois:</p><p>Media aetas, medium aevum, em latim, e as expressões equivalentes nas</p><p>línguas européias significam a idade do meio, um intervalo que não poderia</p><p>ser nomeado positivamente, um longo parêntese entre uma Antiguidade</p><p>presti-giosa e uma época nova, enfim, moderna. (BASCHET, 2006, p. 25 -</p><p>grifos no original).</p><p>A Reforma protestante, o surgimento da filosofia Iluminista e a Revolução Francesa</p><p>são os eventos históricos que caracterizam a modernidade e que fizeram com o que o</p><p>sentido dos acontecimentos fosse encontrado nas ações humanas e não no divino. É o</p><p>sujeito que produz a História, foi dito desde então e esse fazer histórico era resultante das</p><p>ações humanas, da razão, da consciência dos homens, era um fazer-se ao longo do tempo,</p><p>um processo evolutivo.</p><p>Por isso, a História tinha que ser governada pela razão, uma razão na qual se</p><p>acreditava que todos os aspectos da vida caminhavam em direção à perfeição futura. Essa</p><p>seria obtida por meio da acumulação de conhecimentos sobre o mundo. Os passos para</p><p>esse modo de compreender as ações humanas e a explicação histórica para esses atos</p><p>são encontrados no Renascimento, na qual compreende o movimento de renovação cultu-</p><p>ral ocorrido na Europa entre os séculos XIV e XVI.</p><p>Os historiadores desse período passaram a discutir o sentido da História e a bus-</p><p>car as razões do ser no mundo, não mais com implicações teológicas, mas em prol do</p><p>alcance da perfeição moral no mundo profano. Para isso, havia que se encontrar outra</p><p>lógica explicativa para as ações humanas, diferentes das postergadas durante a Idade</p><p>Média, constituída em um conhecimento que se defendia anti-teológico, ou estabelecida</p><p>pela razão.</p><p>A base para esse pensamento foi formulada pelos filósofos Iluministas. Podemos</p><p>dizer que o pensamento Iluminista se sustenta em três pilares comuns à maioria de seus</p><p>pensadores, são eles:</p><p>1) a fé na razão;</p><p>2) a permanência da natureza humana ao longo do tempo;</p><p>3) a capacidade racional do homem de realizar na História as metas universais do</p><p>inexorável progresso (BERLIN, 1997, p. 47). Segundo essas bases, a tradição e a igreja</p><p>não mais respondiam aos seus anseios de entender e explicar o mundo, havendo que</p><p>encontrar respostas fundadas na experiência e na observação.</p><p>7UNIDADE I O que foi a Idade Média ?</p><p>1.1. Periodização de uma época - Ocidental</p><p>Para compreendermos a forma como os renascentistas analisavam o período</p><p>medieval, precisamos pontuar conceito de história e historicidade, desde a antiguidade até</p><p>o período moderno, uma vez que as suas transformações foram responsáveis pela forma</p><p>como o historiador examinou os fatos do passado e como eles criaram o conceito de Idade</p><p>Média.</p><p>Um elemento básico do conhecimento histórico é a historicidade, ou seja, o olhar</p><p>crítico lançado para a História é passado por diversas transformações e retificações de</p><p>tem-pos em tempos, o que acarreta em uma ampliação do conhecimento teórico</p><p>metodológico da disciplina. Dessa forma, tanto na História como na historiografia existe</p><p>uma historicidade, o que demonstra que ela ao decorrer dos anos ela se transforma ex-</p><p>pressando peculiarida-des na maneira de conceber o conhecimento do passado. E nesse</p><p>sentido percebemos que as formas de escritas históricas apresentam características</p><p>distintas, desde a antiguidade até o renascimento, é o que veremos adiante.</p><p>Uma característica básica do conhecimento histórico é a sua própria historicidade.</p><p>A historiografia é compreendida como o conjunto de estudos históricos; o conjunto das</p><p>variadas formas de escrever e pensar a História. Assim como a História, a historiografia</p><p>tem uma historicidade. Isso denota que ela muda de tempos em tempos, expressando as</p><p>diferentes formas de conceber o conhecimento do passado.</p><p>Quando se olha para os textos históricos produzidos na Antiguidade, constata-se</p><p>que entre os gregos e os romanos, por exemplo, havia muita semelhança entre a literatura</p><p>e a História. O que diferenciava ambas (e continua a diferenciar) era a preocupação com a</p><p>verdade. Para os historiadores desse período, fazer História implicava no trabalho do escri-</p><p>tor em usar de seu talento para elaborar uma oratória que explicasse o passado. O orador</p><p>era o homem mais capacitado para essa função e cabia a ele esclarecer e dar ‘exemplos’</p><p>de vida aos homens públicos e instruir o homem particular (HARTOG, 1998, p. 197).</p><p>A função do historiador era a de explanar o que ocorria entre os mortais; cabia a</p><p>ele explicar, traduzir para o outro o ocorrido. A divulgação dos grandes exemplos históricos</p><p>era considerada um modo de incentivar a imitação e a repetição das ações. A missão do</p><p>historiador era a de preservar aquilo que deve sua existência aos homens, para que o</p><p>tempo não o oblitere, e prestar aos extraordinários e gloriosos feitos de gregos e bárbaros,</p><p>louvor suficiente para assegurar-lhes evocação pela posteridade, fazendo assim sua glória</p><p>brilhar através dos séculos (ARENDT, 1988, p. 70).</p><p>8UNIDADE I O que foi a Idade Média ?</p><p>Por volta do século XII a.C. A escrita foi baseada nas tradições orais, transmitidas</p><p>de geração em geração e nela se vê a exaltação das virtudes como a honra, o patriotismo,</p><p>o heroísmo, o amor, a amizade, a fidelidade e a hospitalidade (DOSSE, 2003). Heródoto de</p><p>Halicarnasso (485 a.C. e 430 a.C) considerado o ‘pai da História’’ procurou fazer uma es-</p><p>crita sobre o passado com o menor recurso possível aos conteúdos mitológicos presentes,</p><p>por exemplo, em Ilíada e na Odisséia. Sua narrativa era repleta de oráculos, adivinhações</p><p>e da interferência de mitos na explicação do acontecimento (REIS, 2006, p. 18).</p><p>Para os gregos, a vida se movia sempre em repetições, pois tinham um entendi-</p><p>mento cíclico do universo. Isso fazia da História um conhecimento necessário, através do</p><p>qual se retiravam ensinamentos. Eles concebiam a História como uma forma de imortalizar</p><p>os feitos humanos. A narrativa histórica devia convencer os leitores pela beleza, forma,</p><p>estruturação e ordenação dos argumentos (FUNARI, 2005).</p><p>Conhecer os preceitos retóricos e ser dotado de grande erudição eram condições</p><p>fundamentais para o historiador, o que fazia da historiografia antiga, uma escrita funda-</p><p>mentada na arte da demonstração, por isso o apreço por parte dos Renascentistas e a</p><p>crítica ao período medieval. A História ensinava como aprender com a desgraça e como ser</p><p>moderado na prosperidade (REIS, 2006, p. 17).</p><p>O trabalho dos historiadores nesse período implicava em usar seu talento para</p><p>elaborar uma oratória que explicasse o passado. E o orador era o homem mais capacitado</p><p>e incumbido de esclarecer e “dar exemplos” de via vida dos homens públicos e instruir o</p><p>homem particular (HARTOG, 1998, p. 197, apud ZANIRATO, 2011, p. 31).</p><p>De acordo com Zanirato (2011), o tempo nesse período era visto de forma</p><p>circular, sujeito a se repetir de tempos em tempos, e o papel da História, era de</p><p>elaborar uma narrativa que buscava a explicação dos acontecimentos em um dado</p><p>período nesse tempo. A História se encarregou de produzir uma narrativa sobre os</p><p>feitos oriundos da ação do homem, e registar acontecimentos que não eram sujeitos a</p><p>imortalidade, mas que deveriam ser recordados para ficarem na eternidade. E nesse</p><p>não se esgotava na estrutura estática: os edifícios,</p><p>libertados do limite das paredes de alvenaria, desenvolveram-se com impulso vertical. Na</p><p>Inglaterra houve um novo desenvolvimento da abóbada cruzada com uma abóbada de seis</p><p>segmentos e depois uma abóbada radial ou em forma de leque: essas foram soluções que</p><p>permitiram uma distribuição de peso ainda melhor. A catedral gótica foi concebida</p><p>como uma metáfora do Paraíso, por isso o Juízo Final, passagem da bíblia,</p><p>costumava ser esculpido em sua entrada.</p><p>Nos séculos XIV e XV, o gótico desenvolveu-se em novas direções em comparação</p><p>com as formas dos dois séculos anteriores. A construção dos séculos XIV e XV caracteri-</p><p>zou-se por uma nave central de altura considerável e duas naves muito mais baixas. Isso</p><p>significava que a luz se concentrava sobretudo no nível do clerestório (parte superior da</p><p>nave, transeptos e coro de uma igreja, com uma série de janelas ou vitros, acima dos</p><p>telhados das naves laterais e que formavam a fonte principal de luz para a parte central do</p><p>prédio).</p><p>Dentro da conjuntura filosófico-teológica do século XII, na qual se enquadra</p><p>o nascimento da arte gótica, encontram-se três vertentes fundamentais – as</p><p>ideias do abade Suger de Saint-Denis, principal responsável pela recuperação</p><p>dos escritos do Pseudo Dionísio é habitualmente considerado o “criador” de</p><p>uma “arquitetura de luz”; o pensamento escolástico derivado das escolas de</p><p>Paris e arredores; e, por fim, o ideário cisterciense de despojamento e asce-</p><p>tismo preconizada por São Bernardo de Claraval (VILLAMARIZ, 2012, p. 18).</p><p>Já no gótico tardio, o arranjo interno mais comum seguiu o modelo da igreja salão,</p><p>ou seja, com corredores laterais de igual altura em relação ao central. Isso significava que</p><p>a luz não vinha mais de cima, mas sim das paredes laterais, iluminando todo o ambiente</p><p>de forma homogênea. A direcionalidade tradicional também foi modificada, perdendo a</p><p>conotação forte para os eixos anteriores, em favor de uma espacialidade policêntrica. Essa</p><p>nova visão do espaço também estava relacionada à religiosidade mais terrena e mundana</p><p>do século XV. A arte gótica e românica influenciou todo um contexto de artistas da Idade</p><p>Média, não foram apenas Igrejas e monumentos construídos, mas também pinturas, obje-</p><p>tos, que refletiam a importância dessas duas vertentes.</p><p>76UNIDADE IV A Cultura Medieval</p><p>2. PINTURAS, ILUMINURAS E TAPEÇARIAS</p><p>A arte medieval cobre um período de aproximadamente 1000 anos, em um contexto</p><p>espacial extremamente vasto e variado. Estudar as cores usadas pelos pintores da Idade</p><p>Média é entender como eram usadas e percebidas naquele período. Os requisitos mais</p><p>importantes eram dois: brilho e intensidade. As cores, portanto, foram aplicadas com forte</p><p>saturação, sem matizes e meios-tons, para sublinhar a força expressiva, necessária para</p><p>trazer à tona o significado simbólico.</p><p>Tratando principalmente de temas religiosos, observou-se uma tendência à procura</p><p>de luz, ouro e pedras preciosas, as próprias metáforas de valor artístico. Era a “metafísica</p><p>da luz” que via o mundo como uma emanação de Deus - luz suprema - atribuindo à luz um</p><p>valor não apenas místico e espiritual, mas também estético. Nessa época, as cores também</p><p>passaram a ter um significado simbólico. Ainda hoje, a Igreja, por exemplo, prescreve cores</p><p>litúrgicas para as vestes do altar e as vestes do celebrante, peculiares a cada época do ano</p><p>e às várias ocasiões rituais.</p><p>No espaço divino, a cor revelava a presença de Deus, as cores são, de fato, fruto</p><p>da interação entre a luz e as trevas. Na Idade Média, acreditava-se até que a luz que filtrava</p><p>pelos vitrais das igrejas tinha propriedades curativas, nesse segmento, a arte bizantina,</p><p>manteve forte influência na Itália, pelo menos até o período mais significativo da iconoclas-</p><p>tia (730-843). Ravenna, que herdou de Milão o que restou da ideia imperial no século V, foi</p><p>77UNIDADE IV A Cultura Medieval</p><p>(principalmente com seus mosaicos) um dos mais importantes centros de difusão dessa</p><p>arte, que permaneceu um modelo de requinte e equilíbrio técnico.</p><p>A pintura do período gótico desenvolveu-se posteriormente a outras técnicas de</p><p>pintura na Europa. Somente na segunda metade do século XIII, a pintura veio a se renovar</p><p>plenamente, graças à obra de Giotto.</p><p>Artesãos de imagens trabalhavam em pequenos ateliês, com um único</p><p>aprendiz. As regulamentações incluíam [...] regras para o aprendizado dos</p><p>iniciantes na profissão, (por exemplo, que devia durar no mínimo sete anos)</p><p>e davam conselhos sobre o procedimento corretos para se esculpirem ima-</p><p>gens e crucifixos: ninguém pode e nem deve trabalhar em dia santo [...] nem</p><p>à noite [...] nem deve fazer imagens ou crucifixo [...] se não com material</p><p>apropriado [...] se para outra pessoa que não seja um clérigo, ou homem da</p><p>igreja ou cavaleiro, ou nobre para seu uso. [...] imagem que não seja esculpi-</p><p>da numa única peça[...]. Nenhum pintor de imagens pode ou deve vender um</p><p>trabalho no qual o ouro [...] tenha sido aplicado ao estanho [...]o trabalho lhe</p><p>é imperfeito (WILLIAMSON, 1998, p. 18).</p><p>As razões deste atraso estiveram provavelmente relacionadas com os diferentes</p><p>modelos que a pintura e a escultura possuíam: no período românico a escultura já tinha sido</p><p>renovada, em alguns casos redescobrindo as obras clássicas ainda existentes, enquanto</p><p>para a pintura o principal modelo de referência era em todo o caso a Escola Bizantina. Com a</p><p>conquista de Constantinopla durante a quarta cruzada (1204) e com a formação dos Reinos</p><p>Latinos do Oriente, o fluxo de pinturas e mosaicos bizantinos se tornou ainda mais denso.</p><p>Na segunda metade do século XIII, na época de Nicola Pisano, a desconexão entre</p><p>vivacidade narrativa naturalista e força expressiva entre escultura e pintura atingiu seu auge,</p><p>com os pintores diante das extraordinárias inovações introduzidas pelos escultores. Em duas</p><p>gerações, porém, os pintores foram capazes de avançar, renovando modelos e linguagens,</p><p>até nas artes pictóricas para recuperar o espaço, a vivacidade narrativa, as figuras credíveis</p><p>e as configurações arquitetônicas e paisagísticas plausíveis. A pintura também foi beneficiada</p><p>na renovação por ter uma clientela maior, devido aos custos mais baratos.</p><p>Do românico, a pintura, sobretudo na Itália central, herdou a difusão das mesas</p><p>pintadas, amparada pelas encomendas mendicantes pela sua portabilidade prática. Os</p><p>assuntos principais versavam sobre: crucifixos em forma, muitas vezes pendurados nas</p><p>extremidades dos corredores da igreja para despertar a emoção dos fiéis;</p><p>Virgem Maria com o seu filho, símbolos da Eclésia e de uma relação mãe / filho que</p><p>humanizava a religião e também representações de santos, entre as quais se destacam as</p><p>novas iconografias ligadas à figura de São Francisco de Assis. Entre os mestres italianos</p><p>do século XIII destacamos Berlinghiero Berlinghieri e Margaritone d’Arezzo, ambos ainda</p><p>totalmente bizantinos, mas começando a mostrar alguns personagens tipicamente ociden-</p><p>78UNIDADE IV A Cultura Medieval</p><p>tais. Além da escola de Giotto (Taddeo Gaddi, Giottino, o Mestre de Santa Cecília, Maso di</p><p>Banco, etc.), a escola de Siena também teve grande importância depois com mestres como</p><p>Duccio di Buoninsegna, Pietro e Ambrogio Lorenzetti e Simone Martini.</p><p>Figura 2: Tríptico (interior), 1333 por Taddeo Gaddi</p><p>Fonte:https://pt.artsdot.com/@@/8XZF22-Taddeo-Gaddi-Tr%C3%ADptico-(-interior-)</p><p>Podemos definir como iluminuras medievais, os manuscritos decorados com ouro</p><p>ou prata, mas tanto no uso comum quanto na terminologia adotada por estudiosos moder-</p><p>nos, o termo é usado para se referir a qualquer manuscrito ilustre do comércio Os primeiros</p><p>manuscritos iluminados datam do período 400-600, produzidos inicialmente na Itália e no</p><p>Império Romano do Oriente.</p><p>Artefatos semelhantes do Extremo Oriente são sempre descritos como pinturas,</p><p>assim como as obras da América Central. Os manuscritos islâmicos podem</p><p>ser referidos</p><p>como comentados, ilustrados ou pintados, embora sejam essencialmente feitos com as</p><p>técnicas das obras ocidentais.</p><p>No centro da concepção medieval do mundo e do homem: ela remete</p><p>não somente aos objetos figurados (retábulos, esculturas, vitrais, minia-</p><p>turas, etc.), mas também às “imagens” da linguagem, metáforas, ale-</p><p>gorias, similitudes, das obras literárias ou da pregação. Ela se refere</p><p>também , às “imagens mentais” da meditação e da memória, dos sonhos</p><p>e das visões (SCHMITT, 2006, p. 593)</p><p>A maioria desses manuscritos eram de natureza religiosa. No entanto, especial-</p><p>mente a partir do século XIII em diante, um número cada vez maior de textos seculares foi</p><p>ilustrado. A maioria das iluminuras foram criadas como códices, que substituíram os rolos</p><p>79UNIDADE IV A Cultura Medieval</p><p>de pergaminho. Poucos fragmentos de manuscritos iluminados em papiro chegaram até nós,</p><p>pois este suporte não possuía a força de pergaminho. A maioria dos manuscritos medievais,</p><p>ilustrados ou não, foram escritos em pergaminho (mais comumente pele de bezerro, ovelha</p><p>ou cabra), já as mais importantes eram escritas em um tecido chamado de "velino."</p><p>A partir do final da Idade Média, os manuscritos começaram a ser produzidos no</p><p>papel. Os primeiros livros impressos às vezes eram produzidos com espaços livres deixa-</p><p>dos em branco para permitir a inserção de miniaturas, ou tinham capitulares iluminados ou</p><p>decorações marginais, mas a introdução da impressão rapidamente levou ao declínio da</p><p>ilustração. As iluminuras continuaram a ser produzidas até o início do século XVI, mas em</p><p>pequenas quantidades, especialmente para os mais ricos. Elas podem ser consideradas</p><p>como fontes importantes para compreender a cultura medieval, uma vez que muitas dessas</p><p>foram conservadas.</p><p>Os historiadores das artes as classificam de acordo com os períodos históricos em</p><p>que foram criados (mas não se limitando a isso): Antiguidade Tardia, Insular, Iluminuras Ca-</p><p>rolíngios, Iluminuras Otomanas, Manuscritos Românicos e Manuscritos Góticos, embora</p><p>existam alguns exemplos de períodos posteriores.</p><p>No período de expansão do cristianismo, elas estavam presentes no evangelho. O</p><p>período românico viu a criação de muitas Bíblias, amplamente ilustradas tanto neste perío-</p><p>do quanto no gótico. Folhas soltas ou pôsteres de pergaminho, couro ou papel circulavam</p><p>com histórias ou lendas sobre a vida de santos, cavaleiros ou outras figuras mitológicas,</p><p>assim como narrativas de eventos sociais ou milagrosos, eventos populares,</p><p>Não há imagem na Idade Média que seja uma pura representação. Na</p><p>maioria das vezes trata-se de um objeto, dando lugar a usos, manipula-</p><p>ções, ritos; um objeto que se esconde ou se desvela; que se veste ou se</p><p>despe, que se beija ou se come (BASCHET, 1996, p. 9).</p><p>O “Livro das Horas”, também conhecido como livro devocional pessoal de um leigo</p><p>rico, era frequentemente ilustrado no período gótico. Outros livros, litúrgicos e não litúrgi-</p><p>cos, continuaram a ser ilustrados em toda época medieval. O mundo bizantino continuou</p><p>a produzir Iluminuras em seu próprio estilo, versões dos quais se espalharam para outras</p><p>áreas ortodoxas e cristãs orientais. A reutilização de pergaminhos, raspando a superfície</p><p>escrita e pintada, era uma prática comum, e muitas vezes os traços deixados pelo texto</p><p>original eram conhecidos como palimpsestos.</p><p>O mundo muçulmano e em particular a Península Ibérica, com as suas tradições</p><p>literárias, não interrompidas pela Idade Média, foram fundamentais na transmissão das</p><p>obras clássicas antigas aos círculos intelectuais e universidades da Europa Ocidental ao</p><p>80UNIDADE IV A Cultura Medieval</p><p>longo do século XII, durante o qual surgiram livros de papel pela primeira vez na Europa</p><p>e, com eles, abrangentes tratados de ciências, especialmente astrologia e medicina, nos</p><p>quais haviam a presença de ilustrações para apoiar o texto.</p><p>O período gótico assistiu a um aumento na produção desses artefatos, o que tam-</p><p>bém levou à proliferação de obras seculares, como notícias e literatura. A nobreza passou a</p><p>criar bibliotecas pessoais; Filipe, o Ousado, provavelmente teve uma das maiores coleções.</p><p>Em seu acervo, mais de 600 Iluminuras foram catalogadas.</p><p>Joachin Gaehde (2002) revela que até o século XII, a maioria das Iluminuras eram</p><p>produzidas em mosteiros, para serem colocados na biblioteca ou serviam de encomendas.</p><p>Os grandes mosteiros costumavam ter áreas separadas para monges que se</p><p>especializaram na produção de manuscritos, chamadas “scriptorium”. Dentro das</p><p>paredes de um “scriptorium” havia áreas individuais onde um monge poderia sentar-se e</p><p>trabalhar em um manuscrito sem ser incomodado por seus irmãos. A separação desses</p><p>monges do resto do claustro indicava o quanto eles eram importantes na comunidade.</p><p>No século XIV, o claustro dos monges que escreviam no “scriptorium” tornou-se</p><p>um lugar comercial urbano, especialmente em Paris, Roma e Holanda. Embora o processo</p><p>de criação de uma Iluminuras não tenha se alterado muito, a mudança dos mosteiros para</p><p>ambientes comerciais foi uma etapa radical. A demanda por manuscritos havia crescido a</p><p>tal ponto que as bibliotecas monásticas não eram mais capazes de satisfazê-la, tanto que</p><p>começaram a fazer experiências com o pessoas que não eram monges</p><p>Esses indivíduos muitas vezes viviam perto do mosteiro e, em alguns casos, dis-</p><p>farçavam-se de monges sempre que entravam no mosteiro, do qual poderiam sair no final</p><p>do dia. Na verdade, os ilustradores eram frequentemente muito conhecidos e aclamados</p><p>e muitos deles são bem conhecidos até hoje. Nesse processo, o artista era enviado ao</p><p>rubricador, que acrescentava os títulos (em vermelho ou não), as tampas dos capítulos, as</p><p>notas e assim por diante, e então era enviado ao ilustrador, esse utilizava uma vasta paleta</p><p>de cores, como podemos observar:</p><p>Um pigmento muito usado era o verde, que podia ser obtido a partir das</p><p>pétalas de plantas como salsa, erva-moura, arruda e madressilva. A planta</p><p>era esmagada e misturada a um gante, um tipo de cola, que, em geral, era</p><p>a clara de ovo. Essa mistura definia o tom de verde que seria obtido, quanto</p><p>mais planta, mais saturado, fazendo a cor ficar mais forte e o líquido</p><p>mais denso. (VISALLI, 2016, p.139).</p><p>Outra prática cultural importante no período medieval foram os tapetes. Pendurados</p><p>nas paredes de pedra dos castelos, em grandes salas e difíceis de aquecer, combinavam</p><p>a função decorativa com a de isolamento térmico durante o inverno. O grande sucesso das</p><p>81UNIDADE IV A Cultura Medieval</p><p>tapeçarias ao longo dos séculos deve-se provavelmente à sua portabilidade. Reis e nobres</p><p>poderiam enrolá-los e levá-los consigo ao viajar entre uma residência e outra, além de</p><p>auxiliá-los em caso de incêndio ou saque.</p><p>De acordo com Jack Tresidder (2003) na obra “Os símbolos e os significados”, os</p><p>tapetes foram produzidos desde a antiguidade, ainda que a dificuldade de preservação dos</p><p>materiais que os compõem, fibras têxteis naturais como a lã, o algodão ou o linho, tenha</p><p>influenciado fortemente a quantidade e a qualidade. As tapeçarias mais antigas que chega-</p><p>ram até nós, datam do antigo Egito e da Grécia helênica tardia, mas estavam espalhadas</p><p>por todo o mundo, do Japão à América pré-colombiana.</p><p>Para Florido Vasconcellos, as tapeçarias coptas, vindas do Egito nos primeiros</p><p>séculos da era cristã, já apresentavam grande habilidade técnica aliada a desenhos muito</p><p>complexos. Em um vaso descoberto em Chiusi do século 4 aC. Penélope e seu tear eram</p><p>representados; a diferença com o tear de hoje usado para a produção de tapeçarias, o tear</p><p>de meia altura, é o método de tensionar a urdidura (conjunto de fios de mesmo compri-</p><p>mento reunidos paralelamente no tear por entre os quais se faz a trama) e a posição em</p><p>que o tecido era confeccionado, batido e enrolado para cima.</p><p>No tear de Penélope, os fios</p><p>da urdidura eram mantidos esticados por pesos de tear; nos teares modernos, a tensão era</p><p>mantida por uma viga parada por uma engrenagem.</p><p>O desenvolvimento da tapeçaria na Europa remonta ao início do século XIV, pri-</p><p>meiro na Alemanha e na Suíça, depois na França e na Holanda. O pico de produção foi</p><p>alcançado no Renascimento, em particular nos Flandres e na França, em Arras, Paris,</p><p>Aubusson, Tournai, Bruxelas, Audenarde, Grammont, Enghien, Beauvais. A Royal Gobelins</p><p>Manufactory, fundada em Paris em 1662, continua a produzir até hoje.</p><p>Também importantes são as tapeçarias flamengas do primeiro quartel do século</p><p>XVI, preservadas na Galeria de Arte Cívica de Forlì: Crucificação com figuras e Crucificação</p><p>com cenas da Paixão, para a qual foi apoiada a atribuição à manufatura por Pieter van</p><p>Aelst. O ciclo do período barroco preservado no Museu Nacional do Palazzo Mansi em</p><p>Lucca também é notável</p><p>Os maiores artistas da tapeçaria foram Raphael, Pieter Paul Rubens, Simon Vouet,</p><p>Charles Le Brun, François Boucher, Francisco Goya, William Morris, até Pablo Picasso,</p><p>Joan Miró.</p><p>De acordo com Jacques Le Goff em “O Homem Medieval”, o Papa Leão X teria</p><p>encomendado a Rafael um ciclo sobre os “Atos dos Apóstolos”, feito na Flandres e repetido</p><p>várias vezes: trata-se de duas séries completas, uma no Vaticano, outra em Mântua no</p><p>82UNIDADE IV A Cultura Medieval</p><p>Palácio Ducal, e uma série incompleta, em Urbino. Atualmente, essas artes estão no Museu</p><p>de Victoria e Albert Museum, em Londres.</p><p>Outro famoso ciclo de tapeçarias do século XVI é aquele encomendado pelo grão-</p><p>-duque Cosimo de ‘Medici a Pontormo e Bronzino, um dos maiores mestres do maneirismo</p><p>florentino. O ciclo é dedicado às histórias do patriarca Giuseppe, mas tem como subtexto</p><p>alegórico o bom governo de Cosimo e a indissociabilidade do destino de Florença dos da</p><p>família Médici.</p><p>Figura 4: A dama e o unicórnio. Museu de Cluny, Paris</p><p>Fonte:https://pt.wikipedia.org/wiki/A_Dama_e_o_Unic%C3%B3rnio#/media/Ficheiro:</p><p>The_Lady_and_the_unicorn_Desire.jpg</p><p>Para sua realização, o governo Médici estabeleceu uma fábrica específica, ini-</p><p>cialmente confiada a mestres fabricantes de tapeçaria dos Alpes. O ciclo, constituído por</p><p>vinte tapeçarias, foi restaurado e está alojado entre Florença, no Palazzo Vecchio, sua</p><p>localização original, onde são guardadas dez tapeçarias, e Roma, no palácio do Quirinal,</p><p>onde as outras dez chegaram em 1882.</p><p>A partir do final do século XVIII, com a transição para a produção industrial e o</p><p>aumento do custo do trabalho (os tempos de processamento muito longos determinam</p><p>custos proibitivos), a moda das tapeçarias começou a declinar como manifestação externa</p><p>do prestígio da aristocracia e foi afetada por fortes mudanças sociais do momento: durante</p><p>a Revolução Francesa, a multidão os queimou não só para recuperar os fios de ouro tecidos</p><p>nas tapeçarias, mas também para destruir as bandeiras da classe derrotada.</p><p>83UNIDADE IV A Cultura Medieval</p><p>3. ROMANCE DE CAVALARIA</p><p>A arte medieval corresponde a um gênero que englobou distintas categorias, na</p><p>literatura, a mais famosa foram os “Romances” ou “Novelas” de Cavalaria. Originárias de</p><p>poemas épicos, narravam as aventuras de cavaleiros e reinos escritas em formas de prosa.</p><p>De acordo com Le Goff em “O homem medieval”, o cavaleiro da Idade Média nasceu</p><p>como um simples guerreiro, um homem armado que ia para a batalha a cavalo, lutando com</p><p>lança e espada. Mas, à medida que a literatura de romance medieval começou a florescer</p><p>no século XII, uma cultura sofisticada de comportamento cortês nas relações entre homens</p><p>e mulheres começou a mudar a imagem idealizada do cavaleiro.</p><p>O longo poema de Wace, Brut (por volta de 1155), apresentou a nobreza de língua</p><p>francesa ao lendário Rei Arthur, cuja corte era a maior de todas. Nos reinados do rei Hen-</p><p>rique II (1154-89) e de Ricardo Coração de Leão (1189-99), guerreiros que tinham cortes</p><p>suntuosas foram celebrados.</p><p>Cada cavaleiro deveria estar pronto para lutar pelo amor de sua amada, com suas</p><p>vitórias ele ganharia seu amor e defenderia sua honra. Nessas linhas, os cavaleiros eram</p><p>absolutamente leais a ela e cumpriam todas as ordens , seja enviá-lo em uma missão im-</p><p>possível, expulsá-lo de sua companhia ou acusá-lo de algum crime terrível, em um pedido</p><p>desesperado de ajuda.</p><p>Nesse caso, temos a imersão de um elemento importante, a tragédia. O amor de</p><p>Lancelot por Guinevere nunca terá um final feliz, porque ela é a esposa do Rei Arthur.</p><p>84UNIDADE IV A Cultura Medieval</p><p>Isso representava o modelo do amor cortês: uma dedicação que une os amantes até a</p><p>morte, mas que nunca resultará em uma união feliz. A devoção de Lancelot por Guinevere</p><p>é perigosa e acabará por destruir a corte: fofocas e calúnias revelarão sua relação com o</p><p>rei e Arthur será forçado a usar suas armas contra seu melhor cavaleiro.</p><p>De acordo com José D’Assunção Barros na obra “A arenas dos trovadores – as</p><p>representações das tensões sociais no cancioneiro medieval ibérico (séculos XIII-XIV)”o</p><p>amor trágico e idealizado de Lancelot e Guinevere não poderia culminar em casamento;</p><p>pelo contrário, termina com a morte. A tragédia dos amantes é um modelo criado na Idade</p><p>Média e repetido ao longo do tempo. Tristão e Isolda, Lancelot e Guinevere, Romeu e</p><p>Julieta: cada casal está ligado por um amor impossível, os amantes estão condenados</p><p>pelas circunstâncias.</p><p>Por que o amor está tão intimamente relacionado à morte na literatura? A resposta</p><p>para esses literários é simples. Todos os amores acabam, porque os amantes se separam</p><p>e porque morrem. Portanto, o amor para ser perfeito - contanto que seja perfeito e não</p><p>termine em frieza ou termine em traição - então deve terminar em morte.</p><p>Para Xosé Ramón Pena em “Literatura Galega Medieval”, a literatura medieval não</p><p>ilustrou o amor apenas em sua forma trágica, as convenções do amor cortês não visavam,</p><p>encorajar os amantes a abraçar a morte; em vez disso, prescreviam regras de conduta</p><p>para os homens e mulheres da aristocracia, por meio da qual o namoro poderia levar ao</p><p>casamento. Para a nobreza, quase todos os casamentos eram arranjados pelas famílias</p><p>dos casais, muitas vezes quando a esposa e o marido eram pouco mais que filhos.</p><p>Mas a Igreja insistia em que o sacramento do matrimônio só fosse válido na presen-</p><p>ça do consentimento pleno e voluntário do casal. Assim, podemos perceber outro propósito</p><p>dessa literatura, cheia de amor à primeira vista, amor pretendido como reconhecimento da</p><p>beleza e status sempre combinado com virtudes e lealdade. Essa literatura mostra ao seu</p><p>público uma versão estética da realidade econômica, tornando lindas as transações de</p><p>casamentos aristocráticos arranjados.</p><p>Assim, podemos perceber outro propósito dessa literatura, cheia de amor à primeira</p><p>vista, amor pretendido como reconhecimento da beleza e status sempre combinado com</p><p>virtudes e lealdade. Esta literatura mostra ao seu público uma versão estética da realidade</p><p>econômica, narrando histórias de casamentos aristocráticos arranjados.</p><p>Nessas poesias, dois amantes são nobres, belos, corteses e virtuosos: ele é um</p><p>grande cavaleiro e ela uma dama perfeita. Este é o ideal de amor medieval que culmina</p><p>no casamento. Mas o interessante sobre esse romance com final feliz é que não se trata</p><p>85UNIDADE IV A Cultura Medieval</p><p>de desejo individual. O ideal é feito para ser adaptável, maleável; pode caber qualquer</p><p>pessoa apropriada. Quando o herói se reúne com sua amante perdida, ele não consegue</p><p>reconhecê-la, observando que “Todas as mulheres parecem iguais”. O amor cortês é um</p><p>ideal de devoção à senhora mais bela e cortês. Em cada história de amor haverá um novo</p><p>cavaleiro que é o maior de todos e que amará e será amado por uma nova dama que</p><p>também é a mais bela.</p><p>SAIBA MAIS</p><p>Além dos Romances de Cavalaria, outra prática cultural importante foi o trovadorismo.</p><p>Surgido no início do século XI, era composto</p><p>por uma série de poesias e poemas escrita</p><p>pelos “trovadores”. Esses percorriam o território europeu cantando suas cantigas, popu-</p><p>larizando esse gênero literário.</p><p>Fonte: GOMBRICH, E. H. A história da arte. Rio de Janeiro: LTC, 1993.</p><p>REFLITA</p><p>Lei atentamente os verso de Bertrand de Born, presente na obra de Norbert Elias e re-</p><p>flita como os literários reproduziam a coragem e a violência física no mundo medieval</p><p>Eu vos digo que nem comer, nem beber, nem dormir têm tanto sabor para mim como</p><p>ouvir o grito ‘Para a frente’, de ambos os lados, e cavalos sem cavaleiros refugando</p><p>e relinchando, ouvir o grito ‘Acudi! Acudi!’e ver o pequeno e o poderoso tombarem na</p><p>grama das trincheiras e os mortos atravessados pela madeira de lanças adornadas com</p><p>flâmulas. (Bertrand de Born, canção de gesta do século XII).</p><p>Fonte: ELIAS, N. O processo civilizador: uma história dos costumes. Rio de Janeiro: Jorge Zahar,</p><p>1994.</p><p>86UNIDADE IV A Cultura Medieval</p><p>CONSIDERAÇÕES FINAIS</p><p>Nesta unidade buscamos mergulhar nos aspectos culturais da Idade Média, refor-</p><p>çando o que foi exposto desde a primeira unidade, esse período não deve ser contextuali-</p><p>zado como a idade das trevas, mas sim do florescimento das práticas culturais, mesmo que</p><p>muitas dessas estavam sob domínio da igreja, como observamos nas edificações góticas</p><p>e românicas.</p><p>87UNIDADE IV A Cultura Medieval</p><p>LEITURA COMPLEMENTAR</p><p>Título: O patrimônio artístico e as representações discursivas e estéticas do sagra-</p><p>do e do fantástico em obras sacras.</p><p>Esse artigo investiga os sentidos do patrimônio e da arte sacra no Brasil e busca</p><p>compreender os efeitos das construções discursivas apoiadas na “negação” das identidades</p><p>culturais e religiosas, distintas das ocidentais, pautando como alguns exemplos de repre-</p><p>sentações do fantástico nas artes visuais na Europa e na América espanhola e portuguesa.</p><p>PELEGRINI. Sandra. O patrimônio artístico e as representações discursivas e</p><p>estéticas do sagrado e do fantástico em obras sacras. Revista Brasileira de História das</p><p>Religiões – Ano I, no. 1 – Dossiê Identidades Religiosas e História. 2007</p><p>Disponível em : http://www.dhi.uem.br/gtreligiao/pdf/02%20Sandra%20Pelegrini.pdf</p><p>88UNIDADE IV A Cultura Medieval</p><p>MATERIAL COMPLEMENTAR</p><p>LIVRO</p><p>Título: O tempo das Catedrais a arte e a sociedade 980 – 1420</p><p>Autor: Georges Duby</p><p>Editora: Estampa.</p><p>Ano: 1978</p><p>Sinopse: Essa obra de Georges Duby retrata o apogeu das cons-</p><p>truções religiosas durante o período medieval. Com uma vasta</p><p>bibliografia e imagens, o leitor é convidado a conhecer um pouco</p><p>da história desses grandes prédios arquitetônicos que marcaram a</p><p>história da humanidade.</p><p>FILME/VÍDEO</p><p>Título: O sétimo selo</p><p>Ano: 1956</p><p>Sinopse: O drama sueco dirigido por Ingmar Bergman foi baseado</p><p>em uma peça de teatro do mesmo autor. No filme, um cavaleiro</p><p>medieval é desafiado em uma partida de xadrez, o seu adversário</p><p>é a morte. A história se passa por meio de uma Europa em crise</p><p>com a peste negra e forte influência e domínio da Igreja católica. O</p><p>tema principal é o medo da morte!</p><p>WEB</p><p>O que são as gárgulas?</p><p>Nessa reportagem, é retratada a história e como um dos objetos da arquitetura</p><p>gótica se tornou presente nas igrejas e fortalezas. As gárgulas eram uma espécie de</p><p>pássaros monstruosos que tinham a finalidade de teatralizar ainda mais as grandes</p><p>edificações.</p><p>Fonte: https://super.abril.com.br/mundo-estranho/o-que-sao-as-gargulas/</p><p>90</p><p>REFERÊNCIAS</p><p>AGOSTINHO, Santo. Contra os acadêmicos: diálogo em três livros. Coimbra: Editorial</p><p>Atlântida, 1957.</p><p>AGOSTINHO, Santo. O mestre. São Paulo: Landy, 2000.</p><p>AGOSTINHO, Santo. O sermão da montanha. São Paulo: Paulinas, 1992. (Col. Espiritua-</p><p>lidade).</p><p>AGOSTINHO, Santo. Solilóquios e A vida feliz. 2. ed. São Paulo: Paulus, 1998. (Col. Pa-</p><p>trística, 11).</p><p>AGOSTINHO, SANTO. Las Confesiones. In: Obras completas de San Agustín. Traducción,</p><p>introducción y notas de Angel Custodio Veja. 3. ed. bilíngüe. Madrid: La Editorial Católica/</p><p>BAC, 1999.</p><p>ALMEIDA, Milton José. O triunfo da escolástica, a glória da educação. Educ. 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Esse termo foi</p><p>citado pelos pensadores renascentistas em uma tentativa de denegrir o período medieval.</p><p>Porém durante a Idade Média muitas coisas no que tange ao conhecimento, as questões</p><p>de fé e domínio político sucederam. É fato que por muitos séculos o conhecimento esteve</p><p>atrelado a Igreja, mas isso não significa que esse período foi estático. A Idade Média foi</p><p>uma era dinâmica, do surgimento de novas culturas.</p><p>Outra questão levantada na nossa apresentação foi sobre a figura do rei. Será</p><p>mesmo que o rei medieval foi aquele apresentado em filmes, com poder sob domínio e</p><p>centralizador? A resposta também é não, nesse período o rei perdeu parte do seu poder, as</p><p>invasões bárbaras e tantas outras invasões resultaram na descentralização dos domínios</p><p>dos reis e o surgimento de um novo modo de produção, o feudalismo, como vimos na</p><p>primeira unidade.</p><p>Por último retomamos a questão do conhecimento e das universidades. Elas esti-</p><p>veram atreladas apenas a Igreja? Esse é outro mito que derrubamos nessas unidades, pois</p><p>apesar de muitas universidades nasceram ao lado das Igrejas, dos mosteiros. O conheci-</p><p>mento não se ateve apenas a Igreja Católica, temos como exemplo grandes pensadores da</p><p>filosofia como os mouro Avicena, Averróis, Alfarabi e Algazáli.</p><p>Por meio dessas questões levantadas e dos temas trabalhados nas quatro unida-</p><p>des, espero ter propiciado a você aluno um momento de reflexão e análise do que foi a</p><p>Idade Média e como essa foi tratada por muito tempo de forma inconsistente por parte de</p><p>historiadores e outros pesquisadores. Há ainda muitas outras questões a serem debatidas</p><p>e que merecem nossa atenção, afinal a História é uma ciência que nunca se esgota, o</p><p>seu campo de pesquisa é cheio de possibilidades e isso faz com que nós profissionais se</p><p>dediquemos cada vez mais!</p><p>+55 (44) 3045 9898</p><p>Rua Getúlio Vargas, 333 - Centro</p><p>CEP 87.702-200 - Paranavaí - PR</p><p>www.unifatecie.edu.br/editora-edufatecie</p><p>edufatecie@fatecie.edu.br</p><p>EduFatecie</p><p>E D I T O R A</p><p>cenário, o historiador era incumbido de explanar o que ocorreria entre os mortais, e assim</p><p>o historiador, explicava e traduzia para outro o ocorrido e com essa divulgação dos</p><p>grandes feitos históricos era visto como uma forma de incentivar a imitação e repetição</p><p>das ações.</p><p>Segundo Dosse (2003, p.17, apud Zanirato, 2011, p.36), com a dissolução do</p><p>mun-do romano, a Igreja Católica ganhou força e se tornou a instituição mais poderosa</p><p>entre os séculos IV e XIV (Idade Média), e ela detinha o controle absoluto do saber. A</p><p>História nesse cenário torna-se um gênero inferior, a serviço da teologia, que era vista</p><p>como o verdadeiro saber.</p><p>9UNIDADE I O que foi a Idade Média ?</p><p>Zanirato (2011), discorre que a escrita histórica no mundo medieval passou a ser</p><p>orientada por normas definidas pela Igreja, e a História humana era vista como sendo</p><p>resultante da intervenção divina, de forma que todos os fatos acontecidos eram efeitos da</p><p>relação de Deus com o mundo. Na Idade Média, o tempo e a História eram vistos como</p><p>uma sucessão iniciada com a Criação e predestinada a terminar com o Juízo Final, o que</p><p>fez o tempo ser visto como linear e progressivo, seu movimento era direcionado para o fim.</p><p>Nesse período, a História passou a expressar um caráter pessimista, providencialista e</p><p>apocalíptico. Deus estava no centro de todas as ações humanas, e a providência guiava</p><p>as ações humanas e o mundo caminhava para o fim, uma vez que os homens o mesmo</p><p>iam para o céu ou inferno, dependendo do que faziam na Terra. O estudo da História servia</p><p>ao cristianismo com uma confirmação da fé (ZANIRATO, 2011). E a tarefa principal do</p><p>historiador era de decifrar profecias e guiar os diversos relatos históricos ( FONTANA, 1998,</p><p>p.29, apud ZANIRATO 2011).</p><p>Ou seja, na Idade Média, com a dissolução do mundo romano, a Igreja Católica</p><p>adquiriu força que a tornou a mais poderosa instituição entre os séculos IV e XIV. Coube</p><p>a ela o controle absoluto do saber, aí incluído as diferentes escritas, que passaram a ser</p><p>controladas pelo poder eclesial constituído. A História, nesse contexto, tornou-se apenas</p><p>um gênero menor, a serviço da teologia, considerada o grande e verdadeiro saber (DOSSE,</p><p>2003, p. 217).</p><p>Com isso, a escrita histórica passou a ser orientada pelas normas definidas pela</p><p>Igreja, sempre afirmando que a História humana era resultante da intervenção divina; de</p><p>forma que os fatos ocorridos eram efeitos das relações de Deus com o mundo. O estudo</p><p>da História servia ao cristianismo como confirmação da fé. Por um lado, era uma forma</p><p>de confirmar as profecias anunciadas na Bíblia, ou de explicar porque não se cumpriram</p><p>os enunciados; por outro, era uma forma de incluir toda a História não cristã,‘nas pautas</p><p>marcadas pelo esquema bíblico’. A tarefa do bom historiador era a de ‘decifrar as profecias</p><p>e coordenar os diversos relatos históricos’ (FONTANA, 1998, p. 29).</p><p>Santo Agostinho (354 – 430), por exemplo, compreendia o sentido da História que</p><p>essa não originava dos atos particulares dos homens, mas sim das intenções divinas. Para</p><p>ele, havia duas ordens históricas: uma História sagrada, que narra os eventos reveladores</p><p>da presença de Deus e uma História secular, produto da vida dos homens, das ações</p><p>causadas pelos homens. A História sagrada era obra dos profetas diretamente inspirados</p><p>por Deus e a História secular era aquela que registrava os atos destinados a conduzir os</p><p>10UNIDADE I O que foi a Idade Média ?</p><p>homens ao paraíso, ou ao inferno, às ações que mostravam a submissão ou a desobediên-</p><p>cia dos homens às determinações bíblicas (BIGNOTO, 1992, p. 180-182).</p><p>Mas essa forma de pensar a História mudou, Zanirato (2011), relata que no período</p><p>que compreende os séculos XIII e XVI, ou seja no final da Idade Média e início da Idade</p><p>Moderna, a Europa ocidental viveu a chamada Revolução Cultural, com o surgimento da</p><p>burguesia constitui-se uma nova ordem política e econômica. Essa mudança acarretou a</p><p>valorização da riqueza material, dos prazeres terrenos, a defesa do lucro e a possibilidade</p><p>de salvação. Com a descoberta da América, vieram questionamentos às formas de explicar</p><p>o mundo, e a religião já não estava dando conta de dar sentidos a todas as esferas do</p><p>mundo. Nesse período os historiadores passaram a discutir o real sentido da História, e</p><p>buscar as razões do ser no mundo, sem as implicações teológicas.</p><p>No Renascimento temos uma mudança na forma de compreender a História. Com</p><p>isso o homem passa a buscar respostas para suas perguntas, e a entender seu papel no</p><p>mundo sem a intervenção Divina. E para encontrar as respostas, os homens precisavam</p><p>de um conhecimento pautado no estabelecimento da razão, diferente da Idade Média, na</p><p>qual a Igreja determinava essa produção de saber. A escrita da História nesse período,</p><p>feita por filósofos, buscava abandonar as explicações centradas nos deuses, em mitos e</p><p>superstições.</p><p>Essa crítica se estende até o século XIX, quando a partir de 1850, um grupo de</p><p>pesquisadores ligados ao movimento do Romantismo irão se atentar a elementos, símbolos</p><p>e signos até então ignorados por historiadores renascentistas. Reconhecendo as belezas</p><p>do mundo medieval através das suas práticas artísticas e da arquitetura gótica, como</p><p>veremos nas unidades a seguir.</p><p>Os historiadores que se dedicaram aos estudos sobre a Idade Média, pontuavam</p><p>que não houve apenas uma Idade Média, mas sim variáveis, distintas, de múltiplas inter-</p><p>pretações e diversas ocorrências. Ele era flutuante, um período movimentado, marcado</p><p>pelo poder da Igreja, pelas graves epidemias como a Peste Negra na qual assolou grande</p><p>parte da população e de inúmeras batalhas que cruzaram a Europa. Porém este período</p><p>nos apresentou além da arquitetura gótica já citada, o surgimento das universidades e do</p><p>desenvolvimento da agricultura em grande escala.</p><p>Assim, a Idade Média deve ser pesquisada no seu conjunto, ou cerca no arco de</p><p>quase mil anos, atentando para suas singularidades, Le Goff, destaca que a Idade Média</p><p>é “de longa duração na história, mas um período de elaboração, de construção do mundo</p><p>11UNIDADE I O que foi a Idade Média ?</p><p>moderno [...]. A Idade Média é a nossa juventude; talvez a nossa infância” (LE GOFF, 2008,</p><p>p. 33),além disso o pesquisador pontua que:</p><p>Eu diria que a Idade Média não é o período dourado que certos românticos</p><p>quiseram imaginar, mas também não é, apesar das fraquezas e aspectos</p><p>dos quais não gostamos, uma época obscurantista e triste, imagem que os</p><p>humanistas e os iluministas queriam propagar. É preciso considerá-la no seu</p><p>conjunto.” (LE GOFF, 2007, p.18)</p><p>Antes de adentramos na discussão sobre a Idade Média, cumpre destacar alguns</p><p>pesquisadores que com seus estudos contribuíram para o entendimento histórico desse</p><p>período e posteriormente foram objetos de pesquisa de historiadores, como por exemplo:</p><p>Gregório de Tours (538-594) que escreveu sobre a sociedade cristã franca, em suas obras</p><p>o autor relata a trajetória desses povos. As narrativas abordaram ações dos reis e dos san-</p><p>tos. Outro historiador foi Flodoardo de Reims (894-966) a qual a reconstituição foi feita nos</p><p>arquivos eclesiásticos pelos Bispos Reims. O objetivo de sua pesquisa era compreender a</p><p>instituição da Igreja no início da Idade Média. (DOSSE, 2003, p.221).</p><p>Jacques Bossuet (1627-1704), afirmava que a escrita era a fonte divina e ninguém</p><p>tinha o direito de banalizá-la, pois toda a explicação histórica ali se encontrava. Compete</p><p>ao historiador demonstrar, em sua escrita, o desígnio providencial. Por último, lembramos</p><p>de Giambattista Vico (1668-1744), preocupado em restituir a particularidade da sociedade</p><p>humana e, ao mesmo tempo, inseri-la no quadro da providência. Seus estudos cruzavam</p><p>as etapas primitivas do homem à época da ciência e da filosofia, de modo a mostrar que</p><p>houve uma evolução e essa se explicava pela vontade divina, que ensinará os bárbaros</p><p>pagãos de épocas primitivas, a fazer uso</p><p>da razão e compreender assim os ensinamentos</p><p>de Deus (DOSSE, 2003,p.228).</p><p>A Idade Média, tem início no ano 476 d.c, ou seja mais de 1500 anos atrás e</p><p>termina em 1453. E por que ela começou justamente nesse ano? A data marca a invasão da</p><p>cidade ocidental de Roma, até então principal centro da Europa e consequentemente o fim</p><p>do Império Romano e o término desse período é marcado pela tomada de Constantinopla</p><p>pelos turcos. Essas duas balizas temporais não são unanimidades entre os pesquisadores.</p><p>De acordo com Marcelo Candido da Silva:</p><p>Os historiadores nunca entraram em consenso sobre os marcos precisos do</p><p>início e do fim da Idade Média: para uns, seria a queda de Roma, em 476, e</p><p>a queda de Constantinopla, em 1453; para outros, o Edito de Milão, em 313,</p><p>e a chegada dos espanhóis à América, em 1492. No entanto, esse período</p><p>é mais do que uma convenção cronológica. Desde o surgimento do termo,</p><p>no final do século XIV, não apenas eruditos e historiadores, como também</p><p>historiadores da arte, filósofos e sociólogos, buscaram identificar as carac-</p><p>terísticas que diferenciariam “os tempos médios” da Idade Antiga e da Idade</p><p>Moderna. As divergências nesse ponto são ainda maiores do que na escolha</p><p>das datas que marcariam o início e o fim do período. ( CÂNDIDO, 2019, p .8).</p><p>12UNIDADE I O que foi a Idade Média ?</p><p>Além disso, Le Goff reforça que:</p><p>Da Antiguidade ao século XVIII desenvolveu-se, ao redor do conceito de de-</p><p>cadência, uma visão pessimista da história, que voltou a apresentar-se em</p><p>algumas ideologias da história no século XX. Já com o Iluminismo afirmou-se</p><p>uma visão otimista da história a partir da ideia de progresso, que agora co-</p><p>nhece, na segunda metade do século XX, uma crise. (LE GOFF, 1990, p. 8)</p><p>De fato, o importante é compreender as transformações que ocorreram na Idade</p><p>Média, os historiadores que pesquisam esse período, costumam relacioná-lo como a tran-</p><p>sição entre a Antiguidade para a Idade Moderna.</p><p>O autor continua:</p><p>“Existe, é verdade, uma Idade Média “má”: os senhores oprimiam os campo-</p><p>neses, a Igreja era intolerante e submetia os espíritos independentes (que</p><p>eram chamados de hereges) à Inquisição, que praticava a tortura e mata-</p><p>va os revoltosos nas fogueiras... Havia muita fome e muitos pobres (...). No</p><p>entanto, existe também a “bela” Idade Média, presente, principalmente, na</p><p>admiração das crianças: diante dos cavaleiros, dos castelos fortificados, das</p><p>catedrais, da arte românica e da arte gótica, das cores (dos vitrais, por exem-</p><p>plo) e da festa. Também esquecemos quase sempre que, na Idade Média,</p><p>embora as mulheres ainda tivessem um lugar inferior aos dos homens, ad-</p><p>quiriram ou conquistaram uma posição mais justa, mais igual, de mais pres-</p><p>tígio na sociedade – posição que nunca tinham tido antes, nem mesmo em</p><p>Atenas, na Antiguidade.” (LE GOFF, 2007, p.18-19)</p><p>Nesses quase mil anos de História, a Europa foi palco de profundas mudanças em</p><p>toda sua esfera política, econômica, social, cultural e religiosa, como destaca Durkheim na</p><p>obra “A evolução pedagógica” lançada em 1995.</p><p>Nada mais inexato, porém, do que essa concepção da Idade Média e, portan-</p><p>to, nada mais impróprio do que a palavra com a qual essa época é designada.</p><p>Muito longe de ter sido um simples período de transição, sem originalidade,</p><p>entre duas civilizações originais e brilhantes, é, ao contrário, o momento em</p><p>que se elaboraram os germes fecundos de uma civilização inteiramente nova.</p><p>E isso nos é mostrado notadamente pela história do ensino e da pedagogia. A</p><p>Escola, tal como a encontramos no início da Idade Média, constitui com efeito</p><p>uma grande e importante novidade; distingue-se por traços cortados de tudo</p><p>quanto os antigos chamavam com o mesmo nome. É claro, já o dissemos,</p><p>que ela retira da civilização pagã a matéria do ensino; mas essa matéria foi</p><p>elaborada de uma maneira totalmente nova, e dessa elaboração nasceu algo</p><p>inteiramente novo. É o que acabo de mostrar. Mas pode ser dito que nesse</p><p>momento é que apareceu a Escola, no sentido próprio do termo. Pois uma</p><p>escola não é apenas um local onde o professor ensina; é um ser moral, um</p><p>meio moral, impregnado de certas idéias [sic], de certos sentimentos, um</p><p>meio que envolve tanto o professor quanto os alunos. Ora, a Antigüidade [sic]</p><p>não conheceu nada semelhante. Teve professores, mas não teve Escolas de</p><p>verdade. Na pedagogia, pois, a Idade Média foi inovadora. Durkheim (1995,</p><p>p. 37).</p><p>13UNIDADE I O que foi a Idade Média ?</p><p>2. A ALTA IDADE MÉDIA E O SURGIMENTO DO FEUDALISMO</p><p>A Idade Média também pode ser dividida em duas partes, os primeiros 500 anos</p><p>são conhecidos como Alta Idade Média, na qual as sociedades passaram lentamente a</p><p>viver um novo modo de vida, uma nova organização social (o feudalismo) e o apogeu da</p><p>Igreja, a sua grande influência em boa parte da Europa. Já a segunda parte, conhecida</p><p>como Baixa Idade Média, é marcada pela crise do feudalismo, as cruzadas, a expansão</p><p>comercial, e o surgimento das cidades e núcleos urbanos.</p><p>A Alta Idade Média, período que se estende desde a queda do Império Romano,</p><p>no século V, até aproximadamente o século X, foi marcada por um processo contínuo de</p><p>declínio urbano e de ruralização do Ocidente europeu. Durante esse período o campo</p><p>gradativamente se fortaleceu, organizando-se na forma de feudos, que se espalharam por</p><p>grande parte da Europa. Podemos caracterizar o feudalismo como um modo de produção,</p><p>na qual o principal polo aglutinador seria o feudo, e desses procedem relações senhores e</p><p>camponeses e suseranos e vassalos.</p><p>O pesquisador Pierre Bonnassie destaca como “época arcaica” do feudo o período</p><p>entre os últimos decênios do século IX e os primeiros do século XI, e o situa na Europa</p><p>meridional – Languedoc e Catalunha (1999, p. 96). Como veremos a seguir, no</p><p>regime feudal, o senhor era o detentor de uma grande extensão territorial, em que ele</p><p>exercia o poder sobre seus servos e escravos. Um senhor feudal poderia ser vassalo de</p><p>outro; porém, nos limites de suas terras ele tinha poder absoluto: era o senhor, protetor,</p><p>14UNIDADE I O que foi a Idade Média ?</p><p>juiz, chefe de polícia e administrador.</p><p>Essa primeira fase da Idade Média, marcada pelo processo de ruralização,</p><p>sofreu alterações significativas a partir do século XI, através do ressurgimento e</p><p>fortalecimento das cidades. Os novos espaços urbanos que se constituíram desde o início</p><p>desse século se apresentaram extremamente diferenciados das antigas aglomerações</p><p>urbanas, sobretudo no seu aspecto econômico.</p><p>Houve um processo de acentuada migração dos homens do campo para as</p><p>cida-des. A superfície urbana aumentou significativamente, as construções cresceram de</p><p>forma irregular e a aglomeração passou a exigir, cada vez mais, uma melhor organização</p><p>e uma forte fiscalização das atividades exercidas em seus domínios.</p><p>Ao longo dos séculos XI e XII houve um aumento significativo do número de ci-</p><p>dades e, consequentemente, da população urbana no Ocidente medieval. Nesta unidade</p><p>iremos abordar mais as questões conceituais, as características que definem esse</p><p>período chamado de Alta Idade Média.</p><p>Lembrando que essa é uma divisão tradicional, existem historiadores que</p><p>discor-dam dessa ordem e apresentam o visões mais contemporâneas como Jacques Le</p><p>Goff na obra “Para Uma Outra Idade Média: Tempo, Trabalho e Cultura no Ocidente”</p><p>lançada em 1977, que compreende a Idade Média desde o século III, quando inicia a</p><p>crise do Império Romano até o século XVIII no final do que denominamos de absolutismo.</p><p>Se se pode identificar na crise do mundo romano do século 3º o ponto de</p><p>partida que dará origem ao Ocidente medieval, parece legítimo considerar</p><p>as invasões bárbaras do século 5º como o acontecimento que precipitou as</p><p>transformações, dando-lhes um aspecto catastrófico e modificando-lhe pro-</p><p>fundamente o aspecto. [...] As invasões deixaram chagas mal cicatrizadas</p><p>– campos destruídos, cidades arruinadas -, precipitou a evolução econômi-</p><p>ca – declínio da agricultura,</p><p>recuo urbano -, a retração demográfica e as</p><p>transformações sociais. Os camponeses viram-se obrigados a se colocar sob</p><p>dependência cada vez maior dos grandes proprietários, estes passaram tam-</p><p>bém a ser chefes de grupos armados, e a situação do colono tornava-se cada</p><p>vez mais próxima da do escravo. (LE GOFF, 2005, p. 21-22)</p><p>Nos nossos estudos as discussões permeiam a Alta Idade Média entre o século</p><p>V ao X com forte presença do feudalismo e a Baixa Idade Média do século X até o XV,</p><p>período marcado pela crise desse sistema.</p><p>Quando pensamos no sistema político vigente durante a Alta Idade Média, de-</p><p>notamos como um conjunto fragmentado e descentralizado, fruto do declínio do Império</p><p>Romano do ocidente. Paulatinamente deixa de existir a figura de uma entidade reconheci-</p><p>da legitimamente e também legalmente como a autoridade de poder, centralizado, ou seja,</p><p>15UNIDADE I O que foi a Idade Média ?</p><p>como uma autoridade dotada de um monopólio do uso da força capaz de se impor sobre</p><p>autoridades inferiores.</p><p>Esse tempo marca a ascensão e fortalecimento das autoridades locais, dos cha-</p><p>mados poderes locais. Dentro do feudalismo ainda vai existir a figura do rei, mas este</p><p>enfraquecido. Temos a ausência de uma centralização política devido a uma insuficiência</p><p>do uso da força militar por parte do rei. Nesse caso, os poderes regionais são muitas vezes</p><p>mais relevantes do que o poder central, o servo não é considerado um escravo, porém não</p><p>é um trabalhador livre e vive sob a tutela do senhor.</p><p>Para le Goff, o feudalismo se caracteriza como :</p><p>Um sistema de organização econômica, social e política baseada nos víncu-</p><p>los de homem a homem, no qual uma classe de guerreiros especializados</p><p>– os senhores – subordinados uns aos outros por uma hierarquia de vínculos</p><p>de dependência, domina uma massa campesinata que explora a terra e lhes</p><p>fornece com que viver. (LE GOFF, 1980, p. 82).</p><p>Esse sistema tinha como consequência a ausência do monopólio do uso da força.</p><p>Como era durante o Império Romano, o poder estava fragmentado e descentralizado, na</p><p>mão dos suseranos. Isso não significava que o rei não exercia em momento algum o seu</p><p>poder de autoridade máxima. Em momentos de crise, de invasão de outros povos, era</p><p>função do rei comandar os exércitos na defesa dos seus territórios.</p><p>No início do século VI, verificam-se fenômenos políticos significativos. De</p><p>um lado, alguns reinos romano-bárbaros já se implantavam firmemente em</p><p>territórios do Império do Ocidente, onde a única autoridade política autentica-</p><p>mente romana é a Igreja e especialmente o papado; de outro lado, o Império</p><p>do Oriente conserva ainda a sua unidade e a sua força, o que lhe permitirá</p><p>tentar a reconquista do Ocidente. Estes três centros de poder, tão diferentes</p><p>entre si, se enfrentarão numa complexa luta ideológica e militar. (MANACOR-</p><p>DA, 2006, p. 111).</p><p>Portanto a sua autoridade não era uma constante, ela era flutuante. Lembrando</p><p>que por legitimidade entendemos de forma bem genérica a aceitação de um poder. Nesse</p><p>âmbito, a nobreza, muitas vezes durante as guerras, emanava uma liderança mais har-</p><p>monizada e equilibrada. Era comum algum nobre ser mais poderoso e com um exército</p><p>maior, enfrentar o rei em questão e se colocar contra essa figura, como diversas vezes</p><p>aconteceu ao longo do feudalismo, como veremos nos outros capítulos.</p><p>Por isso é importante saber diferenciar e não confundir o rei medieval com o rei</p><p>absolutista. O rei absoluto é uma outra categoria de monarca com outros atributos de poder</p><p>que levam este a exercer um poder centralizado e não fragmentado. Já o monarca feudal é</p><p>diferente daquele exibido nos filmes de Hollywood, em que é representado como uma figura</p><p>muito poderosa, uma vez que os filmes tendem a transportar o poder do Rei absolutista dos</p><p>séculos XV e XVIII para a realidade política do rei feudal do século V ao XX. “Seus recursos</p><p>16UNIDADE I O que foi a Idade Média ?</p><p>econômicos provinham quase exclusivamente de seus domínios pessoai enquanto senhor,</p><p>enquanto de seus vassalos pedia contribuições militares(ANDERSON, 1991, p. 147).</p><p>Outro fator importante para compreender o contexto histórico da Alta Idade Média,</p><p>trata-se da produção material e econômica na Europa. Primeiro ponto: a principal atividade</p><p>era agricultura de subsistência, o feudo era a unidade produtiva do feudalismo.</p><p>E você, aluno (a) se recorda como era esse feudo? Trata-se de um latifúndio,</p><p>uma grande propriedade rural e que visava ser autossuficiente. Ele tem como seu objetivo</p><p>primeiro produzir para o seu próprio sustento, tornando-se uma agricultura de</p><p>subsistência. Mais do que isso, seria um:</p><p>Modo de produção no qual as relações sociais de produção estão basea-</p><p>das na servidão; a propriedade dos meios de produção está dividida entre</p><p>a classe dominante, a nobreza feudal, e a classe dominada, os servos, cujo</p><p>objetivo fundamental da produção é o valor de uso. (MONTEIRO, 1987, p. 5).</p><p>A propriedade territorial era concedida aos indivíduos por um poderoso senhor</p><p>(membro da alta nobreza) em troca de fidelidade e ajuda militar.</p><p>O direito feudal é aquele conjunto de costumes (e mais tarde, mas secun-</p><p>dariamente, de algumas leis imperiais, sentenças de cúrias feudais, teoriza-</p><p>ções doutrinais) que pouco a pouco se acumularam durante todo o período</p><p>medieval e que disciplinam aquele universo de relações entre senhores e</p><p>vassalos, entre superiores e inferiores, que é a ordem feudal: relações pes-</p><p>soais que consistem em homenagem e fidelidade por parte do vassalo e em</p><p>proteção por parte do senhor. Um universo jurídico exclusivo, que desenvol-</p><p>veu suas próprias regras e que tem seus próprios tribunais para aplicá-las;</p><p>Grossi (2014, p. 275)</p><p>Esse modo de produção esteve presente principalmente em estados do antigo do</p><p>Império Carolíngio: França, Bélgica, Suíça, Alemanha, na região da Gália entre os riachos</p><p>Loire e Reno, como podemos observar no mapa a seguir.</p><p>17UNIDADE I O que foi a Idade Média ?</p><p>Figura 1: Atlas by William R. Shepherd (Shepherd, William. Historical Atlas. New York: Henry Holt and Company, 1911)</p><p>Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Reino_Franco#/media/Ficheiro:Frankish_Empire_481_to_814-pt.sv</p><p>Pierre Anderson, destaca que as bases para o feudalismo foram fundadas na região</p><p>da Gália e posteriormente difundidas entre os outros centros europeus.</p><p>Foi entre o Loire e o Reno que apareceu pela primeira vez a servidão, onde</p><p>se desenvolveu um sistema senhorial, onde a justiça foi mais profunda e, por</p><p>fim, a subenfeudação foi mais acentuada. Nessa região, as vilas conviviam</p><p>com numerosas aldeias camponesas, reduto de mão-de-obra em potencial.</p><p>Entre os séculos VII e IX observa-se a tendência à ampliação da vila através</p><p>do desbravamento de novas áreas para a exploração agrícola como também</p><p>a incorporação do vicus, suas terras e seus habitantes. (ANDERSON, 1991,</p><p>p. 153).</p><p>Cumpre lembrar que nenhum feudo se originou do nada, esses foram foram con-</p><p>sequências das invasões tardias que culminaram na descentralização do poder do rei e</p><p>da ascensão da nobreza e do seu arsenal militar, dessa forma o Feudalismo pode ser</p><p>entendido também como uma forma de sociedade que surge em consequência do colapso</p><p>do governo central (FRANCO JUNIOR, 1988, p. 87).</p><p>O feudo era constituído por três espaços: o primeiro tratava-se do Manso Senhorial:</p><p>que era o local onde ficavam as terras do senhor feudal e os mecanismos de produção como</p><p>o moinho, além de abrigar o castelo, residência do senhor feudal. Havia outras modalidades</p><p>de mansos, como a destinada aos servos, que era o espaço na qual eram produzidos a</p><p>agricultura de subsistência dos camponeses, também chamados de servos.</p><p>E por último, havia as propriedades denominadas de Mansos Comunais: espaço</p><p>em que os camponeses poderiam coletar matéria prima para a produção de casa, arma-</p><p>zém. Esse local ficava próximo aos rios e eram conhecidos como áreas comuns. A estrutura</p><p>social era composta por três categorias,</p><p>ou classes: o clero, os nobres e servos, sendo</p><p>18UNIDADE I O que foi a Idade Média ?</p><p>que organização era imutável. Devido a influência e poder da Igreja, o clero desfrutava de</p><p>posição privilegiada durante o feudalismo, uma vez que a Instituição pregava que o homem</p><p>já nasce predestinado a viver em uma classe definida por Deus, sendo ela a representação</p><p>da figura divina na terra</p><p>A Igreja possuía uma grande quantidade de terras e ao mesmo tempo que esse</p><p>número crescia, o seu poder militar aumentava a sua supremacia política e cultural. Outra</p><p>questão importante, em um primeiro momento, no seu surgimento, os feudos eram de</p><p>ordem pública, como afirma o historiador Pierre Bonnassie:</p><p>Bem público, concedido a um agente da autoridade pública, em troca de ser-</p><p>viços públicos a serem prestados. Consistia quase sempre em uma terra so-</p><p>bre a qual incidiam direitos fiscais. O outorgante era geralmente um duque</p><p>ou um conde, e o beneficiário, um alcaide, que deveria, como contrapartida,</p><p>administrar e defender o território concedido (BONNASSIE, 1999, p. 96).</p><p>No entanto, ao passar a ser de propriedade da aristocracia, o feudo mudou a sua</p><p>natureza e deixou de ser um bem público para um bem privado. Assim, podemos definir os</p><p>feudos como uma propriedade voltada para a autossuficiência na qual emergem autorida-</p><p>des locais como duques e condes que exercem um poder sobre as cidades próximas. Além</p><p>dessas figuras, temos também a autoridade da Igreja, tema da nossa terceira unidade.</p><p>Na figura 2 podemos observamos como era a estrutura de um feudo durante a Alta</p><p>idade Média:</p><p>Figura 2: O Feudo.</p><p>Fonte: http://www.apoioescolar24horas.com.br/cf/salaaula/estudos/historia/610_feudo/images/estudo/indice.png</p><p>A principal mão de obra no feudo era a servidão, como podemos defini-la? Quem</p><p>seria o servo? Como surgiu essa relação?</p><p>O servo não teria direito à terra no modo de produção feudalista, ou seja, o direito</p><p>de propriedade. Dificilmente ele não seria um dia proprietário e também não teria o direito</p><p>19UNIDADE I O que foi a Idade Média ?</p><p>à terra, pois o servo está inserido em uma condição de submissão em uma sociedade que</p><p>é essencialmente agrícola.</p><p>O apogeu das relações servo e vassalo têm suas origens relacionadas ao cres-</p><p>cimento agrícola, que ocasionou em um número alto de terras e títulos para os nobres,</p><p>aumentando ainda mais as suas riquezas.</p><p>Nesse modo de produção, o servo teria as suas obrigações como o trabalho na terra</p><p>e o senhor feudal, por outro lado, tinha por obrigação garantir a eles proteção militar. Além</p><p>do trabalho no campo, os camponeses eram obrigados a cuidarem dos animais, pomares,</p><p>piscicultura e até a confecção de vinhos para os seus senhores.</p><p>Ao receber a terra do senhor feudal, o servo deveria pagar uma quantidade razoá-</p><p>vel de tributações, na qual denominamos de “obrigações”, que seriam variáveis formas</p><p>de impostos. Os tributos variavam conforme a necessidade do senhor feudal, como por</p><p>exemplo a corveia, a talha e a banalidade.</p><p>Exemplificando: a corveia, um dos mais famosos tributos da Idade Média, consistia</p><p>em uma série de serviços prestados na propriedade agrícola do senhor feudal. Em um nú-</p><p>mero determinado de dias, o servo era obrigado a desempenhar funções como a limpeza</p><p>do castelo, a construção de muros além de trabalhar nas lavouras durante o período do</p><p>plantio e da colheita. Observem abaixo um exemplo das obrigações que eram impostas</p><p>aos camponeses.</p><p>Walafredus, um colono e sua mulher, uma colona, [...] homens de Saint Ger-</p><p>main, têm dois filhos, [...]. Ele detém dois mansos livres com sete bunuaria</p><p>(um quarto de acre) de terra arável, seis acres de vinha e quatro de prados.</p><p>Devem por cada manso uma vaca por ano, um porco no ano seguinte, quatro</p><p>denários pelo direito de utilizar a madeira, dois módios (18 a 26 litros) de vi-</p><p>nho pelo direito de usar as pastagens, mais uma ovelha e um cordeiro. Deve</p><p>ainda lavrar quatro varas para um cereal de inverno e duas varas para um</p><p>cereal de primavera. Devem corvéias, carretos, trabalho manual, cortes de</p><p>árvores quando para isso receber ordens. (GUÉNARD e MONTEIRO, 1987,</p><p>p. 47)</p><p>Outro imposto conhecido desta época, era a talha, na qual o servo era obrigado</p><p>a repassar para o senhor feudal, 50% de sua produção, considerando todo o lucro bruto.</p><p>Haviam também as banalidades, impostos em que o servo era forçado a pagar ao senhor</p><p>feudal caso ele utilizasse de alguns dos serviços ou instalações do castelo.</p><p>Enfim, tudo que o servo produzia era passivo de tributação. E essa é a grande</p><p>questão, quando falamos sobre a relação de Servo e senhor feudal, pois o servo ao rece-</p><p>ber a terra, já começava devendo inúmeras obrigações, que ele dificilmente conseguiria</p><p>pagar essa dívida .</p><p>20UNIDADE I O que foi a Idade Média ?</p><p>Figura 3: Ilustração medieval de homens colhendo trigo com ganchos, em uma página do calendário.</p><p>Fonte : Queen Mary’s Psalter (Ms. Royal 2. B. VII)</p><p>Nesse caso, qual a relação do servo com a escravidão? Ele era escravo? Existiu</p><p>escravidão durante o feudalismo? A resposta é que de certa forma existiu. Há vários histo-</p><p>riadores que mencionam a existência da escravidão em pequeno número nas sociedades</p><p>feudais. Pois historicamente não houve a abolição da escravidão na Europa durante esse</p><p>período o fim da escravidão.</p><p>Quando o Império Romano tem a sua derrocada no ocidente, a escravidão não</p><p>foi proibida então. Ela poderia continuar existindo, no entanto esse sistema não era mais</p><p>viável, no caso rentável. Então gradativamente aquele processo do colonato romano foi</p><p>substituindo a mão de obra escrava pela mão de obra servil, que foi trabalhar nos feudos</p><p>durante a Alta Idade Média.</p><p>Essa é uma pergunta muito importante. Pois devido os altos impostos, o servo aca-</p><p>bava vivenciando uma relação de escravidão, no entanto ele não era uma propriedade do</p><p>Senhor feudal. Este, não poderia vendê-lo, servir como moeda de troca, pois o camponês</p><p>não era o seu escravo, embora viva uma relação escravista.</p><p>Para Karl Marx, o feudalismo como “modo de produção” difere do sistema escravis-</p><p>ta pois nele “o produtor direto se encontra na posse de seus próprios meios de produção,</p><p>as condições de trabalho objetivas necessárias à realização de seu trabalho e à geração</p><p>de seus meios de subsistência; ele exerce de modo autônomo sua agricultura, bem como</p><p>a indústria rural caseira ligada a ela” (1985, p. 251), ao passo que no regime escravista “o</p><p>escravo trabalha com as condições de produção alheias e não de forma autônoma” (1985,</p><p>p. 251).</p><p>21UNIDADE I O que foi a Idade Média ?</p><p>Cumpre ressaltar que existem estudos que divergem da narrativa em que o feudo</p><p>era um espaço onde o senhor impregnava as suas vontades aos seus vassalos, Marc</p><p>Bloch destaca, que há registros em quem o vassalo concedia ao senhor a sua terra em</p><p>troca de proteção militar.</p><p>Muitos proprietários de alódios1 entregavam a sua propriedade a um senhor</p><p>de condição mais elevada. Esses nobres, depois de terem prestado homena-</p><p>gem ao novo senhor, recebiam seu antigo patrimônio na qualidade de honro-</p><p>so feudo vassálico (BLOCH, 1987, p. 185).</p><p>Para o historiador Jaime Estevão dos Reis “servidão implica, portanto, que a rela-</p><p>ção de propriedade deve estabelecer-se como uma relação entre senhores e servos, de</p><p>forma que o produtor direto não seja livre”. Trata-se de uma ausência de liberdade “que</p><p>pode variar desde a servidão com trabalho pessoal até a mera obrigação tributária” (MARX,</p><p>1985, p. 251).</p><p>SAIBA MAIS</p><p>A Idade Média foi um período com muitas peculiaridades, desde a forma com os seus</p><p>castelos eram concebidos, os duelos entre membros da nobreza, o papel da mulher</p><p>nessa sociedade na qual tinham direito de escolher com quem e quando casar; a pro-</p><p>fissão que gostaria de seguir. Enfim, ao citar esses exemplos observamos mesmo que</p><p>os costumes e ordens desse período ficaram para trás, mas ainda é comum em alguns</p><p>lugares do oriente essas designações ainda persistirem.</p><p>Fonte: LE GOFF, Jacques. A Civilização do Ocidente Medieval. Lisboa: Editorial Estampa, 1983, 02</p><p>volumes.</p><p>REFLITA</p><p>O monarca, em outras palavras, era um suserano feudal de seus vassalos, aos quais</p><p>estava ligado por laços de feudalidade, e não um soberano supremo colocado acima de</p><p>seus súditos. Seus recursos econômicos provinham (ANDERSON, 1991, p. 147).</p><p>.</p><p>1Alódio refere-se a um direito imobiliário</p><p>22UNIDADE I O que foi a Idade Média ?</p><p>CONSIDERAÇÕES FINAIS</p><p>Após essa explanação, pontuamos nesta unidade alguns conceitos e características</p><p>importantes para compreender o que foi a Idade Média. A primeira de que diferentemente</p><p>do que ela já foi limitada, não trata-se da “idade das trevas”, dos tempos da escuridão.</p><p>Houve sim um período controlado por ações da Igreja que buscavam sedimentar e ampliar</p><p>os seus poderes políticos, no entanto nesses quase mil anos de História, assistimos o</p><p>nascimento e o despertar da arquitetura gótica, das relações comerciais nas cidades, do</p><p>surgimento das primeiras universidades.</p><p>O feudalismo trata-se de uma tema inesgotável de investigações e possibilidades,</p><p>a seguir indicaremos uma série de livros e produções cinematográficas que podem instigar</p><p>novas pesquisas ao campo da história.</p><p>23UNIDADE I O que foi a Idade Média ?</p><p>LEITURA COMPLEMENTAR</p><p>A influência da Idade Média em nossos dias: cultura, representações e festi-</p><p>vidades.</p><p>O período medieval apesar de representar a gestação do mundo moderno, nas</p><p>identidades sociais, políticas, religiosas e também culturais, foi por muito tempo</p><p>negligenciado e erroneamente chamado de Idade das Trevas.</p><p>Disponível em :</p><p>http://www.faculdadedondomenico.edu.br/revista_don/artigos8edicao/11ed8.pdf</p><p>Fonte: VAZ, Angela Omati Aguiar. A influência da Idade Média em nossos dias:</p><p>cultura, representações e festividades. REVISTA DON DOMÊNICO. 8º edição. 2016.</p><p>24UNIDADE I O que foi a Idade Média ?</p><p>MATERIAL COMPLEMENTAR</p><p>LIVRO</p><p>Título: A Idade Média e o Dinheiro – ensaio de antropologia histó-</p><p>rica.</p><p>Autor: Jacques Le Goff</p><p>Editora: Civilização Brasileira, 2014.</p><p>Sinopse: Nesta obra, Le Goff revela uma das grandes particu-</p><p>laridades da Idade Média, a lida com o dinheiro, as moedas, em</p><p>uma sociedade dominada pela religião, o cristianismo ensinou aos</p><p>cristãos a atitude que deveriam adotar ante o dinheiro e quais as</p><p>consequências para essas atitudes.</p><p>FILME/VÍDEO</p><p>Título: Rei Arthur: A lenda da Espada.</p><p>Ano: 2017</p><p>Sinopse: Essa história já recebeu diversas adaptações do cinema,</p><p>porém em “Rei Arthur - A Lenda da Espada”, Arthur vivido pelo</p><p>ator Charlie Hunnam é um jovem das ruas que controla os becos</p><p>de Londinium e desconhece sua predestinação até o momento em</p><p>que entra em contato pela primeira vez com a lendária espada a</p><p>Excalibur. Desafiado pela espada, ele precisa tomar difíceis deci-</p><p>sões, durante a Idade Média.</p><p>WEB</p><p>O Cerco Medieval</p><p>Através dessa reportagem da revista Super Interessante você será transportado</p><p>para o mundo medieval e a forma como os feudos arquitetaram os seus castelos na incum-</p><p>bência de se proteger de ataques dos povos invasores.</p><p>MARTON, Fabio. Cerco Medieval. Super Interessante. 10 abril de 2020. Disponível</p><p>em https://super.abril.com.br/historia/cerco-medieval/. Acesso em 17 de agosto de 2020.</p><p>25</p><p>Plano de Estudo:</p><p>• O Islã e o Império Otomano;</p><p>• O Império Bizantino;</p><p>• A Reconquista ibérica.</p><p>Objetivos da Aprendizagem:</p><p>• Examinar a gênese do Islamismo;</p><p>• Analisar o desenvolvimento do Império Otomano;</p><p>• Compreender a importância do Império Bizantino;</p><p>• Estabelecer e contextualizar o processo de Reconquista Ibérica.</p><p>UNIDADE II</p><p>O Oriente</p><p>Professor Doutor João Paulo Pacheco Rodrigues</p><p>26UNIDADE II O Oriente</p><p>INTRODUÇÃO</p><p>Nessa unidade convido você caro aluno (a) a mergulhar no mundo Medieval, um</p><p>mundo não apenas marcado pelo domínio da igreja Católica mas também com fortes in-</p><p>fluências do Oriente. Seja ele através do islamismo, da ascensão do Império Otomano,</p><p>a conquista de Constantinopla e o grande conflito de quase oito séculos entre Mouros e</p><p>Cristãos que marcaram a reconquista da Península Ibérica.</p><p>27UNIDADE II O Oriente</p><p>1. ISLAMISMO E O IMPÉRIO OTOMANO</p><p>Ao estudar o islamismo existe uma diferença fundamental que muitas pessoas</p><p>confundem entre o que é ser árabe e o que é ser praticante da religião islâmica. Os árabes</p><p>tratam-se de etnia da antiguidade que habitava inicialmente o que podemos chamar de</p><p>Península Arábica no Oriente Médio.</p><p>O Islamismo é atualmente uma religião de mais de 1,4 bilhão de seres humanos,</p><p>“caracterizada por monoteísmo estrito e síntese entre fé e organização sociopolítica” (HOU-</p><p>AISS, 2001, p.1655), aparentada com o monoteísmo judaico, religião também parente do</p><p>cristianismo, a partir do século VII.</p><p>Quais as propostas dessa religião tão importante? Por que nós falamos tanto hoje</p><p>de muçulmanos e de islamismo? O que pensavam os islâmicos no primeiro século da sua</p><p>existência. Quem foi o profeta que recebeu uma revelação de Deus Allah e transformou em</p><p>uma série de preceitos e ensinamentos? Podemos afirmar, que o islamismo, trata-se uma</p><p>das religiões mais importantes e mais fundamentais do mundo contemporâneo, surgida</p><p>durante a Idade Média. Islã é o aportuguesamento da palavra em árabe islam. Essa pala-</p><p>vra, nesse idioma, significa submissão, assim, “o verdadeiro ‘muçulmano’ é aquele que se</p><p>declara perfeitamente ‘submisso’ a Deus” (PIAZZA, 1991, p. 384).</p><p>No século V da Alta Idade Média, na Península Arábica cujo hoje há vários países</p><p>como a Arábia Saudita, naquela região os árabes eram politeístas ou seja acreditavam</p><p>em vários Deuses. Os islâmicos chamam a esse período anterior a revelação do Profeta</p><p>28UNIDADE II O Oriente</p><p>de “era da ignorância”. Quase todos eram comerciantes, nômades ou seminômades, a</p><p>Península Arábica não era politicamente importante, não era religiosamente unificada, e</p><p>os árabes estavam um pouco a parte desse mundo que os cercavam, como o Império</p><p>Bizantino , o Império Persa e outras unidades contemporâneas deste século VII. Ou seja,</p><p>não havia ainda nesse período uma unidade religiosa e política no território.</p><p>Em 570, em um ramo pobre de uma família de Meca, teria nascido aquele que</p><p>mudaria toda essa história, Maomé Mohamed, profeta que de acordo com o Alcorão, te-</p><p>ria receberia no futuro a revelação de Deus, para transformar toda a Península Arábica,</p><p>para unificar a religião, para ensinar um novo conceito, o verdadeiro conceito de Deus, um</p><p>entidade única, que deveria ser espalhado, ser empregado e expandido para todas as</p><p>pessoas.</p><p>O futuro profeta trabalhava como líder de caravanas, um mercador que realizava</p><p>viagens. Durante todo o seu exercício de comércio à longa distância, ele estudava a religião</p><p>dos judeus o monoteísmo, posteriormente, conhecendo o cristianismo, foi conhecendo</p><p>monoteísmos que tornavam a judeus e a cristãos tão diferentes dos árabes politeístas.</p><p>Refletia muito sobre isso , na sua inteligência privilegiada e na sua ética que era conhecida</p><p>no local.</p><p>Aos 21 anos, passou a trabalhar para uma viúva rica chamada Khadija e aos 25</p><p>anos se casou com ela, com quem teve vários ilhos, dos quais somente Fátima</p><p>sobreviveu (MATOS, 2009, p. 455). Aos 40 anos, retirado em uma caverna no Monte-</p><p>Hira, isolado e re letindo sobre os conhecimentos e preceitos religiosos, teria recebido a</p><p>visita do arcanjo, Gabriel, o mesmo que na tradição cristã teria anunciando a vinda de</p><p>Jesus na terra para Maria.</p><p>Então o Arcanjo dá a ele a obrigação de recitar e de aprender decorar as revelações</p><p>sobre Deus que seriam agora a posse de uma nova verdade. Esse acontecimento ficou</p><p>conhecido como Noite do Destino e deu início às revelações de Allah para Muhammad.</p><p>Essas palavras serviram como base estrutural pra as características do islamismo.</p><p>De acordo com Piazza (1991, p. 384),</p><p>o islamismo apresenta-se como uma religião</p><p>• “sem dogmas, a não ser o seu absoluto monoteísmo, que faz de Alá um</p><p>deus inteiramente transcendente e solitário...”;</p><p>• “sem sacramentos, pois o islamismo não reconhece a separação entre Sa-</p><p>grado e Profano...”;</p><p>• “sem sacerdotes, pois não admite intermediários entre Deus e os homens...”;</p><p>• “sem liturgia, sem sacrifícios, sem imagens...”;</p><p>• “sem estrutura eclesial (estrutura hierárquica); no entanto, tem os seus teó-</p><p>logos (ulema: conhecer), os seus pregadores (khatib), os seus mestres de</p><p>oração (irmã), os seus pregoeiros de oração () (PIAZZA, 1991, p. 384).</p><p>29UNIDADE II O Oriente</p><p>Retornando a casa, ele teria confessado a seu círculo íntimo o que teria</p><p>ocorrido, temendo estar louco, o aconselharam a ter paciência e a receber com</p><p>tranquilidade essa revelação. A partir desse momento o profeta teria sido iluminado,</p><p>recebendo diretamente do Arcanjo Gabriel, os ideais divinos, o principal era de que só</p><p>existe um Deus, Alá, aquele que distribuiu misericórdia, aquele que é clemente e</p><p>misericordioso. Esse Deus não admitiria nenhuma imagem, não permitiria que fosse feita</p><p>nenhuma representação dele , esse código de conduta, buscava reforçar a submissão do</p><p>homem a Deus, por isso ser devoto do Islã é ser aquele que se submete apenas a Deus,</p><p>diferente do cristianismo.</p><p>Nessa região não era comum a figura de um rei oponente, não havia uma</p><p>tradição monárquica majestosa como o Império Bizantino ou Persa, portanto, os</p><p>islâmicos não tinham o costume de se ajoelharem, a partir das revelações a Maomé,</p><p>foram instruídos a colocar seu rosto no chão cinco vezes ao dia, voltados</p><p>inicialmente para Jerusalém e depois em um segundo momento voltados para a cidade</p><p>de Meca, onde o profeta vai continuar sua pregação.</p><p>Para Regina Teresa e Silva (201), em suas peregrinações não havia a presença</p><p>de imagens e isso foi desagradando alguns comerciantes da região que viviam comércio,</p><p>prin-cipalmente dos mercadores de Meca, onde havia uma grande pedra composta por</p><p>diversas representações de Deuses, inclusive uma representação de Nossa Senhora.</p><p>Essa escultura era muito conhecida na região e para lá a luíam caravanas religio-</p><p>sas. No entanto para Maomé, essa veneração tratava-se de um pecado mortal, sendo</p><p>uma de suas missões extinguir a idolatria e a veneração desses retratos feitos pelos</p><p>homens.</p><p>Outro mandamento advindo do Alcorão seria a abstenção de álcool, além de</p><p>guar-dar o jejum em um mês especial chamado Ramadã. O islâmico deveria orar cinco</p><p>vezes como já mencionado anteriormente à Jerusalém, posteriormente a Meca. E</p><p>também doar uma parte daquilo que ganhasse como uma esmola obrigatória, pois a</p><p>pobreza deveria ser amparada e se puder, uma vez na vida, o islâmico deveria</p><p>peregrinar a Meca.</p><p>Essas seriam as obrigações básicas de um islâmico e Maomé começou a</p><p>difundir essas ideias primeiramente na sua família na cidade de Meca, o movimento</p><p>passou a ga-nhar força e naturalmente foi recebendo oposição de grandes</p><p>comerciantes que temiam essa nova ideia, um ideário de monoteísmo, que afastava as</p><p>imagens, consequentemente enfraquecia o comércio dessas. As peregrinações de</p><p>Maomé, também criticavam os altos lucros que Meca obtinha devido aos iéis que por ali</p><p>chegavam e isso começou a incomodar ainda mais as autoridades locais.</p><p>30UNIDADE II O Oriente</p><p>De acordo com Jacques Jomier (2002) em 622 a perseguição a Maomé e aos seus</p><p>seguidores fizeram com que esses, peregrinassem para a cidade de Medina, localizada</p><p>no oeste da Arábia Saudita., denominada de Hégira, evento que inaugurou o calendário</p><p>islâmico, essa jornada, posteriormente ficou conhecida como “Grande Fuga” e teria sido</p><p>acompanhada por cerca de duzentos islâmicos. Nesse espaço foi construída a primeira</p><p>mesquita, o primeiro local de adoração de Allah, o primeiro local de pregação dessas ideias</p><p>que passaram a fazer mais sucesso.</p><p>A influência do profeta também o transformou em um grande líder militar, uma das</p><p>conquistas mais marcantes realizadas por seus seguidores foi a “Batalha de Badr”, em 624</p><p>d.C na região ocidental da Arábia, contra os seus opositores, conhecidos como coraixitas.</p><p>Em 630 a cidade de Meca é conquistada pelos mulçumanos, Maomé e seus dez</p><p>mil seguidores, decidem por purificar o local, retirando todas as imagens, cobrindo-a com</p><p>pano verde, que mais tarde seria um símbolo do Islã. Dois anos após a conquista de Meca,</p><p>o grande líder do islamismo acaba falecendo, porém seus seguidores deram continuidade</p><p>aos seus ideias, formando posteriormente um dos maiores impérios da Idade Média, o</p><p>Império Otomano, é também após a sua morte que o Alcorão começa ser escrito, através</p><p>de fragmentos deixados por ele.</p><p>1.1. O Império Otomano</p><p>Em linhas gerais, podemos afirmar que o Império Otomano, ou Império Turco-O-</p><p>tomano, foi um dos mais longos da história da humanidade, “incluía a maior parte dos</p><p>territórios do Império Romano Oriental e controlava faixas do Norte dos Bálcãs e da costa</p><p>norte do mar Negro, regiões que Bizâncio jamais dominara”(QUATAERT, 2008, p.13). Ofi-</p><p>cialmente o período em atividade vai de 1299, data da sua criação pelo Osman de Segut</p><p>(1280-1326), também conhecido como Osman I até 1923, após a I Guerra Mundial, na qual</p><p>os otomanos foram obrigados a assinar o Armistício de Mudros, tratado que concedia aos</p><p>vencedores da Guerra, direitos políticos e econômicos locais.</p><p>Segundo Donald Quataert (2008), originário da tribo nômade de Oriundos da tribo</p><p>de Ghuzz, hoje localizado no Cazaquistão, os otomanos, termo em que os adeptos desse</p><p>império foram chamados, efetuaram um massivo processo de expansão territorial não so-</p><p>mente na Europa, mas também em outros continente como a África e parte da Ásia, como</p><p>podemos observar no mapa abaixo:</p><p>31UNIDADE II O Oriente</p><p>Figura 1: O Império Otomano 1300-1512.</p><p>Fonte: QUATAERT, 2008</p><p>Osman de Segut, uma das principais figuras desse império, pertencia a um grupo</p><p>de nômades convertidos pelo Islã, ou seja, podemos afirmar que a undação desse reino oi</p><p>fruto da expansão árabe, que discutimos no primeiro tópico dessa unidade.</p><p>Aproveitando da desfragmentação territorial presente na Idade Média, a queda da</p><p>dinastia Seljúcida e a divisão da Anatólia em distintos territórios, no século 13. Ottoman I</p><p>foi paulatinamente conquistando estados importantes no Ocidente e Oriente. Os primeiros</p><p>na região da Ásia Menor, até o seu apogeu com a conquista de a queda de Constantinopla</p><p>em 1453, baliza temporal que muitos historiadores apontam como o final da Idade Média.</p><p>Após sua morte em 1326, o exército otomano passou a ser liderado pelo seu filho</p><p>Orkhan, dando início a uma nova era de conquistas, dessa vez englobando as regiões</p><p>Nicéia (parte da Grécia e Turquia), a Bursa, também conhecida como Prusa e em “1354</p><p>a ocupação otomana de uma cidade (Type) situada no lado europeu dos Dardanelos,</p><p>uma das três vias marítimas que dividem a Europa e a Ásia” (QUATAERT, 2008, p. 28).</p><p>Além de líder militar, Orkhan também possuía habilidades administrativas que o</p><p>alçaram à figura de grande Imperador.</p><p>32UNIDADE II O Oriente</p><p>O êxito obtido pelos Otomanos na formação de um Estado deveu-se sem dú-</p><p>vida à sua excepcional flexibilidade, à rapidez e a uma pragmática capacida-</p><p>de de adaptação a condições variáveis. Na dinastia fundada, de ascendência</p><p>turca, a descendência fazia-se pela linha masculina; ela nasceu numa zona</p><p>profundamente heterogênea habitada por cristãos e muçulmanos e por povos</p><p>que falavam grego e turco. (QUATAERT, 2008, p. 27).</p><p>Pautados pelo Alcorão, os Otamanos foram responsáveis pela criação de um exér-</p><p>cito conhecido como “janízaros”, esses eram frutos das conquistas feitas pelo grupo de</p><p>Orkhan, que passava a doutriná-los e educá-los conforme os mandamentos ditados por</p><p>Maomé. Muitos desses, eram compostos por crianças e jovens, que ao serem capturados,</p><p>tornavam-se propriedades do Império Otomano.</p><p>Os líderes do Império Otomano, foram em sua maioria sultões, quando esses che-</p><p>gavam ao poder, era necessário que afirmassem a sua liderança, era preciso demonstrar a</p><p>sua aptidão</p><p>e designo de estar no comando e uma dessas formas, era através da conquista</p><p>de territórios, de povos e da conversão desses em islâmicos.</p><p>Nesse âmbito, o principal feito dos Otomanos foi a conquista de Constantinopla,</p><p>em 29 de maio de 1453, até então centro do Império Bizantino. Assim, quando Mehmed, o</p><p>Conquistador, ou Maomé II, chegou ao poder em 1541, detinha de um forte alicerce militar</p><p>e ideológico em se espelhar. “Passados apenas dois anos, em 1453, concretizou o maior</p><p>sonho otomano e muçulmano de sempre: a conquista da milenar Constantinopla, a cidade</p><p>dos césares” (QUATAERT, 2008, p. 27).</p><p>O domínio sobre Constantinopla foi veloz e intenso. Em um rápido período de tem-</p><p>po, Mehmed, o Conquistador tratou de transformar a igreja de Santa Sofia em Mesquita.</p><p>Posteriormente, o imperador dos otomanos adotou uma série de medidas como</p><p>forma de expandir ainda mais a influência social, religiosa e cultural.</p><p>Mehmed encarregou-se de imediato de devolver à cidade as antigas glórias;</p><p>em 1478, o número de habitantes duplicou, passando dos 30.000 que po-</p><p>voavam as aldeias dispersas cercadas por sólidas fortificações para 70.000.</p><p>Um século mais tarde, esta grande capital vangloriar-se dos seus 400.000</p><p>habitantes. As conquistas deste sultão prosseguiram; entre 1459 e 1461 os</p><p>derradeiros fragmentos bizantinos na Moreia (Grécia Meridional) e em Tre-</p><p>bizonda, no Mar Negro, ficaram sob dominação otomana; Mehmed também</p><p>anexou o Sul da Crimeia e estabeleceu laços duradouros com os khans da</p><p>Crimeia, sucessores dos Mongóis que outrora se haviam apossado da região</p><p>(QUATAERT, 2008, p. 27).</p><p>33UNIDADE II O Oriente</p><p>2. IMPÉRIO BIZANTINO</p><p>Na primeira unidade do nosso livro, destacamos o marco temporal para o início</p><p>da Idade Média, muitos historiadores definem como o fim do Império Romano, o começo</p><p>do período medieval. No ano 476, quando esse império tem sua ruína, uma nova ordem</p><p>ganhou destaque, dividido em duas partes, o lado oriental do Império Romano se tornou</p><p>uma das supremacias do mundo.</p><p>Mas por que o Império Romano do Oriente sobreviveu e o do Ocidente não? A</p><p>resposta para essa pergunta deve-se a forma como essa sociedade estava organizada</p><p>politicamente, socialmente e principalmente economicamente, uma vez que as despesas e</p><p>necessidades desse grupo eram diferentes.</p><p>O Império Romano do ocidente recebeu o nome de Império Bizantino durante a</p><p>Idade Média, pelo fato de sua capital ser a cidade de Bizâncio, que posteriormente teve</p><p>o nome alterado para Constantinopla, aquela mesma que falamos no primeiro capítulo e</p><p>que também foi tema dessa unidade ao retratar o Império Otomano. A mudança de nome</p><p>deveu-se também a uma forma de homenagear seu patrono, Constantino.</p><p>A região foi fundada pelo Imperador romano Constantino, ainda no ano de 330</p><p>depois de Cristo, “Constantino tratou também de acautelar a segurança da nova cidade, ao</p><p>edificar uma primeira muralha que cobria uma área de cerca de 750 hectares” (MONTEIRO,</p><p>1987, p.17). No ano de 395, depois de Cristo, o Imperador Romano Teodósio dividiu o</p><p>34UNIDADE II O Oriente</p><p>império entre ocidente e oriente, como forma de aliviar as tensões políticas locais e salva-</p><p>guarda dos territórios da região.</p><p>E por que estudar o Império Bizantino é tão importante? Por quase mil anos, esse</p><p>governo foi o eixo de ligação entre a Europa e Ásia, através do Estreito de Bósforo. Exem-</p><p>plificando, você já ouviu falar que na Turquia, existe a parte asiática e a parte europeia?</p><p>Ela é considerada geograficamente um país transcontinental.</p><p>Localizada no Estreito de Bósforo, trata-se de um ponto estratégico, um ponto de</p><p>passagem entre Europa e Ásia, na qual nos próximos séculos foram palcos de sociedades</p><p>diferentes, principalmente no âmbito religioso, com o apogeu do Cristianismo e posterior-</p><p>mente do Islamismo.</p><p>Construída numa encruzilhada de importantes rotas marítimas e terrestres</p><p>(via marítima entre o mar Negro e o mar Mediterrâneo, vias terrestres da</p><p>Europa Continental ao Índico e do vale do Danúbio ao do Eufrates), estava</p><p>fadada a tornar-se simultaneamente um centro político e econômico de pri-</p><p>meira grandeza. Em virtude de sua situação geográfica, Constantinopla seria</p><p>ao mesmo tempo potência marítima e continental. (GIORDANI, 1968, p. 38).</p><p>Em relação a parte ocidental, a localização privilegiada da parte oriental ajudou</p><p>no combate contra as invasões de outros povos durante a Idade Média, no mapa abaixo</p><p>podemos observar a extensão territorial do Império Bizantino durante o seu apogeu, no</p><p>século XI.</p><p>Figura 2: extensão do Império Bizantino no ano 1025.</p><p>Fonte: Ilustração: Cplakidas / Wikimedia Commons / CC-BY 3.0</p><p>A sua etnia era composta por povos gregos, egípcios e por moradores do leste</p><p>europeu. Por conta disso, o idioma desse império foi o grego. Os países dessa região foram</p><p>35UNIDADE II O Oriente</p><p>fortemente influenciados pela cultura grega., uma vez que o idioma russo é uma</p><p>variação da língua falada nesse império.</p><p>E como funcionava a política durante o Império Bizantino? Ela era</p><p>centralizada nas mãos do Imperador, que governava através do Cesaropapismo. Ou</p><p>seja, ele detinha influência política e também religiosa.</p><p>O imperador recebia o título de basileu,</p><p>Ao contato do Oriente, ele se tornou o auto crator, e, a partir do início do sécu-</p><p>lo VII, o basileus, isto é, o imperador por excelência, o senhor que dispõe de</p><p>autoridade absoluta. Enfim, o cristianismo fez dele o eleito de Deus, o ungido</p><p>do Senhor, o representante de Deus sobre a terra, seu lugar-tenente à frente</p><p>dos exércitos, e, como se diziam em Bizâncio, o príncipe igual aos apóstolos.</p><p>(DIEHL, 1961, p. 82)</p><p>Os historiadores apontam que o mais influente desse governo foi Justiniano, que</p><p>governou entre os anos de 527 a 565. Ele foi responsável por criar um código de leis,</p><p>chamado “código Justiniano”, que até os dias de hoje influencia o direito atual. Trata-se de</p><p>um código de leis, inspirado no código Romano, aquele que definia o que era público e o</p><p>que era privado, além da lei das doze tábuas, O trabalho foi dirigido por Triboniano, um fun-</p><p>cionário da corte de Justiniano. Sobre o processo de criação do código, Lyvia Vasconcelos</p><p>Baptista (2019) destaca:</p><p>Logo nos primeiros anos de governo, Justiniano, que havia assumido o trono</p><p>depois da morte do seu tio, Justino, em 527, iniciou a elaboração do material</p><p>jurídico, ressaltando a importância da composição frente à situação caóti-</p><p>ca em que se encontravam as leis, jurisconsultos e constituições imperiais</p><p>emitidas até aquele momento. Intenta-se, desta forma, produzir uma obra</p><p>compreensiva e sistematizada, baseada na herança legal do período clás-</p><p>sico, que, certamente, conseguiu se transformar numa autorizada fonte de</p><p>informação do Direito Romano (BAPTISTA, 2019, p. 90).</p><p>O código Justiniano foi dividido em quatro partes essenciais, a primeira denomi-</p><p>nada de Codex, que determinava o que pertencia ao estado, leis imperiais, que visavam</p><p>substituir o Código Teodosiano, até então em vigor. A segunda parte, chamada de Digesto,</p><p>seria as ramificações desta lei. Como por exemplo, hoje temos leis para a saúde, para a</p><p>educação, para a cultura. Então o “digesto” seria a fragmentação desta lei, composta por</p><p>mais de 1500 livros escritos por jurisconsultos da época clássica.</p><p>A terceira parte, conhecemos como Institutas no qual professores de direito dentro</p><p>do Império Bizantino vão reescrever as leis de forma didática para população ter acesso.</p><p>E por fim e não menos importante, temos as Novelas que seriam a possibilidade de se criar</p><p>novas leis de acordo com a necessidade política, econômica e social do império.</p><p>No entanto, quanto mais centralizado é o poder, maior a chance de insatisfação da</p><p>população, uma vez que não existia uma democracia neste império, o poder emanava ape-</p><p>36UNIDADE II O Oriente</p><p>nas das mãos do imperador. No ano de 532 vai ocorrer uma grande manifestação contrária</p><p>ao governo, a “Revolta de Nika”. Se no Império Romano,</p>